Uma pequena cozinha em um apartamento. A imagem descrita na frase acima é uma lembrança de 2019.
A mesinha redonda e a parede de azulejos, refletindo a tarde de outono, intensificam a recordação.
É a primeira imagem que emerge da minha memória quando As Graças me propõem a escrita deste livro. Não chega a ser uma imagem simbólica, tampouco evoca traumas ou epifanias. Ao contrário, esse canto de cozinha parece um daqueles cacos de memória que, sem motivo aparente, resolve se impor entre tantas outras recordações. Uma imagem que sequer aparecerá entre as fotografias que povoam estas páginas.
Preciso dizer também que não há nada de extraordinário na configuração dessa cozinha. Ela é exígua, básica – pia, fogão, geladeira – e sobre a mesinha redonda, a certa altura, naquela tarde, alguém põe um queijo Minas. Depois, são dispostos alguns pratinhos e uma faca. Gestos recorrentes, sem significados particulares, a não ser a própria expressão do prosaico.
Mas é uma lembrança insistente, uma imagem que jazia em um depósito pessoal de reminiscências e que agora, de tanto insistir em ocupar minha mente, se vê alçada a amostra de um tempo vivido.
É, portanto, a partir dela, daquele canto de cozinha naquela tarde de 2019, que escolho iniciar este livro. Se eu tivesse que explicar o porquê – para além da lembrança aleatória que insistiu em se impor – eu diria que é porque nada de substancial se iniciou naquela tarde, nada tampouco se encerrou, não houve nenhum ponto de mudança significativo além dos microeventos que ordenam e desordenam o fluxo de nossas trajetórias. Em suma, aquela tarde era apenas mais uma tarde de trabalho, semelhante a tantas outras na história de um pequeno grupo de mulheres que um dia, muitos e muitos anos antes dali, decidiram formar uma companhia de teatro. Uma companhia que hoje, com mais de 30 anos de atividades profissionais ininterruptas, continua na ativa a projetar seu futuro.
Baleia latiu antes de a campainha tocar. Juliana Gontijo pôs o café na mesinha ao lado do queijo Minas, saiu da cozinha e foi abrir a porta do apartamento. Chegavam juntas Eliana Bolanho e Vera Abbud. Traziam pães caseiros e frutas. As Graças estavam reunidas para mais um de seus encontros semanais.
Junto com ensaios e apresentações, as reuniões preenchem boa parte da agenda do grupo. Em períodos de pré-produção de projetos, as reuniões podem ser em número maior e, como o grupo não tem uma sede própria, os encontros acontecem – ou aconteciam, antes do advento das videochamadas –na casa das integrantes, recorrentemente na casa de Juliana, situada entre a zona sul de São Paulo, onde mora Vera, e a zona norte, onde mora Eliana.
Naquela tarde, discutiriam os pormenores da turnê pelo rio Tapajós que aconteceria dali a dois meses. Estava tudo encaminhado: datas, localidades etc. Eliana chegou com a informação de que a intérprete de Libras, contactada em Santarém, tinha confirmado sua presença – a equipe do Tapajós estava completa. Navegariam em um barco que acostaria em diferentes comunidades ribeirinhas onde As Graças apresentariam um espetáculo, um cortejo musical e uma oficina de teatro de sombras para a população local. Flávio Pires, companheiro de Juliana, entra na cozinha, acompanha o início da reunião, toma um café, e depois pede licença para levar a cadela Baleia para seu passeio vespertino. Flávio faz parte da equipe da turnê do Tapajós. Além de montador e técnico, será músico nos cortejos. João Abbud, filho de Vera Abbud, exercerá funções parecidas.
Em certa medida, a itinerância em família acompanha a trajetória das Graças desde os primórdios. E associada a ela, a contratação e parceria de técnicos e artistas oriundos de diferentes gerações, gêneros, raças e geografias, respondem pela longeva diversidade instituída no grupo.
No final da tarde, a equipe de produção chega ao apartamento com o material de divulgação da turnê. A minha lembrança daquela reunião, inicialmente opaca e volátil, aos poucos ganha em detalhes. Afastamos as xícaras e, sobre a mesinha, são dispostos os cartazes e os folhetos. Eliana acende a luz da cozinha, Vera pega os óculos para enxergar de perto e Juliana decide finalmente se sentar. São gestos que o tempo inseriu no cotidiano dessas mulheres que àquela altura já tinham todas mais de 50 anos. Fora isso, era uma reunião rotineira em que As Graças, entre um café e um queijo, ajustavam a ambição e os riscos de mais um projeto – um projeto como tantos outros que já tinham feito, como alguns que não se concretizaram, e como outros que ainda viriam a realizar nessas primeiras três décadas de trajetória da companhia.
Para As Graças, e com elas, escrevo este livro.
Origem
Nossa história começa na última década do século XX, no campus da Universidade de São Paulo. Ali se encontra a Escola de Arte Dramática (EAD), uma instituição pública de ensino teatral gratuito pela qual passaram gerações de artistas atuantes no teatro e no audiovisual brasileiros. Naquele início de década, ventavam os ares da recém-redemocratização do país, iniciada com o processo que pôs fim à ditadura no Brasil. A turma de estudantes da EAD daqueles anos pertence à geração de jovens que viveu a transição do regime militar para o regime democrático.
Presenciaram a promulgação da Constituição dita cidadã, em 1988, e conviveram com certa estabilidade econômica anunciada pelo Plano Real na primeira metade da década de 1990. Não havia ainda todos os editais públicos, prêmios e leis de incentivo que, anos depois, embora insuficientes, aqueceriam parte do circuito teatral. Faltava também (como ainda falta) muito a ser conquistado em termos de justiça social, racial e de gênero. Mas, comparados à opressão das décadas anteriores, aqueles são considerados anos de abertura, de retomada cultural e de liberdade política. E a EAD, fundada em 1948 por Alfredo Mesquita, vivia tais transformações. Quem ali estudava acompanhava as mudanças da sociedade e produzia reflexão e práticas teatrais em diálogo com a nasceram na EAD daqueles anos.
Endecha das Três Irmãs
O sol se põe na praça do Relógio, atrás do prédio da reitoria. Estamos em um fim de tarde de 1995, na Cidade Universitária, em São Paulo, e faltam alguns minutos para o início de mais uma aula na EAD. Faz alguns dias que a aluna Juliana Gontijo percebe uma colega às voltas com livros, recortes e anotações. “É uma pesquisa sobre a Adélia Prado”, diz a colega Vânia Terra ao ser indagada por Juliana sobre o teor daquele trabalho. “No intervalo eu te conto mais”. Fizeram a primeira parte da aula e, como prometido, papearam sobre o projeto durante a pausa. Juliana se interessou por aquela autora que escreve que “é em sexo, morte e Deus que eu penso invariavelmente todo dia”. Juliana se debruçou em outros versos, em outros poemas e se entusiasmou. Foi convidada a fazer parte do espetáculo que Vânia criaria a partir da obra de Adélia Prado. Outras duas colegas da EAD, Daniela Schitini e Eliana Bolanho, foram chamadas a integrar o projeto depois de uma reformulação na equipe. Pronto, estava estabelecido o elenco. Essas três alunas seriam as três atrizes do espetáculo. A direção, criação e adaptação do texto ficaria a cargo de Vânia. O espetáculo se chamaria Endecha das Três Irmãs, e trataria de borrar as fronteiras entre o sagrado e o profano ao pôr em cena a religião, a sensualidade e a paixão íntima e ingênua daquelas mulheres. As três atrizes queriam se constituir como um grupo, mas faltava-lhes ainda um nome.
Eliana Bolanho lembra que o nome surgiu em uma das improvisações que faziam para a Endecha. O estado de graça sentido na atuação, o estado de graça emanado pela poesia de Adélia Prado eram frases que traduziam o sentimento que aquelas atrizes provavam na sala de ensaio. O nome começou a aparecer. Luiz Maia, companheiro de Juliana Gontijo na ocasião e responsável pela ilustração do material de divulgação, decidiu estampar no cartaz do espetáculo a figura mitológica das três Graças. Diz a mitologia que as deusas Graças, por conduzirem todas as atividades lúdicas e prazerosas, são sempre representadas dançando ou brincando. Essa simbologia agradou às atrizes que, então, adotaram definitivamente o nome.
Com essa formação inscreveram o projeto na Jornada Sesc de Teatro. Foram selecionadas. E cumpriram o calendário de apresentações. Terminada a Jornada Sesc de Teatro, Endecha das Três Irmãs seguiu para o Centro Cultural São Paulo, em 1996. Surgia ali uma das vertentes artísticas do grupo: o teatro feito a partir dos versos de poetas do Brasil. Anos mais tarde, essa vertente se mesclaria com outras linguagens, estruturadas a partir de vontades e necessidades encontradas ao longo do caminho. Mas por enquanto, para o segundo espetáculo, a poesia brasileira continuaria a dar o tom. Dessa vez, voltada ao público infantil.
Poemas para Brincar
Enquanto Eli, Dani e Ju faziam Endecha, Vera Abbud, que em breve seria uma das Graças, fazia assistência de direção em Circotrilho Circulô, espetáculo de palhaçaria dirigido por Cristiane Paoli Quito. No Circotrilho atuavam, entre outros, Vânia Terra e Juliana Gontijo; e foi a convite delas que Vera assistiu Endecha das Três Irmãs. “Me surpreendi com o resultado, Endecha era arrebatador e delicado”, diz Vera, encantada com o primeiro trabalho do grupo.
O segundo trabalho seria Poemas para Brincar, um espetáculo que contribuiria para a consolidação das Graças no meio teatral de São Paulo ainda em 1996. Tal reconhecimento seria dado pela crítica e pelo público do resto do país nos anos que se seguiram. O Poemas acabou dando passos muito mais surpreendentes do que se poderia imaginar em seu início. Um exemplo: naquela tarde de outono de 2019, espalhados sobre a mesa redonda da cozinha do apartamento de Juliana Gontijo, os cartazes do espetáculo que seria levado às comunidades ribeirinhas do rio Tapajós estampavam imagens do Poemas. O espetáculo seria levado à Amazônia, confirmando sua vocação para divertir e emocionar crianças e seus familiares há décadas país afora.
Mas naquele começo, em 1996, apesar da grande expectativa depositada nessa nova produção, Poemas para Brincar era apenas o segundo projeto do grupo – de um grupo, vale lembrar, que mal tinha completado um ano de vida. Nada mais natural para aquelas atrizes recém-formadas, e que ainda tateavam o mundo profissional do teatro, deixarem-se guiar pelo desejo de descobertas estéticas diversas. É verdade, havia uma promessa clara de satisfação dentro das Graças, mas naquele momento, a trajetória pessoal de cada uma das três atrizes contribuía para levá-las, por vezes, a apontar rumos distintos. Foi o que aconteceu com Daniela Schitini.
Antes de formar As Graças, Daniela tinha participado, em sua primeira experiência como atriz profissional, do espetáculo Áulis (tragédia dirigida por Celso Frateschi e Elias Andreato).
“Esse espetáculo mudou a minha visão de mundo e abalou todas as minhas certezas. Era um momento de profunda revisão dos meus valores, de novas descobertas. Depois de uma tragédia, eu precisava mudar de máscara: queria a comédia, o ridículo, o palhaço. Foi quando surgiu a oportunidade para eu integrar o elenco de A Banda, de Rubens Rewald, com direção de Cristiane Paoli Quito. Foi difícil deixar o elenco do Poemas, mas era inevitável.”
As Graças teriam que lidar com o pedido de afastamento de uma de suas atrizes. E isso logo agora, no segundo trabalho, que, como dita a lenda, é o momento em que o grupo mostra a que veio. Apostaram na seguinte alternativa: Daniela se afastaria do projeto, mas não da companhia. Todas concordaram. E todas sabiam, é claro, que tal trato era frágil. Talvez não se cumprisse tendo em vista as surpresas que a vida teatral reserva. O risco estava tomado. Avaliariam as consequências depois. Agora tinham que solucionar a supressão artística que a ausência de Daniela representava.
E é aí que Vera Abbud volta a aparecer. Vera tinha sido integrante da Trupe de Atmosfera Nômade, grupo dirigido por Cristiane Paoli Quito (sim, a mesma Quito que dirigiu Circotrilho, e a mesma Quito por quem Daniela se ausentaria de Poemas para Brincar). A Trupe tinha como base o estudo da máscara, notadamente a da palhaçaria. Não é por acaso que se tornou um dos mais férteis viveiros de palhaças e palhaços que apareceram em São Paulo nos anos 90. Os cinco anos em que Vera permaneceu na Trupe foram, sem dúvida, essenciais para a sua compreensão da dinâmica do trabalho em grupo, o que se revelou muito útil, posteriormente, para a experiência coletiva e auxílio na consolidação das Graças. Vera também foi a primeira palhaça contratada pelos Doutores da Alegria, associação na qual atua até hoje.
Como mencionado, Vera tinha visto Endecha das Três Irmãs e tinha trabalhado com Juliana no espetáculo Circotrilho Circulô. Juliana se lembra de ter convivido com ela durante os ensaios e apresentações e se recorda de suas impressões: “Nossa, que pessoa divertida! Ela tem tudo a ver com o Poemas. Mesmo se ela ainda não tem traquejo com bonecos, ela tem tudo a ver com esse universo. Vou conversar com a Eli e ver o que ela acha de convidarmos a Vera”. Eli e Ju conversaram, bateram o martelo e a convidaram. Vera aceitou, veio, arregaçou as mangas e começou a levantar o Poemas com as novas parceiras.
Ana e Juca são duas crianças que descobrem uma maneira diferente de brincar. Através do jogo com as palavras, entram no universo da poesia. Esse é o mote do espetáculo.
Juliana Gontijo disse não saber precisar se o projeto de adaptar para o teatro o livro Poemas para Brincar, de José Paulo Paes, foi ideia sua ou de Luiz Maia, seu companheiro naqueles anos. Houve uma época, em Campinas, na qual o casal mineiro criava e apresentava números e espetáculos em que o teatro de bonecos era a linguagem predominante. Talvez venha daqueles anos o desejo de Juliana de se reaproximar dessa técnica, dessa vez junto com As Graças. A única certeza que o grupo tinha é que, depois de Endecha das Três Irmãs, queria se arriscar com a poesia por outros terrenos. E a proposta de se fazer um espetáculo voltado ao público infantil significaria um primeiro desafio para aquele grupo de atrizes. A novidade da linguagem imagética dos bonecos provocava-lhes um friozinho na barriga. Mal sabiam que, 30 anos depois, esse espetáculo ainda seria apresentado com desenvoltura a diferentes gerações. Crianças que assistiram ao Poemas em sua primeira temporada, em 1996, tornaram-se adultas e hoje levam seus filhos para ver o mesmo espetáculo em família.
Mas voltemos à gênese do projeto.
Luiz Maia é ilustrador. Foi ele quem realizou as imagens para o livro Poemas para Brincar, trabalho pelo qual ganhou o prêmio Jabuti de melhor ilustrador de livro infantil de 1991. Luiz tem um papel fundamental desde o início da história das Graças. Além de ter feito a programação visual de boa parte dos trabalhos do grupo, ele cedeu seu ateliê para os ensaios da companhia até 2001. Luiz deu dinheiro para a produção de Poemas para Brincar, carregou, montou, desmontou os cenários e chegou a substituir as atrizes nesse espetáculo quando foi preciso. “Olha, tranquilo não foi não, quase desisti. Essas coisas têm que se ensaiar muito, já tinha esquecido como se faz, mas acabei substituindo, sim”. Luiz diz isso em referência a seu passado de ator, de bom ator, segundo quem o viu atuando em Minas Gerais. Ele sempre esteve muito próximo do grupo Galpão. Deixou emprestado ao grupo mineiro, por um tempo, um cenário seu que tinha sido utilizado em um espetáculo com o bonequeiro Paulinho Polika. Quando decidiu seguir sua companheira, Juliana Gontijo, que pretendia estudar teatro em Campinas, dividiu o cenário com Polika. Os tripés e tecidos da empanada que compunham a metade de Luiz acabaram sendo reutilizados pelas Graças na estrutura cenográfica de Poemas para Brincar. Luiz desenhou os bonecos, inspirado em suas próprias ilustrações publicadas no livro. Paulinho Polika, Beto Lima, junto com Luiz, os confeccionaram. Alguns acertos aqui, outros ajustes ali, e a estrutura para o trabalho que pretendiam realizar com os bonecos estava pronta. Cabia em um carro Gol e podia ser montada em qualquer lugar.
Foi graças à ajuda de Luiz Maia que As Graças obtiveram a autorização de José Paulo Paes para levarem a cabo a ideia de adaptação. Para isso, Eli, Ju e Vera estiveram pessoalmente na casa do poeta, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, numa tarde de 1996. Para convencê-lo do interesse pelo projeto, As Graças levaram todo o material impresso sobre o grupo que, na verdade, se resumia apenas às informações sobre a Endecha das Três Irmãs, único trabalho da companhia até então. José Paulo espiou aqueles cartazes e recortes de jornais e quis saber mais sobre o projeto, quis saber como abordavam o teatro, o que apreciavam, o que seguiam e, sobretudo, no que acreditavam. As Graças respondiam. José Paulo reagia com outra pergunta mais precisa. As atrizes pensavam, procuravam as palavras que mais se adequavam ao pensamento do grupo e então replicavam. De repente, perceberam que já era noite. Tinham passado a tarde toda conversando sobre tais questões. Então, para concluir o encontro, José Paulo pegou um papel e finalmente assinou a autorização. “Façam!” , disse ele gentilmente, e estendeu uma fita K-7 com os poemas do livro musicados pelo músico Madan. As Graças pegaram a fita e o papel e explicaram-lhe que, como de costume, uma porcentagem do valor arrecadado pelo espetáculo era destinada ao autor. Perguntaram-lhe se estava de acordo.
“A única coisa que eu quero é que a minha parte seja reinvestida no grupo.”
Eli, Ju e Vera, ao ouvirem aquilo, se assustaram de alegria, enquanto o autor continuava: “prestem atenção: minha parte existirá, será calculada, mas voltará para o grupo para que o grupo persista e não acabe; é só isso o que eu quero”.
José Paulo Paes nunca recebeu um único pagamento. Até hoje, a cada apresentação de Poemas para Brincar, a porcentagem que lhe seria devida é revertida ao grupo. Depois de seu falecimento, As Graças foram procurar Dora Costa, viúva de José Paulo, para eventualmente rever aquele trato. Não houve embate comentários. Ele é um poeta imenso, um homem importantíssimo”, ressaltam as atrizes. “Foi muito tocante a maneira como o Zé Paulo acreditou no trabalho teatral de um grupo iniciante, um trabalho que hoje tem quase a idade da companhia e continua vivo, muito graças ao incentivo dele. Que privilégio ter tido ele ao nosso lado.”
Foi assim que Eliana Bolanho e Juliana Gontijo, ao lado de Vera Abbud – a nova parceira que não sairia mais do grupo –tocaram o projeto. Resultado: só naquele ano abocanharam importantes prêmios: Mambembe (teatro de grupo), APCA (texto) e Prêmio Coca-Cola (música e teatro de animação).
Sonhos de Einstein
As Graças tinham atravessado o lendário tabu do segundo espetáculo com certo êxito. Souberam agregar Vera Abbud ao grupo e receber Daniela Schitini de volta. Agora, juntas, eram quatro – e premiadas. Começavam a afirmar aquilo que seria uma identidade da companhia: um grupo de atrizes, sem diretor fixo, interessadas na intimidade da palavra poética, ora utilizada por personagens voltados a um público adulto, ora voltada a um público infantil quando aliada aos bonecos. E tal identidade, por assim dizer, surgia no desenrolar do fio criativo que as movia, nunca tinha sido planejada: acontecia.
Naquela ocasião, Vera Abbud fazia aulas de voz com a diretora Isabel Setti. Entusiasmada com a professora, Vera acabou propondo às Graças o nome de Bel para assumir a direção do novo projeto da companhia. As outras Graças aceitaram a sugestão.
Procuravam um tema.
A escassez – para não dizer a falta – de uma dramaturgia para mulheres levou o grupo a vasculhar os textos existentes a partir de uma questão particular: “o que nesses textos poderia nos interessar e ser transposto ao palco por quatro mulheres?”. Sob esse prisma, começaram as pesquisas.
As Graças e Bel Setti liam, conversavam, trocavam sugestões. Vera Abbud trouxe um pequeno livro de Alan Lightman. Naquelas páginas havia uma pista para a empreitada seguinte: um espetáculo que abordaria diferentes facetas do tempo, mesclando física e literatura de forma onírica e poética. Um espetáculo adaptado do livro e que lhe emprestaria o nome: Sonhos de Einstein. A adaptação foi feita e o espetáculo se realizou.
no Centro Cultural São Paulo. O fato é que, depois dessa temporada, Sonhos de Einstein foi deixado de lado e As Graças nunca mais o incluíram em seu repertório. “Tínhamos investido nesse espetáculo tudo o que ganhamos com o Poemas, mas o Sonhos não vingou.” Vale relembrar que aqueles eram anos de escassa política pública voltada à cultura. Como já mencionado, não havia ainda as leis e editais que impulsionariam a criação teatral dali a alguns anos.
Os recursos obtidos por um grupo eram frutos quase exclusivamente da bilheteria dos espetáculos. Com os gastos de Sonhos, As Graças quase foram à bancarrota.
Era o terceiro espetáculo do grupo, a terceira adaptação de um livro. Pela terceira vez, tinham pensado em um diretor diferente que pudesse materializar o projeto das atrizes. Mas, daquela vez, algo não aconteceu. A tão sonhada amálgama criativa entre texto, atrizes e diretora não se traduziu no palco. O fato é que fizeram Sonhos de Einstein até a última apresentação. Abaladas financeiramente, guardaram o que de belo tinha sobrado da experiência. Frutos bons brotaram desse espetáculo que, vistos pela distância imposta pelos anos, se transformaram em valioso aprendizado. Era a primeira vez em que as quatro atrizes estavam juntas em cena (em Poemas eram três). O que poderia ter desestruturado o grupo acabou sendo compensado pelas descobertas propiciadas pela experiência do processo criativo do espetáculo. Foi ali que nasceu o desejo de explorar suas vozes de cantoras de modo contínuo. Ali também nasceu a necessidade urgente de revisão e solução de falhas de administração e produção dentro da companhia, que se tornou patente. Com todo esse aprendizado, viraram a página e passaram para o próximo capítulo.
Comunidade Solidária
No final de 1998, As Graças receberam um telefonema de Brasília, da assessoria direta de Dona Ruth Cardoso, primeira-dama do Brasil na época e idealizadora do Projeto Comunidade Solidária.
Naquele ano, o Projeto Comunidade Solidária, por meio do Projeto Móvel de Cultura e Meio Ambiente, iria inserir, pela segunda vez em sua estrutura, espetáculos de grupos teatrais. A assessoria de Dona Ruth tinha em mãos uma crítica muito favorável sobre o espetáculo Poemas para Brincar, escrita por Dib Carneiro Neto e publicada em página inteira no jornal O Estado de S. Paulo.
É curioso saber que, 28 anos depois, o mesmo Dib Carneiro Neto escreveria outra crítica sobre o mesmo espetáculo, revisto por ele em 2024. Mais do que favorável, essa nova crítica era afetuosa: um texto em que o crítico se propôs traçar, ao mesmo tempo, a longeva carreira do Poemas e sua própria trajetória como crítico.
Diz ele: “É precioso poder envelhecer, acumulando parâmetros, construindo maturidades, diversificando os olhares. Digo isso porque já tinha visto esse mesmo espetáculo em sua temporada de estreia há 28 anos, em 1996, portanto, no século passado. Estar vivo – ter sobrevivido – para revisitá-lo tanto tempo depois é muito valioso. Essa revisita dirá muito sobre mim também, não só sobre o espetáculo com sua chancela de longevidade. Que se lasquem os puristas da crítica e do academicismo.”
Vale dizer que, entre essas duas críticas, os textos de Dib estiveram presentes em vários outros momentos da trajetória do grupo. Mas aquele primeiro foi o bilhete de entrada para a primeira grande turnê da Cia. Teatral As Graças. Os assessores da primeiradama desejavam confirmar se aquele espetáculo descrito na crítica no Estadão – um trabalho que aliava tão bem a poesia de José Paulo Paes à linguagem de bonecos – ainda fazia parte do repertório do grupo. “Faz sim”, responderam As Graças, eufóricas. “Pois gostaríamos de convidá-las a realizar, dentro do nosso projeto
(Daniela Schitini permaneceu em São Paulo, cumprindo suas apresentações com A Banda). De lá, tomaram o rumo de Jaramataia, cidade onde pousaram alguns dias e onde, pela primeira vez, apresentaram o Poemas fora de um teatro. Como se verá, essa experiência foi capital para escalarem o Poemas para as outras grandes turnês que viriam a fazer, já no século XXI.
No Comunidade Solidária, em 1999, fizeram onze apresentações ao todo, em onze cidades diferentes, escolhidas pela organização do projeto. Além dos artistas, perambulavam pelas cidades universitários que, também por meio do Comunidade Solidária, partiam para o Nordeste para desenvolver atividades ligadas à saúde, educação, saneamento básico, administração pública, justiça, agricultura, entre outros. Hospedavam-se e atuavam em lugares alternativos. As Graças, por exemplo, levavam seus espetáculos aos pátios das escolas e outros espaços municipais. Dormiram em postos de saúde e até na Casa de Frei Damião. Era tudo muito diferente do que aquelas atrizes do sudeste conheciam. Estava nascendo ali o embrião de um sonho que seria realizado anos mais tarde com o ônibus Circular Teatro As Graças estavam tateando um terreno novo, com a curiosidade que as caracteriza até hoje. Em certa medida, estavam nomadizando seu trabalho. Teriam naquele janeiro de 1999 uma das experiências mais transformadoras da trajetória do grupo. Nascia ali uma nova vocação: serem também itinerantes.
Mas as dificuldades não foram poucas. A adaptação de cada montagem e o calor foram os primeiros indícios da existência de um Brasil completamente distinto do país com o qual o grupo estava acostumado. Muita gente lá não sabia o que era teatro, não por nunca o ter frequentado, mas simplesmente porque essa palavra – teatro – não correspondia a nada que lhes fosse familiar. O público, pasmo, tentava adivinhar o que daquele monte de tecidos e ferros poderia acontecer. A diferença de referências só foi amortizada quando um rapaz gritou “é mamulengo”, ao ver o desfile que As Graças faziam com os bonecos pelas ruas da cidade, chamando o público para comparecer em massa e assistir ao espetáculo: “Venham, venham, é logo mais, é logo ali – Poemas para Brincar, daqui a pouco, no Centro Comunitário Municipal, ao lado do salão de baile”.
Foi um alvoroço.
Poemas para Brincar nunca mais foi o mesmo. Habituado a ser apresentado sob as luzes e o aconchego dos teatros paulistanos, o espetáculo se transformou em um verdadeiro show sob o sol que penetrava nas escolas e salões do sertão. A poesia de José Paulo Paes se confrontava com a espontaneidade dos comentários do público nordestino. A sutil delicadeza das interpretações deu lugar ao vigor teatral típico dos palcos de rua. O impulso era outro. O cenário era outro. E pra completar, a população local se engajava em procurar novos lugares para as apresentações. “Ora, por que vocês não se apresentam também na igreja?” . E lá corria alguém pedir a chave pro vigário. Enquanto alguém varria a frente do altar, outros alinhavam as cadeiras, e isso se repetia em cada cidade ou vilarejo em que o Poemas foi mostrado.
Tudo o que girava e acontecia em torno das Graças, naquelas apresentações, provinha de outra natureza, de uma forte e acolhedora natureza que, aos poucos, foi se misturando e se confundindo com a própria natureza do grupo. No final de cada apresentação, novas trocas e descobertas: as atrizes se reuniam com o público para conversar sobre a história da peça, mostrar os bastidores da estrutura cenográfica e os bonecos.
O articulador cultural Edmilson Vieira talvez seja a pessoa que melhor resuma a generosidade oferecida às Graças durante a viagem. Ele já conhecia o projeto Comunidade Solidária e tinha travado bons contatos com os artistas do ano precedente. Assim que ficou sabendo que um novo grupo de teatro ancoraria na região, fez questão de conhecê-lo. Edmilson, além de acompanhar as apresentações das Graças, acabou provocando uma intensa troca cultural entre as atrizes paulistas e artistas de sua região: mamulengueiros, palhaços, repentistas etc.
O encanto era geral e, por parte das Graças, foi unânime: viajar pela hospitalidade desses cantos do Brasil, ser reconhecidas profissionalmente por instituições federais, fazer parte de um projeto de envergadura nacional, descobrir e alimentar os anseios de um público novo foi mais que um presente: foi a possibilidade para essas atrizes, ao voltarem para São Paulo, de alterarem o rumo de suas vidas pessoais e a vida futura de seu grupo. As Graças trouxeram de Alagoas e de Pernambuco uma bagagem enorme, que permanece aberta até hoje. Trouxeram entranhado em si o desejo de itinerância.
Itinerário de Pasárgada
Hoje em dia, quando olham pra trás, As Graças percebem como os projetos daqueles primeiros anos se sucederam com dinamismo. Mal tinham posto o pé de volta em São Paulo, vindas do Nordeste, e já embarcaram em outro projeto – itinerante, como almejavam.
Em maio de 1999, As Graças participam do projeto Coração dos Outros – Saravá Mário de Andrade, a convite do Sesc-SP. Junto com o Comunidade Solidária, realizado no início daquele mesmo ano, Saravá Mário de Andrade marca novamente o afastamento do grupo das paredes escuras e fechadas das salas de teatro.
Itinerário de Pasárgada, espetáculo baseado na poesia de Manuel Bandeira, foi criado especialmente para a ocasião. Num primeiro momento, a peça foi apresentada exclusivamente ao ar livre, em praças, ruas, estações e trilhos de trem desativados de vinte cidades do interior do estado de São Paulo. As Graças lembram que as viagens de quarta-feira a domingo, durante um mês, propiciavam o encontro com outros artistas e grupos que também participavam do projeto. As atrizes viajavam e trocavam percepções com Lia Rodrigues, Chico César, Cia. de Mistérios e Novidades, Ceumar, Circo Branco, entre outros. A possibilidade de assistir aos espetáculos uns dos outros, de discutir, permanecer em contato durante um tempo foi fundamental para o aprendizado das Graças.
Regina Galdino foi a diretora escolhida para organizar, adaptar e dirigir Itinerário de Pasárgada. Regina foi um achado, foi indicada pelo ator Fausto Franco, amigo em comum e parceiro de longa data das Graças. Regina pensava na sobrevivência financeira do grupo. E era bom que pensasse assim, afinal, a companhia vinha de um período econômico muito instável depois dos gastos com a produção de Sonhos de Einstein. Não foram gastos faraônicos, mas, para os parcos meios de produção de uma companhia lutando para sobreviver sem poder contar com subvenção alguma, sim, Sonhos de Einstein foi caro. O que sobrou para a produção do Itinerário era muito pouco. Foi necessário se reinventar financeiramente. Os figurinos do novo espetáculo, por exemplo, foram os mesmos utilizados em Sonhos de Einstein, criados, na época, por Claudia Schapira. Como a peça seria apresentada durante o dia, não havia necessidade de luz e, por consequência, de iluminador. Os cenários resumiam-se ao estrito necessário. E, no caso do Itinerário, o estrito necessário era simples e, sobretudo, barato.
Quando Regina veio dirigir As Graças, o grupo já tinha uma imagem: os três espetáculos anteriores – Endecha das Três Irmãs, Poemas para Brincar e Sonhos de Einstein – foram todos adaptados da literatura para o palco. Além da adaptação literária, outra característica que começava a se consolidar era o fato de as atrizes, além de interpretar, também cantarem.
Regina Galdino, que já tinha visto e gostado da Endecha, conta que leram a obra completa de Manuel Bandeira. “Líamos cada uma em nossas respectivas casas para depois, no ensaio, mostrar umas às outras quais eram nossos poemas prediletos. Também selecionamos alguma prosa. Em seguida” – continua Regina – “organizei a seleção dos textos. O espetáculo era composto exclusivamente de palavras de Manuel Bandeira. Nas prosas houve algum corte aqui e ali, mas na poesia não mudamos sequer uma vírgula, não ousamos mexer na estrutura, apenas selecionamos algumas delas para que Pedro Paulo Bogossian as transformasse em música. Foi assim que o Itinerário foi se construindo ao longo dos ensaios”.
O princípio de se trabalhar a partir dos textos preferidos de cada atriz permitiu a Regina entrever as características que diferenciavam cada uma delas, o que, segundo seu julgamento, poderia enriquecer em nuances o resultado final do trabalho coletivo. Regina, face a tais características, reorientava seu trabalho, tentava descobrir como tornar esse grupo de atrizes ainda mais disponíveis, prontas a se abrirem a um campo novo de experiências. “Eu não gosto de fazer teatro com sofrimento”, diz a diretora, “tem que ser um prazer; se as atrizes gostam de tal coisa, por que não se apoiar nisso? – mas atenção: isso não significa se acomodar. Às vezes, o artista quer experimentar outra coisa diferente do que já conhece, e isso é legítimo e importante; fico atenta a isso”.
Faltando pouco menos de um mês para a estreia, quando crê ter finalizado o trabalho de interpretação, Regina realiza uma abertura de processo. Convoca pessoas da classe teatral e outras pessoas que se dispõem a dar uma devolutiva sobre o espetáculo em construção. Esse recurso, bastante utilizado nos dias de hoje, era novidade para aprendido com o diretor Gianni Ratto, de quem tinha sido assistente de direção. Gianni dirigia seus espetáculos concentrando-se primeiramente no que ele chamava de borrão. A partir desse borrão é que passava à lapidação e, então, faltando algumas semanas para a estreia, abria o ensaio para uma plateia de convidados. Uma vez terminada a apresentação, Regina e argumentos, palpites e críticas da plateia. Apenas ouvem; não abrem a boca para se justificar. E foi o que fizeram com as críticas, acataram algumas, rejeitaram outras, tiveram o tempo para ajustar uma barriga aqui e outra ali, uma incompreensão na dramaturgia em tal cena e partiram para a estrada, rumo à itinerância pelo interior paulista.
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Orides – A um Passo do Pássaro.
A um Passo do Pássaro
Ivan Marques, jornalista especializado em literatura, sabendo do traquejo das Graças com os versos da poesia brasileira, procura as atrizes para que elas participem de um documentário que ele dirigirá para a TV Cultura, onde trabalha. Orides – A um Passo do Pássaro vai ao ar no ano 2000. Em pouco mais de 25 minutos, especialistas nos poemas de Orides Fontela dão depoimentos sobre a obra e a vida da escritora. Além de uma entrevista com a própria Orides, seus versos, ditos por Dani, Eli, Ju e Vera, ilustram o documentário. A familiaridade com a poesia de Adélia Prado, José Paulo Paes e Manuel Bandeira rendeu às Graças uma nova descoberta: a experiência com o audiovisual. No futuro, outros documentários retratarão as aventuras da companhia, mas isso é assunto para capítulos mais adiante.
O Voo e O Voo II
O século está prestes a virar. Os anos 2000 e 2001 são marcados por duas novas produções infantis na trajetória das Graças: O Voo e O Voo II
Foi o diretor e bonequeiro Cláudio Saltini que convidou As Graças para dividirem a produção e atuarem em uma remontagem de uma antiga ideia sua. Tratava-se de O Voo, que já tinha uma primeira versão pronta, mas necessitava de alguns arranjos e mudanças. O Voo é baseado na aventura de Charles Lindbergh, o primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico em um avião. Cláudio Saltini dirigiu o espetáculo e As Graças entraram como atrizes, utilizando suas técnicas de manipuladoras.
O processo foi bastante desgastante durante O Voo “Tivemos dificuldades, não financeiras, mas físicas e emocionais.” Eliana estava ausente, tinha se afastado para atuar no espetáculo Ópera do Malandro, dirigido por Gabriel Villela. As Graças sentiam novamente o peso de um desfalque, dessa vez justamente de quem tinha o hábito de apontar os problemas e de promover o diálogo com mais facilidade. A ausência de Eli comprometeu bastante a fluidez da comunicação no grupo. Era um projeto que não agradava a todas as atrizes. Também, com Cláudio, divergências começavam a aparecer.
foram seduzidas pela qualidade de ele. Então, como às vezes acontece no teatro, de uma gestação crítica chegou-se a um resultado satisfatório (não foi a última vez que isso aconteceu). E O Voo é a prova disso: foi mais do que satisfatório: as atrizes ainda o consideram uma obra linda de se ver e de se atuar. Tiveram participação especial nesse espetáculo os atores convidados Eugênio La Salvia, Fernando Sampaio e Fausto Franco.
Com a esperança retomada graças ao sucesso atingido pela montagem, as atrizes aceitaram um novo convite de Cláudio Saltini, dessa vez para montarem O Voo . Mas as condições mudaram. O projeto, dessa vez, era inteiramente de Cláudio: os bonecos, o cenário, a divulgação e o faturamento pertenciam à sua produtora. As Graças foram apenas contratadas para atuar e, pela primeira vez, se engajaram como grupo em uma produção alheia (também não foi a última vez que isso aconteceu). Eliana Bolanho está de volta e participa de O Voo II. A atriz Sylvie Layla é convidada a integrar o elenco. Regina Galdino cuidou do novo texto e da direção de elenco. Eduardo Amos colaborou como consultor.
iniciou sua temporada no dia 20 de outubro de 2001, no Teatro Alfa. O espetáculo e os bonecos foram livremente inspirados no filme Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras, de Ken Annakin. A peça mostra uma corrida aérea ao redor do mundo, que parte de Paris e termina na China, com escalas cheias de surpresas em diversas regiões, inclusive no Brasil. O resultado, novamente, agradou muito.
O Voo II chegou a ganhar o prêmio APCA de melhor espetáculo de bonecos. Mas, novamente, o esforço requerido não recompensou os anseios das atrizes. Decisão mal acertada. Afinal, não dispunham da autonomia e flexibilidade pela qual vinham lutando desde o nascimento da companhia, sem falar nos desentendimentos que continuaram a dar o tom da relação entre as atrizes e Saltini. “Uma vez terminados os ensaios e a temporada, o espetáculo não nos pertencia. Sim, era o combinado, mas nos cansamos disso.”
Deixaram O Voo II para ser explorado por Saltini e continuaram, sob o selo das Graças, a difundir O Voo, que tinha sido um sucesso nos teatros e, como se verá, ainda renderia frutos à companhia.
Tem Francesa
No Morro
Fazia algum tempo que As Graças pensavam em rever seus passos. Queriam se arriscar por terrenos desconhecidos. O espetáculo seguinte não seria mais uma adaptação da literatura, nem seria de teatro de bonecos. A história de Tem Francesa no Morro começa assim: Kleber Montanheiro é um velho conhecido do grupo. Trabalhou com Vera na época da Trupe de Atmosfera Nômade. Posteriormente, foi colega de Juliana e da própria Vera nos Doutores da Alegria. Em 1999, criou a luz, muito elogiada, de Sonhos de Einstein.
Um belo dia, no refeitório do hospital em que atuava de palhaço com Juliana, Kleber ouviu atentamente da atriz a tal ideia que começava a surgir dos desejos das Graças – desejos esses que combinavam muito com os desejos do próprio Kleber. “Por que não montar uma revista?”
Kleber, que hoje tem o Espaço Cia. da Revista, já tinha, naquela época, uma profunda pesquisa sobre o tema e seria um ótimo nome para dirigir a nova aventura teatral da companhia. A ideia era levar para o teatro o universo das vedetes da revista brasileira. As Graças queriam mudar de registro, precisavam atuar “para fora”, queriam um teatro ainda mais popular, ainda com mais música, queriam ser extravagantes, se fosse preciso.
Então apostaram na revista, esse gênero raramente registrado por intelectuais, “ não ensinado nem mencionado na EAD”, lembra Eliana, mas que agradava do estivador do cais do porto ao presidente da República, na primeira metade do século XX. Um gênero inspirado nas revistas francesas, que bebe no circo-teatro, nos cabarés e dá origem, entre outros, aos programas de auditório que ocupariam e teriam seu auge na televisão brasileira na segunda metade do século XX.
Fizeram uma primeira reunião para decidir a espinha dorsal do espetáculo e para que Kleber expusesse seus pensamentos sobre a adaptação de um espetáculo baseado na estrutura original da revista, praticada no Brasil. Criaram o mote: a demolição de um velho teatro, o Teatro Recreio, no Rio de Janeiro, templo da revista carioca. O prólogo seria um enterro, o enterro do próprio teatro, onde compareceriam quatro das mais importantes artistas do teatro de revista: Aracy Cortes, Virgínia Lane, Dercy Gonçalves e Mara Rúbia.
Os papéis foram distribuídos para as quatro atrizes das Graças da seguinte maneira: Vera se inspiraria em Aracy, Juliana em Virgínia, Eli em Dercy e Dani em Mara. Para os outros papéis, inclusive os masculinos, elas se revezariam. Começaram as pesquisas apoiadas na já enorme quantidade de informações que Kleber trazia sobre a revista: história, estrutura e técnicas do gênero.
Antes de partirem para os ensaios, ainda conseguiram entrevistar pessoalmente Dercy Gonçalves em um hotel em São Paulo:
“Xiii, vocês vão à falência se quiserem montar uma revista. É um dinheirão!
Tem que ter um monte de boys, um monte de girls, umas 100 pessoas... e hoje em dia fica difícil.”
As Graças expuseram seu projeto:
“Nossa ideia é montar só com quatro atrizes.”
“Só com quatro?!”, se espantou Dercy.
“É, inspiradas em você, na Aracy, na Virgínia e na Mara.”
Ao ouvir esses nomes, Dercy soltou:
“Ah, gente, a Virgínia era muito baixinha, a Mara Rúbia era um inferno de pessoa!”
E logo completou:
“Mas que eram mulherões, isso eram; quando subiam no palco, tudo mudava”.
E continuou o papo com detalhes picantes e construtivos sobre a vida das vedetes e da revista brasileira.
Com base nas entrevistas, na pesquisa já estabelecida e em anedotas recém-recolhidas, aperfeiçoaram a estrutura a ser seguida. Tudo se inspirou nas minúcias da revista. Uma vez decididos quais números comporiam o esqueleto do espetáculo, Kleber e As Graças se lançaram à sua lapidação.
“O processo foi bastante divertido”, diz Kleber. “Eu dizia: vocês são muito hippies, a revista é feita por mulherão, não pode ter essas mulheres mal ajambradas no palco, tem que fazer escova, pintar as unhas. A Juliana nunca tinha pintado a unha na vida; para a Dani, tínhamos que descolorir o cabelo porque a Mara Rúbia era loira. Então a Dani pintou, mas ficou verde, depois laranja, até que, depois de tanta mistura e choro, chegamos ao loiro desejado. As queridas inventaram de fazer revista, agora vamos até o fim!”
E elas toparam a parada, mas não sem certo sacrifício.
No dia da estreia, Eli chega chorando. Tinha torcido o pé, mas parecia que lhe tinham torcido o mundo. Demorou um tempo para se acalmar e se acostumar com a ideia de fazer uma vedete calçando botinhas e usando bengala. Fez e funcionou. Não foram raras as vezes em que As Graças entraram em cena com o figurino incompleto, trocado ou do avesso. Daniela também foi testada na estreia. Em um determinado momento da peça, saiu de cena com um deslumbrante vestido tomara-que-caia, arrastando a cauda, ajeitando as luvas e ignorando o imenso estrondo que lhe aguardava nas coxias. Tropeçou no salto alto e blumpt, foi direto ao chão levando consigo, de lambuja, a cortina do cenário. Apesar das dificuldades, era uma satisfação poder homenagear as vedetes da revista brasileira. Aquelas mulheres, na aurora do século XX, sobrepujaram preconceitos, fizeram-se visíveis e ajudaram a abrir caminho para gerações de mulheres que aspiravam entrar em cena, cantar, dançar, interpretar e fazer do teatro sua meta e seu meio de vida. As Graças estão entre essas mulheres e reconhecem a imensa importância de suas ancestrais de palco.
escolhidas músicas já existentes, arranjadas por Mário Manga e preparadas vocalmente por Adílson Rodrigues. “O repertório era lindo e os arranjos também”, dizem as atrizes, que deram um importante salto como cantoras naquele momento.
Tem Francesa estreou no projeto Mosaico Teatral, no interior de São Paulo. Fizeram a viagem para a estreia e ainda se apresentaram em mais quatro ou cinco cidades do estado. No dia 12 de janeiro de 2002, entraram em cartaz no porão do Centro Cultural São Paulo, espaço para o qual o espetáculo tinha sido concebido e onde ficou em temporada por dois meses.
Circular Teatro
O ano de 2002 se desenrola. Tem Francesa está em cartaz e vai muito bem. É hora de falar do ônibus, esse marco na história da companhia.
O ônibus em questão é um Mercedes... ou quase. Thiago Dell’Orti, técnico da companhia àquela altura e filho de Eliana Bolanho, é quem explica: “olha, a melhor definição pro busão é a seguinte: carroceria Caio, modelo Bela Vista e um motor 11-13 adaptado e montado em cima de um chassi 11-11 da Mercedes-Benz.”
Aprendo com Thiago que isso significa que o chassi do ônibus, feito em 1960, é mais curto no comprimento do que os ônibus atuais e que, por isso, tem uma aparência mais robusta. O ônibus impressiona quem cruza seu caminho, esteja ele estacionado ou rodando. E, quando se desdobra e vira palco, seu admirável porte – com tablado, escadas e palco superior – atrai os olhares dos transeuntes antes mesmo de o espetáculo começar.
Quem viu o ônibus pela primeira vez, anos atrás, foi Juliana Gontijo; empoeirado e abandonado, ele estava na garagem de um amigo, Zé Ramos.
Num domingo de outono daquele ano, Juliana Gontijo e Luiz Maia foram convidados a um almoço no sítio de Zé Ramos, perto de Embu, município da Grande São Paulo. Luiz já tinha comentado com Juliana sobre a existência do ônibus. Disse-lhe que o amigo Zé Ramos o comprara em Recife, mas que há mais de três anos o veículo permanecia parado na garagem da propriedade. Na verdade, não se tratava de um ônibus de passageiros, mas de um motorhome que, em vez de se destinar ao camping, como todos os motorhomes, deveria ser inicialmente transformado pelas mãos da filha de Zé Ramos em consultório veterinário ambulante ou, pelas mãos de seu filho, em laboratório fotográfico ambulante. Ambos os projetos não vieram à tona e o ônibus, desprovido de sonhos, jazia na garagem.
O fomento
Naqueles dias, o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, uma novidade no panorama teatral do país, acabara de ser instaurado. Os grupos por ele beneficiados seriam escolhidos com base no impacto artístico e social de seus projetos e teriam sustentação financeira para desenvolvê-los relativamente distantes da precariedade habitual. Além disso, com a Lei de Fomento, os contemplados poderiam pretender se estruturar logisticamente para darem perenidade a suas opções artísticas.
proporcionou, desde o início, um diálogo entre a classe artística e o poder público. O objetivo da lei é apoiar e estimular, prioritariamente, a pesquisa de linguagem, o aprofundamento do trabalho artístico continuado, a formação de público, a descentralização da cultura e a inclusão social por meio da arte.
O Fomento foi, e continua sendo, ao lado de outros editais culturais, o responsável pela revitalização do teatro de grupo, na cidade de São Paulo.
As Graças, quando lembram de suas escolhas naqueles anos, reconhecem que aqueles dois fatores – a conquista daquela lei e a existência moribunda daquele ônibus numa garagem em um sítio no Embu – acabaram convencendo o grupo de que a guinada com a qual sonhavam já estava determinada e que um novo fôlego já soprava no horizonte do grupo.
Naquele domingo no sítio, Juliana, ao bater os olhos no ônibus, viu de imediato a possibilidade de fazer daquele trambolho abandonado um palco sobre rodas. Disse a si mesma: “esse ônibus dá um teatro”. Teve a ideia e quis inscrevê-la na nova lei. Mas, como na Cia. Teatral As Graças todas as ideias, proposições, queixas e alegrias são sempre partilhadas por todas as integrantes do grupo, Ju teve que esperar ansiosamente até o anoitecer, quando se encontraria com Daniela Schitini, Eliana Bolanho e Vera Abbud. Juliana saiu exultante do sítio no Embu. Chegou ao teatro onde
As Graças apresentavam Tem Francesa no Morro e, no camarim, disse às outras componentes do grupo: “meninas, eu tenho algo a propor”. E contou a todas o que tinha vislumbrado horas mais cedo no sítio de Zé Ramos. As Graças se entreolharam. Houve aquele tempo de silêncio pensativo e ressabiado. De repente, ali no camarim, as reações surgiam, uma a uma.
Dani: “por que não?”.
Vera: “essa ideia... essa ideia... é boa... muito boa... muito boa, mesmo”.
Eliana: “gente, o primeiro lugar onde temos que apresentar é na Freguesia do Ó”.
E, dito e feito, foi lá mesmo.
As Graças estavam mais do que de acordo. Aquele ônibus representava a concretização de um sonho de teatro itinerante que, como dito antes, o grupo acalentava desde 1999, ano em que as atrizes participaram do projeto Comunidade Solidária, no nordeste do país, e do Saravá Mário de Andrade, no interior do estado de São Paulo. Precisavam, agora, levar a cabo aquele embrião de projeto próprio, batizado de Circular Teatro na proposta que As Graças apresentaram ao primeiro edital da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Mas, antes disso, precisavam ter o aval de Zé Ramos.
Alguns dias depois daquele almoço de domingo, Juliana ligou para o proprietário do ônibus. A negociação não foi simples.
O proprietário do veículo criou novas condições. Mas conversa vai e conversa vem, chegaram a um acordo final. As Graças poderiam inscrever o antigo motorhome como base de seu projeto itinerante.
Mal ficaram sabendo que o Circular Teatro tinha sido beneficiado pela Lei de Fomento, Kleber Montanheiro, parceiro no Tem Francesa no Morro, sentou à mesa e começou a projetar a adaptação da estrutura do veículo para receber os espetáculos do repertório do grupo.
“Vou ser sincero: quando eu ouvi aquilo – um ônibus itinerante – ai, meu Deus, achei que não fosse dar certo”, confessa Kleber. “Mas depois achei bem legal, uma revista na rua, com as escadarias, cortinas, tudo o que tinha que ter, adorei”.
Era a revista das Graças, grupo que deixava para trás a imagem de meninas da poesia e dos bonecos para assumirem sua imagem de mulherões de plumas extravagantes. Grupo que, partindo do aconchego confortável da sala de teatro, partiria agora ao encontro da periferia de São Paulo. A ideia era tornar esse teatro ainda maior, ainda mais popular. A rua era um sonho.
Virgínia Lane dizia que as vedetes francesas do Moulin Rouge parisiense desciam as escadas do cenário olhando para o alto e mexendo os ombros; e que as brasileiras do Teatro Recreio desciam olhando para o povão lá embaixo e mexendo os quadris. “O público é outro, nos adaptamos, oras. O espetáculo tem que comunicar”. Era isso que buscávamos intensificar com a migração do Tem Francesa do teatro para a rua. Mas antes, era preciso reformar o ônibus.
A reforma
Vera Abbud ficou sabendo que estava grávida no mesmo dia em que As Graças receberam a notícia de que o Circular Teatro tinha sido contemplado pela Lei de Fomento. Vera sabia que não estrearia no ônibus e que, muito provavelmente, permaneceria afastada dos palcos por algum tempo. Então, arregaçou as mangas e se concentrou em algo que já praticava nos trabalhos do grupo: o projeto e a construção de cenários. Mas daquela vez a empreitada exigia mais fôlego. A atriz se encarregaria de tocar o projeto de adaptação do ônibus e sua reforma.
Vale lembrar que o Google engatinhava naqueles anos e um “motor de busca” muito utilizado ainda era um grosso catálogo telefônico chamado Páginas Amarelas. Ali se concentravam os contatos telefônicos de empresas e prestadores de serviço das mais diversas áreas. De telefone em punho, Vera folheava o catálogo e ligava para um fornecedor depois do outro.
Ela diz: “Sabia que aquela reforma estava muito além do meu conhecimento sobre cenários, mas queria tanto que aquele projeto funcionasse que, hoje em dia, lembrando daquele desafio, acho que a frase ‘não sabendo que era impossível, foi lá e fez’ resume o que foi a produção do Circular.” Então, para começar a concretizar o projeto, Vera tirou o ônibus do sítio de Zé Ramos e o levou até uma oficina especializada na construção de trailers. Nessa oficina, foram construídas as novas estruturas que sustentariam os espetáculos do repertório do grupo.
Em primeiro lugar, instalaram um deck sobre o teto da carroceria do veículo. Em seguida, Vera desenhou e pediu uma porta, na verdade uma janela imensa, em uma das laterais do veículo. Além de Tem Francesa no Morro, a ideia era também adaptar O Voo para o ônibus. E nessa janela lateral se encaixaria sua estrutura. Vera cuidou para que as transformações do cenário e das instalações elétricas se adaptassem ao novo espaço imposto pela estrutura da carroceria. Dessa maneira, o interior do veículo, além de servir de coxia, abrigaria as atrizes manipuladoras durante a apresentação do espetáculo.
A segunda etapa foi a construção do palco para Tem Francesa a partir do desenho que Kleber tinha projetado. A essa altura, o ônibus já tinha sido levado a outra oficina. Nelson Silva, serralheiro indicado pelos Parlapatões, executou os trabalhos. O palco seguia as dimensões necessárias para a apresentação do Tem Francesa A escada central e as laterais também foram projetadas em função daquele espetáculo. Nos primeiros esboços, várias hipóteses de utilização surgiam. Vera e Kleber se arriscavam. Acabaram descobrindo, com o tempo, que as várias escadas, com seus três níveis, davam excelente unidade e movimentação para o palco e se revelaram muito úteis para as montagens seguintes. “Foi uma coisa cheia de chutes e acasos, mas que acabou dando muito certo”, dizem os dois.
Faltava escolher a cor final do ônibus. “Tem que ser uma cor escura e neutra para se adaptar a todos os espetáculos e ao maior número de paisagens urbanas possível”. Fecharam com o azul escuro porque, entre outras coisas, é uma cor recorrente no universo circense, universo esse que não deixa de lembrar a aventura itinerante que As Graças estavam prestes a iniciar. Acrescentaram um suporte para suspender a cortina vermelha de Tem Francesa no Morro e aproveitaram como alçapão uma claraboia que o ônibus já possuía. Para finalizar, inspiraram-se em soluções encontradas em projetos semelhantes de outros grupos do país.
A logística
Enquanto isso, em outra mesa, debruçadas sobre mapas e papéis, as outras integrantes do grupo decidiam quais lugares da cidade seriam visitados. Eliana entrou em contato com Celso Alencar, responsável pelo projeto Arte na Rua, da Secretaria Municipal de Cultura, para que ele as ajudasse com a escolha de lugares interessantes para apresentações do ônibus. Recebeu uma lista de possibilidades. Pré-escolheram um punhado de praças, parques, largos e ruas. Depois passaram à pesquisa de campo. Precisavam saber se os lugares escolhidos no papel correspondiam às expectativas técnicas do grupo. Viajavam aos domingos à tarde pelas cinco regiões do município de São Paulo (norte, sul, leste, oeste e centro), verificando se nesse dia e nessa hora havia público nos lugares pré-escolhidos. Daniela e Vera partiam para uma região da cidade enquanto Eliana e Juliana partiam para outra. Se na localidade escolhida havia público, passavam a observar a possibilidade de se efetuar uma divulgação eficiente, colagem de cartazes, filipetagem etc.
Naquelas primeiras visitas, estavam aprendendo a envergadura das dificuldades que apresentava um projeto com as ambições do Circular Teatro Hoje, lembrando aquele começo, As Graças reconhecem: “Bolar o projeto foi simples, pois, de certa maneira, ele já pairava em nossos ares. Desafiador foi encará-lo e, sobretudo, levá-lo adiante depois de começado”. E foi justamente nessas andanças que começaram a entrever um caminho possível. É verdade, perderam-se várias vezes e, ao se perder, acabaram descobrindo potenciais lugares para as apresentações do ônibus que jamais teriam sido descobertos se tivessem se baseado exclusivamente nos mapas e guias. “Olha, moça, essa rua eu não conheço não, mas ali no alto da ladeira tem um larguinho bem movimentado. Por que é que vocês não dão um pulo lá? É capaz do teatro de vocês ficar bem lá em cima”, diziam os próprios moradores e transeuntes, indicandolhes a existência de lugares ideais para receberem o Circular Teatro. Era como desbravar uma cidade desconhecida, que sequer aparecia nos mapas, onde, desde o início, o público já as ajudava nas escolhas e lhes dava direções. Com o tempo, descobririam com mais precisão que outro público é esse, que cidades outras são essas que brotam e se esparramam num mesmo município. Verificariam quais adaptações fariam nos espetáculos quando levados ao ônibus. Pensariam, mais tarde, quais personagens e qual dramaturgia seriam apropriadas ao Circular. Mas naquele início, isso tudo não passava de longínquas considerações. Antes, era preciso estrear, urgente! Esperaram ansiosamente o dia da estreia: Eli, Ju e Dani montadas em seus figurinos e maquiagens de vedetes e Vera, acariciando o barrigão que não parava de crescer.
Oito horas da manhã. Assim começou aquele primeiro ritual que depois se repetiria a cada saída do ônibus Circular Teatro: Eliana, sempre a primeira a chegar, já tinha ligado para todos os envolvidos na apresentação. No horário combinado, os técnicos chegaram no estacionamento. Os cenários de O Voo e de Tem Francesa no Morro, as duas peças das Graças programadas para aquele dia, já estavam carregados dentro do ônibus.
Thiago Dell’Orti, filho de Eliana, foi o primeiro motorista do ônibus. Ele verificava a água, o óleo e o combustível. “Lembro quando minha mãe me intimou: esse é o ônibus, você é capaz de dirigir ele?” Thiago confessa que, quando viu o ônibus pela primeira vez, achou que era uma piada. “Eu nunca tinha visto um ônibus daquele, parecia uma jardineira. Sei lá, quando me falaram em teatro em ônibus, eu imaginei outra coisa... uma coisa mais sofisticada, né?”
Thiago levaria o Circular Teatro naquele sábado até a Freguesia do Ó, a primeira viagem de muitas que faria com o ônibus pela cidade inteira.
O Largo da Matriz, local da apresentação daquele dia de estreia, também já tinha sido visitado e analisado por Eli. Essa análise consistia basicamente nos seguintes pontos: localizar um terreno plano onde o palco pudesse ser montado e os banquinhos para o público instalados, observar a orientação do sol para que o público não assistisse ao espetáculo em contraluz, verificar se não havia postes e fios da rede elétrica que impedissem a instalação do cenário superior e, para terminar, certificar-se de que as autorizações da subprefeitura e da companhia de eletricidade tinham sido devidamente encaminhadas. Enfim, coisas que dão trabalho, sem falar nos documentos, que também custam dinheiro, e que para aquele primeiro ano não foram devidamente orçados.
“Para se ter uma ideia, além de termos que pagar a ‘taxa de energia festiva’ para a Eletropaulo (a distribuidora de eletricidade da época), tínhamos também que contratar um técnico credenciado para puxar a energia do poste até o ônibus, um técnico que custava caro e que, às vezes, se atrasava. No ano seguinte, essa foi, sem dúvida, a principal razão para que não fizéssemos mais espetáculos à noite.”
Mas naquele dia tudo parecia certo, podiam estrear. Uma vibração de ansiedade já pairava no ar. Eles se olham e, em silêncio, dizem: “É agora!”
Thiago, sem hesitar, girou a chave do ônibus, soltou o freio de mão, engatou a primeira e acelerou para dar início, naquele exato momento, à aventura do Circular Teatro! E continuou acelerando, enquanto o velho motorhome, barulhento, sacudindo feito criança, atravessou o portão e deixou para trás o estacionamento na Ponte do Piqueri rumo à extraordinária empreitada de quatro meninas que queriam dividir seu sonho de teatro com outros públicos.
O alto da colina do Largo da Matriz aparece através do para-brisa. Estão chegando.
caixas são retiradas do interior do veículo e, em seguida, ele é varrido. Enquanto isso, Eli já saiu para comprar água, providenciar uma cesta de frutas, trocar as pilhas e baterias dos equipamentos. Em seguida, parte em busca de um local onde todos poderão almoçar, em turnos diferentes e pré-determinados, para que sempre haja um técnico junto ao ônibus. Em duas horas, o palco, o cenário, o som e a luz devem estar montados. Depois da volta do almoço, colocam-se os banquinhos para a plateia. Isso significa que o espetáculo não está muito longe de começar. Os atores, a essa altura, já estão todos ali, às voltas com os últimos preparativos.
que fariam uma apresentação de seu espetáculo, Francesa no Quintal
“A experiência foi boa, mas houve dificuldade operacional para trabalhar com três espetáculos em um único dia; além do que, manter grupos convidados era pesado financeiramente, sobretudo em função do corte aplicado pelo Fomento em parte da verba que nos era destinada. Mas mesmo em número reduzido, continuamos com essa prática no segundo ano e chamamos a Caixa de Imagens e a Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes a participarem
Hoje os técnicos sabem o que fazer em dia de temporal, mas na estreia “era um pega pra capar”, lembra Thiago Dell’Orti. “A gente desmontou as placas de madeira do palco e guardou todas, mas elas não são todas iguais, foi difícil de encaixar depois. Outra coisa: hoje a gente já prepara a lona pra cobrir tudo, mas naquele dia não sei como conseguimos. Só sei que a chuva parou e algumas pessoas do público ajudaram a gente a enxugar o palco. E elas fizeram a peça.”
Luciana Carnielli, que substituía Vera Abbud, lembra que, em dia de chuva, os figurinos repletos de plumas das vedetes do Tem Francesa perdiam todo o seu esplendor.
“Com o tempo, elas aprenderam: passaram a bolar o figurino adequado ao tema do espetáculo e também ao clima variável da cidade.”
As luzes, as que não queimaram, também deram trabalho. “Acho que o Kleber não percebeu que a potência era muito forte para a estrutura que tínhamos”, avalia Flávio Pires. Talvez fosse verdade, porque alguns refletores começaram a queimar (não havia refletores econômicos e seguros como hoje), e outros, pior ainda, muito próximos do ônibus, começaram a queimar parte dos tecidos do cenário.
“Um deus nos acuda!”
Esse susto, acrescido daquelas dificuldades com a Eletropaulo, só veio confirmar a intenção das Graças de passar a fazer todos os espetáculos do Circular Teatro de dia, sem a necessidade de iluminação suplementar. Mas isso também ainda estava longe. Por enquanto, tinham que desmontar o palco da estreia, voltar para casa, depois de dezesseis horas de estresse e alegria, e dormir. Depois, era acordar e se preparar para o segundo dia, na Vila Brasilândia.
Mesmo ritual: deslocamento do ônibus, montagem, crianças se aproximando e perguntando se tinham que pagar e adultos ocupando os banquinhos ainda vagos. Então viria a apresentação de O Voo, depois a apresentação do espetáculo convidado Jogando no Quintal e, por fim, o Tem Francesa. Eliana Bolanho confessa: “Foi lindo, mas às 23h30, quando só estávamos eu e os meninos da técnica desmontando tudo, depois de um fim de semana daqueles, me perguntei: será que não estamos dando um passo maior do que a perna?”
Mais convidados
popular, talvez fosse interessante abrir um espaço, durante o espetáculo, para a plateia se manifestar artisticamente com algo próprio e preparado”
Vieira, que conhecemos no nordestino, propunha a partilha do palco com outros grupos e pessoas da região. Achamos que isso caberia na rua”
E assim surgia no palco do anunciado pelo apresentador da rádio interpretado por Daniela Schitini, um artista local pronto a partilhar sua arte com os outros espectadores.
Foi assim, nessas trocas com a comunidade, que as atrizes encontraram o rapper Black Gero, a turma de músicos do Morro do Querosene e outros artistas menos conhecidos, como uma senhora do albergue do Canindé, que subiu no ônibus pra cantar. um maestro e aparece um cara com um violão muito simples. Era somente ele que iria acompanhá-la. Tudo bem, estávamos acostumados a ver todo tipo de apresentação nesse espaço aberto, mas de repente, quando ele dedilha o instrumento e quando ela abre a boca e começa a cantar... Nossa! Foi uma comoção. Ficamos as quatro chorando ali ao lado, não conseguíamos parar as lágrimas. Ela tinha sido cantora, perdeu tudo e vivia em situação de rua. E ali virou cantora novamente” lembra Juliana Gontijo, acrescentando: desse registro emotivo para depois entrar em cena, rindo e dizendo aquele monte de patacoada, como previa meu texto.”
Kleber Montanheiro recupera uma imagem síntese dessa primeira temporada.
Abrimos a cortina e, de repente, no horizonte, as luzinhas das casas da comunidade. A população ali na frente, entoando com o grupo as melodias de Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso, Assis Valente, e o bairro cintilando no fundo. Não foi estudado, mas era tão coerente com o que elas apresentavam.”
Nas Rodas do Coração
Tinha chegado o momento em que a companhia queria se dedicar a uma dramaturgia especialmente concebida para os parâmetros do ônibus. Já conheciam as engrenagens do Circular Teatro, o que era possível nele se realizar, o que era discutível e o que era sonhável.
Nasceu, assim, o projeto Nas Rodas do Coração. Para concretizá-lo, As Graças convidaram Regina Galdino para escrever o texto e Ednaldo Freire (também indicado pelo amigo Fausto Franco) para se encarregar da encenação. É verdade que novamente se deparavam com a questão de serem quatro mulheres que deveriam interpretar papéis masculinos. Regina, que as havia dirigido em Itinerário de Pasárgada, as desaconselhou a chamar outros atores e explica: “Até brinco no texto com a questão do preço do homem, da contratação de um homem, e como se tratava de um texto onde uma companhia de teatro deveria contratar um elenco, brinquei com esse impasse, escrevi que a tal companhia abandonaria aquela ideia e se encarregaria ela mesma de todos os papéis, femininos e masculinos.”
O texto sofreu várias alterações até chegar a sua versão final. No princípio, as histórias não eram muito interligadas.
Então, Vera sugeriu um entrelaçamento para elas. “Nossa, aquilo deu uma trabalheira”, lembra Regina, “mas a ideia era realmente boa. Depois fui burilando o texto... menos a parte da Vera, porque não adiantaria nada mesmo: ela ia mudar tudo e encher de cacos.” A diretora já conhecia a equipe desde o Itinerário, sabia o que e como escrever para cada uma das atrizes, restava saber se funcionaria no palco do ônibus. “Claro que vai”, pensava Ednaldo.
O intuito era criar Nas Rodas do Coração a partir da estrutura dos melodramas apresentados nos circos, e Ednaldo Freire era um conhecedor profundo do circo-teatro e daquilo que se convencionou chamar de teatro popular brasileiro. Para uma primeira fase de estudo e pesquisa, Ednaldo trouxe de sua experiência com o Teatro Mambembe um texto de Carlos Alberto Soffredini, Vem buscar-me que ainda sou teu, cuja estrutura episódica poderia ser bastante útil na dramaturgia que estavam prestes a criar para a rua, uma dramaturgia em que o espectador, se desejasse, poderia se contentar em assistir a um ou dois quadros sem ter que necessariamente acompanhar todo o espetáculo para captar o tema, entender os tipos de atuação e compreender os pontos básicos da história.
“A partir desse estudo, nós decidimos estabelecer a história em torno de uma vilã – a dona da companhia teatral – que passava a perna nos outros. Na verdade, era um pretexto para reunir as quatro atrizes em uma mesma estrutura que conteria os tipos clássicos do melodrama do circo-teatro: a vilã, a ingênua, o galã e o cômico”, explica o encenador.
A decisão de se trabalhar sobre esse tipo de estrutura foi também consequência de uma decisão anterior, ligada ao universo que As Graças pretendiam abordar: a cidade de São Paulo por meio das crônicas do cotidiano contidas nas músicas de Adoniran Barbosa. “Repare o tom melodramático e ingênuo das letras dos sambas dele: Iracema que atravessa a rua e é atropelada.” As Graças ouviram toda a discografia de Adoniran e também se inspiraram no programa de rádio dos anos 60 em que o compositor, sob a pele do personagem Charutinho, trazia aos ouvintes a história das “malocas” paulistanas.
Com isso em mãos, começaram a se aprofundar no trabalho de interpretação. Como ensaiavam em uma sala da Funarte, tinham desenhado uma planta baixa com as dimensões exatas do ônibus para se habituarem às entradas, saídas e todas as ações que seriam posteriormente feitas no palco do Circular Teatro. Avançavam e, quando encontravam algum nó, consultavam Regina, que aperfeiçoava o texto em função das dificuldades e das conquistas encontradas durante os ensaios. Depois surgiu a necessidade de se coreografar certas passagens musicais. “O Fernando Neves veio por sugestão minha”, diz Ednaldo, “porque ele já tinha uma experiência grande com dança, e mais do que isso: ele, além de vir de uma família de circo, tem uma importante pesquisa sobre o gênero com o qual trabalhávamos.”
Fernando Neves comenta: “Eu fiz a coreografia usando os três planos do ônibus, e acho que o que fiz, na verdade, foi mais uma interpretação do gesto do que uma dança. Eu me baseei muito no que elas cantavam e falavam para fazer, digamos assim, uma movimentação coreografada. Para isso, eu levei em conta o jeito de cada uma das atrizes, o temperamento artístico de cada uma, que é como se faz no circo-teatro.”
Mas Nas Rodas do Coração não se limitou exclusivamente ao rigor formal do melodrama. “Nós queríamos ser cômicos, queríamos ser populares, queríamos que o público da rua fosse motivado desde o início pelo universo do Adoniran, queríamos trabalhar em cima da cultura brasileira referendada na chamada cultura popular – o circo, o vendedor de rua etc. – para criar nossa própria poética”, justifica Ednaldo, que tem com a Fraternal Companhia, grupo que dirige, a mesma paixão na busca por um teatro requintadamente popular. “As Graças não têm noção da importância delas: quatro mulheres num mundo onde a herança do patriarcado –mesmo que inconsciente – insiste em dar o tom, é um ato muito corajoso e político, afinal de contas, elas estão dando acesso à reflexão e à diversão a tanta gente excluída”, pontua.
Juntos, As Graças e Ednaldo trabalharam aproximadamente quatro meses na preparação do espetáculo e, finalmente, colocaram-no sobre as rodas do ônibus para mais uma temporada do Circular Teatro
Nas Rodas foi o primeiro espetáculo das Graças concebido para o ônibus, e levado exclusivamente nele
E funcionou!
E até hoje é apresentado pela companhia.
Estudos
Depois de mais de dez anos de trabalho, com média de uma produção por ano, As Graças se permitiram, durante toda uma temporada, não ter a obrigação de produzir um novo espetáculo. Em lugar disso, dedicaram-se à investigação de novas possibilidades teatrais a partir do estudo da obra de Nelson Rodrigues e William Shakespeare. Tocar tal pesquisa só foi possível graças à Lei de Fomento. E assim se deu início a um período dedicado exclusivamente ao estudo. Convidaram quatro artistas para dirigir a experiência: Cibele Forjaz e Regina Galdino para Nelson Rodrigues; Cristiane Paoli Quito e Marco Antonio Rodrigues para Shakespeare. Aproveitaram e chamaram Lincoln Antonio para ajudá-las a aprofundar seus conhecimentos musicais. Alguns atores convidados também fizeram parte da pesquisa. Ângelo Brandini, Fábio Espósito, Fernando Neves, Fausto Franco e Fábio Hartford aceitaram o convite e As Graças, pela primeira vez, não tiveram que interpretar papéis masculinos. Mas conciliar as agendas da equipe não foi tarefa simples, o que, de certa maneira, gerou irregularidades no desenrolar dos processos de pesquisa. “Elas tiveram um problema: o enorme atraso na chegada do dinheiro do Fomento, e isso é perigosíssimo, porque se você começa um projeto em que se tem que seguir um cronograma e o dinheiro não vem, pode quebrar uma companhia”, diz Cibele Forjaz. As Graças, dessa vez, não chegaram perto de quebrar, mas é verdade que, sem o dinheiro, tiveram que lidar com o desengajamento e remanejamento de vários integrantes da equipe.
Cada módulo de estudo durava aproximadamente dois meses. Ensaiavam numa sala da Galeria Olido, no centro de São Paulo. A única pretensão era se exercitar e, no final da temporada, organizar uma mostra pública desses exercícios no palco do ônibus. O estudo pretendia verificar como cada um desses dois autores analisados poderia se aproximar da rua. O balanço final foi o seguinte: apenas um dos dois estudos de Nelson Rodrigues foi mostrado ao público e um dos dois estudos de Shakespeare acabou dando origem ao espetáculo seguinte da companhia.
“Não tenho a impressão de ter abortado nada”, explica Cibele. “Acho sim que o que sobrou foi mais uma potencialidade do que uma prática realizada, o que não é contrário ao que nos propusemos. Ficou também o desejo de novos encontros e, sobretudo, a consciência de que adubamos bem a terra, deixamos ela fértil para o que elas plantariam – e colheriam – no futuro.” Cibele Forjaz tinha uma sólida experiência em Nelson Rodrigues e apreciava particularmente a ideia de um grupo que se lançava ao estudo de autores diferentes, com diretores com linguagens diferentes entre si, e diferentes daquilo que As Graças já tinham experimentado até então. Com Cibele, trabalhavam de dentro para fora: “Elas leram a quase totalidade da obra do Nelson Rodrigues. A ideia era imbricar Nelson e Stanislavski a partir de uma pesquisa de constituição sensorial, visões e memórias importantes para os personagens, antes mesmo de irem ao texto. E isso foi particularmente rico com As Graças porque são atrizes que sempre colocam a sensibilidade a serviço da ação.”
Regina Galdino, com uma proposta diversa da de Cibele Forjaz, chegou em seguida para enriquecer o processo. “Eu propus A vida como ela é, do Nelson, porque são histórias simples e que comunicam mais rápido. Também me inspirei na linguagem do romance-em-cena de Aderbal Freire Filho, que utiliza o texto literário sem adaptações.” Partindo dessas fontes, a diretora e as atrizes abordaram as páginas de Nelson Rodrigues a partir de várias possibilidades de combinação entre narradores, personagens e texto. Ora experimentavam com papéis mais definidos e fixos, ora mais flexíveis e cambiáveis. “Acabamos fazendo um exercício de quarenta minutos, chamado Consultório Sentimental Apresentamos no palco do ônibus, no Pátio do Colégio, onde o público percebeu claramente a dramaturgia das histórias e as diferenças entre as ações e a narração”, diz a diretora.
De maneira geral, Marco Antonio Rodrigues também vê com muito bons olhos esse tipo de experiência de pesquisa e, de maneira particular, o viu como essencial para seu trabalho futuro com As Graças “Quando eu montei Noite de Reis com as atrizes, parte de nossas necessidades e de nossas questões já tinham sido levantadas durante os estudos de dois meses, o que possibilitou, posteriormente, um outro dinamismo durante os ensaios para a peça.”
Saída
Outro evento que marcou a temporada de estudos das Graças foi a saída definitiva de Vera Abbud do grupo. Pelo menos era essa a impressão que tiveram. Vera, numa considerável mudança de rumo de sua vida pessoal, estava partindo de mala e cuia para a França, onde havia sido convidada a integrar o grupo de palhaços em hospital Le Rire Médecin por tempo indeterminado. “Quando ela nos anunciou sua saída, foi uma choradeira, uma mistura de alegria e tristeza. Falávamos de um lado ‘vai, vai ser feliz, Vera’, e do outro ‘volte quando quiser’.” O definitivo, nesse caso, durou um ano: tempo suficiente para As Graças consolidarem o que já vinham praticando: a necessidade de se respeitar a cada instante o desejo individual de cada uma de suas atrizes. Vera quis viver fora do país e também se orientava mais do que nunca para o universo do palhaço, o teatro de rua, o teatro de improvisação, físico e visual. Eli, Ju e Dani também gostavam do Circular Teatro e de toda a riqueza que descobriram nessa empreitada, mas para algumas delas (e para Daniela, em particular) o aconchego do teatro tradicional, o texto e o gesto íntimo começavam a fazer falta.
Clarices
Clarices surge nesse momento, sem Vera, e de volta às salas de teatro. O espetáculo foi construído, graças aos recursos do Prêmio Funarte
Myriam Muniz, a partir de textos de Clarice Lispector. As Graças já haviam abordado textos da autora quando prepararam o recital Preciosidade, a convite da biblioteca Clarice Lispector, na Lapa, em São Paulo. Naquela ocasião, basearam-se em crônicas e trechos de romances compilados no livro A Descoberta do Mundo. Esse material foi selecionado por Daniela Schitini. Preciosidade já revelava à cena o delicado e misterioso universo da escritora e foi um embrião para Clarices, em que depoimentos, segredos compartilhados, opiniões, sensações sobre Deus, o amor, a infância, os sonhos e as angústias são levados à cena.
Para a composição de Clarices, Daniela ampliou sua pesquisa. “Já sou muito fã da Clarice, acho essencial e corajoso o que ela diz, eu tinha urgência em compartilhar suas palavras, então escolhi mais textos, refiz a ordem até chegarmos ao formato final com algumas sugestões de textos das meninas e de Vivien Buckup, nossa diretora nessa peça.”
Quando Vivien chegou, diversos diretores e diretoras já tinham passado pela história do grupo. “Não acredito que a qualidade ou características de um trabalho de grupo mudem pelo fato de ele ter ou não um diretor fixo. Creio que o determinante do bom andamento do trabalho é a clareza de propósitos, a disciplina (no seu melhor sentido), a disponibilidade e a determinação com que os envolvidos na criação se lançam na tarefa”, afirma Buckup. E assim, a diretora encampou essa nova empreitada, que marca a volta da companhia, com uma peça inédita, para os palcos das salas de teatro.
Vera ainda estava ausente e As Graças se reencontravam, mais de dez anos depois, na mesma formação (Dani, Eli e Ju) em que estrearam seu primeiro espetáculo, Endecha das Três Irmãs. Vieram com Clarices reviver o gênero de teatro que as lançou como grupo e que as projetou no início da carreira. Juntas com Vivien Buckup, prepararam para a intimidade do palco italiano a volta do grupo à poética da literatura.
“Não me interessava retratar Clarice Lispector em cena, até porque isso já havia sido feito, mas descobrir o que de Clarice existe na Eli, na Dani e na Ju e como revelar isso no palco”, explica Vivien. E dessa vez, ao contrário da Endecha, As Graças, agora, podiam trazer para o teatro, mesmo que interiorizada, toda a potência da experiência vivida na rua com o Circular Teatro, “a mesma força só que no sentido inverso”, ressalta a diretora: “o que numa experiência era necessário projetar e ampliar, na outra levou a conter e revelar aos poucos.”
Clarices estreou em 2006. As Graças já tinham 11 anos de estrada.
Canto a Canto
A partir de uma experiência conduzida por Cristiane Paoli Quito, As Graças conceberam Canto a Canto. Trata-se de pequenas intervenções teatrais feitas para uma pessoa ou para um grupo pequeno de pessoas. Canto a Canto foi criado e aprimorado paralelamente à concepção de outros espetáculos. Nesse projeto, As Graças caminham pelo espaço com uma pequena caixa e um violão, colocando-se disponíveis aos encontros. Seja ao ar livre ou em ambientes fechados, duas ou três atrizes realizam uma curta apresentação e partem rumo a novos encontros. Durante a performance, o(a) espectador(a) é convidado a escolher ao acaso um “bilhete” fechado em uma pequena gaveta da caixa. Esse “bilhete” contém em seu interior um título, como se fosse um biscoito da sorte. A descoberta desse título é fonte para a declamação de um poema e para a interpretação de uma música ao espectador. Em geral, soam como oferenda ou confissão. A forma é simples e o alcance, significativo.
Em Canto a Canto há uma arte bastante elaborada e amadurecida na maneira como se relacionam com o pequeno público que têm diante de si.. Nada é imposto, tudo é proposto. Artistas e público vivenciam um momento privilegiado, com grande carga emocional, em que a sumária estrutura dramatúrgica evolui em função das reações explícitas, ambíguas ou veladas de quem participa do encontro. O repertório de poemas e canções evolui. Com o tempo, novas autoras e autores foram inseridos.
No final do encontro, é deixado um origami para quem recebeu a apresentação. Não raro, algumas lágrimas são deixadas em troca.
Noite de Reis
Os anos avançaram desde aquele intervalo de aula na EAD, em 1995, quando Juliana Gontijo se encantou com os versos de Adélia Prado. Mais de uma década depois, As Graças têm história para contar. Clarices realiza várias temporadas. Canto a Canto desbrava novos espaços e passa a ser contratado para eventos nos Sescs, na Virada Cultural e até para festas particulares. Nas Rodas, Tem Francesa e Poemas se firmam no repertório e são apresentados em diferentes ocasiões. O ônibus Circular Teatro é o palco de boa parte das apresentações do grupo.
Entre um projeto e outro, as quatro mulheres das Graças dão seguimento ao seu sonho de teatro. Vivem altos e baixos. Observam períodos áridos convivendo com empurrões generosos. Atravessam afastamentos, substituições, aproximações e continuam a acreditar no teatro de grupo. Participam do diálogo com o poder público, no intuito de criar recursos para que projetos culturais se estabeleçam e se fortaleçam em nosso país. Entendem que devolvem à sociedade, em forma de arte, reflexão e diversão, aquilo que a sociedade lhes destinou em forma de subsídio. E, em forma de economia, geram empregos e movimentam mercados locais.
Em 2006, Vera Abbud está de volta ao grupo e participará de Noite de Reis, de William Shakespeare, o próximo espetáculo das Graças. Além da volta de Vera, As Graças decidem ampliar o rol de artistas que as acompanharão nesta aventura.
Pela primeira vez, fariam um espetáculo com mais quatro atores, além das quatro atrizes da companhia. É verdade que já tinham trabalhado com convidados durante o projeto Estudos, mas nunca em um espetáculo que entraria em cartaz e viajaria. Dessa vez, queriam uma peça clássica com bons personagens femininos, com uma temática pertinente, atual e que pudesse ser experimentada na rua. Daí a escolha dessa comédia de Shakespeare.
Marco Antonio Rodrigues conheceu As Graças num desses encontros de teatro, mas nunca tinha visto o trabalho delas. Foi chamado pelas atrizes, num primeiro momento, para dirigir um dos Estudos sobre Shakespeare. O convite surgiu provavelmente por conta do Othelo, que Marco Antonio tinha montado no Galpão do Folias, grupo que codirigia naquele período. “Eu aceitei”, diz ele, “fui ver o Nas Rodas do Coração, no ônibus, e fiquei muito entusiasmado. Achei a proposta delas muito generosa e valente por enfrentar o que elas enfrentam. Eu mesmo depois, quando já estava ao lado delas com o Noite de Reis nas ruas, senti na pele a necessidade dessa coragem, porque sempre aparecem problemas: os bêbados de plantão que resolvem fazer a festa, as crianças que choram, os cachorros que latem, os pepinos burocráticos... teve um episódio em que eu tive que segurar a polícia e a polícia teve que me segurar por uma questão de autorização – uma baita confusão... e, enquanto isso, As Graças lá em cima do palco, tocando o espetáculo.”
Marco Antonio e As Graças começaram os ensaios de Noite de Reis ainda em 2006. A decisão de montar essa peça, como mencionado anteriormente, veio das atrizes. “Acabamos optando por fazer essa comédia de Shakespeare porque é
sofisticado, é debochado e poético, e bastante atual”, explica Daniela Schitini, que sugeriu o texto e se encarregou de adaptá-lo.
Marco Antonio lembra que Noite de Reis tem uma estrutura de melodrama, que é também a estrutura básica das telenovelas, propícia ao teatro de rua. Além disso, essa era a primeira vez em que o grupo se debruçava em um texto teatral consagrado, urdido e reconhecido. Queriam ver como a rua o acolheria. Para isso, precisavam de mais gente. O grupo de convidados para as temporadas no ônibus era formado por Dagoberto Feliz, Danilo Grangheia, Fernando Paz e Helder Mariani. Fábio Espósito e Daniel Infantini juntaram-se ao grupo mais tarde, como substitutos. Pela primeira vez, também, As Graças se lançariam no desafio de tocar instrumentos ao vivo, graças ao trabalho que desenvolveram com Lincoln Antonio.
Noite de Reis estreou, cumpriu temporada e viajou para festivais em outros estados do Brasil. De volta a São Paulo, já em março de 2008, Noite de Reis tinha hora marcada no Jardim Eliza Maria, periferia norte de São Paulo. Ali, estavam particularmente presentes alto-falantes possantes dos carros, rojões em homenagem aos gols da rodada, sirenes da polícia e até os cantos provenientes da igreja de Nossa Senhora de Fátima, cujos fundos dão exatamente para o local onde o ônibus está estacionado. Esses elementos parecem ter se reunido em uníssono em um mesmo lugar. Mas além deles, um outro dado, sempre ameaçador na história do ônibus, coloca em suspenso a própria realização do espetáculo:
Começam então a afinar os instrumentos. Dagoberto Feliz sai das coxias com seu acordeon e começa a orientar a afinação do violãozinho que Danilo Grangheia traz nas mãos. O ploc ploc dos cascos de um cavalo que passa pela rua dá cadência à afinação. Carros também passam. Motos e bicicletas completam o vai e vem da rua. Aos poucos, com a volta do sol, os moradores deixam suas casas e repovoam as ruas do Jardim Eliza Maria. No princípio, são as crianças que se aproximam do ônibus e logo ocupam os bancos das primeiras filas. Os atores finalizam a maquiagem diante da pequena multidão que começa a se aglomerar.
Às 16h21: com 21 minutos de atraso, em função da chuva, o espetáculo começa. Os adultos, ainda um tanto ressabiados, espiam as cenas debruçados em suas janelas ou, de longe, atrás dos portões de suas casas. Mas logo na segunda cena, quando a trupe toda sai de trás do ônibus entoando “Minha embaixada chegou, deixa meu povo passar”, os adultos se animam e, em menos de três minutos, mais 25, 30, 40 pessoas se acomodam nos banquinhos que restam.
Às 16h35: do meio da multidão, um homem bêbado aparece, cambaleia ao lado do ônibus. Chama a atenção de todos. Nova distração. Caminha ladeira abaixo e segue seu rumo. Os atores e atrizes tentam novamente ser o foco da atenção.
Às 16h41: o sol brilha a essa altura e o número de adultos aumenta. Finalmente, as reações às investidas de Senhor Tobias e Senhor André, personagens da peça, começam a surgir no público. Aos poucos, os personagens de Shakespeare desenrolam a trama de Noite de Reis e a levam a seu desenlace. O espetáculo está pra terminar. E a trupe não sairá molhada pela chuva, só pelo suor. Seu Zé, o novo motorista do ônibus, fica atento ao texto da peça. Na última cena, ele tem uma deixa que lhe indica o momento de ligar o veículo e buzinar incessantemente. Essa sonoplastia faz parte da apresentação e é ela que encerra o espetáculo. Noite de Reis chega ao final do espetáculo e da temporada.
O ano de 2008 está apenas começando. E trará novidades para a companhia. Uma delas é o projeto de um primeiro livro – o qual eu fui convidado a escrever – relatando a história do grupo até então e tendo o Circular Teatro como eixo central. Uma parte de seu conteúdo está reavivada no presente relato.
Depois da publicação do primeiro livro, muito aconteceu no caminho das Graças. Aos desafios técnicos, estéticos e outros eventos próprios à aventura teatral, somaram-se os imponderáveis da vida. Dezessete anos se passaram entre 2008 e o momento em que elas decidem comemorar os 30 anos do grupo. Esse será o período tratado nos capítulos que seguem.
Produção
Antes de passarmos ao próximo espetáculo, um parêntese para tratar de algo essencial na vida dos grupos teatrais: os modos de produção. As Graças, discretamente inquietas, vão se reinventando sem alardes no que diz respeito às suas escolhas artísticas. E não é diferente quando o assunto é a sustentabilidade do grupo. De um início, digamos assim, mais caseiro, até o sistema atual de produção, a companhia não cessa de se transformar. O fato de as atrizes terem se desdobrado em diferentes domínios do fazer teatral –atuação, administração, produção, pesquisa, elaboração e venda de projetos –ajudou quando se dispuseram a delegar algumas dessas funções a outros profissionais.
Norma-Lyds já era uma antiga conhecida do grupo. Foi responsável pela organização administrativa dos Doutores da Alegria dava seus primeiros passos. Chegou às Graças em 2007 com a incumbência de cuidar da produção, função que Eliana Bolanho tinha assumido até então, e da administração, ocupada por Daniela Schitini naquele momento. Além disso, o papel de Norma era o de dinamizar o profissionalismo do grupo sem perder aquilo que de familiar e caloroso ele havia conquistado. Norma é uma produtora acostumada com os trancos e barrancos do mundo teatral.
Depois da passagem de Norma pela companhia, nuaram a aprimorar a estrutura organizacional do grupo ao longo dos anos subsequentes. Aninha Barros passou pela produção. Eneida de Souza, depois de produzir e administrar, passou a cuidar exclusivamente dos processos administrativos. Dani D’eon cuidou da produção de campo.
Empresas como Nascedouro Cultural e Caruá Produções acompanharam a elaboração e realização de projetos. Atualmente, a Corpo Rastreado é quem se ocupa dessas funções. Larissa Janotti chegou para cuidar da comunicação.
E As Graças, mesmo ocupando o papel de coordenadoras, nunca deixam de colocar a mão na massa. Vale dizer também que o pensamento artístico, as decisões criativas e de gestão continuam, sempre, sob a responsabilidade de suas integrantes, que, em uma relação horizontal, dialogam constantemente.
Tem, mas Acabou
“Sabe, Vera, eu daria tudo pra jantar com meu pai hoje à noite. Se fosse possível, é isso que eu faria”, desabafa Juliana, quase cinco anos depois do falecimento de Naylor Gontijo, seu pai. “A gente nunca está preparada, né? Eu, com a minha idade, não tinha ideia do baque que seria lidar com a morte dele. É claro que, com o passar do tempo, o baque ameniza, mas, mesmo assim, seria tão bom se eu pudesse jantar com ele hoje.”
Juliana pensou em fazer um espetáculo em homenagem a seu pai, mas essa ideia inicial deu lugar a outra depois de a atriz ter presenciado a seguinte conversa entre um pai e sua filha, em um ônibus de São Paulo:
Filha – Pai, o que é a morte?
Pai – Hã?
Filha – A morte, pai. Como é que é morrer?
Pai – A morte?
Filha – Isso. O que acontece com a gente quando a gente morre?
Pai – O que acontece é… é… olha… Olha, a gente tá indo pra casa da sua tia, e eu não quero bagunça por lá, entendeu?
Filha – Mas e a morte?
Pai – Agora descansa um pouco porque a casa da sua tia ainda tá longe.
Filha – Tá bom, pai.
A conversa, capturada por Juliana, "mostra que não sabemos falar sobre a morte, e aí, quando ela acontece, é um baque" , diz Vera Abbud, ao se recordar como o tema foi evoluindo. Da homenagem à vida do pai de Juliana, o tema passa a ser a morte direcionado às crianças “para que, na fase adulta, esse assunto não chegue sem nenhum preparo anterior”, completa Vera. Foi a própria Juliana que afunilou essa percepção assim que desceu daquele ônibus, onde um pai evitava falar sobre a morte com a filha.
As Graças acolhem a ideia de Ju. Concordam que a dificuldade em elaborar e, antes disso, em abordar o assunto da finitude, merece ser levada às crianças e sabem que o teatro é um lugar que se mostra propício a tal discussão.
Pronto: está lançada a faísca do próximo espetáculo. As Graças têm agora um tema e um público-alvo. Eliana sugere o nome de Cris Lozano para a direção, novamente um nome indicado pelo amigo Fausto Franco. Lincoln Antonio cuidará da direção musical e das composições. Juçara Marçal também terá participação na trilha. A estreia será no Sesc Pompeia. Resta saber por onde começar a pesquisa.
Cris Lozano conduz o processo com muita sensibilidade. A diretora incita o grupo a pensar na morte sob diferentes perspectivas, como, por exemplo, os finais de ciclo, as rupturas e as “pequenas” finitudes que incidem em nossas vidas. Além de improvisações sobre os aspectos citados, as quatro atrizes, estimuladas pelo olhar da diretora, se debruçam sobre a leitura de contos tradicionais ligados ao tema da morte, propriamente dito. Ao longo dos ensaios, tomam a liberdade de adaptar as versões escolhidas à forma que o espetáculo vai tomando. Junto com os contos e as improvisações, a coleta de depoimentos das atrizes sobre suas experiências com a morte e com o luto também se transformam em material cênico.
Vera traz o título que faltava.
Ela conta: “Eu tinha visto um programa sobre frases inusitadas que as pessoas escolhem para as lápides de seus túmulos. Eu me disse que, se tivesse que escolher uma para mim, escolheria essa frase tão própria de alguns comerciantes brasileiros, que é ‘Tem, mas acabou’. Ela não tem muita lógica, mas todo mundo no Brasil entende. Eu adoro.”
Os ensaios avançam, os materiais crescem e são promissores. Contudo, não é simples amarrar fios tão heterogêneos. Mas é justamente essa aparente oposição estilística, assim como a boa dosagem entre humor e seriedade, que fará com que Tem, Mas Acabou obtenha um relativo sucesso e realize várias temporadas. O espetáculo foi indicado ao Prêmio Femsa de melhor espetáculo e de categoria especial e, depois da estreia no Sesc Pompeia, em novembro de 2008, Tem, Mas Acabou percorreu o ano de 2009 no Sesc Santana, Belenzinho, Consolação e Santo André. Anos depois, em 2016, o espetáculo voltou a entrar em cartaz no Sesc Vila Mariana e, em 2017, no Sesc Ipiranga. Nessas últimas temporadas, as atrizes Katia Daher e Luciana Viacava integraram o elenco como substitutas.
Foi durante esse período de temporada de Tem, Mas Acabou que Eliana Bolanho perdeu sua mãe. O espetáculo, segundo a atriz, ajudou-a a atravessar esse momento. “O teatro e a sensibilidade desse trabalho, em específico, têm a capacidade de nos ajudar a elaborar certos sentimentos”, reconhece Eli.
Vendo assim, parece que tudo se resolveu. É verdade que os nós criativos foram amarrados, as temporadas se sucederam e Juliana se reconectou com seu pai através da arte. Mas as coisas não são tão simples. Apesar do zelo e dedicação com que As Graças e sua equipe trabalharam em Tem, Mas Acabou, houve instituição que, sem sequer assistir ao espetáculo, não o programou por se tratar de um tema “impróprio” para crianças.
O tabu cedeu – e As Graças contribuíram para isso – mas, pelo jeito, não se extinguiu. Como se vê, Tem, Mas Acabou ainda tem muito o que dizer.
Como saber?
Houve uma época, em meados dos anos 2000, em que o Brasil foi visitado por vários mestres da palhaçaria internacional. A maioria era composta por homens. E grande parte deles vinha da Europa ou dos Estados Unidos. Nossa abertura a outras formas de palhaçada era circunscrita. Excetuando um certo interesse pelos palhaços tradicionais brasileiros, ainda eram novidade, por exemplo, os festivais dedicados exclusivamente às palhaças. O pioneiro Festival, Esse Monte de Mulher Palhaça, estava em suas primeiras edições. O pensamento decolonial ainda não havia explodido para fora de certos círculos restritos, muitas vezes formados por grupos minorizados politicamente pelos habituais grupos hegemônicos. A palhaçaria feminina, preta, trans, queer, indígena etc. ainda não havia se estabelecido com os contornos dos dias atuais.
É nesse contexto que a palhaçaria feita no Brasil estabelecia suas trocas com palhaçarias consagradas no Ocidente. Esses convidados estrangeiros, além de apresentarem seus espetáculos, davam oficinas e, com o tempo, se vinculavam a projetos brasileiros. Foi o que aconteceu com Leris Colombaioni.
O palhaço italiano retornou diversas vezes ao Brasil, deu oficinas e dirigiu grupos brasileiros. As Graças foi um desses grupos. Quem teve a ideia de chamá-lo foi Claudia Zucheratto, atriz que já havia realizado algumas substituições em Tem Francesa no Morro Nas Rodas do Coração e que participaria como convidada do próximo espetáculo das Graças ao lado de Eliana Bolanho, Daniela Schitini, Juliana Gontijo e Vera Abbud.
Vera e Juliana, assim como Claudia, eram palhaças dos Doutores da Alegria. Daniela e Eli também já haviam tido contato com a linguagem palhacesca em espetáculos ou oficinas. Agora, juntas, montariam no ônibus um espetáculo para a rua inteiramente voltado à palhaçaria.
Corta.
Estamos no Sujinho, tradicional restaurante de carnes na rua da Consolação, na cidade de São Paulo. À mesa estão As Graças, Claudia e Leris. Entre uma garfada e outra em sua bisteca, Leris escuta as ponderações das atrizes. Há algo que não está funcionando no roteiro que ele preparou e começou a ensaiar. Leris vem do circo tradicional, predominantemente masculino, com números apoiados em gags físicas e viris. Fisicalidade, As Graças têm e, quando lhes falta alguma técnica, trabalham para adquiri-la. E, no lugar da virilidade, possuem uma série de outros atributos que o diretor pareceu não observar.
Por outro lado, é possível também que as atrizes não tenham conseguido adotar, ou sequer acessar, as sugestões propostas pelo diretor. Divergências são normais em qualquer processo coletivo. O problema é quando as divergências dão lugar a um impasse. Foi o que aconteceu. Não houve desentendimentos. Pelo contrário, parece que, tacitamente, ambos os lados entendiam que a ideia de colaboração não se concretizaria em cena. O público que assistiu ao espetáculo tampouco se empolgou. As Graças estrearam em setembro de 2009, cumpriram a temporada estipulada pelo edital e nunca mais apresentaram o espetáculo Como Saber?
Corta.
Flashback para o período dos ensaios.
Apesar de a colaboração não ter se realizado em cena, Leris foi determinante para o futuro das Graças, especificamente no que diz respeito ao ônibus. O italiano tem um conhecimento profundo das estruturas de itinerância (lonas de circo, caminhões, trailers etc.) e se empolgou com a proposta de redesenhar o palco do ônibus. Essa era uma reforma que tardava em acontecer.
Durante os ensaios, Leris percebeu aspectos da estrutura que mereciam ser valorizados e outros que precisavam ser transformados ou abolidos. Em uma conversa, novamente no Sujinho, Leris apresentou os esboços para pensar soluções técnicas para cenários, transporte e armazenamento. As soluções apresentadas por ele agradaram demais à companhia. O ônibus foi levado ao serralheiro Paulo Sérgio Salzano, indicado pelo grupo La Mínima. A reforma foi levada a cabo, o palco se tornou mais seguro, a montagem mais ágil e o armazenamento mais leve. “Obrigada, Leris.”
Mostra de 15 Anos
Estamos em 2010, ano em que As Graças comemoram 15 anos de existência com uma mostra de seu repertório. O programa da Mostra lembra que esses são 15 anos em que um grupo de atrizes se dedica a pensar e a fazer teatro juntas, buscando uma dramaturgia possível para um grupo de mulheres. E acrescenta algo novo: o programa diz que essas mulheres, além do trabalho em grupo, procuram apresentar na Mostra um caminho que contemple os sonhos e projetos individuais de cada uma dentro desse grupo. São As Graças se reinventando.
O grupo avança, os desejos estéticos evoluem, ora conjuntamente, ora separadamente. Mas ambas as vias são abraçadas pela Mostra As Graças, à qual é dado o subtítulo Memória e Identidade. É assim que, ao lado de uma programação de seus próprios espetáculos (Endecha das Três Irmãs, Tem Francesa no Morro, Nas Rodas do Coração, Clarices, Noite de Reis e os infantis
Poemas para Brincar e Tem, Mas Acabou), As Graças incluem na Mostra os espetáculos realizados por suas atrizes em projetos paralelos ao grupo. Esses projetos paralelos podem ser esporádicos ou duradouros; cada atriz esteve livre para escolher o espetáculo que melhor a representasse naquele momento para incluí-lo na programação. Eliana foi a única que se concentrou especificamente nos espetáculos das Graças. Juliana, além dos espetáculos das Graças, programou e atuou em Banda Hamlet, um projeto cênico musical formado por atores e atrizes que são também instrumentistas, de diferentes coletivos teatrais da cidade de São Paulo. Vera, que antes de entrar para As Graças já era palhaça, trouxe e atuou em Pelo Cano, espetáculo que tem o mesmo nome de sua companhia, formada com a palhaça Paola Musatti. Daniela apresentou Não Uma Pessoa, um solo em processo, livremente inspirado na arte de Marilyn Monroe e escrito pela própria Daniela. As apresentações se dividiram entre o Centro Cultural São Paulo e o ônibus Circular Teatro.
Entressafra
Além da Mostra, 2010 é também o ano em que As Graças inscrevem um grande projeto no Programa Petrobras de Pesquisa e Manutenção de Grupo, um edital que, enquanto durou, foi importantíssimo para a cultura teatral brasileira. O projeto Circular Teatro – do Parque da Luz para o Brasil é contemplado, mas os recursos só estariam disponíveis em 2011. Durante esse tempo, a companhia se sustenta com a circulação de alguns de seus espetáculos. Canto a Canto é selecionado para o Circuito Sesc de Artes e também faz parte da programação da Virada Cultural da Cidade de São Paulo. Nesse mesmo período, entre 2010 e 2011, Nas Rodas do Coração é apresentado em diferentes unidades do Sesc. Com o auxílio dessas turnês, As Graças conseguem atravessar esse período de entressafra de financiamento público sem ter as contas tão abaladas quanto se esperava. Esse receio do sufoco monetário faz parte da insegurança dos grupos teatrais. E ainda hoje, após 30 anos de serviços prestados, As Graças continuam se desdobrando para não entrar no vermelho.
Marias da Luz
Em 2012, As Graças se instalam no Parque da Luz, região central da cidade de São Paulo. Ali, permanecem em residência artística proporcionada pelo edital da Petrobras. A escolha desse parque tem a ver com a experiência pregressa do grupo naquele local. Naquela área, em virtude das andanças do Circular Teatro, o grupo apresenta vários de seus espetáculos. Além disso, o Parque da Luz é um lugar de confluência de diferentes franjas da população. Em sua área convivem pacificamente habitantes do bairro do Bom Retiro (sendo muitos deles estrangeiros), habitantes de bairros longínquos que se servem dos trens intermunicipais na estação contígua ao parque, mulheres profissionais do sexo que ali trabalham, frequentadores da cracolândia, frequentadores da Pinacoteca, crianças que brincam e simples transeuntes que atravessam o local para cortar caminho. As Graças acreditam, e isso se confirma depois, que, além da fascinante história e geografia do local, o mote do próximo espetáculo viria também do encontro do grupo com as pessoas que frequentam o parque.
Nos dois anos de residência em que As Graças permaneceram no parque, o primeiro foi dedicado à apresentação de uma mostra de repertório levada no ônibus. Paralelamente à mostra, as quatro atrizes se lançaram à pesquisa in loco que originaria o próximo espetáculo da companhia. Essa pesquisa consistiu em levantar a história social e cultural do parque, bem como entrevistar a diversidade de pessoas que por ele transitam. Ademais, um estudo sobre as diferentes ondas migratórias que povoam e povoaram os arredores do Parque da Luz, sobretudo o bairro do Bom Retiro, trouxe elementos adicionais para a criação do espetáculo. A pesquisadora Maria do Socorro Santos conduziu As Graças em parte desses estudos.
O segundo ano, 2013, foi dedicado à criação da dramaturgia, aos ensaios, à encenação e à turnê do novo trabalho. O cronograma foi estabelecido e as atividades se iniciaram.
Como era esperado, a permanência da companhia em um mesmo lugar permitiu que os encontros acontecessem. A curiosidade dos funcionários e dos transeuntes com aquele ônibus azul estacionado sempre ao lado do coreto foi a porta de entrada para conversas. As pessoas chegam de mansinho: “O que vocês vão fazer com esse ônibus?” Ganham uma explicação, se acostumam, passam pelo parque no dia seguinte, trocam mais um dedo de prosa com as atrizes e, quando veem, já estão trocando desabafos e até confidências. A apresentação de Canto a Canto, com sua estratégia de proximidade, veio aprofundar as relações entre o grupo e a comunidade frequentadora do lugar. Histórias vão surgindo, entrevistas são gravadas e, como as pessoas voltam ao parque, cada uma das atrizes se liga,se afeiçoa até, a uma pessoa específica. Esse dado não é indiferente e esses afetos se traduzirão no trabalho final.
Para a direção, As Graças convidaram André Carreira. Quem lhes falou dele pela primeira vez foi Marco Antonio Rodrigues, diretor de Noite de Reis. Marco Antonio tinha ficado contente com a experiência de montar Shakespeare na rua com As Graças “Ele começou a usar o ônibus de uma maneira que a gente ainda não tinha experimentado, abolindo as coxias, criando passagens inusitadas e deixando que algumas cenas do espetáculo acontecessem na própria rua, fora do palco”, diz Eli. Mas Marco Antonio intuía que a companhia poderia ousar mais e subverter a relação do teatro com o espaço público, e André Carreira poderia ajudá-las nessa empreitada.
Pouco tempo antes, André havia dirigido um Dom Quixote que obteve grande sucesso. Sancho Pança e o fidalgo Dom Quixote, os dois personagens da peça, usavam a própria cidade como cenário e elemento de dramaturgia. Praticavam o rapel para entrar em cena, descendo paredões de edifícios ou vãos livres. Calçadas, bancos de praça, telhados, tudo na cidade era pensado para que as peripécias vividas pelo engenhoso fidalgo da Mancha chegassem revitalizadas ao público.
Para a dramaturgia, As Graças apostaram em uma fórmula inédita para o grupo. Daniela Schitini, atriz da companhia desde os primórdios, havia escrito seu espetáculo solo Não Uma Pessoa em 2010, e o apresentou na Mostra de 15 anos. Dani também já tinha realizado a adaptação do texto de Noite de Reis , feito o roteiro dramatúrgico de Clarices e, naquele momento, tinha o desejo de estender sua experiência dramatúrgica para um espetáculo com suas companheiras das Graças, espetáculo no qual, além de atuar, também teria participação na escrita. Então, sondou Leonardo Moreira, diretor e dramaturgo da Cia. Hiato, para que estabelecessem uma colaboração. Mas a agenda de Leonardo não batia com a agenda das Graças. Houve também conversas com o dramaturgo Newton Moreno, que igualmente se via impossibilitado de assumir tal compromisso.
Diante de tais indisponibilidades, eu, que tinha escrito o livro que retrata os 13 primeiros anos das Graças e que trazia em minha bagagem dramaturgias realizadas para outras companhias, sobretudo ligadas à palhaçaria e ao melodrama, fui convidado a coescrever, com Daniela Schitini, o espetáculo que sairia do Parque da Luz para o Brasil. Aceitei o convite.
Quando eu cheguei ao projeto, o processo de entrevistas e pesquisa já havia sido concluído. O material reunido àquela altura consistia basicamente em gravações de conversas com frequentadoras e funcionárias do parque. Havia, já nesse início, sutilezas a serem consideradas. Como as atrizes estariam em cena representando personagens inspirados naquelas pessoas entrevistadas, tornou-se necessário, para a dramaturgia, escutar a sensação que cada atriz tinha de cada potencial personagem. Daniela nota ter trabalhado bastante com a escuta dos depoimentos, com as imagens e sensações que deles surgiam, e como esse material reverberava no grupo. O agenciamento desses primeiros elementos, porém, ganhava em complexidade. A atriz e dramaturga evoca um momento inicial, em que teve “a ideia de criar uma personagem criança que estaria perdida no parque e seria um pouco como o espelho da protagonista que fora abandonada na infância” e acrescenta: “mas essa ideia se mostrou difícil de ser concretizada porque seria complicado ter uma criança no elenco e viajar com ela no segundo momento do projeto. A proposta foi deixada de lado”, complementa Dani.
Com o avanço do processo, pistas distintas se abriam para a dramaturgia. Daniela recorda que nossa produção textual acontecia separadamente: a dela, dedicada desde o início à escrita de diferentes versões do roteiro, revisitadas e refeitas constantemente, enquanto a minha se concentrava em “cenas avulsas”, dentro de uma estrutura mais aberta. “As opiniões e sugestões sobre os textos eram diversas e, às vezes, não existia uma concordância, então a estrutura final demorou a se consolidar”, lembra Dani.
A partir de janeiro de 2013, tínhamos o parque inteiro à nossa disposição às segundas-feiras, quando a área estava fechada ao público. As frondosas árvores, os espelhos d’água, os caminhos molhados pelas chuvas de verão, as antigas construções com tijolos aparentes... tudo isso era material de estudo. “A cidade é dramaturgia” , dizia André Carreira com sua voz suave. O encenador, que vinha de Florianópolis para dirigir o processo, começava a imaginar o espetáculo no espaço em que estrearia. André também lembrava que, apesar disso, precisava de uma estrutura textual, senão finalizada, ao menos apontada, para poder vislumbrar a dinâmica das cenas e dos deslocamentos que o espetáculo proporia ao público pelos meandros do parque.
Depois de muitas idas e vindas, cortes e descartes, o texto criado pela dramaturgia, com contribuições das demais atrizes e da direção, se firmou. Mas, até que se firmasse, essas idas e vindas custaram ao cronograma e ao vigor de toda a equipe.
O espetáculo se chamaria Marias da Luz e traria fragmentos da história de vida de quatro personagens femininos que se cruzam, em diferentes épocas, no parque. Dito assim, parece simples e evidente: quatro atrizes se instalam em um lugar específico, entrevistam mulheres que ali estão, ficcionalizam o real e constroem quatro personagens que transitam por esse mesmo espaço. Mas não foi simples nem evidente. Pelo contrário: acabou sendo um processo árduo e atribulado. E, para arrematar, houve ainda a necessidade de ajustes no conceito do figurino de Claudia Schapira e inúmeros testes de som para difundir, em deslocamento, a música de Daniel Maia. Mas seguimos em frente.
A estrutura coral do texto deu resultado. As multitramas do enredo, correndo paralelas, com personagens e objetivos distintos, mas unidas por um local comum, o Parque da Luz, acabaram se articulando bem com a encenação e a deambulação do público pelas alamedas arborizadas. Na tarde de estreia, na última imagem do espetáculo, o público enxugava as lágrimas no meio do parque. André tinha conseguido dar uma função inédita para o ônibus. O veículo em movimento tinha se transformado em uma espécie de personagem que surpreendia a plateia, ora como trem, ora como casa de show que acolhia músicos locais, ora ainda como efeito de cinema no “travelling out teatral” da cena final.
As atrizes, com maturidade e muita sensibilidade, deram vida a quatro personagens: uma mãe cuja filha desapareceu, uma prostituta idosa, uma jovem com amor não correspondido e uma fotógrafa ambulante que retrata o parque e seus frequentadores entre 1912 e os dias atuais. Com elas, o público se deslocou por diferentes arquiteturas e sentimentos.
“A emoção que tomava conta do público, a forma evidente como a história chegava nas pessoas, era a resposta mais contundente a um processo que foi desgastante, mas que valeu toda a dedicação e batalha e que abriu, de certa forma, um novo caminho para mim, que passei a ter interesse em trabalhar e realizar mais dramaturgias”, conclui Daniela.
Durante os aplausos daquela tarde de estreia, um sentimento de final de travessia se acomodou no grupo. As Graças, junto com a heterogênea equipe que formaram, tinham atingido um alto nível de teatro. Ainda não tínhamos ideia do tamanho do aprendizado adquirido, nem dos cuidados que ainda teríamos que nos conceder.
Mudança de rumo
Marias da Luz foi muito bem recebido. Meses mais tarde, receberia o Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro de melhor espetáculo em espaço não convencional.
Também viajaria por meio do edital do Programa de Ação Cultural – ProAC Circulação, em 2014, e pelo Circuito Sesc de Artes, em 2016. Mas, naquele 2013, ainda como parte do projeto da Petrobras, teria que partir em turnê pelas cinco regiões do Brasil. Seria apresentado em 13 capitais. Além de São Paulo, o espetáculo seguiria para Goiânia, Brasília, Palmas, Belém, São Luís, Fortaleza, Natal, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Florianópolis e Curitiba.
Restava entender como Marias da Luz se adaptaria aos parques e espaços públicos de cada cidade da turnê. André Carreira, o diretor, deu as pistas. O grupo teria que encontrar elementos equivalentes aos do Parque da Luz nos outros espaços em que viesse a ser apresentado. Mais do que um terreno plano com acesso ao ônibus, era preciso encontrar lugares antigos, emblemáticos e, se possível, com histórico de prostituição.
Era preciso também pensar em vias de deslocamento do ônibus junto ao espaço cênico durante o espetáculo, afinal, em Marias da Luz, o ônibus tinha vida e função dramatúrgica fundamental.
Com isso em mente, Eliana partia com antecedência para fazer as visitas técnicas em cada cidade. Além do espaço público, era preciso encontrar músicos locais para se apresentarem na dita cena do “show”, que ocorria dentro do ônibus, na metade do espetáculo.
Para cumprir o cronograma, as atrizes se deslocariam de avião, fazendo o vai e volta entre São Paulo e as cidades das apresentações. Enquanto isso, o ônibus percorreria as grandes distâncias do território brasileiro levando de uma capital à outra o cenário, o som, os figurinos da peça e Eliana Bolanho, a única das atrizes que preferiu ter a vivência de rodar por terra em boa parte dos trajetos.
A turnê, que começava a deslanchar, teve, contudo, que ajustar seu rumo. Daniela não conseguiria mais cumprir o calendário de viagens e apresentações por motivos de saúde. “Eu adoeci gravemente e precisei me afastar de todos os meus trabalhos e buscar um tratamento”, recorda a atriz.
A atriz Paola Musatti, dupla de Vera Abbud na Cia. Pelo Cano, foi chamada para substituir Dani. Paola aprendeu o texto e os detalhes da encenação. O figurino de Dani foi adaptado a ela e Marias da Luz terminaria de percorrer o Brasil com esse desfalque no elenco original. Apesar disso, Marias da Luz conseguiu manter sua pujança ao longo de toda a turnê.
Ao final desse périplo, Daniela, Eliana, Juliana e Vera detectaram uma instabilidade dentro do grupo. Aos poucos foram se dando conta de que os ajustes vividos durante as viagens não eram somente a causa da instabilidade, mas também a consequência dela. Daniela lembra que, depois de um período de tratamento e recuperação, retornou para fazer mais alguns espetáculos de Marias da Luz com o grupo no Parque da Luz. Ela, assim como suas companheiras, tinha fortes esperanças de que, a partir de sua volta, ajustes nas relações pudessem acontecer. Mas as dificuldades de comunicação, insatisfações e instabilidades continuaram. Era preciso se debruçar sobre o assunto. A solução, porém, levaria ainda algum tempo a ser encontrada.
da Luz é da rua: só existe no espaço público, amalgamado com uma plateia que se dispõe a deambular com as personagens para ouvir, de muito de perto, seus dramas e confidências.
Alguns poucos elementos cenográficos se articulam com a arquitetura da cidade para compor o espetáculo. Entre eles, o próprio ônibus (como já mencionado), um painel com retratos de pessoas desaparecidas e um conjunto de fotografias impressas e recortadas em tamanho natural, com as silhuetas de frequentadores do Parque da Luz e de personagens da peça. Entre essas fotografias, figura o Brugalhau, grupo musical que ensaiava e tocava nos bancos do Parque da Luz. O grupo acabou fazendo parte da cena do “show” que acontece em Marias da Luz Nessa cena, os músicos interpretam a si mesmos e fazem o que sabem fazer: tocar com eficácia e sensibilidade.
Seu Zé e Seu Erito eram os músicos mais próximos das Graças durante a convivência de dois anos no parque. Seu Zé, que perdeu a esposa cedo, contou às Graças que ensinou os filhos a tocar chorinho a fim de conseguirem algum dinheiro para a família, tocando nas ruas do centro de São Paulo. Um dos filhos, Charles, tornou-se flautista profissional depois de ter sido notado por uma gravadora e chegou a ganhar o Prêmio Sharp de Música em 1989, quando era adolescente.
Charles da Flauta, como ficou conhecido, teve o renomado Altamiro Carrilho como mestre, gravou discos e chegou a se apresentar em diversos programas da televisão brasileira. O maestro Júlio Medaglia, impressionado com seu talento, conseguiu-lhe, na Alemanha, como professor, o primeiro flautista da Orquestra Filarmônica de Berlim. Às vésperas de viajar para a Alemanha, porém, Charles deixou-se levar pelo vício das drogas, chegando a morar na cracolândia. Segundo reportagem de Gilberto Dimenstein, em 2008, na Folha de S. Paulo, Charles diz: “As pessoas pensavam que eu estava fora do Brasil e deixaram de me procurar. Fiquei desanimado, comecei a não ir mais para a escola e a usar drogas. Experimentei crack e me perdi.”
Seu Zé ficou um tempo sem ver o filho. Quando As Graças conheceram seu Zé, ele tocava um violão de sete cordas com seus companheiros do Brugalhau A foto deles no cenário de Marias da Luz, junto com outras imagens do parque, foi uma maneira de levar um retrato dessa área paulistana para o resto do Brasil. Como o Brugalhau não viajava com o espetáculo, era preciso, como dito antes, encontrar em cada cidade músicos locais para interpretarem a cena do “show”. No Festival de Londrina, no Paraná, onde Marias da Luz foi apresentado depois da turnê pelas 13 capitais, a própria curadoria do festival se encarregou de encontrar os músicos. Foram chamados dois integrantes do Clube de Choro de Londrina. Chegaram e foram apresentados às Graças no camarim, antes do início do espetáculo. As atrizes levaram a dupla para ver as fotos que compunham o cenário, em especial aquela em que figurava seu Zé com o Brugalhau. Ao vê-la, um dos músicos se espanta, aponta para o seu Zé na foto e diz: “Aquele é o meu pai.”
“Você é o Charles da Flauta?”, perguntam as atrizes.
“Sou, vocês me conhecem?”
“Sim, quer dizer, não”, dizem As Graças
“Não tô entendendo”, responde Charles.
“Espera um pouco”, diz Eli.
Ela pega seu telefone, tecla um número, espera alguém atender e passa o celular para Charles.
“Alô… pai.”
Bessarábia
Bessarábia foi realizado em 2014, com recursos do edital ProAC, de São Paulo. O espetáculo contou com apenas metade do elenco original do grupo: Juliana e Eliana. Daniela e Vera não participaram do processo.
Daniela não participou da concepção e não fez parte da ficha técnica do espetáculo. Vera, que chegou a ser sondada para dirigir o trabalho, acabou declinando o convite por estar imersa na criação de O Jardim do Imperador, espetáculo de sua companhia Pelo Cano, também voltado para crianças.
As ausências de Dani e Vera talvez fossem de ordens distintas, mas o fato é que essa foi a primeira vez em que metade das Graças ficou de fora de um projeto desde a concepção. Uma convidada externa, Sylvie Layla, foi convocada a compor o elenco desde o início dos trabalhos, ao lado de Ju e Eli. Bessarábia, nesse sentido, com sua configuração inédita, não deixa de refletir a instabilidade que o grupo atravessava. “Apesar disso, a gente foi muito feliz com esse espetáculo”, reconhecem Eli e Ju.
Os bonecos
O espetáculo, voltado para as crianças, surge de uma ideia original de Juliana Gontijo, depois de ela adquirir um conjunto de bonecos de madeira na feira de antiguidades da Praça Benedito Calixto, em São Paulo. Os bonecos lhe foram vendidos como originários da Bessarábia, região histórica da Europa situada hoje entre os territórios da Moldávia e da Ucrânia.
Se Tem, Mas Acabou se concentrou no tema da morte, Bessarábia seria um espetáculo infantil dedicado a investigar a velhice. Sylvie, Juliana e Eli representavam pessoas idosas, com suas lembranças e seus esquecimentos. Comicidade e ternura se entrecruzavam na trama.
O espetáculo, que teve direção geral de David Taiyu e direção musical de Flávio Pires, realizou uma série de apresentações em escolas antes de migrar para espaços alternativos e pequenos palcos de diferentes unidades do Sesc-SP e de alguns teatros municipais. Ganharam o 1º Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem (antigo prêmio Femsa), pela “Sensibilidade e talento na restauração e manipulação de bonecos artesanais do século XIX.”
Em 2015, contemplado com um ProAC, dessa vez dedicado à circulação, Bessarábia foi apresentado em várias comunidades rurais do estado de São Paulo.
Chica Boa
Em janeiro de 2014, um grupo de sete palhaças e palhaços inscreve um projeto coletivo para um edital de ocupação da Funarte.
Juliana Gontijo e Vera Abbud fazem parte do coletivo e são contempladas, junto com David Taiyu, Fernando Paz, Luciana Viacava, Paola Musatti e eu, com a ocupação de uma das salas de teatro nos tradicionais locais da Funarte, na Alameda Nothmann, na capital paulista. A ocupação se chama Do Riso ao Choro e consiste em programar espetáculos de palhaçaria e melodrama entre agosto de 2014 e fevereiro de 2015. Passaram pela ocupação 21 importantes coletivos de São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, França e Portugal.
Como encerramento do projeto, previmos a criação de um espetáculo inédito, de circo-teatro, para ser interpretado por nós e apresentado em temporada na própria Funarte, em janeiro de 2015. Convocamos o diretor Fernando Neves para conduzir a encenação. Fernando, especialista na linguagem do circo teatro, trouxe sua equipe criativa para compor a luz, o som, os figurinos e o cenário do espetáculo. Restava-nos decidir que peça do repertório tradicional apresentaríamos: Uma comédia? Um melodrama? Um dramalhão? Lemos vários textos e optamos por Chica Boa, uma comédia de Paulo de Magalhães, de 1946.
Entretanto, uma greve na Funarte, no início do projeto, fez com que o calendário de apresentações se deslocasse para a frente. Com isso, parte de nossa trupe de sete artistas já estava engajada em outros compromissos. Então, o elenco de Chica Boa foi reforçado com convidados externos. Eliana Bolanho, Flávio Pires e Guto Togniazzolo se juntaram a Juliana Gontijo, Vera Abbud, Luciana Viacava e a mim.
Como se vê, três atrizes das Graças (Eli, Ju e Vera) se encontravam nesse projeto, que abordava algo de interesse do grupo: o estudo e a encenação de peças circenses brasileiras que privilegiam situações ligeiras, ágeis e ritmadas, com personagens definidos mais pelos tipos do que por algum suposto psicologismo. Como também se nota, além das Graças, Flávio Pires, assíduo colaborador do grupo e, a essa altura, companheiro de Juliana Gontijo, estava no elenco. E, com essa configuração, começamos os ensaios.
A comédia confronta os ares renovadores da jovem Chica Boa com os pilares retrógrados de uma família do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Foi uma trama muito prazerosa de montar.
A temporada na Funarte foi bem-sucedida e, meses depois, Chica Boa foi contemplada com um ProAC para circular pelo estado de São Paulo. Subimos na van e percorremos as estradas que nos levavam ao encontro de um público ora iniciante, ora iniciado na linguagem do circo-teatro. No trajeto, ouvíamos as histórias que o diretor Fernando Neves nos contava a respeito da sua família de artistas circenses.
Nossa programação de apresentações contava, entre outros, com o Circo Guaraciaba, baseado em Sorocaba, e com o itinerante Circo do Tubinho. Ambos os circos são formados por famílias com tradição na montagem de espetáculos de circo-teatro. Ao final de cada atuação, havia sempre um batepapo entre o público, a estrutura que nos acolhia e nós, o elenco do espetáculo. Além de São Paulo, o espetáculo participou do Festival de Extrema, em Minas Gerais, e do Festival Satyrianas, em São Paulo.
A montagem, a temporada e a turnê de Chica Boa foram etapas criativas e bastante prazerosas – uma produção externa às Graças, mas cuja leveza fez muito bem ao grupo naquele período.
Mediação de conflito
“A minha experiência de saída do grupo foi traumática, mas de enorme aprendizado” de Bessarábia externa, nas quais Dani não esteve envolvida. No período que antecedeu a separação, as atrizes, abatidas, tinham a impressão de que não avançavam mais juntas. Decidiram, então, procurar Guida Amaral, profissional especializada na mediação de conflitos. deparamos com o aperto que é se separar de alguém tão importante pro grupo. É evidente que nós só podemos falar pelo nosso lado, mas todas nós sabíamos que estava muito difícil continuar como estávamos. Não foi fácil, afinal, foram vinte anos juntas. A Dani foi fundamental para – e nunca deixará de ser – parte de nossa história.”
Daniela, do seu lado, lembra que, com a saída, do zero, com mais de 40 anos era muito assustador” isso, relutou em deixar o grupo: “ arremata. Restava, portanto, encontrar a maneira menos danosa de encarar a fragilidade emocional, física e financeira que tal decisão acarretaria para todas as envolvidas.
As discussões levaram meses. Guida Amaral as ajudava a pensar em um caminho possível. A partir das ponderações de cada atriz, Guida propôs uma “partilha de bens” decorrente da separação. Mas o que seria tal partilha quando se trata de um grupo de teatro? Afinal, muitas das conquistas comuns eram de ordem imaterial.
Os meses avançavam até que se chegou a um entendimento. Concluíram que o repertório do grupo era patrimônio conjunto das atrizes. Então, dividiram esse patrimônio de modo que Dani, ao sair, pudesse continuar apresentando alguns dos espetáculos sob produção própria e com novo elenco. Uma proposta foi redigida estipulando que Sonhos de Einstein, Clarices e Marias da Luz ficariam com Daniela. Esses espetáculos, mais uma soma em dinheiro, seriam a parte do patrimônio da companhia que, em comum acordo, lhe seria atribuída. Eliana, Juliana e Vera continuariam com o nome do grupo e com as demais produções, antigas e futuras.
Não é comum esse tipo de partilha, mas foi o que aquelas quatro mulheres, que tanto construíram juntas, estimaram justo naquele momento de separação. Não foi uma decisão fácil, mas certamente fez parte do aprendizado que as quatro atrizes se propuseram a encarar. E o aprendizado não parava ali.
Uma vez firmado o acordo, ele não permaneceu escrito em pedra. Houve ajustes que, por consenso, pareceram necessários. Marias da Luz, por iniciativa de Daniela, acabou voltando a integrar o repertório das Graças e, ainda hoje, conta com a participação de Dani, como atriz convidada, em apresentações em São Paulo.
Com esses novos acordos, uma nova relação se estabeleceu entre as atrizes, sobre outras bases: uma relação mais saudável, boa para os espetáculos e para o público.
Com a distância, As Graças entendem seus passos difíceis e a flecha que, naquele momento, deram ao seu destino, ainda tão prenhe de surpresas. Reconhecem toda a contribuição de Dani para o que As Graças se tornaram.
Daniela, com a mesma distância, diz perceber hoje: “Que a vida tem seus caminhos e descaminhos, tem seus jeitos de nos transformar e de nos lançar mesmo quando morremos de medo. As feridas ainda existem, mas vão cicatrizando e se transformando também. São uma parte difícil, mas bonita de nós. Assim como é bonita toda a trajetória do grupo, com suas conquistas e dificuldades.”
Daniela não deixa de evocar seu orgulho e amor pelas Graças: “Quero sempre estar presente na história do grupo porque, de fato, estive, com todas as minhas limitações e também com as minhas potencialidades. Amo As Graças, amo a nossa história, amo ter sido parte e ser parte para sempre, amo o fato de sermos um grupo de mulheres fazendo teatro, amo o que realizamos juntas e desejo que essa história sobreviva e que tenha longa vida”, finaliza.
Jequitinhonha
Mal passaram as festas de início de ano e As Graças partem, nos primeiros dias de janeiro de 2016, para Serro, município de Minas
Gerais, onde nasce o rio Jequitinhonha. Partem com o ônibus e mais dois carros, com cenários, malas, filhos e a cadela Baleia. A itinerância em família tem algo de circense. Gregório, filho de Paola, e João, filho de Vera, ambos adolescentes, acompanham ensaios, montagens e os encontros com artistas locais. A cadela Baleia, xodó de Juliana e Flávio, desbrava novos territórios, feliz da vida.
Esse modo de produção não é novo: Thiago, filho de Eli, e Pedro, filho de Juliana, também acompanharam As Graças quando eram mais novos. Thiago, como já relatado, chegou a ser técnico e motorista do ônibus na idade adulta. Junto com a família, uma equipe de técnicos de montagem, som, luz e produção compõe a caravana do Jequitinhonha.
Ali também começa uma nova fase na companhia: a sua relação com os rios. Os caminhos fluviais forjam uma cultura própria, circunscrita às margens, aos vales e às comunidades que os cercam. Essa circunscrição territorial gera unidade e dá sentido à itinerância. Esse fator foi preponderante para a decisão de As Graças embarcarem nessas viagens. O interesse pelas águas se estende até os dias de hoje e se traduz nos desejos artísticos mais recentes do grupo, como, por exemplo, o espetáculo Derrama, de 2025, descrito mais adiante.
A turnê pelo Jequitinhonha com o ônibus Circular Teatro percorre, durante aquele janeiro, a extensão total do rio, de sua nascente na Serra do Espinhaço até a sua foz, em Belmonte, no estado da Bahia. Dois espetáculos são levados. O primeiro é Poemas para Brincar, com Eli, Ju e Vera, apresentado à tarde, ou melhor, no final da tarde, por conta do calor. Era destinado às crianças e seus familiares. O segundo é o espetáculo adulto Nas Rodas do Coração, apresentado à noite, com as mesmas atrizes do Poemas mais Paola Musatti, como atriz convidada. Além dos espetáculos, a intervenção Canto a Canto percorre as localidades, indo ao encontro das pessoas e servindo também como chamariz para as apresentações do grupo.
Em Milho Verde, distrito de Serro, o grupo realiza suas primeiras atividades, que, por sinal, acontecem na mesma ocasião da tradicional Folia de Reis do povoado. As Graças se juntam ao cortejo local, encontram os foliões e, com seus espetáculos, ajudam a movimentar o vilarejo. O ônibus-teatro do grupo, estacionado ao lado da Capela do Rosário, com vista para a Serra do Espinhaço, chama a atenção. Um divulgador local é contratado. Trata-se de um habitante que, com seu megafone, percorre a vila a pé para difundir informações à população:
Essa mesma frase, “logo depois da missa”, transformou-se em um bordão. Foi repetida em alto-falantes, rádios, megafones e carros de som em São Gonçalo do Rio das Pedras, Serro, Araçuaí, Padre Paraíso, Felisburgo, Almenara, Barrolândia e Belmonte. É o horário mais preciso e o mais conveniente para atrair o público das cidades que acolheram As Graças em Minas Gerais e na Bahia.
Nesses encontros, um desejo manifestado pelos artistas do Vale do Jequitinhonha se repetia: que essa região, que durante anos foi considerada uma das mais pobres e desfavorecidas do país, seja reconhecida para além do estigma do passado. “O vale é muito potente e há muito tempo vem mostrando isso”, ouvimos reiteradas vezes. Do ponto de vista da cultura, há festivais e manifestações importantes, além de artistas consagrados nacional e internacionalmente.
Foi o que mostraram, por exemplo, os encontros das Graças com o grupo Ícaros do Vale e as escultoras Dona Zefa e Lira Marques, em Araçuaí. Nessa cidade, Frei Chico, um padre holandês que chegou ao Brasil no final dos anos 1960, mergulhou na cultura do Vale do Jequitinhonha e deu visibilidade à produção artística do lugar. Diferentes artistas que As Graças visitaram naquela localidade dizem ter encontrado suas vias de expressão por incentivo do frade.
Em Almenara, As Graças se encontram com o Coral das Lavadeiras, um grupo de mulheres que mantém vivo um repertório de cânticos de trabalho, lúdicos e de louvação, de influência africana, indígena e portuguesa, entoados às margens do rio Jequitinhonha. Foi no bairro de São Pedro que Eliana, Juliana, Vera e Paola bateram à porta do local de ensaio das Lavadeiras, em uma tarde quente e abafada de meados de janeiro. Em volta da mesa, com café, suco e bolo, As Graças, depois de ouvirem as vozes daquelas mulheres se abrindo em arranjos vocais emocionantes, retribuíram o presente cantando canções de seu repertório junto com as Lavadeiras
Em Padre Paraíso, o encontro foi no quintal da casa do artista Armando Ribeiro, onde os grupos Murion e Gruta apresentaram trechos de seus espetáculos. Era uma noite escura e amena. Depois da apresentação, um bate-papo aconteceu ali ao lado, em um exíguo espaço coberto. Nessas atividades, As Graças nunca estavam sós.
Em geral, levavam pessoas de sua equipe que se interessavam por encontrar os grupos locais. Naquela noite, os integrantes do Murion e do Gruta queriam saber detalhes de como funcionava a cultura em Cuba. Isso porque Carlos Ceiro, técnico de montagem das Graças, cubano, estava presente. As Graças contribuíam com a conversa, trazendo à mesa fatos e anedotas de sua própria história. Hoje, aquela noite de trocas, aspirações e transmissões se tornou, ela própria, um pedaço da história do grupo.
E foi assim: os encontros se deram desde que cruzaram com os foliões de Serro e de seus distritos no início da viagem, até encontrarem outros foliões em outras festas populares em Belmonte, no final do percurso.
É justamente ali, no sul da Bahia, que a imensidão do rio finalmente se impõe entre o céu e o mar. Mas, como em Belmonte o tempo estava para chuva, as apresentações foram deslocadas da Praça da Matriz para uma quadra esportiva coberta. Não era a primeira vez que a chuva impunha esse tipo de plano B.
Em Padre Paraíso, Poemas para Brincar foi realizado no Mercado Municipal, um espaço público coberto. Foi a alternativa que a produção local encontrou para proteger elenco e plateia da chuva. Em Felisburgo, Nas Rodas do Coração foi transferido para a rodoviária, único local abrigado em que caberia o Circular Teatro. Mas para isso precisaram atrasar alguns minutos o horário de início do espetáculo. Não, dessa vez não era a missa: era a rodoviária, com o horário de chegada e de saída do único ônibus do dia, que impunha mudanças no relógio do grupo. As Graças precisaram esperar o ônibus de viagem partir da plataforma antes de começarem o espetáculo. Assim que ele partiu, Nas Rodas do Coração começou.
E agora estavam em Belmonte, tentando escapar da chuva novamente. Para isso, restava saber como fazer passar os 2,50 m de largura do Circular Teatro nos 2,54 m de largura do portão da quadra. Isso mesmo, só dois centímetros de cada lado. “E precisa mais?”, disse o motorista.
Para atravessar o apertado portão, o ônibus acelera, esterça e recua. Os vizinhos saem para a rua. A manobra do grande veículo azul, por si só, é um atrativo.
A chuva aperta e dificulta a visão pelos espelhos retrovisores. Um centímetro a mais de cada lado ajudaria bem, pensam As Graças.
Não tem jeito: vai ter que tirar os retrovisores, não basta dobrá-los. Quer dizer, a visibilidade, que era pouca, agora é nula. Tudo passa a depender da orientação de quem está de fora, “mais pra esquerda, freia, acerta o volante, engata a ré, vem devagar”, e também do sangue frio do motorista. Que infortúnio! Logo no último dia esse aperto, literalmente.
É preciso dizer que, durante a turnê, o ônibus subiu morro, desceu serra, balançou por dezenas e dezenas de quilômetros em estradas de terra, submeteu-se a um calor ardente e teve seu para-brisa inteiramente dilacerado por, acredita-se, um cascalho que se desprendeu do asfalto. Pausa para conserto. Onde encontrar outro para-brisa? O original era de 1960, arredondado nas bordas, sem emendas. Toca pra Eunápolis, a cidade baiana com mais estrutura na região. Eliana e Carlos Ceiro vão na frente. Um mecânico indica outro mecânico que, por fim, indica um vidraceiro. O ônibus então chega. Mede daqui, mede dali. “Puxa, dona, não temos o vidro adequado, vamos ter que adaptar”, diz o responsável da vidraçaria. Um dia inteiro do cronograma desviado para instalar o vidro no ônibus. Tarde da noite, o ônibus volta com o para-brisa refeito, não mais arredondado nas bordas, mas firme o suficiente para continuar viagem.
O problema agora é outro. O veículo ainda não entrou na quadra coberta. Os dois centímetros de cada lado não colaboram. A chuva aperta e o tempo passa.
O espetáculo começa em pouco tempo e há toda uma montagem a ser feita: “esterça mais, agora mantém assim, cuidado com o tranco da guia, para, para, vai bater”. O motorista não pisca, não transpira e parece que não respira: é o seu jeito de estar vivo, concentrado na manobra. Alinha novamente o ônibus. Alinhar é modo de dizer, porque ele vinha de uma diagonal que se transformava em curva para só então embicar no portão da quadra. Enfim, parece que agora vai. Os vizinhos, de celular em punho, filmam a façanha. Estarão todos na apresentação. “Se houver apresentação, né, motorista?”, provoca um vizinho.
O motorista continua sem piscar, transpirar ou respirar. Só acelera, devagarinho. Já passou a metade do ônibus; agora é só acreditar que a coisa rola. E rolou! Teve até salva de palmas. As Graças conseguem encerrar a turnê sãs e secas.
A experiência agrada a Eliana, Juliana e Vera e aguça o desejo de continuidade. Da próxima vez, iriam de barco, navegando pelo próprio rio. Um outro rio. Mas isso é assunto para outro capítulo.
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Quem Vem de Longe
Foi no Parque da Luz, durante o processo de Marias da Luz, que apresentei a história em quadrinhos A Chegada, de Shaun Tan, para As Graças. Durante a pesquisa de Marias, as atrizes percorriam, além do próprio Parque da Luz, também as ruas do Bom Retiro, bairro conhecido por abrigar, em diferentes épocas, migrantes e imigrantes de diferentes origens. Já havia, por parte do grupo, o desejo de se aprofundar na questão migratória em nosso país. E a novela gráfica A Chegada, ao narrar as peripécias de um homem em uma terra totalmente estranha, à qual tem de se adaptar após um doloroso processo de desenraizamento, parecia ser uma obra inspiradora para o desejo teatral que amadurecia entre as atrizes.
No início, houve também a vontade de se debruçar sobre as diferentes origens familiares de Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud, as três atrizes do grupo, todas descendentes da imigração estrangeira que por aqui aportou na virada do século XIX para o século XX. Mas rapidamente se entendeu que, para um aprofundamento do tema, tais origens precisavam ser colocadas em perspectiva, cotejadas com outros deslocamentos, diásporas e refúgios que marcam a história do Brasil até hoje.
Estamos no início de 2017, e nos jornais pululam imagens e notícias da crise humanitária decorrente de guerras e fome, que obrigam populações inteiras a deixar seus lares em busca de sobrevivência em outro lugar. A crise se transforma em catástrofe quando as frequentes travessias clandestinas fracassam e quando os campos de refugiados transbordam. O Brasil passa a receber estrangeiros diferentes dos europeus, asiáticos e árabes que por aqui chegaram no século passado. No século XXI, são haitianos, venezuelanos, bolivianos, sírios muçulmanos, congoleses, angolanos e nigerianos que, entre outros, chegam ao nosso território.
As Graças levam isso em conta e lapidam o escopo do projeto. Quem Vem de Longe é contemplado pela 18ª edição do Programa Municipal de Fomento para a Cidade de São Paulo e começa a ser realizado.
O projeto de pesquisa propunha que o grupo e sua equipe criativa atuassem em residência artística em dois centros de acolhimento de solicitantes de refúgio na cidade de São Paulo. O primeiro foi a Missão Paz, um centro misto, com homens, mulheres e crianças no bairro do Glicério. O segundo, um centro somente feminino, também com crianças, no bairro da Penha.
Essas residências aconteceram e compreenderam entrevistas, oficinas e espetáculos, ao longo de várias semanas. Os encontros decorrentes dessas atividades, com suas epifanias e frustrações, foram determinantes para se alcançar o tom justo do espetáculo. Nos centros, As Graças se comunicavam com um pouco de espanhol, inglês, francês e português, línguas dos colonizadores, únicos idiomas comuns entre a população residente e as atrizes. Eu, que estava escalado para a dramaturgia de Quem Vem de Longe, buscava, nessas residências, algum fio potente que pudesse ser traçado posteriormente em sala de ensaio. Num primeiro momento, tenho a impressão de ter descoberto mais o que não fazer do que o que fazer.
Os encontros com os residentes nos ensinavam a fugir dos estereótipos das pessoas solicitantes de refúgio e nos obrigavam a compreender que as realidades dos imigrantes são múltiplas e complexas. Alguns se deslocam em família; outros, na maioria homens, migram sozinhos. Alguns fugiam da guerra; outros, de governos opressores; outros ainda, de conflitos com grupos étnicos inimigos que ascendiam ao poder. Fugiam do desemprego, da fome, da prisão e da morte iminente. No centro da Penha, em que a população era exclusivamente feminina e estrangeira, boa parte das residentes vivia ali com seus filhos e filhas. Isso tudo impactou a equipe e moldou as escolhas éticas e estéticas que teríamos pela frente.
Mudança de direção
Eduardo Moreira, do Grupo Galpão (MG), era o artista convidado para dirigir Quem Vem de Longe. Eduardo se deslocava até São Paulo, acompanhava a residência nos centros de acolhimento de migrantes e conduzia os ensaios. Eu escrevia textos a partir de proposições de Eduardo, das improvisações das atrizes e do encontro com os residentes nos centros de acolhimento.
Entretanto, passados alguns meses, problemas de agenda, surgidos inesperadamente nos planos do Galpão, fizeram com que Eduardo Moreira tivesse que voltar a Belo Horizonte e deixar o projeto das Graças. Esse revés, contudo, foi contornado com sobriedade. As justificativas burocráticas foram encaminhadas junto ao Programa de Fomento, e As Graças escolheram Cristiane Paoli Quito para ocupar o lugar deixado por Eduardo.
Quito já havia trabalhado com o grupo anteriormente. É dela a concepção da intervenção Canto a Canto, por exemplo. Quito chega e traz seus métodos para Quem Vem de Longe. Com isso, me desfiz de quarenta páginas de dramaturgia produzidas até então e recomecei do zero, acompanhando as propostas da diretora. Uma única cena, a cena dita da “sapateira”, da fase com Eduardo Moreira, foi resgatada e utilizada na versão final.
É que, com a chegada de Quito, o gênero teatral mudou. Na verdade, as atrizes já sentiam a necessidade dessa mudança quando começaram a residência no centro que recebia somente mulheres.
A partir dali, passaram a perceber que um teatro apoiado no gênero dramático, em que as atrizes representam personagens inspirados em pessoas reais, não faria o mesmo sentido que fizera, por exemplo, em Marias da Luz
um novo conceito para Quem Vem de Longe: seria uma “conversa”. Uma interlocução entre as atrizes, que portam seus verdadeiros nomes e travam um diálogo a respeito dos deslocamentos humanos e das diferenças econômicas, raciais e sociais que provocam esses deslocamentos planeta afora. As Graças falariam tanto da ajuda quanto da exploração entre indivíduos. Investigariam a noção de “nós” em oposição à noção de “outros”. Trariam depoimentos de suas histórias pessoais, que seriam cotejados a situações vividas junto às pessoas migrantes.
Quanto a mim, eu acompanhava todos os ensaios, ouvindo e trazendo propostas. Para isso, além de me apoiar no material produzido em sala, recorria a notícias de jornais, assim como a obras literárias e cinematográficas que tocavam na questão do deslocamento humanitário. Quito experimentava cada proposição trazida, encenando-a segundo sua visão do espetáculo. Coletivamente, íamos nos nutrindo. E o espetáculo amadurecia. Gustavo
Quem Vem de Longe estreou numa tarde de sábado, no CEU Butantã. Cecílio Bolanho Filho (Cilinho), motorista do Circular Teatro, estacionou o ônibus na entrada do CEU. Quem passava na rua entrevia o espetáculo.
Durante a estreia, um grupo de cerca de 20 pessoas se juntou inesperadamente à plateia. Estavam passando pelo bairro, perceberam a movimentação, ouviram as vozes das atrizes e decidiram ficar para ver o espetáculo. Ao final, vieram falar com a equipe. Eram venezuelanos, fruto da migração recente ao Brasil. Ainda não entendiam bem o nosso idioma, mas isso não os impediu de se identificar com Quem Vem de Longe.
Várias outras apresentações se seguiram àquela, com diferentes grupos de imigrantes na plateia. Ao final, em muitas dessas apresentações, As Graças convidavam uma pessoa em situação de refúgio para participar de uma conversa com o público. Essa prática ainda é realizada e, até hoje, Quem Vem de Longe segue sua jornada, como espetáculo ativo no repertório da companhia.
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Tapajós
Julho de 2019. Depois de muitas reuniões, entre as quais aquela na cozinha de Juliana Gontijo, descrita no início deste livro, As Graças voam em direção a Santarém, no Pará. Dali, seguem para Alter do Chão, primeira parada do projeto que levava Poemas para Brincar para comunidades ribeirinhas do rio Tapajós. Além do espetáculo, o grupo propõe um cortejo musical e uma oficina de teatro de sombra.
A empreitada se inscreve na linhagem do projeto do Jequitinhonha: seguir um rio levando teatro e trocando saberes com as comunidades locais. Dessa vez, porém, As Graças abdicam do ônibus e viajam em um barco que lhes serve de transporte, refeitório e alojamento durante a jornada amazônica. Navegam sob céu azul, sem enxergar a outra margem. Atracam o mais perto possível das comunidades, mas muitas vezes ainda têm que recorrer a outros meios de transporte terrestre para chegar à população. Em Pinhel, por exemplo, é o cacique Tiago Deodato que organiza o transporte do equipamento entre o barco e a praça da vila. São efetuados vários trajetos de moto – isso mesmo, de moto – em que as caixas com bonecos e as varas do cenário são equilibradas na garupa de uma 125 cilindradas. Além de moto, a equipe e a carga se locomovem a pé, em carro de boi, de caminhão e até em ônibus de linha, pelas pistas barrentas que riscam a floresta.
Além das atrizes, compõem a equipe o técnico Paulo Pellegrini e os músicos Flávio Pires e João Abbud, todos vindos de São Paulo. No Pará, foram contratadas localmente as produtoras Juliana Balsalobre e Marina Quinan, atrizes do grupo Las Cabaças e grandes conhecedoras da região. Elas são responsáveis por toda a logística e divulgação local, pela escolha das localidades, pelas visitas técnicas e pela contratação do restante da equipe. Por meio delas chegou-se ao fotógrafo Claudio Chena, à intérprete de libras Kellen Garcia e ao barco que levaria a trupe rio acima, rio abaixo. Mais do que uma produção habitual, o trabalho de Ju Balsalobre e Quinan foi fundamental para que os imponderáveis da Amazônia fossem atravessados com suavidade. E, para ajudar nessas travessias, contou-se com a empenhada tripulação do barco, formada pelo comandante Nonato Viana e seus dois ajudantes, João Carlos Araújo e Marituba. Além deles, viajava com o grupo uma excelente cozinheira, Rosângela Marinho. A costela de tambaqui tornou-se o prato do dia da equipe.
A viagem ocorre durante a cheia do Tapajós. O forte calor é amenizado pelos constantes mergulhos no rio ou chuveiradas no convés, ou ambos. Em geral, a equipe passa dois ou três dias em cada localidade, tempo suficiente para realizar o cortejo, a oficina e o espetáculo, e também para ter encontros com artistas e representantes das manifestações culturais locais.
O tempo é outro, a paisagem e as histórias também, sobretudo para quem vem da cidade grande sudestina. As oficinas de sombras revelam um universo mítico oriundo da floresta. Assim como nas oficinas realizadas nos centros de acolhimento ao migrante, durante o processo de Quem Vem de Longe, As Graças levam ao Tapajós as técnicas do teatro de sombra para serem entrelaçadas às histórias pessoais – ou à cosmogonia local –de quem participa da atividade. Com isso, não são poucas as entidades encantadas que se transformam em sombras durante a oficina. É a ancestralidade indígena que se projeta nas telas penduradas nas praças de cada comunidade visitada, todas lotadas de público.
Além do Tapajós, o giro teatral das Graças adentrou o rio Arapiuns, um afluente que desemboca no Tapajós aproximadamente 30 quilômetros antes de ele se juntar ao rio Amazonas. Como se percebe, é uma região de muita água, cercada por fauna e flora exuberantes. As ameaças, contudo, são constantes. O mercúrio, por exemplo, utilizado por garimpeiros ilegais na bacia do Tapajós, constitui uma dessas ameaças. A mineração, além de desmatar, contamina a água com a liberação de metal pesado, que se acumula na cadeia alimentar, sobretudo nos peixes, representando um sério risco para a saúde humana e ambiental da região. As comunidades ribeirinhas e indígenas, como aquelas visitadas pelas Graças, são as que mais sofrem com os efeitos tóxicos do mercúrio, uma vez que dependem da pesca para subsistência. Ativistas de Alter do Chão, lideranças do povo Munduruku e de outras localidades não cessam de requerer medidas que combatam essa e outras ameaças. Entretanto, essa problemática ainda aguardava, naquele ano de 2019, soluções mais contundentes.
As localidades em que As Graças atuaram foram Alter do Chão, Belterra, Maguari, Nazaré, Pinhel, Suruacá, São Pedro de Arapiuns e Urucureá. Foi mais de um mês fora de São Paulo, além de vários meses de pré-produção e pós-produção. A exemplo do que foi feito na expedição do rio Jequitinhonha, um filme documentário foi realizado sobre o percurso do grupo nas águas fluviais do Pará. O filme se chama O Tapajós e As Graças e foi selecionado para exibição na Itaú Cultural Play em 2022. Atualmente, pode ser visto no YouTube.
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Juliana
O documentário O Tapajós e As Graças, mencionado no capítulo anterior, é narrado por Juliana Gontijo. Essa narração não estava prevista no roteiro inicial e aconteceu por uma feliz circunstância. No final das apresentações, ainda no Pará, Juliana enviava, por WhatsApp, longas mensagens de áudio para a responsável pela comunicação do grupo, Gabriela Caseff, em São Paulo. Nessas mensagens, Juliana descrevia com precisão e espontaneidade os meandros da aventura teatral que As Graças tinham acabado de viver. O objetivo era utilizar aquele depoimento como base para um texto de divulgação do projeto. Mas o rumo dos áudios de Juliana foi outro. “A Ju estava muito presente, muito feliz nessa viagem, e o filme captou isso”, dizem Eliana e Vera. “Além disso, o que ela narra é o que nós também narraríamos.”
Foi assim que, por consenso, as três atrizes consideraram que o áudio de Juliana era representativo o suficiente para dar o tom da experiência coletiva do grupo. E que suas palavras dariam uma bela voz off para o filme sobre o Tapajós
De volta a São Paulo, enquanto o filme é finalizado, o grupo volta à cozinha de Juliana para pensar nos próximos projetos. “Chegamos do Tapajós em meados de 2019, encantadas com toda a exuberância dessa viagem. Chegamos exaustas, mas felizes, pensando em projetos para o futuro. As Graças iam completar 25 anos de existência e queríamos comemorar essa data”, diz Vera.
O projeto para o Programa de Fomento começou a ser escrito e seria pautado e instalado nas periferias da cidade de São Paulo, sob a orientação da diretora teatral Maria Thaís. Entretanto, dois acontecimentos vieram se sobrepor aos planos da companhia. O primeiro se deu poucos meses depois da volta do Tapajós, ainda em 2019: Juliana Gontijo recebeu um diagnóstico de câncer no ovário e, no final daquele ano, se submeteu a uma cirurgia para conter a doença. No início de 2020, após a cirurgia, Juliana iniciou o processo de quimioterapia.
Mal iniciado esse processo, um segundo acontecimento irrompe e não favorece em nada o primeiro: chega ao Brasil a pandemia de covid-19. Mais uma camada de medo e incerteza. “A Ju precisou se isolar do convívio, estava muito vulnerável e fazia parte do grupo de risco. Com essa separação, a gente não conseguia estar perto. O afeto era exercido a distância”, lembra Eli. No meio de tantas incertezas, As Graças começam a escrever o novo projeto, contando com a recuperação de Juliana e com o término da pandemia.
O projeto teria a pesquisa vocal como um de seus eixos e recebeu o nome de Tantas Vozes. Seria realizado em parceria com grupos teatrais das periferias norte, sul, leste e oeste de São Paulo, além de uma parceria com agentes culturais do centro da cidade. Ao final do processo, pretendiam apresentar um exercício cênico contando com a participação de mulheres oriundas dos grupos periféricos e com as atrizes das Graças
O ano de 2020 chega à metade e a pandemia perdura. As Graças reduzem a velocidade. O panorama do mundo era outro e a situação de Juliana requeria atenção. A atriz realiza seu tratamento no SUS, em hospitais de referência da cidade de São Paulo, mas, naquele período pré-vacina, as condições eram delicadas. Apesar disso, As Graças resistem.
No segundo semestre daquele ano, recebem a notícia de que tinham sido contempladas pelo edital de Fomento ao Teatro. E uma notícia ainda mais esperada: a de que o tratamento de Juliana estava dando certo. A doença estava em remissão. Juliana estaria no projeto.
Vale lembrar que todos esses acontecimentos eram compartilhados e vividos por telefone ou chamadas de vídeo. Ainda estávamos em tempos de ruas vazias e álcool gel em abundância. Meses longos, duradouros, que avançavam à espera de uma trégua.
Uma trégua
No final daquele ano, As Graças conseguiram agendar apresentações presenciais de Nas Rodas do Coração. Por se tratar de um espetáculo de rua, a Prefeitura de São Paulo programou 10 apresentações em praças da cidade, desde que o elenco testasse negativo para a covid, se apresentasse de máscara e posicionasse as pessoas do público, também de máscara, distantes umas das outras. O espetáculo era feito por Eliana, Vera e Paola Musatti e, substituindo Juliana, contava com Katia Daher.
Em um dos ensaios para essas apresentações, na Praça Horácio Sabino, em Pinheiros, uma surpresa: com os cabelos ainda curtos, renascendo após as sessões de químio, Juliana aparece para encontrar as amigas. Escolhe fazer a surpresa em um espaço e em um tempo que lhe são familiares: o espaço e o tempo do ato teatral, mais especificamente, do ato teatral realizado em local público, em um ensaio para o palco sobre rodas que ela ajudou a idealizar, anos antes, ao sonhar com o ônibus Circular Teatro As Graças estão próximas novamente e já se projetam no ano que vai começar. Se tudo correr bem, começarão o ano seguinte com os trabalhos de readequação do novo projeto. Tantas Vozes, como mencionado, foi contemplado pelo Fomento, mas, por causa do vaivém entre confinamento e abertura decorrente da pandemia, requer ajustes artísticos e administrativos.
Juliana vai passar o fim de 2020 em sua terra natal, Varginha (MG), onde vive sua família. Eliana e Vera também se recolhem com seus parentes, mas apenas com os mais próximos, afinal, a prudência sanitária ainda impera naquela virada de ano. Lembremos: a vacina só sairia no mês seguinte, em janeiro de 2021.
A vida
O ano vira e As Graças enfrentam seu maior desafio. A doença de Juliana volta a se manifestar. Os planos ficam de pernas para o ar, suspensos. Há algo elementar a ser cuidado: a vida. Não só o tempo, mas a qualidade de vida. A doença se agrava. Eliana Bolanho e Vera Abbud, as “irmãs” de grupo, acompanham Juliana Gontijo nessa etapa. Seu companheiro, Flávio Pires, é presença fixa ao seu lado. Seu filho, Pedro, também. Juliana está serena, consciente do que lhe acontece. A atriz falece no final do verão, um mês antes de completar 57 anos.
Tantas Vozes
É a voz de Juliana que ainda ressoa. O projeto do qual ela deveria participar, como dito antes, foi contemplado pelo Programa de Fomento. Os meses que antecedem a criação de Tantas Vozes são marcados pela dor da perda. As Graças, que sempre se reinventaram, estão diante de um estranho horizonte. O caminho será tocado por duas atrizes, sem mais um terceiro olhar que tanto auxilia na ponderação das incongruências e na regulação dos dissensos. Há um aprendizado a se alcançar em meio à saudade, e Eliana e Vera sabem disso.
Durante esse tempo, a vacina começa a ser aplicada. Mesmo assim, a covid ronda. Doses suplementares, reforços, máscaras, abertura e confinamento farão parte do cotidiano da população ainda por um tempo. A saúde está no cerne do debate público. A política se polariza em torno da pandemia e o país se divide, deixando um abismo profundo, sem ponte, entre os dois lados da régua política.
“O que Juliana pensaria, o que nossa amiga diria e o que ela faria?”, perguntam-se frequentemente Eli e Vera. E, aos poucos, com um projeto nas mãos, em um mundo política e sanitariamente caótico, vão reinventando seu caminho.
Maria Thaís, orientadora de Tantas Vozes, foi certeira ao apontar o rumo. Não bastava se apresentar na periferia: isso As Graças sempre fizeram. Era preciso ali se instalar, experimentar laços e tensionamentos artísticos com coletivos periféricos e contar com participação significativa preta, feminina e trans no projeto. Não bastava dividir o palco: isso As Graças fizeram inúmeras vezes. Era preciso se desterritorializar, física e imaterialmente.
Tantas Vozes era a oportunidade de se livrar de hábitos inoperantes e relativizar códigos em vias de esgotamento. A permanência nos territórios se mostrou fecunda e fundamental para o que seria criado posteriormente: a configuração de um terreno comum, em que percursos e relatos diversos reverberassem em tantas vozes.
As Graças firmaram parceria com os seguintes grupos e coletivos:
Clarianas, Espaço Cita, Bando Trapo (zona sul); Negro Sim, Casinha de Sonhar (zona oeste); Rosas Periféricas (zona leste); Quilombo Sambaqui (zona norte); Ocupação 9 de Julho (centro). Junto com eles – e no território deles, para o público deles – organizaram uma oficina de voz, ministrada pela cantora Juliana Amaral.
Em cada um desses territórios, As Graças apresentaram Tem Francesa no Morro, Nas Rodas do Coração, Canto a Canto, Marias da Luz e Quem Vem de Longe, todos espetáculos de rua (ou intervenção, no caso de Canto a Canto). E, junto ao ônibus da companhia, cada grupo parceiro apresentou um espetáculo de seu repertório. Foram meses de convivência, de trocas artísticas, de almoços e sonhos compartilhados.
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Tantas Vozes
A segunda parte do projeto consistiu na elaboração de um exercício cênico comum. Para isso, foi criado um coletivo de nove mulheres, composto por integrantes dos grupos parceiros e participantes das oficinas – ao menos uma pessoa de cada região – e pelas duas atrizes das Graças. Com essa configuração, as nove artistas partiram para uma imersão artística no interior de São Paulo, conduzida pela pedagoga e preparadora vocal Barbara Biscaro e pela diretora teatral Maria Thaís. Nove mulheres, que não se conheciam previamente, se dispuseram ali a se encontrar artisticamente a partir de seus diferentes horizontes. Na imersão, tecem-se as primeiras linhas da intervenção cênica que, posteriormente, se chamaria Tantos Cantos na Cidade Thaís e Barbara Biscaro conduzem os experimentos, incitando o grupo a descobrir que vozes e que histórias podem ser encontradas para reverberar em conjunto. A intimidade favorecida pela convivência diária, a culinária partilhada e a proximidade da natureza traduzem-se na criação.
Depois da imersão, o grupo realiza mais uma etapa de ensaios, dessa vez no Condô Cultural, em São Paulo, antes de finalmente estrear. A intervenção percorre o território de todos os coletivos periféricos engajados em sua criação e encerra a turnê com apresentações no Parque da Luz. O elenco foi formado por Daniela D’eon, Dêssa Souza, Generosa Maria Lima, Martinha Soares, Mônica Rodrigues, Mônica Soares, Rosângela Macedo, além de Eliana Bolanho e Vera Abbud.
O projeto Tantas Vozes
Tantos Cantos na Cidade primeiras criações das Graças Juliana Gontijo. Se é verdade que ela esteve presente nas memórias e histórias trilhadas pelo grupo durante o processo, Eli e Vera tinham consciência de que, apesar disso, ainda faltava um projeto inteiro, pensado desde o início como homenagem à parceira e amiga. Arregaçaram as mangas e trataram de concretizá-lo, como se verá no próximo capítulo.
Derrama
Vinte e quatro de julho de 2025 – 15h – Parque da Luz. Algumas dezenas de cadeiras de praia se alinham próximas ao coreto. Na frente das cadeiras, um cenário azul, formado por uma robusta lona plástica que se estende do alto do ônibus Circular Teatro até o chão, onde se esparrama por uma área quadrada, suficiente para acolher As Graças e suas convidadas.
O alto-falante anuncia o espetáculo. Uma parte do público ocupa as cadeiras, outra parte se acomoda de pé, apoiada no coreto ou próxima à cabine de som. Derrama, o mais recente espetáculo das Graças, começa às 15h02.
Na verdade, começou muito antes.
Depois do Jequitinhonha e do Tapajós, As Graças quiseram continuar seus planos fluviais. Não foram poucas as páginas de projetos enviadas aos editais municipais, estaduais e federais propondo viagens teatrais ao longo do Tietê, do São Francisco e do rio Negro. De algum jeito, As Graças voltariam às águas.
As águas – as do Tapajós – foram também protagonistas da última turnê que Juliana Gontijo realizou junto às suas companheiras de grupo. “A Ju estava muito feliz na Amazônia, ela estava em sintonia com a população ribeirinha e em uma comunhão com o rio muito forte”, diz Vera. “A gente ainda não sabia como, mas sabíamos que faríamos um espetáculo ligando a Ju ao fluxo das águas, tanto na geografia quanto no corpo das mulheres”, completa Eli.
O aniversário de 30 anos da companhia era uma boa ocasião para colocar a proposta em prática. “Nós vamos escrever novamente um projeto com um elenco de nove mulheres, afetivo e diverso, com quem já trabalhamos anteriormente; com uma diretora que a gente admira faz tempo – Duda Maia – com 22 apresentações em praças e parques de São Paulo, porque a gente tem necessidade, com nossos 60 anos de idade e 30 de grupo, de investigar o tempo, a noção de tempo que avança e não volta, como os rios. Queremos partilhar essa temática com o público dessa cidade que escondeu seus rios embaixo do asfalto, com essa sociedade que invisibiliza as mulheres, e para a Juliana Gontijo, nossa amiga, eterna parceira e inspiradora”, dizem Eli e Vera.
O projeto foi selecionado pelo Programa de Fomento e os ensaios começaram. As Graças ensaiaram na Casa Farofa, um espaço concebido pela produtora Corpo Rastreado. “Foi muito emocionante voltar ao prédio em que vivemos tantas outras etapas de nossas vidas. Ali foi o Nova Dança, um espaço emblemático para a cidade, um local de pesquisa e encontros artísticos que marcou gerações”, diz Eli.
Muito do que foi aprendido no projeto Tantas Vozes foi levado ao processo de Derrama: a imersão por uma semana em residência fora de São Paulo, o trabalho com elenco numeroso e diversificado, formado por parceiras antigas, como Katia Daher e Paola Musatti; por parcerias mais recentes, como Martinha Soares, Dêssa Souza, Daniela D’eon e Nilceia Vicente; e pela nova parceria criada com Cibele Mateus. Junto com Eliana e Vera, essas são as mulheres de Derrama
Cíntia Alves escreveu o poético texto posto em cena pela já mencionada, e fundamental, Duda Maia. Duda conduziu a criação por meio do trabalho corporal (um desejo antigo do grupo) e, com sua presença assertiva e amorosa, soube articular o trabalho criativo de cada área envolvida no processo.
Naquele 24 de julho de 2025, além dos frequentadores do Parque da Luz, havia boas, grandes, velhas e novas amizades das mundo conheceu Juliana Gontijo, nem todo mundo sabia que cursos d’água correm sob a cidade de São Paulo, nem todo mundo imaginava ver tamanha sobreposição de arrojo e delicadeza, nem todo mundo esperava chorar a céu aberto, na tarde de uma quinta-feira, ao assistir a um espetáculo de teatro.
Foi assim que Derrama surpreendeu o público: sem grandes ostentações e com uma presença coletiva que, ao longo de toda a temporada, fez plateias conhecidas e desconhecidas se deixarem levar pelo fluxo sensível do rio das Graças
Trinta Anos
As Graças , com seus 30 anos, já pode ser considerada uma trupe longeva no panorama teatral brasileiro. Não são muitos os grupos que, nos dias de hoje, já sopraram trinta velinhas. Se pensarmos nos coletivos que estão em atividade ininterrupta, que se dedicam a uma pesquisa de grupo contínua – e que são formados e conduzidos somente por mulheres –, o número diminui ainda mais. Isso porque a aplicação de recursos nas artes cênicas tem sido tributária de fontes escassas e inconstantes em nosso país.
Na virada do século XX para o século XXI, a classe teatral lutou para mudar esse cenário. Em São Paulo, As Graças acompanharam os esforços e conquistas do movimento Arte Contra a Barbárie, que atuava para que um financiamento estatal mais robusto fosse implantado e direcionado, por meio de leis, prêmios e outros editais, ao teatro de pesquisa. As Graças são uma das sementes, e um dos frutos, das discussões que geraram a consolidação das subvenções públicas ao teatro. Em São Paulo, por exemplo, a Lei de Fomento ao Teatro do Município nasceu em 2002, e o ProAC estadual é de 2006. As Graças tinham, respectivamente, sete e onze anos de trajetória quando essas fontes de financiamento foram criadas. A pesquisa do grupo, sem dúvida, beneficiou-se com esse tipo de aporte. Beneficiou- se também de recursos federais (Prêmio Funarte Myriam Muniz e Petrobras), que permitiram ao grupo fazer bom uso dos recursos e se lançar em projetos de âmbito nacional, como a turnê do espetáculo Marias da Luz por 13 estados da Federação e os projetos fluviais pelos rios Jequitinhonha e Tapajós.
O incremento de investimentos certamente refletiu no desenvolvimento artístico das Graças. É preciso notar, porém, que os aportes ainda são desproporcionais ao gigantismo de nosso país. Os recursos não dão conta de suprir a carência de atividades e equipamentos culturais de nossa sociedade em toda a sua diversidade.
A insegurança financeira é um obstáculo constante, mesmo em grupos com três décadas de existência.
Se As Graças estão juntas e ativas é também porque descobriram, na prática, uma maneira de conduzir um grupo. Não há chefes nas Graças – nunca houve. Há divisões de tarefas e partilha de desejos. E amizade. Vera sabe o que Eli pensa e vice-versa. Isso era assim também quando Juliana Gontijo e Daniela Schitini compunham a companhia.
As Graças, desde sempre, deram asas a seus anseios. Sentam, discutem e não
As atrizes já foram chamadas de “as meninas da poesia”, quando seus projetos rondavam Adélia Prado, José Paulo Paes, Manuel Bandeira e Orides Fontela. Também eram o “grupo dos bonecos” quando fizeram Poemas para Brincar, O Voo, O Voo II e Bessarábia, que, junto com Tem, Mas Acabou, formam o repertório infantojuvenil da companhia. Em determinado momento, foram para o Teatro de Revista, formato popular que deu origem a Tem Francesa no Morro. Em seguida, aprofundaram-se nesse teatro para a população ao mergulharem nas comédias Nas Rodas do Coração e Noite de Reis, já concebidas para o espaço público, por meio do contato direto que o palco do ônibus Circular Teatro estabelecia com as pessoas nas praças e ruas do Brasil. E, nas praças e ruas, se abriram para além da comédia. A intervenção Canto a Canto já havia dado as pistas, e Marias da Luz, Quem Vem de Longe, Tantas Vozes na Cidade e Derrama comprovaram que o drama, a conversa, o íntimo e o feminino são capazes de abrir rodas fecundas no espaço público para convocar, interpelar e emocionar a população. “E a gente não fez isso sozinhas, primeiro teve a Ju e a Dani. Sem elas não seríamos o que somos. E muitas outras pessoas estiveram com a gente, na produção, na técnica, muita gente que passou pela nossa história e impulsionou a gente a continuar. Foram muitos encontros, com tantos públicos, em tantos lugares. O sentimento é de gratidão”, diz Eli. “De muita gratidão”, completa Vera.
Este livro, dedicado a Juliana Gontijo, espera de algum modo descortinar a história de um grupo para além de seu funcionamento teatral. Se, por um lado, esse funcionamento, com todos seus projetos realizados (e outros engavetados), tecem o fio do percurso da companhia, por outro lado, valeria a pena voltar justamente à etimologia da palavra companhia para tentar traduzir o que fizeram Eliana Bolanho, Vera Abbud e suas parceiras de jornada ao longo de todos esses anos: a palavra companhia refere-se inicialmente a pessoas que comem o pão juntas, ou seja, que repartem o pão e, por extensão, que andam juntas. Essa palavra, companhia, aparece em sua forma abreviada (cia.) na razão social da Cia. Teatral As Graças. E, talvez, na história dessas mulheres que viveram desafios, perdas e passaram a metade de suas vidas lado a lado em torno de um propósito em perpétua reinvenção, essas três letrinhas, e seu significado ancestral – andar juntas e partilhar –representem a razão existencial que as trouxeram até aqui, a mesma razão que as projeta nos anos que virão.
Fichas técnicas
Endecha das Três Irmãs
A trama, escrita e dirigida por Vânia Terra, tem como matéria-prima as impressões produzidas pela leitura da obra poética e da prosa de Adélia Prado. Um olhar sutil, religioso, sensual e apaixonado. O espetáculo retrata mulheres em sua íntima ingenuidade, num movimento em que confundem harmoniosamente a paixão, fator de desvario, com a religiosidade. O limite entre o sagrado e o profano é rompido. A inteireza da paixão se revela.
(1995)
baseado na obra de _Adélia Prado
direção e adaptação _Vânia Terra
elenco _Eliana Bolanho, Daniela Schitini e Juliana Gontijo atrizes convidadas _Élida Marques, Flávia Ferraz, Janaína Sant’Anna e Paula Cosenza participação especial _Léo Santini, Lázara Seugling, Leonora Valente e Cida Sampaio direção musical _Ricardo Monteiro cantoras_Flávia Ferraz, Paula Tomazini e Raquel Ripani desenho de luz _Lena Roque cenário _David Taiyu assistente cenografia _Silvana Marcondes figurino _Carolina Li e As Graças assistente de direção e preparação corporal
Eliana de Santana programação visual _Luiz Maia
produção _As Graças realização _As Graças e Vânia Terra (2010)
baseado na obra de _ Adélia Prado direção e adaptação _ Vânia Terra elenco _Eliana Bolanho, Daniela Schitini e Juliana Gontijo atrizes convidadas _Lilian Blanc e Marilia Adamy
desenho de luz _Miló Martins trilha sonora composta _Ricardo Monteiro direção musical _Nina Blauth Coreografia _Fábio Villardi figurinos _Karla Passos e Ligia Passos cenário _David Taiyu, As Graças e Vânia Terra
produção _Norma Lyds realização _As Graças
Poemas para Brincar
O espetáculo conta a história de Ana e Juca que depois de perderem sua pipa, inventaram uma nova brincadeira: através do jogo de palavras, descobrem como brincar de poesia.
Prêmio APCA (1996) - Texto; Prêmio Mambembe (1996) - Categoria Grupo; Prêmio Coca-Cola (1996) - Categorias Música e Teatro de Animação.
(1996)
baseado na obra de _José Paulo Paes
concepção e adaptação _Juliana Gontijo
assessoria artística _Eduardo Amos
direção de movimento _Marco Lima
música _Madan
trilha sonora _Alessandro Laroca e Madan
cenário _Luiz Maia
bonecos _Luiz Maia, Paulinho Polika e Beto Lima
elenco _Eliana Bolanho, Juliana Gontijo, Daniela Schitini e Vera Abbud
ator convidado _Flávio Pires
desenho de Luz _Carlos Gaúcho
produção e realização _As Graças
Sonhos de Einstein
O espetáculo preserva a qualidade poética do texto, onde Alan Lightman imagina os sonhos que Einstein, aos 26 anos, tinha quando trabalhava em um escritório suíço de patentes, antes de apresentar ao mundo sua teoria da relatividade.
(1998)
baseado na obra homônima de _Alan Lightman direção e adaptação _Isabel Setti elenco _Eliana Bolanho, Daniela Schitini, Juliana Gontijo e Vera Abbud violinista _Alicio Amaral figurinos e visagismo _Cláudia Schapira cenário _Luciana Bueno e As Graças iluminação _Wagner Freire e Kleber Montanheiro música _Alessandro Laroca
preparação vocal _Plinio Campos programação visual _Luiz Maia produção e realização _As Graças
Itinerário de Pasárgada
“Itinerário de Pasárgada” é uma tragicomédia musical, baseada na poesia e prosa de Manuel Bandeira. O espetáculo conta a viagem de Bandeira da infância à maturidade, passando pela doença, pela espera da morte e pela liberdade poética do modernismo.
(1999)
baseado na obra de _Manuel Bandeira direção e adaptação _Regina Galdino direção musical e composição _Pedro Paulo Bogossian elenco _Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud pesquisa _As Graças, Regina Galdino e Flávia Bolaffi desenho de luz _Regina Galdino cenografia e programação visual _Luiz Maia figurino _Cláudia Schapira produção e realização _As Graças
OVoo
“O Voo” é um espetáculo de bonecos que conta a jornada de um aventureiro que sai em busca da realização de seu sonho. Inspirado na história real de Charles Lindberg, o primeiro homem a atravessar de avião o Oceano Atlântico, o espetáculo é uma homenagem a todos aqueles que fazem da imaginação uma realidade e têm a coragem de concretizar seus sonhos.
(2000)
direção geral _Cláudio Saltini
consultoria _Eduardo Amos
direção de atores _Regina Galdino
dramaturgia _Cláudio Saltini, Regina Galdino e As Graças criação e confecção dos bonecos _Cláudio Saltini (coordenação), Henrique Viana, Thiago Lenktatis, Jaqueline Momesso, Daniela Schitini, Juliana Gontijo e Vera Abbud
cenografia e iluminação _Cláudio Saltini
restauração dos bonecos e cenários _Onozone Estúdio
trilha sonora e músicas _Sérgio Zurawski elenco _Eliana Bolanho, Juliana Gontijo, Daniela Schitini e Vera Abbud
atores convidados _Eugênio La Salvia, Fausto Franco e Fernando Sampaio
produção e administração _Eneida de Souza realização _As Graças e Saltini Produções
O Voo IIA Grande Corrida das Máquinas Voadoras
A história narra a aventura de corajosos aviadores movidos pelo desejo de se lançar ao ar e desafiar as leis da gravidade, permanecendo o maior tempo possível no céu. Ambientado no contexto histórico inicial do espetáculo “O Voo”, ele apresenta uma competição lúdica entre inventores e suas traquitanas voadoras, focado na criatividade e no sonho de voar.
Prêmio APCA (2002) de Melhor Espetáculo Infantil de Bonecos.
Com texto e direção de Kleber Montanheiro, o espetáculo mergulha no universo das vedetes da revista brasileira e foi inspirado em grandes estrelas como Dercy Gonçalves, Virgínia Lane, Mara Rúbia e Aracy Cortes. Misturando ficção e realidade, ele revela ao público um retrato vibrante da época, repleto de poesia, humor e números musicais que trazem canções de alguns dos maiores compositores da música popular brasileira.
(2001)
direção, dramaturgia, cenografia, figurinos e iluminação Kleber Montanheiro
elenco _Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud
atrizes convidadas _Claudia Zucheratto, Luciana Carnieli e Kátia Daher
direção musical _Mário Manga e Adilson Rodrigues
arranjos _Mário Manga
arranjos vocais _Adilson Rodrigues
direção de movimento _Cris Belluomini
visagismo _Gil L’Arruda
assistência de direção _Cássio Pires
assistência de produção _Erica Montanheiro
assistência de cenografia _Antonio Ivaldo Melo e Renato Rebouças
produção _As Graças
realização _As Graças e Cia. da Revista
Canto a Canto
“Canto a Canto” são pequenas intervenções teatrais itinerantes feitas para uma única pessoa ou para um pequeno grupo. O espectador é convidado a escolher em uma das gavetas de uma pequena caixa, alguma lembrança. Isso é o pretexto para uma determinada sequência de música, poesia ou pequenos textos.
Como num segredo compartilhado, artista e espectador estabelecem um momento de proximidade único. Um pequeno espetáculo feito especialmente para um espectador, um presente delicado e pessoal.
(2002)
criação _Daniela Schitini e Vera Abbud
elenco _Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud
produção e realização _As Graças
Nas Rodas do Coração
"Nas Rodas do Coração" conta a história de uma companhia de teatro que apresenta seu repertório pelas ruas da cidade de São Paulo. Enquanto a peça é encenada, as atrizes descobrem as falcatruas da dona da companhia e tentam, nos bastidores, desmascarar os golpes da vilã. O espetáculo é inspirado nos sambas de Adoniran Barbosa e na estrutura do melodrama.
elenco _Eliana Bolanho, Daniela Schitini, Juliana Gontijo e Vera Abbud atrizes convidadas _Claudia Zucheratto, Paola Musatti e Kátia Daher músicas _Adoniran Barbosa
direção musical _Mário Manga e Adilson Rodrigues arranjos _Mário Manga arranjos vocais _Adilson Rodrigues figurinos e cenário _Kleber Montanheiro coreografia _Fernando Neves produção e realização _As Graças
Clarices
“Clarices” é uma pequena mostra de idéias, sentimentos e temas que habitam a obra da escritora Clarice Lispector. Utilizando alguns de seus depoimentos, crônicas, trechos de contos e romances, As Graças, através da criação de três outras Clarices, revelam a mulher inspirada, lúcida e insana, a grande artista que é Clarice Lispector e sua escrita marcada pela poesia e intensidade.
(2006)
baseado na obra de _Clarice Lispector
adaptação _Daniela Schitini e Vivien Buckup
elenco _Daniela Schitini, Eliana Bolanho e Juliana Gontijo
direção e cenário _Vivien Buckup
assistente de direção _Flávia Lorenzi
direção musical _Lincoln Antonio
figurino _Kleber Montanheiro
visagismo _Gil L'Arruda
pintura de arte _Océlio de Sá Alencar e Fábio Brando
desenho de luz _Kleber Montanheiro
programação visual _Luiz Maia
produção e realização _As Graças
(2007)
baseado na obra de _Clarice Lispector adaptação _Daniela Schitini e Vivien Buckup
elenco _Daniela Schitini, Eliana Bolanho e Juliana Gontijo
direção e cenário _Vivien Buckup
assistente de direção _Flávia Lorenzi
direção musical _Lincoln Antonio figurino, visagismo e customização
Leopoldo Pacheco
assistente de figurino _Michele Rolandi
pintura de arte _Océlio de Sá Alencar e Fábio Brando
desenho de luz _Alessandra Domingues programação visual _Márcio Araújo
produção e realização _As Graças
Noites de Reis
“Noite de Reis” é uma comédia de William Shakespeare repleta de intrigas e amores impossíveis que conta a história de uma náufraga que perde o seu irmão gêmeo e tem que sobreviver num país estranho. Para isso ela se faz passar por homem e conquista um cargo importante no palácio do duque, mas acaba se apaixonando por ele. A partir daí a confusão está formada: uma sucessão de enganos e armações onde os personagens não são o que parecem ser.
(2006)
autor _William Shakespeare
adaptação _Daniela Schitini
direção _Marco Antônio Rodrigues
direção musical _Lincoln Antônio
elenco _Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud
elenco convidado _Dagoberto Feliz, Daniel Infantini, Danilo Grangheia, Fábio Espósito, Fernando Paz e Helder Mariani
assistência de direção _Cacau Merz
preparação corporal e coreografia _Joana Mattei
preparação vocal e musical _Lincoln Antônio
cenário e figurinos _Cássio Brasil
assistência de cenários e figurinos _Michele Rolandi
visagismo _Gil L’Arruda
programação visual _Luiz Maia
produção e administração _Norma Lyds
realização _As Graças
sendo contada para ela: a morte. A partir dessa conversa, o espetáculo aborda com delicadeza essa parte importante da vida. Para isso, uma sequência de cenas que contam com a linguagem do teatro de bonecos, do teatro de sombras, da música, de contos populares e depoimentos pessoais, abordam o tema.
Indicado ao Prêmio FEMSA (2009) - Categoria Especial pelo conjunto harmonioso de interpretação de histórias no espetáculo.
(2008)
direção _Cris Lozano
argumento e adaptação do conto “A Morte Madrinha” _Juliana Gontijo dramaturgia _As Graças e Cris Lozano assistente de direção _Carol Leiderfarb
direção musical _Lincoln Antonio e Juçara Marçal elenco _Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud atrizes convidadas _Luciana Viacava e Kátia Daher confecção de bonecos _Beto Souza e Luiz Maia bonecos de origami _Antonio Luis Theodosio iluminação _Domingos Quintiliano cenário e figurino _Renato Bolelli Rebouças e Beto Guilger programação visual _Luiz Maia e Pedro Maia produção e realização _As Graças
Como Saber?
A bordo de um ônibus-nave, vindos de um lugar desconhecido, viajantes procuram o lugar “ideal” para ficar. São forçados a parar a viagem por conta de um acidente e a experimentar viver neste lugar diferente.
(2009)
direção e dramaturgia _Leris Colombaioni
direção musical e trilha _Nina Blauth
atrizes _Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud
atriz convidada _Claudia Zucheratto
figurino _Adriana Chung
adereços _David Taiyu e Sandro Fontes
produção _Dora Leão
realização _As Graças
Marias da Luz
“Marias da Luz” conta a história do encontro de quatro mulheres de tempos diferentes, tocadas pelo abandono e pela solidão, que buscam um novo começo para suas vidas.
Prêmio CPT (2013) - Categoria “Melhor Espetáculo em Espaço Não Convencional”.
(2013)
direção e cenografia _André Carreira
dramaturgia _Daniela Schitini e Nereu Afonso da Silva
elenco _Eliana Bolanho, Daniela Schitini, Juliana Gontijo e Vera Abbud atrizes convidadas _Nilcéia Vicente e Paola Musatti
figurinos _Claudia Schapira
direção musical e trilha sonora original _Daniel Maia
consultoria de som _Miguel Caldas
pesquisa _Maria Socorro dos Santos preparação corporal (pilates) _Cecilia Oliveira
produção e administração _Aninha Barros
realização _As Graças
Bessarábia, Uma Feira de Histórias
Três senhoras criam uma feira de histórias através de pequenos bonecos vindos da Bessarábia, um país que não existe mais. Como num conto de fadas, esses antigos bonecos e essas velhas senhoras, atravessaram o tempo e os mares para criar um lugar mágico, onde memórias esquecidas, objetos jogados no lixo, reis e princesas revelam uma Bessarábia imaginária, que todos temos dentro de nós.
Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem (2014) - Categoria Prêmio Especial pela Sensibilidade e Talento na restauração e manipulação de bonecos artesanais do século XIX. Indicado ao Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem (2014)Categoria Produção.
(2014)
direção _David Taiyu
dramaturgia _Juliana Gontijo e As Graças
elenco _Eliana Bolanho e Juliana Gontijo
elenco convidado _Sylvie Layla e Flávio Pires
direção musical _Flávio Pires
figurino _David Taiyu
costureira _Cleide Mezzacapa desenho de luz _Sylvie Layla
A trama conta a história de uma moça irreverente e avançada para sua época que decide procurar o pai que não conhece. Ao encontrá-lo no bairro de Santa Teresa (RJ), depara-se também com sua nova família, dominada pela ultra moralista Dona Ingrácia. Com a ajuda de Sarita, vizinha da família, Chica instaura pouco a pouco ares de modernidade libertária nos costumes austeros e enferrujados daquela casa carioca.
(2015)
dramaturgia _Paulo Magalhães
direção _Fernando Neves
assistente de direção _Kátia Daher
elenco _Eliana Bolanho, Flávio Pires, Guto Togniazzolo, Juliana Gontijo, Kátia Daher, Luciana Viacava, Nereu Afonso da Silva, Paulo Pontes e Vera Abbud
direção musical _Fernando Esteves
figurinos e visagismo _Carol Badra
cenografia _Fernando Neves, Marcelo Andrade e Zé Valdir
iluminação _Eduardo Reyes
programação visual _Theo Oliveira
produção _Laila Guedes
administração _Eneida de Souza
realização _Ocupação Funarte - Do Riso ao Choro
Quem Vem de Longe
“Quem Vem de Longe” é um espetáculo sobre os fluxos migratórios atuais, sobre as diferenças e as distâncias que perpassam nosso mundo. Com uma narrativa em forma de conversa multifacetada, evocam a também multifacetada trajetória de quem migra – ou de quem tenta migrar – para outra terra, para outra situação ou, simplesmente, para outro desejo.
(2018)
direção _Cristiane Paoli Quito dramaturgia _Nereu Afonso da Silva direção musical _Gustavo Kurlat elenco _Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud atriz convidada _Nilcéia Vicente musicistas _Renata Mattar e Flávio Pires figurino _Claudia Schapira cenografia _Cristiane Paoli Quito assistente de produção _Daniela D’eon preparação corporal (pilates) _Cecilia Oliveira administração _Eneida de Souza produção e realização _As Graças
Estudo Cênico Tantos Cantos na Cidade
"Tantos Cantos na Cidade" é um estudo cênico da Cia. Teatral As Graças, realizado dentro do "Projeto Tantas Vozes" — um encontro entre artistas de cinco grupos de teatro atuantes em diferentes territórios da cidade de São Paulo. A partir das experiências da oficina Vozes em Movimento, realizada em cinco regiões da cidade, sete artistas foram convidadas para uma imersão cênica e vocal. Canto, corpo e narrativas compõem uma partilha de vozes e histórias, celebrando o encontro com o público como espaço de escuta, criação e troca.
(2022)
orientação de estudo cênico _Maria Thais preparação e pesquisa vocal _Barbara Biscaro e Juliana Amaral elenco _Daniela D'eon, Dêssa Souza, Eliana Bolanho, Generosa Lima, Martinha Soares, Mônica Rodrigues, Monica Soares, Rosângela Macedo e Vera Abbud
administração _Eneida de Souza produção e realização _As Graças
Derrama
“Derrama” é um espetáculo musical que traz um olhar poético sobre as águas e o tempo, traçando um paralelo entre o universo feminino e os rios.
composições originais _Jonathan Silva músicas “Lá no Começo” e “Deboche”
Cintia Alves e Jonathan Silva música “Ju Seu Nome" _Vera Abbud música “O Mar é Ela” _Ceumar arranjos e trilhas instrumentais
William Guedes percussão _Lucas Brogiolo
mixagem e masterização _Tekoá Áudio preparação vocal _Bárbara Biscaro e William Guedes design de som _Bruno Boccuzzi cenografia _André Cortez equipe de confecção de cenário
Ateliê Casa Amarela, Tide Nascimento, Michele Rolandi e Telma França figurino _Anne Cerruti assistente de figurino _Luisa Spolti costureiras _Apelina Fernandes e Lis Regina acessibilidade _Vanessa BrunaIncluir pela Arte produção e administração Corpo Rastreado realização _As Graças