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Diário da Cuesta

ARTIGO

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VICENTE MOSCOGLIATO – MEU PAI Elda Moscogliato

Papai: Como Deus foi bom! Dotou-lhe o humano coração com os raios de Sua Munificência divina e expandiu em sua alma pura e reta os reflexos de Sua Infinita Perfeição. Como agradecer-Lhe, Papai? Ele não lhe permitiu as dores cruciantes de uma longa e cruel enfermidade; não lhe consentiu agonia, Papai! Após os albores da aurora, o senhor ainda leu o “Estadão”, comentou o editorial do dia. Ensaiou uma programação para as horas seguintes, tomou sua primeira refeição no leito e já se preparava para levantar-se. Tudo foi tão rápido, tão duro para nós, mas tão suave para o senhor! Não houve despedidas. Apenas o declinar da cabecinha branca nos braços do Antoninho, sob os olhares carinhosos de Mamãe! Deus abriu os braços a mais um Vicente de Paulo. E acolheu-o, carinhosamente, em Seu Seio. O senhor conservou na fisionomia risonha, a alegria profunda da última chamada telefônica dos netinhos. Lá de longe, a vozinha deles, cada um a sua vez : “ Vovô, quero ir aí” Como seu coração se encheu de emoção, Papai! Que incrível carisma o senhor possuía, Papai! Os médicos vieram ao senhor, não o senhor foi a eles! Como explicar os cuidados amoráveis do Dr. Antonio e do Dr. Aleixo, que viam no senhor, quem sabe, o próprio Pai? Que fez o senhor ao Dr. Chamma, ao Dr. Ubajara, ao Dr. Renê, que sacrificaram justos lazeres, para estudar-lhe a velhice em declínio? Como explicar o filial e dedicado desvelo do Dr. Samuel, a quem o senhor na flauta, pela última vez, num canto de cisne, trilou gorjeios e tercinas, sem cansar-se? Como explicar, Papai, que um menino, a quem um dia, o senhor ministrou os rudimentos da Música, voltasse agora, profissional respeitável, tendo a sedimentar-lhe a Ciência Médica, um quinhão profundo de despreendimento e nobreza que só o berço faculta? Como explicar, senão pelo seu carisma pessoal, Papai, que o Dr. Fernando se integrasse a nossa família, a ponto tal, de sacrificar o domingo do jovem, para levar a passeio, em seu carro, um ancião alquebrado? Como agradecer tudo isso, Papai? Que iremos dizer doravante, aos seus múltiplos alunos de flauta, violão, dos seis aos cinqüenta anos, que lhe vinham beber não só a Música, como a palavra ami-

ga? Como explicar ao Batistão, ao Prof. Aécio, ao Paulo Ciaccia, ao Dr. Marão, ao Ângelo Albertini, ao Sr. Lourenço, ao Dr. Tilio, que o senhor “foi ao Banco e já volta” quando na realidade, o senhor partiu e já não há retorno? E ao Dr. Dalton? Não haverá mais “gancho de poço”? A flauta emudeceu. O violoncelo cabisbaixo voltou à estante. Os selos recolheram-se aos álbuns, as peças de xadrez encerraram-se em definitivo no estojo. Não haverá mais música nas salinhas de aula. Nem o folhear paciente dos livros filatélicos. Não haverá o doce ócio no terraço entre os filhos, os familiares, os amigos e os alunos. Oh! Papai! Tão perto ainda e já tão longe vai o senhor, para Deus! Tão logo o senhor repousou, Dom Zioni e Monsenhor Violante vieram. Imediatamente autorizou Dom Zioni a Missa de corpo presente, concelebrada aqui em casa por Mons.Violante e o querido Pisani. Como foi linda, Papai! Uma revoada de hábitos brancos rodeou-lhe o esquife franciscano. O Santa Marcelina interrompeu o retiro espiritual e a Revda. Madre Superiora, tão amiga, com um coro de anjos puros, veio rezar a Meditação do Terço, cantando após : “ Nó céu, com minha Mãe estarei. . .” Quanta bondade, Papai! Como agradecer a esses amigos? Amigos? O senhor sentiu o terno calor intimo da última vigília, na madrugada lá fora frigida, acalentada aqui dentro pelo afeto incontável de seus amigos? Como agradecer a tudo isso? A Academia, a Sta. Casa, o La Salle, na pessoa do Dr. Marão, do cavalheiresco Pedro Losi, do Dr. Agnelo, de Irma Célia, Irmãos Laurentino e Hilário, tributaram-lhe sua homenagem. As Irmãs Servas do Senhor, meditaram conosco em suas orações. A rua Curuzu chorou, Papai, e seus antigos colegas barbeiros disseram adeus ao seu “decano”. O Presidente da Câmara Municipal esteve presente, Papai. De Santos, de Bauru, de Curitiba, de Lençóis Paulista, a DRT 7, o PF, o IAPAS, também local, tributaram-lhe homenagens. De Araçatuba, a Segurança Pública esteve presente. Os telefonemas estrugiram e de São Paulo e de todos os recantos do Estado, os sobrinhos acorreram chorosos, para receber a última benção do patriarca do imenso clã. Como o senhor os amou, Papai! Pela madrugada da última vigília, um jovem adentrou a casa e pediu-nos para colocar em suas mãos inertes, uma rosa. Entendemos, papai! Era a gratidão da legião imensa daqueles que se beneficiaram da anônima caridade que lhe enriqueceu, para Deus, os seus oitenta e nove anos vividos. Como o senhor foi bom, Papai!


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Meu Pai! Meu Amigo! Antônio Delmanto (1905/1994) Saudosismo? Sim. Mas leve, com lembranças boas e retempero para continuar a caminhada... Em 2005, no Centenário de seu nascimento, publiquei uma edição especial da revista PEABIRU dedicada a ele: “Médico Cidadão”. Na abertura da revista, eu escrevi nas “primeiras palavras”: “Esse o retrato que gostaria de apresentar a todos os botucatuenses: o retrato do Médico Cidadão. O retrato daquele que tinha a profissão, de fato, como um sacerdócio e o exercício da política, como uma tarefa, exatamente isso: uma tarefa a ser cumprida!” DOIS MOMENTOS: E, nas “palavras finais”, completando o trabalho sobre sua vida, eu escrevi: “No ano de 1976, eu lançava o meu primeiro livro sobre Botucatu. “Crônicas da Minha Cidade, e fazia a seguinte dedicatória: “Para Antônio Delmanto: meu pai, meu amigo, meu exemplo.” Hoje, é para ele e sobre ele todo o trabalho. Missão cumprida... Esse trabalho que dedico a meu pai é – com certeza! – o mais importante que escrevi em toda a minha vida e ao qual dediquei todo o meu entusiasmo de filho e cidadão. Saudades!” Ontem, passei um bom tempo percorrendo meus registros do passado: fui a Vitoriana onde ele tinha um sítio, onde íamos nos finais de semana; passei na Misericórdia onde ele clinicava e operava; passei no clube (AAB); passei pelo sobrado na Praça do Paratodos; passei pelo Albergue Noturno que ele construiu e doou ao Município... Saudosismo? Acredito que sim. Mas uma coisa leve, com lembranças boas e retempero para continuar a caminhada. Para encerrar, vou relatar as palavras registradas no meu livro, lançado em 2010: “ História da Vitória Política Paulista: 1934”: “Eu me lembro de um fato ocorrido em 1994, quando eu fui candidato a Deputado Federal pelo PDT de São Paulo, tendo conseguido a legenda graças à interferência do jornalista amigo, Roberto D’Avila, então Secretário do Meio Ambiente do Rio. No absurdo da estrutura política brasileira, os parti-

dos tinham e tem donos e, os não apadrinhados, só participam quando ocorre uma oportunidade dessas... Pois bem, fui até meu pai, político forjado no Partido Democrático, que se transformou depois no Partido Constitucionalista e acabou por formar a base da União Democrática Nacional, para pedir, como sempre, seus conselhos. Fui direto na minha dúvida: “Olha pai, eu fui convidado para sair candidato pelo PDT a deputado federal. Mas, está difícil. Eles (do PSDB) estão com a prefeitura municipal (Botucatu), deputado estadual, governador do estado e presidente da república... Está duro. Não sei se vale a pena...” Eu tinha, na época, os meus 47/48 anos. E levei um “pito”! Ele, com seus 89 anos: “Olha aqui, se eu tivesse 10 anos menos, eu sairia candidato. Você tem que levantar a bandeira, rapaz! Senão, como é que vai ter mudança?” Então, eu me senti deste tamanhinho... Sai candidato. Foi uma vitória inesperada: 12 mil votos, só em Botucatu! Fui eleito 3º suplente (há + de 20 anos!). Não gastei um tostão... Quer dizer, fui candidato numa época em que não acreditava e a eleição foi uma surpresa... Meu pai me deu aquela lição de cidadania, aquele inesquecível “pito” e...morreu... Morreu em agosto e não chegou a ver o resultado da eleição... Então, eu repito: É claro que vale a pena! Vale a pena lutar! Vale a pena viver! É isso que tenho procurado fazer durante toda a minha vida. Confesso que sem o desempenho contínuo que a cobrança paterna me teria feito... Mas tenho procurado fazêlo. Este livro faz parte desse esforço.” É isso. Saudades!


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Sertanistas Botucatuenses

ARTIGO Olavo Pinheiro Godoy Da Academia Botucatuense de Letras

Aproveitando o mês de abril, dedicado aos índios, um turista recostado em cômoda poltrona do Peabiru Hotel, cerra os olhos para uma sesta. Suavemente, deixa ele rolar a memória à procura de recordações que distendam e convidem ao sono. Mas a imaginação é quase sempre caprichosa. E todo capricho, por natureza, é teimoso. As imagens que se lhe apresentam - lá sabe o turista por que - talvez em razão da bela mata que se vê ao longe - são fotos, audiovisuais, filmes que viu, em diferentes ocasiões, sobre índios, seus costumes, suas moradias, seus ritos de festa, de luto e de guerra. ​O candidato à sesta consegue escapar, por fim, a perseguição indígena, pouco propícia à distensão, e de palpebras baixadas, na insistente procura do sono, vai fazendo emergir da memória, mansa e suavemente, a lembrança dos sertanistas Villas Boas que, dos bons ares da serra botucatuense, partiram para as matas no afã de civilizar os índios. Lembrou que aqui também ​ aportou para se dedicar ao seu primeiro emprêgo de médico, do Instituto Experimental Agrícola (Fazenda Lageado), o sanitarista e também sertanista Noel Nutels. Segundo depoimento do próprio Noel, que aqui conheceu os irmãos Orlando, Leonardo e Cláudio Villas Boas, foram eles marcantes em sua vida e vocação. ​Tempos depois, o Dr. Noel Nutels encontra-se com o Ministro João Alberto Lins de Barros que, depois de conseguir carta branca de Getúlio Vargas para criar a Fundação Brasil Central, espera poder desbravar e recuperar o sertão. ​O turista, repousando, dolentemente em sua poltrona, rememora que o sertão possui inimigos mortais dentre eles a malária que os espera nos charcos, pantanais eáguas paradas. Independente do homem que chega ou sai. É mal de tocaia. No sertão e no mundo todo. Não é como a tuberculose, mal adventício, pelo menos para o habitante legítimo da selva, seu dono de muitos séculos. Vem na companhia do desbravador. É companheira das injustiças e incompreensões dos que estão chegando. E, os irmãos Villas Boas sabiam disso

tudo. Enfrentaram e sofreram os ataques da malária na defesa de seu ideal maior. ​Nosso turista se distende. Sente que sono se vai acercando. Mas, por seus ouvidos adentro penetra os sons da mata numa lembrança distante. Corria o ano de 1949 e o Ministro João Alberto nomeia Noel Nutels médico da expedição RONCADOR-XINGU, então confiada aos irmãos Villas Boas. Os Villas Boas penetram no sertão de Mato Grosso ao norte do estado, numa zona de transição florística entre o Planalto Central e a Amazônia. A região toda ela plana, onde predominam as matas altas entremeadas de cerrados e campos, é cortada pelos formadores do Xingu e pelos seus primeiros afluentes da direita e da esquerda. Os cursos formadores são os rios Kuluene, Ronuro e Batoví. Os afluentes, os rios Suiá Missú, Maritsauá-Missú, Uaiá-Missú, Auaiá-Missú e Jarina. ​Segundo os irmãos Villas Boas, antes mesmo de ser criada a Expedição Roncador-Xingu, em 1949, já, em 1946, eles haviam chegado aos formadores do Xingu e, os seus povoadores indígenas eram, nas suas várias práticas e costumes, estritamente os mesmos encontrados pelo etnólogo alemão Karl von den Steinem, em 1877, em sua expedição etnográfica. Era idêntica a distribuição das aldeias na região, o mesmo intercâmbio e relações entre elas; a mesma índole pacífica, a mesma hospitalidade, curiosidade, traduzindo-se, ao contato com estranhos, nas atitudes ingênuas e amistosas que tanto impressionaram o explorador alemão, mercendo dele o mais minuciosos e expressivo registro. ​A presença dos irmãos Villas Boas seria uma continuação do serviço de proteção ao índio criado pelo governo em 1910. Um dos grandes idealizadores desse serviço foi, sem dúvida, o Marechal Rondon que sensibilizado com a situação telegráfica, sem empregar a força, conseguira contatos pacíficos com os índios dos territórios atravessados pela linha telegráfica. ​Orlando, Leonardo e Cláudio Villas Boas concretizaram o novo tipo de política indigenista: os índios passam a ter o direito de viver segundo suas tradições, sem ter que abandoná-las necessariamente; a proteção é dada aos índios em seu próprio território, pois já não se defende a idéia colonial de retirar os índios de suas aldeias para fazê-los viver em

Os irmãos Orlando, Cláudio e Álvaro Villas Boas. no destaque, Leonardo Villas Boas, o mais velho e que faleceu primeiro

aldeamentos construídos pelos civilizados; fica proibido o desmembramento da família indígena, mesmo sob o pretexto de educação e catequese dos filhos; garante-se a posse coletiva pelos indígenas das terras que ocupam e em caráter inalienável; garante-se a cada índio os direitos do cidadão comum, exigindo-se dele o cumprimento dos deveres segundo o estágio social em que encontra. ​Ao lado de Darcy Ribeiro, Heloisa Alberto Torres, José Maria da Gama Malcher e do General Rondon, os irmãos Villas Boas vão conversar com o Presidente Vargas para a criação do Parque Nacional do Xingu. Tudo inútil. O parque só seria criado mesmo no governo de Jânio Quadros, em 1961 e, aumentado em sua dimensão, em 1968. ​O turista volta a divagar: Na tribo dita selvagem, não há mandões, nem chefões. O cacique é tão só um líder-conselheiro. Tudo se resolve com o consenso de todos. É uma democracia plena. Não há entre os índios, fazendeiros nem colonos, patrões nem empregados, proprietários nem marginalizados, ricos nem pobres; não há leis, regulamentos, repartições, taxas, impostos, toda esta inferneira que você conhece. Em suma, nada há do que divide, hierarquiza e jugula. A espontânea nudez de ambos os sexos é completa, ou quase tanto. Todos andam inteiramente à vontade pela selva, procurando petiscos para comer: peixe, ave, besouro ou fruta. De volta, repartem com as famílias tudo que pegaram. Ninguém que ser mais do que ninguém, nem pensa muito no dia de amanhã. É, enfim, o paraíso na terra. ​Em entrevista à revista Visão (10/02/1975), Orlando Villas Boas disse: “Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia, ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre”.

Casal Agnelo e Arlinda Villas Boas e filhos: Nelson e Orlando (ao lado do pai), Arlinda Lourdes segurando Álvaro, Cláudio (sentado) e atrás Acrísio. Leonardo (na frente) e atrás, Erasmo.


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