Diário da Cuesta ANO IV
Nº 1596
SEXTA-FEIRA, 19 DE DEZEMBRO DE 2025
NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE E DA CIDADANIA EM BOTUCATU Acompanhe as edições anteriores em: www.diariodacuesta.com.br
Área histórica da Fazenda Lageado e Museu do Café serão revitalizadas
Projeto executivo de restauro foi contratado e deve ser concluído em até seis meses, segundo a direção da FCA/Unesp. Página 2
Pinacoteca de Botucatu recebe a exposição “Vermelho, Branco e Azul” Inspirada nas cores da bandeira do Estado do Alagoas, a mostra propõe um percurso sensível e reflexivo a partir de memórias pessoais e coletivas, articuladas por meio da relação entre imagem e palavra. Página 3
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Museu do Café está fechado desde o início de 2020 (Arquivo Acontece Botucatu)
FCA/Unesp avança na revitalização da área histórica da Fazenda Lageado e Museu do Café Projeto executivo de restauro foi contratado e deve ser concluído em até seis meses, segundo a direção da FCA/Unesp
A revitalização da área histórica da Fazenda Lageado e do Museu do Café, em Botucatu, deu um passo importante em 2025. A atual direção da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA/Unesp) contratou o projeto executivo de restauro, etapa fundamental para viabilizar a captação de recursos e o início das obras no patrimônio tombado. As informações foram detalhadas pelos diretores da FCA/Unesp, durante entrevista concedida na manhã desta quarta-feira (17) ao Primeiro Jornal da Prever FM (100.9). Segundo o diretor Caio Antônio Carbonari, o processo é complexo e exige cuidados especiais por se tratar de um bem histórico. “Não é uma obra de engenharia pura e simplesmente. É uma obra artística, de restauro, um patrimônio tombado, que precisa passar por todas as aprovações dos órgãos competentes, principalmente do Condephat”, explicou. A area histórica da fazenda teve a visitação interrompida após os danos provocados pelas fortes chuvas de 2020, que geraram preocupação com a segurança da estrutura, principalmente no prédio que abriga o Museu do Café. O período de pandemia distanciou ainda mais a população da área tombada. Retomada Ao longo deste ano, a universidade montou um grupo de trabalho envolvendo diferentes setores da instituição e promoveu a visita de empresas especializadas em grandes projetos de restauro. A partir dessas análises, foi definida a melhor proposta técnica e financeira. “Avançamos bastante este ano e, na semana passada, conseguimos contratar o projeto executivo”, afirmou o diretor. O projeto será desenvolvido pelo Estúdio Sarasá, empresa com atuação nacional em grandes obras de restauro, incluindo a Estação Ferroviária de Botucatu. O valor do contrato é de R$ 768 mil, exclusivamente para a elaboração do projeto. “Não é obra ainda, é uma etapa essencial para termos um diagnóstico detalhado das necessidades estruturais e artísticas e, a partir disso, planejar as fases do restauro”, destacou Caio Carbonari. De acordo com a direção da FCA, a previsão é que o projeto executivo seja concluído em até seis meses. A partir disso, a Unesp deverá avançar para a captação de recursos e o início das obras, que poderão ocorrer de forma faseada. Visitas guiadas Apesar de o Museu do Café seguir fechado para visitação, a área histórica da Fazenda Lageado já vem recebendo visitas guiadas e
controladas, como uma forma de retomada gradual do acesso ao patrimônio. Segundo a professora Renata Fonseca, vice-diretora da FCA/Unesp, ao menos uma retomada de visitações já ocorreu, com grupos organizados e em número reduzido. “Já houve retomada de visitações naquele espaço, com grupos organizados, menores e previamente agendados. Não exatamente dentro do museu, mas explorando a área histórica do patrimônio”, explicou. De acordo com a professora, as visitas são resultado de um trabalho conjunto com as secretarias municipais, especialmente com o Turismo e a Cultura, e seguem roteiros cuidadosamente planejados para garantir segurança. “Antes de iniciar essas atividades, fizemos todo um mapeamento técnico com engenheiros do campus para identificar áreas seguras. A partir disso, estruturamos, junto com a Secretaria de Turismo, um roteiro para que essas visitas pudessem acontecer”, afirmou. Ela ressaltou que a iniciativa considera a complexidade do projeto de restauro do museu e a necessidade de cautela. “É um processo naturalmente demorado, pela responsabilidade que temos com um patrimônio histórico. Mas também sabemos da importância de garantir acesso a essa história”, pontuou. Além das visitas organizadas pelo poder público, grupos independentes também têm participado das atividades, sempre com acompanhamento institucional. “Grupos organizados entram em contato com a vice-diretoria, e nós fazemos a organização dessas visitas”, completou. (Acontece Botucatu)
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Pinacoteca de Botucatu recebe a exposição “Vermelho, Branco e Azul” do artista plástico Jefferson Rodrigo Inspirada nas cores da bandeira do Estado do Alagoas, a mostra propõe um percurso sensível e reflexivo a partir de memórias pessoais e coletivas, articuladas por meio da relação entre imagem e palavra. A Pinacoteca Fórum das Artes recebeu no último domingo (14) a exposição “Vermelho, Branco e Azul”, primeira mostra individual do artista alagoano Jefferson Rodrigo. A exposição propõe um percurso sensível e reflexivo a partir de memórias pessoais e coletivas, articuladas por meio da relação entre imagem e palavra. Nascido no bairro Jacintinho, em Maceió (AL), e com raízes no Quilombo dos Palmares, Jefferson Rodrigo desenvolve uma pesquisa artística marcada por vivências, ancestralidade e processos de resistência. Inspirada nas cores da bandeira do estado de Alagoas, a exposição está organizada em três eixos conceituais: biografia, humanidade e masculinidade, o que estrutura o percurso expositivo e convida o público ao diálogo e à reflexão sobre tempo, espaço e existência. A exposição permanece em cartaz até dia 3 de fevereiro de 2026 e a entrada é gratuita. O elemento central da mostra é a serpente, que aparece como símbolo e fio condutor da narrativa visual. Associada à ideia de transformação, funciona como metáfora de trajetória, atravessando emoções,
experiências e processos de mudança que permeiam as obras apresentadas. Mais informações Pinacoteca Fórum das Artes Endereço: Rua General Telles, 1040 – Centro Classificação livre (Tribuna de Botucatu)
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“Dia de faxina” MARIA DE LOURDES CAMILO SOUZA
6 e 30 da manhã, toca o interfone. A patroa abre o portão com cara de quem acabou de acordar, e Etelvina entra animada. O birote bem centrado no topo da cabeça, numa das mãos a bolsa enorme que ganhou de uma das patroas, na outra uma sacola com a bota branca de plástico. As roupas muito usadas, mas nos pés pequeninos traz umas havayanas roxas novinhas. -”Bom dia. Patroa! Tudo bem?” A patroa responde resmungando um macarronico “ bom dia” e volta para a cama. Etelvina guarda sua bolsa e se prepara para começar a faxina na casa toda bagunçada. Vai até a cozinha e prepara a mesa, põe água para passar um café. Depois de se servir de uma xícara de café fumegante e comer um pedaço de pão com manteiga, abre as portas da área de serviço e começa a lavar o chão. Coloca o celular na prateleira e abre o aplicativo da Igreja para ouvir o sermão do pastor que começa a falar muito alto, depois do canto pelo coral de um hino evangélico que Etelvina acompanhou cantando alto, sem se importar com o sono da patroa e a vizinhança adormecida. A patroa a esta altura, resolve levantar-se ao ouvir a cantoria estridente da faxineira. Vai tropega até o banheiro escovar os dentes e lavar o rosto. Quando chega na sala de jantar para tomar o café vê a cara da Etelvina que a cumprimenta com sua voz alta e grave:” Bom dia, patroa. Tudo bem?” Ela quer que a patroa repare na sua cara. Mas foi em vão, pois ela está se servindo do café, e prepara uma torrada com creemcheese, que morde delicadamente após um gole demorado do café cheiroso. Etelvina fica contando que vai viajar com o marido e o neto no final de semana para a praia, para comemorar os 25 anos de casamento. A patroa a esta altura já mais animada, pergunta para que praia vão. -”São Vicente! Vou conhecer o mar”. Responde sorridente a Etelvina, botando o carão pelo vão da porta. A patroa percebe que ela está diferente. Fez as sobrancelhas e colocou cílios postiços enormes, assemelhando-se com uma boneca de porcelana. A patroa fica admirada. Etelvina conta que já comprou um maiô e uma toalha de praia e que a Ilda, sua filha lhe emprestou uma canga. Ela fala alto e rápido animadamente sobre sua viagem. Mostra a sandália havayanas roxa novinha nos pés todo
rachado de pé de atleta e unhas enormes cobertas de fungo, dizendo orgulhosa : “ganhei da outra patroa”. E continua contando das últimas peripécias da família cheia de problemas. Etelvina tem um irmão com síndrome de Down que sendo adulto, surta semana sim, semana não, e Etelvina é quem sempre o leva para atendimento na ala psiquiátrica do hospital. A patroa já se prepara para sair para o trabalho. Deixa o dinheiro da faxina no balcão perto da porta, recomendando que Etelvina não se esqueça de ao sair quando terminar a faxina coloque as chaves da casa na caixa de correspondência e se despede agradecendo e desejando um bom dia. Liga o carro depois de se acomodar ao volante, bate a porta respirando fundo colocando o cinto de segurança. Aciona o controle que abre o portão basculante, sai com o carro devagar fechando o portão ao passar a calçada e vira o carro acelerando e virando a esquina. Enquanto dirige, sorri divertida ao se lembrar da cara lustrosa da Etelvina com suas sobrancelhas mexicanas e os supercilios. E pensa com seus botões, gasta com essas coisas mas nem corta as unhas dos pés. Nisso toca o celular que coloca no viva voz para atender. Segue no trânsito até o trabalho, começar o novo dia.
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Viagens # Fé
Gesiel Júnior
Conhecendo uma antiga igreja mariana no alto do Monte Soratte, em Roma Considerado a montanha dos romanos, o Monte Soratte sempre fascinou os caminhantes e historiadores. Nessa estreita cordilheira isolada de calcário com 5,5 km, situada na região metropolitana de Roma, há hoje uma reserva natural na qual são mantidos velhos conventos e oratórios, como a Igreja de Nossa Senhora das Graças (Santa Maria delle Grazie), que fica no seu cume. Habitado desde os tempos pré-históricos, o Soratte tornou-se lugar de culto para os antigos povos etruscos, um ponto de observação para soldados romanos, um oásis de oração para monges e um esconderijo para as tropas ítaloalemãs durante a 2ª Guerra Mundial. O acesso ao templo que Regina Célia e eu visitamos se dá pela cidade de Sant’Oreste, situada em frente ao monte. Para lá subimos quase setecentos metros em meio a muitas trilhas. Erguida em 1835 sobre um edifício préexistente do século dezesseis, a Igreja de Santa Maria delle Grazie abriga uma imagem da Madonna, que outrora foi muito venerada. Tratase da Virgem com o Menino, levada da igreja original para o novo templo pelos cistercienses em 1721. O afresco, atribuído ao pintor Antoniazzo Romano (1430-1510), recentemente restaurado, permaneceu guardado na igreja, que também passou por uma grande reforma. É a maior ermida do Soratte e fica quase no centro da serra. Nesse ambiente cultura, arte sacra e natureza caminham juntas enquanto se faz um agradável passeio pela floresta do Soratte: a reserva abriga uma grande variedade de animais, incluindo muitos javalis, pássaros coloridos como o pica-pau-malhado-grande, o gaio e o pisco-depeito-ruivo, além de uma infinidade de flores, como anêmonas-dos-apeninos e ciclâmenes. Atualmente, a igreja dá continuidade à
mensagem das muitas experiências espirituais que ocorreram nessa montanha. No passado, no antigo convento, alternavam-se eremitas e sacerdotes de diversas ordens religiosas: camaldulenses, franciscanos e cistercienses. Foram estes últimos que ampliaram a ermida em 1628, que assim se tornou um mosteiro. Do alto, ao redor do templo, tem-se uma vista maravilhosa para os que apreciam turismo religioso. E lá, perto de um centenário poço, se pode provar uvas deliciosas, colhidas nas atraentes parreiras plantadas dentro do antigo convento. Cronista e pesquisador, membro da Academia Botucatuense de Letras, é autor de 57 livros sobre a história regional.