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Diário da Cuesta

O JORNAL DE BOTUCATU

NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE E DA CIDADANIA

OS BELGAS

A África lutando por sua independência dos países europeus... Os colonos belgas tiveram que deixar o Congo Belga. Parte deles voltou para a Bélgica e uma parte menor queria apoio do Governo para ter as mesmas condições que tinham na África Destino: Brasil, Estado de São Paulo/ Botucatu/Fazenda Monte Alegre. Os belgas e suas famílias foram recebidos festivamente por autoridades e pela população de Botucatu.

Era a esperança de um novo mundo, uma nova Pátria. Os Colonos Belgas tiveram um efetivo entrosamento com a população de Botucatu. Os meninos belgas foram estudar na Colégio La Salle e as meninas no Colégio Santa Marcelina. E na Monte Alegre o Laticínio Belco foi o primeiro no Brasil a produzir leite embalado em saco plástico: o leite, o queijo e a manteiga da marca Belco alcançaram destaque. Posteriormente, no início dos anos 80, tivemos a Cervejaria Belco que produziu excelente cerveja. É Registro Histórico!

FAZENDA MONTE

VIDA EM TRÊS CONTINENTES a r t i g o

O ser humano é, de per si, migrante? Essa não é, evidentemente, uma pergunta a que me proponho responder. Entretanto, desde os longínquos tempos da civilização, o homem é tentado a migrar, a deixar seus familiares, sua terra natal, seus costumes, sua língua, em busca de outra vida que ele não sabe bem qual seja.

Abraão saiu de seu remanso, levando consigo a mulher, Sara, seus empregados, seus pertences, para atender a um pedido de Deus. Trocou tudo isso por uma desconhecida e distante terra prometida.Desde, então,os homens se permitem migrar e nós, brasileiros, somos frutos da imigração européia, sobretudo da portuguesa. Recentemente, chegou-me às mãos o livro “ Minha Passagem por Três Continentes”, da belga Paula Roes Henry. A autora, há muitos anos radicada em Botucatu, relata, com bastante propriedade, sua vida - e de seus familiares - pela Europa, pela África e pela América do Sul. Mais especialmente, pela Bélgica - seu país natal - , pelo Congo Belga e pelo Brasil.

A infância e a adolescência da autora guardam momentos de ternura e apreensão, pois viveu as agruras da 2a. Grande Guerra Mundial e viu seu país ser invadido pelas tropas alemãs.Foram anos de violência, insegurança, fome e desespero.Mas a crueldade do conflito também selou o destino de Paula, pois, em um jovem mensageiro de guerra, ela encontrou aquele que seria seu grande amor. “ Na mesma noite, encontrei o soldado belga: era Léon, o meu futuro marido.”

No Congo Belga, a autora narra as peri-

VOCÊ SABIA?

pécias - não seriam aventuras? - por que passou a família. O marido, engenheiro agrônomo, foi trabalhar para uma multinacional européia, sociedade algodoeira “Cotonco”, nos confins da África Central. Iniciaram nova vida repleta de esperança, com um casal de pequerruchos a tira colo.O terceiro filho completaria, logo depois, a prole, ainda em território africano. Com a revolução dos negros contra a colonização belga, o casal Henry, após dez anos, retira-se do Congo. A África ficava para trás com sabor de amarga desilusão. A ultima etapa da vida da autora se dá no Brasil, mais especificamente em Botucatu, quando as primeiras 50 famílias de belgas vêm para nosso município na fazenda Monte Alegre, em 1961.

O governo brasileiro, atendendo a um apelo da ONU, acolhe os colonos belgas, expulsos do Congo.Segundo a autora, o projeto inicial deveria ter sido em Paranapanema, na fazenda Holambra II, sob orientação dos holandeses da Holambra I, mas o negócio não vingou. Ainda conforme a autora, houve supervalorização

do preço da fazenda Monte Alegre, numa compra que envolveu o proprietário e os representantes do governo belga.A fazenda, na verdade, embora enorme - cerca de 4 mil alqueires -, tinha terra de péssima qualidade, ainda que com um cafezal verde e produtivo, numa mancha boa. Nascia então a Cooperativa Agro-Pecuária Belgo-Brasileira que, durante quase três décadas, contribui e muito para a economia de Botucatu e região.A fazenda foi dividida em glebas e distribuídas pelos colonos que construíram as casas em estilo europeu.

O laticínio da fazenda pasteurizava o excelente leite Belco que predominou no comércio da cidade.Além desse produto, os derivados do leite, eram muito bem aceitos. A autora narra as peripécias de sua família no início de Fazenda Monte Alegre, desde as dificuldades com a língua, com o acesso à escola para os filhos, com a parte financeira, com as precárias condições da zona rural até com o conturbado relacionamento com os próprios belgas. Paula, hoje, é uma respeitável senhora da sociedade botucatuense para a qual entrega toda sua bondade de coração no voluntariado - fato que sempre fez com os desfavorecidos da Monte Alegre - de atendimento às crianças aidéticas do hospital das clínicas da UNESP. Pena que os belgas se foram. A colônia feneceu. Mais uma desilusão para a família Henry.

Resta o consolo de ver os filhos casados com brasileiros e seu sonho de amor realizado.O livro tem boa progressividade narrativa e merece melhor divulgação. A linguagem apresenta alguns senões, que podem ser corrigidos em próxima reedição.

José Celso Soares Vieira - Professor, Membro e Presidente Emérito da Academia Botucatuense de Letras

Que teria sido brasileiro o famoso herói inglês que marcou presença na Primeira Grande Guerra Mundial?

Teria sido botucatuense esse herói? Teria nascido na Cuesta de Botucatu esse herói que encantou gerações com sua bravura e idealismo?

A Revista Peabiru apresentou minucioso estudo sobre a trajetória desse herói mundial. Na história ou na “lenda” de Lawrence da Arábia, temos como berço natal do herói a Cuesta de Botucatu, mais precisamente, a Fazenda do Conde de Serra Negra, localizada em Vitoriana. Verdade ou lenda ?!?

Segredo guardado ou sonho “botucudo” surgido antes da virada do século passado?!?

Mas fica – com certeza! – a imagem positiva e heroica de Lawrence da Arábia: um brasileiro nascido na CUESTA DE BOTUCATU.

1– Botucatu recebeu com festas a chegada dos colonos belgas e suas famílias. O local escolhido, a conhecida Fazenda Monte Alegre, de propriedade do fazendeiro José Augusto Rodrigues, tinha o potencial para abrigar a Cooperativa que tinha todo apoio da Governo Belga

LEITURA DINÂMICA

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– O mundo vivia as mudanças do final dos anos 50 e o início dos anos 60. Um filme havia feito muito sucesso: O Candelabro Italiano. Mexeu com a juventude com seu romantismo encantador. E Botucatu assimilou esse impacto: de propriedade da família Barbin, a cidade ganhou o “Candelabro Italiano”, na rua Amando. Os jovens fervilhavam naquele “point” especial... E a lembrança do entrosamento dos belgas com os botucatuenses era a presença sempre alegre de 2 irmãos: Claude e Cleyde Stieltjes. Tanto no Clube 24 de Maio como no “Candelabro Italiano”, eles mostravam o vigor e a alegria da juventude nas conversas com os amigos “botocudos” e com toda animação na pista de dança

– O dramaturgo e escritor botucatuense registrou em depoimento a importância dos belgas em Botucatu: “ De repente, surge uma colônia inteira de famílias belgas na cidade, e dentre eles, pintores, artistas, musicistas e eu começo a conviver com os belgas e dois irmãos, Claude e Cleyde Stieltjes, vão estudar comigo na segunda série ginasial. Eles não conheciam uma palavra sequer de português e eu, com meus rudimentos de fran-

cês, comecei a ensinar português aos belgas e eles passaram a aperfeiçoar meu francês. Como gostávamos muito de literatura, nossas aulas, conversas, encontros, se realizavam através desse universo. Comecei a mostrar aos meus novos amigos obras de Fernando Pessoa, Cesário Verde, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, autores que povoavam minha mente e logo o professor José João Cury surgiria na minha vida. Eles, por sua vez, começaram a me apresentar os poetas Stéphane Mallarmé, Guillaume Appollinaire, Paul Verlaine, Paul Verhaeren, até chegarem em Arthur Rimbaud. Começava a verdadeira revolução interna que permearia toda a minha obra. Unindo tudo isso à influência dos belgas, meu pai, um estupendo contador de causos, nos dizia: Todos vocês têm de aprender uma língua e tocar um instrumento...”

4– Conheci e convivi bem com o belga Claude Steltjes. Intelectual e idealista foi parceiro certo na importante luta pela redemocratização do Brasil de 1982 que teve, aqui no Estado de São Paulo, a campanha vitoriosa de Franco Montoro para o Governo do Estado. A nível municipal, a presença de Claude foi expressiva, juntamente com João Carlos Figueiroa, Roberto Sogayar e Luiz de Oliveira. Na foto, fazíamos uma visita a minha prima Isaurinha Milanesi que era prima da esposa do Claude, a Maria Helena Bacchi Steltjes, neta do pioneiro industrial italiano Petrarca Bacchi

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– E o histórico da vinda dos belgas para Botucatu ficou registrado no livro oficial dos belgas: ”Brasil e Bélgica – Cinco Séculos de Conexões e Interações” Para um relato fiel, os editores foram buscar no livro “Memórias de Botucatu”, de Armando Moraes Delmanto, de 1990 e na revista Peabiru, o histórico com as entrevistas e os relatos dos botucatuenses e da imprensa local.

Sobre a Vila de Nossa Senhora das Dores de Botucatu, 1873

*Gesiel Júnior

Provavelmente, os registros mais remotos de Botucatu podem ser lidos no “Almanak da Província de São Paulo para 1873”. Essa sesquicentenária publicação, organizada e publicada por Antonio José Baptista de Luné e Paulo Delfino da Fonseca, traz dados sociais, geográficos e econômicos da já importante cidade serrana.

A propósito, eis como localidade, tida como a matriarca do centro paulista, era então descrita: «A Vila de Nossa Senhora das Dores de Botucatu está situada a 45 léguas ou 250 quilômetros da Capital; a 10 léguas ou 55,5 quilômetros de Lençóis; a 30 léguas ou 166,5 quilômetros de Sorocaba; a 15 léguas ou 83,3 quilômetros da Constituição (hoje, Piracicaba); a 7 léguas ou 38,8 quilômetros de Nossa Senhora dos Remédios do Tietê (hoje, Anhembi) ».

Ereta paróquia em 1846, com a denominação de Freguesia do Distrito de Cima da Serra de Botucatu, a povoação foi elevada à categoria de vila em 1855. Contudo, estudos apontam que em 1766 uma capela dedicada a Nossa Senhora das Dores tenha sido aberta pelos católicos pioneiros na parte alta da cidade.

As terras férteis da nova comarca, instalada em 1866, fizeram com que muitos migrantes afluíssem para cá e nela fixassem residência. Na sua área central Botucatu desenvolveu-se com rapidez.

Os primeiros povoadores que descortinaram as matas, por via de regra, aventureiros, criminosos e desertores de qualquer obrigação, venderam as posses aos que vieram depois, menos comprometidos, e continuaram para nordeste na conquista de terras, expulsando e matando os indígenas encontrados.

A fama de fertilidade de Botucatu atraiu novos migrantes, principalmente da Província de Minas Gerais, os quais, achando ocupados os terrenos próximos à vila, caminharam para adiante, comprando as novas posses estabelecidas pelos aventureiros.

«Deste modo – descreve o “Almanak” – rapidamente povoou-se o país; achandose, porém, os seus habitantes extremamente disseminados, dominando a uns o infundado desejo de possuir grande extensão de terreno, e a outros o medo da justiça»

Economia primitiva – O mesmo anuário provincial prossegue fornecendo antigos dados econômicos: “Do Município de Botucatu exporta-se algodão, toucinho, queijos, gado vaccum e suíno, e em maior quantidade, o café, regulando a exportação destes produtos, termo-médio: café, 35.000 arrobas; algodão, 15.000 arrobas; gado vaccum, 2.000 cabeças; porcos, 20.000; queijos, 100.000. Calcula-se a plantação do café em cerca de 1.200.000 pés, sendo 800.000 pés já formados e produzindo. E a importação de fazendas para o município no ano de 1872 orçou em 200:000$000».

Paroquiava então o padre Francisco José de Miranda, que conduzia, segundo o mesmo anuário, apenas três igrejas: a matriz, sob a invocação de Sant’Ana, Nossa Senhora do Rosário (capela em construção) e Santa Cruz, capela erguida na atual Praça do Bosque.

A maior autoridade era o vereador João Baptista da Cunha Caldeira, que na época presidia a Câmara, integrada pelos capitães Antonio Joaquim de Andrade e João Vieira Paraíso, pelos alferes José Bernardo Pacheco e Manoel Carlos Arantes, e pelos fazendeiros Francisco Xavier de Almeida Pires e José Rodrigues César.

Em sete páginas, o “Almanak para 1873” traz também nomes dos que atuavam nos três distritos do Termo de Botucatu, formado pelas paróquias de Botucatu, Nossa Senhora dos Remédios e Rio Novo, além da Freguesia do Rio Bonito, a começar pelos oficiais do batalhão e do esquadrão da Guarda Nacional, então comandada pelo coronel Joaquim de Oliveira Lima. Na sequência, aparecem mencionados numa extensa relação os fazendeiros de café, os fazendeiros de criar, os cultivadores de algodão, as máquinas de serrar, as de beneficiar café, além de profissionais liberais e dos que atuavam no comércio, nas artes, indústrias e ofícios.

Historicamente, como se observa, a freguesia de Botucatu, então chamada de vila após sua elevação a município em 1855, começou bem antes dos trilhos de ferro, os quais, a seu tempo, demarcariam o surgimento da Vila dos Lavradores e a sua gradativa ocupação por colonos.

Preciosa raridade bibliográfica, os dados dessa importante publicação recriada pelo trabalho da Imprensa Oficial e do Arquivo do Estado, felizmente resguarda um dos momentos mais fascinantes do passado botucatuense.

*Cronista e pesquisador, membro da Academia Botucatuense de Letras, é autor de 64 livros sobre a história regional, dos quais 8 são e-books.

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