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Sabores à mesa da Palavra - anos A

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Reflexões sobre a Palavra que alimenta a nossa vida. Em “Sabores à mesa da Palavra” o autor, sacerdote, partilha os paladares que denota nos textos da liturgia. Com uma perspectiva sobretudo pastoral, o comentário às leituras abre o apetite aos fiéis, convidando-os a deleitarem-se com os “pratos” que a Palavra de Deus oferece. De leitura semanal, este livro alarga a mesa para que mais e muitos acedam à riqueza das iguarias que a Bíblia regala. Da mesma colecção: Sabores à mesa da Palavra - Ano B Sabores à mesa da Palavra - Ano C

Sobre o autor:

José da Silva Lima é sacerdote na Diocese de Viana do Castelo. Natural de Vila de Punhe (1954), estudou, a partir de 1965, nos Seminários de Braga. Em 1978 foi ordenado sacerdote em Viana do Castelo onde apoia o seu presbitério. Dedica-se à investigação na área da Teologia Prática, em especial à Religiosidade Popular. Publicou vários estudos no domínio da sua investigação, sobretudo nas Revistas da Universidade Católica Portuguesa.

Rua Dr. Alves da Veiga, 124 Apartado 5281 | 4022-001 Porto Tel.: 22 53 657 50 Fax: 22 53 658 00 edisal@edicoes.salesianos.pt www.edisal.salesianos.pt

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Ficha Técnica © 2016 José da Silva Lima © 2016 Edições Salesianas Rua Dr. Alves da Veiga, 124 Apartado 5281 4022-001 Porto Tel: 225 365 750 Fax: 225 365 800 www.edisal.salesianos.pt edisal@edicoes.salesianos.pt Autor: José da Silva Lima Autor: Sacerdote Autor: Docente da Universidade Católica Portuguesa - Braga Publicado em Outubro de 2016 Capa: Paulo Santos Paginação: João Cerqueira Impressão e acabamentos: PrintHaus ISBN: 978-989-8850-11-9 D.L.: 415750/16

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José da Silva Lima

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PREFÁCIO Uma das afirmações mais significativas do II Concílio do Vaticano na Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação, Dei Verbum, é a de que “nos Livros Sagrados, o Pai que está nos Céus vem carinhosamente ao encontro dos seus filhos para conversar com eles” (n. 21). Isto é, sempre que, individual ou coletivamente, lemos ou escutamos os textos bíblicos, nesse preciso momento o próprio Deus desce até nós, para conversar connosco, se nos revelar. Daí que no mesmo número da Dei Verbum se fale, em relação às duas partes da liturgia eucarística, da dupla mesa: “da Palavra de Deus” e “do Corpo de Cristo”. E daí também que o Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Verbum Domini, interprete a chamada «sacramentalidade» da Palavra de Deus no mesmo contexto eucarístico e partindo do “mistério da encarnação: o Verbo fez-se carne (Jo 1, 14), a realidade do mistério revelado oferece-se a nós na «carne» do Filho. A Palavra de Deus torna-se percetível à fé através do «sinal» da palavra e dos gestos humanos (…)”, em “analogia com a presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagrados” (n. 56). Na base deste permanente dinamismo dos textos bíblicos está a sua inspiração. “As Sagradas Escrituras contêm a Palavra de Deus e, por serem inspiradas, são verdadeiramente Palavra de Deus” – diz ainda a Dei Verbum (n. 24). Uma inspiração que incide nos três elementos da comunicação interpessoal estabelecida pela palavra oral ou escrita: no autor, no tema e nos destinatários. Isto é, o mesmo Espírito divino que interveio na redação do texto, que por isso é inspirado ou sagrado, intervém no momento em que ele chega aos leitores ou ouvintes.

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E na medida em que a situação dos destinatários diverge, conforme o tempo e o lugar em que vivem, varia também a interpretação do mesmo texto. Isto já dentro da Sagrada Escritura: entre livros bíblicos de conteúdo genérico idêntico, como são os quatro Evangelhos; e até no interior do mesmo livro, como é o caso dos dois relatos da multiplicação dos pães em Mt 14, 13-21 e 15, 32-38 (cf. Mc 6, 34-44; 8, 1-9). As diferenças ­explicam-se sobretudo pelo diferente Sitz-im-Leben (situação vital) dos destinatários dos livros e dos textos, na sua transmissão ou tradição viva e vivificante. Esta foi possivelmente uma das razões que levou o Padre José da Silva Lima a juntar aos dois volumes do livro “Sabores à Mesa da Palavra” um terceiro. Fá-lo, sem dúvida e primariamente, para completar o ciclo trianual das leituras bíblicas nas Eucaristias dominicais ou festivas. Mas não só. Há textos bíblicos que não mudam, como os do Natal ou da Páscoa, e as reflexões são novas. É que a vida não pára. Nem a do autor nem a dos leitores. E há que alimentá-la, de acordo com as suas necessidades e aproveitando a multiplicidade de sabores que a Palavra de Deus proporciona e a que se adapta. É um dos casos a que se podem aplicar as palavras de Jesus: Todo o escriba instruído no Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas (M 13, 52). O tesouro é o da Escritura, de uma riqueza e uma vida inesgotáveis. E o escriba… Continue a despertar-nos e a satisfazer-nos o apetite, Padre José! Anacleto Oliveira, Bispo de Viana do Castelo

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A PALAVRA PARA SABOREAR A história é singela e poderá passar-se em muitos dos encontros habituais. Estar com os outros não é somente ver as suas cores e feitios ou aproximar-se do seu busto. Nem sequer se cinge a ouvir o que cada um tem para dizer. Parece tratar-se de ir muito mais além e de algo muito parecido com escutar, deixando que os sons dos vocábulos adquiram sentido no interior e, dando tempo à palavra, escutar bem atentamente o que os gestos que acompanham as palavras possam transmitir. Escutar sugere mais do que simplesmente ouvir. As reflexões que ficam ecoam fundo no envolvimento de cada um e deixam marca indelével na sua textura. Esta narrativa que nos contaram serve para uma didática sempre presente em cada encontro ou em cada reflexão que se detém e ganha vigor em nós. A história fala de uma menina entretida a jogar com duas maçãs que numa bela tarde foi surpreendida por sua mamã. Deixou as maçãs no chão e correu apressada para os braços da mãe que a encheu de beijos. O encontro foi ainda mais longe quando a mãe lhe murmura que lhe desse uma das maçãs do seu entretimento para comer. A menina limpou as maçãs, olhou-as de novo e muito depressa deu uma trincadela na primeira e depois na outra sob o olhar muito discreto da mamã que visivelmente fica desapontada e triste, mas não o quer mostrar. A menina limpa de novo a segunda maçã e perante a admiração e espanto da mãe lhe diz: “toma esta mamã, porque é a mais doce”. O seu gesto foi de afeição por sua mãe, provando as maçãs, antes de entregar a que lhe pareceu a mais doce. O gesto lido apressadamente podia prestar-se a um equívoco, logo desfeito. 7

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O que se passa em momentos e encontros apressados, quando nem sequer concedemos tempo para que tudo seja dito e atrapalhamos com as frases feitas ou de cortesia atrevida e centrípeta. Quantos encontros nada deixam, porque foram cortados por frases de circunstância que provocaram curto-circuito entre as pessoas. Deixar falar até ao fim é um bom lema para tudo, sendo que revela atenção, amabilidade e simpatia. Isto vai mais longe nos encontros planeados que não queiram redundar em esterilidade e infortúnio. Ser capaz de emitir uma opinião tem de ser precedido de um tempo de escuta interior e de discernimento benéfico daquilo que se encontra em debate ou solicita esclarecimento. O gesto sai do interior de quem se depara com outrem e pressupõe escuta e amadurecimento sábio para ser corretamente deslindado. A pressa é sempre inimiga da ponderação. Esperar mais um pouco de tempo é mais honesto e até mais sábio. Não se trata apenas de um exercício eficaz para qualquer julgamento, mas de uma elementar norma de cortesia. Acontece o mesmo com a escuta da Palavra que saboreamos. Muitas vezes nem se lê porque se sabe de cor. Há mais de meio século que o tesouro foi colocado na mesa dos convivas, mas estes, cientes da sua memória ricamente empoeirada nem sequer lhe deram tempo para ser escutada, mas apressadamente debitava-se como se se soubesse francamente e animosamente de cor. Ser rápido era sinónimo de muito saber e até alegre esperteza. O tesouro vai ficando na mesa que dá mostras de ausência de comensais que apressados nem necessitam muito de comer com calma e com mestria. A pressa atinge a mesa e empoeira lugares e iguarias disponíveis. A mesa está sempre posta e disponível, mas os convivas vivem entretidos com negócios diversos que podem distrair. A Palavra requer tempo 8

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para ser lida e escutada, à maneira de quem descobriu que é o manjar suculento e aquele que sacia de muitas fomes. Exige a calma dos ouvintes e o coração de quem quer ser saciado. Mastiga-se com o coração e dá sabor quando o paladar está isento de arrepios de picantes exóticos, de outros ingredientes que entalam o estômago dos esfomeados. A Palavra exige um ouvinte leve de tudo, despido do que pesa e que anseia por abrir o pensamento. Não se instala nas palavras do instante que entorpecem e iludem, mas quer voar no agora que é hospedaria da aurora. Quer o mais além do fugitivo e faz sinais aos companheiros da empreitada para se lançarem na aventura de mais sentido, sem prisões fictícias que albergam meias mentiras. A Palavra que está livre de escravaturas e liberta os oprimidos que desejam o novo Sol de um agora que sorria. A Palavra que empreste asas à alma, rumo a outros céus e outra terra que descem para o acampamento dos humanos, que jogam às escondidas. A Palavra que liberta e suscita a dança das asas de quem anseia por voar e precisa de atmosfera nova para cruzar os pontos cardiais que se extinguem: A Palavra que faz dançar o baile dos neófitos sob a música inédita e benéfica do silêncio. Uma Palavra outra que dá sabor a quem a ouve ou lê. Uma Palavra diferente de todas as que se ouvem sem querer e que talvez empreste um pouco de sentido a todas as peripécias pessoais da nossa curta história. Uma Palavra que não se impõe, mas que ecoa de mansinho no interior de cada um: É a Palavra que dá sabor ou que tem sabor, sem pedir o paladar a ninguém. Empresta gosto (sabor) novo aos acontecimentos singulares de cada um. Gosto que pode transformar-se em sentido nas práticas diárias e que pode ser luz quando a noite dá a entender que se estende e a manhã parece demorar. 9

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Esta Palavra não deixa indiferente, mesmo quando é distraidamente escutada: tem um perfume que a todos inebria ou apenas deixa sementes para depois. Nunca se esgota na oferta que a faz ser transcendente e arrebata quem se encontro ávido de a encontrar. Oferece-se para o amadurecimento de cada história no encalço da felicidade. A ARTE DE MATEUS Foi escutada há muito e andou por tempos apenas na memória oral das gentes, depois codificou-se num texto que hoje se diz da Mateus1. Sabe-se que viu a pena ali por meados dos anos 80, antes do findar do primeiro século, depois de muito andar nos contos da tradição de um povo que enxergou a luz, depois de muitos séculos de história. O nervo central do que comentamos hoje é comummente apelidado de Evangelho por ter constituído uma boa nova para todos os que nela embrulhavam a vida. O texto prestou-se a um amplo sentido no decurso das gerações dos que se reclamavam de Jesus de Nazaré: tornou sensata a vida de multidões. Cresceu desde o ano 30 da nossa era e desenvolveu-se dando vida a comunidades de adeptos que davam a vida por este Jesus. Já possuia Mateus a narrativa de Marcos, mas tornou-a sua e­ mprestando-lhe materiais e fazendo crescer uma comunidade judia que se reclamava de Cristo. Mateus tem uma versão muito enraizada no seu povo e em todas as diretivas que o assinalavam como singular entre os povos de então. O seu povo provinha de uma tradição muito antiga que convinha não esquecer aperfeiçoando. Foi deste modo que compôs o seu texto talvez tendo na lembrança discursos que ainda circulavam na boca dos agora pertencentes 1

A tradição eclesiástica identifica-o com Mateus, um dos apóstolos (Mt 9, 9-10). Marcos e Lucas chamam-no “Levi, filho de Alfeu” (Mc 2, 13-17; Lc 5, 27-32). Por certo que se trata de um letrado judeu.

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ao grupo que não era bem-querido das leis romanas. Neste sentido, ritma o seu texto com cinco discursos que o ajudam a compreender para quem lê em profundidade no tempo atual: o inaugural (5-7), o missionário (10), o das parábolas (13), o eclesial (18) e o ­escatológico (24-25)2. Os milagres de Jesus e a cronologia dos acontecimentos são apresentados nesta trama coloquial. Cerca de metade do evangelho que nos apresenta contém materiais próprios. Parece que já circularia o conjunto de discursos de Cristo, que Mateus trata com esmero e lhe concede a ênfase que lhe apraz. Acresce a isto que Mateus coloca por escrito em função da comunidade judia a quem serve, o que lhe dá o gosto de recordar o que sabiam ou lhes era ensinado, aperfeiçoado pelo seu Mestre, o messias a quem confessa (Mt 16). Os materiais próprios enraízam-se nesta forma de olhar para a corrente que lhe está na origem. Não desmitifica nem maltrata o que a comunidade vai sabendo, mas dá-lhe um outro sabor com o acontecimento de Cristo. Completa e aperfeiçoa para levar mais longe, o que o torna um evangelho aberto a outras culturas e respeitador do que os outros pensam. Serenamente vai mais longe. Talvez tenha algo a dizer para o atual diálogo entre religiões, embora nunca hesite em propor a linha de Jesus como enviado que está sempre com os seu até ao último dia: Jesus é apresentado no sonho de José como Emanuel no início da narrativa (Mt 1, 23) e no fim dela no monte da Galileia onde aparece pela última vez a seus discípulos e Se diz Emanuel, Deus connosco (Mt 28, 20). Compondo as parábolas conjuntamente no célebre capítulo 13, é singular na forma como apresenta a presença de Cristo 2 Veja-se a este respeito o escrito em Alonso SCHOKEL – Nueva Biblia Española, Madrid, edições Cristiandad, 1975, 1493.

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na comunidade, formada sempre que dois ou mais se reúnem em nome de Jesus (Mt 18, 19-20). O texto acaba por ser um dos mais comuns de toda a igreja sempre que se reclama de Cristo. O mesmo acontece com o que se considera a pérola deste evangelho, a bendição do capítulo 11, 25: “Eu te bendigo, ó Pai”. É singular ainda quando explicita o laço indestrutível entre a caridade operativa e o juízo final no capítulo 25, 31 e seguintes. O Cristianismo fará desta uma passagem emblemática para todo o agir cristão. Além de toda a história santa que Mateus vai servir nos séculos da Igreja - será o Evangelho mais usado em todos os séculos - tem no horizonte as lições bem retidas dos eventos oníricos de então, o que o faz manusear com brilho os conhecimentos da onirologia desde o início do seu longo texto nos sonhos de José (Mt 1-2). Também neste ponto é singular nos sinóticos. SUGESTÃO DE LEITURA Proponho-te, caro leitor, saborear este texto como foi escrito. Toma o tempo para o ler com calma e com serenidade. Sabe que alguém fez o mesmo para te apoiar. Segue com muito cuidado para contigo mesmo. Sabe que fazes este caminho pessoalmente, com muitos que te acompanham. Outros o fizeram e o fazem contigo. As reflexões que aqui são apresentadas são fruto duma longa caminhada que não foi apressada. O tempo é oferecido para ser disfrutado. Dispõe-te a ouvir o texto ou a p ­ ercorrê-lo como quem gosta de ouvir as palavras e as mede como número das sílabas que se pronunciam. Vais a caminho e este texto 12

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é apenas uma espécie de cajado que te apoia no caminho. Detém-te para refletir e não hesites em fazer algumas pausas de leitura: as pausas são benéficas no teu ritmo. Quando não precisares de mais apoio, coloca o texto de lado e deixa para amanhã o resto. Identifica-te contigo mesmo. Só tu sabes como te sentes bem. Este livro foi escrito para seres feliz. Neste volume encontrarás também um índice temático que podes usar para os momentos mais adequados da tua vida. Trata-se de um instrumento referente aos três volumes que seguem os três anos da liturgia. Escolherás o que mais for conveniente para o momento que atravessas ou para o que desejas preparar: encontrarás alguma reflexão que dará sabor próprio à circunstância da vida que vives. O que agora publico – Sabores à Mesa da Palavra, ano A – é para que muitos possam dar sentido ao que experimentam quotidianamente: gostaria que fosse mais uma estrela no teu caminhar.

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I Domingo do Advento Textos litúrgicos: Is 2, 1-5|Salmo 121|Rom 13, 11-14| Mt 24, 37-44 Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. Assim será também na vinda do Filho do homem. Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado; de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem. Um farol Entramos num ano litúrgico diferente. Iniciamos o tempo do Advento. Desta vez, o nosso farol é o evangelho de S. Mateus (Ano A), o primeiro escrito que se encontra no Novo Testamento das Bíblias Sagradas. Sabe-se hoje que não é o primeiro evangelho cronologicamente3, mas é o evangelho mais eclesial devido à sua estrutura, recursos literários e conteúdo que ao longo do ano descobriremos.

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Cf Gian-Franco RAVASI, Il Vangelo di Matteo, Bolonha, EDB, 1989, 14: “Os estudiosos estão agora quase certos que Mateus usou o evangelho de Marcos. Ele o conhecia já”. Assim Mateus não é o primeiro, mas o segundo.

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Foi escrito por um bom cristão “conhecedor das Escrituras”, pois conhece o primeiro testamento (A.T.) e dá-o abundantemente a conhecer: cita-o mais de cem vezes e destas quarenta e três são explícitas4. Não se cansa de apresentar Jesus como aquele que cumpre e leva à plenitude a Lei antiga. É dito de Mateus, embora o seu autor seja provavelmente um cristão convertido, que se baseia na descrição ocular de Marcos, que lhe preexiste. Além desta fonte, Marcos, o evangelista Mateus manuseia a chamada fonte Q (do alemão Quelle=fonte) dos discursos do Senhor. Esta fonte também já está conhecida no seu evangelho, que é estruturado por cinco discursos e é datado da década de oitenta da nossa era, talvez meados daquela década, no século I. I :: O discurso apocalítico O texto que hoje é meditado é retirado do chamado discurso apocalítico que culmina na parábola do juizo final (cap. 25 de Mt). Tudo parece apontar para a iminência da vinda do Filho do Homem. Quando se vive em expectativa é porque está iminente a vinda de alguém ou alguma coisa. O Ano Litúrgico abre com a preparação iminente d’Aquele que vem. Advento significa isto mesmo: Aquele que vem. Já veio, virá e vem. Preparamos a memória de Quem já veio (1ª vinda); de Quem virá (última vinda) e que vem sempre que alguém se abre a Ele na realidade do sacramento. Jesus é a figura que preenche esta expectativa. 4

Cf Basílio CABALLERO, A Palavra de Cada Domingo, Ano A, Lisboa, Paulus, 2001, 13. Cf também Gian-Franco RAVASI, Il Vangelo di Matteo, 20 onde refere: “Antigo Testamento: em Mateus é uma palavra fundamental”.

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O Advento é um tempo de estar sobretudo em vigia para que Quem vem encontre as condições para estar bem connosco, sabendo que Jesus está sempre bem com todos os que O esperam. Não vem exigir muito, mas apenas a condição de estar vigilante. O discurso que o evangelho apresenta é muito elaborado por uma imagística cósmica, o que é próprio do género literário. Há porém três exemplos que aparecem envolvidos por esta imagística para a vigilância: a espera do dilúvio no tempo do Noé. Havia quem pensasse apenas em comer e beber; o dilúvio surgiu de imprevisto e só se salvou quem estava vigilante. O segundo exemplo é tirado das diferentes atividades dos homens e mulheres. Trabalham nos campos e nos moinhos. Há os que se empenham no que fazem e há os distraídos de tudo. Vigiar parece não ter sentido para eles. Depois vem o exemplo do ladrão que, sem ninguém contar, arromba a porta. Isto para referir que o fim é absolutamente imprevisto; o que importa é estar vigilante “porque não sabeis quando virá o Filho do Homem” (Mt 24, 42)5. Preciso é vigiar em todo o tempo, eis a conclusão pertinente para todo o tempo, mais ainda para este específico do Advento. II :: O nosso tempo Não precisamos de inventar um outro tempo; o nosso está cheio de exemplos que nos admoestam. Precisamos de vigilância. 5

Cf Fernando ARMELLINI, O Banquete da Palavra, Ano A, Lisboa, Paulus, 2001, 21-22.”(Jesus) para melhor esclarecer cita três exemplos: o primeiro tirado da Bíblia(Gen 6, 9)…; o segundo tirado das atividades humanas…; o terceiro exemplo é o do ladrão….”.

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Até o que pensávamos estritamente dedicado à nossa segurança está em perigo; nada está tão carregado de teimosia e de incerteza; o nosso tempo é este, carregado de sombras, apenas com pequenas luzes, cheio de terramotos que nos dizem sempre quão frágil é a tenda que habitamos; parece ter-se instalado o lado difícil da vida para todos. Este advento sugere para todos uma grande esperança e uma profunda vigilância: manter o farol aceso no meio da escuridão que nos envolve. Deus vem de novo, se o coração está preparado para O receber. “Vigiai, em todo o tempo”. Também agora. III :: A boa nova Não se desiste de ler e meditar o evangelho como boa notícia. Para cada um, com todas as características da sua personalidade, Deus vem como dom. O fim, no contexto que se prepara, será de encontro com o Pai. Haverá nesse dia de encontro o Amor de Deus para quem O reconhecer. Um será deixado e o outro tomado (Mt 24, 40). Quem está no seu posto, vigilante em tudo, esperando na manifestação de Deus que de novo vem iluminar o que parece escuro a todos. Deus conhece muito bem as nossas inquietações, mas virá para nos salvar! “Andemos na luz”, como em pleno dia (Rom 13, 13). Revistamo-nos do Espírito do Senhor (Rom 13, 14). Bom Advento, na vigilância. 19

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II Domingo do Advento Textos litúrgicos: Is 11, 1-10|Salmo 71|Rom 15, 4-9| Mt 3, 1-12 Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo: “Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus”. Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: “Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’”. João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem a pá na sua mão: há-de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga”. Um menino os poderá conduzir O tempo de Advento aparece como profecia de uma era messiánica, de bonança, repleta de atitudes de ternura, serena, era onde a humanidade e os animais saberão viver juntos, sob o cetro de um menino que os conduzirá (Is 11, 6). 20

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Na realidade, este tempo é muito pedagógico para que cada um possa sintonizar mais com a criança que em si vive e deseja viver um tempo de maior benevolência. Aproxima-se a festa mais dedicada aos mais novos da família, e os meninos admirados olham as cores e as luzes como anúncio de uma era de paz. Depende de cada um esta atmosfera mais bucólica, um ambiente mais pueril e mais nobre, com atitudes sadias que deixam nascer a criança que vive em todos. Parece ser mais forte do que nós esta era de regozijo, de trégua e de bem estar. I :: O Espírito Não se trata de algo que se inicia em cada um, mas sempre de um recomeço transcendente, no Espírito que continua derramando sobre a terra e que penetra levemente toda a humanidade, Espírito permanente de sabedoria, de inteligência, de conselho, de fortaleza, de conhecimento e de temor de Deus (Is 11, 2). Animado por esta força divina, cada um parece regressar àquele estado original do princípio, quando saía da poderosa força da Palavra do Senhor, antes da queda. Assim, a era de trégua e de harmonia espelha-se em nós, mas é obra inicial do Espírito do Senhor. Cada um revive uma era de equilíbrio e de bonança que Deus providencia. É o Espírito que proporcionará atitudes novas, pois o seu julgamento pautar-se-á pela justiça, não pelas aparências e será propício aos mais pobres, pequenos, brindando a todos uma atmosfera nova de apaziguamento. Foi eliminada toda a inimizade e a criança de novo será rei, porquanto, sem juizo, jogará com a cobra enquanto apreciará o cordeiro a jogar com o lobo (Is 11, 8). 21

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A força que permitirá esta nova realidade será a mesma que pairava sobre a superficie das águas na criação (Gn 1, 2). Tudo parece indicar que será restabelecido o quadro paradisíaco do início e a humanidade, de novo agraciada por Deus, retomará a era do jardim primordial. Esta profecia suscita na nossa humanidade uma época de esperança, com muita atualidade. Todos necessitam de atitudes novas que engendram no geral expectativas de liberdade e de esperança, pois a confiança será oferecida por um menino que já nasceu em nós e que permanentemente requer novos comportamentos e posturas. Chegamos a um tempo no qual “não mais se praticará o mal nem a destruição, mas o conhecimento do Senhor6 encherá o país” (Is 11, 9). Neste tempo, a justiça e a lealdade serão as virtudes, como a cintura de todos os povos (cf Is 11, 5). As realizações dos homens serão impulsionadas pelo Espírito do Senhor. II :: Programas Nascerão novos programas entre os homens atraidos pela benevolência e misericórdia de Deus. “A raiz de Jessé será a sua nova bandeira” (Is 11, 11). A Esperança será fruto da consolação e da paciência (cf Rm 15, 4) e a unidade em torno do Menino oferecido será realidade entre todos (Rm 15, 5). Estes programas terão a marca da Esperança, afeiçoar-nos-emos a sentimentos comuns e toda a criatura será acolhida pelo semelhante (cf. Rm 15, 7). Faremos dos nossos instrumentos de guerra jogos de paz e as crianças do Reino viverão numa sadia e honesta vida comunitária; os nossos cantos serão 6 Cf Fernando ARMELLINI, O Banquete da Palavra, Ano A, Lisboa, Paulinas, 2001, 25: “a docilidade e a obediência a Deus”.

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novos, porque o Deus da novidade viverá em nós, em Cristo (Rm 15, 9). Assim, bendiremos a glória do Senhor, entre os povos (Rm 15, 9) e saberemos preparar com jeito “os caminhos do Senhor” (Mt 3, 3). III :: Batizados no Espírito Santo Precisamos sempre de revisitar o sacramento lustral da nossa iniciação. Já há anos (muitos ou poucos) fomos batizados e não o seremos outra vez. Revisitar o Batismo é atividade quotidiana, na certeza que o Senhor que nos habita não foge para longe, mas está perto de quem d’Ele depende como criança. Não nos distrairemos com as luzes da festa, mas iremos ao mais encantador do Menino que todos os anos serve de guia para descer ao mais inédito de si mesmo. Para nós, o Natal já veio e vem sempre que queremos, porque o presépio depende da nossa forma de receber a visita de Deus no Seu Filho, que é luz nova para todas as gerações. Precisamos, talvez, de fazer uma estadia pelo lado do deserto, de nos revestirmos de mais austeridade, sem imposição, mas na certeza que essa atitude nos tornará mais livres. Assim, fazendo na vida esta segunda etapa do Advento, na alma de cada um será renovado o nosso Batismo, tornando-nos mais crianças no Menino-Deus que está em nós. Preparamos Natal, pois o Menino já está em nós.

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Índice Prefácio.........................................................................................5 A Palavra para saborear................................................................7 ADVENTO.....................................................................................15 I Domingo do Advento...............................................................16 II Domingo do Advento..............................................................20 III Domingo do Advento.............................................................24 IV Domingo do Advento.............................................................28 NATAL E EPIFANIA......................................................................33 Solenidade do Natal....................................................................34 Domingo da Sagrada Família......................................................38 Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus...................................43 Epifania......................................................................................47 Quaresma........................................................................................51 I Domingo da Quaresma.............................................................52 II Domingo da Quaresma............................................................57 III Domingo da Quaresma..........................................................61 IV Domingo da Quaresma..........................................................66 V Domingo da Quaresma...........................................................71 Domingo de Ramos....................................................................76

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PÁSCOA E TEMPO PASCAL.........................................................81 Domingo de Páscoa.....................................................................82 II Domingo da Páscoa.................................................................86 III Domingo da Páscoa................................................................90 IV Domingo da Páscoa................................................................95 V Domingo da Páscoa...............................................................100 VI Domingo da Páscoa..............................................................105 Ascensão do Senhor..................................................................110 Pentecostes................................................................................114 Solenidade da Santíssima Trindade...........................................118 Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.................123 TEMPO COMUM........................................................................129 I Domingo do Tempo Comum – Batismo do Senhor.................130 II Domingo do Tempo Comum.................................................134 III Domingo do Tempo Comum................................................138 IV Domingo do Tempo Comum...............................................142 V Domingo do Tempo Comum.................................................147 VI Domingo do Tempo Comum...............................................151 VII Domingo do Tempo Comum..............................................155 VIII Domingo do Tempo Comum.............................................159 IX Domingo do Tempo Comum...............................................164 X Domingo do Tempo Comum................................................168 XI Domingo do Tempo Comum...............................................171 XII Domingo do Tempo Comum..............................................175 XIII Domingo do Tempo Comum.............................................179 288

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XIV Domingo do Tempo Comum.............................................183 XV Domingo do Tempo Comum..............................................188 XVI Domingo do Tempo Comum.............................................193 XVII Domingo do Tempo Comum...........................................198 XVIII Domingo do Tempo Comum..........................................203 XIX Domingo do Tempo Comum............................................207 XX Domingo do Tempo Comum..............................................211 XXI Domingo do Tempo Comum............................................215 XXII Domingo do Tempo Comum...........................................219 XXIII Domingo do Tempo Comum..........................................223 XXIV Domingo do Tempo Comum..........................................227 XXV Domingo do Tempo Comum...........................................232 XXVI Domingo do Tempo Comum..........................................237 XXVII Domingo do Tempo Comum.........................................242 XXVIII Domingo do Tempo Comum.......................................247 XXIX Domingo do Tempo Comum..........................................252 XXX Domingo do Tempo Comum...........................................256 XXXI Domingo do Tempo Comum..........................................260 XXXII Domingo do Tempo Comum........................................264 XXXIII Domingo do Tempo Comum.......................................269 XXXIV Domingo do Tempo Comum.......................................274 EPÍLOGO.....................................................................................278 INDICE TEMÁTICO...................................................................279

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Reflexões sobre a Palavra que alimenta a nossa vida. Em “Sabores à mesa da Palavra” o autor, sacerdote, partilha os paladares que denota nos textos da liturgia. Com uma perspectiva sobretudo pastoral, o comentário às leituras abre o apetite aos fiéis, convidando-os a deleitarem-se com os “pratos” que a Palavra de Deus oferece. De leitura semanal, este livro alarga a mesa para que mais e muitos acedam à riqueza das iguarias que a Bíblia regala. Da mesma colecção: Sabores à mesa da Palavra - Ano B Sabores à mesa da Palavra - Ano C

Sobre o autor:

José da Silva Lima é sacerdote na Diocese de Viana do Castelo. Natural de Vila de Punhe (1954), estudou, a partir de 1965, nos Seminários de Braga. Em 1978 foi ordenado sacerdote em Viana do Castelo onde apoia o seu presbitério. Dedica-se à investigação na área da Teologia Prática, em especial à Religiosidade Popular. Publicou vários estudos no domínio da sua investigação, sobretudo nas Revistas da Universidade Católica Portuguesa.

Rua Dr. Alves da Veiga, 124 Apartado 5281 | 4022-001 Porto Tel.: 22 53 657 50 Fax: 22 53 658 00 edisal@edicoes.salesianos.pt www.edisal.salesianos.pt

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