Skip to main content

MANUAL DO PASSAGEIRO

Page 1


M A N U A L D O

PASSAGEIRO

Glauco Mattoso

MANUAL DO PASSAGEIRO

São Paulo

Casa de Ferreiro

Manual do passageiro

© Glauco Mattoso, 2026

Editoração, Diagramação e Revisão

Lucio Medeiros

Capa

Concepção: Glauco Mattoso

Execução: Lucio Medeiros

Fotografia: Akira Nishimura

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mattoso, Glauco

MANUAL DO PASSAGEIRO / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 126 Páginas

1.Poesia Brasileira I. Título.

25-1293 CDD B869.1

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira

NOTA INTRODUCTORIA

Impressos ja sahiram muitos livros que estão, hoje, exgottados. Foi por isso que quiz eu resgatar, para formato de ebook ou reimpressas edições, algumas dessas obras. Uma dellas, chamada A BICYCLETA RECYCLADA, abborda varios meios de transporte, dos individuaes aos collectivos, e ganha novo titulo, na serie thematica dos uteis “manuaes”. Bem pode interessar como um artigo de colleccionador a alguns leitores. Na nuvem ficará para que, em breve, espero, se transforme em livro novo.

DISSONNETTO DA BICYCLETA RECYCLADA [1563]

Chamou-a, quando joven, de “magrella”. Agora a está chamando de “sucata”. Ganhou-a nova em folha e ja por ella esteve appaixonado. Hoje a maltracta.

Achava que a cidade bem mais bella seria si as pessoas, desde a matta até o velho centrão, fizessem della seu meio de transporte… Hoje ella é chata.

Não é que elle se sinta algum ricaço: Depois que comprou carro, está mettido a boy de classe media, e não duvido que se ache só o gostoso do pedaço.

Idéa do restante então ja faço: A velha bicycleta, enferrujada, terá sorte de haver sido doada ao circo e ter servido a algum palhaço.

DISSONNETTO AO VIADUCTO [0220]

Pelo Anhangabahu, monumental, na perpendicular se allarga o Cha. Está o Sancta Ephigenia mais p’ra la, como uma torre Eiffel horizontal.

Divide-se a cidade em chão normal e um outro patamar, que a cobrirá do feio centro velho ao Jaraguá, emmaranhando pontes num varal.

Será a avenida como outras serão? Será passar por cyma a sua signa? Que raio de cidade sem vazão, escrava do motor a gazolina!

Mas quem só falla mal não tem razão, pois sob o viaducto ja germina uma população de pé no chão, capaz de se expressar, contra a buzina.

DISSONNETTO AO METRÔ [0221]

Wagão de um olho só, rosto cyclopico. Ao viaducto o tunnel faz espelho. Si caranguejo é o transito, em vermelho, ao Capricornio irá o metrô do tropico.

Ter toda a malha urbana é quasi utopico. Ja crer no velho trem é bom conselho. O trilho subterraneo ‘inda é fedelho. No picco é a ferrovia effeito topico.

Não ha por que fazer errados testes. Em luxo, estylo e astral, ninguem compara uma estação da Luz ou Julio Prestes à Sé ou ao terminal do Jabaquara!

Mas a cidade obstenta novas vestes. Não é mais européa a sua cara, pois nella pisam todos os nordestes e todos os sertões. Sinão, tomara!

DISSONNETTO PERUEIRO [0366]

Direito de ir e vir, na urbana zona, ja vem adjectivado: clandestino. Sem poncto inicial e sem destino, é como andar ao léu, pedir carona.

Milhões de passageiros veem à tonna {vêm} no mar do subemprego citadino. Em rica limusine os leva o fino choffer, e a domicilio os estaciona.

Sem omnibus ou taxi ou trem, o povo o vê como o ceguinho vê seu guia. Sem elle não vou longe: nem me movo. Melhor que caravella em calmaria/

/é ter esse Colombo com seu ovo. Pão nosso, lotação de cada dia! Tambem eu não direi nada de novo si, em sonho, um perueiro me sacia.

DISSONNETTO AO MOTOBOY [0538]

Sem ter por protecção jaqueta ou bota, às vezes nem siquer o capacete, emquanto seus patrões no gabinete relaxam, segue o boy a sua ropta.

Nem sempre anda em vehiculo de frota, possante ou equipado, mas compete no transito e no picco pincta o septe, nos septe às septe entrega e a quota exgotta.

Armado, um delles macta; um outro assalta. Reclamam si as noticias são infames. Algum é descalçado por madames que lambem sola e grana pagam alta.

Não passa, a maioria, nos exames, mas é corrida a vida do peralta! Si um bardo que lhe exalte o drama falta, dependes delle, ainda que o não ames!

DISSONNETTO DO COLLECTIVO [1023]

Num omnibus lotado embarca a bella menina e custa a andar no corredor. No poncto, até chegava ella a suppor que iria se sentar juncto à janella!

Ninguem mais cavalheiro se revela, siquer alguem que descer perto for. A moça cruza o olhar do cobrador, numa expressão que, mudamente, appella.

Não pode o funccionario fazer nada, excepto commentar com um rapaz folgado, sorridente, em tom mordaz, que a gente ja não é bem educada.

Concorda o gajo e, logo, por detraz da bunda della exbarra, dá risada, faz que não é com elle e, uma encoxada a menos ou a mais… ah, tanto faz!

DISSONNETTO DA BANALIDADE INESPERADA [1186]

Metrô lotado é barra! O punk encosta na porta, que se fecha lentamente. Alguns exsecutivos, logo à frente, se expremem, e daquillo ninguem gosta.

Comsigo mesmo, o punk arrisca a apposta: “Só quero ver a panca dessa gente si cuspo na gravata ou bem na lente dos oculos de algum cara-de-bosta!”

Quem gosta duma verde excarradella? Foi dicto e feito: a grossa cusparada respinga, ‘inda espumante, na lapella do terno dum bancario! Sae porrada?

Facada? Lynchamento? Nada! Aquella sahida foi banal: dando risada, o punk excappa e o trouxa os dedos mella! Depois aquillo vira até piada…

DISSONNETTO DA CHUVA INTEMPESTIVA [1271]

A chuva, que era fina, só garoa, augmenta e se converte em aguaceiro. No poncto, sem abrigo, fica inteiro molhado quem da longa espera enjoa.

Nenhum omnibus serve, mas a boa vontade, emfim, compensa: o passageiro advista “Villa Diva” no lettreiro! Suspira, alliviado: o tempo voa!

Mas tem que cada coisa vir errada! Na hora de embarcar, constata, é tanta a força da enxurrada na calçada (e o nivel d’agua a roda ‘inda levanta)/

/que o cara, a roupa toda ja encharcada, desiste e volta attraz! Em casa, a janta será, mais tarde, a sopa requentada. Quem acha azar egual coisa que expanta?

DISSONNETTO DO SAUDOSO ASSOBRADADO [1390]

Vermelho, dois andares, abbahulada cappota e direcção do lado opposto ao nosso: este o busão que, da calçada londrina, advisto. Estou à chuva exposto.

Embarco e, pela estreita e curva escada, alcanço o andar de cyma. Com que gosto me sento, a contemplar esta nublada cidade, onde o rockão fora composto!

Compoz The Who tal saga adolescente. Um omnibus foi magico, e não só à banda que fez delle seu chodó: tambem meu coração saudade sente.

Se tracta de salvar um ambiente. Agora me disseram que abolido seria o vermelhinho, mas duvido que alguem possa appagal-o em minha mente.

DISSONNETTO DA MOTO CONTINUA [1453]

Ligeiro, esse vehiculo que, em meio ao transito, as cidades attravessa! Mas soffre o motoqueiro, com receio dos carros, e correndo risco à bessa.

O motoboy que, rapido, nos veiu trazer uma encommenda, mais depressa ainda leva o proximo correio rodante, sem bloqueio algum que o impeça.

Às vezes, na garuppa vem o cara que armado obstenta estar e nem despista, lhe dando cobertura, que dispara caso, no carro, a victima resista.

Porem o mais commum é, no accidente, jazendo extatellado em plena pista, ser victima o rapaz que, mais à frente, si vivo, não será motocyclista.

DISSONNETTO DA DESGRAÇA POUCA [1518]

Na rua, pouca gente. A noite é fria. Semaphoro vermelho. O carro para. La dentro, o pae, o filho, a mãe, a thia. Armado, da calçada chega um cara.

A thia grita. Arranca, pela via vazia o motorista. Mas dispara um tiro o gajo e, logo addeante, arria ferido no volante quem ousara.

Ainda rindo, tendo pouca pressa, o gajo foge a pé. Desgovernado, o carro sae da pista e tomba ao lado do corrego, onde ha matto e bicho à bessa.

Maior complicação, então, começa. Sahindo do vehiculo, é piccada por varias aranhonas a coitada da thia: os outros ficam livres dessa.

DISSONNETTO

DO GYRO SEM VOLTA [1519]

Mais uma historia urbana: da ballada sahindo, os jovens lotam a perua e partem, na fatal “desabballada carreira”, pneus cantando pela rua.

Chegando ao cruzamento, uma freada mais brusca faz que o carro se destrua depois de cappotar. Ferido, cada rapaz que sobrevive conta a sua.

Ao facto todos elles bem reagem. Morrera o motorista, mas o resto da turma appenas gaba-se do gesto ousado que causara a cappotagem.

Precisa algum dos jovens ter um pagem? Na proxima semana, mais um morre e, ainda de resaca pelo porre, os outros enaltescem-lhe a coragem.

DISSONNETTO DO CARRO DO ANNO [1549]

Chamava-se o carrão de “cadillaque” si fosse ultimo typo e o dono rico. Em sendo o carro velho e tendo acchaque, é como “calhambeque”, eu classifico.

Agora ambos são dados de almanach, mas cada qual ja teve anno de picco. Quem quer que um delles, hoje em dia, emplaque verá que as peças ja não teem fabrico.

Playboys que cadillaques, nos sessenta, usaram, exhibindo-se nas modas de então, só querem hoje barulhenta perua, com tracção nas quattro rodas.

Preferem digital som à buzina que ao somno alheio impoz ja tantas podas e, quando dão carona a uma menina, teem mais trazeiros bancos para as fodas.

DISSONNETTO DA PRISÃO PERPETUA [1629]

Que merda! Essas buzinas, quando está o horario em pleno picco, dão na gente maior irritação do que dará o carro alli parado, à nossa frente!

Ja não bastasse o estresse brabo, ja não fosse tanto attrazo, o impertinente barulho das buzinas deixa má a fé que tem no sancto qualquer crente!

É cada qual das trilhas mais sacana! Variam esses themas: tem o fan dum time, duma banda, do Tarzan e da cavallaria americana!

E cada qual se julga mais bacchana! Assim não dá! Prefiro andar a pé e demorar dois seculos até chegar, que neste carro estar em canna!

DISSONNETTO PARA UM ROCKZINHO ANTIGO [1730]

“Entrei na rua Augusta a cento e vinte por hora…”, é o que cantava o Ronnie Cord. Ja foi aquella rua de requincte, justificando quem assim a abborde.

Butiques, lindas gattas, isso o ouvinte podia até suppor, pois quem recorde batte no velocimetro nem vinte anninhos tem, e seu papae é lorde.

Mas filhos não são gente tão idonea. No tempo dos playboys, foi cadillac o carro cobiçado, e ‘inda de fraque vestia-se um rapaz na ceremonia.

Agora tal noção torna-se erronea. A velha rua abriga appenas putas, emquanto quem tem carro faz disputas nos rachas, bem alem da Villa Sonia.

DISSONNETTO PARA DUAS DORES [1871]

O carro estacionou sobre a calçada bloqueando a passagem da velhinha que, carregando as compras, bem cansada, a custo e devagar andando vinha.

Inconformada que um carrão invada o espaço do pedestre, se abbespinha a velha que, a poder de bengalada, ammassa a lattaria ‘inda novinha.

A crer este episodio não me custa. Fraquinha ja não é, porque o furor se appossa de seu braço! O ammolador que vinha logo attraz até se assusta!

Não é tal personagem tão vetusta! O dono do automovel chega, emfim, e leva, tambem elle, a surra! A mim, no carro a bengalada foi mais justa.

DISSONNETTO PARA UMA VIAGEM PHANTASTICA [1872]

A gorda está, coitada, sem o carro, deixado no mechanico. Terá que, agora, pegar omnibus… Que sarro tiraram os moleques della, ja!

Na porta ella mal passa… Seu bizarro e molle corpanzil colher de cha não dá si, logo attraz, eu nella exbarro: Na proxima freada, aguento eu ca?

Aguenta a turma toda? Aguenta nada! Passar pela catraca? Outro problema! Se expreme, se contorce e, com extrema difficuldade, está desentallada.

Emfim, gente surgiu, civilizada! Alguem cede o logar, mas, quando senta, empurra a magra velha rabugenta de encontro à janellinha ja trincada.

DISSONNETTO PARA UMA VIAGEM ROPTINEIRA [1873]

O carro do conserto sae! Feliz, a gorda pode andar com seu cigarro na bocca, seus bombons, e dar-se um bis sem que ninguém se importe ou tire sarro.

A mim mais me preoccupa si o catarrho lhe vem garganta accyma e, por um triz, a sua cusparada não aggarro nos ares, si a mão ergo e fugir quiz.

Não só nas expressões fica a piada. Não só, pela janella, lança a baba: tambem joga emballagens, quando accaba a balla, o chocolate, a bananada.

A gorda deixa a gente embananada! No banco, ella se expalha e, com seu charme, poder tem de attrahir-me e fascinar-me, alem do que impressiona a molecada.

DISSONNETTO PARA UM ACCIDENTE PRAGUEJADO [1886]

Rapazes que, num carro em disparada, se adjunctam, bollam nova brincadeira: passar pela sargeta e uma expirrada nas pernas nos dar d’agua que mal cheira.

O exgotto alli desagua, e não ha nada mais fetido e mais podre! Bem na beira daquella atroz calçada, uma cansada velhinha, tonta e tropega, se exgueira.

Não vendo diversão siquer parelha, os jovens ja deliram de alegria e passam por alli jogando a fria e suja ducha sobre a pobre velha.

Ha sempre, de esperança, uma scentelha, pois a veloz manobra os faz perder a direcção: o carro vae batter no poste e, dentro, tudo se advermelha.

À frente, são vermelhas. Formam fila as luzes, quasi immoveis. Para traz, quem olha vê pharoes. Uma intranquilla travessa engarrafada gasta o gaz.

O transito é tão lento, que affunila até quando o signal verde se faz visivel na neblina… Definil-a como “veia entupida” não me appraz.

No meio do chaotico scenario, melhor dizer que a rua é feito um cano de exgotto, ou de excremento, num urbano contexto digestivo ou sanitario.

Num quadro escatologico viario, não vale, quando a merda está entallada, gemer ou buzinar, visto que nada desprende esse intestino sedentario.

DISSONNETTO PARA O TRAFEGO TREFEGO [1908]

DISSONNETTO PARA UM CIDADÃO MOTORIZADO [2334]

Andar num carro desses é, na certa, motivo de piada! Ninguem lava os vidros, lattaria, e não estava ligado, no accidente, o pisca-allerta.

Parado em fila dupla, a porta aberta propaga um som bem brega, e nunca a trava funcciona quando a camera ja grava o carro cappotando e um “Oh!” desperta.

Em tudo o tal carrinho lindo pecca! Não tem, de segurança, nenhum cincto, é claro, e seu “pineu” está careca! Chichi de gatto fede o assento, eu sinto!

Grudou na direcção até melleca e, sendo o proprietario tão distincto, nem pasmo si alli mesmo elle defeca, em vez de procurar melhor recincto!

DISSONNETTO PARA A MOTO QUE EU NÃO PILOTO [2378]

O transito, em São Paulo, dia a dia peora, e na garagem ja engarrafa. Nem mesmo sae do predio, e ja se estaffa aquelle que automovel proprio guia.

Quem opta pela moto está, na via que a camera indiscreta photographa, achando que “costura” e, assim, se sapha do proximo gargalo que se cria.

Não vejo outro scenario, ja, tão feio. Pedestres approveitam que parado está tudo na rua e, bem no meio dos carros, attravessam pr’outro lado.

O cego é quem se ferra, pois, em cheio, é pelo motoqueiro attropelado, ainda que não saia do passeio e tenha, ao caminhar, maior cuidado.

DISSONNETTO PARA UMA JUSTA CAUSA [2675]

Patrão, si eu me attrazei foi porque o trem attraza, ou da Central, ou Leopoldina! Accordo às quattro horinhas da matina! Razão p’ra demissão, ah, ninguem tem!

É mais do que lotado que elle vem, mas quem ao seu trabalho se destina não pode reclamar! Nem imagina o apperto si só vem de carro alguem!

Aquelle meu relogio está maluco! Por culpa delle, quasi que me attrazo, pois canta sem motivo o tal do cuco! Mas eu de cucos nunca faço caso.

É só com um problema que eu encuco: o nivel do patrão, que é muito raso! Não posso, nem si a merda virou succo, gastar mais uns minutos la no vaso…

DISSONNETTO SOBRE UM RAPAZ PERTINAZ [2774]

Na rua Augusta entrei na contramão. Voando no meu carro, nem buzina usei. Mas, na calçada, uma menina chamou, sem me notar, minha attenção.

Insisto na buzina, porem não ha jeito de attrahil-a: uma vitrina toda a attenção da joven ja domina, e perco tempo, aqui no meu carrão.

Caralho! De mim ella nem suspeita! Tentando estacionar, eu não consigo nenhuma vaga nessa rua estreita. Na exquina, attropelei mais um mendigo.

Subindo na calçada, desta feita consigo vel-a olhar-me, mas ja sigo em frente, e a loja abbaixo o carro deita. Bem feito! Para todas foi castigo!

DISSONNETTO SOBRE UM GALANTE NO VOLANTE [2865]

Buzina que se preza faz “Fom! Fom!”, e não “Curru! Curru!”: no meu carrão, eu tenho as duas, mas só lanço mão daquella que appresenta melhor som.

Si passo pela praia do Leblon mostrando-me, lindão, na direcção do carro, não ha puta e boy que não deseje uma carona, e eu acho bom.

Galan superdotado me sahi!

Cappota conversivel me permitte expor melhor a cara, que, por si, bastava p’ra que acceitem meu convite.

Mas quero impressionar quem sente aqui no banco do carona e que accredite ser bella a minha mascara que ri. Ninguem mais me supera, aqui na city!

DISSONNETTOS SOBRE O SILENCIO QUEBRADO (1/2) [3004/3005]

(1)

Não posso fazer nada, mesmo nada, que impeça um balladeiro de, no asphalto, cantar, de buzinar, de ouvir som alto, que irá me despertar de madrugada.

A quem vou reclamar, si na ballada bebeu, dansou e, ao passo que estou falto de somno e ja da cama dei um salto, retorna, às trez, de carro, a molecada?

Mas posso, quando o carro, emfim, cappota, mactando os occupantes, ter proveito e, emquanto novamente não me deito, fazer, como vingança, uma chacota.

Prever que, no vellorio, dóe no peito dos paes a morte delles, minha quota preenche e, ao solfejar-lhes, eu na nota mais alta desaffino, a rir: “Bem feito!”

(2)

“Na gloria…” quem cantou não desaffina. Si alguem desaffinou, não é cantor. Aquelle que, porem, cantor não for entoa, com voz grossa ou com voz fina:

“Bem feito!” Eu canto assim, quando, da exquina, escuto uma battida, si o motor de longe vem fazendo, com furor, barulho, às trez ou quattro da matina.

O carro dos moleques, que rangia “peneu”, que buzinava, entrou no poste! Fodeu-se quem brincou! Que a morte arroste! Prensados, elles gemem na agonia.

Ninguem confessará, mesmo que goste da scena, mas eu canto, e a melodia, em tom de quem ha muito não dormia, distorço, caso, rindo, a voz emposte.

TRAIÇOEIROS

AGUACEIROS

(1) [3109]

A cantharos chovendo, um carro, ilhado, não passa pela exquina ja allagada. O pae dirige, e o filho, attento a cada detalhe, olha a calçada do seu lado.

Difficil, por um vidro tão molhado, flagrar com nitidez, mas, como nada lhe excappa, não demora p’ra que invada a salla illuminada dum sobrado.

As coisas são assim, pelo caminho… Emquanto cae a noite e a chuva apperta, la dentro elles festejam, servem vinho, ignoram si a sacada fica aberta.

Comsigo o joven pensa: “No quentinho os caras ‘stão, e eu mofo aqui! Na certa tem pão, salame e queijo, até adivinho! Fartura goza aquella gente experta!”

CARISSIMO CARRINHO [3272]

Alguma novidade sempre vem:

O autonomo automovel não precisa de gente a dirigil-o, a midia advisa. Mas nisso confiança tem alguem?

Sensores movimentam o carrão que, deante dum obstaculo, estaciona, e nunca desrespeita a contramão. Quem nelle quer pegar uma carona?

O genro, do escriptorio, por controle remoto, a sogra leva e traz no carro, sozinha. Dum buraco, expirra barro no vidro aberto, e a velha que se ammole!

No proximo semaphoro, um ladrão apponcta-lhe o revolver: a mandona senhora abbraça a bolsa e diz que não!

O gajo sua cara, então, detona!

Não foi appenas ella. Apposta quem?

De muitas houve a morte: uma pesquisa revela que o carrão se vulgariza. Vocês o comprariam? Que tal? Hem?

MIOLOS EM MOLHO À PAULISTANA [3352]

Coitado do burguez! Ah, coitadinho! Ja teve carro. O transito suffoca e o bolso o convenceu: por moto troca. Será feliz, emfim? Nem adivinho!

Tambem a moto é cara… e barulhenta se mostra: o cara adopta a bicycleta. Pedala, agora… e mais suffoco enfrenta, ainda com mais cara de pateta.

Um omnibus e um carro, lado a lado, seguindo estão, emquanto elle, no meio, dirige a bicycleta. Seu receio é ver-se entre os vehiculos prensado.

Accaba accontescendo: o carro tenta abrir caminho e exmaga esse poeta cyclista: a scena é tragica e sangrenta. Imagens pela midia ninguem veta.

O sangue se expalhou, molhou tudinho. O cerebro se expõe. O quadro choca. No asphalto, a massa passa por passoca, segundo as impressões dum garotinho.

MASSA E RAÇA [3468]

O piloto está na frente e tem chance de ganhar a corrida. De repente, elle cede seu logar.

Seu collega passa. A gente, ammanhan, vae commentar si a manobra foi decente, appesar de impopular.

Va guiar um velho jipe! Que um piloto participe da estrategia duma equipe até pode ser plausivel…

Mas o facto é que o piloto fez papel bastante escroto!

Mesmo sendo um “bom garoto”, se rebaixa ao menor nivel.

DIVA

INTEMPESTIVA

[3930]

Quiz ella andar a pé. Tinha carona, mas, tola, a dispensou. Agora vem andando e, de repente, sente bem no seio um pingo, grosso, a bestalhona.

Appressa o passo. Nota que estaciona um omnibus la longe. Mais ninguem na rua. A chuva augmenta. Ella não tem abrigo onde esperar… E agora, dona?

Molhada, corre, para ver si alcança aquelle collectivo, mas em vão. Chegando ao poncto, resta uma esperança. Talvez ainda achasse lotação…

Quem sabe a chuvarada não ammansa… Quem sabe um taxi… Nada! A inundação se allastra. Ella desiste e quasi dansa na enchente que lhe encharca o sapatão.

ACCIDENTE DE TRANSITO [3933]

Louco, assume a direcção o bandido, em fuga. Segue veloz, pela contramão. Corre, até que alguem o pegue.

E pegal-o, mesmo, vão, si a policia não consegue, outros carros, os que estão na mão certa… Azar do jegue!

Vae o carro collidindo contra tudo, até que um lindo accidente o precipita! O povinho ja se agita!

Piruetas roda no ar ao cahir, antes de dar, explodindo, um fecho à fita que, na rede, está bonita.

UM METRO E MEIO [4459]

No transito, quem segue em linha recta nos engarrafamentos preso fica. Quem faz seus ziguezagues, eis a dica, consegue “costurar” e attinge a meta.

De moto, é bem mais facil. Nem se affecta o audaz motocyclista: prejudica pedestres e automoveis, mas se explica. Só não se justifica a bicycleta.

Ja viram panorama assim tão feio?

Onde é que ja se viu querer alguem, tranquillo, pedalar no asphalto, em meio aos omnibus? Que cerebro elle tem?

Si algum cycloactivista a morrer veiu tentando ser heroe, não quero nem saber, pois nem a pé saio a passeio e fico sempre em casa, muito zen.

ACCIDENTE QUE SE SENTE [4587]

Tomou duas garrafas de bom vinho, daquelles fortes. Ella, a namorada, declara ter tomado agua, mais nada. No carro, o beberrão erra o caminho.

Insiste em dirigir. Falla sozinho, pragueja. A namorada está calada: nem vale discutir. Bifurca a estrada, à frente. Tudo passa rapidinho.

É facil de prever o resultado. Veloz, o caro carro, então, cappota, battendo na mureta. Arremessado, o corpo do rapaz dá cambalhota.

Não consta que o pae tenha se importado si o filho, tão novinho, batte a bota. Lamenta-se o vehiculo importado, que custa, convenhamos, uma nota.

VIOLENTO VENDAVAL [4664]

Mormaço. O temporal que se advizinha assusta: todo mundo corre para algum abrigo. O transito ja para, formando, de automoveis, uma linha.

O vento tudo abballa! Aqui da minha janella, escuto o allarme, que dispara, os gritos, as buzinas… Suspeitara alguem? Fazia sol ‘inda agorinha!

Das arvores mais velhas, a maior se inclina com perigo. Emfim, desaba na rua, attinge tudo ao seu redor. Morar ha quem prefira numa taba!

Desfechos deste typo, os sei de cor. No carro que ficou debaixo, accaba morrendo um velho. A velha está melhor. Salvou-se, mas, gagá, sorri, se gaba.

TETRICO TRECHO KILOMETRICO [4665]

Foi tudo muito rapido: a neblina baixou na pista… Que engavetamento immenso se formou! Não ha quem lento dirija e um accidente assim previna!

Vê varios collidindo e, eis que uma fina tirando, alguem excappa: em movimento, do carro salta! A perda é cem por cento! Prensados, alguns sangram gazolina.

Explode um caminhão! De fogo a bolla se allastra! Para longe dalli corre quem pode! Do barranco um carro rolla! Não ha quem, deante disso, não se borre!

Se mija quem o carro não controla! Quem preso nas ferragens fica, morre! Vem, pelo accostamento, e nem se exfolla, um cego, às tontas, feito alguem de porre.

PANORAMA PUNK [4675]

Tem duas mãos a rua, mas por ella trafegam muitos omnibus, até do typo articulado. Pois não é que um delles encrencou? A scena é bella.

É bella a quem por transito se pella, si esteja engarrafado! Agora a pé caminha o passageiro. Quem café tomando está na exquina, ao chiste appella:

“Prefere ir a pé, cara? Ammassar barro? E então? Prefere andar? Melhor! Assim, mais rapido cê chega, né?” Do carro, alguem faz cara feia, achou ruim.

Da fila de vehiculos, um sarro tirando, aqui fiquei. Não tem mais fim a fila. Eu, da janella, a rir, excarro aquillo que tossi. Sou cruel, sim.

ATTEMPTADO NÃO REIVINDICADO [4679]

“Olé!”, berra o rapaz que, no volante dum omnibus roubado, pela pista dispara, hallucinado. Quando advista alguem na frente, macta, e segue advante!

Mactar! Attropelar! É o que, durante seu rapido trajecto, esse anarchista deseja! Caso nisso elle persista, ainda mactará gente bastante!

Com isso, vez mais cada, a gente lida. Ninguem, nada, o detem! Berrando “Olé!”, o joven psychopatha, na avenida central, advança! E pisa, affunda o pé!

Cappotam carros! Perde alguem a vida de graça! Em ziguezague, corre, até que batte e explode: o algoz se suicida, mas acha que extermina a tal “ralé”…

VIAJANDO NO DESEJO [4789]

Num omnibus lotado, o punk attraz está do funccionario engravatado, no meio dos que estão em pé. Do lado direito deste está mais um rapaz.

Do lado esquerdo, a gorda que está faz diversos movimentos: seu gingado instiga o punk, a poncto de, assanhado, ficar de picca rigida, sem paz!

Tentando approximar-se da gorducha, o punk exbarra, erecto, no subjeito de terno que, num ecstase, extrebucha! Tambem outro desfructa, nesse estreito/

/espaço, da pistola, ou da garrucha do punk, e quer, em sonho, o ter no leito… Me contam e commigo penso: Puxa! Será que isso contaram-me direito?

FORMULA SEM MAGIA [4919]

No radio, uma corrida é transmittida directo da Koréa. Me recordo, emquanto ‘inda enxergava, quem a bordo perdeu, dum desses bolidos, a vida.

Ayrton Senna em scena, uma corrida valia a pena vermos! Hoje, accordo durante a madrugada, mas discordo do horario de verão! Quem o valida?

Nem para passar tempo vale a pena tentar accompanhar a tediosa passagem dos carrinhos, sem o Senna! Ninguem mais ultrapassa! Ninguem posa/

/de heroe, ninguem sorri, ninguem accena egual a elle! O resto, agora, é prosa! Tal como no futiba, cuja arena, Pelé faltando, chamo de engannosa.

A VEZ DA EMBRIAGUEZ [4982]

Bebendo foi mais choppes, mais e mais. Sahiu do bar bebum, cambaleante. Que pode dirigir elle garante, mas outros o convencem, cordiaes.

No carro todos entram. Sem os paes por perto, o molecão quer ao volante ficar. Não, nada disso! Mas, durante o rapido trajecto, enfrenta os taes.

Os taes em pouco tempo se encherão. Emfim, o motorista seu logar lhe cede. Enthusiasmado, o molecão põe no accelerador o calcanhar.

E pisa, pisa fundo! Um avião paresce pilotar! Quando parar, aos poucos, cappotando, ao céu irão aquelles taes, sim. Victimas de azar?

PARADA DESAMPARADA [5089]

Não posso accreditar! Si me encaminho, attraz da Cinelandia, até o logar aonde eu ia sempre, ao retornar do trampo, não encontro o meu bondinho!

Até Sancta Thereza, ja adivinho, os omnibus irão, mas circular sem bonde pelo bairro não tem ar turistico, é banal, é comezinho!

É coisa a mais difficil de suppor! Tiraram o bondinho? Então tiraram a propria alma do bairro! Morador si ainda fosse, estava entre os que param!

No poncto, a gente para e, quando for olhar o que vem vindo, se accabaram os bondes! Só saudade resta, e dor. Eu fico como todos ja ficaram.

CYCLOACTIVISMO NO CIRCUS MAXIMUS [5107]

Destina-se a fazer com que desista de andar de bicycleta qualquer um o caso que me contam, ja commum, agora accontescido na Paulista.

Foi outra mulher: vinha essa cyclista em pleno dia, quando mais nenhum moleque balladeiro está bebum no transito e ninguem corre na pista.

Em these, nada havia de bizarro, mas, mesmo assim, morreu ella, na briga brutal e desegual em meio ao carro e ao omnibus: paresce historia antiga.

Em Roma, nas corridas, quando eu narro que tomba e macta alguem alguma biga, ninguem liga: até gozam, tiram sarro daquella ja antiquissima cantiga.

NECA DE CUECA! [5129]

Unindo dois protestos, “pedalada pellada” foi o nome que, occorrido aos cycloactivistas, fez sentido. A idéa de junctar questões me aggrada.

Assim, a bicycleta berra e brada, no transito, por chance e, si eu decido despir-me connectado, não aggrido pudores, ninguem pode dizer nada.

Eu tenho, pela lyra, dupla meta! Nas redes sociaes, defendo o nu! Nas ruas, eu defendo a bicycleta! Por duas causas, faça-se um rebu!

Mas quero que a nudez seja completa, com sacco no sellim, com chota e cu raspando o couro, sem tirar da recta, sem medo da policia, sem tabu!

DISSONNETTO DUM ESPAÇO EXCASSO [5308]

Façam como esse activista que põe sua bicycleta entre os carros, numa pista cheia, e vejam si isso affecta!

Na avenida, que desista!

Pretender que alguem dê setta, que o respeite, na Paulista, é sandice a mais completa!

Ninguem liga nem condemna!

Mais provavel é que alguem jogue o carro nelle, sem o menor signal de pena!

O debatte se envenena!

Depois, resta que a moçada mobilize-se e a jornada, nos jornaes, faça mais scena.

DISSONNETTO DUM CULTO TUMULTO [5317]

Corre-corre. Gritaria. Quebra-quebra. Barulheira. A velhinha, que antes ria, assustou-se e está cabreira.

Minha nossa! Que seria? Arrastão? Ah, não, Deus queira! Na janella a velha enfia o nariz e os ventos cheira.

A coitada até se borra: Vê, na rua, a molecada destruindo os carros, cada qual mais caro a quem não torra.

Só moleque é quem exporra, mas se entende: são cyclistas que, cansados de nas pistas serem mortos, vão à forra.

DISSONNETTO DUMA FORMULA MAMBEMBE [5414]

O piloto entra no carro e accelera. Mas na pista acha pedras, oleo, barro, e duvida da conquista.

Esse autodromo eu não varro nem lavar quero! Desista quem correr alli! Nem narro o que enfrenta esse esportista!

Na primeira curva, attraz doutro carro elle está, mas a visão fica embaçada e prevejo uma trombada.

Ao batterem, nada sobra dos pilotos, na manobra, e dos carros, tambem, nada. Mais paresce nossa estrada.

MOTOBOY QUE SE REMOE [5770]

Chovendo, o motoboy na vida pensa. Do Alem lhe vem e advisa a voz sensata: “Cuidado! Está molhada a pista!” {Bença, Senhor!}, elle responde em prece grata.

O sobrenatural explica a crença nas vozes dos espiritos: exacta sciencia não exsiste que convença alguem de que um defuncto não nos macta.

Por isso, quando um delles attropela alguem que soffre e morre em hospital de pobres condições, pensa no tal anjinho que da guarda se revela.

Mas, quando um motoqueiro não appella ao proprio protector, será fatal que sonhe toda noite com o mal que fez e a Satanaz deu tanta trella.

O forte calorão nuvem escura formou e, pela tarde, muito vento soprou ao vir a chuva. Num momento terrivel, a tragedia foi mais dura.

Uma arvore tombou. A gente attura taes factos, mas “normaes” eu jamais tento dizer que sejam, Glauco! Que tormento foi ver uma familia alli, insegura!

No carro que, exmagado, dirigia, morreu a mãe. Viveu uma creança, berrando por adjuda! Quasi a alcança um cabo energizado! Triste dia!

Glaucão, estão as arvores, por fria, fatal constatação minha, na dansa maccabra duma chuva que as ballança, ao som da assobiada ventania!

MELODIA MACCABRA [6860]

MANIFESTO URBANISTA [7933]

A linha do metrô leste extendida estava ja, faz tempo, sem que eu nem me desse compta! Appós mais uma ida à casa de mamãe, voltei de trem. Tomei na plataforma errada e vi, da janella do wagão, campos ja sem urbanas areas. Mesmo assim, comprida alléa, aqui e alli, cortava um bem frondoso bosque, em multicolorida verdura, varios verdes tons. Alguem commenta que o metrô para, em seguida, em São José dos Campos. Mais alem, me deixa em Taubaté. Ja na sahida daquelle terminal, meus olhos teem defronte mais frondosas coppas. Vida não quero outra! Que sonho! Muito zen, vou indo por alli, mas dolorida cegueira appaga tudo, pois me vem, agora que accordei, a mais soffrida noção do que é real, que me detem a mente de poeta e me convida, ao menos, a admirar os que em Deus creem.

(1)

O cego, andando a pé pela calçada, está subjeito a trancos e barrancos, degraus, buracos, postes e pestinhas que, sadicos, lhe jogam de banana as cascas aos pés, quando não na cara lhe pisam, caso caia exborrachado.

(2)

Si de omnibus ou trem viaja, aggrada ao Demo que, occupados sendo os bancos, em pé fique, escutando umas gracinhas, levando saphanões dalgum sacana, alem de ter battida a sua avara charteira pelo cara alli do lado.

(3)

Andando de carona na ammassada perua dum parente, pelos flancos levar pode encontrões doutras mesquinhas e velhas lotações, ou da bacchana Mercedes bem blindada. Caso para a pista caia, morre attropelado.

(4)

Normal será. Mas quando um negro, nada de errado tendo feito, de dez brancos soldados, ou tambem negros, das linhas de tiro virou alvo, não se enganna ninguem: a dictadura nos azara de novo e tudo está, de novo, errado.

ALVO DOS ALVOS (1/4) [8011]

PHAROLEIRO MOTOQUEIRO (1/2) [8082]

(1)

{Você, que é meu vizinho, não escuta aquella moto chata que circula sem rhumo pelo bairro, Glauco? Não escuta a barulheira? Pois sabia que disso o proprietario não é boy filhinho de papae nenhum, mas sim um velho, gordo, comico baixote? Pilota a Harley Davidson, Glaucão, só para se exhibir! Só dando volta se expõe no quarteirão! Tenho certeza que seja complexado, corno, brocha e tenha pau pequeno! Não, só pode! Glaucão, calcula a raiva que me dá?}

(2)

-- Escuto, sim, até mandei à puta o dono da tranqueira. A gente fula da vida fica. Aquelle barulhão irrita mesmo. Logico seria que fosse dum playboy. Mas quem remoe rancor do cara appenas por ruim de cama ser, faltar-lhe melhor dote erotico, não creio que razão meresça. Revelar sua revolta podia parescer, tambem, burgueza inveja, não podia? De galocha é chato o gajo. Poncto. Mas se fode quem pensa só na grana. Xa p’ra la!

INFINITILHO VERMELHO (1/3) [8113]

(1)

Signal verde, vermelho, verde… Mas nem quando fica verde livre fica o transito. Uma longa fila vae, de poncta a poncta, pela rua toda. Os carros buzinando vão, mas nada resolve tal barulho. O motorista que, preso no vehiculo, se estressa é visto por pedestres e por gente que mora alli na rua como um pato.

(2)

Nem sempre taes pessoas são tão más, mas, quando se engarrafa a coisa, a zica de quem está nos carros nellas trae a sadica tendencia. Que se foda desejam ao choffer. Ficam, de cada sacada, janellinha, porta, à vista de todos, caçoando, rindo dessa ralé motorizada. Mui contente percebo o transeunte mais pacato.

(3)

Qualquer velhinha mostra-se mordaz, qualquer moleque exfrega a sua picca, qualquer porteiro ja no riso cae, qualquer vovó sorri, qualquer vovô da desgraça alheia goza na calçada. Eu mesmo, que me julgo masochista, divirto-me com isso, sim, à bessa. Até battendo palmas ha quem tente fazer festa. Aliaz, eu tambem batto.

DIA DA INDUSTRIA AUTOMOBILISTICA [10.240]

Verdade, Glauco! Tive um “romisetta”! Carrinho de trez rodas! Se recorda? Agora mais ninguem tal thema abborda, mas quero fallar! Ouça, me prometta!

Um plano tenho, Glauco, não é peta: Pretendo fabricar um, bem na borda daquelle modellito! Ocê discorda de tudo que me venha na veneta!

Se lembra do Gurgel? Pois eu tambem, por compta propria, ainda monto o meu! Sim, falta grana… Sempre estive sem!

Eu, hem? Um “karman”, “fusca”, “alpha romeu” são coisas do passado! O meu ja vem com asas! Ou meu sonho se perdeu?

DIA DAS VICTIMAS DO TRANSITO [10.308]

Não tive culpa, Glauco! Si charteira nem tenho, como posso saber disso? O carro desviou no allagadiço asphalto! Não direi que fiz besteira!

Mas, Glauco, quem mandou, alli na beira da praça, aquelle povo do cortiço ficar parado? Um tempo desperdiço freando? Nem pensar! Jeito maneira!

Passei por cyma, Glauco, dessa gente todinha! Mas problema não terei, pois fica a auctoridade indifferente!

Si eu fosse de maior, ahi nem sei que pena pegaria! Quem se sente de lucto que se vire com a lei!

DIA DA AUTO ESCHOLA [10.315]

Glaucão, me dá até medo quando vejo um carro que é de eschola! A qualquer hora um desses, sem os freios, collabora com mais um accidente no varejo!

Um dia vi, no meio dum cortejo de enterro, um desses carros! Sem demora, sahi dalli! Não é que, rua affora, o carro põe à prova seu mollejo?

Um engavetamento provocou, ainda attropelando, de lambuja, a turma do passeio! Horrivel show!

Coitado, meu, daquelle que não fuja a tempo dum vehiculo que, estou sabendo, nem um tanque sobrepuja!

DIA DO OMNIBUS [10.381]

Os trolleybus dos tempos de creança, antigos, importados, tinham cara dum omnibus londrino. Faltou, para ser um, ter dois andares, na lembrança.

Um omnibus electrico não cansa o ouvido com barulho, não dispara tal qual la, pelo Atterro, se repara que seja carioca algum que advança.

Mas chifres tem, precisa ter um trilho aereo, onde se prenda. Superado conceito, dizem. Acham empecilho.

Sim, delle bem me lembro, pois, dum lado mais lyrico, meus olhos maravilho emquanto não estou, ‘inda, cegado.

DIA DO AVIADOR CIVIL [10.477]

Sim, Glauco, o meu jactinho regulares tem todos os registros! Foi somente mau tempo o que causou tal accidente na pista de Congonhas, si notares!

Ou achas que preencho os meus logares no jacto com a gente incompetente que está na aviação? Não, essa gente não quero ter commigo pelos ares!

Que culpa tenho, Glauco, si milhares perderam os seus voos e estão ‘inda alli no aeroporto, sem jantares?

A minha aeronave, que é tão linda, appenas, si nas coisas reparares, perdeu seu trem de pouso! O caso finda!

DIA DO CYCLISTA [10.487]

Andar de bicycleta na cidade é coisa para poucos que coragem demonstram, Glauco! Muitos assim agem só para se exhibirem, na verdade!

Que esporte seja, Glauco, ninguem ha de negar! Mas acho muita sacanagem quererem ja me impor cada viagem montado num sellim! Que falsidade!

Magina! A gente, Glauco, que trabalha de terno, de gravata, agora tendo de expor-se pedalando! Não me calha!

Num transito terrivel, num horrendo calor, mas nem a pau que eu, nessa tralha, aqui me locomovo! Tá sabendo?

DIA DO NORDESTINO [10.536]

Um delles namorei, Glaucão! O cara orgulho tinha à bessa, com razão, da sua capital, Recife! Não conhesço outras, mas nisto se repara:

O trolleybus! Passava de la para ca, pelas pontes, dando uma impressão de rua paulistana! Tal busão sumiu do mappa, aqui! Não la, tomara!

Recife, qual Veneza brazileira, seduz pelos palacios, pela beira da praia, mas me dá medo, tambem!

Sim, pelos tubarões! Ah, ninguem queira mordido ser por elles! De maneira concreta! A figurada a gente nem…

DIA DO MECHANICO [10.591]

Seu carro tem defeito? Que não seja por isso! Um bom mechanico dará, na certa, a solução! Defeitos ha, mas todos consertaveis, mano! Veja!

Aquella rebimboca, de bandeja, para a parafuseta parará de falhas provocar, meu camará! Você paga ao mechanico uma breja!

Mas, mesmo que defeito nenhum haja, o gajo um achará! Sinão, Maria, qual é sua vantagem, cara gaja?

Não sei das profissões o que seria sem essa embromação que não ultraja ninguem, mas no Brazil todos vicia…

DIA DO CARRO VOADOR NACIONAL [10.615]

Mixtura de helicoptero com carro, o rapido vehiculo não tem motor a gazolina, mas, alem de electrico, não pesa, como narro!

Não pesa nem no bolso, esse bizarro carrinho, menestrel! Só custa cem mil pillas! Hem? Quem é que isso não vem gastando com licor ou com cigarro?

Em breve, estará sobre esta cidade um monte desses carros voadores, poeta! Resistir-lhes, hem, quem ha de?

Sim, pelos ares podes, si tu fores ao medico, ganhar velocidade! Ou queres ter, recluso, os estertores?

DIA DA CHARTEIRA DE MOTORISTA [10.617]

Charteira? Para que, si é do meu pae o carro, Glauco? Para accelerar preciso ser treinado, porra? Azar daquelle que estiver alli e não sae!

Pessoas na calçada? Nenhum ai por ellas! Que se fodam! Do logar que fujam, ou irei attropelar sem pena! À merda mando, o gajo vae!

O carro do papae é mesmo caro! Sim, posso cappotar, mas ‘inda assim excappo! Mactei varios, eu reparo!

Hem? Teste do bafometro? De mim eu quero longe! Sou menor, declaro, não soffro, logo, nada de ruim!

DIA DO FUSCA [10.687]

Os ricos emergentes obstentar desejam loucamente, trovador! Comprar querem, de griffe, superior pisante, fora aquelle cellular!

Que importa si teriam de ficar na fila dos ingressos, seu suor na cara lhe excorrendo? Si é cantor da moda, caro gostam de pagar!

Mas, quando um empresario billionario à rua sae, de fusca dirigindo sozinho vae, qualquer que seja o horario!

Seu terno não tem nada, nem de lindo, tampouco de elegante! Funccionario commum paresce, como que fingindo!

DIA DO CYCLOVIAJANTE [10.723]

Alem de pedalar por uma estrada deserta e ser chamada de palhaça, passou pela Amazonia! Ora, ha desgraça mais certa e previsivel, camarada?

É claro que seria assassinada, Glaucão! É necessario que se faça alguma appuração do que se passa na selva, mas tal thema até me enfada!

É risco calculado, equivalente ao picco do Everest entre alpinistas! Agora, que essa historia a gente aguente!

Respeito quem almeja mais conquistas, mas sempre nós devemos ter em mente que são desmiolados taes cyclistas!

DIA DO HELICOPTERO DESAPPARESCIDO [10.749]

Teimosos, insistiram esses septe politicos. Queriam repousar no norte litoral. Mas o logar tem matta fechadissima, sem net.

Batata. Alli na matta quem se mette não chega a seu destino. Foi pousar o dono do helicoptero no mar, ou seja, affundou. Haja quem se affecte!

Nadaram só trez. Pela praia, mal puderam andar. Era muito matto. Seguiu-os um terrivel animal.

Havia lobishomens no local. Cadaveres achados, foi sensato dar vagos pormenores no jornal.

A gente entrava pela de traz, ia directo na catraca, porque cheio ficava meu busão, naquelle feio trajecto de infernal peripheria.

Pagava-se com grana. Até podia alguem passar por baixo ou, sem receio, pullar. Mas o Systema poz um freio, com grade na catraca, certo dia.

Lotava, às vezes, tanto, que do lado de fora pendurava-se a gallera. Sorrindo, o cobrador via, animado…

De terno, de valise, eu tinha mera figura de pingente, eis que o solado dos outros me exbarrava… Mas bom era!

DIA DO COBRADOR DE OMNIBUS [10.758]

OUTRO DIA DO FUSCA [10.799]

Você ja andou de taxi quando o fusca ainda aqui rodava, vate? Então reforça a minha these, pois estão fallando que a memoria se me offusca!

Está tudo bem nitido! Quem busca lembrar-se, lhe dirá que banco não havia ao passageiro alli, sinão attraz! E era a freada sempre brusca!

Detalhes tão pequenos… A chordinha puxando, o motorista fecha a porta depois que o passageiro entrou… Sim, tinha!

Ou acha que deliro? Nem do cheiro do assento reclamava quem a minha lembrança compartilha, companheiro!

DIA DE EMPINAR PIPA [10.912]

Me lembro… Um motoqueiro teve sua cabeça separada, totalmente, do corpo! Foi cerol, que muita gente colloca ao empinar pipa na rua!

A practica, poeta, continua, embora a auctoridade sempre tente taes mortes evitar! Estou contente por ter sobrevivido à scena crua!

Eu vinha pilotando na avenida que corta a descampada zona aqui da peripha… À minha frente, outra motoca…

Morreu decapitado, o joven! Vi, da maneira mais concreta, como lida com isso quem, sem pena, nem se toca…

DIA DO TRANSITO TRANQUILLO [10.965]

O transito, aos domingos, é tranquillo. Ou isso é o que se espera. Mas occorre que sempre exsiste alguem que está de porre e encontra alguem que só pensa naquillo.

Ou seja, em violencia. Num vacillo, no carro uma creança, facil, morre por causa duma briga. Quem desforre não falta. Como posso definil-o?

Um curto de pavio? Um trouxa armado? Um ebrio psychopatha? Não importa. O tiro pega, no outro carro, o lado.

Accerta, caprichoso, bem na porta. Alli estava a creança. Algum culpado foi pego? Não. Mais uma linha torta.

DIA DO MAIO AMARELLO [11.100]

Adoro provocar um accidente de transito, Glaucão! Quando, no Orkut, havia aquelles themas, Belzebuth nos dava as instrucções, a sangue quente!

A gente attropelava, cara! A gente passava no signal! Mas quem dispute um racha ja não ha! Só se discute questão de “segurança”! Ha quem aguente?

Um rico molecote, no volante, podia attropelar uma velhinha! Que sarro! Que tesão! Eu ri bastante!

Em taes “communidades” foi, durante um tempo, uma delicia! Você minha vontade entende, certo? Não se expante!

DIA

DA INDUSTRIA AERONAUTICA [11.254]

Hem? Carros voadores, mestre, estão ja sendo fabricados? Quem está cuidando disso? Posso dizer ja que seja a aeronautica, Glaucão?

Eu acho que isso gera confusão! Do transito, quem cuida? Alguem irá dizer que, nas alturas, ja não ha mais regras? Accidentes rollarão!

Sem rua limitada, sem exquina, vehiculos quetaes farão total bagunça pelos ares, se imagina!

Não quero nem pensar! Meu carro mal dirijo! Um cidadão que se previna, olhando para cyma! Ahi, que tal?

DIA DO ANTIGOMOBILISTA [11.271]

Vehiculos antigos collecciona aquelle meu amigo, que é bem rico! Por isso o gosto delle justifico: Tem grana p’ra gastar até na zona!

Um dia, até peguei uma carona na romisetta delle, e verifico que estava de pileque quem tal mico bollou, Glaucão! Aquillo não funcciona!

Trez rodas? Como pode? Direcção na porta, que está aberta pela frente? Não entro mais naquillo, Glauco, não!

Até que eu curto um carro differente, mas isso foi demais! Meu amigão que encontre um zero fusca! Ao menos tente!

DIA MUNDIAL DA MINIATURA [11.409]

No Macy’s, magazine la de fora, achei, de dois andares, um busão lindão, em miniatura. Por que não guardal-o? Sim, o tenho até agora.

Um omnibus londrino, que decora aquelle meu armario onde estão, tão junctinhos, tantos livros que me são mais caros. Uns duzentos são, por ora.

Um cego vulneravel fica. Ja tentaram me roubar a miniatura, mas ella se salvou. Se salvará.

Em Londres nem circula mais? Mas dura, commigo, tal brinquedo, pois está na mão duma amorosa creatura.

DIA MUNICIPAL DA NAVEGABILIDADE [11.436]

Aquatico transporte, Glauco! Não sabia? Sim, Pinheiros, Tietê, represas… Navegaveis são! Você precisa se informar melhor, Glaucão!

Os barcos mais modernos estarão cruzando, para allivio de quem vê, as aguas ja limpissimas! Cadê que estavam polluidas, meu irmão?

Appenas é preciso ter cuidado, a fim de que não caia n’agua alguem que medo tenha dum selvagem lado…

Piranhas, jacarés, aos montes, teem taes aguas, ja potaveis, povoado e podem belliscar você, tambem!

DIA NACIONAL DAS LINHAS TORTAS [11.504]

Está Sancta Thereza, volta e meia, de novo na berlinda. Morei la em annos septentistas, quando ja creava alguma coisa que se leia.

O bonde ainda sobe, serpenteia por ruas imperiaes e voltas dá na beira dos abysmos, mas eu ca commigo indago: “Em bondes ha quem creia?”

Sim, penso que o bondinho representa aquillo que é possivel preservar de magico, ou nonsense, nos septenta.

Em plena dictadura, a gente attenta estava ao pacifismo, num lunar mundinho, que a memoria só requenta.

DIA NACIONAL DA SCENA TERRENA [11.561]

{As aguas sobem tanto, quando vem a chuva de verão, que sae do carro quem vinha dirigindo! O que lhe narro occorre muito, Glauco! Veja bem!}

{Ao tecto do vehiculo elle tem que, rapido, subir! Mas é bizarro o caso, pois as aguas, mais o barro, não param de subir! Aguenta quem?}

{Até que, excorregando, o gajo cae naquellas aguas, vendo todo mundo! Seu corpo, ja não visto, longe vae!}

-- Sei disso. Ouço no radio. Caro sae e exime-se o politico. Eu redundo si indago: “Quem perdeu crerá no Pae?”

SONNETTO DA CORRIDA A COMBINAR [11.737]

Desculpe perguntar, mas o senhor é cego de nascença? Não? Caralho! Nem posso imaginar, nesse trabalho de taxi, que sou disso um portador!

Nem oculos eu tenho! Nem suppor eu quero, porra! Ainda bem que eu calho bem para dirigir! Pego um attalho e estou, livre do transito, onde for!

Tesão por enxergar? Ah, que engraçado! Pensei foi justamente nisso! Sinto, não digo que não sinto! Olho o meu lado!

Sim, penso no senhor, que está ferrado, que diz ser chupador, sim, ja que instincto não falta! Adoro mesmo ser chupado!

SONNETTO DO COLLECTIVO SELECTIVO [11.805]

Num omnibus lotado, o passageiro, sem mascara, primeiro pigarreia. Depois passa a tossir. A bocca cheia lhe fica. De cachaça tem mau cheiro.

E tosse, tosse, tosse… O corpo inteiro saccode. Mais a coisa fica feia: A pique de excarrar, ja não refreia seu impeto. O catarrho sae certeiro.

Aquella gosma verde gruda feito chiclette no cabello da senhora sentada à frente. Gritam: “Para fora!”

{Não toquem em mim! Puro preconceito! Appenas porque tenho o virus? Ora!} Dalli todos excappam sem demora.

SONNETTO DO ENGARRAFAMENTO [11.832]

Mas, cara, agora a tudo só de carro se vae, até em testagem e cinema! Agora, quem de casa sahir tema só sae si for assim! Não é bizarro?

Sahindo, cara, a pé, sempre eu exbarro em agglomerações! Não, nesse eschema não dá p’ra ser feliz! Glauco, que thema legal para poema, né? Que sarro!

Você pode fazer, Glaucão, um monte de estrophes p’ra contar casos assim, de gente nesse transito sem fim…

Pensou, Glaucão, em algo? Quer que eu conte o caso da menina que p’ra mim olhou, sorriu da rua? Deu ruim…

SONNETTO DO ESTRADEIRO ADVENTUREIRO [12.013]

Estrada perigosa paca, aquella! Estreita, tinha pouco movimento de dia, mas à noite eu era attento aos riscos! Quem tem crença à sancta appella!

Que riscos? Ora, Glauco! Cê não gela de medo dum vivente? Eu não enfrento um desses lobishomens! Que tormento si penso num que vi pela janella!

O carro correr muito não podia! Sahiu do matto um monstro, na certeira vontade de pegar alguem que guia!

Tentou pullar no carro! Sim, queria quebrar o vidro, entrar! Que tremedeira! Se desequilibrou! Ficou na via!

SONNETTO DUM CAUSÃO SEM PRECAUÇÃO [12.033]

Choveu? É mau o tempo? Olh’eu ahi, correndo pela rua, feito athleta! Às vezes, saio a andar de bicycleta emquanto os carros berram seu “Bi! Bi!”

Eu gosto do perigo, Glauco! Vi a morte bem de perto! Quem completa septenta, como a gente, tem por meta bem mais longe chegar, e não alli!

Vivi bastante, Glauco! Não preciso temer, nem ter prudencia para andar descalço, sem de tennis nenhum par!

Não, Glauco! O calçadão nem plano ou liso é, nada! Por que insiste em perguntar si callos tenho, ou grosso o calcanhar?

SONNETTO DA RAZÃO PROCURADA [12.316]

Glaucão, por que razão sou desejada assim por motoristas? Hem, Glaucão? Será que quem dirige caminhão prefere travestis? Gente engraçada!

Não seja, não, por isso, nem por nada! De quem me dá carona a rolla não recuso nunca! Chupo com tesão, ainda que ensebada, que exporrada!

Mas acho mesmo, Glauco, que elles curtem a minha rolla, sempre bem mais grossa, à delles comparada! Cê me endossa?

Você duvida, Glauco, que elles surtem, malucos de tesão? Pois surtam! Nossa! Preferem ser comidos! Sim, sem troça!

SONNETTO DO TURISMO FLUVIAL [12.319]

Turistica, Glaucão, uma barcaça daquelle typo achei, mas um perigo tremendo representa, meu amigo! Si alguem cahir na roda… Que desgraça!

Não ha rockão bonito que me faça tirar da cuca aquillo! Não consigo! O velho quiz brincar! Foi seu castigo! Damnou-se! Na cabeça a scena passa!

As pás daquella roda mortaes são!

O velho quiz fazer o seu chichi… Se desequilibrou, o babacão!

Rapaz, eu nem lhe conto! Um tubarão não causa tal estrago! Sangue vi! Aqui paro. Os leitores chiar vão!

SONNETTO DO EMBALLO FERROVIARIO [12.320]

Por trilhos, vae mais rapido quem quer chegar, com certo nivel de comforto, a algum logar! O corpo todo torto tem quem chegar num omnibus quizer!

O trem desaccelera si tiver que dar uma parada, mas absorpto mantenho-me, pensando nalgum porto distante, num carinho de mulher…

Não sendo de navio, um camarote tambem é comfortavel quando o trem nocturno preferimos… Charme tem…

Cahi ja, caro Glauco, nesse trote de estar a pé, de noite, qual refem dos bichos e bandidos, sem porem…

SONNETTO DA CARONEIRA DE CAMINHONEIRO [12.325]

Ai, Glauco! Não, você nem accredita no que eu vou lhe contar! Caminhoneiro nenhum me recusou carona! Beiro estradas ja faz tempo! Sou bonita!

Sou sexy! Ninguem diz que parasita sou desses motoristas! Dou, primeiro, signal com meu sorriso, que é brejeiro e muito seductor! Isso os excita!

Ahi, ja recebida de bom grado, gostosa chupetinha nelles faço! Glaucão, cada cacete ensebadaço!

Então, quando percebem que, do lado de ca, tenho o maior pau do pedaço, os gajos enlouquescem! Um abbraço!

SONNETTO DA BANDA VIAJANTE [12.327]

Problema, Glauco, nunca foi tocar em publico, me expor como rockeiro que encara gente pobre e de dinheiro, daqui, dalli, de, emfim, qualquer logar!

Problema mesmo, ó vate, é viajar! Detesto tal perfil que, de “estradeiro”, percorre este paiz enorme inteiro! Peor é quando temos que voar!

Você ja viajou num avião pequeno, um tecoteco, Glauco? Não? Nem queira! Accidentados muitos são!

Morreu o Buddy Holly e um meninão chamado Ritchie Valens… Não, Glaucão! Prefiro ser anonymo, hoje, então!

SONNETTO DO MALUQUETTE [12.449]

Estou ligeiramente maluquinho, Glaucão, nada de muito grave, não! Appenas, vez por outra, com a mão na testa, batto firme e me abbespinho!

Commentam que eu, então, me endemoninho e passo a commetter esse montão de coisas descabidas… Mas estão errados! Só tomei, Glaucão, um vinho!

Você tambem não toma? Qual poeta não bebe um vinhozinho, não commette loucuras, não pinctou, jamais, o septe?

Às vezes, pelladão, na bicycleta eu saio pedalando, mas repete o povo que sou louco, um maluquette!

SONNETTO DA MOTO CARA E BARULHENTA [12.481]

Tem grana, mas se sente infeliz, tão malquisto, mal amado, rejeitado por todas as mulheres… Sempre ao lado estão ellas dum gajo bonitão!

Mas elle tem complexo, ja que não consegue com nenhuma resultado algum, depois de tanto ter tentado! Pudera! De estar triste tem razão!

Baixote, carequinha, pau pequeno, que brocha até battendo uma punheta, jamais arranjará, mesmo, boceta!

Coitado! Só compensa seu terreno perdido si pilota, de veneta, a sua Harley Davidson! Sem peta!

SONNETTO DO CEGO E DA CEGA [12.523]

O cego, que namora com a cega, quer ir e vir, aonde for, com ella. Difficil é saber quem se extatella mais, quem menos tropeça ou excorrega.

Provoca gargalhada, quando pega alguma conducção, aquella bella duplinha, a bengalar. Toda a favella com ambos se diverte, ninguem nega.

Num omnibus lotado, o casal ia subir, quando cahiu della a bengala. Ninguem adjuda. Ninguem iria achal-a…

Si forem de metrô, causa alegria no povo um braço preso, um pé na valla, a perna que na porta ja se entalla…

SONNETTO DO SUPERLOTADO COLLECTIVO [13.213]

Glaucão, entrei num omnibus que estava lotado! Muita gente em pé, bastante suor e exfregação! Ninguem garante que esteja a sua bunda livre e brava!

Mais gente entrando, o rollo ja se aggrava! Alguem, que por traz chega, tem gigante caralho, que me empurra mais addeante! Mas finco o pé! Nem ligo! Que va à fava!

Notando o gajo que eu indifferente fingia me encontrar, fez mais pressão, ainda mais! Quem é que isso não sente?

Magina! Appertadissimo, o tesão se impunha! Appós sentir uma semente molhando-me, exporrei! Quem é que não?

SONNETTO DO HORARIO DE PICCO [13.214]

Glaucão, vou te contar! Eu no metrô estava! Sempre em pé, porque ninguem consegue se sentar! Não é que vem um gajo me pisar no pezão, pô?

Não era aquella scena mais pornô, do typo que, num omnibus, mantem bumbuns e paus em lubrico vaevem, mas, ‘inda assim, fui feito de pivô!

Emquanto olhava para a mulherona que estava à sua frente, elle fazia pressão, pisando firme! Isso funcciona…

Em clima de total podolatria, gozei! Me molhei todo! Numa conna será que esse sacana pensaria?

SONNETTO DO PASSAGEIRO APPRESSADO [13.215]

Glaucão, entrei num trem superlotado! Estava do meu lado, sempre em pé, um typico mendigo da ralé mais baixa, morador dum elevado!

Sujissimo, fedido, desaggrado causava! Bem, nos outros mais até que em mim, eis que pensei no seu chulé, por dentro do velhissimo calçado!

Nem pude perceber si elle fedia mais forte no pezão ou no restante do corpo… Mas entrei em agonia!

Ah, quasi que propuz esse pisante comprar, pagar-lhe um novo! Todavia, nem tempo deu! Sahiu logo, offegante!

SONNETTO DA PASSAGEIRA ROPTINEIRA [13.216]

Ai, Glauco, pô! Ninguem respeita mais mulher nenhuma nesse trem lotado que eu tenho de tomar! Sempre do lado me fica algum machão, desses brutaes!

O gajo vae forçando os sexuaes contactos e nem liga si me evado ou não do corpanzil quente e suado que encosta, que se exfrega! Ai dos meus ais!

Embora de indignada me fingindo, não posso disfarsar que estou molhada! Hem? Claro que esse gajo não é lindo!

Um ogro mais paresce! Bem, ja nada importa, pois o gajo vae sahindo depressa, antes d’a porta ser fechada!

SONNETTO DO PASSAGEIRO

MANEIRO [13.217]

Glaucão, todo garoto que se sente, num omnibus, quietinho, do meu lado, me causa agitação e não me evado daquelle tesãozinho que se sente!

Sim, sinto o seu corpão suado, quente, e penso no chulé que, num calçado bastante encardidão e detonado, tresanda duma sola adolescente!

Não é que esse moleque logo nota que estou excitadissimo? Ora, ahi que pisa no meu pé com a tal bota!

Não é que me cochicha, bem aqui no ouvido, que elle fundo mette e bota na cara do freguez seu pé? Cê ri?

SONNETTO FERROVIARIO [13.365]

Em vez dum viaducto, uma porteira. Um trecho da avenida, assim parado, fazia a divisão, de cada lado, dos engarrafamentos. Que canseira!

O trem era de carga. Alli na beira ficavam esperando, com enfado, os muitos motoristas. Mas coitado, tambem, dalgum pedestre! Ninguem queira!

Um bebado, opinando que tem pressa, os trilhos perigosos attravessa e, claro, foi colhido pelo trem…

Na photo, o sangue expalha gotta à bessa. As visceras expirram. Quem com essa visão ainda almossa hamburger? Hem?

SONNETTO AEROVIARIO

[13.370]

Irmãos, fiquei sabendo que bassês não podem viajar num avião, excepto na bagagem! Isso não! Jamais acceitarei! Não sei vocês!

Eu sempre desses voos fui freguez, mas, hoje, só viajo com meu cão! “Supporte emocional”, dizem… Então, precisa vir commigo! Sem talvez!

Si fico com medinho na viagem, eu ganho mil lambeijos do bassê! Cachorros bem treinados assim agem…

Vocês viajam sem alguem que dê lambidas de carinho? Foi bobagem aquillo que fizeram! Quem não vê?

SONNETTO RODOVIARIO [13.373]

No meio da viagem, faz parada um omnibus, num hermo local. Cae a noite e, nessas horas, hem, quem sae à caça? Lobishomens! Que enrascada!

Temor de que, do nada, algum invada aquelle collectivo, logo um ai causou nos passageiros. Um ja vae limpar-se da fatidica cagada.

Por causa do conserto, que demora, a noite passarão alli, morrendo de medo. Uma creança, afflicta, chora.

De subito, ouvem todos um horrendo, uivante berro. Quando uma senhora infarcta, vae o sol apparescendo.

SONNETTO IMPREVISIVEL

[13.418]

Reparem, meus senhores, nesse carro electrico que está no meu jardim! Orgulho nos dará! Creiam em mim! Mais tarde, lembrarão do que lhes narro!

Do carro o fabricante tira sarro dos carros de motor antigo! Sim, É nossa solução, por mais dimdim que custe! Lhes paresce tão bizarro?

(Trez mezes depois…) Vejam só que latta comprei eu, de sardinha! Tal sucata é cara demais! Nada soluciona!

Motor a gazolina não empatta a foda! Foda-se esse tal magnata! Nem pego no seu carro uma carona!

SONNETTO DO CARONA [13.521]

Bandido que é bandido nunca chora. Aguenta, na garuppa da motoca, o risco da veloz fuga, na troca de tiros com os tiras, toda hora.

Depois de ter roubado outro boboca que estava na calçada, sem demora excappa até das cameras e fora está da lei, no rhumo da malloca.

Por vezes, na arriscada curva, cae da moto, se rallando todo, mas, ainda assim, não chora nenhum ai.

Cahida a moto, ja de compta faz que é mero transeunte e, livre, sae de scena, alheio ao corpo que alli jaz.

SONNETTO DO ASSALTADO [13.523]

À noite, eu dois levava no meu carro. A rir, annunciaram que era assalto e, como de recursos estou falto, o taxi lhes deixei. Tiravam sarro…

O gosto delles, mestre, era bizarro! Quizeram que eu chupasse e, em pleno asphalto, foderam minha bocca! Quando ao alto olhei, riam bastante! É como narro!

Appós gozarem, iam me mactar e tive que implorar no chão, lambendo seus tennis poeirentos, para azar…

Mas sorte tive eu: esse intento horrendo frustrou-se… Vinha gente e, logo, o par fugiu! A pé fiquei, mas graças rendo…

SONNETTO DOS ASSALTANTES [13.524]

Eu mais um mano, Glauco, um motorista de taxi, noite dessas, assaltamos. Ficamos com o carro. Tambem amos quizemos ser. Eu sempre fui sarrista…

Fizemos que chupasse e minha lista de victimas fataes, sem mais reclamos, iria augmentar. Sempre que gozamos, pensamos em mactar: isso me enrista!

Mas elle teve sorte. Inda lambia meus tennis, quando veiu gente. Então fugimos, e ficou alli na via…

Sim, cara, acho mactar o mor tesão, ainda mais si está quem me sacia chupando-me e implorando… Por que não?

SONNETTO DA

FUNILARIA [13.601]

Alguem, num diccionario contrastivo, achou “funilaria”, que seria egual à “lanternagem” e teria, em terras paulistanas, bom motivo.

Meu carro, quando o batto, não me exquivo de entrar em officina que, na via, conserte poesia. Se annuncia que tudo tem remedio ou curativo.

Aqui, quando um poema ammassadinho ficou, a gente logo o desammassa, repincta, arrhuma tudo com carinho.

Não ha bom motorista que não faça alguma barbeiragem. Rapidinho, comtudo, o meu carrinho volta à praça.

SONNETTO DA LANTERNAGEM [13.602]

Alguem, num diccionario contrastivo, achou que é “lanternagem”, mas seria o mesmo que dizer “funilaria” em terras paulistanas. Bom motivo.

Meu carro, quando o batto, não me exquivo de entrar em officina que, na via, conserte poesia. Se annuncia que tudo tem remedio ou curativo.

Aqui, quando um poema ammassadinho ficou, a gente logo o desammassa, repincta, arrhuma tudo com carinho.

Não ha bom motorista que não faça alguma barbeiragem. Rapidinho, comtudo, o meu carrinho volta à praça.

SONNETTO DA PINCTURA [13.603]

O carro que batti, desammassado em toda a sua bella lattaria, agora ja rebrilha pela via, rodando para tudo quanto é lado.

Poemas tambem pedem resultado perfeito, num conserto que exigia pericia, appós quebrado o pé, num dia de errada sorte e estando mau seu fado.

Aquella cor metallica, tão linda, talvez se recupere, si eu fizer trabalho que se preze. É hora, ainda.

Poeta que se orgulhe do mester capricha nos retoques. Nunca finda, porem, a mettidinha de colher.

SONNETTO

DA DEPREDAÇÃO [13.612]

Um simples estylingue, Glauco, basta p’ra turma appedrejar, na rua, algum vehiculo! Quem queira seu bumbum seguro, na janella não o gasta!

Ainda que prazer de pederasta desfructe, sua bocca de bebum não ponha para fora, nunca, dum carrão! Mais se garante quem se affasta!

À noite, essa attrevida molecada attira pedras contra quem a cara exponha nas janellas! Fechem cada!

Alem de quebrar vidros, teem a tara de encher algumas boccas de exporrada! Cuidado! Ou então torçam, né? Tomara!

SONNETTO

DO CYCLISMO [13.667]

Não, nunca consegui me equilibrar em cyma dessa typica magrella, mas sempre invejei esses que por ella amor teem… Mal eu ando, devagar…

Ja desde cedo, cego, que esperar, aos poucos, me tornar eu tive. Bella imagem de quem agil se revela, em duas rodas, faço, ouso fallar…

Aquella molecada, alli na villa, formava a maior gangue e, pedalando, corria, sem ninguem a perseguil-a…

Cahisse este cegueta ao seu commando, na certa chuparia aquella fila de jovens sorridentes, me zoando…

SONNETTO DO AUTOMOBILISMO [13.695]

Glaucão, eu taco pau no meu carrinho! Carrinho de corrida, sim senhor! Eu tenho pelos carros um amor maior do que qualquer outro carinho!

Aos sabbados, à pista me encaminho e escuto os meninões que veem se expor torcendo por um rhoncho de motor! Sim, ouço os seus gritinhos direitinho!

Berrou “Taca-lhe pau! Taca-lhe pau!” um delles e, empolgado, pisei fundo! Sahi fora da pista! Rodei, Glau!

Mas veja as ironias deste mundo! Cheguei no garotão com verve e… Crau! Por elle eis que fracção foi de segundo!

SONNETTO DO ANTIGOMOBILISMO [13.720]

Eu tinha, Glauco, um fusca, desses mais antigos, de minuscula janella na parte de traz! Quem se lembra della? Modellos taes são mesmo originaes!

Deixei-o com meu filho, mas jamais suppuz que elle faria aquella bella reforma no vehiculo! Quem zela não deixa com ninguem reliquias taes!

O carro ficou todo remendado, Glaucão! Nem parescia mais um fusca! Chorei ao ver o triste resultado!

Bem feito! De licção serviu! Quem busca, encontra! Meu Landau, ja que excaldado estou, mantem-se preto! O brilho offusca!

SONNETTO DO MOTOCYCLISMO [13.907]

Como é que a gente apprende a rastejar melhor, a lamber botas? Hem, Glaucão? Só mesmo um motoboy sabe ensignar a gente a bem usar nosso linguão!

Eu proprio respondi por meu quinhão de estoica lambeção naquelle par enorme de botinas! Que licção de vida! Que emoção! Foi exemplar!

Me lembro muito desse motoqueiro que fora meu cruel dominador! Me lembro dessas botas, do seu cheiro!

Ah, como as lambi! Como seu sabor senti quando as limpei! Pago o dinheiro que for noutra sessão! Pago o que for!

SONNETTO DO CELETISMO [13.969]

Charteiras assignadas, trovador, ninguem mais necessita para achar emprego regular, pois, no radar, são varias as funcções ao seu dispor!

Você pode fingir que entregador é, desses motoqueiros que, com ar honesto, de encommendas a algum lar tem sido, meramente, portador!

Mas, quando for roubar um cellular dalguem que, na calçada, se distrae, irá qualquer charteira appresentar?

Magina! Foi besteira desse pae da patria achar que emprego regular ja basta ao povão! Nessa, Glau, quem cae?

SONNETTO DO LOBBYSMO [13.998]

Um lobby estou fazendo, no Congresso, a fim de que prohibam ao bassê identicos direitos que um bebê possue, em aviões, de ter ingresso!

Bassês são mesmo fofos e confesso que entendo por que sempre tem quem dê logar na janellinha ao cão, que vê vantagem quando vae ou no regresso…

Não, mestre! Esses bassês ficaram tão folgados, que preferem viajar na classe especial dum avião!

Tomaram totalmente meu logar e, quando reclamei, quiz um fofão daquelles uns lambeijos vir me dar…

Casa de Ferreiro

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook