

MANUAL DO
P O U P A D O R
Glauco Mattoso
MANUAL DO POUPADOR
São Paulo
Casa de Ferreiro
Manual do poupador
© Glauco Mattoso, 2026
Editoração, Diagramação e Revisão
Lucio Medeiros
Capa
Concepção: Glauco Mattoso
Execução: Lucio Medeiros
Fotografia: Akira Nishimura
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Mattoso, Glauco
MANUAL DO POUPADOR / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 136 Páginas
1.Poesia Brasileira I. Título.
25-1293 CDD B869.1
Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira
NOTA INTRODUCTORIA ou SONNETTO DO POUPADOR [13.528]
O que é que eu faço, Glauco? Me levaram tudinho duma compta de poupança! A gente sacrificio faz, se cansa de tanto trabalhar, e elles azaram!
Roubaram minha senha! Digitaram passando-se por mim, na confiança do banco! O que meresce quem advança na grana alheia? Nunca que elles param?
Por que será, poeta, que ninguem consegue entrar na compta dum ricaço? Blindado sempre está quem muito tem!
As fraudes, quando occorrem, teem espaço somente em quem tiver pouco vintem! Me queixo, ora, com quem? O que é que eu faço?
DISSONNETTO TRIBUTARIO [0312]
Em Roma se pagava p’ra cagar, mas hoje a taxação tem melhor nivel.
O imposto sobre a merda é deductivel do grosso que teremos de pagar.
Não ande em contramão, va devagar.
As mulctas são pesadas, coisa horrivel!
Ja não se tracta mais de “causa civel”: “tributaristas” temos que tragar!
O Harrison ja disse que a receita lhe deixa um só, retendo dezenove. Sacou ou não sacou? Gostou, my love?
Achou sua parcella muito estreita?
Da sua grana a fonte então comprove, sinão a mão em tudo ella lhe deita!
Não é, gajo, uma machina perfeita?
Só falta tributarem quando chove!
DISSONNETTO DA FATALIDADE [0804]
O gajo, desde cedo, trampa duro, aos poucos vae subindo numa empresa que um dia será sua, em cuja mesa se lia que morreu velho o seguro. Na casa tem cachorros, alto muro e alli se sente em plena fortaleza. Pegaram-no os bandidos de surpresa no dia em que sahiu buscando ar puro. Quem manda confiar demais na sorte?
Plantão de anjo da guarda tambem falha e nada resta aos filhos que os comforte. Excepto a herança: “Somma que lhe valha a vida não tem compta!”, firme e forte, explica à midia a filha mais pirralha, mas cuja secca bunda terá porte maior, appós o implante que lhe calha.
DISSONNETTO DA COMPTA CONJUNCTA [0805]
Flagraram em Paris um ex-cacique politico, ‘inda chefe em sua base. Num banco elle tentava sacar quasi milhão e meio, dando uma de chique. Da grana a origem querem que elle explique, mas pouca informação deixam que vaze. Allegam que ‘inda está o processo em phase primaria, sem que pechas justifique. Caramba! O cara affana ha tempo paca e nada alguem consegue que se prove? Si esperam mais um pouco, vae a vacca pro brejo, ja que faz noventa e nove anninhos o larappio: a herdeira saca o saldo, e no molhado a historia chove, pois temos mesmo cara de babaca e cremos que termine em “peace and love”.
DISSONNETTO DIGITAL [0865]
Defende-se quem pode! O estellionato agora é cybernetico: annuncia na China um bom negocio alguem que espia seu micro emquanto um sitio attrae o ratto. Sem firma, sem recibo e sem contracto, você vae se foder! Segunda via nem tente reclamar! Ou quer que ria na sua cara quem o fez de pato? Peor é quando a compta alguem lhe invade e saca todo o saldo pela rede! Queixar-se a quem? Ao bispo? Ao padre? Ao frade? Portanto, si o vigario lhe diz “Crede!”, não creia, ja que a probabilidade é o demo ter ouvidos na parede.
Fodeu-se em virtual realidade quem quiz “monetizar” com muita sede.
DISSONNETTO INFERNAL (2) [0894]
Pegou fogo na casa dum banqueiro e o gajo estava dentro! Juncta gente que forma uma platéa bem na frente do poncto onde esse incendio é mais ligeiro. Emquanto tarda o carro de bombeiro, o povo se diverte! Mais contente ainda fica quando, de repente, o gajo pede adjuda, num berreiro! Gargalham e assobiam ante a scena das chammas envolvendo o velho avaro que grita e, da sacada, afflicto, accena! Até que o chão desaba e engole o caro roupão, com velho e tudo, e da terrena vidinha leva um demo sem preparo. Applausos da calçada, agora plena de gente, esse povinho mais ignaro.
DISSONNETTO INDUSTRIAL [0896]
O gajo é muito rico, mas tão rico que nem sabe direito quanto tem, si as fabricas são mil ou mil e cem, si é polvora ou comida seu fabrico! Nem com calculadora multiplico a grana do subjeito, e muito alem da compta é o patrimonio: até um harem mantém o billionario rei do picco! Do picco, sim, pois mais que o “honesto” ramo só pode ser a droga seu negocio, do qual não me sustento e onde não mammo. Não digo entorpescente, mas que endosse o mercado de remedios. Só reclamo que, pobre, da pharmacia não sou socio. Ao menos dizer posso que, sim, amo curtir o meu somninho, um sonho, um ocio.
DISSONNETTO CAPITAL [0920]
Peguei no pullo quando a nota fria passava em plena feira um piccareta: comprou elle um saccão de ameixa preta e quasi um caminhão de melancia. Pagou e pediu troco; até queria moedas excolher numa gaveta da banca de pigmenta malagueta na qual tem o feirante parceria. O dono da barraca desconfia e a scedula rabisca com canneta p’ra ver si a tincta expalha ou cores cria. Prevendo que o papel mais se derreta, ja troca na local pastellaria e guarda um maço falso na maleta o typico punguista que, da guia, jogou um cego dentro da sargeta.
DISSONNETTO RESIDUAL [0921]
No banco, uma velhinha tenta, em vão, a apposentadoria ver em dia: a machina outra senha lhe pedia por causa de infeliz digitação. A velha insiste, tecla, e o caixa não libera a grana, como si a quantia passasse duma parca economia e o numero excedesse algum milhão. Ja prestes a sahir dalli sem nada, de subito ella vê que seu extracto accusa-lhe no saldo uma bollada! Teria sido aquillo um mau contacto? Talvez, mas a velhinha dá risada. Acciona o caçanickeis e este, no acto, lhe embolsa uma fortuna! Na calçada, porem, lhe toma a bolsa um moço ingrato!
DISSONNETTO PREJUDICIAL [0929]
Na bolsa de valores se baseia um animo excessivo e uma “euphoria”, chamada de “optimismo”, que irradia tentaculos na mais global aldeia. Mas quando alguem descobre que bambeia o fragil castellão de nota fria, o panico se installa e, mal o dia desponcta, está vazia a que era cheia. Fortunas se evaporam que nem fumo e solidas empresas pro buraco la vão, p’ra dar da crise só o resumo. Foi hontem, mas paresce ser tão fracco na mente esse episodio, que eu espumo de raiva, tanto o assumpto me enche o sacco! Nas casas appostar o proprio Summo Pontifice vae, outro que é velhaco.
DISSONNETTO DO MEIO CIRCULANTE [1188]
No carro do assessor, no gabinete, na casa do politico: por onde se queira procurar, alguem esconde dinheiro vivo, grana p’ra cacete! No fundo falso, embaixo do tapete, no cofre attraz do quadro do Visconde, no sotam, no porão… Quem não responde que achou a nota, a scedula, o bilhete?
São maços e mais maços, uns com cincta, os outros com elastico, e verdinha é como mais se estampa a cor da tincta! Excepto aqui: nas malas onde eu tinha guardado algum valor, não restam trinta moedas, muito menos a abobrinha!
E então? Como é que esperam que eu me sinta? Com cara de palhaço ou de bundinha?
DISSONNETTO DOS URBANISTAS COMMUNISTAS [1351]
Favellas incommodam! Se commenta que, para eradical-as, dão a cada familia o equivalente, hoje, a quarenta mil! Optima essa offerta, hem, camarada? Não acha nada certo a rabugenta patota de urbanistas: quem invada terrenos quer ficar onde se assenta e não ceder espaço à burguezada. Si o publico poder não indemniza, a propria constructora, que indecisa não é, tracta de arcar com a mudança. Ponhamos, ora, as coisas na ballança! Não quer saber o pobre favellado si os intellectuaes olham seu lado ou pensam que elle pensa com a pança. Quem é que, no final, bonito dansa?
DISSONNETTO DA HYPERINFLAÇÃO HISTORICA [1437]
O dollar é verdinho. Ja o cruzeiro primeiro foi azul, na menor nota. Depois foi o dinheiro brazileiro se desvalorizando, e era chacota. “Cabral” ou “abobrinha”, este o fuleiro nominho que o povão então adopta à scedula de mil, antes que, inteiro, perdesse o monetario nome a quota. Virou “barão” a scedula, devido ao gordo Rio Branco: quem a visse achava que valia. Até duvido que algum dia seu titulo cahisse. Mas veiu, appós o “novo”, um tal “cruzado”. Effigie, então, valeu até de vice. Cortou-se tanto zero que, coitado, dizer que vale nada é gabolice.
DISSONNETTO
DA GRANA A GRANEL [1498]
Em vez de numa loja ser vendido, ja compro até no banco o chocolate, tão alta a quotação, que tem subido accyma do que vale outro quilate. Ballança em que, antes, ouro era medido, agora é mais commum que cuide e tracte dum ouro comestivel, preferido quer do capitalista, quer do vate. Minusculos tablettes custam tanto (em euro ou libra, dollar ou cruzado, conforme o cambio), para meu expanto, quanto um lingote solido e dourado. “Dinheiro ou chocolate?”, o caixa indaga, si tenho algum em compta creditado e, ja que assim prefiro, elle me paga em trez bombons metade do ordenado.
DISSONNETTO DO VIL METAL [1548]
A prosa é como a nota: egual valor terá que uma moeda, si ella for daquelle mesmo numero. Suppor que a pratta do papel ganha é favor. Moeda é poesia, por comptar com mais peso e relevo, e dar logar ao verbo resumido. Comparar a nota à prosa é facil, nesse olhar. A scedula ao detalhe dá poder maior, faz mais espaço o texto ter, e grandes importancias faz valer, mas logo o portador fica a dever. O nickel brilha mais e, por tinnir, barulho faz tambem, pois seu porvir prevê que ao vil papel vae subsistir, tal como o prego aguenta algum fakir.
DISSONNETTO DO HOMEM PREDESTINADO [1558]
Ganhou o appostador na lotteria e quiz mudar de vida: implanta dente, faz plastica, suppondo que teria mais chance si ellas acham-no attrahente.
Casou-se, mas a esposa só queria a grana, e envenenou-o… Quem se sente vingado é quem gastou essa quantia da apposta em tiragosto ou aguardente. Pergunta-se o chocolatra: addeanta ficar sem chocolate e pagar tanta fezinha? Compensou ser um sortudo? Não é qualquer trocado tão mehudo! Da vida o que se leva é o que se vive: quem quer approveitar, que não se prive do pouco pela apposta em ganhar tudo. Prefiro uns brigadeiros. Não me illudo.
DISSONNETTO DO PAPEL DE DESTAQUE [1646]
A folha de papel, que se soltara da mão da menininha, foi pousar no pateo do outro predio, mas tomara que eu possa descrever seu “tour” pelo ar! Primeiro, ella voou directo para a frente e, de repente, ao seu logar de origem quiz voltar. Mas deu de cara com vento opposto, e poz-se a espiralar. Partiu do quincto andar, mas, até ter pousado sobre a lage, seu fluflu de tantos rodopios deu prazer a quem a accompanhasse a olho nu. A proxima folhinha ella ja ia soltar, para planar feito urubu nos céus, quando a mão rapida da thia lhe toma a grana e evita mais preju.
DISSONNETTO DA PARENTELA ENDEMONINHADA [1687]
Familia até paresce coisa infinda, unida e affectuosa… Mas se illude quem pensa que será, mais tarde, ainda a mesma, si a mãe morra e a vida mude. Irmãos se desentendem quanto à linda casinha litoranea… Quem estude dirá que tem direito a uma bemvinda bolsinha da defuncta, que lhe adjude. Doentes, gays ou velhos são largados: ninguem mais quer saber como os coitados sustentam-se ou se tractam, sem poupança. Quem seja porralouca appenas dansa. Só querem dividir o patrimonio em partes deseguaes, ja que o Demonio cobiça a parte delle nessa herança que quattro milhõesinhos nem alcança.
DISSONNETTO PARA UM ESPECULADOR [1742]
Mercado financeiro é estellionato: uns expertinhos montam o casino e chamam: “Gente, apposte, que o destino será mui promissor!” Quem paga o pato?
O pobre poupador, é claro! O facto é que quem manipula faro fino tem para a “oscillação”! Eu me previno e taes “investidores” não accapto!
Qual bolsa, quaes acções, fundos, qual nada! “Productos” desses roubam-nos a nota! É tudo grande, immensa marmellada que só beneficia algum agiota!
Debaixo do colchão guardo meu rico tostão, ‘inda que magra seja a quota! Si cada vez mais pobre e puto fico, é mesmo azar, não é que eu seja idiota!
DISSONNETTO
PARA A DISTRIBUIÇÃO DE RENDA [1746]
Bandidos, ao fugir, depois do assalto, são perseguidos pela viatura e escondem-se num predio. “Mãos ao alto!”, lhes grita o tira, ao vel-os la na altura. {Não vamos nos render!}, é o que assegura um delles, que de escrupulos é falto. E como os policiaes teem ja postura de attaque, a grana joga em pleno asphalto. As scedulas despencam, em cascata, da mais alta janella! O povo cata aquillo, e se engalfinha ao pé do predio! Não venha reclamar ninguem de assedio! Tamanha a confusão, que os guardas não conseguem controlar! O bando, então, se sapha em meio ao povo… E quem impede-o? Alguem mostra aos gambés o dedo medio.
DISSONNETTO PARA UNS PAPEIS DADOS DE GRAÇA [1780]
Debentures, apolices… papeis deixou o fallescido. Mas é tudo do tempo do cruzeiro e dos mil reis, não deve ser valor la tão polpudo. Herdeiros ja fizeram um estudo e um titulo que achavam valer dez só vale meio, ou menos… Tem escudo, peseta, lira, e granas mais chués. Accabam concordando que em logar nenhum se acceitará o que o titular daquella papellada queira nella, excepto uma risivel bagatella. As lettras, coloridas, com dinheiro até que se parescem, mas inteiro o maço é ja brinquedo na favella. Deu muita figurinha chique e bella.
DISSONNETTO PARA UMA ISCA NÃO MORDIDA [1832]
Bandidos internautas na corrente da rede virtual lançam recado que seja um chamariz, si acaso a gente vestir a carapuça e achar-se achado.
“Flagras na praia” “As photos do accidente” “Pendencias em seu nome!” “Seu saphado, ja vi você na photo, que indecente!”
“Oi, lembra de mim?” “Saite cancellado!” “Irregularidades no erregê!”
“Fazem accusações contra você!” “Urgente! Do Poder Judiciario!” Advisos de teor bastante vario.
Ninguem cae nessa labia e ninguem clica naquillo que indicaram, mas si a picca disponibilizassem, tinha otario abrindo o seu total saldo bancario.
DISSONNETTO PARA A LUCTA DE CLASSES [1933]
“Não tem patrão amigo de empregado!”, diz o syndicalista. Si um peão ganhar na lotteria, por seu lado, dá logo uma banana a seu patrão. Autonomos se gabam de que não devem satisfacções a algum saphado e podem dar-se ferias, feriadão, ou greve sem descompto no ordenado. Assim que alguem prospera, ja a primeira medida a ser tomada (até que hilario resulta tal desfecho), caso queira manter-se, é contractar um funccionario. “O sonho do empregado é ser patrão!”, diz delles o burguez de anecdotario. Ninguem contente fica. A conclusão é que pinctinho é gallo a quem compare-o.
DISSONNETTO PARA UM VALOR INESTIMAVEL [2072]
Sumiço dum Van Gogh e dum Picasso, carissimos, dá susto no mercado. Será que algum museu, que algum ricaço, sem culpa, compraria algo roubado? “Não quero nem saber! Tudo que faço é appenas compra e venda!”, por seu lado allega quem recepta. “Eu só repasso as telas e facturo algum trocado…” Duvida quem? Terceiro Mundo nem devia ter museus: as obras bem melhor, alli na Europa, vão ficar. Alli sim, é das artes um bom lar! Ainda que não chegue ao Louvre, a tela será bem exhibida, como aquella dum colleccionador particular que queira Abaporus multiplicar.
DISSONNETTO PARA UM PRONUNCIAMENTO FEDORENTO [2100]
Si peida o presidente americano, o mundo repercute pela imprensa. Maior repercussão, porem, é o damno causado pela Bolsa, quando tensa. Confirma-se uma crise como panno de fundo, e algum banqueiro nos dispensa seu caro minutinho para um plano propor… com audiencia em rede, immensa. Qualquer um quer vender um bom conselho. Si um especulador falla em “cautela”, a midia ja lê “panico” e arrepella nos homens de negocio até o pentelho. Mas eu não me reflicto em tal espelho. Si fallam “Tá fedendo!”, em vez dum pum, o mundo inteiro entende que o tal “boom” da Bolsa, antes azul, ficou vermelho.
DISSONNETTO PARA QUEM SAE NA CHUVA [2177]
“Jamais eu entraria (disse o Groucho) num clube que me acceite como socio”. Tambem na lei de Murphy nada frouxo paresce esse argumento, nem beocio. Millôr pode ser quem melhor esboce-o em termos allusivos ao arrocho no credito bancario. É o tal negocio: mais leva quem ja está com olho roxo. Você consegue a grana caso prove que della não precisa. Não commove ninguem no banco o appello dum fallido. Na physica a lei sempre faz sentido. Do pobre todo emprestimo é cobrado. O banco offertará valor dobrado só para algum politico… ou bandido. Si estou fallido, nunca me endivido.
DISSONNETTO PARA DOIS VINTENS EXCAMMOTEADOS [2210]
Errar no troco é coisa que accontesce nas boas e melhores padarias. Por que será, porem, que o caixa exquesce de dar-nos um tostão todos os dias? Vem sempre troco a menos, reconhesce o proprio funccionario, o Malachias. Um troco a mais, jamais, nem que uma prece eu faça àquelle Murphy, que é Messias. Assim, de falha em falha, o Manoel que, claro, é proprietario brazileiro de estirpe lusitana, faz papel mais de banqueiro que dalgum padeiro. Quem é que não se lembra dos centavos que o banco “arredondava” com inteiro e solido consenso? Jamais bravos ficavamos, tão pouco era o dinheiro…
DISSONNETTO PARA UM CHARTÃO QUE NÃO É VERMELHO [2214]
Chartões “corporativos”? Eu tambem desejo para mim essa mammata! Caramba! Ja pensou? A gente tem um saldo illimitado e alheia é a pratta! Gastamos, debitamos… e ninguem nos cobra, fiscaliza, nem delata! Salario é só fachada: o que mantem as comptas dum politico é pirata!
De “plastico”, o dinheiro, quando é nosso, nos custa, cada zero! Eu ca não posso gastal-o sem pagar juros ao banco. Eu, para ser bem franco, um trouxa banco!
Um “alto funccionario”, porem, saca no caixa, torra os zeros, e o babaca aqui sustenta a farra e aguenta o tranco! Que tal isso chamar de “cambio branco”?
DISSONNETTO PARA UMA MOEDA MEHUDA [2269]
Na quotação do dollar, Murphy deita e rolla: quem viaja ao exterior não pode pechinchar que não acceita comprar quando é mais alto seu valor. Na volta, quer vender e, desta feita, encontra o cambio em baixa. Quando for de novo viajar, outra desfeita dos factos: ja subiu… Nunca a favor! Da physica a lei logo se colloca: Si, para variar, Godinho troca, com muita antecedencia, a massaroca de notas que guardou, e lucra nisso, verá que é Murphy cumplice de Sade! Na certa nem terá opportunidade de usar esse dinheiro, pois lhe invade a casa o “amigo” e nelle dá sumiço.
DISSONNETTO PARA O PAGAMENTO DO ALUGUEL [2319]
Ah, não tem como errar! Logo à direita da praça, onde começa a Boa Vista, depois dumas trez portas, é o que dista a entrada, que de pedra é toda feita. No fundo, você advista a escada estreita que dá no consultorio do dentista. Subindo mais um lance, você advista a salla onde as appostas elle acceita. Pergunte pelo Pitta. Lhe dirão que o cara não está, pois você vae quando todos estão, mas elle não. Responda então: “Que pena! É que meu pae mandou pagar o mez! No feriadão eu volto, quando o proximo mez cae!”
Não é mesmo uma puta solução?
Periga só que digam {Ai, ai, ai…}
DISSONNETTO SOBRE A FARINHA POUCA [2780]
Mas isso é exactamente o que se chama comptar com ovo dentro da gallinha! Na crise de alimentos, um fominha irá lucrar, e o povo só reclama!
Mercado que é “futuro” enseja a trama malefica: uma safra ‘inda nem tinha sementes a plantar, e a Bolsa vinha dizer quanto valia o kilo, o gramma!
Na cara está que o que se negocia dez vezes representa o que se planta! Importa a quotação, si ella levanta! Portanto, vae faltar comida, um dia!
Ou vae faltar dinheiro! Assim, quem janta é aquelle que, expertinho, uma fatia daquillo que maior valor valia tirou primeiro, si não temos tanta.
DISSONNETTO SOBRE UM PEÃO E SEU PEZÃO [2837]
Faz tempo que eu trabalho feito um louco, ficando alem da hora, dando um duro damnado, e continuo neste appuro! Estou, mesmo, ganhando muito pouco!
O meu syndicalista está ja rouco de tanto protestar, mas eu procuro ficar fora da greve. Eu sei, atturo demais, mas a champanhe, um dia, expouco!
Duvidam? No momento, falta um zero na ciphra do que eu ganho, tudo bem. Acaso bom salario ganha alguem?
Mas rico é meu patrão, e escravo o quero!
Achei o seu segredo: elle me tem tesão pelo pezão! Vou ser severo, mostrar que ser pisado não tolero por elle, escravizal-o, e augmento vem!
DISSONNETTO SOBRE UM INVESTIDOR FALLIDO [2849]
Meu mundo, ó céus, cahiu! É o que me fez ficar assim, na merda, a mão attraz e addeante a outra… Tanta falta faz a grana, num mundinho tão burguez! No banco, era o gerente mui cortez commigo, emquanto a Bolsa estava assaz euphorica, subindo… Mas as más tendencias retornaram duma vez. Globalizado, o mundo fica, agora, volatil e inseguro. A você, peço, portanto, que me deixe, sem demora. Viver va sua vida, com successo, ao lado de quem saiba quando é hora de acções comprar, vender… Não sei, confesso! Aquelle comptador que me assessora, aquelle, sim, na vida faz progresso!
DISSONNETTO
SOBRE AS BOAS COMPANHIAS E SUAS ACÇÕES [2850]
Prevejo: a solidão vae accabar commigo! É muito estupido quem queira viver nessa esperança a vida inteira! Desisto, e ja nem saio deste bar! Amigo é coisa facil de encontrar, não sendo uma amizade verdadeira. Tambem de achar amante uma maneira bem simples é pagar, num lupanar. Eu quero, todavia, algo sincero: que seja alguma lagryma, que seja ao menos um sorriso… Isso é o que eu quero!
Será que este coitado muito almeja? Será que minhas magoas exaggero? Será pedir demais? Si alguem deseja morrer menos sozinho, juncte zero, mas não à esquerda: o amor vem de bandeja!
DISSONNETTO SOBRE O UFFANISMO E O AFFANISMO [2911]
Perguntam ao poeta: “Donde vens? Que tem o teu paiz? Onde é que está?” Responde elle dizendo que não ha logar melhor no mundo, ou com mais bens. Não valem nossas minas só vintens, nem mares, nem florestas valem, ca, centavos ou tostões. Quem menos dá por nosso solo, extrae-lhe uranio em trens. Pedreiro, garimpeiro, jangadeiro, vaqueiro, boiadeiro, estes jamais verão o que foi feito do dinheiro de leve mencionado nos jornaes. Dos tempos de merreis e de cruzeiro, os poucos pinheiraes e syringaes, e os parcos palmeiraes do brazileiro mal valem bananaes dos mais banaes.
DISSONNETTO SOBRE UM PRIVILEGIADO DESPREVENIDO [2924]
“Eu tenho uma casinha la na praia, só vendo que belleza! A trepadeira floresce na estação e fica inteira de brinco-de-princeza cheia…” (Vaia) “Por que vocês me vaiam? Caso saia do Rio, ha carioca que não queira morar assim? A casa fica à beira dum coqueiral…” (Tomates e mais vaia) “Esperem! O que eu digo é tão sensato! Esperem mais um pouco, até que eu diga como é que, nos cantheiros, dei um tracto…” (Mais vaia, gritaria nada amiga) “Entendo! Vocês moram, que nem ratto, no exgotto! Então, exquesçam a cantiga!” (Agora attiram faca, garfo, pratto vazio, quasi partem para a briga)
DISSONNETTO SOBRE UM MARTELLO BATTIDO [2987]
Na hora do leilão, o leiloeiro
loteia tudo quanto está no prego: “Mulata, violão, samba… Eu entrego trez terços do thesouro brazileiro!”
Seguindo seu exemplo, eu, por dinheiro, penhoro aqui a fortuna que carrego. Do cofre dum podolatra que é cego, trez peças todo mundo quer primeiro:
A bota dum soldado que ‘inda serve nas forças do sertão e do cerrado. Nem dou mais pormenor: só pelo estado da sola, se vê como o pé lhe ferve!
A meia do soldado, sujo o lado de fora e ‘inda, por dentro (Que conserve o cheiro, bom seria!), alguem observe, suada! E o proprio pé, tambem suado!
DISSONNETTO SOBRE A EXCASSEZ DE VERDES [2989]
Aqui temos yoyô, temos yayá!
Ninguem pode dizer que estamos sem bellezas numa terra assim, que tem palmeiras, onde canta o sabiá!
Aqui temos cuscuz e mungunzá!
Palmito ja não ha, de tanto alguem cortar e devastar! Não temos nem palmeiras, onde cante o sabiá!
Até que valeria a pena, sim!
A terra até que é boa, numa farra de rua, em fevereiro, mas, no fim do mez, não sobra grana nem na marra. Terra carnavalesca é, para mim, synonymo de attrazo, que se aggarra à musica, na falta do dindim, e sempre esse problema nos exbarra.
DISSONNETTO SOBRE UMA COBRANÇA FRATERNAL [3003]
Prezado amigo, lembra-se de mim?
Fui eu quem lhe emprestou aquella nota, em data que paresce, hoje, remota, de tanto que esperei pelo dindim. A compta aqui zerou: por isso vim, por meio destas linhas, sem chacota, dizer que nosso prazo ja se exgotta, pois devo, eu proprio, um saldo pro Salim. Ou pago, ou elle engrossa, e eu entro em canna. Espero que me mande logo a grana, sinão descomptarei na sua mana, que, como lhe contei, commigo nana. Não quero batter nella, mas si minha graninha não chegar… Por outra linha, lhe digo que ella paga a piccuinha. Sem mais, cordialmente, o Carapinha.
DISSONNETTO SOBRE UM FUNDO SEM SACCO [3013]
Cabreiro, em caso assim, me posiciono: banqueiro é sempre um cara bem sacana. Nem sei como tem gente que se enganna, ou deixa-se engannar, que nem um mono!
Você, que está cagando no seu throno, responda ao que o jornal jamais explana: quem é que deposita sua grana num banco sem fachada e que tem “dono”?
Um banco tem gerentes, presidente, agencias, accionistas… Não é “Marca” nem “Opportunidade” que se invente!
Si alguem abre uma compta e nessa embarca, sustenta quem não é nem seu parente!
Que amargue esses prejus com os quaes arca!
Mais vale, então, deixar a nota quente debaixo do colchão, ‘inda que parca.
VERDES VANDALOS [3087]
São cinco, mas parescem ser cincoenta aquelles papagayos que, no meio do supermercadinho, dão passeio à solta, pois ninguem os affugenta!
Fechado estava o emporio, em modorrenta manhan de feriadão. As aves, creio, entraram pelo tecto. E que recreio acharam! Quanta coisa o olho lhes tempta!
Daqui pralli, furando com o bicco, não deixam nada intacto! Excorre um monte de grãos no chão, que eu nem identifico!
De tudo quanto é sacco vaza, compte você, mil contehudos! Fica o mico ao dono, e com o estrago se defronte!
Não sendo o proprietario la tão rico, de renda vê mais micha a sua fonte.
ELITISMO VERSUS PROSELYTISMO [3159]
Convicto, um visionario sentencia: só exsiste um mal no mundo: a economia. Até que tem razão, que combinar nós temos. Mas convem ir devagar. O cara, às precauções indifferente, fundou a Antimammonica, uma seita que visa queimar grana e, incrivelmente, encontra quem àquillo se subjeita. De inicio, pede appenas donativo; mais tarde, ao roubo appella e, clandestina, divulga na internet o que um sovina mais teme: ver a arder dinheiro vivo! Depois de tostar muita nota quente, depois de tocar fogo na receita total dum grande premio, um dissidente do lider, emfim, flagra o que suspeita: A grana incinerada é nota fria e um fundo a verdadeira financia.
Assim é sempre. Cabe resalvar: com furos eu, de meias, tenho um par.
MÁ THEMATICA [3162]
É sempre aquelle mesmo ramerrão.
“Cahiu a producção industrial…”
“E as vendas no commercio…” E coisa e tal. Noticias essas sempre encher me vão.
Só sendo, ouvindo os dados, bem masoca! Por cento a mais p’ra la, por cento a menos p’ra ca… Mas essa midia não se toca que a gente quer saber de outros terrenos?
Por numeros somente se interessa quem seja economista ou empresario!
Ao publico normal, noticiario, de facto, são os factos, ora essa!
Si eu pago, uma leitura quero, em troca!
Eu quero assumptos, grandes ou pequenos, e não essa estatistica! Me choca o escandalo! Amo o crime, os nus obscenos!
As comptas no preju sempre me estão!
Da tela, emfim, do radio, ou do jornal, espero o que é banal: sensacional materia de geral repercussão!
BANANA POR PESO [3170]
Perdemos sempre, emquanto passa a vida. Milhão foi, numa scedula, bastante. Não compra, ja, siquer refrigerante a nota que ficou diminuida. Comprando, vez mais cada aqui me privo. Nas hyperinflações, papel-moeda com muitos zeros perde o acquisitivo poder rapidamente, e o vinho azeda. Mas entra sempre em scena o numismata, que, à guisa de alchymista, em metal nobre transforma até cocô… Mesmo que eu dobre a offerta, por merreca elle a arremacta. Ja nada ser mais pode um lenitivo. Eu tive em mãos a nota, mas, na queda, a zero foi. Comprou-a, muito vivo, o mago: hoje ouro puro ella arremeda! Aquella que por mim foi possuida vendi. Me arrependi. Tambem garante valer meu verso um troco outro tractante. Mas este não o vendo! Alguem duvida?
PATRIMONIO CULTURAL [3816]
Papeis velhos, livros, tudo empilhado. De poeira tudo está coberto e, mudo, jaz o radio de madeira. Na poltrona de velludo, bem ao lado da lareira, exquescido, aquelle estudo manuscripto a mofo cheira. Ninguem entra alli faz annos! Si soubessem os insanos filhos, nettos, os herdeiros, dos valores verdadeiros!
Quotação incalculavel teem taes notas… Mais provavel é que as levem os lixeiros ou entupam os boeiros.
DINHEIRO SUADO [3929]
Tentando despistar algum ladrão (e algum policial), elle colloca dinheiro na cueca: a nota toca o sacco, adhere à dobra do colhão. Cem dollares, reaes… As notas não são muitas: cabem, pois, naquella toca insolita, ao contacto da piroca mijada e dos pentelhos do mijão. Não sendo revistado, tira o cara, emfim, de dentro a grana ammarrotada, papel que ao da privada se compara, mas volta a circular na madrugada. O gajo, mesmo tendo mão avara, mais tarde paga alguem com isso, e cada coitado que recebe nem repara na scedula, ja secca, antes mellada.
VALOR SENTIMENTAL (1) [3936]
A madame, quando a mão vae lavar, do dedo tira seu annel, mas o sabão mella a joia de mentira. Excorrega e cae (Ai! Não!) na privada o annel! Se attira a coitada, mas em vão: no cocô some a sapphira! A mulher se desespera: “Puta merda!” a dama falla. Mesmo sendo a joia mera fajutice, quer pegal-a! Se adjoelha, a mão enfia, resgatando a sua opalla, bem no fundo da bacia… Grita, afflicta: o braço entalla!
PECCADO CAPITAL [3962]
Capital, mesmo, só vejo um peccado: o da avareza. Este, sim, é malfazejo, não o orgasmo e a rolla tesa! Quem dinheiro tem, sobejo, mas não quer fazer despesa, este é cego, pois, sem pejo, poupa até na luz accesa! Nem conhesço outro peccado. Quem bem come ou bem fornica não peccou: appenas fica mal, depois de saciado. Tambem vale este recado: Quem seu gosto satisfaz, com mulher ou com rapaz, a mais sempre dá um trocado.
PAPEL SEDOSO (1) [3971]
Eu sou mesmo muito rico, muito mesmo, mesmo muito. Quanto mais eu multiplico, tanto mais é meu intuito.
Appesar de estar no picco dos que brilham no circuito social, me mortifico por motivo o mais fortuito:
Tambem cago, como os pobres!
Tambem fedo ao soltar flato! Mesmo todos os meus cobres não me livram de tal acto!
Toda a grana não impede, nesse instante sujo e chato, que o papel se empappe! E fede minha mão, ao seu contacto!
O CAUTO CAUSO DO ACCUSADO [4168]
Ninguem suspeita que elle é hacker. Jura a mãe que é “rapaz timido”. Começa a dar presentes caros, sem que peça dinheiro nem trabalhe… Coisa obscura! Com seu computador, elle captura as senhas da poupança alheia e, dessa “pesquisa”, ganha a grana! Mas tropeça num grampo, ao telephone. Se dedura e solta seu vulgar vocabulario: “Ahi, belleza, mano? Tá na mão! Limpei a compta toda de outro otario! Passou de cem mil! Porra, que tesão!” A mãe chocada está! {Estellionatario meu filho se tornou! Taes coisas dão processo! Não terei saldo bancario!} Será que dormirá bom somno, ou não?
CRIME COMPENSADO [4579]
O cheque, predatado, preenchido estava com lettrinha desenhada, bonita. Mas, no verso, uma enxurrada de traços e carimbos sem sentido. Sem fundos, circulava, recebido por este e por aquelle, sem que cada credor nelle appostasse um puto, nada: “Alguem vae acceitar isso? Duvido!” Azul, com listas verdes, o papel, bancando o tal valor, nem tão de monta, mostrava-se rasgado numa poncta, por grampos dum bolleto de aluguel. Collado com durex, em sua compta tem saldo negativo, ja rebel a toda carimbada. Alguem, ao bel prazer, sem ter, gastou: cabeça tonta!
DAMNAÇÕES UNIDAS [4713]
Questão controvertida! A Palestina estado quer tornar-se. Tem direito, é claro. Um bom accordo estava acceito entre arabe e judeu, não fosse a mina. A mina, subterranea, sibyllina, symbolica, que impede esse perfeito accordo, é o interesse do subjeito que está, não la, nem perto, nem na China. Bem longe está, por certo, de Israel. Quem mella qualquer chance de fronteira commum haver alli, tem seu quartel num banco americano, é o que me cheira. Não só: tambem está botando fel nas aguas, no petroleo, e vae à feira vender metralhadora ao coronel, em cujo broche exhibe-se a caveira.
POUCO BREVE (1/2) [4735/4736]
(1)
Na greve dos bancarios, muita briga occorre, é o que me contam. Bem na frente da agencia piquetada, está o gerente travando discussão nadinha amiga. Algum syndicalista que se liga a gruppos radicaes o clima quente adjuda a effervescer: põe, de repente, na cara dum o braço e instiga a intriga. Em breve, para o brejo vae a vacca. Em meio à multidão que se agglomera na praça, um par briguento ao chão se attraca, rollando na poeira… Ora, pudera! Um velho quer pagar a compta: a placa advisa que não pode. Vira fera! Só ganha, mesmo, um soco, e nada saca! Peor é quando a compta alguem lhe zera!
(2)
Não chega nem bolleto mais, devido à greve do correio. Si, attrazado, chegar, nem addeanta, pois ao lado ficou desse grevista um outro, unido. Bancarios tambem param, e tem sido assim sempre, em septembro, desaggrado causando em todo aquelle que, coitado, tem comptas a pagar, tudo vencido. Quem quer, de luz cortada, a escuridão? Por isso, eu nem extranho que, na porta da agencia onde os grevistas, cedo, estão, alguem se pegue a tapa… Quem se importa? Depois que algum marmanjo mette a mão num velho apposentado, gente morta sahiu, pois leva um tiro o valentão. Mas luz, si não for paga, alguem a corta…
GREVE
RESERVA DE MERCADO [4845]
Si na crise a Europa está, vaticina o economista: “Temo muito! As bolsas ja signalizam uma pista…”
Si a noticia é, tambem, má nos “Esteites”, nem invista, pois o cara ja nos dá o recado pessimista.
Mesmo quando a situação é normal, o cara não perde o foco: “É preoccupante…”
Crise inventa a todo instante!
Conclusão: não é sciencia, mas só ganha elle audiencia si maus ventos nos garante. Ora, alguem lucrou bastante!
ESPIRITO DESPRENDIDO [4935]
Senhora Zilda Sylva! Queira entrar! Aqui, sente-se aqui! Fique à vontade! Excolha algum docinho que lhe aggrade, café, refresco… Um drinque, quer tomar? Eu tenho um bom licor alli no bar. Não mesmo? Como queira. Na verdade, sabiamos da sua intimidade com elle, desse affair particular. Sim, vamos resolver a coisa, agora! Agora que está morto, por que não abrirmos logo o jogo? O que a senhora deseja? O barco? Os quadros? A mansão? Não? Nada? Tem certeza? Por que chora, senhora? Como assim? Que maldicção? Bobagem! São crendices, lendas, ora! Deixemos os phantasmas onde estão!
SCENA COLORIDA [4976]
Foi dollar sobre dollar, uma nota em cyma d’outra. Forma-se uma pilha de scedulas verdinhas. Engattilha um delles seu revolver. Outro arrocta. Emquanto elles calculam qual a quota que cabe a cada assecla, da quadrilha a pista ja rastreiam. A partilha termina. Alguem foi feito de idiota. Um pappo cordial ninguem agguarda. Reage o que se sente mais lesado. Discutem. Desentendem-se. Não tarda, disparos trocarão, de cada lado. Cahidos varios, mortos, um de farda excappa com a grana. Um desarmado comparsa o vê fugir, mas se accovarda. Ninguem na midia accusa o deputado.
GERENTE COMPETENTE [5247]
Lamento lhe dizer, minha senhora, mas sua caderneta de poupança zerou… Estou dizendo! Ninguem lança aqui, faz tempo, uns creditos! E agora? Não chore, por favor! Eu, quando chora alguem na minha frente, ja ballança meu fragil coração! Mas a cobrança, no banco, é deshumana e tudo ignora! Aqui, no meu trabalho, sou sincero. Então não sacou nada? Não me venha dizer isso, senhora! O saldo é zero! Será que alguem roubou a sua senha? Ah, sinto muito, mesmo! Olhe, não quero ser chato, mas… Que posso fazer? Tenha melhor sorte, na proxima. Eu espero que entenda como a gente aqui se empenha.
SAQUE
SEM SAQUE [5266]
Dinheiro no colchão a velha tinha junctado. Não appenas no colchão: nos potes, nas gavetas… Tantos são os moveis e utensilios da velhinha! Moedas, notas… maços… A mesquinha deixava de comer, mas um tostão gastar nem cogitava. O dinheirão junctado, porem, falta, e ella definha. Seu caso renderá themas de estudo. Sozinha, morrerá. Depois de morta, saqueiam-lhe a mobilia, levam tudo que possa ter valor, janella, porta. A grana, dephasada, como o escudo e o franco, de brinquedo serve. Importa bem menos que o cofrinho mais mehudo à midia que metteu a colher torta.
VOLATILIDADE DO DOLLAR [5289]
Disparam pela rua. Vem attraz, de terno, um assaltado exsecutivo. Na frente, um malandrinho muito vivo, levando-lhe a valise: tem mais gaz. Berrando, o exsecutivo ao povo faz pedidos de soccorro: “O fugitivo meus dollares roubou! Eu não me privo tão facil delles! Peguem o rapaz!” É claro que euphemistico ser tento. Não disse nesses termos. Disse appenas “Soccorro! Fui roubado!” O povo, attento à grana, sempre accorre nessas scenas. Attraz do ladrão correm quando, ao vento aberta, a mala mostra que pequenas as notas não são: voam, cento a cento… Parescem de gallinhas umas pennas.
DISSONNETTO DUM MULATO CORDATO [5307]
O sambista, que à mulata offeresce a caderneta de poupança, della tracta com carinho demais! Eta! A mulata gasta a pratta sem que, ao menos, comprometta sua jura e sem que batta no sambista uma punheta! Nem boquette a mulher faz no dedão do seu pé torto, mas exige do rapaz que só banque seu comforto! Para a nega até canção, dedilhando o pinho, absorpto, faz o otario! A nega não vê o momento de estar morto!
DISSONNETTO DUM BOBO RICO [5341]
Ethelwynna, eu as dezenas accertei na lotteria!
Não trabalho mais! Appenas viajar é o que eu queria!
Não sahi jamais de Alfenas, mas, agora, até a Bahia eu irei! Tambem à Athenas brazileira irei, um dia!
À Veneza brazileira
vou ainda! E estar à beira duma praia carioca!
Sim, você será dondoca!
Gastarei todo o dinheiro no turismo brazileiro, que por dollar ninguem troca! Quer sahir desta malloca?
DISSONNETTO DUM IMPOSTO INDEVIDO [5449]
Da receita federal um programma baixar tento. Quem accessa acha, affinal, o voraz recolhimento.
Tudo inutil. Nada egual ao que quero está, a contento, explicado. O principal não se informa: o xiz por cento. Elles querem que eu sonegue? Imprimir não se consegue um bolleto: quem navegue acha appenas arapucas!
Nem por Cesar! Nem por Christo! Nem por Buddha! Assim, desisto!
Tudo quanto encontro nisto me são formulas malucas!
DISSONNETTO DUM CAPITALISTA DESCALÇO [5458]
Ja faz tempo, mas a gente não se exquesce. Estava a meia dum banqueiro presidente com buracos! Coisa feia!
Sim, furada! Bem na frente, no dedão! Fosse na alheia, na dum pobre, é condizente!
Mas a bolsa delle é cheia!
Si do Banco Mundial o patrão exhibe tal rombo, é como, a dum bancario?
Tem estado mais precario?
Chulepenta tem que estar!
Para fora, o calcanhar excancara o mau salario desse inglorio funccionario!
LYRA NÃO VALE LIRA [5505]
Ouvi fallar dum caso singular. Drummond ja teve minima edição dum livro seu. Até ahi, nós não teremos que extranhar. Facto vulgar. Poetas fazem disso: encommendar tiragens reduzidas. A questão, no caso, é que foi grande a reducção: appenas fez-se um unico exemplar! Mais raro que a mais rara negra rosa! Será verdade? Eu soube que essa rara obrinha foi parar na valiosa estante do empresario que a comprara. O colleccionador tem tambem prosa, segundo me contaram, mas compara os generos e a lyra em libra dosa. Quem é que isso roubar ja não sonhara?
A TESOUREIRA E O THESOUREIRO [5507]
Tem elle, fofoqueira, uma vizinha, que vive commentando sobre a sua funcção no caixa. Alguem que o substitua não ha, diz a velhota à commadrinha. Às vezes, ella chega a ser mesquinha, dizendo que elle juncta e que jejua, mas elle, que excarninho é, não se accua e della falla: é phthisica e definha. Foi, claro, um bafafá rude e insensato. Si fosse appenas guerra de fofoca, seria o mal menor. Mas o boato anima a bandidagem da malloca. Assaltam-no. No bairro, o facto ingrato circula. Elle se muda. Agora, evoca seu nome a fofoqueira, juncto ao gatto. Que pena! Falta assumpto para troca!
UM CANTO NUM CANTHO [5512]
Poeta? Qual poeta! Ninguem dá valor à poesia! Boa herança deixou quando morreu, ninguem se cansa de disso se lembrar, nem a babá. Mas, quanto ao que escreveu… Paresce ja tão velho e dephasado! Na ballança, sonnettos nada valem, nem si alcança milhares um montão que enchendo está. Pinctou, pela mansão, quem muito desse. Os moveis foram todos ao brechó vendidos. Nas gavetas permanesce guardada a papellada. Não dá dó? Mas deixe estar! Alguem, que ja soubesse do merito poetico, quiz só vender tudo em leilão… e o preço cresce. Será que fez poemas minha avó?
MONOPOLIO DO ESPOLIO (1/2) [5519/5520]
(1)
Mal toma posse, o novo presidente confisca do povão toda a poupança. Confia em seu charisma. Liderança suppõe ter ante toda aquella gente. Mas pede que um ministro o represente na hora de informar quem é que dansa nas garras do confisco. Com voz mansa, discursa o titular da pasta quente. Pomposo, pigarreia até, primeiro. “Senhoras e senhores! Communico, em nome do governo, que o dinheiro é nosso. Mais ninguem deve ser rico…” Surpresa! Extarrescido, o brazileiro debatte-se, experneia. Eu puto fico, mas pouco perco. O tempo é justiceiro. Um dia, alguem, sim, fica com o mico.
(2)
Passadas duas decadas, está provado que o phantasma não foi bem expulso do paiz. Ja surge alguem disposto a reviver o bafafá. Mexer na caderneta um ladrão ja propõe, e o poupador vira refem dos especuladores. Falta quem, na latta, diga aonde os mandará. Sahir não pode a coisa, assim, de graça! Suggiro que, ao ministro, quem exhorta à ida a tal logar emprego faça daquelle forte symbolo: uma torta! Cremosa, recheada, tendo a massa bem podre e excrementicia, me comforta que attinja a cara delle, por pirraça! Alguem precisa abrir, da bronca, a porta!
DISTRIBUIÇÃO DE RENDA [5668]
Faz como o Sylvio Sanctos. Si lhe sobra “cascalho”, o gajo, rindo, quer jogar a grana numa praça, por milhar, as scedulas novinhas e sem dobra. Pessoas chegam. Sabem: jamais obra será de charidade. Gargalhar quer elle, divertir-se, ver um mar de gente, mera massa de manobra. A cada nota que elle lança ao ar, levada pelo vento em ziguezague, o povo se engalfinha, faz que estrague a roupa, a grana a pique de rasgar. O cara, appós zoar, retorna ao lar, mas, quando comptas pedem que elle pague, responde com desdem, fazendo blague: “Dinheiro se inventou p’ra não gastar!”
MEME
DO CAMBIO [5915]
{O dollar está caro? Ora, melhor assim! Não acha, Glauco? Para mim, devia augmentar mais! Quem sabe, emfim, accaba a farra, a pandega maior!
Do mundo viajar vão ao redor bem menos, doradvante! Essa chinfrim domestica, a vovó do botequim, terão que fazer comptas, ja, de cor!
Viajem para as praias daqui, porra!
Conhesçam as bellezas do paiz! Sae muito mais barato! Olhe, eu não quiz chamar a faxineira de cachorra!} -- Magina! Quem dirá que nos occorra pensar mal de você! Mas ser juiz da vida alheia, alem desse infeliz conceito, vae fazer que rumor corra…
MISCELLANEA DA MORDOMIA [5969]
Funcciona a coisa publica assim, ó: Precisam os politicos de algum estimulo, só pelo bem commum. Exemplos vocês querem? Vejam só: De auxilio-paletó, de auxilio-calça, auxilio-meia, auxilio-collarinho, gravata, ou fino chromo para a valsa… de tudo elles precisam, pois com vinho barato, café fracco ou seda falsa ninguem trabalha pelo zé-povinho! Declara um senador: “Eu encaminho aquella votação tão logo possa…” “Exforço concentrado” é o excarninho synonymo da farsa que se esboça. “Periculosidade”, outro jeitinho verbal que bem define a raiva nossa…
CHAVE DE CADEIA [5970]
É sempre essencial o thesoureiro. Experto, leva à parte uma caixinha que engorda a sua compta e zera a minha. Por elle passa a scedula primeiro. Aquelle thesoureiro ganha, a cada negocio em que se mette, a respectiva gorgeta e milhõesinhos arrecada. Mas, quando perguntado, elle se exquiva, dizendo que não leva nisso nada comptabil. Claro, embolsa a grana viva! Em nome do partido, elle se priva, coitado, de obstentar tanta riqueza! Até chegar a hora decisiva. Flagrado, emfim, as chartas põe na mesa e conta o que na compta, ora inactiva, restou: os honorarios da defeza.
MISCELLANEA DA HAPPY HOUR [5974]
Alem da beberagem e da droga, Difficil ao politico seria passar sem malversar por um só dia. Por isso o menestrel se desaffoga. Motivos não lhe faltam, pois quem joga o jogo da banal democracia somente desviando se sacia, quer use terno, farda, jeans ou toga. Poeta não malversa. Elle verseja, quebrando ou sem quebrar o pé, mas um politico o fará, caso se eleja. De quebra, quebrará, com seu bumbum pesado, um banco solido, e você ja sentiu que é sempre fetido o seu pum com cheiro de cachaça, de cerveja, de whisky, de bom vinho ou de bom rhum.
MISCELLANEA DA GASTANÇA [6005]
Vão, claro, suggerir prorogação. Appenas um mandato não lhes basta si ainda a grana toda não foi gasta. Precisam de mais tempo! Não é, não? A gente, quando gasta algum tostão, bem sabe como o tempo ca se arrasta até ganharmos outro. Mas contrasta o nosso com aquelle dinheirão. Reforma na politica? Sim, claro! Concordam elles todos ser urgente. Enganna-se, porem, o povo ignaro si achar que a reeleição do presidente accaba! Em logar disso, eu ja comparo o cargo ao do Juvencio ou do Vicente! Mas logo um desses nomes será raro que esteja na lembrança aqui da gente.
MISCELLANEA CIPHRADA [6031]
Nos numeros está o estellionato. Aquella economista explica, experta, que “allarme” é um tanto forte e basta o “allerta”. Mas tudo são só numeros, constato. A bolsa jamais “cae”, ella “despenca”, e o dollar nunca “sobe”, só “dispara”. Mas, como a jornalista evita encrenca, adverte que não acha a acção tão cara e o cambio acha barato. Emquanto elencha problemas, eu, que os tenho, a mando para… Está, sempre blasê, mui “preoccupada” com taxas de inflação, e tudo accerca dos juros lhe “interessa”. Que ella perca dinheiro, eu ca duvido. Perde nada! Eu, sim, me fodo e “appenas” pago cerca de um puto p’ra mandar a desgraçada…
MEME
DA MERRECA [6134]
É logico: o mercado financeiro
não vive só por causa de quem senta em cyma de papeis, mas elle exquenta com base em quem investe. Isso é certeiro. Hem, Glauco? Vae valer nosso dinheiro zero mil, zerocentos e zerenta e zero? Qual mercado se sustenta sem juros, Glauco? Diga-me, parceiro! Si forem reduzir a renda a zero, pergunto, Glauco: Para que poupar? Melhor, então, torrar alli no bar a grana toda! Achou que eu exaggero? Dinheiro que é “de pinga” não é mero trocado, não concorda? Ah, quer tomar commigo umas, Glaucão? Hem? Quer um par comprar de tennis velhos que eu não quero?
PRESTAÇÕES DE COMPTA [6490]
Vontade tenho, Glauco, quando alguem pergunta do dinheiro numa compta conjuncta, de ir às vias contra a affronta! Indagam sobre o saldo que ella tem! Depositos fizeram, mais de cem mil, para a minha esposa? Quanto monta, ao certo? La sei eu! Não me ammedronta que fiquem a fuçar cada vintem! Glaucão, eu quero encher, sim, de porrada a bocca do reporter que me fez pergunta tão incommoda! Cortez terei que ser, caralho? Não, qual nada! Si eu fosse presidente… Ahi, sim, cada centavo ommittiria duma vez!
Ninguem pode saber quanto, por mez, ganhou quem ser honesto sempre brada!
CREDITO
EM COMPTA [6562]
Mentira, Glauco! Tudo mentirinha commum, inoffensiva, que esses filhas da puta transformaram em cerquilhas no twitter e se expalham, linha a linha! Não! Só porque eu fallei que essa damninha questão da correcção tem armadilhas bastante inflacionarias, ja as mattilhas lattiam, ja a patrulha attirar vinha! Appenas eu propuz que se congele qualquer salario, bonus ou pensão! Congelem tudo! Chega de inflação! A velha apposentada a Deus appelle! Quem ganha aquelle minimo ja a pelle não livra, mesmo, dessa crise tão pandemica, caralho! Por que estão chorando? Só de inveja da Michelle?
MULHER RICA [6568]
(para a dona Deborah)
Ja tive muita grana! Tu sabias? Verdade! Dei o golpe da barriga! Não digas que não sabes! Ninguem diga! É o golpe do bahu, por outras vias! Sim, Glauco! Na boceta tu me enfias a rolla! Ahi, engravido! Sim, periga perderes toda a grana que eu consiga levar na divisão dessas fatias! Sim, quanto mais tiveres, mais gentis serão meus advogados! Entendeste?
Não ha melhor negocio, Glaucão, que este! Favor sempre terei dalgum juiz!
Voltando ao que contar-te, então, eu quiz, perdi meu capital! Aquelle peste, meu filho, torrou tudo! Não soubeste? Pois é! Foi eleger-se! Hem? Que paiz!
JOGADA ENSAIADA [6571]
É tudo fingimento, um ensaiado theatro! Vem primeiro o da fazenda dizendo ser preciso que se entenda: “Teremos que tirar do apposentado! Sinão, não tem reforma…” Desaggrado geral, naturalmente. “Então, de renda, teremos novo imposto…” Quem defenda tal coisa não ha, fica combinado. Ahi, o presidente ja ammeaça: {Assim não poderemos implantar a adjuda de emergencia! Por azar, não temos grana para dar de graça…} Ha farsa até na Camara: “Não passa nenhuma lei que venha tributar bancarias transacções!” Por nada dar em nada, dizem: {Nada ha que se faça!}
AGOURO NO THESOURO [6608]
Poeta, adivinhaste! Elle foi la, de facto discursou sobre essa tal moeda alternativa do real! Mas sabe-se la quanto valerá! Na nota de mil mangos, Glaucão, ha effigie do famoso general que fora, na gestão dictatorial, carrasco orgulhosissimo! Será? Ninguem ainda viu a nova nota! Disseram que ella paga, não demora, appenas do operario simples hora num dia de trabalho! Parca quota! Poeta, que prevês? Ja se denota tal hyperinflação? A gente chora sentada, ja sabendo que vigora, em breve e ja de volta, a lei da bota!
PEDALADAS BEM BOLLADAS [6662]
Mas Glauco, precisamos dum programma de renda, alguma bolsa “cidadan”, capaz de soccorrer uma christan familia, pois Jesus a todos ama! Dinheiro falta? Ah, temos uma gamma de fontes p’ra bancar! Acho uma van e falsa discussão, pois ammanhan resolve-se esse rombo! Quem reclama? Si dermos “pedalada”, allegarei: Sim, demos! E dahi? Bah! Quem não dá? Melhor é gastar logo, gastar ja!
Mais tarde, é só mudar alguma lei! Então, Glaucão? Fallei? Justifiquei? Você se convenceu? Não? Tá gagá!
Tá cego! Tá por fora! Venha ca: Você de nada sabe! Eu é que sei!
DINHEIRO SUJO [6707]
Dinheiro na cueca foi motivo de escandalo! Te lembras, Glaucão? Ora, dez annos se passaram! Pois agora no proprio cu se põe dinheiro vivo! Verdade, Glauco! Disso não me exquivo e tenho que contar-te! Para fora botou um senador (Que infeliz hora!) as scedulas das quaes eu ca me privo! Hem? Trinta mil reaes, informa a fonte, estavam “entre as nadegas” do tal politico! Em estado de total nudez, que se aggachar teve! Que monte! Mal pude crer! Mas queres que eu te conte o resto? Não? Ja basta, né? Banal se torna tal funcção policial: ficar dum pelladão senhor defronte!
IMPOSTO DE MERDA [6709]
De merda sei que imposto qualquer é! Proponho, todavia, sobre a bosta cobrar a taxação! Sei que não gosta o rico disso, ué! Nem a ralé! O rico come mais! Come filé mignon, Glaucão! O pobre, quando tosta alguma aponevrose, achou a posta divina! Até melhor de porco um pé! Quem caga mais, mais taxa pagaria! Não acha justo, Glauco? O mais gordão juiz ou senador, que do povão debocha, tem que ser quem financia! Proverbio bem lembrado! Caso, um dia, cocô seja dinheiro, o pobre, então, nascer irá sem cu! Mas pagarão os pobres, sim! Num rico quem confia?
DOURADAS DENTADURAS [6821]
Não é daquelles habitos antigos nem moda poderá ser hoje em dia. Virou, em certos circulos, mania: doar dinheiro vivo para amigos! Em vez de edificar ricos jazigos, que tal ser quem os vivos auxilia? Em vez duma expansão na companhia, que tal prover os pobres duns abrigos? Actores ja famosos, chique gente da musica, das lettras, dos esportes estão ficando velhos e taes cortes nas comptas serão baque indifferente! Hem, Glauco? Nada veta que cê tente pedir uma graninha aos que teem sortes melhores, pois, appós as suas mortes, daqui não levarão ouro no dente!
VOVÓS A SÓS [6885]
Chegando o Natal, vinha a senhorinha olhando umas vitrines na calçada, pensando na nettinha que, coitada, presentes não ganhava nessa linha. A velha decidiu que dar, sim, tinha algum presente desses. Mas si cada custava assim tão caro, que será da poupança da vovó, que é merrequinha? Pediu ao funccionario: “Ponha a minha pequena senha aqui, pois mal eu leio!” Na boa fé, mostrou-lhe, sem receio, a senha do chartão. Mas não convinha… Depois que foi roubada, a ladainha de sempre ella ao gerente contar veiu. Frustrada, consolou-se. Natal meio amargo, pois chorou, quando sozinha…
RECOMEÇAR [6934]
Alguem fallou, Glaucão, que um recomeço depende só da gente, não importa o poncto em que paramos. Recomforta sabermos disso, ou tudo tem seu preço? Ah, va lamber sabão! Eu pelo advesso entendo o palavrorio, lettra morta que sempre foi! Nos abrem uma porta, mas não porque battemos, reconhesço… Não é recomeçar appenas uma vontade pessoal e intransferivel! Depende do buraco, do desnivel da gente em relação aonde rhuma! Na vida não consegue coisa alguma quem fique sem padrinho, si possivel padrinho bem riquinho ou compativel com gente que charutos caros fuma!
EDUCAÇÃO FINANCEIRA [7134]
Si merda fosse grana, ja se disse, o pobre nasceria sem o cu! Mas merda não é grana, Glauco, tu conhesces de sobejo tal mesmice! Ha povos que cultuam a crendice, porem, de que cocô, si dum guru for, pode ser comido, mesmo cru, que sorte nos dará! Nem que eu me risse! Consegues pensar nisso? Um gajo faz poupança, mas ja sabe que essa grana irá render bastante si elle empana e fricta as fezes dum guru sagaz! Mais ‘inda renderá si cruas as comer! Mas o guru, que é bem sacana, as vende! Irás pagar por tal banana, Glaucão, ou papparás outros pappás?
PAPEL SEDOSO (2) [7174]
Assumo que sou mesmo muito rico, mas muito, muito mesmo, mesmo muito! As comptas, quanto mais eu multiplico, não fecham, tanto mais é meu intuito!
Porem eu, appesar de estar no picco daquelles que mais brilham no circuito das rodas sociaes, me mortifico à bessa, por motivo o mais fortuito:
Tambem cago! Sim, cago, como os pobres!
Tambem fedo demais ao soltar flato! Malgrado mesmo todos os meus cobres, jamais eu fico livre de tal acto!
Não, toda a minha grana não impede -- Que merda! -- nesse instante torpe e chato, que um rollo de papel se empappe! E fede a minha fina mão, ao seu contacto!
MOTTE GLOSADO [7432]
Um escandalo é fedido, mas dinheiro não tem cheiro.
Que se punam eu duvido os auctores dum malfeito e, por terem só proveito, um escandalo é fedido. Mas na bocca si fodido eu for quando meu parceiro me cobrar, ou no trazeiro, pouco importa um pau que fede. Cada puto um preço pede, mas dinheiro não tem cheiro.
MOTTE GLOSADO [7539]
Rio, sim, mas não sou rico. Fico rico porque rio.
Fica rico quem, na vida, juncta grana, mas tambem é feliz com o que tem. Não ha cego cuja lida grana dê, caso decida versejar, mas eu confio no meu verso: nelle o cio satisfaço e feliz fico.
Rio, sim, mas não sou rico. Fico rico porque rio.
MOTTE GLOSADO [7596]
O dinheiro, si é verdinho, vae guardado na cueca.
Mala cheia de dinheiro, na politica, é normal. Mas tambem não pega mal levar dollar no trazeiro, na boceta, no primeiro logarzinho onde se pecca. Si alguem molle não defeca, juncto ao recto é bom caminho. O dinheiro, si é verdinho, vae guardado na cueca.
MANIFESTO BOLSISTA [7880]
“Não só Bolsa Familia, nesta terra, exijo que tenhamos! À direita, tambem por Bolsa Lar a gente berra! A Bolsa de Valores Moraes feita foi para nos valer na sancta guerra! Por Bolsa Educação a gente acceita somente aquella civica, que encerra principios e deveres! Foi eleita a gente pela causa! Ninguem erra e segue impune aqui na nossa seita!” Ouvindo o pappo, penso que me ferra o “novo tempo” e sinto à minha expreita estar alguem que a practicas se afferra mais antidemocraticas. Estreita ficando vae a estrada e o carro emperra. De bolsa em bolsa, um bolso se approveita…
MANIFESTO CAPITALISTA [7909]
Oi, gente! Estou aqui, toda lindinha, feliz e loira, para lhes contar que, graças a Jesus, ja fiz a minha fortuna! Sim, milhões! Qualquer milhar eu, linda, multiplico! Nessa linha, embolso eu um milhão! Tal patamar attinjo rapidinho! Ahá! Adivinha! Pyramides? Acções? Jogos de azar? Youtube? Nada disso! Eu, expertinha que sou, virei pastora! Vem um mar de gente no meu templo! Cincoentinha eu cobro de quem chega p’ra beijar meu pé! Sim, fazem fila! Quem caminha na trilha do Senhor, pode esperar! Terá seu pé beijado! Uma sobrinha que tenho, a bispa Zilda, a caminhar assim eu ensignei! Mas, coitadinha, junctou-se, na milicia, com Oscar, aquelle cafetão, um cappetinha que, orando quando rouba um cellular, dá graças pela sorte que expezinha! Euzinha aqui, não quero me levar por essa temptação, pois quem se appinha aqui na minha porta quer pagar, de boa, pela simples bitoquinha! Prefiro que me beijem, em logar de darem queixa! Assim, sem ser mesquinha, eu prego! E o Glauco, uns versos vae me dar?
MANIFESTO MONETARISTA (1/2) [7936]
(1)
“Paresce incrivel, Glauco, mas tem gente otaria nesta terra, a poncto tal num golpe de cahir: cryptomoeda! Commigo pense, Glauco: Quem emitte moeda? Quem fabrica cada nota do meio circulante? Só paizes, governos ou thesouros estataes, correcto? Si qualquer um for fazer dinheiro em casa, sabe o que elle é, né? Falsario, claro! Então como é que alguem “minera” quanto queira, pelo seu caseiro micro, um dollar virtual? Onde é que fica a mina? La na China? Ah, vão tomar no cu! Quem caia nessa meresce se foder, Glauco! Não acha?”
(2)
-- Sim, acho. Mas tambem exsiste crente capaz de pagar dizimo. Natal não é tempo que as trevas arremeda, tal como as “blequefraudes”? Quem admitte que voto ser trocado pela bota é jogo democratico e felizes nós somos si elegemos generaes, só pode estar brincando de “poder directo” ou la que porra for, ué! Ha tanto vigarista que ninguem extranha mais o pappo phariseu dum desses guardiões duma moral fallida. Ninguem liga mais, magina! Politicos não fazem só promessa? Não cobram mais imposto, juro ou taxa?
MANIFESTO MATERIALISTA (1/2) [7953]
(1)
“Eu, como uma analysta financeira quotada que sou, digo-lhe, Glauquinho: Da vida não se leva nada! Nada! Entende, queridinho? É justamente por isso que eu a todos recommendo gastar, sem culpa, a grana, viajar, comer bem, badalar, curtir o luxo possivel e pagavel! Mas p’ra tanto, fofinho meu, nós temos que saber bem como o nosso rico dinheirinho se investe e multiplica, certo? O meio mais rapido e rentavel não é nem poupar na caderneta, que dá pouco, nem bolsa de valores, cujo risco é grande, e sim na rede virtual! Exacto! No cryptouro! Ouviu fallar, Glauquinho? Quer que explique isso melhor?”
(2)
-- Magina! Não precisa! Da maneira emphatica que falla, com carinho, prometto, pensarei nessa jogada! Qual mesmo? Cyberouro? Que se invente não falta, ja, mais nada, ‘tou sabendo, p’ra gente especular… ou applicar, tal como diz você. Ja que sou bruxo, não saco desses saques, mas garanto que sei como ganhar, no bolso ter o tal philosophal poder. Bom vinho e boa pastasciutta ja bem cheio me deixam, minha amiga. Aqui, porem, confesso que me deixa mesmo louco um vicio que não custa, nem petisco algum vale em sabor: o sensual prazer da poesia. Paladar nenhum deu-me o que a lyra dá de cor.
EXEMPTÃO
(1)
DE CORAÇÃO (1/2) [8055]
{Não, Glauco! Ouço fallar, mas não! Commigo jamais! Nem por um pratto de comida eu vendo o meu bom senso! Não! Do joio o trigo que eu separo como boa idéa jamais custa a minha perna, meu braço, nem por ella meu cu fodo! Não sou voto comprado, minha fé nalguma boa causa, no poder vigente, na campanha dum rival, não tem tabellamento de milhões nem mesmo de migalhas! Meu modello tem sido você, Glauco, que, maldicto, por nada se vendeu! Quero seguil-o!}
(2)
-- Tambem estou tranquillo, meu amigo. Eu nunca, veja, nunca nesta vida ganhei um só centavo para appoio dar, seja a algum politico em pessoa, a algum partido, ou mesmo a quem governa. Não, nunca recebi nada. Mas todo subjeito tem seu preço. O meu não é barato. Caso queira alguem saber, eu quero uma cadeira de immortal e, vindo de lambugem, um Camões. Mas, como ninguem paga tanto pelo appoio dum ceguinho, lhe repito que estou, mais do que nunca, bem tranquillo.
PODRE DE RICO (1/2) [8084]
(1)
{Ai, Glauco! Os ricos, muito ricos, são malucos! O dinheiro os enlouquesce! Sabia que Bill Gates inventou… Sim, isso! Uma ecologica privada, capaz de transformar as nossas fezes em agua! Sim, em agua, em agua limpa! Fefito perguntou: “Você bebia tal agua, recyclada do cocô?”
Pois é, nosso querido cocozinho virando uma purissima bebida, fresquinha, transparente… Ou não. Talvez um pouco marromzinha, parescendo café com leite… Hem, Glauco? O que você me diz? Hem? Tomaria aquella aguinha?}
(2)
-- Ué, mas ja bebemos, amigão, tal agua! Nada vejo, mas paresce que sae ja da torneira como entrou, barrenta, cor de terra, amarellada. Por isso vou ficar fazendo theses assim conspiratorias? Minha grimpa nem coço. Sem comptar que bem podia a nossa ser cocô, porem… Hem, pô? Nem mesmo recyclada! Ja adivinho aquillo que você, que se intimida com isso, me dirá, por sua vez. Não sente o coração o que não vendo estão os nossos olhos. Quem não vê perguntas não fará. Quem adivinha?
FOLLOW THE MONEY (1/2) [8526]
(1)
Mais de uma capital ninguem extranha que varias nações tenham. Maravilha tem uma; outra tem grana; nem se accanha aquella onde o dinheiro mais se pilha. Dinheiro é o que em São Paulo mais se ganha, no Rio o que se gasta e que em Brazilia se rouba. A proporção é que é tamanha.
(2)
Não só por ser São Paulo natal minha cidade e ser no Rio que trabalha o Glauco quando joven, mas eu tinha inveja de Brazilia, a mais bandalha. Um dia, a bandalheira mais mesquinha percebo ser geral e que algo valha ter grana ja não creio, ao fim da linha.
PLANO DE CARREIRA [9014]
-- Você está folgadão demais! Precisa de estudo, dum diploma! {Ah, para que?} -- Ué, para vencer na vida! Para, depois de estar formado, trabalhar, ter uma profissão! {Mas para que?}
-- Junctar dinheiro, porra, até poder, um dia, apposentar-se! {E para que?}
-- Caralho, para a vida approveitar! Poder se expreguiçar, sem fazer nada, emquanto for servido por alguem! {Mas disso ja desfructo, pois folgado você mesmo percebe que ja sou!}
-- Porem não ficou rico! Quem está servindo-lhe de escravo ou subalterno? {Você não percebeu? Exploro um cego, que esmollas me repassa, alem de ser eximio fellador! Isso não basta?}
TRADIÇÃO JUDAICA? [9817]
Não, Glauco! Ouro demais não é commigo! Prefiro ter no banco o meu dinheiro, em titulos e fundos investir, em vez de tantas barras ter em casa guardadas! Um amigo meu, Glaucão, que tinha muitas barras no seu cofre domestico, foi uma noite por bandidos visitado! Perdeu tudo e, como um onus triste, ‘inda se viu forçado sujas rollas a chupar! Não diga que você tambem queria ter ouro que guardado fosse em casa!
VIGARICE? [9838]
No conto do vigario ja cahiste, Mattoso? Ja cahi, sim, varias vezes! O golpe mais recente foi aquelle da grana virtual, cryptomoeda, conforme estão chamando… Me venderam um monte dellas, Glauco! No começo, até valorizavam, mas, depois duns mezes, pó viraram, me deixaram durinho, sem nenhum saldo no banco! Compraste ja taes typos de dinheiro? Preferes comprar tennis velhos ja podrões, de tão fedidos? Fazes bom negocio, pois ao menos tens retorno!
PYRAMIDAL? [9988]
Não, Glauco, o meu dinheiro não vae para as pyramides, nem para as virtuaes moedas! Ja perdi muito dinheiro na Bolsa, com os titulos podrões que estavam no mercado, menestrel! Agora, de podrões, bastam os tennis que lambo, dos garotos de programma que custam mais barato que em acções a gente investir, Glauco! Faço bem?
PENDURAMA EM PINDORAMA [10.131]
Está na pindahyba, não a gente mais pobre, que em qualquer logar está, mas todo um povo, Glauco! Ja não ha dinheiro para nada, de repente!
Sim, todo o paiz, Glauco, ja se sente com medo de que logo parar va na lista do calote, pois nem dá mais para pedir grana a algum parente!
Não, Glauco! Meu pae vive endividado e minha mãe gastou tudo que herdara! Eu, como “nem nem”, penso no meu lado!
Mezada ja não ganho! Que mais, cara, me resta? Só vender algum calçado usado para alguem que tenha tara!
VALOR DE FACE [10.140]
Um grande economista ja me disse: “Dos numeros não gosto. Mas admiro quem uso das palavras faz. Confiro dum titulo o valor com sovinice.”
“Palavra, si de titulo servisse, teria, como prosa, curto tiro, mas, como poesia, largo gyro, pois vale mais si eu nunca a desperdice.”
Valor tem, nominal, no seu sentido commum e litteral, o qual, na prosa, até se deprecia, não duvido.
Entendo que, na lyra, alguma rosa é muito mais que flor, pois eu ja lido com uma actriz que posa de charmosa.
DIA DO INVENTOR [10.211]
Me inveje, que inventei uma maneira de grana fabricar em casa, mano! Contar vou em segredo, mas uffano me sinto! Ninguem tanto se endinheira!
Usei “intelligencia”! Foi certeira! Sim, “artificial”! Eu os enganno a todos direitinho com meu plano! Contar vou, mano, caso saber queira!
Produzo desses dollares um monte e expalho na favella! Genial idéa, né? Quer, mano, que eu lhe conte?
Não, dollar é melhor do que real! Menor suspeita attrae! Mas, no desmonte, eu troco por moeda nacional!
DIA DA FAVELLA [10.212]
Tão grande, esta favella, que dá até um jeito de dinheiro proprio termos! Sim, “dollar nacional”! É nesses termos que chamo o trocadinho da ralé!
Nós mesmos fabricamos, Glauco, ué! Assim temos um jeito de comermos! Assim a gente tracta dos enfermos e compra arroz, pheijão, até filé!
É facil! Imprimimos o papel moeda alli na casa desse mano que emprega IA na veia, menestrel!
Ficou dollarizado tudo! Um panno nos passa a auctoridade! Coronel nenhum deixa que entremos pelo cano!
DIA DO AUDITOR [10.322]
Fiz uma auditoria, Glauco, nessa empresa que falliu. Você precisa ver quanta falcatrua que essa lisa cambada commetteu! Cagada à bessa!
Ballanço nem fizeram, não, que meça um rombo desses! Nada suaviza a raiva dos credores, que de brisa não vivem! Mas quem é que se interessa?
A midia faz escandalo, mas basta passar um certo tempo! Uma borracha será passada nessa acção nefasta!
Hem, Glauco? O que você das comptas acha dos cynicos gestores? Quem affasta hypotheses de termos nova taxa?
DIA DO AMIGO ARGENTINO [10.387]
Você, no futebol, zoa commigo, por ter a selecção mais vencedora, e muito mais zoava, si não fora o facto de chamar-me “muy amigo”.
Zombar do seu dinheiro não consigo, embora jamais possa recompor a altissima inflação. Eu, com temor, à sahude sua brindo, “muy amigo”.
Nós ambos, na politica, teremos, tivemos e ‘inda temos esse ranço fascista, auctoritario, nos extremos.
Mas, sendo “muy amigo”, não descanso emquanto não insisto que, sim, vemos bons ponctos em commum, feito o ballanço.
DIA DO PIBINHO [10.474]
Glaucão, um crescimento nós, aqui na America do Sul, teremos, sim! Um indice discreto, para mim ficou claro, mas dá para quem ri!
Sorrir sempre podemos, pois alli nas Africas é muito mais chinfrim a taxa de progresso! Mas, emfim, allivio me deu tudo quanto vi!
Os nossos inimigos ja, sem pena, fallavam que seria negativo o nosso crescimento! Cantilena!
Cahiram do cavallo! Não convivo com esses pessimistas, mas enscena mal quem só vive em clube privativo!
DIA DO LAPIDADOR [10.535]
De joias é que estamos a fallar? De pedras preciosas? Meu pae era do ramo, menestrel! Ah, quem me dera voltarmos ao passado, no meu lar!
Papae tinha a missão peculiar de, para gente fina, ver, à vera si tal ou qual pedrinha ja tivera passado por bom tracto lapidar…
Às vezes, elle mesmo lapidava um bruto diamante para alguem do typo que dinheiro sujo lava!
Perigo, nesses casos, sempre tem, pois, quando cae a casa, mais se aggrava a vida de quem só trabalha bem…
DIA DO OTARIO [10.648]
Dos trouxas, dos otarios, está cheia a nossa assaz vulgar população, poeta! Não concorda? Charlatão nenhum bem se daria numa aldeia!
Mas, numa megalopole, essa teia de extensa falcatrua tem acção logistica perfeita! Algum ladrão que queira ser experto ja allardeia:
“Invista aqui! Garanto um rendimento accyma até da bolsa, accyma até dos fundos, das pyramides, por cento!”
No fundo, o que elle falla appenas é verdade para si mesmo! Lamento? Magina! Quem mandou botarem fé?
DIA DO AUSTERICIDA [10.685]
Não podem gastar tanto! Vocês querem quebrar meu orçamento? Não ha grana, ou antes, “no hay plata” para a gana dos pobres desvalidos! Cês que esperem!
Proponham! Peçam tudo que quizerem, mas pensem no meu lado, pois sacana não sou! Sou responsavel, pô! Se enganna quem queira que meus cofres todos zerem!
A chave do thesouro quem tem? Quem? Quem é que deve dar satisfacção depois que não sobrar nenhum vintem?
Chamar de “austericidio” não vae, não, mexer com os meus nervos! Quem me vem pedir dinheiro cobre do povão!
DIA DO PRIMEIRO TRILLIONARIO [10.768]
Bilhões, Glaucão, de dollares ja tem um monte de empresarios, pela lista da FORBES! Mas nenhum economista calcula que trilhão ja tenha alguem!
Agora apparesceu, no mundo, quem junctado tenha tanto! Uma conquista que vale celebrar, pois dá na vista alguem que ja possua tanto trem!
Sigillo mantem elle? Nada disso! Precisa se exhibir, pois, do contrario, ninguem terá com elle compromisso!
Mas esse ja famoso trillionario terá a melhor mulher, que então submisso o otario manterá! Ja achaste hilario?
DIA DO TRIBUNAL DE COMPTAS [10.781]
Exsistem tribunaes para attestar que todo governante bem emprega as verbas que recebe do collega de bando, ou de partido, emfim, dum par.
Taes comptas, caso venha a rejeitar, aquelle tribunal jamais sossega emquanto não divulga, não entrega à midia as podridões do titular.
Por sua vez, a midia cobra, attacca sem tregua aquelle experto cidadão que leva ao brejo nossa magra vacca.
Surtiu algum effeito? Surtiu? Não! Depois de pouco tempo, nova faca se enfia, por impostos, no povão.
DIA DO JORNALISTA [10.858]
Os nossos jornalistas estão cada vez menos preparados, Glauco! Vejo só jovens, só meninos, com desejo de serem logo celebres! Qual nada!
Nem sabe fallar “sob”, essa cambada! Agora é tudo “sobre”! Não teem pejo de estarem “sobre estresse”! Eu só bocejo, poeta, de preguiça! Que maçada!
No radio, um molecote ensignar quer ouvintes bem mais velhos sobre como ficarem ricos! Esse é seu mester!
Que cara de pau, Glauco! Não embromo e logo digo que elle, si puder, dirá que essa “bitcoin” é um brinde “promo”!
DIA DO GERENTE DE BANCO [11.119]
Seu Glauco, venha, queira se sentar aqui. Está comfortavel? Muito bem! Então vou lhe explicar. O senhor tem na compta appenas isto. Deu azar…
Aquelle enorme credito, com ar de sorte em lotteria, mais de cem milhões, cahiu na sua compta sem razão. Foi um enganno cavallar.
Tivemos que extornar, isso o senhor terá que entender como uma roptina em casos semelhantes, por favor…
Lamento, seu Mattoso. Se previna, na proxima. Não saia a gastar, por favor. A gente tem que ser sovina…
DIA DO DOLLAR [11.225]
O cara assassinado foi, se diz, por causa do dinheiro que exhibia, poeta! Ah, quanta grana! Que quantia polpuda! Quem roubal-a nunca quiz?
Seus dollares mostrou, esse infeliz, a todo mundo! Logico que, um dia, alguem se appoderar delles iria, ainda que mactando o tal juiz!
Verdinhas, essas scedulas de cem formavam grossos maços, ammarrados em volta com elastico, sei bem!
Ouvi fallar que varios delegados disseram que essa grana ja ninguem achou… Claro que entendo os seus cuidados…
DIA DA HABITAÇÃO [11.243]
Você, que investidor é, venha dar appenas uma olhada neste lindo estudio decorado, pois bemvindo será, para morar ou alugar!
Estudio, não: suite! Hem? Que logar bonito! Bem pertinho do confim do metrô, num panorama tão infindo que perde, no horizonte, seu radar!
Invista parcellando! Veja só que plano offerescemos de bandeja! Visite-nos! E traga a sua avó!
Hem? Para que do bollo uma cereja paresça, lhe diremos que chodó será do seu totó! Não lhe sobeja?
SONNETTO USURARIO
[13.355]
Me chamam de sovina, mas eu não admitto! Um avarento, falla alguem? Magina, menestrel! A gente tem pouquinho! Não! De vacca não sou mão!
Suei para junctar cada tostão! Difficil foi ganhar cada vintem! Si juros cobro desses que me veem pedir, acho justissimo, Glaucão!
Agora, só por causa da ammeaça àquelle caloteiro, que fiz, eu sou tido como um sordido reaça?
Não! Nada a ver, Glaucão! Não sou judeu, nem tenho nada contra aquella raça que, experta, algum milhão jamais perdeu!
SONNETTO TEMERARIO
[13.369]
Herdei, Glaucão, dos paes um dinheirão! No banco, fiquei pasmo! O meu gerente me disse que eu podia, de repente, comprar uma mansão, um avião…
Quem é que não tem planos? Hem? Quem não? Em fundos investi, pois dica quente me deu esse gerente intelligente! Mas eram cryptofundos, meu irmão!
De inicio, fui ganhando mais dinheiro naquellas quotações, todas sem base! Aos poucos, não restava nem o cheiro…
Entrei, sim, no vermelho! Fiquei quasi sem calças! A miseria, até, ja beiro! Glaucão, vou michetar! Estou na phase…
SONNETTO INELEGIVEL [13.419]
Attenta, caso queiras planejar a apposentadoria: nenhum plano privado livre fica desse insano imposto do governo! Um puta azar!
Puzeste fé naquelle linguajar fajuto do mercado? Nada, mano! Diziam que Fulano, que Beltrano lucrara, no mais alto patamar!
Tirei eu, da poupança, meu dinheiro suado, que junctei devagarinho, só para pôr no plano! Um surto beiro!
Aquelle fidaputa, de mesquinho intento, me fodeu! Mas ja me inteiro: Jamais se reelege, esse damninho!
SONNETTO INCOMPTABIL
[13.452]
De “caixa dois” ouviste fallar? Não? De grana que, “por fora”, se desvia, tambem não? Nem de “incognita quantia”? Cacete! Estás por fora, meu irmão!
Aqui nós transferimos, de montão, altissimos montantes! Quem iria fazer auditoria? Ah, sahiria da porta affora, a chute e bofetão!
Que entendas duma vez por todas: nem que a vacca ao brejo va, nosso dinheiro será verificado, por ninguem!
Si queres, experneia, companheiro! Nem mesmo Satanaz aqui mantem poderes de fiscal! Cheguei primeiro!
SONNETTO COMPTABIL [13.453]
Não, mestre! Entrou dinheiro? Nós aqui mantemos nossos livros em total controle! Não darei, jamais, aval a rombos e desvios, insisti!
Fallei aos jornalistas, ora! A ti tambem repetirei: age bem mal aquelle que malversa capital alheio! Falcatrua, aqui, não vi!
Talvez, numas gestões passadas, ja bastante grana tenham desviado! Jamais, Glaucão, na minha! Não, não dá!
Si eu fosse metter minha mão, coitado de mim! Me jogariam, camará, a culpa até por golpe dar, de estado!
SONNETTO DO FRAUDADOR [13.529]
Ah, mano! Levei tudo duma compta! Sim, dessas de poupança! Aquelle cara de bunda se fodeu! Deu até para fazer algum emprestimo de monta!
Bobeira deu! Ninguem jamais desmonta eschemas como o nosso! Se compara a nossa astucia àquella, nada rara, dos manos da politica! Ammedronta?
Sim, claro que mettemos medo nessa babaca classe media, attormentada por tanta carestia, que não cessa!
Não quero nem saber, mano, de nada! Poupanças estão mesmo para, à bessa, roubarmos e ‘inda darmos gargalhada!
SONNETTO DO MONETARISMO [13.843]
McCartney ja cantava que, subindo o dollar ou a libra, fica fracca a grana do Brazil. Meia patacca me paga quem achou meu pau bemvindo.
Michê quem for nos tropicos, si lindo, si feio, si expertinho, si babaca, mal ganha, mesmo quando ganha paca. Mais pego outro freguez, mais vou pedindo.
Descompto bom só faço para quem, alem de vate, é cego. Vale, então, alem do seu tostão, o seu sonnetto…
Àquelle que pagou só seu vintem, eu poso de infractor, de valentão, e em sua bocca a suja rolla metto…

Casa de Ferreiro
