Corte pela raiz
Candomblé é ameaçado violentamente pelo preconceito contra religiões de matriz africana
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Candomblé é ameaçado violentamente pelo preconceito contra religiões de matriz africana
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Ano 17 - Edição 53 - Novembro de 2019
Revista Laboratório do Curso de Jornalismo PUCPR
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
R. Imaculada Conceição, 1115 Prado Velho, Curitiba PR
REITOR
Waldemiro Gremski
DECANA DA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO E ARTES
Eliane C. Francisco Maffezzolli
COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO
Suyanne Tolentino De Souza
COORDENADOR EDITORIAL
Suyanne Tolentino De Souza
COORDENADOR DE REDAÇÃO/JORNALISTA RESPONSÁVEL
Paulo Camargo (DRT-PR 2569)
COORDENADOR DE PROJETO GRÁFICO
Rafael Andrade
Alunos - 6º Período Jornalismo PUCPR
Imagem de capa: Talita Laurino 6ºP Jornalismo
Quando o racismo se manifesta na religião, as crenças de matriz africana sofrem com a intolerância e o desrespeito. O candomblé é a mais afetada delas
O carro estava acelerado e, quando a candomblecista e pedagoga Ludmila Freitas olhou para frente, ele já havia arrebentado a cerca do terreiro. Para-
filha decidiu abrir um barracão e seguir a própria fé. A mãe carnal de Ludmila também é a mãe de santo do terreiro e não se sente segura há algum tempo.
Candieiro, coordenador de Igualdade Racial da Prefeitura de Curitiba
lisada atrás de um vaso de cimento, o automóvel que se aproximava dela vinha com cada vez mais velocidade, até que o motorista finalmente avançou para cima da professora. Por algum milagre dos orixás, o carro foi barrado pelo vaso e não encostou em sequer um dedo na religiosa.
Ludmila sobreviveu ao quarto ataque do mesmo homem ao seu barracão. As primeiras vezes em que ele apareceu, as agressões foram mais sutis, pelo menos quanto ao grau de violência. Tentava a todo custo criminalizar a abertura do terreiro em Paranaguá. Chamava a polícia durante os cultos e alegava baderna. “Eu só perguntava aos oficiais se um aglomerado de 15 pessoas numa festa de aniversário mobilizaria a guarda urbana também”, lembra a candomblecista.
A sorte é que em todas as vezes nas quais algum policial apareceu era negro e acabava sensiblizado pela história da velhinha preta, que com sua
Essa história a pedagoga contou na frente de pessoas importantes. Foi na 2ª convocação geral, durante o fórum de religiões de matriz africana, que líderes políticos escutaram casos de intolerância sofridos por umbandistas e candomblecistas.
Após ouvirem a fala de Ludmila, o coordenador de Igualdade Racial da Prefeitura de Curitiba, Adegmar José da Silva, o famoso Candieiro, levantou a voz. “A mão do ódio contra a gente pesa com violência e sangue. A mão do ódio contra a gente mata. Não estamos falando aqui de comentários maldosos, estamos falando de morte e de racismo.”
Depois de muitos aplausos, eles voltaram a dialogar sobre estratégias de enfrentamento à crescente onda de intolerância. O objetivo era sair dali com ferramentas de promoção ao respeito inter-religioso. “A luta é longa. Mas só passo de elefante nasce grande, o resto é tudo conquistado
“A mão do ódio contra a gente pesa com violência e sangue.”Arquivo pessoal, Senff e Marchesine
devagarinho”, finalizou seu discurso Candieiro. Na mesma semana, os filhos do terreiro do Portão se reuniram para a festa de Ogun, orixá da casa. Na celebração, espíritas, católicos, evangélicos e budistas participaram. A associação contra intolerância que a mãe de Santo Isabel Cristina integra faz questão de promover o trânsito entre fiéis pelas casas santas.
Mas nem sempre reinou essa paz por lá. Em fevereiro de 2019, a cantiga da casa que foi interrompida não era feliz. A batida do atabaque e os rostos inchados de tanto chorar indicavam que havia se perdido alguém importante. Em dia de axexê, ritual fúnebre do candomblé, o canto não pode parar a madrugada toda. E o pai de santo da casa, vítima de um câncer de estômago, merecia uma passagem digna.
Mas, depois de alguns tijolos jogados no barracão, o pai convidado para conduzir o ritual não aguentou. Parou a cerimônia e foi falar com os homens que estavam do lado de fora do terreiro: “Iansã tá vendo o que estão fazendo e eu vou mandar ela atrás de cada um se continuarem”, alertou. Nenhum pouco intimidados com as ameaças do mundo espiritual, os vândalos continuaram as agressões.
Enquanto isso, todos os filhos de Iansã estavam virados no santo. Elizabeth Ceballos, uma das crias do orixá, só
recorda-se do barulho de latões batendo e de pessoas gritando. Quando tudo parou, lembra-se do medo que sentiu ao achar que a telha ia cair.
“A gente podia morrer. Lá o teto é frágil, a casa não recebe nem incentivo do Estado para sobreviver, como a Igreja Católica. Ia sair tudo do nosso bolso, se não acontecesse coisa pior.”
O axexê precisou continuar. “O rito é importante para a casa e não pode parar, não vamos nos deixar abater”, disse o pai. Superando o medo e a intolerância, o terreiro resistiu.
Essa não foi a primeira vez que o barracão do Portão passou por algo assim. No dia de candomblé da Elizabeth, o clima ficou ainda mais tenso. A morena de 24 anos e estudante de Direito decidiu se converter para a religião há dois anos, quando problemas de saúde a fizeram recorrer à soluções espirituais.
Isolada por 12 dias no rocó, quarto interno do terreiro que abriga àqueles em iniciação, era finalmente chegada a hora de Elizabeth sair de lá, raspar a cabeça e dar luz ao seu orixá. A ansiedade tomava conta, até que a danada da Sandra fugiu. “Dizem que não se pode dar nome para bicho que ele foge. Dito e feito”, debocha de si mesma Elizabeth.
A cabritinha que seria sacrificada na festa aproveitou a distração do pessoal para escapar pelas grades. A vizinhança assistiu ao movimento e ligou para polícia, que bateu no terreiro por conta de uma denúncia de maus tratos.
Deu o que fazer para os oficiais não entrarem. O que os livrou de complicações com a justiça, ironicamente, foi a própria lei. Segundo o Decreto número 2.848, artigo 208, é proibido impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso. Sendo assim, eles foram embora, e a danada da Sandra voltou. “É muito difícil explicar para a sociedade que não matamos os bichos por mau trato. Toda carne usada é santificada e muito respeitada”, explica a garota.
O advogado Flávio Parisi ainda complementa que o artigo 5º da Constituição brasileira assegura que é inviolável a liberdade de consciência e de crença humana. “O livre exercício dos cultos religiosos é garantido, na forma da lei, bem como a proteção aos locais de culto e suas liturgias. É imprescindível que haja uma aceitação.”
No entanto, há uma diferença entre aceitação e respeito, de acordo com o teólogo e pastor da Igreja Evangélica, Edson Tedesco. “A Bíblia é clara quanto ao fato de que só há um Deus. Muitos acabam deixando outros deuses e passam para a religião evangélica, porque se identificam mais com ela, assim como também acontece o contrário. Esse trânsito não é um preconceito contra o candomblé, as pessoas têm o direito de mudar de pensamento”, argumenta.
Ele ainda defende que o ódio é um sentimento que deriva do fanatismo religioso. E que o candomblé incomoda fiéis por apresentar características que não conferem com aquelas ensinadas por Deus, como a reencarnação e os sacrifícios de animais, por exemplo.
“A religião é muitas vezes procurada para fazer trabalhos bons e ruins. Isso, é claro, cria uma certa indiferença e desprezo nas pessoas em relação a sua conduta. Evidentemente que cada um tem o seu direito de escolher qual caminho seguir, mas dentro desses
apontamentos o candomblé provoca certa intolerância.˜
Candieiro, o coordenador de Igualdade Racial da Prefeitura de Curitiba, discorda. Para ele, a razão do ódio tem raízes antigas e negras. Os números mostram que as denúncias de discriminação contra adeptos de religiões de matriz africana aumentaram 7,5% em 2018 no Brasil. Elas foram feitas pelo Disque 100, serviço de atendimento 24 horas do Ministério de Direitos Humanos. Ao todo, contabilizam-se 71 denúncias do tipo feitas de janeiro a junho de 2018, contra 66 da mesma época no ano anterior.
A cabeça abaixada representa respeito e redenção.
Over the speed limit a car crosses the fence of the terreiro -piece of land where the Candomble cults are celebrated-, the candombleista -what Candomble followers are called - and pedagogue Ludmila Freitas hides behind a cement vase while the car keeps speeding up on her direction. From a miracle of the Orixás -Candomble deities - the vase protected her from the car, saving her without one scratch.
This is the fourth time that Ludmila suffers with an attack from the same man. The first few times were less aggressive, without physical violence. He was trying to argue that the opening of the terreiro in Paranaguá was illegal and would call the police during the cult saying that it was disturbing the neighborhood. “I used to ask the police officers if a birthday party with 15 people together would also
make someone call the cops,” remembers Ludimila.
She considers herself lucky that when the cops arrive, it was always a black cop that would end up sensibilized by the story of the space that was open by a black old lady with her daughter (Ludimila). Her mom that is also a mãe de santo -mother of saints and important figure at the cults- also doesn’t feel safe on her own terreiro space.
This story was told on the 2ª general convocation during the African descent religion forum, where politicians hear the case of intolerance and violence suffered by candomblecistas and umbantisas -and other popular african descentent religion that is practiced in Brazil.
After listening to Ludimila story, the coordinator of Racial Equity from Curitiba´s mayor office, Adegmar José da Silva, also known as Candieiro, raised his vice to
When racism and religion intolerance mix, African- Brazilian creeds and religions suffer with the disrespect and violence. The Candomble is the one that gets affected the most
Not
Talita Laurino
say: “ The hate against us is violence and blood. The hate against us kill. We are not talking about hate comments, we are talking about death and racism.”
After the applause the conference went back to the discussion of strategies to resist the growing of intolerance. The idea was leaving the discussion with tools to raise the respect between religions. “ It is a long fight. But only elephants are born with a big step, the rest of us have to fight for it slowly,`` said Candieiro at the end of his speech. In the same week that the conference happened, the sons of terreiro of Portão made a party for Ogun - one of the Orixás. The celebration reunited spirits, católics, evangelical and buddhists. The association against religion intolerance that Isabel Cristina, mãe de santo, is part of making sure to promote mixers between different religions.
The ritual had to stop after some rebels started to throw bricks at the roof. The pai de santo that was conducting the ceremony had to stop and go outside to ask
those vandals to stop: “Iansã- one of the Orixas- has seen what you are doing, I will tell her to go after each one of you if you guys don’t stop it”, he alerts. The vandals were not afraid of the spiritual threats and kept going.
Sadly the respect between religions is not that common. In February 2019, the community was reunited to pray after the death of the pai de santo, father of saint, that passed away with cancer. According to the tradition, the Axexê, ritual for the death must go on during the whole night and the community was ready to give him the celebration he deserved.
Inside the house, the sons of Iansã, an other Orixá, were in a part of the cult where they were totally in the spiritual world. Elizabeth Ceballos can only remember the strong noise and people screaming. When the ceremony stopped she felt like the roof was about to fall. “We could had died. The structure is very fragile, the house doesn’t get any money from the government to survive like the catholic church. We would be responsible for paying for the damages.”
The Axexê must go on. “It is important to the house and cannot stop. We won’t let them stop us.” Said the pai de santo that even with the fear of the intolerance, continued the ceremony.
This was not the first time that the space
Senff e Marchesine“Candieiro, coordinator of Racial Equity from Curitiba ´ s mayor office
dedicated to the celebrations in Portão went through something like that. Elizabeth remembers her Candomblé day, her initiation at the religion. She decided to convert into candomblé two years ago motivated by health issues.
It all start with saying isolated for 12 days at rocó, a special room for the ones been initiated in the religion. When they leave they have to shave their hair and give birth to their Orixá. She was super anxious when realized that Sandra was gone.”They said we cannot give a name to the animal because then it runs away, and that happened.” She said laughing at her own situation.
Sandra was a goat that was going to be sacrificed at the cult. It ran away while they were distracted organising the party to escape through the gate. Some of the neighbors saw it and called the police saying that they were mistreating the animals.
Was hard to convince the offices to not go in and ruin the ceremony. What saved us from complications with the justice was ironic the law. According to the decree 2.848, article 208, is prohibited to stop or disturb a religious cult. After alleging that the police officers left and Sandra came back. “It is hard to explain to the society that we do not kill animals for mistreatment. All the meet is sanctified and respected.” She explain
The lawyer Flavio Parisi complements that the article 5º of the Brazilian Constitution
say that is inviolable freedom of conscious and human belief. “The freedom of religion cults is guaranteed in the law, that also protected the religious spaces and cult places.”
But had a big difference between accepting and respecting according to the theologian and pastor at the Evangelical church Edson Tadesco. “The Bible is clear saying there is only one God. A lot of people leave the other Gods and came to the Evangelical religion because they identify more with it, and it also happen the opposite way around. These changes are not a preconcept against candkmblé, people have the right to change their mind”, he argues. He also defends that the hate is a feeling that came from the religious fanaticism. The Candomblé beliefs bother other religions for having characteristics that go against the ones taught by God, for exam-
ple reincarnation and animal sacrifices
“The religion is used for the good and the bad. This creates contempt when it comes to the conduct. Everyone had the right of choosing your path, but because of this idea of been for good or bad the Candomblé suffer with intolerance”.
Cardineiro, coordinator of Racial Equity from Curitiba´s mayor office, disagree. For him the reason of the hate against the relation is related with having it roots in Africa. Statistics show that the complaints of discriminatiom againts those who follow African religions got 7.2% higher in 2018 in Brazil. Those complaints were made to call 100, the 24 hours help from the Minister of Human Rights. 71 calls were made between January and July 2018, in 2017 only 66 calls were made in the same period of time.
Dados de 2010 mostram que o Brasil é o país com o maior número de ativistas ambientais pelo segundo ano consecutivo
As frentes de luta dos movimentos ativistas existem há muito tempo e contam histórias que ficaram marcadas para sempre na história do mundo e na evolução da humanidade. Esses grupos são capazes de dar voz àqueles que sofrem com a invisibilidade. Há que se questionar, inclusive, o conceito de minorias, já que mais da metade da população brasileira é negra (54%, de acordo com o Censo do IBGE de 2010) e feminina (51%, de acordo com o Censo do IBGE de 2012).
O mundo que conhecemos é grandioso e acolhe diferentes etnias, orientações sexuais e de gênero, e opiniões sobre assuntos divergentes. É intuitivo pensar que o governo de cada país não consegue dar atenção a todas as causas - o que não é certo, pois deveríamos, supostamente, viver em equidade e com garantia de direitos para todos. Sendo assim, o movimento ativista aparece, justamente, para trazer à tona assuntos que são contornados pelas instâncias, majoritariamente, políticas e excludentes perante as “necessidades” de uma maioria.
O movimento sufragista, por exemplo, foi o resultado do ativismo militante feminista que se deu na sociedade, após anos de luta das mulheres pela transformação da democracia com a ampliação dos direitos das mulheres e trazendo - ainda que não completamente - uma equidade com os direitos entre os homens.
Esse ativismo, entretanto, não é bem visto pelo atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Em entrevista ao programa humorístico Pânico, da Jovem Pan, durante a época de eleições, no ano passado, Bolsonaro declarou que “Tem ativismo em qualquer lugar. O ativismo não é benéfico, e nisso, nós devemos pôr um ponto final”.
Giovanna Silveira faz parte do “Bloca Feminista Ela Pode, Ela Vai”, um bloco de batuque curitibano, que está
sempre em eventos, como marchas, defendendo a inclusão da luta das mulheres. Esse bloco atua politicamente por meio da cultura e da música, chamando atenção das pessoas que não têm acesso às leituras científicas. “A gente quer tornar democrático a politização, então atuamos com o feminismo dessa maneira”, conta a publicitária.
Para ela, quando se trata da luta de minorias, a maioria dos governos não dá apoio completo, pois o capitalismo tende a sempre explorar as minorias em detrimento da elite e do que é considerado “mais forte”. “No presente governo, no qual nosso país está sendo presidido pelo político do PSL, enfrentamos um obstáculo ainda maior em direção à igualdade e respeito tanto para as mulheres, quanto para a população LGBT.”
Vimos mais de uma vez o atual presidente eleito proferir insultos contra
essa parcela da sociedade e isso sempre foi algo escancarado por parte do Bolsonaro”, explica Giovanna.
Sobre os movimentos ativistas, a publicitária afirma que é preciso falar e debater sobre esses temas, além de se questionar as piadas de mau gosto, as brincadeirinhas, violências concretas e a opressão enfrentada pelas mulheres. Para ela, “nenhuma luta se faz no silêncio. Precisamos de uma militância ativa e disposta a mover as estruturas sociais.”
Quando chegamos aos dados, o susto é grande: o Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para os defensores dos Direitos Humanos. No balanço divulgado em 2018 pela ONG britânica Global Witness, o país
“A gente quer tornar democrática a politização, então atuamos com o feminismo dessa maneira.”
Giovanna Silveira, publicitária
chega em primeiro lugar, pelo segundo ano consecutivo, como o país com maior número de mortes de ativistas ambientais, tendo, no ano anterior, 57 ativistas mortos. A organização salienta que 60% das 207 vítimas identificadas em 22 países estão na América Latina.
A fundadora do Grupo Anjo Azul, uma organização de apoio às pessoas com síndrome do espectro autista, Fernanda Rosa, diz que, infelizmente, são os invisíveis da sociedade e lembrados apenas em época de eleições.“Somos
acreditam na esperança de melhoras no que se refere aos temas voltados aos grupos invisíveis da sociedade.
Educadora voluntária do grupo Dignidade, Melissa Souza vê o ativismo como um diálogo no qual se precisa falar sobre equidade e sobre os povos invisibilizados que são vulneráveis e precisam de uma atenção “a mais”. “Geralmente, as pessoas deturpam muito tudo o que nós dialogamos, porque a gente trabalha com a questão da articulação política pensando no direito básico a todos”, conta.
mães e fazemos das nossas dificuldades a nossa maior inspiração. Temos a obrigação de dar voz aos nossos filhos”, declara orgulhosa.
Fernanda viaja com o grupo por todo o interior do Paraná para fazer palestras e debater o tema, que nada mais é a questão das políticas públicas e famílias, levando informação sobre o assunto e contribuindo ativamente com a inclusão e o desenvolvimento social.
A questão das minorias, que faz parte dos grupos ativistas, também é uma problemática no país perante a visão de Jair Bolsonaro, que já proferiu inúmeras frases de desprezo a essas pessoas, como por exemplo no encontro na Paraíba, em fevereiro de 2017, quando disse “Deus acima de tudo. Não tem essa histórinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias.”
Apesar desse impasse grandioso e significante, ainda existem pessoas que
Para ela, que trabalha no projeto Viva Melhor Sabendo, fazendo teste de HIV nas pessoas, a partir do conhecimento que se adquire ao estar ouvindo sobre outros povos, etnias, identidades de gênero e orientações sexuais, é que se chega a um desfecho positivo para todos.
“Eu tenho esperança de que esse novo governo tenha olhos e consiga enxergar que existem corpos que são excluídos e que são apagados, que existem pessoas que não são enxergadas, que existem pessoas que sofrem simplesmente por existirem. E, basicamente, eu tenho esperança de que nós tenhamos um diálogo produtivo, que as pessoas sejam vistas, tenham seus direitos, que amem e sejam felizes”, finaliza.
Entre medos, desamparo e luta, o importante é não se calar, mas ser a voz dessas pessoas invisíveis e, claro, acreditar num futuro e em uma sociedade justa e melhor para todos, sem restrições.
“Somos mães e fazemos das nossas dificuldades a nossa maior inspiração. Temos a obrigação de dar voz aos nossos filhos.” Fernanda Rosa, fundadora do grupo Anjo Azul
Pilotando aviões ou combatendo em trincheiras, soldados brasileiros guerrearam na Itáliaa e participaram da conquista de Monte Castelo
Com 99 anos, o pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) Mario Ferroni, ainda guarda na memória os dias de aflição e desesperança vividos durante a Segunda Guerra. Quando Ferroni soube de sua convocação para a guerra, no ano de 1944, pegou o primeiro trem de Caçador, Santa Catarina, com destino a Luzerna, para avisar os pais sobre sua partida.
A missão foi triste. Na época com 24 anos, o jovem não sabia como contar aos pais. Desceu do trem e caminhou por uma estradinha até chegar ao sítio onde moravam os pais. Nervoso, ele só conseguiu dar a notícia no dia seguinte, na hora de partir. Os pais ficaram cabisbaixo no mesmo instante, já que ir para a guerra era quase como uma sentença de morte. Em um último ato a mãe de Mario colocou uma medalha do Sagrado Coração no pescoço do filho e, acompanhada do marido observou de forma triste pela janela o filho partir. De volta a Caçador, o Ferroni mal teve tempo de organizar o pensamento. Logo foi para o Batalhão de Infantaria de Joinville e depois Blumenau. Fez inspeção de saúde, e, declarado apto, incorporou-se ao 11º Regimento de Infantaria. “Com este regimento, fui para o teatro de operações na Itália, onde participei do famoso combate em Monte Castelo. Lembro que embarcamos no Rio de Janeiro diante de uma multidão acenando com lenços brancos. Foi um momento marcante”, conta. Assustado e com o navio zarpando, Maria olhava incrédulo a bela paisagem carioca. “Na hora tive muitas impressões. Olhava para o Corcovado e para o Cristo Redentor e achava que nunca mais ia voltar. Nervoso, lembro de baixar a cabeça, beijar a medalha e rezar”.
Ferroni desembarcou em Nápoles, Itália, onde lutaria na front italiana. O primeiro combate do jovem foi em Monte Castelo, a famosa batalha que ficou marcada pela presença da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no conflito. “Foi ali que minha companhia teve os primeiros mortos e feridos. Os alemães estavam muito bem entrincheirados e muitos ataques não tiveram êxito, por falhas de
estratégia. No início foi desesperador, mas ver aquilo me deu motivação para lutar”, conta. Até a conquista Monte Castelo, foram três longos meses de muito sofrimento e sangue, além de um frio de 18° negativos. Lá passaram o restante do inverno na defensiva sob as bombas dos Alemães. Com a chegada da primavera, tinha início outra grande ofensiva, a de Monte Castelo Novo. “Fomos avançando, sem muita resistência deles, até que chegamos ao Norte da Itália, onde recebemos a notícia do fim da guerra. Foi um alívio, eu nem acreditava que tudo finalmente tinha acabado.”
Ferroni participou de ações de combate por um ano e meio, tempo suficiente para transformá-lo profundamente. Os sonhos de juventude deram lugar ao medo e sofrimento. Dentre tantas tragédias que viu, uma ele nunca esquece. “Ainda em Monte Castelo, um grupo de pracinhas estava almoçando perto de uma colina, quando ouviu o estrondo de uma granada e corri para ajudá-los. Entre muitos mortos e feridos, o que mais me impressionou foi um pracinha muito jovem clamando pela mãe.” Mario conta que aquela cena o tocou muito, percebendo o quanto era triste morrer longe da família e de tudo que amava. Outro fato que Ferroni lembra com carinho aconteceu na noite de Natal. Ele conta que a companhia recebeu ordem para descansar e o seu pelotão improvisou uma árvore de natal. “Enfeitamos com doces e passamos a noite cantando e contando histórias como se nada de ruim pudesse acontecer. Foi o único momento em que me senti em paz. Inesquecível!”
Recomeçar não foi tarefa difícil para o pracinha. Com um pouco de estudo e até um curso de contabilidade (feito por correspondência), ele arrumou uma vaga na Industrial Madeireira, emprego no qual ficou por mais 34 anos. Casou e criou os quatro filhos, e, hoje, aos 99 anos vive a plenitude de quem aprendeu com a dor e sofrimento. Prestes a completar 100 anos, no próximo dia 5 de julho, Ferroni acredita que chegar aos 100 é, para ele, uma graça divina. E o soldado tem os seus segredos. “É preciso sorrir para a velhice. E isso, é o que mais faço.”
Para o historiador Luiz Carlos Huber, a história dos pracinhas brasileiros é algo incomparável e único. “É a história viva! Não são apenas como fotos, gravações ou documentos que capturam ou narram um determinado momento. Eles vivenciaram o conflito, e o mais importante, eles sentiram! São emoções que apenas eles podem reproduzir.” Porém, Huber acredita que este capítulo da história infelizmente está próximo ao seu fim, já que muitos dos soldados brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial estão com mais de 100 anos ou já morreram. “São como lendas vivas, tivemos o privilégio de viver na mesma época. Infelizmente a maioria já se foi, e os que permutam entre nós já têm bastante idade”, conta.
de quem lutou no conflito. O museu do Expedicionário, em Curitiba, é um exemplo de acervo que mantêm viva as histórias das pessoas que presenciaram este período.
O Museu do Expedicionário apresenta um acervo original da Segunda Guerra Mundial e além de todo material histórico em exposição, o local também conta com a exibição de veículos utilizados pela Força Expedicionária Brasileira (FEP) na guerra. Segundo a secretária da Legião Paranaense do Expedicionário, Rita Maria de Jesus, todo o material histórico do museu foi cedido pela Força Aérea Brasileira (FAB) e pela Marinha de Guerra do Brasil. Também existem materiais cedidos por outros países para a mostra, como Estados Unidos e Inglaterra.
Ainda segundo o historiador, os museus têm importância refutável na manutenção dos relatos dos soldados paranaenses que combateram na Segunda Guerra. “Além de guardarem registros documentais como fotos e papéis, também preserva objetos pessoais que foram usados ou capturados pelos soldados durante a guerra.” Entretanto, Huber alerta para falta de manutenção e incentivo aos espaços, já que segundo o historiador muitos só recebem algum tipo de reforma quando estão quase inutilizáveis. Além disso a falta de estímulo à cultura por parte Governo compromete a perpetuação da história.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e a participação do Brasil neste momento histórico, incluindo soldados paranaenses, era relevante a preservação das memórias
Rita conta que o museu apresenta ao público fotografias, mapas, jornais da época, armas, vestimentas, entre outros artefatos marcados durante o conflito que foram negociados através de trocas e doações feitas entre expedicionários brasileiros e soldados estrangeiros. De acordo com Rita, apesar de passados muitos anos após o fim da guerra e da abertura do museu, as doações de materiais para a mostra dos expedicionários é algo que não parou com o tempo e até hoje o museu apresenta novidades em sua exibição. “O acervo é muito dinâmico. Quando falece algum oficial da Força Expedicionária os familiares doam medalhas e outros artefatos, ou até mesmo os próprios expedicionários quando sentem estar chegando no fim da vida vêm até nós.” Essa dinâmica de doações é algo permanente e mantém o museu vivo.
“Olhava para o Corcovado e para o Cristo Redentor e achava que nunca mais ia voltar. Nervoso, lembro que abaixei a cabeça, beijei a medalha e rezei.”
Ferroni em Nápoles, Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.
Os dilemas da população transexual no mundo da prostituição
Emilia Jurach
Oabandono familiar, a exclusão escolar, o não reconhecimento da identidade trans e a dificuldade no mercado de trabalho são alguns dos motivos que levam 86% da população transexual a recorrer ao mercado da prostituição como fonte de renda e subsistência. Em 2018, o número era ainda maior, chegando a 92% no Brasil, segundo o Grupo Dignidade.
O estudo Fragmentadas, das jornalistas Camilla de Oliveira e Dayane Ferreira, que investiga o perfil de prostituição na cidade de Curitiba, Paraná, relata que as pessoas que buscam a prostituição não conseguem um emprego formal ou não se veem contentes com o trabalho atual. “Os fatores sociais e econômicos levam as pessoas a esse espaço. Uma entrevistada do nosso estudo, por exemplo, que trabalhava na equipe de limpeza de uma loja de departamento aqui da cidade (Curitiba), dizia que ela se sentia humilhada, e viu na prostituição uma boa oportunidade”, relata Dayane. Mas há, também, aquelas que se orgulham da profissão, segundo a jornalista. “Algumas fontes do Fragmentadas dizem que têm orgulho do que são e do que conquistaram no ramo. Uma delas pagou estudo dos filhos e do neto, além de comprar carro para a família”, completa.
exclusão. “A pessoa que saiu de casa cedo não vai frequentar uma escola, e, consequentemente não vai saber
Dayse Silva, profissional do sexo transexual
uma conta matemática que precisará lá no mercado de trabalho. Algumas meninas conseguem subempregos, mas o público não quer ser atendido por transexuais”, completa a educadora.
Melissa Souza, educadora social voluntária do Grupo Dignidade, reitera que o processo de descoberta e de aceitação da identidade de gênero, além de complexo, torna-se ainda mais difícil por conta do preconceito. Ela explica que pessoa transexual muitas vezes sofre desde criança, dentro de casa. “Muitas pessoas trans são expulsas com 12, 13 anos de casa por conta do preconceito da família, então elas acabam crescendo sem estrutura familiar e são automaticamente acolhidas pelo mundo da noite e da prostituição”
Há, ainda, as agressões no ambiente escolar e, futuramente, no mercado de trabalho, gerando ainda mais
A profissional do sexo Dayse Santos, de 19 anos, relata que trabalhava em uma empresa de rede de fast food quando começou a se sentir infeliz com a aparência masculina, aos 17. Desde então, ela decidiu deixar o cabelo crescer, afinar as sobrancelhas e pintar as unhas. Em maio de 2018, Dayse foi demitida do local. “Eu fiquei sem saber o que fazer, não queria pedir abrigo para minha família. Então comecei a comprar roupas femininas, saltos e apliques, e de maio até dezembro fui para a prostituição. Sair com quem eu não conhecia foi minha maior dificuldade”, confessa a profissional, que atua até os dias de hoje.
Segundo dados do Grupo Liberdade, que constam no estudo das jornalistas Camilla e Dayane, cerca de 30 mil mulheres trabalham como profissionais do sexo em Curitiba e Região Metropolitana, muitas delas com profissões diferentes e que trabalham esporadicamente como prostitutas. “A prostituição está melhorando, há discussões sobre regulamentação e hoje vemos que elas têm muito mais liberdade. É uma liberdade relativa, por causa dos tabus”, relata Camilla.
“Eu fiquei sem saber o que fazer, não queria pedir abrigo para minha família. Então comecei a comprar roupas femininas, saltos e apliques, e de maio até dezembro fui para a prostituição. Sair com quem eu não conhecia foi minha maior dificuldade.”Emilia Jurach
Algumas profissionais do sexo sentem vergonha da profissão, mas há aquelas que sentem orgulho do emprego em que atuam. Segundo a jornalista Camilla de Oliveira, a conscientização é um ponto crucial a ser tratado, pois a vergonha que as mulheres sentem vem da pressão social, do medo de ser julgada pelas pessoas e pela família, principalmente. “Grupos como o Dignidade e Liberdade servem como uma extensão da família, prestando todo o apoio necessário para essas pessoas e a conscientização.”
Há 27 anos, o Grupo Dignidade vem atuando em apoio à comunidade LGBTI por meio de projetos, palestras, debates e ações nas ruas. Melissa Souza, educadora social voluntária do grupo, explica que, para profissionais do sexo, existe o acolhimento e toda a ajuda necessária para questões burocráticas como o INSS, por exemplo.
“A gente tenta conscientizar que a prostituição é uma opção e existem outras possibilidades, mas, se no caso, essa profissão é a mais viável, tentamos ajudar da melhor forma, buscando ajuda para cadastro de pessoa autônoma, conscientizando sobre o uso do preservativo, entre outros, pensando sempre nos direitos delas no futuro”. O Grupo também realiza trabalhos jurídicos, psicoterapêuticos e na área da saúde, de acordo com a educadora.
No Brasil, a população que mais sofre com HIV é a transexual. Estima-se que 5% do povo seja transexual e dessa porcentagem, 2% é infectado pela doença, segundo dados do Grupo Dignidade.
Os transexuais costumam usar a frase “Já estou morta” para dizer que estão infectados e, de acordo com Melissa, os números são estimados pois as pessoas não respeitam a identidade de gênero e nomes sociais, enterrando um transexual como homem ou mulher, e até indigente. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística não têm dados de transexuais no país, o que dificulta ainda mais a contabilização de informações precisas.
Grupos de apoio, como o Dignidade, oferecem ajuda na área de saúde, com a intenção de conscientizar as profissionais do sexo sobre doenças como HIV, sífilis e hepatite. “Nós fazemos projetos para deixar as pessoas cientes das doenças e de como evitá-las, ainda mais a situação de vulnerabilidade em que elas vivem”, acrescenta Melissa.
Cerca de 5% da população brasileira é transexual
“A prostituição está melhorando, há discussões sobre regulamentação e hoje vemos que elas têm muito mais liberdade.”
Camilla de Oliveira, jornalista e produtora do estudo “Fragmentadas”
a corda bamba entre a brincadeira
O choque, o trauma e o medo que as vítimas sentem ao olhar para seu assediador é um drama recorrente nas instituições
“Foi um longo período de assédio, que durou do segundo ao décimo segundo período. Eu procurei o professor, porque tinha interesse na especialidade em que ele trabalhava e comecei a acompanhá-lo em diversas atividades, junto com mais duas colegas.Claramente, desde o início, ele dava preferência a mim, falava mais comigo e me oferecia mais oportunidades. Eu o admirava muito… Mas logo ficou evidente que o interesse dele era diferente do meu.
Um dia ele falou: “Sabe, se uma garota achasse que está sendo assediada e decidisse falar para a direção, ninguém acreditaria, porque seria a palavra dela contra a de alguém com muito mais importância”. Eu sabia que era de mim que ele falava, mas fiz cara de desentendida.”
Esta é uma parte do relato de Aline*, uma médica que, para proteger a própria imagem, decidiu não se identificar.
Entre murmúrios inquietos e vozes abafadas, ouve-se falar em assédio nas universidades do país, sejam as vítimas homens ou mulheres. Todo mundo, ou quase todo mundo, já teve a oportunidade de conhecer alguma história que não teve um final feliz.
“Eu tinha uns 19 anos quando tudo começou e ele devia ter mais de 60. Era casado, tinha filhas quase da minha idade. Ele me oferecia caronas, ligava bastante e convidava para sair, para jantar… começou a encostar, chegava sempre muito perto de mim e também fazia massagem nos meus ombros enquanto eu escrevia o que ele mandava. Como eu o admirava muito profissionalmente, achava que só podia ser culpa minha, que eu devia ter de alguma forma me insinuado sem querer e, por isso, nunca consegui ser muito incisiva em me afastar. Me sentia muito culpada mesmo, mas eu queria tanto os estágios. Aos poucos, ele se sentia mais à vontade para tocar minha cintura. Um dia, dentro da sala de aula, passou a mão nas minhas costas por baixo da blusa. Eu fiquei paralisada. Acho que alguns
* Nome fictício
colegas perceberam o que ele tinha feito, mas, a essa altura, todos sabiam parte do que acontecia e imagino que até achassem que eu gostava disso”, lembra Aline.
No dicionário Michaelis, assédio se refere à “insistência impertinente, em relação a alguém, com declarações, propostas e pretensões”. Enquanto a expressão assédio moral significa “ a) exposição do trabalhador a situações humilhantes, geralmente repetitivas e prolongadas, durante a jornada de trabalho, por parte de seu superior hierárquico, que o ridiculariza e hostiliza, provocando constrangimento, insegurança”, o assédio sexual é a “insistência inoportuna com intenções sexuais; b) constrangimento em alguém com o intuito de obter favorecimento sexual, prevalecendo o agente de sua condição de superior hierárquico”.
Talvez agora você entenda os números a seguir.
A equipe de reportagem da CDM aplicou um questionário nas redes sociais e obteve resposta de 68 mulheres participantes. A pesquisa foi aberta para ambos os públicos, masculino e feminino. Desse número total, 49 delas (72,1%) afirmam ter sido assediadas durante a graduação. Dos 49 casos de assédio, em 21 deles o assediador foi o professor; 17 foram praticados por outros estudantes e, em 11 casos, o assédio veio tanto de docentes quanto de colegas.
Esta reportagem foca no assédio contra mulheres, que são o grande público atingido, mas é certo de que desse mal poucos escapam: ninguém escolhe ou quer ser vítima. Seja dentro da sala de aula, no câmpus ou nas festas, o assédio existe e se torna um drama recorrente nas universidades brasileiras - sem exceções. Um dia você fica sabendo de uma história aqui,
“Eu nunca entendi bem o que aconteceu. Ninguém falava em assédio há 15 anos.” - Aline, médica
outra ali, mas nunca vai imaginar que aconteça com alguém ao seu lado e, acredite, muitas vítimas de assédio nem imaginam que a mesma situação possa estar acontecendo com alguém tão próximo.
“Até hoje não sei o que não deixava me afastar completamente. Acho que era a sensação de culpa e a imensa admiração que eu tinha. Em nenhum momento pensei em denunciar, nem mesmo fui incentivada pela terapeuta a denunciar. Eu nunca entendi bem o que aconteceu, ninguém falava em assédio naquela época”, finaliza Aline.
Quem é que tem coragem de falar em assédio em universidade? O ambiente hierarquizado e com limitadas possibilidades de punição, acabam abafando escândalos e histórias de assédio entre professores e alunos, que, muitas vezes por medo de serem prejudicados durante a graduação, preferem se manter calados. Outras vítimas até denunciam, mas nem sempre as denúncias avançam.
A história que a jornalista recém-formada L.B. (a entrevistada pediu que fossem usadas apenas suas iniciais) conta tem relação com hierarquia e aconteceu em uma universidade privada paranaense. A estudante é naturalmente uma pessoa muito simpá-
tica e espontânea, estudiosa, sempre muito aberta às pessoas. Quando um de seus professores fazia brincadeiras, L.B. entrava na piada e brincava também, mas nunca se sentiu humilhada ou que havia passado do ponto. Era algo normal entre professores e alunos.
Ela conta que, como o professor dava liberdade para brincar, ela brincava, mas ela nunca deu liberdade para
educador algum passar dos limites estabelecidos entre professor/aluno. “Chegou a um ponto em que ele começou a me mandar mensagem de madrugada, tipo às 3 horas da manhã”, explica.
Certo dia, a estudante foi fazer uma prova sobre um livro, obra da qual gostou tanto que, ao fim da avalia-
“Se você não está confortável em uma situação é porque ela passou do ponto.” - L.B., ex-estudanteFonte: Pesquisa realizada via redes sociais com um total de 68 mulheres participantes.
ção, quando todos já haviam saído da sala, decidiu debater com o professor. Ele começou a agir diferente, elogiar muito e ela, claro, entendeu que ele estava falando dela fisicamente. “Foi aí que eu comecei a me sentir estranha e eu acho que, quando você começa a se sentir assim, você sabe que é assédio. Se você não está confortável em uma situação, é porque ela passou do ponto”, afirma L.B.
De acordo com a psicóloga Andressa Schmidt, assédio é assédio independentemente de quem o comete ou do vínculo que se tem. “O assédio no ambiente universitário não é só sexual, mas uma mão ali na hora de estar aconselhando; é um comentário sobre o tipo de roupa que se está usando, o tipo de postura”, explica a psicóloga.
As brincadeiras e “elogios” foram ficando cada vez mais íntimos e intensos. “Eu demorei muito pra acreditar, ele ultrapassou a liberdade que eu nunca dei a ele.” L.B começou a ter medo de ficar com o tal professor na aula e até chegou a se autossabotar - deixou de finalizar uma prova por medo de ser a última aluna a sair da sala, mesmo sabendo todo o conteúdo pedido.
L.B pediu para que um amigo fingisse ser o seu namorado porque, talvez
assim, o professor parasse com as atitudes tomadas até então. O rapaz foi prejudicado - e até foi para exame final -, quando o assediador soube da relação que ele tinha com L.B. Ela também foi prejudicada quando o professor se recusou a ajudar com um trabalho.
“A gente passou um período sem ter aula com ele, mas depois voltou. Ele não dava aula direito e nem ligava para a matéria. E, então, a minha sala decidiu reclamar para a coordenação. Foi quando uma menina começou a contar que havia sido assediada por ele e eu pensei ‘Uau!’, ela também passou por isso e estava bem ao meu lado.”
A atual coordenadora do curso, entretanto, afirmou que naquela época - em que ainda não era coordenadora - medidas foram tomadas contra o professor denunciado.
Das 49 mulheres que já passaram por situação de assédio durante a graduação, 45 delas (93,8%) afirmaram que a universidade não solucionou o problema e nem mesmo acolheu as vítimas, segundo o questionário aplicado pela equipe da revista CDM nas redes sociais.
A relação de superioridade e hierarquia dos professores afronta mulheres
a fazerem denúncia e isso se replica nos diversos moldes e ambientes da lógica patriarcal. O suporte de colegas e dos coletivos feministas universitários e escolares, além do apoio de docentes, entretanto, auxilia a superação desses desníveis hierárquicos, segundo a advogada criminalista, especialista em Direito Público, Juliana Bertholdi.
Existem uma série de mecanismos que podem ser acionados em caso de assédio no ambiente universitário – seja ele sexual ou moral. “A primeira instância que pode ser acionada é a administrativa, por meio das chamadas Sindicâncias e Processos administrativos disciplinares (PADs). Nesse caso, deve ser verificado qual o procedimento interno da universidade (Regulamentos e Estatutos) para promoção da representação do discente ou docente assediador. Nesse processo, as consequências para ao agressor condenado costumam navegar em um espectro que se inicia com a advertência e pode culminar na expulsão do agressor, seja este aluno ou professor”, explica Juliana.
No questionário realizado, quando perguntadas o motivo de não ter denunciado o assediador, algumas das respostas das vítimas foram:
“não tive coragem”; “não tinha apoio da coordenação”; “tive medo de prejudicar meus rendimentos acadêmicos”; “ninguém iria acreditar em mim”;“não sabia que era assédio”, entre outras palavras assustadoras, como “pensei que a culpa fosse minha.”
Depois da graduação, o drama continua
A próxima história traz os relatos de A. F. (iniciais). Tudo começou quando ela terminou a faculdade e postou uma foto falando sobre a gratidão de seu último dia de aula. Um dos professores da universidade lhe enviou uma mensagem desejando felicidades e grandes voos. Conversa vai e vem sobre o fim da graduação, o professor contou sobre uma loja de roupas da qual é dono, pediu opiniões e convidou a ex-aluna para tirar umas fotos para a marca. Ela foi, obviamente estava ali para fazer as fotos, como combinado, e nada mais.
O professor começou a puxar papos estranhos sobre como ela era bonita, o quanto ele a observava pelos corredores da universidade e como chamava a sua atenção. “Ele foi me elogiando de um jeito sutil, mas com uma liberdade que eu nunca o dei, e eu também não dava bola para o que ele dizia”, afirma.
Um dia, a jovem comprou camisetas da marca e passou para pegar o produto na
Sim
6,3%
93,8%
casa do professor, que a convidou para ver o quadro que estava pintando e ela, que adora arte, respondeu que iria em cinco minutos, pois tinha de ir trabalhar.
Os papos voltaram e, dessa vez, pessoalmente. A.F., logo em seguida, já secou as palavras, avisou que tinha namorado, que gosta do professor, mas como uma amizade. “A gente tem uma química legal, o que seu pai acharia se você namorasse um cara mais velho?”, ele perguntou. Ela, novamente, respondeu que não gostou daquela situação, que tinha namorado e que nada a mais ia acontecer entre eles. Era hora de sair dali.
Quando A.F. se virou para ir embora e, de repente, o professor lhe deu um beijo no pescoço. “O que você pensa que está fazendo? Não, isso não é brincadeira, é sério. Eu não te dei intimidade para fazer isso, não admito isso”, ela retrucou.
Ele se fez de desentendido, como a maioria dos assediadores faz, e Ana disse a ele que isso poderia ser considerado assédio sexual. O professor ficou agressivo, muito bravo e se fez de vítima após a a jovem ter dito que aquilo era assédio. Ela foi embora e os dois nunca mais se viram pessoalmente.
O professor acabou sendo demitido, mas não em decorrência deste relato, nunca notificado.
De acordo com o mestre em Direito e doutor em Educação Sadi Franzon, do apoio regulatório da Reitoria da PUCPR, “quando se tratam de questões como o assédio, não há dúvida nenhuma de que a universidade tem todo o interesse em apurar e, sendo o procedente, tomar todas as medidas cabíveis.”
Ele explica que se a situação envolver um docente ou um colaborador (pessoas que têm vínculo de trabalho com a universidade), existem todas as alternativas que a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) prevê para casos os citados na reportagem. “Vai desde uma advertência, uma suspensão, e pode ocorrer o desligamento do funcionário, seja ele sem justa causa
ou por justa causa. Essas são as alternativas de tratamento para questões como esta quando estiver, obviamente, comprovado que o fato existiu, com vítima e elementos que levem a essa conclusão”, afirma Franzon.
Quando ocorre uma situação dentro da universidade e ela não vem a conhecimento das autoridades, a apuração e solução dos fatos se torna muito complicada. Por isso, a necessidade de se fazer uma denúncia se torna essencial no processo. A PUCPR possui diversos canais para denúncia de atos ilícitos, começando pela primeira instância, que é a coordenação do curso, passando pelo decano da escola, diretor do campus, e os canais gerais que servem tanto para a comunidade externa, quanto interna, que são o site e o número 0800, um canal direto para a auditoria interna.
Sobre o trâmite do processo, Sadi explica que, “recebendo uma denúncia, ela vai receber um tratamento primeiro internamente e depois em conjunto com o gestor da área correspondente para se fazer uma investigação, porque ela pode ser procedente, como pode ser improcedente. Sendo procedente, é obrigação da universidade tomar as medidas cabíveis de acordo com a lei.”
A denúncia pode ser feita anonimamente e com total sigilo pelo telefone e site da universidade, desde que informe detalhes que identifiquem a situação e quem se envolve nela. Quando apurado e iniciado o trâmite de denúncia é possível acompanhar o andamento do processo.
Segundo a advogada Juliana, é possível ainda promover ações judiciais e boletim de ocorrência, mas o ideal, segundo ela, é sempre buscar suporte e orientação de um profissional da Defensoria Pública ou mesmo dos coletivos feministas .
Mas, como tratar o assédio universitário onde há afronta por superioridade e falta de punição? De acordo com Juliana, Debater e conscientizar, demonstrando que o corpo discente não irá fazer vistas grossas a comportamentos inadequados e por vezes até mesmo criminosos é fundamental. Além disso, não obrigue ou julgue alguém que não fez a denúncia por medo ou qualquer outro motivo. Apoie.
O doloroso dilema de quem descobre, já na faculdade, as angustias de ter optado pelo curso errado
Camila Dariva
Pode ser o curso mais concorrido do país, o que encaminha à profissão dos sonhos, aquele que os pais tanto almejam ou, claro, aquela opção marcada por desespero de última hora, quando aos 16, 17 anos “ainda” não se sabe qual caminho seguir. O pânico de, de repente, descobrir ter feito a escolha errada “para o resto da vida” é um problema recorrente, doloroso e, muitas vezes, silencioso, em meio às salas universitárias lotadas.
Temos livre arbítrio para nossos atos, mas seremos os únicos responsáveis por nossas escolhas. O peso de uma delas está estampado no olhar cansado
Para os estudantes Caio e Matheus, o diploma é uma questão de honra, pelo sofrimento que passaram até aqui.
que abre a porta. Três computadores funcionam sobre uma mesa cheia de cadernos, livros, cigarros e muitos, muitos cálculos. A promessa da Engenharia, hoje, parece distante e é notado, logo de cara, no segundo rosto exausto que se apresenta. Caio Marcos Lima dos Santos, 22 anos, e Matheus Abrahão Capraro, 20 anos, estão no 6º período de Engenharia Elétrica, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), mas, há muito, deixaram de ver no curso as expectativas que criaram ao optar por ele, ainda no ensino médio.
Matheus Abrahao Caprato, estudante
Apaixonado por Matemática, Capraro buscou cursos em que poderia aplicar, de maneira mais incisiva, sua paixão, já que, pela falta de aptidão na escrita, abrira mão de cursar Filosofia. As duas opções que surgiram foram Engenharia de Aeronáutica e Engenharia Elétrica. “Eu acabei não pensando no mercado de trabalho na hora de fazer a escolha e, embora eu esteja mais adaptado, hoje, se fosse escolher o que realmente gosto de fazer, faria Matemática, seria professor de Matemática, pois amo ler teses. Faço isso durante as férias e sinto que aprendo mais sozinho, que durante o semestre, tendo aulas.”
O descontentamento transparece nos dois estudantes, que narram sobre excesso de conteúdos desnecessários e falta de professores adequados para as matérias cobradas. “A engenharia matou nosso espírito de aprendizado. Eu seria muito mais feliz se tivesse feito matemática”, acrescenta Caprato. Segundo ele, sua permanência no curso apenas aconteceu pela necessidade de estagiar e pagar suas dívidas.
“ A engenharia matou nosso espírito de aprendizado. Eu seria muito mais feliz se tivesse feito Matemática.”Camila Dariva
As dificuldades que envolviam o curso de Elétrica e a ânsia por desafios foram um trampolim para que Santos entrasse de cabeça em cálculos e física quântica, embora, coincidentemente, sua primeira opção também tivesse sido Filosofia. O desgaste e o estresse que desencadearam a partir do 3º período da faculdade fizeram com que ele perdesse sete quilos e descobrisse ter Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). A metodologia de estudos mudou e ele passou a virar noites em cima dos livros, caso quisesse aprender.
“Todo semestre eu penso em desistir e, certamente, a única coisa que me mantém ali é a faculdade ser uma federal. Nesse caso, eu não preciso me preocupar com o tempo que levarei para me formar” aponta Santos.
O estudante aponta que o acumulo de matéria, aulas desnecessárias, trabalhos e provas é absurdo, desumano. Em um combo com o estágio, torna-se ainda pior: “Depois de tanto sofrimento, estudando, tomando remédios para virar noites e litros de energéticos para se manter em pé, eu quero meu diploma, não pela engenharia, mas por honra. Vou entrega-lo aos meus pais.”
Estar num curso que não corresponde ao que quer e insistir ficar nele traz muito sofrimento, pensamentos negativos, desvalia, desesperança, medo, frustração, enfatiza a psicóloga e psicopedagoga: “Várias são as emoções negativas que precisam ser acolhidas pra conseguir seguir em frente e reorganizar os projetos de vida e profissional.”
Optar pelo curso mais concorrido do país e passar, nem sempre traz o sentimento de realização, que tanto se espera. Embora, hoje, o Jornalismo seja sua paixão, a estudante Patrícia Lourenço, não sabia, aos 17 anos, qual carreira seguir. A influência dos professores e da própria instituição em que fazia cursinho a direcionaram naquele momento: Medicina. Os dois anos que seguiram a decisão foram um completo foco aos estudos. Junto ao resultado da aprovação, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), veio outra notícia: a gravidez. “Eu desisti de fazer Medicina quando caí em mim. Eu estava tão cansada de tanto estudar e aquele era apenas o início, caso eu seguisse em frente com o curso. Além do mais, eu priorizei o momento e a Amandinha, que estava a caminho.”
Angelica Neri, psicopedagogaMuitos jovens já chegam adoecidos emocionalmente, ao consultório da Psicóloga e Psicopedagoga Angélica Neri. Ela explica que, além dos quadros de depressão e crises de ansiedade, podem aparecer, nesse contexto, transtornos alimentares, compulsões e, até, risco de suicídio. “Tão difícil quanto escolher que profissão seguir é escolher a hora de parar. Alguns alunos levam a faculdade até o último ano e, só então, buscam ajuda pra avaliar essa decisão.”
Com a filha ainda pequena, Patrícia, apaixonada pelo comportamento e todo mundo que envolve a indústria, entrou para o curso de Design de Moda. Não tardou a descobrir que a falta de estrutura e foco naquilo que buscava no curso, a decepcionariam.
“Eu queria estudar comportamento de moda, a própria indústria, as questões negativas e positivas relacionadas a isso e era tudo muito fútil, muito look, paleta e combinação de cores, que embora sejam coisas que gosto, eu
“Tão difícil quanto escolher que profissão seguir é escolher a hora de parar.”
queria ir além.” Próximo a completar três anos de curso, ela decidiu que a faculdade não era mais interessante para seus objetivos de vida e parou.
A reação das pessoas, frente à desistência, nem sempre é de apoio ou compreensão imediata. “Quando eu desisti de medicina, claro, meus pais surtaram. Mas o momento, envolvia também minha gravidez e logo tudo se voltou à essa situação. Mas, quando desisti de Moda e comecei Jornalismo fui muito criticada. As pessoas agiam como – Nossa, Paty, você está ficando velha e ainda não sabe o que quer da vida –. No começo foi mais difícil para minha mãe aceitar, já que minha irmã também passou por esses momentos de indecisão e, para ela, o importante é termos uma formação, mas por sorte, minha família é muito compreensiva e muito parceira.”
Há pouco mais de dois anos, o Jornalismo, que sempre esteve em seu radar e presente em círculos de convivência, tomou forma de realização. “Todas as pessoas me falavam que eu tinha o perfil, que sou uma pessoa que sempre quer saber de tudo, que acha que conhece tudo e tem opinião de sobra. Eu adoro saber as histórias das pessoas e gosto de visualizar um caminho diferente. Foi então que me encontrei, principalmente no que tange às causas sociais, esse cunho de poder fazer diferença, de alguma forma.”
Encontrar-se em uma profissão, como Patrícia conseguiu com o Jornalismo, demanda encarar não apenas a autocobrança, mas um mundo predeterminado pelo imediatismo. Citando Émile
No momento da escolha, Patrícia não teve dúvidas: a filha seria sua prioridade.
“Além do mais, eu priorizei o momento e a Amandinha, que estava a caminho.”
Durkheim, o sociólogo Ricardo Denardes, enfatiza o fato de existir um determinismo da sociedade, nos indivíduos que nela vivem. Tal determinismo influencia em como pensamos, agimos e fazemos escolhas (políticas, religiosas, educacionais, etc).
A escolha da profissão, não escapa deste fato. A influência, neste caso, pode ocorrer com pontos positivos ou negativos e, para o sociólogo, infelizmente, os negativos são maioria. “Poucas vezes as pessoas têm liberdade para definir a profissão que vai seguir, por meio de suas afinidades e potencialidades. Em geral, escolhe-se aquilo que tem a ver com o imaginário de trazer dinheiro. Não se escolhe por paixão ou por desenvoltura, pois há pouco espaço para isso e muita pressão por profissões tidas como tradicionais: Medicina, Direito, Engenharias.”
21 anos, vive um dilema. Os questionamentos sobre estar fazendo o que realmente deseja para sua vida, surgiram na reta final do curso. Como a maioria dos jovens, ela não tinha uma carreira determinada para seguir, quando chegou o momento e os testes vocacionais foram seus aliados para chegar a uma decisão.
“O meu questionamento, que chegou somente agora, deriva de um cansaço, do estresse com o mercado de trabalho e resulta numa insegurança sobre estar escolhendo certo, se realmente é isso que quero fazer, se é isso que quero para minha vida.” A falta de incentivo nos estágios fez com que Ana passasse a duvidar de suas capacidades na área escolhida, mas, por considerar ser tarde demais parar abandonar tudo, optou por encarar um novo curso, depois que terminar este.
Com base no mundo plural em que vivemos hoje, Denardes aponta esquecimento e desvalorização das profissões que possuem tanto quanto, ou mais valor que as tradicionais. A educação básica também é responsável por esse ato falho, não potencializando os alunos em determinadas áreas que merecem desenvoltura. “Outro ponto importante é que muitas vezes os indivíduos questionam suas grades, pensando que nunca precisarão de determinadas matérias em sua área de atuação. Elas esquecem que muito mais que formar um profissional é necessário que se forme indivíduos.”
A seis meses de se formar em Relações Públicas, Ana Lúcia Hirahara,
“Hoje eu vejo que eu não preciso, necessariamente, seguir essa profissão que escolhi pelo resto da vida, mas eu preciso ter uma graduação, dizer que me formei em algo, que tenho conhecimento em determinada área. Só que isso não precisa determinar quem vou ser, para sempre.”
Para Denardes, a pressão da profissão, depositada no jovem, vem de todos os lados, mas principalmente da família e isso interfere tanto nas escolhas realizadas por eles, quanto nas expectativas criadas, sobre essas escolhas. A necessidade de imediatismo excluí quem não consegue encontrar sua carreira logo de inicio e causa frustrações que podem ser irreversíveis.
“Poucas vezes as pessoas têm liberdade para definir a profissão que vai seguir, por meio de suas afinidades e potencialidades. Em geral, escolhe-se aquilo que tem a ver com o imaginário de trazer dinheiro.“
Ricardo Denardes, sociólogo
a luta para impedir a construção de um porto privado em frente as Ilhas do Mel e Maciel, no Paraná
Talita LaurinoOs capangas do homem que usava terno e gravata chegaram botando ordem no litoral. Armados de pistola e revólveres, poderiam fazer qualquer um calar-se. Numa de suas ações pela ilha de Maciel, no Paraná, obrigaram um casal de velhinhos a parar de construir uma moradia para o filho recém-casado. O motivo? Aquele terreno agora pertencia a João Carlos Ribeiro.
Francisco Miranda das Neves, de 77 anos, ficou inconformado e bateu de frente com a ameaça. “Eu sou pescador, nativo, essa terra é minha, vou continuar construindo, sim!”, respondeu. O capanga, que Francisco se lembra chamar Paulo, não deixou barato e disse que ia colocá-lo debaixo da terra se não parasse com as obras imediatamente.
Numa tentativa desesperada de conseguir ajuda, o velhinho recorreu a um advogado de Paranaguá. O doutor prometeu recuperar todos os seus direitos, mas, depois de algum tempo que o processo começou, sumiu.
“Foi só em 2015 que meu pai ficou sabendo da sentença. Nós perdemos e eles tacaram fogo na casa do meu irmão e no espaço de pesca do meu pai. Quando finalmente conseguimos construir outro, o queimaram de novo”, conta Maria Neves de Souza, que depois assistiu à delegacia de Pontal não querer nem fazer B.O.contra o magnata.
Algum tempo depois, a nativa escutou que o mesmo João Carlos Ribeiro havia elaborado um projeto para construir um porto pela região. Quando pesquisou o local que a obra seria executada, descobriu que ela ocuparia toda a extensão habitada de Maciel, além de parte da Ilha do Mel. “A praia tem dono”, concluiu. Subindo a serra, alguns ativistas paranaenses preocupados com o ambiente ouviram a mesma história.
O grupo, mais conhecido por Observatório de Justiça e Conservação, completou três anos em 2019 e nasceu com o objetivo de levar para a opinião pública práticas duvidosas do governo em relação a natureza. O principal plano de ação deles é com a imprensa.
“Acreditamos que levando informação às pessoas conseguimos dar-lhes motivo para agir”, diz a jornalista e gerente de conteúdo do projeto, Claudia Guadagnin.
Com algumas campanhas já bem sucedidas, mergulharam num novo desafio, o projeto “Salve a Ilha do Mel”. Em uma das primeiras ações, o grupo participou de uma reunião do colit (Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral do Paraná). Por lá, o tom da conversa ficou tenso.
Um dos representantes do governo aprovou o licenciamento da faixa, em meio a protestos dos outros membros do conselho contra o processo. A discussão foi filmada por um dos integrantes do Observatório.
No vídeo, é possível ver que o governo estava determinado a autorizar a construção do Porto em Pontal. Mas, depois de alguns pedidos de vista, os
contra o início das obras. O vídeo reuniu até mesmo globais, como Leticia Sabatella, Katiuscia Canoro, Grace Gianoukas, Leandro Daniel, Bruce Gomlevsky e Ilva Niño.
“Eu frequento a ilha desde que tenho 15 dias de vida , cresci pelo mar e pela areia. Com o tempo, consegui perceber o impacto do porto de Paranaguá. Não podemos deixar que aconteça o mesmo em Pontal do Sul. não existe necessidade. O impacto seria irreversível, precisamos produzir natureza”, declara Raíssa.
Ela conta que viu a dragagem mudando a fonação das praias, o esgoto em Paranaguá aumentar com os resíduos que vêm dos navios e o crescimento populacional subir sem planejamento. “Deu para ver a chegada dos usuários de drogas também, a quantidade de soja transgênica em todos os cantos, os telhados de casas no mar, no meio fio, na rua...foi triste!”, argumenta.
Francisco Miranda das Neves, 77 anos
ativistas conseguiram segurar a caneta, e o apoio da sociedade começou a aparecer.
Um clipe dirigido pela compositora e cantora Raissa Fayet trouxe mais de 70 artistas locais para protestar
A corrida para que os empreendimentos – o porto privado em frente à Ilha do Mel e uma estrada para atendê-lo – fossem viabilizados acontecia nas vésperas das eleições de 2018 para o governo do estado. Estima-se que mais de quatro milhões de metros quadrados de Mata Atlântica em perfeito estado de conservação seriam derrubados para a construção da estrada.
“Eu sou pescador, nativo, essa terra é minha.”
O grande problema é que a região concentra o pouco que ainda resta deste bioma nativo do Brasil. Segundo a iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que o monitora desde 1985, no último ano foram destruídos aproximadamente 11.399 hectares (ha) de Mata Atlântica.
“Sem natureza, sem turismo”, comenta Romulo Pangracio, dono de uma pousada na Ilha do Mel. O empresário se diz completamente contra o empreendimento e afirma que a maior parte dos comerciantes locais também se posiciona assim. “Os que concordam é porque foram enganados. Dizem que vão dar infraestrutura para o povo com a
vinda do Porto, mas isso é mentira.” Sobre isso, Mila da comunidade Maciel entende bem. Ela sentiu na pele a falta de luz e de água na Ilha. “Os mais antigos conseguiam ter tudo, mas depois que João se autodeclarou dono de Maciel, a gente liga para a Copel e eles dizem que não podem instalar nada para gente. Somos esquecidos, temos que fazer gambiarras para ter acesso à luz.”
E neste cabo de guerra, estimase que pelo menos R$369 milhões serão perdidos. O governo do estado, como mostra um parecer técnico do Instituto ambiental do Paraná (IAP), tem interesse na urgência da execução dessas obras e ignora as fragilidades técnicas da proposta, colocando vidas como as de Francisco, Maria e Dona Dalzira em risco.
Atividade assegura o sustento de vendedores nos ônibus e cruzamentos de Curitiba
Lamartine Lima
Você já parou para contar quantas vezes ao dia viu alguém vendendo algum produto no transporte coletivo? Ou então, quem sabe, alguém oferecendo algum serviço ou mercadoria nos semáforos? Lembrou? Então, apesar de muitas vezes não percebermos, essas situações são muito mais corriqueiras do que imaginamos.
Esse é o caso de Marcos Consoli Pereira, de 26 anos, que vende água, refrigerante e doces no transporte coletivo da capital. Mais velho de quatro irmãos, o jovem é natural de Curitiba e desde pequeno sonhava em se tornar engenheiro civil, porém, após perder o pai em um acidente de trânsito, ele teve que deixar de lado o sonho de cursar uma faculdade para poder ajudar a sua mãe com as despesas de casa.
Logo após a perda Marcos se viu desnorteado, sem saber que rumo tomar e como recomeçar. “Eu não tinha ideia do que fazer daquele momento em diante. Perdi meu pai e não tínhamos dinheiro para sobreviver. A única maneira era desistir dos meus estudos e procurar um emprego para ajudar minha mãe e meus irmãos.” Porém o jovem conta que foi muito difícil, já praticamente ninguém queria contra-
tá-lo. Com a dificuldade enfrentada e as contas acumulando, o ele teve a ideia de começar a vender revender doces no transporte coletivo de Curitiba.
A rotina de Marcos começa cedo. Ele conta que acorda todo dia às 6h, se arruma, toma café e antes de sair para o trabalho ainda leva a irmã mais nova ao colégio. Logo após, ele passa em uma distribuidora de doces, onde compra os produtos que revende, e aproximadamente às 8h da manhã começa seu trabalho nos ônibus da capital, onde circula por diversas linhas até às 19h, quando volta para casa.
Marcos conta que durante o dia faz uma rápida pausa para comer apenas uma vez, a fim de economizar o máximo possível. O jovem ainda comenta que o maior problema encontrado não é o baixo número nas vendas, e sim o preconceito enfrentado. “Tem muita gente que olha com cara feia, de nojo ou fica com raiva, como se eu estivesse fazendo algo de errado ou fosse uma pessoa ruim. Também já fui xingado inúmeras vezes. As pessoas sequer imaginam o que eu passei e passo todos os dias.” Marcos conta que não teve muitas opções, e que foi obrigado a optar pela primeira para que pudesse ajudar sua família.
Lamartine LimaA Muitas vezes esquecidos ou ignorados pelos passageiros, os vendedores ambulantes carregam consigo muito mais do que suas mercadorias. Muitas vezes levam com eles histórias sofridas, porém, em outras, é um caso de superação que marca a vida de alguns, como é o caso de Daniel Dos Santos, vendedor ambulante na linha Santa Cândida/Capão Raso.
Daniel entregou sua juventude às drogas, quando perdeu mais de 15 anos para o vício em crack e viu em uma instituição que recupera dependentes químicos a oportunidade de mudar de vida. “Eu já cometi muitos erros na vida. Entrar para o mundo das drogas foi o pior deles. Vi muita coisa
Segundo normas da Urbanização de Curitiba (URBS), o comércio ambulante é permitido em pontos e terminais desde que haja o cumprimento de algumas normas de regulamentação como: a mercadoria ser legalizada, para vender alimentos deve-se ter curso de manipulação de alimentos e deve cumprir um determinado horário pela prefeitura, como determina a lei 6407/1983 e decretos que permitem o exercício da atividade.
Porém, no caso dos vendedores no transporte público, essas normas quase sempre não são cumpridas, além de que as vendas no interior dos coletivos são proibidas, além de serem prejudiciais aos profissionais que tra-
ir embora, mas isso aqui (trabalho ambulante) me ajuda, hoje, a ter uma vida digna.”
Atualmente, Daniel também se desdobra aos fins de semana com o trabalho. O vendedor conta que passa mais de 12 horas por dia no ônibus para garantir o sustento da filha recém nascida. “Ela é o motivo do meu sorriso e da minha vontade de viver. Depois que ela nasceu eu tive que ‘correr atrás’ pra garantir o sustento dela e da minha esposa.” Daniel ainda afirma que suas jornadas de trabalho, muitas vezes, ultrapassam o lucro de R$ 400. “Consigo ter uma vida boa, não vou dizer que é fácil, mas me dá um bom lucro. Trabalho por mim mas também pela minha filha, e é nesse sapatinho aqui (calçado da filha que o vendedor carrega em sua mochila) que eu encontro motivação para ficar tantas horas na correria”, conta emocionado.
balham nas linhas, pois segundo o Decreto 1.356/2008, os funcionários de transporte coletivo devem “impedir a atividade de vendedores ambulantes, pedintes ou pessoas fazendo panfletagem no interior dos veículos, estações tubo e terminais”. Em caso de descumprimento, cobradores e motoristas podem ser multados pela URBS.
A URBS afirma que apesar de ilegal, não efetua a apreensão da mercadoria dos ambulantes e solicita para que os passageiros efetuem denúncia em caso de vendas no transporte público, ligando para o número 156.
No final de 2017, Gabriel Marcelino resolveu trocar a cidade de Várzea da Palma, no interior de Minas Gerais, onde nasceu, por Curitiba. Mas esse não foi a primeira vez que ele esteve
“
Tem
com cara feia. As pessoas sequer imaginam o que passo todos os dias.”
Marcos Consoli, vendedor ambulente
na capital paranaense. Em 2014 veio cursar a graduação em Tecnólogo de Logística, mas infelizmente acabou não se formando. Ele conta que o curso não era o que imaginava, então desistiu e retornou a sua cidade natal.
No retorno à capital paranaense, Gabriel alugou um quarto e começou a produzir e vender iogurte de forma artesanal, ofício que aprendeu com o tio ainda em Minas Gerais. Como não tinha autorização para produção, foi orientado a buscar outra atividade.
“Parei com a produção de iogurte e comecei a procurar outros trabalhos, mas não foi nada fácil, acabei ficando sem dinheiro para me manter.”
Gabriel conta que após isso procurou ajuda em um centro municipal que auxilia pessoa em situação de extrema pobreza. Lá pude concluir
“Quero vender produtos de alta qualidade e com sabores mais funcionais. Em Curitiba temos muitas feiras e quero vender meus produtos nesses locais. Nos mercados os iogurtes são cheios de conservantes, vou oferecer um produto diferente, todo natural”, conclui.
O casal Vinícius Guilherme da Cunha, 24 anos, e Giuliana Carolina Vieira da Cunha, 26 anos, resolveram se arriscar e acabaram inovando na forma de vender pão. Os dois vendem no sinal vestidos como padeiros, e saem oferecendo o produto aos motoristas que param no sinal. A estratégia adotada deu tão certo que toda a produção diária de pães é vendida em menos de quatro horas.
um curso oferecido. Aprendi conceitos de administração, logística e recursos humanos.
Gabriel ainda aplica o conhecimento nas vendas informais de doces na esquina das ruas Mariano Torres com Nilo Cairo, no Centro da Curitiba. Como ação de marketing, ele usa frases motivacionais nas embalagens das balas. A abordagem sempre simpática e positiva ajuda nas vendas. “Com a ajuda consigo economizar com as refeições e agora passo as noites em um hotel social, com isso consigo poupar o dinheiro que ganho com a venda das balas”, conta.
Todo o dinheiro que Gabriel ganha está sendo guardado para a abertura da tão sonhada fábrica de iogurtes, que já tem um nicho de mercado definido e planejamento de vendas.
O negócio começou há dois anos. O casal aliou o conhecimento de Giuliana em cozinhar com a técnica de Vinícius para as vendas. Enquanto esposa faz antigas receitas de pão caseiro e pão integral da família, o marido cuida das vendas usando seus conhecimentos na área, adquiridos ainda na infância. “Venho de uma família de vendedores de plano funerário. Todos em casa aprenderam a tratar o cliente de uma forma especial, ainda mais para vender a última coisa que a pessoa pensa em comprar”, conta Vinícius.
A decisão de fabricar pães surgiu pela necessidade de melhorar a renda da família. “Minha esposa veio com a ideia de fazer pão, admito que no início não acreditei que pudesse dar tão certo”, revela. Eles começaram a fazer os pães na cozinha de casa, mas em pouco tempo não davam mais
“Com a ajuda consigo economizar com as refeições e agora passo as noites em um hotel social, com isso consigo poupar o dinheiro que ganho com a venda das balas.”
Gabriel Marcelino, vendedor ambulante
conta de todos os pedidos. Com isso, o casal resolveu expandir os negócios, em pouco tempo montaram uma nova cozinha no terreno em frente à casa deles, que fica em Araucária, região metropolitana de Curitiba. “Instalamos dois fornos a gás e colocamos todo o restante de maquinário necessário para a produção dos pães em uma maior escala”, conta Vinícius. São produzidos 180 pães por dia, entre o caseiro tradicional e o 100% integral. O casal começa às 5h e só termina por volta das 13h30, quando o veículo utilizado para a venda começa ser carregada para levar toda a produção até os pontos. As vendas têm início às 14h e ocorrem até às 19h.
Os pães são vendidos de segunda à sexta, a partir das 14h30, no sinaleiro da Rua Eduardo Sprada com a Avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, no bairro Campo Comprido, e a partir das 15h no bairro Santa Quitéria, na Avenida Presidente Arthur da Silva Bernardes, em frente ao 9º Distrito Policial. A unidade custa R$ 6, mas na promoção dá para levar dois pães por R$ 10. “Isso motiva o cliente a levar mais um. Faz parte da estratégia de venda”, conclui Vinícius.
Segundo dados de 2018 corroborados pela Secretaria Municipal de Urbanismo, Curitiba tem 1.214 vendedores
de comércio ambulante ativos junto à Secretaria Municipal de Urbanismo, número levemente inferior ao ano de 2017, quando haviam cerca de 1,3 mil cadastros ativos. Há ainda estimativa de que seriam cerca de 3 mil os ambulantes irregulares na Capital.
Informações do IBGE, reforçam esse aumento, Já que no Brasil o número de pessoas que ganham o sustento como ambulantes saltou de 253 mil em 2016 para 501,3 mil no final de 2017. Em 2015, quando a atividade começava a dar sinais de que seria uma das principais alternativas à crise, esse patamar rondava os 100 mil.
Segundo o economista Adriano Severo a presença dos vendedores ambulantes na capital paranaense é um problema social que impacta diretamente na economia. “Causa impacto nas vendas das lojas físicas, pois a maioria dos ambulantes não tem custo de estrutura ou com funcionário, somente o custo de deslocamento e mercadoria, enquanto o comércio regularizado tem toda uma despesa envolvendo aluguel, alvarás, empregados e mercadorias.”
Severo complementa dizendo que o impacto causado no comércio regularizado é ainda maior quando se comercializa o mesmo tipo de produto que os ambulantes, o que força ao comércio formal se reinventar e tentar ser mais atrativo para recuperar o público.
Todoo dinheiro que Gabriel ganha está sendo guardado para a abertura da tão sonhada fábrica de iogurtes.
Vizinho mais antigo da PUCPR, o Havanna Bar sustenta com seu nome a hegemonia de ser um dos mais populares bares universitários de Curitiba. Desde 2005, os estudantes da Pontifícia desfrutam do espaço do estabelecimento em seus momentos de lazer entre uma prova ou outra.
O Havanna apresenta um ambiente acolhedor e um atendimento com muita simpatia. O cardápio variado
de porções e lanches, podem salvar o universitário daquela fome inesperada durante o dia. Apesar do bom preço e bom atendimento, o bar atualmente passa por um declínio de público por ainda manter as suas origens mais antigas no conceito universitario.
Atualmente, o Havanna ainda é uma referência no conceito bar universitário e recebe diariamente um bom número de frequentadores.
Estudou muito durante a semana e precisa relaxar? Tirou uma nota boa e quer comemorar, ou simplesmente afogar as mágoas depois de uma baixa? Saiba que o Pedrão Lounge and Bar é uma excelente opção para o público universitário que busca diversão, integração e um espaço para dançar como se não houvesse amanhã.
Localizado na Rua Salvador de Maio, às margens da Linha Verde, o Bar do Pedrão é um verdadeiro sucesso entre o público universitário desde 2016. Conhecido pelas festas e embalos de sexta-feira à noite dos estudantes, o
bar oferece ao cliente um espaço com dois andares, pista de dança, mesas, área para fumar narguilé, espaço a céu aberto, dois banheiros e mesa de sinuca e três telões. Nos últimos tempos, o bar tem sido movimentado com transmissões de partidas de futebol, eventos de lutas e até séries como Game of Thrones.
Alvo do público universitário, o “litrão” de cerveja custa de R$ 7 até 9, além de contar com várias opções de drinks e porções. Atualmente, casa conta com capacidade para aproximadamente 400 pessoas.
THE GAME OF PEDRONES (PEDRÃO LOUNGE AND BAR)
Localizado na Rua Imaculada Conceição, em frente a PUCPR, o Santa Anna Bar e a última grande novidade de bares universitários em curitiba. Com um excelente espaço interno e confortável, o Santanna vem conquistando a preferência dos estudantes da Pontifícia.
Com o lema de “ser um bar para todos”, o Santanna bar passou por uma recente ampliação, o que garante ao
seu cliente um ambiente arejado com grande opções de mesas, espaço para fumantes, música e muita diversão. Apesar de ainda apresentar problemas com as estruturas dos banheiros, o bar se destaca pela variedade de marcas de cervejas e com um preço acessível em seus produtos.
O Santa Anna também traz aos estudantes a oportunidade de acompanhar transmissões esportivas no local.
SE VOCÊ GOSTA DE UMA BOA PORÇÃO E CERVEJA BARATA, O BAR DO DIDI É A OPÇÃO, OU MELHOR, AS OPÇÕES (BAR DO DIDI)
Fundado em 2015, o Bar do Didi teve sua primeira sede na Avenida Sete de Setembro e conquistou a freguesia dos estudantes dos campus universitários da região central de Curitiba. Em 2017, o bar começou a ser expandido com novas franquias pela capital paranaense, que atualmente, conta com cinco unidades.
O bar da Sete se tornou a Hamburgueria do Didi, um bom programa para quem está com fome e busca um cardápio variado. À Rua Alferes poli (Duas quadras abaixo da Hamburgue-
ria) está localizado o Boteco do Didi, que traz ao público uma experiência mais despojada em seu ambiente. A franquia ainda conta com mais dois bares, sendo um localizado à Avenida Getúlio Vargas e outro na rua Imaculada Conceição, em frente a PUC.
Todos os bares acabam tendo em comum, o cardápio de porções e bebidas. Com preços razoáveis e boa qualidade de atendimento e preparo dos alimentos, o Bar do Didi e uma das melhores opções de bares universitários em Curitiba.
Quando a maternidade deixa de ser uma dádiva e passa a ser o motivo do desemprego, o patriarcado grita e mostra que sua raiz permanece nutrida e forte
Nome fotógrafo
Agravidez bem planejada, quando ela e o marido estavam estabilizados financeiramente, com empregos fixos e estáveis, continha em seu cronograma todo o pós parto. Com a licença-maternidade, ela ficaria por quatro meses em casa e, após esse período, o marido, que é concursado, tiraria a licença-prêmio, ficando os próximos três meses com o filho. Os planos eram feitos com tanto receio, que no meio do seu puerpério, Danielli conversou com seu empregador, perguntando sobre a estabilidade do emprego, já que a empresa onde trabalhava tinha em seu histórico outras quatro demissões após licença-maternidade. Com a garantia feita por ele, ela pôde relaxar e manter os planos.
“No mesmo dia do retorno, minhas chefes me chamaram. Fui informada que elas não estavam mais interessadas no meu trabalho e eu estava sendo desligada da empresa onde eu trabalhei por sete anos. Falaram isso. Isso e só. Muito obrigada e tchau, você não faz mais parte da nossa equipe.” A tristeza veio acompanhada de revolta, já que todo tempo e trabalho dedicados a eles foram absolvidos pela cultura de uma sociedade machista, que não acredita na potencialidade das mulheres, principalmente depois que se tornam mães. “O meu exemplo é apenas mais um. Mais um para mostrar que todo o trabalho e campanha a respeito de mudanças e igualdade de gêneros não têm funcionado. Nada mudou”, ela acrescenta.
Infelizmente, Danielli faz parte de um crescente dado apontado pela pesquisa “Mulheres perdem o trabalho após terem filhos”, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de 2017. Segundo o estudo, há imediata queda no emprego das mães ao fim da licença-maternidade e, depois de 24 meses, 50% delas saem do mercado – na maior parte das vezes, por iniciativa do empregador.
Toda mãe que passa por esse processo de retorno ao trabalho conhece as dificuldades e os medos que envolvem este período. O cansaço extremo e os desafios constantes abalam a auto confiança e, a esta altura, o “padecer no paraíso” já é a realidade de muitas. Mas, com a segurança da equipe formada pelo marido, pela mãe e pela sogra, a postos para amparar o filho, Danielli se sentia segura em voltar. E voltou. Por um dia.
A advogada trabalhista Joana Aparecida Sloboda explica que toda mulher está amparada por leis trabalhistas, que visam e dão garantia à permanência em seus empregos, durante e após a licença-maternidade. Entre as abrangências da lei, estão os 120 dias de licença maternidade, a estabilidade empregatícia, desde a descoberta da gravidez, até 5 meses após o parto, dispensa para consultas médicas e mudança de cargo, sem alteração no salário, caso o antigo ofereça riscos à mãe ou ao nascituro. Em caso de descumprimento, a empregada deve ser indenizada, cabendo até ação trabalhistas caso a dispensa ocorra sem justa causa.
Mas indenização alguma paga determinadas situações. A revolta e a decepção ainda são notadas na voz e nos movimentos agitados, quando a técnica em radiologia Adrieli Lucatelli, 32 anos, fala sobre o assunto. O desemprego não foi apenas um choque, ele trouxe intermináveis transtornos para sua vida.
“No mesmo dia do retorno, minhas chefes me chamaram. Fui informada que elas não estavam mais interessadas no meu trabalho e eu estava sendo desligada da empresa onde eu trabalhei por sete anos. Falaram isso. Isso e só. Muito obrigada e tchau, você não faz mais parte da nossa equipe.
O choque do desemprego veio três meses após a chegada da Alicia e já completa quase dois anos.
Mãe da Alícia Maria, hoje com um ano e 8 meses, Adrieli trabalhava há oito anos em dois hospitais, quando planejou a gravidez. Pela insalubridade da sua atividade, onde era exposta diariamente à radiação, foi necessário trocar de cargo durante a gestação e, para facilitar, ajudou a encontrar uma pessoa para substituí-la neste período. Antes de entrar na licença maternidade, mesmo estando na fase mais exaustiva da gravidez, chegou a trabalhar por 12 horas seguidas, tudo para deixar seus setores organizados nos hospitais e viver a fase que viria a seguir, tranquila.
Por garantia, também procurou a direção de um dos hospitais. Estava inquieta e precisava perguntar sobre sua estabilidade empregatícia, afinal, as contas logo iriam aumentar e ela não queria ser surpreendida. Para seu alívio, deram-lhe garantias. A vaga continuaria sendo sua.
A primeira dispensa ocorreu 30 dias após seu retorno, exatamente quando terminou o período de estabilidade, amparado pela lei. A alegação usada foi de que ela custava muito caro para o hospital. A segunda veio três meses após o retorno. Os seus piores três meses de trabalho, ali. Adrieli conta que era pressionada a pedir demissão, enquanto a trocavam de área e a colocavam em outras, totalmente alheias à sua formação e contratação. Dado esse tempo, como ela não havia cedido, foi informada que o setor de radiologia do hospital seria fechado e, por isso, não precisavam mais do seus serviços. O setor nunca fechou.
“A maior ironia disso tudo é que os dois hospitais são administrados por mulheres. O machismo não está no homem, está na sociedade”, desabafa.
Como os horários que cumpria nos empregos iam das 16h às 20h, antes que sua licença terminasse contratou uma pessoa para ficar com a filha e montou um esquemas de revezamento com o marido, já que também atendia o plantão radiológico dos hospitais.
“Eu acabei tendo que dispensar a mulher que havia contratado para cuidar da Alícia. Por sorte, ela entendeu. Eu não tinha mais renda para manter ela trabalhando para mim. Querendo ou
não, eu e mais uma mulher ficamos desempregadas.” Lamenta. Não ter mais uma renda própria é uma das consequências mais sentidas por Adrieli. Ela conta que começou a trabalhar muito cedo, ainda na adolescência e nunca mais havia parado. Ela explica que já chegou a trabalhar em quatro empregos diferentes, ao mesmo tempo, em algumas épocas: “Eu sempre pude comprar minhas coisas e, agora, além de ter minha filha para sustentar, dependo de pedir dinheiro para meu marido. O pior é que não só para as coisas dela, mas, também, para as minhas. Eu me sinto humilhada.”
A realidade de, de repente, ter uma renda a menos e uma boca a mais para sustentar é um fator que dificulta, ainda mais, o retorno das mães ao mercado de trabalho. Com vagas limitadas em creches, o alto custo das escolas particulares e da contratação de babás, conseguir um emprego, novamente, vira um ciclo eterno de dificuldades. Adrielli, para não ficar parada, começou a vender roupas e acessórios, de forma autônoma. Está longe de sua formação, mas em uma cidade pequena, essa foi a opção. “Eu nunca fiquei parada, no final do ano irei me candidatar para ser conselheira tutelar. A gente faz as coisas irem acontecendo.”
“A maior ironia disso tudo
é que os dois hospitais são administrados por mulheres. O machismo não está no homem, está na sociedade.“
Adrieli Lucatelli, técnica radiologista
Oacidente aéreo que vitimou o cantor Gabriel Diniz no fim de maio de 2019 trouxe à tona um assunto aos noticiários: a segurança na aviação brasileira privada e executiva. Enquanto a aviação comercial do Brasil não tem um acidente com vítimas desde julho de 2007 (Voo TAM 3054), a aviação privada e executiva teve de 2008 a 2017, 1.187 acidentes e 513 incidentes investigados pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), uma média de 118,7 acidentes por ano.
Até a data de fechamento desta reportagem (12 de junho de 2019), o que se sabe sobre a queda é que o cantor estava em um voo pirata e que a aeronave pertencente ao Aeroclube de Alagoas só tinha permissão para voos de instrução e não de táxi-aéreo. Por um vídeo postado no dia anterior no Instagram de Gabriel Diniz, também é possível notar que alguns dos instrumentos da aeronave não estavam operando corretamente.
A falta de fiscalização adequada para a aviação executiva e privada é um fator que contribui muito para o grande número de acidentes em aviões de pequeno porte. Como as empresas de táxi-aéreo precisam pagar taxas de operação e investir no treinamento adequado de seus pilotos, o valor da viagem para o passageiro fica alto e isso abre espaço para o surgimento de empresas piratas
oferecendo o “taca”, nome pelo qual é chamado o transporte aéreo irregular, com um custo muito menor para o contratante.
“Tudo na aviação é muito caro, não tem quem faça milagre. A pessoa que contrata esse serviço vai gostar, porque está pagando mais barato que o outro, só que ele não vê os perigos”, diz o piloto Renan Procópio.
“Os aviões de pequeno porte não são inseguros, mas eles têm o seu limite, assim como o ser humano que está o operando. Se você não instrui o piloto corretamente para o voo naquela aeronave, ou em simuladores que criarão situações adversas, o risco de acidente aumenta. Não é apenas um fator que derruba um avião, são vários elos de uma corrente. Aí junto com a má instrução do profissional, tem a má manutenção adequada da aeronave, a falta de CRM (sigla em inglês para Gerenciamento de Recursos de Tripulação), que no fim, causam a tragédia”, completa.
Yuri Bascopé
“Se você não instrui o piloto corretamente para o voo naquela aeronave, ou em simuladores que criarão situações adversas, o risco de acidente aumenta.”
Renan Procópio, piloto de avião
Yuri Bascopé
O alto número de acidentes que tomam os jornais praticamente todo o
denúncias. Além dessas atividades de fiscalização in loco, a ANAC investe fortemente em ações de inteligência, como a intensificação da campanha “Voe seguro, não use táxi-aéreo clandestino”, realizada em conjunto entre a ANAC e o Ministério da Infraestrutura.
mês no Brasil não desmotiva o estudante Thiago dos Santos a continuar voando executivamente. Ele voa desde criança e prefere os aviões privados, porque eles não têm as mesmas burocracias de embarque dos voos comerciais. Segundo ele, o avião também é mais reservado e mais confortável.
“Eu sei que a minha vida está nas mãos dos pilotos e na segurança da aeronave, mas não me preocupo quanto a isso, pois confio no serviço oferecido. Tenho um histórico de pilotos na família, então eu sei mais ou menos como funcionam as coisas. Com essa experiência, fica fácil de identificar quando tem algo estranho”, disse ele.
Via assessoria de imprensa, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) disse que a fiscalização das aeronaves e pilotos da aviação civil brasileira é feita de forma programada, não programada e sempre que há
O objetivo da campanha é conscientizar os usuários sobre os riscos de contratar um serviço irregular de táxi-aéreo. Nas ações de fiscalização, somente em 2019 a ANAC interditou 49 aeronaves e suspendeu sete pilotos após apuração da prática de táxi-aéreo irregular. Em 2018, foram 23 aeronaves interditadas e 19 pilotos suspensos.
Além das ações de fiscalização, a ANAC considera importante que o contratante e o operador também tenham ciência da responsabilidade de contratar e operar um serviço autorizado pela ANAC, por isso, o órgão realiza campanhas educacionais que os incentivam a consultarem a regularidade da empresa e aeronave contratadas. A agência lançou, em abril deste ano, o aplicativo VOE SEGURO-táxi aéreo, que permite aos usuários consulta on-line da empresa e aeronave e possibilita a contratação de um transporte legal e regular, autorizado e fiscalizado pela mesma.
Manutenção inadequada e a falta de treinamento correto dos pilotos contribuem para o alto número de acidentes na aviação privada e executiva.“Eu sei que a minha vida está nas mãos dos pilotos e na segurança da aeronave, mas não me preocupo quanto a isso pois confio no serviço oferecido.”
Thiago dos Santos, passageiro
Transtornos emocionais como depressão e ansiedade causam afastamento da vida acadêmica e social
Thiago Rasera
Se você é universitário ou conhece alguém que seja, provavelmente já sentiu, presenciou ou ficou sabendo sobre um caso de depressão e ansiedade no ambiente acadêmico. Quem acha que esses problemas são as mesmas coisas, deve estar ciente de que a depressão é uma doença descrita pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V) em que a pessoa pode apresentar os seguintes sintomas: humor deprimido na maior parte do dia ou irritável, anedonia (perda de capacidade de sentir prazer), perda ou ganho de peso sem a pessoa estar fazendo dieta, insônia ou hipersonia, agitação ou perda psicomotor, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade ou culpa exagerada, diminuição na capacidade de concentração ou indecisão, pensamentos de morte.
do da faixa etária. Como exemplo, podemos citar que crianças e adultos - jovens muitas vezes são incapazes de identificar os sintomas ansiosos ou depressivos e por essa razão acabam sofrendo com dores sem que haja uma causa orgânica que justifique essa sensação.”
Abagge ainda ressalta que o estudantes universitários representam uma boa parcela das pessoas que buscam auxílio médico para tratar distúrbios psicológicos. “Durante a graduação, as exigências do próprio curso e expectativas em relação à profissão escolhida podem gerar muitos sintomas ansiosos e algumas vezes depressivos. Claro que o desenvolvimento desses problemas terão relação direta com traços de personalidade pré-mórbidos, com hábitos de vida do paciente (uso de drogas, realização ou não de
Damaris Pedro, estudante de Jornalismo
Já a ansiedade é uma reação do organismo frente a uma situação de estresse ou tensão. Apesar de ser uma condição natural do corpo humano e ser benéfica em pequena escala, a ansiedade se torna prejudicial para a saúde mental assim que se instala no quadro generalizado, tendo sintomas como: preocupação excessiva ou expectativa apreensiva, acompanhada de inquietação, taquicardia, fadiga, irritabilidade, tensão muscular, perturbações do sono e dificuldades de concentração.
Segundo o psiquiatra Luis Felippe de Camargo Abagge, tanto a ansiedade como a depressão não têm um momento específico ou mais propício para se manifestar no corpo humano e pode ocorrer em qualquer fase da vida. “Não existe idade para ter esses problemas, o que pode acontecer é que as causas e os sintomas desses transtornos podem variar dependen-
atividades físicas, respeito a rotinas) e com fatores de proteção, como ciclo de amizades ou apoio familiar.”
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que o Brasil é um dos países com maior índice de pessoas com depressão, tendo mais de 5,5% da população sofrendo com a doença, enquanto que 9,3% dos brasileiros sofrem de transtornos de ansiedade. O relatório divulgado pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 2016, analisou mais de 900 mil estudantes de universidades federais do Brasil e apontam que a maioria dos graduandos que sofrem com esses transtornos são mulheres, em maior parte na faixa etária de 17 anos ou menos, representando quase 23% dos entrevistados, enquanto que entre os homens a maior procura por tratamento acontece após os 25 anos, sendo quase 20% dos universitários.
“Quando não conseguia cumprir um compromisso ou entregar um trabalho, ficava me culpando, como se fosse um remédio pra curar minha dor.”
ansiedade e depressão. “O maior pico de ansiedade que eu tive veio com a faculdade, que se tornou um grande compromisso a mais na minha agenda diária. Minha depressão se acentuou quando percebi que sempre estava atrás dos meus colegas, não tinha o mesmo desempenho que eles. Cada vez que não consigo cumprir um compromisso, entregar um trabalho, fico me culpando depois, como se fosse um remédio pra curar minha dor de ser assim.”
A jovem relata que apesar de sofrer com esses transtornos, obteve uma melhora significativa após o início do tratamento. “Eu procurei ajuda médica para tratar a ansiedade e a depressão, mas o que foi fundamental para mim foi toda a preocupação que dois professores tiveram comigo. Eles me orientaram a buscar a mentoria com a psicóloga da Escola de Comunicação e Artes da universidade, que foi
soa. Exercício físico, aeróbico, alimentação saudável, relações sociais, estar mais no agora do que no futuro, contemplar coisas simples, como uma flor bonita, respirar mais profundamente sempre (ansiosos respiram pouco), podem ajudar no tratamento e aliviar as tensões causadas por esses distúrbios.”
Juliana Santos é estudante de Educação Física, e atualmente, está no último período do curso. Jovem e ativa, ela conta que com o desenvolvimento da doença foi deixando de lado atividades que faziam do seu cotidiano dias mais produtivos e animados. “Desde que comecei a ter crises perdi totalmente a vontade de sair de casa, justamente pelo fato de ter medo de ter crise na frente de outras pessoas. Na época reprovei em várias disciplinas, seja por faltas ou por não ter ânimo nenhum pra estudar e fazer os trabalhos, já que chegava da faculda-
excelente para mim, uma profissional muito bem preparada que uma vez por semana me ajudava a controlar meus problemas naquela altura da graduação.”
A psicóloga Renata Morelli afirma que o ambiente acadêmico contribui para o desenvolvimento de transtornos psicológicos pelo fato de ser um lugar com exigências específicas, tanto de desempenho, quanto da demanda social. Segundo Morelli, se a pessoa lida bem com as exigências e consigo mesmo, geralmente, não tem muitos problemas. Porém, se a pessoa tem dificuldades no enfrentamento de problemas, autoestima baixa e auto exigência, aparecem os problemas. “O tratamento nesses casos devem ser feitos por profissionais especializados (tratamento médico e psicológico), se for apenas um desconforto de uma ansiedade constante, existem outras atividades que podem auxiliar a pes-
de e dormia até o dia seguinte.”
Após um longo período sofrendo com ansiedade e depressão, Juliana procurou ajuda profissional no início de 2018, antes disso, a estudante considerava algo ineficiente procurar ajuda médica, e somente após o conselho de sua melhor amiga procurou o psicólogo da universidade. “O psicólogo me indicou a medicação, porém continuei relutando contra o tratamento, porém, após algumas crises que tive meus pais decidiram pagar um psiquiatra para mim, contra a minha vontade, mas foi o melhor para mim, e hoje vejo como me ajudou, desde as consultas com o profissional da universidade até o apoio dos meus professores que se disponibilizaram a me ajudar sempre que eu precisasse.”
“
Desde que comecei a ter crises de ansiedade, perdi totalmente a vontade de sair de casa.”
Juliana Santos, estudante de Educação Física
“Eu deixei de sair, deixei de viajar, deixei de ir a festas, até para a aula eu não ia.”
Rafaela Fernandes, 22, estudante de Biologia, antes de aprender a lidar com ansiedade.
“Parece que perco o controle. O peito dói, falta ar, só consigo pensar em coisas ruins.”
Suelen Coriolano, 21, estudante de Direito, procurou ajuda após o contato da reportagem.
“Eu larguei a faculdade e minha vida pessoal ficou de ‘pernas para o ar’ em todos os aspectos. Algumas coisas causadas por ansiedade, outras foram ocasionadas pela depressão.”
Camila Marchini, 20, estudante de Zootecnia, faz tratamento para depressão.
“Eu fiquei bem mal, fui até parar no hospital, mas hoje, estou muito bem.”
Rita Vidal, 19, estudante de Jornalismo, faz tratamento para ansiedade.
“Teve uma vez em que estava em um momento de descontração com duas amigas, e de repente me bateu um sentimento de desespero e medo. Hoje, não consigo mais sentir aquela sensação ruim.”
Thalita Cardoso, 21, estudante de Educação Física, faz tratamento para depressão e ansiedade.
“Sabe aquela sensação de ‘preciso estudar mas não estou estudando pois estou preocupada com o que preciso estudar’? Tenho bastante disso.”
Isabela Leonor, 19, estudante de Educação Física, procurou tratamento após contato da reportagem.
Mulheres vêm conquistando cada vez mais um espaço que antes era predominantemente masculino
Thiago Rasera
Não é novidade para ninguém, as mulheres conquistaram seu espaço no jornalismo esportivo, ainda mais após a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, quando a Fox Sports Brasil transmitiu algumas partidas do torneio com uma equipe de reportagem inteira composta por mulheres.
passos desses ícones radialistas, vozes femininas começam a ganhar espaço nas transmissões regionais. Quem gosta de futebol, provavelmente, já ouviu a respeito de uma negociação de jogadores, sobre bastidores do esporte ou a informação de um gol na voz de Monique Vilela, atualmente repórter na Rádio Banda B.
No Paraná, o rádio esportivo sempre foi marcado por homens à frente dos microfones. Nomes como Lombardi Junior, Carneiro Neto, Edgard Felipe e vários outros eternizaram seus gritos de gol na memória de muitos torcedores paranaenses. Seguindo os
Monique iniciou sua trajetória no rádio em 2008, na Rádio Mais, de São José dos Pinhais, onde trabalhou tanto no jornalismo quanto no esporte. Foram dois anos na Rádio Mais até que sua qualidade a levou para a Rádio Banda B, em dezembro de 2010. “O rádio faz
O gosto pelo rádio é de infância e, agora, Monique pode aliar esta paixão com a profissão.
“
O rádio faz parte da minha vida, antes mesmo de eu me formar jornalista e trabalhar com esporte no rádio.” Monique Vilela, repórter na Rádio Banda BArquivo pessoal
parte da minha vida, antes mesmo de eu me formar jornalista e trabalhar com esporte no rádio. O costume de escutar rádio o dia inteiro vem da infância e, agora, poder juntar esta paixão com a profissão me deixa realizada profissionalmente”
Após mais de uma década participando das transmissões como repórter de campo, Monique relata que apesar de enfrentar um ambiente masculino, nunca sofreu com preconceito. “Vejo muitos relatos de colegas de trabalho que sofrem com o preconceito. Eu, felizmente, nunca sofri nenhuma situação dessas. O que acontece, às vezes, é uma parte da torcida proferir ofensas, mas isso não é exclusivamente direcionado ao fato de eu ser mulher. A maioria das vezes é porque damos uma notícia que a torcida não gosta”, afirma a repórter.
A vida de repórter de campo apresenta dificuldades, mas também traz momentos bons para a profissional. Um exemplo disso fica por conta do relato de Monique Vilela sobre a cobertura da Copa Sul-Americana de 2018, que resultou na primeira conquista internacional por uma equipe do Estado do Paraná, o Athletico Paranaense. “Acompanhei toda a trajetória do time na competição, do começo ao fim, em uma década de trabalho. Esse foi o momento mais marcante.”
Apesar de a maioria dos nomes do rádio esportivo paranaenses ser de homens, as jornalistas da área também podem se inspirar em outras mulheres. Tabata Viapiana assumiu os microfones como repórter de campo em 2010, também na Rádio Banda B, onde exerceu até 2013 a função, quando foi contratada pela Rádio CBN, para cobrir as equipes visitantes nos jogos das equipes da capital e se estabeleceu cada vez mais no departamento de jornalismo.
Tabata tem como grande inspiração alguém com uma proximidade muito grande. Sua tia, Sônia Nassar, foi a primeira mulher a cobrir futebol no Paraná. “Ela entrava no vestiário e entrevistava os jogadores junto com os demais jornalistas da época. Trabalhou 30 anos na Tribuna do Paraná, tinha até uma coluna: ‘Plumas e paetês’. Era atleticana fanática e não escondia o time do coração, mas, mesmo assim, era respeitada pelos adversários e discutia futebol de igual para igual com qualquer homem, em mesas redondas na TV”.
A influência da tia, se reflete diretamente no desenvolvimento de Tabata como jornalista. O fato de fazer parte de uma família que sempre frequentou estádios fez da repórter uma profissional apaixonada pelo rádio paranaense. “Cresci em estádio de
O Futebol é uma paixão que Tabata cultiva desde pequena, já que com uma família ligada ao esporte, a jornalista cresceu em estádios.
futebol, com uma família muito ligada ao esporte. Acompanho e me interesso por várias modalidades para além do futebol, joguei vôlei quando era adolescente. Futebol é uma grande paixão que cultivo desde pequena.
A história do rádio esportivo paranaense teve um importante capítulo em agosto de 2018, quando a ex-repórter
Ana conta que, desde os 15 anos, ela já pensava em trabalhar com o futebol e foi na faculdade de Jornalismo que encontrou o caminho para realizar seu sonho de ser repórter de campo. “Comecei a fazer estágio e aprender na prática logo no primeiro ano da faculdade. Um dos meus primeiros estágios foi na Rádio Educativa FM, onde eu apresentava o Programa Educativa nos Esportes todos os dias. Na época, o estágio em jornalismo não era remunerado, mas eu via todas as chances como aprendizado”.
de campo, Ana Tereza Mota, a “Tetê”, narrou uma partida de futebol válida pela 26ª rodada da Série B deste ano. Tetê assumiu o comando da transmissão na Rádio Coritiba, se tornando a primeira mulher a narrar futebol no Rádio paranaense.
Após formada, Ana começou a trabalhar com rádio e televisão. Deixou os microfones de lado e foi dedicar-se às telinhas, e vinte anos depois, está novamente no rádio paranaense mas dessa vez como narradora, primeira do Estado. “Fui procurada pela
“Os machistas que me desculpem, mas terão que admitir que mulher entende sim de futebol e já provamos que somos capazes de trabalhar neste meio.”
AnaTereza Mota “Tetê”, narradora da Rádio Coxa
Comunicação do Coritiba em 2018. Eles queriam reformular a Rádio Coxa, mas quando me falaram que eu seria a narradora tive um choque pois era algo que eu nunca tinha feito e nunca tinha pensado em fazer. Como faltavam ainda dois meses para a estreia da rádio, comecei a treinar em casa, onde ligava a TV e gravava a narração dos jogos no meu celular. Coitado dos meus vizinhos (risos), pois eu soltava o grito de gol tarde da noite. Depois eu ouvia gravação na íntegra para me avaliar, e mostrava o áudio para a família e amigos para ter uma opinião de fora também”.
Apesar do cenário ainda dominado pelo público masculino, “Tetê” vê com otimismo a ascensão das mulheres a novos cargos no rádio esportivo paranaense. “A presença das mulheres no futebol é irreversível. Os machistas que me desculpem, mas terão que admitir que mulher entende sim de futebol e já provamos que somos capazes de trabalhar neste meio sem diferença alguma. Acho que já passou da hora de pensarem que mulher que trabalha com futebol é Maria Chuteira, que quer ‘pegar’ jogador. Meu desejo é que as mulheres estudantes de Jornalismo, que amam futebol como eu,
lutem pelo seu espaço e não desistam desta batalha. Espero que eu seja a primeira de várias narradoras que o Paraná poderá ter”.
Inspirada em Renata Silveira da Fox Sports e Isabelly Morais da Rádio Inconfidência de MG, a narradora recebeu aceitação por grande parte do público que ouve as transmissões na rádio e atualmente, é o principal canal de comunicação do Coritiba.
“ELA FOI A PRIMEIRA MULHER A COBRIR FUTEBOL NO ESTADO.” (SONIA NASSAR)
Sonia Regina Nassar, repórter de campo fez história no jornalismo esportivo paranaense ao cobrir partidas de futebol no jornal Estado do Paraná, fato inédito para uma mulher, até então. Nascida em 1951, Sonia começou sua carreira como repórter aos 17 anos, antes de concluir sua formação como jornalista pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) no início dos anos 1970. Ingressou no jornal Tribuna do Paraná, onde se estabeleceu como repórter de campo, mostrando toda sua ousadia nas entrevistas dentro dos vestiários e compromisso com a informação.
Sonia entrevistando o técnico Telê Santana.
De umas décadas para cá, o pop internacional tem sido sinônimo de música genéricas, com artistas em roupas apelativas (não todos) e sem grande inovação musical. Os anos 2000 e 2010 despejaram no cenário artistas como Backstreet Boys, Justin Timberlake, Britney Spears, Beyoncé, Rihanna, Taylor Swift, Nelly Furtado e etc, que apesar de seus talentos vocais inegáveis, pareciam todas terem as suas músicas compostas pelos mesmos produtores, algo sem muita personalidade.
Felizmente o fim desta década trouxe uma luz no fim do túnel, com o surgimento de dois artistas inovadores no cenário. Billie Eilish e Oliver Tree são um alento para um estilo musical que estava desgastado e sempre tendo o mais do mesmo.
Eilish e Tree representam o
sucesso dos excluídos durante a fase escolar, aqueles que não se enquadravam no perfil do menino musculoso e com potencial para colírio da Capricho, ou a menina que precisava se vestir com roupas sensuais apelativas (a là Pussycat Dolls) para conseguir algum tipo de atenção dos demais. São as suas peculiaridades que dão o charme da coisa.
Tree trabalha muito bem a sua estética, ao usar uma peruca tigelinha bizarra, com um óculos que esteve na moda no início dos anos 2000, roupas coloridas e com in-
fluências do Vaporwave e por incrível que pareça, um patinete! Nas letras, versos raivosos e batidas que trazem referências do rock, pop, rap e trap.
Eilish possui um talento vocal tão grande que algumas de suas músicas dispensam instrumentos que reproduzem acordes. Uma batida eletrônica basta. Ela faz as suas notas e dá vida a melodia. O talento da americana é tão reconhecido que até o Bring Me The Horizon, que há anos está ligado com o cenário do metal, fez um cover de When The Party’s Over, sem alterar a sua melodia bruscamente a melodia.
Cheia de energia, dona de cabelos coloridos, olhos verdes hipnotizantes e uma expressão corporal que a sociedade conservadora facilmente rotularia como “não tão feminina”, Eilish quebra padrões de moda. O recado é simples: seja você mesma, vista o que quiser.
Depois de anos de mesmice e falta de personalidade, o pop encontrou os seus revolucionários. E que o exemplo desses artistas sirva para a próxima geração como inspiração e não um modelo a ser copiado.
Pelos arredores de uma pequena cidade praiana no interior do Rio Grande do Norte, chamada Pipa, é possível ver, em alguns lugares, grafites e lambe-lambes de vulvas espalhadas pelos muros de ruazinhas, que se não fosse por Beatriz Lago, 24, seriam apenas monótonas.
“Dizer o que minha arte representa é muito difícil, porque é, na verdade, tudo o que está acontecendo comigo agora, está tudo em transformação. É a partir de trocas e experiências com as outras manas que também pintam e somam a gente de outra forma, que me inspiro nessas mulheres e tudo isso vai se expressando no meu trampo”, conta Beatriz, mais conhecida como “Bea Lake”.
Para Beatriz, a arte é um instrumento de transformação social. E é por isso que ela retrata o feminismo em seus trabalhos como uma forma de conscientizar as pessoas: “Os temas das minhas ilustrações sempre são mulheres e suas formas reais, não aquilo que a mídia gosta de impor como algo inatingível, que é o corpo feminino hipermidiatizado, padrão. Por isso, gosto de retratar as mulheres em suas mais variadas formas, e tenho adotado a vulva feminina como símbolo da minha arte, junto à outra área que eu gosto, que é o ecofeminismo”, conta a ilustradora, que pinta sempre uma vulva em formato de suculenta e transformou essa imagem em sua marca pelos
muros da cidade de Curitiba e outros lugares do Brasil.
Sim, a história sempre foi contada por homens, e para homens. As mulheres ficaram em segundo plano, ou muitas vezes nem apareceram. Silenciadas e ofuscadas pelo patriarcado, as mulheres trilharam seus caminhos sempre à beira de um homem que, por sua vez, e quase sempre, era cercado de privilégios. Felizmente, isso está mudando. Os séculos passaram e hoje já podemos ver pequenas mudanças, mais direitos conquistados e mais espaços alcançados. Infelizmente, a realidade ainda está muito longe da utopia dos direitos iguais e equidade entre gêneros - e como abordaremos, especialmente nesta reportagem, no mundo da arte.
Paula Moran
Pelo que se pode perceber, a raiz do machismo está em todas as áreas exercidas pelas mulheres. E a arte não escapa disso. Um dos dados mais alarmantes foi apurado pelas Guerrilla Girls, um coletivo de artistas feministas que está atuando há mais de 30 anos para denunciar a desigualdade de gênero e discriminação de mulheres no mercado da arte.
“As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?” é a frase estampada em uma das obras mais famosas, acompanhada de uma informação muito importante: apenas 6% dos artistas do acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP) são mulheres, mas 60% dos nus são femininos. Isso quer dizer que, mesmo mulheres que obtêm algum sucesso na arte, seja ela brasileira ou internacional, ainda são imensamente ofuscadas pelos homens.
Atrás de máscaras de gorila, as participantes do grupo guardam suas identidades desde 1984. Mais de 55 mulheres já passaram pelo coletivo e ninguém jamais soube ou saberá quem está por trás das máscaras. Seu ativismo está concentrado em denunciar a falta de uma maior valorização de mulheres artistas e a lógica mercadológica de compra e venda de obras de arte, bem como as exposições e os locais que as obras estão inseridas.
“O trabalho das Guerrilla Girls é, justamente, mostrar, em números, como parece que estamos avançando, mas na verdade não estamos. Achamos que
pelo fato de estarmos na modernidade não há tanta discriminação como nos tempos em que os homens roubavam as obras de artistas mulheres e assinavam por elas”, explica Carolina Loch, curadora da exposição “O museu é feminista - e outras esperanças para o futuro”, que fez parte do circuito de arte contemporânea da Bienal de Curitiba de 2017 e teve algumas das obras mais famosas do grupo em exibição.
O que parece ser um avanço, na verdade, é só mais uma parte da luta. Para Carolina, achar que na arte contemporânea há mais visibilidade do que a arte de algumas décadas atrás, é quase que um mito: “A gente que está nesse meio, presta mais atenção, a gente que tá estudando sobre o feminismo, é claro que você começa a prestar mais atenção. Essa questão das mulheres estarem mais presentes, parece ser isso porque é um assunto que a gente estuda. Mas, para um público que não tem esse acesso e que não tem essa preocupação com o feminismo, não é algo relevante.” “E é por isso que precisamos de trabalhos de artistas que proponham o feminismo de uma maneira prática”, afirma.
A publicitária, de 27 anos, explica que a sociedade está mudando a forma como vê a mulher. Com as novas formas de propor reflexões sobre temas importantes, é possível reescrever a história. “Nós sempre tivemos artistas mulheres, a questão é que elas eram escondidas. Estamos em um processo revolucionário, no qual é possível
Integrante da mostra Mulheres Inventadas, do Museu Municipal de Arte, em Curitiba, “Meu Corpo Estranho” é uma exposição autoral da artista visual Karla Keiko, que quis, por meio da arte, contar um pouco da sua história como mulher e os processos de desconstrução que a ajudaram a se identificar como uma na sociedade. Ela passou por vários períodos e fases, desde a retirada de suas próteses de silicone, a gravidez e até raspar todo o seu cabelo. Todas as etapas foram importantes para a desconstrução de algo que lhe fora imposto: ser vista como um objeto, e não como mulher.
Arte das Guerrilla Girls sobre dados do MASP em 2017.
Guerrilla Girls“É difícil ser mulher em todos os aspectos, em todas as culturas”
Mulheres inventadasPaula Moran
mudar a forma como a história foi escrita, destacando sempre os homens, para algo mais democrático.”
“Acho complicado falar das minhas dificuldades pelo fato de eu ser mulher, eu acho que é uma relação do meio e nem sempre são questões de dificuldades, mas sim do machismo inserido ali”, afirma Maya Weishof, artista visual de 26 anos, integrante da Pivô Arte e Pesquisa, uma associação cultural sem fins lucrativos que atua como plataforma de experimentação artística para artistas, localizada em São Paulo.
Maya Weishof, artista
Durante os últimos anos, Maya, formada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), tem desenvolvido sua pesquisa especificamente dentro do campo da pintura e a relação com a imagem dos corpos e estereótipos que os acompanham durante toda a história da humanidade. “A pintura é um campo muito machista historicamente, que foi ditado e formado por homens por muito tempo. É sempre importante lembrar que não é que as mulheres não estejam produzindo, e sim como essa história é contada”, explica Maya.
Ela acha que o mundo tem uma visão, muitas vezes, da mulher artista, como uma mulher que deve performar feminilidade e ter um trabalho frágil, bem como uma leitura do que é ser mulher. “Já ouvi várias vezes me dizerem que meu trabalho tem uma questão feminina, você não precisa catalogar ou fazer relações da minha pintura com o fato de eu ser mulher.”
“Muitas vezes as pessoas, ao verem uma obra, perguntam ‘quem é o artista?’ e já se pressupõe que é um homem. Na arte, têm-se o homem como um gênio e a mulher como um ser totalmente emotivo e passional, e isso é uma coisa completamente estereotipada. Eu retrato corpos não identificáveis justamente para combater isso e desconstruir essa visão.”
Jussara Siqueira é uma senhorinha que conheci por meio de minha mãe assim que viemos morar em Curitiba. Somando todos os seus 65 anos de vida, só nos 60
começou a se dedicar totalmente e exclusivamente à sua arte - mais especificamente, a pintura.
“Eu odiava Carazinho”, repetia ela algumas vezes ao contar parte de sua história. Pergunto o porquê disso e ela simplesmente responde com um “Não sei, só odiava, não tinha nada de mais lá”. Carazinho é um pequeno município localizado na região do Planalto Médio Gaúcho. Com uma população média de 59.300 pessoas, a pacata cidade nunca teve nenhuma grande personalidade, de que se tem registro, nem um grande herói ou um salvador da pátria. A não ser por histórias tão incríveis e escondidas como a de Jussara, a cidadezinha nunca se destacou em nada.
“
Você não precisa catalogar ou fazer relações da minha pintura com o fato de eu ser mulher.”
A agora também artista visual Jussara, embora não seja uma artista renomada e expositora de grandes museus, quem a conhece sabe que, apesar de tudo isso, ela é uma das peças-chave para entender a falta de oportunidades que esse mundo engloba.
Jussara precisou batalhar muito na vida para conseguir finalmente fazer o que gosta: pintar. Ela cresceu em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul e nunca teve o apoio de ninguém para seguir o seu sonho. Passou em um concurso do banco e foi ser bancária, por quase toda sua vida. Somente aos 60 anos, ela pôde fazer o curso de Graduação em Pintura da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), em Curitiba. “Outro dia eu liguei na Fundação Cultural perguntando o que eu tinha que fazer para fazer minha exposição”, conta, com empolgação, ao ter a esperança de realizar sua primeira mostra.
Em meio a algumas pinturas de cidades da Europa ou pássaros em jardins, Jussara pinta, quase que unicamente, mulheres. “Para mim, a mulher é a representação da mulher natureza. É por isso que eu sempre pinto ela como parte dela ou do universo”, “Eu não sei se tem machismo na arte, na minha turma só tinha um aluno homem, o resto era tudo mulher”, conta aos risos. A senhora artista não pensa haver desigualdade até que mostro os dados confirmados pelo coletivo Guerrilla Girls e ela se assusta: “Nossa! Eu nunca tinha parado para pensar por esse lado”.
Faltaram, para Jussara, assim como para muitas outras, oportunidades. Oportunidades de seguir uma carreira estereotipada e que só traz grande sucesso quando se é homem. Sim, o feminismo retratado na arte é capaz de transformar visões, mas assim como para Jussara, ele precisa ser acessível e entendido em todas as suas versões.
Jussara ao lado de uma de suas obras sem título.
Emilia
JurachPoesias essencialmente autorais recitadas em até três minutos, sem o apoio do texto escrito ou instrumentos musicais. Esse é o slam: uma batalha de poesia falada que anda chamando atenção de pessoas no Brasil e no mundo inteiro. Os grupos são, geralmente, mistos, com homens e mulheres, mas nos últimos quatro anos o interesse de mulheres pela modalidade cresceu, fazendo aumentar o número de grupos femininos na área.
O Slam das Gurias é o grupo feminino pioneiro em Curitiba. Fundado pelas artistas Gabriela Carneiro e Jaqueline Mancebo, o campeonato foi inspirado pelo grupo “Slam das Minas”, de São
Paulo. “Nós sentamos, conversamos e vimos que tínhamos um objetivo em comum, que era fomentar poesia para as mulheres ou quem se identifica com o gênero feminino”, relata Gabriela, que realizou a primeira batalha junto à Frente Feminista da Universidade Federal do Paraná (UFPR) no dia oito de março.
O objetivo de criar um grupo feminino, segundo Jaqueline, é o de em grupos mistos as mulheres não se sentirem confortáveis e, por consequência, não irem tão longe nas competições. “Em grupos femininos, elas podem falar sobre menstruação sem medo, por exemplo, porque sabem que as outras se identificam e não irão ridicularizá-la”, explica.
As mulheres se sentirem mais empoderadas participando de um grupo feminino é um fato comprovado pela idealizadora Gabriela Carneiro. De acordo com ela, “estar presente num espaço com a sua voz, com seu texto e sua opinião é uma simbologia plena de empoderamento”.
Letícia Munhoz, 19 anos, é estudante de Letras e escreve poesias desde os 10 anos. Quando conheceu o Slam das Gurias, encontrou uma oportunidade de expressar sua opinião diante de outras mulheres e, desde então, participa das batalhas mensais que o grupo promove. “Eu nunca tive interesse nos grupos mistos pela vergonha e, principalmente, por ter mais homens do que mulheres. Mas, quando encontrei o grupo feminino logo me enturmei, me sinto mais confortável lá”, desabafa a estudante, que escreve poesias românticas.
de dentro de casa, por exemplo, no papel e, depois, apresentar publicamente em uma batalha. Isso é engrandecedor”, conta a escritora.
A jornalista reitera que o fato de o formato da poesia do slam ser mais descolado, chama mais atenção ainda das pessoas. “O escritor pode recitar o texto do jeito que quiser, com gírias e até onomatopeias”, conclui.
Segundo a artista e fundadora Jaqueline Mancebo, as participantes do Slam das Gurias geralmente escrevem poesias marginais, com temas de resistência - como racismo, machismo e homofobia - e, predominantemente, apresentam obras inspiradas na vivência em sociedade. “É histórico que quando nós (mulheres) falamos, a importância é menor de quando um homem fala. Então dando voz às mulheres no slam, elas vêem que as pessoas gostam, aplaudem e aí elas se sentem muito mais empoderadas”, confessa Jaqueline.
Karen Debertólis, jornalista e escritora que oferece aulas de prosa e poesia, relata que as pessoas que escrevem suas histórias para o slam se sentem muito mais incluídas e representadas.
“Quando tive alunos mais interessados na modalidade, pude ver que eles se sentiam mais abertos à escrever, pois tinham a liberdade de colocar coisas
As fundadoras do Slam das Gurias Jaqueline e Gabriela realizam, também, oficinas de poesia e palestras em escolas para crianças e adolescentes. Segundo elas, é preciso fazer uma desconstrução do que é poesia para então introduzir o slam para os estudantes. “Os alunos enxergam a poesia como algo chato, então tentamos quebrar isso desde o início e mostrar que poesia que eles conhece não é a mesma que a nossa”, relata Jaqueline.
Segundo a artista, os estudantes começam a se interessar mais pela obra depois de serem ensinados a ligar o cotidiano deles com a poesia, fazendo com que se sintam, realmente, representados, e tenham a essência do slam, que é expressar a sua opinião e pensamento em forma de escrita.
A batalha de slam ocorre todo primeiro domingo do mês no pátio da Reitoria da UFPR, em Curitiba. Todas as informações são postadas antecipadamente no instagram (@slamdasguriascwb) e Facebook (Slam das Gurias) do grupo.
“Estar presente num espaço com a sua voz, com seu texto e sua opinião é uma simbologia plena de empoderamento.”
A “ministra maluca” e o que pensam as mulheres sobre a onda retrógrada que ameaça tantos direitos já conquistados
Paula Moran
Aatual ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, divide opiniões. Suas afirmações e posturas polêmicas tornaram-se alvo de críticas e muito rapidamente ganharam as redes sociais. Isso é o que todos já sabem. Mas e o que as mulheres pensam sobre a pastora que hoje as representa no governo federal? A reportagem da CDM ouviu várias vozes femininas para saber como Damares é percebida a partir de diferentes pontos de vista.
Há mais de 20 anos vivendo em Brasília, Damares Regina Alves, a pastora por trás de inúmeras declarações espontâneas possui uma trajetória um tanto quanto curiosa na política. Ela nasceu no Paraná, em 1964, mas foi só no final da década de 1990 que a, hoje, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, deu início à sua atuação política. Começou no gabinete de seu tio, o pastor Josué Bengtson (PTB-PA) e, depois, se tornou assessora parlamentar para quase dez outros deputados durante alguns anos.
Lutou pelos direitos das crianças em diversas partes do país. Sudeste, Norte, Nordeste. Estados pelos quais passou durante sua juventude. Em uma de suas pregações quando passou por Belo Horizonte, em maio de 2016, Damares contou sua história. Contou que sofreu abuso sexual quando criança e isso se tornou o motivo pelo qual ela dedica sua luta e atuação na política, que desde 2015 vêm se mostrando muito polêmica.
No dia de sua posse, em 2 de janeiro de 2019, um vídeo tomou conta das redes sociais e gerou uma das maiores polêmicas desde que Damares assumiu o cargo no ministério. Nele, a ministra afirmava que seria inaugurada uma “nova era” no país, em que “menino vestiria azul e menina vestiria rosa”. As imagens foram gravadas na quarta-feira do dia 2, quando aconteceu a cerimônia de transmissão do cargo em que Damares assumiu a pasta.
Outra declaração da ministra foi proferida em uma audiência na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara que aconteceu em abril. Nela, Damares foi questionada sobre a flexibilização do porte de armas e seus efeitos para a violência contra as mulheres. Ela preferiu não comentar muito sobre o assunto, mas reiterou: “Homens matam com dentes, com mão, com pau. A violência doméstica se configura de diversas formas e não deve ser tolerada.”
Para Cristina Castillo, secretária executiva aposentada, 56 anos, algumas afirmações de Damares não estão totalmente erradas: “São assuntos atuais, é a realidade que estamos vivendo agora no Brasil. Eu acho que o ponto de vista dela não está de todo errado, ao falar sobre violência doméstica, ela está abordando uma questão que precisa ser mudada para que as mulheres recebam o apoio do Estado”, afirma.
Ainda na mesma reunião da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, Damares opinou sobre questões relacionadas à educação sexual e de gênero nas escolas: “O menino vai ter que aprender a respeitar e proteger a menina. Quando eu disse que vamos ensinar o menino a abrir a porta do carro, quero dizer não somente isso. Quero dizer que ele terá de abrir também a porta da fábrica, a porta do seu escritório, das indústrias, do seu partido e desse parlamento.”
“
Ao falar sobre violência doméstica, ela está abordando uma questão que precisa ser mudada para que as mulheres recebam o apoio do Estado.”
Cristina Castillo, aposentada
“Gostei muito quando ela falou que os homens precisam não somente abrir a porta do carro para as mulheres, mas outras portas também - as portas que não são físicas. Da indústria, do mercado de trabalho”, comenta Cristina.
A aposentada acredita que o respeito tem que ser demonstrado não somente com gentileza, mas o menino deve ser ensinado desde criança a respeitar: “A criança vai ver isso refletido com o exemplo que ela tem em casa e nas escolas.”
E sobre a educar o respeito às mulheres nas escolas, a frase que Damares afirmou esclarece: “Os meninos vão ter que entender que as meninas são iguais em direitos e oportunidades, mas são diferentes por serem mulheres, e precisam ser amadas e respeitadas como mulheres”, declarou a ministra.
Damares teve outro vídeo viralizado na internet após proferir uma declaração em sua igreja e foi questionada pela deputada Alice Portugal do PCdoB-BA sobre se ela realmente pensava que a mulher deveria ser submissa ao homem. A ministra afirmou que “dentro da doutrina cristã, o homem é o líder do casamento”.
Na mesma comissão, Damares completou a resposta à deputada dizendo que não está incentivando as mulheres a “abaixar a cabeça para o patrão ou para o agressor”, mas que pensar dessa forma é uma “questão de fé” e que isso não a faz incompetente ou menos capaz de comandar um ministério.
A doutora em Ciências Sociais Solange Fernandes afirma que a ministra não a representa. “A Damares confunde um cargo de política pública com a vida privada, dentro das Ciências Sociais nós chamamos isso de patrimonialismo e o Estado é laico, você como pessoa pode até professar uma fé, mas isso não pode ser levado aos espaços profissionais e imposto às pessoas.”
A doutora explica que os direitos das mulheres estão sofrendo uma invisibilização com o governo atual que ameaça extinguir, inclusive, políticas públicas de saúde que as mulheres já têm como garantia do Estado há muito tempo, como no caso da interrupção da gravidez nos três casos em que ela é permitida no país: em casos de estupro; feto anencefálico e quando há risco à vida da mulher.
“Eu vejo uma mudança no comportamento da sociedade, com os conservadores mais extremistas ganhando espaço. O Bolsonaro é um só, mas a Damares é uma extensão do pensamento ideológico dele, ela faz parte do seu plano de governo - que quer desmoralizar os direitos das minorias. A Damares é mulher, mas ela não representa as mulheres brasileiras.”
Solange afirma enxergar a concepção do patriarcado, do machismo e do preconceito contra as minorias e de gênero voltarem com muita força na política do país: “O que eles representam é assustador, porque a gente estava em um processo de avanço de políticas públicas que agora parece estar se tornando um sonho cada vez mais distante. Dentro de alguns anos, essas políticas públicas vão estar inviabilizadas.”
Ao ser frequentemente chamada de louca, a ministra, ainda na mesma reunião em que comentou sobre outras polêmicas, lamenta os ataques que tem sofrido: “Enquanto tentam desqualificar a ministra, tem mulheres morrendo, sendo abusadas.”
A designer Vanessa Fogaço, de 26 anos, sempre foi muito engajada politicamente, como ela mesma afirma, mas há algum tempo tem visto uma tentativa de distração por parte do governo ao conferir pautas de políticas públicas para as mulheres e as minorias em geral:
“Eu acho que a atuação da Damares nesse governo é pura distração, é tanta coisa absurda que ela fala, que a gente perde totalmente a vontade de acompanhar notícias e a política em si. Penso que é uma forma de eles afastarem a gente do que realmente importa. Vejo como uma figura de desserviço.”
Outras opiniões se mostraram bastante similares às de Vanessa na produção dessa reportagem. E assim, buscando entender o lado das mulheres e como elas vêm seus representantes, finalmente entendi a questão: como uma população que não acredita em seus representantes pode avançar como sociedade? A resposta é simples: ela não avança.
Para Jhanayna Ribeiro, 25 anos, analista financeira, o caminho que Damares segue é decepcionante. “Eu acredito que definitivamente não, ela não tem capacidade para assumir a posição que ela tomou no dia da posse do presidente. Ela tem se mostrado muito ignorante ao tratar de temas importantíssimos para as mulheres e a sociedade num geral.”
Já para Damaris Pedro, 31 anos, produtora musical é uma utopia pensar que as coisas vão melhorar. “Eu acho que ela mistura muito as coisas, religião com governo, e pauta temas que nada tem a ver com o progresso das políticas para as mulheres no Brasil. Eu acredito que o conservadorismo ameaça nossos direitos e com certeza pode prejudicar os que já conquistamos.”
A auxiliar de limpeza Eliozete de Brito, 56 anos, que apesar de se mostrar bastante apreensiva ao ser questionada sobre a atuação de Damares, afirma que, em sua opinião, a ministra não tem capacidade para cumprir o seu papel. “Ela tem se mostrado incapacitada e preocupada com outras questões que não as que se relacionam a nós, mulheres. Acho que ela não garante os nossos direitos e pode não conseguir lutar por nós.”
Entender como essas mulheres se sentem é crucial para entendermos o caminho que estamos trilhando na política brasileira. Ainda somos o 5º país entre os países com as taxas mais altas de feminicídio no mundo. Se Damares não nos representa, quem irá?
O universo da Marvel é conhecido por suas produções de super-heróis poderosos e invencíveis. Com a predominância masculina, as heroínas tinham pouca representatividade, com mulheres coadjuvantes nos filmes e que, até então, nunca tinham sido protagonistas de uma obra do estúdio.
Mas foi em 2019 que a empresa lançou seu primeiro filme com uma protagonista feminina, a Capitã Marvel, que foi recebido com duras críticas à atriz Brie Larson e à obra em si, que estaria sendo lançada para “lacrar” e “se aproveitar da onda feminista da atualidade”.
As críticas foram, na maior parte, feitas por homens, mas o que poucos sabem é que a época em que o filme se passa, anos 1990, o feminismo es-
Por Emilia Jurach
Capitã Marvel foi o primeiro filme com uma protagonista mulher na Marvel. Porém, outras heroínas têm extrema importância no universo e uma delas é a Viúva Negra, que chama atenção pela suas habilidades de combate, liderança e firmeza em suas ações. A personagem começou como uma vilã, mas depois se tornou parte da SHIELD e mudou e lado, compondo o time dos Vingadores. A
heroína protagonizará um filme que ainda não tem data de estreia, mas já é um dos mais aguardados pelos fãs e admiradores do estúdio. Vai ser mais um filme feminista para a conta!
Com o lançamento de Vingadores: Ultimato em 2019, várias cenas chamaram atenção por darem foco às heroínas. Uma delas é a cena da Capitã Marvel carregando a nave de Tony Stark (Homem de Ferro) logo no começo do filme, o libertando do espaço e levando para a Terra. Esse primeiro passo foi essencial para todo o desenrolar do filme acontecer.
A morte da Viúva Negra também foi uma cena que mostrou a grandeza da personagem, que se sacrificou em busca de um objetivo e no lugar de um amigo que também estava na batalha.
A heroína Feiticeira Escarlate também teve destaque em uma cena na qual lutou sozinha contra Thanos. O vilão dizia nem conhecê-la, mas a personagem não se importou e mostrou a sua força em nome do principal objetivo de derrotá-lo.
A importância da representatividade feminina em um estúdio com tanta influência no mundo do cinema é gigante. A quebra do estereótipo de “mulher frágil, doce e sensível” com trechos mostrando personagens femininas extremamente fortes, determinadas e até pilotando aviões é essencial para o empoderamento feminino desde crianças até adultas. Uma cena anterior à batalha contra Thanos, na qual todas as heroínas se juntam para lutar contra ele, é histórica. Quem assistiu com certeza sentiu a determinação das personagens ao encarar o vilão e, consequentemente, o tamanho da importância da visibilidade da mulher em um universo predominantemente masculino.
Isso se relaciona, também, com a representatividade que Pantera Negra trouxe ao ser o primeiro filme com um protagonista negro, fazendo muitas pessoas se identificarem com o que viam nas telas.
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