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Diário de Coimbra Memórias 90 anos - Vol. 2

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02 | 26 DEZ 2021 | DOMINGO

DiáriodeCoimbra

Diário de Coimbra Memórias Barafunda de preços na venda da gasolina 11/12/1932 O Diário de Coimbra criticou, na edição de 11 de Dezembro de 1932, a discrepância de preços na venda de gasolina, mais cara nesta cidade do que noutros pontos do país. Se em Lisboa o preço por litro do combustível andava nos 2$15, e em Viseu nos 2$30, não se entendia que os automobilistas de Coimbra tivessem de pagar em geral 2$55. «Não compreendemos, francamente, que os preços não sejam sensivelmente iguais em toda a parte e que se apresente em vez disso uma tal disparidade. Não será possível que os revendedores de gasolina, em Coimbra, concertem os preços de forma a arranjar-se um preço comum, em conta, embora com a indispensável margem de lucro? Sabemos que o comércio atravessa uma crise de certo modo aguda e que a tudo tem de se agarrar para equilibrar as suas despesas e receitas. Mas a disparidade que vimos de pôr em foco não só não é justificável como se presta aos mais variados comentários. Repetimos: não será possível encontrar o justo preço, nesta barafunda de preços?», questionava o jornal.

Acabar com pés descalços em Coimbra 6/12/1932 «Entrou ontem em vigor a determinação proibindo, em Lisboa, o andar-se descalço na via pública», noticiou o jornal a 6 de Dezembro de 1932, aplaudindo uma medida «higiénica e civilizadora» para acabar com «o inveterado hábito nacional, que há muito não devia existir». Na nota, com o título “Os pés descalços”, desejava-se que a proibição também chegasse a Coimbra. «Para que deixássemos de ver o riso escarninho dos turistas estrangeiros que há poucos dias surpreendemos junto da porta do Café de Santa Cruz. É que uma rapariga das nossas aldeias, razoavelmente vestida mas descalça, oferecia fruta. Olharam, trocaram gestos e sorriram desdenhosamente. Confessamos: sentimo-nos vexados!», desabafou o autor.

25/12/1931 Diário de Coimbra apelou a contribuições da comunidade para que pelo menos “não faltasse uma ligeira refeição” natalícia aos mais carenciados

GENEROSIDADE DE LEITORES ALEGROU NOITE DE NATAL DE 150 POBRES DE COIMBRA

O

Diário de Coimbra lançou o apelo e a comunidade, tal como fizera no primeiro ano de existência do jornal e voltaria a fazer em anos seguintes, contribuiu generosamente para que na noite de Natal «não faltasse uma ligeira refeição» aos mais pobres da cidade. Depois do bando precatório a favor das famílias de 10 pescadores da Figueira da Foz mortos em naufrágio, que recordamos no passado domingo neste mesmo espaço de memórias, um novo acto de solidariedade foi patrocinado há 90 anos pelo jornal, agora para amenizar o sofrimento dos mais carenciados na quadra festiva natalícia. Graças às dádivas de particulares e de empresas, o bodo aos pobres foi distribuído na véspera do Natal de 1931 nas instalações do Diário de Coimbra, então sediado na Rua do Quebra Costas. Na edição do dia 25 relatava-se «uma festa enternecedora» que permitiu

repartir bens alimentares e dinheiro por centena e meia de pessoas carenciadas, num valor global «para cima de dois mil e quinhentos escudos». «Distribuímos ontem o nosso bodo do Natal aos pobres registados na nossa administração e para o qual contribuíram muito generosamente amigos queridos nossos, para quem vão os nossos mais sentidos agradecimentos e as lágrimas de reBodo aos pobres conhecimento e no Natal de 1931 gratidão que viincluiu bens alimenmos em muitos tares e dinheiro desses olhos mano valor global cerados pelo sode 2.500$00 frimento», escreveu o jornal. Pelas 14h00, em frente das oficinas do jornal, a Rua do Quebra Costas apresentava «um aspecto confrangedor e comovente». «São 150 desgraçados que se acotovelam e que se comprimem para receber aquela esmola que nós lhes vamos entregar, mandatários de almas generosas, que acorrePrimeira página da edição de 25 de Dezembro de 1931

ram ao nosso apelo de bem fazer. Na nossa redacção, sobre as mesas dos redactores, resmas de pacotes. Nesta o de bacalhau, naquela o do arroz, naquel’outra o de açúcar. Enfim, para cada género, uma mesa. Às 14 horas precisas inicia-se a obra de bem fazer. Começa a distribuição, que constou de um quilo de massa, meio quilo de arroz, meio quilo de bacalhau, 250 gramas de açucar, 125 de café, três pãezinhos e 5$00 em dinheiro. Os pobrezinhos entram a cinco e cinco e saem alegres. Vão ter, vindo de nós, um pouco de conforto, neste dia feliz do Natal. E vão entrando uns e saindo outros, no rosto estampada um pouco de felicidade e uma grande gratidão», registou o repórter. Além destas esmolas, a generosidade dos leitores estendeu-se a uma pobre mulher da Couraça de Lisboa, mãe de duas crianças, cuja situação de «terrível miséria» vinha merecendo especial atenção do jornal, a «quatro pobres envergonhados» e a dois tuberculosos. «Quisemos que, na noite de Natal, aos nossos pobres não faltasse uma ligeira refeição. É pouco? É muito? É tanto quanto o Diário de Coimbra pôde angariar. O nosso bodo de hoje é bem o índice da nossa compaixão pelos desafortunados. Em nome deles, o nosso agradecimento sinceríssimo para aqueles que nos deram a sua solidariedade», concluía o jornal. M. S.

Um bom reclame pode ser “a alma do negócio” 1/10/1932 Uma crónica publicada no Diário de Coimbra a 1 de Outubro de 1932 destacava a importância da boa publicidade para o sucesso dos negócios. Sob o título “Reclames gratuitos para chamar a clientela”, observava-se no texto que «hoje em dia quem não faz a propaganda intensa dos seus produtos vê-se preterido por aqueles que se abalançam a tornar, por todos os meios, conhecidos os seus artigos». «O reclame é a alma do negócio», sustentava o autor, respigando, para ilustrar a ideia, de «alguns jornais cu-

riosos reclames para atrair a clientela». Era o caso, por exemplo, de dois homens que «se entregavam a vias de facto» numa rua de Nova Iorque. «Logo que o espectáculo desta rixa (sabe-se que nos países anglo-saxões a vista de dois tipos a jogar o boxe constitui uma das cenas mais apreciadas) provocou um considerável ajuntamento, os dois galos lutadores cessaram bruscamente de se baterem e, de braço dado, dirigiram-se para um café próximo. Bem entendido, um grande número de espectadores seguiu-os... O dono desta publicidade e do

café em questão teve a ideia engenhosa de contratar uma dezena de boxeurs que enviava para diferentes sítios a fim de virem acompanhados de curiosos que se instalavam nas mesas do café», explicou o articulista. Apontava a seguir a «ideia, também engenhosa», que veio à lembrança da proprietária duma casa de chapéus. «Uma das suas concorrentes tinha mandado vir um grande stock de enormes chapéus de palha que tiveram um sucesso colossal entre as damas da localidade. Que fez a nossa modista, furiosa por ver a sua loja de-

serta? Fez comprar por um amigo certa quantidade de chapéus e distribuiu-os pelas vendedoras ambulantes, com a condição de os usarem quando andassem no exercício do seu métier. Bem entendido, no dia seguinte, nenhuma dama chic quis mais ouvir falar nos grandes chapéus de palha», relatou. Por último, a esperteza do director de um teatro parisiense que «encontrou um dia um bom reclame gratuito para a sua nova revista». «Telefonou a muitos dos melhores hotéis, dizendo aos porteiros que um cavalheiro lhe perguntara por telefone se ele

tinha um camarote disponível para a representação dessa noite. “O porteiro far-lhe-ia o favor de dizer a esse senhor (de quem não fixara o nome, mas que se devia encontrar no “hall” do hotel) que com efeito, tinha um camarote disponível?”. Inútil será dizer-se que todas as pessoas que se encontravam no “hall” dos diversos hotéis para onde se tinha telefonado, souberam por este meio que uma revista nova se iria representar no teatro X. E, à noite, o director engenhoso constatava com alegria que todos os lugares caros tinham sido vendidos», completou.


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