O tapa das desgraças

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Diário da Manhã

OPINIÃOPÚBLICA

GOIÂNIA, QUARTA-FEIRA, 15 DE FEVEREIRO DE 2012

OPINIÃOPÚBLICA opiniao@dm.com.br (62) 3267 1147

Editora: Sabrina Ritiely

O TAPA DAS DESGRAÇAS Batista Custódio Editor-geral do

Diário da Manhã

F

AZ muito tempo que nada me machuca tanto e doído desse jeito com a face dura da morte como a alegria retida na foto das crianças Vanderlei, Mirla e Alex, que levaram no último olhar a imagem do pai amado matandoas cheias de vida e quando o mundo não as havia tirado ainda da inocência dos brinquedos na felicidade do rosto. Às vezes o destino dá o tapa das desgraças que materializam o imaginário das ficções no realismo das tragédias, tão cruéis, que é melhor morrer nelas a viver depois delas. São dores sem alívio nos curativos dos anos nas feridas. É o cálice das amarguras que não se esvazia até o último dia enquanto dure a vida. Os mistérios enredam de surpresa maldições incógnitas nas benfeitorias da sina. A bruxa pousou no fadário do indissolúvel de uma família humilde e rolou lentamente nas sinalizações da fatalidade o lar para a tragédia consumada. Os consortes dotados do discernimento da premonição percebem os sintomas insinuantes da iminente ruptura do relacionamento conjugal. Quando o casal se separa, o casamento já havia acabado tempos antes. A adversidade prenunciada no desgaste dos ressentimentos contornados entre marido e esposa aconteceu avassaladora ao final da manhã do dia 12 desse janeiro na vastidão das terras cortadas pelo Rio Caiapó nos sertões sudoestinos de Diorama, Iporá e Caiapônia.

O mental trinca-se nas emoções estalidas

Mirla, 9 anos

Vanderlei, 11 anos

Alex, 10 anos

A morte por filicídio quando a vida ainda brincava neles

A sensação do eterno inteirada nos minutos, ele, de labor rural, e ela, de prenda doméstica, partiram despreocupados entre as rosas do início no casamento, florido de três filhos semeando a germinação da hereditariedade na árvore genealógica carregada de frutos, e seguiram despreocupados com a brota dos espinhos no meio do matrimônio, que se não forem podados diariamente, afiam as pontas na incompatibilidade de gênio e sangram o relacionamento até ao desenlace conjugal. As atribulações corriqueiras implodem convivências duradouras, reduzem a escombros a solidez das carícias, tornam enjoativa a meiguice pegajosa e sufocam os parceiros no idílio exacerbado. As paixões ardentes começam violentas nas culturas brutas e terminam também em violência quando a ardência passionária é arrefecida nos desencontros de sentimento.

Os perigosos encantamentos das paixões

T

ALVEZ a turbulência emotiva tenha balizado tanto a sensibilidade de Carmeci na consumição íntima que a induziu à dependência de medicamentos psicotrópicos, quanto a suscetibilidade temperamental de Vanderlei na síndrome do desatino que o afetou na rejeição mórbida do rabicho, para a esteira rolante da separação nos quatorze anos do casamento. Pode ser. Existe muita gente de bom coração e ruim de cabeça. A desordem emocional espatifou a harmonia domiciliar do casal. A inclemência do sofrimento continuado os excluiu de todas as noções da realidade nos brios. O rodízio das brigas unilaterais: o macho sempre batendo, a fêmea apanhando sempre, desfiava a

grinalda e tecia com as farpas dela o véu da separação às vésperas nos ânimos aos trapos. Carmeci desgostou-se das ilusões do mundo, aos 30 anos, nos espancamentos da autoestima. Vanderlei frustrou-se no orgulho, aos 34, no farrapo dos nervos. O amor enfeitiçou-se no ódio. A satisfação do amor perdido reluzindo nas costas da mulher. O despeito fumegando no peito do homem perdido de amor. Ela saiu igual cativa liberta da servidão humana. Ele ficou preso qual senhorio seguro de si em seu domínio. Vanderlei amava os filhos, amava a mãe deles e pensou que ela voltaria. Carmeci amava os filhos, não amava mais o pai deles e não havia saído apenas de casa; tinha ido-se embora do casamento e não voltaria mais para Vanderlei. Era o adeus do amor sem se despedir da paixão.

H

Á fenômenos da estupidez animalizada oculta na mente que a lucidez desconhece no mistério das razões humanas. Vanderlei Rodrigues da Silva e Carmeci Júlio da Conceição, adolescentes, necessariamente, sentiram-se arrebatados pela atração voluptuosa de um pelo outro e se entregaram aos encantos da paixão em ambos e vulcânica à primeira vista nos romances tórridos. E uniram-se enamorados de vez, os sentimentos medidos no sempre, o azedo das agruras desfeito no doce das afeições e a esperança ao largo dos sonhos.

Vanderlei, 35 anos

Carmeci, 30

O casamento do amor inteiro que as coisas da dor partiram ao meio

CONTINUA

Abrindo a dor fechada

V

ANDERLEI não se conformou com a separação de Carmeci. A angústia fervendo aflições nas rondas em vão das tentativas de reatar-se com a ex-esposa trincou-se-lhe o mental no cérebro. A desesperada reação do ex-marido ao não aceitar a separação de Carmeci estaliu-lhe o pulsar do coração em pancadas de terror em seu peito. Nas recusas dela, o insulto às ofertas dele. O final trágico do romance de Vanderlei e Carmeci cumpriu o roteiro de um amor interrompido e não aceito por um dos feridos pelo cupido. A dramaturgia goiana, com intensidade de uma tragédia greco-romana, concentra e encena o temário de que as paixões mal resolvidas devem ser, e só podem ser, vividas pelos personagens por trás das cortinas da privacidade intimista e nunca serem levadas ao palco para as interferências das interpretações de figurantes contracenando na plateia. O drama protagonizado pelo casal simples transcende à compreensão dos que veem de fora e não estão dentro da desesperação que os flagelava nos sentimentos. Inventariou-se os corações de Vanderlei e Carmeci nas profundezas das duas almas. Fez-se o espólio dos seus três filhos pequenos: Vanderlei, 11; Alex, 10; Mirla, 9 anos, no arrastão da partilha da presença deles deixada à guarda do pai e a ausência levada pela lembrança deles na saudade da mãe distante. A morte tinha vindo para ficar aguardando eles até a dali alguns dias.

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