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Diário da Cuesta

BOTUCATU

OS ITALIANOS

O empreendedorismo pioneiro italiano na construção da cidadania em Botucatu

Diário da Cuesta

Praça Del Prete

Diário da Cuesta

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Diário da Cuesta 5

da Cuesta

Centro Brasil-Itália de Botucatu

"O Centro Brasil-Itália, de Botucatu, fundado em 1º de setembro de 1974, sucedeu a "Societá italiana di Beneficenza - Casa D´Itália", a qual sucedeu as sociedades "Croce Di Savoia" e "Pró-Pátria", as quais, por sua vez, sucederam a primitiva "Societá Croce Di Savoia", esta fundada no ano de 1866."

Com o destaque ao lado, procuramos mostrar a representatividade da Colônia Italiana para a cidade de Botucatu Leia Editorial à página2

Achegas para a História de Botucatu - Hernâni Donato

Com o destaque da capa, procuramos mostrar a importância e a representatividade da colônia italiana para a cidade de Botucatu. Essa abertura da capa traz um texto, parte integrante do livro “As Boiadas Passam... As Lembranças Ficam”, de Agostinho Minicucci, com ilustrações de Benedito Vinicio Aloise, mostra bem a união, a alegria e os sonhos daqueles que estavam literalmente construindo uma cidade, uma comunidade, uma nova Pátria.

A publicação da revista Peabiru referente a imigração dos italianos para Botucatu foi muito importante, eis que a Peabiru após ter promovido a divulgação de como fora a presença dos Americanos, dos Belgas e dos Japoneses em nossa cidade, não poderia deixar de abordar, com detalhes e crônicas resgatadas de nossa imprensa, sobre a extraordinária presença dos Italianos na construção de Botucatu.

Desde o nosso 1º Ciclo Industrial fruto dos pioneiros imigrantes, até as mais diversas for-

EXPEDIENTE

mas de expressão de nossa comunidade, quer nas artes, na imprensa, na saúde ou na área financeira.

Sem exagero, esperamos que a publicação da revista Peabiru nº 09 que estamos reproduzindo e destacando passe a integrar o rol das obras indispensáveis para a compreensão da história da cidade de Botucatu. Foi um trabalho de peso. Contamos com a colaboração de muitos. O precioso Acervo Histórico do Centro Cultural de Botucatu esteve à nossa disposição, além da colaboração de particulares que cederam fotos, dados e informações para que pudessemos reconstituir a saga dos pioneiros imigrantes em nosso município.

DIRETOR: Armando Moraes Delmanto

EDITORAÇÃO E DIAGRAMAÇÃO: Gráfica Diagrama/ Edil Gomes

Particularmente, os nossos agradecimentos ao então presidente do Centro Brasil-Itália e saudoso representante consular da Itália em Botucatu, Dr. Domingos Scarpelini, pela valiosa colaboração prestada a essa edição histórica da revista Peabiru em homenagem à Colônia Italiana de Botucatu.

A DIREÇÃO

O Diário da Cuesta não se responsabiliza por ideias e conceitos emitidos em artigos ou matérias assinadas, que expressem apenas o pensamento dos autores, não representando necessariamente a opinião da direção do jornal. A publicação se reserva o direito, por motivos de espaço e clareza, de resumir cartas, artigos e ensaios.

3º CICLO INDUSTRIAL

Os Pioneiros da Industrialização em Botucatu: Os Imigrantes Italianos

Para poder abranger todo o desenvolvimento industrial de Botucatu, além da pesquisa entre nossos historiadores (“Achegas para a História de Botucatu”, de Hernâni Donato e “No Velho Botucatu”, de Sebastião de Almeida Pinto), buscamos os depoimentos de botucatuenses que vivenciaram e até mesmo participaram do processo de industrialização da cidade e fizemos pormenorizada pesquisa nos jornais antigos (Folha de Botucatu e Correio de Botucatu) a que tivemos acesso e, especialmente, nos dois

Uma nova realidade sócio-econômica a nível nacional e uma outra cidade de Botucatu, progressista e universitária, representam o cenário do novo ciclo industrial que vivemos. Com início praticamente nos anos 70, somente agora podemos sentir, em toda a sua plenitude, a grandiosidade deste novo período industrial.

ALMANAQUES DE BOTUCATU: o primeiro, “Almanack de Botucatu”, de 1920 e, o outro, o “Almanaque Cultural de Botucatu”, de 2000, fontes de referência da história de Botucatu.

Na 2ª. edição do livro “Memórias de Botucatu I”, de 1995, no capítulo “Ciclos Industriais” e na revista Peabiru, nº 09, de maio/junho/1998, no artigo “Os Pioneiros da Industrialização em Botucatu: Os Imigrantes Italianos”, já preparávamos a estrutura desta matéria

Do trabalho publicado no livro “Memórias de Botucatu” sobre os CICLOS INDUSTRIAIS, fizemos a divisão do desenvolvimento industrial do município em três ciclos: o 1º Ciclo Industrial, indo de 1890 a 1930; o 2º Ciclo Industrial, após o período depressivo da economia com a crise de 1930 que arruinou muitas industrias locais e perdurou de meados dos anos 50 até quase o final dos anos 60; e o 3º Ciclo Industrial, que estamos vivendo em toda a sua intensidade, iniciou-se praticamente nos anos 70, sendo que começou a ter maior e melhor desempenho de meados dos anos 80 até os dias atuais

1º CICLO INDUSTRIAL

Os pioneiros da industrialização em Botucatu foram os imigrantes. O nosso 1º Ciclo Industrial começou com o início das atividades dos valorosos imigrantes no último decênio do século passado (1890) e veio até a crise econômica de 1929 (arrastando-se até meados dos anos 30) que sacudiu o Brasil e arruinou muitas industrias e estagnou muitas cidades. O escritor botucatuense Hernâni Donato, em seu livro “ACHEGAS”, registra pormenorizadamente a atuação dos imigrantes no início da industrialização e, ao depois, na consolidação e ampliação de nosso parque industrial No “Achegas”, os nomes dos pioneiros imigrantes que se encarregaram de abrir com ousadia o caminho: Petrarca Bacchi, Virgínio Lunardi, Aleixo Varoli, Atílio Losi, Pedro Delmanto, Pedro Stefanini, Antônio Michelucci, Adeodato Faconti, João Pescatori, Felipe di Sanctis, Serafim Blasi, Eugênio Monteferrante, Ângelo Milanesi, João Spencieri e Palleóge Guimarães.

A importância do 1º Ciclo Industrial de Botucatu é medido pela grandiosidade do Grupo Industrial de Petrarcha Bacchi e pela diversificada Industrias Lunardi. Em outra realidade sócio-econômica a nível nacional e de uma Botucatu ainda provinciana, as Indústrias Bacchi abrangiam: cerveja, fábrica de gelo, sabão, serraria, máquina de beneficiar café e cereais, massas alimentícias, fiação e fábrica de chapéus Para completar a visão do quadro de então e da «visão» daquele dinâmico e ousado imigrante, basta dizer que construiu uma Usina Hidrelétrica para «tocar» as suas industrias, chegando a fornecer energia elétrica à cidade de Botucatu em bem sucedida concorrência à Companhia Paulista de Força e Luz. Se isso não bastasse, abriu Escolas e contratou Professores para alfabetizar seus funcionários e educar os filhos dos trabalhadores de todas as suas indústrias PETRARCA BACCHI traduz bem o espírito dos pioneiros da industrialização em Botucatu

E para ilustrar a grandiosidade desse período industrial é importante mostrar a efetiva liderança política de Botucatu em toda a região. No ano de 1926, a cidade de Botucatu possuía 33.393 habitantes, sendo que a cidade de Bauru possuía 24.369 habitantes! (recenseamento geral de 1920). Hoje, é claro, a realidade é outra: Botucatu possui, em 2010, cerca de 140 mil habitantes, enquanto Bauru já possui mais de 350 mil habitantes

2º CICLO INDUSTRIAL

De meados dos anos 50 até os últimos anos da década de 60 tivemos o nosso 2º Ciclo Industrial. Na verdade, em que pese ter sido um período de expressão modesta em termos econômicos, deixou plantadas algumas sementes que vieram a crescer neste nosso atual 3º Ciclo Industrial: a nossa indústria aeronáutica, a de auto-peças e a de roupas.

No setor alimentício, tivemos já no final dos anos 60, a inauguração festiva da CATU - Produtos Alimentícios, do Grupo Martin. Esse grande empreendimento foi uma iniciativa arrojada de Ângelo Martin e seus irmãos que construíram a fábrica ao lado da Rod. Marechal Rondon, local escolhido para a implantação, anos depois, da CAIO, montadora de ônibus urbanos.

Com a OMAREAL tivemos plantada a semente de nossa Indústria Aeronáutica: o Engº Antônio Azevedo instalou, em hangar adaptado, oficina de manutenção de aviões, chegando a projetar e a construir um protótipo que obteve sucesso No entanto, a OMAREAL não vingou

Coube a José Carlos Neiva, fabricante de planadores no Rio de Janeiro, atraído à cidade por Azevedo, a incumbência de instalar uma fábrica de aviões: a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva Ltda., posteriormente Neiva-Embraer. Em 1956, a Neiva passou a fabricar o PAULISTINHA P-56.

(“Memórias de Botucatu”, 1995)

Alicerçado na presença de grandes complexos industriais, a cidade de Botucatu vive período de grande progresso. As grandes indústrias, de porte internacional, asseguram a estabilidade de nosso 3º Ciclo Industrial. A CAIO - Companhia Americana Industrial de Ônibus é uma das maiores empresas fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo, perdendo somente para uma fábrica estatal da Hungria. Dedicada aos mercados interno e externo, a CAIO exporta 15% de sua produção (produção média de 16 ônibus diários) A fábrica da DURATEX, pertence ao poderoso conglomerado do Banco Itaú, praticamente é voltada para a exportação, tendo conquistado e dominado o mercado europeu pela alta qualidade de seus produtos (hoje, a EUCATEX assumiu o setor industrial da Duratex). A STAROUP, fábrica de jeans, após conquistar o mercado interno, chegou a ganhar o mercado externo, partindo para produção nos EUA, Portugal e URSS. A HIDROPLÁS E BRAS-HIDRO, atuando no ramo de fibra de vidro, gozaram de grande prestígio a nível nacional e internacional. A NEIVA-EMBRAER dispensa comentários, sendo certo que a qualidade de suas aeronaves engrandecem o Brasil. E a MOLD-MIX garante segura posição no mercado, com a alta tecnologia de seus produtos

Na verdade, as grandes industrias garantem às pequenas e médias indústrias a necessária estabilidade para o desenvolvimento de suas potencialidades, através de uma entidade representativa forte e prestigiada a nível estadual e nacional.

Cidade universitária, com boa estrutura de serviços, abrigou muitas indústrias, todas de especial importância para o município e região, mas com destaque para as grandes industrias, com ramificações e mercados a nível nacional e internacional.

Daí o destaque dado à CAIO, IRZAR, DURATEX, EUCATEX, NEIVA-EMBRAER, STAROUP, HlDROPLÁS, BRAS-HIDRO e MOLD-MIX.

Mais de 10 mil trabalhadores na indústria botucatuense Déficit habitacional Um desafio

Um desafio que encontra perspectivas no futuro.

Um desafio que encontra uma classe patronal consciente, dinâmica e moderna.

O CONJUNTO EDUCACIONAL, ASSISTENCIAL E ESPORTIVO DO SESI e a sede regional da Delegacia do CIESP são prova disso

A nova classe dirigente patronal de Botucatu está credenciada a enfrentar e vencer esses desafios.

No entanto, como bem mostrou matéria publicada na revista Peabiru, nº 26, de setembro/ outubro/2008, é preciso ousadia e a participação positiva do Poder Público para que possamos vencer o alto déficit habitacional:

“...Com a construção da COHAB 1- Conjunto Habitacional “Humberto Popolo”, o Prefeito Lico Silveira conseguia o grande feito de trazer para Botucatu um conjunto residencial popular MAIOR que muitos municípios vizinhos ( Bofete, Conchas, Itatinga, Pardinho). É de justiça destacar a colaboração efetiva da Câmara Municipal para o sucesso desse empreendimento. Na atualidade, o Poder Público em parceria com a iniciativa privada tem dotado Botucatu de conjuntos habitacionais que estão reduzindo o déficit habitacional do município.

“A Industrialização em Botucatu” objetiva a que a nossa cidade encontre o seu lugar de destaque no mais desenvolvido Estado brasileiro e que os jovens empresários que comandam o seu presente possam lhe trazer o progresso, a justiça social e o prestígio que no passado, em seu 1º Ciclo Industrial, lhes foram assegurados pelos imigrantes pioneiros (AMD).

Obs.: Como todo este trabalho está baseado em matérias publicadas em 1995, destacamos que, atualmente, mais duas grandes industrias estão instaladas no município: a EUCATEX e a IRIZAR.

Destaque: Para o Século XXI , a Industrialização de Botucatu assume perspectiva histórica com o projeto grandioso da DEXCO para Botucatu: a maior fábrica de revestimentos cerâmicos do Brasil, num investimento de 600 milhões!

A DEXCO é a nova denominação da Duratex. E a DEXCO é composta pelas empresas: DECA, PORTINARI, HYDRA, DURATEX, CEUSA E DURAFLOOR

VOCAÇÃO E DESTINO DE BOTUCATU

Agostinho Minicucci

“As últimas notícias dão conta de que a orientação dos industriais paulistanos é de transferir as fábricas para o interior, valendo-se dos incentivos fiscais, facilidade de condução, ambiente de trabalho, mão de obra mais fácil, etc.

Primeiro, através da SUDENE, a seguir Manaus, e agora o interior de São Paulo, tem sido a meta de transferência industrial.

É comum ver-se na Capital, a placa de aluga-se ou vende-se à porta de grandes prédios ou barracões

Isso nos leva a pensar em Botucatu. A infância de nossa cidade foi marcada por um surto industrial, em primeiro lugar pelo pioneirismo da colônia italiana, ávida de grandes realizações e da conquista da nova pátria Os oriundi, como os Bacchi, os Blasis, os Lunardis, os Milanesis e tantos outros, verdadeiros capitães de indústrias, trouxeram o know how da Itália e deixaram marcas em prédios que ainda hoje são símbolos de uma época áurea na efervescência da convivência de imigrantes e brasileiros Petrarca Bacchi marcou um ciclo na indústria botucatuense levando-a a competir com a poderosa Companhia Paulista de Força e Luz - CPFL e a instalar uma usina hidroelétrica e outra termoelétrica, chegando à ousadia de fornecer energia à cidade. Produziu cerveja apreciada em todo o país. Introduziu o primeiro elevador em indústria, em São Paulo distribuía de brinde um sifão fabricado na Alemanha.

O berço da Votorantim foi Botucatu e tivemos o início de um ciclo de calçados, com o dinâmico Delmanto. E nisso precedemos a cidade de Franca e a lembrança são os nossos curtumes

A Antártica andou por Botucatu, criando uma vila com seu nome e chegou a comprar uma fazenda para cultivar cevada Outras tentativas houve Por pouco a Industria Vidigal não adquire o espólio Bacchi para transferir o seu complexo industrial para Botucatu

Em segundo lugar, a nossa privilegiada posição geográfica tornou-nos um entreposto ímpar no Estado, o que nos deu repartições centralizadas importantes

Então...”

(“A Gazeta de Botucatu”, de 27/09/1985)

Aspectos da vida dos Imigrantes Italianos em Botucatu

REGISTRO HISTÓRICO 1

A revista Peabiru realizou pesquisa na famosa obra “Achegas para a História a História de Botucatu”, de Hernâni Donato, págs.161, 221, 255, 257 e 261, para que pudesse complementar a matéria de abertura, com dados e lembranças da presença dos pioneiros italianos em nossa cidade:

“Escola Italiana “Dante Alighieri”. Um dos itens estatutários da Societá Italiana de Beneficenza previa trabalhos e cursos visando à difusão da língua e da cultura italianas. Para cumprir o dispositivo, foi criada, em 1907, a escola que levou o nome do florentino. Ganhou edifício especial à Rua General Teles (demolido nos anos 70, depois de servir de sede ao Tiro de Guerra). Diretor, o agente consular Olivo Andolfato até setembro de 1917, quando a escola contava com 78 alunos. Disposição do governo brasileiro trancou escolas em língua estrangeira, passando esta a funcionar com aulas apenas em português, ministradas por Celestino Fazzio. Em 1935 estava já reaberta para cursos também em italiano, sendo professores Agostinho Revedello e Maria Violetta Terrugi. Encerrou atividades com a dissolução da Societá nos anos 40 Sebastião A Pinto,( “Folha de Botucatu”, “XX de Setembro, 6.10.1968) registra, ainda, sobre escolas italianas: “Ao lado do consulado funcionava a Escola Italiana, que era dirigida pelo professor Golfiero. Esta escola foi extinta com a nacionalização intensiva que se processou no Brasil depois da guerra”.

dos na harmonia germânica. Eles, porém, nunca organizaram propriamente uma banda.

Os italianos, sim. Antes mesmo de 1900 . À falta de um nome definitivo, foi chamada “banda Italiana” , nome que pegou. O animador e recrutador de talentos Alfredo Nardini , incentivou, em esforço quase isolado e desesperado, o teatro, a pintura, a música mas, sobretudo, a convivência.

Diretor musical da banda , por muito tempo, foi o maestro Andréa Frezza , que em sua Milão natal adquirira conhecimentos a nível de conservatório. Foi substituído por Francesco Galletti , o qual cedeu a batuta a Edmundo Caciacarro. Em dado momento a entidade necessitou de reestruturação geral passando a ser dirigida por Pietro Giusti e resultou batizada oficialmente: “ Banda Pietro Mascagni”.

Neste período houve encontros, em Botucatu ou em Avaré , das “bandas italianas”. Resultaram memoráveis, na crônica musical de ambas as cidades, as retretas, desfiles e concertos dessas corporações que ou tocavam vez a vez ou fundindo seus quadros. Quando a de Avaré demonstrou sinais de exaustão, seu maestro Primo Carnitti transferiu-se para Botucatu , instalou-se em casa entre as Praças Isabel de Arruda e Dom Luís , abriu as salas para aulas e ensaios. Conta-se que para ouvir melhor esses ensaios, tão maravilhosos resultavam, os enfermos da Santa Casa paravam de gemer, os presos da fronteira cadeia conformavam-se com suas penas pelo privilégio da vizinhança...

“ Teatro Santa Cruz-Espéria O Teatro Santa Cruz centralizava a vida artística local, no seu aspecto público. “Era um prédio feio, um casarão adaptado...” registra Sebastião A Pinto. Ao redor de 1904 foi reformado. “Ou melhor, foi reconstruído”corrige o cronista citado.

“Levantaram a parte da frente, bonita, com linhas arquitetônicas aprimoradas, como até há pouco podíamos ver na arruinada fachada do velho Espéria. Palco, platéia, frisas, camarotes, torrinhas (naquele tempo se chamava galinheiro), sala de espera constituíam uma confortável casa de espetáculos, de propriedade da Misericórdia Botucatuense. A reforma do Teatro foi projetada e executada por um arquiteto português, o mesmo que projetou o prédio da Caridade Portuguesa Maria Pia. A pintura do Teatro era discreta e bonita. O forro decorado pelo artista Crozza , um pintor italiano que por aqui andava, era notável. A iluminação, a gaz acetileno, era “à giorno”. De 1907 em diante, as gambiaras eram elétricas, porque já havia eletricidade na terra. “Mais tarde, a Misericórdia , em aperturas financeiras, vendeu o Teatro à Societá Italiana di Beneficenza por sessenta e cinco mil réis, para que ele continuasse a funcionar. Continuou. Deixou de ser Santa Cruz , tornou-se Espéria e um pouco mais tarde, além de Teatro , foi cinema - Cine Teatro Espéria . Conheceu dias gloriosos e noitadas dignas do esquecimento.

O Cine Teatro Espéria , sucessor do Santa Cruz , abdicou de ser teatro, tornou-se salão de danças, clube recreativo, sede de Partido Político (Partido Social Democrático) , do Aero Clube, do Centro Cultural , acomodou lojinha de material elétrico até setembro de 1951 , madrugada, quando foi praticamente consumido pelo fogo. Hoje, em seu lugar, a esplanada que compõe o conjunto da fonte luminosa...

Foi no velho Santa Cruz-Espéria que, nos últimos cinco anos do século dezenove, apresentaram-se companhias dramáticas, operísticas cantando em francês, italiano, alemão; companhias espanholas de zarzuelas, conferencistas de renome internacional ao tempo ( Belém Sarraga, Guilhermo Ferrero, Ernesto de Oliveira ), dramas e comédias pelos elencos renomadíssimos de Francisco Santos, Couto Rocha e a mais famosa - a Carrara . Os programas anunciavam as peças de maior apreço: “A morte civil”, “Amor de Perdição “, “Os Miseráveis”, “Os dois sargentos”, “A dama das camélias”, “o conde de Monte Cristo”, “Deus e a natureza”.

Durante anos a cidade falou, com a respiração suspensa, de uma companhia de anões, cantores da época. O soprano não teria mais do que oitenta centímeros de altura...”

Bandas Coloniais - As colônias italiana e alemã eram fundamentalmente musicais. Na cervejaria de Madame Gusler (Gieseller) , aos sábados e domingos ouviam-se conjuntos organizados por alemães e brasileiros depressa introduzi -

“Fanfarras. A primeira foi de italianos e queria ser garibaldina ou “carabineira”. Na festa de setembro, comemorativa da unificação da península , desfilava, a passo de carga, dos começos da Rua Amando até a Praça Coronel Moura onde a colônia encenava, com “muralha” de papelão a “brecha da Porta-Pia” , tomada a incorporação de Roma ao reino.

Luiz Baptistão dá notícia da existência de uma “Fanfarra Escolar Italiana” que teria atuado, inclusive, na inauguração do obelisco dedicado a Anita e José Garibaldi na Praça que leva (ou levava) seus nomes...

“Clubes Coloniais

Os peninsulares mantiveram também sociedades fechadas, respeitando as origens regionais ou provinciais, dialetais mesmo e inclinações artísticas. Além de loja maçônica “Silvanno Lemmi”, movimentaram por exemplo o I Trenta Tre Contenti, limitado a 33 membros. Reuniões quinzenais, no porão-cantina do prédio à esquina, ângulo superior direito de quem desce pela rua Cel. Fonseca para a praça Cel. Moura. Regabofes de varar noites, com vinho importado, música e declamações além de entreveros retóricos sobre os mais variados assuntos...

REGISTRO HISTÓRICO 2

Concluindo o trabalho de pesquisa, a revista Peabiru, foi buscar no livro “No Velho Botucatu”, de Sebastião de Almeida Pinto, 2ª edição de 1994, à pág. 139, o relato dos jogos da colônia italiana:

“Uma referência aqui deve ser feita ao jogo do queijo, praticado por elementos da colônia italiana. Arranjavam um queijo bem curado, desses de tipo comum. Enrolavam a sua volta uma cinta de correia.

E lançavam-no pela rua, para ver quem o atirava mais longe. Os praticantes dessa modalidade, usavam a avenida do Campo Santo, hoje

D. Lucio, para teatro de suas façanhas, que terminavam sempre em comedorias e bródios, no José Bolognini, o popular Geppo. Entre os jogadores de queijo, figuravam o banqueiro Francisco Botti, Julio, Rafanelli, Tognozzi, José Bolognini, Adolfo Dinucci e Adolfo Pardini, Nardini, Lovato, e outros bons italianos do passado. O desembargador

Alcides de Almeida Ferrari, naquele tempo jovem advogado, era um dos competidores desse esporte, cujas partidas terminavam em suculentas macarronadas, cujo fromaggio era o que tinha estado em jogo.

Na casa de José Bolognini, onde se jogava tresetti e se bebia bom chianti, funcionava o Fanfulla Clube. Curiosa sociedade de gastronomos e amigos do vinho. Após as patuscadas, os comensáveis faziam uma coleta, para adquirir caixões de defuntos. Para enterrar indigentes, é bom esclarecer, e que nunca faltavam. José Bolognini, contou-me o Prof. Raymindo Cintra, para os amigos, era o Major. E fazia aniversários natalícios, quatro vezes ao ano...a pedido dos amigos, que não dispensavam os cabritos magistralmente preparados pela senhora Bolognini…” (AMD) (revista Peabiru, maio/junho/1998 – nº 09)

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