

MANUAL DO
S U I C I D A
Glauco Mattoso
MANUAL DO SUICIDA
São Paulo
Casa de Ferreiro
Manual do suicida
© Glauco Mattoso, 2026
Editoração, Diagramação e Revisão
Lucio Medeiros
Capa
Concepção: Glauco Mattoso
Execução: Lucio Medeiros
Fotografia: Akira Nishimura
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Mattoso, Glauco
MANUAL DO SUICIDA / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 116 Páginas
1.Poesia Brasileira I. Título.
25-1293 CDD B869.1
Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira
NOTA INTRODUCTORIA ou
DIA DO SUICIDA [10.903]
Ja fiz ao suicidio uns versos bem sinceros, pois respeito o suicida. Ninguem pode dispor da sua vida, excepto o proprio gajo, nada alem.
Mas como, em sociedade, sempre tem quem queira decidir, então decida! Opine, então! Prohiba! Mais convida quem pense em se mactar! Ao caso vem!
Só sabe, em philosophica attitude, si deve se dar cabo, quem está podendo reflectir. Eu nunca pude.
Cegando lentamente, cheguei ja bem perto desse gesto, juventude perdi, mas me diria alguem: “Não va!”
CURRICULO LYRICO [0005]
Do seculo a metade foi segunda. Primeiro da metade foi seu anno. Tambem deste o semestre e, salvo enganno, penultimo o seu dia. Não confunda.
Frustrado suicida, pecha immunda assume em seu fetiche, mas o damno maior foi a cegueira. Mais insano ainda, o vicio lyrico em que abunda.
Poeta fescennino, do sonnetto fez sua mais maniaca paixão. Tambem de dissonnetto dá licção. Mentaes, as lettras vê, brancas, no preto:
“Não dei à luz meus livros todos, não plantei mil bananeiras, não commetto reprises suicidas, nem prometto ter filhos que desmintam meu tesão.”
DISSONNETTO SUICIDA [0334]
Do Stefan foi desgosto pela guerra. Tambem Sanctos Dumont foi desalento. O de Torquato e Pericles lamento, mas o de Allende ou Hitler nada encerra.
Razões de Anna Christina estão na terra. Jim Jones e outros loucos nem commento. Mishima foi solenne em seu intento. No de Getulio o povo é quem mais berra.
Difficil é saber quando é covarde ou quando é da coragem o disfarse. Alguem perdeu? Alguem quer entregar-se? É cedo? É tempestivo? É sempre tarde?
Talvez eternidade na catharse ou immortalidade sem allarde. Talvez o fatalismo que me agguarde. Ninguem derropta a morte sem mactar-se.
DISSONNETTO
DA JACA MADURA [1190]
Está virando moda despencarem as taes “celebridades” da janella, sacada, ou dum terraço: ja se vella mais uma, e as que restaram se preparem!
Algumas teem por sorte que as apparem na queda um anjo attento e que bem zela. O facto é que quem mora na favella não tem donde cahir… Só si pullarem!
O pobre tem opção: o viaducto em Sampa e, la no Rio, o proprio morro. Maduro, se exborracha feito um fructo! O rico cae do apê, ganha soccorro…
E até se recupera! Não discuto. Sei la si não será disso que morro! Fiquei com a cegueira ja tão puto que quasi a um tombo desses eu recorro!
DISSONNETTO DA VERGONHA NA CARA [1282]
Ministro, que no escandalo é flagrado, commette suicidio, se enforcando até numa colleira si, dum bando detido, é como cumplice accusado.
Mas só la no Japão! Aqui, um saphado mantem amantes varias, sustentando a todas com seu cargo no commando da mesa, quer na Camara ou Senado.
Tivesse este a vergonha que la teem, mactava-se empalado com um cabo de enxada ou de vassoura! E agia bem! Aqui, desvia, rouba algum nababo.
Um delles é peitudo: não ha quem lhe metta uma vareta pelo rabo. Só resta agguardar que elle caia, sem perdão, nas labaredas do Diabo.
DISSONNETTO DO MORTO DE VERGONHA [1334]
Mactou-se mais um japa, só porque teria de depor sobre o desvio daquella bagatella! Mas o brio pesou, e se mactou, veja você!
Si fosse no Brazil… Ah, qual o que! Teriam de mactar-se, a sangue frio, metade dos politicos! Eu rio si alguem me diz que nisso ainda crê!
Metade? Nada disso: a maioria! Pensando bem, de novo rectifico: mactar-se devem todos, eu diria. Um delles menos pobre, outro mais rico…
Ninguem se salva. E, quando a gente chia, debocham da gentalha, como o Kiko. Nos termos da melhor democracia, o Chaves para a Camara eu indico.
DISSONNETTO DA MORTE PRELIBADA [1336]
Dormi profundamente! A madrugada paresce ter passado num instante! Não tive pesadellos, nem com nada lembrei de ter sonhado, de importante.
Emquanto muita gente na ballada varou a noite, a musica dansante troquei pela caminha accolchoada e nisso sei haver algo que expante:
Pegar assim no somno! Roptineiro, a poncto de babar no travesseiro, jamais me foi na vida um lance egual. Commigo não será, jamais, normal.
Talvez seja por causa deste gosto que sinto appós sonnettos ter composto fallando, entre os descansos, dum fatal, é que esse lance deixe impressão tal.
DISSONNETTO DO ALTO DO PÃO DE ASSUCAR [1368]
Sahindo do bondinho, ja me expanto que caiba, la no topo, um bosque, até, com trilhas que conduzem a um recantho tão calmo… Mas o risco sei qual é.
Paresce, para quem percorre a pé, que tudo aquillo é plano. Si, no entanto, o matto ultrapassar e marcha à ré não der a tempo, peça a mão do sancto!
O abysmo abre-se a um passo, em rocha pura. Em metros, uns trezentos isso dá e quem se precipita dessa altura até morrer bom tempo levará.
Emquanto despencar, voará vendo scenario sem egual de cyma la: ainda que presinta o fim horrendo, que o Rio de Janeiro lindo está!
DISSONNETTO DA BOA MORTE [1632]
Suspiro, si for ultimo, ninguem deseja dal-o cedo, nem bemvindo será para o velhinho: quando alguem pergunta, elle diz “Não!”, triste, mas rindo.
A gente, que morrer, um dia tem, mas como? De repente? Ja dormindo? Aos poucos? De doença? Quando vem de subito, ha quem acha morrer “lindo”.
“Cadaver, eu? Defuncto? Porra, meu!” “Morrer? Eu, não! Você que se decida!” “Melhor primeiro ir outro, mas não eu!” O facto é que se mostra appego à vida.
Si implora uma euthanasia, o paciente, embora de molestia dolorida, ainda assim a regra não desmente, pois nem por suas mãos se suicida.
DISSONNETTO PARA A FALTA DE NOTICIAS [1909]
De vez em quando, alguem, com quem não fallo faz tempo, me pergunta como vou. Que devo responder? Cumprimental-o, é claro, porque, emfim, elle me achou.
Tambem dizer-lhe que feliz estou por ser ‘inda lembrado, ja que o callo maior, no pé do ausente, é si do show não faz mais parte, mesmo no intervallo.
Mas pede-me noticias quem me escreve e, ainda que eu pretenda ser bem breve, não acho o que contar: então me exquivo, na falta dum assumpto ou dum motivo.
Aqui tudo na mesma, é o que lhe digo, pois esta é a melhor nova que um amigo espera ouvir de alguem que ‘inda está vivo, cansado dum dever tão cansativo.
DISSONNETTO PARA UMA VELHA PERGUNTA [2046]
Accerca do motivo por que escrevo perguntam-me outra vez… Respondo ja: si espero, na cegueira, ser longevo, para mactar o tempo não será.
Ganhar dinheiro? Fama? Não me attrevo a dar dessas respostas. Quem as dá até pode ser franco, mas relevo seu nome só na lapide terá.
Escrevo porque, cego, ja não leio. Escrevo porque entendo o que me soa. Si abuso, ao versejar, do nome feio, é para não fallar, na rua, à toa.
Escrevo e não me drogo, nem me macto. Escrevo em primeirissima pessoa. Escrevo porque vivo, e fico grato ao verso, ja que a vida não é boa.
DISSONNETTO PARA A ULTIMA VAIDADE [2405]
Bollei um conto assim: um suicida preenche o kalendario só com data de quem ja se mactou. Quando arremacta, marcou aquella, emfim, não preenchida.
Famosos ou anonymos, quem lida com dados funerarios ja constata não ser só no Natal que alguem se macta, mas todo dia haver quem fuja à vida.
Morrer quer elle à tarde, e se prepara. Mas frustra-se: de vespera, planeja mactar-se, bem cedinho, um outro cara. Mal dá a noticia o radio, elle fraqueja…
Nem tanto pelo medo, mas só para que seu caso offuscado jamais seja. Mactar-me não irei. Si for, tomara que saia no jornal, que em rede esteja!
DISSONNETTO PARA OS RESTOS DE JORGE DE SENNA [3083]
No tumulo em que o luso está sepulto quer elle que o moleque toque bronha, que o namorado de castigo ponha a moça, alli estuprada sem indulto.
Que o puto chucro e que o malandro estulto alli forniquem sem siquer vergonha. Que alli se beba e fume até maconha. Que o satanista faça alli seu culto.
Mais pede Senna aos vivos: que a creança vadia nessa pedra deite o mijo, zombando de quem nunca alli descansa. Eu proprio com tal satyra transijo.
Vou pondo os meus fetiches na ballança e estou de pleno accordo! Assim, exijo na lapide que deixem a lembrança da marca: a sola suja e o phallo rijo!
SAHIDA TRIUMPHAL [3395]
No circo, o trapezista renomado decide triumphar, pois, de sahida, despede-se do publico. Coitado! Quem sabe si tivesse amor à vida…
Reinou no seu scenario, mas agora irá se apposentar duma carreira brilhante. Emocionado, quasi chora. Mas rufam os tambores… e elle à beira.
Saltou! Por um momento, julga a gente ter visto um suicidio: la de cyma o corpo se projecta! Mas não rhyma trapezio com tragedia, ha quem commente.
A scena alguem affoito commemora? O celebre acrobata, em derradeira façanha, está suspenso e paira fora do appoio! Em vão, essa agil mão se exgueira!
Despenca e se exborracha bem ao lado do magico perplexo e da expremida caminha que o palhaço tinha armado, fingindo que cabia na medida.
ANTES MAL ACCOMPANHADO! [3837]
Às vezes, cego e só, me desespero. Cercado fui de amigos, mas, agora, nem mesmo um inimigo commemora a minha solidão, e morrer quero.
Passada a depressão, reconsidero e entendo que alguem pode, a qualquer hora, batter à minha porta, pois vigora ainda o meu regime, que é severo.
Quem soffre a punição, nesse regime, sou eu, bem entendido, que me humilho, deixando que algum sadico se anime. É minha solidão como um gattilho:
Exposta deixa a victima a algum crime. Emquanto, com a lingua, dando um brilho em sujas botas vou, e alguem me opprime, ao menos algo a dois eu compartilho.
O PHANTASMA CAMARADA [4032]
Adviso eu a vocês! Si for preciso manter-me numa cama hospitalar, por muito ou pouco tempo, ou me operar, de appenas uma coisa eu os adviso:
Não quero sentir dores! Desde o siso, que tive de extrahir, ao ocular martyrio do glaucoma, a supportar dor venho, vendo advesso o paraiso!
Alguma analgesia a medicina precisa offerescer! Sobre meu hombro não joguem dor maior! Quero morphina! E então? Nenhum dos medicos opina?
Não pode um velho cego ser excombro do orgasmo! Allivio exijo à aguda signa! Ou tantas dores algo as elimina, ou, morto, eu volto e juro que os assombro!
O CAUTO CAUSO DO PROMPTO SOCCORRO [4139]
Soffreu ella um derrame e foi levada, às pressas, na ambulancia. Agora está deitada numa maca, mas não ha ninguem dando attenção, fazendo nada!
Está bem consciente, mas, coitada, immovel totalmente ficou ja!
Na maca ao lado, esqualida, gagá, fallesce outra velhinha abbandonada!
Alli pelos edosos ha quem zele?
Chamar alguem quer ella, mas a voz não sae! Desesperada, vê que a pelle da outra ficou verde! É scena atroz!
Mais tensa ainda, treme e, antes que appelle ao sancto, a Christo, à Virgem… as vovós em volta o grito escutam que mais gele! E nada escutarão mais, logo appós.
A VINGANÇA DO ATTIRADOR [4144]
Qual logico e são cerebro duvida que esteja attormentado quem se macta? Si os outros victimaram-no, é batata que seja um revoltado o suicida.
Comtudo, caso alguem que vae decida levar comsigo os outros, ja se tracta de surto, não appenas da insensata façanha de quem tira a propria vida.
Algozes, tive muitos, por ser cego, podolatra, poeta, ou por ser gay. De quem me boycottou odio carrego e desse vão rancor somente eu sei.
Porem ao desespero não me entrego, pois, quando me mactar, não mactarei ninguem: irei sozinho. Só lhes lego meus versos: isso os pune, é o que tramei.
TERRITORIO TRANSITORIO [4454]
Si longa for demais a minha estrada, talvez nem haja tempo de voltar. Si houver, voltar aonde? A qual logar pertenço? Algo acharei, voltando, ou nada?
Na duvida, prosigo. Penso, a cada momento, si na vida vou deixar alguma coisa prompta e, quando o par de botas pendurar, si a coisa aggrada.
A vida passa rapido! Me enganno achando que algum plano poderia bollar, pois muda tudo, ao fim dum anno, e exquesço de fazer o que fazia.
Ephemero demais é o ser humano. Melhor, mesmo, é prever uma utopia mensal, ou semanal, cumprindo um plano a cada minutinho do meu dia.
QUADRA CLINICA [4486]
Depois que o meu glaucoma fez estrago total e ja não temo ficar cego, preoccupam-me as doenças que ora pego, si quasi nem respiro ou mal eu cago.
A prostata, a columna, alem do bago inchado, são as dores que carrego. Jamais direi que durmo como um prego, nem livre estou das caries por ser mago.
Me assalta o medo: dellas, qual me macta? Prefiro qual? Infarcto fulminante? Derrame? Sopro? Um tiro que me abbatta? Pegar tuberculose… Alguem garante?
Ficou fora de moda a quem se tracta. Terei, emfim, coragem de, no instante exacto, me mactar em dada data? Mal penso nisso, exquesço… e sigo advante.
ATTEMPTADO NÃO REIVINDICADO [4679]
“Olé!”, berra o rapaz que, no volante dum omnibus roubado, pela pista dispara, hallucinado. Quando advista alguem na frente, macta, e segue advante!
Mactar! Attropelar! É o que, durante seu rapido trajecto, esse anarchista deseja! Caso nisso elle persista, ainda mactará gente bastante!
Com isso, vez mais cada, a gente lida. Ninguem, nada, o detem! Berrando “Olé!”, o joven psychopatha, na avenida central, advança! E pisa, affunda o pé!
Cappotam carros! Perde alguem a vida de graça! Em ziguezague, corre, até que batte e explode: o algoz se suicida, mas acha que extermina a tal “ralé”…
SUPPLICA POSTHUMA [4694]
Parodia, então, me occorre. Penso em quem? Na musica do Nelson Cavaquinho. Diz elle que é melhor ter o carinho dos outros ‘inda em vida, e razão tem.
Por isso, tambem digo: caso alguem fazer por mim deseje, seu pezinho me deixe tactear agora! O vinho me sirva ja! Commigo brinde! Eu, hem?
Depois de morto, quero uma esculptura de grego pé no tumulo! Aggradesço que pisem no caixão, da cara à altura, pois creio que sou digno desse appreço!
Assim terá meu quadro uma moldura! Mas vale, mesmo, obter o que meresço ainda vivo, o Nelson assegura!
Eu peço um pé de carne, não de gesso!
CADA CABEÇA, CADA PROJECTIL [4907]
Pensou em se mactar. Tinha pensado, ja, muitas vezes. Cada vez que faz tal plano, a desistir vem o rapaz, temendo se frustrar no resultado.
“Magina si isso falha! Mutilado, maluco, paralytico, incapaz eu posso me tornar! Eu quero paz de espirito, não panico dobrado!”
Sahindo da padoca, um tiroteio escuta. Ao chão se joga. Ao lado, alguem cahido, sangra muito. O furo é feio. Importa a consequencia que isso tem.
Vital o sentimento que lhe veiu. Comsigo pensa: “Puxa! Ainda bem! O gajo vae morrer! Eu, que nem creio em sancto, fui poupado pelo Alem…”
JURAMENTO HYPOCRITA [5010]
Pergunto-me o que um medico pretende com essa medicina que proroga indefinidamente, a tubo e droga, a “interminalidade” que se extende.
Será que esse doutor não se arrepende de usar de tal tortura, agora em voga, fingindo appagar fogo, mas que joga mais lenha na fogueira e incendio accende?
Morrer de morte subita: assim era a forma, antigamente, de morrer alguem! Ah, si eu pudesse! Ah, quem me dera! Tivesse eu sobre o thema algum poder!
Não fossem certos chas uma chimera! Suppunha eu ter um medico o dever de appenas melhorar a nossa espera por algo inevitavel, sem soffrer!
QUEDA LIVRE [5568]
Em sonho, estou do abysmo sempre à beira, arranhacéu, penhasco, torre, ponte, ja quasi… Ninguem peça que eu lhe conte que medo é o de morrer! Ah, ninguem queira!
Vislumbro até o sorriso da caveira! Penduro-me, me aggarro… Estou defronte à restia de esperança no horizonte… Ja a salvo, viro o rosto à ribanceira!
Repete o pesadello tal roptina, até que, numa noite, estou curvado, olhando para baixo, sem cuidado nenhum. Pesada angustia me domina…
Mas, desta vez, eu mesmo minha signa decido… e pullo! Nesse instante, o lado humano compta… e temo! Outro comptado instante, e nada sinto! Quem nos nina?
DAMNE-SE A AMNESIA! [5603]
Poetas perguntados sempre são accerca das razões, do que os motiva a tanto versejar e manter viva a lyra, a voz poetica, a canção.
Eu sempre respondia que a razão estava na revolta vingativa que nutro contra a pena que me priva dum basico sentido, o da visão.
Tambem ja respondi que escrevo, não por grana, nem por fama, mas saliva gastei justificando uma afflictiva mania, typo um vicio, ou compulsão.
Ja velho, me dei compta: a coisa tão vital se torna, simples, decisiva! Ou isso, ou, porra, a gente desactiva neuronios que, babau, à morte irão!
CLAUSULA TESTAMENTARIA [5604]
Tractado tenho sido como mero ceguinho que verseja, mas confio, tranquillo, no meu tacco, tenho brio. Resisto, creio, ao crivo mais severo.
Por isso deixo claro: chance zero terá quem, só depois que eu desça ao frio sepulchro, homenageie-me, eu que chio: -- Não quero premios posthumos, não quero!
Recuse meu herdeiro, não permitta qualquer typo de evento onde alguem queira, do morto, celebrar esta cegueira maldicta, a minha mystica maldicta!
Alguem em mim achou qualquer certeira visão da poesia? Alguem me cita ja como um immortal padrão de escripta? Meu rosto observe, e não minha caveira!
COCEIRA
NA SOBRANCELHA [5609]
Ainda sou dos olhos soffredor. Um globo vem doendo muito, mas demais mesmo. Nem posso mais, em paz, coçar a sobrancelha, que dá dor.
O outro olho ja murchou e de suppor seria que me desse tregua. Faz que quieto fica agora, mas la attraz ardia. Ammanhan, torna a arder… Que horror!
Suppuz que, consummado o seu estrago, cegando-me, faz tempo, por completo, o sadico glaucoma agora quieto deixasse meu olhinho, mas divago.
Não basta nos cegar, commigo trago a dura conclusão. Do que interpreto me resta só mais isto de concreto: Da vida não fugi porque sou mago.
IDYLLICO COLLYRIO [5611]
Que bello pesadello, gente, eu tive! Paresce paradoxo, mas explico: sonhei que eu enxergava bem e rico de cores era o bosque em que eu estive.
De verdes, tons diversos, inclusive nas aguas da lagoa, verifico que tingem esse parque. Perto, um picco rochoso o delimita, no declive.
Não quero despertar, pois si desperto percebo que estou cego de verdade. Sim, quero me mactar, e ninguem ha de fazer-me desistir, eu lhes allerto!
De novo ja addormesço. Ja bem perto estou de libertar-me desta grade maldicta da cegueira. Ja me invade o verde do jardim, a céu aberto.
SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE [5621]
Não quero opinião dar sobre a morte nem quero ouvir a alheia. Opinião do typo é como sobre a vida: são diversas: cada qual com sua sorte.
Não quero opinião que me comforte. Não quero nem saber quem dá razão à minha opinião ou quem ja não achou pesado o fardo que eu supporte.
Ja basta a divergencia que na vida nós todos temos, dando ou não em briga, cansados de empurrar com a barriga, as magoas a affogal-as na bebida.
Ja accuso o que comemos de comida sem gosto, o que cagamos de lombriga por causa do que a gente não consiga fazer sem que morrer não se decida.
ETERNO CALOR MATERNO [5651]
A minha mãe morreu soffrendo. Tento lembrar-me disso o quanto menos, mas me lembro quando as coisas andam más. Ninguem meresce tanto soffrimento.
Coitada, agonizou. Eu não aguento soffrer nem a metade do que, nas semanas terminaes, ella, tenaz, passou. Ja passei, acho, uns dez por cento.
Mas, quando supportando não vou mais, não rezo, propriamente, nem levanto as mãos ao céu. Appenas, no meu cantho, concentro-me e, por ella, choro uns ais.
Milagre não direi, mas cruciaes symptomas cessam. Para meu expanto, meus ais escuta alguem que, tanto quanto sei, vive eternamente entre os mortaes.
INFINDO SONHO [5667]
Mactar-me? De pensar nisto desisto. Não quero mais problemas na cabeça. Ja bastam tantos outros. Quem conhesça meus versos a allusão deve ter visto.
Idéa de morrer é como um kysto que fica alli, crescendo, sem que cresça alem dos sonhos. Antes que me exquesça, sonhei de novo, nisso sempre insisto.
A vida todo dia me convida a pelo lado olhar menos ruim, ainda que me seja mais soffrida em tudo que soffrendo tanto vim.
Passei ja muito tempo nesta vida dizendo o que dizia para mim, no verso dum Torquato suicida: que a vida terminava antes do fim.
PARA JUBILO DE JUPPITER [5675]
A Zeus eu rezo, um dia appós um dia, emquanto, ainda lucido, me deito (mas ja sem ver nenhuma luz) no leito e peço que me macte. É o que eu queria.
Me macte ‘inda dormindo, Zeus! Podia ser desse modo magico. Meu pleito não é tão descabido: tinham feito os deuses coisa assim, sem agonia.
Fallar ouço dum gajo que se deita sem nada sentir, mesmo sem ter dor nenhuma, sem ter sido portador da chaga, sem de cancer a suspeita.
E morre elle, feliz! Si Zeus acceita a minha prece, eu juro: quando for, a hora de encontral-o, “Meu Senhor! (direi) Ja de Satan não sou da seita!”
MISCELLANEA DOS VICTIMADOS
[5801]
Pelo amor de Zeus! Ninguem ha, só triste, que se macte! Suicidio razão tem si o commette um cego vate!
Ao pedestre calha bem que “suicida” a gente tracte. Ja da esposa é melhor nem commentar si appanha ou batte.
Quem mactar-se quer, respeito me meresce, mas precisa ter motivo o tal subjeito para aquillo que elle visa.
Um ceguinho tem direito de pensar na coisa, à guisa de remedio, mas, no leito, tenho mente ‘inda indecisa.
ROCKEIRO PICCADEIRO [5878]
Em vez de se mactar, quem para fora põe suas amarguras quer brincar: “Addeus, mundo cruel! Eu vou entrar pro circo! Vou virar palhaço, agora!”
Palhaço? Ora, palhaço tambem chora! Mas muito mais num circo tem logar: trapezio, chorda bamba, malabar, leão que cabecinhas não devora…
Que mais? Illusionismo, claro. Quem faz magicas garante seu futuro. O gajo não se macta, alli, no duro, appenas se degolla, sangue sem.
Si for um bardo cego, para alem da morte, engole rolla, não por puro prazer, mas por fazer, com todo o appuro, seu comico papel, como convem.
HESITANTE INSTANTE [5944]
Será que, emfim, eu desta feita morro? A grippe é minha deixa! Só não quero correr attraz da peste! Chance zero! Desejo que ella chegue em meu soccorro!
Nem vejo a hora, gente! De cachorro tem sido minha vida! Mas espero depressa compensar este severo caminho de cegueira que percorro!
A gente quer morrer, mas, no momento exacto de exspirar, aquelle instincto impõe a sobrevida! Agora sinto que, desta vez, encerro o meu tormento!
Irei em paz! Appenas eu lamento ficar sem degustar meu vinho tincto, sem dar mais um prazer ao velho pincto, cansado das torturas que eu enfrento!
TOO GOOD TO BE TRUE [5945]
Sessenta annos você tem? Ai, meu Pae!
Morrer vae do Corona Virus, cara!
Sessenta annos você tem, cara? Ah, vae morrer! Não tem soccorro que isso pára!
Ainda diabetes tem? Ai, ai!
Você vae é morrer, pois não ha, para o caso, cura alguma! Quem contrae o virus, baixa! A praga ja dispara!
Você seria, acaso, um hypertenso?
Ja pode encommendar o seu caixão!
Você problema tem no coração?
Chorar ja pode! Empunhe ja seu lenço!
Eu, como uma neurose não dispenso, no radio ouço os reporteres, que vão mais panico causando nos que são edosos. Mas morrer… Não me convenço.
MISCELLANEA DA PASSAGEM [6012]
Na Terra a gente passa. Alguem se salva? Pensando no Neil Diamond, tambem faço a minha lista branca neste espaço. Mas fica a Terra, fica a Estrella d’Alva.
Lamarca, Lampeão, Senna, Tancredo, Chacrinha, Tiradentes, Golbery, Golias, Calabar, Noel, Loredo, Dolores, Irman Dulce, Hebe, Dercy.
Millor, Filinto Müller, Azevedo, Elis, Nara, Raul, Satan, Fleury, Getulio, Janio, Plinio, Figueiredo, Garrincha, Ary, Vavá, Jobim, Didi.
Cazuza, Padim Ciço… cada, a dedo listado, de passagem por aqui, seu prazo consummou, mais tarde ou cedo. Inglorio ou não, meu tempo não perdi.
MATTOSALEM [6094]
Disseram-me que muito viverei por ser considerado bruxo, mas ter mais longevidade não me faz nem principe dos lyricos, nem rei.
Não sei si vou viver muito. Só sei que eterno compromisso o verso traz si for o nosso thema a Satanaz entregue e si seguirmos sua lei.
Até que thematizo o Demo, sim, mas não com toda aquella gravidade. Por isso é que elle sempre persuade a bruxa ao “beijo negro”, não a mim.
Provei, sim, seu chulé. Nem tão ruim achei, pois, affinal, sou fan de Sade. Mas, para alguem tão velho, Satan ha de convir que menos fede que um pé “teen”.
REGIME DISCIPLINAR DIFFERENCIADO [6112]
Até que se produza a tal vaccina, sahir da quarentena todos vão, excepto um sessentão ou septentão que, embora são, em casa se confina.
Coitados dos edosos! Determina, em nome da sciencia, a norma, tão despotica, tão drastica, que não irão sahir! Que inepta medicina!
Vaccinas levam annos para, em massa, livrarem do perigo os velhos. Antes, os jovens estarão, exfuziantes, sahindo, na vidinha achando graça.
Vovôs irão pensar: “Não ha quem faça que eu fique aqui sozinho! Meus restantes domingos passarei sem visitantes? Melhor, então, morrer alli na praça!”
HASHTAG VAE DAR TUDO CERTO [6120]
Ainda bem, Glaucão, que ficou cego! Em video nem precisa que eu convide você para assistir ao que a Covid provoca! De dizer-lhe me encarrego!
Peor que ebola, dengue, si isso eu pego, me inflammo, Glauco! O virus nos aggride a todos, pelos ares! Quem decide não é mosquito, ou sexo, ou sujo prego!
Qual tetano! Qual syphilis! Um ar qualquer si respirar, eu ja me fodo! O virus vae chegar ao corpo todo, do cerebro ou pulmão ao calcanhar!
Desgraça quer maior? Quem se mactar ao menos abbrevia! Vae a rodo a gente se mactar, Glauco! Um engodo dizer que quem pegou vae se curar!
BALLA DE PRATTA [6129]
Não, medo de morrer não nos molesta! A gente tem é medo do momento agonico, de muito soffrimento rollar antes de, emfim, partirmos desta!
Entende, Glauco? Quando alguem faz festa, não é por estar vivo! Appenas tento dizer que não queremos esse lento tormento no tempinho que nos resta!
É simples, Glauco! Caso todo mundo certeza tenha duma morte bem suave e repentina, ja ninguem mais teme essa passagem dum segundo!
Morrer dormindo, Glauco? Não confundo as coisas! De euthanasia fallo, sem rodeios, sem siquer estar alguem soffrendo ou velho? Ou acha que eu redundo?
QUALIDADE DE MORTE [6137]
Nós temos protocollo, Glauco! Nós partimos do seguinte pensamento: Si formos excolher, attendimento daremos à afflicção menos atroz!
Exacto! Quem chegar sem ar, appós um quadro ja gravissimo, nem tento salvar, pois morrerá num grau mais lento de dor, e mais cruel. Não sou algoz!
Aquelle que nenhum respirador tiver, não vae morrer soffrendo tanto! Não, Glauco, não demonstre tal expanto, pois nós o sedaremos! Sim, senhor!
Irá morrer dormindo! Sim, sem dor! Que foi? Se interessou por esse manto sereno? Pois descanse! Eu lhe garanto que disso não terá, quando se for!
HASHTAG MELHOR MORRER [6173]
Ouviste fallar, Glauco? Um tripulante mactou-se no navio de cruzeiro! Sentiu-se, em quarentena, prisioneiro, pois fim à reclusão ninguem garante!
Não, Glauco! Minto! Foram trez, durante semanas confinados sob o cheiro do proprio chulé, nesse captiveiro! Espero que tal facto não te expante!
Agora me inteirei de que trezentos mactaram-se, ja, Glauco! Não appenas naquelles transatlanticos! São scenas diarias, em urbanos apposentos!
Peões, desempregados, sem sustentos nem chances de sahir das quarentenas, commettem suicidio! Tu os condemnas? Não, né? Maus cheiros chegam com os ventos…
PRETERIDA [6264]
Glaucão, si eu não ganhar a primeirona, final collocação no festival, eu acho que me macto! Você mal calcula como a gente isso ambiciona!
Não canto, Glauco, como prima donna das operas, mas esse pessoal da bossa nem me chega aos pés! Normal, portanto, que eu não seja a sexta, a nona!
Fiquei sabendo, Glauco, que San Remo, aquelle festival dos festivaes, ja teve suicida, que jamais venceu e, inconformada, foi ao Demo!
Não sei si chegarei a tal extremo, mas, Glauco, convenhamos! Das banaes cantoras bem accyma estou! Meus ais agudos são! Por isso perder temo!
ADJUDA MEHUDA [6321]
Em pleno desespero, um suicida attira-se, mas é do quarto andar. No pateo cae, mas passa a agonizar, pois pouca altura não lhe tira a vida.
Ao lado, no playground, a divertida turminha de creanças a brincar está, mas interrompe o salutar recreio ao ver a victima cahida.
Até que algum adulto uma attitude emfim tome, essa activa molecada se juncta ante o coitado, que está cada vez mais agonizante e não se illude.
Sem ter a protecção de quem adjude, recebe ponctapé, pisão, solada na cara, até paulada. Quasi nada faltou para appressar a morte rude.
PÉ NA COVA [6415]
Sahi tarde da zona de comforto materna, mas entrei cedo na zona de guerra, litteral ou brincalhona, a mesma do maior poeta morto.
Com outro me irmanei, deixei o porto em busca de emoção: peguei carona no barco que, em taes ondas, ambiciona chegar onde chegou o vate morto.
Em annos cariocas, eu absorpto fiquei como o mineiro que desthrona, ou querem que desthrone, mas nem clona o luso menestrel tambem ja morto.
Deitei-me em muitas camas. Com pé torto pisei na alheia praia. Fui cafona, fui joven, mas serei quem ja resomna no tumulo de todo bardo morto.
MEMENTO HOMO [6422]
Aqui, quer ser um homem capitão. Alli, quer ser um homem general. Alem, quer ser um homem, affinal, o rei no seu castello, uma ambição.
Diz Loudon, bardo folk, esse que não é muito conhescido, mas é tal qual Dylan, que nós somos, em geral, fragillimos. Pouquissimos não são.
Mas quer um capitão ver seu navio singrar, inabballavel, na tormenta. Quer ver um general, na violenta battalha, que jamais perdeu o brio.
Si estou no meu castello, sim, confio que esteja, aqui, seguro. Mas quem tenta ser rei um dia passa dos septenta, oitenta… Ja tem medo. Sente frio.
BOAS INTENÇÕES [6457]
Não, Glauco, não me indagues como sei! A velha, de accidente vascular, ficou paralysada, a repousar, agora cadeirante, constatei…
Mas ella pensa: “Pensam que estarei feliz só por ficar a tomar ar aqui nesta varanda? Puta azar! De Murphy confirmada foi a lei!”
“Eu fico olhando para aquella gente normal que, pela rua, para ca e para la passeia! Mais me dá vontade de morrer, si estou doente!”
“Acharam que melhor alguem se sente na frente dos saudaveis, quando ja perdeu os movimentos? Mais gagá e invalida me sinto, simplesmente!”
SEPTEMBRO
AMARELLO (1) [6524]
Xingou o torcedor quem amarella por ter, numa partida, pipocado. Jargão do futebol, mas, applicado à vida, às vezes falla algo mais della.
Não posso responder por quem appella ao gesto suicida, Glauco, dado que estou, ainda, vivo. Mas o lado entendo dos que encontram tal janella.
Glaucão, não considero covardia a grave decisão de quem se macta! Você tambem a accapta, quando tracta da these em sua afflicta poesia!
Adjuda a gente tenta dar! Um dia, porem, a solidão, a atroz e ingrata doença, algum tormento nos maltracta accyma da possivel agonia!
MULHER FATAL [6574]
Não tive culpa, Glauco! O gajo quiz mactar-se, ué! Problema delle! Fez errado, ué! Se macte duma vez, na proxima! Talvez seja feliz!
Por minha causa? Ah, Glauco! Só quem diz tal coisa não entende que vocês, machões, performam typo bem cortez, mas fragil, nesses modos tão gentis!
Quiz elle appaixonar-se por mim? Ora, problema delle! Nunca auctorizei! Quiz elle comportar-se como um gay, fazendo manha? Ah, dei-lhe logo o fora!
Tentou o suicidio, mas, agora, padesce no hospital! Glauco, ja sei: culpar-me vão querer! Porem a lei do lado fica aqui desta senhora!
POISON WHISKEY [6762]
Poeta, a gente vê tanta cachaça na praça, artezanal, uma amarella, às vezes branca, azul… Porem aquella vermelha, de veneno, meu, não passa!
Meu pae, que era briguento, um bom reaça que encrenca procurava, aquella bella cachaça tomou sempre e mattuschella ficou, até morrer! Uma desgraça!
Quiz elle que eu tomasse essa bebida mortal, a tal da pinga vermelhinha, mas sempre preservei, poeta, a minha cabeça bem pensante nesta vida!
É verde meu absintho, Glauco! Olvida você que todo bardo, nessa linha maldicta dos francezes, não definha por causa duma dose bem servida?
FUNEBRES BREUS [6790]
Proverbio ouvi dizendo que quem cria um corvo se subjeita a ter furado seu olho, Glauco! Causa desaggrado saber disso? Você não se arrepia?
Quem perde a vista assim não vae, um dia, querer o suicidio? Ouço, ouriçado, aquella do John Lennon que, em estado de graça, fez um blues, rara agonia!
Os Beatles não faziam blues, mas quando fizeram, bem pisaram na ferida! Glaucão, você pensou na suicida sahida, não pensou? Segue pensando?
Seus olhos aguia alguma bicca, a mando de Exu, quiçá de Juppiter? Convida Satan que, no sabbath, uma lambida você lhe dê no cu? Quer breu mais brando?
AFFLICTIVA PERSPECTIVA [6815]
Amigos vão morrendo, dia cada, e vemos ja chegar a nossa vez, Glaucão! Ou caducamos, ou, talvez, morremos de repente, eis que do nada!
Preferes morrer como, camarada? De infarcto? De derrame? Embriaguez? Das tripas? Coração? Alguem ja fez teu mappa astral? Que mais te desaggrada?
Nenhuma preferencia tens, poeta? Ah, quero, tranquillão, morrer dormindo! Não achas bem mais digno, justo, lindo? É grave essa afflicção que nos affecta!
Si gostas de soffrer, de ser asceta, devias preferir algum malvindo fim, Glauco! Mas, depois de tudo findo, terás nova missão e nova meta!
EXAGGERO NO DESESPERO [6901]
Affirmam que maluco sou, Glaucão! Assumo que sou, mesmo, mas resalvo que muita gente está, jamais, a salvo de insanas attitudes, tambem, não!
Confuso sou, por vezes, e questão até faço, dos chistes, de ser alvo! Prefiro ser doidão a ser pappalvo ou trouxa, tal qual esses que ahi estão!
O mundo me deixou desesperado ja tantas vezes, Glauco, que nem sei si estive suicida, mas pensei em, antes, mactar gente que nem gado!
Pensei num senador, num deputado, num padre, num juiz, num presidente… Pensei em accabar com essa gente damnada, que me causa desaggrado!
Depois pensei melhor… Mais resultado terá minha loucura si, na mente, os faço de demente, de doente mental, tal como, urrando, de mim brado!
SEGUNDA ONDA [6926]
Mas vate, é sempre inutil essa gente tentar em casa achar algum canthinho seguro contra a peste! Ja adivinho aquillo que teremos pela frente!
Appós esta segunda, novamente teremos outras ondas! Direitinho iremos ao inferno! No caminho os corpos ficarão, mostrando o dente!
Não, Glauco! Nem vaccina addeantar irá, pois esse virus sempre muda! Só perde tempo quem a peste estuda! É o clima, vez mais cada, tumular!
Não vejo outra sahida! Se mactar a gente certamente irá? Caluda! Nem quero commentar! Será que Buddha adjuda a morrer cada no seu lar?
PERUS EM EXSTINCÇÃO [6945]
Não, elles não divulgam, Glauco, não, mas muitos se mactando vão, devido à peste, por perderem quem tem ido ou pela antevisão de quando irão!
Você vae se mactar tambem, Glaucão? Ja quanto a mim, lhe digo o que decido: Sabendo que peguei, me suicido, bem antes de ficar sem o pulmão!
Entendo tanta gente que se macta emquanto não ficou, ‘inda, sem ar, depois de seus parentes enterrar! Mas não me considero um psychopatha!
Talvez, por ser propheta, tem exacta noção você de quando seu logar será desoccupado… Mas azar daquelle que visão não tem da data!
MANUAL DO SUICIDA [6993]
Não, Glauco! Um manual do suicida escripto ja foi varias vezes antes, versões até bastante interessantes, mas sem utilidade garantida!
Agora, não! Ninguem siquer duvida que exsista algum recurso! Os allarmantes registros estatisticos constantes são, caso o novo virus nos aggrida!
Em summa, a quem quizer mactar-se, exsiste um jeito garantido! Basta a gente pegar uma covid, ainda quente do banho! Ja fallei, ninguem resiste!
Pensou que enlouquesci? Mas quem assiste, nas midias, à afflicção do presidente, ja sabe que elle, embora rindo, mente e está para morrer, inerme e triste!
MOTTE GLOSADO [7386]
Nossa morte é coisa certa mas nós cremos no infinito.
Quando a edade nos apperta com cansaço ou com doença, fatalmente a gente pensa: nossa morte é coisa certa. Mas a mente nos allerta para o espaço, o tempo, e eu cito a noção que entra em conflicto com a nossa finitude: um limite nos illude, mas nós cremos no infinito.
MOTTE GLOSADO [7660]
Ver pode quem quizer meu eskeleto aqui, mas não morri, creia quem queira. A quem ja me viu cego, eu só prometto que ver não poderá minha caveira.
Compor um epitaphio faz sentido emquanto estamos vivos e caralho ainda temos: cego, ja não valho por tudo que enxerguei, mas não duvido da rolla que enduresce na libido. Meus ossos quem olhar dirá: “Não metto jamais entre taes dentes meu espeto!”
Necrophilo nenhum é tão sacana. Si é vida a carnal vara que se fana, ver pode quem quizer meu eskeleto.
Jazente ja me achei, mas como o Abbade, não como um sepulchral corpo a jazer.
Assim como em Bocage, meu prazer poetico zombou da castidade e oraes preces paguei aos fans de Sade. Portanto, ao celebrar a “sahideira”, alem de lamentar-me da cegueira transformo-me em cadaver fingidor. Sou restos, si o caixão aberto for aqui, mas não morri, creia quem queira.
Prometto ser sincero quando, nestas finaes declarações, exponho a nu meu corpo offerescido ao urubu leitor que accompanhou as indigestas thematicas e dellas fez as festas.
Gozei, sim, reconhesço: meu sonnetto serviu como punheta, mas submetto aos outros meu tesão e dramatizo.
Chorar finjo e dar azo a muito riso a quem ja me viu cego, eu só prometto.
Emfim, possa tal lapide logar ter para tanto verso redundante! Infernos não disputo aqui com Dante nem quero com Platão dialogar. No maximo, dalguma tumular selecta jus eu faço na peneira. Digamos que não caiba a porra inteira na cova, ou cavidade, ou valla, ou fossa. Leitor não restará que dizer possa que ver não poderá minha caveira.
MADRIGAL MORTAL [7733]
Tal motte ao madrigal deu-me um amigo: “Carrego a minha morte (aqui) commigo”.
Lembramo-nos do nosso nascimento só pela certidão e pelos paes. Da nossa morte temos o momento pendente e, por hypothese, elle é mais concreto a cada dia. Mas nem tento datal-o, pois é como os carnavaes…
Exacto: é data movel! Cada dia morremos um pouquinho e está o cinzento mais negro a cada hora que annuncia a noite. A quarta-feira, com seu lento e claro despertar, jamais seria de cinzas, si levadas pelo vento…
MADRIGAL ESPECIAL [7786]
Que tem de especial a viuvez si dellas tambem chega, um dia, a vez?
Viuvas são, sim, dignas do respeito mais fundo, mas a data nos suscita alguma reflexão. Si, emfim, no leito de morte seus maridos da maldicta vidinha se despedem, eu suspeito que exsulta quem ficou. Alguem reflicta…
MADRIGAL FINAL [7787]
Com asthma ou diabetes quem se vê às voltas commemora agora o que?
Exsiste, sim, um dia para quem doente ficou disso. Mas pergunto: Aquelle que sahude ja não tem precisa ser lembrado desse assumpto?
Será que não se aggrava o mal de alguem si insistem que será, logo, um defuncto?
LERDA EPHEMERDA [8020]
Juninas festas sempre evocam minha cegueira, pois sou Pedro e sou nascido no dia desse sancto festejado. Mas meu anniversario me trazia maior preoccupação: quanto faltava p’ra que eu ficasse cego? Quantos annos ainda, até que eu macte em mim o drama? É muito melancholica a lembrança. Costumo conversar com quem me assiste, o espirito que, anonymo, é chamado de Pedro por mim mesmo. Quem será? Não disse, mas suspeito que elle seja tambem um menestrel. Fallo commigo tal como si com elle conversasse. Si alguem mais alto ouvindo nos está, por elle fallará, que escutarei, ficando o suicidio ‘inda addiado.
Serão juninas festas o meu lado sombrio mais sombrio, pois eu sei que estão a festejar como si ja pudessem advistar de Deus a face. Não sabem que vem delle só o castigo, que nada commemora quem festeja. Um cego certamente invejará aquelle que, feliz, não foi cegado. Um cego certamente está mais triste no dia de São Pedro, pois creança não é para sorrir. Hoje na cama eu temo o pesadello, temo os damnos que n’alma me provoca a treva brava. Espero o inferno astral, esta agonia passar, mas jamais passa algum passado emquanto não, emfim, me suicido. Por ora, aqui cheguei ao fim da linha.
AFFLICTO MOSQUITO [8033]
De dores oculares eu padesço.
Perdi meu olho esquerdo, o que restava.
Pendi para analgesicos, em vão.
Pedi para meu medico o opioide.
Pedi dum outro medico o opiaceo.
Pedi de mais um medico morphina. Pedi dum outro ao menos codeina.
Disseram-me: {Magina! Você quer mactar o que não passa dum pequeno mosquito com um tiro de canhão!}
Difficil conseguir uma receita foi sempre, pois os medicos não dão à gente o que elles tomam quando a dor não querem supportar na propria pelle.
Paguei ja, por remedios, alto preço. Mandei ja, muitas vezes, tudo à fava. Pensei: “Por que é que os medicos não são eguaes aos que, nas epochas do Freud, remedios davam para que passasse o effeito doutra droga que elimina symptomas que não passam duma fina cortina de fumaça?” Quem disser {Magina! Quer você com um veneno curar quaesquer incommodos?} eu não acceito mais! Aguente quem acceita! Agora, compto os dias que virão até que isso termine. Não, doutor, mactar-me irei, não tendo a quem appelle!
AUTOCOMPLACENTE
PLACEBO [8034]
As drogas injectaveis são as mais potentes contra a chronica dor, essa que sinto no olho onde era ainda viva a restia de luzinha que perdi. Não gosto de injecção, mas raciocino na logica proposta por Diego Tardivo, opportunissima, no caso.
Usar continuamente essas lethaes dosagens macta cedo. Mas, à bessa soffrendo, o cara appella à lenitiva acção duma substancia. Até se ri de allivio. Vae morrer, mas é destino morrer, mais cedo ou tarde, e quer sossego alguem como eu, que os males extravaso.
Ao medico, convem que use jamais taes drogas o doente e lhe interessa vender novos placebos, pois me criva de innumeras receitas. Eu, aqui commigo, decidi: logo termino com isso me mactando, sem emprego de methodo sangrento, sem um prazo.
SEPTEMBRO AMARELLO (2) [8035]
A cada quarentinha segundinhos alguem se suicida. Assim allega a agencia mundial. Mas estatistica jamais afferirá cada motivo, cegueira, solidão, dor, depressão, que induz uma pessoa a se mactar.
Sapato que percorre maus caminhos, apperta cada pé cada collega meu, cego ou outra victima da mystica malefica. Daquillo que me privo alguem tambem se priva, sem ser tão maldicto nem estar no meu logar.
Em summa: tem tambem os seus espinhos nos pés ou no trazeiro. O que me cega espinho tambem é, characteristica commum aos suicidas. Não, o crivo não pode ser appenas os que estão soffrendo de deprê sem se tractar.
Tampouco os molequinhos, coitadinhos, são unicos exemplos desse mega problema de sahude. Masochistica hypothese, com ella até me exquivo de excusas, mas terei sempre razão si invoco, por pretexto, o meu azar.
ODE AO SUICIDIO [8160]
Qualquer problema é grave caso tema morrer quem delle augmenta a gravidade. Peor é nada: a vida é que é o problema.
Questão abro: da vida quem se evade será por desespero ou covardia? Quem tira a propria vida foi covarde?
Que antithese! Não dizem, todavia, que para alguem mactar-se ter coragem é tudo de que, emfim, precisaria?
Por que será que aquelles que assim agem costumam nos deixar alguma charta? Só querem nos negar que foi bobagem?
Nenhuma explicação alguem que parta consegue dar àquelle que aqui fica, pois cada qual alheios ais descharta.
Appenas valerá a maccabra dica si aquelle que tirar a propria vida por drama algum jamais se mortifica.
Insisto neste poncto. O suicida tem sempre que ter sido um infeliz? Não pode ser alguem que nos convida?
Eu mesmo sou aquelle que assim diz: Nem só por ter problemas vae a gente mactar-se, pois morrer eu sempre quiz!
Quiz isso quando cego totalmente fiquei, quando não tive mais amigo, ou quando de outros males fui doente.
Mas quiz, tambem, agora que o castigo perpetuo que soffro perde effeito e para as trevas tanto ja nem ligo.
Tambem o quiz depois de ja ter feito sonnetto por milhar, madrigal, ode, tal como neste ensejo que approveito.
Ou quiz quando os componho, si me accode o lyrico lampejo, novo até, no molde ou num assumpto que incommode.
Emfim, quero morrer por ter a fé de estar só de passagem nesta chata vidinha que tão má não foi nem é.
Não é fanfarronice nem bravata. Fallei ja, num sonnetto sobre o thema, que só derropta a morte quem se macta.
DECIMA DO ACCRESCIMO AO SEGUNDO TEMPO [8457]
A morte, que invencivel é, somente eu venço si me macto, ou seja, quando e como. Ja que a vida vou levando, ainda que soffrendo, sem que tente mactar-me, sou vencido duplamente, por ella e pela vida. Não me macto nem culpo quem decida por tal acto, mas acho que é do jogo ser vencido, assim como é do jogo si eu decido virar o resultado, discordato.
DECRESCENTE
SAUDOSISMO [8487]
Terá dos comprimidos a chartella algum poder, alem daquelle effeito constante sobre a chronica sequela do quadro diabetico? Suspeito eu, credulo, que tenha. Vejo nella um practico chronometro e proveito tirando venho disso que revela.
Explica-se: a dosagem que eu acceito tomar diariamente é que me dá noção de como o tempo mais estreito ficando vae da vida que se está findando, e mais da morte perto o leito. Aos poucos, dia a dia, restará menor exspectativa de direito.
A menos uma pillula, no cha da tarde, no jantar, e menos bella percebo uma canção que, para la da porta, ao longe escuto ou, da janella, a viva cor das flores quando ja começa a primavera, pois me gela, ainda, a dor lombar da noite má.
CONFIANTE PESSIMISMO [8492]
Estou esperançoso! A exspectativa de vida, ao brazileiro, é de septenta anninhos bem vividos. Os do Piva não quero ultrapassar, pois meus sessenta e septe pesam. Chega! Quem se priva de tudo, sem visão, ja se contenta morrendo até mais cedo, si possivel bem antes de sentir que não aguenta siquer andar uns passos. Sim, meu nivel real de “qualidade” torna lenta a simples caminhada. O mais temivel dos males é temel-o. A gente enfrenta tamanho azar somente caso viva trez annos mais, e prompto! Nunca augmenta a minha confiança na saliva dos medicos. Morrer não me attormenta, appenas me estimula e me incentiva a, soffrego, comptar os dias. Venta, agora, ahi vem chuva. Si motiva poema novo, é caso que accrescenta bem pouco a qualquer obra selectiva.
DELIRANTE ABSENTEISMO [8493]
Só faltam mais trez annos, nesta minha sentença vitalicia, para que eu me veja libertado deste breu! Emfim a minha morte se advizinha!
Morresse logo, aos vinte e dois, eu tinha pedido tanto ao sancto, esse Thaddeu que Judas é tambem! Emfim o meu calvario vae chegando ao fim da linha!
Trez annos! Quattro, quasi! Depressinha mais outro anniversario transcorreu! Sansão se libertou do philisteu por causa duma fé que não definha!
Tambem em Zeus eu tenho uma ponctinha de crença, que esta bemçam me valeu! Depois de tanto azar, quem se fodeu confia e dias compta na folhinha!
Ja neste que celebro, outra excarninha idéa de gerico me occorreu. Absintho genuino, do europeu, tomei! Pensei ter visto uma luzinha!
ABSOLUTO ABSURDO [8558]
Ouvi philosophia -- Quem diria? -no radio, sobre a vida e seu vão drama. “Viver, então, tem logica?” -- reclama um culto professor da academia.
De facto, falta a minima alegria no tempo do viver, mas dessa chamma queremos: “Não se appague!” -- pois a cama da morte não paresce ser macia.
Por que não nos mactamos, si abbrevia o prazo o suicidio? Quem nos ama meresce que vivamos? Si Zeus chama mais cedo, nós achamos covardia…
Sim, quando de morrer vem vindo o dia, saudade nós sentimos e da mamma ja morta nos lembramos. Mas a fama, que é posthuma, será sempre tardia.
Buscar “felicidade”, eis a valia da vida. Mas, finita, ella só trama, pois, contra nós. Somente seu programma se explica si em “missão” astral se fia…
SUICIDIO ASSISTIDO [8588]
Aquelle tetraplegico, no filme chamado MAR ADDENTRO, na justiça entrou para, assistido, ter direito da vida paralytica a dar cabo. Perdeu a causa. Ainda assim, mactou-se, adjuda conseguindo dos amigos. Deixou gravado um video, onde exclaresce: “Viver, sim, é um direito. Obrigação, jamais.” Dialogara com um padre que disse: {Liberdade sem a vida ja não é liberdade!} Elle replica: “Mas, sem a liberdade, não é vida a vida!” Aquelle caso commoveu alguem, que me vendeu salgado o peixe. Agora que, em septembro, mais salgados estão os alimentos, me pergunto si tenho o meu direito de experneio.
CHORÕES E FOLLIÕES [10.208]
Ainda que estejamos ja doentes e edosos, sem familia, sem amigo, nós temos um amor, que mal consigo conter, por sermos ‘inda aqui viventes.
Ainda amor à vida, pelos dentes risonhos, a caveira traz comsigo. Ainda amor à vida algum mendigo demonstra, si se lembra dos parentes.
Tristeza sem remedio nós sentimos por terem ja morrido nossos paes ou mesmo nossos thios e nossos primos.
A festa alheia cala nossos ais e irão, dos carnavaes, mais e mais rhythmos calar nossos suspiros terminaes.
CREME ANTIEDADE [10.215]
Abrir irei a griffe mais careira daqui deste paiz, Glaucão! Duvida? Um creme venderei que dará vida eterna à velharada ja na beira!
Sim, mesmo que na cova alguem ja queira pensar que tem um pé, minha alludida pommada tornará mais parescida com pelle de bebê sua caveira!
Farei de margarida negra aquella especie de kosmetico, Glaucão! Que é facto uma pesquisa ja revela!
Ouviu da flor fallar? Ainda não? Não torna alguma feia cara bella, mas joven tal caveira achar irão!
DIA DE LUCTA CONTRA O CANCER [10.361]
Na phase terminal, lhe deram droga fortissima. Que nada! As dores não passavam. O coitado, no colchão mijado, rogou como ninguem roga.
Pediu, implorou… Só quem dialoga com Christo, Satanaz e Buddha tão tenaz lucta travou. Eis a questão: Jogar ou não jogar? Quem soffre, joga.
As chartas foram postas. Figurado sentido, pois rollava no mijado colchão quem supplicava pela vida.
Emfim, foi attendido. Não doia mais nada. Mas assim que essa agonia passou, eis que elle, então, se suicida.
DIA DO DESABBAFO [10.414]
Mas, quanto mais por baixo fica a gente e quanto mais cerceiam nossa voz e quanto mais azar temos, atroz, mais vamos nós viver eternamente.
Mais elles nosso verso cortam rente e querem ver que estamos muito sós e querem que nos aptem muitos nós, mais vamos nós viver eternamente.
E quando, ostracizados, nos ignora o publico presente, justo agora viver eternamente nós iremos.
E quando menos pomos para fora os nossos sentimentos, não demora a hora de chegarmos aos extremos.
DIA DA EXSPECTATIVA DE VIDA [10.434]
Você ja deveria ter morrido, sabia, Glauco? Sim, septenta e trez ja foi exspectativa, alguma vez! Está no lucro, Glauco, não duvido!
Até septenta e quattro foi… Decido, porem, eu que sou medico, que em seis o numero não chega, Glaucão, eis que, magico, não temos comprimido!
Trez pillulas por dia você toma? É pouco, muito pouco, meu amigo! Não pode nem comer tudo o que coma!
Que viva mais uns mezes não consigo prever, mas quem conhesce não embroma! Vae cada vez correr maior perigo!
DIA DA CONSCIENCIA POSTHUMA [10.507]
Glaucão, tanto melhor! Si for a morte o fim da consciencia, tudo bem! Aqui não estaria mais ninguem ja morto que da cova se transporte!
Tambem nós, si morrermos, muita sorte teremos por não termos que ver, sem que vistos nós sejamos, quando alguem nos chama de escriptores por esporte!
Qualquer que seja a nossa sorte, nada teremos que temer! Ou descansamos ou damos, la do céu, muita risada!
Portanto, quando ouvirmos os reclamos dos mortos sem sossego nem morada, diremos que bananas nós lhes damos!
DIA DUM NATAL DEPRESSIVO [10.627]
Mactar-se planejou, pois o Natal é muito depressivo para quem está sozinho, sem familia, sem amigos, sem motivos, affinal.
Até deixou bilhete, escripto mal, perdão nelle pedindo por, alem de estar dando trabalho para alguem, ter feito pouco pela Casa Astral.
A Casa Astral, no caso, foi o templo em que elle revisita a sua vida preterita, a servir de bom exemplo.
Mas, antes que mactar-se, emfim, decida, na rua acha a cadella que eu contemplo, sozinha. Ao vel-a, não se suicida.
DIA DO RÉVEILLON DO CEGO RECLUSO [10.664]
Reclamas, menestrel, demais da compta! Appenas porque estás, durante as festas, sozinho nesse apê, tu te molestas? A mim a solidão não ammedronta!
Te queixas de que ja não ha, na poncta da linha, mais ninguem que, por honestas quantias, attender queira? Protestas si tens vizinha negligente e tonta?
Adjuda não terás, não, de ninguem! Que comas tudo frio, teu dormido pão, logico será! Que é que isso tem?
Si soffres um infarcto, não duvido que fique teu cadaver, para alem do mez, a appodrescer, ahi cahido!
DIA DO MENSAGEIRO [10.703]
Glaucão, boas noticias tenho para você, que recebi da minha thia cigana! Fim terá sua agonia! Em breve, morrerá! Que bom, né, cara?
Certeza tenho: toda a sua tara jamais lhe compensou o que perdia em termos de visão! Era mania, appenas, que não basta a quem se azara!
Sabendo que você não tem mais chance de ser feliz, a minha thia, que é vidente, é que incumbiu-me deste lance!
Então, o recadinho della até que pode ser bemvindo! Caso danse mais cedo, ‘ocê se livra! Bote fé!
DIA DO PICCO DO EVEREST [11.135]
Hem? Asa delta? Trilha? Accampamento na matta? Pescaria em alto mar? Muitissimo obrigado! Vou ficar em casa, sossegado, no momento!
Você me convidou, mas eu lamento que, junctos, não possamos escalar montanhas la nos Andes, Alpes, dar um pullo no Sahara, ao sol, ao vento!
Eu quasi que topei ao Himalaya ter ido com você! Meu, ‘cê dá sorte! Morreram muitos, não os dessa laia!
Na proxima, até topo! Seja forte, querido! Sobreviva! Não me caia num canyon, por favor! Confronte a Morte!
DIA DO ACCOMMETTIDO DE DEPRESSÃO [11.302]
Quem soffre de deprê ja fica sem poder siquer dormir, de tão fodido, Glaucão! A vida perde seu sentido! Até do suicidio sou refem!
Tentei ja me mactar, Glaucão, porem perdi toda a coragem, e duvido que tantos depressivos tenham sido levados a tal gesto, meu! Eu, hem?
Mactar-me? Nem pensar! Desanimado eu sei que estou, mas, quando você vem meu pé massagear, ja não me enfado!
Me sinto tão pimpão quanto um nenen beijado pela sua mãe, coitado, na sola dum pezão que cheira bem!
DIA DA CAVEIRA [11.361]
Os olhos são buracos, e quem queira olhal-os appavora-se de cara. Mas isso não é tudo: olhem só para a bocca duma typica caveira!
Alem do que, de podre, ella ja cheira, a sua dentição, que se excancara, suggere que ella a rir esteja, tara propicia a quem da Morte é mensageira.
A todos nós, o craneo uma mensagem envia: A carne fica decomposta bem rapido. O que resta faz visagem…
Pergunta-se, e darei uma resposta: Ao tempo por que taes ossos reagem? Porque de olhar espelho a gente gosta…
DIA DA SOBREVIDA AO SUICIDIO [11.372]
Frustrado, um escriptor quer se mactar. Pegou seu trezoitão. Antes que parta, deixar quer, dando addeus, extensa charta. A charta vae virando um avatar.
Suppõe então que, para publicar aquelle romanção, ha chance farta. Ahi seu suicidio ja descharta e tracta de editor, ja, procurar.
Porem tal obra prima não desperta a minima attenção dum editor qualquer. Ninguem fareja a coisa certa.
Só resta se mactar, mesmo. Si for você pessoa assim, que fique experta. Ninguem fará justiça ao bom auctor.
DIA MUNICIPAL DO CARIOCA [11.403]
Não sendo um carioca que da gemma se diga, alli morei e dizer posso que o Rio de Janeiro será nosso motivo dum candente e eterno thema.
Alguem ha, na cidade, que não tema alguma violencia? Não engrosso, por isso, um khoro hostil, e sempre endosso si for “maravilhosa” aquelle lemma.
A sua paizagem, que não vejo mais, vi de la de cyma, num momento em que foi suicidio o meu desejo.
Porem, do Pão de Assucar ja não tento pullar, nem sinto medo do festejo satanico. Não ha melhor logar.
DIA MUNDIAL DA CALLIGRAPHIA DISCURSIVA [11.531]
Usei espherographica, tambem, alem duma a tincteiro preenchida, mas nunca mais usei penna na vida. Um cego o que pensar tem, isso sem.
“Canneta azul, azul canneta…” alguem está cantando, ouvindo repetida e triste ladainha, mas convida a musica a pensarmos num porem.
Ja a charta não escreve mais ninguem. Leem tela, teem teclado. Ha quem decida trocal-a por um audio ou algo alem.
Epistolar é genero, hoje? Nem! A phrase lapidar dum suicida é “Fui!”, que evita muito nhenhenhem.
SONNETTO DUM MORTAL NATAL [12.777]
Emquanto reciprocam boas festas amigos e parentes, o poeta piegas bellas scenas interpreta em tempos natalinos. Menos estas:
Fingimos que não temos indigestas noticias suicidas, pois as veta a midia mais politica, a “correcta”. Mas muitas são as chronicas funestas.
Eu mesmo, no Natal, só não me macto por medo duma pena até maior que todo o meu azar de pato nato.
É muito depressivo o que, de cor, sabemos. Solitarios, nós, de facto, nenhum sorriso vemos ao redor.
AMMANHAN [12.842]
Farei anniversario logo agora, passada a meia noite… Esperei tanto a data de morrer! Nunca fui sancto. Não temo o suicidio. Vou-me embora!
Ninguem irá chorar, ja que não chora ninguem por um ceguinho. Só meu pranto se escuta, neste escuro, quieto cantho. Mas ouço que festeja alguem, la fora.
Bem, acho que meresço, por meu lado, tambem uma festinha… Recheado, o bollo que comprei valeu o dia…
Emquanto não provoco minha morte, cortar irei o bollo… Ora, que sorte! Tem leite condensado… Uma ambrosia!
SONNETTO
DO TRANSTORNO AGGRAVADO [12.849]
Trint’annos que estou cego! C’o passar do tempo, vae ficando vez mais cada difficil supportar! Ja planejada está a assistida morte! Tem que estar!
Emquant’isso, mais medos teem logar, phobias sem nem nome: da calçada, de dia; de sahir à noite… Nada me inspira segurança! Puta azar!
Azar addicional: o vil boycotte que fazem ao cegueta que é escriptor! Hem? Ha quem tantos titulos não note?
Meus males só se sommam! Si eu me for mais cedo, onde estarei? Com meu mascotte, talvez, que dos meus olhos via a dor…
SONNETTO DO AGGRAVADO TRANSTORNO [12.850]
Ja não aguento mais esta cegueira que, decada appós decada, me estressa! Alem de estar invalido, mais essa: Doenças outras pego! Tem quem queira?
A vida, foi perdida quasi inteira! A morte, que ella chegue mais depressa! Mas, caso se demore, me interessa que exsista, ja, a assistida: bem me cheira!
Um cego, que escriptor seja, ninguem o leva a serio, nesta nação sem memoria cultural, sem lettramento…
Na practica, ao sahir à rua, nem meu anjo me protege: sou refem dos barbaros! Tal vida não aguento!
SONNETTO AOS OLHOS DEFUNCTOS [12.861]
Queridos olhos meus, que por inteiro perderam a visão! Depois da vida terrena, nem terão logar na rida caveira, alli no leito derradeiro!
Sim, luctos eu respeito. Mas ja beiro algum mental transtorno, o qual revida os traumas que soffri, pois suicida me sinto -- um desabbafo costumeiro.
Me irmano aos companheiros enluctados que choram seus amados fallescidos, por isso choro uns olhos ja cegados.
Morreram de mim antes, tempos idos attraz, mas delles chegam-me recados concretos. Pó seremos, meus queridos!
SONNETTO DUMA INSIGNIFICANTE EXSTINCÇÃO [12.952]
Racista sou, sim! Quero ver exstincta a raça deshumana! Assim, proponho um pacto suicida! Sei que é sonho, mas ouso versejar em clara tincta!
Num dado dia, almejo que se sinta ja prompta toda a Terra! Não, medonho não pode ser tal drama! Até supponho qual data marcarão: num dia trinta!
Sim, todos se mactando num só dia é simples solução! A Terra fica, de tantos predadores, mais vazia!
Ninguem se expante: fauna até mais rica virá nosso logar tomar! Seria melhor do que esta atypica titica!
SONNETTO PREMONITORIO [13.316]
As malas estão promptas. Desperdiça um tempo precioso quem addia a morte programmada. Mais um dia e estou, com meu esposo, na Suissa.
Dependo de euthanasia, agora. A liça perdi para a cegueira. Só queria livrar-me duma vez por todas. Ia alguem menosprezar minha premissa?
Fez bem Antonio Cicero. Me resta seguil-o nessa trilha. Façam festa aquelles que enxergar podem ainda…
A quem enxergar possa não molesta um drama desse typo. Mas eu, nesta viagem, rememoro o que se finda…
SONNETTO DEPRIMIVEL [13.435]
Não, Lennon não compunha blues. Mas, quando compoz, de suicidio quiz fallar. Si estou, talvez, de Lennon no logar, direi algo que estava aqui guardando.
Me sinto só. Sim, quero morrer. Mando às favas quem me queira consolar. Si falta pouco para me mactar, mais nada chamarei eu de nefando.
Bem, ja que irei morrer, vou desfructar de tudo que não pude em outras eras, comendo, por exemplo, um bom manjar…
Sim, truffas do Savoy! O que é que esperas do gosto da ambrosia? Appós provar tal doce, morrer posso, sem chimeras…
SONNETTO DEBIL
[13.454]
Nas ultimas estava a minha thia, mas lucida, bem lucida, sim, ‘inda! Aquella mulher tinha sido linda, charmosa… Agora alguem o que diria?
Rhachitica, nem tinha voz! Um dia, meu primo resolveu que era bemvinda a morte della: tudo, ora, se finda! Chamemos de euthanasia, na voz fria…
Que fez elle? Bollou esta tremenda surpresa: a aranha negra! Não é lenda! Appenas collocou-a alli na cama…
A velha, assustadissima (Me entenda, Glaucão!), vendo chegar-lhe tão horrenda bichana, morreu! Coisa de quem ama…
SONNETTO DO “CARE KILLING” (1) [13.537]
Milhões de velhos, Glauco, morrerão mais tarde, cada vez mais tarde, cada vez mais! Seus cuidadores ja advançada edade teem, tambem! Hem? Que farão?
Sim, Glauco, de euthanasia ja noção nós temos, mas se tracta da camada maior, que sempre cresce, em accamada e injusta condição, nesse povão!
Ninguem aguenta mais, nem viver tão vegetativamente, nem cuidar daquelles que signaes nem siquer dão!
Ja chega de cynismo! Tal azar ninguem meresce! Vamos da questão fallar com realista, agudo olhar!
SONNETTO DO “CARE KILLING” (2) [13.538]
Não quero nenhum velho, ja demente, soffrendo desse jeito, nem a sua doente cuidadora, que extenua a vida nisso, orando, ja descrente!
Quem pode imaginar o que é que sente alguem que nesse limbo se situa? Ja falla todo mundo, pela rua, na morte que, emfim, venha de repente!
Prefiro me mactar a viver numa especie de infernal paralysia! Mactar-me si não posso, que eu assuma!
Alguem, por mim, será que isso faria? Espero que sim! Como se costuma dizer, a fé christan nos allivia…
SONNETTO
DO ESTRYCHNISMO [13.760]
No rock, era a tal banda assaz adepta, nem d’agua, nem do vinho, mas dum trago docinho de estrychnina! Desse vago barato o que é que sabes tu, poeta?
Não sei que effeito pode fazer! Veta algum medico o coppo? Faz estrago nas tripas? Ah, confesso que não cago de medo! O meu não tiro, não, da recta!
Bebi quasi de tudo, cara: absintho, tequila, whisky, vodka, rhum, cachaça, conhaque e curaçau, mas bem me sinto!
Não acho que veneno nenhum faça effeito tão lethal! Meu vinho tincto tem sangue de boi! Topas uma taça?
SONNETTO DO MITHRIDATISMO [13.799]
Alguem que me envenene eu jamais temo, Glaucão, pois me enveneno ja, por minha vontade! Vou tomando uma dosinha por dia, até chegar ao teste extremo!
Ainda não morri, graças ao Demo! Não quer se envenenar tambem? Não tinha desejo de zombar da ladainha que fazem? Ja a questão foi ao Supremo!
Arsenico, chumbinho ou estrychnina, eu nada disso temo! Não, ninguem, nem mesmo da familia, me elimina!
Si querem meu tostão ou meu vintem, terão que dar um tiro ou, com vaccina, tornar-me jacaré, Glaucão! Eu, hem?
SONNETTO DUMA MANHAN ENSOLARADA [14.005]
Um bello dia, quando você for chamar-me, de manhan, dando por findo meu somno, notará que estou dormindo p’ra sempre e irá chocar-se paca, amor…
Verá que estarei morto, mas fedor nenhum do meu cadaver nem sentindo irá, pois ficarei, num dia lindo, feliz com minha morte, é de suppor…
Sim, pense no seguinte: “Elle morreu, mas desta p’ra melhor foi, com certeza! Deus sempre sente pena dum atheu!”
Deixei, sem perceber, a luz accesa. Mactar-me nem preciso fora, si eu morrera, a bronha appós, de rolla tesa…

Casa de Ferreiro
