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MANUAL DE ETHIQUETA

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M A N U A L DE

ETHIQUETA

Glauco Mattoso

MANUAL DE ETHIQUETA

São Paulo

Casa de Ferreiro

Manual de ethiqueta

© Glauco Mattoso, 2026

Editoração, Diagramação e Revisão

Lucio Medeiros

Capa

Concepção: Glauco Mattoso

Execução: Lucio Medeiros

Fotografia: Akira Nishimura

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mattoso, Glauco

MANUAL DE ETHIQUETA / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 206 Páginas

1.Poesia Brasileira I. Título.

25-1293 CDD B869.1

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira

NOTA INTRODUCTORIA

Bons modos? Convenções? Boas maneiras? Poetas não entendem disso, não. Mas, mesmo tendo mau comportamento, podemos opinar sobre essa nossa careta sociedade, nem que seja só para advaccalhar e ironizar. Daquelles meus poemas mais satyricos dum ceremonial protocollar qualquer, seleccionei este volume. Que sirva, sinão para reflectirmos, ao menos para alguem se divertir.

DISSONNETTO FLATULENTO [0192]

O peido, mais que o arrocto, inspira o riso gostoso, desbragado, gargalhado, da parte de quem pode ter peidado, emquanto os outros fazem mau juizo. Com base no meu caso é que analyso, pois, mesmo estando a sós, enclausurado, gargalho appós os gazes ter soltado e adspiro meu fedor, feito um Narciso. Me ponho a imaginar a reacção de alguem affeito a normas de ethiqueta, do typo mais esnobe e mais ranheta, colhido de surpresa ante o rojão. Meu sonho era peidar fumaça preta na mesa dum banquete, desses tão formaes e, appós a explicita expulsão, deixar que a gargalhada me accommetta.

DISSONNETTO INSUBORDINADO [0237]

Assucar, oleo e sal não va comendo! Reduza! Vote! Pague! Não se attraze! Não falle palavrão! Não erre a crase! Assigne! Ligue ja! Venha correndo! Aos medicos meu gosto nunca prendo. Não chego a ser do contra, mas sou quasi. Colloco algo vulgar em cada phrase. Ao preço do commercio não me vendo. A desobediencia é uma sciencia, mixtura de coragem e de medo, de força de vontade e de arremedo: exige livre arbitrio e paciencia. Às vezes é melhor fingir que cedo. Mas trepo, mesmo em phase de impotencia, inverto os papeis, só por persistencia, e, quando a foda é longa, gozo cedo.

Sem gosto! Muito doce! Falta sal!

Prefiro azul, mas não azul demais!

Agora acho uns tons purpuras normaes!

Assim não brinco mais! Estou de mal!

Não quero ver meu nome no jornal!

Prohibo a citação! Me deixe em paz!

Não me citaram? Isso não se faz!

Si me exquescerem, faço um carnaval!

Convidam-me? Jamais! Ninguem acceita convite p’ra depois ser maltractado!

O que? Me desconvidam? Que desfeita!

Desconsideração de todo lado!

Quem tem meu brio a tal não se subjeita!

É muita ingratidão! Fiquei magoado!

Estou accyma de qualquer suspeita!

Quem disse que sou fresco é que é veado!

DISSONNETTO ESCULACHADO [0730]

Não “seje” “inguinorante”! Nunca foi “ansim” que algum plural se “prenunceia”!

“Nós vae” não é syntaxe que se leia! Talvez “a gente vamos” melhor soe!

Você só faz poema que destoe!

Seu tennis pega mal calçar sem meia!

Fallar de bocca cheia é coisa feia!

Não coma em casa alheia feito um boi!

Silencio! Tenha modos! Mais respeito!

Não vá roubar no troco nem no peso!

Se enxergue! Dobre a lingua! “Teje” preso! “Percure” seus “dereitos”! Dóe? Bem feito!

E o “mano” escuta, attonito e indefeso, as cynicas razões do preconceito, razões para, si auctor, não ser acceito e, como cidadão, soffrer desprezo.

DISSONNETTO DO DECORO PARLAMENTAR [0795]

“O illustre senador é um semvergonha!” {O que?! Vossa Excellencia é que é saphado!}

E os dois parlamentares, no Senado, disputam palavrão que descomponha. Um grita que o collega usa maconha. Responde este que aquelle outro é veado. Até que alguem apparte, em alto brado anima-se a sessão que era enfadonha. Inutil tentativa, a da bancada, de a tempo separar o par briguento: aos tapas, se engalfinham por um nada. Torcendo outros estão pelo momento fatal da verdadeira punhalada. Imagem sem pudor do Parlamento, são ambos mais sinceros que quem brada: -- Da pecha de larappio me innocento!

DISSONNETTO DA GAFFE PRESIDENCIAL [1226]

Não ha como exquescer aquella vez: um certo presidente americano esteve no Japão e pelo cano entrou. Que papellão o cara fez! Reserva-lhe o governo japonez a mesa num banquete e, por enganno, alguem lhe serve o fructo do oceano que nauseas causa ao nobre mais cortez. O vomito, de um jacto, se projecta por sobre prattos, calices, talheres, e estraga o almosso à casta mais selecta daquelles generaes e chancelleres. Das scenas coloridas se interpreta que o nojo é forte em homens e mulheres e, embora a reacção seja discreta, ninguem diz: “Come mais! Que tens? Não queres?”

DISSONNETTO DO CHA SEM CEREMONIA [1299]

Em video registraram a lambança que fez um “immortal” da Academia na hora do chazinho: elle comia enchendo mais os dedos do que a pança! Brioches, brevidades... Não se cansa emquanto sua gula não sacia, farellos derramando da macia fatia que nos labios lhe ballança! Gagás, outros auctores tambem comem aos trancos e barrancos, num assommo, babando e lambuzando os beiços, como aquelle porcalhão, de lettras homem! Trajados de fardão, nem o rei Momo lhes rouba o carnaval! Como consomem! Que gula! Que banquete! Elles que tomem seu cha com bollo! O amargo pomo eu como!

DISSONNETTO DOS MEUS MAIS MAUS MODOS [1333]

Quem segue appenas regras de ethiqueta não age normalmente! Dar a mão, talheres segurar, sorrir ou não, usar no bolso o lenço ou a canneta. Será que devo achar que se intrometta quem queira appresentar-me ao seu patrão?

Será correcto usar um palavrão e, em vez de “vulva”, declamar “boceta”?

E o coppo? Fica à esquerda ou à direita? E quando, por acaso, eu for canhoto?

Bem fica calçar tennis de garoto? Beber no canudinho a gente acceita? Commigo não tem disso! Solto arrocto si accabo de comer! Faço desfeita si expirro abertamente! E quem suspeita que o peido é meu, mactou: sou mesmo escroto!

DISSONNETTO DO CINEMA BLASPHEMO [1365]

A scena, no cinema, que define melhor o sacrilegio, e que me assomma à mente, é uma visão de Pasolini nos “Cento e vinte dias de Sodoma”. Emquanto vi, não vi nada no cine mais sadico: ao banquete, a moça embroma na hora de comer... Você imagine aquillo que se espera que ella coma! É Sade quem tal rango corrobora. Cocô, naturalmente! “Não consigo!”, diz ella, e alguem lhe dá o conselho amigo: {Supplique, tenha fé em Nossa Senhora!}

A moça, appavorada, appenas ora: “Ah, Sancta Mãe, fazei com que eu consiga!”, supplica a voz chorosa e, antes que diga “Amen!”, um cocozão ella devora!

DISSONNETTO DA PHANTASIA TERRORISTA [1469]

Em Isherwood, um homem solitario rumina maldicções aos poderosos. Tambem almejo um simples, mas hilario poder: causar ridiculo aos famosos. Fariam, por um gesto involuntario, em publico, os papeis mais vergonhosos, taes como, de repente, um urinario calor nas calças, como nos edosos. Supponho ter um magico condão: os faço rastejar, lamber o chão e, attonitos, os outros os verão tragar de volta a propria excarradella. Não poupo os que de estrellas tenham actos: passar por isso devem certos chatos do typo actor, cantor, ou litteratos chodós duma editora ou da panella.

DISSONNETTO DO CONSENSO NO CONTRASENSO [1495]

Estava inspiradissimo e fallava o Lula de improviso: lembra o ratto, a enchente, a merda, a fedentina brava que enfrenta o miseravel... Mundo ingrato! Repete o termo “merda”: não achava synonymo mais culto. Mas o facto de estar perante um publico sem trava na lingua lhe auctoriza o desaccapto. Anima-se a platéa. Um mais bandalho concorda: “Mas que merda, meu! Caralho! Tá certo o presidente, mesmo, porra!” O pappo se transforma numa zorra. Os outros fazem khoro: “Porra, meu! Que merda! Pobre sempre se fodeu!” Que bom que ao mesmo termo se recorra! Tomara que esse espirito não morra!

DISSONNETTO DOS DESCUIDOS CHULOS [1496]

Palavras são palavras... Si Chicago é nome de cidade, sem fallar de Boston, Praga, Mérida, não cago si chamo um nome serio de vulgar. Si Bulhões de Carvalho eu baptizar a rua dum puteiro, nada vago será o sentido dado. Esse logar do Rio sempre teve o pato pago. Quem manda haver num nome som sacana? Comparam o cacophato à sargeta? Um gajo do Timor chama Xanana, não chama? E o mafioso era Buscetta! Depois querem que eu seja cuidadoso, que poupe do borrão minha canneta! Ou não me chamarei Glauco Mattoso, ou gaffes nada impede que eu commetta!

PERRENGUE CHIQUE [1527-B]

No garfo o chefe enrolla a porçãozinha cremosa de spaghetti e, bem no meio do pratto, o gajo mette essa mesquinha e cara quantidade. Ninguem cheio se sente com tão pouco! Uma quentinha melhor me satisfaz e, mesmo, creio que, quando como um kibbe, é sorte minha. O pratto, que na mesa della veiu, tamanho tem da mesa. A van madame espicha a mão, fisgando o tal novello fugaz de maccarrão. Mas, ao mordel-o, o molho lhe respinga. Que vexame! Irada, antes que estrille e que reclame, um gole quer beber. Malgrado o zelo, o coppo que ella pega deita, pelo seu collo, tudo quanto se derrame.

DISSONNETTO DO RESPEITAVEL PUBLICO [1613]

Um delles diz: “Senhoras e senhores, illustres companheiros de jornada...” Politicos exquescem suas cores e applaudem a rhetorica ensaiada. Mas da solennidade os bastidores reflectem como o publico se enfada e falta com respeito aos oradores, chamados de, no minimo, “cambada”. {Que filho duma puta! Empatta a foda por mais de meia hora!} Numa roda resume-se o desdem: {Va pro diabo!} O publico ficando vae mais brabo. {Só falta vir agora aquella bicha pedir para fallar! O puto espicha o verbo mais até do que seu rabo!} Sem nada commentar, aqui ja accabo.

DISSONNETTO DA MÃO À PALMATORIA [1720]

Não tenho, contra os criticos, qualquer motivo pessoal: até me puz aos pés dum delles, pois o que elle quer é ver-me rastejando a seus pés nus. Exacto! Não esconde, nem siquer por um instante: quando me seduz, consegue o que queria, e de colher lhe fica a situação, como suppuz. Seus termos não serão jamais gentis. Desnuda-se, portanto, quando diz que fui, em dados versos, “infeliz”, ainda que a “tristeza” seja falsa. Si fujo da discordia, alem do pomo, e com elle concordo, faço como quem fica-lhe à mercê, e assim me domo debaixo duma sola ja descalça.

DISSONNETTO PARA A TRADIÇÃO JAPONEZA

[1813]

Tambem em territorio japonez iria eu me dar bem: a tradição exige que o subjeito, si é cortez, descalce-se na entrada do sallão. Nas casas, mesma coisa: cada vez que chega, o visitante pisa o chão descalço, seja a meia uma xadrez ou branca, limpa ou suja, feda ou não. Commigo, a tradição mais se respeita, tal como tantas outras da nação, si, para que a visita satisfeita esteja, tem massagem no pezão. Mulheres, massageia a amphitryan, com sua delicada, fina mão; os homens ganharão, com mais affan, o tracto pelas mãos do amphitryão.

DISSONNETTO PARA A TRADIÇÃO ESKIMÓ [1816]

Pensei que era mentira, mas ja vi, até bem clara, a photo: um eskimó, ao receber visita, dá de si o maximo, e o bemvindo é seu chodó. A esposa lhe offeresce, e até diz “Tó!”, mostrando a propria bocca: “Mette aqui!” E o visitante, grato, goza e ri: fodendo até a garganta, entra sem dó! Que pena! Um eskimó não se acclimata em terras tropicaes! Seria grata, por certo, essa presença em minha casa! Veria como um gozo se extravasa! Não tenho esposa para offerescer, mas offeresço, para seu prazer, a bocca a que elle nella se compraza, pois minha gargantinha não é rasa!

DISSONNETTO PARA A TRADIÇÃO CUBANA [1838]

Discursa o professor: mais de uma hora de esteril fallação. Palavra pede seu proximo collega, e rememora aquillo que elle disse, muito adrede. Prosegue a ceremonia. Vem agora alguem que, mais grahudo, nunca cede logar antes que falle, pausas fora, trez horas, sem que o pé do palco arrede. Depois, um companheiro de partido, só para não dizer que é mais de bando, por quattro horinhas solta seu lattido, emquanto a caravana vae passando. Por fim, o presidente sua falla em tom mais aggressivo do que brando profere por seis horas e, ao dictal-a, advisa que está, ainda, no commando.

DISSONNETTO PARA A FALTA DE

NOTICIAS [1909]

De vez em quando, alguem, com quem não fallo faz tempo, me pergunta como vou. Que devo responder? Cumprimental-o, é claro, porque, emfim, elle me achou. Tambem dizer-lhe que feliz estou por ser ‘inda lembrado, ja que o callo maior, no pé do ausente, é si do show não faz mais parte, mesmo no intervallo. Mas pede-me noticias quem me escreve e, ainda que eu pretenda ser bem breve, não acho o que contar: então me exquivo, na falta dum assumpto ou dum motivo. Aqui tudo na mesma, é o que lhe digo, pois esta é a melhor nova que um amigo espera ouvir de alguem que ‘inda está vivo, cansado dum dever tão cansativo.

DISSONNETTO PARA UMA DESADVENÇA CONJUGAL [2047]

-- Meu bem, eu não fallei que o restaurante francez era um amor? Quantas escadas! As sallas são pequenas, mas bastante ornadas com panellas penduradas! Si chega a demorar que a gente jante, mactamos nossa fome com entradas!

Olhemos o garçon, tão elegante! Passemos patezinho nas torradas!

Que importa si a comida é demorada, si aqui maravilhados ante cada detalhe ficarão os visitantes? Sim, este é um dos melhores restaurantes! “O que?! Esperamos tanto p’ra, no pratto, vir essa migalhinha? E ainda o chato sou eu? Por que você não fallou antes? Detesto restaurantes semelhantes!”

DISSONNETTO PARA OUTRA DESADVENÇA CONJUGAL [2049]

“Querida, o restaurante poz na compta até cada pedaço de palito de dente que eu quebrei! A somma monta centenas de reaes! Acha bonito? Quebrei palitos, sim! Estava afflicto emquanto não ficasse a boia prompta! Você tinha que achar esse exquisito logar para comermos, sua tonta?

Sahi de la com fome! Só jantei patê com pão, batatas, e nem sei que carne era essa tal dessa medalha! Não ha compta que tanto assim nos valha!” -- Meu bem, é medalhão! Filé mignon! Não sabe appreciar? Tudo que é bom é caro! Quem mandou sermos gentalha? Arroz-pheijão é tudo que nos calha!

DISSONNETTO PARA QUEM SE DEU ARES [2055]

Si peida, o cara aos outros importuna, mas, si não peida, o incommodo é só seu.

Si os gazes se accumulam, a columna fecal lhes forma a rolha e, ahi, fodeu!

No pulpito, na cathedra ou tribuna, discursa elle, dizendo-se plebeu.

Rhetorica jamais se coaduna, porem, com o fedor que alli fedeu.

Em Deus quem cheira aquillo perde a crença!

Surpresos, os presentes fazem gesto de quem a cara abbanna, em manifesto signal, que palavrões grossos dispensa.

É como uma fumaça, grossa, densa.

O gajo, que dos gazes se allivia, ainda tem, por cyma, uma alegria immensa por causar tamanha offensa.

DISSONNETTO PARA A LINGUAGEM DESBOCCADA [2069]

Foi uma camonista quem me disse: “Vocês só valorizam de Bocage a face pornographica, a chulice, por serem brazileiros...” Que bobagem! Tambem os portuguezes à boccagem do Mestre dão valor! Contra a mesmice, poetas revoltados assim agem! Não fosse tal angustia o que eu sentisse! Não ha por que temer nosso calão! Bocage, como Kafka ou como Belli, fez como quem aos posteros appelle que rasguem seus escriptos, mas em vão! Ninguem, por ser mais chulo, é menos são, pois é na obscenidade que um auctor demonstra ser humano! Hoje um valor mais alto ao palavrão os homens dão.

DISSONNETTO PARA UM MOLEQUE TRAVESSO [2073]

Famoso, até demais, esse moleque! Nem cinco anninhos tem, e ja seu nome repete-se, gritando, até que seque nas boccas a saliva... Que renome! É “Lucas, vem aqui!”, “Lucas, não some!”, “Luquinhas, por favor!”... Quem lhe sapeque uns tapas gritará, com gosto, “Tome!”, alem dos palavrões que a lingua impreque. Alguem quer tal creança como sua? Traquinas, o menino desaffia qualquer auctoridade, e a gritaria de “Lucas!” e “Luquinhas!” continua. Surrar, quem ja tentou, hoje recua. Legal vae ser mais tarde, quando o cara, num carro ou numa moto, ja dispara, sem ver signal vermelho, pela rua.

DISSONNETTO PARA

QUEM

SEUS MALES NÃO EXPANTA [2093]

Cantando “...para, Pedro, Pedro, para...”, “...passei a noite procurando tu...” e que “...não sou cachorro, não...”, o cara mostrou que não estava jururu. Mas deu azar. Um typo Brucutu, com quem sempre na feira se depara, não quiz saber: mandou tomar no cu quem canta com vozinha de taquara. O cara se offendeu. Bemhumorado chegara, e um besta vinha pro seu lado achando que ser grosso ja podia, querendo lhe estragar um novo dia? Sahiram na porrada. O truculento ganhou, mesmo appanhando: seu intento, que era baixar o astral, ja contagia a todos na agitada freguezia.

DISSONNETTO PARA UMA THEORIA DA

RELATIVIDADE [2114]

Ironico: extranhamos nós que seja normal, para um chinez, cuspir no chão. e achamos natural si alguem despeja na rua o entulho duma construcção. Costumes malcreados são, na egreja, contar até piadas de sallão, mas não consideramos malfazeja a satyra, appesar do mau calão que, por signal, nem é la tão nocivo. Si tudo é relativo, eis o motivo pelo qual eu, pornographo, me exquivo de roubos commetter, e assassinatos, embora não faltasse uma intenção, emquanto que o decente cidadão, eleito por nós todos, mette a mão no alheio, e ‘inda pleiteia mais mandatos.

DISSONNETTO PARA UM JANTAR DE GALA [2224]

Está na lei de Murphy: uma toalha carissima, e que raro usamos, não excappa do accidente; uma que valha pouquissimo jamais soffre um borrão. Aquella que vovó deixou bem calha na mesa de jantar, occasião em que não convidamos a gentalha, appenas gente amiga do patrão. Assim não ha quem sirva algo “de gala”! Emquanto aquella mesa foi forrada com pannos mais baratos, nunca nada de sujo accontescera a conspurcal-a. Mas sempre convidamos alguem “mala”! Foi só servir a janta nessa, a cara, que a sopa, o vinho, o molho derramara a mais chique madame alli na salla.

DISSONNETTO PARA UMA MURPHOLOGIA DO VESTUARIO [2298]

No dia em que Godinho põe gravata e veste paletó, cae de pigmenta o molho e faz estragos, é batata, do punho ao collarinho, e alguem commenta. Deu brilho no sapato? Ja constata o gordo: vae chover! E se lamenta, prevendo um temporal que caia e batta no couro, alem da lama, que é nojenta. Da physica as regrinhas são ruins, pois, caso o gordo vista appenas jeans, pode expirrar a calda dos puddins da mesa inteira, e a calça fica limpa. Na quantica nós temos que ter fé: Si está de camiseta, pode até cahir torrão de assucar no café, que ainda ella, branquinha, se repimpa.

DISSONNETTO PARA MAIS COSTUMES TRIBAES [2333]

Saber que, la na China, peida, arrocta e pode o cidadão cuspir no chão reforça alguns motivos que me dão vontade de fazer disso chacota. Gastaram la, com opera, uma nota num optimo theatro, porem não prohibem que a platéa o tenha à mão e falle ao cellular, é o que se nota. Não quero usar, jamais, de muito fel, tampouco dum chinez fazer debique. Só fico imaginando um coquetel de gala, e a chinezada, toda chique, servindo-se e fazendo tal papel. Si a moda pega, é facil que se applique aqui, pois, em Brazilia, o coronel adora ser chamado de “cacique”.

DISSONNETTO

PARA

CHATEAR, APPENAS [2645]

E ja que mencionamos o sapato, sabendo que ella gosta do marron, o gajo, que é do contra, achava bom tractar sua mulher com desaccapto. Que faz, então, esse marido ingrato? Sapatos brancos compra, porem com particular detalhe: o mesmo tom não tem, em cada pé, o pisante chato. É “só p’ra chatear” que o gajo faz tal coisa com a pobre da mulher. Até terno amarello usa o rapaz, ou mesmo um bonnezinho de choffer. Será que elle deseja ser mordaz? Será que é “chatear” o que elle quer? Ou, exhibicionista, elle é capaz de expor-se até sem roupa, si puder?

DISSONNETTO SOBRE UNS TRAJES EXTRAVAGANTES [2919]

Eu quero ver você vestindo, eu quero, vestindo este casaco, que é vermelho. Melhor, será bordô, como, no espelho, semelha, ante um exame mais severo. Vestido de bolero, lero, lero... Tambem peço que o vista, e até acconselho que as unhas você pincte, em cada artelho, na cor desse vestido, que eu venero.

Será que bem não fica? Muita prosa ouvi, sobre ethiqueta. Acham ruim? Mas, caso ‘inda prefira a saia rosa, ou verde, ou amarella, mesmo assim a turma vae gostar, a turma goza, pois, mais do que o vestido, para mim bom é que essa menina tão gostosa calçou meu sapatinho de setim.

DISSONNETTO SOBRE UMA DESPEDIDA DESMEDIDA [2957]

“Até ammanhan!” É sempre o que elle diz. Não gosta de “addeusinho” ou “addeusão”, pois acha que é praquelles que se vão definitivamente, ou por um triz. Prefere um “até ja”, dos mais gentis, ou mesmo um “até logo”... Occasião não falta, porque todos logo dão resposta rapidissima e sem bis. Occorre que o subjeito é o maior chato e, quando se despede, a gente dá, feliz, graças a Deus e sae a jacto. Mas, quando o galochão sem pressa está, ficamos só torcendo que o sapato lhe apperte mais que fome e sorte má. Nem mesmo um masochista achei eu, apto a delle lamber solas: não, nem ha!

COBRANÇA QUE CANSA [3453]

Perguntaram ao poeta por que emprega palavrão. Respondeu elle: “Da recta eu não tiro o meu cu, não!”

Insistiram: {Quem se affecta, hoje em dia, com calão?}

E o poeta: “Essa selecta sociedade sem colhão!”

Quem os bardos só refuta não desiste: {É só o burguez que seu verso questão fez de aggredir, à força bruta?}

Mas o bardo da disputa está cheio: “Não, babaca! É a mamãe, aquella vacca, que eu fodi, filho da puta!”

CHARITY BEGINS AT HOME [3701]

A rainha Elizabeth serve, em Buckingham, o cha.

Ou melhor, a mão não mette: ao trabalho nem se dá.

O puddim até derrete, de gostoso, e de fubá são as broas... Que complete e enumere quem foi la!

Uma actriz, no fim da mesa, jus à fama faz de obesa e abboccanha um bollo inteiro. Se serviu ella primeiro.

A rainha, seria, faz que não viu, mas diz “No class!”, quanto ao Mundo, si é Terceiro, comparavel ao chiqueiro.

PEGAJOSAS PEGADAS [3815]

Um cigarro puxa, fuma, a bituca joga fora e, vergonha sem nenhuma, no chão cospe: isso elle adora. Ao chamar de filho duma puta alguem, elle peora sua imagem, quando a espuma cospe longe, mas nem cora. Elle cospe em jacto fino, jacto grosso... e, mais suino, de catarrho a placa excarra pelos canthos da boccarra.

A calçada em que elle pisa sempre fica immunda e lisa: que excorregue quem a varra! Bello thema a quem só narra!

VIOLA EM CACOS [3975]

“Quebrou tudo!” Eis que a expressão leva a serio, esse rapaz!

Quebradeira faz questão de appromptar... Ah, como faz! Algo fragil tem à mão?

Catrapimba! Cabrum! Cras!

Inquebraveis trastes são?

Em pedaços algum jaz!

Não suggira algo sensato!

Não lhe peça para um pratto com cuidado levar! Tacto não tem elle com a louça!

Elevar nem tente o nivel suggerindo algo plausivel, pois será mesmo impossivel que um conselho o rapaz ouça!

UM

ASSUMPTO NO AR (1/2) [4005/4006]

(1)

É na casa da vovó que a familia almossa juncta. Ninguem della sente dó: “Só me querem ver defuncta!”

Alguem peida, e todos só se encarando. A velha assumpta doutras coisas. No gogó morrerá qualquer pergunta.

No seu pratto faz que viu uma mosca a velha, e um fio na salada de palmito.

“Do primeiro que sentiu, foi dahi só que sahiu”, diz o dicto, que eu repito.

(2)

É na casa da avó que a familia se vê toda juncta de novo: uma chance tão rara! A velhinha, coitada, que tudo prepara, na cozinha se macta, e elles vendo tevê!

Prompto o rango, elles sentam, do velho ao bebê: enchem prattos, mastigam. O riso dispara. De repente, um ao outro, se olhando na cara. Quem peidou? Que fedor! Não ha dica quem dê.

A vovó, que se abbanna, de cara ammarrada, pigarreia, olha em volta: paresce que viu uma mosca na sopa, algo assim na salada.

Se cotucam os filhos. Alguem faz um “Psiu!” O silencio diz tudo e ninguem falla nada. “Quem primeiro sentiu, foi dahi que sahiu.”

UNCOMMON PEOPLE [4013]

Pensei aqui commigo: si a Rainha me visse agora, assim, eu, com a mão, comendo e lambuzando-me, o que não diria aquella dama tão chiquinha?

“No manners! Common people! No class!” Minha imagem estaria la no chão!

Não fosse eu um daquelles que não dão a minima si alguem nos expezinha!

Até pelo contrario: si, alem della, o Principe tambem me expezinhar, usando de cothurnos bello par, ahi, sim, que meu nivel se revela! Nem uso as mãos: me ponho a abboccanhar, na poncta, as suas botas, e lh’as mella, com toda aquella baba, a lambidella da minha lingua, até no calcanhar!

GAZES COMBUSTIVEIS [4581]

Eu fico imaginando aqui: si o nosso fedido peido fosse fumacento, fogoso, até... Que sarro, hem? Nosso vento soltando a labareda... Que destroço! As calças virariam trappo... Posso até ver chammuscado o meu assento depois dum peido... E quando eu arrebento a colcha, até o colchão, si o peido engrosso? Estou vendo na mente: um estampido echoa no banquete! A mesa inteira assusta-se e suspeita! A fumaceira se expalha, preta, e deixa um ar fedido! Alguem viu, por detraz, minha cadeira querendo decollar, com seu ruido de rhoncho de motor, foguete erguido do solo... Mas não voa: appenas cheira!

CANAL ANAL [4680]

Achei muito engraçado! O narrador do jogo, cauto, evita o palavrão a todo custo. Hypocrita, diz: “Não! Não pode! Que é que o ouvinte vae suppor?” Mas abre o microphone e, quando for captar do treinador uma instrucção mais rispida, se escuta: {Mais tesão, caralho! Mais porrada! Mais suor! No rabo! Faz tomar no rabo! Enraba!} Insiste, berra o technico. Ninguem lhe barra a voz no radio. Elle se gaba: {Sou foda! Sou fodão! Quem perde tem mais é que se foder!} Depois vem, braba, a voz do narrador: “Que feio! Eu, hem?” Mas, quando a transmissão do jogo accaba, commenta: “Veadão! Enganna a quem?”

SIGNA FESCENNINA [4853]

Propuzeram ao poeta versejar sem palavrão. Respondeu-lhes: “Essa meta não condiz com meu colhão!” {Mas você não interpreta o que falla ao coração?}, insistiram. “Não! Me affecta só tesão!”, lhes disse, então. {Tantos themas ha que tracte! O talento você tem! Poderá crear tambem outra coisa!}, alguem rebatte. “Toda foda ha quem empatte! Vão tomar no cu! Que merda! Quem de Sade os themas herda falla em foda!”, attesta o vate.

VERBORRHÉA COM PLATÉA [4888]

Dar palestra foi preciso a auditorio assaz lotado. Claro, o thema causou riso: um cuzinho bem lavado. Isso mesmo! De improviso, se insistiu muito, malgrado alguns nojos (e eu pesquiso no Youtube), no recado: “Sim! No vão de cada prega com sabão seu dedo exfrega quem cuidar quer do trazeiro! Deverá ser costumeiro!”

Gargalhadas dão, durante o sarau, do palestrante, que é poeta, ao que me inteiro, e faz versos no banheiro.

SEM CEREMONIA [4921]

A velha, ao telephone, parescia cholerica: “Que filha duma puta! Que merda! Me fodeu, a vacca! Escuta aqui, manda tomar no cu! Vadia!” Ficava extarrescido quem ouvia.

Tão doce, tão amavel, de conducta tão recta e respeitavel... É fajuta, então, essa postura? É falsa e fria?

Hem? Falla assim tão rude entende quem? Mal larga o phone, a velha se refaz na sua habitual doçura. Vem servir um cafezinho, broas traz: “Estão servidos? Querem leite? Tem assucar, addoçante... Ah, meu rapaz! Provou este puddim? Gostou, meu bem? Fogão, só tenho a lenha, não a gaz!”

ATTENDIMENTO PREFERENCIAL [4922]

Senhor! Por gentileza, venha por aqui. Fique à vontade, senhor. Queira sentar-se. Prompto! Estou à sua inteira, total disposição... Pois não, senhor! Deseja reclamar? Seja o que for, resolvo ja! Difficil? De maneira nenhuma! Com a nossa costumeira presteza, ficarei ao seu dispor! Tractamos o cliente como gente! Então, de que se tracta? Qual serviço deixamos de prestar devidamente? Repita, por favor! Então é isso? Ah, tenha paciencia! Logar quente é a cama! Va chorar la, meu! Que enguiço! Sem chance! Eu, perder tempo? Não! Nem tente, siquer, vir me accusar de ser ommisso!

GASTROENTERONOMIA [4923]

Foi uma scena incrivel! Quando accesa estava cada vella, na toalha ninguem advistaria uma só falha: emfim, prompta ficava a grande mesa! Assentam-se os convivas. Que belleza, aquella louça fina! Tudo calha aos vinhos, aos assados... Ja se expalha um cheiro appetitoso... E então... Surpresa! No brilho que, em baixellas, se irradia, serviu-se, entre as terrinas, uma, appenas, tampada. Houve suspense. Que seria? Risadas e conversas são amenas. Mas, quando se destampa, essa iguaria não passa de cocô! Foi dessas scenas mais sujas! Que fedor! Que porcaria! Com nauseas se pagaram muitas penas!

TOLETE NO BANQUETE [4924]

Não ha scena mais torpe, em todo o cine, que aquella do banquete sadeano no filme que o camufla de italiano: “Salò”, na direcção de Pasolini. Quem são os commensaes? Ha quem opine que está representado alli, com panno de fundo antifascista, esse mundano estrato social que o cu define. De merda elles se servem! Satanaz veria com prazer essa nojenta sequencia coprophagica e mordaz que estomago quem só tem forte enfrenta. Convem mais um porem dar, aliaz. Si alguem comer aquillo não aguenta, commenta outro conviva: “É facil! Faz pedido à Virgem Sancta! Reza e tenta!”

CARA A CARA [4979]

Pediu appenas sopa. Tão salgada estava, que difficil foi tomal-a. Chamou o chefe. “Veja como falla!”, ouviu. Sentiu-se, é logico, insultada. “Ninguem falla commigo assim! Si cada fregueza for tão chata, pô, que mala!” A velha escuta, appenas, e se cala. Depois, vae reclamar. Não diz mais nada.

O chefe é demittido. Estava fora de si, descontrolou-se, mas agora é tarde. Ah, si pegasse essa senhora! Tal odio não ha nada que lhe freia! E pega. A reencontra em outro bar, sentada. Mal a advista, vae buscar de sopa um pratto, para lhe jogar em plena cara, aquella cara feia.

GASTRONOMIA AMBULANTE [5023]

Comprou, na exquina, a espiga e, na calçada, emquanto os transeuntes passam, vae comendo o milho. O grão, quando não cae na roupa, é triturado na dentada ou fica, entre dois dentes, preso. Em cada vão, juncta-se amarella massa e attrae a nossa attenção quando elle quer (Ai!) mostrar-se cordial, dando risada. O gajo, que de eschola nem tem grau, exhibe uma dentuça onde se gruda, alem do milho, a manga e o bacalhau que resta do bollinho, em lan felpuda. Fiappos fermentados dão, de mau odor, forte impressão nessa barbuda, risonha cara... Asseio? Nem a pau! No lenço se limpar? Ninguem se illuda!

CONSELHO DE GRAÇA [5078]

Conhesço uma senhora palpiteira. “Não fica bem pegar o garfo assim!”, diz ella, approximando-se de mim, quer queira eu escutal-a, quer não queira. “Na minha opinião, sua maneira de andar e de sentar é bem ruim!” {E acaso lhe pedir palpite eu vim?}, pergunto, da maneira mais grosseira. “Ah, mesmo sem pedir, eu dou! E sabe por que? Vou lhe explicar: sou generosa! É logico que eu disso até me gabe!” E dá sua risada desdenhosa. Resposta mais nenhuma a mim me cabe. Emquanto quem escuta ja me goza, melhor acho sahir, antes que accabe perdendo a paciencia com tal prosa.

DEMASIADO INFORMAL [5252]

“Sahir assim à rua! Que vergonha!” Pellado nem estava: de pyjama, appenas. Mas quem olha apponcta e exclama: “Só falta na cabeça usar a fronha!” Ninguem, alli, tolera que se exponha alguem só de pyjama. Mas da cama sae elle, à padaria vae e chama, bem alto, o balconista, que ‘inda sonha. A falla repercute e, forte, echoa: {Oi, moço! Tá dormindo? Quero pão francez, quero presuncto e quero broa de milho...} E attrae, de todos, a attenção. “Incrivel! Como pode uma pessoa se expor dessa maneira?” As phrases são severas com quem, cynico, destoa de toda aquella bella multidão.

DEDOS E DENTES [5282]

Sandubas gordurosos, de pernil, de carne assada, bacon, ovo fricto... comidos são na rua! Fico afflicto, pensando no detalhe mais subtil. E os dedos lambuzados? Si no vil metal ja nos sujamos, eu nem cito os oleos, os azeites, o maldicto exguicho de mostarda e molhos mil! Emquanto apperta a fome, a gente advança num burger, num bauru, num mixto quente, ou mesmo num da moda que se invente, e só depois repara na lambança! Mas tente resistir ao dogão, tente! Ouvindo ja rhonchar a sua pança, você relucta, pensa na ballança... e, fracco, na salsicha mette o dente!

DISSONNETTO DUMA TREGUA SAGRADA [5372]

O pau quebra quando estão reunidos todos. Pae, mãe, avó, cunhado, irmão, battem bocca. Praga sae. “Vae você! Saphado! Vae...”

Só não vale palavrão.

De repente, alguem se trae: “Vae tomar no cu, bundão!”

E se calam. Constrangido todo mundo fica. O ouvido não registra novo insulto. Um qualquer passa por culto.

Sae o almosso. Alegre, senta a familia à mesa benta. Por emquanto, é tudo adulto e ninguem quer ser estulto.

Dobra a fila o quarteirão e a velhinha, na padoca, a pedir leva um tempão!

Com os outros nem se toca! Nos bollinhos põe a mão e seus oculos colloca.

Quer saber si bons estão sob a lente que os desfoca. Todo mundo está, na fila, irritado. Alguem estrilla, mas a velha nem ahi. Mais folgada, nunca vi!

Finalmente, o balconista lhe acconselha que desista dum puddim de abacaxi. Eu tambem ja desisti...

DISSONNETTO DUM HORARIO PRECARIO [5395]

DISSONNETTO

DUMA AGGLOMERAÇÃO

À CHINEZA [5424]

“Com licença! Com licença!” E o povão se accotovella no balcão. Ja ninguem pensa numa fila. A scena é bella. Ao berreiro o povo appella. Palavrões e desadvença são communs. Ninguem, naquella confusão, dispensa a offensa. “Mas que povo decadente!” “Com licença! Estou na frente!” “Eu cheguei primeiro, gente!” “Va tomar no cu! Va à merda!”

Situação bem intranquilla! Empurrões. Murros. A fila se desfaz. Um cego estrilla: {Pô! Não anda! Ah! Gente lerda!}

DISSONNETTO DUM PHAROLEIRO PATRULHEIRO [5425]

Ninguem disse o que a senhora diz que ouviu. Não! Palavrão não se falla aqui. La fora até pode. Aqui, ja não. Não! Tem gente que até cora só de ouvir. Fallar, então, nem pensar! O que appavora é o que pensa esse povão, é o que berram esses vis! Aqui dentro não se diz palavrão, senhora. Fiz o possivel, prohibi esse pappo que se estruma. Si a senhora ouviu alguma coisa impropria, eu que me assuma como um merda, um bosta, aqui.

DISSONNETTO DUNS INOPPORTUNOS TELEPHONEMAS [5452]

Toca... e toca o telephone! Não attendo mais. Eu quero que se foda! Me abbandone quem me liga, é o que eu espero! Eu queria era um “aspone”, ja que o phone não tolero! Com quem chama, esse meu clone tolerancia tinha zero!

-- Por favor, o Glauco está? {Não! Mandou dizer que va, quem ligar, lamber sabão! Entendeu bem, seu bundão?}

-- Ora, o Glauco não é grosso! {Cê que pensa! Exquesça, moço! E não ligue mais, sinão xingamentos mais virão!}

SONNETTOS DUNS RABOS PRESOS (1/2) [5467/5468]

(1)

No Congresso, a commissão seus trabalhos inicia. A depor chamados são os que entraram numa fria.

Todos fallam. Palavrão não lhes falta. Pela via democratica, elles dão a versão que denuncia:

“Só cumpri minha tarefa! É o senhor, aqui, quem blefa! Va tomar no rabo, porra!”

{Veja como falla! Aqui nós mandamos! Não pedi que esse oral boato corra!}

(2)

O auditorio ferve. Alguem se levanta e quer depor. É o pivô do caso e tem muitos podres para expor.

“Eu me fodo, mas sou quem menos culpa tem, doutor! Ja tomei no cu, mas nem assim calo o meu rancor!”

Lhe perguntam: {Dar nos pode o senhor quem é que fode mais seu rabo, thesoureiro?}

E elle entrega: “Certamente! É da casa o presidente, que enche o rabo de dinheiro!”

SONNETTOS DUMA ETHIQUETA PORRETA (1/10) [5471/5480]

(1)

Si entre amigos estiveres, informal até tu podes te mostrar. Mas, si tu queres ser cortez, não te accommodes.

Não cofies teus bigodes sobre os prattos e talheres. De cabritos ou de bodes os colhões tu não preferes?

Si constarem do antepasto, não te mostres muito casto: prova, ao menos, meio bago.

Si não gostas de miolo de macaco, finge pol-o sobre a lingua, em gesto vago.

(2)

Não te exquesças: cotovello não se appoia sobre a mesa. Si mantens, à mesa, o zelo, manterás a fama illesa.

Não te curves. O cabello não penteies. Mesmo accesa luz mais fracca, podem vel-o deitar caspas com clareza.

O nariz jamais cotuques com o dedo. Evita truques que disfarsem esse gesto.

Caso sirvam, como entrada, o recheio da buchada, não será tão indigesto.

(3)

Si tiveres um accesso, quer de expirro, quer de tosse, uma coisa, só, te peço: que ninguem teu ranho almosse.

Usa lenço. Eu não engesso os teus gestos, mas não coce o teu dedo esse confesso nó que toma de ti posse.

Esses nodulos te dão comichão? Evita a mão collocar sobre o caroço.

Si o fizeres, guardanappo usa, o mesmo que do pappo te recolhe o suor grosso.

(4)

Si na bocca collocares, por exemplo, uma formiga que, torrada, nesses bares é servida, faze figa.

Te controla. Mantem ares roptineiros. Que consiga tua lingua, sem botares tudo fora, ser amiga.

Engolir com elegancia tu precisas. Caso alcance a porcaria teu gogó...

Tapa a bocca com a mão.

Si vomitas, a porção emporcalha-te, a ti, só.

(5)

Nunca alteres a receita. Si pedires escargot, e servirem lesma, acceita, mastigando qual robot.

Não vomites. Calma. Deita essa gosma, o bollolô mastigado, ao chão. Si expreita o garçon, conta: “É cocô!”

Si offerescem dobradinha, não calcules o que tinha ruminado aquelle boi.

Si buchada for, não rezes nem te indagues si das fezes toda a tripa limpa foi.

(6)

Não te sirvas de bebidas. O garçon cuidará disso. Si outras forem as servidas, não reclames do serviço.

Caso engasgues e decidas excarrar, gesto postiço empregar tenta. Polidas soluções não dão enguiço.

Puxa o lenço. Desdobrando vae com calma. Appenas quando desdobrado, nelle excarra.

Mas, si tempo não der, tenta cuspir logo a catarrhenta gosma... e pouco abre a boccarra.

(7)

Guardanappo tem que estar sobre as pernas. Si elle ao chão cahir, deixa no logar, mesmo enchendo de pisão.

Pede um outro. Vão te dar. Si alguem diz que não darão, então pega aquelle. Azar. Limpa a bocca pouco, então.

Não assoes o nariz nesse panno. Mal se diz de quem ranho nelle deita.

Não rebaixes o teu nivel gestual, pois é possivel que o garçon esteja à expreita.

(8)

Os garçons são patrulheiros de quem segue o protocollo. Serão elles os primeiros a ver, quando alli me enrollo.

Coppos, facas, paliteiros, guardanappos sobre o collo, tudo notam. Sentem cheiros e reparam si eu me ammolo.

Quando eu peido, algum escuta até bufa que da grutta sem nenhum barulho saia.

Si eu me queixo do serviço, elles juram vingar isso e ja ficam de tocaya.

(9)

Não me importo com garçons, mas suggiro que te importes, pois no faro elles são bons e detectam peidos fortes.

Mesmo quando os traques sons não fizerem, não abortes teu exforço. Caso os trons sobresaiam, não te cortes.

Pousa a faca sobre o pratto e simula que teu flato foi o rhoncho duma moto.

Ja que a malta motoqueira faz aquella barulheira, eu, ca, finjo que nem noto.

(10)

Emfim, pouco recommendo a ti, caso tu te sentes a jantar, ja pretendendo aggradar aos exigentes.

Importante é ter, comendo, as maneiras mais decentes. Mas rigor eu não entendo que te faça as costas quentes.

Si quizeres aggradar teu patrão, topa um jantar. Quem convide, riscos corra!

Vomitar, peidar, evita.

Mas, si a tripa ja se agita, manda tudo à merda, porra!

SONNETTOS DUM BANDEJÃO DE EXFRIAR PHEIJÃO (1/3)

(1)

Restaurantes formam fila. Num “por kilo”, a fila para: uma velha, bem tranquilla, se demora, olha, compara.

Todo mundo a distinguil-a com gentis nomes e, para traz olhando, a velha estrilla, lhes fechando a feia cara:

“Cês que esperem! Eu cheguei antes, sabem? E nem sei o que irei comer, ainda...”

Quem agguarda fica até mais nervoso, alli, de pé, numa fila que não finda.

(2)

Ella pega uma batata, examina, desapprova e devolve. {Mas que chata!}, attraz ouve. Anda? Uma ova!

Continua alli! Faz nova tentativa. Então constata que as batatas não dão prova de bom gosto... Oh, vida ingrata!

Um passinho à frente, advista a velhota o que conquista seu exotico appetite:

Ovos frictos! Mas procura um que tenha a gemma dura, pois a molle não admitte.

[5494/5496]

(3)

Finalmente, a velha passa a bandeja pelos prattos principaes. Pega uma taça de sorvete e xinga: “Chatos!”

Todo dia, os insensatos usuarios acham massa, carne fria... Pagam patos porque querem! Tinha graça!

Certa vez, outra velhinha, que nenhuma calma tinha, perde a pouca paciencia.

Batte bocca com a chata que, offendida, alli se macta de vergonha: a vida vence-a!

ALHEIA VERGONHA [5596]

Dercy Gonçalves disse: palavrão não é “foda”, “caralho”, “merda”, “porra”. É fome, guerra, abuso, corrupção e tudo que de males taes decorra. “Decreto” ou “portaria” mais calão traduz que “putaria”. Alguem que morra na fila do hospital é chulo, não casaes no frango assado ou na gangorra. Os juros, excorchantes, indecentes se tornam mais que curra numa bella donzella. Quando botam pannos quentes num crime escandaloso, mais se mella. Politico que emprega seus parentes no typico “cabide” mais sequela provoca que quem morde e exfrega os dentes na pelle do cacete emquanto o fella.

NO AR A ZOAR [5802]

Locutores eu festejo nesta lyra, mas suppondo um que expresse, sem ter pejo, com voz grave um “cu” redondo. Quanto à pinga, não desejo exaltal-a, mas respondo, si perguntam, que este ensejo approveito e não me escondo. Quem bebeu tem o direito de fallar um palavrão. Foi no radio? Foi bem feito si ganhou repercussão!

O poeta que tem peito nem precisa ter à mão o seu vinho sem conceito: Usa, sobrio, do calão.

MOLEQUES SALAMALEQUES [5851]

Senhor, por gentileza... Eu poderia pedir-lhe um favorzinho? Si não for incommodo, senhor... Eu só queria mandal-o se foder... Sim? Por favor! Perdão por insistir, senhor... Bom dia! Não quero interrompel-o, não, senhor! Desculpe-me qualquer descortezia, mas va tomar no rabo! Não, sem dor! Com toda a paciencia a gente insiste, mas noto que perdendo o tempo vou. Evito dirigir, de dedo em riste, offensas ao senhor, pois calmo sou. Mas, como o nosso pappo não consiste de formulas polidas, este show sentido ja perdeu. Ora, sem chiste: Ou vae tomar, ou eu o cu lhe dou!

COLIGLAMA [5886]

Não, não é “calligramma”, mas se tracta dum novo collectivo litterario, creado com meu nome, em honorario padrão de antigo “gremio”. Menção grata! Estou gratificado, sim, mas ratta não faço si, lembrando-me do Mario, do Oswald, e sem perder o tom hilario, suggiro-lhes um jogo que se empatta. Empattam os dois lados da questão que não é coimbran, mas paulistana: Ser livre, modernista, bem bacchana paresce, mas tenhamos um padrão! Aos membros, recommendo o palavrão ao lado do cultismo, quem se uffana ao lado de quem acha que se damna, unindo o que se inverte: insano e são.

HILARIO PLENARIO [5953]

Tem methodo o jargão parlamentar. Debatte de alto nivel bem transcorre na Camara, mas, caso alguem desforre, bem pouca coisa pode se salvar. Alguem pede palavra para dar palpite sobre thema que ja morre por falta de quem grana nisso torre, mas, mesmo assim, papel faz exemplar. -- O nobre deputado se equivoca! {Jamais! Vossa Excellencia não sabia?} -- Sei muito bem! Não vivo de fofoca! {Mas vive de mammata e mordomia!} -- Não falle assim commigo, seu boboca! {Ah, foda-se, Excellencia! Chupa! Enfia!} -- Commigo ninguem nesse assumpto toca! {Si toco! Não tolero baixaria!}

MISCELLANEA DA CEREMONIA [6032]

Si formos dar molleza, ahi fodeu! A casa della a turma sempre invade. Gentil, diz ella: “Estejam à vontade!” Agora não dispõe mais do que é seu. Amiga do povão, seu mais plebeu amigo depressinha a persuade a dar uma festinha. Haja amizade! Ja todo mundo sabe que ella deu. Na salla, “A casa é sua!” ella repete. Mas, quando até a cozinha excappa, a dona Regina Elizabeth, appenas Bete aos intimos, depressa posiciona vassoura attraz da porta, salta septe pullinhos, roga praga, raiva à tonna. Na proxima, de novo compromette seu tempo e sua casa vira zona.

COPROLALIA [6202]

Senhoras e senhores, esse bosta, perdão, esse carissimo collega que, nesta ceremonia, a bunda arrega, desculpem, que em dialogos apposta... Me cabe exaltar sua descomposta bundona, digo, o merito dum mega poeta, de seu livro, um troço brega da porra, do qual toda a gente gosta! Errei quando o chamei, attraz, de filho da puta! Mil perdões! Dizer eu quiz que sua mãe nem era meretriz, porem foi-lhe imputado o peccadilho! Emfim, que elle se foda, si me pilho mandando, me corrijo desses vis cochilos! Lhe dirijo os mais gentis calores, com perdão do trocadilho!

ADJUDINHA [6225]

Que merda, Glauco, porra! A minha vida virou inferno! Sendo processado estou! A me foder, de todo lado, as dividas pipocam! Cê duvida? Verdade! Caso alguem não se decida a dar-me uma adjudinha, estou ferrado! Das minhas posições eu não me evado, mas ellas teem polemica sahida! Xinguei ja muita gente de appellido que acharam offensivo! Chamei um de “brocha”, outro de “bicha” e de “bebum”! Um outro de “cagão”! Bem merescido! Agora me ver querem um fallido guru, Glauco! Um fanatico commum jamais serei! Quem cheira meu bodum que fique indifferente eu... Hem? Duvido!

PAPPO POLIDO [6317]

Estão sentados frente a frente, mas é timida a conversa. Appoio ao pé buscando um delles, pisa à toa, até pisar no longo pé do outro rapaz. Então este retira seu assaz comprido pé, mostrando que não é podolatra. Mas é. Por isso ré mal chega a dar. Hesita, à frente, attraz. Ahi fica a criterio do primeiro de novo procurar onde é que pisa. Conversa vae, conversa vem, à guisa de emballo, outro pisão se faz certeiro. Se rende, emfim, aquelle que parceiro quer ser mas é discreto. Suaviza seu peso, mas tambem pisa. Precisa ainda de conversa, cavalheiro?

VELHOTA PATRIOTA [6545]

Te posso corrigir, sim! Fui docente! Ouviste, Glauco? Nunca alguem colloca num verso os palavrões que na malloca se escutam! Entendeste? És indecente! Eu era professora dura! A gente, em classe, prohibia aquella troca de insultos, que envergonha, que nos choca! Terei que ser censora novamente! Sou dura, sim! Castigo bem severo meresce quem se vale, em portuguez, do linguajar mais torpe e descortez na hora de escrever! Punir-te quero! Não vês que impatriotico o teu lero se torna? Amor à patria, cada vez mais, acho necessario! Tu não vês?

Terás que receber é nota zero!

Não, vate! Eu, mesmo sendo um fallastrão, não posso concordar com a censura que fazem aos meus chistes! Quem attura offensa, attura a satyra, né não? Usando tudo quanto é palavrão, a turma, pelas redes, faz bem dura campanha contra aquelle que só jura prover o bem do misero povão!

Então por que não posso, Glauco, usar o meu palavreado gozador naquillo que gozar preciso for? Colloque-se você no meu logar! Você se calaria? Ammedrontar conseguem o seu verso, Glauco? Por acaso você deixa de se expor no comico papel do seu azar?

NATAL SEM MASCARA [6939]

A ceia de Natal, na quarentena, junctou quattro pessoas que ja não se viam, paes e filhos, tradição mantida. Mas o clima deu foi pena. Rollou lamentação. O pae condemna os habitos dos jovens. Diz que estão ja muito depravados. Faz questão de ser o bom christão, roubar a scena. O pappo degringola. Ja de porre, o filho um palavrão solta, pesado. O pae o recrimina. Revoltado, o moço sobre vicios seus discorre. É sempre assim e, caso não desforre fallando de prazeres, por seu lado, a filha falla mal dum deputado em quem o pae votou. Peor foi? Sorry!

HONRAS DA CASA [7021]

A casa é sua, mano! Caso queira mijar, irmão, alli fica a privada!

Peidar pode à vontade, camarada!

Cagar tambem, si está com caganeira! Cuspir no chão eu deixo! Bananeira, até, pode plantar, si isso lhe aggrada!

Nem ligo caso alguem aqui me invada!

Cerveja tem alli na geladeira!

Dinheiro tenho pouco, mas algum valor tem essa griffe, está na moda!

Querendo curtir uma boa foda, que tal minha mulher? Drama? Nenhum! Você ja soltou caspa, arrocto, pum...

Massagem no pezão acceita, brother?

Do typo não serei, que se incommoda, pois meu azar é fora do commum!

MATERIAL REUTILIZAVEL [7194]

Acharam, no cestinho do banheiro da Camara, a caseira papellada, projectos e discursos, ammassada e suja de cocô, soltando cheiro. Palavras proferidas, com inteiro teor protocollar, não valem nada, agora, recobertas da camada de merda que borrou o brazileiro. Seria deputado ou deputada quem deu à papellada tal destino? Disseram que o banheiro feminino confirma-se. Isso ouriça a molecada. Correu entre escravinhos que quiz cada moleque resgatar, do papel fino, a sua folha, para ser usada, sim, como um guardanappo bem suino.

MOTTE GLOSADO [7533]

O que importa é que se leia o que a gente, urgente, annota.

Lettra boa, lettra feia, pouco importa, actualmente. Si o recado for urgente, o que importa é que se leia. Mesmo quando alguem puteia palavrões do typo “chota”, “cu”, “caralho”, ou “idiota” se rascunha, em meio à reza, isso appenas embelleza o que a gente, urgente, annota.

MOTTE GLOSADO (1/4) [7620]

Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!

(1)

Eu sou cego, mas não veto as piadas de ceguinho, pois aos cegos mais me allinho que o politico e correcto. Si em meus versos interpreto os fodidos e me valho de ironia, que um paspalho moralista acha “offensiva”, quem com isso não conviva va tomar no cu, caralho!

(2)

Dependesse do careta, mais ninguem fazer podia humorismo ou poesia sobre negro, gay, muleta de alleijado... Que eu submetta à censura meu trabalho o careta quer! E eu malho o censor, pois não me acquieto! Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!

(3)

Phantasia de mulher, de cigano ou indio não pode usar um follião? Só porque o censor não quer? Um lettrista, si disser na marchinha o que um pirralho diz brincando, não é falho, só retracta o que é concreto! Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!

(4)

Que “melhor edade”, nada! Velho é velho! Cego é cego! Si sou cego, não me nego a assumir que a molecada me deu trote e faz piada! Si, anarchista, eu advaccalho tudo e todos, expantalho não me expanta! Nem me affecto! Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!

MADRIGAL INFERNAL (1/2) [7754]

Festeira, a dona Ritta varias dá e quer que a vizinhança ao demo va...

(1)

Ninguem, no quarteirão, aguenta mais! Na casa della, a noite toda accesa, indica a luz, de longe, os musicaes saraus! Quem quer dormir ja tem certeza, alem da poesia, de que as taes festinhas são festins de rolla tesa!

(2)

Intrigas? Serão mesmo bacchanaes? A musica dansante tanto assim nem é! Mas, no compasso, occasionaes e agudos palavrões dão ao festim um tom de putaria! Ao filho os paes dirão da Ritta: “O sangue é que é ruim!”

MANIFESTO ELITISTA (1/2) [7931]

(1)

“Te cuida, Glauco! Deixa-te de tantas baixezas! Usas muitos palavrões e escreves sobre coisas asquerosas! Podias usar tua boa verve em optimos poemas de elevado teor, epicos, lyricos, mas não satyricos! Talvez tua cegueira não passe de castigo por usares a penna, como a lingua, de tão sujo e grosso modo, Glauco! Queima aquillo!”

(2)

-- Conhesces-me faz tempo. Si te expantas com esse linguajar, por que então pões os olhos no que escrevo? Por que gozas? Suggiro que teu fino senso observe que os themas de que tracto resultado são dessa sociedade que tu tão vanmente valorizas. De maneira nenhuma abdicarei dos meus logares de falla. De inimigos nunca fujo. Em tempo: teu pé, posso em mim sentil-o?

MANIFESTO MINIMALISTA (1/2) [7946]

(1)

“Sou curto e grosso mesmo, Glauco! Não me attenho às encheções dessa linguiça chamada poesia! Quando quero dizer anus, eu digo cu! Si digo que é pau, é porque penis ja seria demais! Si prostituta não fallei, se explica pela puta que pariu! Emfim, não vou ficar justificando aqui meu linguajar, sinão eu caio naquillo que pretendo contestar! Concorda, Glauco? Tenho sido claro?”

(2)

-- Concordo. Tambem uso o palavrão no verso, sem problema. Mas enguiça o pappo si pretendo ser severo com tudo que é prolixo, meu amigo. Em vez de pau, melhor não ficaria caralho ou caralhão? Talvez um gay prefira dizer mala... Você viu que tudo só depende de onde, quando e como usar um termo. O papagayo repete sem pensar o linguajar que ouviu. Eu ja separo e ja comparo...

INFINITILHO DA PENTELHAÇÃO (1/2) [8131]

(1)

{Senhor Mattoso, venho-lhe, por meio da nossa virtual rede, pedir que deixe de servir-se de expressões tão chulas, indecentes, de teor improprio para todas as edades. Talento o senhor, duvida sem, tem. Então para que tanta aberração? Façamos o seguinte: doradvante, poemas o senhor fará só com palavras elevadas, instructivas, que exaltem devoção aos mais sublimes valores da christan communidade. Agindo dessa forma, não será por mim mais accusado de deboche, excracho, perversão ou sacrilegio. Não acha razoavel, meu senhor?}

(2)

-- Não só por esta rede, estou ja cheio de toques desse typo. Si mentir quizesse, eu lhe diria que Camões foi chulo tambem, como o professor que tive de Moral nas faculdades nas quaes maiores notas que eu ninguem obteve. Inda diria que mais não farei pornographia, que bastante estou arrependido, do bom tom, appenas, usarei e darei vivas à patria, a mais dureza nos regimes, à ordem, ao progresso. Mas verdade não quero que me falte. Então, que va catar coquinho peço, que lhe attoche la dentro uma cenoura, que lhe inveje o pauzão que encaro, como chupador.

CONTAGIANTE FANATISMO [8498]

Não falta, ja, mais nada, me paresce, ao sacro ritual daquella seita novissima, que segue sua estreita e “eterna” liturgia. Que não cesse! Agora até me contam que obedesce, humilde, o seguidor, quando se deita no chão e, sobre a bocca, rindo, acceita a sola suarenta, antes da prece! O pé do sacerdote, que lhe desce na cara e que se appoia nella, azeita seus labios com “chulé sagrado”! Arre! Eita! Ah! Parte desse culto, si eu fizesse! Astral suor! Jamais suppuz que houvesse! Sei, claro, da agua benta. Se approveita tambem da lenda aquella que foi feita de vinho ou sangue e pouco me appetesce. Suor dos pés, comtudo, se ennobresce naquella ceremonia! Quem direita conducta alli tiver, bem se subjeita, talvez, à lambidella! Ah, si eu pudesse! Mas, para me poupar de mais estresse, mantenho-me pagão, porem à expreita dalgum monge de tennis. Insuspeita, a minha fé de tedio não padesce...

A SOLA DO CAROLA [8560]

O lider charismatico da seita catholica apostolica anarchista promove seu melhor seminarista a um cargo superior, o que este acceita. Neophyto nenhum no clube estreita seu vinculo sinão baixando a crista, pois solas lamberá quem quer que vista a tunica que o porte mais lhe enfeita. Durante a ceremonia, elle se deita no petreo piso e, para que se invista no novo posto, um pé lhe tapa a vista, mas esse oral pisão não é desfeita. É grande privilegio, pois deleita seus labios um solado que na pista dos sanctos caminhou pela conquista da gloria, à qual só chega a alma si eleita. Em jubilo, o discipulo approveita e chupa aquella sola. Antes que insista de lingua na poeira, até despista e evita dar mais margem à suspeita. É sempre assim. Qualquer que se subjeita àquelle ritual entra na lista dos membros do mais sadomasochista dos cultos, e eu lhe invejo os usos... Eita!

CAMISETA AMMARROTADA [8678]

{Você ficou sabendo, Glauco? O trouxa scismou de comer frango com farofa na rua! Totalmente emporcalhado ficou, Glauco! Um horror! Uma nojeira! Eu mesma ja comi, como o povão, e nem me engordurei! Aqui no bairro tem muita gente dessa laia, Glauco, que come frango, suja a roupa, mas arrocta peru! Pegue mais puddim!}

Não faço ceremonia. Ja repito, cuidando para a calda não cahir na velha camiseta ammarrotada.

COMMENTARIO [8715]

Mais velho quem é dessas coisas todas se lembra: antigamente, cada ameixa, na calda do manjar branco, o caroço mantinha. Precisava que cuspissemos emquanto degustavamos aquella delicia. Disfarsar? Que nada! A gente cuspia com total exhibição de falta de ethiqueta! Dona Deborah evita, actualmente, tal vexame por parte das visitas: sua ameixa ja vem descaroçada. Ah, que mammata! {Mas hoje, Glauco, tudo bem mais commodo ficou! Nem azeitona tem caroço! Ninguem cuspir precisa mais! Appenas asneiras as commadres ‘inda cospem, fallando mal da gente! Né, querido?} Pensando nos caroços, me lembrei das fructas que, maduras, facilmente os soltam. Mas calei o commentario.

FRESCURAS INCULTURAES [9032]

“Você come spaghetti com colher?”, alguem me perguntou, appós ler um poema no qual fallo de ethiquetas inuteis para gente do meu typo. Resposta dei: {Eu como com colher aquillo que não como com a mão, ou seja, garfo ou faca, à merda mando!} Paresce que entender alguem não quiz, pois ‘inda me disseram: “Mas o garfo a gente manejar deve com jeito, gyrar no maccarrão até enrollar aquella porção certa a pôr na bocca!” Mandei no cu tomar, juncto com quem a faca recommenda que se empregue somente com esquerda mão, emquanto o garfo fique sempre na direita. Tomar no cu tambem eu mando quem fallou que todo cego deve ler em braille, e por ahi besteira affora. Mas nunca vou dizer como devia foder-se cada chato que me encheu o sacco. Que se foda cada qual do jeito que quizer, sempre direi.

MEUS MAIS MAUS MODOS?

[9333]

Peor de todas essas suas más maneiras é, sem duvida, peidar fedido na presença de pessoas polidas, educadas, elegantes, Mattoso! Desse jeito, mais ninguem convida você para ceremonias de gala, mesmo para premios, porra! É isso, menestrel, o que você deseja? De proposito faz tudo?

DIA DA GENTILEZA [10.256]

Senhor, por gentileza... Aqui, senhor, permitta-me que indique este logar, o qual lhe recommendo, onde encontrar prazer irá, si incommodo não for...

Desculpe-me, senhor! Não va suppor que estou eu sendo quasi tão vulgar no tracto quanto um frade em lupanar! Tão mal não me interprete, por favor!

Appenas eu lhe peço, sem rancor nenhum, que no seu rabo va tomar... e espero que não soffra a menor dor!

Tambem à merda quero, sem faltar ao minimo respeito, lhe propor que logo va, tal como o meu azar!

DIA DE USAR CHINELLO [10.328]

Discute-se si pode ser usado, alem do mais domestico borralho, tambem num ambiente de trabalho formal, onde o gerente é engravatado.

Tem gente que detesta, por um lado, alguem que, desleixado, seu caralho por baixo da bermuda, bem bandalho, exhibe sem cueca, si excitado.

Por outro lado, o pé desse subjeito folgado, num chinello vagabundo, sem meia, mostra as veias do seu peito.

Attrae, sim, a attenção de todo mundo, mas ‘inda tem, erotico, um effeito occulto no patrão, bem la no fundo.

DIA DE USAR GRAVATA [10.329]

Gravata, quando usada num local formal, tem cabimento, ninguem nega. Quem veja aquella chique num collega inveja terá. Tudo bem normal.

Mas, quando, neste clima tropical, usar gravata fica muito brega, a gente vê que mal demais ja pega na rua, sob um sol que nos faz mal.

O gajo, num calor que de quarenta ja passa, ainda a accerta, appertadinha, no duro collarinho! Quem aguenta?

Em casa, suadaço, se encaminha ao banho. Uma cueca fedorenta de mijo, no chão, nunca foi branquinha.

DIA DE USAR TENNIS [10.330]

O tennis, si é de griffe e custou caro, a gente, em sociedade, ja tolera, fingindo que o mau gosto se supera por causa do dinheiro, fica claro.

Mas, si elle estiver sujo, eu ja reparo na hora! Finjo nojo mas, à vera, por dentro o meu thermometro se altera e ponho-me em allerta com meu faro!

Ahi, Glaucão, presinto que esse tennis chulé terá por dentro, forte, intenso, tornando os meus instinctos mais infrenes!

Por pouco, desse cara, aquelle immenso pezão alli não lambo! Não condemnes, Glaucão, si eu, enrustido, nisso penso!

DIA DO PROFISSIONAL DE RELAÇÕES PUBLICAS [10.418]

Pedimos, sim, desculpas à cidade, que enfrenta, ha dias, falta de energia, da gotta d’agua, minima, na pia, emfim, pelo calor que nos invade...

Pedimos, sim, desculpas! Quem não ha de pedir, si nossa firma deveria prestar esses serviços? Caso um dia possamos, o faremos de verdade!

Agora, chega! Algum perdão a gente pediu! Hem? Não nos encham mais o sacco! Siquer nos processar que ninguem tente!

Alguem lavar não pôde seu sovaco? Achou na geladeira a boia quente? Bah, foda-se! Relaxa ahi, malaco!

DIA DO COLUMNISTA SOCIAL [10.485]

Que dizes? Elegancia? Não condemnes aquelles cavalheiros sem cortezes maneiras, que frequentam, muitas vezes sallões ja sem enfeites e hygienes!

Agora, paletó querem com tennis os homens combinar e, sem francezes perfumes, as mulheres só freguezes baratos seleccionam pelos penis!

Volumes são, nas calças, um successo! Na bunda das mulheres, um implante bem cheio satisfaz, sim, eu confesso!

Nos chiques ambientes, mais garante fofoca quem tem grana que, no sesso, quem deixa aberta a porta ao pau gigante!

DIA DA CONCILIAÇÃO [10.486]

Politico sou, porra! Só não posso, agora, ser chamado de “cortez”, “amigo” ou “diplomatico”! Talvez me sirva “tranquillão”, ou egual troço!

Mas tudo tem limite! Não engrosso o pappo si respostas aos porquês me derem numa boa! Si vocês quizerem engrossar, eu logo endosso!

Ja varias vezes, porra, fui chamado, aqui neste plenario, para algumas disputas appartar de cada lado!

Mas, quando fazer querem as espumas e treplicas de sempre, eu exquentado ja fico! Sou pacifico, mas numas!

OUTRO DIA DO JORNALEIRO [10.555]

Por ser um jornaleiro fofoqueiro trocava com a dona doutra banca os ultimos boatos. Ella, franca, fallava do vizinho barraqueiro.

Aquelle gajo rende costumeiro rumor, porque no verbo não se manca e nunca a bocca suja a tempo tranca. Seus gritos são conversa de puteiro.

Contava a jornaleira ao jornaleiro os podres do maluco. Mas me inteiro que delle disse coisas que não fez.

Assim são as noticias. Quem primeiro expalha até que falla com certeiro olhar. Quem as distorce? São vocês!

DIA DA FESTA DA FIRMA [10.558]

Collegas de trabalho que, no dia a dia, não se biccam vão à festa da firma. Nessas horas, não detesta ninguem o seu rival. Reina a alegria.

Comtudo, um colleguinha que bebia demais habitualmente vê que resta um pouco na garrafa, que se presta à bocca no gargalo. Um outro chia.

Começa a discussão. Um mais nojento reclama de quem feio fez. Agora a festa tem seu pessimo momento.

Ja todos collocando para fora seus podres estão. Logo, o truculento patrão chega. A rodinha commemora.

DIA DO AMIGO SECRETO [10.559]

Parentes se detestam, mas, no fim dum anno conturbado, todo mundo tem pose fraternal. Clima jocundo na hora dos presentes, no jardim.

Risonho fallatorio. O mais affim alli faz a chamada. Quem profundo desgosto demonstrou, por um segundo, segura a sua bronca. Deu ruim.

Na cara jogam uns dos outros sua discordia reprimida. Aquillo vae virar um pandemonio. Quem recua?

Ninguem. Até que emfim chegou o pae e poz ordem na casa. Continua a troca dos presentes, sem um ai.

DIA DE COMBATTE AO CAMBIO NEGRO [10.562]

Não pode, menestrel! Eu não permitto que empreguem a palavra “negro” com um senso negativo! De bom tom seria “cambio branco”? Não, repito!

Si querem um conceito que maldicto paresça, que ruim ou feio som nos passe, então não pensem no marron, no pardo, nem no preto, que eu evito!

Ao negro o preconceito se expalhado tem pela nossa lingua! Assim, nós temos, poeta, que pensar por outro lado!

Proponho “cambio cego”, ja que extremos queremos evitar! Não desaggrado ninguem e estou correcto! Com os demos!

DIA DE CANTAR ALEGREMENTE

[10.593]

Vizinha analphabeta, a mulher era, de facto, uma antipathica figura. Cantava, de proposito, com pura dicção estroppiada, aquella fera.

Mamãe, que se irritava com a mera presença della, achava: “Quem attura tamanha petulancia? A mulher jura que sabe cantar, gente! Que megera!”

Berrava as lettras todas sem nenhum accerto. Um vozeirão desaffinado, tal como ladainha de bebum.

Mas ella descomptava, de seu lado, um certo preconceito, bem commum, que esnoba alguem sem pose de lettrado.

DIA DA PERGUNTA INDISCRETA [10.606]

Lhe peço que perguntas não me faça, assim eu não lhe digo uma mentira.

Lhe peço que com ferro não me fira, assim eu não lhe faço uma trappaça.

Não seja, que nem bicho, quem me caça, pois tanjo, que nem gente, minha lyra. Não seja quem, com armas, em mim mira, pois posso, pelo voto, ser quem cassa.

Não faça affirmação que me incrimine, pois tudo o que disser de mim lhe affecta. Não tente me impedir de ter fanzine.

Não seja quem censura nem quem veta, pois posso fallar tudo, caso opine.

Não queira me impedir de ser poeta.

DIA DO SPAGHETTI [10.696]

Desisto, menestrel! Ora, ninguem consegue, com o garfo, pappar um prattaço de spaghetti, tão commum jeitinho de italianos! Não, mas nem...!

Vovô comia assim! Rodava, bem certinho, devagar, o garfo, num preciso movimento! Não, nenhum nettinho conseguiu! Segredo tem!

Nem sei o que fazer! Uso colher? Não para nada nella, muito menos no garfo! Sou bobão nesse mester!

Mas, para alliviar os meus accenos, um jeito descobriu minha mulher: Prepara maccarrões desses pequenos!

DIA DO CHAPÉU [10.757]

Usei chapéu de feltro, que combina com terno. Um tive, inteiro, com collete, relogio que, de bolso, na corrente prendia-se. Foi moda muito fina.

Agora, mais bacchana, “made in China”, é mesmo o bonnezão, cujo macete consiste numa griffe “independente” de esporte e dos rockeiros de botina.

Ja tive de skinhead e de skatista, de rapper, de funkeiro... Mas agora prefiro boina: dá menos na vista.

É boina das de velho, mesmo... Bora usar sem ter vergonha de dar pista daquelle que, sem vista, agora chora!

Ué, ninguem gostou da phantasia que usei, de joaninha? Mas nem era nenhuma phantasia! Quem espera de mim outra roupinha sempre chia!

Usei bollinhas sempre, noite e dia! Tem gente que se veste de panthera, de gatto, de macaco... Se tolera nos outros, mas em mim ninguem confia!

Nenhum problema vejo na bollinha nas roupas estampada! Não será peor um caralhinho, uma rollinha?

Assumpto está faltando, sei que está! Sinão, não estariam esta minha roupinha commentando, Glaucão! Bah!

DIA DA ROUPA DE BOLLINHAS [10.810]

DIA DO ORADOR [10.846]

Senhoras e senhores! Eu lhes peço licença para aquella palavrinha ligeira! Só questão de meia horinha! Bem, para começar, eis que eu começo!

Ainda tenho tempo? Ora, não tinha ainda ha pouco? Faço tal successo que excedo o meu espaço, mas confesso que curto desfiar a ladainha!

Passei ja das trez horas? Nem notei! Vocês estão gostando, não estão? É claro! Da rhetorica sou rei!

Cansaram? Ah, que pena! Ainda tão disposto ca me sinto! Mas eu sei que nova falla minha quererão!

DIA DO MISANTHROPO MODERADO [10.948]

Não gosto de pessoas que por perto estejam de mim, vate! Esse povão dá nojo! Quando saio à rua, não permitto que me toquem! Sou experto!

Meu cheiro não supportam, pois eu, certo de como o meu suor fede, um tempão sem banho fico! Mesmo o cidadão mais sujo foge, e eu curto o meu deserto!

Só tomo banho, mesmo, si convido alguem para commigo fornicar!

Ahi, Glaucão, me torno um exhibido!

Occorre, no recesso do meu lar, por vezes, que recebo o mais fedido mendigo que circula no logar!

MY WAY DAY [10.959]

Não quero nem saber! Estou na minha! Que fallem! Que fofoquem! Curto um som pauleira, que não acham de bom tom curtir! Querem que eu entre, emfim, na linha!

Esperam que eu me entregue à comezinha carreira de bancario, case com alguem da minha classe, que batom não manche esta cueca tão limpinha!

Me cobram um emprego, um bom diploma, dizendo que, depois, eu me apposento e posso desfructar de gorda somma!

Mas, vate, eu ja desfructo no momento! Ja folgo, não trabalho! Não me embroma ninguem com esse pappo somnolento!

DIA DA MOTIVAÇÃO [11.005]

A vida... Ah, que bonita, a vida! A gente se sente motivada quando vê creanças a brincar com um bassê na praça arborizada, bem em frente...

Amor à natureza... Ah, tão contente a gente fica quando, num apê, alguem verduras colhe! Tem por que haver um sonnettista persistente!

Sonnettos aos milhares tem composto, accerca d’agua, assucar, amor, vida no campo, natureza... Ah, que bom gosto!

Mas, quando limpa as pregas, a fedida bollinha de papel junctinho ao rosto segura. Ahi, de Deus jamais duvida.

DIA DA PERGUNTA [11.030]

E então, Glaucão? Responda-me: e ahi? Será que poderia responder? É claro que terei total prazer ouvindo o que você disser de si!

Responda logo, Glauco! Não ouvi razões suas! Você tem o dever ao menos de explicar o que fazer depois desse infundado mimimi!

Desculpe si eu insisto na pergunta! Emquanto não ouvir sua resposta, a gente doutra coisa não assumpta!

O povo de boatos muito gosta, mas ouço tanta falsa versão juncta que ja nem distingui cocô de bosta!

DIA DA BANANA [11.074]

Banana a gente come e tambem dá! Depende de intenção! Duma nannica não gosto, mas na torta a coisa fica melhor, muito melhor! Quem negará?

Nem apple pie, nem apfelstrudel má receita me paresce, mas, mais rica, a torta de banana nunca mica si a amigos offeresço uma no cha!

Porem, aos inimigos offeresço um typo de banana, gestual, mostrando-lhes meu franco desappreço!

Seria preferivel e ideal mactal-os, mas sae caro disso o preço... Me resta a mera mimica, affinal!

DIA DO DOGUEIRO [11.206]

Sim, Glauco, ja vendi cachorro quente naquella carrocinha, ha tempo paca! Jamais comi, porem, com garfo e faca, salsichas nem linguiças! Vou no dente!

Madame vi, do typo que exigente se julga, alli na rua, aquella vacca, mettendo num dogão, toda babaca, seus dentes bem tractados, de repente!

Você que ver, ah, tinha, menestrel! Dondocas todas chiques, la na feira, comendo seu sanduba, seu pastel!

Por mais que alguma dellas tentar queira ter modos, ja fará peor papel que minha cadellinha, a mais fuleira!

DIA DO TUDO OU NADA [11.209]

Ceder não topo! Ou calça de velludo ou nadegas de fora, trovador!

Não posso concordar, quando me for proposto, que terei de ficar mudo!

Ou posso me expressar e dizer tudo que penso, ou nada tenho que propor! Alguem pretende ser um dictador?

Então que me censure! Não me illudo!

Disseram que sou muito radical, que está no meio termo, sempre, toda virtude em nosso meio social!

Mas chio mesmo! Quero que se foda!

Trepada de cueca não dá! Mal consigo, desse jeito, ser pornô! Dá?

FELT HAT DAY [11.278]

Usei chapéu de feltro, sim senhor! Sim, terno com collete, por que não? Relogio, sim, de bolso, um pataccão daquelles de corrente, trovador!

Bons tempos, esses, cara! Ha que suppor que eu fosse monarchista! Mas foi tão fugaz, tão passageiro, o meu tesão por esse visual conservador!

Você tambem usou terno, poeta? Em epochas do Banco do Brazil? Tambem conservadora teve meta?

A vida nos ensigna! Meu perfil na rede é de bonné! Ja não affecta a mim tesão por botas, nem fuzil!

ASK A STUPID QUESTION DAY [11.296]

Poeta, perguntar, acaso, offende?

Então por que não deixam que eu questione si entrou na rachadinha algum aspone?

Por quanto um esquerdista a causa vende?

Juiz diz coisa alguma que se entende?

Bancaria compta alguem abre por phone?

Um rei da lyra ha clone que desthrone?

Se salva algum sonnetto que se emende?

Será que é de virada mais gostoso?

Ou soffre-se demais antes do gozo?

Um correligionario outro não trae?

Por que é que esnobam versos seus, Mattoso?

Não pode nenhum cego ser famoso?

Ou só si elle for gringo um premio sae?

WEAR SOMETHING GAUDY DAY [11.326]

Vestir-se de maneira extravagante paresce estar nas modas, hoje em dia. Sem roupas, a mulher ja nem vadia será considerada, doradvante.

Alem de pôr na bunda algum implante, a fofa periguette se vicia nas tiras que, finissimas, da pia moral se distanciam, ja, bastante.

Ha tempo não se falla de bikini, siquer de tapa sexo, nem de fio dental. Só quem é casta se previne.

Das praias de Miami e das do Rio, quem com extravagancias não combine que fique longe e deixe em paz seu cio!

COLOR DAY [11.331]

Eu vejo, Glauco, todo colorido o mundo, mas você ver ja não pode as cores e, do céu, ninguem accode seu choro supplicante! É divertido!

Sim, Glauco, me divirto, pois duvido que queira alguem ser esse que se fode assim! Acha, Glaucão, que se incommode quem queira só zombar do seu gemido?

Não era, menestrel, isso que quiz você escutar? Então! Estou aqui não é para dizer coisas gentis!

Alem do que lhe digo, sei que ri tambem dessa cegueira quem matiz enxerga, verde, em todo mimimi!

DIA NACIONAL DAS REGRAS DO JOGO [11.448]

Paiz do faz de compta foi, à tonta, o nosso, só? Não, claro. O mundo inteiro conhesce esse exercicio costumeiro das instituições no faz de compta:

Que exsiste bandidão que se ammedronta; que cada cidadão é um “companheiro”; que sempre se fabrica algum dinheiro; que todos fé porão no que se conta.

Governo, opposição, brincam de estar brincando de exercer o seu papel de, em cada posição, ter seu logar.

Mas todos nós sabemos que fiel ninguem é, nem siquer no proprio lar, no templo, no trabalho ou no miguel.

DIA PESSOAL DOS TORPES LABÉUS [11.516]

Chamaram-me do que era maldicção chamar, pois disso nada nos protege: satanico, prophano, bruxo, herege, sacrilego, blasphemo, atheu, pagão...

Disseram que pornô sou e que não accapto uma moral, essa que rege os versos, e valores bons elege... Disseram que só fallo palavrão.

Resalvo que, comtudo, um porem ha naquillo que me accusam de fazer. O furo mais abbaixo um pouco está...

Meu sonho usar a lingua, sim, será, mas não para fallar e sim lamber! Sim, minha bocca aos outros prazer dá!

DIA PESSOAL DO GOSTO [11.524]

Na certa ao carioca não é tão extranha moda aquella que mais arda nos brios dum paulista: a aberração horrenda de na pizza pôr mostarda.

Tambem o paulistano papellão faria la no Rio usando farda de punk em plena praia, cothurnão na areia, branca pelle em vez de parda.

É tudo relativo. O meu puddim (melhor do que o de pão) de mandioca no Rio vão chamar puddim de “aypim”.

Não curto qualquer gosto. Para mim hamburger não é carne de minhoca. Mas zombam, de chulé si estou a fim...

SONNETTO DO MILITANTE EMBANANADO [11.619]

Julgando-se excolhido, ou enviado, a todos dá bananas o sacana.

Usando dessa mimica prophana, affasta quem não lucta do seu lado.

Ignora que elle mesmo mais se damna, pois, como dá valor ao que é sagrado, papel faz de sacrilego, coitado, perante esse povinho que se irmana.

Commentam pelas ruas: “Que subjeito! Ja teve trez esposas e defende valores da familia! Quem entende?”

A quem lhe perguntar, mostra despeito por esses que compraram o que vende. Ninguem mais considera que se emende...

SONNETTO DA SOLIDARIEDADE [11.668]

{Fulano declarou que, si estivesse de lua, quereria até compor canções mais animadas, mas de amor. Você o conhesce, Glauco. Não conhesce?}

{Sicrano prometteu que nova prece fará por nosso povo si Doutor Beltrano la no culto logo for. Você o conhesce, Glauco. Não conhesce?}

{Beltrano, por seu turno, diz que irá doar comida, roupa, algum dindim. Você está bem por dentro. Não está?}

-- Depende. Si disser elle que ja ouviu de mim fallar, direi que sim. Me cabe ser reciproco, xará.

SONNETTO DA HORMONAL DESHARMONIA [11.690]

Por causa da maldicta quarentena os animos accirram-se. Quem ria reclama ja da aguda gritaria e muito bom humor não mais enscena.

A thia do cachorro não tem pena. A sogra accusa a sanha má da thia. A filha nymphetinha se entedia. Os paes acham que a casa está pequena.

Emfim, o battebocca na roptina se installa: “Va tomar no cu, caralho!” “Não falle assim commigo, seu pirralho!”

Quem xinga é um enteado que azucrina geral. Ja demittido do trabalho, vae, como chupador, ver que eu lhe calho.

SONNETTO DAS CRITICAS E SUGGESTÕES [11.709]

Que merda, Glauco! Sempre que critico alguem, eis a resposta que me dão: “Você me censurou, mas você não devia assim metter no caso o bicco!”

“Podia constructivo ser, mais rico de idéas, suggestivo, o seu sinão!” Mas, Glauco, si eu fizesse suggestão qualquer, iam dizer que mal me explico!

Devemos criticar, sim! Você, não, é logico, pois, cego, não vê nada, não pode indicar cada coisa errada!

Hem, Glauco? Não concorda? Bem, questão nem faço de saber si desaggrada a um cego o que fallei, porra! Me enfada!

SONNETTO PARA QUEM ESTÁ FODIDO E BEM PAGO [11.714]

Por que você me pede que lhe explique as causas evidentes para a gente gozar um governante incompetente? Você entendeu? Então não sacrifique!

Por que me questionou o gaz e o pique si sabe que um ceguinho puto sente tesão fazendo meme irreverente?

Você entendeu? Então não sacrifique!

Si quando satyrizo dama chique, cacique nu, politico que mente, dar nomes for, leitor ha que me aguente?

Porem, si eu lhe pedir que justifique os fins por feios meios e consente você, no cu tomar va, simplesmente!

SONNETTO DO BANDIDO MASCARADO [11.725]

Sabia? Antigamente, si eu peidasse assim que nem eu peido, tão fedido, seria até xingado de bandido, teria que fingir risonha face!

Pois é! No elevador, só quem tem classe não peida: se segura, constrangido! Mas nunca me seguro! Si decido peidar, eu peido, e prompto! Sem impasse!

Proteja quem quizer a sua fuça, fallei aqui commigo, Glauco! Nem suppuz que mais bandido seja alguem!

Não seja, não, por isso! Sei tambem tossir! Sim, sei vestir a carapuça do lobo, pois a scena ficou ruça!

SONNETTO PARA QUEM FALLA DE PROMPTO [11.748]

Não, Glauco! Jamais faço “lacração”! Nem uso o cellular para fofoca! Não sou do typo franco, que provoca mellindres, meramente! Não sou, não!

Sou muito mais que simples “exemptão”! Eu fallo bem na latta! Si isso choca, tomar no cu ja mando! Na malloca chamaram de “barraco” o meu jeitão!

Eu digo, mas não digo, simplesmente: affirmo, reaffirmo! Ouviu, amigo? Quer ver como sou firme e contundente?

Sem nomes feios! Nada de indecente, porem! Não sou você! Nenhum perigo eu corro! Que Satan me temptar tente!

SONNETTO DO POLITICO RIDICULO [11.780]

Estás sendo severo demais com o gajo, Glauco! É jeito delle, porra! Não creio que com esses chistes corra o risco de deslise no bom tom!

O que? Sincericidio? Mas batom de sobra na cueca, alem da porra, foi visto ja, por causa da cachorra que tudo delatou em alto som!

Depois de tanto escandalo, nem faz alguma differença a piadinha que diga alguem, -- Não é? -- bem excarninha...

Tu fazes umas satyras que em paz não deixam consciencias como a minha! Não achas que elle tem mais licencinha?

SONNETTO DO AUTOABBRAÇO [11.781]

Não, Glauco! O cotovello tão seguro não é para fazermos cumprimento com elle, em vez da mão! Eu não! Nem tento! É o meu muito ponctudo, muito duro!

O virus bem que pode, pelo furo da manga, deslocar-se em cem por cento do braço e, mesmo sendo meio lento, chegar ao queixo, ao labio! Mestre, eu juro!

Sim, morro de pavor! Nem um abbraço eu ouso dar siquer em mim! Crês nisso? Pois é, de me pegar questão não faço!

Não! Tenho caimbras, mestre! É meu cagaço! Por isso taes symptomas não attiço! Ah, claro! O meu cacete eu arregaço!

SONNETTO DA MORAL PESSOAL [11.788]

Familia christan, porra! Jesus, porra! Valores moraes, porra! Religião, caralho! Deus, caralho! Você não entende que eu a nomes taes recorra?

Chamar Nossa Senhora de cachorra jamais irei! No funk é que elles vão fazer isso, caralho! O palavrão quem usa assim eu quero que elle morra!

Que bosta! Aquelle estrume de jornal fodeu minha familia! Mas não vou xingar tal como xingam, affinal!

Não sou como você, Glauco, que mal emprega a nossa lingua! Não dou show de exporro! Só você, que é sem moral!

SONNETTO DAS AGGLOMERAÇÕES [11.813]

Ainda bem, Glaucão, que tu não vês algumas coisas! Sei dum cidadão que em seu collete escreve este bordão de effeito, pelas ruas, descortez:

“Sou infectado! Affastem-se!” Elle fez questão de precaver-se, embora não tivesse feito o teste! Diz, Glaucão: Não achas uma enorme estupidez?

Com isso, o social distanciamento por elle pretendido pode até manter alguem distante... Hem? Mas não é?

Lynchado ja foi, quasi, esse jumento! Alem do mais, quem nelle botou fé mandou prendel-o! O gajo foi à Sé!

SONNETTO DA ADJUDINHA [11.819]

Que merda, Glauco, porra! A minha vida virou inferno! Sendo processado estou! A me foder, de todo lado, as dividas pipocam! Cê duvida?

Verdade! Caso alguem não se decida a dar-me uma adjudinha, estou ferrado! Das minhas posições eu não me evado, mas ellas teem polemica sahida!

Xinguei ja muita gente de appellido que acharam offensivo! Chamei um de “brocha”, outro de “bicha” e de “bebum”!

Agora me ver querem um fallido guru, Glauco! Um fanatico commum jamais será quem cheira meu bodum!

SONNETTO DA POLARIZAÇÃO [11.905]

Só vejo violencia, divisão e polarização! Ninguem mais dá bom dia, boa noite! Venha ca: O mundo ficou chato, Glauco! Não?

Ja não se dialoga! Todos são convictos, radicaes! Pappo não ha que seja cordial! Como será a nossa vida, assim? Diga, Glaucão!

Você ja bem lembrava: Não são só dois lados! Pelo menos num quadrado estamos, ou num cubo, typo um dado!

Extremos se provocam, mas o pó das botas todos lambem quando um gado desforra no rival mais desarmado!

SONNETTO DO VALOR HISTORICO [11.994]

Historia somos, Glauco! Cada photo ou video onde figura a nossa cara descreve e documenta a data rara num claro dia, atypico, do voto!

Da simples chuva ao quasi terremoto, estamos la, sorrindo, olhando para a camera maldosa: alguem repara na mancha de chichi que eu jamais noto!

Banaes portaretractos, com moldura de plastico, um historico valor terão para qualquer pesquisador...

Glaucão, até você, que tão obscura imagem tem na scena, vão suppor que fosse importantissimo escriptor...

SONNETTO DUM ARTISTA ARRIVISTA [12.009]

Eu, como pinctor, quero ser inscripto, dos grandes, na famosa galleria! Nem ligo si ninguem mais me elogia! Desdenho quando escuto um mero grito!

Protestam contra aquillo que eu, bonito, achei que desenhava? Que ironia! Os mesmos são que estavam, outro dia, achando que magias eu transmitto!

É o publico voluvel, Glauco! Um sacco! Num dia, compram tudo que eu expuz! Num outro, quebram tudo! O que deduz?

Entenda, cara! Appenas me destacco por ser opportunista! Pincto os cus dos lideres! Lhes lanço maior luz!

SONNETTO DA CONDUCTA (RE)PROVAVEL [12.035]

Viu, Glauco? Um jornalista que conhesço partiu para as taes “vias”, insultado que foi pelo covarde entrevistado causão, que o provocou desde o começo!

Bem sei que todo gajo tem seu preço, mas ambos se excederam! Eu chocado fiquei, Glauco! Jamais me desaggrado com fallas, mas ver murros não meresço!

Podiam os dois todo o xingamento possivel ter trocado, mas jamais na radio se pegarem, com taes ais!

Si fosse isso occorrer no Parlamento, ahi, sim, são desejos naturaes de todos nós, humanos animaes...

SONNETTO DAS IMMUNDAS E JOCUNDAS [12.048]

Estou pasmo, Glaucão! A mulherada agora desandou a fallar tudo de sujo, de vulgar, de cabelludo que podem! Tenho ouvido, Glauco, cada!

Alem de fallar, soltam gargalhada de puta! Sim, daquellas que, em desnudo estado, desfilar vão num entrudo! E comtam -- Meu Jesus! -- cada piada!

Aquella do sacana papagayo, aquella do ceguinho porcalhão, aquella dum judeu, dum allemão...

Aquella do portuga ao ver um raio... Outrora a mulherada no balayo dos gattos não entrava, Glauco, não!

SONNETTO DO NUTRICHATO [12.052]

Jamais chamei um gajo de “ecochato”, Glaucão, de “natureba” tambem não!

Ainda que pentelhos sejam, tão grosseiro não serei si delles tracto!

Agora, chato mesmo (o que constato com maximo pesar) é o cidadão mettido a patrulhar a nutrição dos outros! Esse eu chamo “nutrichato”!

Não pode isto! Só pode sem tempero! Aquillo poderá, sem exaggero!

Não, muito não, sinão vae ganhar kilo!

Ninguem comer me deixa! Desespero ja tenho demais, porra, sem comer o que quero por ser caro conseguil-o!

SONNETTO DUM PIMPOLHO BEM CREADO [12.069]

Disseram, caro Glauco, que não valho um puto, que não passo dum pentelho! Não achas um insulto que parelho não ha para xingar alguem, caralho?

Concordas que não posso de paspalho chamado ser, carissimo? Um fedelho qualquer, que nem siquer se vê no espelho, me insulta assim? Se toque, esse pirralho!

Eu, quando offendo um gajo, bem excolho os nomes que não causem tal engulho aos cerebros! A lingua, aqui, vasculho!

Portanto, meu querido, si de filho da puta me chamares, meu orgulho tu feres! Dormirei com tal barulho?

SONNETTO DUM ENCONTRO DOS CONTRARIOS [12.116]

Que bella suggestão, Glaucão, eu li nas midias! Poderiamos, emfim, tentar unir quem nada tenha affim e em tudo só discorde! Você ri?

Não ria, Glauco! Pense que, por si, ninguem quer conversar com quem ruim noção tem dum accordo! Para mim, seria chato ouvir alguem cricri!

Havendo um incentivo dum terceiro que faça a mediação, talvez eu seja capaz de tolerar uma pelleja!

Você, Glaucão, seria verdadeiro escravo do rival! Esse festeja, si pode desforrar e não se peja!

SONNETTO NATURALMENTE ARTIFICIAL [12.118]

Que rosa linda, Glauco! Mas que flor cheirosa, colorida, até brilhante! Magnifica! Quem olha até garante ser unica! Ah, capaz sou de suppor!

Ahi cabreiro fico! Sim, quem for pegar na mão, sentil-a com bastante cuidado, ja não acha algo que encante seu gosto pela forma, pela cor!

De plastico foi feita aquella bella flor, Glauco! Sim, de plastico! Tem graça? De fraude esse espectaculo não passa!

Si dermos a tal rosa alguma trella, então é poesia a que se faça da falsa curtição, que enganna a massa!

SONNETTO DUMA FALTA DE ESTUDO [12.133]

Então não sabes tu que desse gozo pedophilo os communas são adeptos? São todos elles porcos! São abjectos! Não vês? Vae estudar, Glauco Mattoso!

Vem vindo um movimento monstruoso para legalizar, sem quaesquer vetos, o estupro de menores! Nem discretos estão! Vae estudar, Glauco Mattoso!

Si fores estudar essa questão, Mattoso, notarás como os communas adoram estuprar! Tu tens lacunas!

Ouvi fallar até que um exemptão devora creancinhas! Ah, não unas teus versos a taes bugres, taes Jurunas!

SONNETTO DUM COMPORTAMENTO REPROVAVEL [12.143]

Glaucão, faço questão de ser causão! É foda appromptar! Gosto dum excracho!

Alguem se incommodou? O bicco eu racho! Não achas divertido, Glauco, não?

De chato ser, Glaucão, não abro mão!

Não quero nem saber si o pato é macho! Eu quero é ovo, ouviste bem? Eu acho um sarro quando causo sensação!

Na moto, de proposito, accelero, dou susto na velhinha, passo rente ao cego na calçada! Ha quem aguente?

Mas, Glauco, te serei muito sincero! Si fosse do Brazil o presidente, eu ia foder toda aquella gente!

SONNETTO DA MEXERIQUEIRA [12.176]

Nas redes sociaes está a Candinha agora fofocando, Glauco! O certo é que ella ja da bota do Roberto não falla, porem segue bem damninha!

Pois é, Glauco! Você nem adivinha de quem a fofoqueira faz aberto retracto negativo! Chegou perto! Mais perto! Vae chegando depressinha!

Sim, Glauco! De você! Cada maldade! Expalha que está cego por castigo, que ja não lambe pés nem dum amigo...

Fallou que nem é digno de que Sade lhe pise no focinho! Mal consigo lembrar de tudo! O que? Não vê perigo?

SONNETTO DA CONSAGRAÇÃO NA LACRAÇÃO [12.191]

Não basta, a mim, chamar muita attenção na hora de fallar, apparescer vestido no rigor do que entender por “moda”, nem sorrir pelo sallão!

Exijo que se chame “lacração” aquillo que, exhibindo com prazer, eu faço ou fallo para ter poder nas redes sociaes! Sacou, Glaucão?

Sim, todos reconhescem que “lacrei” si tenho os holophotes sobre mim! Que foi, Glaucão? Por que está a rir assim?

Ah, foda-se! Não brilho como gay mas, pelo menos, brilho porque, emfim, consigo fazer rir! Menos ruim...

SONNETTO DUM ESPAÇO PARA ABBRAÇO [12.200]

Appenas abbracei meu inimigo, Glaucão! Que mal ha nisso? Um simples ar de cordialidade irá mudar as nossas rusgas? Não! Não ha perigo!

Em publico, o que faço ou o que digo não passa de attitude elementar dum homem educado! Ora, abbraçar um outro significa que eu não brigo?

Magina! Mal as costas viro, vou puxar qualquer tapete desse cara! Na minha ausencia, guerra elle declara!

Um dia, ainda macto o bundão, ou o gajo me elimina! A nossa tara é sermos bons actores, com má cara!

SONNETTO DUMA MUVUCA DUCA [12.265]

Voou cadeira, Glauco! Uma accertou nas minhas costas! Quasi desmaiei! Aquelle bar está fora da lei faz tempo! La ninguem quer fazer show!

Mas, tolo que sou, fodo-me, sim, dou a mão à palmatoria! Alguem de gay xingado foi, de bicha, ja nem sei que mais, e comprou briga! Ah, si rollou!

Rollou pancadaria, mas da grossa! Quebradas, as garrafas armas viram! São coisas de cinema! Minha nossa!

Glaucão, no chão cahi! Sem fazer troça lhe juro: me pisaram, insistiram! Pensando nisso -- Né? -- goze quem possa!

SONNETTO DO JUDAS MALHADO [12.307]

Será sufficiente exsecrar, em effigie, Glauco? Um simples meme basta? Chamar um dictador de pederasta em publico nos vinga? Força tem?

Bastante é por alguem sentir desdem? Não creio, Glauco! Sou iconoclasta demais e meu proposito contrasta com outras suggestões que muitos deem!

Você mesmo ja disse que uma torta na cara dum politico funcciona bem contra quem poderes ambiciona!

Eu sou mais radical! Só me comforta ver delles a caveira, mas na zona concreta, não figura da persona!

SONNETTO DA PROPOSTA INDECOROSA [12.323]

Estou desconfiado, Glauco, das segundas intenções do meu collega de emprego, que, de subito, me pega por traz! E extranhos gestos elle faz!

Não quero só fallar de intenções más! Seus actos ja demonstram que se entrega! A firma, minha fosse, não emprega um gajo tão suspeito, um mau rapaz!

Patrão não sou eu delle! Caso fosse, ah, ia ver commigo! Um bello dia, revido! Vae ver como se assedia!

Glaucão, que cê faria? Ah, dava doce ao cara? Aggradescesse elle, faria o que, você? Propunha alguma orgia?

SONNETTO DO ALMEJADO SUMIÇO [12.331]

Fiquei eu sem saber onde enfiar a cara, Glauco! Sabe? Eu quiz sumir dalli, quiz me esconder! Ha de convir você que é mesmo foda tal logar!

Alli todos commentam a vulgar postura dum rockeiro que, fakir não sendo, não aguenta mais fingir que está muito contente por tocar!

Mandei tomar no cu! Passei vergonha na frente das senhoras, do prefeito! Mas, para mim, até que foi bem feito!

Cantei canções que fallam duma bronha gostosa, aos palavrões recorri, peito aberto! Nessa cama não mais deito!

SONNETTO DA SALIVA PROACTIVA [12.347]

Gastar eu não irei minha saliva tentando convencer quem não respeita a minha auctoridade, Glaucão! Eita! Eu faço appenas uma tentativa!

Saliva vou gastar com quem se exquiva dum pappo cordial? Jamais! Acceita conversa quem quizer! Uma desfeita não topo receber na defensiva!

Perder minha saliva não irei com gente intolerante que se isola na sua burra bolha! Aqui não colla!

Só gasto uma saliva quando sei que está bastante suja alguma sola de bota num pezão que me controla!

SONNETTO DUM BOCCUDO E BICCUDO [12.352]

Eu acho que você ficou boccudo demais, Glauco Mattoso! Desse jeito, presumo que se torna mais estreito seu ja tão singular campo de estudo!

Attente: não appenas eu alludo ao chulo linguajar, que é seu defeito ja basico, porem ao mau proveito que faz dum caso chronico ou agudo!

Si sempre da cegueira fazer bicco você pretende, Vate, seu leitor accaba a rir, é logico suppor!

Assume então, Mattoso, o que critico? Acceita toda a troça que lhe for imposta, como um porco portador?

SONNETTO DA LINGUA DESDOBRADA [12.356]

“Palhaço da Alvorada”! Assim chamado foi nosso presidente, Glauco! Um puta insulto, um desrespeito! Quem escuta tal coisa fica mesmo revoltado!

Não faço parte, Glauco, desse “gado” que appoia a auctoridade! Essa conducta não tenho, mas é muito mais fajuta a lingua que expalhou tão bruto brado!

Quem falla aquillo morre de vontade de emprego dar à lingua, na verdade, nas botas de quem tenha auctoridade!

Desdenha quem comprar quer! E quem ha de negar que militares fans de Sade serão e irão vingar-se de quem brade?

SONNETTO DO JUIZO PRECISO [12.396]

Não posso ver defuncto sem chorar, Glaucão! Vou perder essa? Não, por nada! Eu perco um bom amigo, um camarada, mas nunca alguma phrase lapidar!

Fallei ja delle: é como comparar papel de embrulhar prego, uma camada daquillo no logar da delicada pellicula de seda! Não tem par!

Não pode tal bundão occupar cargo nenhum, e muito menos um de largo poder sobre esse estupido povão!

Ah, merdas! Mariquinhas! Quem embargo impor irá ao subjeito? No lethargo que impera, as reacções nullas serão!

SONNETTO DO MODERNO AMOR PATERNO [12.430]

Glaucão, a minha filha agora deu, te juro, para andar uns palavrões fallando! Que me dizes? Que suppões que esteja accontescendo, amigo meu?

Não achas linguajar muito plebeu e chulo para as moças? Si Camões ouvisse isso, diria: “Arre, colhões! Si falla a mulherada assim, fodeu!”

Sou macho, vaccinado! Mas mulheres novinhas... Nunca dizem o que queres ouvir! Só palavrões, Glauco! Um excracho!

Maldizes a cegueira? Si preferes xingar, entender posso! Mas si deres razão à minha filha, te esculacho!

SONNETTO DO MODERNO AMOR MATERNO [12.431]

Ai, Glauco! O meu filhinho bocca suja tem para conversar com as meninas! São moças de familia! Que imaginas que esteja havendo? Sou mamãe coruja!

Sim, temo, menestrel, que delle fuja qualquer mulher decente! Moças finas não gostam de palavras fescenninas, eguaes às que elle diz da dicta cuja!

Meu filho não diz “vulva”, só “boceta”! Não achas muito feio que commetta tal falta de pudor, termos tão vis?

Nas tuas trevas, podes, com punheta, perder-te em mil delirios! Mas é peta si dizes ser normal! Ainda ris?

SONNETTO MICROBIOTYPICO [12.468]

Ai, Glauco, si qualquer gajo quizer me xingar ou offender, chamar de bicho nojento ou rastejante, eu nem me lixo, pois sei que sou, de facto, um mero verme!

Porem jamais estive tão inerme, agora que me jogam um exguicho de lama, quando dizem que eu capricho em ser mais microscopico que um germe!

Não, germe não! Um verme ‘inda va la, mas germe lembra virus ou bacillo! Ninguem quer, caro Glauco, ser aquillo...

Não sou tão invisivel, não, que ja esteja assim na merda! Mais tranquillo está você que, cego, tem estylo...

SONNETTO DA CALCINHA [12.566]

Calcinha appertadinha serve para mostrar melhor a bunda alguem, não é? Mas usa quem quizer, né, Glauco? Ué! Eu, nunca! Nisso nunca tive tara!

Você nem compta, Glauco! Quem repara nas roupas folgadissimas, até demais, que você veste, bota fé que manda a moda às favas! Faz bem, cara!

Si dum exfarrappado um ropto ri, só mesmo na politica daqui assumpto ja se torna a certo “gado”.

O povo soffre como nunca vi! Aguenta, a se exhibir, um travesti de bruxa com fardinha de soldado!

SONNETTO DOS NOMES IMPRONUNCIAVEIS [12.583]

Não, Glauco, não devemos, mas de jeito nenhum, pronunciar aquellas más palavras! Só fallar disso ja traz azar, poeta! Assim, ó: dicto e feito!

Meu pae morreu daquillo que, eu suspeito, a prostata augmentou! Isso me faz ter medo mais do termo que da assaz terrivel proporção desse defeito!

De Deus a gente falla, mas da sua antithese jamais! Jamais de quem, por traz, com seu tridente, nos accua!

Escreves tu taes nomes, mas a tua maldicta poesia, Glauco, vem do chulo, do calão, da giria crua!

SONNETTO DO EXCLARESCIMENTO DESPOTICO [12.611]

Voltaire ja declarou: O dia “D” vem antes de “E” e depois de “C”, mas hora “H” depende muito! Ser agora até pode! Depende de você!

Não acha, Glauco? Pode ser clichê, mas tanto ‘ocê brincou, annos affora, com isso no DOBRABIL, que de cor a sentença a gente lembra quando lê!

“Discordo dessa these, em cem por cento daquillo que você, nas redes, falla, mas lucto p’ra que, livre, possa dal-a...”

Com muitas variantes, argumento egual dei por Voltaire e puz na valla commum da poesia, feito um “mala”...

SONNETTO DA PRAGA COMPARTILHADA [12.659]

“Você, seu puto, filho duma puta, não gosta de xingado ser, não gosta que mandem que se macte, né, seu bosta? Pois venha! Me processe! Venha à lucta!

Incumba seu preposto, que conducta tem mesmo de capacho, que resposta me cobre na justiça! Alguem apposta que ganhe? Pois opponho outra disputa!

Que praga todos roguem! Toda a gente torcendo p’ra que morra! Cê que tente barrar as multidões! Bundão! Bandido!”

É praga duma velha que se sente bastante injustiçada! Antigamente chamavam “macumbeira”, tenho ouvido!

SONNETTO DO DESCONTROLE EMOCIONAL [12.660]

Bah, Glauco! O gajo falla que processa quem delle commentar a baboseira, mas quero (insisto) ver sua caveira agora, rapidinho, bem depressa!

Aquelle verme é burro, besta à bessa! Bundão! Cuzão! Estupido! Toupeira! O gajo bebe, fuma, chupa, cheira! Ainda quer que alguem desculpas peça?

Em caso de processo, vou fallar que sou descontrolado! Tenho um ar ja meio doidivana, ammalucado!

Mas isso se resalva, pois vulgar é todo linguajar mais popular, de sorte que está livre meu recado!

SONNETTO DA VERBALIZADA VENTOSIDADE [12.734]

O verbo “flatular”, si não exsiste, accabo de crear, pois ja cansei dum outro, que é “peidar”, do qual ja sei que serve à gozação, ao chulo chiste!

Agora não mais digo que estou triste por causa desses flatos que esperei demais para soltar! Eu “flatulei”, emfim, mesmo que o cheiro não despiste!

Está nosso nariz ja bem cansado dum cheiro mau sentir! Mas educado demais sou para às claras proferil-o!

Ha typico vocabulo, cunhado com base scientifica, mas, dado o adviso, peido mesmo, sem vacillo!

SONNETTO DO PEKY ROIDO [12.747]

Que feio! Que vergonha! Ah, bem peor deshonra, para aquelle que se julga um “mytho”, um governante que promulga leis tantas, é ver isso a seu redor...

Ver isso em toda parte, na maior cidade, em “autidor”, ver que divulga tal coisa até cachorro, ou sua pulga, peor que o que sabemos, ja, de cor...

Peor que ser chamado de veado, de corno, de ladrão, de bandoleiro, de filho duma puta, de fuleiro...

Peor que genocida, que seu lado tem, claro, de verdade, dado o cheiro fedido de cadaver, delle inteiro...

SONNETTO BEM ENTENDIDO [12.775]

“Hem? Como vae o Glauco? Fiquei eu tão triste por saber que não ganhou!”

Entenda-se: “Contente eis que eu estou sabendo que mais esse elle perdeu!”

“Hem? Como vae o Glauco? Nesse breu não soffre tanto? Graças a Deus dou!”

Entenda-se: “Esse cego não pirou ainda? A propria merda não comeu?”

“E o Glauco? Que melhore de sahude!”

Entenda-se: “Rezei o quanto pude p’ra que elle não ficasse em bom estado!”

“E o Glauco? Pô, tomara que não morra!”

Entenda-se: “Está ainda vivo, porra? Não morre de teimoso, o desgraçado!”

SONNETTO DA LISTA TRUMPISTA [12.800]

Estou de sacco cheio, Glauco! Tudo prohibe esse esquerdista! Agora não se pode fallar “indio”, nem “anão”, nem “retardado”, nem “creado mudo”!

Peor! Tambem o Trump eis que, biccudo, scismou de prohibir qualquer menção aos termos mais communs! É palavrão até “female” e “woman”, cabelludo!

Hem? Pelo que entendi, ja que não pode tambem ninguem dizer “homem com homem”, não sobra quasi nada que incommode...

Aquelles que não dão e que não comem consolem-se: ninguem alli se fode si bronha batter, ou... no cu que tomem!

SONNETTO DOS DESDENHOSOS [12.982]

Na rua, só me insultam! Que rebu, Glaucão! Só falta, agora, a força bruta usarem! Addeanta que eu discuta? Magina! Alguem dirá: “Fode-te tu!”

Alguem me manda, até, tomar no cu! Tambem, que me pariu, mandam à puta! À merda, tantas vezes! Quem escuta até fica chocado! Muito cru!

Mandei eu, em resposta, alguem metter no cu da avó, no cu da mãe, até! De nada addeantou! Que vou fazer?

Mas deixe estar! Me vingo da ralé! Um dia, menestrel, terei prazer ao ver que estão fodidos! Ponho fé!

SONNETTO DUMA MÃE COMPREHENSIVA [13.199]

Glaucão, o meu filhão adolescente desdenha de ti, sabes? Elle diz que um cego do teu typo ser feliz não pode, que meresce isso que sente!

Meu filho não tem pena dessa gente malsan, deficiente! De imbecis chamou todos os bardos! Sem subtis maneiras, elle falla claramente!

Peguei-o, certa feita, todavia, relendo um de teus livros, com a mão no penis... Eis que, então, se divertia...

Não posso censurar esse filhão, pois mostra-se immaturo! Qualquer dia, irá te visitar, hem? Queres, não?

SONNETTO DUMA DAMA COLHERUDA [13.218]

Glaucão, minha mulher é palpiteira demais! Nós num almosso, convidados, estavamos... Eis que ella, aos altos brados, começa a criticar a cozinheira!

Fallou que exsiste coisa, alli na feira, melhor e mais barata! Ai, meus peccados! Agora todo mundo pensará, dos meus gostos, tudo quanto, mal, se queira!

Na frente do gentil amphitryão a minha esposa, estupida, dizia que tinha achado um ratto no pheijão!

Magina, Glauco! Um ratto! Só seria, talvez, um cocozinho, um simples grão de bosta! Ah, dar palpites nem cabia!

SONNETTO DOS PLAUSIVEIS PALAVRÕES [13.239]

Que velho desboccado, trovador! Precisas desse estupido fallar nalgum de teus sonnettos, exemplar que seja desse incrivel despudor!

À merda, a depender delle, si for a gente, certamente, para azar, ainda tomaremos no cu, par fazendo com algum estuprador!

Si fosse por vontade do subjeito, iriamos à puta que da gente mamãe teria sido, ja suspeito...

Talvez pela velhice, esse indigente nos xinga, a todos, desses nomes, feito um louco, ou mesmo certo presidente...

SONNETTO PETICIONARIO [13.393]

Por meio deste, venho promptamente pedir, doutor, que Vossa Senhoria favor me faça -- Ah, bem que poderia! -de estar longe e voltar aqui nem tente.

Si digo “longe” estou, logicamente, dizendo que ir à merda até podia, mas quero reforçar a putaria, propondo que se foda. Attenda a gente!

Tentei ser, meu senhor, protocollar, mas nunca que consigo. Logo um ar assumo do pornographo que sou...

Vulgar, pois, empregando o linguajar, eu, neste ensejo, peço que tomar no rabo o senhor va, doutor. Sacou?

SONNETTO AFFAVEL [13.473]

Senhor, por gentileza, poderia virar a sua cara p’ra que eu batta na face da direita? A gente tracta com jeito, p’ra poupal-o da sangria...

Agora melhorou. Para alegria da gente, por favor, tenha sensata noção e de joelhos fique. Chata será tal posição, mas nos sacia...

Perfeito, meu senhor! Agora, abrindo a sua linda bocca, favor faça de nella metter este pau, que é lindo...

Não acha lindo? Chupe, então! Pirraça não faça! A porra trague! Depois brindo, pacifico, com vinho ou com cachaça...

SONNETTO DA EXHORTAÇÃO (1) [13.553]

Vos peço, vos imploro, vos supplico, agora que estaes quasi que vos indo, que, emfim, tenhaes destino leve e lindo, ou seja, aquelle bom e velho mico.

À merda podeis ir, que feliz fico. Comtudo, tambem acho mui bemvindo que em vosso rabo va se introduzindo um penis cuja pelle faça bicco.

Sim, antes de tomardes no cu, vós podeis chupar, do bicco de chaleira, aquillo que sabemos todos nós.

Gostaes de queijo? Caso o gajo queira, que tal beberdes mijo? Vossa voz poetica, assim, soa, fede e cheira...

SONNETTO DA EXHORTAÇÃO (2) [13.554]

Te peço, sim, te imploro, te supplico, agora que estás tu te foder indo, que, emfim, esse destino leve e lindo tu cumpras sem que faças nenhum bicco.

À merda podes ir, que feliz fico. Comtudo, tambem acho mui bemvindo que nesse rabo va se introduzindo um penis que de esmegma seja rico.

Sim, antes de tomares no cu, tu chupar irás, do bicco de chaleira, alem do queijo, um jacto de sagu.

Urina curtes? Caso o gajo queira, uns goles tomarás. Nenhum tabu impede essa assertiva bebedeira.

SONNETTO DO PURISMO [13.623]

Não gosto de excolher palavras, não. Aquella que me venha me será perfeita, si encaixar, ‘inda que má linguagem, numa força de expressão.

Que importa si excolhendo um palavrão estou? O que interessa sempre está ligado, na questão, a alguem que ja usou o mesmo termo faz tempão.

Bocage empregou? Prompto! Posso usar! Gregorio utilizou? Pois tambem eu irei utilizar, eis que exemplar!

Ninguem irá dizer que se fodeu quem tenha versejado, para azar dos criticos, com penna de plebeu...

SONNETTO DO EXPRESSIONISMO [13.657]

Agora a liberdade de expressão virou thema poetico, Glaucão!

Ja todos perceberam que é questão artistica! Poetas todos são!

Nas redes sociaes, o palavrão está, ja, liberado! Por que não? Ja posso, ora, xingar de enrustidão aquelle veadinho de plantão!

No verso, não serei como Camões, que para alguem xingar jamais colhões mostrou ter, ora, raios e trovões!

Hem, Glauco? Por que, então, tu não te expões, chamando, num sonnetto, de cuzões aquelles que não usam palavrões?

SONNETTO DO METEORISMO [13.693]

Glaucão, meus peidos rhoncham! Eu me encolho e explodo! Passo sempre essa vergonha!

Seus gazes controlar, hem, quem não sonha?

Ainda falla alguem que tem orgulho?

Exsiste esse sarrista! Não empulho ninguem, mas me contaram que quem ponha no pratto ovo cozido, de enfadonha historia, peidará! Tambem repolho!

Pheijão, batata doce... Eu ponho tudo no pratto, menestrel! Vou me privar?

Meus habitos à mesa, ah, nunca mudo!

Si gostam, si não gostam do meu ar, problema delles, ora! Não estudo taes themas, sinão... Toca a gargalhar!

SONNETTO DO IDIOTISMO [13.705]

Vocabulos da lingua portugueza me causam extranheza, menestrel! Quem seja algum “otario” faz papel de “trouxa”? De “idiota”? Tem certeza?

Não sae uma pessoa tão illesa si for xingada assim! Mas quem tal fel exbanja tem moral para cruel ser desse modo? Offende e tem defesa?

Eu acho que quem xinga de “idiota”, usando o termo “otario”, deveria saber que era argentino! Ninguem nota?

Por isso, Glauco, usei, em poesia, o tal “bobo da corte”, que é chacota bem facil de entender... Quem não riria?

SONNETTO DO DILETTANTISMO [13.746]

Eu acho um passatempo divertido compor uns sonnettinhos, Glauco! Não sou, como tu te julgas, um fodão na versificação, bem entendido!

Si faço um pé quebrado ou si decido rhymar pela toante, nem questão estou fazendo! Ponho um palavrão no meio do versinho mais polido!

Tambem fazes assim? Mas tu não és tão technico, tão rigido, tão duro nos typos e tamanhos de teus pés?

É mesmo? Quem verseja nesse escuro jamais se preoccupou si nota dez iria tirar? Fico pasmo, juro!

SONNETTO DO BOMMOCISMO [13.751]

Sou mesmo um bom actor, Glaucão! Por isso eu posso parescer bem comportado, gentil, cavalheiresco... Mas cuidado! É tudo fingimento! Sou postiço!

Na practica, jamais eu desperdiço as chances de zoar dum alleijado, dum cego ou dum otario retardado! Ahi que eu, sem reservas, me encarniço!

Em publico si estou, bem escoteiro me faço, dou adjuda a quem precisa... Mas, quando um refem tenho em captiveiro...

Nem queira ser submisso meu, à guisa de escravo, sequestrado ou prisioneiro! Pergunte para aquella poetiza!

SONNETTO DO MALEDUCADISMO [13.754]

Cobrando só me ficam, Glauco, por acharem que não tenho compostura! Ah, porra! Quer saber? Acho uma pura frescura! Ah, que se fodam! Que estupor!

Licença vou pedir? Vou por favor pedir? Muito obrigado dizer? Jura que leva alguem a serio tal frescura? Acaso tenho cara de doutor?

Ah, mando logo à merda quem me cobra! À puta que pariu mando quem venha me encher o sacco! Um macho não se dobra!

Tomar no cu mandei quem quer que lenha me desça! Palavrão você, de sobra, não usa? Nas chulices não se empenha?

SONNETTO DO PEDANTISMO [13.792]

Tiveste professora assim pedante, Mattoso? Fui alumno duma tão cricri, tão moralista, que questão fazia de exhibir pose elegante!

Uns versos recitava, quer de Dante, Petrarcha, de Camões ou de quem não nos fosse familiar! Mas palavrão, em classe, era assaz torpe e degradante!

Com labios retorcidos, declamava appenas, de Gregorio, uns versos mais devotos e elevados, que inventava...

Tentassemos dizer uns mais carnaes, daquelles de Bocage, cara brava mostrava, mais até que nossos paes...

SONNETTO DO ELITISMO [13.853]

Glaucão, sou elitista, sim, e posso dizer que meus poemas todos são tão cultos, tão hermeticos, que não são lidos por alguem que eu não endosso!

Não boto nos meus versos esse troço horrivel que tu botas: palavrão em penca, alem de muita fallação politica, que excappa ao mester nosso!

Leitores meus, os quero de carinha bonita, bem felizes e educados! Meus livros não lerá gente mesquinha!

Não ligo para todos esses brados irados desses bardos que, na linha pornô, só teem leitores depravados!

SONNETTO DO ALCOHOLISMO [13.873]

Sou bebado, Mattoso, sou bebum! O mundo me condemna, mas, no fundo, me inveja, pois vantagem levo! Fundo meu proprio clube! E então? Problema algum?

Quem bebe é franco, um facto mui commum! Sem pappas falla, mesmo si iracundo! Meu Clube dos Bebuns, nisso redundo, congrega quem não finge! Pum é pum!

E peido sempre é peido! Ja dizia o Loudon que é mais facil ser sincero si estou de porre! Mas ninguem confia...

Um dia, alguem justiça fará, quero crer nisso! Si me encontram, pela via cahido, hoje ninguem crê no meu lero...

SONNETTO DO PROTAGONISMO [13.903]

Preciso de inimigos! Um ja fiz aqui na minha rua, pois ao chão joguei aquelle irado folgadão, pisei na cara delle, e estou feliz!

Meu grande inimigão luctar nem quiz! Deixou-se, então, pisar! Reputação ganhou de molleirão! Agora não terei mais com ninguem modos gentis!

Na frente do povão aqui da rua, o gajo se jogou aos meus pés, fez carinha de coitado! Sentei pua!

Fiz que elle rastejasse e que freguez ficasse desta sola, que na sua linguinha passeou! Não fui cortez!

SONNETTO DO SECTARISMO [13.937]

Magina, menestrel! Sou democrata! Acceito todo typo de ideario politico! Collegas do mais vario perfil nunca xinguei de gente chata!

Somente não acceito quem combatta as minhas convicções e de sectario me chame! Insisto nisso: sou gregario, me entendo por plural, por diplomata!

Somente não atturo um communista, um lider partidario de direita, um cynico centrista, toda a lista!

Qualquer ponderação acho suspeita si entendo que um confrade meu despista accerca do michê com quem se deita!

SONNETTO DO CORRECCIONISMO [13.982]

Defendo uma cultura “woke” e estou propondo que imponhamos a censura total aos incorrectos, uma dura e firme punição! De esquerda sou!

Notaste, menestrel, como virou baderna a scena artistica? A figura do negro, do judeu, do cego, pura piada de estandape se tornou!

Estão os humoristas, sem pudor, zombando dos invalidos, das putas, dos gordos, dos edosos, dos de cor!

Teremos que editar o que hoje escutas, Glaucão, e lês nas midias! Vou propor fazermos, nas palavras, mil permutas!

SONNETTO DO INCORRECCIONISMO [13.983]

Condemno uma cultura “woke” e estou propondo que não haja mais censura total aos incorrectos, essa dura e injusta pena, Glauco! Livre sou!

Notaste, menestrel, como ficou tolhida a scena artistica? A figura do negro, do judeu, do cego, pura piada foi! Tabu ja se tornou!

Então os humoristas, sem pudor, zombavam dos invalidos, das putas, dos gordos, dos edosos, dos de cor!

Não curtes, menestrel, o que hoje escutas nas midias? Precisamos é propor mais sarro, mais sarcasticas conductas!

SONNETTO DA COLLECTIVA NARRATIVA [14.004]

Qualquer um que disser que eu ja chupei seu pau falla a verdade. Qualquer um que diga que eu lambi seu pé bebum por certo não estava. Chances dei.

Concordo si disserem que sou gay. Confirmo si disserem que em jejum não fico de engolir porra. Fartum curti, si isso disserem. É de lei.

Até mijo bebi, ja que alguem diz. Cocô dizem que eu como? Não desminto. Affirmo, sim, ter feito o que não fiz.

Ja quasi suffoquei com algum pincto maior? Tudo verdade. Nem gentis commigo foram. Isso não consinto.

Casa de Ferreiro

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