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Nº 01 da Dois Quatro Quatro, Revista Angolana de Literatura

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DOIS QUATRO QUATRO revista angolana de literatura | agosto de 2026 | n.º 01

EDITORIAL e essa revista, agora?

DESTAQUE UEA: o que sabemos da maka da liderança adiada

ENTREVISTA Na época, eu achava que era o Saramago e que estava a reinventa a roda. CRÍTICA

PRÉMIO ARNALDO SANTOS, DUAS RESPOSTAS NECESSÁRIAS

A Fisionomia de Uma Sociedade Violenta na Quintilha Clássica de Arlindo Barbeitos PROSA O homem que cobre as lacunas dos alienados OPINIÃO Pequeno Manual para Grandes Sonhadores Desencantados: o que Restou da Utopia de Pepetela?

ENSAIO Uma Nova Forma de Literatura Africana: Ensaio Sobre a Ruptura Estética e Ideológica em Le Devoir de Violence, de Yambo Ouologuem

ESPECIAL | O PASSADO DA LITERATURA ANGOLANA E DA UNIÃO DOS ESCRITORES ANGOLANOS NO RELATO SURPREENDENTE DE PEPETELA

Tínhamos um estado que era muito generoso em relação aos livros


DOIS QUATRO QUATRO

editorial

e essa revista agora? T

alvez seja este editorial mais do que isso, talvez um manifesto. A causa que aqui se declara é a do jornalismo cultural em geral, e do jornalismo literário em particular. As palavras que aqui se embrulham, às vezes acertadas, às vezes apressadas, têm um fim último: o de despertar um glorioso lado, abandonado e quase inexistente, do nosso ecossistema literário. Quase dois séculos da nossa literatura ensinam de forma clara que a literatura angolana sempre atingiu grandes proporções quando aliada a uma imprensa forte e capaz de posicionamento. Quando observamos para a história, acabamos sempre por relacionar os grandes nomes da nossa literatura a grandes jornais e revistas. A imprensa, neste sentido, é parte essencial de um sistema literário saudável, devendo responder às exigências do seu tempo e ser capaz, além de projectar uma literatura existente, de acompanhar uma literatura que continua, apesar de todas as mazelas; de uma literatura que ainda resiste, se reinventa e continuamente produz novos nomes, rostos e novas formas de manifestação. Não é, portanto, palavra nenhuma deitada ao vento quando se afirma, com certeza, de que a imprensa tem de ser parte actuante deste processo literário. O tempo é crítico: estamos num período excepcional onde a internet propaga informações com uma rapidez nunca vista, o que não permite, na maior parte das vezes, prestar tempo necessário às questões importantes. Para que a informação não se disperse, as críticas, as melhorias propostas e os trabalhos bem feitos continuem a ganhar espaço, é necessário concentrarmos aquilo que nos engrandece e nos interessa enquanto comunidade literária. Para que esses espaços possam ser continuamente consultados e servir de introspecção colectiva sobre patamar em que estamos, as dificuldades que possuímos, as soluções que se está a elaborar e que futuro projectamos a partir delas. É necessário que os veículos de informação ligados à literatura possam existir, fazer barulho capaz de abalar estruturas fósseis e ser vanguardistas do tipo de sociedade que podemos ser. Devem acompanhar, mas não se deixar levar pelas ondas da informação rápida, da urgência da viralização frágil e nem da actualidade reduzida ao microtexto. É, antes, o resgate

da cultura de leitura e de reunir, num único lugar e de forma estruturada, as discussões necessárias que produzimos de forma dispersa nas redes sociais. Não guiados pela ilusão, mas pela certeza da necessidade, a Dois Quatro Quatro iniciou uma jornada decisiva de democratizar os espaços de veiculação de conteúdos exclusivamente literários. Nossa posição é de vanguarda e o nosso campo, a Literatura Angolana. Acreditamos que é agora a hora, assim como sempre foi, e que o resgate de uma imprensa actuante e posicionada, é mais do que uma necessidade, é uma urgência. Não finjamos que não estamos a ver o ataque diário à nossa causa. Por tudo isso, e pelo que nunca é compreendido, tomámo-nos como parte da resposta à exortação secular de Cordeiro da Matta:

dois quatro quatro® revista angolana de literatura DESDE AGOSTO DE 2026 dois quatro quatro é uma publicação trimestral da revista dois quatro quatro, em parceria com a kamba editora. tel: (+244) 958-955-841 | Luanda ___________________________________

É preciso que os próprios filhos do país, cheios do santo zelo pelas cousas pátrias, desenvolvam a literatura nacional.

geralrevistadqq@gmail.com facebook instagram

Esta iniciativa é a nossa contribuição. Pequena, mas ainda uma contribuição. O nosso bloco ao Edifício Nacional; colocado, apesar de todas as condições contrárias que o cenário actual nos impõe, para a contínua edificação da literatura Pátria.

DALUKA

Sabemos que não temos todas as condições prontas. Sabemos que não temos toda a formação necessária. Sabemos igualmente que, nesta primeira edição, poderemos não responder a todas as exigências que um verdadeiro trabalho em prol da literatura angolana exije. Mas nós começamos. E começamos para crescer. Começamos para construir. E estamos dispostos a dedicar o recurso mais valioso que temos, o nosso tempo, para continuamente produzirmos, contribuirmos e fazermos parte da solução para os problemas da literatura angolana. Sempre acreditamos que a literatura angolana merece um espaço seu, sob este postulado a Dois Quatro Quatro foi fundada. Depois de nos apresentarmos à comunidade em inúmeras ocasiões destes tempos todos, um novo espaço, várias vezes adiado, começa agora. Daluka, Editor-geral

EDITOR-GERAL

DESIGN MERAKI EDITORIAL

EDITORA KAMBA EDITORA

EQUIPA DQQ ALFREDO CARMONA | DOMINGAS MANUEL & LU KYESE

COLABORADORES DESTA EDIÇÃO AC KHAMBA | DALYSON OLIVEIRA DESTINO VENTURA | DIAS NETO | DIEGO | DOMINGAS MONTE | JOSÉ KANGUYA | JOSIAS CURRIE |LEOVIGILDO ANTÓNIO |NZOJI UKULU | KENNY RAPHAEL SABINO DO NASCIMENTO & NUNU CHIPITA

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DOIS QUATRO QUATRO

A Literatura Angolana está Moribunda?

maio

Dias Neto, a propósito da colecção Angola: 50 Anos, 50 Autores

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erto de completar o quinto mês desde que jubilosamente o país celebrou o seu meio século de existência como Nação Soberana, eis então que, com agradável surpresa para mim, aconteceu a inclusão da Literatura Angolana nos festejos da efeméride, com a publicação da colectânea “Angola 50 anos, 50 livros, 50 autores”. Mais vale tarde do que nunca, disse eu enquanto acompanhava a apresentação do projecto pela imprensa.

nacional, sendo um dos mais premiados e traduzidos? Prefiro retirar esta hipótese.

O evento aconteceu no dia 08 deste mês de Maio. A colectânea reúne 50 livros (poesia e prosa) de escritores nacionais e está dividida em três etapas (consideradas pela organização por marcos), obedecendo à seguinte periodização: 1845, 1950 e 1975. Como não tive acesso à nota da organização, julgo que o marco inicial seja 1845 devido ao facto de a história registar que a imprensa escrita em Angola começara nesse ano, com a publicação do Boletim Oficial de Angola, a 13 de Setembro, tendo o governador Pedro Alexandre da Cunha como seu mentor.

A título de exemplo, durante as homenagens (condecorações), vimos artistas não só nascidos depois da independência, mas cuja carreira iniciara no tempo de paz a serem agraciados na Classe Paz e Desenvolvimento, entre eles, destaco Matias Damásio, Noite e Dia e Silvio Nascimento (actor). Assim, reforça-se-me a ideia de que alguns escritores nascidos depois da independência não ficaram de fora da colectânea por mero capricho da organização. Falta qualidade literária às suas obras.

A obra literária surgiu quatro anos depois. O livro de poesia “Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas”, de autoria de José da Silva Maia Ferreira, publicado em 1849, é o primeiro livro editado em Angola. Já o livro em prosa apareceu 33 anos depois, isto em 1882, com a publicação da novela “Nga Muturi”, de Alfredo Troni. E o primeiro romance da história da Literatura Angolana é o “O Segredo da Morta”, de António de Assis Júnior, publicado em 1934/1935. Esta colectânea que celebra os 50 anos da nossa independência vai permitir-nos conhecer as obras que são os “alicerces” da nossa literatura. E o projecto ganha ainda mais importância porque, como anunciado pela imprensa, os livros serão distribuídos de forma gratuita nas escolas. Como referi inicialmente, animou-me bastante este projecto e reitero: mais vale tarde do que nunca. Entretanto, um dado curioso chamou a minha atenção: entre os 50 escritores, há apenas um nascido depois da independência. Este escritor é Ondjaki, nascido em 1977. A imprensa não informou quais foram os critérios usados pela organização da colectânea para a selecção dos escritores, então, em reflexão, fui atrás das possíveis razões que estiveram na base deste facto e cheguei à conclusão de o motivo está ligado à qualidade literária de Ondjaki. E não também à sua projecção inter-

Para mim, não pode haver outra razão senão a da falta de qualidade porque, durante as celebrações dos 50 anos da nossa independência, o país homenageou os angolanos que lutaram pela independência, pela conquista da paz e pelo progresso e desenvolvimento, logo, a Literatura Angolana não podia fazer diferente.

Se Ondjaki, cuja estreia literária acontece no ano 2000, é o único escritor nascido no país independente a fazer parte da colectânea, quer dizer que o actual movimento literário, embora muitos integrantes seus estejam a ganhar prémios literários e a ser bem referenciados pela crítica, ainda não atingiu qualidade. Sobre escritores que estejam a ganhar prémios literários e a ser bem referenciados pela crítica, abro um “à parte” para fazer menção ao (agora) Prémio Literário Arnaldo Santos, organizado pelas instituições portuguesas Imprensa Nacional e Casa da Moeda. As três primeiras edições deste prémio foram ganhas por escritores que começaram a escrever no tempo de paz, respectivamente Sérgio Fernandes, Israel Campos e Jeremias Manuel. Nesta ordem de ideia, a nossa literatura, que já tem mais de um século de existência e muito contribuiu para a nossa independência, não está a atravessar um bom período. E, se termos ainda em conta que o único escritor nascido depois da independência a fazer parte da colectânea formou-se em Portugal, esta situação deve constituir uma verdadeira preocupação para as nossas autoridades, pois a qualidade literária está intrinsecamente ligada à qualidade do sistema de educação. E o país precisa muito da literatura para o ajudar a atingir o desenvolvimento. Texto publicado no Jornal Metropolitano de Luanda, 25 de Maio.

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As Humanidades estão em Crise?

junho

* José Kanguya, a propósito do II Colóquio realizado pelo CEIH

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o passado mês de junho, entre os dias 25 e 26, no Auditório Amélia Mingas da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto, realizou-se o II Colóquio de Literatura e Linguística, organizado pelo CEIH (Centro de Estudos Integrados em Humanidades), cujo evento procurou discutir o “Estado actual das Humanidades”- num mundo cada vez mais materialista e utilitário onde áreas como Filosofia, Literaturas e Linguística parecem não ter espaço na arena capitalista movida pelos resultados rápidos. Dentre as variadíssimas questões ligadas às Humanidades, discutidas no colóquio, destacaram-se o Diagnóstico do Estado actual das Humanidades e a Reformulação Curricular das Humanidades (este último com maior ênfase). No entanto, o que seria Humanidades Em Crise? A ideia de crise em Humanidades ou nas Humanidades infere-se numa crise, não na falta de capital, mas sim no que Boaventura de Sousa Santos chama de “crise Institucional”, onde as academias, anteriormente voltadas para produção do conhecimento e do saber crítico longe da polis, veem-se forçadas a transformar o conhecimento em produto para o mercado. Numa era dominada por questões tecnológicas, materialismo excessivo, busca por respostas rápidas; então, por que pensar em HUMANIDADES e por que fazer HUMANIDADES? O panorama geral das Humanidades em Angola demonstra uma profunda decadência institucional, não só do ponto de vista das suas estruturas, mas, e sobretudo, do ponto de vista dos seus currículos. Os prelectores do colóquio afirmaram a crise nas Humanidades como consequência da própria crise Humana. Ou seja, os conflitos actuais vivenciados um pouco por toda parte do globo justificam o facto de que as Humanidades sempre estiveram e estão em crise. Relativamente às academias, esta crise evidencia-se na desvalorização dos cursos como: Filosofia, Literaturas e Linguística quando se olha para os seus perfis de saída muitas vezes quan-

tificadas e não qualificadas numa sociedade que aprendeu a tratar o conhecimento como “coisa”: algo passível de troca como produto do campo no mercado. Foi referida a necessidade da actualizacão curricular nas Universidades, com destaque nas faculdades de Humanidades, que possa corresponder às reais necessidades sociais do país face às novas exigências tecnológicas. Pois, a actualizacão dos currículos é um acto que deve preocupar a todos, tanto os docentes como os discentes. Tendo sido afirmado ainda que “uma Universidade que forma quadros, mas que os mesmos não consigam dar respostas ou não tenham capacidade de resolver os problemas do país, é melhor a mesma fechar”. Porém, questionamos nós: quais os problemas concretos, desde a criação do primeiro programa curricular, isto em 1973/4, até ao novo programa curricular em 2009, foram resolvidos pelos quadros oriundos das nossas universidades que beneficiaram a sociedade angolana? Será que os mesmos são observados ou revisados de cinco em cinco anos atendendo as constantes mudanças sociais? Ou os nossos programas curriculares andam congelados no plano teórico que se esquece da sua aplicabilidade? Ficou ainda evidente, durante o colóquio, a necessidade de um emagrecimento das grelhas curriculares dos cursos como: Língua e Literaturas em Língua Portuguesa, Francesa, Africana e Filosofia por se considerar bastantes obesas para os estudantes e porque são ensinadas do ponto de vista mais teórico e historiográfico do que prático. Ficou ainda evidente a necessidade de se alinhar as Humanidades com as novas ferramentas tecnológicas a fim de lhes conferir maior utilidade na era das IAs. Tanto os professores de Humanidades como os estudantes em Humanidades não devem temer as IAs, pelo contrário, devem procurar adaptar-se a elas. Não se deve restringir a formação em Humanidades ao

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estudo da gramática e da revisão linguística. Tem de se proporcionar, do ponto de vista curricular, capacidades de tratar de diversos assuntos, como de política e de outras temáticas sociais. No entanto, considera-se urgente não só a reformulação dos currículos nas Humanidades, como também a reformulação dos métodos de ensino por parte dos seus docentes. Uma vez que não basta propor-se a introdução de novas cadeiras, mas também olhar para as qualificações dos respectivos docentes. Cadeiras como Crítica Literária, Filosofia da Linguagem, Filosofia da Literatura ou Aplicada à Literatura (estes por se incluir urgentemente), Análise Textual e de Discurso devem gozar de uma maior atenção por serem fundamentais na construção do pensar crítico dos estudantes. Sendo, no entanto, crucial a formação permanente dos docentes para assumirem determinadas cadeiras. Daí que a reformulação nas Humanidades, julgamos nós, ser um processo bidirecional: voltada aos currículos e à capacitação dos seus quadros. Podemos considerar ainda a crise nas Humanidades como consequência da forma com que se olha para elas em relação aos cursos com maior chance

de empregabilidade na sociedade. O que poder ser e fazer o formado em Letras ou em Humanidades? Estudar Gramáticas? Revisar Textos? Tradução? Que impacto material e utilitário possui numa sociedade capitalista? Várias foram as preocupações dos estudantes, concretamente ao perfil de saída após a formação. Notou-se que a maior preocupação está na valorização quântica dos seus currículos no mercado de trabalho quando comparado com outros cursos com mais fácil acesso ao mercado de trabalho. O colóquio serviu não para tratar de uma Crise econômica, mas para tratar e mostrar aos estudantes a Riqueza intelectual que os cursos voltados à Humanidades possuem na construcção de uma sociedade pensante. Colocou-se o desafio aos estudantes de investirem no seu autodidatismo e de se familiarizarem com as novas ferramentas tecnológicas caso queiram se impor num mundo cada vez mais tecnológico; a necessidade de se possuir uma cultura digital e de se produzir sujeitos capazes de interpretar discursos complexos do século XXI que se impõe à Humanidade.

©CEIH

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Cartas de Fora do Centro: uma crónica sobre a crítica literária que se faz longe de Luanda

julho

* Leovigildo António, a propósito do III Simpósio Nacioal de Crítica Literária

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á uma certa hora da tarde, nas cidades do interior de Angola, em que a luz cai sobre os pátios das escolas e das bibliotecas municipais de um modo que não se vê nas fotografias de Luanda. É nessa hora, entre o fim das aulas e o começo da noite, que no Huambo, no Bié, em Benguela, no Lubango, no Uíge, ou mesmo no Moxico; se reúnem pequenos grupos de leitores, professores e aspirantes a críticos, para discutir um livro que talvez ninguém em Luanda tenha lido ainda. Não há holofotes sobre essas conversas. Não há jornalista à espera do resumo, tão puco professores chatos com discursos pré-fabricados. E, no entanto, é ali, nesses círculos modestos, que uma parte substancial do pensamento sobre a literatura angolana continua a ser produzida, dia após dia, geração após geração, sem que o país inteiro saiba. Escrevo esta crónica como quem escreve uma carta longa a um país que insiste em ouvir-se apenas por uma boca. Porque é isso, no fundo, que a centralização da crítica literária em Luanda representa: um país inteiro reduzido, no plano simbólico, à voz da sua capital. Não porque as outras vozes não existam, elas existem, e são muitas, mas porque os canais que as poderiam levar ao ouvido nacional foram, ao longo de décadas, desenhados para escoar apenas numa única direcção. Bourdieu ensinou-nos que os campos culturais não são espaços neutros onde as ideias circulam livremente segundo o seu mérito. São campos de força, atravessados por capital simbólico, onde quem já está perto do centro tem mais facilidade em ser ouvido, publicado, citado, consagrado. Em Angola, esse centro tem nome e mapa: chama-se Luanda. E, como toda a centralidade, ela não nasceu por acaso, foi construída, historicamente, pela concentração de editoras, universidades, redacções, prémios literários e eventos culturais numa única cidade, herança de uma organização colonial e depois pós-colonial do país que continuou a privilegiar o litoral e a capital em detrimento do interior. Mas há algo de profundamente injusto, e também de empobrecedor, nesta geografia do reconhecimento. Injusto, porque trata como ausência aquilo que é apenas invisibilidade, confunde o “não ser visto” com o “não existir”. Empobrecedor, porque priva a literatura angolana da pluralidade de leituras que só a diversidade regional pode oferecer. Um crítico do Huambo lê Angola a partir do planalto central, com a memória da guerra e da reconstrução gravada de outro modo no corpo da cidade. Um crítico do Lubango lê a partir do sul, com outras paisagens, outras línguas em contacto, outras urgências. Um críti-

co do Moxico lê a partir de uma fronteira, de uma relação diferente com o centro e com o outro lado da fronteira nacional. Silenciar essas leituras não é apenas silenciar vozes, é empobrecer a própria literatura angolana, que perde a possibilidade de se ver multiplicada em espelhos diferentes. É preciso dizer, sem rodeios académicos, o que isto significa na prática: significa jovens críticos talentosos do interior que escrevem ensaios notáveis para um jornal local de tiragem reduzida, ou para um boletim universitário que poucos fora da província chegam a folhear, enquanto o debate nacional, aquele que aparece nos suplementos culturais, nas rádios da capital, nas redes sociais mais seguidas, continua a girar em torno dos mesmos nomes, das mesmas editoras, dos mesmos círculos. Significa departamentos de Letras em universidades do interior que produzem investigação de qualidade, mas que raramente conseguem financiamento para participar em congressos nacionais, ou publicar em revistas indexadas, ou simplesmente ser convidados a sentar-se à mesa onde se decide o que conta como crítica válida. Há, contudo, um perigo em transformar esta constatação em lamento permanente. A crónica que aqui escrevo não quer ser um elogio da vitimização, mas um convite à acção. Porque, se a periferia é uma posição relacional dentro de um campo desigual, como bem o descreve a teoria do campo, então essa posição pode, com trabalho colectivo, ser deslocada. Não se trata de esperar que Luanda “conceda” visibilidade às províncias, num gesto de generosidade que perpetuaria a própria hierarquia. Trata-se de construir, deliberadamente, estruturas alternativas de circulação que não dependam da validação do centro para existirem com dignidade. Penso, por exemplo, nas possibilidades abertas pelas plataformas digitais, que reduzem, embora não eliminem, os custos de publicação e distribuição que durante tanto tempo mantiveram as editoras do interior à margem. Talvez um blog crítico bem escrito no Bié possa, hoje, alcançar leitores em Cabinda ou na diáspora com a mesma facilidade técnica que um artigo publicado em Luanda. O obstáculo já não é apenas tecnológico; é também simbólico, é de reconhecimento, de redes, de hábito de leitura que continua a privilegiar as vozes consagradas do centro. Por isso, a desluandalização da crítica literária angolana não pode ser apenas uma questão de infra-estrutura, precisa também de uma mudança de mentalidade, de um esforço consciente dos leitores, dos jornalistas

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culturais, dos programadores de eventos literários, para irem procurar activamente o que se escreve fora do eixo habitual. Imagino, com alguma esperança, um futuro em que os prémios literários nacionais tenham jurados oriundos de diferentes províncias; em que as universidades do interior estabeleçam parcerias directas entre si, sem passar necessariamente por Luanda como intermediária obrigatória; em que exista um verdadeiro sistema de circulação de publicações entre as províncias, revistas, cadernos, fanzines literários, que crie um circuito crítico horizontal, e não só vertical, do interior para a capital. Imagino festivais literários itinerantes, que levem os debates críticos de província em província, e não apenas de Luanda para o resto do país, como quem leva a palavra oficial a um território que só recebe. Há também uma responsabilidade que cabe à própria crítica praticada em Luanda: a de reconhecer os seus privilégios estruturais e de os usar, deliberadamente, para abrir espaço, e não para os reforçar por omissão. Cada vez que um crítico da capital cita, recenseia ou entrevista um colega do interior, contribui para deslocar, ainda que ligeiramente, o centro de gravidade simbólico do campo literário angolano. Cada vez que uma editora de Luanda acei-

ta distribuir, mesmo que em pequena escala, uma obra produzida numa província, ajuda a desfazer o nó que prende o reconhecimento a um único endereço postal. Talvez valha a pena, para terminar esta carta, voltar àquela hora da tarde com que comecei, a luz sobre os pátios das escolas do interior, as conversas sem holofote sobre livros que ninguém em Luanda leu ainda. Não escrevo isto para pedir compaixão por essas vozes, mas para lembrar que elas já pensam, já escrevem, já criticam, com o rigor e a paixão que qualquer campo literário maduro exige. O que falta não é talento, nem vontade, nem sequer obras para debater. O que falta é a decisão colectiva, política, editorial, académica, mas também afectiva, de ouvir Angola inteira, e não apenas o eco que Luanda devolve de si mesma. Desluandalizar a crítica literária angolana não é, portanto, um projecto contra Luanda. É um projecto a favor de Angola, de uma Angola que se reconhece plural desde a raiz, que aceita que o centro simbólico pode multiplicar-se sem se dissolver, e que entende, finalmente, que uma literatura nacional só é verdadeiramente nacional quando todas as suas periferias deixam de ser silenciadas.

©doisquatroquatro

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União dos Escritores Angolanos: o que sabemos da maka da liderança adiada Um ano depois de eleições conturbadas, a União dos Escritores Angolanos governa-se sem secretário-geral. O Tribunal Supremo tem a última palavra.

Sede da União dos Escritores Angolanos, © DQQ

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aio de 2025. A União dos Escritores Angolanos (UEA), a mais antiga e influente instituição literária do país, realiza eleições para a renovação dos seus órgãos sociais. Três listas concorrem e, como é mister, uma é sagrada vencedora. Desde então, uma maka sem precedentes que se arrasta até hoje.

estava inquinado de vícios insanáveis”, como se lê no documento a que a nossa redação teve acesso.

As irregularidades alegadas são várias, como a aprovação do relatório de contas e os documentos eleitorais, em sede da assembleia de 22 de Março, terem decorrido fora dos marcos estatutários da UEA; e a contagem não ter sido, alegadamente, feita na presença das mandatáPassados exactos um ano e três meses, o escritor Lopito rias de todas as listas. Feijó, candidato da lista A e declarado vencedor pela co- Há também uma alegação de inelegibilidade. Lopito missão eleitoral, ainda não tomou posse como secretá- Feijó estaria, à data das eleições, ainda em exercício das rio-geral da UEA. O processo que devia ter encerrado em funções de Vice-Presidente da Academia Angolana de Maio de 2025 está agora nas mãos do Tribunal Supremo Letras, cargo que, segundo as requerentes, é incompade Angola. A instituição funciona, realiza actividades e tível com os estatutos da UEA. recebe escritores, mas num silêncio que não se sabe fim. Fruto disso, o Tribunal procedeu por “ordenar a suspen■ O que aconteceu são de todas as deliberações da comissão eleitoral criada”, o que incluia a de eleição de Lopito Feijó ao cargo de As eleições de 10 de Maio de 2025 decorreram com três Secretário-geral. candidaturas aprovadas pela comissão eleitoral: a lista A, encabeçada por Lopito Feijó; a lista B, por Marta ■ a resposta da uea Maria Manuel da Silva dos Santos; e a lista C, por Maria A União dos Escritores Angolanos, como consta no proManuel Cristina Ananás Pinto. Após as votações, a lista cesso, negou todas as irregularidades alegadas. Na sua encabeçada pelo escritor Lopito Feijó foi declarada ven- versão, sustentou que as requerentes participaram da cedora, conforme divulgado pela DQQ. assembleia de 22 de Março, tendo votadas favoravelNo dia agendado para a tomada de posse, a nossa equipa foi informada de que tal acto não aconteceria pelo facto de ter dado lugar a uma reunião interna, com muitos dos mais antigos membros da casa. Soube-se depois que as candidatas das listas B e C não aceitaram o resultado e que a UEA tentava resolver o diferendo internamente. No entanto, as candidatas das listas B e C intentaram, a 22 de Setembro de 2025, um Procedimento Cautelar de Suspensão de Deliberação Social entrado no Tribunal Provincial de Luanda. Tratava-se do Processo n.º 0093/2025-B, onde alegaram irregularidades que, na sua perspectiva, configuravam um processo eleitoral que “já

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mente as deliberações da mesma, sem nunca, em momento algum anterior aos resultados, terem manifestado intenção de as impugnar. Quanto à inelegibilidade, a UEA argumentou que a prova de renúncia às funções na Academia Angolana de Letras foi apresentada de modo antepado e aceite pela comissão eleitoral. Já sobre o assunto da contagem, terá apresentado documento assinado pelos mandatários das listas A e B como prova de que o apuramento afinal decorreu com representação das partes. A lista C não terá indicada qualquer mandatário.

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Lê-se ainda que a UEA acusou as requerentes de litigância de má-fé e pediu a sua condenação em multa de 3.700.000 Kz, acrescida de indemnização à instituição.

■ um ano sem secretário-geral No final d0 processo, o Tribunal Provincial de Luanda negou a providência cautelar, o que colocaria fim à crise. Sabe-se que as requerentes, no entanto, recorreram da decisão junto do Tribunal Supremo, onde aguarda decisão desde então. Quinze meses depois das eleições, a situação permanece anómala: secretário eleito sem posse e uma instituição que continua a reinventar um novo modo de funcionamento. A UEA foi fundada em 1975, no mesmo ano em que Angola se tornou independente. É a mais antiga e importante instituição da literatura angolana, tendo sido sempre palco de prestígio dos seus membros e da comunidade em geral. Uma crise tão arrastada como essa atinge muito mais que a instituição, atinge toda a vida literária do país. ■ nota editorial A Dois Quatro Quatro espera, com sinceridade que esta crise na Instituição da nossa literatura possa ser superada o mais rapidamente possível em respeito a própria história da União dos Escritores Angolanos. As pessoas se negaram a comentar sobre o assunto para a nossa revista, pelo que deixamos uma questão aos nossos leitores: até quando pode, a instituição-mãe da nossa literatura, continuar a existir sem liderança legitimada?


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Tínhamos um estado que era muito generoso em relação aos livros O passado da Literatura Angolana e da União dos Escritores Angolanos no relato surpreendente de Pepetela

Transcrição da intervenção de Pepetela à margem da edição Angola do Caminhos Amefricanos Programa de Intercâmbio Sul-Sul

Assista o vídeo no nosso canal do Youtube através do código QR abaixo:

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u sou de uma cidade onde havia uma livraria que se chamava Livraria Magalhães, e o Magalhães não tinha medo de mandar vir livros do Brasil, e portanto eu era jovenzito, para não dizer criança, e comecei a ler livros brasileiros. Aqueles mais adaptados à minha idade achava o meu pai, mas eu tinha um tio que tinha outras ideias, mais avançadas, digamos assim, e dizia que eu podia ler qualquer livro, apesar de ter 12 anos, 11 anos. E então eu passava-me alguns livros que o meu pai não queria que eu lesse, e então eu li Capitães da Areia com 11 anos ou 12.

Eu acho que eu devo muito a isso, o facto de ser escritor. Quis sempre ser escritor. Tive a ousadia na escola primária, nas redações de português, naquele tempo, na escola do Salazar, como nós chamávamos, o tema da redação vinha com uma espécie de alíneas, o que é que devia ser escrito, o termo sobre o tema tinha que seguir aquilo. E era sempre a mesma coisa: o cão é o melhor amigo do homem. O cão serve para guardar a casa, guardar a quinta ou a lávora, o cão serve para não sei o quê, para salvar as pessoas que estão em perigo de desafogamento, é sempre assim. Então, eu estava cansado, era sempre a mesma coisa, as redações, o tema mudava, mas era sem-

pre igual. Aquilo parecia, sei lá, um manual,tinha que seguir.

Portanto, aí eu acho que comecei a pensar em ser escritor.

Então, um dia resolvi escrever, já não me lembro qual era o animal, o maior amigo do homem, se era a vaca, se era o cão, se era o burro, se era o cavalo, o quê que era. Já não me lembro, isso não consigo lembrar. E eu arrisquei, escrevi uma historiazinha em que mostrava que o tal bicho era útil para o homem.

E se foi alguma coisa na vida que eu consegui cumprir nos meus sonhos, a independência foi uma, mas ser escritor também.

E quando eu digo para o homem, estou a dizer como se dizia na época, hoje isso já não se podia dizer para o homem, ou para a humanidade, ou para as mulheres e os homens. Quer dizer, eu friso, era da época, linguagem. Bom, para não me acusarem de qualquer coisa. E então, eu pensei, bom, vou ser castigado, e o castigo era físico, sempre. Era a escola do Salazar. Vou ser castigado, mas vale a pena. Escrevi a minha história, entreguei. Para minha surpresa, a professora, que afinal era mais avançada do que eu pensava, pegou na redação, leu para a turma e disse, isso é o que eu gostava que vocês fizessem. Eu disse, alto, alto, vou começar a gostar de escrever redações. E passei, a partir daí, a escrever histórias nas aulas de português da escola de Salazar.

■ Sobre a história da União? No princípio, portanto, quando formamos a União de Escritores Angolano, não sei se para os primeiros livros, mas, pelo menos pouco tempo depois de começarem a sair os primeiros livros, era muito difícil publicar e imprimir livros em Angola. Praticamente, havia só uma gráfica que funcionava minimamente nessa altura. E, então, os livros teriam de ser produzidos no estrangeiro. Houve uma tentativa de fazer isso com um país amigo, que era a Yugoslávia, na época, e era um país amigo. Quer dizer, os mais antigos, percebem esta linguagem, era por razões, digamos, políticas, de campo político universal, mundial; mas não deu grande resultado. E, depois, o secretário-geral da União, o Luandino Vieira, que tinha, depois de sair da prisão, e eu estava na prisão do Tarrafal, em Cabo Verde, foi obrigado a ficar com residência permanente em Lisboa, em Portugal, não em Luanda, que era a terra dele.

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E lá trabalhou numa editora. Criou amizade com o dono da editora, e, então, depois, aqui com o secretário-geral, ele contactou esse editor português que comungava, digamos, da nossa ideologia, de esquerda, na época, e combinou com ele o seguinte: a editora, que se chamava Edições 70, publicava livros angolanos propostos, apresentados pela União dos Escritores. Mas, uma parte, havia uma edição que era para Portugal. Isto para garantir algum público em Portugal que não tinha interesse, na época, na nossa literatura. E, aproveitou-se, também, uma lei, chamamos assim, talvez não fosse lei, mas lei da época, que era a seguinte: a moeda, o Kwanza, não mudava em relação ao dólar. Era 30 Kwanzas, um dólar. E, então, isso permitiu o seguinte: os livros eram fabricados em Portugal, a União dos Escritores pagava o correspondente, tinha que pagar a editora portuguesa pelos livros que vinham para cá, mas pagava ao Banco Nacional de Angola, em Kwanzas, a 30% o dólar. O Banco Nacional transferia para a editora na moeda portuguesa. Portanto, o escudo, na época, era este escudo. Mas o banco, digamos, o Estado angolano, perdia. Portanto, estava a subvencionar enormemente a edição para Angola.

Da maneira que, quando os livros chegavam aqui, mesmo com as despesas de transporta, etc., o preço era baratíssimo. Com a União a ganhar alguma coisa. Era o preço de uma banana. Um livro, uma banana. Era o que nós dizíamos na época. E era verdade. Porque a comida é extremamente cara, para quem só tinha Kwanzas. Mas os livros eram baratos. O que fomentou uma grande compra, por parte dos angolanos, digamos, das pessoas que queriam ler os livros que tínhamos produzido. E houve edições grandes. Quando dizíamos o número de livros, os exemplares editados, os amigos de outros países africanos ficavam absolutamente surpreendidos. Diziam, mas como é que fazem isso? Como é que conseguem?

Nós tínhamos um Estado que era muito generoso em relação aos livros, aos escritores e aos leitores, porque os leitores podiam comprar, de facto, os livros. E aos escritores e aos leitores. Os leitores podiam comprar de facto os livros. Essa é uma das razões que fez com que a nossa literatura começasse a ser conhecida em Portugal. ■ mas e no brasil? E daí também haver brasileiros que acabavam por saber, porque os livros de Portugal também iam para o Brasil, mas eram extremamente caros no Brasil. Até que, por acção, em primeiro lugar, das universidades. Que primeiro foi a de São Paulo, depois foi a UFRJ, depois veio a da Niterói, não me lembro, depois foi Minas, foi-se espalhando até chegar à Bahia. Seria normal chegar à Bahia logo a seguir a São Paulo, mas não foi assim. Demorou um pouco mais. A Universidade de Salvador demorou um bocado a entrar nessa onda, digamos assim, de estudos de literatura africana, particularmente de língua portuguesa. Mas então, aos poucos, houve algumas editoras, além das edições dessa editora [de São Paulo], que era sobretudo para os livros do Partido. Além dela começaram a aparecer outras editoras que, muito timidamente, foram 11

contactando um ou outro escritor. Mas realmente nunca foi ao nível, por exemplo, do que aconteceu em Portugal. Também não havia esse incentivo, digamos assim, dos livros estarem lá em Portugal a um preço competitivo em relação aos livros que eram portugueses ou outros feitos em Portugal. Essa foi uma das razões. Alguém perguntou qual era a mensagem principal que se passava nos nossos livros. Bom, eu acho que houve uma mensagem que, talvez nos primeiros, e sobretudo nos primeiros anos depois da independência, era uma preocupação grande com a formação da nação angolana. Aliás, havia uma palavra de ordem que era um só povo, uma só nação. Era um dos objetivos, digamos assim, da luta até pela independência. Mas depois houve a própria evolução ou involução, capaz de ter esclarecido esse dilema do país.

Começaram a surgir muitos outros temas, muitas outras mensagens. Infelizmente, mensagens contraditórias. Infelizmente não, felizmente! E hoje... bom, há de tudo. Há, como em todos os países. Há, talvez, um aspecto que foi já falado aqui, mas que tem pouca incidência ainda na literatura angolana, que são as questões de género. Nesse aspecto, acho que há um certo conservadorismo da sociedade, das famílias, e que fazem com que os escritores não avancem muito por essas vias, digamos assim. Muito pouco. Mas é uma questão de tempo também. A literatura é universal e vai sendo cada vez mais universal, e a nossa também vai ser cada vez mais universal, tocando problemas que não tocariam antes. Bom, é isso que eu queria acrescentar. ■ 50 anos de independência. como estamos no campo da literatura? Bem, realmente, 50 anos de literatura é muito, não é? É muito e, portanto, há muitas opiniões diferentes, mas ela é variada, mantém-se viva. Há gente que ainda continua a escrever ou que quer começar a escrever e já toca em muitos aspectos, e que não só aqueles com os quais começou, não é? Já toca em problemas que são de todo o mundo.

Portanto, acho que se tivesse mais apoio, eu diria que o futuro seria promotor. Mas como não tem apoio, não sei. Falo apoio oficial. Precisava ter apoio oficial. É prometido, mas não é cumprido. E os prêmios literários ajudam. Ajudam as pessoas a interessar-se. De qualquer maneira, saem no jornal, saem na televisão, saem na rádio. Isso chama a atenção para os livros, não só para aqueles que ganham prêmio, mas para a própria literatura. Infelizmente, parece que pararam. [apelo] Que se retome esse bom hábito (...)

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Prémio Arnaldo Santos, duas respostas necessárias Após três edições realizadas, com a quata já em curso, apenas uma obra publicada. E além disso, uma questão de inédito belisca a última distinção.

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Prémio Literário INCM Angola, agora renomeado Prémio Arnaldo Santos, em homenagem ao escritor angolano dos anos 50, é um galardão vinculado à Imprensa Nacional-Casa da Moeda de Portugal, criado para distinguir jovens escritores angolanos no domínio da prosa. Com um valor de 5 mil euros e a publicação da obra vencedora sob chancela da Imprensa Nacional, o prémio é um dos mais cobiçados por jovens escritores.

mo, que a cada nova edição anunciada, o compromisso editorial com os vencedores anteriores esteja cumprido.

A principal peocupação dos escritores é com a publicação, uma vez que tem sido a principal dificuldade enfrentada por eles. Em meio ao isolamento internacional das novas vozes da nossa literatura actual, a publicação pela Imprensa Nacional representa acesso real ao mercado lusófono, com distribuição, feiras do livro, visibilidade internacional. Tudo que o mercado angolano não Depois de três edições, tendo a quarta já com candidatu- entrega nem para os mais conceituados. ras abertas, o prémio levanta dois silêncios que a comu■ a maka do inédito nidade literária angolana não pode deixar de questionar. O segundo silêncio é mais mais grave. O regulamento do ■ três edições, um livro Prémio Arnaldo Santos impõe que a obra submetida a Das três edições já realizadas, o prémio produziu três concurso tem de ser inédita. De início parece uma convencedores: Sérgio Fernandes, Nem Vara, Nem Cajado; dição normal em vários prémios desta natureza, já que Israel Campos, Baloiço de Memória e Jeremias Manuel, O visa distinguir a criação original que não foi exposta ao Estado de Kalumbunze. E destes três vencedores, apenas a público. obra de Sérgio Fernandes foi publicada, estando as res- No entanto, no período que antecedeu o anúncio do ventantes duas, segundo verificado no site da INCM, “em cedor da 3.ª edição, circularam nas redes sociais excertos da obra O Estado de Kalumbunze, de Jeremias Manuel, publicação”. incluindo uma capa e anúncio de “brevemente” pela Elivulu Editora. Isso claramente levantou uma discussão que encontrou contornos na Dois Quatro Quatro e demais jornais, se pode uma obra parcialmente divulgada ser considerada inédita. Por ser uma questão que atingia o mais recente prémio, a comunidade literária angolana esperou por um esclaEm conversa com a nossa equipa, aquando do lançarecimento da parte da organização, se essa divulgação mento da obra “Construir Amanhã com Barro de Dentro”, foi avaliada no processo de selecção e se está, ou não, em Israel Campos, vencedor da segunda edição, disse desconformidade com o regulamento. O silêncio institucioconhecer quando o livro será de facto publicado. A sua nal sobre este ponto não serviu, nem aos interesses dos espera já dura quase dois anos. concorrentes, nem do vencedor e muito menos serve a Regressando à publicação, Jeremias Manuel, com O Es- credibilidade do prémio. tado de Kalumbunze, aguarda igualmente a sua vez na fila. No entanto, é público que já estão abertas, desde 5 de ■ resposta da organização Maio e até 31 de Julho de 2026, as candidaturas à 4.ª ediA Dois Quatro Quatro submeteu questionário formal ção do Prémio. à INCM sobre o estado das publicações e a questão do Muitas pessoas com quem falamos temem que o Prémio inédito. Em resposta, Tania Pinto Ribeiro, Diretora de esteja a iniciar um padrão, já que é esperado, no míni- Comunicação e Marketing, esclarece o seguinte:

“Este prémio foi instituído com o propósito de promover a língua portuguesa e incentivar a criação literária angolana. Ao longo das suas edições, o prémio tem registado uma participação significativa, refletida no número de candidaturas recebidas e no crescente interesse que tem suscitado junto da comunidade literária.” E relativamente às questões, ela esclarece que “a obra Baloiço de Memória, de Israel Campos, vencedora da 2.ª edição (2024), encontra-se atualmente em fase de edição, com contactos regulares com o autor, integrando o normal processo editorial da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.” Já “a obra O Estado de Kalumbunze, de Jeremias Manuel, vencedora da 3.ª edição (2025), encontra-se prevista no plano editorial de 2026.” Sobre os prazos, ela esclarece que “o regulamento do Prémio prevê, no seu artigo 3.º, como parte integrante da distinção atribuída, a publicação da obra vencedora. Contudo, não estabelece um prazo específico para essa publicação.” Tal situação “prende-se com a natureza do processo editorial, que, naturalmente, varia de obra para obra em função das necessidades de revisão, preparação editorial, tempos de resposta dos intervenientes e demais procedimentos inerentes à edição, podendo alguns projetos exigir um trabalho mais aprofundado do que outros.” Mas adianta que “ambos os títulos têm, contudo, publicação prevista ainda durante o corrente ano, estando o seu lançamento programado para o período compreendido entre os meses de novembro e dezembro deste ano. Por fim, garante que “a Imprensa Nacional-Casa da Moeda mantém sempre o compromisso de assegurar a publicação das obras vencedoras, respeitando os padrões de qualidade editorial que caracterizam a sua atividade.” Relativamente à questão do inédito, Luis Ferreira, da mesma direcção, esclarece que “considera-se uma obra inédita uma obra que nunca tenha sido editada e publicada em livro, na íntegra, seja por uma editora, seja em edição de autor.”

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Inteligência Artificial na Literatura: destruição ou criação?

A Dois Quatro Quatro® foi atrás de opiniões sobre o uso da Inteligência Articifial na Literatura, se um acto de destribuição ou criação. Assista no Youtube.

Para a arte, eu acredito que a Inteligência Artificial não é tão útil assim, principalmente para a Literatura, porque [...] tem esse lado mais humano que uma inteligência artificial não pode atingir de nenhuma forma.

“

■ JOSIAS CURRIE

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A Inteligência Artificial é uma ferramenta que pode ser usada pelo escritor. Agora, aquilo que não pode ser é usá-la na totalidade, porque quem cria é sempre o homem. ■ DOMINGAS MONTE

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Nós não temos como lutar contra a Inteligência Artificial na Literatura [no sentido de não existir]. Porque a inteligência Artificial veio para ficar, não só no campo da Literatura. ■ DESTINO VENTURA

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Na época, eu achava que era o Saramago e que estava a reinventar a roda

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Era isso. Era uma criança normal, alegre. Típica criança luandense, barulhenta.

Eu quis ser mangaka antes de virar escritor, mas como dá para passar menos fome sendo escritor, virei escritor.

É o tipo de ser humano explosivamente bonita e determinada a viver. Não existe nada que possa acontecer que faça uma criança luandense ver o mundo de uma forma mais escura, mais negra. Se não tiver bola, ela faz de saco. Se não tiver carro, ela faz de lata.

uzeri Kizenza é um jovem luandense que gosta muito de arte. Sou fã de fotografia, cinema. Inclusive, entrei na arte não pela literatura, mas pelo desenho. Desenho minimamente de forma decente.

Sou formado em cardiopneumologia, também em Técnicas de Enfermagem, no ensino médio. Eu já estava na literatura antes da Cardio. A Cardio é que se adaptou a essa escritura aí. de onde é? Sou de Viana, na estalagem. Inclusive, o meu segundo livro que ficou público, que foi o Se Meu Coração Falasse, que eu cheguei a lançar em 2018-2019, ele se baseia muito nas histórias que eu vivi na infância. É um livro, para quem lê, que se assemelha muito aʹOs da minha rua, do Ondjaki. como era a tua vivência em Luanda? Quando era mais novo, era bem traquinas. Eu passava o dia na rua. Saía às seis horas e voltava às dezenove horas. Era todo baucado, sujo. Levava surra. Era uma criança muito alegre, muito à vontade. Passava mais o tempo a brincar. Inclusive, lembro agora, eu era um bom contador de histórias quando era miúdo. Grande aldrabão. Aldrabava pra caramba os meus kambas. Porque sempre que eu saía, voltava tarde e me ralhavam. Aí eu contava uma versão bem diferente do que aconteceu um dia antes.

E foi ali que eu comecei a perceber que eu tinha jeito para isso. Mas não pensei em virar escritor em nenhum momento. Transportei isso para o desenho. Fazia bandas desenhadas e contava histórias a partir daí.

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como achas que é uma típica criança luandense?

De alguma forma, ela encontra uma forma de passar a viver. Como se a vida, e essa força que é mesmo espiritual, na infância do luandense, se forçasse a sair. É como se a realidade tentasse prender isso, mas ela encontra alguma forma de se esgueirar, tipo água ou luz. Sempre encontra uma brecha para sair. e na literatura, como começa tudo? Foi em 2015. Eu comecei a flertar com a ideia de escrever quando eu descobri o Wattpad. Comecei a ler alguns livros. E eu li um livro, que era um romance juvenil adolescente, que depois de ler eu fiquei tipo: eu poderia fazer uma coisa melhor aqui. Eu poderia contar dessa forma, eu poderia falar assim. E aí eu fiz uma fanfic dessa fanfic, que era uma fanfic de um outro livro. E eu achei que ficou boa. Olhando para trás, não ficou assim tão boa, mas lembra que parecia boa. O título... acho que é Jurema. Mas deixei para lá. Então, quando eu fazia bandas desenhadas, eu criei uma espécie de universo, semelhante ao da Marvel, com vários super-heróis e tal. E antes de eu fazer os desenhos, eu fazia algo semelhante a um roteiro. Colocava as falas, os nomes dos personagens e tudo mais. Uma vez uma colega minha chegou, pegou o caderno para ler a história. Disse: isso está fixe. Gostei mais disso do que de desenhos que você faz. Pensei: é ofensivo, mas... Depois, quando eu parei para pensar, e aquilo tem uma estrutura já aí.

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E passei a dar ao resto dos outros roteiros, das outras histórias para ela avaliar. E ela gostou. Ela lembrava dos nomes dos personagens, da história em si. E aí os outros colegas também começaram a dar uma olhada e estava até um feedback positivo. Aí juntando isso, mais a fanfic da fanfic que eu havia feito. E ela disse, acho que aqui dá para fazer alguma coisa.

Comecei a escrever. E eu me lembro que, na época, achava que eu era o Saramago, que estava reinventando a roda. Estava reinventando a literatura angolana. Mas depois eu percebi que aquilo que eu produzia não era assim tão gostoso de escrever. Não era assim tão apreciável na questão literária. Porque, quando eu fazia os roteiros, era só fala, nome e fala do personagem. Escrever um pouco a cena. Quase que um teatro. Agora, toda aquela estética literária, descrição do que o personagem faz, onde ele está, os pensamentos e tudo mais. Não era uma estética assim muito bonita, não era algo agradável desse jeito. E eu tive essa dificuldade de encontrar uma voz própria para contar a história. Agora imagina que comecei a me aventurar a ler Bukowski, a ler Dostoyevsky. E por aí vai. John Green, na época, era muito badalado. Homem de A Culpa é das Estrelas. Mistura tudo isso e tenta fazer uma história. Era uma bagunça, um Frankestain literário. E por causa disso, quando eu comecei a ver que o que eu fazia não era assim tão bonito, porque arte precisa ser bonita [é a minha opinião], então, comecei a deixar para lá, que não vou mais fazer isso. E assim, comecei a fazer em 2015, 2016. Dos meus 16 aos meus 18, parei de escrever. Fechei. Porque aquilo que eu estava a escrever, para mim, não era o que achava que podia fazer melhor.


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e como te sentiste neste período? Normal. Era uma coisa que estava nas cenas, mas não tinha ainda a forma nem a estrutura em mim. Então não tinha uma ânsia ou uma necessidade de continuar ou de fazer novamente. E aí deixei isso aí. E como não existe uma voz própria, então não tinha o que me incomodar. Continuei a desenhar. E geralmente, quando eu digo que sei desenhar, a pessoa chega e fala para fazer um retrato. Eu desenho, mas não é esse tipo de desenho para retrato. Eu desenho mais paisagens e faço mangás. continua? que relaçãoentre desenho e escrita? Continuo. O desenho ajuda. E eu tenho a graça, vou soar meio arrogante, de não ter os chamados bloqueios artíticas ou literários. Não sei se é porque geralmente estou fazendo coisas diferentes, não sei.

lhança com aquilo. Ainda tem vestígios, como brinca um amigo meu, mas nem tanto como havia no início.

nheci outros escritores angolanos e que também me ajudaram muito. Mas foi a partir daí.

Antes, você pegava uma coisa minha, você dizia que isso é plágio do Ondjaki. E eu, ao ver isso, ficava com muito orgulho. Para mim não era um problema. Mas ajudou muito. Eu passei a ter um direcionamento sobre como eu gostaria de contar as histórias. [sobre] que tipo de escrita eu queria ter.

Como é que sentiste participar do sessão de escrita criativa com Ondjaki?

E era aquela parte da voz que eu estava procura. Por isso, eu acho muito importante quem escreve, ou quem pensa em escrever, ler. Leitura é muito, muito importante para quem escreve.

Então, sou forçadamente obrigado a ficar inspirado: se não estou a escrever, estou a desenhar.

É muito clichê dizer que foi uma hora, né? Mas, tipo, antes disso, antes disso, eu havia escrito uma novela baseada no poema Namoro. Depois escrevi o Se Meu Coração Falasse e tentei participar no Prémio Imprensa Nacional. Não ganhei. E foi então que eu tava a navegar no Facebook e vi o anúncio da oficina de escrita que a Kiela estava organizar. Peguei um conto que eu já escrevi e, inclusive, achei que o Ondjaki seria um dos júris que selecionaria os candidatos. Então, peguei no conto que eu escrevi muito parecido com a escrita do Ondjaki e falei que quando ler, vai pensar e sentir: isso aqui é parecido comigo. Vai encontrar a voz dele e vai deixar passar. E eu me inscrevi no dia que iam fechar as inscrições.

Mas eu, às vezes, sinto que se não tivessem me chamado, se eu não tivesse passado, eu acho que eu não estaria aqui agora. Por isso que eu acho a figura do Ondjaki como escritor muito importante para mim. Se eu não tivesse encontrado os livros dele naquele dia, talvez, eu não teria continuado a escrever.

Se não estou a desenhar, estou a escrever poesia. Ou estou a fazer fotografia. Então, tenho sempre alguma forma de inspiração. Mas eu percebo que os desenhos me ajudam a ter uma visão mais clara do que eu estou a contar. Principalmente na descrição, nas cenas e ainda mais na apresentação poética das coisas. Eu tenho muita dificuldade em fazer poesia como tal, naquela estrutura que nós conhecemos.Mas consigo fazer poesia em uma prosa com muita facilidade. E eu vejo isso por causa do desenho.

E se talvez eu não tivesse sido selecionado para aquela oficina, eu também teria parado. Sempre que eu tenho que parar, ele aparece. É uma influência muito forte para mim.

Eu tenho essa coisa de desenhar os espaços, as histórias que eu quero contar, seja mentalmente. Por exemplo, eu desenhei o Ausentes, o livro que venceu o Prémio GGMF. As histórias estão desenhadas.

Quando eu cheguei lá e fui conhecendo, interagir com ele, mudou totalmente a forma como via o ser escritor e o escrever. Ela teve uma influência muito positiva. E graças a essa oficina, oficializou aquilo que eu pretendia, que era ser escritor.

Então, isso me ajudou. Fica muito mais fácil escrever depois. As histórias já existem. Eu só convirto o desenho para letras.

Participamos e tivemos a bênção de ter os contos que produzimos numa antologia o Aconteceu em Luanda. E aí eu vi: agora sou escritor, já não posso parar. Já não tenho volta.

como você regressa à escrita, depois da pausa? Eu regresso numa quinta-feira, na Mediateca de Luanda, quando eu procurava livros para ler. Acho que na época havia acabado de ler Malu de Bicicleta. E estava a procura de um outro livro e eu encontrei o Quantas Madrugadas Tem a Noite do Ondjaki. Eu nunca havia lido algo com aquele tom assim angolano, contemporâneo, descontraído. E eu me identifiquei muito com a forma que ele contava a história ali. Eu disse: eu não sei se um dia vou escrever assim, mas eu quero escrever algo parecido com isso.

Porque ajuda as pessoas a direcionar. Não só a estética da escrita, mas também como quer contar a história, como quer impactar a história, como quer passar aquilo. Porque a escrita é uma coisa muito humana.

E eu fiquei fissurado, procurei tudo do Ondjaki. Encontrei Uma Escuridão Bonita. Para mim, um dos livros juvenis mais bonitos. Encontrei Os da Minha Rua e basicamente foi o que me ressuscitou.

Quando você tenta artificializar, não sei se a palavra existe, mas se não existe, agora existe; tenta tornar muito artificial, mecânico, metódico, científico demais, eu sinto que perde muita vida.

Li quase tudo que eu podia ler do Ondjaki. Piratiei muito livro do Ondjaki. Li quase tudo dele. Foi como descobrir o ouro, eu queria ver onde tinha mais, quais das cavernas tinha mais ouro. E fui lendo, fui lendo, fui lendo. acha que ondjaki te ajudou a escrever?

Agora, quando você consegue passar vida para outra vida, foi isso que eu senti lendo Ondjaki, era um humano contando uma história da forma mais humana que ele podia contar. E aí, eu recebi aquilo como espelho, me identifiquei com aquilo.

Ajudou, ajudou muito. Actualmente, eu já não sinto, às vezes, comparo a escrita. Eu já não sinto muita seme-

E disse que também quero contar histórias assim para os outros, dessa forma humana. E claro que depois co-

Mas a oficina teve um grande impacto em mim. Inclusive para a construção do Ausentes, foi parte de muita coisa que eu aprendi lá. Muita coisa. Achas que a tua voz é a de uma criança? Eu acho que já foi. A minha voz já foi mais infantil, no sentido de limitar, às vezes, a forma que eu vou contar a história, a profundidade de como eu vou contar. Não que as crianças não conseguem ser profundas. Conseguem. Mas eu me limitava muito a falar certos assuntos, a tocar em certos aspectos, a apresentar certos personagens. Então, eu considero que aquilo era uma forma mais infantil de contar a história.

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Você não ia contar um personagem mentiroso ou alcólatra, que espanca alguém e que fala palavrão. E são coisas que a pessoa aprende e diz que é errado, como uma visão mais infantil que acha que o mundo só é bonito ou só é adequado se todo mundo for mais ingênuo, mais puro.

É o ritmo. Vamos apresentando traços de pessoas que nós lemos até que chega um ponto em que só resta o nosso. E dali caminhamos sozinhos.

caiu no chão. Eles até haviam mandado o e-mail antes, mas eu não tinha notado.

Todos os personagens eram bons. Ninguém era uma má pessoa. Todo mundo era uma boa pessoa.

o que te levou a te inscrever no Prémio GGMF?

Foi muito rápido. E eu fiquei muito feliz, porque, como eu disse, não era o que eu contava. Acho que foi bom, fui surpreendido de uma forma muito positiva de uma forma muito encorajadora.

Mas actualmente acho que não. Acho que a voz cresceu com o artista. E além do Ondjaki, quais outros escritores formam o Muzeri actualmente? Além do Ondjaki, teve Ana Paula Tavares e Viriato da Cruz. Eu acho que lendo a poesia do Viriato da Cruz começou a me tornar mais maduro, mais adulto. E Ana Paula Tavares também. Por exemplo, Ana Paula Tavares tem uma forma de tocar alguns assuntos que podem ser delicados. De uma forma que se eu dizer poética ou bonita fica clichê. Uma forma muito elegante, interessante e de uma forma mais do que adulta, às vezes até sacerdotal ou espiritual. É uma forma de escrita muito madura usando poesia. Além de Ana Paula Tavares, Gociante Patissa também tem uma grande influência, principalmente naquela ideia de como estruturar contos e como direcionar uma Luanda mais contemporânea. Gociante Patissa também teve uma grande influência em mim.

Não sei se eu devia apontar isso. Como eu já mencionei antes, eu já havia tentado na imprensa nacional. Acho que em 2018 ou 2019, sei lá. Dezoito ou dezenove. Não havia vencido. Depois dali, eu não tinha a pretensão de participar de um prémio literário novamente. Mas eu tenho um amigo que também escreve. Ele ia participar do GGMF. E ele me mandou o livro, disse que ia dar uma olhada e ver como estava. E estava muito bom. O livro era muito bom.

Mas depois fui conhecer o concurso e fiquei encantado. Gostei daquilo que eu vi. E despertou meu interesse genuíno de querer participar. E como eu já tinha a ideia da história. Na verdade, era um conto ainda. Aquilo era um conto que virou um livro de contos.

Há muitos outros, mas esses três são os principais. como a poesia ajuda no teu processo de escrita?

Você escreveu o livro vencedor em duas semanas?

De forma bem objetiva, a poesia, para mim, é uma espécie de bússola para saber como vou contar histórias. Ela me dá uma certa robustez estética para escrever. E também, é da poesia que nascem a maior parte das minhas ideias.

Em duas semanas. Mas não criei a história em duas semanas. Eu já tinha as histórias em mente. Só ajustei, adaptei para enquadrar no tema original do livro. Mas foi escrito em duas semanas.

E eu escrevo muito porque eu leio muito poesia. Quando entro na poesia, geralmente retorno com alguma coisa nova para mim que eu posso desenvolver para criar algo novo também para os outros. e como separaste a influência da tua voz? Eu acho que foi uma coisa muito natural e orgânico. Eu nem percebi isso acontecer. Mas acredito que a diversidade autores que eu tive acesso depois influenciou muito nisso. Porque eu vi que existem outras formas também de contar histórias, outras formas de apresentar uma história, de apresentar personagens e diferentes estilos. Não sei se foi algo meu ou consciente, porque toda vez que eu escrevia eu percebia que tem aqui o traço do fulano. E aí, pouco a pouco você vai se descobrindo nessa diversidade. A literatura tem uma coisa meio espiritual, como com os ancestrais. Nós temos os traços genéticos de todos eles e na literatura também, cada autor que você teve acesso foi construindo, se expressa de alguma forma naquilo que você escreve depois.

Quando nós fazemos algo artístico, saber que o que você produz é apreciado de alguma forma e que possui certa relevância, é gratificante. Faz todo o esforço valer a pena.

E eu disse: olha, se você participar nisso aqui, você vai ganhar. Mas se você ganhar, vai ganhar com muita facilidade. Então eu tenho de entrar para te atrapalhar um coxe.

Era uma ideia que já andava comigo, para ser um conto. Para usar alguma coisa, tipo numa antologia ou em alguma coisa assim parecida. E aí, quando eu entrei nisso, faltavam duas semanas para fecharem as inscrições. Então tinha duas semanas para fazer o livro.

Tem um poema, não sei se é um poema, mas é citado no trecho que diz estou bem onde não estou. Eu li isso uma vez. Quando eu li, pensei sobre muita coisa, mas basicamente o livro Ausentes parte de várias ideias que eu tive por causa desse trecho.

E depois começaram a me marcar nas redes sociais e tudo mais. Foi maravilhoso. E quando veio a Dois Quatro Quatro eu falei que o mambo era à sério.

Em duas semanas. Escrevi o livro. Submeti a candidatura dois minutos antes de fechar. Até disse: isso aqui acho que não está bem completo. Mas vai ser assim, já escrevi. E aí mandei. 23h58, se não me engano. Até ainda tentei me justificar. Olha, mandei dois minutos antes e ainda vale! Não podem me dizer que eu mandei tarde a candidatura. E aí mandei. Depois, até achei que não ia passar, que eles considerariam inválido devido ao tempo de submissão. Aí depois estou a entrar no Facebook e estão a me marcar que estava no top 10 dos finalistas. E aquilo despertou muita atenção. Inclusive, só fiquei a saber dois dias depois de publicarem. como te sentiste ao saber que estas nos 10? Foi uma surpresa muito boa. Eu cheguei a dizer que se eu tiver a menção honrosa, para mim, está bom. Não achava que chegaria tão longe assim. Eu achei que chegaria a algum ponto, mas não tão longe. Quando eu vi que estava no top 10, eu falei que já ganhei, que aqui está fixe. Se vencer, ou outra pessoa vencer, já está de bom tamanho para mim. E aí depois a notícia de que eu era o vencedor. E aí, só alegria. onde estava? fazendo o quê? Eu estava a dormir. Deixei os dados ligados e as notificações estavam aí toda hora. O telefone vibrou, vibrou e

Aquelas duas semanas, por exemplo, fiquei dias dormir, sabe? Quando eu vi que ganhei, falei que valeu a pena. Valeu a pena. E quando você vence, o que faz de seguida? Olha, eu lembro que fiquei a gritar pela casa toda. Eu fiquei a gritar. Eu e os meus irmãos. Porque quase tudo o que escrevo, eles acompanham. Tanto que eles são os primeiros a lerem e a dizerem se está bom ou não. E estavam a gritar que ganhamos. Estava a parecer até que eles escreveram o livro e eu não. Foi uma gritaria. Fiquei bem contente. Fizemos uma mini festa já aí. Comemoramos em família. Mas depois daquilo, eu fiquei umas duas semanas bem sóbrio: não li nada e não escrevi nada. Estava só processar, porque agora já tenho um livro só meu. Qual a importância desses prémios para nós? Uma das coisas que eu percebo é que o prémio literário confere a credibilidade e pode abrir portas para outras coisas. E além de conferir credibilidade, confere autoridade, não apenas no mercado literário angolano. Você vai ter um livro publicado. Além do livro, tem um título acompanhado no livro: escritor premiado. Por isso que você vê na biblioteca. Por que fazem isso? Porque atribui credibilidade e autoridade na pessoa como escritor. E também permite dar um senso de propósito na pessoa que escreve, num direcionamento: você virou escritor, fez um livro e agora tem esse propósito em todo o seu trabalho. Vai em frente.

Acompanhe a entrevista completa no nosso Youtube

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crítica A Fisionomia de Uma Sociedade Violenta na Quintilha Clássica de Arlindo Barbeitos *AC Khamba

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m nossos tempos, pelo que temos visibilizado, as pessoas que conferem a decisão ou não metem bálsamo até às coisas graves: ao estupro, coloca-se a calma; à pedofilia, mete-se a calma; à violação de menor, mete-se a calma. Ao tentarem colocar a posição e a decisão, faz-se de forma isolada e leve; Ninguém quer saber quando se agride as crianças do género feminino, ainda que consciente os actos ocorrem, porque a actuação da Lei é selectiva. As infracções tornam-se a cada vez mais suspeitas, que não seria, já que só é crime enquanto visibilizado e muitas vezes as pessoas vêem ou assistem aos abusos de menor, de pedofilia e de estupros, até às pessoas que deviam servir como exemplar no país. Por esse motivo da Lei que morre nas mãos dos homens, a deixar o país desestruturado e com actos maléficos na vida dos cidadãos, decidimos escrever ou reflectir a quintilha de Arlindo Barbeitos, um poema sem título, no livro Nzoji (Sonho), onde o labor estético-temático chama-nos atenção de ser um dos sonhos do autor para um país que hoje não é, daí o nosso título ser: A fisionomia de uma sociedade violenta na quintilha clássica de Arlindo Barbeitos. “Arlindo Barbeitos” é pseudónimo literário de Arlindo do Carmo Pires Barbeitos, angolano, nascido em Catete, a 24 de Dezembro de 1940. Foi professor universitário no ISCED-Lubango, combatente do MPLA contra a soberania portuguesa em Angola e membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Autor das obras «Angola Angolê Angolema (1975), O rio estórias de regresso (1985), Fiapos de Sonho (1990), Na Leveza do Luar Crescente (1998), Nzoji (Sonho), publicada em 1979 e reeditada em 2020 por União dos Escritores Angolanos e Editora das Letras, neste último, entre os 47 poemas, consta o poema (sem título) para o nosso exercício. Eis o texto poético: uma florinha uma pedra debaixo da pedra um dedo sobre a pedra uma boca que grita (Arlindo Barbeitos, 2016, p. 14)

Para a compreensão do texto poético em estudo, primeiramente, vimo-nos a praticar os conceitos de estrutura social e estratificação social em Carlos Eugénio Lemos e José Henrique Organista, na obra Estrutura Social e Mudança Social, em que nos fazem compreender que, se olharmos o mundo à volta do homem, “todas as acções ocorrem dentro de estruturas sociais”, e se a estrutura social for definida tal como estes autores a definem, sendo “os elementos que formam um todo”. O que se ex-

trai da quintilha de Arlindo Barbeitos é exactamente um conjunto das partes da estrutura social angolana, que fica cada vez mais agressiva, porque o estupro, a pedofilia e a agressão sexual são agora vistos como corpos imanentes da estrutura social angolana desde a efectividade massiva da fome, do pouco pensar, da vaidade absurda no agir e no estar e do caos que toma os lugares da reflexão e respostas: universidades e outras instituições. Estes autores, que também se apresentam como professores, resumem uma estratificação social que inclui todos como partes da culpa ou resolução das situações que ocorrem, ou seja, “as estruturas sociais são dinâmicas e podem ser interpretadas das mais variadas maneiras. Não existe apenas uma visão sobre quais seriam os aspectos mais relevantes para caracterizar e explicar os padrões de uma dada realidade social”, daí que, mais a fundo, se percebe a intenção do que nos querem transmitir a partir da ideia da unidade.

A estruturação de uma sociedade é uma tarefa para todos: se alguém denuncia, deve ter alguém que prende, posteriormente alguém que julga para condenar ou não. A palavra Nzoji, em português «Sonho», título da obra em exploração, o autor traz como uma proposta que reflecte seu sonho, como gostaria de ver Angola no futuro, a nossa época. A técnica que insere a temática do poema é alerta e conscientização, e isto coloca em quase todos os textos, por isso não faltaria nos signos do poema em estudo, que de certo modo acaba ser uma temática actual e que muito desorganiza a actual sociedade angolana. Para a melhor compreensão, fizemos uma distinção entre o sonho na Europa e o sonho em Africa. Na perspectiva europeia, o sonho terá maior impacto ou teve mais sustento na obra de Sigmund Freud. S. Freud (citado por Oliveira, 2018, p. 28) diz que “(…) o sonho é derivado, de algum modo, da experiência, ou seja, foi produzido ou lembrado no sonho”, em poucas palavras, diríamos, «o sonho é a reprodução daquilo que vimos ou

vivemos durante o dia». Na perspectiva africana, traduz-se nos sinais, “O inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, mas o inconsciente colectivo é constituído essencialmente de arquétipos” (Messias, 2016), ou seja, o que não se sabe de uma pessoa consiste em sua maior parte de muitas coisas não completas, mas não é o mesmo do colectivo, do colectivo são as partes já conhecidas, por isso para o africano as partes do inconsciente individual pode ser a parte conhecida do inconsciente colectivo, portanto, e a visão de sonho trago por Arlindo Barbeitos não se ausenta das duas perspectiva, porque representam as duas dimensões que, diariamente, confrontados, são factos que das sociedades angolanas. Em Arlindo Barbeito, tendo o sonho no conceito mais virado para a perspectiva africana ou mesmo tendo um tratamento da explicação na psicologia africana, onde “o sonho é um evento comunicacional que se compartilha entre a visão espiritual e capaz de remeter as pessoas aos aspectos culturais”, é narrado pelo contexto de semelhança ao que se revela durante o sonho, tanto é que, “a pessoa é capaz de ir até a casa da pessoa que sonhou e acusá-la de feiticeira”, isso depois de ter a pessoa no sonho. E esta relação entre o ontológico e o imaginário, que passa pela relação entre os homens e as imagens dos homens faz com que o escritor Arlindo Barbeitos transporte a mesma ideia entre o objecto no texto e as pessoas fora do texto como uma reflexão que devia servir para os dias como hoje. Como se o escritor nos passasse um sonho que agora nos remete acusar esta nossa sociedade, até porque há muita relação entre o espaço digital (o texto) e o espaço analógico (o físico ou a realidade de Angola), onde podemos interpretar uma florinha / uma pedra, ser o mesmo que “uma criança/ uma pessoa adulta”; debaixo da pedra/ um dedo sobre a pedra como se dissesse “de baixo do órgão feminino/ um órgão masculino; uma boca que grita como uma boca que pede socorro ou ajuda, e como se traz a florinha, traduz-se sendo uma criança. Com esta temática que incorpora a nossa realidade sobre os abusos sexuais, a pedofilia (uma pedra

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DOIS QUATRO QUATRO a uma criança) e violação de menor (uma florinha com uma pedra), dá-nos uma visão que nos permite acusar o estado integral da sociedade angolana, reitera-se a leitura do poema: uma florinha uma pedra debaixo da pedra um dedo sobre a pedra uma boca que grita (Arlindo Barbeitos, pág. 14) Se «uma florinha» for compreendida, caso se vá buscar a fase inicial da adolescência apresentada por Gian Piaget, por uma «nova mulher», esta que se apresenta no intervalo do desenvolvimento humano entre 11 a 14 anos de idade, claro que uma pessoa nova ou criança sempre será indefesa. E «uma pedra», a pedra que se traduz numa pessoa adulta e insensível, até porque toda pedra, no nosso tempo, sempre terá mais tempo de existência em relação às pessoas, porque ela, a pedra, claramente é um ser bruto ou insensível, fazendo referência neste contexto, precisa de prisão quando tocar a uma criança. Portanto, «uma florinha / uma pedra» é uma estrofe que se estende na nossa consciência como a imagem de uma pessoa adulta sem qualquer sensibilidade a uma pessoa nova, esta pessoa nova consequentemente a indefesa. No terceiro verso do poema, «debaixo da pedra», pela voz poética, apresenta-se-nos um outro valor semântico de «pedra», sendo a pedra não ser uma pedra simplesmente, a pedra estar relacionada a um objecto-lugar precioso no ser humano, contrário da pedra no segundo verso do poema, «uma pedra». Embora não ter saído do estado natural de minério, traz-se a pedra com um significado de «diamante», e seguir o significado de «diamante» para sinalizar que seja pedra no quarto verso do poema, «um dedo sobre a pedra», ainda que esta pedra fosse remetido ou levado ao valor semântico do órgão feminino, na cultura angolana acarreta um significado de último alcance na juventude, não pode um adulto abusar do que não tem licença.

A passagem sugere um lugar a sul do corpo de uma pessoa preciosa, uma pessoa de certo valor, aqui, obviamente, o corpo de uma criança, de uma mocinha, uma iniciante ou uma adolescente da primeira fase. E «um dedo sobre a pedra» sugere o encontro de dois órgãos genitais, o «dedo» sendo o órgão genital masculino e a «pedra» o órgão genital feminino. Num sentido mais amplo sobre o objecto no poema, dir-se-ia, a par do sonho nesse poema, que Arlindo Barbeitos traz a imagem de um acto sexual não ético, imoral e ilegal, o acto sexual que ocorre entre os adultos às crianças, caso se considere «uma pedra» como «uma pessoa adulta sem sensibilidade» e «uma florinha» como «uma uma mulher nova e indefesa», tal como nos deixa claro o último verso «uma boca que grita», obviamente que o grito neste verso denuncia a desconcordância de um adulto a uma criança, a negação de a outra pessoa ser bruto, denuncia o lado que nos remete ao pedido de socorro que tem havido sempre nas crianças quando passarem por isto. O sonho de Arlindo Barbeitos, neste poema, é exactamente encerrar a dimensão estética correspondentes à pedofilia, ao abuso de menor e ao estupro ou agressão sexual, reitera-se. Partindo dessa concepção, sendo o óbvio que se retira deste texto, acusa-se ser o mesmo que ocorre na nossa sociedade, a sociedade angolana, adultos de carácter ou de dimensões à responsabilidade pública, que

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podem actuar como líderes políticos, líderes religiosos, líderes culturais, professores, polícias, militares, médicos, enfim, fazendo-se de «pedra», fazem parecer que seja algo meramente normal andar com catorzinhas ou com meninas que nomeiam como “mangas de dez”. E destes factos, que se retiram do poema “uma florinha/ uma pedra”, uma vez o objecto deste poema confirmar que tem havido o abuso aos menores, abre-se do país um relatório elevado dos casos de abusos e com soluções vagas. O grande problema são as instituições responsáveis para os casos de abusos, apresentam o número de pessoas estupradas, mas não estupradores, como as causas e as consequências (por que o homem fez e onde foi parar). Lusa (2021), sobre o Instituto Nacional da Criança (INAC), uma informação avançada pelo Director-geral da referida instituição, apresenta-nos mais de 4.200 casos de abusos de menores, é muito, o pior, maior parte destes casos são abafados, as pessoas envolvidas andam soltas. É preciso reflectir os dois pontos abaixo: 1. Sempre que se fala de abusos de menores, pensa-se simplesmente nos casos objectivos, assim como os apresentados pelo INAC, e não nas subjectivas, que são consequências da pobreza física e psicológica extrema. As ruas de Luanda, por exemplo, apresentam, pela pobreza física extrema, um número elevado de “florinhas” ou de mulheres novas ou catorzinhas, as pessoas tão inocentes, num envolvimento sexual comprado por muitos políticos, professores, pastores, polícias etc., claro que isto não se pode deixar de lado que há ali a pedofilia e o abuso de menores por causa da pobreza psicológica e física das “florinhas” pelas “pedra” com dinheiro. 2. Paulo Kalesi, ainda respondendo pelo INAC, deixa bem claro ao passar o relatório: “Nos nossos dados temos pessoas formadas e não formadas, licenciadas e não licenciadas, autoridades religiosas, tradicionais, pais com doutoramentos, delinquentes e não delinquentes”. A nossa grande inquietação é: Se o abuso de menor e a pedofilia são crimes e estão legislados sob base da nossa constituição e recentemente pôs-se os casos às penas gravadas, por que nunca vimos só um doutor ou um autoridade político nos jornais sobre a violação de menor, já que estes são os que estão frequentemente nos hotéis, nos bares e nas discotecas com as catorzinhas ou as chamadas “mangas de 10”? São essas coisas que incitam veemente, no país, estes crimes. A lei deve penalizar a todos. Para Furniss (citado por Marlene de Sousa Barbosa Alves, 2015), “o abuso sexual é multidisciplinar, normativo, político e clínico, essencialmente de natureza sociológica e antropológica, (e posso acrescentar, é também de natureza psicológica). E dessa forma, conclui-se que as instituições responsáveis e os abusadores não percebem, talvez por serem pedras ou irracionais, que estão a criar uma sociedade deturpada e desencontrada ou encontrada nas novas formas antropométricas: na prostituição subjectiva. Parece que as nossas estruturas socioculturais estão a cada vez mais a mudar, onde já vemos ser normal as florinhas ou as crianças andarem com adultos para obterem objectos como IPhone, tablets, perucas, vestuários caros e mais; Vemos uma sociedade que muda agora para os outros paradigmas socioculturais, tal como as próprias crianças, após terem percebido que debaixo delas possuem as pedras preciosas e os adultos insensíveis e sem racionalidades estarem atrás delas sempre, tornaram-se as próprias empresas delas, algo que está a criar uma autêntica depreciação à formação académica.

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Este verso, “uma boca que grita”, não traz somente os gritos ouvidos, traz consigo também a denúncia do homem pedra, do homem insensível, do homem irracional, este homem que agora vai formando as estruturas sociológicas de uma nova forma das mulheres angolanas, elas, pequenas que seriam vistas e dentro das constituições naturais e humanas estarem nas escolas, são agora as que alteram os seus corpos com as jardas. Atenção, até então, isto não deixa de ser abuso de menores. Tecnicamente, 1. Arlindo Barbeitos, neste seu poema, uma florinha / uma pedra, sugere aos leitores como sonho de um dia ver os candidatos à escrita

a olharem o enigma da arte a não ser construído numa dimensão da linguagem hermética simplesmente, mas que constituíssem uma alta linguagem filosófica, a forma natural da linguagem poética. Ao ler o texto, percebe-se que há uma construção técnica de terminar os versos com «a» em todos os «lexemas finais» do verso, formando a famosa combinação das palavras (rima), basta que observe as partes em negrito no texto a baixo: a) uma florinha / b) uma pedra c) debaixo da pedra / d) um dedo sobre a pedra / c) uma boca que grita. 2. Apresenta ao leitor um texto circular, pode-se ler de cima a baixo, como de baixo a cima, lendo em alíneas, talvez por isso não terá metido, o autor, os sinais de pontuação nas estrofes nem terá começado com iniciais maiúsculas, pode-se ler de qualquer forma: a) uma boca que grita b) um dedo sobre c) debaixo da pedra d) uma pedra e) uma florinha Estudar este sonho de Arlindo Barbeitos, portanto, faz com que o leitor possua uma ideia ampla sobre o mundo que ele vive e em que ele vive, possua a amplitude sobre o espaço que se encontra, tanto na construção e distinção humana, como na percepção racional sobre as artes da escrita poética. É com certeza um clássico da Literatura Angolana. _________________

BARBEITOS, Arlindo (2016). Nzoji (Sonho), 3ª Edição, Editora das Letras & UEA, Luanda; MESSIAS, Ivan dos Santos (2016). Simbologia dos Sonhos e Culturalidade, 1ª Edição, Artigos Originais, São Paulo; OLIVEIRA, Walderedo Ismael (2018). Sigmund Freud – A Interpretação dos Sonhos, 20ª Edição, Editora Nova Fronteira Participações S.A, Rio de Janeiro; ALVES, Marilene de Sousa Barbosa (2015). O Abuso Sexual de Menores em Luanda, 1ª Edição, FCHS, Porto; KALESI, Paulo (2023). Abusos de Menores, Jornal de Angola.


DOIS QUATRO QUATRO

poesia, porque sim ...À PROCURA DE IDADE...

...O QUE CABE NO SER...

Como se prepara a imortalidade? Pede existência aos pais. Fica doente e não procures saúde,

Tuo cabe no ser. Existe uma idade no homem, mas que melhore a lealdade.

mas viaja para ela se alegrar. Toma o que quiseres. Pronuncia Humano no silêncio.

Existe uma liberdade na existência, mas que melhore a idade. Existe uma humildade no ser que melhora a oportubidade.

Agora vai ao hospital. Morre no banco de urgência.

Existe uma mentalidade humana, mas que melhore a idade, porque tudo cabe no ser, menos o ser no tudo.

Atingiste a idade (a confissão diária). Raízes Cantam, p. 37

Raízes Cantam, p. 54 JOB SIPITALI

ERECTA FOME

Minha fome Não mastiga qualquer carne Exige a sua Com temperos à altura Com erguida figura Sem retirar os nervos Sem 10petalar a derme Minha fome Exige qualidade no preparo Prefere carnes em tons acesos Qual Pedro em tons de Bélgio BEL NETO

Minha fome É musculada membrana Grossa árvore envolta na savana Regada à saliva por mãos poéticas Minha fome É pequenez enorme Excessiva gana Permuta carnal Minha saciez É sua entrega Rebenta as costuras Desarruma postura Até amolecer a arma dura

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DOIS QUATRO QUATRO

O homem que cobre as lacunas dos alienados * Kenny Raphael

Sabem uma coisa? É bem comum na nossa vida em Angola cruzarmos com localidades onde não chega a autoridade do Estado. É verdade: zonas esquecidas ou simplesmente ignoradas. Por que são ignoradas? Não sei. Alguém se recusa a cobrir tudo, de norte a sul, ou será que são estas zonas que se recusam a constar no radar? Responder a isto corresponde a um complexo exercício de análise política, sociológica e antropológica, talvez. Virão uns sabichões dizer que têm tal resposta. Dirão que é culpa daqueles. Estes, por sua vez, defender-se-ão e devolverão as acusações. Eu, como outro sabichão que sou, ponho-me a narrar algo que não testemunhei. Ouvi-o de terceiros e decidi que teria a resposta à pergunta lançada. O doutor Ambrósio fazia um gesto confirmativo com a cabeça. Claro, estava de acordo. O velho era vítima da maior injustiça que a justiça deste país comete repetidamente. E tu, Luís, enxergas tal injustiça? — Então, doutor Luís, vê o quanto sou injustiçado? — Com certeza, senhor Kassanga. Lógico que ele enxerga — acudiu o doutor Ambrósio, tentando salvar o negócio. Luís continuou calado. Fingia não perceber os óbvios gestos que, até o velho notou, o doutor Ambrósio lhe dirigia. — É claro — saltou-lhe finalmente uma resposta — mas o meu trabalho é evidenciar tal injustiça. Para isso vou precisar da sua colaboração e da dos seus também. O velho riu, desgostoso, com a resposta do jovem Advogado. Não estava claro para ele como pretendia convencer outros do tremendo engano. — E então, doutor Luís, não crê na causa que advoga? Está igual aos políticos aproveitadores, destes que enchem assentos parlamentares para fazer frente de batalha. A injustiça que pesa sobre mim não está óbvia para si, doutor? O que quer mais para se convencer? Não basta eu ser injustamente preso por assumir a responsabilidade dos que se negam a assumir o seu papel? — O que quer dizer com isso? As palavras do velho ecoaram com certa confusão. Até o doutor Ambrósio, que estava de pé agora, demonstrou não o compreender. O que quer este homem dizer com tal abordagem? Que responsabilidade alheia? Que papel? Quem são esses outros? — O que quero dizer? Nada. Não quero dizer nada. Estou a dizer que estou injustamente acusado. — No relatório da polícia não há menção de “outros”. — Isto está incompleto. Foram pessoas que não testemunharam que o escreveram. São os aplicadores da injustiça que o fizeram para suportar o entulho colocado nas suas próprias lacunas. — Mas isto foi escrito com base nos depoimentos de pessoas que testemunharam o sucedido!

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Alienação, PHPM2002

— Mas será que, de facto, escreveram o que as pessoas na verdade contaram, doutor Luís? Já esteve na Vila Branca? — Já, sim. Meus avós maternos são de lá. Ia para lá aprender a semear a terra. Meu avô dizia que era um dever dos homens. — Muito sábio, esse seu avô materno. Mas me diz: há quanto tempo não vai à Vila Branca? — Desde que meu avô faleceu. A nossa família foi para o Lubango. Desde então não voltei para cá. Isso deve ter por aí uns doze anos ou mais. O velho riu, acarretando certa malícia nos modos. Encarou o doutor Ambrósio com severidade. De forma repentina, o homem pareceu entender-lhe o sentido na expressão carregada do velho. Segurou na sua pasta, disse que deixá-los-ia a sós e disse a Luís que visitaria as instalações do tribunal. O velho regressou a sua atenção para o jovem Advogado e continuou o assunto. — Como era a Vila Branca daquele tempo, de há doze anos atrás? — Como... o senhor sabe melhor do que eu. O mais velho Kassanga sempre esteve lá. Não era o Soba-Grande na época, mas... — Já era velho, não é? — riu com disposição. A graça trazia-lhe certa iluminação no rosto. — Não era isso que eu ia dizer... — Não importa. O que eu quero lhe fazer pensar é o seguinte, doutor: a Vila Branca de há doze anos atrás, no que difere dessa de hoje? Só nas pessoas. Há crianças que nasceram, crianças que viraram

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homens, e homens que morreram, como o seu avô. Mas o lugar ainda é o mesmo. Estas novas pessoas, estes jovens e velhos de hoje, ainda se movem pelos mesmos princípios de há doze anos atrás. Ainda lhes falta a autoridade e o auxílio que os responsáveis alienados lhes negam. — Não é o senhor a autoridade do lugar? É o senhor que aplica a lei no lugar. — Tem certeza disso, doutor? Se é assim, então o que faço aqui, detido? — O senhor está porque se excedeu na autoridade. É o que consta neste relatório da polícia. O senhor é acusado de ser mandatário de um crime. — Me excedi, foi o que escreveram? Bom, doutor Luís, você acha que me excedi? O senhor acha que as pessoas de Vila Branca acham que me excedi? O doutor pode achar que sim, que me excedi. O senhor tem a sua lei, essa que estudou. Mas tenho a certeza de que as pessoas de Vila Branca não pensam dessa forma. Digo mais: se sair a perguntar se conhecem a lei sobre a qual estes alienados invocam a minha prisão, será tempo desperdiçado. — Mas, senhor Kassanga, como Soba sabe que deve fazer cumprir a autoridade do Estado na sua localidade? O senhor sabe que existem leis. — Sei, mas não conheço nenhuma lei. Na Vila Branca vivemos apenas segundo os costumes herdados dos nossos antecessores. Os alienados dizem que devo representar o Estado na comunidade. Mas eu lhe pergunto, doutor: por que é que eles não se representam a si mesmos? Somos insignificantes demais para eles. Os nossos problemas são miseráveis para eles. As pessoas recorrem a mim quando estão com problemas. Nunca precisaram de Estado algum. Esse mesmo Estado, que diz que eu o represento na comunidade, nunca me ensinou como devo solucionar os problemas da minha comunidade. Tudo o que sei veio dos meus antecessores. Agiam da mesma maneira que eu ajo hoje. As pessoas da comunidade nunca foram atrás do Estado a dizer que faço mal as coisas. Vêm agora estes irresponsáveis às suas responsabilidades dizer que eu agi mal. Sobre que autoridade o dizem? Sabem alguma coisa dos problemas que aquelas pessoas enfrentam? Ouça bem, doutor. Você é o meu Advogado. Entenda o meu ponto de vista e reflita enquanto prepara a minha defesa.

Deixa que eu lhe revele algo antes que se vá: não é a primeira vez que me excedo na autoridade. Mas sabe por que mudaram de abordagem comigo? É que eu já não lhes cosso as costas nos anos políticos.


DOIS QUATRO QUATRO

voz leitora sugestões de leitura A Metamorfose do Elefante [ José Luís Mendonça]

“Por mais que a televisão gesticule FIQUE EM CASA, ficar em casa é a pena de morte para as famílias [...]” (Mendonça, 2025, p. 72). Situada temporalmente em 2020, ano em que se sucedeu a pandemia da Covid-19 e os 45 anos de Independência de Angola, a narrativa de As metamorfoses do elefante (2025) expõe, em uma linguagem “criativa e original”, as marcas do que ficou com a “brutal” e “sangrenta” tentativa de golpe de Estado que aconteceu nos primeiros anos de independência do país, em 27 de maio de 1977. O romance, publicado no Brasil sob a chancela da Poente, inicia com o surgimento de uma estranha pandemia denominada pelo governo de “surriso” e articula o presente e o passado para revisitar a história angolana no período pós-colonial. A crítica, embu-

tida nas entrelinhas do livro, mostra que, mesmo após décadas, muitas famílias ainda continuam sem respostas do que ocorreu com os seus entes. Durante a leitura, vemos um cenário de camaleões, hienas, uma vaca de fogo preto, cabras voadoras, um falcão de asas redondas e um elefante de múltiplas faces, figuras que atravessam os sonhos proféticos de Hermes Sussumuku e que simbolizam os impasses e desastres políticos que viriam a se desenrolar pelas próximas décadas. Em síntese, o livro é uma leitura crítica do cenário atual angolano e deve ser lido, relido e estudado cada vez mais. Por fim, vale ressaltar que José Luís Mendonça é docente universitário, poeta e se destaca entre os grandes nomes da literatura angolana.

dia, camaradas localiza temporalmente a sua narrativa no pós-independência de Angola, por volta dos anos 1980, e apresenta uma visão da infância, em [Ondjaki] Luanda, sob a perspectiva de um adolescente de classe média. Durante a narrativa, Angola vive em Guerra Civil entre os grupos MPLA e Mas, camarada António, tu não prefeUNITA, que lutam para controlar o país, após res que o país seja assim livre?” (Onda saída dos portugueses. As vivências mosjaki, 2014, p. 11). Todo ano, desde 2022, tradas pelo “camarada” narrador retratam os quando realizei a disciplina Literatuconflitos políticos existentes naquele período ras Africanas de Língua Portuguesa, no cure a sua visão sobre a colonização. É um livro so de Letras - Português, na Universidade Fepara ver Angola sob diferentes perspectivas, deral de Ouro Preto (UFOP), arranjo algum quais sejam: a do o próprio narrador, que nasmotivo para poder reler o romance Bom dia, ceu em meio à Guerra Civil, a do camarada camaradas (2014), de Ondjaki. De fato, uma António, que presenciou a colonização; a da grande obra! O aclamado escritor angolano Tia Dada, que mora em outro país e decide ir Ndalu de Almeida, mais conhecido pelos leia Luanda; e a atuação dos professores cubatores pelo nome de Ondjaki, é poeta, prosanos em Angola. A obra chegou ao Brasil em dor e cineasta, dono de uma vasta produção uma edição publicada pela Companhia das que perpassa o romance, o conto, a novela e Letras e conquistou os leitores brasileiros. as histórias infantojuvenis. O seu romance Bom

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Ondula, Savana Branca [Ruy Duarte de Carvalho]

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xatos 40 anos separam a primeira e a última edição de Ondula savana branca, publicada no Brasil sob chancela do Círculo de Poemas, em um volume que reúne dois livros de Ruy Duarte de Carvalho: Ondula, savana branca (1982) e Observação directa (2000). Ambas as obras mostram bem as interfaces entre a formação e a atuação como antropólogo do autor e a sua experimentação poética, já que os poemas são construídos a partir de fontes da tradição

Dalyson Oliveira (UFOP)

Bom dia, Camaradas

oral de diversos povos africanos. Antropólogo, poeta e autor de múltiplas obras que atravessam as várias formas da linguagem, Ruy Duarte de Carvalho foi um dos grandes nomes da literatura angolana. Em Ondula, savana branca (2022), é possível perceber como a poesia do autor não apenas traduz elementos da tradição oral, mas os reinventa de maneira criativa e poética, reinscrevendo as memórias culturais dos povos que constituem as fontes do poeta. O poeta trabalha com textos já divulgados anteriormente em inglês e francês, como é o caso dos poemas “Ngoni”, recolhido do livro Oral Literature in Africa, de Ruth Finnegan e “Kwanyama”, retirado do texto “Kwanyama Ambo Folklore”, de E. M. Loeb, procedendo à adaptação desses textos para a língua portuguesa. O autor também incorpora elementos da tradição oral, como cantos, imprecações, provérbios e máximas iniciáticas, recolhidas e traduzidas por outros autores para o português, mas sem que lhes tivessem sido conferido caráter poético. Com a leitura, nota-se a riqueza e a complexidade do livro e o diálogo estabelecido com tradições orais africanas.

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DOIS QUATRO QUATRO

opinião Pequeno Manual para Grandes Sonhadores Desencantados: O que Restou da Utopia de Pepetela? *Diego

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omos convidados a visitar o Porto. O convite veio de um grupo de estudantes universitários que pretendia discutir o conceito de Utopia. Pretendiam, para o efeito, uma leitura e releitura do Romance de Pepetela, para tirar ilações. Sabemos, um pouco por vício, um pouco por defeito genético, que quando sentamos e discutimos o conceito de Utopia, as nossas vozes e intenções beiram a fatalidade e o frustrante desfecho daquela geração que fundou a Utopia da independência e por aí deixou-se estar. E mais: sabendo que cabia a ela e não a outra a difícil missão e tarefa de conduzir os desígnios das jovens nações para o pleno do bem comum, aquela geração de Pepetela afundou as expectativas que haviam construído a ferro e fogo num balde de água. Como quem, tendo em posse o milagre da criação, constrói a terra no génesis, e em apressados passos, pula no imediato para os horrores do apocalipse. Como tudo começa na poesia, começamos a reflexão a partir do Romance. Chamo-lhe reflexão, mas no dia e momento ocorreu-me chamar-lhe reflexão ao contrário. A primeiríssima coisa que se ganha ao se ler A Geração da Utopia de Pepetela, é uma noção fulminante e poderosa de que a luta, as várias, não se fazem apenas de armas ou de força física. No momento em que as primeiras personagens do livro trocam as primeiras impressões, cai-se logo a conclusão de que as lutas se fazem também, e no nosso caso particular sobretudo, com as nossas convicções, indagações (muitas vezes humanas, e muitas vezes mais humanas que necessariamente políticas) fazem-se com compromisso, desconforto, solidão, e coragem.

A questão da coragem, um pouco como as outras, diga-se, funciona e funcionou para aquela geração, tal como funcionam os músculos: treina-se, trabalha-se, apanha, adoece, e por consequência, cresce. A segunda aprendizagem em modo auto-ajuda do Romance, é de que a utopia está em toda a parte, está em 25

todo o lado, embora não o pareça e embora não a vejamos muitas vezes. Estar vivo por si já constitui a maior das utopias, como diria um amigo bêbado.

A utopia não é exclusiva dos que sonham, ou dos que fantasiam, ou dos apaixonados. A utopia é daqueles que sonham e é também daqueles que se desencantam. De certa forma, em estado mais crítico, o desencanto produz igualmente consciência, pois esse mesmo desencanto ou essa espécie de morte da esperança última, tem memória dentro dela, tem desejos. Então, talvez a primeira tese prematura seja a de que a utopia não é o ideal de uma perfeição futura, é antes uma tensão permanente entre o que existe e aquilo que ainda se procura. Terceiro, o livro, como todos os bons e grandes romances, é antes de qualquer coisa, antes inclusive da revolução, uma grande história de amor. Uma carta de amor a Benguela, a Lisboa, aos kaluandas. Provando, como um martelo num prego torto, que a revolução é sentimental e um ato de poesia aos berros. Por outro lado, é um exercício irónico, curioso, ácido e cinematográfico sobre a nossa história mais recente e sobre os homens e as mulheres dentro dessa história, como atores participantes, ativos, dirigentes e precursores, ou seja, além de ser a história da nova angola é também a história dos angolanos e desse desenho, ora caricatural ora manso, do homem novo. E nessa perseguição patriótica daquela atmosfera que fundou a nossa utopia original (que culminou com as independências políticas e culturais) percebemos ao longo da leitura, já umas páginas à frente, que aquilo somos nós, o livro funciona afinal como um espelho ou como um jogo de espelhos (sou eu sou eu sou eu sou eu). Portanto, a utopia de Pepetela faz-nos sonhar. Se eles fizeram, também eu posso fazer? Quase que o livro nos relembra numa bofetada da importância dos mitos fundadores para erguer qualquer nação, que no fundo se molda nos meandros da auto-estima. A pergunta correta é: fazer o quê?

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Eles fizeram, os kotas, duas coisas distintas: a primeira foi eleger um objetivo claro e inequívoco, e esse objetivo era consensual e foi disseminado como uma crença coletiva, era preciso ser contaminado e apanhar a crença como quem apanha um febre, tem que estar nas entranhas, tem que estar habitado em ti. A segunda coisa talvez fosse terem fundado a sua própria utopia com a premissa de que faziam parte da história, premissa essa, tal como o objetivo geral, inequívoca: eram eles a história em movimento, não haviam intermediários nem havia outra história, e como tal, era preciso cada um assumir o seu papel histórico e treinar a sua coragem num ginásio de convicções. Perceba-se que o contexto histórico conta. E muito. A geração retratada no Romance vivia um tempo da história que favorecia o pensamento coletivo, de certo modo. Havia um objetivo comum, uma urgência comum, uma narrativa comum, que nem sempre nasceu apenas deles ou deles por si só. Havia uma agenda por trás que os circundava e que constantemente os convocava para o “nós”. Isto não pode ser ignorado. A independência, a libertação, a construção do país e a ideia de Nação eram ideias suficientemente grandes para obrigar os indivíduos a pensarem para além de si próprios. Quando aquela geração sonhava Independência, portanto, não


DOIS QUATRO QUATRO sonhava para os seus umbigos ou para ambições do seu círculo mais fechado. Hoje, pelo contrário, habitamos um tempo que nos empurra frequentemente para o “eu”. A lógica dominante é a da competição, da performance, da afirmação individual. Não é necessariamente uma questão de melhores ou piores pessoas; mais ou menos capacidades; muita ou pouca utopia.

É uma questão de ambiente histórico. Se naquela época o contexto produzia militantes, sonhadores coletivos e construtores de causas comuns, o nosso tempo produz frequentemente indivíduos isolados, preocupados em sobreviver, em destacar-se ou simplesmente em não ficar para trás. É a sociedade-capital. De todo modo, que não seja a referida premissa uma sombra de bananeira a qual nos refastelamos ou um balde de água fria a semelhança dos horrores prematuros do apocalipse que nos calhou em sorte. É preciso que essa mudança de contexto não seja desculpa para resignação. Costumo dizer que é preciso lutar. Resistir já é vencer, de certa perspectiva. É tal e qual ao que acontece com os Direitos Humanos no mundo, não são nem nos podem parecer um monumento acabado ou um conjunto de regras gravadas numa pedra de Moisés. São antes uma construção humana, imperfeita e inacabada, resultado de séculos de luta, resistência, observação e inconformismo. Foram

conquistados por pessoas que se recusaram a aceitar a condição em que viviam e que decidiram reclamar mais dignidade, mais justiça e mais humanidade para si e para os outros. E continuam a depender dessa mesma vigilância. Tal como a utopia, os Direitos Humanos vivem de uma tensão permanente entre aquilo que somos e aquilo que ainda podemos ser. Não dar o braço a torcer, não comer, como nos indicaram, onde se está amarrado, fugir da candonga dos tempos do Eduardo dos Santos, dizer não e basta as gasosas, etc. Não me vou alongar muito mais nos exemplos porque não se trata de um coaching nem existem postulados os mais de sete pecados capitais angolanos numa tabela de boas condutas. O que tentamos passar na cidade do Porto àquele grupo de universitários, é que qualquer bocadinho acrescenta, não nos deixemos enganar, e qualquer, por outro lado, que seja a luta que venhamos a preconizar, há de nascer o seu ponto de partida na consciência do homem angolano, e portanto, na sua cultura. A Cultura é a base de tudo, sim. Um povo culto não aceita misérias, não aceita sobras, não aceita migalhas no prato, porque tem os olhos despertos, não vive na Caverna de Platão. O que tentamos passar na cidade do Porto àquele grupo de universitários, é que a guerra atual é uma guerra de mentalidades e uma guerra de narrativas. É preciso estar munido e pronto para que em uníssono digamos um não coletivo. O “sim” como se sabe é passivo, é confortável; o “sim” acomoda, confirma, tranquiliza. O “sim” permite que as coisas continuem exatamente como e onde estão. Já o “não” interrompe. O “não” cria desconforto, obriga à explicação, convoca o debate e abre espaço para a mudança. A Nova Geração da Utopia precisa do não na ponta da língua e armado na cintura, pois o novo angolano, o novo homem de que tantas vezes falamos, não

nasce da capacidade de repetir consensos, nasce da coragem de formular perguntas e de dizer, coletivamente, os nãos necessários para que um dia possamos construir melhores sins. Com os nãos fundamos a mais nova Geração da Utopia, que ressuscita e vai ressignificando os seus mitos fundadores. Respondemos também à dificílima questão que o texto e a própria geração anterior nos colocam: “o fazer o quê?”. Recorremos, por isso, ao fundador do MPLA para nos ajudar a responder num jato de pura lucidez: transformar os países agora independentes em grandes nações.

O tamanho destas futuras nações dependerá sempre do tamanho dos sonhos dos seus cidadãos. Logo, é preciso sonhar, pois quem sonha… vence. Qual é então a Angola dos teus sonhos e qual o teu papel histórico no meio disso? Aquele país que viu nascer o meu pai, é o meu país, é o nosso país. É esta a maior herança da Geração da Utopia. Não a independência, não tanto os erros, não tanto os fracassos, nem sequer as suas vitórias. A sua maior herança foi terem acreditado profundamente que aquele país era deles. Ninguém luta verdadeiramente por aquilo que considera distante, nem ninguém constrói uma casa da qual sente que pertence sempre a outros. O nosso maior desafio histórico é precisamente ouvir Paulo Flores e voltar a sentir que aquele país é nosso. Não dos governantes, não dos partidos, dos ricos e dos empresários, dos militares, dos intelectuais ou dos comentadores. É nosso.

Clube de Leitura Hot: a literatura também sua, transpira e provoca

H

Nunu Chipita

á ideias que nascem para ficar. O Clube de Leitura Hot surgiu exactamente assim: numa conversa descontraída entre mediadores de clubes de leitura durante uma residência organizada pela Microleitor, em Maio de 2024, no Instituto Guimarães Rosa. O tema da conversa? A forma como o sexual é tratado na literatura. O resultado? Um clube que hoje aquece as noites literárias de Luanda. Como todo bom projecto merece sair do campo das ideias, a experiência-piloto aconteceu em Julho do mesmo ano, com a leitura de Bordados, de Marjane Satrapi. A recepção foi tão calorosa quanto o nome do clube sugere. Os leitores gostaram, a Microleitor percebeu que tinha ali algo especial e o Hot ganhou vida própria. Mas não se enganem: o Hot não é um clube sobre escândalos sexuais. É um espaço de leitura, partilha e debate, aberto a todos os que gostam de conversar sobre livros sem medo de temas difíceis, desconfortáveis ou simplesmente humanos. A curadoria das obras está a cargo de Mércio Kosi e Dilson Maria, que, juntamente com os diversos moderadores convidados, têm conduzido os participantes por leituras capazes de incendiar boas conversas.

Fiel ao seu nome, o Clube de Leitura Hot acontece sempre às 18 horas da última terça-feira de cada mês, no Camões, reunindo, em média, entre 35 e 40 participantes por sessão. Pelas rodas do Hot já passaram obras como Persépolis, de Marjane Satrapi; Pele de Homem, de Hubert e Zanzim; Niketche: Uma História de Poligamia, de Paulina Chiziane; As Avós, de Doris Lessing; Quotidiamo, de Rui Zink, José Mena Abrantes, Abraão Vicente e Ivan Cabral; e As Intermitências da Morte, de José Saramago. Agora, em 23 de Junho, a temperatura literária promete subir ainda mais no Centro Cultural Português— Camões com Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo. O clube conta com o apoio do Centro Cultural Português – Camões, da Biblioteca Contr’Ignorância, do programa O Livro, da Rádio Essencial, e da DSM Confeitaria. Num tempo em que se diz que as pessoas lêem cada vez menos, o Clube de Leitura Hot responde da melhor forma possível: com espaços cheios de gente que discute livros. O Clube de Leitura Hot continua a provar que, em Luanda, a literatura não é apenas para ser lida. É para ser vivida, debatida e, às vezes, servida bem quente.

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ensaio Uma Nova Forma de Literatura Africana: Ensaio Sobre a Ruptura Estética e Ideológica em Le Devoir de Violence, de Yambo Bela Mubato Ouologuem

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romance africano consolidou-se, ao longo do século XX, como um espaço privilegiado de afirmação cultural, resistência política e reconstrução identitária. Em grande medida, essa tradição literária desenvolveu-se sob o signo de contestação ao colonialismo e da necessidade de reabilitar a dignidade histórica das sociedades africanas, frequentemente representadas através de uma lógica etnográfica e de uma certa idealização do passado pré-colonial. Nesse contexto, a literatura assumiu não apenas uma função estética, mas também pedagógica, voltada para explicação de África ao olhar exterior e para reafirmação de uma identidade colectiva. Entretanto, a publicação de Le devoir de violence (1968), de Yambo Ouologuem, introduz uma inflexão crítica profunda nesse paradigma. Ao recusar a visão etnográfica, desmontar o mito de um passado africano idílico e expor a violência como elemento estrutural da história do continente — inclusive em períodos pré-coloniais —,

Ouologuem rompe com a tradição dominante do romance africano. Sua narrativa afasta-se tanto da idealização cultural quanto da centralidade exclusiva do colonialismo como origem dos males africanos, propondo uma leitura mais complexa, ambígua e radicalmente crítica. Essa ruptura não se limita a uma inovação temática, mas implica uma reconfiguração das próprias funções da literatura africana, que deixa de se orientar propriamente pela representação identitária e pela mediação cultural para assumir uma postura mais autônoma e confrontacional. Nesse sentido, a obra de Ouologuem desloca o eixo da narrativa africana, ao recusar tanto o olhar europeu quanto certas construções internas que sustentaram o discurso literário pós-colonial. Este ensaio defende que

Ouologuem não pretende simplesmente oferecer uma descrição histórica, mas sim construir uma provocação literária que desmonta mitos idealizados, expondo a violência como elemento estrutural do poder ao mesmo tempo que levanta questões sobre os limites e riscos dessa representação. Mas em que medida a ruptura operada por Yambo Ouologuem em Le devoir de violence redefine os fundamentos estéticos e ideológicos do romance africano? Seria essa ruptura uma libertação estética, uma forma de negação do próprio projecto literário africano ou apenas sua radicalização crítica? Yambo Ouologuem: esboço biográfico Yambo Ouologuem, nasceu a 22 de agosto de 1940, em Bandiagara, uma das principais cidades da região Dogon. Filho único de uma família aristocrática Tidjaniya do Mali, foi fruto do casamento entre Aissata Ouologuem e Boukary Ouologuem, este último um proeminente proprietário de terras e inspector escolar. Proveniente de um meio familiar influente, profundamente ligado à tradição e à liderança local, esse contexto revelou-se um factor decisivo na formação da sua visão crítica e literária.

Nzoji Ukulu

Desde cedo, Ouologuem teve acesso a uma formação linguística ampla, dominando várias línguas africanas, além do francês, inglês e espanhol. Após matricular-se no liceu em Bamako, aos 20 anos, em 1960, parte para França, inserindo-se numa realidade que já conhecia por meio da televisão, rádio, revistas e jornais, bem como pelas imposições do imperialismo colonial da época. A sua chegada a Paris, nesse mesmo ano, marca o início de uma intensa jornada académica, dedicada aos estudos de sociologia, filosofia e inglês no Lycée Henry IV. A sua trajetória académica foi marcada pela excelência, destacando-se como um jovem negro brilhante em ambientes altamente privilegiados. A convivência com instituições de elite em Paris, o contacto com obras de Honoré de Balzac, Gustave Flaubert e Voltaire, bem como o envolvimento nos debates intelectuais de Léopold Sédar Senghor e Aimé Césaire, contribuíram significativamente para a construção do seu pensamento crítico e do seu estilo complexo. Ainda que discreto quanto às suas preferências literárias, Ouologuem absorveu influências que vão desde o pensamento moderno europeu até às discussões sobre colonialismo, identidade africana e correntes filosóficas e sociais da época. Esse período da sua vida é frequentemente considerado como a “argamassa” que sustentou a construção de uma escrita provocadora e inovadora, que viria a consolidar-se mais tarde, sobretudo em Le Devoir de violence, a sua obra mais célebre e, simultaneamente, mais controversa. Entre 1964 e 1966, Ouologuem dedicou-se ao ensino no liceu de Charenton, em Paris, onde lecionou literatura e língua francesa. Conhecido pelo seu cepticismo intelectual, provocava reações diversas entre os estudantes, que oscilavam entre a crítica e o reconhecimento da sua genialidade. Nesse mesmo período, prosseguiu os seus estudos doutorais em sociologia na École Normale Supérieure, situada no Quartier Latin, um espaço emblemático da vida académica e intelectual parisiense. A sua afirmação no cenário literário francófono e mundial ocorre em 1968, quando conquista o prestigiado Prix Renaudot, tornando-se o primeiro africano a recebê-lo. Este reconhecimento deu-se num contexto pós-guerra marcado por tensões políticas e sociais, sobretudo em África, onde os movimentos independentistas ganhavam força. À época, não se esperava que um jovem

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DOIS QUATRO QUATRO negro, de apenas 28 anos e oriundo de uma região periférica, demonstrasse tal domínio literário, nem que, através de um estilo inovador, fosse capaz de subverter o cânone europeu e, simultaneamente, criticar o passado histórico africano, especialmente num momento em que o discurso da negritude estava em ascensão. Em Le Devoir de violence, Ouologuem propõe uma abordagem multifacetada, explorando temas como o colonialismo e a sua continuidade simbólica, a história enquanto construção ideológica, a hipocrisia do humanismo europeu, a corrupção das elites africanas, o corpo como espaço de dominação e a desconstrução da ideia de originalidade. Através de uma construção alegórica, o romance apresenta uma África filtrada pela escrita, expondo o regime feudal do império Nakem-Zuiko e revelando como o poder, no continente, foi frequentemente exercido através do terror e da crueldade. A obra denuncia, ainda, tanto a conquista árabe quanto a colonização europeia.

seus valores. No entanto, ao recusar a visão etnográfica, ele introduz uma inflexão crítica que desloca profundamente o papel da literatura africana. Seu romance rejeita a idealização cultural, desconstrói a lógica etnográfica dominante; adopta um hibridismo estético provocador, associado a um erotismo de forte carga simbólica, vinculado a dominação política, colonialismo e decadência moral das elites africanas e europeias. Muitos críticos, como é o caso de Kwame Anthony Appiah, veem seu romance (Le devoir de violence) como uma rejeição da “primeira geração de romances africanos modernos — a geração de “Things Fall Apart de

Yambo Ouologuem e a recusa à etnografia O romance africano constitui-se, em larga medida, como um espaço de oposição cultural e política, marcado por uma forte dimensão contestatória. Contudo, não se define apenas pela oposição ao colonialismo, mas também pela reafirmação de identidades culturais e das aspirações nacionalistas, especialmente no contexto pós-colonial.

Achebe e L’Enfant noir de Laye.” Diferente desta geração, a narrativa de Ouologuem, não se constrói pela estetização do passado, mas pela visão crua, complexa e completamente crítica dele. Ele não só critica o Ocidente, mas as elites e o nacionalismo africano, a violência e a hostilidade que os africanos cometeram contra os próprios africanos.

Se grande parte, tal como referido, da literatura africana se constrói sobre a afirmação de uma identidade ferida pelo colonialismo, a obra de Ouologuem parece operar no sentido inverso.

Les Saïf régnaient par la terreur. Leurs conquêtes n’étaient qu’une suite de razzias, de villages incendiés et de captifs réduits en esclavage — non point des étrangers, mais des hommes de même race.

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A lógica idílica no romance africano A literatura africana estruturou-se, em muitos casos segundo uma lógica idílica, na qual a colonização surge como origem dos males do continente; uma perspectiva já criticada por Frantz Fanon (1968), ao evidenciar as contradições internas das sociedades pós-coloniais.

Ouologuem rompo com essa perspectiva. O autor propõe uma representação do que considera ser uma África “real”, com um forte legado de corrupção e violência que apresenta não apenas como fenómeno colonial e pós-colonial, mas também como realidade pré-colonial.

Apesar da polémica, em 1969, Ouologuem publicou um volume de ensaios críticos, Lettre à la France nègre, bem como um romance erótico intitulado Les mille et une bibles du sexe, sob o pseudónimo Utto Rodolph. Posteriormente, retirou-se da vida literária, regressando ao Mali, onde viveu de forma reclusa até à sua morte, em 2017.

Segundo Raymundo Souza Dantas (1983), a ruptura encontra seu fundamento na recusa da visão etnográfica, ou seja, a tendência de explicar África ao leitor exterior, privilegiando a descrição de costumes e tradições, muitas vezes sob uma perspectiva pedagógica e exotizante, aquilo que Edward Said (2007) compreende como construção do “outro” pelo olhar europeu, que permite transformar culturas não ocidentais em objectos de saber. Dantas destaca que para Ouologuem os etnólogos contribuíam para uma representação mistificada de África e

Portanto, a primeira fase dessa recusa pode ser entendida como uma dura crítica ao centrismo europeu que consistia numa espécie de monopólio intelectual, onde o resto do mundo era seu objecto. A segunda, como um acto disruptivo de desmontar mitos (colonias e pós-coloniais), e um deles era o mito de um passado glorioso africano.

A estrutura dominante de muitas narrativas africanas pode ser sintetizada da seguinte forma: Tradição → Colonização → Libertação. Nesse modelo, a colonização é apresentada como principal responsável pelos males do continente. Então, na vertente desse virtuosismo romântico, a figura do herói africano nasce com jornada de libertar e restaurar a tradição. No entanto,

Pouco tempo após a atribuição do Prix Renaudot, o romance envolveu-se em controvérsias significativas. Algumas passagens foram acusadas de plagiar trechos de It’s a Battlefield, de Graham Greene, e de Le Dernier des Justes, de André Schwarz-Bart. A obra tornou-se alvo de duras críticas por parte da imprensa francesa, não apenas por questões éticas, mas também por desafiar o cânone literário e denunciar as fragilidades da narrativa histórica oficial. Após um processo movido por Greene, o livro acabou por ser retirado de circulação em França.

A publicação de “Le devoir de Violence” (1968) levanta duas importantes afirmações. A segunda diz respeito à emergência de uma “nova forma de literatura africana”, entendida aqui como uma quebra estética marcada pela sua dimensão disruptiva; na medida em que a obra inaugura uma literatura menos idealizada, mais crua, irónica e provocadora. A primeira, segundo crítica publicada na revista The Nation, faz menção ao facto de Ouologuem ter “quebrado o… mito de um passado glorioso africano” . Essas duas afirmações encontram-se profundamente interligadas. Mas como se configura essa relação?

como problematiza Spivak (1988), fora das estruturas de poder dominante.

Le Devoir de violence. Paris: Éditions du Seuil, 1968 (reed. 2018).

A recusa a etnografia — que pode ser entendida como o ponto de partida dessa “nova forma de literatura africana” — não constitui um gesto inocente. Tal como destaca Dantas (1983), é seu maior mérito. Trata-se de um gesto profundamente político e estético, na medida em que rompe com aquilo que Valentin-Yves Mudimbe (1988) descreve como a construção discursiva de África a partir de categorias externas. Primeiro devido a objectificação europeia quanto ao continente africano e a imposição de ideais artificiais. Segundo, porque para muitos a luta decolonial baseava-se na afirmação da identidade, uma identidade pré-colonial. Embora Chinua Achebe proponha a reconstrução da dignidade das sociedades africas pré-coloniais, Ouologuem recusa essa perspectiva, expondo a violência como elemento estrutural da própria história africana. Sua recusa é, antes de tudo, a restituição do lugar de sujeito à África e, longe do exotismo, a afirmação da liberdade de narrar,

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Avant même que les étrangers ne posent le pied sur ces terres, les empires noirs se bâtissaient dans la violence, le mensonge et la servitude; et les hommes y apprenaient déjà à dominer et à trahir leurs propres frères. Le Devoir de violence. Paris: Éditions du Seuil, 1968 (reed. 2018). A sua ideia de um ciclo de violência e cumplicidade das elites africanas aproxima-se das análises de Achille Mbembe (2014), que interpreta o poder pós-colonial como um sistema marcado pela violência, pela corrupção e reprodução de hierarquias internas, ou seja, uma teatralização do poder e corrupção estrutural. África “real” de Ouologuem apresenta-se como um espaço historicamente marcado pela violência, atravessado por conflitos, guerras e relações de dominação ao longo do tempo no qual o poder se estrutura a partir da sujeição de povos e grupos sociais. Seu romance permite vislumbrar que em toda fase da história africana houve uma classe social ligada à manutenção de privilégios, uma burguesia marcada pelo luxo e pela alienação social. La dynastie des Saïf se perpétuait dans le faste et la débauche, tandis que le peuple, écrasé d’impôts et de corvées, survivait dans la misère; et nul ne songeait à rompre l’ordre établi, tant la domination semblait naturelle. Le Devoir de violence. Paris: Éditions du Seuil, 1968 (reed. 2018). Assim, a “nova forma de literatura africana” passa por encarrar uma nova lógica ou filosofia de composição segundo qual África não é apresentada como mera vitima. Segundo o autor, as estruturas de dominação já existiam antes da colonização e persistiram após ela. Nesse sentido, Ouologuem expande os limites da literatura africana. Sua ruptura propõe nova lógica: Ciclo de Violência → cumplicidade das elites africas → sistema de dominação. Essa “nova forma” caracteriza-se por um certo antipsicologismo e ausência heroica. A mensagem que o ciclo de violência apregoa é dura: “Todos estão corrompidos


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zação: ao invés reafirmar narrativas consolidadas, Ouologuem expõe suas contradições internas, ampliando o campo de representação e problematização de África. Mesmo a polémica em torno do alegado plágio, quando reinterpretada à luz da intertextualidade e das dinâmicas pós-coloniais, reforça o carácter subversivo da obra, evidenciando uma estratégia de reapropriação crítica do cânone ocidental. Dessa forma, a “nova forma de literatura africana” inaugurada por Ouologuem afirma-se não pela construção de uma imagem unívoca de África, mas pela recusa de todas as simplificações, propondo, em seu lugar, uma literatura da complexidade, da ambiguidade e da desconstrução crítica.

por um legado de violência”, e é desse legado que nasce o dever de violência em relação às concepções erróneas dos brancos sobre os negros e sobre a imposição de uma certa mentalidade e um carácter de submissão alimentado por um inconsciente colonial ainda presente. A desconstrução da figura do herói africano, não apenas expõe dimensões frequentemente silenciadas da história, mas permite ao escritor maliano elaborar uma crítica contundente aos regimes africanos pós-coloniais que introduziram novas formas de opressão interna. Se, num lado, Le devoir de Violence (que deve ser lido não como um documento histórico, mas como construção literária que utiliza a desestabilização para abrir espaço para um debate mais complexo, crítico e honesto sobre a história e suas representações) é uma crítica ao Ocidente quanto a objectificação e idealização de África; noutro é uma crítica ao vitimismo presente em certos discursos africanos, a reprodução das formas de opressão pós-colonial e a morte do mito sobre uma África gloriosa.

Referências OUOLOGUEM, Yambo Ouologuem. Le devoir de violence. Paris: Éditions du Seuil, 1968. ACHEBE, Chinua Achebe. Things Fall Apart. London: Heinemann, 1958.

Plágio em Le devoir de Violence: notas para uma leitura técnica-crítica Nesta sessão, propusemos uma reinterpretação da polémica em torno das acusações de plágio dirigidas a Le devoir de violence, de Yambo Ouologuem. Para tal, desloca-se o foco da análise do plano estritamente ético para o plano estético e político, considerando as tensões entre centro e periferia no sistema literário mundial, particularmente no contexto pós-colonial. Argumenta-se que os procedimentos de apropriação textual presentes na obra podem ser entendidos como uma estratégia estética e política de subversão do cânone literário ocidental, questionando simultaneamente as noções de originalidade, autoria e autoridade histórica. Em primeiro lugar, Le devoir de violence deve ser compreendido como um romance de carácter marcadamente experimental. A obra constrói uma narrativa alegórica centrada no império fictício de Nakem-Zuiko, cuja história é marcada por ciclos contínuos de violência, dominação e corrupção. A narrativa abrange diferentes temporalidades históricas, representando múltiplas formas de opressão, desde estruturas africanas até à colonização europeia, incluindo práticas de escravidão, exploração e violência sistemática. A figura de Raynauld, um aristocrata africano educado em França, simboliza a complexidade das identidades pós-coloniais e a internalização das lógicas do poder colonial.

Do ponto de vista formal, a obra caracteriza-se pela fragmentação narrativa, pela descontinuidade temporal e pela polifonia, afastando-se da linearidade tradicional do romance europeu. Um dos principais recursos formais mobilizados por Ouologuem é a técnica de colagem, entendida como a justaposição de fragmentos textuais heterogéneos: históricos, ficcionais e intertextuais. Esse procedimento resulta uma estrutura textual híbrida, que desafia as fronteiras entre ficção e documento, entre autoria e citação. Nesse contexto, as apropriações de textos de autores como Graham Greene e André Schwarz-Bart deixam de poder ser interpretadas exclusivamente como plágio no sentido tradicional. Pelo contrário, elas integram uma lógica composicional que privilegia a montagem, a reescrita e a deslocação de sentidos. Tal procedimento

aproxima-se de práticas associadas à intertextualidade, conceito desenvolvido por Julia Kristeva, segundo o qual todo texto se constrói como um mosaico de citações. Neste quadro, a originalidade não reside na criação ex nihilo, ou seja, “ a partir do nada”, mas na capacidade de reorganizar e ressignificar materiais preexistentes. A leitura da obra deve igualmente ser situada no contexto das dinâmicas pós-coloniais. A apropriação de textos europeus por um autor africano pode ser interpretada como um gesto de inversão simbólica: ao reutilizar a linguagem do colonizador, o autor desestabiliza a autoridade cultural que lhe está associada. Essa perspectiva dialoga com reflexões de Frantz Fanon e Edward Said, para quem a produção cultural está profundamente implicada nas relações de poder entre metrópole e colónia. Assim a prática de apropriação textual em Le devoir de violence pode ser entendida como uma forma de resistência simbólica, que expõe o carácter construído e ideologicamente orientado das narrativas históricas ocidentais sobre África. Koffi Anyinefa (2008), sugere que leituras críticas recentes têm enfatizado precisamente essa dimensão subversiva, reinterpretando os “empréstimos” textuais como estratégias deliberadas de contestação das normas eurocêntricas de autoria e originalidade. A controvérsia em torno da obra pode também ser analisada como um fenómeno de receção. A reação negativa de parte da crítica francesa sugere dificuldade em reconhecer formas não convencionais de produção literária, particularmente quando estas emergem de contextos periféricos. Nesse sentido, pode-se argumentar que a acusação de plágio não resulta apenas de uma avaliação textual, mas também de um enquadramento ideológico que privilegia determinados modelos de legitimidade literária. A atribuição do Prémio Renaudot, seguida do escândalo, evidencia essa ambivalência: a consagração inicial é rapidamente substituída por uma rejeição que pode ser lida como resposta a uma obra que desafia as normas estabelecidas do campo literário. Consideração final Em síntese, Le devoir de violence, de Yambo Ouologuem, constitui uma ruptura decisiva com os fundamentos estéticos e ideológicos do romance africano do século XX. Ao recusar a visão etnográfica, desmontar o mito de um passado africano idílico e expor a violência como elemento estrutural e transversal da história do continente, a obra desloca o eixo da literatura africana de uma fundação predominantemente identitária e pedagógica para uma postura crítica, autónoma e confrontacional. Essa inflexão não representa uma negação do projecto literário africano, mas antes a sua radicali-

ANYINEFA, Koffi Anyinefa. “Yambo Ouologuem and the Scandal of Le devoir de violence”. Research in African Literatures, v. 39, n. 2, 2008. DANTAS, Raymundo Souza Dantas. Dimensão política do Romance Africano. África: Revistas de Estudos Africanos da USP, 1983 FANON, Frantz Fanon. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. KRISTEVA, Julia Kristeva. Séméiotiké: Recherches pour une sémanalyse. Paris: Seuil, 1969. MBEMBE, Achille Mbembe. A Pós-colonia. Lisboa: Edições 70, 2014. MUDIMBE, Valentin-Yves Mudimbe. The Invention of Africa: Gnosis, Philosophy, and the Order of Knowledge. Bloomington: Indiana University Press, 1988. SAID, Edward Said. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. SARR, Mohamed Mbougard. La plus secrète mémoire des hommes. Editions Philippe Rey/Jimsaan, 2021 MARTINS, Ludimila. Vozes da francofonia em La plus secrète mémoire des hommes / Ludimila Rolim Martins. 2022. Orientador: Fernando Scheibe. TCC de Graduação (Letras - Língua e Literatura Francesa) - Universidade Federal do Amazonas. MOURALIS, Bernard. Yambo Ouologuem et le devoir de violence: mythe et histoire. Karthala, 2002 SPIVAK, Gayatri Chakravorty Spivak. “Can the Subaltern Speak?”. In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (orgs.). Marxism and the Interpretation of Culture. Urbana: University of Illinois Press, 1988. EDUARDO Ferraz Felippe. Ainda sobre fantasmas: temporalidade, arquivo e futuro no romance de Mohamed Mbougar Sarr. Hist. Historiogr., Ouro Preto, v. 16, n. 41, e2052, p. 1-24, 2023. ISSN 1983-9928 DOI: https://doi. org/10.15848/hh.v16i41.2052pt, acessado em 08 de maio de 2026 WISE, Christopher (1998). “In Search of Yambo Ouologuem” (https://www.jstor.org/stable/3820728) . Research in African Literatures. 29 (2): 159–182. ISSN 0034-5210 (https://search.worldcat.org/issn/0034-5210) . JSTOR 3820728 (https://www.jstor.org/stable/3820728) _________________________________________________ Ex-coordenador do CLLM (Centro de Língua i Literatura Milho), pesquisador de teorias do Conto. e-mail: armandodomingosnetoneto@gmail.com. 1

Escritora e pesquisadora de literatura de expressão francesa, com foco na literatura congolesa do século XX. e-mail: belamubato0@gmail.com 2

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DOIS QUATRO QUATRO

biografia de um nome

boaventura cardoso

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OAVENTURA CARDOSO, angolano, licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade de São Tomaz de Aquino – “Angelicum”, de Roma, é escritor e diplomata de carreira. Exerceu cargos como Diretor do INALD (Instituto Nacional do Livro e do Disco), Secretário de Estado da Cultura, Ministro da Cultura, Ministro da Informação. Como diplomata, de 1992 a 2002, foi Embaixador na França, na Itália, em Malta e junto aos organismos das Nações Unidas sediados em Roma (FAO, PAM e FIDA). Foi Governador da Província de Malanje, Angola, de 2008 a 2012. De 2016 a 2020, foi o primeiro presidente da Academia Angolana de Letras de que é membro-fundador. Atualmente, é Deputado da Assembleia Nacional onde exerce o cargo de Presidente da Comissão para a Cultura, Assuntos Religiosos, Comunicação Social, Juventude e Desportos. Foi membro fundador da União dos Escritores Angolanos.

Publicou Dizanga dya Muenhu (contos, 1977), O fogo da fala (contos, 1987), A morte do Velho Kipacaça (contos, 1987), O signo do fogo (romance, 1992), Maio, mês de Maria (romance, 1997), Mãe, Materno Mar (romance, 2001), Noites de vigília (romance, 2012), Margens e travessias (romance, 2021) e Frutos estranhos pendurados na mulemba (romance, 2026). Entre prémios, destacam-se o Prémio Nacional de Cultura e Artes – Categoria Literatura, em 2001. Obra: Mãe, Materno Mar (romance); Prémio de Literatura dstAngola/Camões 2022. Obra: Margens e travessias (romance) e a Ordem da Paz e Concórdia do Primeiro Grau e a Medalha Comemorativa Alusiva ao 50º Aniversário da Independência Nacional, da Classe Independência, outorgadas pelo Presidente da República de Angola, em 2023 e 2025, respectivamente. Boaventura Cardoso tem obra publicada e referenciada em antologias, estudada em universidades portuguesas, brasileiras, americanas, francesas e italianas.

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Boaventura Cardoso, breves palavras * Sabino Ferreira do Nascimento

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o domínio da literatura angolana, Boaventura Cardoso é um escritor que dispensa apresentações. Como contista, é um exímio criador de forma e conteúdo. Procura, geralmente, restringir-se a uma linguagem narrativa onde se aproximam a oralidade e a escrita. Há uma construção do universo oral, o que é uma característica deste escritor contemporâneo da literatura angolana. O vocábulo contemporâneo é sinónimo de um novo momento. geração nova, isto é, uma hodiernidade que se preocupou em atualizar os pressupostos literários em Angola.

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A angolanidade literária e estética na obra de Boaventura Cardoso não só demonstram a dimensão africana da literatura angolana, mas também dispõem de um tom de afirmação do conhecimento endógeno na medida em que convocam um olhar e uma crítica que devem estar assentes numa teoria literária que leve em consideração a geografia, a cultura e a história que encerram as respectivas condições de produção, desconstruindo, assim, genealogias eurocêntricas, conforme reflectiu (Inocência Mata, 2014:29). Sendo assim, para as literaturas africanas, e a angolana em particular, a oralidade não representa uma mera fonte das correntezas literárias, mas, sim, revela-se como parte integrante da forma e da estética da produção literária endógena. Nesta ordem de ideias, a oralidade precede e, concomitantemente, sucede a escrita. Pois, esta não só engendra, mas também se dilui na oralidade, que abarca tantas outras expressões artísticas que ultrapassam os limites da escrita. Boaventura Cardoso, uma das figuras emblemáticas da literatura moderna angolana, ao recriar quer os falares populares e discursos em língua bantu local (kimbundu) quer aspectos da tradição oral de Angola, afirma-se com um estilo peculiar de fazer literatura e lança uma pedra na construção da angolanidade literária e da dimensão africana da literatura angolana. Nos contos do escritor, na obra O Fogo a Fala, os registos discursivos são reproduzidos a partir da tradição oral. A

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simplicidade e a mestria com que são recriados revelam o génio artístico e estético do autor. Essa leitura e breve análise em Boaventura Cardoso, longe de se propor como um estudo acabado, vem abrir perspectivas para novos horizontes, sobretudo no que diz respeito ao estudo da relação entre a recriação literária da oralidade e a angolanidade literária, partindo do pressuposto de que se está perante uma das principais cores que pintam a literatura nacional angolana. Tal exercício partiria da constituição de um corpus a partir da produção literária de escritores tais como Luandino Vieira, Wanhenga Xitu e o próprio Boaventura Cardoso. No domínio da poesia poder-se-ia contar com Viriato da Cruz, contando com uma infinita possibilidade no mosaico literário angolano. Com base no acima exposto, permitam-me fazer um desfecho temporário com a seguinte provocação: será que entre a necessidade de afirmação das línguas angolanas, a cultura local por elas veiculadas, e a dificuldade que os escritores angolanos enfrentam em produzir textos em língua bantu, Boaventura Cardoso, assim como tantos outros que recorrem a tal prática (inserção de fragmentos da oratura em língua bantu e/ou tradução literal e respectiva explicação), encontra uma estratégia que o permite abarcar o maior número possível de leitores, dentro e fora de Angola, e, concomitantemente, livrar-se do seguinte questionamento de Ngugi Wa Thiong’o?


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