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Edição 22

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Diário da Cuesta NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE E DA CIDADANIA EM BOTUCATU

ano I Nº 22

SEXTA-FEIRA 04 de dezembro de 2020

“EU NASCI NAQUELA SERRA...” ANGELINO DE OLIVEIRA

É um orgulho para Botucatu possuir o TRIO PIONEIRO DA MÚSICA RAIZ: Angelino de Oliveira, Raul Torres e Serrinha, que praticamente fazem de Botucatu e região o BERÇO DA MÚSICA CAIPIRA OU MÚSICA RAIZ. Sim, porque é pacífico o entendimento de que Piracicaba é a Capital da Música Caipira e o caipirês está enraizado em Piracicaba e já é patrimônio imaterial da cidade. E o registro do sotaque caipira como patrimônio reúne expressões em Piracicaba... PÁGINA 3

TRIO DE OURO DA MÚSICA RAIZ

Raul Torres

Angelino de Oliveira

COMEÇA A SEGUNDA CAMPANHA DA REFORMA DA CAPELA DE SÃO JOSÉ por Gesiel Jr Um dos templos católicos centenários de Botucatu, a Capela de São José, passa por serviços de revitalização desde o ano passado. Para dar continuidade às obras, o pároco da Igreja de São Benedito, padre Ademar Domingos Roma, anuncia o início da segunda campanha para esse objetivo. TROCA DA COBERTURA A próxima etapa será a da substituição do telhado da

igreja, hoje feita de telhas de amianto, por telhas galvanizadas, tipo sanduíche. “Além de dar maior leveza no prédio já centenário, também auxiliará na acústica e na retenção da temperatura interna”, garantiu o pároco. Os serviços envolverão os 400 metros quadrados da capela, inaugurada em 1918. O custo total dos trabalhos, entre material e mão de obra, está orçado em R$ 42 mil. (Botucatu Online)

Serrinha


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Diário da Cuesta

artigo

REFLEXÕES SOBRE O NARIZ NANDO CURY

Olhei no espelho e constatei que meu nariz teve um ligeiro crescimento nos últimos meses. Fiquei encafifado, pois não conseguia relacionar algo responsável por essa lateralidade pontual. Não havia feito fisiculturismo nasal. Não tinha me alimentado além das medidas do prato costumeiro. Muito menos, levantado o nariz com a intenção de dar um ar de lorde esnobe. Tinha aplicado mentiras? Não, com certeza. E nem metido o meu nariz, mais do que o normal, na vida alheia. Então o que é que estava acontecendo debaixo do meu nariz? Normal ficar preocupado, pois o nariz é um órgão vital, multifuncional pra respiração, pro olfato e pra fala. Por outro lado, o nariz participa diretamente da estética e da nossa autoestima. Como está situado bem no centro da face, exatamente entre os olhos, é ali que automaticamente miramos quando conversamos com alguém. Miramos nos olhos e acertamos em cheio no nariz. Não dá pra desviar. Por isso, sabiamente, o palhaço coloca uma peça vermelha e saliente nesse ponto alvo, ajuda na sua simpatia. Mas, pensei comigo que um mero crescimento de nariz não poderia virar um trauma, ainda mais nestes momentos. Precisava de um benchmarking, para conferir como o tempo tratou o nariz de outras pessoas. Por exemplo, de algumas celebridades. Uma referência real para ver como conseguiram superar o teste do espelho ou como venceram a crítica feroz. Recordei que Juca Chaves, tempos atrás, havia resolvido o seu impasse com uma música valorizando seu “nariz sensual”.

EXPEDIENTE NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE E DA CIDADANIA EM BOTUCATU WEBJORNALISMO DIÁRIO DIRETOR: Armando Moraes Delmanto

EDITORAÇÃO E DIAGRAMAÇÃO: Gráfica Diagrama/ Edil Gomes Contato@diariodacuesta.com.br Tels: 14.99745.6604 - 14. 991929689 O Diário da Cuesta não se responsabiliza por ideias e conceitos emitidos em artigos ou matérias assinadas, que expressem apenas o pensamento dos autores, não representando necessariamente a opinião da direção do jornal. A publicação se reserva o direito, por motivos de espaço e clareza, de resumir cartas, artigos e ensaios.

Depois fui direto naquelas revelações bombásticas: “você sabia que o Owen Wilson, ator de “Marley e eu” e “Meia Noite em Paris” (Wood Alen) quebrou duas vezes o nariz e nunca operou?”. Perguntado sobre o porte de seu nariz, Luciano Hulk afirmou que “mudar o nariz significaria mudar a sua personalidade”. A seguir, encontrei também o ator Adrien Brody, portador de um nariz comprido e voltado pra baixo. E que, segundo a crítica, atribui a ele um ar intelectual e excêntrico. Ótimo para papéis importantes, como em King Kong, em Grande Hotel Budapeste e para ganhar um Óscar de melhor ator no filme O Pianista. Não está bom? Um lindo case de passarela é o da adorável Gisele Bundchen que, no seu início como modelo profissional, sofreu algumas recusas por causa de seu nariz. Dá para acreditar nisso? Gisele assumiu o nariz e fez as agências e capas de revistas curvarem-se perante sua lindeza total. Aí encontrei um caso clássico masculino ou um nariz sob medida para um papel especial. Isso ocorreu com o ator francês Gerard Depardieu, detentor de um potente nariz, que ainda foi estendido para que ele pudesse interpretar Cyrano de Bergerac (da peça de Edmond Rostand). Cyrano era um filósofo, poeta e hábil duelista do sec.XV que, apaixonado por sua musa Roxane, não conseguiu admitir seu amor por ela, por causa de seu nariz descomunal. Faltava considerar as inconformadas e os inconformados que optaram pela plástica. Sarah Jéssica Parker, da série Sex and The City, resistiu alguns anos, mas depois mudou o tamanho e o formato do seu nariz. Já, um caso clássico feminino é o de Barbra Streisand que manteve um nariz exótico em cerca de 90% de sua carreira, segundo informações de paparazzis que a acompanharam. Com sua voz e beleza incontestáveis, quem é que contestaria o nariz de Barbra? Por fim, foquei em duas decisões cirúrgicas que considero mais traumáticas: Michel Jackson que ficou com o nariz de Barbie e Anitta que adotou o nariz de Michel Jackson. Após esta jornada nariziana, voltei ao espelho e senti um grande alívio ao deparar com meu nariz quase normal. Na verdade continua linnndo. Logicamente, dentro de sua genética e natureza ítalo-libanesas. NANDO CURY Publicitário, professor, compositor, cronista, Beatles For All, Mídias Urbanas

Saudades de Botucatu

Autor: Angelino de Oliveira Nunca esquecerei de ti, oh minha terra, Berço onde o amor nasceu. És princesa lá da serra, Terra dos carinhos meus. Não mais poderei viver longe de ti. Tu és a minha adoração. Oh! Botucatu, Cidade dos meus sonhos, Terra do meu coração. Oh! Botucatu, Cidade dos meus sonhos, Terra do meu coração. “SAUDADES DE BOTUCATU” é o Hino da cidade de Botucatu.

Tristeza do Jeca

Autor: Angelino de Oliveira Nestes versos tão singelos Minha bela, meu amor Pra você quero cantar O meu sofrer, a minha dor Eu sou como o sabiá Que quando canta é só tristeza Desde o galho onde ele está Nesta viola eu canto e gemo de verdade Cada toada representa uma saudade Eu nasci naquela serra Num ranchinho beira-chão Todo cheio de buraco Onde a luz faz clarão Quando chega a madrugada Lá no alto a passarada Principia um barulhão Nesta viola eu canto e gemo de verdade Cada toada representa uma saudade Lá no mato tudo é triste Desde o jeito de falar Quando riscam na viola Da vontade de chorar Não tem um que cante alegre Tudo vive padecendo Cantando pra se aliviar Nesta viola eu canto e gemo de verdade Cada toada representa uma saudade Vou parar com a minha viola Já não posso mais cantar Pois o jeca quando canta Tem vontade de chorar E o choro que vai caindo Devagar vai se sumindo Como as águas vão pro mar Nesta viola eu canto e gemo de verdade Cada toada representa uma saudade


Diário da Cuesta

“EU NASCI NAQUELA SERRA...”

ANGELINO DE OLIVEIRA É um orgulho para Botucatu possuir o TRIO PIONEIRO DA MÚSICA RAIZ: Angelino de Oliveira, Raul Torres e Serrinha, que praticamente fazem de Botucatu e região o BERÇO DA MÚSICA CAIPIRA OU MÚSICA RAIZ. Sim, porque é pacífico o entendimento de que Piracicaba é a Capital da Música Caipira e o caipirês está enraizado em Piracicaba e já é patrimônio imaterial da cidade. E o registro do sotaque caipira como patrimônio reúne expressões em Piracicaba... Isso é muito bom. Os bons empresários e as prefeituras espertas estão partindo para a valorização do nosso interior. Em Piracicaba tem um escritor, Cecílio Elias Netto, que publicou o “Dicionário

do Dialeto Caipiracicabano” (Arco, Tarco, Verva). No dicionário, TARCO ”é o mesmo que talco. Piracicabano, como se sabe, sempre fica em dúvida, no barbeiro, entre tarco (talco), arco (álcool) e Acqua Verva (Velva). Mas, com muié, prefere tarco. Muié diz: “Depois do banho meu marido sempre qué qui eu use tarco!.. Quem é nascida ou nascido no interior sabe dar valor às boas coisas e causos da gente simples da zona rural. A mais famosa música caipira é a “Tristeza do Jeca”, do Angelino de Oliveira, de Botucatu. Essa música é conhecida no mundo todo, na 2ª Grande Guerra Mundial foi tocada nas tropas aliadas, era um código. Ela retrata muito bem como era o homem simples e de como ele via e vivia a vida. Já foi gravada pelos melhores cantores do Brasil. Vejam que linda letra: “Nestes versos tão singelos Minha bela, meu amor Pra você quero contar O meu sofrer a minha dor Sou igual o sabiá Quando canta é só tristeza Desde o galho onde ele está Nesta viola eu canto E gemo de verdade Cada toada representa Uma saudade Eu nasci naquela serra Num ranchinho a beira-chão Todo cheio de buraco

Onde a lua faz clarão Quando chega a madrugada Lá no mato a passarada Principia o barulhão Nesta viola eu canto E gemo de verdade Cada toada representa Uma saudade Lá no mato tudo é triste Desde o jeito de falar Pois o jeca quando canta Dá vontade de chorar E o choro que vai caindo Devagar, vai se sumindo Como as águas vão pro mar E o choro que vai caindo Devagar, vai se sumindo Como as águas vão pro mar” É a riqueza do interior deste Brasilzão! É o valor da raça brasileira! É muito importante lembrar a mais famosa parceria da música raiz nacional: Raul Tôrres e João Pacífico. Raul Tôrres, botucatuense que trabalhou na então Estrada de Ferro Sorocabana, era um poeta nato e um músico de mão cheia: “Moda da Mula Preta”, “Cabocla Tereza”, “Pingo D’Água”, “Chico Mineiro” são algumas das suas músicas que alcançaram sucesso nacional, com destaque especial para “Saudades de Matão”, cuja letra é comprovadamente de Raul Tôrres e a melodia atribuída a Jorge Galati e Antenógenes Silva. E Antenor Serra (Serrinha), seu sobrinho que

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também trabalhou na Sorocabana e que fez dupla com Raul Torres e outros parceiros. Serrinha foi autor de cerca de 300 composições. As composições preferidas de Serrinha merecem destaque: “Chitãozinho e Chororó”, “Bom Jesus de Pirapora” e “O que tem a Rosa”. Pela voz de Serrinha a toada sertaneja nascida em Botucatu percorreu os mais distantes rincões. Nesse cenário é que a Prefeitura Municipal de Botucatu fará a construção do MEMORIAL DA MÚSICA CAIPIRA. Esse local será um grande atrativo turístico a consolidar a memória da nossa música raiz, fazendo com que as trajetórias de grandes compositores como Angelino de Oliveira, Raul Torres, Serrinha, Zé da Estrada e os irmãos Tonico & Tinoco (nascidos em Pratânia, portanto em Botucatu, eis que o então Distrito da Prata pertencia ao município de Botucatu). O MEMORIAL será localizado na Cohab 1 (Residencial Humberto Popolo), que terá como estrutura arquitetônica uma recepção com área para exposições itinerantes + 3 salas onde serão ministradas aulas e cursos de música e terá até um pequeno Coreto. Uma escultura de uma VIOLA com 5 metros de altura ficará, imponente, à frente do MEMORIAL. (AMD)

BIOGRAFIA / WIKIPÉDIA Angelino de Oliveira (Itaporanga, 21 de abril de 1888 - São Paulo, 24 de abril de de 1964) foi um compositor e instrumentista brasileiro. Compôs Tristeza do Jeca,[1] Moda de Botucatu e Incruziada, entre outras canções, regravadas extensamente por artistas da MPB e da música sertaneja.[2] Foi em Botucatu que Angelino desenvolveu a maior parte da sua atividade musical, sendo o músico local mais cultuado

da cidade, embora outros tenham alcançado maior fama como Raul Torres e Antenor Serra, o Serrinha.[3] Em sua obra destacam-se canções, tangos, valsas, sambas-canções, e até um fox trot. O que mais se aproxima da música sertaneja são suas toadas, como a famosa Tristeza do Jeca. Uma das edições desta música, da década de 1920, traz na capa a indicação de gênero: canção. O ritmo da melodia é dife-

rente do que hoje se canta, bem como o andamento sugerido na partitura: lento. Até uma parte da melodia está em altura diferente do que hoje se canta, modificação provavelmente introduzida pela gravação-versão de Tonico e Tinoco, fato já apontado por Paulo Freire em seu livro sobre o compositor). Além de Tristeza do Jeca, Caboclo Velho, Sabiá e Prece, são verdadeiros clássicos sertanejos.


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Diário da Cuesta

Um aristocrata da música popular

Aleixo Delmanto “- Sabiá que canta triste Lá na mata do sertão, Ele canta pra esquecer a mágoa do seu coração»

Cerrou-se o canto sertanejo do conhecido e “aristocrata” cantor da nossa gente e de nossa terra. Apresenta o Brasil dois típicos, genuínos e inigualáveis “músico-poetas” populares: Catulo, no Norte e Angelino, no Sul. O nosso, o sabemos, com rudimentares conhecimentos de técnica musical, autodidata, incapaz de compor sobre uma folha o que lhe ardia, gravado profundamente, no âmago do coração e da alma. Quantas composições de extraordinário valor artístico, de “cór e de cabeça”, depositadas no cofre aberto de uma memória incomum e, por isso, às dezenas, inéditas e desconhecidas pelo público em geral! Típicas, “só dele”, genuínas, próprias, originalíssimas. Como as de Chopim, no campo oposto, o clássico, jamais superadas ou imitadas. Comprova-se que, mesmo na música popular e folclórica, há diferença de estilo, de inspiração, de arte, de insuflação divina. Raríssimos, outrossim, são os que, como Angelino de Oliveira e Catulo da Paixão Cearense, nasceram com a bossa de poeta e de músico, ao mesmo tempo e graças a Deus... Música popular que poderemos dividir em duas categorias principais: a caipira e a sertaneja. A primeira, mais simples, modesta na melodia e no conteúdo poético; a segunda, mais nobre, elegante, enlevada, aristocrata.

O contraste é evidente e num exemplo elucidativo, embora indireto, tem-se a impressão, caipira, de um modesto cantor de microfone, interpretando uma trova comum, repleta de monótono estribilho. Na segunda, a sertaneja, de uma “Casa Pequenina” ou da “Tristeza do Jeca”, através das vozes melodiosas, de uma Bidu Sayão ou de uma Inezita Barroso. Poeta, pois, e músico popular e “aristocrata”, Angelino soube interpretar fielmente e com suma arte e inspiração musical, a vida do nosso humilde homem do campo, de suas dores, de suas queixas, amores, ciúmes e tristezas. Pintor eficaz e feliz do rancho de sapé ao pé da serra, dos luares sulinos e prateados, rebrilhando sobre a colina verdejante e o riacho tranquilo e cristalino. Cantor mavioso das encruzilhadas da mata, ponto de encontro furtivo dos pares amorosos. Daquela conhecida “Encruzilhada”, mergulhada no silêncio noturno da mata tropical e despertada, ao alvorecer, pelo canto ciumento do malvado bem-te-vi, pássaro cúmplice e maldoso: “-Hoje eu passo a encru[zilhada Me lembrando só de ti, E o malvado passarinho Ainda grita: - Bem-te-vi!” Boêmio incorrigível e impenitente, coerente, consigo próprio, continuava a declamar, idoso, com o mesmo entusiasmo juvenil, os versos de A Storni, a poetisa argentina:

Angelino de Oliveira

“...enche de vinho este cristal sonoro nós beberemos esse licor de ouro ao celebrar a noite e a sua doçura...”

E naqueles instantes, como por um milagre, o repentista exímio improvisava, em se transfigurando. As notas e melodias, como manancial inesgotável, se transformavam em música enlevada, em valsas primorosas de evocação chopiniana. Dedilhava, então, sobre as cordas amareladas do velho instrumento com atavio, elegância e a experiência de um artista do teclado, mormente quando acompanhado ao violão pelo já falecido e outro ilustre autodidata, o saudoso Zé Maria Peres, seu velho companheiro de mocidade e de arte. Que rendilhado sonoro! Que noitadas de inspiração artística! Quantas belas composições, olvidadas pelo próprio Autor, eram então relembradas pelo fiel Zé Maria, que as conhecia de cór, música e letra! Respirava-se novamente um fresco perfume de juventude cabocla, o fresco aroma do cravo rubro, enfeitando cabelos ou roupagens; a fragrância renovada do primeiro sol; o verde perfume do musgo dos troncos, da resina brilhante, das gotas de orvalho resplandecentes na alegria festiva da primeira manhã... E a fisionomia do Zé Maria a comover-se, a emocionar-se! E lágrimas furtivas, escorregadias, a se deslizarem brilhando através dos sulcos das rugas, aglomerando-se e tombando, enfim, sobre o violão ressequido... Como gotas de chuva, tamborilando sobre o teclado verde das folhas da bananeira silente... Alcançava-se o auge, o diapasão do astro poético, dos acordes musicais, quando o “duo”endiabrado” parecia querer cantar, em alemão, os versos de Mombert: “Hier ist die Gipfel, suche Keine andern...”. “Aqui está o cimo, não procure alhures...” Porque após da costumeira visita ao rancho do Jeca ao pé do monte, subindo pela encosta íngreme, já no cume da serra, descortinavam os cantores o panorama magnífico da Princesa da Serra, meta do trovador, com seu casario amplo e luminoso e suas torres, no triunfo das luzes rubras do ocaso. Era também o triunfo do aedo! Reminiscência da juventude nas notas musicais das peraltices

do garoto, do reencontro saudoso com os amigos do peito, na centenária cidade do poeta e velho amigo Trajano... Mudara-se Há tempos para São Paulo, o botucudo violonista, mas, amiúde, aqui aportava para abraçar os amigos, relembrar as velhas canções e tornar conhecida a sua última composição... Alquebrado, arquejando, retornou pela última vez. Foram os seus últimos dias! “Hoje eu choro a desventura Que o destino veio dá, Separando os coração Como as viola da canção E as estrelas do luá”.

Não abraçou, como de costume, o seu instrumento! Dedilhou, no ar livre, uma harpa invisível, ou o dedo em riste, como se empunhasse uma batuta de orquestra. Ou declamado, inaudível, uma frase do teuto Lutero:- “A música é o melhor refrigério de um desconsolado. Por sua causa o coração se acalma, se revigora, se renova”. Mas a música cessara e o coração, amargurado, não sobreviveu àquela que foi a fiel companheira espiritual de toda a sua vida. Não conseguiu, sequer, assobiar, entre os lábios trêmulos, a saudosa música de outrora: - “Lá na mata do sertão quando o sol vai descambá, a saudade vai chorando do peito do sabiá...” De nossos corações “sai chorando” também a tua imensa saudade, ó seresteiro poeta! ]E as vozes, botucatuenses e orfeônicas do nosso grande “Coral”, levarão sempre, por toda a parte, em suas triunfais peregrinações, o espírito de tua arte inconfundível. Para Vitor Hugo, sumo escritor e poeta, “...la musique est la vapeur de l´art. Elle est à la poésie ce que la rêverie est à la pensée, ce que le fluide est au liquide, ce que l´ocean desnuées est à l´ocean des ondes. Elle est l´indefini de cet infini”. Para Angelino de Oliveira, autodidata e boêmio, a música foi tudo. Três novos Reis Magos o previram em sonho. Nasceu ela, por insuflação divina, sem sêmem, no fundo do seu coração.


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