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A guerra de Nico

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Ilustrações de Inma Almansa

A GUERRA DE NICO

Ficha Técnica:

A guerra de Nico

Titulo Original: La guerra de Nico

© 2024 Josan Hatero

© 2024 Ilustrações: Inma Almansa.

Esta edição foi publicada por acordo com a Editora:

© 2024 Edebé

Passeo San Juan Bosco, 62 - 08017 Barcelona www.edebe.com

Premio edebé de literatura infantil, 2024

Copyright desta edição:

© 2026 Salesianos Editora

Rua Duque de Palmela, 11 4000-373 Porto | Tel: 225 365 750 geral@editora.salesianos.pt www.editora.salesianos.pt

Tradução: Delfim Santos

Capa: Paulo Santos

Paginação: João Cerqueira

1ª edição: Janeiro 2026

ISBN: 978-989-9134-66-9

Depósito Legal.: 557572/25

Impressão e acabamento: Imedisa

Reservados todos os direitos. Nos termos do Código do Direito de Autor, é expressamente proibida a reprodução total ou parcial desta obra por qualquer meio, incluindo a fotocópia e o tratamento informático, sem a autorização expressa dos titulares dos direitos.

Capítulo 1

Num domingo de fim de verão, os soldados vieram buscá-lo. Nico passara toda a manhã a nadar e a tentar apanhar caranguejos com Minerva. No dia seguinte, começava a escola, e os dois queriam aproveitar esse tempo, com receio de que o rio já lá não estivesse, no fim de semana seguinte.

O avô de Nico tinha-lhe ensinado a nadar nesse rio quando ele era ainda muito pequeno, e desde então, era aquele o seu lugar preferido. Nos meses frios, Nico gostava de passear pelas margens, a apreciar a tranquilidade que havia por ali. Mas logo

que chegavam os dias quentes da primavera, vestia o fato de banho e mergulhava na água. Gostava tanto de nadar que a mãe, por vezes, o chamava “menino peixe” e, a sorrir, dizia que, um dia destes, acordaria com barbatanas e coberto de escamas.

Nesse domingo, que mais tarde Nico recordaria com saudade, Minerva dissera que ele dava azar.

– No outro dia, vim sozinha e apanhei oito caranguejos, todos do tamanho de um braço. E hoje, nenhum. É sinal de que tu dás azar.

– Apanhaste oito caranguejos?! – perguntou Nico admirado.

Minerva riu-se, enquanto batia com as mãos na superfície da água.

– Estás outra vez a gozar comigo – disse Nico.

– É que tu acreditas em tudo, Nico!

Sabes porquê? Porque não sabes mentir.

– E tu sabes? Eu não acho que seja coisa de que te possas gabar.

– Olha, soldados – disse Minerva, apontando na direção da velha ponte de pedra.

– É mesmo, são soldados! Minerva pôs as duas mãos sobre os ombros de Nico dizendo-lhe para se virar.

Lá estavam eles, três soldados, a atravessar a ponte.

A guerra tinha começado há mais de quatro anos, mas na maior parte dos dias, Nico nem se lembrava desse conflito. A frente de batalha ficava muito longe, a muitos quilómetros da sua aldeia, noutro país. Às vezes, a mãe, contava-lhe que um qualquer vizinho tinha recebido uma carta de chamada para o serviço militar ou que algum rapaz daquela zona tinha regressado a casa ferido. Mas ele nunca tinha visto três militares fardados e com espingardas ao ombro ali mesmo, na sua aldeia.

Um dos militares, que Nico reconheceu como sargento pela divisa amarela que ostentava no braço, tinha um grande mapa nas mãos. O sargento parou. Olhou primeiro para o mapa, depois para a paisagem, como que à procura de alguma coisa. Não parecia convencido de ter encontrado o que procurava. Ao ver Nico e Minerva a

boiar de barriga para cima, encostou-se ao muro e gritou:

– Como se chama este rio? – É o rio Sem Nome – respondeu Minerva.

– Que é que estás a dizer?... comentou baixinho o Nico.

Ele não acreditava que ela tivesse mentido aos militares.

O sargento olhou para os outros dois colegas como se não acreditasse no que ouvira.

– O rio não tem nome? – perguntou ele.

– Tem, sim. Chama-se Sem Nome –insistiu Minerva, repetindo a mentira.

Quando passa por outras terras chamam-no com outros nomes, mas aqui não chegaram a um acordo e deixaram-no assim.

Nico atirou com água à cara para disfarçar o riso.

O sargento abanou a cabeça; não tinha tempo para paleios e voltou a perguntar-lhes:

– Vocês sabem onde fica a rua Pintores?

– É a minha rua – respondeu Nico, e era verdade. Se quiserem, posso acompanhá-los.

O sargento acenou que sim com a cabeça, pedindo com gestos para se apressarem. Nico e Minerva nadaram até à margem. Estavam curiosos em saber o que é que aqueles militares procuravam. Enxugaram-se à pressa, vestiram a camisola e calçaram as sandálias, e foram ter com aqueles militares, com as toalhas brancas aos ombros.

Ao aproximar-se, Nico observou que os três uniformizados estavam suados e cobertos de pó. Pareciam exaustos. A aldeia de Nico e Minerva era tão pequena que nem por lá passava o comboio e a estrada que a atravessava era de terra batida. Aqueles militares deviam ter feito a pé os catorze quilómetros que a separavam da estação mais próxima. O sargento era mais alto que os outros dois e usava um bigode loiro. – É por aqui – disse Nico.

– Vieram buscar alguém ou vêm trazer más notícias? – perguntou Minerva. A minha mãe diz que os militares só aparecem para causar algum desgosto a alguém.

Nico olhou-a admirado. Minerva não parecia ter medo de nada. Naquele momento, o seu cabelo ondulado e rebelde estava molhado e parecia mais comprido e escuro que nunca.

O sargento não lhe respondeu. Isso incomodou Nico, que ousou perguntar:

– Para que número da rua querem ir?

– Trinta e um.

Nico parou instantaneamente, como se alguém lhe tivesse dado um murro no peito.

– É a tua casa – sussurrou-lhe Minerva baixinho, como se Nico não soubesse, como se lhe estivesse a dizer um segredinho perigoso.

O sargento olhou para Nico com impaciência.

– Anda, rapaz, estamos numa missão oficial – disse ele.

Nico retomou o caminho, cabisbaixo. Em sua casa viviam apenas ele e a sua mãe.

Naquele tempo não recrutavam mulheres e ele era ainda muito novo para ser chamado para a tropa. Traziam de certeza uma carta com más notícias. E a primeira má notícia que lhe veio à cabeça foi a de que o seu pai tivesse morrido em combate.

Capítulo 2

Nico não se lembrava nada do pai, que os tinha abandonado, quando ele nem sequer tinha feito um ano. Nunca mais o vira.

Quando era mais pequeno, perguntava à mãe pelo pai, por que os tinha deixado, e ela respondia sempre que não sabia.

– Só sei que não foi por tua culpa, menino peixe. Mas há pessoas que não aprenderam a amar, e acho que o teu pai é uma delas.

Às vezes, Nico imaginava que o pai andava pelo mundo a constituir famílias para ver se aprendia a amar alguma,

mas porque não o conseguia, deixava-as. Gostava dessa ideia. Era melhor que pensar que o pai se tinha ido embora por não os suportar: nem a ele nem à mãe. Aliás, se fosse verdade que o pai andasse a constituir famílias, Nico teria muitos meios-irmãos e meias-irmãs com quem, talvez, se cruzasse algum dia.

Com o passar dos anos, Nico não se esqueceu que tinha um pai, embora raramente pensasse nele. Sabia que andaria por algum lugar e, às vezes, até imaginava que ele voltaria para casa, nem que fosse só por alguns momentos para conversar com ele. Mas agora, a caminho de casa, acompanhando os soldados, sentia falta de ar. Era como se fossem devolver-lhe o pai por um instante para depois lho tirarem para sempre.

– Ficaste pálido – disse Minerva pegando-lhe na mão.

Ela e Nico eram amigos desde pequenos, eram da mesma idade, mas nunca tinham andado de mãos dadas. Nico corou e sentiu-se um pouco melhor. Só de olhar para a

cara dele, a sua amiga deu-se conta de que estava a precisar de carinho.

Nico viu ao longe a sua mãe, vergada no jardim, a tratar das camélias com uma tesoura grande. Como se sentisse o seu olhar, a mãe voltou-se e, ao ver Nico e Minerva que caminhavam de mãos dadas à frente de três soldados, levantou-se e foi a correr ao seu encontro.

– Isabel, não corra com uma tesoura na mão – gritou a Minerva para a mãe do seu amigo.

– Que é que se está aqui a passar? – perguntou a mãe de Nico. Porque é que estão a escoltar o meu filho?

O sargento parou, receoso que aquela mulher de cabelo desgrenhado o viesse atacar.

– Estou bem, mãe, não se passa nada. Não se aleije com a tesoura.

Isabel pousou no chão a tesoura e agarrou pelo braço as duas crianças, pondo-as atrás de si, com se estivessem a precisar de proteção contra algum perigo.

– Viemos à procura de Nicolás Franz –disse o sargento. Há duas semanas foi-lhe mandada uma carta a recrutá-lo para o serviço militar, mas ele não se apresentou no quartel.

– Sou eu o Nicolás Franz.

O sargento fixou-o de cima a baixo e perguntou:

– Quantos anos tens?

– Onze. Mas sou alto para a minha idade.

Isabel soltou um suspiro.

– Deve ser um erro da administração.

Vocês andam à procura do pai do meu filho, mas ele não mora connosco há quase dez anos.

– Está a dizer que o Ministério da Guerra se enganou? O Ministério nunca se engana, minha senhora.

– Eu só estou a dizer que o Nicolás Franz de quem andam à procura já não mora aqui.

“Então o meu pai não está morto”, disse Nico para consigo, aliviado. “Só não sabem onde ele está”.

– Vamos lá ver: mora aqui alguém chamado Nicolás Franz? – insistiu o sargento

– Sim, mas como está a ver, ele é uma criança. É evidente. Só tem onze anos. Como acabei de dizer, os senhores andam à procura do pai dele. Têm ambos o mesmo nome, mas o pai já não vive connosco há uma década e não sabemos nada sobre ele.

Se quiserem, podem ir ver a nossa casa: não vão encontrar nenhum vestígio: nem dele nem de qualquer outro homem.

O sargento olhou desconfiado para Nico.

– Tu chamas-te Nicolás Franz – perguntou ele.

– Chamo.

– E vives no número 31 da rua Pintores?

– Sim.

– Então tens de nos acompanhar até ao quartel. O Exército precisa de ti. Tens de lutar pela tua pátria.

Isabel deu um passo em frente e ergueu a voz:

– Mas não está a ver que ele é só uma criança? Olhe bem para ele. Ele não é a pessoa de quem vocês andam à procura.

Nessa altura, muitos vizinhos tinham saído à rua para ver o que se estava a passar. O sargento levou a mão ao coldre e falou bem alto para que todos pudessem ouvir:

– Minha senhora, eu não tenho de entender nada. Apenas estou a cumprir as ordens recebidas.

– Será que o senhor não tem uma migalha de bom senso?!

– As ordens que recebi foram as de vir buscar Nicolás Franz, que mora neste endereço, e é isso que vou cumprir, quer a senhora queira ou não. Assim que o apresentar no quartel, o recruta Franz poderá expor o seu caso aos meus superiores que decidirão se o mandam embora ou para a frente da batalha.

Nico olhou para a mãe, que parecia prestes a saltar sobre o sargento, resolvida a arrancar-lhe aquele bigodinho num esfregar de olhos. Nico agarrou-lhe as mãos para a acalmar.

– Mãe, acalme-se. Não se preocupe. Vou com eles para o quartel. Assim que me virem, vão-se dar conta de que se enganaram. Amanhã ou depois de amanhã, certamente já estou de novo aqui, tão depressa que a mãe nem vai sentir a minha falta.

Isabel esfregou as mãos como costumava fazer quando estava nervosa. Aceitou contra a vontade o que o filho disse e murmurou:

– Pois claro. Estar a discutir com este idiota, não vale a pena.

E foi assim que, naquele domingo, Nico se despediu da mãe, da amiga e da vida sossegada que até então tinha vivido.

Capítulo 3

Nico não deixou que nem a mãe nem a amiga o acompanhassem até à saída da aldeia. Vê-las assim agitadas, com cara de pena, deixava-o nervoso.

Ele seguia ao lado do sargento, e os outros dois soldados caminhavam atrás deles. Nenhum deles lhe dirigiu qualquer palavra.

Pouco tempo depois, sentiu fome. Sem parar, tirou da mochila uma das três sandes de queijo e tomate que a mãe lhe preparara. Além disso, levava um pacote de bolachas, duas maçãs vermelhas, duas mudas de roupa, um lápis, um caderno

em branco e um envelope com um selo já colado. Estes três últimos objetos tinham sido ideia de Minerva. A sua amiga nunca tinha recebido uma carta e pediu-lhe para ele lhe escrever mal chegasse ao quartel.

O sargento não largava o mapa, que estava amarelado, e de vez em quando dava-lhe uma olhadela. Ao chegar a um cruzamento, decidiu subir por um caminho de uma colina.

– Não é esse o caminho para a estação… – disse Nico.

O sargento não fez caso. Era evidente que não gostava de falar com ninguém.

– Vamos buscar outro recruta que também não se apresentou no quartel – segredou um dos soldados.

Nico abriu a boca para protestar: havia um erro administrativo no seu caso, como dissera a mãe. Mas o soldado levou um dedo aos lábios, indicando-lhe que se calasse.

Do outro lado da colina havia um extenso prado com uma casinha térrea retangular no meio, um estábulo e um curral em que andavam várias galinhas. Via-se roupa

estendida ao sol. Estavam também três ovelhas deitadas à sombra de uma única árvore, um carvalho de uns cinco metros de altura.

Apercebendo-se da sua chegada, um cão malhado começou a ladrar.

Da casa saiu um homem da largura da porta, de barba preta e espessa. Olhou para os soldados, olhou para a esquerda e para a direita e disse qualquer coisa para dentro de portas. Nico pressentiu que ele ia começar a fugir, e foi exatamente o que aconteceu.

– Alto … – gritou o sargento.

Os dois soldados puseram-se a correr atrás do homem que se estava a escapulir. O sargento sacou da pistola. Nico viu e quis gritar, mas não conseguiu. O sargento disparou para o ar.

Nico nunca tinha ouvido um tiro tão perto de si, um estrondo que lhe fez perder o equilíbrio, como se fosse empurrado, e que lhe pôs os pelos dos braços em pé, com medo.

O homem que fugia, parou, como que petrificado. Os dois soldados também. Pelo contrário, as ovelhas puseram-se a rodopiar em trote. O cão ladrou e era tudo o que se ouvia.

Nicou olhou amedrontado para o céu: se a bala tinha subido, não tardaria a descer.

– Artur Grubber, o senhor foi recrutado para o serviço militar no Exército – disse o sargento sem guardar a pistola.

O homem voltou-se lentamente, cabisbaixo.

Assomou à porta de casa uma mulher com um bebé ao colo e uma menina que teria uns três ou quatro anos, agarrada à sua perna.

Os soldados aproximaram-se do homem, colocaram-se cada um ao lado dele, para impedir qualquer fuga. Nico achava que o homem não voltaria a tentar fugir.

– Não podem levá-lo – implorou a mulher ao sargento.

– Ele tem um dever a cumprir, tal como eu e estes soldados – disse o sargento. Tem de combater pelo seu país.

– É esse o dever de um homem, morrer pelo seu país?

O sargento não respondeu.

A mulher aproximou-se do militar sem largar dos braços o menino que aconchegava:

– Ouça-me, por favor. Na frente, o meu marido não vai fazer diferença. Lá, ele é apenas mais um homem entre milhares.

A guerra não vai ser perdida ou ganha, só porque o meu marido vai combater.

Muito pelo contrário, aqui, ele trabalha a terra, cuida dos animais e, uma vez por semana, vende leite, legumes, ovos, e até lã, no inverno. Tudo isto serve mais ao país do que levá-lo não se sabe para onde, para que o matem.

A sua voz era doce, suave, parecia que estava a repetir um discurso em que havia pensado muitas vezes.

– Por favor, peço-lhe pelos meus filhos, não poderia fazer vista grossa? Diga que não o encontraram, que ele não estava aqui.

– Minha senhora, eu apenas cumpro ordens.

A mulher aproximou-se um pouco mais do sargento.

– Diga-me: se levar o meu marido, como é que o país pretende que eu cuide dos meus dois filhos e da quinta? Quem cuidará de nós? Você?

Soltou o bebé que se agarrara ao seu pescoço e pareceu oferecê-lo ao sargento, que recuou um passo como se estivesse frente a um animal feroz.

– Se ele se recusar a vir temos de o prender, ficará sujeito a um conselho de guerra e enfrentará uma pena de morte. Terá mais hipóteses de sobreviver na frente de batalha.

– De qualquer forma vocês estão a afastá-lo de mim, talvez para sempre – lamentou a mulher.

– Artur Gubber, despede-te da tua família. Vamos embora. Temos de apanhar o comboio.

Durante esse tempo todo, o fazendeiro permaneceu em silêncio, apertando os lábios.

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