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DIGESTO ECONÔMICO, número 288, janeiro 1982

Page 1

CWSIROI ESCOLA, AMPUA ESCOLA, REFORMA ESCOLA,

CONSERVA ESCOLA.

SUMÁRIO EDUCAÇÃO E CULTURA — Mário Vieira de Mello LUIZ k

PEREIRA

nio

C.

e conservação de escolas que o Governo

3

Silva

25

43

POR UMA SOCIOLOGIA

lorenzo

DAS BANDEIRAS PAULISTAS — A. De-

Neto

47

A OFERTA PÚBLICA, A IGUALDADE DOS ACIONISTAS E O DI COMPARADO — Amoldo Wald

FUROS

DO

MARXISMO — Lenildo

EDUCAÇÃO —

DEVER

OU

53

Tabosa

Pessoa

INVESTIMENTO?

— José

61

Carlos 67

Azevedo

FILOSOFIA E CRISTIANISMO — Julian Marias A HERÓICA

POLÔNIA — Gllles

81

...

Lapouge

OS TERCEIROS MUNDOS — Jean

O programa de construção, ampliação, reforma

Pacheco e

Gudin

REITO

de Integração estão fazendo escola.

A.

CANDIDATURA DE ROBERTO CAMPOS AO SENADO — Eugê

OS

É assim que os Governos Itinerante e

BARRETO

117

121

Pierre Gomane

IMIGRAÇÃO E EMPREGO — E, K. Ranhardt OS

DIREITOS

P.

de São Paulo está cumprindo é mais uma realização dos Governos Itinerante e de Integração.

HUMANOS

E O

PODERIO

137

DOS

EUA — Samuel 147

Huntington

Capa: A figura de Platão ilustra o artigo de Mário Vieira de Mello, sobre a questão da educação e da cultura.

Sao Paulo, vida nova SeCRETARIA DE ESTADO

Coneap

DA EDUCAÇÃO

Companhia dc Cons(ruçO«S

Escolares do Esiado de São Paulo

GO/ERNO mJLO MALUF

N.°

288

.

Janeiro

de

1982

-

Ano

XXXIX

-

DIGESTO

ECONÔMICO


CWSIROI ESCOLA, AMPUA ESCOLA, REFORMA ESCOLA,

CONSERVA ESCOLA.

SUMÁRIO EDUCAÇÃO E CULTURA — Mário Vieira de Mello LUIZ k

PEREIRA

nio

C.

e conservação de escolas que o Governo

3

Silva

25

43

POR UMA SOCIOLOGIA

lorenzo

DAS BANDEIRAS PAULISTAS — A. De-

Neto

47

A OFERTA PÚBLICA, A IGUALDADE DOS ACIONISTAS E O DI COMPARADO — Amoldo Wald

FUROS

DO

MARXISMO — Lenildo

EDUCAÇÃO —

DEVER

OU

53

Tabosa

Pessoa

INVESTIMENTO?

— José

61

Carlos 67

Azevedo

FILOSOFIA E CRISTIANISMO — Julian Marias A HERÓICA

POLÔNIA — Gllles

81

...

Lapouge

OS TERCEIROS MUNDOS — Jean

O programa de construção, ampliação, reforma

Pacheco e

Gudin

REITO

de Integração estão fazendo escola.

A.

CANDIDATURA DE ROBERTO CAMPOS AO SENADO — Eugê

OS

É assim que os Governos Itinerante e

BARRETO

117

121

Pierre Gomane

IMIGRAÇÃO E EMPREGO — E, K. Ranhardt OS

DIREITOS

P.

de São Paulo está cumprindo é mais uma realização dos Governos Itinerante e de Integração.

HUMANOS

E O

PODERIO

137

DOS

EUA — Samuel 147

Huntington

Capa: A figura de Platão ilustra o artigo de Mário Vieira de Mello, sobre a questão da educação e da cultura.

Sao Paulo, vida nova SeCRETARIA DE ESTADO

Coneap

DA EDUCAÇÃO

Companhia dc Cons(ruçO«S

Escolares do Esiado de São Paulo

GO/ERNO mJLO MALUF

N.°

288

.

Janeiro

de

1982

-

Ano

XXXIX

-

DIGESTO

ECONÔMICO


PUBLICAREMOS

NOS

PRÓXIMOS NÚMEROS

Educação

O MUNDO DOS NEGÓCIOS NUM PANORAMA MENSAL

Publicado sob os auspícios da:

O

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL

TEORIA

MODELO

DO

DE

LEWIS

E A

DESENVOLVIMENTO

e

P. F. Leeson

DE SAO PAULO Diretor:

O

Antônio Gontijo de Carvalho

PAPEL DO VEREADOR

E A

Cultura

CÂMARA MUNICIPAL Luiz Carlos de Oliveira Coutinho

1947 a 1973 Diretores:

João de Scantimburgo Paulo Edmur de Souza Queiroz Wllfrides Alves de Lima Superintendente: Guilherme Aflf Domingos o DIoBsto Pconômico é órgfo menaal de InformacSea econfimlcas o (Inan-

HUMANISMO. CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Mario Vieira de Mello

João Paulo Monteiro ENERGIA NUCLEAR E CRISE ENERGÉTICA

A sociedade brasileira não é nem demonstra, nem socializante, nem imbuída de espírito cientifico. O autor é ex-embaixador e escritor. Conferência feita no Centro de Estudos Sociais

Marcelo Damy de Souza Santos

celras. A direcâo não se responsabiliza pelos dados cujas fontes estejam devida mente

citadas,

emitidoa

em

nem

artigos

pelos

conceitos

assinados.

Acelta-se intercâmbio com publicações

congêneres nacionais e estrangeiras.

Assinatura anual .. £$ 1.400,00 130.00 Número avulso — £$ 150 00

Número atrasado ..

Redacâe e Administração: R. Boa Vista. 51, andar térreo Ramal:

133

Cx. Postal 8.082 — São Paulo

Departamento Comercial Rua Boa Vista, 51 — 6.° andar Tel.:

239-1333 — R.:

167/175

Compoeto e Impresso nas oficinas do

DIARtO

DO

COMERCIO.

PORQUE PIOROU A DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

e Políticos da A.C.S.P.

0 Brasil tem uma data pa

ra a renovação de suas idéias no

DIGESTO ECONÔMICO

239-1333

JOÂO CAMILLO Vivaldi Moreira

Rubens Vaz da Costa

Assinaturas:

Tel.:

ANTI-ROMÂNTICO

O DIREITO DO MAR E A

ADMINISTRAÇÃO DOS RECURSOS PESQUEIROS Melquíades Pinto Paiva

A VOLTA DE RAUL POMPÉiA Josué Montello

CONSIDERAÇÕES SOBRE TARIFAÇÃO de ENERGIA ELÉTRICA NO BRASIL Lucas Nogueira Garcez

campo da Cultura,

como

tem uma data, para o mesmo

fenômeno, no campo da Edu cação. A primeira se situa no ano de 1922, a segunda dez anos mais tarde. Os dois acon

tecimentos possuem,

entretan

to, antecedentes diversos_ A re novação cultural desejada pela Semana da Arte Moderna

São Paulo

em

tc de inspiração da intelectua lidade brasileira. A renovação

pedagógica, entretanto, procu

rou introduzir nas nossas tra

dições um novo elemento, um fermento diverso:

com

a fun

dação de escolas protestantes foi-se aos poucos criando no

País, um gosto pela pedagogia norte-americana

e seus novos

métodos de formação e educa ção do homem.

não se desviou da

Essa observação inicial pa

linha estetizante que foi, du rante todo 0 século XIX, a fon-

rece ter uma grande relevân cia para o nosso tema. No mo-


PUBLICAREMOS

NOS

PRÓXIMOS NÚMEROS

Educação

O MUNDO DOS NEGÓCIOS NUM PANORAMA MENSAL

Publicado sob os auspícios da:

O

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL

TEORIA

MODELO

DO

DE

LEWIS

E A

DESENVOLVIMENTO

e

P. F. Leeson

DE SAO PAULO Diretor:

O

Antônio Gontijo de Carvalho

PAPEL DO VEREADOR

E A

Cultura

CÂMARA MUNICIPAL Luiz Carlos de Oliveira Coutinho

1947 a 1973 Diretores:

João de Scantimburgo Paulo Edmur de Souza Queiroz Wllfrides Alves de Lima Superintendente: Guilherme Aflf Domingos o DIoBsto Pconômico é órgfo menaal de InformacSea econfimlcas o (Inan-

HUMANISMO. CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Mario Vieira de Mello

João Paulo Monteiro ENERGIA NUCLEAR E CRISE ENERGÉTICA

A sociedade brasileira não é nem demonstra, nem socializante, nem imbuída de espírito cientifico. O autor é ex-embaixador e escritor. Conferência feita no Centro de Estudos Sociais

Marcelo Damy de Souza Santos

celras. A direcâo não se responsabiliza pelos dados cujas fontes estejam devida mente

citadas,

emitidoa

em

nem

artigos

pelos

conceitos

assinados.

Acelta-se intercâmbio com publicações

congêneres nacionais e estrangeiras.

Assinatura anual .. £$ 1.400,00 130.00 Número avulso — £$ 150 00

Número atrasado ..

Redacâe e Administração: R. Boa Vista. 51, andar térreo Ramal:

133

Cx. Postal 8.082 — São Paulo

Departamento Comercial Rua Boa Vista, 51 — 6.° andar Tel.:

239-1333 — R.:

167/175

Compoeto e Impresso nas oficinas do

DIARtO

DO

COMERCIO.

PORQUE PIOROU A DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

e Políticos da A.C.S.P.

0 Brasil tem uma data pa

ra a renovação de suas idéias no

DIGESTO ECONÔMICO

239-1333

JOÂO CAMILLO Vivaldi Moreira

Rubens Vaz da Costa

Assinaturas:

Tel.:

ANTI-ROMÂNTICO

O DIREITO DO MAR E A

ADMINISTRAÇÃO DOS RECURSOS PESQUEIROS Melquíades Pinto Paiva

A VOLTA DE RAUL POMPÉiA Josué Montello

CONSIDERAÇÕES SOBRE TARIFAÇÃO de ENERGIA ELÉTRICA NO BRASIL Lucas Nogueira Garcez

campo da Cultura,

como

tem uma data, para o mesmo

fenômeno, no campo da Edu cação. A primeira se situa no ano de 1922, a segunda dez anos mais tarde. Os dois acon

tecimentos possuem,

entretan

to, antecedentes diversos_ A re novação cultural desejada pela Semana da Arte Moderna

São Paulo

em

tc de inspiração da intelectua lidade brasileira. A renovação

pedagógica, entretanto, procu

rou introduzir nas nossas tra

dições um novo elemento, um fermento diverso:

com

a fun

dação de escolas protestantes foi-se aos poucos criando no

País, um gosto pela pedagogia norte-americana

e seus novos

métodos de formação e educa ção do homem.

não se desviou da

Essa observação inicial pa

linha estetizante que foi, du rante todo 0 século XIX, a fon-

rece ter uma grande relevân cia para o nosso tema. No mo-


DIGESTO

4

ECONÔMICO

6

de Oswaldo

mos caçar papagaios”, adquire

nha a ver cora a

im

porar, ela nos faz esquecer que é totalmente incapaz de rela

passo adiante em duas áreas de uma importância vital, duas

0 valor de um símbolo.

Os in

plantada no País; mas no pla

cionar esse educando ao siste

telectuais e os artistas passam a se interessar pelos proble mas específicos de cada região

no da consciência e da formu

ma cultural dentro do qual sua educação se deve processar.

um vínculo dq estreita e essen

cial dependência — os fatores

que intervém de modo decisi vo não acusam uma procedên

cia comum, uma origem única. São influências que partem de

quadrantes diversos, de pólos opostos; e este é um fato que se

deve tanto mais

quanto

estranhar

mais se tiver a cons

ciência de que Cultura e Edu cação são processos correlatos

que, em princípio, deveriam es tar determinados no seu dina

mismo por um sentido vectorial idêntico.

Com 0 modernismo se rati fica no Brasil a tendência es-

tetizante do romantismo do sé culo XIX. A cultura do País, ao se modernizar, continua fiel à base estetizante de suas es truturas. O Brasil procura uma

fisionomia que lhe seja própria e é 0 estetismo que lhe vai pro

piciar essa dádiva de uma ima-

gem individualizada. A Europa é rejeitada, tudo o que nao for especificamente brasileiro

é visto com suspeita. O poema

Andrade “Va

DIGESTO

mento era que o País procura reunir suas forças para dar um áreas, além disso, ligadas por

de

ECONÔMICO

do País; o interesse pelo negro real, pelo índio real, em opo sição ao negro idealizado ou o índio idealizado torna-se, en tão, a tônica fundamental da literatura e da sociologia. O impulso de renovação se forma em função das virtualidades, das possibilidades mesmas do

estetismo, não em virtude de uma insatisfação que

tetismo pudesse

esse es

ocasionar_

O

Brasil parece ter achado o ca minho que 0 levará a uma per feita consciência de sua iden tidade.

No plano da Educação, en tretanto, as coisas se passam de modo bem diferente. Aqui

0 impulso de renovação se ori gina numa insatisfação do con texto cultural estetizante den

tro do qual se movia a Educa

ção. Os modelos procurados para o novo tipo de educação que se deseja são encontrados

nas escolas protestantes exis

tentes no País^ Inconsciente

mente aquilo a que se aspira

é uma educação Que nada te cultura

lação abstrata o objetivo apre sentado se reveste de um sen

tido que é exatamente o opos

to: 0 que se quer, dizem os re novadores, é uma educação que nunca perca de vista as neces sidades e as particularidades da sociedade para a qual foi planejada. A

discussão em torno dos

princípios da Escola Nova tor na-se por isso, totalmente es téril se não estiver subordina da a uma discussão mais am

pla sobre o contexto cultural em que tais princípios possam

Mas se a sociologia é as sim precisa e particularizada na sua maneira de inserir o in

divíduo na comunidade e vaga, perdida em generalidades, no seu modo de relacionar o indi víduo ao contexto cultural den tro do qual está sendo educa

do; se por um lado é tudo quan to há de mais concreto e ob

jetivo e por oütro tudo quanto há de mais vago e abstrato, a

razão disso, naturalmente, re-

side no fato que a sociologia

pretende ser uma ciência e es

ter validade. O que fazem em

tar, assim, acima das particu

geral os educadores brasileiros é assumir que esses princípios

laridades e das idiossincrasias

têm um valor autônomo. Não importa se são aplicados nos Estados Unidos, na Suíça ou no Brasil. A sociologia, que é um dos

elementos-chave

concepção

aqui,

da

pedagógica,

graças

a

seu

nova

tem,

caráter

curiosamente ambíguo, uma função primordial: ao ajustar com 0 máximo de precisão o indivíduo educando à engrena gem coletiva que o vai incor¬

nacionais. Do ponto de vista cultural uma nação é uma so ciedade, mas é uma sociedade

extremamente individualizada, uma sociedade que não pode ser descrita em termos gerais porque marcada por caracte rísticas fortemente diferencia das. Do ponto de vista socioló

gico, ou por outra, do ponto de vista

meramente

científico,

uma nação é uma sociedade como qualquer outra e cuja


DIGESTO

4

ECONÔMICO

6

de Oswaldo

mos caçar papagaios”, adquire

nha a ver cora a

im

porar, ela nos faz esquecer que é totalmente incapaz de rela

passo adiante em duas áreas de uma importância vital, duas

0 valor de um símbolo.

Os in

plantada no País; mas no pla

cionar esse educando ao siste

telectuais e os artistas passam a se interessar pelos proble mas específicos de cada região

no da consciência e da formu

ma cultural dentro do qual sua educação se deve processar.

um vínculo dq estreita e essen

cial dependência — os fatores

que intervém de modo decisi vo não acusam uma procedên

cia comum, uma origem única. São influências que partem de

quadrantes diversos, de pólos opostos; e este é um fato que se

deve tanto mais

quanto

estranhar

mais se tiver a cons

ciência de que Cultura e Edu cação são processos correlatos

que, em princípio, deveriam es tar determinados no seu dina

mismo por um sentido vectorial idêntico.

Com 0 modernismo se rati fica no Brasil a tendência es-

tetizante do romantismo do sé culo XIX. A cultura do País, ao se modernizar, continua fiel à base estetizante de suas es truturas. O Brasil procura uma

fisionomia que lhe seja própria e é 0 estetismo que lhe vai pro

piciar essa dádiva de uma ima-

gem individualizada. A Europa é rejeitada, tudo o que nao for especificamente brasileiro

é visto com suspeita. O poema

Andrade “Va

DIGESTO

mento era que o País procura reunir suas forças para dar um áreas, além disso, ligadas por

de

ECONÔMICO

do País; o interesse pelo negro real, pelo índio real, em opo sição ao negro idealizado ou o índio idealizado torna-se, en tão, a tônica fundamental da literatura e da sociologia. O impulso de renovação se forma em função das virtualidades, das possibilidades mesmas do

estetismo, não em virtude de uma insatisfação que

tetismo pudesse

esse es

ocasionar_

O

Brasil parece ter achado o ca minho que 0 levará a uma per feita consciência de sua iden tidade.

No plano da Educação, en tretanto, as coisas se passam de modo bem diferente. Aqui

0 impulso de renovação se ori gina numa insatisfação do con texto cultural estetizante den

tro do qual se movia a Educa

ção. Os modelos procurados para o novo tipo de educação que se deseja são encontrados

nas escolas protestantes exis

tentes no País^ Inconsciente

mente aquilo a que se aspira

é uma educação Que nada te cultura

lação abstrata o objetivo apre sentado se reveste de um sen

tido que é exatamente o opos

to: 0 que se quer, dizem os re novadores, é uma educação que nunca perca de vista as neces sidades e as particularidades da sociedade para a qual foi planejada. A

discussão em torno dos

princípios da Escola Nova tor na-se por isso, totalmente es téril se não estiver subordina da a uma discussão mais am

pla sobre o contexto cultural em que tais princípios possam

Mas se a sociologia é as sim precisa e particularizada na sua maneira de inserir o in

divíduo na comunidade e vaga, perdida em generalidades, no seu modo de relacionar o indi víduo ao contexto cultural den tro do qual está sendo educa

do; se por um lado é tudo quan to há de mais concreto e ob

jetivo e por oütro tudo quanto há de mais vago e abstrato, a

razão disso, naturalmente, re-

side no fato que a sociologia

pretende ser uma ciência e es

ter validade. O que fazem em

tar, assim, acima das particu

geral os educadores brasileiros é assumir que esses princípios

laridades e das idiossincrasias

têm um valor autônomo. Não importa se são aplicados nos Estados Unidos, na Suíça ou no Brasil. A sociologia, que é um dos

elementos-chave

concepção

aqui,

da

pedagógica,

graças

a

seu

nova

tem,

caráter

curiosamente ambíguo, uma função primordial: ao ajustar com 0 máximo de precisão o indivíduo educando à engrena gem coletiva que o vai incor¬

nacionais. Do ponto de vista cultural uma nação é uma so ciedade, mas é uma sociedade

extremamente individualizada, uma sociedade que não pode ser descrita em termos gerais porque marcada por caracte rísticas fortemente diferencia das. Do ponto de vista socioló

gico, ou por outra, do ponto de vista

meramente

científico,

uma nação é uma sociedade como qualquer outra e cuja


I

DIGESTO ECONÔMICO

6

descrição em termos gerais poderá ser feita independente mente do conhecimento particularizado que se tenha dela. Daí, resulta a crença de que inovações no terreno pedagó gico que se verificaram em

que nos pareça que exista uma obrigatoriedade em não omitir

virtude de determinados condi

mos

cionamentos culturais podem ser facilmente transferidos pa ra uma sociedade que se dis tingue por condicionamentos

as novas idéias sobre as quais

essa

referência,

nos

necessidade

a

facilmente

deveria

se

Ihidas

numa

sa, então, a funcionar como o

quadro legítimo das operações ligadas ao esforço pedagógico. Mas, vejamos um caso con creto, capaz de melhor fixar nossas idéias. A cultura brasi

leira, como já dissemos,

tem

uma base estetizante. A neces

sidade de uma renovação pe dagógica que se manifestara,

o

movi

gum pertenciam ao contexto da

O que ocorre é um verdadeiro esquecimento do contexto cul

ciologia, pela ciência que pas

verificar que

assentar

cultura

tural dentro do qual se deveria colocar o processo educacional e a sua substituição pela so

de indicar

mento de reforma de modo al nossa

totalmente

porque

que a omissão era voluntária. Analisando o manifesto, pode-

diversos.

culturais

mas

julgamos que havia pelo me-

Eram idéias co-

sociedade

cujo

contexto cultural era eminente mente ético. O problema que

nos confronta é, então, saber se os pioneiros, omissos como foram na consideração das re

lações entre suas idéias de re

forma e as bases estetizantes da nossa cultura, não o foram menos na consideração das re-

DIGESTO ECONÔMICO

7

festo, assinada por Fernando de Azevedo, está dito que a ci vilização atual, aparentemente materialista, apresenta uma série de conquistas morais do maior alcance. Quem poderia ter essa opinião sobre o mun do atual a não ser uma cultura

formada pelo protestantismo, que vê no sucesso material a consequência de uma atitude religiosa inspiradora de um de sempenho em que ativismo e ascetismo se entrelaçam numa atmosfera de elevada pressão ética? Essa não é em todo ca

so a opinião que do mundo atual poderia ter um indivíduo formado dentro do contexto da cultura brasileira. Um tal in divíduo seria propenso a acre

omissão

não

podia ser mais

sobretudo através do manifes

completa. Os pioneiros não pa

to dos pioneiros da Educação Nova de 1932, introduziram idéias que de modo algum se referiam a essa base estetizan te. Salientamos o fato, não por-

receram ter consciência do fa

to que essas idéias de reforma eram literalmente dependentes de um contexto ético de cultu

ra. Já na Introdução do Mani-

trata, aqui, de saber quem tem razão. Trata-se apenas de ca

racterizar quais

seriam,

res

pectivamente,

reações

de

as

dois homens, um formado num contexto ético e outro num con texto estético de cultura.

Ao escrever sua Introdu ção ao Manifesto, Fernando de Azevedo certamente não refle tiu sobre essa dificuldade Não

realizou que estava propondo dagógica a ser implantada num país, numa sociedade formada dentro de um espírito que não

mas de um modo profundamen

Dessa indagação resulta claramente que ainda aqui a

progressos alcançados. Não se

materialista, não em aparência,

te real. Estaria propenso a acreditar que as conquistas

de provieram.

fóricas e exultantes diante dos

planos para uma reforma

e

contexto cultural ético don-

mais inclinado a se entregar a reflexões de natureza pessi mista do que a constatações eu

ditar que a civilização atual é

lações entre as mesmas idéias 0

nizou, do acréscimo de rique2a social que resultou da utili zação cada vez mais extensa das forças naturais — estaria

morais

da

humanidade

vêm

sendo prejudicadas por esse avanço da civilização materia-

lista^ E, diante da obra da ci vilização atual, — com o seu quadro de realizações e vitó rias materiais, de indústrias que se desenvolveram, do mun do das máquinas que se orga-

pe-

era o do povo norte-americano.

A lógica das idéias o teria, en tretanto, levado cedo a um im

passe, se não se tivesse valido do recurso de colocar a educa

ção sobre a égide da ciência. A verdade é que ignorando o con texto estético da cultura brasi leira e não assumindo o con texto ético da cultura norte-


I

DIGESTO ECONÔMICO

6

descrição em termos gerais poderá ser feita independente mente do conhecimento particularizado que se tenha dela. Daí, resulta a crença de que inovações no terreno pedagó gico que se verificaram em

que nos pareça que exista uma obrigatoriedade em não omitir

virtude de determinados condi

mos

cionamentos culturais podem ser facilmente transferidos pa ra uma sociedade que se dis tingue por condicionamentos

as novas idéias sobre as quais

essa

referência,

nos

necessidade

a

facilmente

deveria

se

Ihidas

numa

sa, então, a funcionar como o

quadro legítimo das operações ligadas ao esforço pedagógico. Mas, vejamos um caso con creto, capaz de melhor fixar nossas idéias. A cultura brasi

leira, como já dissemos,

tem

uma base estetizante. A neces

sidade de uma renovação pe dagógica que se manifestara,

o

movi

gum pertenciam ao contexto da

O que ocorre é um verdadeiro esquecimento do contexto cul

ciologia, pela ciência que pas

verificar que

assentar

cultura

tural dentro do qual se deveria colocar o processo educacional e a sua substituição pela so

de indicar

mento de reforma de modo al nossa

totalmente

porque

que a omissão era voluntária. Analisando o manifesto, pode-

diversos.

culturais

mas

julgamos que havia pelo me-

Eram idéias co-

sociedade

cujo

contexto cultural era eminente mente ético. O problema que

nos confronta é, então, saber se os pioneiros, omissos como foram na consideração das re

lações entre suas idéias de re

forma e as bases estetizantes da nossa cultura, não o foram menos na consideração das re-

DIGESTO ECONÔMICO

7

festo, assinada por Fernando de Azevedo, está dito que a ci vilização atual, aparentemente materialista, apresenta uma série de conquistas morais do maior alcance. Quem poderia ter essa opinião sobre o mun do atual a não ser uma cultura

formada pelo protestantismo, que vê no sucesso material a consequência de uma atitude religiosa inspiradora de um de sempenho em que ativismo e ascetismo se entrelaçam numa atmosfera de elevada pressão ética? Essa não é em todo ca

so a opinião que do mundo atual poderia ter um indivíduo formado dentro do contexto da cultura brasileira. Um tal in divíduo seria propenso a acre

omissão

não

podia ser mais

sobretudo através do manifes

completa. Os pioneiros não pa

to dos pioneiros da Educação Nova de 1932, introduziram idéias que de modo algum se referiam a essa base estetizan te. Salientamos o fato, não por-

receram ter consciência do fa

to que essas idéias de reforma eram literalmente dependentes de um contexto ético de cultu

ra. Já na Introdução do Mani-

trata, aqui, de saber quem tem razão. Trata-se apenas de ca

racterizar quais

seriam,

res

pectivamente,

reações

de

as

dois homens, um formado num contexto ético e outro num con texto estético de cultura.

Ao escrever sua Introdu ção ao Manifesto, Fernando de Azevedo certamente não refle tiu sobre essa dificuldade Não

realizou que estava propondo dagógica a ser implantada num país, numa sociedade formada dentro de um espírito que não

mas de um modo profundamen

Dessa indagação resulta claramente que ainda aqui a

progressos alcançados. Não se

materialista, não em aparência,

te real. Estaria propenso a acreditar que as conquistas

de provieram.

fóricas e exultantes diante dos

planos para uma reforma

e

contexto cultural ético don-

mais inclinado a se entregar a reflexões de natureza pessi mista do que a constatações eu

ditar que a civilização atual é

lações entre as mesmas idéias 0

nizou, do acréscimo de rique2a social que resultou da utili zação cada vez mais extensa das forças naturais — estaria

morais

da

humanidade

vêm

sendo prejudicadas por esse avanço da civilização materia-

lista^ E, diante da obra da ci vilização atual, — com o seu quadro de realizações e vitó rias materiais, de indústrias que se desenvolveram, do mun do das máquinas que se orga-

pe-

era o do povo norte-americano.

A lógica das idéias o teria, en tretanto, levado cedo a um im

passe, se não se tivesse valido do recurso de colocar a educa

ção sobre a égide da ciência. A verdade é que ignorando o con texto estético da cultura brasi leira e não assumindo o con texto ético da cultura norte-


DIGESTO

8

ECONÔMICO

DIGESTO

9

ECONÔMICO

americana, o que Fernando de Azevedo fez foi tornar órfã a Educação. Urgia, pois, encontrar-lhe pais adotivos e a ciên cia era, evidentemente, a me

penetra da civilização ambien- “

do de Azevedo havia dito na

te”

Introdução

lhor candidata

viam-lhe dito que estava órfã,

Por isso, já na página 24 da mesma Introdução, Fernan do de Azevedo nos explica que

“o problema da educação — o maior

e

0 mais difícil problema

proposto ao homem — se trans portou entre nós, de uma vez, da atmosfera confinada do em-

pirismo didático para o ar li vre do pensamento moderno, da rotina burocrática para as idéias político-sociais e dos

planos do imediatismo utilitá rio para os domínios das cogi tações científicas e filosóficas”. E mais adiante: “nós não de víamos nem podíamos recuar diante da resistência dos or

todoxos, em face da extensão crescente da sociologia nos do mínios da Educação”. A pala vra-chave é finalmente lança da. Sociologia, 0 ponto de vista sociológico! É esse ponto de

vista, nos explica ainda Azeve do, que nos faz encarar a Edu cação como uma adaptação ao meio social, como um processo

através do qual o indivíduo “se

A Educação

encontra, en

ao

Manifesto que

toda cultura superior no Brasil

Não é, então, que houvesfalta de planos e de inicia tivas para a determinação dos

se

mas era essa uma verdade ir refutável? Tudo nos leva a crer

nais. O que quer dizer isto? Que havia falta de planos e ini ciativas para a determinação

fins da Educação como quer Fernando de Azevedo — os pla nos existiam e os fins eram bem claros. O que não havia era a vontade de criar um

que uma tal orfandade era pou

dos fins da Educação? A mim

co mais que um mito e que em

ethos social, comunitário, von

me parece que os planos e ini

tade que se exprime somente com a publicação do Manifes

tão, seus pais adotivos. Há nis

nunca

so, motivo para regozijo? Ha

limites das ambições profissio

todo caso a ciência era a me

nos qualificada de todos os candidatos que pudessem se apresentar para tomar o lugar de um contexto cultural, fosse

ele qual fosse, portador de sen tido.

Mas, vamos adiante. Já no texto do Manifesto, assinado

por 26 dos mais ilustres educa dores do País, está dito que a causa principal do estado antes de inorganização do que de desorganização do aparelho es colar brasileiro, está na falta em quase todos os planos e ini ciativas da determinação dos fins da Educação (aspecto fi losófico e social) e da falta de

aplicação (aspecto técnico) dos

métodos científicos aos proble

mas da Educação^ Ora, creio que neste ponto, os ilustres educadores cometem uma grave

injustiça. O próprio Fernan-

havia

ultrapassado

os

ciativas estavam perfeitamente articulados: a Educação no Brasil não visava antes, como não visa ainda hoje, criar um

ethos no homem; seu objetivo era antes e continua a ser o

de criar o grande profissional, a figura brilhante, o herói da inteligência, ideal estético que domina de maneira avassaladora 0 ambiente cultural do País.

Para isso, a ciência era de pou-

serventia A cultura do Di reito é 0 símbolo da nossa Paica

déia. Mas como já tive em ou tras ocasiões a oportunidade

to

Constitui essa

vontade um

dos frutos da ciência? Não creio que se possa considerar irreverência ou desconsidera

ção para com a ciência exprimii’ aqui grandes dúvidas a respeito. Se hâ coisa que a ciência seja incapaz de fazer é

justamente

suscitar

impulsos

ou criar vontades. A ciência é uma coisa rigorosamente neu tra, totalmente indiferente a este ou aquele fim. Ela pode ser posta a serviço de um fim, de vários fins, mas isto é pos

sível precisamente porque ela

de observar o aspecto do Di reito que retém a atenção do intelectual brasileiro, não é o aspecto pelo qual o Direito se

é rigorosamente neutra^ Como imaginar, então, que a Educa

identifica com a ciência, mas

sa ser posta sob a

0 aspecto pelo qual o Direito

ciência? Como imaginar que os

identifica com o jogo livre

fins da Educação possam de pender das descobertas-da ciên-

se

da imaginação e da arte.

ção que é uma atividade essen cialmente articulada a fins pos

tutela da


DIGESTO

8

ECONÔMICO

DIGESTO

9

ECONÔMICO

americana, o que Fernando de Azevedo fez foi tornar órfã a Educação. Urgia, pois, encontrar-lhe pais adotivos e a ciên cia era, evidentemente, a me

penetra da civilização ambien- “

do de Azevedo havia dito na

te”

Introdução

lhor candidata

viam-lhe dito que estava órfã,

Por isso, já na página 24 da mesma Introdução, Fernan do de Azevedo nos explica que

“o problema da educação — o maior

e

0 mais difícil problema

proposto ao homem — se trans portou entre nós, de uma vez, da atmosfera confinada do em-

pirismo didático para o ar li vre do pensamento moderno, da rotina burocrática para as idéias político-sociais e dos

planos do imediatismo utilitá rio para os domínios das cogi tações científicas e filosóficas”. E mais adiante: “nós não de víamos nem podíamos recuar diante da resistência dos or

todoxos, em face da extensão crescente da sociologia nos do mínios da Educação”. A pala vra-chave é finalmente lança da. Sociologia, 0 ponto de vista sociológico! É esse ponto de

vista, nos explica ainda Azeve do, que nos faz encarar a Edu cação como uma adaptação ao meio social, como um processo

através do qual o indivíduo “se

A Educação

encontra, en

ao

Manifesto que

toda cultura superior no Brasil

Não é, então, que houvesfalta de planos e de inicia tivas para a determinação dos

se

mas era essa uma verdade ir refutável? Tudo nos leva a crer

nais. O que quer dizer isto? Que havia falta de planos e ini ciativas para a determinação

fins da Educação como quer Fernando de Azevedo — os pla nos existiam e os fins eram bem claros. O que não havia era a vontade de criar um

que uma tal orfandade era pou

dos fins da Educação? A mim

co mais que um mito e que em

ethos social, comunitário, von

me parece que os planos e ini

tade que se exprime somente com a publicação do Manifes

tão, seus pais adotivos. Há nis

nunca

so, motivo para regozijo? Ha

limites das ambições profissio

todo caso a ciência era a me

nos qualificada de todos os candidatos que pudessem se apresentar para tomar o lugar de um contexto cultural, fosse

ele qual fosse, portador de sen tido.

Mas, vamos adiante. Já no texto do Manifesto, assinado

por 26 dos mais ilustres educa dores do País, está dito que a causa principal do estado antes de inorganização do que de desorganização do aparelho es colar brasileiro, está na falta em quase todos os planos e ini ciativas da determinação dos fins da Educação (aspecto fi losófico e social) e da falta de

aplicação (aspecto técnico) dos

métodos científicos aos proble

mas da Educação^ Ora, creio que neste ponto, os ilustres educadores cometem uma grave

injustiça. O próprio Fernan-

havia

ultrapassado

os

ciativas estavam perfeitamente articulados: a Educação no Brasil não visava antes, como não visa ainda hoje, criar um

ethos no homem; seu objetivo era antes e continua a ser o

de criar o grande profissional, a figura brilhante, o herói da inteligência, ideal estético que domina de maneira avassaladora 0 ambiente cultural do País.

Para isso, a ciência era de pou-

serventia A cultura do Di reito é 0 símbolo da nossa Paica

déia. Mas como já tive em ou tras ocasiões a oportunidade

to

Constitui essa

vontade um

dos frutos da ciência? Não creio que se possa considerar irreverência ou desconsidera

ção para com a ciência exprimii’ aqui grandes dúvidas a respeito. Se hâ coisa que a ciência seja incapaz de fazer é

justamente

suscitar

impulsos

ou criar vontades. A ciência é uma coisa rigorosamente neu tra, totalmente indiferente a este ou aquele fim. Ela pode ser posta a serviço de um fim, de vários fins, mas isto é pos

sível precisamente porque ela

de observar o aspecto do Di reito que retém a atenção do intelectual brasileiro, não é o aspecto pelo qual o Direito se

é rigorosamente neutra^ Como imaginar, então, que a Educa

identifica com a ciência, mas

sa ser posta sob a

0 aspecto pelo qual o Direito

ciência? Como imaginar que os

identifica com o jogo livre

fins da Educação possam de pender das descobertas-da ciên-

se

da imaginação e da arte.

ção que é uma atividade essen cialmente articulada a fins pos

tutela da


DIGESTO

10

ECONÔMICO

11

DIGESTO ECONÔMICO

cia? Não há, aqui, uma con fusão de idéias que precisamos desfazer o mais depressa pos sível se quisermos obter algu ma luz na apreciação do nosso

de reformas se abririd

tema? Frases como: “os traba lhos científicos no ramo da

essa: o que nos propõe aquele

desassombrada

texto

educação já nos faziam sentir,

nossos pressupostos irracionais

de se lastimar porque isso nos teria obrigado a ver que por detrás da nova valorização da da à ciência e à sociologia o

em toda a sua força reconstru-

"o-a 0 axioma de que se pode ser tão científico no

estudo e

na resolução dos problemas educativos como nos da enge nharia e das finanças” — tais frases que encontramos no Ma

nifesto mais

assinado

por

26

dos

ilustres educadores

bra

sileiros, só nos fazem ver co mo ainda é insuficiente a re flexão feita no País sobre o

seu maior problema — o pro blema educacional.

Ao invés de lamentar a au

sência no País de espírito cien tífico, 0 que os nossos educa dores deveriam ter feito é ana lisar com rigor científico a si

tuação moral e intelectual da cultura brasileira. Esse teria

um campo

sobre

consideravelmente

mais vasto do que o que nos é oferecido pelas sugestões do Manifesto. Porque a verdade é

não é revisão radical de

e acientíficos e a implantação

de doutrinas baseadas num es pírito científico rigorost.; é sim plesmente uma troca, uma mu dança de modelos: ao invés do modelo de uma cultura estetizante em que o indivíduo vale

pela “virtu” que manifesta, pe¬

la excelência profissienar que

adquire, o modelo de

uma

cul-

tura de fundo ético em que es ta excelência está subv^rdinada

ao ethos social e comunitário sem 0 qual nenhum

,

-

sucesso

profissional esta legitimado. Em outras palavras:

0

que

o Manifesto dos pioneiros de 1932 nos propôs foi simplesmen te trocar a França pe.os Esta

dos Unidos da América,

Não

que 0 conteúdo da cultura fran cesa esteja todo ele contido no

pedagógicas. O que se trocou naturalmente foi o tipo de in fluências recebidas. Mas é de se lastimar que não tenha ha vido uma consciência

clara

e

desse fato. É

que agia realmente era um ideal ético que o povo brasilei

terada — sob a forma de ciên

cia e de sociologia. Não há nisso

uma estranha perversão e

uma curiosa vocação para

o

suicídio? A ciência e a sociolo gia são coisas perfeítamente

respeitáveis, mas não são pon

tos de vista que possam dar a uma nação o ethos de que ela necessita.

E obviamente

ne

nhum país mais que o Brasil

de inspiração; e não que o con

Uma análise rigorosa do Manifesto dos pioneiros nos le

cana esteja também todo ele contido nas nossas novas idéias

são

sus-

verdade que as idéias e insti tuições pedagógicas sejam es sencialmenteo produto de rea lidades sociais e políticas? É

sente uma tal necessidade.

incalculáveis. A nossa vontade

documento

cional nos preparamos então para introduzir esses ingredien tes no seio da nossa cultura da forma mais diluída e mais adul

empreender neste país uma re forma pedagógica. Se fosse da do 0 passo teria consequências

norie-ameri-

desse

direta. É verdade que a civili

modelo estetizante que até ago teúdo da cultura

ra

ro não tinha condições de as similar. Nós que somos real mente carentes de ingredientes éticos na nossa formação na

sido verdadeiramente o primei ro passo a dar para quem quer

ra nos tem servido de guia e

de análise rigorosa a nossa es tará talvez sendo a primeira. Quantas premissas ace’tas sem exame! Quantos raciocínios des torcidos! Quantas palavras em pregadas sem uma determina ção precisa do contexto em que 0 sentido escolhido poderia ser legitimado! Na verdade todas as idéias mestras que susten tam por assim dizer a estrutu

vará à conclusão um tanto de

primente de que em matéria

retíveis

de

uma contestação

zação atual seja apenas rentemente

materialista?

apa É

verdade que se possa ser tão científico no ramo da educação

quanto no da engenharia? É verdade que toda educação va ria sempre em função de uma concepção de vida, refletindo em cada época a filosofia pre dominante que é determinada a seu turno pela estrutura da sociedade? Ê verdade que a educação deva perder o seu sentido aristológico para adqui rir um caráter biológico? É verdade que um vício das es colas espiritualistas seja o desdem pelas multidões? É verda-


DIGESTO

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ECONÔMICO

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DIGESTO ECONÔMICO

cia? Não há, aqui, uma con fusão de idéias que precisamos desfazer o mais depressa pos sível se quisermos obter algu ma luz na apreciação do nosso

de reformas se abririd

tema? Frases como: “os traba lhos científicos no ramo da

essa: o que nos propõe aquele

desassombrada

texto

educação já nos faziam sentir,

nossos pressupostos irracionais

de se lastimar porque isso nos teria obrigado a ver que por detrás da nova valorização da da à ciência e à sociologia o

em toda a sua força reconstru-

"o-a 0 axioma de que se pode ser tão científico no

estudo e

na resolução dos problemas educativos como nos da enge nharia e das finanças” — tais frases que encontramos no Ma

nifesto mais

assinado

por

26

dos

ilustres educadores

bra

sileiros, só nos fazem ver co mo ainda é insuficiente a re flexão feita no País sobre o

seu maior problema — o pro blema educacional.

Ao invés de lamentar a au

sência no País de espírito cien tífico, 0 que os nossos educa dores deveriam ter feito é ana lisar com rigor científico a si

tuação moral e intelectual da cultura brasileira. Esse teria

um campo

sobre

consideravelmente

mais vasto do que o que nos é oferecido pelas sugestões do Manifesto. Porque a verdade é

não é revisão radical de

e acientíficos e a implantação

de doutrinas baseadas num es pírito científico rigorost.; é sim plesmente uma troca, uma mu dança de modelos: ao invés do modelo de uma cultura estetizante em que o indivíduo vale

pela “virtu” que manifesta, pe¬

la excelência profissienar que

adquire, o modelo de

uma

cul-

tura de fundo ético em que es ta excelência está subv^rdinada

ao ethos social e comunitário sem 0 qual nenhum

,

-

sucesso

profissional esta legitimado. Em outras palavras:

0

que

o Manifesto dos pioneiros de 1932 nos propôs foi simplesmen te trocar a França pe.os Esta

dos Unidos da América,

Não

que 0 conteúdo da cultura fran cesa esteja todo ele contido no

pedagógicas. O que se trocou naturalmente foi o tipo de in fluências recebidas. Mas é de se lastimar que não tenha ha vido uma consciência

clara

e

desse fato. É

que agia realmente era um ideal ético que o povo brasilei

terada — sob a forma de ciên

cia e de sociologia. Não há nisso

uma estranha perversão e

uma curiosa vocação para

o

suicídio? A ciência e a sociolo gia são coisas perfeítamente

respeitáveis, mas não são pon

tos de vista que possam dar a uma nação o ethos de que ela necessita.

E obviamente

ne

nhum país mais que o Brasil

de inspiração; e não que o con

Uma análise rigorosa do Manifesto dos pioneiros nos le

cana esteja também todo ele contido nas nossas novas idéias

são

sus-

verdade que as idéias e insti tuições pedagógicas sejam es sencialmenteo produto de rea lidades sociais e políticas? É

sente uma tal necessidade.

incalculáveis. A nossa vontade

documento

cional nos preparamos então para introduzir esses ingredien tes no seio da nossa cultura da forma mais diluída e mais adul

empreender neste país uma re forma pedagógica. Se fosse da do 0 passo teria consequências

norie-ameri-

desse

direta. É verdade que a civili

modelo estetizante que até ago teúdo da cultura

ra

ro não tinha condições de as similar. Nós que somos real mente carentes de ingredientes éticos na nossa formação na

sido verdadeiramente o primei ro passo a dar para quem quer

ra nos tem servido de guia e

de análise rigorosa a nossa es tará talvez sendo a primeira. Quantas premissas ace’tas sem exame! Quantos raciocínios des torcidos! Quantas palavras em pregadas sem uma determina ção precisa do contexto em que 0 sentido escolhido poderia ser legitimado! Na verdade todas as idéias mestras que susten tam por assim dizer a estrutu

vará à conclusão um tanto de

primente de que em matéria

retíveis

de

uma contestação

zação atual seja apenas rentemente

materialista?

apa É

verdade que se possa ser tão científico no ramo da educação

quanto no da engenharia? É verdade que toda educação va ria sempre em função de uma concepção de vida, refletindo em cada época a filosofia pre dominante que é determinada a seu turno pela estrutura da sociedade? Ê verdade que a educação deva perder o seu sentido aristológico para adqui rir um caráter biológico? É verdade que um vício das es colas espiritualistas seja o desdem pelas multidões? É verda-


i 5’;

12

DIGESTO

de que antes de mens

sermos ho

somos seres sociais? É

verdade que nos tempos mo dernos a Educação tenha sido função essencial e primordial do Estado? É verdade gue o de senvolvimento das ciências de va constituir a base das dou

trinas da Nova EMucação? É verdade que a Educação deva ter um caráter

funcional?

É

verdade que a Educação deva inspi?ar-se na lógica psicológi

ca,, isto é, na lógica . que se baseia na natureza e no fun

cionamento do espírito infantil? Quantas afirmações gratuitás e quantas contestações pos síveis!

Não teria evidentemen

te sentido algum que me

de

bruçasse aqui sobre o texto dó Manifesto, esmiuçando num es pírito de contradição frases e

idéias, conotações e subenten didos para comprovar sua fal ta de autoridade. O importante é assinalar o caráter falso

da

DIGESTO

ECONÔMICO

ECONÔMICO

13

falsa porque implicaria em obri gar a Educação a vestir uma camisa de força. Ê claro que um dos aspectos da Educação

tra atividade humana, é respon sável pelo equilíbrio em que es

é fazer com que o indivíduo se

indivíduo à sociedade as comu

adapte ao meio social em

que

vai

é

nidades humanas ofereceríam o triste espetáculo da desordem ou do caos. Sem a criatividade

viver.

Mas

esse

iião

o

único aspecto. A Educação tem outro objetivo, quiçá mais im a portante que o primeii’o: Educação é um processo cuja finalidade

última

é a criativi

dade do indivíduo. A adaptação ao meio social não é um fim, não pode ser um fim, é sim plesmente uma etapa; e a fina lidade última, a criatividade do indivíduo é resultado

oue

não

pode ser adquirido por um pro jeto educacional limitado pelo horizonte estreito de qualquer tipo de ciência, humana ou so cial.

Dizer que os métodos que permitem uma perfeita adap tação do indivíduo ao meio so cial não impedem o apareci mento de condições favoráveis

idéia que preside à elaboração do documento a idéia de que as ciências sociais, a sociolo gia ou as ciências humanas (como se quiser chamar) são disciplinas autônomas e capa

indivíduo é uma relação extre mamente sensível às ênfases

citadas a servirem de contex to a um projeto educacional. Por que é falsa essa idéia? É

que se ponha num ou noutro elemento da relação. A Educa ção, mais do que qualquer ou-

à criatividade do indivíduo constituem na realidade uma

falácia. A relação

sociedade-

ses

dois

manter.

elementos

devem

se

Sem a adaptação do

do indivíduo ofereceríam o pa norama melancólico da estag

nação ou da decadência. É pre ciso, pois, que a Educação não tome como resultado adquirido

a expectativa de que após a adaptação do indivíduo ao meio social sua criatividade se ma

nifeste de modo espontâneo. Se não se estabelecer a criativida de do indivíduo como finalida de expressa e explícita, como finalidade para a qual determi nados meios já foram aciona dos, pode-se ficar certo de que

cepçâo de vida, refletindo em cada época a filosofia predo minante que é determina da a seu turno pela estrutura da sociedade” — esse sestro é

o principal responsável pelo fa to de que as sociedades contem porâneas estão cada vez mais mal educadas; e é também res

ponsável pelo fato de que o in divíduo se torna cada vez me nos criativo. A massa de infor

mações (muitas delas errôneas) que hoje em dia é capaz de manipular um indivíduo é to mado como prova de desenvol vimento humano. Sua submis

são à dialética implacável da máquina é interpretada como uma vitória definitiva sobre as

forças da Natureza, as únicas capazes de constrangê-lo — embora dessa Natureza muitos já

essa criatividade não surgirá como flor espontânea. Ninguém refletiu mais profundamente sobre o problema da Educação do que Platão. O que ele nos

comecem a ter saudades.

disse a respeito vale não somen

te para a sua época, mas para todos os tempos. 0 sestro dos

víduo não devia procurar adaptar-se à sociedade em que vi via. É ele então um grande in

educadores contemporâneos, de

dividualista? — De modo

nossos educadores inclusive, de ignorar Platão sob o pretexto de que “toda educaçã,i varia sempre em função de uma con’

gum. O seu conselho é que es

Ora, 0 que nos diz Platão so bre as relações entre o indiví duo e a sociedade? Diz-nos sim plesmente que na época o indi

al

se indivíduo procure construir a sua sociedade dentro de si mesmo. A idéia tem a sua ra-


i 5’;

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DIGESTO

de que antes de mens

sermos ho

somos seres sociais? É

verdade que nos tempos mo dernos a Educação tenha sido função essencial e primordial do Estado? É verdade gue o de senvolvimento das ciências de va constituir a base das dou

trinas da Nova EMucação? É verdade que a Educação deva ter um caráter

funcional?

É

verdade que a Educação deva inspi?ar-se na lógica psicológi

ca,, isto é, na lógica . que se baseia na natureza e no fun

cionamento do espírito infantil? Quantas afirmações gratuitás e quantas contestações pos síveis!

Não teria evidentemen

te sentido algum que me

de

bruçasse aqui sobre o texto dó Manifesto, esmiuçando num es pírito de contradição frases e

idéias, conotações e subenten didos para comprovar sua fal ta de autoridade. O importante é assinalar o caráter falso

da

DIGESTO

ECONÔMICO

ECONÔMICO

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falsa porque implicaria em obri gar a Educação a vestir uma camisa de força. Ê claro que um dos aspectos da Educação

tra atividade humana, é respon sável pelo equilíbrio em que es

é fazer com que o indivíduo se

indivíduo à sociedade as comu

adapte ao meio social em

que

vai

é

nidades humanas ofereceríam o triste espetáculo da desordem ou do caos. Sem a criatividade

viver.

Mas

esse

iião

o

único aspecto. A Educação tem outro objetivo, quiçá mais im a portante que o primeii’o: Educação é um processo cuja finalidade

última

é a criativi

dade do indivíduo. A adaptação ao meio social não é um fim, não pode ser um fim, é sim plesmente uma etapa; e a fina lidade última, a criatividade do indivíduo é resultado

oue

não

pode ser adquirido por um pro jeto educacional limitado pelo horizonte estreito de qualquer tipo de ciência, humana ou so cial.

Dizer que os métodos que permitem uma perfeita adap tação do indivíduo ao meio so cial não impedem o apareci mento de condições favoráveis

idéia que preside à elaboração do documento a idéia de que as ciências sociais, a sociolo gia ou as ciências humanas (como se quiser chamar) são disciplinas autônomas e capa

indivíduo é uma relação extre mamente sensível às ênfases

citadas a servirem de contex to a um projeto educacional. Por que é falsa essa idéia? É

que se ponha num ou noutro elemento da relação. A Educa ção, mais do que qualquer ou-

à criatividade do indivíduo constituem na realidade uma

falácia. A relação

sociedade-

ses

dois

manter.

elementos

devem

se

Sem a adaptação do

do indivíduo ofereceríam o pa norama melancólico da estag

nação ou da decadência. É pre ciso, pois, que a Educação não tome como resultado adquirido

a expectativa de que após a adaptação do indivíduo ao meio social sua criatividade se ma

nifeste de modo espontâneo. Se não se estabelecer a criativida de do indivíduo como finalida de expressa e explícita, como finalidade para a qual determi nados meios já foram aciona dos, pode-se ficar certo de que

cepçâo de vida, refletindo em cada época a filosofia predo minante que é determina da a seu turno pela estrutura da sociedade” — esse sestro é

o principal responsável pelo fa to de que as sociedades contem porâneas estão cada vez mais mal educadas; e é também res

ponsável pelo fato de que o in divíduo se torna cada vez me nos criativo. A massa de infor

mações (muitas delas errôneas) que hoje em dia é capaz de manipular um indivíduo é to mado como prova de desenvol vimento humano. Sua submis

são à dialética implacável da máquina é interpretada como uma vitória definitiva sobre as

forças da Natureza, as únicas capazes de constrangê-lo — embora dessa Natureza muitos já

essa criatividade não surgirá como flor espontânea. Ninguém refletiu mais profundamente sobre o problema da Educação do que Platão. O que ele nos

comecem a ter saudades.

disse a respeito vale não somen

te para a sua época, mas para todos os tempos. 0 sestro dos

víduo não devia procurar adaptar-se à sociedade em que vi via. É ele então um grande in

educadores contemporâneos, de

dividualista? — De modo

nossos educadores inclusive, de ignorar Platão sob o pretexto de que “toda educaçã,i varia sempre em função de uma con’

gum. O seu conselho é que es

Ora, 0 que nos diz Platão so bre as relações entre o indiví duo e a sociedade? Diz-nos sim plesmente que na época o indi

al

se indivíduo procure construir a sua sociedade dentro de si mesmo. A idéia tem a sua ra-


DIGESTO ECONÔMICO

14

zão de ser. As sociedades que via em torno de si pareciam a Platão irreparáveis. É difí

to de Platão tem a perenidade de que os educadores contem porâneos não podem se jactar,

cil

a razão disso reside certamen te no fato de ter ele tido a co

reconstruir

uma

sociedade

que está em processo de de composição. Transpor,;adas pa ra dentro de nós mesmos a re

construção se torna fácil. Tudo depende de nós. Podemos dis tribuir 0 poder da maneira que nos pareça mais eficaz. Pode mos estabelecer deveres, criar responsabilidades, determinar

de educador que era compre endeu que as sociedaces po diam educar, mas também de

cente. O que há são sociedades em cujo seio a educação rou

so-

inútil ou da consolidação den tro do indivíduo da idéia de jus tiça? Em todo caso é esse in divíduo identificado com a idéia

de justiça que representa para Platão a finalidade da educa

ção; não a finalidade suprema que seria o Bem divino, mas a

finalidade segundo esquemas que 0 homem contemporâneo é capaz de assimilar. Não temos

aqui entãe um desmentido com pleto a essa idéia de que a fi

nalidade da educação é adap tar 0 indivíduo ao meio social em que vive? Se o pensamen-

duzida em algo de mais próxi mo a nós? Uma coisa pelo me nos se pode depreender dos en sinamentos de Platão: Do pon to de vista educacional o indi

primeiro cuidado que, ao iniciar

mia.

o seu trabalho, todo educador

Quer isto dizer que as so ciedades individualistas contem

ra 0 educador o indivíduo é a sociedade e a sociedade é o in divíduo.

seducar o indivíduo; e que o

os seus métodos vão

ciedade. Trata-se de um jogo

15

víduo, em certos casos, tem a obrigação de se refugiar den tro de si mesmo, em benefício da própria sociedade. A rela ção indivíduo-sociedade não é do ponto de vista educacional uma relação de antinomia. Pa

deverá ter é verificar se às mu

aperfeiçoamento da nessa

vado o contrário. Existem na

ções cultas e poderosas em que se desejaria que o indivíduo pensasse com um pouco mais de autonomia. Por que não o fa

zem? A explicação de que há povos mais ou menos ir dividua-

tegidos os verdadeiros interes ses da comunidade. Tudo isso

dida que vamos avançando no

ECONÔMICO

des do seu tempo. Como gran

ragem de dizer não às socieda

de que maneira podem ser pro

podemos fazer e refazer, à me

DIGESTO

danças e às modificações

que

determi

nar, poderá ser atribuído

um

sentido educacional.

Adaptar o indivíduo ao meio social em que vive pode for mar um tipo de indivíduo in capaz de julgar por si mesmo o que é justo. Pode de um mo do geral formar um tipo de in divíduo incapaz de julgar qual quer coisa por si mesmo. Seus pensamentos serão os pensa mentos da sociedade à qual está adaptado. Poderá haver fra casso maior em matéria edu cacional?! Inútil será dizer que este é um caso extremo e que a tendência de cada indivíduo

é pensar de modo diferente dos demais. A experiência tem pro-

listas me parece pouco conviri-

bou ao indivíduo a sua autono

porâneas estão mais próximas do ideal platônico? De modo al gum. O indivíduo platônico car rega dentro de si a sociedade ideal que ele mesmo c onstruiu. Seus compromissos com a so ciedade são ainda mais fortes

do que se ele se tivesse mercimente adaptado ao meio süciai. Ele é o purificador da at mosfera social. Seu objetivo é subir ao plano das idéias para tornar ainda mais claro e trans

parente 0 seu projeto políticosocial. É, também, descer de novo ao plano do sensível para finalmsnte projetar no mundo exterior esse projeto latificado pe!o sol luminoso das idéias.

Esse é 0 motivo pelo qual a educação não pode depender da biologia, da sociologia ou de qualquer outra ciência. O indi víduo biológico não é a socie dade e sociologia não tem an tenas para captar o indivíduo.

A educação é um tipo de posi cionamento

absolutamente ori

ginário e em confron^^ação com 0 qual os demais posicionamen tos se manifestam secundários.

Uma

filosofia

da

educação

quando bem entendida é na rea

lidade uma educação que tem consciência dos seus objetivos

filosóficos. 0 filósofo, segundo

Pode essa conceituaçâo va

a concepção platônica, é na rea lidade 0 educando que se trans

zada em estilo arcaico ser tra-

forma em educador. È na ver-


DIGESTO ECONÔMICO

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zão de ser. As sociedades que via em torno de si pareciam a Platão irreparáveis. É difí

to de Platão tem a perenidade de que os educadores contem porâneos não podem se jactar,

cil

a razão disso reside certamen te no fato de ter ele tido a co

reconstruir

uma

sociedade

que está em processo de de composição. Transpor,;adas pa ra dentro de nós mesmos a re

construção se torna fácil. Tudo depende de nós. Podemos dis tribuir 0 poder da maneira que nos pareça mais eficaz. Pode mos estabelecer deveres, criar responsabilidades, determinar

de educador que era compre endeu que as sociedaces po diam educar, mas também de

cente. O que há são sociedades em cujo seio a educação rou

so-

inútil ou da consolidação den tro do indivíduo da idéia de jus tiça? Em todo caso é esse in divíduo identificado com a idéia

de justiça que representa para Platão a finalidade da educa

ção; não a finalidade suprema que seria o Bem divino, mas a

finalidade segundo esquemas que 0 homem contemporâneo é capaz de assimilar. Não temos

aqui entãe um desmentido com pleto a essa idéia de que a fi

nalidade da educação é adap tar 0 indivíduo ao meio social em que vive? Se o pensamen-

duzida em algo de mais próxi mo a nós? Uma coisa pelo me nos se pode depreender dos en sinamentos de Platão: Do pon to de vista educacional o indi

primeiro cuidado que, ao iniciar

mia.

o seu trabalho, todo educador

Quer isto dizer que as so ciedades individualistas contem

ra 0 educador o indivíduo é a sociedade e a sociedade é o in divíduo.

seducar o indivíduo; e que o

os seus métodos vão

ciedade. Trata-se de um jogo

15

víduo, em certos casos, tem a obrigação de se refugiar den tro de si mesmo, em benefício da própria sociedade. A rela ção indivíduo-sociedade não é do ponto de vista educacional uma relação de antinomia. Pa

deverá ter é verificar se às mu

aperfeiçoamento da nessa

vado o contrário. Existem na

ções cultas e poderosas em que se desejaria que o indivíduo pensasse com um pouco mais de autonomia. Por que não o fa

zem? A explicação de que há povos mais ou menos ir dividua-

tegidos os verdadeiros interes ses da comunidade. Tudo isso

dida que vamos avançando no

ECONÔMICO

des do seu tempo. Como gran

ragem de dizer não às socieda

de que maneira podem ser pro

podemos fazer e refazer, à me

DIGESTO

danças e às modificações

que

determi

nar, poderá ser atribuído

um

sentido educacional.

Adaptar o indivíduo ao meio social em que vive pode for mar um tipo de indivíduo in capaz de julgar por si mesmo o que é justo. Pode de um mo do geral formar um tipo de in divíduo incapaz de julgar qual quer coisa por si mesmo. Seus pensamentos serão os pensa mentos da sociedade à qual está adaptado. Poderá haver fra casso maior em matéria edu cacional?! Inútil será dizer que este é um caso extremo e que a tendência de cada indivíduo

é pensar de modo diferente dos demais. A experiência tem pro-

listas me parece pouco conviri-

bou ao indivíduo a sua autono

porâneas estão mais próximas do ideal platônico? De modo al gum. O indivíduo platônico car rega dentro de si a sociedade ideal que ele mesmo c onstruiu. Seus compromissos com a so ciedade são ainda mais fortes

do que se ele se tivesse mercimente adaptado ao meio süciai. Ele é o purificador da at mosfera social. Seu objetivo é subir ao plano das idéias para tornar ainda mais claro e trans

parente 0 seu projeto políticosocial. É, também, descer de novo ao plano do sensível para finalmsnte projetar no mundo exterior esse projeto latificado pe!o sol luminoso das idéias.

Esse é 0 motivo pelo qual a educação não pode depender da biologia, da sociologia ou de qualquer outra ciência. O indi víduo biológico não é a socie dade e sociologia não tem an tenas para captar o indivíduo.

A educação é um tipo de posi cionamento

absolutamente ori

ginário e em confron^^ação com 0 qual os demais posicionamen tos se manifestam secundários.

Uma

filosofia

da

educação

quando bem entendida é na rea

lidade uma educação que tem consciência dos seus objetivos

filosóficos. 0 filósofo, segundo

Pode essa conceituaçâo va

a concepção platônica, é na rea lidade 0 educando que se trans

zada em estilo arcaico ser tra-

forma em educador. È na ver-


DIGESTO

16

dade

uma

das

anomalias

do

nosso tempo essa enorme pro liferação de educadores que olham com suspeita para o campo da filosofia entendida como disciplina autônoma. Não

existe educação, no sentido au têntico da palavra, sem filoso fia ligada a esse entendimen to. Mas não há dúvida de que

o mundo está coberto de ex^periências que representam ten

tativas de transformar o proje to educacional numa atividade inautêntica.

ECONÔMICO

dade do mundo contemporâneo entretanto é

de tal

natureza

que saber o que, num país de terminado, constitui a .educa ção "já feita” não é tarefa fá cil. A cultura que estava por .se fazer nos países da Europa dos primeiros séculos dependia naturalmente da educação já

feita dos gregos; a cultura que estava para se fazer nos países do Novo Mundo dependia da educação já feita do.s euro peus. Chegou-se finalmente a

uma situação .em que a socie

A educação representa co mo a cultura um posicionamen to absolutamente originário £● no período clássico as duas coisas estavam perfeitamenta repre

dade de um dos países do Novo Mundo, a sociedade estaduni dense se apresenta para uma

sentadas num conceito único. Mas com o correr do tempo a cultura passou a significar a

é capaz de oferecer o contexto adequado pai’a a cultura ainda por se fazer das sociedades de

educação que- já estava feita e a educação a cultura que ainda estava por se fazer. É por isso que atualmente nos encon tramos em uma situação em que

a educação só pode ser apre ciada dentro de um determina do contexto da cultura. A cul

tura que ainda está por se fa zer

deve

naturalmente levar

em consideração a educação que já está feita. A compLax!-

certa classe de educadores co

mo uma educação já feita que

DIGESTO

ECONÔMICO

tantes para qualquer sociedade. Esses objetivos são a liberda

de de seus membro.s em primeii’o lugar, o imperativo da organização social em segun do, e em último lugar a exigên cia da produção de bens cm abundância, suficicTite para as segurar a subsistência e o bem estar de todos os membros des sa sociedade. Não há dúvida de

que nenhuma sociedade do mundo contemporâneo atingiu mai.3 plenaments tais objetivos. Contrariamente a esse entendi-

mento se pode dizer que embo

ra sejam importantes e, por assim dizer, essenciais os ob jetivos que a educação permi tiu fossem alcançados pela so ciedade norte-americana, eiss não esgotam o complexo de fi nalidades que toda verdadeira

outros países desse mesmo No vo Mundo. Que argumento há a

educação deve tsr em vista. Um país que pretendia inaugu-

favor ou contrário a esse tendimento?

rar

en

A favor seguinte: a

se deve dizer o educação já feita

da sociedade

norte-americana

deve-se naturalmente atribuir o mérito da extrema capacidade

manifestada por essa sociedade

de abranger

objetivos impor-

uma nova fase na sua hi.>-

tória educacional agiria, a nosso ver, de modo desavisado se to masse como modelo para suas

reformas pedagógicas um tipo de educação já feita que nao fosse 0 mais completo possível. A bem dizer não vejo realmen te necessidade de se tomar co¬

17

mo modelo um tipo de educa ção já feita, já realizada numa sociedade que lhe é contempo rânea e que é escolhido unica mente pelos brilhantes resulta dos que apresentou no campo prático. A educação já feita, a cultura, é um patrimônio de

que dispõe a humanidade e que SD situa num plano intemporal, independente de vicissitudes históricas. Essa educação já feita, essa cültura foi, inclu

sive, conquistada por uma so ciedade que não apresentava brilhantes resultados no cam

po da prática. Constituiu entre tanto uma tal circunstância mo

tivo suficiente para que a Eu ropa dos primeiros séculos de pois de Cristo não se aproprias se de .suas vantagens e de seus benefícios?

não.

A

Evidentemente

inexistência

de

bri

lhantes resultados conseguidos por aquela sociedade no campo

da prática, havia sido ainplameiito compensada pela pleni tude. com que sua cultura indi cava 0 complexo de finalidades

que toda.

verdadeira educação

deve ter.

O modelo educacional que Um país jovem, em processo de


DIGESTO

16

dade

uma

das

anomalias

do

nosso tempo essa enorme pro liferação de educadores que olham com suspeita para o campo da filosofia entendida como disciplina autônoma. Não

existe educação, no sentido au têntico da palavra, sem filoso fia ligada a esse entendimen to. Mas não há dúvida de que

o mundo está coberto de ex^periências que representam ten

tativas de transformar o proje to educacional numa atividade inautêntica.

ECONÔMICO

dade do mundo contemporâneo entretanto é

de tal

natureza

que saber o que, num país de terminado, constitui a .educa ção "já feita” não é tarefa fá cil. A cultura que estava por .se fazer nos países da Europa dos primeiros séculos dependia naturalmente da educação já

feita dos gregos; a cultura que estava para se fazer nos países do Novo Mundo dependia da educação já feita do.s euro peus. Chegou-se finalmente a

uma situação .em que a socie

A educação representa co mo a cultura um posicionamen to absolutamente originário £● no período clássico as duas coisas estavam perfeitamenta repre

dade de um dos países do Novo Mundo, a sociedade estaduni dense se apresenta para uma

sentadas num conceito único. Mas com o correr do tempo a cultura passou a significar a

é capaz de oferecer o contexto adequado pai’a a cultura ainda por se fazer das sociedades de

educação que- já estava feita e a educação a cultura que ainda estava por se fazer. É por isso que atualmente nos encon tramos em uma situação em que

a educação só pode ser apre ciada dentro de um determina do contexto da cultura. A cul

tura que ainda está por se fa zer

deve

naturalmente levar

em consideração a educação que já está feita. A compLax!-

certa classe de educadores co

mo uma educação já feita que

DIGESTO

ECONÔMICO

tantes para qualquer sociedade. Esses objetivos são a liberda

de de seus membro.s em primeii’o lugar, o imperativo da organização social em segun do, e em último lugar a exigên cia da produção de bens cm abundância, suficicTite para as segurar a subsistência e o bem estar de todos os membros des sa sociedade. Não há dúvida de

que nenhuma sociedade do mundo contemporâneo atingiu mai.3 plenaments tais objetivos. Contrariamente a esse entendi-

mento se pode dizer que embo

ra sejam importantes e, por assim dizer, essenciais os ob jetivos que a educação permi tiu fossem alcançados pela so ciedade norte-americana, eiss não esgotam o complexo de fi nalidades que toda verdadeira

outros países desse mesmo No vo Mundo. Que argumento há a

educação deve tsr em vista. Um país que pretendia inaugu-

favor ou contrário a esse tendimento?

rar

en

A favor seguinte: a

se deve dizer o educação já feita

da sociedade

norte-americana

deve-se naturalmente atribuir o mérito da extrema capacidade

manifestada por essa sociedade

de abranger

objetivos impor-

uma nova fase na sua hi.>-

tória educacional agiria, a nosso ver, de modo desavisado se to masse como modelo para suas

reformas pedagógicas um tipo de educação já feita que nao fosse 0 mais completo possível. A bem dizer não vejo realmen te necessidade de se tomar co¬

17

mo modelo um tipo de educa ção já feita, já realizada numa sociedade que lhe é contempo rânea e que é escolhido unica mente pelos brilhantes resulta dos que apresentou no campo prático. A educação já feita, a cultura, é um patrimônio de

que dispõe a humanidade e que SD situa num plano intemporal, independente de vicissitudes históricas. Essa educação já feita, essa cültura foi, inclu

sive, conquistada por uma so ciedade que não apresentava brilhantes resultados no cam

po da prática. Constituiu entre tanto uma tal circunstância mo

tivo suficiente para que a Eu ropa dos primeiros séculos de pois de Cristo não se aproprias se de .suas vantagens e de seus benefícios?

não.

A

Evidentemente

inexistência

de

bri

lhantes resultados conseguidos por aquela sociedade no campo

da prática, havia sido ainplameiito compensada pela pleni tude. com que sua cultura indi cava 0 complexo de finalidades

que toda.

verdadeira educação

deve ter.

O modelo educacional que Um país jovem, em processo de


DIGESTO! ECONÔMICO

18

reformas

pedagógicas precisa

adotar, não deve, por conse guinte, ser escolhido segundo o critério de sucesso político, so cial e econômico dos países que utilizaram tal modelo. Esse

sucesso pode inclusive, em cer tos casos, ser atribuído às de

que

estamos

tentando dizer.

Mao quer nos parecer que

só

0 estudo aprofundado da obra platônica nos dará uma base e uma bússola capaz de nos onentar na tarefa extremamente ár dua e complexa de situar e apreender a verdadeira essên

ficiências no sistema educacio

nal do país bem sucedido. Um país jovem que está em proces so de reformas pedagógicas de

ve, em primeiro lugar, examinar

cia do fenômeno a que se dá o nome de educação. Nos livros

de

pedagogia

contemporânea

Platão é algumas vezes citado, sempre de passagem.

É

que tipo de educação já feita incorporou à sua história. Esse

mas

é um primeiro passo indispen sável que lhe permitirá em se

dos educadores atuais a valida de e a oportunidade de seus en sinamentos é questionável. Pre midos pela necessidade de equacionar o problema educa cional em função das priorida

guida executar o segundo,

o

mais difícil e o mais importan te: 0 passo que consiste em ve rificar em que medida essa ieducação já feita, já incorpo rada à sua história, coincide ou

diverge da

educação já feita,

patrimônio comum da humani dade e situada num plano in-

temporal, independente’das vicissitudes históricas.

Quer isto dizer que dsvemos no

se

fim do século XX, qua-

que nos

albores do século

XXI empregar nas nossas

es-

colas os métodos recomendados

por Platão?

Não, não é isto

evidente

des da

que para

a maioria

sociedade para a qual

soluções são procuradas, afas tam, sem hesitações, a reflexão platônica por lhes parecer estar ela essencialmente vinculada a uma forma de sociedade já de saparecida. A rigor, pensam eles, pode-se entender o inte resse que Platão desperta no campo da cultura; seria levar longe demais o gosto pelo arcaico estender esse interesse ao campo da pedagogia.

DIGESTO

19

ECONÔMICO

A cultura

contemporânea,

dizem os entendidos em moder

nidade, é uma cultura de espe cialistas. Não existe em

nossa

época grandes sínteses filosófi cas nem grandes visões de con junto. O momento é de crítica e de análise. Tendemos, no ter reno da cultura, para uma con centração cada vez maior so bre 0 detalhe, sobre o porme nor com significação própria. Como se pode, pois, esperar que o pedagogo se interesse por ou tra coisa que não seja a peda

se

tenha

levantado

alguma

grande síntese. Pode-se temer que a tendência à especializa ção se acentue cada vez mais e que a reversão dessa tendência, considerada necessária, nunca venha a se concretizar. A si tuação cultural de nossos tem pos, prejudicada por uma tal tendência, oferece o triste es petáculo de um campo onde ja zem uma série de problemas nati-mortos e que justamente não chegaram a respirar até a existência e a se articular co

mo questões

vivas, justamen

gogia e como imaginar que ele possa se entregar a devaneios que S.Ó são permissíveis no ter

deixá-los sufocar na miséria de

reno da cultura?

um

te por que era regra do campo nascimento

largado

ao

abandono.

A pergunta tem um aspec to assustador e que consiste no fato de parecer, à primeira vis ta propriamente irrespondível. A disciplina especializadora a que se quer submeter o peda gogo, como a uma camisa de força que lhe tolhesse os movi mentos, não 13'eria um caso iso lado na história da inteligência.

Todos os

pesquisadores,

nos

seus diversos campos, mais ou mienos aceitam essa disciplina. Pode-se lamentar que sobre esse trabalho diversificado não

A finalidade da educação é um desses problemas. Não há um só pedagogo em nossos tem pos capaz de dar uma resposta verdadeira a uma tal indaga ção. Em outras partes do no.3so trabalho já aludimos a essa questão mas convém agora examiná-la porque do exame penso .-resultar a evidência de

que a especialização, longe de dar Um cunho mais científico e

mais rigoroso à pesquisa inte lectual, como se costuma assi-


DIGESTO! ECONÔMICO

18

reformas

pedagógicas precisa

adotar, não deve, por conse guinte, ser escolhido segundo o critério de sucesso político, so cial e econômico dos países que utilizaram tal modelo. Esse

sucesso pode inclusive, em cer tos casos, ser atribuído às de

que

estamos

tentando dizer.

Mao quer nos parecer que

só

0 estudo aprofundado da obra platônica nos dará uma base e uma bússola capaz de nos onentar na tarefa extremamente ár dua e complexa de situar e apreender a verdadeira essên

ficiências no sistema educacio

nal do país bem sucedido. Um país jovem que está em proces so de reformas pedagógicas de

ve, em primeiro lugar, examinar

cia do fenômeno a que se dá o nome de educação. Nos livros

de

pedagogia

contemporânea

Platão é algumas vezes citado, sempre de passagem.

É

que tipo de educação já feita incorporou à sua história. Esse

mas

é um primeiro passo indispen sável que lhe permitirá em se

dos educadores atuais a valida de e a oportunidade de seus en sinamentos é questionável. Pre midos pela necessidade de equacionar o problema educa cional em função das priorida

guida executar o segundo,

o

mais difícil e o mais importan te: 0 passo que consiste em ve rificar em que medida essa ieducação já feita, já incorpo rada à sua história, coincide ou

diverge da

educação já feita,

patrimônio comum da humani dade e situada num plano in-

temporal, independente’das vicissitudes históricas.

Quer isto dizer que dsvemos no

se

fim do século XX, qua-

que nos

albores do século

XXI empregar nas nossas

es-

colas os métodos recomendados

por Platão?

Não, não é isto

evidente

des da

que para

a maioria

sociedade para a qual

soluções são procuradas, afas tam, sem hesitações, a reflexão platônica por lhes parecer estar ela essencialmente vinculada a uma forma de sociedade já de saparecida. A rigor, pensam eles, pode-se entender o inte resse que Platão desperta no campo da cultura; seria levar longe demais o gosto pelo arcaico estender esse interesse ao campo da pedagogia.

DIGESTO

19

ECONÔMICO

A cultura

contemporânea,

dizem os entendidos em moder

nidade, é uma cultura de espe cialistas. Não existe em

nossa

época grandes sínteses filosófi cas nem grandes visões de con junto. O momento é de crítica e de análise. Tendemos, no ter reno da cultura, para uma con centração cada vez maior so bre 0 detalhe, sobre o porme nor com significação própria. Como se pode, pois, esperar que o pedagogo se interesse por ou tra coisa que não seja a peda

se

tenha

levantado

alguma

grande síntese. Pode-se temer que a tendência à especializa ção se acentue cada vez mais e que a reversão dessa tendência, considerada necessária, nunca venha a se concretizar. A si tuação cultural de nossos tem pos, prejudicada por uma tal tendência, oferece o triste es petáculo de um campo onde ja zem uma série de problemas nati-mortos e que justamente não chegaram a respirar até a existência e a se articular co

mo questões

vivas, justamen

gogia e como imaginar que ele possa se entregar a devaneios que S.Ó são permissíveis no ter

deixá-los sufocar na miséria de

reno da cultura?

um

te por que era regra do campo nascimento

largado

ao

abandono.

A pergunta tem um aspec to assustador e que consiste no fato de parecer, à primeira vis ta propriamente irrespondível. A disciplina especializadora a que se quer submeter o peda gogo, como a uma camisa de força que lhe tolhesse os movi mentos, não 13'eria um caso iso lado na história da inteligência.

Todos os

pesquisadores,

nos

seus diversos campos, mais ou mienos aceitam essa disciplina. Pode-se lamentar que sobre esse trabalho diversificado não

A finalidade da educação é um desses problemas. Não há um só pedagogo em nossos tem pos capaz de dar uma resposta verdadeira a uma tal indaga ção. Em outras partes do no.3so trabalho já aludimos a essa questão mas convém agora examiná-la porque do exame penso .-resultar a evidência de

que a especialização, longe de dar Um cunho mais científico e

mais rigoroso à pesquisa inte lectual, como se costuma assi-


DIGESTO

20

nalar, ocasiona, com frequên cia, a total impossibilidade de equacionar

corretamente

um

porém,

ECONÔMICO

recebemos

uma ducha

de água fria ao constatar que as divergências que havia sus

problema. Os pioneiros do Ma

citado

nifesto brasileiro sobre a Edu¬

tas como coisas naturais já que provinham dos diferentes pon tos de vista de que pode ser apreciado o problema funda mental dos fins da educação.

cação Nova, por exemplo, voltejam em torno da quastão da fi nalidade da educação mas em nenhum momento

se arriscam

a dar uma definição definitiva. Há na Introdução ao Manifes to, assinada por Fernando de

Azevedo,

um capítulo sobre

o

problema fundamental dos Fins

da Educação. E o que aprende mos nele? — Aprendemos que "o problema da educação — í"' maior e o mais difícil problema propoato

ao

homem

se

transportou entre nós, de uma vez, da atmosfera confinada do empirismo didático para o ar livre do pensamento moderno, da rotina burocrática para as

idéias

político-sociais, e

dos

planos do imediatismo utilitário para o.s domínios das cogita-

ções científicas e filosóficas”.

0 Manifesto

eram

acei

Depois da ducha de água fria tudo o mais que se segue no capítulo só contribui para agravar o sentimento de decep ção. O capítulo intitulado o problema fundamental dos fins da educação é destinado prin cipalmente a mostrar que os fins da educação são vários e não podem ser perfeltamente definidos.

Já agora no Manifesto se volta novamente à questão dos fins da educação. O que se quer então é mostrar que a an tiga situação educacional do País se ressentia entre outras coisas de uma falta

de deter

DIGESTO

ECONÔMICO

21

fo e deve ter a sua filosofia da

os educandos .e que uns consi

educação;

deram

mas

trabalhando

na determinação dos fins da educação quanto também na determinação dos meios para realizá-los”. O raciocínio pare ce e.5tar certo. Estamos plena mente de acordo quanto ao in teresse na determinação doT

Mas 0 exame, num longo olhar para o passado, da evolução da educação através das diferen tes civilizações, nos ensina que

meios de realizar os fins

da

educação. Mas isso não no.s de sobriga a permanecer interes sados na determinação dos fins da educação. Vejamos se o Ma nifesto nos ensina algo difsnte do que havia sido consignado na Introdução assinada por Fernando de Azevedo.

O Manifesto tem um canitulo intitulado "Finalidades da

Educação”.

"Toda educação”

começa

dizendo

ele

“varia

sempre em função de um.a concepção de vida, refletindo em cada época a filosofia pre dominante que é determinada a

tinuássemos a leitura do capi-

tulo com curiosidade e mesmo

“Certo”, diz o Manifesto, "um

concepção

sofreguidão. Logo adiante,

educador pode bem sei’ filóso-

ideal, que devem conformar-se

da prometia realmente resulta dos

extraordinariamente

im

portantes e era natural que con com

e

outros concreto e relativo, va

minação dos fins da educação. Essa falta é identificada com uma falta de espírito filosófico. Mas mais adiante recebemos de nnvo a ducha de água fria.

A transferência assim anuncia

abstrato e absoluto

cirntificamente nesse terreno ele deve estar tão interessado

seu turno

pela estrutura

da

riável no

tempo e no espaço.

0 conteúdo real desse ideal va

riou sempre de acordo com a estrutura e as

tendências

so

ciais da época, extraindo sua vitalidade como sua força inspiradora da própria natureza da realidade social”.

Muito

bem.

Determinar

os

fins da educação significaria, pois, para os pioneiros do Ma

nifesto, registrar o fato de que a questão da finalidade da edu cação gira em torno de um ideal que seria o ideal da so

ciedade

brasileira — digamos

para encurtar as coisas, o ideal democrático. Acrescenta mos apenas rapidamente para completar o quadro da nossa exposição que a diversidade áz

sociedade... A questão primor

pontos de vista quanto à ques tão da determinação dos fins

dial das

da educação resultaria sempre

finalidades da educa

ção gira pois em torno de uma de

vida,

de

uni

segundo os

pioneiros simples

mente do fato da diversidade de classes sociais.


DIGESTO

20

nalar, ocasiona, com frequên cia, a total impossibilidade de equacionar

corretamente

um

porém,

ECONÔMICO

recebemos

uma ducha

de água fria ao constatar que as divergências que havia sus

problema. Os pioneiros do Ma

citado

nifesto brasileiro sobre a Edu¬

tas como coisas naturais já que provinham dos diferentes pon tos de vista de que pode ser apreciado o problema funda mental dos fins da educação.

cação Nova, por exemplo, voltejam em torno da quastão da fi nalidade da educação mas em nenhum momento

se arriscam

a dar uma definição definitiva. Há na Introdução ao Manifes to, assinada por Fernando de

Azevedo,

um capítulo sobre

o

problema fundamental dos Fins

da Educação. E o que aprende mos nele? — Aprendemos que "o problema da educação — í"' maior e o mais difícil problema propoato

ao

homem

se

transportou entre nós, de uma vez, da atmosfera confinada do empirismo didático para o ar livre do pensamento moderno, da rotina burocrática para as

idéias

político-sociais, e

dos

planos do imediatismo utilitário para o.s domínios das cogita-

ções científicas e filosóficas”.

0 Manifesto

eram

acei

Depois da ducha de água fria tudo o mais que se segue no capítulo só contribui para agravar o sentimento de decep ção. O capítulo intitulado o problema fundamental dos fins da educação é destinado prin cipalmente a mostrar que os fins da educação são vários e não podem ser perfeltamente definidos.

Já agora no Manifesto se volta novamente à questão dos fins da educação. O que se quer então é mostrar que a an tiga situação educacional do País se ressentia entre outras coisas de uma falta

de deter

DIGESTO

ECONÔMICO

21

fo e deve ter a sua filosofia da

os educandos .e que uns consi

educação;

deram

mas

trabalhando

na determinação dos fins da educação quanto também na determinação dos meios para realizá-los”. O raciocínio pare ce e.5tar certo. Estamos plena mente de acordo quanto ao in teresse na determinação doT

Mas 0 exame, num longo olhar para o passado, da evolução da educação através das diferen tes civilizações, nos ensina que

meios de realizar os fins

da

educação. Mas isso não no.s de sobriga a permanecer interes sados na determinação dos fins da educação. Vejamos se o Ma nifesto nos ensina algo difsnte do que havia sido consignado na Introdução assinada por Fernando de Azevedo.

O Manifesto tem um canitulo intitulado "Finalidades da

Educação”.

"Toda educação”

começa

dizendo

ele

“varia

sempre em função de um.a concepção de vida, refletindo em cada época a filosofia pre dominante que é determinada a

tinuássemos a leitura do capi-

tulo com curiosidade e mesmo

“Certo”, diz o Manifesto, "um

concepção

sofreguidão. Logo adiante,

educador pode bem sei’ filóso-

ideal, que devem conformar-se

da prometia realmente resulta dos

extraordinariamente

im

portantes e era natural que con com

e

outros concreto e relativo, va

minação dos fins da educação. Essa falta é identificada com uma falta de espírito filosófico. Mas mais adiante recebemos de nnvo a ducha de água fria.

A transferência assim anuncia

abstrato e absoluto

cirntificamente nesse terreno ele deve estar tão interessado

seu turno

pela estrutura

da

riável no

tempo e no espaço.

0 conteúdo real desse ideal va

riou sempre de acordo com a estrutura e as

tendências

so

ciais da época, extraindo sua vitalidade como sua força inspiradora da própria natureza da realidade social”.

Muito

bem.

Determinar

os

fins da educação significaria, pois, para os pioneiros do Ma

nifesto, registrar o fato de que a questão da finalidade da edu cação gira em torno de um ideal que seria o ideal da so

ciedade

brasileira — digamos

para encurtar as coisas, o ideal democrático. Acrescenta mos apenas rapidamente para completar o quadro da nossa exposição que a diversidade áz

sociedade... A questão primor

pontos de vista quanto à ques tão da determinação dos fins

dial das

da educação resultaria sempre

finalidades da educa

ção gira pois em torno de uma de

vida,

de

uni

segundo os

pioneiros simples

mente do fato da diversidade de classes sociais.


DIGESTO ECONÔMICO

22

Depois do escrutínio minu cioso do texto que estamos considerando não podemos evi tar a impressão de que fomos burlados em qualquer coisa. Nosso interesse era saber se o

Manifesto havia podido deter minar quais eram os fins da educação e o que nos foi dito

foi que os fins eram vários, va-

riavam segundo as épocas ’e as sociedades e que na sociedade brasileira contemporânea ele se

fixava em tomo de um ideal democrático, biológico e nao aristológico, socializante e cientifico, funcional e estatizante. A bem dizer,

esses diferentes

tipos de ideal não esgotam a longa série de idéias que podem ser enumeradas nas sociedades contemporâneas. Esses ideais

são mesmo tão numerosos que seria talvez permitido duvidar de que fossem realmente ideais. Seria

ta

sem dúvida mais'

considerá-los

realis

experiências

qu€' uma sociedade tenta reali zar e só depois de haverem essas experiências logrado um estrondoso sucesso atribuir-lhes o título de ideais. A observação

que fazemos nos parece ter ple no cabimento

porque o que os

pioneiros do Manifesto nos pro-

põem é que os fins da educa ção girem em torno de ideais que

nao

verdadedramente

sao

ideais, mais simples experiên cias que podem em muitos ca¬ sos malograr. Todos

nós

evidentemente

aspiramos pela existência

de

um Brasil democrático.

Mas

pode-se dizer em sã consciência que a Democracia no Brasil está de tal

modo consolidada

que só uma educação que gire em torno do ideal democrático

tenha no País

alguma viabili

dade? A mim me parece que estames aqui diante de um gi gantesco "wishful thinking”. A mim me parece que lestamos aqui mais uma vez copiando o estrangeiro. É preciso não con fundir a necessidade que todos nós sentimos de implantar a Democracia no nosso país com as simpatias que* naturalmente temos por tudo quanto tem uma origem le um saber demo crático. É um projeto extrema mente discutível esse que

con

siste em procurar implantar

a

Democracia no Brasil através

da implantação de um sistema educacional democrático. É um

DIGESTO ECONÔMICO

23

projeto, aliás, que não deveria ser apoiado pelos pioneiros do Manifesto pois segundo eles os fins da educação no Brasil deveriam

girar

em tomo

dos

ideais da

sociedade brasüeira

— e já vimos que a sociedade brasileira não é nem democrá

tica, nem socializante, nem im buída de espírito científico.

Tecnologicamente, as indústrias européias estão firaTldn L. u

atrás — Europa encontra-se no prelúdio de uma nova revoa 0 lução industrial, a qual, graças aos novos desenvolvimen

tos

nos setores de informática e eletrônica, trará consigo transformações da mesma profundidade que a invenção da máquina a vapor fez no sé culo 19. Isto é uma afirmação de Michel Albert, antigo ministro fran cês de planejamento e co-autor do livro “O desafio americano”, proferi da na ocasião de uma discussão sobre questões econômicas, realizada na cidade de Alpbach. Mas, pela primeira vez na sua história, pjrosseguiu o orador, a Europa não se encontra mais na frente das grandess inovações industriais. Desta forma, entre os dez maiores fabricantes de micropro cessadores no mundo não há nenhuma empresa européia. Quanto às téc

nicas que vão causar a revolução tecnológica, os USA e o Japão deixaram para trás os europeus, constatou o político de economia francês. Ele advertiu que, caso a indústria européia não consiga recuperar o atraso e caso não haja concomitantemente mudanças econômicas profundas, a Europa entrará numa fase de decadência. A consequência inevitável seria a redução da capacidade competidora e falta de trabalho. Os enormes progressos técnicos na informática delxarom-nos conscientes dos erros

profundos cometidos pelos europeus quando eles se concentraram

na

sua

Integração econômica principalmente nos setores do passado, como por exemplo carvão e agricultura, deixando de lado os setores a-ltamente pro missores do futuro como a indústria atômica ou a informática, disse Albert. Não obstante, ele finalizou as suas exposições nas discussões

havidas

em

Alpbach com ligeiro otimismo. Os Europeus, em virtude do padrão eleva do da sua cultura, ainda teriam boas chances para recuperar o seu des cuido, de forma que a indústria européia com pleno aproveitamento dtos seus recursos, no lim do século, pudesse esperar uma renascença. Também

o presidente da Confederação Alemã de Indústria e Comércio,

Otto ”Wlolff

von Amerongen, intei-veio nas discussões de Alpbach. Ele ocupou-se das mudanças necessárias nas estruturas industriais, aludindo também às re-

lações delicadas entre governo e economia. A mudança da

estrutura

eco-

nómica seria questão da economia, devendo-se ficar assim, destacou Amefongen. A tarefa do governo seria não impedir esta mudança de estrutura

(Continua na página 41)


DIGESTO ECONÔMICO

22

Depois do escrutínio minu cioso do texto que estamos considerando não podemos evi tar a impressão de que fomos burlados em qualquer coisa. Nosso interesse era saber se o

Manifesto havia podido deter minar quais eram os fins da educação e o que nos foi dito

foi que os fins eram vários, va-

riavam segundo as épocas ’e as sociedades e que na sociedade brasileira contemporânea ele se

fixava em tomo de um ideal democrático, biológico e nao aristológico, socializante e cientifico, funcional e estatizante. A bem dizer,

esses diferentes

tipos de ideal não esgotam a longa série de idéias que podem ser enumeradas nas sociedades contemporâneas. Esses ideais

são mesmo tão numerosos que seria talvez permitido duvidar de que fossem realmente ideais. Seria

ta

sem dúvida mais'

considerá-los

realis

experiências

qu€' uma sociedade tenta reali zar e só depois de haverem essas experiências logrado um estrondoso sucesso atribuir-lhes o título de ideais. A observação

que fazemos nos parece ter ple no cabimento

porque o que os

pioneiros do Manifesto nos pro-

põem é que os fins da educa ção girem em torno de ideais que

nao

verdadedramente

sao

ideais, mais simples experiên cias que podem em muitos ca¬ sos malograr. Todos

nós

evidentemente

aspiramos pela existência

de

um Brasil democrático.

Mas

pode-se dizer em sã consciência que a Democracia no Brasil está de tal

modo consolidada

que só uma educação que gire em torno do ideal democrático

tenha no País

alguma viabili

dade? A mim me parece que estames aqui diante de um gi gantesco "wishful thinking”. A mim me parece que lestamos aqui mais uma vez copiando o estrangeiro. É preciso não con fundir a necessidade que todos nós sentimos de implantar a Democracia no nosso país com as simpatias que* naturalmente temos por tudo quanto tem uma origem le um saber demo crático. É um projeto extrema mente discutível esse que

con

siste em procurar implantar

a

Democracia no Brasil através

da implantação de um sistema educacional democrático. É um

DIGESTO ECONÔMICO

23

projeto, aliás, que não deveria ser apoiado pelos pioneiros do Manifesto pois segundo eles os fins da educação no Brasil deveriam

girar

em tomo

dos

ideais da

sociedade brasüeira

— e já vimos que a sociedade brasileira não é nem democrá

tica, nem socializante, nem im buída de espírito científico.

Tecnologicamente, as indústrias européias estão firaTldn L. u

atrás — Europa encontra-se no prelúdio de uma nova revoa 0 lução industrial, a qual, graças aos novos desenvolvimen

tos

nos setores de informática e eletrônica, trará consigo transformações da mesma profundidade que a invenção da máquina a vapor fez no sé culo 19. Isto é uma afirmação de Michel Albert, antigo ministro fran cês de planejamento e co-autor do livro “O desafio americano”, proferi da na ocasião de uma discussão sobre questões econômicas, realizada na cidade de Alpbach. Mas, pela primeira vez na sua história, pjrosseguiu o orador, a Europa não se encontra mais na frente das grandess inovações industriais. Desta forma, entre os dez maiores fabricantes de micropro cessadores no mundo não há nenhuma empresa européia. Quanto às téc

nicas que vão causar a revolução tecnológica, os USA e o Japão deixaram para trás os europeus, constatou o político de economia francês. Ele advertiu que, caso a indústria européia não consiga recuperar o atraso e caso não haja concomitantemente mudanças econômicas profundas, a Europa entrará numa fase de decadência. A consequência inevitável seria a redução da capacidade competidora e falta de trabalho. Os enormes progressos técnicos na informática delxarom-nos conscientes dos erros

profundos cometidos pelos europeus quando eles se concentraram

na

sua

Integração econômica principalmente nos setores do passado, como por exemplo carvão e agricultura, deixando de lado os setores a-ltamente pro missores do futuro como a indústria atômica ou a informática, disse Albert. Não obstante, ele finalizou as suas exposições nas discussões

havidas

em

Alpbach com ligeiro otimismo. Os Europeus, em virtude do padrão eleva do da sua cultura, ainda teriam boas chances para recuperar o seu des cuido, de forma que a indústria européia com pleno aproveitamento dtos seus recursos, no lim do século, pudesse esperar uma renascença. Também

o presidente da Confederação Alemã de Indústria e Comércio,

Otto ”Wlolff

von Amerongen, intei-veio nas discussões de Alpbach. Ele ocupou-se das mudanças necessárias nas estruturas industriais, aludindo também às re-

lações delicadas entre governo e economia. A mudança da

estrutura

eco-

nómica seria questão da economia, devendo-se ficar assim, destacou Amefongen. A tarefa do governo seria não impedir esta mudança de estrutura

(Continua na página 41)


LUIZ PEREIRA BARRETO O perfil de um grande cientista brasileiro. O autor é professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Membro da Academia Paulista de Letras.

A.C.

Ainda adolescente, aos quin ze anos de idade, Luiz Pereira Barreto foi encaminhado por seus pais para a Bélgica, onde termina os seus preparatórios,

Diário do Comércio - noticiário variado, consuitório jurídico, orientação

legal, editais de cartórios de protestos, falências e concordatas, declarações á praça, convocações, atas e balanços de sociedades e bancos, manifestos de importação, movimento dos portos, mercados, Bolsas, câmbio, etc., estão nas páginas do Diário do Comércio.

matriculando-se

ligência, amor aos estudos e curiosidade científica.

Calendário Fiscal - Financiamento e Desenvolvimento - são publicações do

Departamento de Publicações Especiais que abordam assuntos de interesse

dos empresários para a solução dos problemas d'p dia-a-dia.

Rua Boa Vista. 51 - C. Postal 8082 — Cop 01014 - Telex (11) 23355 - SP - PABX 239-1333.

Faculdade

de Medicina de Bruxelas, destacando-se logo pela sua inte

Digesto Econômico - Revista especializada bimensal que aborda assuntos gerais assinados pelos maiores expoentes da intelectualidade brasileira e internacional. , ’

Associe-se à ACSP e receba os benefícios de suas publicações.

na

.

Pacheco e Silva

deira revolução, tantas e tama nhas foram as descobertas rea

lizadas naquela época: Pasteur acabara de fundamentar a teo

ria microbiana, demonstrando que a maioria das doenças são consequentes a minúsculos germens,

só

visíveis

ao

micros

cópio, com objetivas de grande potência.

Durante o seu curso, teve ele a oportunidade de acompa nhar os grandes progressos realizados pela medicina que

imprimira grandes avanços à fisiologia, descobrindo numero

passou, então, por uma verda-

mal, mercê dos métodos posi-

O genial

Claude

Bernard

sas funções do organismo ani


LUIZ PEREIRA BARRETO O perfil de um grande cientista brasileiro. O autor é professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Membro da Academia Paulista de Letras.

A.C.

Ainda adolescente, aos quin ze anos de idade, Luiz Pereira Barreto foi encaminhado por seus pais para a Bélgica, onde termina os seus preparatórios,

Diário do Comércio - noticiário variado, consuitório jurídico, orientação

legal, editais de cartórios de protestos, falências e concordatas, declarações á praça, convocações, atas e balanços de sociedades e bancos, manifestos de importação, movimento dos portos, mercados, Bolsas, câmbio, etc., estão nas páginas do Diário do Comércio.

matriculando-se

ligência, amor aos estudos e curiosidade científica.

Calendário Fiscal - Financiamento e Desenvolvimento - são publicações do

Departamento de Publicações Especiais que abordam assuntos de interesse

dos empresários para a solução dos problemas d'p dia-a-dia.

Rua Boa Vista. 51 - C. Postal 8082 — Cop 01014 - Telex (11) 23355 - SP - PABX 239-1333.

Faculdade

de Medicina de Bruxelas, destacando-se logo pela sua inte

Digesto Econômico - Revista especializada bimensal que aborda assuntos gerais assinados pelos maiores expoentes da intelectualidade brasileira e internacional. , ’

Associe-se à ACSP e receba os benefícios de suas publicações.

na

.

Pacheco e Silva

deira revolução, tantas e tama nhas foram as descobertas rea

lizadas naquela época: Pasteur acabara de fundamentar a teo

ria microbiana, demonstrando que a maioria das doenças são consequentes a minúsculos germens,

só

visíveis

ao

micros

cópio, com objetivas de grande potência.

Durante o seu curso, teve ele a oportunidade de acompa nhar os grandes progressos realizados pela medicina que

imprimira grandes avanços à fisiologia, descobrindo numero

passou, então, por uma verda-

mal, mercê dos métodos posi-

O genial

Claude

Bernard

sas funções do organismo ani


DIGESTO

26

ECONÔMICO

tivos, fundados na observação

das Nevroses em Geral”,

e na experimentação.

reira Barreto buscou estabele cer relacionamento entre as

Lamarck e Darwin haviam

Pe

dado extraordinárias contribui

afecções gástricas e o psiquis-

ções nos domínios da heredita

mo,

riedade, da genética e da va

geral da moléstia, que é a ba se fundamental da patologia

riação das espécies. Bem se pode imaginar a ex traordinária

influência

exerci

da por todos esses eventos, so bre 0 espírito do jovem estu

dante,

apaixonado

pela

sua

profissão e cientista por tem peramento. Terminados os

seus

estu

dos, conquanto pudesse prosse guir

seus trabalhos na escola

onde lograra conquistar posi

ção

ímpar,

preferiu

Barreto

voltar para o Brasil, com o es

pírito povoado de novas idéias, ansioso por implantá-las em nossa terra, saudoso dos seus pagos.

UM PRECURSOR DA MEDICINA PSICOSSOMÁTICA Em sua tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio

de Janeiro, para revalidar o seu diploma de médico, apro vada com distinção, intitulada: “A Teoria das

Gastralgias

e

ponderando:

“Esta

teoria

positiva, já tinha sido pressen tida para o caso especial das nevroses por muitos observa dores”, citando Dumas no ori ginal: “Le

cerveau

et

les

nerfs

ont des connexions si étroites, si nombreuses, avec toutes les

parties du corps qu'il est im possible de fixer positivement un siége et des limites aux affections du système nerveux. La plupart de ces affections existent dans le cerveau, qui les communique à toutes les parties sur les quelles il agit, et dont lui même éprouve réciproquement la réaction, mais il y en a plusieurs qui sont bornées aux divisions nerveuses, d'oü les organes les plus im-

27

DIGESTO ECONÔMICO

cimentos de fisiologia experi mental, de bioquímica e de neurologia, excepcionais para a época em que viveu, ponde rando:

"Muitos e

muitos

fenôme

nos subjetivos puderam atingir em cérebros, esgotados pelo jejum e pelas súplicas, um al to grau de intensidade e cons tituir

verdadeiros casos

pato

lógicos, verdadeiras nevroses. Gerações inteiras, durante a Idade Média, foram testemu nhas desses fatos.

Incapaz

o

Nesta

sua

tese.

Pereira

Barreto revelou sólidos conhe-

PUREZA DE SENTIMENTOS dedicou

a

sua tese inaugural a numero

sos parentes e amigos fazendo,

dio.

A anarquia (que nos seja

permitido este termo) é hoje tal que, em um livro muito co

nhecido, reimpresso em 1857 e que se acha entre as mãos de todos os estudantes, vemos a

sífilis!”.

ment et du mouvement”.

somática.

entretanto, especial menção à sua extremosa Mãe:

bas ventre et de la poitrine, repríncipe du senti-

plena

achou mais fácil negálos... é um meio como qualquer outro de cortar o nó gór-

dias

hipocondria figurar ao lado... do escorbuto, do diabete e da

le

psíquicas, justificando,

mente, a sua inclusão entre os pioneiros da medicina psicos-

nossos

portants comme les viscéres du

çoivent

vismo, Contudo, este trabalho não deixa de ter excepcional valor, pelo fato de haver o seu autor estabelecido, de forma precisa, as relações existentes entre as funções somáticas e

Pereira Barreto

de explicá-los,

ceticismo científico de

demonstrar o apego de Pereira Barreto pelo criador do Positi

Ressente-se,

sem

dúvida.

esta tese magnífica de marca

da impregnação dos princípios filosóficos de Augusto Comte, a

Fostes vós, que me ensi nastes a votar um incessante culto

aos

santos atributos

do

coração. Fostes vós, que me fizestes compreender o quanto a vida da inteligência é vã e

árida, sem os afetos da ternu ra. Fostes vós, que me revelas

tes, em toda a sua grandeza, a superioridade moral e a preeminência efetiva da candura feminina_

Permiti, pois, que eu vos dedique este primeiro fruto de


DIGESTO

26

ECONÔMICO

tivos, fundados na observação

das Nevroses em Geral”,

e na experimentação.

reira Barreto buscou estabele cer relacionamento entre as

Lamarck e Darwin haviam

Pe

dado extraordinárias contribui

afecções gástricas e o psiquis-

ções nos domínios da heredita

mo,

riedade, da genética e da va

geral da moléstia, que é a ba se fundamental da patologia

riação das espécies. Bem se pode imaginar a ex traordinária

influência

exerci

da por todos esses eventos, so bre 0 espírito do jovem estu

dante,

apaixonado

pela

sua

profissão e cientista por tem peramento. Terminados os

seus

estu

dos, conquanto pudesse prosse guir

seus trabalhos na escola

onde lograra conquistar posi

ção

ímpar,

preferiu

Barreto

voltar para o Brasil, com o es

pírito povoado de novas idéias, ansioso por implantá-las em nossa terra, saudoso dos seus pagos.

UM PRECURSOR DA MEDICINA PSICOSSOMÁTICA Em sua tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio

de Janeiro, para revalidar o seu diploma de médico, apro vada com distinção, intitulada: “A Teoria das

Gastralgias

e

ponderando:

“Esta

teoria

positiva, já tinha sido pressen tida para o caso especial das nevroses por muitos observa dores”, citando Dumas no ori ginal: “Le

cerveau

et

les

nerfs

ont des connexions si étroites, si nombreuses, avec toutes les

parties du corps qu'il est im possible de fixer positivement un siége et des limites aux affections du système nerveux. La plupart de ces affections existent dans le cerveau, qui les communique à toutes les parties sur les quelles il agit, et dont lui même éprouve réciproquement la réaction, mais il y en a plusieurs qui sont bornées aux divisions nerveuses, d'oü les organes les plus im-

27

DIGESTO ECONÔMICO

cimentos de fisiologia experi mental, de bioquímica e de neurologia, excepcionais para a época em que viveu, ponde rando:

"Muitos e

muitos

fenôme

nos subjetivos puderam atingir em cérebros, esgotados pelo jejum e pelas súplicas, um al to grau de intensidade e cons tituir

verdadeiros casos

pato

lógicos, verdadeiras nevroses. Gerações inteiras, durante a Idade Média, foram testemu nhas desses fatos.

Incapaz

o

Nesta

sua

tese.

Pereira

Barreto revelou sólidos conhe-

PUREZA DE SENTIMENTOS dedicou

a

sua tese inaugural a numero

sos parentes e amigos fazendo,

dio.

A anarquia (que nos seja

permitido este termo) é hoje tal que, em um livro muito co

nhecido, reimpresso em 1857 e que se acha entre as mãos de todos os estudantes, vemos a

sífilis!”.

ment et du mouvement”.

somática.

entretanto, especial menção à sua extremosa Mãe:

bas ventre et de la poitrine, repríncipe du senti-

plena

achou mais fácil negálos... é um meio como qualquer outro de cortar o nó gór-

dias

hipocondria figurar ao lado... do escorbuto, do diabete e da

le

psíquicas, justificando,

mente, a sua inclusão entre os pioneiros da medicina psicos-

nossos

portants comme les viscéres du

çoivent

vismo, Contudo, este trabalho não deixa de ter excepcional valor, pelo fato de haver o seu autor estabelecido, de forma precisa, as relações existentes entre as funções somáticas e

Pereira Barreto

de explicá-los,

ceticismo científico de

demonstrar o apego de Pereira Barreto pelo criador do Positi

Ressente-se,

sem

dúvida.

esta tese magnífica de marca

da impregnação dos princípios filosóficos de Augusto Comte, a

Fostes vós, que me ensi nastes a votar um incessante culto

aos

santos atributos

do

coração. Fostes vós, que me fizestes compreender o quanto a vida da inteligência é vã e

árida, sem os afetos da ternu ra. Fostes vós, que me revelas

tes, em toda a sua grandeza, a superioridade moral e a preeminência efetiva da candura feminina_

Permiti, pois, que eu vos dedique este primeiro fruto de


DIGESTO

2B

meu trabalho, como um pe nhor do grande amor, que vos

ECONÔMICO

to decidiu iniciar a sua carrei

DIGESTO ECONÔMICO

ünde só se podia chegar a pé ou a cavalo. Nada, porém, in timidava 0 jovem clínico, que a tudo se sujeitava, como um

ra profissional em Jacareí, pequena cidade do Vale do Paraíba, onde viviam nobres do Império, entregues à cultu ra do café, que representava então a principal riqueza da

autêntico sacerdote.

traduzem bem, em toda a sua inteireza, a,delicadeza de sentimentos e a sua preocupação em demons trar gratidão àquela que lhe havia traçado os nobres cami nhos por onde orientou a sua

regiao.

raente dedicado à clínica e aos

Grande contraste existia, evidentemente, entre a vida na cidade de Bruxelas, capital eu-

verdadeiro

vida de sábio humanitário.

Disse, com muita felicida de, 0 professor Roque Spencer

margem do lendário Rio Paraí ba, por ele escolliido para ini ciar a sua carreira profissional.

Maciel .de Barros, na “Intro dução das Obras EUosóficas de

Contudo, não tardou o jo vem médico a nele se integrar

consagro.

Aceita-o, minha terna mãe,

e abençoai-me, para que siga sempre

o

caminho

da virtude

e do dever”. Estas palavras

repéia de civilização avançada, em cuja Universidade estuda ra, e 0 pequenino burgo, à

Em Jacareí, viveu Pereira Barreto de 1868 a 1882, inteiraestudos

filosóficos,

qual

um

asceta.

Inimigo do luxo e do faus to. filósofo e humanista, de rl

gidos princípios morais, médi co por vocação, sentia-s? ele perfeitamente realizado e feliz, entre aquela gente humilde e extreraamente piedosa.

plomado na Europa, generoso e

Não saíam os jacareienses da sua rotina habitual, entre gues a árduos trabalhos, senão para participar de festas reli giosas, realizadas com' grande aparato. Das janelas dos so-

humanitário, correu mundo, al

bradões

perplexo ante a sabedoria, os

cançando todo 0 vale paraiba no, de onde acorriam numero

viam-se enormes

le cuja memória hoje reveren

sos pacientes, que ele acudia sem distinção de classes, com a mesma atenção e dedicação. A clínica exigia, naquele tempo, inauditos sacrifícios do

Luís Pereira Barreto", ter si do ele uma das mais significa tivas figuras do pensamento nacional. Realmente, ao per correr os textos coligidos por este ilustre professor, fica-se

conhecimentos filosóficos, mé dicos e a cultura geral daque ciamos.

INÍCIO DA CARREIRA

e a conviver na maior harmonia com seus habitantes. A sua fa

ma de médico competente, di

MÉDICA EM JACAREÍ

médico da roça, obrigado a vi sitar doentes, impedidos de se

Habilitado a exercer a me

locomoverem, residente em pequenos povoados e fazendas,

dicina no Brasil, Pereira Barre-

coloniais,

residências

mais

como

das

modsstas, colchas

ren

dadas, cuidadosamente borda das à mão, fruto do artesanato

tivas

irmandades.

eram cobertas de pedregulho, folhas

ruas

serragem, e flores,

com os quais se faziam dese

nhos geométricos, a exigir muita paciência, dotes artísticos e grande devoção dos seus au tores.

Profundamente trados, os romeiros vam lentamente,

cânticos

compene caminha entoando

religiosos, rezando e

invocando os padroeiros da ci dade, rogando a Deus pelos

seus fiéis, como o fazem ainda hoje, dos

a despeito do perpassar anos.

.

Pereira Barreto, conquanto agnóstico, admirava e respeita va as crenças daquela gente simples, catóücos fervorosos, impregnados de elevada moral

cristã. Catorze longos anos vi veu ele naquela cidade, onde até hoje o seu nome é lembra do como um grande benfeitor por sucessivas gerações. O

local.

À noite, eram as ruas ilu* minadas por lanternas e lampeões colocados nas sacadas, a indicar os caminhos por onde deveríam passar os devotos, vestidos com opas das respec-

As

FILÓSOFO

Pereira Barreto foi um fi

lósofo

profundo,

apegado

ao

positivismo de Augusto Comte, que contava muitos adeptos en tre os nossos republicanos his

tóricos.

Prevaleceu-se

ele, no


DIGESTO

2B

meu trabalho, como um pe nhor do grande amor, que vos

ECONÔMICO

to decidiu iniciar a sua carrei

DIGESTO ECONÔMICO

ünde só se podia chegar a pé ou a cavalo. Nada, porém, in timidava 0 jovem clínico, que a tudo se sujeitava, como um

ra profissional em Jacareí, pequena cidade do Vale do Paraíba, onde viviam nobres do Império, entregues à cultu ra do café, que representava então a principal riqueza da

autêntico sacerdote.

traduzem bem, em toda a sua inteireza, a,delicadeza de sentimentos e a sua preocupação em demons trar gratidão àquela que lhe havia traçado os nobres cami nhos por onde orientou a sua

regiao.

raente dedicado à clínica e aos

Grande contraste existia, evidentemente, entre a vida na cidade de Bruxelas, capital eu-

verdadeiro

vida de sábio humanitário.

Disse, com muita felicida de, 0 professor Roque Spencer

margem do lendário Rio Paraí ba, por ele escolliido para ini ciar a sua carreira profissional.

Maciel .de Barros, na “Intro dução das Obras EUosóficas de

Contudo, não tardou o jo vem médico a nele se integrar

consagro.

Aceita-o, minha terna mãe,

e abençoai-me, para que siga sempre

o

caminho

da virtude

e do dever”. Estas palavras

repéia de civilização avançada, em cuja Universidade estuda ra, e 0 pequenino burgo, à

Em Jacareí, viveu Pereira Barreto de 1868 a 1882, inteiraestudos

filosóficos,

qual

um

asceta.

Inimigo do luxo e do faus to. filósofo e humanista, de rl

gidos princípios morais, médi co por vocação, sentia-s? ele perfeitamente realizado e feliz, entre aquela gente humilde e extreraamente piedosa.

plomado na Europa, generoso e

Não saíam os jacareienses da sua rotina habitual, entre gues a árduos trabalhos, senão para participar de festas reli giosas, realizadas com' grande aparato. Das janelas dos so-

humanitário, correu mundo, al

bradões

perplexo ante a sabedoria, os

cançando todo 0 vale paraiba no, de onde acorriam numero

viam-se enormes

le cuja memória hoje reveren

sos pacientes, que ele acudia sem distinção de classes, com a mesma atenção e dedicação. A clínica exigia, naquele tempo, inauditos sacrifícios do

Luís Pereira Barreto", ter si do ele uma das mais significa tivas figuras do pensamento nacional. Realmente, ao per correr os textos coligidos por este ilustre professor, fica-se

conhecimentos filosóficos, mé dicos e a cultura geral daque ciamos.

INÍCIO DA CARREIRA

e a conviver na maior harmonia com seus habitantes. A sua fa

ma de médico competente, di

MÉDICA EM JACAREÍ

médico da roça, obrigado a vi sitar doentes, impedidos de se

Habilitado a exercer a me

locomoverem, residente em pequenos povoados e fazendas,

dicina no Brasil, Pereira Barre-

coloniais,

residências

mais

como

das

modsstas, colchas

ren

dadas, cuidadosamente borda das à mão, fruto do artesanato

tivas

irmandades.

eram cobertas de pedregulho, folhas

ruas

serragem, e flores,

com os quais se faziam dese

nhos geométricos, a exigir muita paciência, dotes artísticos e grande devoção dos seus au tores.

Profundamente trados, os romeiros vam lentamente,

cânticos

compene caminha entoando

religiosos, rezando e

invocando os padroeiros da ci dade, rogando a Deus pelos

seus fiéis, como o fazem ainda hoje, dos

a despeito do perpassar anos.

.

Pereira Barreto, conquanto agnóstico, admirava e respeita va as crenças daquela gente simples, catóücos fervorosos, impregnados de elevada moral

cristã. Catorze longos anos vi veu ele naquela cidade, onde até hoje o seu nome é lembra do como um grande benfeitor por sucessivas gerações. O

local.

À noite, eram as ruas ilu* minadas por lanternas e lampeões colocados nas sacadas, a indicar os caminhos por onde deveríam passar os devotos, vestidos com opas das respec-

As

FILÓSOFO

Pereira Barreto foi um fi

lósofo

profundo,

apegado

ao

positivismo de Augusto Comte, que contava muitos adeptos en tre os nossos republicanos his

tóricos.

Prevaleceu-se

ele, no


DIGESTO ECONÔMICO

33

início de sua carreira, do am biente calmo é tranqüilo em

“A

filosofia

moderna não

pode deixar de

assenhorear-se

que vivia em Jacarei, para aprimorar os seus conhecimen

deste alto domínio: é da sua missão assinalar as tendências

tos filosóficos, mediante estudo, observação e meditação.

positivas

da

marcar o

alvo ao

progresso,

sempre por

base a or

Escreveu durante esse

tendo

pe

ríodo, a primeira parte da sua obra '^‘Três Filosofias”, que versa sobre a Filosofia Teoló

gica. É bem de ver que, con quanto tivesse ele vivido longos anos na Europa, não se descui

dava do vernáculo, a julgar pela clareza, correção e estilo

humanidade,

e

DIGESTO ECONÔMICO

tivermos chegado ao termo da nossa exposição. Em todo o ca so, 0 exemplo dos nossos corre

ligionários na França, Ingla terra, na Alemanha, na Itália e nos Estados Unidos sustentanos a coragem.

Jacarei, São Paulo,

dem”.

“O Brasil já conta hoje no seu seio um pequeno grupo de positivistas, grupo recrutado éspecialmente na classe média e na dos longe de

engenheiros o que, diminuir, tende a

crescer cada vez mais. Abstive-

Ao defender as suas idéias

e os seus princípios, Barreto o fazia sem temer conseqüências,

aqui de tomar parte no conflito

religioso atualmente sobre o ta

criticar-lhe

ele:

se adiantar demais no seu tem

censão que eleva gradualmente homem do estado de selvage-

ria primitiva ao estado da es

cravidão, do estado de escravi

dão ao de servidão e do de ser

vidão ao de homem livre .

‘Qualquer outro modo encarar-se

a

civilização

necessariamente

de

será

unilateral

e

defeituoso, e é este o ideal que devemos procurar atingir".

nou bem manifesta a sua opi

nião, é que viemos oferecer-lhe 0 concurso da nossa pedrinha para o edifício do futuro, indicando-ihe a oportunidade de dar um passo mais adiante. Seremos bem aceitos?

Pedimos que se suspenda o juízo sobre nós, enquanto não

ainda em Jacarei,

obra principal — “Três Filoso fias", obra que firmou a sua po sição na intelectualidade brasi leira, fazendo seu nome trans por as fronteiras da Pátria, como um dos nossos mais pro

fundos pensadores”. “Nenhum lugar vazio, tudo

em realidade social, aos moti

sofias”, dirigida aos Senadores Jobim e J. F. de Godoy, disse

po é também uma condição de ordem e de progresso; esperávamos que a sociedade se pro nunciasse depositando inteira confiança na grande massa da Nação; e, só depois que se tor

meditação,

Pereira Barreto escreveu a sua

percebemos pelo coração, pela inteligência e pela ação; a

Franca

pete; não nos apressamos; não

do campo, afastado do bulício

da cidade, em um ambiente que convidava ao estudo e à

plenamente consciente das rea ções que 0 seu trabalho iria despertar. E isso aconteceu. O eminente jesuíta Leonel da

mo-nos

o

até

10 de

maio de 1874”.

escorreito dos seus escritos. Na Carta-Prefácio de “Três Filo

“O Progresso acha-se em toda a história, e mesmo antes da história, e podemos de fini-lo — 0 movimento de as

escrupulosamente

31

não teve

dúvida em

trindade católica transforma-se

a

vos que emanavam provisoria

obra, baseado no catolicismo, ínfenso a princípios materialis-

mente da divindade para ani mar 0 sentimento, substituímos

tas.

os móveis sociais inteiramente

Durante toda a sua vida Pereira Barreto não renunciou,

confuso e arbitrário das vonta

severamente

jamais, aos seus princípios fi losóficos, conquanto, nos seus últimos tempos, não se tenha revelado positivista tão ortodo

xo, partidário

que se tornara

das idéias de Littrè. Ao referir-se a ele, em seu 'História de um belo estudo

espírito", escreveu Ulysses Paranhos: “Imbuído de idéias fi

losóficas, que trouxera da Eu

ropa, aproveitando

o remanso

desinteressados;

ao

regime

des sociais, que surpreendiam 0 intelecto, substituímos a pre

cisão dos demonstráveis, en fim, na política e na indústria, em todo o domínio da ação, substituímos o dever ao direito, os pacíficos labores à guerra, a convergência e a unidade dos esforços à concorrência desen freada”.

Estas páginas admiráveis revelam um espírito extrema-


DIGESTO ECONÔMICO

33

início de sua carreira, do am biente calmo é tranqüilo em

“A

filosofia

moderna não

pode deixar de

assenhorear-se

que vivia em Jacarei, para aprimorar os seus conhecimen

deste alto domínio: é da sua missão assinalar as tendências

tos filosóficos, mediante estudo, observação e meditação.

positivas

da

marcar o

alvo ao

progresso,

sempre por

base a or

Escreveu durante esse

tendo

pe

ríodo, a primeira parte da sua obra '^‘Três Filosofias”, que versa sobre a Filosofia Teoló

gica. É bem de ver que, con quanto tivesse ele vivido longos anos na Europa, não se descui

dava do vernáculo, a julgar pela clareza, correção e estilo

humanidade,

e

DIGESTO ECONÔMICO

tivermos chegado ao termo da nossa exposição. Em todo o ca so, 0 exemplo dos nossos corre

ligionários na França, Ingla terra, na Alemanha, na Itália e nos Estados Unidos sustentanos a coragem.

Jacarei, São Paulo,

dem”.

“O Brasil já conta hoje no seu seio um pequeno grupo de positivistas, grupo recrutado éspecialmente na classe média e na dos longe de

engenheiros o que, diminuir, tende a

crescer cada vez mais. Abstive-

Ao defender as suas idéias

e os seus princípios, Barreto o fazia sem temer conseqüências,

aqui de tomar parte no conflito

religioso atualmente sobre o ta

criticar-lhe

ele:

se adiantar demais no seu tem

censão que eleva gradualmente homem do estado de selvage-

ria primitiva ao estado da es

cravidão, do estado de escravi

dão ao de servidão e do de ser

vidão ao de homem livre .

‘Qualquer outro modo encarar-se

a

civilização

necessariamente

de

será

unilateral

e

defeituoso, e é este o ideal que devemos procurar atingir".

nou bem manifesta a sua opi

nião, é que viemos oferecer-lhe 0 concurso da nossa pedrinha para o edifício do futuro, indicando-ihe a oportunidade de dar um passo mais adiante. Seremos bem aceitos?

Pedimos que se suspenda o juízo sobre nós, enquanto não

ainda em Jacarei,

obra principal — “Três Filoso fias", obra que firmou a sua po sição na intelectualidade brasi leira, fazendo seu nome trans por as fronteiras da Pátria, como um dos nossos mais pro

fundos pensadores”. “Nenhum lugar vazio, tudo

em realidade social, aos moti

sofias”, dirigida aos Senadores Jobim e J. F. de Godoy, disse

po é também uma condição de ordem e de progresso; esperávamos que a sociedade se pro nunciasse depositando inteira confiança na grande massa da Nação; e, só depois que se tor

meditação,

Pereira Barreto escreveu a sua

percebemos pelo coração, pela inteligência e pela ação; a

Franca

pete; não nos apressamos; não

do campo, afastado do bulício

da cidade, em um ambiente que convidava ao estudo e à

plenamente consciente das rea ções que 0 seu trabalho iria despertar. E isso aconteceu. O eminente jesuíta Leonel da

mo-nos

o

até

10 de

maio de 1874”.

escorreito dos seus escritos. Na Carta-Prefácio de “Três Filo

“O Progresso acha-se em toda a história, e mesmo antes da história, e podemos de fini-lo — 0 movimento de as

escrupulosamente

31

não teve

dúvida em

trindade católica transforma-se

a

vos que emanavam provisoria

obra, baseado no catolicismo, ínfenso a princípios materialis-

mente da divindade para ani mar 0 sentimento, substituímos

tas.

os móveis sociais inteiramente

Durante toda a sua vida Pereira Barreto não renunciou,

confuso e arbitrário das vonta

severamente

jamais, aos seus princípios fi losóficos, conquanto, nos seus últimos tempos, não se tenha revelado positivista tão ortodo

xo, partidário

que se tornara

das idéias de Littrè. Ao referir-se a ele, em seu 'História de um belo estudo

espírito", escreveu Ulysses Paranhos: “Imbuído de idéias fi

losóficas, que trouxera da Eu

ropa, aproveitando

o remanso

desinteressados;

ao

regime

des sociais, que surpreendiam 0 intelecto, substituímos a pre

cisão dos demonstráveis, en fim, na política e na indústria, em todo o domínio da ação, substituímos o dever ao direito, os pacíficos labores à guerra, a convergência e a unidade dos esforços à concorrência desen freada”.

Estas páginas admiráveis revelam um espírito extrema-


DIGESTO

32

mente avançado e equilibrado, preocupado com a justiça so cial que se diriam de hoje, emitidas por um espírito liberal que, com grande antecipação, previa a evolução do espírito humano, donde a necessidade de respeitar, enaltecer e reco mendar 0 humanismo sob todas as suas formas.

O MÉDICO E CIRURGIÃO Ao

mudar-se

de

Jacareí

para São Paulo, onde a medici

ECONÔMICO

gueiro,

Adolf Gad e

Arnaldo

Vieira de Carvalho, este jovem

cirurgião, vivamente empenha do em dar novos e promissores rumas à medicina paulista.

Barreto, que havia acom panhado de perto os trabalhos de Pasteur e a introdução da

33

Barreto publica, nessa épo ca, uma preciosa monografia

honra suprema”. O homem que escrevia estas linhas, não an

intitulada: "A lógica como ins trumento de pesquisa no estu

dou longe da verdade, no esfor

senvolvimento da nobre de curar em nosso meio.

do da epidemiologia”, onde afir

transmissor do inexorável mor-

ma, de forma categórica, que:

bus, assinalou

"O ar veicula o pernilongo e é este que veicula o bacilo amarilico. E torna-se inútil a hipóte se da infecção domiciliar”.

de Carvalho, ao transcrever

O

arte

EPIDEMIOLOGISTA

Médico na extensão da pa lavra, Pereira Barreto não po dia ficar indiferente à terrível

febre amarela,

que grassava

assustadoramente no

Interior

do Estado, particularmente em

te

Estabelece ele logo as me lhores relações de amizade com Carlos Botelho, Nicolau Ver-

ECONÔMICO

assepsia no campo operatório e instrumental cirúrgico, reco mendada por Lister, logi’a con correr eficazmente para o de

na e, principalmente, a cirur Campinas. Afrontando todos gia ofereciam maiores possibili os riscos, ofereceu ele os seus dades para o exercício de sua serviços e foi até lá prestar o profissão. Pereira Barreto foi seu concurso. logo cordialmente recebido pe E, enquanto tratava os seus los seus colegas, conhecedores pacientes, observava cuidado da sua cultura, capacidade, de samente os fatos, vivamen dicação e respeito pela ética médica.

DIGESTO

interessado

em

descobrir

A esse propósito, assinalou muito bem Emílio Ribas: “Bar

reto escreveu páginas admirá

veis, apelando para o concurso do governo na luta contra a mortífera epidemia. Dizia ele: "Na questão da febre amarela em Campinas, não está em jo go unicamente a vida de uma grande cidade: essa população que se afunda e desaparece, muda

e fria nas

mitério,

covas do

arrasta consigo

em

só mortalha a honra

e e

qual seria o agente transmissor

uma

do mal amarílico. Não eram ainda conhecidas as conclu

futuro da província inteira.

sões da comissão médica

do

exército americano, chefiada por Reed e Carrol, sobre os trabalhos de Finley, que afir mava ser a

temível

doença

transmitida por um mosquito, o que deu lugar a grandes polê micas sobre os vectores mal.

desse

ce

A cada golpe de pá ouvese- 0 eco, que retumba medo nhamente no exterior, apavo

rando a imigração, aniquilando os

nossos créditos de País ha

bitável, de povo civilizado. A ressurreição de Campi nas impõe-se como um dever elementar, como um ponto de

ço para

descobrir o

agente

Arnaldo Vieira

o

ssguinte trecho, de um traba lho

dele:

que

os

'Lembremo-nos

poços

sao

os

de

perenes

mananciais em que se formam miríades de pernilongos. É in tuitivo que, gerados em águas contaminadas, ve-nham eles a tona com as suas trombas car

regadas de bacilos especiais. Cada picada será uma certeira inoculação. das Aí temos o “pendant’ pulgas na peste. A crença po

pular, de que a febre amarela se apanha mais à noite que de dia, é perfeitamente fundada: 03 hábitos notivagos do alado parasita sangüíneo explicam o incontestável

fato”.

Para

chc-

gar às suas conclusões, Barre to levou também em considera

ção as informações

prestadas

pelo dr. José Augusto Corrêa, médico em Tietê, de que ja mais se viram naquela cidade tão densas nuvens de pernilon gos, como no auge da epidemia

que lá

ocorria, fato que

lhe


DIGESTO

32

mente avançado e equilibrado, preocupado com a justiça so cial que se diriam de hoje, emitidas por um espírito liberal que, com grande antecipação, previa a evolução do espírito humano, donde a necessidade de respeitar, enaltecer e reco mendar 0 humanismo sob todas as suas formas.

O MÉDICO E CIRURGIÃO Ao

mudar-se

de

Jacareí

para São Paulo, onde a medici

ECONÔMICO

gueiro,

Adolf Gad e

Arnaldo

Vieira de Carvalho, este jovem

cirurgião, vivamente empenha do em dar novos e promissores rumas à medicina paulista.

Barreto, que havia acom panhado de perto os trabalhos de Pasteur e a introdução da

33

Barreto publica, nessa épo ca, uma preciosa monografia

honra suprema”. O homem que escrevia estas linhas, não an

intitulada: "A lógica como ins trumento de pesquisa no estu

dou longe da verdade, no esfor

senvolvimento da nobre de curar em nosso meio.

do da epidemiologia”, onde afir

transmissor do inexorável mor-

ma, de forma categórica, que:

bus, assinalou

"O ar veicula o pernilongo e é este que veicula o bacilo amarilico. E torna-se inútil a hipóte se da infecção domiciliar”.

de Carvalho, ao transcrever

O

arte

EPIDEMIOLOGISTA

Médico na extensão da pa lavra, Pereira Barreto não po dia ficar indiferente à terrível

febre amarela,

que grassava

assustadoramente no

Interior

do Estado, particularmente em

te

Estabelece ele logo as me lhores relações de amizade com Carlos Botelho, Nicolau Ver-

ECONÔMICO

assepsia no campo operatório e instrumental cirúrgico, reco mendada por Lister, logi’a con correr eficazmente para o de

na e, principalmente, a cirur Campinas. Afrontando todos gia ofereciam maiores possibili os riscos, ofereceu ele os seus dades para o exercício de sua serviços e foi até lá prestar o profissão. Pereira Barreto foi seu concurso. logo cordialmente recebido pe E, enquanto tratava os seus los seus colegas, conhecedores pacientes, observava cuidado da sua cultura, capacidade, de samente os fatos, vivamen dicação e respeito pela ética médica.

DIGESTO

interessado

em

descobrir

A esse propósito, assinalou muito bem Emílio Ribas: “Bar

reto escreveu páginas admirá

veis, apelando para o concurso do governo na luta contra a mortífera epidemia. Dizia ele: "Na questão da febre amarela em Campinas, não está em jo go unicamente a vida de uma grande cidade: essa população que se afunda e desaparece, muda

e fria nas

mitério,

covas do

arrasta consigo

em

só mortalha a honra

e e

qual seria o agente transmissor

uma

do mal amarílico. Não eram ainda conhecidas as conclu

futuro da província inteira.

sões da comissão médica

do

exército americano, chefiada por Reed e Carrol, sobre os trabalhos de Finley, que afir mava ser a

temível

doença

transmitida por um mosquito, o que deu lugar a grandes polê micas sobre os vectores mal.

desse

ce

A cada golpe de pá ouvese- 0 eco, que retumba medo nhamente no exterior, apavo

rando a imigração, aniquilando os

nossos créditos de País ha

bitável, de povo civilizado. A ressurreição de Campi nas impõe-se como um dever elementar, como um ponto de

ço para

descobrir o

agente

Arnaldo Vieira

o

ssguinte trecho, de um traba lho

dele:

que

os

'Lembremo-nos

poços

sao

os

de

perenes

mananciais em que se formam miríades de pernilongos. É in tuitivo que, gerados em águas contaminadas, ve-nham eles a tona com as suas trombas car

regadas de bacilos especiais. Cada picada será uma certeira inoculação. das Aí temos o “pendant’ pulgas na peste. A crença po

pular, de que a febre amarela se apanha mais à noite que de dia, é perfeitamente fundada: 03 hábitos notivagos do alado parasita sangüíneo explicam o incontestável

fato”.

Para

chc-

gar às suas conclusões, Barre to levou também em considera

ção as informações

prestadas

pelo dr. José Augusto Corrêa, médico em Tietê, de que ja mais se viram naquela cidade tão densas nuvens de pernilon gos, como no auge da epidemia

que lá

ocorria, fato que

lhe


DIGESTO

34

despertara mosquito o

a idéia de ser

agente da

o

febre

Faltaram-lhe,

é certo,

ou-

tro.3 elementos para documen tar suficientemente as suas hifoi póbeses mas, sem dúvida, precursores

ao

apontar o papel do mosquito na transmissão

da

febre

amare-

la.

O VlTiCULTOR E VINICULTOR

múltiplos aspectos, ao europeu. Mas não era fácil a empresa, não só pelo fato de não dispor ele de mudas, como pela ausên cia de agricultores com expe riência nesse gênero de cultura. Encontrou,. porém, no velho

Marengo, horticultor de D. Ve

ridiana Prado, um auxiliar de votado e, dentro de pouco tem

po, colhia magníficos cachos de uvas européias,

cujos

paráveis aos da Europa. Nessa ocasião

ECONÔMICO

G‘’aças

à Dona

35

Veridiana [Prado.

campanha que um grupo de homens esclarecidos iniciara,

DAS

táculos. particularmente nas terras de além-mar, onde o Bra sil era apontado como um país exótico, de clima insalubre, on de grassavam intensamente mortíferas epidemias.

bagos

do mesmo tamanho e sa-

não sem encontrar A

Olavo Bilac

veio a São Paulo, e teve ense jo de provar o vinho paulista,

Que achou excelente, improvi sando 0 seguinte verso:

"Já não há

vinho que nie [envergonhe Não beberemos Verde, nem [Colares,

Nem Bordeaux, nem

A escolha feita pelo dr. Barreto, ao tentar aqui intro duzir frutas européias, recaiu sobre as videiras da Europa. Se lograsse aqui cultivá-las, estaria perfeitamente compro vada a tese de ser o nosso clima beni ,íí 0 G semelhante, sob

eram

bor das italianas. De posse das uvas, cuidou ele de com elas

DIGESTO

fabricar excelente vinho, com

amarela.

ele um dos

ECONÔMICO

[Marsala, nem Bourgogne, Vindo de além dos mares

“Hoje, se o copo a minha [mão levanta Da escravidão antiga não [me lembro:

FERRUGEM ViDEIRAS

Surge logo, porém, um im previsto para Barreto, a exigir uma solução, para que a con quista não viesee a fracassar, Estava

a

vinha

seriamente

ameaçada pela ferrugem,

que

rendilhava as suas folhas e des truía os frutos.

teur, verificando, pelo micros cópio, a presença de iioi fungo.

O sete de setembro!

Emprega os inseticidas aconse lhados, tendo por base o sulfa to dc- cobre, e logra combater com êxito a praga, capaz d.a in

Salve,

validar os seus intuitos.

— Já me raiou, enfim, para [a garganta, fulvo clarão da [Independência! Salve, nobre conquista!

A IMIGRAÇÃO EUROPÉIA

Poderemos beber sem [indecência: A sede é nativista E em prantos de ventura

capacitando-se da necessidade

[me derreto

de se favorecer cerrentes imi-

[naturalizado, Graças ao Gênio do Doutor [Barreto

sil, tendo em vista encontrar-s a velha Europa suporpovoada.

Vendo-te ó Baco,

Presenciou

Pereira Barre-

lo a emancipação dos escravos,

gratórias européias para o Bra Urgia, assim, intensificar uma

obs

Criaram-se lendas as mais

estapafúrdias e absurdas, de ser 0 nosso país essencialmente tropical, que só produzia o café

A ciência não tardaria a ]’esürver o problema. B.arreto recorre aos trabalhos de Pas-

sérios

e a borracha.

Aiirmava-

se que os colonos europeus não resistiríam ao calor e à umida

de do nosso clima, impróprio à civilização da raça branca. Tendo estudado na Europa, Pereira Barreto tinha perfeito conhecimento do juízo que lá D fazia do nosso clima, capaC f

citado da necessidade

de

des

fazer semelhantes afirmaçõe'oferecendo exemp^.os concretos que

viessem desfazer

o

mau

conceito que se fazia do nosso clima, tido como insalubre.

Julgou ele que, se aqui logras se cultivar frutas peculiares aos climas frios e temperados, tal fato constituiria prova evi dente de que as nossas terras eram propícias à colonização européia.


DIGESTO

34

despertara mosquito o

a idéia de ser

agente da

o

febre

Faltaram-lhe,

é certo,

ou-

tro.3 elementos para documen tar suficientemente as suas hifoi póbeses mas, sem dúvida, precursores

ao

apontar o papel do mosquito na transmissão

da

febre

amare-

la.

O VlTiCULTOR E VINICULTOR

múltiplos aspectos, ao europeu. Mas não era fácil a empresa, não só pelo fato de não dispor ele de mudas, como pela ausên cia de agricultores com expe riência nesse gênero de cultura. Encontrou,. porém, no velho

Marengo, horticultor de D. Ve

ridiana Prado, um auxiliar de votado e, dentro de pouco tem

po, colhia magníficos cachos de uvas européias,

cujos

paráveis aos da Europa. Nessa ocasião

ECONÔMICO

G‘’aças

à Dona

35

Veridiana [Prado.

campanha que um grupo de homens esclarecidos iniciara,

DAS

táculos. particularmente nas terras de além-mar, onde o Bra sil era apontado como um país exótico, de clima insalubre, on de grassavam intensamente mortíferas epidemias.

bagos

do mesmo tamanho e sa-

não sem encontrar A

Olavo Bilac

veio a São Paulo, e teve ense jo de provar o vinho paulista,

Que achou excelente, improvi sando 0 seguinte verso:

"Já não há

vinho que nie [envergonhe Não beberemos Verde, nem [Colares,

Nem Bordeaux, nem

A escolha feita pelo dr. Barreto, ao tentar aqui intro duzir frutas européias, recaiu sobre as videiras da Europa. Se lograsse aqui cultivá-las, estaria perfeitamente compro vada a tese de ser o nosso clima beni ,íí 0 G semelhante, sob

eram

bor das italianas. De posse das uvas, cuidou ele de com elas

DIGESTO

fabricar excelente vinho, com

amarela.

ele um dos

ECONÔMICO

[Marsala, nem Bourgogne, Vindo de além dos mares

“Hoje, se o copo a minha [mão levanta Da escravidão antiga não [me lembro:

FERRUGEM ViDEIRAS

Surge logo, porém, um im previsto para Barreto, a exigir uma solução, para que a con quista não viesee a fracassar, Estava

a

vinha

seriamente

ameaçada pela ferrugem,

que

rendilhava as suas folhas e des truía os frutos.

teur, verificando, pelo micros cópio, a presença de iioi fungo.

O sete de setembro!

Emprega os inseticidas aconse lhados, tendo por base o sulfa to dc- cobre, e logra combater com êxito a praga, capaz d.a in

Salve,

validar os seus intuitos.

— Já me raiou, enfim, para [a garganta, fulvo clarão da [Independência! Salve, nobre conquista!

A IMIGRAÇÃO EUROPÉIA

Poderemos beber sem [indecência: A sede é nativista E em prantos de ventura

capacitando-se da necessidade

[me derreto

de se favorecer cerrentes imi-

[naturalizado, Graças ao Gênio do Doutor [Barreto

sil, tendo em vista encontrar-s a velha Europa suporpovoada.

Vendo-te ó Baco,

Presenciou

Pereira Barre-

lo a emancipação dos escravos,

gratórias européias para o Bra Urgia, assim, intensificar uma

obs

Criaram-se lendas as mais

estapafúrdias e absurdas, de ser 0 nosso país essencialmente tropical, que só produzia o café

A ciência não tardaria a ]’esürver o problema. B.arreto recorre aos trabalhos de Pas-

sérios

e a borracha.

Aiirmava-

se que os colonos europeus não resistiríam ao calor e à umida

de do nosso clima, impróprio à civilização da raça branca. Tendo estudado na Europa, Pereira Barreto tinha perfeito conhecimento do juízo que lá D fazia do nosso clima, capaC f

citado da necessidade

de

des

fazer semelhantes afirmaçõe'oferecendo exemp^.os concretos que

viessem desfazer

o

mau

conceito que se fazia do nosso clima, tido como insalubre.

Julgou ele que, se aqui logras se cultivar frutas peculiares aos climas frios e temperados, tal fato constituiria prova evi dente de que as nossas terras eram propícias à colonização européia.


DIGESTO

36

ECONÔMICO 37

DIGESTO ECONÔMICO

A TERRA ROXA DE SÃO PAULO

Concluídos os seus estudos

mente repleta de flores e de salpicos rutilantes, denuncian do a fertilidade do solo e a pu jança da seiva.

na Bélgica, Barreto retorna à

Pátria e inicia, como vimos, a.. sua vida profissional em Jacareí, a esse tempo importante centro agrícola do Norte de São Paulo. Mas, a cultura in tensiva do café já se alastrava pelo interior afora, particular

mente no Oeste, tendo Campi nas por principal núcleo pro dutor. Ninguém se aventurava, porém, a aproveitar a terra ro xa, tida como imprópria para a cultura da preciosa rubiácea.

Barreto, ao viajar pelo in

terior paulista, observara a fer tilidade de terras, tidas como

estéreis. Inicia uma propagan da intensiva no sentido de se

rem elas aproveitadas para o cultivo do café. Não se limitou,

porém, à teoria. Entra logo em

ação, dando o bom exemplo e prova insofismável da sua sin ceridade, iniciando o plantio do

A maré cresceu, o sertão bruto deixava de existir à me

dida que os trilhos penetravam

pelo interior a dentro, drenan do para Santos milhões de sa cas de café. A agricultura pau lista

cresceu

assustadoramen

te, de par com a indústria, pe netrando até 0 Paraná, forta lecendo

a nossa

Pereira

economia.

Barreto

foi

sem

dúvida, um pioneiro, ao acon selhar 0 aproveitamento da ter ra roxa, onde a instalação de grandes fazendas muito con correu para fortalecer a eco nomia paulista. A SELEÇÃO DAS ESPÉCIES Não só os problemas agrá rios, mas também os de zootec

adaptação.

Impunha-se, assim, no pen sar de Barreto, a seleção de uma raça nativa, que ofereces se as mesmas vantagens das européias. Dentre as numero

sas raças por ele estudadas op tou, pela caracu, que se lhe afigurava a que melhor corres pondia aos objetivos em vista. Os processos racionais de seleção animal, preconizados

dico, do

extremamente preocupa

com

a

dificuldade

de

se

adaptarem raças bovinas euro péias às nossas pastagens.

grandes sacrifícios.

Além disso, os nossos campos eram infestados por numerosos

parasitas, que atacavam preferentemente o gado importa-

Para ele, os progressos da

ciência

grande entusiasta, foram pos tos em prática e, em prazo relativamente curto, pelos exem

plares de uma raça nacional, com caracteres próprios, pas saram a disputar prêmios nas

exposições, concorrendo ao la do de espécimes de outras ori gens.

Grande preocupação tinha Pereira Barreto pela senilida

de. Filósofo consumado, apai xonado pela sabedoria antiga, ledor infatigável, conhecia ele a fundo as obras de Cicero, considerando

doença.

a

velhice

como

,

certamente. ....

Aceitou, assim,

com entu

siasmo, as idéias de Metchini-

koff, expostas no livro:

“En-

saios

este

Otimistas”,

onde

cientista considerava o intesti

no grosso um viveiro perene de micróbios, recomendando o uso de fermentos láticos, como fa

zem os búlgaros, como meio de prolongar a vida. Homem

exiremamente

só

brio, sereno, e panteísta, logrou

Pereira Barreto alcançar

ida

de avançada, exercendo a sua profissão até os seus últimos dias, coerente com as suas idéias e princípios. Nunca fu mou e, conquanto fosse gran

de apreciador era

0 GERÍATRA

,

viriam

contribuir para dilatar os limi tes da vida humana, mercê de regimes adequados.

por Darwin, de quem era ele

nia interessavam o ilustre mé

café numa fazenda, por ele aberta em Ribeirão Preto com

Dentro de pouco tempo a terra barrenta e escura estava coberta de ondas verdes, anual-

do, possuidor de pelo longo, pa ra protegê-lo contra os rigores do inverno, donde difícil sua

da viticultura,

abstêmio.

Ulysses Paranhos disse, a tal propósito; “Barreto se não

pode triunfar da velhice fisica, conseguiu possuir, indefinidarneiite, a mocidade espiritual. Era como a verbena que, em

bora seca, é sempre cheirosa.

A sua alma teve, constan temente, vinte anos. Por uma


DIGESTO

36

ECONÔMICO 37

DIGESTO ECONÔMICO

A TERRA ROXA DE SÃO PAULO

Concluídos os seus estudos

mente repleta de flores e de salpicos rutilantes, denuncian do a fertilidade do solo e a pu jança da seiva.

na Bélgica, Barreto retorna à

Pátria e inicia, como vimos, a.. sua vida profissional em Jacareí, a esse tempo importante centro agrícola do Norte de São Paulo. Mas, a cultura in tensiva do café já se alastrava pelo interior afora, particular

mente no Oeste, tendo Campi nas por principal núcleo pro dutor. Ninguém se aventurava, porém, a aproveitar a terra ro xa, tida como imprópria para a cultura da preciosa rubiácea.

Barreto, ao viajar pelo in

terior paulista, observara a fer tilidade de terras, tidas como

estéreis. Inicia uma propagan da intensiva no sentido de se

rem elas aproveitadas para o cultivo do café. Não se limitou,

porém, à teoria. Entra logo em

ação, dando o bom exemplo e prova insofismável da sua sin ceridade, iniciando o plantio do

A maré cresceu, o sertão bruto deixava de existir à me

dida que os trilhos penetravam

pelo interior a dentro, drenan do para Santos milhões de sa cas de café. A agricultura pau lista

cresceu

assustadoramen

te, de par com a indústria, pe netrando até 0 Paraná, forta lecendo

a nossa

Pereira

economia.

Barreto

foi

sem

dúvida, um pioneiro, ao acon selhar 0 aproveitamento da ter ra roxa, onde a instalação de grandes fazendas muito con correu para fortalecer a eco nomia paulista. A SELEÇÃO DAS ESPÉCIES Não só os problemas agrá rios, mas também os de zootec

adaptação.

Impunha-se, assim, no pen sar de Barreto, a seleção de uma raça nativa, que ofereces se as mesmas vantagens das européias. Dentre as numero

sas raças por ele estudadas op tou, pela caracu, que se lhe afigurava a que melhor corres pondia aos objetivos em vista. Os processos racionais de seleção animal, preconizados

dico, do

extremamente preocupa

com

a

dificuldade

de

se

adaptarem raças bovinas euro péias às nossas pastagens.

grandes sacrifícios.

Além disso, os nossos campos eram infestados por numerosos

parasitas, que atacavam preferentemente o gado importa-

Para ele, os progressos da

ciência

grande entusiasta, foram pos tos em prática e, em prazo relativamente curto, pelos exem

plares de uma raça nacional, com caracteres próprios, pas saram a disputar prêmios nas

exposições, concorrendo ao la do de espécimes de outras ori gens.

Grande preocupação tinha Pereira Barreto pela senilida

de. Filósofo consumado, apai xonado pela sabedoria antiga, ledor infatigável, conhecia ele a fundo as obras de Cicero, considerando

doença.

a

velhice

como

,

certamente. ....

Aceitou, assim,

com entu

siasmo, as idéias de Metchini-

koff, expostas no livro:

“En-

saios

este

Otimistas”,

onde

cientista considerava o intesti

no grosso um viveiro perene de micróbios, recomendando o uso de fermentos láticos, como fa

zem os búlgaros, como meio de prolongar a vida. Homem

exiremamente

só

brio, sereno, e panteísta, logrou

Pereira Barreto alcançar

ida

de avançada, exercendo a sua profissão até os seus últimos dias, coerente com as suas idéias e princípios. Nunca fu mou e, conquanto fosse gran

de apreciador era

0 GERÍATRA

,

viriam

contribuir para dilatar os limi tes da vida humana, mercê de regimes adequados.

por Darwin, de quem era ele

nia interessavam o ilustre mé

café numa fazenda, por ele aberta em Ribeirão Preto com

Dentro de pouco tempo a terra barrenta e escura estava coberta de ondas verdes, anual-

do, possuidor de pelo longo, pa ra protegê-lo contra os rigores do inverno, donde difícil sua

da viticultura,

abstêmio.

Ulysses Paranhos disse, a tal propósito; “Barreto se não

pode triunfar da velhice fisica, conseguiu possuir, indefinidarneiite, a mocidade espiritual. Era como a verbena que, em

bora seca, é sempre cheirosa.

A sua alma teve, constan temente, vinte anos. Por uma


DIGESTO

38

manobra subjetiva ele não en

xergava nunca os seus cabelos brancos e algumas semanas antes de sua morte, do mesmo modo que quando contava vin te anos, 0 seu estilo mostravase vigoroso, juvenil e atraente, dando-nos a impressão de um

regato de água fresca, corren do serenamente entre cipós e avenças verdes, numa suavida

de doce, tranqüila e sossegada. Raciocinando e agindo co

mo um moço, durante todo o curso de sua vida, a sua alma foi um símbolo de tolerância; h

jamais ele pronunciou uma fra se menos delicada, nem funda mentou um conceito capaz de ferir dolorosamente o seu ad versário” .

Ao analisar a psicologia do

ECONÔMICO

siderável para diminuir ou au mentar a duração de cada uma das fases atingidas. É por des conhecer este elemento supre mo, introduzido pela educação, que a teologia se equivoca a respeito dos livres pensadores. Em um cérebro bem constituí

do, com uma inteligência nu trida com esmero, e com uma

velhice serena, os sintomas de decadência

raramente

assu

mem um caráter flagrante; a unidade adquirida mantém-se insensivelmente

no

mesmo

ní

vel; n velho persiste nas idéias, que sustentou durante toda a

sua vida, freqüen za

dando-lhes mesmo,

mente,

e enns:

mais madure.eiicia Um observa

dor sagaz podo notar, sem dú

vida, na insistência da velhice

velho e os efeitos da aenilirb-

em

clc sobre a mente, disse Barre

cepções da mocidade própria do que em criar novas, que a fonte das inspirações fecundas está esgotada: os velhos são gcralmente presunçosos, não

to, com muita propriedade: “Quando a velhice se c: lingue naturalmentc, pelos úni cos progressos senis, sem ou tra complicação mórbida, as coisas se passam assaz dife

so

desenvolver

ada”lam

antes

novas

as

con

39

DIGESTO ECONÔMICO

ender as objeções que faziam ao seu sistema os seus jovens rivais; a sua memória, com especialidade, enfraqueceu-se consideravelmente. À parte, porém, estes pormenores, não vemos aí ainda os sintomas, que revelam a verdadeira de cadência; é pelo contrário um

espetáculo altamente consola dor e edificante esse, que nos apresentam alguns velhos pri

vilegiados, que, como Fontenelle e Cornaro, puderam atingir aos cem anos, realizando em todo 0 decurso da vida um pen samento de sua mocidade". Quanta verdade encerram estas palavras lapidares, ditas por um espírito privilegiado, observador sagaz, que não dei xava de fazer, também, uma auto-observação, para depois tirar as conclusões.

rentemente, segundo Qiie o ve lho é um espírito cultivado pe

com um sorriso de afável des

la ciência ou um espírito me díocre: a influência da educa

dém as idéias da nova geração que os cerca. Kant, em seus

ção e do ambiente social é con¬

velhos dias, não podia compre-

0 .seu ingresso neste sodalício; “Quando se fundou a Academia, J. J. de Carvalho encarregoume de convidar Pereira Barre to. Encontrei-o na Beneficên

cia Portuguesa. Expus-lhe os nossos planos, consultando-o sc queria entrar para a Academia e se podíamos contar com a sua preciosa colaboração. Parou um pouco e, fixando-

me, interrogou-me: esta Academia?

"O que é

É uma asso

ciação de criaturas desejando

vaidosas,

honrarias,

ou

um

grupo de homens de boa von

tade, pretendendo trabalhar no nosòo meio tão avesso à gregária. Afirmei-lhe

que era

vida uma

constituição séria, honesta, com do e informei-o de que na nos

ACADEMIA PAULISTA

sa companhia estavam Brasil io

DE LETRAS

Luiz Pereira Barreto foi membro da Academia Paulista de Letras, fundador da Cadeira

n.o 3, hoje ocupada pelo

emi

nente acadêmico gueira Garcez.

No

Lucas

dor, conta-nos como teve lugar

aspiração ao trabalho continua

A EmRADA HA

aquíFi-

ções da teoria e da prática acolhem contemporâneas, c

Ulysses Paranhos, que foi dele grande amigo e admira

Machado, Almeida Nogueira, Sílvio de Almeida. Basta, inFaço parte da terrompeu-me. Academia e conte comigo.

Sempre se interessou pela nossa

festa

existência. inaugural.

Esteve na frequentou


DIGESTO

38

manobra subjetiva ele não en

xergava nunca os seus cabelos brancos e algumas semanas antes de sua morte, do mesmo modo que quando contava vin te anos, 0 seu estilo mostravase vigoroso, juvenil e atraente, dando-nos a impressão de um

regato de água fresca, corren do serenamente entre cipós e avenças verdes, numa suavida

de doce, tranqüila e sossegada. Raciocinando e agindo co

mo um moço, durante todo o curso de sua vida, a sua alma foi um símbolo de tolerância; h

jamais ele pronunciou uma fra se menos delicada, nem funda mentou um conceito capaz de ferir dolorosamente o seu ad versário” .

Ao analisar a psicologia do

ECONÔMICO

siderável para diminuir ou au mentar a duração de cada uma das fases atingidas. É por des conhecer este elemento supre mo, introduzido pela educação, que a teologia se equivoca a respeito dos livres pensadores. Em um cérebro bem constituí

do, com uma inteligência nu trida com esmero, e com uma

velhice serena, os sintomas de decadência

raramente

assu

mem um caráter flagrante; a unidade adquirida mantém-se insensivelmente

no

mesmo

ní

vel; n velho persiste nas idéias, que sustentou durante toda a

sua vida, freqüen za

dando-lhes mesmo,

mente,

e enns:

mais madure.eiicia Um observa

dor sagaz podo notar, sem dú

vida, na insistência da velhice

velho e os efeitos da aenilirb-

em

clc sobre a mente, disse Barre

cepções da mocidade própria do que em criar novas, que a fonte das inspirações fecundas está esgotada: os velhos são gcralmente presunçosos, não

to, com muita propriedade: “Quando a velhice se c: lingue naturalmentc, pelos úni cos progressos senis, sem ou tra complicação mórbida, as coisas se passam assaz dife

so

desenvolver

ada”lam

antes

novas

as

con

39

DIGESTO ECONÔMICO

ender as objeções que faziam ao seu sistema os seus jovens rivais; a sua memória, com especialidade, enfraqueceu-se consideravelmente. À parte, porém, estes pormenores, não vemos aí ainda os sintomas, que revelam a verdadeira de cadência; é pelo contrário um

espetáculo altamente consola dor e edificante esse, que nos apresentam alguns velhos pri

vilegiados, que, como Fontenelle e Cornaro, puderam atingir aos cem anos, realizando em todo 0 decurso da vida um pen samento de sua mocidade". Quanta verdade encerram estas palavras lapidares, ditas por um espírito privilegiado, observador sagaz, que não dei xava de fazer, também, uma auto-observação, para depois tirar as conclusões.

rentemente, segundo Qiie o ve lho é um espírito cultivado pe

com um sorriso de afável des

la ciência ou um espírito me díocre: a influência da educa

dém as idéias da nova geração que os cerca. Kant, em seus

ção e do ambiente social é con¬

velhos dias, não podia compre-

0 .seu ingresso neste sodalício; “Quando se fundou a Academia, J. J. de Carvalho encarregoume de convidar Pereira Barre to. Encontrei-o na Beneficên

cia Portuguesa. Expus-lhe os nossos planos, consultando-o sc queria entrar para a Academia e se podíamos contar com a sua preciosa colaboração. Parou um pouco e, fixando-

me, interrogou-me: esta Academia?

"O que é

É uma asso

ciação de criaturas desejando

vaidosas,

honrarias,

ou

um

grupo de homens de boa von

tade, pretendendo trabalhar no nosòo meio tão avesso à gregária. Afirmei-lhe

que era

vida uma

constituição séria, honesta, com do e informei-o de que na nos

ACADEMIA PAULISTA

sa companhia estavam Brasil io

DE LETRAS

Luiz Pereira Barreto foi membro da Academia Paulista de Letras, fundador da Cadeira

n.o 3, hoje ocupada pelo

emi

nente acadêmico gueira Garcez.

No

Lucas

dor, conta-nos como teve lugar

aspiração ao trabalho continua

A EmRADA HA

aquíFi-

ções da teoria e da prática acolhem contemporâneas, c

Ulysses Paranhos, que foi dele grande amigo e admira

Machado, Almeida Nogueira, Sílvio de Almeida. Basta, inFaço parte da terrompeu-me. Academia e conte comigo.

Sempre se interessou pela nossa

festa

existência. inaugural.

Esteve na frequentou


DIGESTO

40

muitas sessões, e como

presidente, presidiu

vice-

a várias

reuniões”.

ECONÔMICO

renderam-lhe grata e significa tiva homenagem, publicando um livro jubilar, com artigos,

DIGESTO ECONÔMICO

fisionomia tranquila, entre ro sas magníficas, flor sua predileção.

não só de elementos da sua clas O

se, mas também de outros inte lectuais com os quais convivia,

HOMEM

A par de uma inteligência

luminosa, era Pereira Barreto

unânimes

verdadeira obsessão.

Médico dé grande cultura, possuía ele invejável tino clini co, formulando diagnósticos pre cisos; numa época em que os recursos paraclínicos eram mui

precários e os exames de labo ratório praticamente nulos, fei tos pelo próprio médico, conse guiu ek impor-se perante os seus colegas e conquistar a con fiança dos seus clientes. Barreto constitui um

ver

dadeiro paradigma, porquanto, sob os mais variados prismas

que se analise a sua personali dade singular, sobressai ele so bre os demais homens da

sua

considerá-lo uma

personalidade invulgar.

de uma rígida integridade mo

ral, a alcançar as raias de uma

em

A sua vida foi uma suces

são contínua de conquistas, por quanto não houve objetivo que não tivesse ele alcançado, gra ças aos seus predicados e a sua

extraordinária

posta à prova em suas pesquisas.

paciência,

muitas das

Era, contudo, extremamen te modesto e inimigo de apare

cer em público mas, sobremo do gentil e polido que sempre foi, não era capaz de melindrar a quem quer que fosse.

pareceu,

Com

assim, a solenidades

promovidas

em

sua

homena

gem, com evidente acanhamento, e delas procurava se furtar

Após 0 seu desaparecimen to, a Municipalidade e o povo

gor.

paulista escolheram

Não foi, pois, sem carradas de razão qu-e, ao alcançar ele

principais praças da cidade pa ra dar-lhe o nome, nela erguen

exercício

do magnífico bronze de corpo inteiro. Lá está ele com a sua

anos de

profissional, os

seus

colegas

um

A sua imagem representa passado glorioso, do qual

foi ele um dos principais

sementes

das

rece”.

ar

quitetos, espargindo prodiga mente idéias novas no espírito dos seus contemporâneos, plan tando

tres são uma necessidade que se impõe a cada geração que se levanta, a cada era que sur ge, a cada mocidade que alvo-

melhores

Recordar, pois, de quando em quando, a figui*a de Luiz Pereira Barreto, de permeio com o nosso reconhecimento

e

que, desde Plutarco, "o estudo

gratidão, ê dever precípuo de todos nós, para com aquele cuja memória permanecerá vi va e fecunda pelo tempo afora, tal a sua força, expressão e sig

e a crítica das existências ilus¬

nificação.

origens no solo paulista, que ele tanto amou.

Disse um grande

biógrafo

(Continuação cia página 23)

e criar, atmvés de medidas administrativas e fiscais, as necessárias possi bilidades para a economia. O balanço da outorga de licenças entre Euro pa e Japão continuaria ainda positivo a favor dos europeus, disse Amercngen. Entretanto, na transplantação prática das invenções e desenvol vimentos, a indústria européia está manquejando, como doente nos pés, atrás da japonesa e americana, disse Amerongen. O imperativo para o crescimento e a política estrutural seria, daqui por diante para os euro peus, por alguns anos: menor consumo e mais investimento. Somente as sim chegar-se-ia a restabelecer a adjunção aos progressos da produtividade havidos na década dos anos de sessenta. (Pontes; Deutsche Zeitung/ P.A.Z.)

0 quanto antes.

época, com extraordinário ful

cinquenta

41

uma

das

Firmas japonesas fazem negócios de bilhões com

ov ~ 1 exportações dos

-r-n TTTT — Na relação da revista «Fortune» llili.UU. as firmas japonesas não se encontram

entre as maiores firmas exportadoras dos Estados Unidos. Ali chamam a atenção para si por seus grandes negócios de importação do Japão. Na rea lidade,

comércio

as

filiais

também

norte-americanas

das

estão

mercadorias

(Contínua na página 42)

vendendo

grandes

casas

japonesas

norte-americanas

de

para


DIGESTO

40

muitas sessões, e como

presidente, presidiu

vice-

a várias

reuniões”.

ECONÔMICO

renderam-lhe grata e significa tiva homenagem, publicando um livro jubilar, com artigos,

DIGESTO ECONÔMICO

fisionomia tranquila, entre ro sas magníficas, flor sua predileção.

não só de elementos da sua clas O

se, mas também de outros inte lectuais com os quais convivia,

HOMEM

A par de uma inteligência

luminosa, era Pereira Barreto

unânimes

verdadeira obsessão.

Médico dé grande cultura, possuía ele invejável tino clini co, formulando diagnósticos pre cisos; numa época em que os recursos paraclínicos eram mui

precários e os exames de labo ratório praticamente nulos, fei tos pelo próprio médico, conse guiu ek impor-se perante os seus colegas e conquistar a con fiança dos seus clientes. Barreto constitui um

ver

dadeiro paradigma, porquanto, sob os mais variados prismas

que se analise a sua personali dade singular, sobressai ele so bre os demais homens da

sua

considerá-lo uma

personalidade invulgar.

de uma rígida integridade mo

ral, a alcançar as raias de uma

em

A sua vida foi uma suces

são contínua de conquistas, por quanto não houve objetivo que não tivesse ele alcançado, gra ças aos seus predicados e a sua

extraordinária

posta à prova em suas pesquisas.

paciência,

muitas das

Era, contudo, extremamen te modesto e inimigo de apare

cer em público mas, sobremo do gentil e polido que sempre foi, não era capaz de melindrar a quem quer que fosse.

pareceu,

Com

assim, a solenidades

promovidas

em

sua

homena

gem, com evidente acanhamento, e delas procurava se furtar

Após 0 seu desaparecimen to, a Municipalidade e o povo

gor.

paulista escolheram

Não foi, pois, sem carradas de razão qu-e, ao alcançar ele

principais praças da cidade pa ra dar-lhe o nome, nela erguen

exercício

do magnífico bronze de corpo inteiro. Lá está ele com a sua

anos de

profissional, os

seus

colegas

um

A sua imagem representa passado glorioso, do qual

foi ele um dos principais

sementes

das

rece”.

ar

quitetos, espargindo prodiga mente idéias novas no espírito dos seus contemporâneos, plan tando

tres são uma necessidade que se impõe a cada geração que se levanta, a cada era que sur ge, a cada mocidade que alvo-

melhores

Recordar, pois, de quando em quando, a figui*a de Luiz Pereira Barreto, de permeio com o nosso reconhecimento

e

que, desde Plutarco, "o estudo

gratidão, ê dever precípuo de todos nós, para com aquele cuja memória permanecerá vi va e fecunda pelo tempo afora, tal a sua força, expressão e sig

e a crítica das existências ilus¬

nificação.

origens no solo paulista, que ele tanto amou.

Disse um grande

biógrafo

(Continuação cia página 23)

e criar, atmvés de medidas administrativas e fiscais, as necessárias possi bilidades para a economia. O balanço da outorga de licenças entre Euro pa e Japão continuaria ainda positivo a favor dos europeus, disse Amercngen. Entretanto, na transplantação prática das invenções e desenvol vimentos, a indústria européia está manquejando, como doente nos pés, atrás da japonesa e americana, disse Amerongen. O imperativo para o crescimento e a política estrutural seria, daqui por diante para os euro peus, por alguns anos: menor consumo e mais investimento. Somente as sim chegar-se-ia a restabelecer a adjunção aos progressos da produtividade havidos na década dos anos de sessenta. (Pontes; Deutsche Zeitung/ P.A.Z.)

0 quanto antes.

época, com extraordinário ful

cinquenta

41

uma

das

Firmas japonesas fazem negócios de bilhões com

ov ~ 1 exportações dos

-r-n TTTT — Na relação da revista «Fortune» llili.UU. as firmas japonesas não se encontram

entre as maiores firmas exportadoras dos Estados Unidos. Ali chamam a atenção para si por seus grandes negócios de importação do Japão. Na rea lidade,

comércio

as

filiais

também

norte-americanas

das

estão

mercadorias

(Contínua na página 42)

vendendo

grandes

casas

japonesas

norte-americanas

de

para


DIGESTO

42

ECONÔMICO

(Clontiniiaçíio cia párjina 411 o Exterior, realizando negócios oe muitos bilhões de d/.-lares. Co nhecedores do ramo julgam que Mit,„ui & Co. Mitsubishi Corp. e as outras casas estão realizando, através das mas filiais americanas, quase 10% do montante total das exportações dos EE.UU. Em lOOO a Mitsui-USA expor tou dos Estados Unidos mercadorias no valor de USí> 3,0 bilhões, inclusive cereais no valor de quase USS 1,1 bilhão. A «Fortune» indica como ns três

maiores exportadores norte-americanos as firmas Boeing (USS

.ê bilhões) General Motors (USS 5,3 bilhões) e General Electric Co (USS 4.3 bilhões). A lista inclue somente fabricantes. Enquanto o Congresso Americano r.incla est.''

tara de

MíifoerlO' Cai

ao^ Senado

discutindo a criação de empreendimentos comerciais, as casas jnponasas, a~ quais resolvem 60% das exportações do seu próprio pais. já firmaram pé nos EE.ÜU. Estão abrindo mercados, financiando fornecimentos e or':ani?ando transportes. As filiais de Mitsui e Mitsubishi já pertencem, hoje c.ti dia. aos maiores comerciantes nos setores de cereais, minérms. produto-; nuímico.s n m; quinas, obtendo vendas anuais de quase USS 14 bilhões cada. Nãn obsiante das atividades japonesas desenvolvidas nos EE.UU., o balanço comercial entre os dois países não

I

mudou a favor

dos americanos.

Pelo

Eugsnic Gudin

contr-írio.

espera-se este ano no comércio com o Japão um déficit recorde de USS l.S ou 20 bilhões. Por isso, as casas comerciais procuram possibilidades de remover para proveito de ambos os países esta desigualdade poUticninente pe: gosa. Das alternativas que no momento estão sendo ftxam'iiadc>.; ativr-peníu fazem parte participações japonesas em projetos petroquímicos em USA ç para exportação de carvão. A firma C. Itoh A Cn. estã .financiando mp es tudo de viabilidade para um grande estabelecimento de carregamento de

can’üo em Long Beach, Califórnia, enquanto a Sumimoto Corp. está procu rando, junto com parceiros americanos, novas jazidas de carvão do :üto valor para exportaç<ão. Mitsubishi avalia a demanda japonesa .Ce carvão para indústrias em 10 milhões de toneladas anuais,

a longo prazo.

Um grande

negócio triangular com óleo, proposto pela Mitsubi.ghi, dá uma idéia das dimensões nas quais os japoneses estão operando. Dc acordo r-om rsta pro

posta óleo mexicano nas mãos dos japoneses deveria passar mima nr.a.r;:'

dade 'de aproximadamente 100.000 barris por dia para os Estados Unidr-s, cs quais como compensação iriam fornecer a mesma quantidade de óleo de Alas ca para o Japão. Neste caso os japoneses iriam economizar milhões para custos de transportes, diminuinuo ao mesmo tempo o incômodo déficit do balanço comercial com os Estados Unidos em aproximadamente USS 1,2 bilhão aniialmente. Entretanto, nos Estados Unidos a exportação do próprio

óleo ainda é proibida por lei, e contra uma eventual mudança move-se forte resistência nos meios de navegação para impedir que óleo de Alasca venha a ser transportado para o Japão com navios japoneses em vez de ameri canos. (Fonte: Handelsblatt/Duesseldorí).

O eminente professor Eugênio Gudin elogia a escolha do embaixador Roberto de Oliveira Campos para representar o seu Estado no Senado Federal.

A escolha não podería ser mais acertada. Poucas

vcze.3

tsnho

candidaturas tão fr-lizes

visto

serviços a um Estado que se es

como

trutura e que requer uma

re

presentação à altura de

suas

essa que ora .se promove do no

me de Roberto Ca mpos para re

necessidades.

te, no Senado. Bem uíspirado.s, o Estado

Campo.5 é um filho de Mato Grosso que teve a sorte de for mar sua personalidade nos me

presentar Maín Grosso do Nor como

c

candidato. O Estado,

pel-a conquista ds ser represen

lhores centros culturais do País e nas melhores universidades in

tado no Senado por um dos mais üustrEs contemporâneos; e Ro berto Campos, por ter a oportu

É este o cabedal que ele tem hoje a felicidade de poder

nidade de prestar

oferecer à sua terra natal

relevantes

glesas e americanas.


DIGESTO

42

ECONÔMICO

(Clontiniiaçíio cia párjina 411 o Exterior, realizando negócios oe muitos bilhões de d/.-lares. Co nhecedores do ramo julgam que Mit,„ui & Co. Mitsubishi Corp. e as outras casas estão realizando, através das mas filiais americanas, quase 10% do montante total das exportações dos EE.UU. Em lOOO a Mitsui-USA expor tou dos Estados Unidos mercadorias no valor de USí> 3,0 bilhões, inclusive cereais no valor de quase USS 1,1 bilhão. A «Fortune» indica como ns três

maiores exportadores norte-americanos as firmas Boeing (USS

.ê bilhões) General Motors (USS 5,3 bilhões) e General Electric Co (USS 4.3 bilhões). A lista inclue somente fabricantes. Enquanto o Congresso Americano r.incla est.''

tara de

MíifoerlO' Cai

ao^ Senado

discutindo a criação de empreendimentos comerciais, as casas jnponasas, a~ quais resolvem 60% das exportações do seu próprio pais. já firmaram pé nos EE.ÜU. Estão abrindo mercados, financiando fornecimentos e or':ani?ando transportes. As filiais de Mitsui e Mitsubishi já pertencem, hoje c.ti dia. aos maiores comerciantes nos setores de cereais, minérms. produto-; nuímico.s n m; quinas, obtendo vendas anuais de quase USS 14 bilhões cada. Nãn obsiante das atividades japonesas desenvolvidas nos EE.UU., o balanço comercial entre os dois países não

I

mudou a favor

dos americanos.

Pelo

Eugsnic Gudin

contr-írio.

espera-se este ano no comércio com o Japão um déficit recorde de USS l.S ou 20 bilhões. Por isso, as casas comerciais procuram possibilidades de remover para proveito de ambos os países esta desigualdade poUticninente pe: gosa. Das alternativas que no momento estão sendo ftxam'iiadc>.; ativr-peníu fazem parte participações japonesas em projetos petroquímicos em USA ç para exportação de carvão. A firma C. Itoh A Cn. estã .financiando mp es tudo de viabilidade para um grande estabelecimento de carregamento de

can’üo em Long Beach, Califórnia, enquanto a Sumimoto Corp. está procu rando, junto com parceiros americanos, novas jazidas de carvão do :üto valor para exportaç<ão. Mitsubishi avalia a demanda japonesa .Ce carvão para indústrias em 10 milhões de toneladas anuais,

a longo prazo.

Um grande

negócio triangular com óleo, proposto pela Mitsubi.ghi, dá uma idéia das dimensões nas quais os japoneses estão operando. Dc acordo r-om rsta pro

posta óleo mexicano nas mãos dos japoneses deveria passar mima nr.a.r;:'

dade 'de aproximadamente 100.000 barris por dia para os Estados Unidr-s, cs quais como compensação iriam fornecer a mesma quantidade de óleo de Alas ca para o Japão. Neste caso os japoneses iriam economizar milhões para custos de transportes, diminuinuo ao mesmo tempo o incômodo déficit do balanço comercial com os Estados Unidos em aproximadamente USS 1,2 bilhão aniialmente. Entretanto, nos Estados Unidos a exportação do próprio

óleo ainda é proibida por lei, e contra uma eventual mudança move-se forte resistência nos meios de navegação para impedir que óleo de Alasca venha a ser transportado para o Japão com navios japoneses em vez de ameri canos. (Fonte: Handelsblatt/Duesseldorí).

O eminente professor Eugênio Gudin elogia a escolha do embaixador Roberto de Oliveira Campos para representar o seu Estado no Senado Federal.

A escolha não podería ser mais acertada. Poucas

vcze.3

tsnho

candidaturas tão fr-lizes

visto

serviços a um Estado que se es

como

trutura e que requer uma

re

presentação à altura de

suas

essa que ora .se promove do no

me de Roberto Ca mpos para re

necessidades.

te, no Senado. Bem uíspirado.s, o Estado

Campo.5 é um filho de Mato Grosso que teve a sorte de for mar sua personalidade nos me

presentar Maín Grosso do Nor como

c

candidato. O Estado,

pel-a conquista ds ser represen

lhores centros culturais do País e nas melhores universidades in

tado no Senado por um dos mais üustrEs contemporâneos; e Ro berto Campos, por ter a oportu

É este o cabedal que ele tem hoje a felicidade de poder

nidade de prestar

oferecer à sua terra natal

relevantes

glesas e americanas.


DTGESTO ECONÔMICO

DIGESTO

44

Depois de uma “vista' Bretton Woods, tive a oportuni

em

dade de vê-lo em Long Island

(antiga sede das Nações Uni das) defender sob as vistas do embaixador João Carlos Muniz, doutrinas da Civilização Oci

as

dental que estavam sendo rude mente invectivadas pelo delega do da Polônia. A inteligência, a cultura e a agilidade com que no.sso representante revidou a agressão polonesa deram-me lo go a certeza de tratar-se de um moço de grandes possibilidade.s na vida pública, econômica e cultural do Brasil.

o

árabes têm o problema de en contrar aplicação segura para

que realizaram com a maior eficiência, apesar de eu lhes

seu dinheiro neste mundo incer to e atormentado.

ter negado (para salvar as fi nanças do País) os recursos que não podiam dispensar. Kubtscheck não deixou de aproveitar tão precioso elemento e afinal 0 grande presidente Castello

do famigerado Terceiro Mundo, fruto da escassa imaginação do diplomatas em férias.

Banco de Desenvolvimento,

Branco convocou-o com a par

ceria de Octávio Bulhões, a res taurar as finanças desmantela das pelo incrível sr. João Gou lart.

O Brasil ficou a dever a es

ses ilustres brasileiros, além da restauração da ordem finan

ceira, outras instituições como

Dois amigos m-eus, profes sores da Universidade de Co-,

o FGTS

lúmbia. em N.Y., Arthur Burns

travou

e Ragnar Nurke, disseram-me então ser Campos o mais bri lhante aluno estrangeiro dentre

(Fundo de Garantia

por Tempo de Serviço), que deso

desenvolvimento

do

País e a correção monetária, que salvou a poupança.

por

O presidente Ernesto Geisel,

suas mãos nos últimos 10 anos.

talvez por não gostar do conví vio de quem pretenda darlhe conselhos, expediu Roberto

as centenas que passaram

Foi através de Concurso do

Itamaraty que Roberto Campos

entrou para a vida pública bra sileira. O Banco de Desenvol vimento Econômico, os Conse lhos Ministeriais logo o absor veram. Quando chegou minha vez em 1954, convoquei-o com Glycon de Paiva para dirigir o

45

ECONÔMICO

Campos e Delfim Netto para as Embaixadas da Inglaterra e da França. Campos mostrou que nossa dívida externa atual, apesar de considerável, não chega a ser

inquietante e que também

os

Por fim, mostrou a utopia

Mato Gro.sso do Norte é, com Goiás, se não me falha a Geografia, o único Estado que

participa das bacias

fluviais

do Paraná e do Amazonas, sen do de notar oue o divisor das

clua.s bacias é quase de

nível,

grande vantagem para um País já tãoí farto de zonas monta

nhosas.

Mato Grosso do Norte é, portanto, uma promissora incóg nita e ideal para um planeja mento inteligente e eficaz. Os serviços de Campos em

Londres, se bem que valiosos, não correspondem ao que ele pode dar ao Brasil, até porque, como ele bem o diz, as Embai

xadas são hoje uma espécie em extinção, tornada supérflua pe los telex do Itamaraty como pelas repetidas visitas nistros de Estado.

de mi

Campos já vem realizando, aliás

como Jacques Rueff, Hayek, tantos outros e até este

humilde escriba, a transposição que 0 potencial

torra cultívável, de boa topo grafia e precipitação pluviomé-

de seu pensamento da Econo mia para o oceano mais largo das idéias gerais, isto é, da Eco nomia e da Tecnocracia para n Sociologia e a Política. Não

trica.

lhe falta estofo.

Dizem-me

mineral do Estado

está longe

de ser pobre e que há

muita

Subsidiária da Siemens oferece Miniusinas Nucleares — Hamburgo — A indústria nuclear da Repviblica Federal Alemã desen volveu miniusinas, destinadas a serem instaladas especialmente em países do Terceiro Mundo. De acordo com afirmações de Klaus Barthelt, presidente da firma Kraftwerk Union AG (KWU), sucursal da Sie mens, estas miniusinas desenvolvem uma capacidade de 300 a 400 Megawatt, estando agora prontas para serem oferecidas. As miniusinas nu cleares, de recente desenvolvimento estão sendo fabricadas na RPA com pletas, carregadas sobre embarcações e puxadas por rebocadores para (Continua na página CO)


DTGESTO ECONÔMICO

DIGESTO

44

Depois de uma “vista' Bretton Woods, tive a oportuni

em

dade de vê-lo em Long Island

(antiga sede das Nações Uni das) defender sob as vistas do embaixador João Carlos Muniz, doutrinas da Civilização Oci

as

dental que estavam sendo rude mente invectivadas pelo delega do da Polônia. A inteligência, a cultura e a agilidade com que no.sso representante revidou a agressão polonesa deram-me lo go a certeza de tratar-se de um moço de grandes possibilidade.s na vida pública, econômica e cultural do Brasil.

o

árabes têm o problema de en contrar aplicação segura para

que realizaram com a maior eficiência, apesar de eu lhes

seu dinheiro neste mundo incer to e atormentado.

ter negado (para salvar as fi nanças do País) os recursos que não podiam dispensar. Kubtscheck não deixou de aproveitar tão precioso elemento e afinal 0 grande presidente Castello

do famigerado Terceiro Mundo, fruto da escassa imaginação do diplomatas em férias.

Banco de Desenvolvimento,

Branco convocou-o com a par

ceria de Octávio Bulhões, a res taurar as finanças desmantela das pelo incrível sr. João Gou lart.

O Brasil ficou a dever a es

ses ilustres brasileiros, além da restauração da ordem finan

ceira, outras instituições como

Dois amigos m-eus, profes sores da Universidade de Co-,

o FGTS

lúmbia. em N.Y., Arthur Burns

travou

e Ragnar Nurke, disseram-me então ser Campos o mais bri lhante aluno estrangeiro dentre

(Fundo de Garantia

por Tempo de Serviço), que deso

desenvolvimento

do

País e a correção monetária, que salvou a poupança.

por

O presidente Ernesto Geisel,

suas mãos nos últimos 10 anos.

talvez por não gostar do conví vio de quem pretenda darlhe conselhos, expediu Roberto

as centenas que passaram

Foi através de Concurso do

Itamaraty que Roberto Campos

entrou para a vida pública bra sileira. O Banco de Desenvol vimento Econômico, os Conse lhos Ministeriais logo o absor veram. Quando chegou minha vez em 1954, convoquei-o com Glycon de Paiva para dirigir o

45

ECONÔMICO

Campos e Delfim Netto para as Embaixadas da Inglaterra e da França. Campos mostrou que nossa dívida externa atual, apesar de considerável, não chega a ser

inquietante e que também

os

Por fim, mostrou a utopia

Mato Gro.sso do Norte é, com Goiás, se não me falha a Geografia, o único Estado que

participa das bacias

fluviais

do Paraná e do Amazonas, sen do de notar oue o divisor das

clua.s bacias é quase de

nível,

grande vantagem para um País já tãoí farto de zonas monta

nhosas.

Mato Grosso do Norte é, portanto, uma promissora incóg nita e ideal para um planeja mento inteligente e eficaz. Os serviços de Campos em

Londres, se bem que valiosos, não correspondem ao que ele pode dar ao Brasil, até porque, como ele bem o diz, as Embai

xadas são hoje uma espécie em extinção, tornada supérflua pe los telex do Itamaraty como pelas repetidas visitas nistros de Estado.

de mi

Campos já vem realizando, aliás

como Jacques Rueff, Hayek, tantos outros e até este

humilde escriba, a transposição que 0 potencial

torra cultívável, de boa topo grafia e precipitação pluviomé-

de seu pensamento da Econo mia para o oceano mais largo das idéias gerais, isto é, da Eco nomia e da Tecnocracia para n Sociologia e a Política. Não

trica.

lhe falta estofo.

Dizem-me

mineral do Estado

está longe

de ser pobre e que há

muita

Subsidiária da Siemens oferece Miniusinas Nucleares — Hamburgo — A indústria nuclear da Repviblica Federal Alemã desen volveu miniusinas, destinadas a serem instaladas especialmente em países do Terceiro Mundo. De acordo com afirmações de Klaus Barthelt, presidente da firma Kraftwerk Union AG (KWU), sucursal da Sie mens, estas miniusinas desenvolvem uma capacidade de 300 a 400 Megawatt, estando agora prontas para serem oferecidas. As miniusinas nu cleares, de recente desenvolvimento estão sendo fabricadas na RPA com pletas, carregadas sobre embarcações e puxadas por rebocadores para (Continua na página CO)


DIGESTO ECONÔMICO

DIGESTO

44

Depois de uma “vista” em Bretton Woods, tive a oportuni

Banco de Desenvolvimento

que realizaram

ü

com a maior

dade de vê-lo em Long Island

●eficiência,

(antiga sede das Nações Uni das) defender sob as vistas do embaixador João Carlos Muniz, as doutrinas da Civilização Oci dental que estavam sendo rude mente invectivadas pelo delega do da Polônia. A inteligência, a cultura e a agilidade com que no.sso representante revidou a agressão polonesa deram-me lo go a certeza de tratar-se de um moço de grandes possibilidades na vida pública, econômica e

ter negado (para salvar as fi nanças do País) os recursos que não podiam dispensar. Kubtscheck não deixou de aproveitar tão precioso elemento e afinal 0 grande presidente Castello

cultural do Brasil.

Dois amigos meus, profes sores da Universidade de Co-,

lúmbia, em N.Y., Arthur Burns e Ragnar Nurke, disseram-me então ser Campos o mais bri lhante aluno estrangeiro dentre

ceria de Octávio Bulhões, a i’cstaurar as finanças desmantela das pelo incrível sr. João Gou lart.

O Brasil ficou a dever a es

ses ilustres brasileii*os, além da restauração da ordem finan ceira, outras instituições como (Fundo de Garantia

por Tempo de Serviço), que destravou

o

desenvolvimento

do

País e a correção monetária, que salvou a poupança.

por

O presidente Ernesto Geisel,

mãos nos últimos 10 anos.

talvez por não gostar do conví vio de quem pretenda darlhe conselhos, expediu Roberto

as centenas que passaram suas

apesar de eu lhes

Branco convocou-o com a par

o FGTS

Foi através de Concurso do Itamaraty que Roberto Campo,3

entrou para a vida pública brosileira.

0 Banco de DesenvoJ-

vimento Econômico, os Conse lhos Ministeriais logo o absorveram. Quando chegou minha

vez em 1954, convoquei-o com Glycon de Paiva para dirigir o

45

ECONÔMICO

Campos e Delfim Netto para as Embaixadas da Inglaterra e da França. Campos mostrou que nossa dívida externa atual, apesar de considerável, não chega a ser inquietante e que também os

árabes têm o problema de en contrar aplicação segura para seu dinheiro neste mundo incer to e atormentado.

Por fim, mostrou a utopia do famigerado Terceiro Mundo, fruto da escassa imaginação de diplomatas em férias.

Mato Gro.sso do Norte é. com Goiás, se não me falha a Geografia, o único Estado que

participa das bacias

fluviais

do Paraná e do Amazonas, sen do de notar que o divisor das

dua3 bacias é quase de

nível,

grande vantagem para um País já tãd farto de zonas monta

nhosas. Dizem-me

que 0 potencial

mineral do Estado

está longe

de ser pobre e que há

muita

Mato Grosso do Norte é, ^portanto, uma promissora incóg nita e ideal para um planeja mento inteligente e eficaz.

Os serviços de Campos em Londres, se bem que valiosos, não correspondem ao que ele

pode dar ao Brasil, até porque, como ele bem o diz, as Embai

xadas são hoje uma espécie em extinção, tornada supérflua pe los telex do Itamaraty como pelas repetidas

visitas

de mi

nistros de Estado.

Campos já vem realizando, aliás,

como

Jaeques

Rueff,

Hayek, tantos outros e até este humilde escriba, a transposição de seu pensamento da Economia para o oceano mais largo

terra cultivável, de boa topo grafia e precipitação pluviomé-

das idéias gerais, isto é, da Eco nomia e da Tecnocracia para n Sociologia e a Política. Não

trica.

lhe falta estofo.

Subsidiária da Siemens oferece Miniusinas Nucleares — Hamburgo — A indústria nuclear da República Federal Alemã desen volveu miniusinas, destinadas a serem instaladas especialmente em países do Terceiro Mundo. De acordo com afirmações de Klaus Barthelt, presidente da firma Kraftwerk Union AG (KWU). sucursal da Sie mens. estas miniusinas desenvolvem uma capacidade de 300 a 400 Megawatt, estando agora prontas pai'a serem oferecidas. As miniusinas nu cleares, de recente desenvolvimento estão sendo fabricadas na RPA com pletas, carregadas sobre embarcações e puxadas por rebocadores para (Continua na página 60)


DIGESTO ECONÔMICO

DIGESTO

44

Depois de uma “vista” em Bretton Woods, tive a oportuni

Banco de Desenvolvimento

que realizaram

ü

com a maior

dade de vê-lo em Long Island

●eficiência,

(antiga sede das Nações Uni das) defender sob as vistas do embaixador João Carlos Muniz, as doutrinas da Civilização Oci dental que estavam sendo rude mente invectivadas pelo delega do da Polônia. A inteligência, a cultura e a agilidade com que no.sso representante revidou a agressão polonesa deram-me lo go a certeza de tratar-se de um moço de grandes possibilidades na vida pública, econômica e

ter negado (para salvar as fi nanças do País) os recursos que não podiam dispensar. Kubtscheck não deixou de aproveitar tão precioso elemento e afinal 0 grande presidente Castello

cultural do Brasil.

Dois amigos meus, profes sores da Universidade de Co-,

lúmbia, em N.Y., Arthur Burns e Ragnar Nurke, disseram-me então ser Campos o mais bri lhante aluno estrangeiro dentre

ceria de Octávio Bulhões, a i’cstaurar as finanças desmantela das pelo incrível sr. João Gou lart.

O Brasil ficou a dever a es

ses ilustres brasileii*os, além da restauração da ordem finan ceira, outras instituições como (Fundo de Garantia

por Tempo de Serviço), que destravou

o

desenvolvimento

do

País e a correção monetária, que salvou a poupança.

por

O presidente Ernesto Geisel,

mãos nos últimos 10 anos.

talvez por não gostar do conví vio de quem pretenda darlhe conselhos, expediu Roberto

as centenas que passaram suas

apesar de eu lhes

Branco convocou-o com a par

o FGTS

Foi através de Concurso do Itamaraty que Roberto Campo,3

entrou para a vida pública brosileira.

0 Banco de DesenvoJ-

vimento Econômico, os Conse lhos Ministeriais logo o absorveram. Quando chegou minha

vez em 1954, convoquei-o com Glycon de Paiva para dirigir o

45

ECONÔMICO

Campos e Delfim Netto para as Embaixadas da Inglaterra e da França. Campos mostrou que nossa dívida externa atual, apesar de considerável, não chega a ser inquietante e que também os

árabes têm o problema de en contrar aplicação segura para seu dinheiro neste mundo incer to e atormentado.

Por fim, mostrou a utopia do famigerado Terceiro Mundo, fruto da escassa imaginação de diplomatas em férias.

Mato Gro.sso do Norte é. com Goiás, se não me falha a Geografia, o único Estado que

participa das bacias

fluviais

do Paraná e do Amazonas, sen do de notar que o divisor das

dua3 bacias é quase de

nível,

grande vantagem para um País já tãd farto de zonas monta

nhosas. Dizem-me

que 0 potencial

mineral do Estado

está longe

de ser pobre e que há

muita

Mato Grosso do Norte é, ^portanto, uma promissora incóg nita e ideal para um planeja mento inteligente e eficaz.

Os serviços de Campos em Londres, se bem que valiosos, não correspondem ao que ele

pode dar ao Brasil, até porque, como ele bem o diz, as Embai

xadas são hoje uma espécie em extinção, tornada supérflua pe los telex do Itamaraty como pelas repetidas

visitas

de mi

nistros de Estado.

Campos já vem realizando, aliás,

como

Jaeques

Rueff,

Hayek, tantos outros e até este humilde escriba, a transposição de seu pensamento da Economia para o oceano mais largo

terra cultivável, de boa topo grafia e precipitação pluviomé-

das idéias gerais, isto é, da Eco nomia e da Tecnocracia para n Sociologia e a Política. Não

trica.

lhe falta estofo.

Subsidiária da Siemens oferece Miniusinas Nucleares — Hamburgo — A indústria nuclear da República Federal Alemã desen volveu miniusinas, destinadas a serem instaladas especialmente em países do Terceiro Mundo. De acordo com afirmações de Klaus Barthelt, presidente da firma Kraftwerk Union AG (KWU). sucursal da Sie mens. estas miniusinas desenvolvem uma capacidade de 300 a 400 Megawatt, estando agora prontas pai'a serem oferecidas. As miniusinas nu cleares, de recente desenvolvimento estão sendo fabricadas na RPA com pletas, carregadas sobre embarcações e puxadas por rebocadores para (Continua na página 60)


Por uma Sociologia das

Bandeiras Paulistas A. Delorenzo f^ieío

A história e o drama dos bandeirantes

ilustrarão mensagem capacitada

ÍNSTÍTUTGDE

a compor um discurso político. O autor é professor universitário.

®©N0MIA GASTÃG VIDIGAL ■

Conhecer a economia nacional e mundial, através de estudos constantes de levantamento de dados estatísticos é com o Instituto de Economia Gastão Vidigal.

Quando so constituiu a Es¬

cola de Sociologia e Política dc São Paulo, em 1933, os seus pioneiros desejaram que se es

Mas não é isto apenas. Colaborar no interceimbio de estudos sobre economia e orientar as empresas de pequeno e médio portes são nlqulnas de suas atividadesAssocic-sv à Associação Comercia! de São Paulo e aproveite as vantagens e serviços que o lEGV pode oferecer.

Ir

tabelecesse

tempo de

em

integral,

‘História

de

regime

uma

Social

cátedra de

São

Paulo”, para a investigação científica do passado bandei-

já aperfeiçoados na sociologia e antropologia.(1) Apesar dos esforços de Alcântara Macha do e Roberto Simonsen, não se realizou esse plano inicial. Em 1938, Sérgio Millíet — então professor

auxiliar

de Sociolo

gia — publicou sua monografia clássica "0 Roteiro do Café“,

5í '. y /1

K

rante, sob a perspectiva dos

I i

lio., Vis!-j, 5! — C- íost.i!

C .●[) ü lul-l — Ti'!u'x i'. M

- bP

- p.Mix

i:j:í3

(1)

Nota-se que no primeiro elenco de disciplinas dp Curso de Bacharelado, no 2.0 semestre

do

S.°

ano,

estava

prevista

a denominada

"Problemas

Paulis

tas”. Ver Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo — Informações e Programas (1933-1934), pág. 6.


Por uma Sociologia das

Bandeiras Paulistas A. Delorenzo f^ieío

A história e o drama dos bandeirantes

ilustrarão mensagem capacitada

ÍNSTÍTUTGDE

a compor um discurso político. O autor é professor universitário.

®©N0MIA GASTÃG VIDIGAL ■

Conhecer a economia nacional e mundial, através de estudos constantes de levantamento de dados estatísticos é com o Instituto de Economia Gastão Vidigal.

Quando so constituiu a Es¬

cola de Sociologia e Política dc São Paulo, em 1933, os seus pioneiros desejaram que se es

Mas não é isto apenas. Colaborar no interceimbio de estudos sobre economia e orientar as empresas de pequeno e médio portes são nlqulnas de suas atividadesAssocic-sv à Associação Comercia! de São Paulo e aproveite as vantagens e serviços que o lEGV pode oferecer.

Ir

tabelecesse

tempo de

em

integral,

‘História

de

regime

uma

Social

cátedra de

São

Paulo”, para a investigação científica do passado bandei-

já aperfeiçoados na sociologia e antropologia.(1) Apesar dos esforços de Alcântara Macha do e Roberto Simonsen, não se realizou esse plano inicial. Em 1938, Sérgio Millíet — então professor

auxiliar

de Sociolo

gia — publicou sua monografia clássica "0 Roteiro do Café“,

5í '. y /1

K

rante, sob a perspectiva dos

I i

lio., Vis!-j, 5! — C- íost.i!

C .●[) ü lul-l — Ti'!u'x i'. M

- bP

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(1)

Nota-se que no primeiro elenco de disciplinas dp Curso de Bacharelado, no 2.0 semestre

do

S.°

ano,

estava

prevista

a denominada

"Problemas

Paulis

tas”. Ver Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo — Informações e Programas (1933-1934), pág. 6.


DIGESTO ECONÔMICO

48

DIGESTO ECONÔMICO

estudando aspectos da história social paulista. Também, nessa

mesma linha, Afrânio Peixoto sugerira que Oliveira Viana viesse a São Paulo, realizar um curso aprofundado, na Escola, sobre a sociedade São Paulo.

Como

se

vê,

antiga

de

passaram-se

Os anos, acumularam-se mate riais sobre as “bandeiras”, e a obra monumental de Taunay atesta as dimensões históricas incontrastáveis desse movimen to social. Alcântara Machado, Cassiano Ricardo e Paulo Prado deram alguns brilhantes nos

ensaios. Faltaram-lhes, a todos,

porém, compreensão mais vas

ta do fenômeno para a formu

lação da sociedade global, sem a

utilização dos recursos meto

dológicos das ciências sociais. Dos nossos ensaístas, talvez Alfredo Ellis Júnior foi quem mais se aproximou de uma in

terpretação sócio-econômica de caráter moderno, atendendo a

exigências metodológicas mais rigorosas,

Bastante

oportuna

foi a contribuição de Aureliano Deite, que vislumbrou no mo vimento bandeirante traços de

originalidade, pretendendo mesmo

dele desentranhar uma “ci-

vilização paulista”. Muitas con ferências se realizaram depois da “Semana de Arte Moderna", salientando aqui e acolá rumos novos, sob a inspiração dos “bandeirantes”, ganhando em concepção e relevo a poesia e 0 romance, nas obras de Gui

lherme de Almeida, Menotti dei

Picchia, Ribeiro Couto, Plínio Salgado,

Cassiano

Ricardo

e

Paulo Setúbal. Estilizou-se mes

mo uma “bandeirologia”, para estimular no pensamento pau lista, novas linhas de criação

e ação, ou seja, da literatura à política. Posso

afirmar

— relendo

esses textos, dos mais antigos aos mais

modernos — mesmo

que paradoxalmente — que do passado paulista se poderá co lher uma inspiração fecunda para compor, no presente, um renovado modo de vida, mais autêntico, mais original, mais simples. As nações esquecidas de seu passado se debilitam e se

descaracterizam

sob

as

constantes e progressivas amea ças atuais das ideologias im

perialistas, sejam de direita ou de esquerda. A sociedade brasileira bem merece uma revisão de seus

49

valores e atitudes, alongando a história em Sociologia. A “His

0 significado da ação bandei rante na formação da sociedade

tória Spcial do Brasil” de Pedro

brasileira. Já é o momento dc

Calmon, com um plano de real

ousar esse empreendimento, pois, os grandes mestres que referimos lançaram as bases,

interesse, foi extremamente sumária em relação aos ban

deirantes. A cultura paulista necessita de uma interpretação scciológica que a articule à cultura brasileira, num painel amplo à maneira daquele que Gilberto Freyre construiu para a sociedade patriarcal do Nor

deste, em sua obra clássica e

monumental. A França, tam bém

nos

oferece

um

modelo

inàvalizável, no trabalho ingen te de Taine, ao conceber e rea lizar, originalmente, a sua “Les Origines de la France contemporaine” (em 17 volumes). E, recentemente, a possibilidade

desbravando

exemplos,

a

influência

mais

da

de

ouro

de

textos

e

ensaios

dispersos, procuraremos joeirar ao máximo a riqueza escondi da, para demonstrar em toda a sua clareza o espirito de São Paulo. Quanto mais antigo, mais voltado ao espírito moder no, em seu arrebatamento para a ação, em seu desmedido rea lismo, em sua lealdade à Na ção, confiante na grandeza do futuro. m

A

análise

que propomos,

num

reexame

do bandeirismo

paulista, à luz da interpretação sociológica fundamental, recor

n

Sob

caminhos

história, sem os quais seria impossível a elaboração de se melhante projeto. Nessa mina

de um estudo desse nível nô-lo

atesta o professor Eisenstadt, a propósito de sua notável “Israeli Society”.

os

uma

desses

rendo também aos subsídios da

achega

antropologia, da economia, da geografia humana e da psico

pretendemos acrescentar, com linhas firmes e precisas, para a compreensão da história so cial de S'ão Paulo. Seria uma obra de conjunto, para avaliar

logia social — terá três tomos assim distribuídos:

1° — Teoria e História das Bandeiras Paulistas.


I

DIGESTO

48

DIGESTO

estudando aspectos da história social paulista. Também, nessa

mesma linha, Afrânio Peixoto sugerira que Oliveira Viana viesse a São Paulo, realizar um curso aprofundado, na Escola, sobre a sociedade São Paulo.

ECONÔMICO

antiga

de

Como se vê, passaram-se Os anos, acumularam-se mate riais sobre as “bandeiras”, e a obra monumental de Taunay atesta as dimensões históricas incontrastáveis desse movimen to social. Alcântara Machado, Cassiano Ricardo e Paulo Prado nos deram alguns brilhantes ensaios. Faltaram-lhes, a todos,

porém, compreensão mais vas ta do fenômeno para a formu

lação da sociedade global, sem a utilização dos recursos meto dológicos das ciências sociais, Dos nossos ensaístas, talvez Alfredo Ellis Júnior foi quem mais se aproximou de uma in

terpretação sócio-econômica de caráter moderno, atendendo a

exigências metodológicas mais rigorosas. Bastante oportuna foi a contribuição de Aureliano Leite, que vislumbrou no mo

vilização paulista”. Muitas con ferências se realizaram depois da “Semana de Arte Moderna”, salientando aqui e acolá rumos novos, sob a inspiração dos “bandeirantes”, ganhando em concepção e relevo a poesia e 0 romance, nas obras de Gui lherme de Almeida, Menotti dei Picchia, Ribeiro Couto, Plínio Salgado, Cassiano Ricardo e Paulo Setúbal. Estilizou-se mes.

mo uma “bandeirologia”, para estimular no pensamento pau lista, novas linhas de criação e ação, ou seja, da literatura à política. Posso

afirmar

relendo

esses textos, dos mais antigos aos mais modernos — mesmo

que paradoxalmente — que do passado paulista se poderá co lher

uma

inspiração

fecunda

para compor, no presente, um renovado modo de vida, mais

autêntico, mais original, mais simples. As nações esquecidas de seu passado se debilitam e se descaracterizam, sob as constantes e progressivas amea

ças atuais das ideologias im perialistas, sejam de direita ou

vimento bandeirante traços de

de esquerda.

originalidade, pretendendo mes

A sociedade brasileira bem' merece uma revisão de seus

mo dele desentranhar uma “ci-

ECONÔMICO

49

valores e atitudes, alongando a história em Sociologia. A “His

0 significado da ação bandei rante na formação da sociedade

tória Spcial do Brasil” de Pedro

brasileira. Já é o momento do

Calmon, com um plano de real

ousar esse empreendimento, pois, os grandes mestres que referimos lançaram as bases,

interesse,

foi

extremamente

sumária em relação aos ban deirantes. A cultura paulista necessita de uma interpretação sociológica que a articule à cultura brasileira, num painel amplo à maneii’a daquele que Gilberto Freyre construiu para a sociedade patriarcal do Nor deste, em sua obra clássica e

monumental. A França, tam bém

nos

oferece

um

modelo

ii’rivalizável, no trabalho ingen te de Taine, ao conceber e rea lizar, originalmente, a sua “Les Origines de la France contemporaine” (em 17 volumes). E, recentemente, a possibilidade

desbravando

de

caminhos

da

ouro

de

textos

e

ensaios

dispersos, procuraremos joeirar ao máximo a riqueza escondi da, para demonstrar em toda a sua clareza o espírito de São

Paulo. Quanto mais antigo, mais voltado ao espírito moder no, em seu arrebatamento para a ação, em seu desmedido rea lismo, em sua lealdade à Na ção, confiante na grandeza do futuro.

de um estudo- desse nível nô-lo

atesta o professor Eisenstadt, a propósito de sua notável “Israeli Society”.

os

história, sem os quais seria impossível a elaboração de se melhante projeto. Nessa mina

m

A

análise que propomos,

num reexame do

bandeirismo

paulista, à luz da interpretação sociológica fundamental, recor

n

desses

rendo também aos subsídios da

exemplos, mais uma achega pretendemos acrescentar, com linhas firmes e precisas, para a compreensão da história so cial de São Paulo. Seria uma obra de conjunto, para avaliar

antropologia, da economia, da geografia humana e da psico

Sob

a

influência

logia social — terá três tomos assim distribuídos:

l.° — Teoria e História das Bandeiras Paulistas.


DIGESTO

50

mento original do Brasil.(2) Pois, ela era uma criação ori

ciedade Colonial.

tro

e não tendo nada de semelhan

A conquista do Brasil

Esse antigo "modo de ser pau lista", revelado pela ação des

—

o

"ethos"

o

ra nte

bandel-

tempera¬

mento paulista e o ca ráter nacional.

»

Trata-se, é certo, de um tema assaz complexo, quase um desafio à capacidade ou argúcia do analista. De qual quer forma, no estado atual em' que se encontram as ciências sociais, já bem próximas da objetividade, mercê dos auxí lios da estatística e da pesquisa empírica — não será impossível melhor compreensão da socie dade bandeirante em sua rique

za, em seu quadro sócio-cultural, em sua natureza institucio nal.

IV

,vA unidade nacional,

mais

política que antropo-sociológica, se beneficia das diferenciações regionais.

Jamais se percebeu, çabalmente, a importância regional do “bandeirismo” paulista, co-

da

comunidade

nacional.

à

comunidade

bási

ca", de que nos fala Gilberto Freyre, em seus apegos à re

gião, área ou provincia. Polarizando

a

lítico, essencial à continuidade e nobreza da Pátria.

ginal própria do Brasil do Sul

Referências

te, mesmo em outros países do

bravadora dos “bandeirantes", expressa uma forma de regio nalismo a um tempo polimorfa e singular. Tornou-se, mesmo, um fator substancial de reforço e integração. Lembra aquela “lealdade

51

DIGESTO ECONÔMICO

brindo um amplo espaço geo gráfico e cultural, irradiando uma energia vitalizadora den

2.®— Interpretação socioló gica do Bandelrismo — A formação da So 3.®

ECONÔMICO

“bandeira”

homens

re

riquezas, planos

e

ideais,

sua

convergência

se

realiza em termos de conquista do Brasil. Esses homens, rudes

e altivos, viveram a sua utopia, alcançando e excedendo os li mites da grandeza territorial. Menos os rasgos de aven tura 0 que se deve perquirir no “modo de vida bandeirante”, em sua estática e dinâmica,

será a “performance" da pró pria nação em sua realidade

continente (o próprio “pioneer” da América do Norte não tivera a função do paulista). A “ban deira" pode, sociologicamente, ser considerada o “grupo pri mário” de nossa organização sócio-política, sendo o “bandeirismo” a revelação instintiva de um esquema político origi nal em que predominavam as

forças agregadoras da discipli na, da solidariedade e do ideal cristão.

Essa idéia-símbolo, portan to, a “bandeira paulista”, den tro das obscuridades do presen te, poderá apontar um roteiro

Affonso História

de

Geral

básicas

E. Taunay — das

Bandeiras

Paulistas, especialmente o To mo V, Typographia Ideal, São Paulo, 1929. Alfredo

Melo

Século

Ellis

de

Júnior

—

Bandeirismo,

Coleção “Brasiliana”, Comp. Editora Nacional, São Paulo, 1948.

Cassiano Ricardo

Mar

cha para o Oeste, 2 vols., Li vraria José Olympio Editora,

São Paulo, 1970. Cassiano Ricardo — Peque no

Ensaio

de

Bandeírologia,

Ministério

de

Educação

e

para a nossa vida cívica.

Cultura, Rio de Janeiro, 1956.

Dos “bandeirantes” não fi cou a mera imagem, ou apenas a evocação romântica: desses

saio de Exposição do Pensa mento Bandeirante, Coleção-.da

Menotti Del Picchia — En

personagens, desses atores de

"Bandeira”, São Paulo, 1937.,

nossa história se indagará um sentido de permanência. Assim,

Bandeirantes, Edição Fac-simi-

Belmonte — No Tempo dos

sua história e seu drama ilus

lada, Coleção “Paulística”, vpl.

futura.

trarão uma mensagem capaci

Cassiano Ricardo buscava na “bandeira" a idéia-símbolo

tada a compor um discurso po-

XX. Governo do Estado de São Paulo, 1980.

para melhor defender o pensa-

(2)

Ler o seu ensaio — Contribuição para a Defesa do Pensamento Original do Brasil^ Coleção da “Bandeira”, n.® 7, São Paulo, 1936.


DIGESTO

50

mento original do Brasil.(2) Pois, ela era uma criação ori

ciedade Colonial.

tro

e não tendo nada de semelhan

A conquista do Brasil

Esse antigo "modo de ser pau lista", revelado pela ação des

—

o

"ethos"

o

ra nte

bandel-

tempera¬

mento paulista e o ca ráter nacional.

»

Trata-se, é certo, de um tema assaz complexo, quase um desafio à capacidade ou argúcia do analista. De qual quer forma, no estado atual em' que se encontram as ciências sociais, já bem próximas da objetividade, mercê dos auxí lios da estatística e da pesquisa empírica — não será impossível melhor compreensão da socie dade bandeirante em sua rique

za, em seu quadro sócio-cultural, em sua natureza institucio nal.

IV

,vA unidade nacional,

mais

política que antropo-sociológica, se beneficia das diferenciações regionais.

Jamais se percebeu, çabalmente, a importância regional do “bandeirismo” paulista, co-

da

comunidade

nacional.

à

comunidade

bási

ca", de que nos fala Gilberto Freyre, em seus apegos à re

gião, área ou provincia. Polarizando

a

lítico, essencial à continuidade e nobreza da Pátria.

ginal própria do Brasil do Sul

Referências

te, mesmo em outros países do

bravadora dos “bandeirantes", expressa uma forma de regio nalismo a um tempo polimorfa e singular. Tornou-se, mesmo, um fator substancial de reforço e integração. Lembra aquela “lealdade

51

DIGESTO ECONÔMICO

brindo um amplo espaço geo gráfico e cultural, irradiando uma energia vitalizadora den

2.®— Interpretação socioló gica do Bandelrismo — A formação da So 3.®

ECONÔMICO

“bandeira”

homens

re

riquezas, planos

e

ideais,

sua

convergência

se

realiza em termos de conquista do Brasil. Esses homens, rudes

e altivos, viveram a sua utopia, alcançando e excedendo os li mites da grandeza territorial. Menos os rasgos de aven tura 0 que se deve perquirir no “modo de vida bandeirante”, em sua estática e dinâmica,

será a “performance" da pró pria nação em sua realidade

continente (o próprio “pioneer” da América do Norte não tivera a função do paulista). A “ban deira" pode, sociologicamente, ser considerada o “grupo pri mário” de nossa organização sócio-política, sendo o “bandeirismo” a revelação instintiva de um esquema político origi nal em que predominavam as

forças agregadoras da discipli na, da solidariedade e do ideal cristão.

Essa idéia-símbolo, portan to, a “bandeira paulista”, den tro das obscuridades do presen te, poderá apontar um roteiro

Affonso História

de

Geral

básicas

E. Taunay — das

Bandeiras

Paulistas, especialmente o To mo V, Typographia Ideal, São Paulo, 1929. Alfredo

Melo

Século

Ellis

de

Júnior

—

Bandeirismo,

Coleção “Brasiliana”, Comp. Editora Nacional, São Paulo, 1948.

Cassiano Ricardo

Mar

cha para o Oeste, 2 vols., Li vraria José Olympio Editora,

São Paulo, 1970. Cassiano Ricardo — Peque no

Ensaio

de

Bandeírologia,

Ministério

de

Educação

e

para a nossa vida cívica.

Cultura, Rio de Janeiro, 1956.

Dos “bandeirantes” não fi cou a mera imagem, ou apenas a evocação romântica: desses

saio de Exposição do Pensa mento Bandeirante, Coleção-.da

Menotti Del Picchia — En

personagens, desses atores de

"Bandeira”, São Paulo, 1937.,

nossa história se indagará um sentido de permanência. Assim,

Bandeirantes, Edição Fac-simi-

Belmonte — No Tempo dos

sua história e seu drama ilus

lada, Coleção “Paulística”, vpl.

futura.

trarão uma mensagem capaci

Cassiano Ricardo buscava na “bandeira" a idéia-símbolo

tada a compor um discurso po-

XX. Governo do Estado de São Paulo, 1980.

para melhor defender o pensa-

(2)

Ler o seu ensaio — Contribuição para a Defesa do Pensamento Original do Brasil^ Coleção da “Bandeira”, n.® 7, São Paulo, 1936.


»: ●<r

<●

■. V

A Ofería Pcilslicaç

.

a IgMalclasle al®s AclaiiisÉffls ® o Blreito Comparado Amoldo Wa!d

A fgualdade iurídica como igualdade proporcional e não como

igualdade matemática. O autor é advogado e professor no Rio de Janeiro.

1. 0 legislador brasileiro, ao introduzir a oferta pública de aquisição de ações, inspi rou-se na lição do direito norteamericano que deu especial ênfase ao igual tratamento dos acionistas no caso de cessão de controle. Partindo dos deveres

de “boa fé”, e de fidelidade (fiduciary duty) que 0 acioComunicação constante com os maiores centros de produção, transmitindo informações precisas sobre negócios e oportunidadesno Brasil e no Mundo.

Associe-se â ACSP e usufrua das vantagens do Intercâmbio.

Rua Boa Vista, 51 - C. Postal 8082 - Cep 01014 — Tcicx (11) 23355 — SP — PABX 239-1333.

nista controlador teria em relação aos minoritários e ex

cluindo qualquer vantagem que

de controle nos Estados Unidos, a fim de fazer com que todos os acionistas da mesma classe

pudessem

gozar dos

mesmos

benefícios.

2. Admitida, já há longo temoo. a dissociação entre a

gestão e a propriedade da em presa, discutiu-se em favor de quem deveria reverter o even da tual prêmio decorrente transferência do poder de co mando da companhia. Enquan

para o majoritário pudesse ad vir da sua condição de instder,

to, no passado, admitia-se que pudesse beneficiar exclusiva

a jurisprudência e a doutrina pretenderam moralizar a cessão

ca de meio século^ após o fa-

mente 0 controlador, já há cer


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A Ofería Pcilslicaç

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a IgMalclasle al®s AclaiiisÉffls ® o Blreito Comparado Amoldo Wa!d

A fgualdade iurídica como igualdade proporcional e não como

igualdade matemática. O autor é advogado e professor no Rio de Janeiro.

1. 0 legislador brasileiro, ao introduzir a oferta pública de aquisição de ações, inspi rou-se na lição do direito norteamericano que deu especial ênfase ao igual tratamento dos acionistas no caso de cessão de controle. Partindo dos deveres

de “boa fé”, e de fidelidade (fiduciary duty) que 0 acioComunicação constante com os maiores centros de produção, transmitindo informações precisas sobre negócios e oportunidadesno Brasil e no Mundo.

Associe-se â ACSP e usufrua das vantagens do Intercâmbio.

Rua Boa Vista, 51 - C. Postal 8082 - Cep 01014 — Tcicx (11) 23355 — SP — PABX 239-1333.

nista controlador teria em relação aos minoritários e ex

cluindo qualquer vantagem que

de controle nos Estados Unidos, a fim de fazer com que todos os acionistas da mesma classe

pudessem

gozar dos

mesmos

benefícios.

2. Admitida, já há longo temoo. a dissociação entre a

gestão e a propriedade da em presa, discutiu-se em favor de quem deveria reverter o even da tual prêmio decorrente transferência do poder de co mando da companhia. Enquan

para o majoritário pudesse ad vir da sua condição de instder,

to, no passado, admitia-se que pudesse beneficiar exclusiva

a jurisprudência e a doutrina pretenderam moralizar a cessão

ca de meio século^ após o fa-

mente 0 controlador, já há cer


DIGESTO ECONÔMICO

54

moso caso Loew, Berle e Means

concluindo no sentido de reco

entenderam que o preço pago

nhecer que as oportunidades empresariais (corperate opportunities) deveríam beneficiar todos os acionistas que estives sem em condições iguais. Na parte decisória, determinou que

pelo controle deveria favorecer a empresa e não o acionista controlador, pois se o compra

dor adquire poder (de mando) e não apenas ações, tal poder pertencería à empresa, con

cluindo que, em tal hipótese, "payment for that power, if it goes anywhere, must go into the corporate treasury”. (BER LE and MEANS, The modem Corporation and private property, 1932, pág. 244). Para esses autores, o controle cons

0 prêmio, ágio ou bonus rece bido pelo acionista controlador fosse redistribuído de modo

impressão,

3.

Posteriormente, tanto a

The

foundation

Press Inc., 1975, pág. 837).

tituiría um corporate asset. um

bem do ativo da sociedade

a

também ser recebido pelos mi noritários. (Ap WILLIAM L. CARY, Corporations, Cases and Materials, 4.a edição, 5.a re-

4.

A

doutrina

americana

veio a justificar o direito do minoritário a uma parcela do

cia evoluíram no sentido de ser

prêmio com várias teorias que, inicialmente, destacaram que

redistribuído o prêmio recebido

0 controle pertencia à socieda

pelo

doutrina quanto a jurisprudên

demais

de, cabendo no caso a corporate

acionistas da mesma categoria, conforme ficou decidido no

actíon, como foi salientado em

leading case Perlman v. Feld mann, julgado, em 1955, pela Corte de Apelação do Segundo

do

controlador aos

vários julgados, desde o início século

até 1940. Posterior

Circuito, no qual a decisão ma

mente, considerou-se que havia uma espécie de alienação dos cargos de direção da empresa

joritária, liderada pelo juiz Clark, admitiu a existência de

(theory of sale of corporate Office), ensejando, pois, um

um dever fiduciário do acio nista controlador e diretor em

relação aos minoritários, com base no princípio

da

boa

fé.

pagamento que deveria benefi ciar todos os acionistas com direito de voto. Desenvolveuse, ainda, a teoria do erro

DIGBSTO ECONÔMICO

(mlsrepresentatlon) ou dolo e da ruptura do dever fiduciário (breach of fiduclary duty) a que se referiu o acórdão Perlman v. Feldmann acima citado, Mas, na realidade, a tese que acabou sendo consagrada, após algumas oscilações, foi a da igualdade de tratamento entre acionistas com direitos iguais.

5. Trata-se, na realidade, de um princípio básico do di reito societário que consagra, no direito comercial, a norma básica de direito constitucional, de acordo com a qual todos são

iguais perante a lei. Tal pre missa, também, foi invocada na decisão judicial mencionada, que considerou repreensível a atuação do réu por violar o princípio da igualdade, o que no entender da Corte era pu

nível especialmente numa épo ca de crise e considerando que

a venda do controle importava, na realidade, em diminuir o valor do fundo de comércio da empresa. (Ap. WILLIAM L.

CARY, obra citada, pág. 841 in fine). 6. Partindo da análise do

caso Perlman v. Feldmann, o professor William D. Andrews,

55

da Universidade de Harvard,

escreveu excelente ensaio, na Harvard Law Review de janei ro de 1965, no qual estruturou a sua teoria da igualdade dos

acionistas. Após excluir os de mais fundamentos doutrinários

da

“equalização”

dos direitos

da maioria e da minoria no caso

de venda de controle, concluiu que a responsabilidade do con trolador que deve redistribuir 0 seu bonus ou ágio aos mino ritários decorre simplesmente

da violação do princípio da igualdade de oportunidade, que deve ser assegurado a todos os acionistas, embora tal não te

nha sido 0 princípio claramen te consagrado no acórdão. Es creveu a respeito o ilustre co-

mercialista americano que: "These

questions

suggest

the possibility that Feldmann's liability can be predicated simply on the fact that he sold at a price not offered or otherwise

available

to

his

fellow

stockholders. The right violated, then, is simply the right of all stockholders to

have an equal

opportunity to participate ratably in a sale of stock pursuant to an offer to purchase controUing shares at a favora-


DIGESTO ECONÔMICO

54

moso caso Loew, Berle e Means

concluindo no sentido de reco

entenderam que o preço pago

nhecer que as oportunidades empresariais (corperate opportunities) deveríam beneficiar todos os acionistas que estives sem em condições iguais. Na parte decisória, determinou que

pelo controle deveria favorecer a empresa e não o acionista controlador, pois se o compra

dor adquire poder (de mando) e não apenas ações, tal poder pertencería à empresa, con

cluindo que, em tal hipótese, "payment for that power, if it goes anywhere, must go into the corporate treasury”. (BER LE and MEANS, The modem Corporation and private property, 1932, pág. 244). Para esses autores, o controle cons

0 prêmio, ágio ou bonus rece bido pelo acionista controlador fosse redistribuído de modo

impressão,

3.

Posteriormente, tanto a

The

foundation

Press Inc., 1975, pág. 837).

tituiría um corporate asset. um

bem do ativo da sociedade

a

também ser recebido pelos mi noritários. (Ap WILLIAM L. CARY, Corporations, Cases and Materials, 4.a edição, 5.a re-

4.

A

doutrina

americana

veio a justificar o direito do minoritário a uma parcela do

cia evoluíram no sentido de ser

prêmio com várias teorias que, inicialmente, destacaram que

redistribuído o prêmio recebido

0 controle pertencia à socieda

pelo

doutrina quanto a jurisprudên

demais

de, cabendo no caso a corporate

acionistas da mesma categoria, conforme ficou decidido no

actíon, como foi salientado em

leading case Perlman v. Feld mann, julgado, em 1955, pela Corte de Apelação do Segundo

do

controlador aos

vários julgados, desde o início século

até 1940. Posterior

Circuito, no qual a decisão ma

mente, considerou-se que havia uma espécie de alienação dos cargos de direção da empresa

joritária, liderada pelo juiz Clark, admitiu a existência de

(theory of sale of corporate Office), ensejando, pois, um

um dever fiduciário do acio nista controlador e diretor em

relação aos minoritários, com base no princípio

da

boa

fé.

pagamento que deveria benefi ciar todos os acionistas com direito de voto. Desenvolveuse, ainda, a teoria do erro

DIGBSTO ECONÔMICO

(mlsrepresentatlon) ou dolo e da ruptura do dever fiduciário (breach of fiduclary duty) a que se referiu o acórdão Perlman v. Feldmann acima citado, Mas, na realidade, a tese que acabou sendo consagrada, após algumas oscilações, foi a da igualdade de tratamento entre acionistas com direitos iguais.

5. Trata-se, na realidade, de um princípio básico do di reito societário que consagra, no direito comercial, a norma básica de direito constitucional, de acordo com a qual todos são

iguais perante a lei. Tal pre missa, também, foi invocada na decisão judicial mencionada, que considerou repreensível a atuação do réu por violar o princípio da igualdade, o que no entender da Corte era pu

nível especialmente numa épo ca de crise e considerando que

a venda do controle importava, na realidade, em diminuir o valor do fundo de comércio da empresa. (Ap. WILLIAM L.

CARY, obra citada, pág. 841 in fine). 6. Partindo da análise do

caso Perlman v. Feldmann, o professor William D. Andrews,

55

da Universidade de Harvard,

escreveu excelente ensaio, na Harvard Law Review de janei ro de 1965, no qual estruturou a sua teoria da igualdade dos

acionistas. Após excluir os de mais fundamentos doutrinários

da

“equalização”

dos direitos

da maioria e da minoria no caso

de venda de controle, concluiu que a responsabilidade do con trolador que deve redistribuir 0 seu bonus ou ágio aos mino ritários decorre simplesmente

da violação do princípio da igualdade de oportunidade, que deve ser assegurado a todos os acionistas, embora tal não te

nha sido 0 princípio claramen te consagrado no acórdão. Es creveu a respeito o ilustre co-

mercialista americano que: "These

questions

suggest

the possibility that Feldmann's liability can be predicated simply on the fact that he sold at a price not offered or otherwise

available

to

his

fellow

stockholders. The right violated, then, is simply the right of all stockholders to

have an equal

opportunity to participate ratably in a sale of stock pursuant to an offer to purchase controUing shares at a favora-


56

DIGESTO- ECONÔMICO

ble price”. (WILLIAM D. AN DREWS, The stockholder's ríght

of shares

fof

is

to have

to equal opportunity in the sale of shares, in Harvard Law

opportunity to sell his shares, or a prorata part of them, on substantially the same terms.

Review, janeiro de 1965 vol. 78, n.“ 3, pág. 515). 7. A regra da igualdade de oportunidade é sintetizada pelo autor nos seguintes termos: “A regra a ser considerada pode ser assim estatuída: sem pre que um acionista controla dor vende suas ações, todos os demais titulares de ações (da mesma classe) fazem jus a uma oportunidade idêntica para ven der suas ações, ou um quinhão delas pro-rata, em termos subs

tancialmente idênticos, ou seja, em termos de direitos correlativos: o acionista controlador,

ao

vender

as

suas

ações

a

um

terceiro,

deve

assegu

rar aos demais acionistas (mi noritários) uma oportunidade igual para que vendam as suas ações, na mesma proporção que ele vende as suas”.

É 0 seguinte o texto ginal:

ori-

"The rule to be considered can be stated thus: whenever a controlling stockolder sells

his shares. every other holder

entitled

the same class)

an

equal

DIGEST.O ECONÔMICO

da. Ações votantes não são fungíveis”. (But the riile of equal opportunity pressuposes fungible securities to be offered

for sale, Voting and non voting

Or in terms of the correlative

stcck are not

duty: before a controUing síock-

cit., pág. 558).

holder may sell his shares an

outsider

he

must

to

assure

his fellow stockholder an equal opportunity to sell their shares, or as high a proportion of theirs, as he ultimately sells of

his own”.

(Obra citada,

pág.

414, in fine). 8.

Desenvolvendo

a

sua

tese de igualdade de oportuni

dade, 0 autor concluiu que ela não pode ser estendida aos ti tulares de ações de categoria

distinta, não cabendo equipa rar ações votantes e não vo tantes, cuja natureza é distinta. Citando a jurisprudência norte-

americana

nos

casos

Honig-

man v. Green Giant Co. e Manacher v. Reynolds, nos quais se reconheceu que as ações não votantes não têm o mesmo valor que as votantes, afirma

0 professor ANDREWS que: "A

regra

oportunidade

da

igualdade de

pressupõe

títu

los fungíveis oferecidos à ven-

57

9.

fungible).

(Ob.

É de s.3 salientar

que

no julgamento Honifeman v. Green Giant Co., o tribunal reconheceu que o valor de mercado de ações votantes e não votantes pode ser diferente e deve prevalecer sobre o valor contábil (book value). Decidiu a respeito o acórdão pelo voto do Juiz Nordbye que:

"One may theorize urge

mesma classe, não podendo ha ver equiparação entre ações de classes distintas. (J. Spencer Letts. Sales of control stock and the righrs of mínorlty shareholders^ in The Business Lawyer, janeiro de 1971, pág. C38; Note on

that no

premium should bs paid for its extension, and further contriid

that because the book value of Class A shares does not exceed the book value of the Class B shares, these two classes of stock would have the basis of equality in any recopitalizations; however, in doing so, one

ignores the undeniable disparity

Cash

Tender

Offers in

Har

vard Law Review, vol. 83, pág. 377 e seguintes e especialmente pág. 388 e Richard W. Jennings, Trading in Corporate Controls in Califórnia Law Rev’ew. vol.

44, pág. 1 e seguintes e espe cialmente pág. 20).

on the

principies of socalled corporate

democracy and

matéria, enfatizaram sempre que a igualdade deveria preva lecer em relação a rções da

11. Na sua

obra

clássica

a

respeito de Tender Offers for corporate control, Edward Ross Aranow

e Herbert A. Einhorn

salientam que as ofertas públi cas de compra de ações podem abranger uma ou várias classes

ou categorias de títulos, sendo inclusive lícita a oferta de pre ços diferentes para cada tipo de ação. (Edward Ross Ara now

and

Herbert

A.

Einhorn.

in the market value ot the control which he forgoes'. (Cary, obra citada, pág. 849).

Tender Offers for corporate control, New York. Columbia

10. Todos os autores norte-

12.. Também na Inglaterra.. 0 Cíty.Code on Take-Overs and

americanos, que tratsram da

University Press, 1973, pág. 47).


56

DIGESTO- ECONÔMICO

ble price”. (WILLIAM D. AN DREWS, The stockholder's ríght

of shares

fof

is

to have

to equal opportunity in the sale of shares, in Harvard Law

opportunity to sell his shares, or a prorata part of them, on substantially the same terms.

Review, janeiro de 1965 vol. 78, n.“ 3, pág. 515). 7. A regra da igualdade de oportunidade é sintetizada pelo autor nos seguintes termos: “A regra a ser considerada pode ser assim estatuída: sem pre que um acionista controla dor vende suas ações, todos os demais titulares de ações (da mesma classe) fazem jus a uma oportunidade idêntica para ven der suas ações, ou um quinhão delas pro-rata, em termos subs

tancialmente idênticos, ou seja, em termos de direitos correlativos: o acionista controlador,

ao

vender

as

suas

ações

a

um

terceiro,

deve

assegu

rar aos demais acionistas (mi noritários) uma oportunidade igual para que vendam as suas ações, na mesma proporção que ele vende as suas”.

É 0 seguinte o texto ginal:

ori-

"The rule to be considered can be stated thus: whenever a controlling stockolder sells

his shares. every other holder

entitled

the same class)

an

equal

DIGEST.O ECONÔMICO

da. Ações votantes não são fungíveis”. (But the riile of equal opportunity pressuposes fungible securities to be offered

for sale, Voting and non voting

Or in terms of the correlative

stcck are not

duty: before a controUing síock-

cit., pág. 558).

holder may sell his shares an

outsider

he

must

to

assure

his fellow stockholder an equal opportunity to sell their shares, or as high a proportion of theirs, as he ultimately sells of

his own”.

(Obra citada,

pág.

414, in fine). 8.

Desenvolvendo

a

sua

tese de igualdade de oportuni

dade, 0 autor concluiu que ela não pode ser estendida aos ti tulares de ações de categoria

distinta, não cabendo equipa rar ações votantes e não vo tantes, cuja natureza é distinta. Citando a jurisprudência norte-

americana

nos

casos

Honig-

man v. Green Giant Co. e Manacher v. Reynolds, nos quais se reconheceu que as ações não votantes não têm o mesmo valor que as votantes, afirma

0 professor ANDREWS que: "A

regra

oportunidade

da

igualdade de

pressupõe

títu

los fungíveis oferecidos à ven-

57

9.

fungible).

(Ob.

É de s.3 salientar

que

no julgamento Honifeman v. Green Giant Co., o tribunal reconheceu que o valor de mercado de ações votantes e não votantes pode ser diferente e deve prevalecer sobre o valor contábil (book value). Decidiu a respeito o acórdão pelo voto do Juiz Nordbye que:

"One may theorize urge

mesma classe, não podendo ha ver equiparação entre ações de classes distintas. (J. Spencer Letts. Sales of control stock and the righrs of mínorlty shareholders^ in The Business Lawyer, janeiro de 1971, pág. C38; Note on

that no

premium should bs paid for its extension, and further contriid

that because the book value of Class A shares does not exceed the book value of the Class B shares, these two classes of stock would have the basis of equality in any recopitalizations; however, in doing so, one

ignores the undeniable disparity

Cash

Tender

Offers in

Har

vard Law Review, vol. 83, pág. 377 e seguintes e especialmente pág. 388 e Richard W. Jennings, Trading in Corporate Controls in Califórnia Law Rev’ew. vol.

44, pág. 1 e seguintes e espe cialmente pág. 20).

on the

principies of socalled corporate

democracy and

matéria, enfatizaram sempre que a igualdade deveria preva lecer em relação a rções da

11. Na sua

obra

clássica

a

respeito de Tender Offers for corporate control, Edward Ross Aranow

e Herbert A. Einhorn

salientam que as ofertas públi cas de compra de ações podem abranger uma ou várias classes

ou categorias de títulos, sendo inclusive lícita a oferta de pre ços diferentes para cada tipo de ação. (Edward Ross Ara now

and

Herbert

A.

Einhorn.

in the market value ot the control which he forgoes'. (Cary, obra citada, pág. 849).

Tender Offers for corporate control, New York. Columbia

10. Todos os autores norte-

12.. Também na Inglaterra.. 0 Cíty.Code on Take-Overs and

americanos, que tratsram da

University Press, 1973, pág. 47).


DIGESTO

58

Mergers determina que a ofer ta pública seja feita para todas ou para um grupo de ações da mesma categoria. No caso de oferta pública para várias cate

ECONÔMICO

tou expressamente que devia ser respeitada a igualdade dos acionistas, que deveríam ser colocados, de fato e de direito, em idêntica situação. (Valeurs

gorias de ações, o preço ofere cido pode ser diferente em re lação a cada uma delas. (Clive

MobíHiéres - Reglementation boursiére. OPA-OPE-OPV,

M. Schmitthof, Palmer's Com-

1979, pág. 135 e 152).

pany Law, 22.a edição, Lon dres, Stevens & Sons, ^976, pág. 858 e seguintes; François Ma-

14. Dentro do mesmo espírito, a Comissão Bancária Belga, no seu relatório de 1969/1970, con

lan,

Les

achat

offres

(OPA)

publiques

d'

L'expérience

anglaise. Paris, Librairie générale de droit et de jurisprudence, 1969, pág. 307 e André Tunc, Le droit anglais des sociétés

anonymes,

2.a

edição.

Paris,

Dalloz, 1978, pág. 231 e seguin tes).

Paris, Jurisdictíonnaires

sagrou

como

Joly,

consequência

do

princípio da igualdade entre os acionistas a obrigação de extenção das ofertas públicas de aquisição a todos os acionistas que se encontrassem -cm situa

ção

idêntica.

Uma

advogada

suíça chegou a encontrar, nas

decisões

belgas, considerações

13. Na França, a obrigação de recorrer à oferta pública de

gerais sobre a cessão de controle que não deixam de lem

aquisição de ações, no caso de mudança de controle, também base no

brar a teoria de Andrews à qual já nos referimos. (Anne Petitpierre-Sauvin, La cession

princípio da igualdade de tra

de controle mode de cession de

tamento entre os acionistas de

l'®nírepríse, Geneabra, GeorgLibrairie de TUniversité, 1977, pág. 80). 15. Finalmente, a própria

foi

determinada

com

igual categoria. (Nicole Decoopman, La commíssion des opérafíons de bourse et le droit

des sociétés, Paris, Econômica,

(ilomunidade

1980, pág. 68).

A Comissão de

péia, baseada no art. 155 do

Econômica

Euro

Operações de Bolsa (COB) da França, nas suas decisões de 15.3.1973 e de 25.7.1978. salien-

Tratado de Roma, aprovou em

25.7.1977, um Código de Condu ta referente às transações com

DTOESTO ECONÔMICO

59

valores mobiliários, determi nando que, na aquisição de con trole fosse reconhecido o direi

to dos minoritários de ter o mesmo tratamento que os ma

joritários.

(Ap. Renê Rodière,

D r o f t commercial, groupements commerciaux, lO.a edi

ção, Paris, Dalloz, 1980, n.o 359, pág. 417). 16. Em todos os países, as regras sobre ofertas públicas de compra de ações inspiramse no princípio básico da igual dade dos acionistas, visando a impedir um tratamento mais favorecido para os Insidcrs.

Neste sentido, reconheceu-se que 0 essencial da regulamen tação das ofertas públicas tem como objetivo principal garan tir a manutenção de uma igual dade constante entre controla dores, que geralmente são os iniciados, e demais acionistas

minoritários.

(Anne

Petitpier-

re-Sauvin, La cession de con trole mode de cession de i'en-

treprlse. Genebra, Georg-Librairie de 1'Université, 1977,

pág. 79, nota 179). 17. Ora, é evidente que essa

igualdade só pode ser garanti

em relação aos outros, pelo fato de possuírem as mesmas características. O princípio da igualdade justifica que não pos sa haver discriminação entre ações iguais pelo fato de per tencerem algumas aos controla dores e outras aos minoritários, nias jamais pode servir de base para uma equiparação entre ações distintas, entre direi

tos

diferentes,

tas

com

idênticos, fungíveis

uns

a

acionis voto

e

acionistas sem direito a voto.

18. Vemos, pois, que o direito comparado não diverge da po

sição tradicional assmnida pe los autores brasileiros que tra taram da matéria no campo do

direito público. Efetivamente. os mestres brasileiros sempre entenderam que diante de situações desiguais, c trata mento igual é que coostituiria a injustiça. Já disse Rui Bar bosa na Oração aos IVjoços ao enfatizar que: //

A regra da igualdade não consiste senão «m qulnhoar de-

sigualmenfe aos desiguais, na medida em que se deslgualam". E acrescentou: U

da a acionistas que tenham tí

tulos

entre

direito

a

Tratar iguais,

com desigualdade ou desiguais com


DIGESTO

58

Mergers determina que a ofer ta pública seja feita para todas ou para um grupo de ações da mesma categoria. No caso de oferta pública para várias cate

ECONÔMICO

tou expressamente que devia ser respeitada a igualdade dos acionistas, que deveríam ser colocados, de fato e de direito, em idêntica situação. (Valeurs

gorias de ações, o preço ofere cido pode ser diferente em re lação a cada uma delas. (Clive

MobíHiéres - Reglementation boursiére. OPA-OPE-OPV,

M. Schmitthof, Palmer's Com-

1979, pág. 135 e 152).

pany Law, 22.a edição, Lon dres, Stevens & Sons, ^976, pág. 858 e seguintes; François Ma-

14. Dentro do mesmo espírito, a Comissão Bancária Belga, no seu relatório de 1969/1970, con

lan,

Les

achat

offres

(OPA)

publiques

d'

L'expérience

anglaise. Paris, Librairie générale de droit et de jurisprudence, 1969, pág. 307 e André Tunc, Le droit anglais des sociétés

anonymes,

2.a

edição.

Paris,

Dalloz, 1978, pág. 231 e seguin tes).

Paris, Jurisdictíonnaires

sagrou

como

Joly,

consequência

do

princípio da igualdade entre os acionistas a obrigação de extenção das ofertas públicas de aquisição a todos os acionistas que se encontrassem -cm situa

ção

idêntica.

Uma

advogada

suíça chegou a encontrar, nas

decisões

belgas, considerações

13. Na França, a obrigação de recorrer à oferta pública de

gerais sobre a cessão de controle que não deixam de lem

aquisição de ações, no caso de mudança de controle, também base no

brar a teoria de Andrews à qual já nos referimos. (Anne Petitpierre-Sauvin, La cession

princípio da igualdade de tra

de controle mode de cession de

tamento entre os acionistas de

l'®nírepríse, Geneabra, GeorgLibrairie de TUniversité, 1977, pág. 80). 15. Finalmente, a própria

foi

determinada

com

igual categoria. (Nicole Decoopman, La commíssion des opérafíons de bourse et le droit

des sociétés, Paris, Econômica,

(ilomunidade

1980, pág. 68).

A Comissão de

péia, baseada no art. 155 do

Econômica

Euro

Operações de Bolsa (COB) da França, nas suas decisões de 15.3.1973 e de 25.7.1978. salien-

Tratado de Roma, aprovou em

25.7.1977, um Código de Condu ta referente às transações com

DTOESTO ECONÔMICO

59

valores mobiliários, determi nando que, na aquisição de con trole fosse reconhecido o direi

to dos minoritários de ter o mesmo tratamento que os ma

joritários.

(Ap. Renê Rodière,

D r o f t commercial, groupements commerciaux, lO.a edi

ção, Paris, Dalloz, 1980, n.o 359, pág. 417). 16. Em todos os países, as regras sobre ofertas públicas de compra de ações inspiramse no princípio básico da igual dade dos acionistas, visando a impedir um tratamento mais favorecido para os Insidcrs.

Neste sentido, reconheceu-se que 0 essencial da regulamen tação das ofertas públicas tem como objetivo principal garan tir a manutenção de uma igual dade constante entre controla dores, que geralmente são os iniciados, e demais acionistas

minoritários.

(Anne

Petitpier-

re-Sauvin, La cession de con trole mode de cession de i'en-

treprlse. Genebra, Georg-Librairie de 1'Université, 1977,

pág. 79, nota 179). 17. Ora, é evidente que essa

igualdade só pode ser garanti

em relação aos outros, pelo fato de possuírem as mesmas características. O princípio da igualdade justifica que não pos sa haver discriminação entre ações iguais pelo fato de per tencerem algumas aos controla dores e outras aos minoritários, nias jamais pode servir de base para uma equiparação entre ações distintas, entre direi

tos

diferentes,

tas

com

idênticos, fungíveis

uns

a

acionis voto

e

acionistas sem direito a voto.

18. Vemos, pois, que o direito comparado não diverge da po

sição tradicional assmnida pe los autores brasileiros que tra taram da matéria no campo do

direito público. Efetivamente. os mestres brasileiros sempre entenderam que diante de situações desiguais, c trata mento igual é que coostituiria a injustiça. Já disse Rui Bar bosa na Oração aos IVjoços ao enfatizar que: //

A regra da igualdade não consiste senão «m qulnhoar de-

sigualmenfe aos desiguais, na medida em que se deslgualam". E acrescentou: U

da a acionistas que tenham tí

tulos

entre

direito

a

Tratar iguais,

com desigualdade ou desiguais com


DIGESTO

60

igualdade, sena desigualdade flagrante e não Igualdade real Oraçao (RUI BARBOSA, aos moços, nova edição, Rio de Janeiro, Publicação da Casa

de Rui Barbosa, 1956, pág. 32). ● 19. Idêntica é a posição de San Tiago Dantas, em excelen te estudo no qual conceitua , a igualdade jurídica como igual-

ECONÔMICO

dade proporcional e não como igualdadí? matemática ou paritária. para concluir que eia não importa na uniformidade de tratamento, mas sim no tra taraento proporcionado e com pensado de seres (ou realidades) vários e desiguais. ISAN TIAGO DANTAS, Problemas de direito positivo. Rio Forense, 1953, pág. 62). (Continuação da p:ígina 45)

aMm-mar. Seriam Indicadas especialmentc para países em desenvolvi mento. Para sua instalação seriam preferíveis lugares perto do mar ou de 'rios, De acordo com indicação própria, KWU é a única empresa no mundo que fabrica Usinaa Nucleares completas, para funcionamento imed:ato (tipo ‘‘turn-key*’). Até hoje, 19 Usinas Nucleares completas terlam sido implantadas, encontrando-se mais doze em construção. Estas peque nas usinas, cujo “coração” consiste de um reator, tipo á-3ua fervente, estão sendo caracterizada como “especialmente” robustas e pouco expos tas a desarranjos. O seu nível standard de segurança seria o mesmo que o. das usinas KWU maiores cuja capacidade é de 1000 a 1300 megawatt. Ò preço das miniusinas foi indicado por Barthelt como sendo de

aproximadamente 1 bilhão d-o mai-cos por unidade, mas podería ser um pouco mais alto se a usina tiver que ser Implantada num lugar difícil. Barthelt julga que atualmente 1-5 a 35 pa'scs em descmvcolviment o es tão dispostos a adquirir energia nuclear, (Fonte: Handelsblatt-D uesseldorf).

do marxismo Lenildo Tabosa Pessoa

O marxismo nunca foi rigorosamente metodizadò. Marx não se preocupou com método. Escreveu e publicou, mais em estilo panfletário do que tecnicamente expositivo de uma doutrina. Daí seus furos. O marxismo está carunchado. O autor é

jornalista e professor universitário.

Ciência e Humano

"BUENOS AIRES — “Os tempos modernos riram das velhas cultur?.s, cheias de sabedoria, e o resultado está aí: a histe ria coletiva, 0 sadismo e o masoquismo, a violência generalizada, a desorien tação da juventude”, disse a um jornal o escritor Ernesto Sábato, conside rado pela crítica mundial um dos três “grandes” da literatura argentina, ao lado de Jorge Luís Borges e Júlio Cortãzar. Sábato, que abandonou uma promissora carreira científica para viver de literatura, acha que "a principal causa da catástrofe espiritual e psicológica do nosso tempo é a hegemonia da ciência”.

mete, negar que ele tenha, na intenção de seus criadores, um caráter filosófico, o próprio

balho Três Fontes e Três Partes

,

'

— o homem chegou a dominar o mundo da matéria, das coisas, mas às custas de uma paradoxal e infernal consequência: a transformação do ser humano em coisa — disse ele, concluindo.

O marxismo tem a preten são de ser uma filosofia que explique toda a realidade e,

Marx admite, em sua Critica da Economia Política, que se propôs fazer uma revisão crí

embora alguns marxistas

me

tica da filosofia do direito de

nos informados procurem, para

Hegel. Por outro lado, Lenin

livrá-lo dos apuros em que se

diz explicitamente, em seu tra

Integrantes do Marxismo, que 0 materialismo é a filosofia da


DIGESTO

60

igualdade, sena desigualdade flagrante e não Igualdade real Oraçao (RUI BARBOSA, aos moços, nova edição, Rio de Janeiro, Publicação da Casa

de Rui Barbosa, 1956, pág. 32). ● 19. Idêntica é a posição de San Tiago Dantas, em excelen te estudo no qual conceitua , a igualdade jurídica como igual-

ECONÔMICO

dade proporcional e não como igualdadí? matemática ou paritária. para concluir que eia não importa na uniformidade de tratamento, mas sim no tra taraento proporcionado e com pensado de seres (ou realidades) vários e desiguais. ISAN TIAGO DANTAS, Problemas de direito positivo. Rio Forense, 1953, pág. 62). (Continuação da p:ígina 45)

aMm-mar. Seriam Indicadas especialmentc para países em desenvolvi mento. Para sua instalação seriam preferíveis lugares perto do mar ou de 'rios, De acordo com indicação própria, KWU é a única empresa no mundo que fabrica Usinaa Nucleares completas, para funcionamento imed:ato (tipo ‘‘turn-key*’). Até hoje, 19 Usinas Nucleares completas terlam sido implantadas, encontrando-se mais doze em construção. Estas peque nas usinas, cujo “coração” consiste de um reator, tipo á-3ua fervente, estão sendo caracterizada como “especialmente” robustas e pouco expos tas a desarranjos. O seu nível standard de segurança seria o mesmo que o. das usinas KWU maiores cuja capacidade é de 1000 a 1300 megawatt. Ò preço das miniusinas foi indicado por Barthelt como sendo de

aproximadamente 1 bilhão d-o mai-cos por unidade, mas podería ser um pouco mais alto se a usina tiver que ser Implantada num lugar difícil. Barthelt julga que atualmente 1-5 a 35 pa'scs em descmvcolviment o es tão dispostos a adquirir energia nuclear, (Fonte: Handelsblatt-D uesseldorf).

do marxismo Lenildo Tabosa Pessoa

O marxismo nunca foi rigorosamente metodizadò. Marx não se preocupou com método. Escreveu e publicou, mais em estilo panfletário do que tecnicamente expositivo de uma doutrina. Daí seus furos. O marxismo está carunchado. O autor é

jornalista e professor universitário.

Ciência e Humano

"BUENOS AIRES — “Os tempos modernos riram das velhas cultur?.s, cheias de sabedoria, e o resultado está aí: a histe ria coletiva, 0 sadismo e o masoquismo, a violência generalizada, a desorien tação da juventude”, disse a um jornal o escritor Ernesto Sábato, conside rado pela crítica mundial um dos três “grandes” da literatura argentina, ao lado de Jorge Luís Borges e Júlio Cortãzar. Sábato, que abandonou uma promissora carreira científica para viver de literatura, acha que "a principal causa da catástrofe espiritual e psicológica do nosso tempo é a hegemonia da ciência”.

mete, negar que ele tenha, na intenção de seus criadores, um caráter filosófico, o próprio

balho Três Fontes e Três Partes

,

'

— o homem chegou a dominar o mundo da matéria, das coisas, mas às custas de uma paradoxal e infernal consequência: a transformação do ser humano em coisa — disse ele, concluindo.

O marxismo tem a preten são de ser uma filosofia que explique toda a realidade e,

Marx admite, em sua Critica da Economia Política, que se propôs fazer uma revisão crí

embora alguns marxistas

me

tica da filosofia do direito de

nos informados procurem, para

Hegel. Por outro lado, Lenin

livrá-lo dos apuros em que se

diz explicitamente, em seu tra

Integrantes do Marxismo, que 0 materialismo é a filosofia da


doutrina, que "Marx e Engels

grupo dos idealistas. Os outros,

defenderam da maneira mais' decidida o materialismo filosó fico” e que “Marx não parou

os que viam a natureza como

primeira causa, pertencem às

materialismo do século XVTTT mas levou adiante a filo sofia".

mo”.

no

Entretanto. o primeiro pas

so que os improvisados filóso fos

dão, em um

terreno que

não lhes é familiarj já é total mente arbitrário

e

começa a

exigir a fé cega — que se opÕe,

por definição, ao método ra cional, instrumento de trabalho de qualquer filosofia que se preze

— de

seus

seguidores.

Assim é que Engels, em seu livro sobre Ludwig Feuerbach,

depois

de

apresentar

como

questão fundamental de toda a filosofia 0 problema de saber Deus criou o mundo ou se ele existiu eternamente, escrese

ve

DIGESTO ECONÔMICO

DIGESTO ECONÔMICO

62

esta preciosidade: “Os filó-

sofos

dividiam-se

em

dois

grandes grupos, conforme essa

pergunta fosse respondida em um sentido ou no outro. Aque

les que defendiam a primazia da origem do espírito sobre a natureza, e portanto admitiam em última instância uma cria ção do mundo, formavam o

várias

escolas

do

63

do, evidentemente, materialis

CO, mostra que provavelmente

tas, tornam-se, por força, idea

não conhecia sequer o signifi cado etimológico da palavra, in ventada por Andrônico Rhodio, três séculos depois de Aristó

listas, quando toda a sua teoria do conhecimento é uma violen

materialis-

ta refutação do idealismo e uma defesa firme do realismo, im

Esse primeiro tijolo da construção marxista já é um tijolo furado. Em primeiro lu

gar, os problemas de Deus e da criação nunca foram o ob jeto fundamental da filosofia,

portantíssima corrente filosó fica da qual Engels partece desconhecer até a existência.

da chamada filo

Tratar-se-ia apenas de uma simplificação metodológi ca? Evidentemente não, uma

sofia cristã, e quando ela chega

vez que, no texto citado, nosso

nem mesmo ao

conhecimento

dEle,

como

chegou Aristóteles, conheceo enquanto ser. A idéia da cria ção já se situa no campo da revelação e, portanto, não no terreno propriamente filosófico. Em segundo lugar, o idea lismo, a começar pelo alemão, seu contemporâneo, tem, em filosofia, um sentido inteira mente diferente do que supõe Engels, que não chegou a per ceber a diferença rudimentar

entre espírito e pensamento e confunde

ser

e

A

natureza,

mais cômica consequência de seu extraordinário simplismo é

que, dividindo-se a filosofia, como

ele faz,

em idealismo

e

materialismo, Aristóteles e São Tomás

de

Aquino,

não

sen-

filósofo não estava expondo um

método, mas traçando, ainda que de maneira sumaríssima, uma

história

da

filosofia

até

sua época. O problema parece ser mesmo de crassa ignorân cia, da qual são dignos dis cípulos Lenin e os filósofos marxistas contemporâneos, que, ao falar de metafísica, não têm sequer o rudimentar cuidado, exigido pela seriedade cientí fica, de conhecer com exati dão as teses que pretendem re futar. Quando Lenin afirma, em seu trabalho sobre os ami

gos do povo, que toda ciência começava com a metafísica e fala, em seguida, de químico metafísico

e biólogo metafísi-

teles, para indicar os livros do

filósofo que vinham depois (no grego, metá) dos que tratavam da física. Até cronologicamen te a física precedeu a metafí

sica, que, segundo Lenin, está na origem de toda ciência...

De resto, para fazer jus a tanta profundidade, o próprio Marx afirma, em sua carta a Lassale: Durante as quatro semanas passadas li toda sorte

de coisas, entre outras o livro

de Darwin sobre a Seleção Na tural. Embora seja escrito em cru estilo inglês, este é livro que contém a base

científica

para nosso sistema”. Ou seja, a base científica do marxismo foi estabelecida em um profun do estudo de quatro sema nas.. .

Não é de admirar que, em tão longo espaço de tempo, nos

so gênio tenha estudado, como ressalta Lenin, em seu já ci tado trabalho sobre os amigos

do povo, uma só formação eco-


doutrina, que "Marx e Engels

grupo dos idealistas. Os outros,

defenderam da maneira mais' decidida o materialismo filosó fico” e que “Marx não parou

os que viam a natureza como

primeira causa, pertencem às

materialismo do século XVTTT mas levou adiante a filo sofia".

mo”.

no

Entretanto. o primeiro pas

so que os improvisados filóso fos

dão, em um

terreno que

não lhes é familiarj já é total mente arbitrário

e

começa a

exigir a fé cega — que se opÕe,

por definição, ao método ra cional, instrumento de trabalho de qualquer filosofia que se preze

— de

seus

seguidores.

Assim é que Engels, em seu livro sobre Ludwig Feuerbach,

depois

de

apresentar

como

questão fundamental de toda a filosofia 0 problema de saber Deus criou o mundo ou se ele existiu eternamente, escrese

ve

DIGESTO ECONÔMICO

DIGESTO ECONÔMICO

62

esta preciosidade: “Os filó-

sofos

dividiam-se

em

dois

grandes grupos, conforme essa

pergunta fosse respondida em um sentido ou no outro. Aque

les que defendiam a primazia da origem do espírito sobre a natureza, e portanto admitiam em última instância uma cria ção do mundo, formavam o

várias

escolas

do

63

do, evidentemente, materialis

CO, mostra que provavelmente

tas, tornam-se, por força, idea

não conhecia sequer o signifi cado etimológico da palavra, in ventada por Andrônico Rhodio, três séculos depois de Aristó

listas, quando toda a sua teoria do conhecimento é uma violen

materialis-

ta refutação do idealismo e uma defesa firme do realismo, im

Esse primeiro tijolo da construção marxista já é um tijolo furado. Em primeiro lu

gar, os problemas de Deus e da criação nunca foram o ob jeto fundamental da filosofia,

portantíssima corrente filosó fica da qual Engels partece desconhecer até a existência.

da chamada filo

Tratar-se-ia apenas de uma simplificação metodológi ca? Evidentemente não, uma

sofia cristã, e quando ela chega

vez que, no texto citado, nosso

nem mesmo ao

conhecimento

dEle,

como

chegou Aristóteles, conheceo enquanto ser. A idéia da cria ção já se situa no campo da revelação e, portanto, não no terreno propriamente filosófico. Em segundo lugar, o idea lismo, a começar pelo alemão, seu contemporâneo, tem, em filosofia, um sentido inteira mente diferente do que supõe Engels, que não chegou a per ceber a diferença rudimentar

entre espírito e pensamento e confunde

ser

e

A

natureza,

mais cômica consequência de seu extraordinário simplismo é

que, dividindo-se a filosofia, como

ele faz,

em idealismo

e

materialismo, Aristóteles e São Tomás

de

Aquino,

não

sen-

filósofo não estava expondo um

método, mas traçando, ainda que de maneira sumaríssima, uma

história

da

filosofia

até

sua época. O problema parece ser mesmo de crassa ignorân cia, da qual são dignos dis cípulos Lenin e os filósofos marxistas contemporâneos, que, ao falar de metafísica, não têm sequer o rudimentar cuidado, exigido pela seriedade cientí fica, de conhecer com exati dão as teses que pretendem re futar. Quando Lenin afirma, em seu trabalho sobre os ami

gos do povo, que toda ciência começava com a metafísica e fala, em seguida, de químico metafísico

e biólogo metafísi-

teles, para indicar os livros do

filósofo que vinham depois (no grego, metá) dos que tratavam da física. Até cronologicamen te a física precedeu a metafí

sica, que, segundo Lenin, está na origem de toda ciência...

De resto, para fazer jus a tanta profundidade, o próprio Marx afirma, em sua carta a Lassale: Durante as quatro semanas passadas li toda sorte

de coisas, entre outras o livro

de Darwin sobre a Seleção Na tural. Embora seja escrito em cru estilo inglês, este é livro que contém a base

científica

para nosso sistema”. Ou seja, a base científica do marxismo foi estabelecida em um profun do estudo de quatro sema nas.. .

Não é de admirar que, em tão longo espaço de tempo, nos

so gênio tenha estudado, como ressalta Lenin, em seu já ci tado trabalho sobre os amigos

do povo, uma só formação eco-


DIGESTO ECONÔMICO

é4-

nômica social, a capitalista, examinando “a lei de desenvol vimento apenas desta formação e de nenhuma outra” e “sepa rando dos vários campos da vida social o campo econômico,

para os marxistas, não é ne basta cessário provar nada: mandar abrir a boca e engolir 0 que lhes for dado, que eles

separando de todas as relações

Estabelecidas de forma lão

obedecem.

sociais as relações de produ

sólida e com

ção, como relações fundamen tais, primordiais, que determi

científico

nam todos os outros”.

Enquanto a filosofia é, por definição, a ciência de todas as coisas, a pretensiosa filoso fia marxista admite candidamente que parte da análise de

as

do sistema,

tamanho rigor bases

füosóficas

Marx

e

Engels

continuam a construção. Sua primeira providência é inver ter a dialética de Hegel, que eles decidem que está de cabe ça para baixo, pondo-a de ca beça para cima. Por quê? Sim plesmente porque Hegel expli

apenas uma formação econô mica, dentro da qual ainda

ca a realidade a partir da Idéia

restringe

com 0 cabedal cultural acumu

ulteriormente

seu

campo de pesquisa. Se, nestas circunstâncias,

o

marxismo

pretendesse explicar apenas o capitalismo, já seria muito; pretender explicar toda a rea lidade e a própria História já

ultrapassa todos os limites e constitui

65

DIGÈSTO ECONÔMICO

uma impostura que,

realmente, apenas um marxis

ta pode engolir. Além do mais, quem provou que as relações de produção são fundamentais

e primordiais e determinam todas as outras? Ninguém, nem mesmo Marx ou Engels. Mas,

Absoluta, ao passo que Marx, lado ao longo de quatro sema nas, determina, mais uma vez arbitrariamente, que a Idéia

Absoluta é que deve ser expli cada pela realidade.

Surge, assim, a teoria, ou melhor, o dogma das estrutu ras e supra-estruturas, segun

do 0 qual as relações de produ ção explicam a supra-estrutura jurídica e política, a consciên cia social e 0 processo espi ritual. A Idéia Absoluta, no ca

so, Deus, passa a ser uma su-

perestrutura produzida pelo ti po de relação de produção exis

pitalismo, com 0 que se torna impossível preservar a essên

tente na sociedade.

cia

Aristóteles, na tentativa de solucionar a aparente

contra

dição entre ser e movimento, que tanto preocupara Parmênides e Heráclito, chega, pelo caminho da razão, sem nenhu

ma influência religiosa, ao Ato Puro, que é o Primeiro Motor Imóvel, ou Deus. Algum filó sofo marxista elaborou outra teoria provando sua inexistên cia? Não, simplesmente Marx determina que Ele não existe

e, para os marxistas, Ele pas

do

marxismo.

De resto, nem Lenin acre dita

seriamente

na

teoria

da

supra-estrutura, uma vez que,

segundo ela, a religião, por exemplo, deveria desaparecer por si só, como consequência da mudança das relações de produção, ao passo que, em Estado e Revolução, ele trans forma a luta contra ela em um

dever do Partido. De resto, na dialética hegeliana a antítese não destrói mas supera e, de certa forma, aperfeiçoa a te

sa a não existir.

se, ao passo

O pior, porém, é que, apli cada à realidade, a dialética

numerosos escritos, prega a destruição da burguesia e do capitalismo (tese) pela revolu ção e pelo proletariado (antí tese), para isso justificando até o terrorismo, o que equivale a negar a dialética em nome da

SC traduz na luta de classes,

que passa a ser uma explica ção para toda a História, Entretanto, o capitalismo que Marx csHiclnu logo se transfor mou no neocapitallsmo e a teo ria do empobrecimento do pro

letariado, da qual cie fez um novo dogma,

começou

a ser

clamorosamente desmentida pe la realidade. Marxistas ortodo xos como F. Mehring e H. Cunov tentaram salvar a situa

ção, transformando

a teoria

em uma mera tendência do ca¬

que Lenin, em

dialética.

O mais incrível é que ainda haja quem embarque em uma canoa tão furada. Não é por acaso que a cotação do mar xismo cai vertiginosamente en

tre a intelectualidade européia séria, o que não impede que, entre nós, ele seguidores.

ainda encontre


DIGESTO ECONÔMICO

é4-

nômica social, a capitalista, examinando “a lei de desenvol vimento apenas desta formação e de nenhuma outra” e “sepa rando dos vários campos da vida social o campo econômico,

para os marxistas, não é ne basta cessário provar nada: mandar abrir a boca e engolir 0 que lhes for dado, que eles

separando de todas as relações

Estabelecidas de forma lão

obedecem.

sociais as relações de produ

sólida e com

ção, como relações fundamen tais, primordiais, que determi

científico

nam todos os outros”.

Enquanto a filosofia é, por definição, a ciência de todas as coisas, a pretensiosa filoso fia marxista admite candidamente que parte da análise de

as

do sistema,

tamanho rigor bases

füosóficas

Marx

e

Engels

continuam a construção. Sua primeira providência é inver ter a dialética de Hegel, que eles decidem que está de cabe ça para baixo, pondo-a de ca beça para cima. Por quê? Sim plesmente porque Hegel expli

apenas uma formação econô mica, dentro da qual ainda

ca a realidade a partir da Idéia

restringe

com 0 cabedal cultural acumu

ulteriormente

seu

campo de pesquisa. Se, nestas circunstâncias,

o

marxismo

pretendesse explicar apenas o capitalismo, já seria muito; pretender explicar toda a rea lidade e a própria História já

ultrapassa todos os limites e constitui

65

DIGÈSTO ECONÔMICO

uma impostura que,

realmente, apenas um marxis

ta pode engolir. Além do mais, quem provou que as relações de produção são fundamentais

e primordiais e determinam todas as outras? Ninguém, nem mesmo Marx ou Engels. Mas,

Absoluta, ao passo que Marx, lado ao longo de quatro sema nas, determina, mais uma vez arbitrariamente, que a Idéia

Absoluta é que deve ser expli cada pela realidade.

Surge, assim, a teoria, ou melhor, o dogma das estrutu ras e supra-estruturas, segun

do 0 qual as relações de produ ção explicam a supra-estrutura jurídica e política, a consciên cia social e 0 processo espi ritual. A Idéia Absoluta, no ca

so, Deus, passa a ser uma su-

perestrutura produzida pelo ti po de relação de produção exis

pitalismo, com 0 que se torna impossível preservar a essên

tente na sociedade.

cia

Aristóteles, na tentativa de solucionar a aparente

contra

dição entre ser e movimento, que tanto preocupara Parmênides e Heráclito, chega, pelo caminho da razão, sem nenhu

ma influência religiosa, ao Ato Puro, que é o Primeiro Motor Imóvel, ou Deus. Algum filó sofo marxista elaborou outra teoria provando sua inexistên cia? Não, simplesmente Marx determina que Ele não existe

e, para os marxistas, Ele pas

do

marxismo.

De resto, nem Lenin acre dita

seriamente

na

teoria

da

supra-estrutura, uma vez que,

segundo ela, a religião, por exemplo, deveria desaparecer por si só, como consequência da mudança das relações de produção, ao passo que, em Estado e Revolução, ele trans forma a luta contra ela em um

dever do Partido. De resto, na dialética hegeliana a antítese não destrói mas supera e, de certa forma, aperfeiçoa a te

sa a não existir.

se, ao passo

O pior, porém, é que, apli cada à realidade, a dialética

numerosos escritos, prega a destruição da burguesia e do capitalismo (tese) pela revolu ção e pelo proletariado (antí tese), para isso justificando até o terrorismo, o que equivale a negar a dialética em nome da

SC traduz na luta de classes,

que passa a ser uma explica ção para toda a História, Entretanto, o capitalismo que Marx csHiclnu logo se transfor mou no neocapitallsmo e a teo ria do empobrecimento do pro

letariado, da qual cie fez um novo dogma,

começou

a ser

clamorosamente desmentida pe la realidade. Marxistas ortodo xos como F. Mehring e H. Cunov tentaram salvar a situa

ção, transformando

a teoria

em uma mera tendência do ca¬

que Lenin, em

dialética.

O mais incrível é que ainda haja quem embarque em uma canoa tão furada. Não é por acaso que a cotação do mar xismo cai vertiginosamente en

tre a intelectualidade européia séria, o que não impede que, entre nós, ele seguidores.

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O autor, reitor da Universidade de Brasília, procura dar resposta a essa questão. Apesar da aparente evidên cia, não há consenso a respei

número de pessoas qualificadas na força de trabalho.

to da influência da educação no desenvolvimento econômico. Adam Smith, ao cuidar da edu

Em artigo publicado recen temente na revista de educação

cação no The Wealth of the Nations, entendeu-a como um me canismo para o "aprimoramen to do homem” e não para ge rar progresso econômico, cuja

da Harvard (1), P.B. Walters. da Universidade John Hopkins. afirmou: "Minha tese é que a perspectiva de modernização da

educação, por si só, não permi te compreender a relação em

fonte ele acreditava encontrar-

pírica

se na divisão do trabalho; mais

ça nos sistemas educacionais e crescimento econômico. Os sis

ainda, tal divisão, para ele, em vez de aumentar, diminuiria o

existente entre mudan

temas educacionais das nações


I

y>

m

Educação - Dever ou

investimento ? José Carlos Azevedo

departamento.de

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O autor, reitor da Universidade de Brasília, procura dar resposta a essa questão. Apesar da aparente evidên cia, não há consenso a respei

número de pessoas qualificadas na força de trabalho.

to da influência da educação no desenvolvimento econômico. Adam Smith, ao cuidar da edu

Em artigo publicado recen temente na revista de educação

cação no The Wealth of the Nations, entendeu-a como um me canismo para o "aprimoramen to do homem” e não para ge rar progresso econômico, cuja

da Harvard (1), P.B. Walters. da Universidade John Hopkins. afirmou: "Minha tese é que a perspectiva de modernização da

educação, por si só, não permi te compreender a relação em

fonte ele acreditava encontrar-

pírica

se na divisão do trabalho; mais

ça nos sistemas educacionais e crescimento econômico. Os sis

ainda, tal divisão, para ele, em vez de aumentar, diminuiria o

existente entre mudan

temas educacionais das nações


DIGE5TO

68

69

DIOESTO ECONÔMICO

em desenvolvimento refletem uma divisão internacional desi

gual do trabalho; o desenvolvi mento econômico é inibido pela

dependência das nações subde senvolvidas

na

economia mun

dial, em particular em relação às nações industrializadas, e pela falta de desenvolvimento educacional.

A

modernização

educacional, sem mudanças am plas nas ligações do Terceiro Mundo à economia mundial, não trouxe nem poderá trazer desenvolvimento econômico au

No trabalho citado, a auto ra analisa duas teorias que se

aplicáveis

Terceiro Mundo:

Segundo a teoria da depen

dência

(2,1),

0 subdesenvolvi

mento não é um estágio ante rior à industrialização; e é a partir da perspectiva econômi ca do mundo capitalista que o desenvolvimento deve

ser ana

lisado, porque, dizem, é a dinâ mica mundial que determina quais as áreas que devem ou não ser desenvolvidas (3), com os países avançados a explora rem o Terce'iro

Mundo

em be

nefício de

próprio

cresci

seu

mento e a determinarem os con-

tônomo”.

riam

ECONÔMICO

ao

dicionantes do subdesenvolvi mento. Para os partidários des

sa teoria, “a educação deveria

chamado

atender às necessidades nacio

a da depen¬

nais de mão-de-obra especiali

dência e a da modernização; esta última analisa os estágios de desenvolvimento dessas na

zada e socializar a população”

ções, admitindo serem eles pro

do, continuam os adeptos dessa

cessai rígidos e linearmente seqüenciados pelos quais devem passar os países para adquirir

corrente, deve-se “à maioria de sua população que não tinha preparo suficiente para supor

os valores, experiências' e tec nologias das nações industria lizadas; iniciando-se nas cida des e estendendo-seao Interior, 0 desenvolvimento dependería de uma burguesia progressista para conduzir o progresso da nação.

tar uma moderna estrutura ocu-

(1); a razão do fracasso no de senvolvimento do Terceiro Mun

pacional e era demasiadamente tradicional para participar do mundo moderno” (1). Uma vez one se espera que a moderniza ção educacional eleve o nível de trabalho, "tem-se por certo ser ela um investimento em ca-

pitai humano que produzirá re torno substancial sob a forma

educaçâo sem que tivesse havi do melliora correspondente na

de uma crescente prosperidade

economia

nacional” (1).

pacional e, na índia e África, o

Os

partidários

dessa

cor

rente admitem ser o desenvol vimento nacional um produto do nível elevado de moderniza

ção individual; é esta, por exemplo, a conclusão a que chegaram Harbison e Meyers na pesquisa que fizeram envol vendo 75 países (4). Mas, se gundo P.B. Walters. esta hipó tese' é raramente examinada, permanecendo sem provas correlação entre escolaridade e desenvolvimento. Apesar da

dos a partir de relações entre instrução e realização profis sional. Na África, a expansão

assinala ainda que, em países

subdesenvolvidos, boa educação

a

setor

do

Só INCERTEZAS

Mesmo em

países onde a

educação das massas precedeu o

desenvolvimento econômico, dos Estados Unidas, não

caso

há certeza de que a educação tivesse sido fator preponderan

te de tal desempenho: ela é, de

fato, condição necessária a esse

desenvolvimento, mas pode

não

ser

condição

ra

expandiu-se

no

vis-à-vis ao mercado de traba lho”.

educacional levou a aumentar o

Mundo,

tendên

governo, por exemplo — em condições que não se justificam

número de exigências para em ceii’0

“há

cia marcante para elevar salá rios de pessoas que receberam

Ainda que seja

pregos, com pouco efeito no mercado (1); em todo o Ter-

ocu-

desemprego ou subemprego de pessoas altamente educadas se deve à ausência de desenvolvi mento econômico (5,6). Walters

forte relação existente entre educação c ocupação, a nivel individual, essa causalidade, em escala de população, não pode ser tomada como válida, pois os efeitos do incremento educacional na estrutura ocupacional e profissional da nação não podem ser determina

ou na estrutura

0

suficiente,

requisito pa¬

progresso elevar padrões

de instrução da classe operá

ria, a educação, por si ,só, não basta, e pode-se mesmo, facil-


DIGE5TO

68

69

DIOESTO ECONÔMICO

em desenvolvimento refletem uma divisão internacional desi

gual do trabalho; o desenvolvi mento econômico é inibido pela

dependência das nações subde senvolvidas

na

economia mun

dial, em particular em relação às nações industrializadas, e pela falta de desenvolvimento educacional.

A

modernização

educacional, sem mudanças am plas nas ligações do Terceiro Mundo à economia mundial, não trouxe nem poderá trazer desenvolvimento econômico au

No trabalho citado, a auto ra analisa duas teorias que se

aplicáveis

Terceiro Mundo:

Segundo a teoria da depen

dência

(2,1),

0 subdesenvolvi

mento não é um estágio ante rior à industrialização; e é a partir da perspectiva econômi ca do mundo capitalista que o desenvolvimento deve

ser ana

lisado, porque, dizem, é a dinâ mica mundial que determina quais as áreas que devem ou não ser desenvolvidas (3), com os países avançados a explora rem o Terce'iro

Mundo

em be

nefício de

próprio

cresci

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mento e a determinarem os con-

tônomo”.

riam

ECONÔMICO

ao

dicionantes do subdesenvolvi mento. Para os partidários des

sa teoria, “a educação deveria

chamado

atender às necessidades nacio

a da depen¬

nais de mão-de-obra especiali

dência e a da modernização; esta última analisa os estágios de desenvolvimento dessas na

zada e socializar a população”

ções, admitindo serem eles pro

do, continuam os adeptos dessa

cessai rígidos e linearmente seqüenciados pelos quais devem passar os países para adquirir

corrente, deve-se “à maioria de sua população que não tinha preparo suficiente para supor

os valores, experiências' e tec nologias das nações industria lizadas; iniciando-se nas cida des e estendendo-seao Interior, 0 desenvolvimento dependería de uma burguesia progressista para conduzir o progresso da nação.

tar uma moderna estrutura ocu-

(1); a razão do fracasso no de senvolvimento do Terceiro Mun

pacional e era demasiadamente tradicional para participar do mundo moderno” (1). Uma vez one se espera que a moderniza ção educacional eleve o nível de trabalho, "tem-se por certo ser ela um investimento em ca-

pitai humano que produzirá re torno substancial sob a forma

educaçâo sem que tivesse havi do melliora correspondente na

de uma crescente prosperidade

economia

nacional” (1).

pacional e, na índia e África, o

Os

partidários

dessa

cor

rente admitem ser o desenvol vimento nacional um produto do nível elevado de moderniza

ção individual; é esta, por exemplo, a conclusão a que chegaram Harbison e Meyers na pesquisa que fizeram envol vendo 75 países (4). Mas, se gundo P.B. Walters. esta hipó tese' é raramente examinada, permanecendo sem provas correlação entre escolaridade e desenvolvimento. Apesar da

dos a partir de relações entre instrução e realização profis sional. Na África, a expansão

assinala ainda que, em países

subdesenvolvidos, boa educação

a

setor

do

Só INCERTEZAS

Mesmo em

países onde a

educação das massas precedeu o

desenvolvimento econômico, dos Estados Unidas, não

caso

há certeza de que a educação tivesse sido fator preponderan

te de tal desempenho: ela é, de

fato, condição necessária a esse

desenvolvimento, mas pode

não

ser

condição

ra

expandiu-se

no

vis-à-vis ao mercado de traba lho”.

educacional levou a aumentar o

Mundo,

tendên

governo, por exemplo — em condições que não se justificam

número de exigências para em ceii’0

“há

cia marcante para elevar salá rios de pessoas que receberam

Ainda que seja

pregos, com pouco efeito no mercado (1); em todo o Ter-

ocu-

desemprego ou subemprego de pessoas altamente educadas se deve à ausência de desenvolvi mento econômico (5,6). Walters

forte relação existente entre educação c ocupação, a nivel individual, essa causalidade, em escala de população, não pode ser tomada como válida, pois os efeitos do incremento educacional na estrutura ocupacional e profissional da nação não podem ser determina

ou na estrutura

0

suficiente,

requisito pa¬

progresso elevar padrões

de instrução da classe operá

ria, a educação, por si ,só, não basta, e pode-se mesmo, facil-


70

DIGESTO

mente, "argumentar que a edu cação é conseqüência do cres cimento

econômico

e uma

os

tentação de países ricos, mas que não é relacionada ao de senvolvimento econômico” (1)

ECONÔMICO

Por isso mesmo, dizem os nacionalistas, as nações du Terceiro Mundo têm populações grandes e pobres porque suas necessidades de produção po dem ser atendidas por mão-deobra pouco especializada ou

DIGESTO ECONÔMICO

São

71

comuns os trabalhos

Usualmente,

de

economia da educação que bus cam correlacionar desenvolvi mento econômico e educação e os resultados são bastante di

a

educação

procura oferecer habilidade de ler, escrever e calcular; apti dões para trabalhos manuais e mecânicos; conhecimentos e treinamentos técnico-especiali-

vez, reconhecem serem gera-

classe média, por sua vez, é

das por interesses alienígenas,

pequena porque a economia não

versos; um deles, já conside rado clássico. 0 de M. J. Bouman e C.S. Anderson (7), con cluiu que nos EUA os níveis salariais em 1930 explicavam

oferece muitos cargos para pro

melhor as matrículas estudantis

têm

diversos

no

em 1950 que as feitas em 1930 em relação aos índices salariais de 1950. No faraoso Relatório

desenvolvimento

econômico

e

mesmo pessoas

sem

autores, portanto, o subdesen

de lord Robbins

lavoura

volvimento no Terceiro Mundo

Bowen enfatiza a impossibilida de de quantificar a contribui ção da educação para o cresci mento econômico e que, embora não se discuta se a educação conduz à auto-realização e sa tisfação pessoal, discute-se a

mente em países avançados. Na Inglaterra do final do sé culo passado, então a maior po

Os

nao

nacionalistas, por sua

nacionais,

as

estratégias

para o progresso, incluindo a melhoria e expansão da educa ção, e que o fracasso do de senvolvimento corresponde ao fracasso das nações subdesen volvidas

em

terminar

com

a

dependência dos países avança dos. Eles não negam que a educação promova a moderni zação do indivíduo, mas não concordam em que ela determi ne 0 desenvolvimento nacional, pois aprofunda laços de depen dência quando definida em ter mos de padrões das nações de senvolvidas, A reforma educa

cional, para .eles, nem é sufi ciente nem importante para o

desenvolvimento, e pode até re forçar a dependência, pois,

mesmo sem especialização;

a

fissionais (1).

Para um grande número de

decorre de problemas

comple

xos que só podem ser compreen didos

num contexto

mundial

Para eles a mudança educacio nal por si só não pode promover 0 desenvolvimento econômico

do

Terceiro

afetar

Mundo

a divisão

por

não

internacional

do trabalho. Nesses países, a educação não eliminou o subde senvolvimento, apesar de poder ter contribuído para a ascensão de poucas nações. Mesmo reco nhecendo que os países com populações altamente instruídas são

também

além do nível de alfabetização,

volvidos,

não há .evidência de que o au mento da escolaridade gere

não

progresso (1).

to.

altamente

desen

eles asseguram que

há elo causai

evidente en

tre educação e desenvolvimen-

(8),

W G.

zados, baseados em fatos cien tíficos; educação científica teó rica e aplicada de alto nível. Essas formas de aprendizagem tido

efeitos

qualquer

instrução — na indústria e na contribuem

eficaz-

mente para tal desenvolvimen to. Talvez por isso, a compulsoriedade da educação de base tenha

sido

feita

maneira de calcular os recursos

tência

públicos que lhe devem ser des

necessidade de adotá-la e foram

tinados. em consonância com o

também considerações de or dem não econômica que influ enciaram a decisão; “se não

retorno

econômico

pretendido.

Para outros autores, finalmen

te, ao longo dos séculos, poucos mecanismos de ruptura do equi líbrio da pobreza surtiram efei to; e, nesse particular, John Kenneth Galbraith (9) analisa dois deles que, ao longo da his

tória, têm levado à ruptura do equilíbrio da miséria; as mi grações e a educação.

industrial,

tão diferente

discutia-se a

fôssem as escolas elementares

Londres seria tomada por uma horda de jovens selvagens” di zia 0 Inspetor de Sua Majestade para a cidade de Londres. A educação compulsória, de fato, só chegou à Inglaterra ao final do século passado, mas na Prús sia ela já existia desde a época


70

DIGESTO

mente, "argumentar que a edu cação é conseqüência do cres cimento

econômico

e uma

os

tentação de países ricos, mas que não é relacionada ao de senvolvimento econômico” (1)

ECONÔMICO

Por isso mesmo, dizem os nacionalistas, as nações du Terceiro Mundo têm populações grandes e pobres porque suas necessidades de produção po dem ser atendidas por mão-deobra pouco especializada ou

DIGESTO ECONÔMICO

São

71

comuns os trabalhos

Usualmente,

de

economia da educação que bus cam correlacionar desenvolvi mento econômico e educação e os resultados são bastante di

a

educação

procura oferecer habilidade de ler, escrever e calcular; apti dões para trabalhos manuais e mecânicos; conhecimentos e treinamentos técnico-especiali-

vez, reconhecem serem gera-

classe média, por sua vez, é

das por interesses alienígenas,

pequena porque a economia não

versos; um deles, já conside rado clássico. 0 de M. J. Bouman e C.S. Anderson (7), con cluiu que nos EUA os níveis salariais em 1930 explicavam

oferece muitos cargos para pro

melhor as matrículas estudantis

têm

diversos

no

em 1950 que as feitas em 1930 em relação aos índices salariais de 1950. No faraoso Relatório

desenvolvimento

econômico

e

mesmo pessoas

sem

autores, portanto, o subdesen

de lord Robbins

lavoura

volvimento no Terceiro Mundo

Bowen enfatiza a impossibilida de de quantificar a contribui ção da educação para o cresci mento econômico e que, embora não se discuta se a educação conduz à auto-realização e sa tisfação pessoal, discute-se a

mente em países avançados. Na Inglaterra do final do sé culo passado, então a maior po

Os

nao

nacionalistas, por sua

nacionais,

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estratégias

para o progresso, incluindo a melhoria e expansão da educa ção, e que o fracasso do de senvolvimento corresponde ao fracasso das nações subdesen volvidas

em

terminar

com

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dependência dos países avança dos. Eles não negam que a educação promova a moderni zação do indivíduo, mas não concordam em que ela determi ne 0 desenvolvimento nacional, pois aprofunda laços de depen dência quando definida em ter mos de padrões das nações de senvolvidas, A reforma educa

cional, para .eles, nem é sufi ciente nem importante para o

desenvolvimento, e pode até re forçar a dependência, pois,

mesmo sem especialização;

a

fissionais (1).

Para um grande número de

decorre de problemas

comple

xos que só podem ser compreen didos

num contexto

mundial

Para eles a mudança educacio nal por si só não pode promover 0 desenvolvimento econômico

do

Terceiro

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Mundo

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por

não

internacional

do trabalho. Nesses países, a educação não eliminou o subde senvolvimento, apesar de poder ter contribuído para a ascensão de poucas nações. Mesmo reco nhecendo que os países com populações altamente instruídas são

também

além do nível de alfabetização,

volvidos,

não há .evidência de que o au mento da escolaridade gere

não

progresso (1).

to.

altamente

desen

eles asseguram que

há elo causai

evidente en

tre educação e desenvolvimen-

(8),

W G.

zados, baseados em fatos cien tíficos; educação científica teó rica e aplicada de alto nível. Essas formas de aprendizagem tido

efeitos

qualquer

instrução — na indústria e na contribuem

eficaz-

mente para tal desenvolvimen to. Talvez por isso, a compulsoriedade da educação de base tenha

sido

feita

maneira de calcular os recursos

tência

públicos que lhe devem ser des

necessidade de adotá-la e foram

tinados. em consonância com o

também considerações de or dem não econômica que influ enciaram a decisão; “se não

retorno

econômico

pretendido.

Para outros autores, finalmen

te, ao longo dos séculos, poucos mecanismos de ruptura do equi líbrio da pobreza surtiram efei to; e, nesse particular, John Kenneth Galbraith (9) analisa dois deles que, ao longo da his

tória, têm levado à ruptura do equilíbrio da miséria; as mi grações e a educação.

industrial,

tão diferente

discutia-se a

fôssem as escolas elementares

Londres seria tomada por uma horda de jovens selvagens” di zia 0 Inspetor de Sua Majestade para a cidade de Londres. A educação compulsória, de fato, só chegou à Inglaterra ao final do século passado, mas na Prús sia ela já existia desde a época


DIQESTO ECONÔMICO

72

em

de hoje, no mínimo, 960 bilhões

1763, e por volta de 1860 a taxa de escolarização já era ali igual a 97,5%, enquanto na Saxónia já havia atingido 100%. Nos

de cruzeiros, valor praticamen te igual ao da conta do petró

de

Frederico

O

Grande,

EUA, a educação compulsória existe desde o descobrimento, com altas taxas de matrícula. INVIABILIDADE

leo. Os custos se elevarão ainda mais se for verídica a estima

tiva de que há mais de meio milhão de professores na rede de 1.0 grau que não possuem a escolaridade exigida para atuar nesse nível de ensino.

As

ECONÔMICA

prioridades

brasileiras

no setor educacional têm seniMuito

se

tem

feito

em

nosso país em matéria legisla tiva sobre educação; de certa forma, há até leis que se repe tem uma às outras, reeditan do, como se novidade fossem, esquemas e propostas que an teriormente não surtiram efei

to, permanecendo, entretanto, inabalado o problema maior da educação brasileira: a oferta de ensino fundamental de qua lidade para grandes contingen

tes humanos, cuja importância civiiizadora a ninguém é lícito ignorar. Ocorre, entretanto, que tal oferta se tornou economica

mente inexeqüivcl pelos méto dos tradicionais; ao preço mí nimo de 15 mil cruzeiros por

pre variado e a recente e exa gerada ênfase no ensino supe rior deixou problemas gravíssi mos (que, aliás, há tempos venho assinalando); entre ou

tros, o custo elevado do univer sitário, cerca de 60 vezes mais caro que o aluno de l.o grau e os salários vis pagos a profes sores de l.o grau que em alguns Estados são de 150 a 800 vezes

menores

que

os

salários

dos

professores universitários.

Por

isso também, nos últimos vinte anos, quadruplicou o número de professores leigos na rede de 1.0 grau, hoje por volta de 600 mil. Em países avançados, o

Japão, por exemplo, não há di

aluno por ano, a escolarização

ferença salarial entre os pro fessores de jardim de infância,

regular das 8 milhões de crian ças que estão fora da escola fundamental custaria, a preços

técnicas e universidades, pois 0 pagamento dos mestres é

de escolas de l.o e 2.o graus,

DIGESTO ECONÔMICÓ

73

ANALFABETISMO

feito em função de sua qualifi

cação.

Aliás,

ali os

salários

iniciais dos professores de jar dins de infância são mais altos que os dos universitários, e cs salários

terminais

de

ambos

são praticamente iguais. Curio samente, é esta também uma das muitas determinações da Lei Õ.692 que até agora não se começaram a cumprir; o Art. 39 estabelece que a remunera ção dos professores se faça de acordo com princípios que, ao menos para o nível de l.o e 2.o graus, nada deixam a desejar em face da solução japonesa. Ao longo de toda a história

brasileira, os primeiros esfor ços sistemáticos para equacio nar a questão educacional (11) surgiram a partir de 1961 com a Lei do Diretrizes e Bases da

Educação e com as leis da Re forma Universitária de 1968 e

do Ensino de l.o e 2.o Graus, em 1971. Dez anos é período demasiadamente curto para analisar seus efeitos, cm parti

cular na área de l.o e 2.o graus, mas há resultados concretos e podem-se tirar considerações válidas, algumas das quais de correntes de análise dos dados

do IBGE (12, 13).

No rol dc 62 milhões de pessoas com mais de 5 anos

existentes em 1970, cerca de 30% eram analfabetas e, na população rural, esse percen tual se elevava para 88%. Na

faixa de mais de dez anos, 18% tinham 4 ou menos anos de es

colaridade e, na área rural, esse número não chegava a 15%.

Entre os

maiores de 15

anos, apenas 6% tinham até 8

anos de estudos. Em

1970,

a

população economicamente ati va era integrada por 36% de analfabetos, percentual que caiu para 26% seis anos depois;

naquele ano,

49%

dos brasi

leiros tinham de 1 a 5 anos de

estudos; 7,7% possuíam de 6 a 9 anos; 4,9%, até 12 anos; 1,5% possuía curso superior e 0 restante, cerca de 1%, havia recebido alguma modali dade de instrução desse nível, Na

realidade,

agindo

as

forças do mercado com as dis

ponibilidades existentes, os nú meros acima refletem essa

si

tuação e não a inversa, ou seja, a de que tais percentuais aten deríam às necessidades mercado de trabalho.

do


DIQESTO ECONÔMICO

72

em

de hoje, no mínimo, 960 bilhões

1763, e por volta de 1860 a taxa de escolarização já era ali igual a 97,5%, enquanto na Saxónia já havia atingido 100%. Nos

de cruzeiros, valor praticamen te igual ao da conta do petró

de

Frederico

O

Grande,

EUA, a educação compulsória existe desde o descobrimento, com altas taxas de matrícula. INVIABILIDADE

leo. Os custos se elevarão ainda mais se for verídica a estima

tiva de que há mais de meio milhão de professores na rede de 1.0 grau que não possuem a escolaridade exigida para atuar nesse nível de ensino.

As

ECONÔMICA

prioridades

brasileiras

no setor educacional têm seniMuito

se

tem

feito

em

nosso país em matéria legisla tiva sobre educação; de certa forma, há até leis que se repe tem uma às outras, reeditan do, como se novidade fossem, esquemas e propostas que an teriormente não surtiram efei

to, permanecendo, entretanto, inabalado o problema maior da educação brasileira: a oferta de ensino fundamental de qua lidade para grandes contingen

tes humanos, cuja importância civiiizadora a ninguém é lícito ignorar. Ocorre, entretanto, que tal oferta se tornou economica

mente inexeqüivcl pelos méto dos tradicionais; ao preço mí nimo de 15 mil cruzeiros por

pre variado e a recente e exa gerada ênfase no ensino supe rior deixou problemas gravíssi mos (que, aliás, há tempos venho assinalando); entre ou

tros, o custo elevado do univer sitário, cerca de 60 vezes mais caro que o aluno de l.o grau e os salários vis pagos a profes sores de l.o grau que em alguns Estados são de 150 a 800 vezes

menores

que

os

salários

dos

professores universitários.

Por

isso também, nos últimos vinte anos, quadruplicou o número de professores leigos na rede de 1.0 grau, hoje por volta de 600 mil. Em países avançados, o

Japão, por exemplo, não há di

aluno por ano, a escolarização

ferença salarial entre os pro fessores de jardim de infância,

regular das 8 milhões de crian ças que estão fora da escola fundamental custaria, a preços

técnicas e universidades, pois 0 pagamento dos mestres é

de escolas de l.o e 2.o graus,

DIGESTO ECONÔMICÓ

73

ANALFABETISMO

feito em função de sua qualifi

cação.

Aliás,

ali os

salários

iniciais dos professores de jar dins de infância são mais altos que os dos universitários, e cs salários

terminais

de

ambos

são praticamente iguais. Curio samente, é esta também uma das muitas determinações da Lei Õ.692 que até agora não se começaram a cumprir; o Art. 39 estabelece que a remunera ção dos professores se faça de acordo com princípios que, ao menos para o nível de l.o e 2.o graus, nada deixam a desejar em face da solução japonesa. Ao longo de toda a história

brasileira, os primeiros esfor ços sistemáticos para equacio nar a questão educacional (11) surgiram a partir de 1961 com a Lei do Diretrizes e Bases da

Educação e com as leis da Re forma Universitária de 1968 e

do Ensino de l.o e 2.o Graus, em 1971. Dez anos é período demasiadamente curto para analisar seus efeitos, cm parti

cular na área de l.o e 2.o graus, mas há resultados concretos e podem-se tirar considerações válidas, algumas das quais de correntes de análise dos dados

do IBGE (12, 13).

No rol dc 62 milhões de pessoas com mais de 5 anos

existentes em 1970, cerca de 30% eram analfabetas e, na população rural, esse percen tual se elevava para 88%. Na

faixa de mais de dez anos, 18% tinham 4 ou menos anos de es

colaridade e, na área rural, esse número não chegava a 15%.

Entre os

maiores de 15

anos, apenas 6% tinham até 8

anos de estudos. Em

1970,

a

população economicamente ati va era integrada por 36% de analfabetos, percentual que caiu para 26% seis anos depois;

naquele ano,

49%

dos brasi

leiros tinham de 1 a 5 anos de

estudos; 7,7% possuíam de 6 a 9 anos; 4,9%, até 12 anos; 1,5% possuía curso superior e 0 restante, cerca de 1%, havia recebido alguma modali dade de instrução desse nível, Na

realidade,

agindo

as

forças do mercado com as dis

ponibilidades existentes, os nú meros acima refletem essa

si

tuação e não a inversa, ou seja, a de que tais percentuais aten deríam às necessidades mercado de trabalho.

do


I

74

DIGESTO

De 1970 à época do Progra ma Nacional por Amostragem

Domiciliar — PNAD^ em 1976, os dados o confirmam de ma neira insofismável: houve me lhoria substancial do nível de

instrução da população econo micamente ativa brasileira;

mesmo assim, nosso país ainda se encontra em situação desfa vorável, comparado a nações desenvolvidas e a algumas que integram o chamado Terceiro Mundo.

Ressalvadas exceções co nhecidas, a distribuição de renda acompanha, normalraente, as taxas de escolarização. Segundo o IBGE, na população economicamente

ativa de

44,2

milhões de pessoas, cerca de 12% não têm remuneração;

ECONÔMICO

16% recebem entre 5 a 10 sa

da inexistência de professores

tratam de dificuldades contor

qualificados

menos de 10% concentram mais

náveis. A Lei, em si, é boa e não há por que substituí-la por outra; além disso, a história da educação brasileira é pró

de 50% da renda, enquanto 50% detêm apenas 10% dessa renda.

diga em substituições inconse quentes de leis.

número suficiente. Desde 1975, apenas no Rio Grande do Sul, no município do Rio de Janei ro e em Minas Gerais, fecha ram-se 520 escolas particula

Não falta quem diga ser a difícil situação educacional

Ao contrário do que alguns

No Anuário do IBGE, vê-se que

brasileira nossa

incongruente

extensão

territorial

com

asseguram, não existe na lei exigência de funcionamento

e a

com a oferta imediata de

riqueza de nosso solo. Mas aí

estão, 0 Japão, a Holanda, a Bélgica — e, mais recente mente, a Coréia — a invalida rem correlações entre territo rialidade e riqueza do solo e desenvolvimento

e

bem-estar

social. Na realidade (14), os EUA também são exemplo em

contrário,

pois

a

economia

norte-americana

nimo; 26% ganham de 1 a 20; 20%, de 2 a 5 salários; 7% re cebem de 5 a 10; e apenas 4%

crescer à cqsta de seu desem

continua

a

de famílias existentes no Bra

penho no setor de serviços. A Lei 5.692 veio quando o País já enfrentava graves em baraços educacionais, no ensi no superior também, alguns decorrentes do próprio fracas

sil, 2% não têm rendimentos;

so da escola fundamental, mui

17% os têm inferiores a 1 sa

tos dos quais, infelizmente, persistem até hoje. Queixas

mostra que, das

25,2 milhões

lário mínimo; 22% recebem' na faixa de 1 a 2 salários; 34% entre 2 e 5 salários, enquanto

75

olhadas à distância, parece que

lários; restam 9% de famílias com vencimentos superiores a 10 salários mínimos por mês.

31% recebem até 1 salário mí

ganham mais de 10 salários mí nimos. O mesmo Censo de 1980

DIGESTO ECONÔMICO

avolumaram-se contra a Lei ao longo desses dez anos; mas.

oito

e

habilitados em

res: 280, 100 e 140, respectiva mente.

Há muito se aguarda que o Governo Federal revogue a Lei 6.536 de 10/06/78, que alte

conse

rou o Art. 59 da Lei 5.692; an teriormente havia a obrigato riedade de aplicação de 20% da receita tributária municipal no ensino de l.o grau; com a lei citada, tal obrigatoriedade ampliou-se para a “educação e cultura", perdendo-se impor tante fonte de captação de re cursos para o ensino de l.o

quência disso, num país onde

grau que poderia vir também

anos de escolaridade. Por isso, deve-se até estimular a criação de pequenas escolas, mesmo das que possuam um só pro fessor e que este tenha compe tência para oferecer uma dis

ciplina

apenas,

contribuirá

medida

que

significativamente

para o aprimoramento da edu

cação

brasileira.

Em

70% das atuais escolas têm apenas uma sala, perde senti

do 0 poder público construir escolas onde já existam outras

particulares com carga ociosa.

Seria mais econômico oferecer bolsas aos

alunos

carentes

e

dar prioridade à construção de

escolas públicas onde nao exis-

tam particulares, pois bem mais grave que as despesas de construção é a triste realidade

em socorro de escolas particu lares.

A obrigatoriedade de pro fissionalização no 2.0 grau foi feita no pressuposto de que a industrialização brasileira exigrande quantidade de gina técnicos e que com ela se evi taria a pressão sobre a uni

versidade, surgida com a exi

gência de maior número de vagas e iniciada nos anos 60.


I

74

DIGESTO

De 1970 à época do Progra ma Nacional por Amostragem

Domiciliar — PNAD^ em 1976, os dados o confirmam de ma neira insofismável: houve me lhoria substancial do nível de

instrução da população econo micamente ativa brasileira;

mesmo assim, nosso país ainda se encontra em situação desfa vorável, comparado a nações desenvolvidas e a algumas que integram o chamado Terceiro Mundo.

Ressalvadas exceções co nhecidas, a distribuição de renda acompanha, normalraente, as taxas de escolarização. Segundo o IBGE, na população economicamente

ativa de

44,2

milhões de pessoas, cerca de 12% não têm remuneração;

ECONÔMICO

16% recebem entre 5 a 10 sa

da inexistência de professores

tratam de dificuldades contor

qualificados

menos de 10% concentram mais

náveis. A Lei, em si, é boa e não há por que substituí-la por outra; além disso, a história da educação brasileira é pró

de 50% da renda, enquanto 50% detêm apenas 10% dessa renda.

diga em substituições inconse quentes de leis.

número suficiente. Desde 1975, apenas no Rio Grande do Sul, no município do Rio de Janei ro e em Minas Gerais, fecha ram-se 520 escolas particula

Não falta quem diga ser a difícil situação educacional

Ao contrário do que alguns

No Anuário do IBGE, vê-se que

brasileira nossa

incongruente

extensão

territorial

com

asseguram, não existe na lei exigência de funcionamento

e a

com a oferta imediata de

riqueza de nosso solo. Mas aí

estão, 0 Japão, a Holanda, a Bélgica — e, mais recente mente, a Coréia — a invalida rem correlações entre territo rialidade e riqueza do solo e desenvolvimento

e

bem-estar

social. Na realidade (14), os EUA também são exemplo em

contrário,

pois

a

economia

norte-americana

nimo; 26% ganham de 1 a 20; 20%, de 2 a 5 salários; 7% re cebem de 5 a 10; e apenas 4%

crescer à cqsta de seu desem

continua

a

de famílias existentes no Bra

penho no setor de serviços. A Lei 5.692 veio quando o País já enfrentava graves em baraços educacionais, no ensi no superior também, alguns decorrentes do próprio fracas

sil, 2% não têm rendimentos;

so da escola fundamental, mui

17% os têm inferiores a 1 sa

tos dos quais, infelizmente, persistem até hoje. Queixas

mostra que, das

25,2 milhões

lário mínimo; 22% recebem' na faixa de 1 a 2 salários; 34% entre 2 e 5 salários, enquanto

75

olhadas à distância, parece que

lários; restam 9% de famílias com vencimentos superiores a 10 salários mínimos por mês.

31% recebem até 1 salário mí

ganham mais de 10 salários mí nimos. O mesmo Censo de 1980

DIGESTO ECONÔMICO

avolumaram-se contra a Lei ao longo desses dez anos; mas.

oito

e

habilitados em

res: 280, 100 e 140, respectiva mente.

Há muito se aguarda que o Governo Federal revogue a Lei 6.536 de 10/06/78, que alte

conse

rou o Art. 59 da Lei 5.692; an teriormente havia a obrigato riedade de aplicação de 20% da receita tributária municipal no ensino de l.o grau; com a lei citada, tal obrigatoriedade ampliou-se para a “educação e cultura", perdendo-se impor tante fonte de captação de re cursos para o ensino de l.o

quência disso, num país onde

grau que poderia vir também

anos de escolaridade. Por isso, deve-se até estimular a criação de pequenas escolas, mesmo das que possuam um só pro fessor e que este tenha compe tência para oferecer uma dis

ciplina

apenas,

contribuirá

medida

que

significativamente

para o aprimoramento da edu

cação

brasileira.

Em

70% das atuais escolas têm apenas uma sala, perde senti

do 0 poder público construir escolas onde já existam outras

particulares com carga ociosa.

Seria mais econômico oferecer bolsas aos

alunos

carentes

e

dar prioridade à construção de

escolas públicas onde nao exis-

tam particulares, pois bem mais grave que as despesas de construção é a triste realidade

em socorro de escolas particu lares.

A obrigatoriedade de pro fissionalização no 2.0 grau foi feita no pressuposto de que a industrialização brasileira exigrande quantidade de gina técnicos e que com ela se evi taria a pressão sobre a uni

versidade, surgida com a exi

gência de maior número de vagas e iniciada nos anos 60.


I

74

DIGESTO

De 1970 à época do Progra ma Nacional por Amostragem

Domiciliar — PNAD^ em 1976, os dados o confirmam de ma neira insofismável: houve me lhoria substancial do nível de

instrução da população econo micamente ativa brasileira;

mesmo assim, nosso país ainda se encontra em situação desfa vorável, comparado a nações desenvolvidas e a algumas que integram o chamado Terceiro Mundo.

Ressalvadas exceções co nhecidas, a distribuição de renda acompanha, normalraente, as taxas de escolarização. Segundo o IBGE, na população economicamente

ativa de

44,2

milhões de pessoas, cerca de 12% não têm remuneração;

ECONÔMICO

16% recebem entre 5 a 10 sa

da inexistência de professores

tratam de dificuldades contor

qualificados

menos de 10% concentram mais

náveis. A Lei, em si, é boa e não há por que substituí-la por outra; além disso, a história da educação brasileira é pró

de 50% da renda, enquanto 50% detêm apenas 10% dessa renda.

diga em substituições inconse quentes de leis.

número suficiente. Desde 1975, apenas no Rio Grande do Sul, no município do Rio de Janei ro e em Minas Gerais, fecha ram-se 520 escolas particula

Não falta quem diga ser a difícil situação educacional

Ao contrário do que alguns

No Anuário do IBGE, vê-se que

brasileira nossa

incongruente

extensão

territorial

com

asseguram, não existe na lei exigência de funcionamento

e a

com a oferta imediata de

riqueza de nosso solo. Mas aí

estão, 0 Japão, a Holanda, a Bélgica — e, mais recente mente, a Coréia — a invalida rem correlações entre territo rialidade e riqueza do solo e desenvolvimento

e

bem-estar

social. Na realidade (14), os EUA também são exemplo em

contrário,

pois

a

economia

norte-americana

nimo; 26% ganham de 1 a 20; 20%, de 2 a 5 salários; 7% re cebem de 5 a 10; e apenas 4%

crescer à cqsta de seu desem

continua

a

de famílias existentes no Bra

penho no setor de serviços. A Lei 5.692 veio quando o País já enfrentava graves em baraços educacionais, no ensi no superior também, alguns decorrentes do próprio fracas

sil, 2% não têm rendimentos;

so da escola fundamental, mui

17% os têm inferiores a 1 sa

tos dos quais, infelizmente, persistem até hoje. Queixas

mostra que, das

25,2 milhões

lário mínimo; 22% recebem' na faixa de 1 a 2 salários; 34% entre 2 e 5 salários, enquanto

75

olhadas à distância, parece que

lários; restam 9% de famílias com vencimentos superiores a 10 salários mínimos por mês.

31% recebem até 1 salário mí

ganham mais de 10 salários mí nimos. O mesmo Censo de 1980

DIGESTO ECONÔMICO

avolumaram-se contra a Lei ao longo desses dez anos; mas.

oito

e

habilitados em

res: 280, 100 e 140, respectiva mente.

Há muito se aguarda que o Governo Federal revogue a Lei 6.536 de 10/06/78, que alte

conse

rou o Art. 59 da Lei 5.692; an teriormente havia a obrigato riedade de aplicação de 20% da receita tributária municipal no ensino de l.o grau; com a lei citada, tal obrigatoriedade ampliou-se para a “educação e cultura", perdendo-se impor tante fonte de captação de re cursos para o ensino de l.o

quência disso, num país onde

grau que poderia vir também

anos de escolaridade. Por isso, deve-se até estimular a criação de pequenas escolas, mesmo das que possuam um só pro fessor e que este tenha compe tência para oferecer uma dis

ciplina

apenas,

contribuirá

medida

que

significativamente

para o aprimoramento da edu

cação

brasileira.

Em

70% das atuais escolas têm apenas uma sala, perde senti

do 0 poder público construir escolas onde já existam outras

particulares com carga ociosa.

Seria mais econômico oferecer bolsas aos

alunos

carentes

e

dar prioridade à construção de

escolas públicas onde nao exis-

tam particulares, pois bem mais grave que as despesas de construção é a triste realidade

em socorro de escolas particu lares.

A obrigatoriedade de pro fissionalização no 2.0 grau foi feita no pressuposto de que a industrialização brasileira exigrande quantidade de gina técnicos e que com ela se evi taria a pressão sobre a uni

versidade, surgida com a exi

gência de maior número de vagas e iniciada nos anos 60.


DIGESTO

DIGESTO

76

Nada foi mais ilusório; tal exi gência continuou a crescer e, em termos percentuais, as va gas 110 ensino superior foram as que mais aumentaram nos

anos 70, como assinalado aci ma, constatou-se a melhoria da escolarização da população

últimos 20 anos. A demanda de

que 0 treinamento profissional, pela sua natureza seletiva, ten

técnicos, por sua vez, apesar do

crescimento havido

na in

dústria, tampouco foi substan ciai; 0 Censo de 1980 revelou que 85% das pessoas ocupadas no Brasil tinham menos de oi

to anos de estudo, ou seja, o equivalente ao l.o grau, tendo 03 percentuais mais altos dc escolaridade de oito anos sido

atingidos no DF, no RJ e em SP com 36,8%, 26,1% e 20,5% respectivamente. TREINAMENTO PROFISSIONAL

A mesma Pesquisa Nacio

nal por Amostragem Domici liar de 1976, anteriormente ci tada, revela que, na popula

economicamente ativa. Mas esses mesmos dados mostram

deu a ser mais benéfico

jus

tamente para os que já o pos suíam em nível mais alto; lon ge de tornar-se um efeito de massa, o treinamento profis sional manifestou-se eficaz ape

nas para pequenos segmentos.

Por sua vez, estudo feito pelo Senai em 1978 (15) reve la que no Estado de São Pau lo a qualificação média dos empregados nas empresas pe quenas e médias tinha a se guinte distribuição: 49,4% eram semiqualifiçados; 10,0% traba lhadores braçais; 14,7% eram qualificados; 3,3% técnicos; 0,8% de nível superior e 21,8%

ção economicamente ativa en

eram' administradores; resulta dos semelhantes foram verifi

tão existente, apenas 3,6% fre

cados em empresas de outras

quentavam cursos de treina mento profissional; destes, ape nas 9,7% tinliam menos de 4 anos de escolarização, sendo bem maior a frequência dos que tinham entre 9 e 11 anos;

dimensões e na própria capi

22,3% do

total;

ao

final dos

tal do Estado.

Em outras pa

lavras, cerca de 65% dos tra

balhadores das pequenas e mé dias empresas do Estado mais desenvolvido continuavam

industrialmente a

ECONÔMICO

77

ECONÔMICO

não

ter

a

es-

colaridade inínima de oito anos; a profissionalização dos traba lhadores já se fizera sem que sequer tivessem alcançado o segundo grau. Quando hoje alguns falam em

criar dificuldades

à atua

ção da iniciativa privada

no

setor de ensino e até na neces

sidade da estatização, neces sário se faz lembrar que, além dos imensos serviços que esse setor prestou ao Brasil, só em países de inspiração totalitária existe apenas a educação esta

tal; de resto, o setor público entre nós, mesmo com apoio da iniciativa privada, não con seguiu ainda deter o avanço do analfabetismo ou prover es colas para os que a ela têm di reito. É necessário assegurar a expansão de boas escolas, in dependentemente de sua natu

reza,

e abandonar

metodolo

gias arcaicas, válidas para si tuações diversas das que hoje existem no Brasil.

A oferta de ensino de qua lidada para grandes contingen tes humanos problema maior da notSsa .educação — só pode ser feita usando intensivamen te os meios de comunicação, única maneira de assegurar pa¬

drões qualitativos e contornar problemas de custos. Inglater

ra, China, Estados Unidos, Ja pão, Ahmanha, Rússia, Israel,

Austrália, África do Sul, Vene zuela, um grande número do países, adotam a metodologia do ensino à distância e só nos EUA onze universidades aber tas entrarão .sm funcionamen-

to a curtíssimo prazo

No Bra

sil, essa matéria, apesar dos esforços feitos em 1973 e do empenho ingente da Universi dade de Brasília, não alcançou

progresso significativo. Na rea lidade, buscando atuar nesse setor, a UnB procurava apenas contribuir para a formação da nova

concepção de escola ante-

cípada com propriedade no Capítulo IV da Lei 5.692, em particular no § 2.o do Art. 25. Nas próximas décadas,

a

utilização de material audiovi sual e

impresso terá

implica

ções mais profundas na educa ção que as decorrentes da in venção da imprensa. Se quisermas

livrar-nos dos proble

mas que dificultam nosso de senvolvimento, devemos dispen sar maior atenção à educação de base e ao treinamento

em

serviço; se isso foi impossível


DIGESTO

DIGESTO

76

Nada foi mais ilusório; tal exi gência continuou a crescer e, em termos percentuais, as va gas 110 ensino superior foram as que mais aumentaram nos

anos 70, como assinalado aci ma, constatou-se a melhoria da escolarização da população

últimos 20 anos. A demanda de

que 0 treinamento profissional, pela sua natureza seletiva, ten

técnicos, por sua vez, apesar do

crescimento havido

na in

dústria, tampouco foi substan ciai; 0 Censo de 1980 revelou que 85% das pessoas ocupadas no Brasil tinham menos de oi

to anos de estudo, ou seja, o equivalente ao l.o grau, tendo 03 percentuais mais altos dc escolaridade de oito anos sido

atingidos no DF, no RJ e em SP com 36,8%, 26,1% e 20,5% respectivamente. TREINAMENTO PROFISSIONAL

A mesma Pesquisa Nacio

nal por Amostragem Domici liar de 1976, anteriormente ci tada, revela que, na popula

economicamente ativa. Mas esses mesmos dados mostram

deu a ser mais benéfico

jus

tamente para os que já o pos suíam em nível mais alto; lon ge de tornar-se um efeito de massa, o treinamento profis sional manifestou-se eficaz ape

nas para pequenos segmentos.

Por sua vez, estudo feito pelo Senai em 1978 (15) reve la que no Estado de São Pau lo a qualificação média dos empregados nas empresas pe quenas e médias tinha a se guinte distribuição: 49,4% eram semiqualifiçados; 10,0% traba lhadores braçais; 14,7% eram qualificados; 3,3% técnicos; 0,8% de nível superior e 21,8%

ção economicamente ativa en

eram' administradores; resulta dos semelhantes foram verifi

tão existente, apenas 3,6% fre

cados em empresas de outras

quentavam cursos de treina mento profissional; destes, ape nas 9,7% tinliam menos de 4 anos de escolarização, sendo bem maior a frequência dos que tinham entre 9 e 11 anos;

dimensões e na própria capi

22,3% do

total;

ao

final dos

tal do Estado.

Em outras pa

lavras, cerca de 65% dos tra

balhadores das pequenas e mé dias empresas do Estado mais desenvolvido continuavam

industrialmente a

ECONÔMICO

77

ECONÔMICO

não

ter

a

es-

colaridade inínima de oito anos; a profissionalização dos traba lhadores já se fizera sem que sequer tivessem alcançado o segundo grau. Quando hoje alguns falam em

criar dificuldades

à atua

ção da iniciativa privada

no

setor de ensino e até na neces

sidade da estatização, neces sário se faz lembrar que, além dos imensos serviços que esse setor prestou ao Brasil, só em países de inspiração totalitária existe apenas a educação esta

tal; de resto, o setor público entre nós, mesmo com apoio da iniciativa privada, não con seguiu ainda deter o avanço do analfabetismo ou prover es colas para os que a ela têm di reito. É necessário assegurar a expansão de boas escolas, in dependentemente de sua natu

reza,

e abandonar

metodolo

gias arcaicas, válidas para si tuações diversas das que hoje existem no Brasil.

A oferta de ensino de qua lidada para grandes contingen tes humanos problema maior da notSsa .educação — só pode ser feita usando intensivamen te os meios de comunicação, única maneira de assegurar pa¬

drões qualitativos e contornar problemas de custos. Inglater

ra, China, Estados Unidos, Ja pão, Ahmanha, Rússia, Israel,

Austrália, África do Sul, Vene zuela, um grande número do países, adotam a metodologia do ensino à distância e só nos EUA onze universidades aber tas entrarão .sm funcionamen-

to a curtíssimo prazo

No Bra

sil, essa matéria, apesar dos esforços feitos em 1973 e do empenho ingente da Universi dade de Brasília, não alcançou

progresso significativo. Na rea lidade, buscando atuar nesse setor, a UnB procurava apenas contribuir para a formação da nova

concepção de escola ante-

cípada com propriedade no Capítulo IV da Lei 5.692, em particular no § 2.o do Art. 25. Nas próximas décadas,

a

utilização de material audiovi sual e

impresso terá

implica

ções mais profundas na educa ção que as decorrentes da in venção da imprensa. Se quisermas

livrar-nos dos proble

mas que dificultam nosso de senvolvimento, devemos dispen sar maior atenção à educação de base e ao treinamento

em

serviço; se isso foi impossível


DIGBSTO

78

no passado, hoje há condições de levar a grande número de

alunos, em todos os recantos do Brasil, nas escolas e fábricas, ensino de qualidade. Longe de constituir-se em panacéia edu cacional, os meios de comuni cação — televisão, rádio e ma terial impresso — são a grande arma do ensino moderno.

ECONÔMICO

e treinamento específico tem pouca influência no tipo de em prego e nos níveis salariais ’ (16). Questões de preferência por uma das formas de ensino, o vocacional (profissionalizante) e 0 "academizante” são antigas como a história da educação o r.-montam à Grécia antiga, a

UM ERRO COMUM

Atenas e a Esparta. Haverá sempre quem demonstre virtu

Não há por que comparar reiultados de desempenho edu cacional no Brasil e em países

des de uma dessas modalidades

DIGESTO ECONÔMICO

reciclas” (Art. 129), apesar de também dizer ser o ensino pro fissionalizante "em matéria de

sino tinha de coexistir com o "academizante” destinado natu

cos

Há que eliminar, entre nós,

chegou até nós sintetizada nas primeiras páginas de PAIDETA d£' W. Jaeger (17): "Todo povo que atinge um certo grau de de

tcs...

0 entendimento de que ensino

gei*al e 0 de natureza ornamen tal e verboso, que cultura é erudição, mera catalogação de entre ensino geral e profissio nal; não há fronteira entre

tretanto, a

informação (13,16)

não é o de suprir mão-de-obra

ciências e humanidades. Entre

relativa às

dificuldades

dos

para o mercado de trabalho, de

homo sapiens e o homo faccíens

cui’sos profissionalizantes no.5 EUA; além do seu elevado custo, que estimam sei- de 50 a

resto extremamente variável em função de parâmetras di versos e de natureza não edu

inexistentes. Pelo mesmo moti

75% mais caro que os outros de

cacional. "A educação de que

ao alto grau de industrialização daquele país — poucos empre gos iniciais para os egressos de cursos profissionalizantes como

n'As

de a infância para o bem, indu zindo no homem o desejo ar dente de se tornar um cidadão

perfeito, capaz de governar ^ de ser governado com justiça”. A opção entre essais duas mo

frivolidades. Não há fronteiras

as fronteiras

são,

NOTAS

vo, não há por que manter esco

1.P B

Ias determinadas por estratificação social, pois a educação deve ser geral para o trabalho e não específica para ocupações no mercado de trabalho. E as

Change and National Economic Development. Harvard Educa tional

Walfers — Educational

Review, vol. 51, n.o

1,

os que nela

Feb., pág. 94 a 106 (1981). 2. Cardoso, F.H.; Faletto, E. — Dependency and Develop-

porfiam não estão certamente

ment in Latin America. Berke-

ley Un^versity Press (1979). 3. yVallerstein, I. — The Modern

universidades e

ra os quais

não haviam

sido

dalidades de ensino evoluiu desde a Carta de 1937, que pr-2-

treinados”...

deixando

crer

via um ensino profissional des

lhes melhor eficiência e econo-

que “a relação entre ocupação

tinado “às classes menos favo-

micidade.

mais elevados em empregos pa

senvolvimento sente-se natural

mente inclinado á prática da educação. Ela é o princípio por meio do qual a comunidade hu mana conserva e transmite a sua peculiaridade física e es piritual” .

realmente,

a serviço de linhas de monta gem, mas podem — e devem — influir de forma decisiva para 0 seu aprimoramento, dando-

também "muitos estudantes... foram contratados com salários

e morais da humanidade”.

Não esqueçamos por fim a lição que, ao longo dos tempos,

à

mos para o ideal da escola que

falamos — dizia Platão

acervo dos controles tecnológi

formação de eli-

ralmente

relativa frequência. Deixo, en

Leis — é aquela orientada de.s-

e a Santiago Dantas devemos a

observação de qu© “cultura é o

avançados, erro cometido com

2.0 grau^ observou-se que não

geral e profissional, cultura G tecnologia, não são antinomias,

Educação o primeko dever do Estado” (Art. 129); mas tal en

de ensino, em detrimento da outra; na realidade, essas ques tões se dissipam quando atenta

só havia — certamente devido

79

Moderno e clássico,

World System. AC. Press NY, (1976).

4. Harbison, F. e Meyers, C.A. Education, Manpower and Eco-


DIGBSTO

78

no passado, hoje há condições de levar a grande número de

alunos, em todos os recantos do Brasil, nas escolas e fábricas, ensino de qualidade. Longe de constituir-se em panacéia edu cacional, os meios de comuni cação — televisão, rádio e ma terial impresso — são a grande arma do ensino moderno.

ECONÔMICO

e treinamento específico tem pouca influência no tipo de em prego e nos níveis salariais ’ (16). Questões de preferência por uma das formas de ensino, o vocacional (profissionalizante) e 0 "academizante” são antigas como a história da educação o r.-montam à Grécia antiga, a

UM ERRO COMUM

Atenas e a Esparta. Haverá sempre quem demonstre virtu

Não há por que comparar reiultados de desempenho edu cacional no Brasil e em países

des de uma dessas modalidades

DIGESTO ECONÔMICO

reciclas” (Art. 129), apesar de também dizer ser o ensino pro fissionalizante "em matéria de

sino tinha de coexistir com o "academizante” destinado natu

cos

Há que eliminar, entre nós,

chegou até nós sintetizada nas primeiras páginas de PAIDETA d£' W. Jaeger (17): "Todo povo que atinge um certo grau de de

tcs...

0 entendimento de que ensino

gei*al e 0 de natureza ornamen tal e verboso, que cultura é erudição, mera catalogação de entre ensino geral e profissio nal; não há fronteira entre

tretanto, a

informação (13,16)

não é o de suprir mão-de-obra

ciências e humanidades. Entre

relativa às

dificuldades

dos

para o mercado de trabalho, de

homo sapiens e o homo faccíens

cui’sos profissionalizantes no.5 EUA; além do seu elevado custo, que estimam sei- de 50 a

resto extremamente variável em função de parâmetras di versos e de natureza não edu

inexistentes. Pelo mesmo moti

75% mais caro que os outros de

cacional. "A educação de que

ao alto grau de industrialização daquele país — poucos empre gos iniciais para os egressos de cursos profissionalizantes como

n'As

de a infância para o bem, indu zindo no homem o desejo ar dente de se tornar um cidadão

perfeito, capaz de governar ^ de ser governado com justiça”. A opção entre essais duas mo

frivolidades. Não há fronteiras

as fronteiras

são,

NOTAS

vo, não há por que manter esco

1.P B

Ias determinadas por estratificação social, pois a educação deve ser geral para o trabalho e não específica para ocupações no mercado de trabalho. E as

Change and National Economic Development. Harvard Educa tional

Walfers — Educational

Review, vol. 51, n.o

1,

os que nela

Feb., pág. 94 a 106 (1981). 2. Cardoso, F.H.; Faletto, E. — Dependency and Develop-

porfiam não estão certamente

ment in Latin America. Berke-

ley Un^versity Press (1979). 3. yVallerstein, I. — The Modern

universidades e

ra os quais

não haviam

sido

dalidades de ensino evoluiu desde a Carta de 1937, que pr-2-

treinados”...

deixando

crer

via um ensino profissional des

lhes melhor eficiência e econo-

que “a relação entre ocupação

tinado “às classes menos favo-

micidade.

mais elevados em empregos pa

senvolvimento sente-se natural

mente inclinado á prática da educação. Ela é o princípio por meio do qual a comunidade hu mana conserva e transmite a sua peculiaridade física e es piritual” .

realmente,

a serviço de linhas de monta gem, mas podem — e devem — influir de forma decisiva para 0 seu aprimoramento, dando-

também "muitos estudantes... foram contratados com salários

e morais da humanidade”.

Não esqueçamos por fim a lição que, ao longo dos tempos,

à

mos para o ideal da escola que

falamos — dizia Platão

acervo dos controles tecnológi

formação de eli-

ralmente

relativa frequência. Deixo, en

Leis — é aquela orientada de.s-

e a Santiago Dantas devemos a

observação de qu© “cultura é o

avançados, erro cometido com

2.0 grau^ observou-se que não

geral e profissional, cultura G tecnologia, não são antinomias,

Educação o primeko dever do Estado” (Art. 129); mas tal en

de ensino, em detrimento da outra; na realidade, essas ques tões se dissipam quando atenta

só havia — certamente devido

79

Moderno e clássico,

World System. AC. Press NY, (1976).

4. Harbison, F. e Meyers, C.A. Education, Manpower and Eco-


»

DIGESTO ECONÔMICO

80

mais

Importantes já feito

nc

nomic Growth; Strategies of Human Resources Development Mc Graw HilI, N. York,

Brasil sobre a reforma de 1.° e

1940.

CHAGAS, O Ensino de l.o e 2.o

5. Brownstein, I. — Education and Development in Rural Kenya: A Study of Primary School Leaves, New' York Praeger (1972). 6, S P Heyneman — Influences

Graus' — Antes, Agora, e

on Accademic Achievements: a

comparison of results from Uganda and more industrialized societies. Sociology of FcLj-

cation, 49, 200 (1976). 7. M.J. Bov/rnan e C.S. Ar.der£on — Old Societies and the New States.

8. W G Bowen — Assasing tlie economic contribution of educa

tion; an appraisal of alternative approaches; in Highcr Eciiicatíon; Repert of the Committee under the Chairmanship o?

Lord Robbins, 1961-63

Londjn,

HMSO, 1963, appendix !V,

pp.

77-96.

9. J.K. Gaibraith — The Natu-

re of Mass Poverty. Harvard Unrv. Press (1979). 10. S.D. Landes — Industry, Skills an Knowledge, The ün-

bound Prometheus,, Cambridge

2.0 graus é o livro cie VALNM-!

Filosofia

D:

e

pois? Ed. Saraiva (1978). 12.

!EGE.

Anuário

Estatístico

(1930).

13. L.A. Corrêa do Uago^

F.

Lopes de Almeida, B M.F. di

cristianismo

Lima — Estrutura Ocupacional.

Educação e Formação de Mãodc-Obra; os Paí&es Desenvolv

Julian

Marias

dos e 0 Caso Brasileiro. Funda

cão Gstúüo

Vargas (agosto-^

1981). 14. E. Ginzberg e G.J. Votja — The Service Sector of the US

Economy. Scientific Amerlcari,

O cristianismo surgiu

depois das grandes influências gregas. O autor é um dos nomes mais ilustres da filosofia contemporânea.

L 44, 3 (março/81). 15. SENAl-SP — Algumas con siderações sobre pequenas c médias empresas industriais e

formação

profissional (1979).

Vei- também

SENAI-SP — Si

tuação do Mercado de Trabalho Industrial do

Estado de

São

Paulo: Alguns

Dados indicati

vos (1979),

16. Work in America, Reporí cf a special task force to the Secretary of Health, Education and Welfare. The Camb. (1973).

MIT Press,

Univ, Press (1969)!

17. W. Jaegcr — Paideia. Edito

11. Certamenté, um dos estudos

ra UnB (1981).

De que maneira a irrupção do cristianismo no mundo anti go afeta a filosofia? Há uma tentação tão explicável quanto perigosa a de pensar em uma

“filosofia cristã”. Mas, embora essa expressão seja muito pro blemática e requeira esclarecimentos importantes — mais adiante tentarei recordar o úni¬

co sentido em que me parece aceitável e com um significa do claro e responsável — é du vidoso que no mundo antigo possamos encontrar algo que se chame “filosofia cristã”. Por

outro lado,

à época em

que

surge 0 cristianismo, esse mun do é dual, grego e romano, com uma delicada articulação de ambos os elementos que não se podem identificar nem se parar.

O pensamento da época ro mana depende essencialmente do grego, mas não pode ser, simplesmente, reduzide a ele.

Por outro lado, a filosofia gre ga como tal, em sua língua e pressupostos próprios, não se interrompeu. Mas tudo isso, em grego ou em latim, se realiza


»

DIGESTO ECONÔMICO

80

mais

Importantes já feito

nc

nomic Growth; Strategies of Human Resources Development Mc Graw HilI, N. York,

Brasil sobre a reforma de 1.° e

1940.

CHAGAS, O Ensino de l.o e 2.o

5. Brownstein, I. — Education and Development in Rural Kenya: A Study of Primary School Leaves, New' York Praeger (1972). 6, S P Heyneman — Influences

Graus' — Antes, Agora, e

on Accademic Achievements: a

comparison of results from Uganda and more industrialized societies. Sociology of FcLj-

cation, 49, 200 (1976). 7. M.J. Bov/rnan e C.S. Ar.der£on — Old Societies and the New States.

8. W G Bowen — Assasing tlie economic contribution of educa

tion; an appraisal of alternative approaches; in Highcr Eciiicatíon; Repert of the Committee under the Chairmanship o?

Lord Robbins, 1961-63

Londjn,

HMSO, 1963, appendix !V,

pp.

77-96.

9. J.K. Gaibraith — The Natu-

re of Mass Poverty. Harvard Unrv. Press (1979). 10. S.D. Landes — Industry, Skills an Knowledge, The ün-

bound Prometheus,, Cambridge

2.0 graus é o livro cie VALNM-!

Filosofia

D:

e

pois? Ed. Saraiva (1978). 12.

!EGE.

Anuário

Estatístico

(1930).

13. L.A. Corrêa do Uago^

F.

Lopes de Almeida, B M.F. di

cristianismo

Lima — Estrutura Ocupacional.

Educação e Formação de Mãodc-Obra; os Paí&es Desenvolv

Julian

Marias

dos e 0 Caso Brasileiro. Funda

cão Gstúüo

Vargas (agosto-^

1981). 14. E. Ginzberg e G.J. Votja — The Service Sector of the US

Economy. Scientific Amerlcari,

O cristianismo surgiu

depois das grandes influências gregas. O autor é um dos nomes mais ilustres da filosofia contemporânea.

L 44, 3 (março/81). 15. SENAl-SP — Algumas con siderações sobre pequenas c médias empresas industriais e

formação

profissional (1979).

Vei- também

SENAI-SP — Si

tuação do Mercado de Trabalho Industrial do

Estado de

São

Paulo: Alguns

Dados indicati

vos (1979),

16. Work in America, Reporí cf a special task force to the Secretary of Health, Education and Welfare. The Camb. (1973).

MIT Press,

Univ, Press (1969)!

17. W. Jaegcr — Paideia. Edito

11. Certamenté, um dos estudos

ra UnB (1981).

De que maneira a irrupção do cristianismo no mundo anti go afeta a filosofia? Há uma tentação tão explicável quanto perigosa a de pensar em uma

“filosofia cristã”. Mas, embora essa expressão seja muito pro blemática e requeira esclarecimentos importantes — mais adiante tentarei recordar o úni¬

co sentido em que me parece aceitável e com um significa do claro e responsável — é du vidoso que no mundo antigo possamos encontrar algo que se chame “filosofia cristã”. Por

outro lado,

à época em

que

surge 0 cristianismo, esse mun do é dual, grego e romano, com uma delicada articulação de ambos os elementos que não se podem identificar nem se parar.

O pensamento da época ro mana depende essencialmente do grego, mas não pode ser, simplesmente, reduzide a ele.

Por outro lado, a filosofia gre ga como tal, em sua língua e pressupostos próprios, não se interrompeu. Mas tudo isso, em grego ou em latim, se realiza


82

DIGESTO

dentro da área do Império Rom.ano, em um mundo distante daquele das cidades em que foi

ca palavra: Vorausset-zungslosigkeit, ou a ausência de supos tos. Sim e não, teríamos de di

gerada, séculos antes, a filoso

zer:

fia grega. A partir de uma pers pectiva filosófica, se se consi dera a duração total do Impé rio Romano, incluindo-se o pe ríodo helênico, o cristianismo tem pouco a fazer. Em outras palavras, é muito reduzido e secundário o lugar que o cris tianismo ocupa dentro da filo

fia que parta do zero. A filo

sofia da Grécia e, ainda, de Ro ma em toda sua história.

Tra

ta-se de outra coisa, que se costuma passar por alto, mas que é inesperadamente interes

»

ECONÔMICO

sante.

A filosofia não parte do ze ro. Nunca. Nem sequer no seu começo pré-socrático. Pelo con trário, a filosofia parte de saberes, às vezes inumeráveis saberes, de supostos prévios nos quais se está, e é justamente sobre eles que surge e se apre senta o problema da filosofia,

não há nunca uma filoso

sofia parte de um repertório

de crenças, de idéias, de saberes. Mas é certo, também, que a filosofia não tem supos tos no sentido de que esses su postos, dos quais parte, não são

filosoficamente

válidos.

Isto é, a filosofia parte, em ca da caso, de crenças, idéias, vi gências sociais, de todo um re pertório de realidades prévias a cada filosofia (ou, no caso original da Grécia, prévias à filosofia, sem mais), mas tudo isso não é parte do conteúdo da

filosofia, e esta, por conseguin te, deve buscar sua evidência e justificação por si mesma. Nesse sentido, portanto, esses supostos que uma tradição re cente tentava eliminar e que não são elimináveis não atuam

várias — em uma situação de

como parte integrante da filo sofia, mas é sobre eles que a filosofia deve operar, para jus

terminada.

tificá-los e transformá-los

se constrói uma'filosofia — ou

em

idéia, tão arraigada, de que a

filosofia, para que então, e so mente então, possam ser par

filosofia é uma ciência que não tem supostos, como o expres sava, em alemão, a quilométri-

ções habituais

Isto parece

contradizer

a

te dela.

Como se vê, as duas posisão

eiTÔneas:

DIGESTO ECONÔMICO

83

OU se acredita poder partir

do

zero, ou que os supostos

são

parte integrante da filosofia. Ambas as atitudes têm razão, entretanto, se entendidas reta mente. Nunca se parte de ze ro, sempre existe um subsolo de crenças e idéias prévias à filosofia. Mas não funcionam como filosofia nem. a rigor.

penetram nela, até que a filo sofia lhes dê razão e as incor pore.

Neste sentido podemos falar de pré-filosofia, sem a qual a filosofia é ininteligível, mas que ainda não é filosofia. Creio que

0 primeiro a levantar a sério este problema e colocá-lo no seu justo lugar foi Ortega, num escrito de 1941, que apareceu pela primeira vez no número 1 da revista “Logos” da Uni

versidade de Buenos Aires,

e

que comentei longamente em “Ortega y la idea de la razón vital”, 1948. Esse escrito ortegiiiano, “Apuntes sobre el pensamiento: su teurgia y su de-

miiirgia”, é um dos textos mais importantes de sua filosofia, por isso quero recordar, aqui, alguns parágrafos essenciais: “Toda filosofia deliberada e

expressa se move no âmbito de uma pré-filosofia ou cori-

vicção que fica muda de pui‘o ser, para o próprio indivíduo,

“a realidade mesma”. Só depois de elucidar essa pré-filosofia, isto é, essa crença radical e irracional, resultam claras as limitações das filosofias for muladas”.

“Entendo por filosofia ingê nua ou injustificada toda aque la que deixa fora de seu cam po doutrinário os motivos que levam a ela, isto é, que não considera como porção consti tutiva

da

filosofia

mesma

tu

do 0 que induziu o homem a essa criação filosófica. Vere

mos, neste estudo, como a fi losofia costuma começar de

modo brusco, sendo uma série de teses sobre a realidade

sobre os princípios da

ou

verda

de, sem que se saiba, filosofi camente, por que há que

se

enunciar teses sobre a realida

de ou a verdade. E mais adian

te: “Quando a preocupação, como no caso da filosofia, pre tende ocupar-se do universo e não deixar de fora nada essen

cial, a justificação não tem outro espaço onde alojar-se organizadamente a não ser no próprio corpo da doutrina filo

sófica, como um de seus mem bros constitutivos. A justifica-


82

DIGESTO

dentro da área do Império Rom.ano, em um mundo distante daquele das cidades em que foi

ca palavra: Vorausset-zungslosigkeit, ou a ausência de supos tos. Sim e não, teríamos de di

gerada, séculos antes, a filoso

zer:

fia grega. A partir de uma pers pectiva filosófica, se se consi dera a duração total do Impé rio Romano, incluindo-se o pe ríodo helênico, o cristianismo tem pouco a fazer. Em outras palavras, é muito reduzido e secundário o lugar que o cris tianismo ocupa dentro da filo

fia que parta do zero. A filo

sofia da Grécia e, ainda, de Ro ma em toda sua história.

Tra

ta-se de outra coisa, que se costuma passar por alto, mas que é inesperadamente interes

»

ECONÔMICO

sante.

A filosofia não parte do ze ro. Nunca. Nem sequer no seu começo pré-socrático. Pelo con trário, a filosofia parte de saberes, às vezes inumeráveis saberes, de supostos prévios nos quais se está, e é justamente sobre eles que surge e se apre senta o problema da filosofia,

não há nunca uma filoso

sofia parte de um repertório

de crenças, de idéias, de saberes. Mas é certo, também, que a filosofia não tem supos tos no sentido de que esses su postos, dos quais parte, não são

filosoficamente

válidos.

Isto é, a filosofia parte, em ca da caso, de crenças, idéias, vi gências sociais, de todo um re pertório de realidades prévias a cada filosofia (ou, no caso original da Grécia, prévias à filosofia, sem mais), mas tudo isso não é parte do conteúdo da

filosofia, e esta, por conseguin te, deve buscar sua evidência e justificação por si mesma. Nesse sentido, portanto, esses supostos que uma tradição re cente tentava eliminar e que não são elimináveis não atuam

várias — em uma situação de

como parte integrante da filo sofia, mas é sobre eles que a filosofia deve operar, para jus

terminada.

tificá-los e transformá-los

se constrói uma'filosofia — ou

em

idéia, tão arraigada, de que a

filosofia, para que então, e so mente então, possam ser par

filosofia é uma ciência que não tem supostos, como o expres sava, em alemão, a quilométri-

ções habituais

Isto parece

contradizer

a

te dela.

Como se vê, as duas posisão

eiTÔneas:

DIGESTO ECONÔMICO

83

OU se acredita poder partir

do

zero, ou que os supostos

são

parte integrante da filosofia. Ambas as atitudes têm razão, entretanto, se entendidas reta mente. Nunca se parte de ze ro, sempre existe um subsolo de crenças e idéias prévias à filosofia. Mas não funcionam como filosofia nem. a rigor.

penetram nela, até que a filo sofia lhes dê razão e as incor pore.

Neste sentido podemos falar de pré-filosofia, sem a qual a filosofia é ininteligível, mas que ainda não é filosofia. Creio que

0 primeiro a levantar a sério este problema e colocá-lo no seu justo lugar foi Ortega, num escrito de 1941, que apareceu pela primeira vez no número 1 da revista “Logos” da Uni

versidade de Buenos Aires,

e

que comentei longamente em “Ortega y la idea de la razón vital”, 1948. Esse escrito ortegiiiano, “Apuntes sobre el pensamiento: su teurgia y su de-

miiirgia”, é um dos textos mais importantes de sua filosofia, por isso quero recordar, aqui, alguns parágrafos essenciais: “Toda filosofia deliberada e

expressa se move no âmbito de uma pré-filosofia ou cori-

vicção que fica muda de pui‘o ser, para o próprio indivíduo,

“a realidade mesma”. Só depois de elucidar essa pré-filosofia, isto é, essa crença radical e irracional, resultam claras as limitações das filosofias for muladas”.

“Entendo por filosofia ingê nua ou injustificada toda aque la que deixa fora de seu cam po doutrinário os motivos que levam a ela, isto é, que não considera como porção consti tutiva

da

filosofia

mesma

tu

do 0 que induziu o homem a essa criação filosófica. Vere

mos, neste estudo, como a fi losofia costuma começar de

modo brusco, sendo uma série de teses sobre a realidade

sobre os princípios da

ou

verda

de, sem que se saiba, filosofi camente, por que há que

se

enunciar teses sobre a realida

de ou a verdade. E mais adian

te: “Quando a preocupação, como no caso da filosofia, pre tende ocupar-se do universo e não deixar de fora nada essen

cial, a justificação não tem outro espaço onde alojar-se organizadamente a não ser no próprio corpo da doutrina filo

sófica, como um de seus mem bros constitutivos. A justifica-


I

DIGESTO

84

ECONÔMICO

cão que reclamo só existii’á quando dela se derivem, como de um princípio, as idéias que

Podemos dizer que o cristianis mo forma parte da situação do

constituem o próprio sistema filosófico. Ou, dito por sua vez em forma de tese: “A justifica ção da filosofia é seu primeiro princípio. Tudo o que induz o homem a filosofar forma parte doutrinariamente da própria

filosofar, se é que filosofa. Não se trata, pois, de uma filosofia que seja cristã, que emane ou proceda do cristianismo. Não se pode derivar uma filosofia do cristianismo, de modo al gum, Acontece que o cristão ao contrário de quem não o é, se encontra numa situação de

teoria filosófica”.

Em resumo a pré-filosofia condiciona a filosofia, mas não é filosofia até que esta reopere sobre ela, a transforme e eleve ao nível filosófico, lhe

dê razão. Ao contrário,

qual

quer filosofia que deixe de la do sua “pré-filosofia” não terá

radicalidade e, portanto,

não

será filosofia no sentido pleno da palavra.

Creio ser esta a perspectiva adequada para colocar o pro blema

do

cristianismo

dentro

da filosofia antiga. O primeiro que devemos lembrar é que o cristianismo não é uma filoso

fia, nem sequer uma ideologia, é uma religião. Mas uma reli gião que traz dentro de si uma visão da realidade, uma inter pretação da realidade, uma ma neira de entendê-la e, ainda

mais, de sentir-se dentro

dela.

cristão, a partir da qual pode

terminada, diferente ds outras. Esta situação

pessoa!, indivi'

dual ou histórica e social está

condicionada por essa dimen são que é 0 cristianismo. Se esse cristão faz filosofia, a faz, é claro, condicionado por essa situação. Por isso, há muitos anos disse que o único signifi cado aceitável para a tão usa da expressão “filosofia cristã” é este: “A filosofia do cristão enquanto tal”.

ressam-lhe alguns

soal íntegra, está condicionado pelo fato de ser cristão — co mo em outra dimensão está condicionado por ser o homem

do século IV, Xni ou do XX. Então, o cristão vê certas coi sas

que

o

outro

não vê. Inte-

temas que

para outros não são relevantes. Pensa olhar em certas direções que não ocorrem aos que não são cristãos. E tudo isso con diciona sua perspectiva, a cons

titui, junto com outros elemen tos de origem diversa. Mas es sa filosofia que o cristão faz há de ser uma filosofia que não é mantida pelo cristianis mo, condicionada por ele so mente como princípio heurísti co que leva a olhar enr certa direção, a descobrir temas ou traços da realidade que somen te aparecem nesta perspectiva; não em seu conteúdo ou justi ficação intelectual. Nesse sen tido pode-se perguntar o que

significa a aparição do cristia nismo dentro do mundo antigo,

grego e romano, e como afeta 0 pensamento filosófico. NÃO EXISTE UMA FILOSOFIA

Quando alguém, que é cris tão, filosofa enquanto tal, pon do em jogo sua realidade pes

85

DIGESTO ECONÔMICO

QUE PARTA DO ZERO Devemos levar

em conta

Lim ponto capital para não con fundir as coisas: o cristianis-

especialmente na medida em que é um condicionamento mo,

da situação uma

geral e significa

forma de

visão da reali-

dade, não pode isoiar-se do ju-

daísmo.

0 cristianismo, desde

0 ponto de vista intrínseco, sig nifica 0 cumprimento, a plena realização do judaísmo. Cris to representa o pléroma, a ple nitude dos tempos, o cumpri mento das profecias, O cristia nismo

tem seu livro religioso

próprio, 0 Novo Testamento, mas parte, é claro, do Antigo, conta com ele, nunca renun ciou a ele. O fato de que na

prática da vida religiosa e in clusive em

grande parte da

teologia se tenha preterido o Antigo Testamento não quer

dizer que isto seja

aceitável

deva ser feito. O cristianismo vem, há algum tempo,

nem

retificando a omissão de dei xar na sombra os antecedentes veterotestamentários. É, pois, no judaísmo que se encontram os elementos que condicionam a visão de realidade e que fo ram um fator de transforma-

ção da filosofia. Tendo isto presente, chega 0 momento de perguntar o que 0 cristianismo significa de pró

prio, exclusivo, diferencial, dentro da tradição judaica, por que a aparição do cristianismo representa outra forma de ino vação?


I

DIGESTO

84

ECONÔMICO

cão que reclamo só existii’á quando dela se derivem, como de um princípio, as idéias que

Podemos dizer que o cristianis mo forma parte da situação do

constituem o próprio sistema filosófico. Ou, dito por sua vez em forma de tese: “A justifica ção da filosofia é seu primeiro princípio. Tudo o que induz o homem a filosofar forma parte doutrinariamente da própria

filosofar, se é que filosofa. Não se trata, pois, de uma filosofia que seja cristã, que emane ou proceda do cristianismo. Não se pode derivar uma filosofia do cristianismo, de modo al gum, Acontece que o cristão ao contrário de quem não o é, se encontra numa situação de

teoria filosófica”.

Em resumo a pré-filosofia condiciona a filosofia, mas não é filosofia até que esta reopere sobre ela, a transforme e eleve ao nível filosófico, lhe

dê razão. Ao contrário,

qual

quer filosofia que deixe de la do sua “pré-filosofia” não terá

radicalidade e, portanto,

não

será filosofia no sentido pleno da palavra.

Creio ser esta a perspectiva adequada para colocar o pro blema

do

cristianismo

dentro

da filosofia antiga. O primeiro que devemos lembrar é que o cristianismo não é uma filoso

fia, nem sequer uma ideologia, é uma religião. Mas uma reli gião que traz dentro de si uma visão da realidade, uma inter pretação da realidade, uma ma neira de entendê-la e, ainda

mais, de sentir-se dentro

dela.

cristão, a partir da qual pode

terminada, diferente ds outras. Esta situação

pessoa!, indivi'

dual ou histórica e social está

condicionada por essa dimen são que é 0 cristianismo. Se esse cristão faz filosofia, a faz, é claro, condicionado por essa situação. Por isso, há muitos anos disse que o único signifi cado aceitável para a tão usa da expressão “filosofia cristã” é este: “A filosofia do cristão enquanto tal”.

ressam-lhe alguns

soal íntegra, está condicionado pelo fato de ser cristão — co mo em outra dimensão está condicionado por ser o homem

do século IV, Xni ou do XX. Então, o cristão vê certas coi sas

que

o

outro

não vê. Inte-

temas que

para outros não são relevantes. Pensa olhar em certas direções que não ocorrem aos que não são cristãos. E tudo isso con diciona sua perspectiva, a cons

titui, junto com outros elemen tos de origem diversa. Mas es sa filosofia que o cristão faz há de ser uma filosofia que não é mantida pelo cristianis mo, condicionada por ele so mente como princípio heurísti co que leva a olhar enr certa direção, a descobrir temas ou traços da realidade que somen te aparecem nesta perspectiva; não em seu conteúdo ou justi ficação intelectual. Nesse sen tido pode-se perguntar o que

significa a aparição do cristia nismo dentro do mundo antigo,

grego e romano, e como afeta 0 pensamento filosófico. NÃO EXISTE UMA FILOSOFIA

Quando alguém, que é cris tão, filosofa enquanto tal, pon do em jogo sua realidade pes

85

DIGESTO ECONÔMICO

QUE PARTA DO ZERO Devemos levar

em conta

Lim ponto capital para não con fundir as coisas: o cristianis-

especialmente na medida em que é um condicionamento mo,

da situação uma

geral e significa

forma de

visão da reali-

dade, não pode isoiar-se do ju-

daísmo.

0 cristianismo, desde

0 ponto de vista intrínseco, sig nifica 0 cumprimento, a plena realização do judaísmo. Cris to representa o pléroma, a ple nitude dos tempos, o cumpri mento das profecias, O cristia nismo

tem seu livro religioso

próprio, 0 Novo Testamento, mas parte, é claro, do Antigo, conta com ele, nunca renun ciou a ele. O fato de que na

prática da vida religiosa e in clusive em

grande parte da

teologia se tenha preterido o Antigo Testamento não quer

dizer que isto seja

aceitável

deva ser feito. O cristianismo vem, há algum tempo,

nem

retificando a omissão de dei xar na sombra os antecedentes veterotestamentários. É, pois, no judaísmo que se encontram os elementos que condicionam a visão de realidade e que fo ram um fator de transforma-

ção da filosofia. Tendo isto presente, chega 0 momento de perguntar o que 0 cristianismo significa de pró

prio, exclusivo, diferencial, dentro da tradição judaica, por que a aparição do cristianismo representa outra forma de ino vação?


I

86

DIGESTO

Lembro uma figura filosó fica muito importante, mais do que se costuma pensar: Filon de Alexandria. Deste ponto de vista, temos duas figuras par ticularmente

interessantes

pensamento grego:

lon, a outra

ECONÔMICO

mente, significa a criação do nada (creaíio ex nihilo). Inte ressante é notar que essa ex pressão

(como

observei

em

“Antropologia Metafísica”) não

no

aparece por primeira vez num

uma é Fi

texto filosófico, nem teológico,

é Plotino. Filon,

nem sequer teórico, mas na bo

do século I, Plotino, do século III, têm uma evidente ligação com 0 mundo do judaísmo e do

ca da mãe dos Macabeus (Macabeus, II, 7,28) quando seus filhos vão ser supliciades. Isto

cristianismo. Filon era judeu, Plotino, grego, mas seu mestre

é, num texto puramente religio

Amonio Sacas era cristão, e,

prirnariamente à idéia de cria ção.

certamente, por

esse caminho

encontramos elementos cristãos

no

neoplatonismo,

que

tanto

haveria de influir no pensa mento cristão ao longo da Ida

so, que é 0 que

corresponde

Criação do nada, isto é, não dc Deus, nem de uma matéria preexistente que seria elabora

de Média.

da por Deus: ex nlhüo sui ef subjecíl — do nada de si mes

O pensamento filosófico condicionado pelo cristianismo difere do pensamento helênico em um ponto radical — o da

mo (Deus) e de um sujeito ou substrato. Não que Deus “fa

noção de criação. Esta noção é inteiramente alheia ao pen samento grego; para o homem helênico, a realidade está aí. Talvez os deuses fizeram o

mundo, mas o

fizeram, sim

plesmente: ordenaram, elabo¬ raram, dirigii’am, moveram, como faz o imóvel

Deus aris-

totélico. A idéia de criação, quando formulada conceptual-

brique”, como 0 operário

que

faz uma mesa com a madeira.

Nem que a mesma realidade de Deus seja a do mundo. Esta será precisamente a interpre tação de Plotino que, por in fluência cristã, está em situa ção de pensar o mundo “pro duzido”, para o qual concorre 0 conceito de emanação: o mun do é uma emanação da reali dade

divina:

a realidade do

Uno se expande, em formas de-

DIGESTO ECONÔMICO

87

crescentes, até o mais ínfimo grau que é a matéria. Plotino

vale-se de diversas metáforas, entre elas a da luz que se vai degradando e atenuando, desde 0 foco original, em sua luta com as trevas, até que se extingue. O conceito de emanação é um esforço para pensar helenicamente algo tão contrário ao pensamento grego, como a no

Phüo, em dois volumes, admi rável estudo de seu pensamen to Wolfson chega ao extremo de considerar Filon como o ar-

tipo do que será a filosofia medieval. Traça um' esquema do que chama de “filósofo sin tético”, aquele capaz de redu c.u

zir

a totalidade dos temas no

vos, das inovações da filosofia

medieval sobre a grega, e faz uma espécie dc “retrato-robô”

ção de criação. de

que corresponde exatamente à

maneira mais dketa e explícita em Filon, que, em seu livro De Gpificío mundi, parte da idéia

Filon é 0 iniciador dessa novi dade füosóiica que se mantém

Esta idéia se encontra

de criação recebida do Gêne se e a introduz no esquema do pensamento helênico. A inter pretação das Escrituras nas mãos de Filon é alegórica, por que tenta ater-se a um reper tório de conceitos estritamente helênicos e fazer uma filosofia

grega, introduzindo nela os ele mentos da revelação, que para ele têm muita importância co mo fonte de saber que se arti cula com 0 pensamento racio nal.

A importância de Filon é maior do que se pensa. Mas não tanto como pensam alguns estudiosos como Harry Austryn Wolfson, autor do esplêndido

figura de Filon. Para Wolfson,

até 0 século XVII, e, para ele,

é precisamente Spinoza, outro judeu, quem enfrenta a fundo essa concepção de Filon e en cerra esse longuíssimo período, do século I ao XVII. Creio que isto é um exagero que leva lon ge demais a afkmação da no vidade e influência de Filon de Alexandria.

Em última análise, considerando-se o tratamento dado ao

tema da criação na obra de Fi

lon, nota-se que, no fundo, ele permanece muito próximo dos modos d.e produção do mundo no pensamento grego. Poderiamos dizer que o apresenta de ma

neira técnica, como uma

das


I

86

DIGESTO

Lembro uma figura filosó fica muito importante, mais do que se costuma pensar: Filon de Alexandria. Deste ponto de vista, temos duas figuras par ticularmente

interessantes

pensamento grego:

lon, a outra

ECONÔMICO

mente, significa a criação do nada (creaíio ex nihilo). Inte ressante é notar que essa ex pressão

(como

observei

em

“Antropologia Metafísica”) não

no

aparece por primeira vez num

uma é Fi

texto filosófico, nem teológico,

é Plotino. Filon,

nem sequer teórico, mas na bo

do século I, Plotino, do século III, têm uma evidente ligação com 0 mundo do judaísmo e do

ca da mãe dos Macabeus (Macabeus, II, 7,28) quando seus filhos vão ser supliciades. Isto

cristianismo. Filon era judeu, Plotino, grego, mas seu mestre

é, num texto puramente religio

Amonio Sacas era cristão, e,

prirnariamente à idéia de cria ção.

certamente, por

esse caminho

encontramos elementos cristãos

no

neoplatonismo,

que

tanto

haveria de influir no pensa mento cristão ao longo da Ida

so, que é 0 que

corresponde

Criação do nada, isto é, não dc Deus, nem de uma matéria preexistente que seria elabora

de Média.

da por Deus: ex nlhüo sui ef subjecíl — do nada de si mes

O pensamento filosófico condicionado pelo cristianismo difere do pensamento helênico em um ponto radical — o da

mo (Deus) e de um sujeito ou substrato. Não que Deus “fa

noção de criação. Esta noção é inteiramente alheia ao pen samento grego; para o homem helênico, a realidade está aí. Talvez os deuses fizeram o

mundo, mas o

fizeram, sim

plesmente: ordenaram, elabo¬ raram, dirigii’am, moveram, como faz o imóvel

Deus aris-

totélico. A idéia de criação, quando formulada conceptual-

brique”, como 0 operário

que

faz uma mesa com a madeira.

Nem que a mesma realidade de Deus seja a do mundo. Esta será precisamente a interpre tação de Plotino que, por in fluência cristã, está em situa ção de pensar o mundo “pro duzido”, para o qual concorre 0 conceito de emanação: o mun do é uma emanação da reali dade

divina:

a realidade do

Uno se expande, em formas de-

DIGESTO ECONÔMICO

87

crescentes, até o mais ínfimo grau que é a matéria. Plotino

vale-se de diversas metáforas, entre elas a da luz que se vai degradando e atenuando, desde 0 foco original, em sua luta com as trevas, até que se extingue. O conceito de emanação é um esforço para pensar helenicamente algo tão contrário ao pensamento grego, como a no

Phüo, em dois volumes, admi rável estudo de seu pensamen to Wolfson chega ao extremo de considerar Filon como o ar-

tipo do que será a filosofia medieval. Traça um' esquema do que chama de “filósofo sin tético”, aquele capaz de redu c.u

zir

a totalidade dos temas no

vos, das inovações da filosofia

medieval sobre a grega, e faz uma espécie dc “retrato-robô”

ção de criação. de

que corresponde exatamente à

maneira mais dketa e explícita em Filon, que, em seu livro De Gpificío mundi, parte da idéia

Filon é 0 iniciador dessa novi dade füosóiica que se mantém

Esta idéia se encontra

de criação recebida do Gêne se e a introduz no esquema do pensamento helênico. A inter pretação das Escrituras nas mãos de Filon é alegórica, por que tenta ater-se a um reper tório de conceitos estritamente helênicos e fazer uma filosofia

grega, introduzindo nela os ele mentos da revelação, que para ele têm muita importância co mo fonte de saber que se arti cula com 0 pensamento racio nal.

A importância de Filon é maior do que se pensa. Mas não tanto como pensam alguns estudiosos como Harry Austryn Wolfson, autor do esplêndido

figura de Filon. Para Wolfson,

até 0 século XVII, e, para ele,

é precisamente Spinoza, outro judeu, quem enfrenta a fundo essa concepção de Filon e en cerra esse longuíssimo período, do século I ao XVII. Creio que isto é um exagero que leva lon ge demais a afkmação da no vidade e influência de Filon de Alexandria.

Em última análise, considerando-se o tratamento dado ao

tema da criação na obra de Fi

lon, nota-se que, no fundo, ele permanece muito próximo dos modos d.e produção do mundo no pensamento grego. Poderiamos dizer que o apresenta de ma

neira técnica, como uma

das


>

DIGESTO

88

ECONÔMICO

O mundo

narra sua aparição e desaparição; outra a poesia lírica, que

é um mundo produzido ou não,

considera a melancolia das coi

ordenado ou movido, é um mun

sas que passam e deixam de ser; e a terceira é precisamen te a filosofia, que trata de en

modalidades

para explicar

realidade do mundo.

a

do que existe desde sempre ou não, que vai acabar ou não. Há um jogo de posições entre o platonismo, o aristotelismo, o

estoicismo. E, como uma posi ção a mais, que aproveita o conceito de criação revelado no Gênesis, aparece o pensa mento de Filon. Mas a situação

tender es.3a genesis kai phthorá

(geração e corrupção, como diz Aristóteles), esse chegar a ser

e deixar de ser, o que se cha ma em

grego kinesls

("movi

mento” num sentido muito mais

nada e a criação não tem, pa

amplo que o nosso). As coisas são primeiro uma coisa e de pois outra. São pequenas e

ra ele, o relevo que poderia ter

crescem

tido e teve mais tarde- Aparece como um procedimento técnico

brancas

não está inteiramente condicio

de derivação do mundo, mais nada. Talvez porque não chega a pensar suficientemente na no

ção do nada. É o que fará pensamento mas em

o

cristão posterior,

conexão

idéias que não logo.

com

outras

aparecem

tão

Esta é a questão: o pensa mento grego se mobiliza ante a caducidade das coisas. É seu ponto de partida e seu motor. As coisas nascem e perecem, chegam a ser e deixam de ser, passam- Frente a essa caduci

dade das coisas, cabem três atitud-es: uma é a história, que

ou

diminuem.

e se tornam

São

negras.

São quentes e logo frias. Ou. simplesmente, passam daqui para acolá, movem-se, em sen tido moderno- Ou, finalmente, são e um dia deixam de ser, são geradas e depois perecem: o movimento substancial, para

Aristóteles, o mais importante de todos.

Assim,

a

realidade

está

ameaçada pela variação, a mu

dança, 0 movim-ento, o klnesis. E a filosofia pergunta: que são na verdade estas coisas

que

mudam, que não são sempre a mesma coisa, que não são per manentsmente? O que é aquilo que sempre é? O pensamento

89

DIGESTO ECONÔMICO

grego busca o sempre, o que sempre é. O movimento é o que mina o ser, o que faz com que não

seja

um ser verdadeiro

que seria o ser permanente. Isto é perfeitamente claro

no pitagorismo, quando se dss cobre essa

estranha realidade

que são os objetos matemáti cos. Um cavalo, uma árvore ou uma pedra nascem e perecem,

não são duradouros, e não fale mos do homem- As gerações se sucedem como as folhas das árvores, diz Homero. Mas o

i3im

merecería

chamar-se

rea

lidade. É 0 que busca Parmênidc*s, 0 que se chama eón, ón. 0 ón de Parmênides é uma bo

la, e é sempre presente, tò aeí ón, 0 que sempre é. Todo o pen samento grego busca a realida de que sempre é: elementos, idéias platônicaG, essência aristotélica.

A filosofia grega só se en tende a partir da am-eaça do

movimento, da mudança

que

afeta a realidade das coisas que

são. Dessa situação pré-filosó-

fica, deissa impressão da cadu cidade, nasce- o pensamento esfera não são coisas, não são verdadeiras coisas separadas grego, que é uma busca do que é permanente, daquilo que ver (khoristá, dirá Aristóteles), mas dadeiramente é (tò óntos ón,

número três, o triângulo ou

.0

são sempre. Não se destrosm, não pasisam. O três é sempre o

três, o triângulo não deixa de ser triângulo, o cone é sempre um cone e a pirâmide não alte ra seu ser. O tempo nada pode contra el-es. Nesse sentido, tem uma forma superior de realida de; mas no último imstante essa realidade imperecível não che

ga a ser verdadeiramente rea lidade- Se houvesse algo que fosse verdadeira realidade se

parável, uma coisa, e ao m-s mo tempo fosse como o núme

ro, 0 triângulo, o poliedro, isto

na frase platônica)-

No cristianismo, tudo muda. O conceito de criação, se o en tendemos rigorosamente, não é uma maneira de produção do mundo. Se lemos o começo do Gên-s-sis: "No princípio criou Deus 0 céu e a terra” —

isto

papece, à primeira vista, uma teogonia, ou melhor, uma cos mogonia a mais: como se faz o mundo, se ordena e aparece. Mas no cristianismo há algo mais — ei3sa estranha idéia do nada. Não existe palavra grega


>

DIGESTO

88

ECONÔMICO

O mundo

narra sua aparição e desaparição; outra a poesia lírica, que

é um mundo produzido ou não,

considera a melancolia das coi

ordenado ou movido, é um mun

sas que passam e deixam de ser; e a terceira é precisamen te a filosofia, que trata de en

modalidades

para explicar

realidade do mundo.

a

do que existe desde sempre ou não, que vai acabar ou não. Há um jogo de posições entre o platonismo, o aristotelismo, o

estoicismo. E, como uma posi ção a mais, que aproveita o conceito de criação revelado no Gênesis, aparece o pensa mento de Filon. Mas a situação

tender es.3a genesis kai phthorá

(geração e corrupção, como diz Aristóteles), esse chegar a ser

e deixar de ser, o que se cha ma em

grego kinesls

("movi

mento” num sentido muito mais

nada e a criação não tem, pa

amplo que o nosso). As coisas são primeiro uma coisa e de pois outra. São pequenas e

ra ele, o relevo que poderia ter

crescem

tido e teve mais tarde- Aparece como um procedimento técnico

brancas

não está inteiramente condicio

de derivação do mundo, mais nada. Talvez porque não chega a pensar suficientemente na no

ção do nada. É o que fará pensamento mas em

o

cristão posterior,

conexão

idéias que não logo.

com

outras

aparecem

tão

Esta é a questão: o pensa mento grego se mobiliza ante a caducidade das coisas. É seu ponto de partida e seu motor. As coisas nascem e perecem, chegam a ser e deixam de ser, passam- Frente a essa caduci

dade das coisas, cabem três atitud-es: uma é a história, que

ou

diminuem.

e se tornam

São

negras.

São quentes e logo frias. Ou. simplesmente, passam daqui para acolá, movem-se, em sen tido moderno- Ou, finalmente, são e um dia deixam de ser, são geradas e depois perecem: o movimento substancial, para

Aristóteles, o mais importante de todos.

Assim,

a

realidade

está

ameaçada pela variação, a mu

dança, 0 movim-ento, o klnesis. E a filosofia pergunta: que são na verdade estas coisas

que

mudam, que não são sempre a mesma coisa, que não são per manentsmente? O que é aquilo que sempre é? O pensamento

89

DIGESTO ECONÔMICO

grego busca o sempre, o que sempre é. O movimento é o que mina o ser, o que faz com que não

seja

um ser verdadeiro

que seria o ser permanente. Isto é perfeitamente claro

no pitagorismo, quando se dss cobre essa

estranha realidade

que são os objetos matemáti cos. Um cavalo, uma árvore ou uma pedra nascem e perecem,

não são duradouros, e não fale mos do homem- As gerações se sucedem como as folhas das árvores, diz Homero. Mas o

i3im

merecería

chamar-se

rea

lidade. É 0 que busca Parmênidc*s, 0 que se chama eón, ón. 0 ón de Parmênides é uma bo

la, e é sempre presente, tò aeí ón, 0 que sempre é. Todo o pen samento grego busca a realida de que sempre é: elementos, idéias platônicaG, essência aristotélica.

A filosofia grega só se en tende a partir da am-eaça do

movimento, da mudança

que

afeta a realidade das coisas que

são. Dessa situação pré-filosó-

fica, deissa impressão da cadu cidade, nasce- o pensamento esfera não são coisas, não são verdadeiras coisas separadas grego, que é uma busca do que é permanente, daquilo que ver (khoristá, dirá Aristóteles), mas dadeiramente é (tò óntos ón,

número três, o triângulo ou

.0

são sempre. Não se destrosm, não pasisam. O três é sempre o

três, o triângulo não deixa de ser triângulo, o cone é sempre um cone e a pirâmide não alte ra seu ser. O tempo nada pode contra el-es. Nesse sentido, tem uma forma superior de realida de; mas no último imstante essa realidade imperecível não che

ga a ser verdadeiramente rea lidade- Se houvesse algo que fosse verdadeira realidade se

parável, uma coisa, e ao m-s mo tempo fosse como o núme

ro, 0 triângulo, o poliedro, isto

na frase platônica)-

No cristianismo, tudo muda. O conceito de criação, se o en tendemos rigorosamente, não é uma maneira de produção do mundo. Se lemos o começo do Gên-s-sis: "No princípio criou Deus 0 céu e a terra” —

isto

papece, à primeira vista, uma teogonia, ou melhor, uma cos mogonia a mais: como se faz o mundo, se ordena e aparece. Mas no cristianismo há algo mais — ei3sa estranha idéia do nada. Não existe palavra grega


90

DIGESTO

para dizer

nada; diz-se

não-

ser (em forma mais fraca, mè ón, em forma mais forte, ouk ón). Mas no fundo trata-se dc não ser isto, não ser aquilo- O nada é algo maiis grave. A ne

gação de toda realidade, uma idéia que produz vertigem no grego. Que é isso de não haver

nada? A pergunta radical para 0 cristão seria — por que há algo em vez de não haver na da? As coisas não estão amea

çadas, não pelo “não ser”, mas pelo nada. Poderia não haver

nada. As coBas parecem sus pensas sobre o nada, sobre esse estranho mar do nada.

I

De onde vem isto? Não da

filosofia- É um conceito origi

ECONÔMICO

de criação? Isto é, para pensar filosoficamente? Uma coisa é sentir a "nihilidade” do real e

outra pensá-la a partir de pres supostos filosóficos. Compare mos a situação daquele que pensa que os deuses podem ma

nipular as homens, ainda que se trate de um Deus “primeiro

motor imóvel”, como o de Aris tóteles, com a daquele que se sente inteiramente nas mãos de

Deus, no sentido de que minha realidade, e

toda a realidade,

depende dele, e ao mesmo tem po não é emanação sua, não .se trata de sua realidade. É uma realidade distinta da de Deus, mas posta por ele na existência. Esta é a idéia radical da cria

nalmente religioso. A realidade está ameaçada pela "nihilida-

ção, que percorre longo cami nho até ser formulada e chegar

de” e não pela variação. Mas isto que dizer que está sustenta

a se converter em filosofia.

da por Deus. A radicalidade da situação pré-filosófica é incom paravelmente maior.

CRISTIANISMO

NÃO É UMA

Encontramos isto em Filon?

É duvidoso. Utiliza o conceito da criação que foi buscar nas

Creio que o cristianismo, desde o começo, vive esta idéia

Escrituras,

no Antigo Testamento; mas é suficiente? Não seriam necessários outros con-

da criação. Que a traduza

csitos complementares para poder pensar seriamente na idéia

uma multidão de experiências, e, sobretudo, uma superação

filosóficos

Precisará

dos conceitos de que se servem

p:ito do mundo, de Deus e de

os cristãos durante muito tem

si mesmo, que é judaica origi

po. É fato decisivo que as co munidades judaicas usem n gi‘ego em grande proporção. Por exemplo, a versão grega dos Setenta, que se lê na

em

é

outra

passar

por

nalmente

e cristã

desde

sua

conversão.

sem sido compostos, de início, em aramaico, não existe ne-

cliaque deverá percorrer um longo ca minho para tornar-se filosofia. S 0 que não se encontra ainda em Filon, a meu ver. Nele en contramos a idéia de criação, é claro, mas como uma espé cie de empréstimo de um con ceito procedente da revelação e que no fim seria reconciliâvel com a razão, com o pensa

nluim

neotestamentário

mento racional, posto que am

que não seja grego. Por conse guinte, para um conteúdo re ligioso, alheio à filosofia, .se

de origem divina, e portanto se

Biblia; é a que usa Filon, es critor grego, cuja obra está re

digida nessa

língua. E, espe

cialmente, os textos crist-ão-; originais, o Novo Testamento na íntegra, são gregos. AincUi que alguns dos escritos tives

texto

usam conceitos gregos, muitos dos quais

têm um significado

helêiiica.

Assim,

IDEOLOGIA

conceitos

91

(ou vários) dentro da filosofia

FILOSOFIA, NEM UMA

coisa-

DIGESTO ECONÔMICO

0

cristianismo

foi

pensado, pela primeira com conceitos gregos. E

vez, não

falemos da primeira teologia propriamente dita, que é a de .São Paulo, judeu helenizado que utiliza conceitos gregos para pensar certas vivências religio sas, uma maneira de se sentir

na realidade do munde, a res-

Isto é o que se pode mar de “pré-filosofia” e

bas, razão e revelação,

são

supõe que não haverá conflito, a menos que haja erros. Mas não deixa de ser um empréstimo que o Antigo Testamento faz à filosofia para elaborar

um. esquema conceptual de pro dução do mundo; isto é, a cria ção, o opificium mundf, segun do a tradução latina do título do livro de Filon.

Em Plotino, não há criação mas uma espécie de compro misso entre o pensamento he-

lênico e a revelação cristã pa ra pensar a produção do mun

do por Deus, sem criação, eli-


90

DIGESTO

para dizer

nada; diz-se

não-

ser (em forma mais fraca, mè ón, em forma mais forte, ouk ón). Mas no fundo trata-se dc não ser isto, não ser aquilo- O nada é algo maiis grave. A ne

gação de toda realidade, uma idéia que produz vertigem no grego. Que é isso de não haver

nada? A pergunta radical para 0 cristão seria — por que há algo em vez de não haver na da? As coisas não estão amea

çadas, não pelo “não ser”, mas pelo nada. Poderia não haver

nada. As coBas parecem sus pensas sobre o nada, sobre esse estranho mar do nada.

I

De onde vem isto? Não da

filosofia- É um conceito origi

ECONÔMICO

de criação? Isto é, para pensar filosoficamente? Uma coisa é sentir a "nihilidade” do real e

outra pensá-la a partir de pres supostos filosóficos. Compare mos a situação daquele que pensa que os deuses podem ma

nipular as homens, ainda que se trate de um Deus “primeiro

motor imóvel”, como o de Aris tóteles, com a daquele que se sente inteiramente nas mãos de

Deus, no sentido de que minha realidade, e

toda a realidade,

depende dele, e ao mesmo tem po não é emanação sua, não .se trata de sua realidade. É uma realidade distinta da de Deus, mas posta por ele na existência. Esta é a idéia radical da cria

nalmente religioso. A realidade está ameaçada pela "nihilida-

ção, que percorre longo cami nho até ser formulada e chegar

de” e não pela variação. Mas isto que dizer que está sustenta

a se converter em filosofia.

da por Deus. A radicalidade da situação pré-filosófica é incom paravelmente maior.

CRISTIANISMO

NÃO É UMA

Encontramos isto em Filon?

É duvidoso. Utiliza o conceito da criação que foi buscar nas

Creio que o cristianismo, desde o começo, vive esta idéia

Escrituras,

no Antigo Testamento; mas é suficiente? Não seriam necessários outros con-

da criação. Que a traduza

csitos complementares para poder pensar seriamente na idéia

uma multidão de experiências, e, sobretudo, uma superação

filosóficos

Precisará

dos conceitos de que se servem

p:ito do mundo, de Deus e de

os cristãos durante muito tem

si mesmo, que é judaica origi

po. É fato decisivo que as co munidades judaicas usem n gi‘ego em grande proporção. Por exemplo, a versão grega dos Setenta, que se lê na

em

é

outra

passar

por

nalmente

e cristã

desde

sua

conversão.

sem sido compostos, de início, em aramaico, não existe ne-

cliaque deverá percorrer um longo ca minho para tornar-se filosofia. S 0 que não se encontra ainda em Filon, a meu ver. Nele en contramos a idéia de criação, é claro, mas como uma espé cie de empréstimo de um con ceito procedente da revelação e que no fim seria reconciliâvel com a razão, com o pensa

nluim

neotestamentário

mento racional, posto que am

que não seja grego. Por conse guinte, para um conteúdo re ligioso, alheio à filosofia, .se

de origem divina, e portanto se

Biblia; é a que usa Filon, es critor grego, cuja obra está re

digida nessa

língua. E, espe

cialmente, os textos crist-ão-; originais, o Novo Testamento na íntegra, são gregos. AincUi que alguns dos escritos tives

texto

usam conceitos gregos, muitos dos quais

têm um significado

helêiiica.

Assim,

IDEOLOGIA

conceitos

91

(ou vários) dentro da filosofia

FILOSOFIA, NEM UMA

coisa-

DIGESTO ECONÔMICO

0

cristianismo

foi

pensado, pela primeira com conceitos gregos. E

vez, não

falemos da primeira teologia propriamente dita, que é a de .São Paulo, judeu helenizado que utiliza conceitos gregos para pensar certas vivências religio sas, uma maneira de se sentir

na realidade do munde, a res-

Isto é o que se pode mar de “pré-filosofia” e

bas, razão e revelação,

são

supõe que não haverá conflito, a menos que haja erros. Mas não deixa de ser um empréstimo que o Antigo Testamento faz à filosofia para elaborar

um. esquema conceptual de pro dução do mundo; isto é, a cria ção, o opificium mundf, segun do a tradução latina do título do livro de Filon.

Em Plotino, não há criação mas uma espécie de compro misso entre o pensamento he-

lênico e a revelação cristã pa ra pensar a produção do mun

do por Deus, sem criação, eli-


I

DIGESTO ECONÚMICO

92

minando justamente a criação e

0

nada mediante a idéia

de

emanação. Importa ver isto cla ramente se se deseja entender

que função desempenha o cris tianismo dentro do pensamento antigo.

Até aqui não há nada que

seja propriamente filosofia den tro do cristianismo. Buscam-sc de maneira trabalhosa e peno sa conceitos já que os gregua não se prestam para expres sar a maneira de ver a reali dade e 0 sentir-se dentro dela

que traz o cristianismo. Nos Atos dos Apóstolos conta-se a atitude de incredulidade e mal-

estar provocada pela prédica de São Paulo a gregos e roma nos, quando chega aos pontos especificamente cristãos. Há

17-32). E quando São Paulo ex

plica ao rei Agripa e a Festo que "o Messias haveria de pa decer, e sendo o primeii”o na ressurreição dos mortos, have ria de anunciar a luz ao povo

e aos gentios, defendendo-se ele desse modo, disse Festc em voz alta. Estás louco, Paulo. As muitas letras sorveram teu juí(Atos, 26-23-24). “Defenden do-se ele”, diz o texto. Reflete-

zo

expressão o enorme coloesforço necessário para

se

nessa

car-se nesta nova atitude, para

participar desses supostos que chamamos “pré-filosof:a”. O

cristianismo

deve

propa

gar-se e a predicação se diri ge em grande parte a pessoas

de língua grega e formação he lênica. Para

atingi-las,

para

por

tornar o cristianismo inteligí

que não se trata de conhecer

vel, não há mais remédio que

uma

curiosa

resistência,

uma nova doutrina — os gre

gos e especialmente nienses sempre foram muito curiosos — mas de mudar um pressuposto. Para os helênicos, os

ate>

0 cristianismo é uma loucura,

um absurdo, não tem sentido. Era Atenas “quando ouviram falar da ressurreição dos mor

tos, uns começaram a rir, ou tros

disseram:

sobre isto

te

escutaremos

outra vez'

(Atos,

formular o conteúdo da revelaçao cristã em termos helênicos,

que vêm carregados

de uma

tradição filosófica alheia. Mais ainda, os ataques intelectuais

DIGESTO ECONÔMICO

93

bastante desprezados, de

po

três ingredientes nos quais ain

bres, de escravos, nada

ele

da vivemos. Este breve texto do Novo Testamento é a certi dão de nascimento dessa reali

gante. Mas há um momento ca pital que me comove profunda mente: quando São Paulo vai ser açoitado, invoca sua condi ção de cidadão romano Podem cortar-lhe a cabeça — o que fizeram mais tarde — mas não

açoitá-lo. E há um momento de alarme do tribuno, quando o centurião lhe diz que Paulo é cidadão romano. “És tu roma

no? E ele respondeu, sim. Acrescentou o tribuno: adqui ri esta cidadania por grande soma. Paulo replicou: pois eu a tenho por nascimento” (Atos, 22-27-28). Neste momento, São Paulo está fundando o Ociden

te. Esse judeu fariseu, helenizado, que fala e escreve o gre go, que utiliza os conceitos do pensamento helênico para ex pressar a nova fé cristã, que è cidadão romano e invoca o di

reito romano, está juntando, pela primeira vez, na história, três coisas: a religião judaico-

ao cristianismo: os pagãos tO' mam várias posições frente ao cristianismo. A primeira é ig

cristã, 0 pensamento filosófico grego e o direito romano, a

norá-lo: é uma religião de gen

reito, 0 Império, já que recla ma para ser levado ante Cé

te baixa, sem importância al guma. Uma religião de judeus

mais ou menos helenizados mas

idéia do mando segundo o di

sar. Neste momento aparece no mando a convergência desses

dade histórica que conhecemos sob 0 nome de Ocidente, e São Paulo é o seu fundador.

Depois de desprezar e igno rar os cristãos, começa-se a temê-los e a odiá-los, a decapi tá-los, crucificá-los ou jogá-los às feras. E chega o momento em que os pagãos começam a

prestar-lhes maior atenção, a considerá-los intelectualmente. De início se escandalizam: o

que dizem esses loucos? Tuao isso é falso — 0 que não deixa de ser uma maneira de come

çar a tomá-los a sério.

Suce-

dem-se uma série de ataques intelectuais contra o cristianismo.

Alguns puramente difama-

tórios,

caluniosos,

burlescos, mais mobiliza o

Outros, mais meditados, sérios. E nele

se

pensamento grego, com os su

postos e os recursos dialéticos da

cultura

grega

e romana,

contra essa nova religião sem

prestígio que é o cristianismo. É preciso, então, responder. Responder na mesma língua, com os mesmos conceitos. É aqui que começa a elaboração


I

DIGESTO ECONÚMICO

92

minando justamente a criação e

0

nada mediante a idéia

de

emanação. Importa ver isto cla ramente se se deseja entender

que função desempenha o cris tianismo dentro do pensamento antigo.

Até aqui não há nada que

seja propriamente filosofia den tro do cristianismo. Buscam-sc de maneira trabalhosa e peno sa conceitos já que os gregua não se prestam para expres sar a maneira de ver a reali dade e 0 sentir-se dentro dela

que traz o cristianismo. Nos Atos dos Apóstolos conta-se a atitude de incredulidade e mal-

estar provocada pela prédica de São Paulo a gregos e roma nos, quando chega aos pontos especificamente cristãos. Há

17-32). E quando São Paulo ex

plica ao rei Agripa e a Festo que "o Messias haveria de pa decer, e sendo o primeii”o na ressurreição dos mortos, have ria de anunciar a luz ao povo

e aos gentios, defendendo-se ele desse modo, disse Festc em voz alta. Estás louco, Paulo. As muitas letras sorveram teu juí(Atos, 26-23-24). “Defenden do-se ele”, diz o texto. Reflete-

zo

expressão o enorme coloesforço necessário para

se

nessa

car-se nesta nova atitude, para

participar desses supostos que chamamos “pré-filosof:a”. O

cristianismo

deve

propa

gar-se e a predicação se diri ge em grande parte a pessoas

de língua grega e formação he lênica. Para

atingi-las,

para

por

tornar o cristianismo inteligí

que não se trata de conhecer

vel, não há mais remédio que

uma

curiosa

resistência,

uma nova doutrina — os gre

gos e especialmente nienses sempre foram muito curiosos — mas de mudar um pressuposto. Para os helênicos, os

ate>

0 cristianismo é uma loucura,

um absurdo, não tem sentido. Era Atenas “quando ouviram falar da ressurreição dos mor

tos, uns começaram a rir, ou tros

disseram:

sobre isto

te

escutaremos

outra vez'

(Atos,

formular o conteúdo da revelaçao cristã em termos helênicos,

que vêm carregados

de uma

tradição filosófica alheia. Mais ainda, os ataques intelectuais

DIGESTO ECONÔMICO

93

bastante desprezados, de

po

três ingredientes nos quais ain

bres, de escravos, nada

ele

da vivemos. Este breve texto do Novo Testamento é a certi dão de nascimento dessa reali

gante. Mas há um momento ca pital que me comove profunda mente: quando São Paulo vai ser açoitado, invoca sua condi ção de cidadão romano Podem cortar-lhe a cabeça — o que fizeram mais tarde — mas não

açoitá-lo. E há um momento de alarme do tribuno, quando o centurião lhe diz que Paulo é cidadão romano. “És tu roma

no? E ele respondeu, sim. Acrescentou o tribuno: adqui ri esta cidadania por grande soma. Paulo replicou: pois eu a tenho por nascimento” (Atos, 22-27-28). Neste momento, São Paulo está fundando o Ociden

te. Esse judeu fariseu, helenizado, que fala e escreve o gre go, que utiliza os conceitos do pensamento helênico para ex pressar a nova fé cristã, que è cidadão romano e invoca o di

reito romano, está juntando, pela primeira vez, na história, três coisas: a religião judaico-

ao cristianismo: os pagãos tO' mam várias posições frente ao cristianismo. A primeira é ig

cristã, 0 pensamento filosófico grego e o direito romano, a

norá-lo: é uma religião de gen

reito, 0 Império, já que recla ma para ser levado ante Cé

te baixa, sem importância al guma. Uma religião de judeus

mais ou menos helenizados mas

idéia do mando segundo o di

sar. Neste momento aparece no mando a convergência desses

dade histórica que conhecemos sob 0 nome de Ocidente, e São Paulo é o seu fundador.

Depois de desprezar e igno rar os cristãos, começa-se a temê-los e a odiá-los, a decapi tá-los, crucificá-los ou jogá-los às feras. E chega o momento em que os pagãos começam a

prestar-lhes maior atenção, a considerá-los intelectualmente. De início se escandalizam: o

que dizem esses loucos? Tuao isso é falso — 0 que não deixa de ser uma maneira de come

çar a tomá-los a sério.

Suce-

dem-se uma série de ataques intelectuais contra o cristianismo.

Alguns puramente difama-

tórios,

caluniosos,

burlescos, mais mobiliza o

Outros, mais meditados, sérios. E nele

se

pensamento grego, com os su

postos e os recursos dialéticos da

cultura

grega

e romana,

contra essa nova religião sem

prestígio que é o cristianismo. É preciso, então, responder. Responder na mesma língua, com os mesmos conceitos. É aqui que começa a elaboração


DIGESTO

94

intelectual do cristianismo, ao colocar-se no terreno do outro,

do grego e do romano, para responder na sua língua e com seus conceitos, aos ataques in telectuais.

Lembro-me

de

um

livro excelente que li, sobre is to, há cerca de meio século ('não sei se foi superado): “La reaction paienne”, de Pierre Labriolle, livro esplêndido de

claridade e precisão, que mo.»!t.ra muito bem como o cristia

nismo passa por funda trans formação para responder à rea ção pagã. As consequências íc> ram decisivas.

Acrescente-se — um pouco mais tarde — o problema das heresias. O cristianismo não é uma ideologia, é uma fé. uma

ECONÔMICO

que um dia serão as defiuiçõeü

dogmáticas, os dogmas. Deste complexo de ques tões nasce a teologia cristã,

nutrida de conceitos gregos, e secundariamente, romanos. É

ao cristianismo:

as definições,

conheceram

a fundo

mento da língua.

grega e a latina. Cada uma de las segue um caminho e logo temos duas formas de teologia, que são igualmente teologia

cia de textos ou o desconheci

Caso extraordinário foi

o

cristã, mas com dois repertó

de um autor, pouco lido em nossa época, porque nem se quer era possível obter suas

rios de

diferentes,

obras. Tive, há alguns anos, a

duas orientações, dois estilos de interpretação: a teologia dos padres gregos e a dos padres

sorte de conseguir um exem

conceitos

diciona consideravelmente ca da uma em suas formulações.

heterodoxias (a hétera dóxa, a “opinião outra”, ou tra que a opinião reta, que a ortodoxia, a orthè dóxa) obriga igualmente, a uma elaboração intelectual da revelação e con duz a algo originalmentealheio

ocidentais

A Igreja aparece, não dividida,

latino, que se tornará decisivo.

múltiplas, e há algumas erra das üu pelo menos discutíveib, que devem ser discutidas, for muladas, esclarecidas. A luta r» Q

desconhecimento que se tem da teologia grega, cujas ressonân cias foram incomparavelmente menores. Bem poucos teólogos

mas diferenciada em duas pO' bicões ou tendências: Igreja

ra vez, 0 elemento romano ou

latinos, cs da Igreja ocidental. E as duas línguas são usadas, 0 grego e o latim, o que con

contra

95

e em verdade o pensamento teo lógico dos padres gregos, que ficou relativamente marginali zado, por razões elementares, mas decisivas, como a ausên

aqui que aparece, pela primei

pístís, não uma formulação dog

mática. Mas as interpretações do conteúdo da revelação sac r■ ■

DIGESTO ECONÔMICO

a teologia latina teve muito maA impor-

Historicamente,

tância, e se tomamos em bloco 0 que se chama de “pensamen

plar dos “Dogmas Teológicos” de Petavio (Denis Petau), je suíta francês do século XVII, que passeava pela teologia gre ga com espantoso conhecimen

to. Nessa obra, a teologia dos padres gregos tem uma rele vância e importância que se en contra em raríssimos

autores.

É uma exceção com escassas consequências, até mesmo na tradição francesa. Isto faz com

to cristão” (sobretudo o teoló

QUG tenhamos uma visão defor

gico), o latim é muito mais copioso que o grego. Mas a dife

mada e parcial a favor da teo logia latina, enquanto a grega permanece na periferia, prati

rença é menor do que aparen

ta ser, e a razão disto está no

camente desconhecida.

Acrescente-se, ainda, o aparecimento, na Idade Média, de duas amplas formulações do pensamento filosófico com raiz

religiosa: a Escolástica judai ca e a muçulmana, ao lado da Escolástica cristã, evolução di reta do pensamento patrístico. A judaica parte exclusivamente do Antigo Testamento, a mu çulmana, do Corão e a cristã, do Antigo e do Novo Testamen to. Todas elas significam uma elaboração intelectual da reli gião, mas contêm uma essen cial ambigüidade: “escolásti¬ ca” é um adjetivo. Qual o subs

tantivo implícito? Filosofia, teologia? A rigor, nenhum dos dois, ou os dois se preferirmos, numa relação muito peculiar, que é justamente o primeiro problema da Escolástica. E de veriamos ainda perguntar: es sa relação entre teologia e fi losofia, é a mesma nas

três

Escolásticas? O que equivale a perguntar se as três têm o mes

mo

sentido,

e são,

portanto,

equiparáveis. Ê muito duvidoso.

Mas 0 que me parece im portante, e é onde queria che gar, é saber quanto tempo de mora para aparecer, dentro da


DIGESTO

94

intelectual do cristianismo, ao colocar-se no terreno do outro,

do grego e do romano, para responder na sua língua e com seus conceitos, aos ataques in telectuais.

Lembro-me

de

um

livro excelente que li, sobre is to, há cerca de meio século ('não sei se foi superado): “La reaction paienne”, de Pierre Labriolle, livro esplêndido de

claridade e precisão, que mo.»!t.ra muito bem como o cristia

nismo passa por funda trans formação para responder à rea ção pagã. As consequências íc> ram decisivas.

Acrescente-se — um pouco mais tarde — o problema das heresias. O cristianismo não é uma ideologia, é uma fé. uma

ECONÔMICO

que um dia serão as defiuiçõeü

dogmáticas, os dogmas. Deste complexo de ques tões nasce a teologia cristã,

nutrida de conceitos gregos, e secundariamente, romanos. É

ao cristianismo:

as definições,

conheceram

a fundo

mento da língua.

grega e a latina. Cada uma de las segue um caminho e logo temos duas formas de teologia, que são igualmente teologia

cia de textos ou o desconheci

Caso extraordinário foi

o

cristã, mas com dois repertó

de um autor, pouco lido em nossa época, porque nem se quer era possível obter suas

rios de

diferentes,

obras. Tive, há alguns anos, a

duas orientações, dois estilos de interpretação: a teologia dos padres gregos e a dos padres

sorte de conseguir um exem

conceitos

diciona consideravelmente ca da uma em suas formulações.

heterodoxias (a hétera dóxa, a “opinião outra”, ou tra que a opinião reta, que a ortodoxia, a orthè dóxa) obriga igualmente, a uma elaboração intelectual da revelação e con duz a algo originalmentealheio

ocidentais

A Igreja aparece, não dividida,

latino, que se tornará decisivo.

múltiplas, e há algumas erra das üu pelo menos discutíveib, que devem ser discutidas, for muladas, esclarecidas. A luta r» Q

desconhecimento que se tem da teologia grega, cujas ressonân cias foram incomparavelmente menores. Bem poucos teólogos

mas diferenciada em duas pO' bicões ou tendências: Igreja

ra vez, 0 elemento romano ou

latinos, cs da Igreja ocidental. E as duas línguas são usadas, 0 grego e o latim, o que con

contra

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e em verdade o pensamento teo lógico dos padres gregos, que ficou relativamente marginali zado, por razões elementares, mas decisivas, como a ausên

aqui que aparece, pela primei

pístís, não uma formulação dog

mática. Mas as interpretações do conteúdo da revelação sac r■ ■

DIGESTO ECONÔMICO

a teologia latina teve muito maA impor-

Historicamente,

tância, e se tomamos em bloco 0 que se chama de “pensamen

plar dos “Dogmas Teológicos” de Petavio (Denis Petau), je suíta francês do século XVII, que passeava pela teologia gre ga com espantoso conhecimen

to. Nessa obra, a teologia dos padres gregos tem uma rele vância e importância que se en contra em raríssimos

autores.

É uma exceção com escassas consequências, até mesmo na tradição francesa. Isto faz com

to cristão” (sobretudo o teoló

QUG tenhamos uma visão defor

gico), o latim é muito mais copioso que o grego. Mas a dife

mada e parcial a favor da teo logia latina, enquanto a grega permanece na periferia, prati

rença é menor do que aparen

ta ser, e a razão disto está no

camente desconhecida.

Acrescente-se, ainda, o aparecimento, na Idade Média, de duas amplas formulações do pensamento filosófico com raiz

religiosa: a Escolástica judai ca e a muçulmana, ao lado da Escolástica cristã, evolução di reta do pensamento patrístico. A judaica parte exclusivamente do Antigo Testamento, a mu çulmana, do Corão e a cristã, do Antigo e do Novo Testamen to. Todas elas significam uma elaboração intelectual da reli gião, mas contêm uma essen cial ambigüidade: “escolásti¬ ca” é um adjetivo. Qual o subs

tantivo implícito? Filosofia, teologia? A rigor, nenhum dos dois, ou os dois se preferirmos, numa relação muito peculiar, que é justamente o primeiro problema da Escolástica. E de veriamos ainda perguntar: es sa relação entre teologia e fi losofia, é a mesma nas

três

Escolásticas? O que equivale a perguntar se as três têm o mes

mo

sentido,

e são,

portanto,

equiparáveis. Ê muito duvidoso.

Mas 0 que me parece im portante, e é onde queria che gar, é saber quanto tempo de mora para aparecer, dentro da


DIGESTO

96

ECONÔMICO

filosofia, a interpretação cris tã da realidade. A elaboração dos dogmas, sua formulação, a refutação dos ataques pagãos, ou simplesmente a precisão do conteúdo da revelação median te conceitos helênicos, não é ainda filosofia, convém lem

maior plenitude e profundidade,

brar. Não é filosofia: não tem caráter estritamente racional,

e se procura um conhecimento

não tem função de justificação

te da fé. O que se procura é

racional da realidade, não ten

a inteligência, a intelecção — mas a fé aparece como motor.

ta compreendê-la numa pers pectiva filosófica. Trata-se de uma revelação que se deve compreender e que, portanto, requer uma elaboração intelec tual. Trata-se daquilo que se crê, e se pretende entender aquilo que se crê. Esta expli cação intelectual da crença não é filosofia.

;

por Santo Anselmo: Fídes quaerens intellectum, a fé que bus

mano, quando vislumbra em que consiste. O homem antigo não consegue compreender co mo se pode ser cristão. Con vém lembrar a impressão de absurdo que o cristianismo pro voca durante muito tempo. E depois? Acho que tampouco

filosófico ou teológico que par

Se agora nos colocamos nu

ma perspectiva filosófica, 0 conteúdo da fé, isto é, a situa apresenta ção do cristão, se

como uma pré-filosofia. A colo cação habitual da questão con siste em examinar as caracte

rísticas dessa filosofia “cristã” tal filosofia. Isto é, busa sua peculiaridade como

doutrina

Mas

SIGNIFICA PLENA

filosófica

REALIZAÇÃO DO

creio que há uma questão mais

será empregada depois,

entre

outras,

interessante e profunda: qual

é 0 verdadeiro conteúdo dessa

tro da filosofia é aquele expres so na fórmula agustiniana que com

Olhando as coisas mais de per

mula: Credo ut intelligam, creio para entender. Aqui aparece a necessidade estrita de entender,

forma particular de

0 momento em que a filo sofia aparece como tal dentro do cristianismo ou que o cris tianismo irrompe como tal den

tuação, ou condição, consiste simplesmente em ser cristão.

to, percebe-se que isto enlou

como

judaísmo

97

ca a inteligência. E, em íntima conexão com ela, a outra fór

car

O CRISTIANISMO

DIGESTO ECONÔMICO

situação; em que consiste pro

priamente a inovação cristã?

Originalmente, o cristão es tá numa situação estranha, di ferente das demais, e, seja qual for a situação histórico-social em que se encontre, essa si¬

quece 0 homem grego

ou ro

entendem muito mas se bam acostumando.

aca

Essa atitude, de certo mo

do, é compartilhada pelos cris tãos, que têm uma atitude de repulsa pelo mundo antigo, até mesmo de funda rejeição. Mas vêem, ao mesmo tempo, a cul tura clássica como algo admi rável, valioso, maravilhoso e, de certo modo, verdadeiro. Es tão divididos. Acontece que a verdade, ou as verdades do mundo pagão não contam, não são a verdade que importa. O PENSAMENTO GREGO BUSCA O SEMPRE,

O QUE SEMPRE É. Prescindamos do ponto de vista cristão e, ainda, do pon-

to de vista meramente humano

— se existe — e tratemos de considerar do ponto de vista intelectual greco-romano a ati tude de Püatos. Quando Jesus diz:

“Para isto

vim

ao

mun

do, para dar testemunho da verdade”, Püatos responde ce ticamente: “E o que é a ver dade?” e sai sem esperar a

resposta (João, 18: 37-38). Por que Cristo disse: “Eu sou o Ca minho, a Verdade e a Vida”. Que sentido pode ter para um homem da Grécia ou de Roma

que alguém diga — eu sou a verdade? Como se pode pensar que a resposta à pergunta —

0 que é a verdade? — seja: Eu? Que tem isto a ver com a Alétheia ou patencia, manifes tação, descobrimento, ou com a adaequatio intellectus et rei

de que falaria depois um escolástico? Compreende-se bem a perplexidade que perpassa toda a atitude de Püatos, tal como referem os Evangelhos: tropeça num outro mundo.

E os judeus também não entendem bem. A perplexidade atravessa os quatro relatos evangélicos. Devemos recordar a reação daqueles que estavam

mais próximos a Jesus,

seus


DIGESTO

96

ECONÔMICO

filosofia, a interpretação cris tã da realidade. A elaboração dos dogmas, sua formulação, a refutação dos ataques pagãos, ou simplesmente a precisão do conteúdo da revelação median te conceitos helênicos, não é ainda filosofia, convém lem

maior plenitude e profundidade,

brar. Não é filosofia: não tem caráter estritamente racional,

e se procura um conhecimento

não tem função de justificação

te da fé. O que se procura é

racional da realidade, não ten

a inteligência, a intelecção — mas a fé aparece como motor.

ta compreendê-la numa pers pectiva filosófica. Trata-se de uma revelação que se deve compreender e que, portanto, requer uma elaboração intelec tual. Trata-se daquilo que se crê, e se pretende entender aquilo que se crê. Esta expli cação intelectual da crença não é filosofia.

;

por Santo Anselmo: Fídes quaerens intellectum, a fé que bus

mano, quando vislumbra em que consiste. O homem antigo não consegue compreender co mo se pode ser cristão. Con vém lembrar a impressão de absurdo que o cristianismo pro voca durante muito tempo. E depois? Acho que tampouco

filosófico ou teológico que par

Se agora nos colocamos nu

ma perspectiva filosófica, 0 conteúdo da fé, isto é, a situa apresenta ção do cristão, se

como uma pré-filosofia. A colo cação habitual da questão con siste em examinar as caracte

rísticas dessa filosofia “cristã” tal filosofia. Isto é, busa sua peculiaridade como

doutrina

Mas

SIGNIFICA PLENA

filosófica

REALIZAÇÃO DO

creio que há uma questão mais

será empregada depois,

entre

outras,

interessante e profunda: qual

é 0 verdadeiro conteúdo dessa

tro da filosofia é aquele expres so na fórmula agustiniana que com

Olhando as coisas mais de per

mula: Credo ut intelligam, creio para entender. Aqui aparece a necessidade estrita de entender,

forma particular de

0 momento em que a filo sofia aparece como tal dentro do cristianismo ou que o cris tianismo irrompe como tal den

tuação, ou condição, consiste simplesmente em ser cristão.

to, percebe-se que isto enlou

como

judaísmo

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ca a inteligência. E, em íntima conexão com ela, a outra fór

car

O CRISTIANISMO

DIGESTO ECONÔMICO

situação; em que consiste pro

priamente a inovação cristã?

Originalmente, o cristão es tá numa situação estranha, di ferente das demais, e, seja qual for a situação histórico-social em que se encontre, essa si¬

quece 0 homem grego

ou ro

entendem muito mas se bam acostumando.

aca

Essa atitude, de certo mo

do, é compartilhada pelos cris tãos, que têm uma atitude de repulsa pelo mundo antigo, até mesmo de funda rejeição. Mas vêem, ao mesmo tempo, a cul tura clássica como algo admi rável, valioso, maravilhoso e, de certo modo, verdadeiro. Es tão divididos. Acontece que a verdade, ou as verdades do mundo pagão não contam, não são a verdade que importa. O PENSAMENTO GREGO BUSCA O SEMPRE,

O QUE SEMPRE É. Prescindamos do ponto de vista cristão e, ainda, do pon-

to de vista meramente humano

— se existe — e tratemos de considerar do ponto de vista intelectual greco-romano a ati tude de Püatos. Quando Jesus diz:

“Para isto

vim

ao

mun

do, para dar testemunho da verdade”, Püatos responde ce ticamente: “E o que é a ver dade?” e sai sem esperar a

resposta (João, 18: 37-38). Por que Cristo disse: “Eu sou o Ca minho, a Verdade e a Vida”. Que sentido pode ter para um homem da Grécia ou de Roma

que alguém diga — eu sou a verdade? Como se pode pensar que a resposta à pergunta —

0 que é a verdade? — seja: Eu? Que tem isto a ver com a Alétheia ou patencia, manifes tação, descobrimento, ou com a adaequatio intellectus et rei

de que falaria depois um escolástico? Compreende-se bem a perplexidade que perpassa toda a atitude de Püatos, tal como referem os Evangelhos: tropeça num outro mundo.

E os judeus também não entendem bem. A perplexidade atravessa os quatro relatos evangélicos. Devemos recordar a reação daqueles que estavam

mais próximos a Jesus,

seus


98

DIGESTO

discípulos inclusive. Por exem plo, depois que Cristo disse — eu sou 0 Caminho, a Verdade, a Vida — Felipe diz: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso basta

rá”. E Jesus responde: “Feli pe, há tanto tempo estou convosco e ainda não

me conhe

ECONÔMICO

muito dizer. O cristianismo foi pensado filosoficamente?

Não sei se ficou claro para

emergindo, tão estranhos que o

de perplexidade dos discípulos,

pensamento helênico ou roma

nos quais germinará lentamen

no não sabem o que fazer de les. Por exemplo, diz-se de Deus, Abba, Pai. Esse conceito de Pai, essa filiação divina, é algo inteiramente novo. Não que Deus seja o Pai dos ho mens; de maneira abstrata e genérica, é que se diz “Pai Nosso”, isto é, de cada um de nós. Há um “eu” e um “nós” e um “tu” que é precisamente.

signado

carrega

o lastro de

uma longa e complexa elabo ração helênica e romana, que não chega a se abrir para o que é a atitude cristã propria mente dita. Supondo que se te nha chegado a isso, o que é

homens vão ressuscitar. “Pois se de Cristo se prega que res

Há realidades

mortais

e

caráter novo da “pré-filosofia” que significa a condição cris tã. É uma mudança radical de

Há um elemento

de

co.

mortais (broioí). Talvez algo do homem seja imortal, ou tal

conheceram.

durante séculos fòi assim

Mas a coisa é mais grave, porque São Paulo diz que os

realidades imortais. O.s deuses

instalação, uma maneira nova de estar na realidade, de sen

Pouco a pouco se produz uma mudança de instalação, o que chegará a ser, em certo momento, essa “pré-filosofia” que dará origem à chamada “filosofia cristã”. Mas é preci so ver até que ponto aquilo que

mas a de ressurreição? O con ceito de imortalidade é helêni-

onde vou e onde reside a ver dadeira dificuldade. Insisto no

ceis? O que me viu, a mim, viu a meu Pai. Como dizes ainda, mostra-nos o Pai?” (João, 14: 6-9). Estiveram comendo, be bendo, andando com ele pelos caminhos da Judéia, e não o

te a grande novidade, a imen sa novidade que estão vivendo.

99

DIGESTO ECONÔMICO

tir-se nela, de vivê-la: a reali dade do mundo, a própria, e, é claro, a de Deus. Então, uma série de conceitos novos

Deus.

vão

É 0 outro lado da idéia

cristã da criação: o nada não basta, 0 reverso é a paterni dade divina e, portanto, a fi liação.

E 0 que ocorre quando se in troduz no pensamento antigo, não

a idéia

de imortalidade.

sao

imortais e os homens são

suscitou dos mortos, como

vez alguns homens, ou todos os

há ressurreição

homens possam

ser imortais.

di

zem alguns de vós que não há ressurreição dos mortos? Se não dos

mortos,

to grego, que o deseja em cer

tampouco Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é nossa predicação, vã é nossa

tas ocasiões, e se atreve a ima-

fé. Seremos falsos testemunhos

giná-lo como um “bonito risco” (kalòs gàr ho kindynos, diz Pla

de Deus, porque contra Deus testemunhamos que ressuscitou

tão). Mas o cristianismo não fala de imortalidade, fala de

tou, posto que

ressurreição dos mortos. Isto é

ressuscitam. Porque se os mor

Isto não repugna ao pensamen

outra coisa.

O que vem a ser a ressur

reição dos mortos? Os cristãos adoram um homem morto, exe

cutado na cruz,

e dizem que

está vivo. Que quer dizer isto? Que fazer desta noção com o repertório, o arsenal de concei tos gregos ou romanos? Com

respeito a Cristo, a idéia poderia ser traduzida em termos he-

a Cristo, a quem não ressusci os mortos

não

tos não ressuscitam nem Cristo

ressuscitou, vã é nossa fé, e es

tais ainda em pecado. E até os morreram em Cristo pere-

que

ceram. Se olhando apenas esta vida temos a esperança posta

em Cristo, somos os mais mi

seráveis de todos os homens”

(Corintos I, 15:1-19). Podia isto caber na cabeça

de gregos e romanos? E até que ponto na de muitos judeus

iênicos: um grego pensaria que um deus tomou forma humana e, como em última análise, é Mas imortal, reaparece vivo. não se trata disso. Cristo não tomou forma humana mas fez-

— dos saduceus, por exemplo? E os cristãos dè tantas épocas, como a nossa por exemplo? Que ressonância viva despertam es ses textos na maioria dos que

se homem, carne. Morreu

hoje se consideram cristãos, in

verdade, e ressuscitou.

de

clusive entre os que ensinam,


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DIGESTO

discípulos inclusive. Por exem plo, depois que Cristo disse — eu sou 0 Caminho, a Verdade, a Vida — Felipe diz: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso basta

rá”. E Jesus responde: “Feli pe, há tanto tempo estou convosco e ainda não

me conhe

ECONÔMICO

muito dizer. O cristianismo foi pensado filosoficamente?

Não sei se ficou claro para

emergindo, tão estranhos que o

de perplexidade dos discípulos,

pensamento helênico ou roma

nos quais germinará lentamen

no não sabem o que fazer de les. Por exemplo, diz-se de Deus, Abba, Pai. Esse conceito de Pai, essa filiação divina, é algo inteiramente novo. Não que Deus seja o Pai dos ho mens; de maneira abstrata e genérica, é que se diz “Pai Nosso”, isto é, de cada um de nós. Há um “eu” e um “nós” e um “tu” que é precisamente.

signado

carrega

o lastro de

uma longa e complexa elabo ração helênica e romana, que não chega a se abrir para o que é a atitude cristã propria mente dita. Supondo que se te nha chegado a isso, o que é

homens vão ressuscitar. “Pois se de Cristo se prega que res

Há realidades

mortais

e

caráter novo da “pré-filosofia” que significa a condição cris tã. É uma mudança radical de

Há um elemento

de

co.

mortais (broioí). Talvez algo do homem seja imortal, ou tal

conheceram.

durante séculos fòi assim

Mas a coisa é mais grave, porque São Paulo diz que os

realidades imortais. O.s deuses

instalação, uma maneira nova de estar na realidade, de sen

Pouco a pouco se produz uma mudança de instalação, o que chegará a ser, em certo momento, essa “pré-filosofia” que dará origem à chamada “filosofia cristã”. Mas é preci so ver até que ponto aquilo que

mas a de ressurreição? O con ceito de imortalidade é helêni-

onde vou e onde reside a ver dadeira dificuldade. Insisto no

ceis? O que me viu, a mim, viu a meu Pai. Como dizes ainda, mostra-nos o Pai?” (João, 14: 6-9). Estiveram comendo, be bendo, andando com ele pelos caminhos da Judéia, e não o

te a grande novidade, a imen sa novidade que estão vivendo.

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DIGESTO ECONÔMICO

tir-se nela, de vivê-la: a reali dade do mundo, a própria, e, é claro, a de Deus. Então, uma série de conceitos novos

Deus.

vão

É 0 outro lado da idéia

cristã da criação: o nada não basta, 0 reverso é a paterni dade divina e, portanto, a fi liação.

E 0 que ocorre quando se in troduz no pensamento antigo, não

a idéia

de imortalidade.

sao

imortais e os homens são

suscitou dos mortos, como

vez alguns homens, ou todos os

há ressurreição

homens possam

ser imortais.

di

zem alguns de vós que não há ressurreição dos mortos? Se não dos

mortos,

to grego, que o deseja em cer

tampouco Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é nossa predicação, vã é nossa

tas ocasiões, e se atreve a ima-

fé. Seremos falsos testemunhos

giná-lo como um “bonito risco” (kalòs gàr ho kindynos, diz Pla

de Deus, porque contra Deus testemunhamos que ressuscitou

tão). Mas o cristianismo não fala de imortalidade, fala de

tou, posto que

ressurreição dos mortos. Isto é

ressuscitam. Porque se os mor

Isto não repugna ao pensamen

outra coisa.

O que vem a ser a ressur

reição dos mortos? Os cristãos adoram um homem morto, exe

cutado na cruz,

e dizem que

está vivo. Que quer dizer isto? Que fazer desta noção com o repertório, o arsenal de concei tos gregos ou romanos? Com

respeito a Cristo, a idéia poderia ser traduzida em termos he-

a Cristo, a quem não ressusci os mortos

não

tos não ressuscitam nem Cristo

ressuscitou, vã é nossa fé, e es

tais ainda em pecado. E até os morreram em Cristo pere-

que

ceram. Se olhando apenas esta vida temos a esperança posta

em Cristo, somos os mais mi

seráveis de todos os homens”

(Corintos I, 15:1-19). Podia isto caber na cabeça

de gregos e romanos? E até que ponto na de muitos judeus

iênicos: um grego pensaria que um deus tomou forma humana e, como em última análise, é Mas imortal, reaparece vivo. não se trata disso. Cristo não tomou forma humana mas fez-

— dos saduceus, por exemplo? E os cristãos dè tantas épocas, como a nossa por exemplo? Que ressonância viva despertam es ses textos na maioria dos que

se homem, carne. Morreu

hoje se consideram cristãos, in

verdade, e ressuscitou.

de

clusive entre os que ensinam,


101

DIGESTO ECONÔMICO DIGESTO

100

ou devem ensinar, a substancia do

cristianismo?

A inovação

cristã

parece

mais inaudita ainda, mais

in

compreensível, quando os olhos se voltam para Deus. Quando se pergunta

quem é Deus —

não se responde que 6 o pri meiro motor imóvel, ou algo parecido, diz-se que é amor. Que quer dizer isto? Não que o Amor seja um deus: isto um

grego poderia entender, e teria

ECONÔMICO

que não houve. E é este o pon O to a que desejava chegar, cristianismo não provoca uma explosão na filosofia antiga, porque não entra, porque é coi sa sem importância, que afeta apenas a totalidade da instala ção filosófica, porque germina lentamente, porque se consti tui muito devagar em pensa mento, em algo que possa che

defender

o cristianismo

dos

ataques, formular dogmas e es clarecer os pontos discutidos, elaboram-se fragmentos de dou trina, ligados ao cristianismo, e que, em algum momento, se incorporam a um corpo de dou trina filosófica que se poderá chamar cristã. Mas

tudo

isso

que a história da filosofia in vestiga e recolhe, podemos di zer que é filosofia? Pretendese que seja? É duvidoso.

gar a ser filosofia. Porque du

Não houve um "filosofo cris

como tal, no Ocidente — nasce quando se supera a atitude que espera a revelação, a que con

fia, por exemplo, no oráculo ou na moira, que se manifesta

quando quer, e se possui, em troca, um método, ou caminho,

que está nas mãos do homem, pelo qual se pode ir até a rea lidade latente, partindo da rea lidade manifesta ou

patente,

para descobri-la e desvendá-la, no sentido de despojá-la dos véus que a ocultam, como as filhas do Sol (Helládes koúrai) no poema de Parmênides.

médio” (metaxy) entre o ho mem e 0 deus, porque busca al

rante muito tempo continua a ser apenas uma “pré-filosofia”. que levará séculos para ser aborvida por uma filosofia — se é que isso já aconteceu. Es sa instalação vital que é a con

tão”, em sentido estrito, antes de Santo Agostinho. Ê interes sante ver 0 que faz o cristia nismo a respeito da situação

filosófica. Ou seja, precisar o

de vista do homem, a revela

go que lhe falta, a beleza, con-

dição cristã permanecerá, du

tro da área do

ção é passiva: a realidade, se ja ela qual for, se revela se

achado um nome próprio: Efos.

Platão dirá que não é propria mente um deus mas um “inter

cretamente. Se fosse deus,

a

teria e não lhe faria falta. Se carecesse totalmente dela, não sentiría sua falta, não estaria

privado dela, nem a buscaria. O cristianismo não diz na da disso. Não há um deus que é 0 Amor. Deus é amor. A rea lidade de Deus consiste em amor. Imagine-se o imenso cho que que isto representa para a mente antiga. Nem sequer entende do que se trata. Esta é a maneira pela qual 0 cristianismo irrompe no pen samento antigo.

Mas deveria

ter significado uma explosão.

rante séculos, sob o imenso pe so de toda a tradição intelec tual, conceptual, do mundo an tigo. E quando parece que vai livrar-se dela, talvez caiam so bre esse germe outras pressões, que se não têm tanta densida de intelectual, apresentam maior força social. É ainda uma incógnita a possível ino vação filosófica do cristianismo. A história da filosofia pode

que significa fazer hlosofia den

cristianismo,

quando quem filosofa é um cris tão. Algo bem diferente do fi

losofar de um pagão, grego ou romano helenizado — como são todos os filósofos de Roma ■—

inclusive de um judeu heleniza do, como Filon. A filosofia propõe-se chegar a

uma certeza radical sobre a

realidade radical, faça-se o que se

faça, qualquer que seja

o

método, quaisquer que sejam

Esta é a diferença entre re

velação e desvelação. Do ponto

quer

e

quando quer. Ao con-

trário, a desvelação, o tirar o com que a realivéu, o fazer -dade latente se torne patente,

se manifeste, é algo que o homem

executa: é uma ação hu-

mana. Por isso, é de certo mo do, suspeita de impiedade, A realidade é sacra e o homem tem a audácia de tocá-la com

as mãos para tirar-lhe os véus. Recordava, às vezes, meio a

sério,

aquela

passagem

de

e deve rastrear elementos fi losóficos na obra dos apologis

horizonte. O pensamento firosó-

“Dom Juan Tenorio” na qual

tas, dos padres da Igreja gre

fico grego — isto é, a filosofia

Dom Juan tira violentam«ite a

ga ou latina, nas discussões teológicas dos concüios. Para

os

temas que se apresentem no


101

DIGESTO ECONÔMICO DIGESTO

100

ou devem ensinar, a substancia do

cristianismo?

A inovação

cristã

parece

mais inaudita ainda, mais

in

compreensível, quando os olhos se voltam para Deus. Quando se pergunta

quem é Deus —

não se responde que 6 o pri meiro motor imóvel, ou algo parecido, diz-se que é amor. Que quer dizer isto? Não que o Amor seja um deus: isto um

grego poderia entender, e teria

ECONÔMICO

que não houve. E é este o pon O to a que desejava chegar, cristianismo não provoca uma explosão na filosofia antiga, porque não entra, porque é coi sa sem importância, que afeta apenas a totalidade da instala ção filosófica, porque germina lentamente, porque se consti tui muito devagar em pensa mento, em algo que possa che

defender

o cristianismo

dos

ataques, formular dogmas e es clarecer os pontos discutidos, elaboram-se fragmentos de dou trina, ligados ao cristianismo, e que, em algum momento, se incorporam a um corpo de dou trina filosófica que se poderá chamar cristã. Mas

tudo

isso

que a história da filosofia in vestiga e recolhe, podemos di zer que é filosofia? Pretendese que seja? É duvidoso.

gar a ser filosofia. Porque du

Não houve um "filosofo cris

como tal, no Ocidente — nasce quando se supera a atitude que espera a revelação, a que con

fia, por exemplo, no oráculo ou na moira, que se manifesta

quando quer, e se possui, em troca, um método, ou caminho,

que está nas mãos do homem, pelo qual se pode ir até a rea lidade latente, partindo da rea lidade manifesta ou

patente,

para descobri-la e desvendá-la, no sentido de despojá-la dos véus que a ocultam, como as filhas do Sol (Helládes koúrai) no poema de Parmênides.

médio” (metaxy) entre o ho mem e 0 deus, porque busca al

rante muito tempo continua a ser apenas uma “pré-filosofia”. que levará séculos para ser aborvida por uma filosofia — se é que isso já aconteceu. Es sa instalação vital que é a con

tão”, em sentido estrito, antes de Santo Agostinho. Ê interes sante ver 0 que faz o cristia nismo a respeito da situação

filosófica. Ou seja, precisar o

de vista do homem, a revela

go que lhe falta, a beleza, con-

dição cristã permanecerá, du

tro da área do

ção é passiva: a realidade, se ja ela qual for, se revela se

achado um nome próprio: Efos.

Platão dirá que não é propria mente um deus mas um “inter

cretamente. Se fosse deus,

a

teria e não lhe faria falta. Se carecesse totalmente dela, não sentiría sua falta, não estaria

privado dela, nem a buscaria. O cristianismo não diz na da disso. Não há um deus que é 0 Amor. Deus é amor. A rea lidade de Deus consiste em amor. Imagine-se o imenso cho que que isto representa para a mente antiga. Nem sequer entende do que se trata. Esta é a maneira pela qual 0 cristianismo irrompe no pen samento antigo.

Mas deveria

ter significado uma explosão.

rante séculos, sob o imenso pe so de toda a tradição intelec tual, conceptual, do mundo an tigo. E quando parece que vai livrar-se dela, talvez caiam so bre esse germe outras pressões, que se não têm tanta densida de intelectual, apresentam maior força social. É ainda uma incógnita a possível ino vação filosófica do cristianismo. A história da filosofia pode

que significa fazer hlosofia den

cristianismo,

quando quem filosofa é um cris tão. Algo bem diferente do fi

losofar de um pagão, grego ou romano helenizado — como são todos os filósofos de Roma ■—

inclusive de um judeu heleniza do, como Filon. A filosofia propõe-se chegar a

uma certeza radical sobre a

realidade radical, faça-se o que se

faça, qualquer que seja

o

método, quaisquer que sejam

Esta é a diferença entre re

velação e desvelação. Do ponto

quer

e

quando quer. Ao con-

trário, a desvelação, o tirar o com que a realivéu, o fazer -dade latente se torne patente,

se manifeste, é algo que o homem

executa: é uma ação hu-

mana. Por isso, é de certo mo do, suspeita de impiedade, A realidade é sacra e o homem tem a audácia de tocá-la com

as mãos para tirar-lhe os véus. Recordava, às vezes, meio a

sério,

aquela

passagem

de

e deve rastrear elementos fi losóficos na obra dos apologis

horizonte. O pensamento firosó-

“Dom Juan Tenorio” na qual

tas, dos padres da Igreja gre

fico grego — isto é, a filosofia

Dom Juan tira violentam«ite a

ga ou latina, nas discussões teológicas dos concüios. Para

os

temas que se apresentem no


102

DIGESTO

máscara de seu pai, que che gara fantasiado à “Hosteria dei

Laurel”, e Dom Diego exclama;

“Vilão, puseste no meu rosto a tua mão”. E Dom Juan res

ponde; pai”.

“Valha-me Cristo,

meu

os homens tendem por natureza a saber”. E sinal disso, acres centa, é 0 prazer que obtêm pelas sensações, pela percep ção e especialmente pela visão, porque a vista descobre muitas diferenças.

Esta é a situação. O filóso

fo é 0 homem audaz, talvez ir reverente, possivelmente ímpio, que vai pôr as mãos sobre á realidade

ECONÔMICO

e

descobri-la.

Tenta

ver 0 que é que é verdadeira mente, 0 que se manifesta,

aquilo sobre o que se opina, a dóxa, Busca o que poderá tor nar-se patente, o que verdadei ramente é. Isto ocorre em Par-

em Heráclito, em I mênides, Anaxágoras, em Platão em

Aristóteles, de diversas manei ras: é 0 grande pressuposto do pensamento

grego.

Por outro lado, o que leva 0 homem a perguntar, a conhe cer? O movimento. O fato de que as coisas mudam, mudam

Vejamos agora a situação

do cristão como tal, que está enraizada na situação vital de terminada por sua condição cristã. As diferenças são mui tas e decisivas. Para um cris tão já não se trata de realida

des manifestas, aparentes, e outra mais profunda, latente, que verdadeiramente é e pode explicar essas aparências. Não, a coisa é incomparavelmente mais profunda e radical. Tudo 0 que o grego chama de reali dade, absolutamente tudo, é uma realidade

secundária.

O

mundo, com tudo o que encer ra,

é uma realidade secundá

ria, derivada, recebida: realidade

uma

criada.

de modo de ser, chegam a ser ou deixam de ser. A variação introduz a insegurança e buscase aquilo que é sempre. Há, ainda, um elemento capital: a fruição do saber, a curiosida de. Aristóteles começa sua

CONCEITO RELIGIOSO:

“Metafísica” dizendo — “Todos

to grego, por influência de Fi-

NO CRISTIANISMO, A BASE DE UM TUDO MUDA.

Vimos

como no pensamen

103

DIGESTO ECONÔMICO

criador de Deus, e se refere a

lon e Plotino, aparece o tema da produção do mundo, incluí do 0 conceito de criação. Mas trata-se, em definitivo, de uma

Ele, intrinsecamente. Para quem está, verdadei ramente, dentro do cristianis

cosmogonia,

mo

muito unida

às

— não se trata

de combi

nar a revelação cristã com o pensamento helênico —, a rea

teogonias, e resta a questão de como foi feito o mundo. A pa lavra polein^ empregada pela versão grega dos Setenta, é fa

do com tudo o que compreen

zer, e primariamente, fabricar, produzir. Quem faz uma mesa

de, mas Deus: esse Deus cria dor, que colocou o mundo em

lidade verdadeira não é o mun

ou um par de sapatos, ou um

existência e lhe deu sua reali

poema — poíema — exerce es sa ação de poiein. Assim, se

dade. A pergunta do grego se dirige à realidade que aí es tá, a realidade visível e aqui lo em que, de maneira latente,

não colocamos sobre esse con

ceito toda a teologia posterior,

não se trata, no pensamento grego, da questão de como Deus fez o mundo. Somente o

acréscimo

da

expressão

“do

nada” à ação criadora, no tex to

do

livro

II

dos

Macabeus

(puramente religioso, como já disse, e firmemente ligado à esperança da ressurreição), lhe dá um sentido radicalmente di

ferente. Ao afirmar que Deus fez o mundo do nada, quer-se dizer que coloca o mundo em existência, como algo real, distinto dele, mas com uma realidade que é dada, que é

doação de Deus. A realidade do mundo — e, é claro, a do homem

— resulta de um

ato

consiste.

O cristão

transfere

para o Deus criador, do qual depende sua própria realidade, tudo 0 que se vê ou não se vê, toda a realidade criada.

A filosofia, a metafísica em sentido rigoroso, é uma busca da certeza radical sobre a rea lidade radical (a definição é

de Ortega, mas podemos apli cá-la a este pensamento ou

a

qualquer outro, já que é uma definição circunstancial). As sim sendo, o tema primário da

filosofia, a realidade da qual 0 cristão tem que dar razão, não é tanto o mundo, como Deus.

distinto

do

mundo, no sentido do que

Um

Deus

se


102

DIGESTO

máscara de seu pai, que che gara fantasiado à “Hosteria dei

Laurel”, e Dom Diego exclama;

“Vilão, puseste no meu rosto a tua mão”. E Dom Juan res

ponde; pai”.

“Valha-me Cristo,

meu

os homens tendem por natureza a saber”. E sinal disso, acres centa, é 0 prazer que obtêm pelas sensações, pela percep ção e especialmente pela visão, porque a vista descobre muitas diferenças.

Esta é a situação. O filóso

fo é 0 homem audaz, talvez ir reverente, possivelmente ímpio, que vai pôr as mãos sobre á realidade

ECONÔMICO

e

descobri-la.

Tenta

ver 0 que é que é verdadeira mente, 0 que se manifesta,

aquilo sobre o que se opina, a dóxa, Busca o que poderá tor nar-se patente, o que verdadei ramente é. Isto ocorre em Par-

em Heráclito, em I mênides, Anaxágoras, em Platão em

Aristóteles, de diversas manei ras: é 0 grande pressuposto do pensamento

grego.

Por outro lado, o que leva 0 homem a perguntar, a conhe cer? O movimento. O fato de que as coisas mudam, mudam

Vejamos agora a situação

do cristão como tal, que está enraizada na situação vital de terminada por sua condição cristã. As diferenças são mui tas e decisivas. Para um cris tão já não se trata de realida

des manifestas, aparentes, e outra mais profunda, latente, que verdadeiramente é e pode explicar essas aparências. Não, a coisa é incomparavelmente mais profunda e radical. Tudo 0 que o grego chama de reali dade, absolutamente tudo, é uma realidade

secundária.

O

mundo, com tudo o que encer ra,

é uma realidade secundá

ria, derivada, recebida: realidade

uma

criada.

de modo de ser, chegam a ser ou deixam de ser. A variação introduz a insegurança e buscase aquilo que é sempre. Há, ainda, um elemento capital: a fruição do saber, a curiosida de. Aristóteles começa sua

CONCEITO RELIGIOSO:

“Metafísica” dizendo — “Todos

to grego, por influência de Fi-

NO CRISTIANISMO, A BASE DE UM TUDO MUDA.

Vimos

como no pensamen

103

DIGESTO ECONÔMICO

criador de Deus, e se refere a

lon e Plotino, aparece o tema da produção do mundo, incluí do 0 conceito de criação. Mas trata-se, em definitivo, de uma

Ele, intrinsecamente. Para quem está, verdadei ramente, dentro do cristianis

cosmogonia,

mo

muito unida

às

— não se trata

de combi

nar a revelação cristã com o pensamento helênico —, a rea

teogonias, e resta a questão de como foi feito o mundo. A pa lavra polein^ empregada pela versão grega dos Setenta, é fa

do com tudo o que compreen

zer, e primariamente, fabricar, produzir. Quem faz uma mesa

de, mas Deus: esse Deus cria dor, que colocou o mundo em

lidade verdadeira não é o mun

ou um par de sapatos, ou um

existência e lhe deu sua reali

poema — poíema — exerce es sa ação de poiein. Assim, se

dade. A pergunta do grego se dirige à realidade que aí es tá, a realidade visível e aqui lo em que, de maneira latente,

não colocamos sobre esse con

ceito toda a teologia posterior,

não se trata, no pensamento grego, da questão de como Deus fez o mundo. Somente o

acréscimo

da

expressão

“do

nada” à ação criadora, no tex to

do

livro

II

dos

Macabeus

(puramente religioso, como já disse, e firmemente ligado à esperança da ressurreição), lhe dá um sentido radicalmente di

ferente. Ao afirmar que Deus fez o mundo do nada, quer-se dizer que coloca o mundo em existência, como algo real, distinto dele, mas com uma realidade que é dada, que é

doação de Deus. A realidade do mundo — e, é claro, a do homem

— resulta de um

ato

consiste.

O cristão

transfere

para o Deus criador, do qual depende sua própria realidade, tudo 0 que se vê ou não se vê, toda a realidade criada.

A filosofia, a metafísica em sentido rigoroso, é uma busca da certeza radical sobre a rea lidade radical (a definição é

de Ortega, mas podemos apli cá-la a este pensamento ou

a

qualquer outro, já que é uma definição circunstancial). As sim sendo, o tema primário da

filosofia, a realidade da qual 0 cristão tem que dar razão, não é tanto o mundo, como Deus.

distinto

do

mundo, no sentido do que

Um

Deus

se


I

DIGESTO

104

chamará mais

cendência,

tarde de trans

um Deus

criador,

que tem, portanto, um modo de ser totalmente distinto do modo de ser do mundo: o ser do

mundo é criado, o de Deus, criador, é definido por atribu tos inteiramente distintos e, de certo modo, contrapostos.

nalmente se prios do ser.

Há,

ECONÔMICO

consideram pró

pois, um grau muito

mais profundo de analogia — se é que podemos continuar falando de analogia — entre Deus criador e mundo criado.

Se podemos aplicar a palavra ser a Deus e ao mundo, deve

mos descobrir um problemáti

Quando Aristóteles formu lou a teoria da analogia do en te, — “o ente se diz de muitas maneiras” (as quatro funda mentais e as dez categorias), afirma que há um análogo principal, um sentido primário do ser, que é precisamente a

co princípio de analogia.

substância, o ousia. Tudo o que

helênica e a pergunta radical se dirige a uma realidade, la tente, evidentemente, mas que

se pode dizer do ser ou é subs tância ou se refere de uma maneira ou outra à substância. Mas a totalidade do ente aris-

totélico é uma forma particu

lar de ser, o ser criado, fren te ao modo de ser radicalmen

te distinto, que é o ser criador. Se considerarmos o mundo a partir deste ponto de vista

(com 0 homem e tudo o que encerra),

aparece

como cria

tura, isto é, como uma reali dade dependente de outra, la boriosa, insuficiente, desprovi da dos atributos que tradicio-

Como se vê, quando se for mula uma questão verdadeira mente filosófica dentro do cris

tianismo (e não dentro do pen samento grego por um filósofo que pessoalmente é cristão) se transcende a toda colocação

tem

um

sentido

muito

mais

fundo que o da lactêncla com respeito à potência. E se des sa realidade se predica a pa

lavra ser, é num sentido intei ramente diverso, já que um é criador e o outro, criado. Um é ser dado, recebido, e o outro

é “dador”, que dá o outro ser, que põe em realidade a outras realidades. Esta é uma mudan

105

DIGESTO ECONÔMICO

O que quer dizer o que os gregos chamam de ontologia? Ontologia é o conhecimento do ente. Sim, mas agora a pala vra ente torna-se problemáti ca e duvidosa. Quando Aristó teles diz que a filosofia pri meira (próte phllosophia) é theologla, conhecimento do théos, evidentemente o théos de Aristóteles está dentro do sistema do mundo, não é um deus transcendente, menos ainda criador, é o primeiro mo tor imóvel, um Deus cósmico.

É ato, enérgela, atividade pu ra: as condições absolutas do

ente, é imóvel, não está sujei to à variação, tem os atribu tos plenos do verdadeiro ón, do ente que é realmente.

pensar essa realidade do

ser

criador, de Deus criador. E é tão radical que o que primeiro se deve investigar é se pode mos falar de ser, se essa no ção é adequada e suficiente. O cristianismo supõe

uma

descida ao subsolo da filosofia

grega. Mas não é só isto. Se nos detivermos na motivação do filósofo, naquilo que preci sa saber e que o leva a filoso

far, as diferenças são profun das. O pensamento grego nas

ce, como disse, porque as coi sas passam, variam, chegam a ser e deixam de ser, são ca ducas. Trata-se de buscar algo

que seja duradouro, permanen

te, para sempre. O pensamen Deus

to começa na Grécia como uma

ele é o criador de tu

significa descer

physlologia^ um conhecimento das coisas naturais, Há um

a um nível mais profundo, co

momento em que aparecem as

Mas cristão:

este

do isso. Isto

não

é

o

locar a questão a nível filosó fico, que é 0 de toda a filoso

fia grega. Isto não quer dizer que a potência intelectual dos filósofos cristãos seja maior que a dos gregos, mas que seu problema é mais fundo e radi

ça radical, que afeta o senti

cal.

Toda filosofia helênica é

do da pergunta filosófica e o próprio sentido do ser.

questão última é precisamente

assim,

penúltima,

porque

a

coisas

da cidade, as humanas

(desde os sofistas e Sócrates,

e cada vez mais nas filosofias

pós-aristotélicas). Do ponto de vista cristão, a

coisa é com

pletamente diferente, recorde-

mos o que Santo Agostinho quer

conhecer: "Deum et anima sci-

re cupio. Nihilne plus?

omnimo".

Quero

Níhil

conhecer

a


I

DIGESTO

104

chamará mais

cendência,

tarde de trans

um Deus

criador,

que tem, portanto, um modo de ser totalmente distinto do modo de ser do mundo: o ser do

mundo é criado, o de Deus, criador, é definido por atribu tos inteiramente distintos e, de certo modo, contrapostos.

nalmente se prios do ser.

Há,

ECONÔMICO

consideram pró

pois, um grau muito

mais profundo de analogia — se é que podemos continuar falando de analogia — entre Deus criador e mundo criado.

Se podemos aplicar a palavra ser a Deus e ao mundo, deve

mos descobrir um problemáti

Quando Aristóteles formu lou a teoria da analogia do en te, — “o ente se diz de muitas maneiras” (as quatro funda mentais e as dez categorias), afirma que há um análogo principal, um sentido primário do ser, que é precisamente a

co princípio de analogia.

substância, o ousia. Tudo o que

helênica e a pergunta radical se dirige a uma realidade, la tente, evidentemente, mas que

se pode dizer do ser ou é subs tância ou se refere de uma maneira ou outra à substância. Mas a totalidade do ente aris-

totélico é uma forma particu

lar de ser, o ser criado, fren te ao modo de ser radicalmen

te distinto, que é o ser criador. Se considerarmos o mundo a partir deste ponto de vista

(com 0 homem e tudo o que encerra),

aparece

como cria

tura, isto é, como uma reali dade dependente de outra, la boriosa, insuficiente, desprovi da dos atributos que tradicio-

Como se vê, quando se for mula uma questão verdadeira mente filosófica dentro do cris

tianismo (e não dentro do pen samento grego por um filósofo que pessoalmente é cristão) se transcende a toda colocação

tem

um

sentido

muito

mais

fundo que o da lactêncla com respeito à potência. E se des sa realidade se predica a pa

lavra ser, é num sentido intei ramente diverso, já que um é criador e o outro, criado. Um é ser dado, recebido, e o outro

é “dador”, que dá o outro ser, que põe em realidade a outras realidades. Esta é uma mudan

105

DIGESTO ECONÔMICO

O que quer dizer o que os gregos chamam de ontologia? Ontologia é o conhecimento do ente. Sim, mas agora a pala vra ente torna-se problemáti ca e duvidosa. Quando Aristó teles diz que a filosofia pri meira (próte phllosophia) é theologla, conhecimento do théos, evidentemente o théos de Aristóteles está dentro do sistema do mundo, não é um deus transcendente, menos ainda criador, é o primeiro mo tor imóvel, um Deus cósmico.

É ato, enérgela, atividade pu ra: as condições absolutas do

ente, é imóvel, não está sujei to à variação, tem os atribu tos plenos do verdadeiro ón, do ente que é realmente.

pensar essa realidade do

ser

criador, de Deus criador. E é tão radical que o que primeiro se deve investigar é se pode mos falar de ser, se essa no ção é adequada e suficiente. O cristianismo supõe

uma

descida ao subsolo da filosofia

grega. Mas não é só isto. Se nos detivermos na motivação do filósofo, naquilo que preci sa saber e que o leva a filoso

far, as diferenças são profun das. O pensamento grego nas

ce, como disse, porque as coi sas passam, variam, chegam a ser e deixam de ser, são ca ducas. Trata-se de buscar algo

que seja duradouro, permanen

te, para sempre. O pensamen Deus

to começa na Grécia como uma

ele é o criador de tu

significa descer

physlologia^ um conhecimento das coisas naturais, Há um

a um nível mais profundo, co

momento em que aparecem as

Mas cristão:

este

do isso. Isto

não

é

o

locar a questão a nível filosó fico, que é 0 de toda a filoso

fia grega. Isto não quer dizer que a potência intelectual dos filósofos cristãos seja maior que a dos gregos, mas que seu problema é mais fundo e radi

ça radical, que afeta o senti

cal.

Toda filosofia helênica é

do da pergunta filosófica e o próprio sentido do ser.

questão última é precisamente

assim,

penúltima,

porque

a

coisas

da cidade, as humanas

(desde os sofistas e Sócrates,

e cada vez mais nas filosofias

pós-aristotélicas). Do ponto de vista cristão, a

coisa é com

pletamente diferente, recorde-

mos o que Santo Agostinho quer

conhecer: "Deum et anima sci-

re cupio. Nihilne plus?

omnimo".

Quero

Níhil

conhecer

a


I

106

DIGESTO

Deus e à alma. Nada mais? Ab solutamente nada mais.

ECONÔMICO

sará a Santo Agostinho na me dida em que lhe faça falta para

nho emprega a palavra alma no sentido religioso com que aparece nos Evangelhos, O que significa a passagem evangéli ca em que se pergunta de que serve ao homem ganhar o mun do se perde a alma? A palavra alma quer dizer eu (não o eu),

conhecer a Deus e à alma.

quer dizer minha realidade.

O que tem isto a ver com os gregos? Com o pensamento antigo? Deus e a alma e nada mais. Tudo o mais

que

só interes

O

verdadeiramente lhe inte

ressa, 0 tema de sua investiga ção, é esse e não outro. O CRISTIANISMO

FOI

PENSADO, PELA PRIMEIRA VEZ, COM CONCEITOS GREGOS

Quando aplicamos a palavra filosofia ao pensamento da Gré cia e de Roma, ou ao cristia nismo como tal, falamos de coisas profundamente distintas.

O que se busca é outra coisa, 0 que se entende por verdade

é algo bem diferente. Quando Santo Agostinho diz — Deus et anima setre cupio — sua anima

pouco tem a ver com a psykhé aristotélica. Era ambos casos traduzimos alma. A alma

de Aristóteles é um principio natural, a Perl psykhês ou De Anima pertence aos tratados

físicos, enquanto Santo Agosti-

Minha realidade pessoal, algo que não existe para um grego, que não pensa nesses termos. Os gregos falam do

“homem” (aníhropos), dos mor tais e dos imortais que são os deuses. Quando usam os pro nomes, recorda Ortega, servem-se do plural nós — hemeís.

A

primeira

pessoa,

eu,

não

aparece.

107

buscar o eu, precisamente co mo pessoa, como intimidade, e

nela, a Deus. Eu me interesso a mim mesmo porque é aí onde

encontro Deus. Se o procuro pelo mundo, dificilmente o en contro. Quando entro em mim mesmo é quando posso desco brir 0 rastro de Deus, me des cubro como ímago Dei, imagem de Deus.

É na

dade

posso

que

em primeiro plano. Aparece a noção de alma como sinônimo

dessa pessoa que sou eu, que consisto primariamente em al ma ou espírito, spirltus^ e o

espírito é a entrada de si mes mo, a inferioridade, em forma superlativa, a intimidade “In homine

habitat

veri-

tas”, diz Santo Agostinho: no

filosofia cristã. Mas não se trata disto, em princípio. O cristianismo dá origem ^ a longo prazo — muito lentamen te, a uma mudança de perspec tiva do pensamento filosófico, um novo ponto de vista, uma transferência da importância das questões, um problema que

minha intimi

antes outra

encontrar

tivos.

o

rastro de Deus, onde posso rastrear essa realidade, não só suprema, como autora de todas

as demais, e é claro, da minha, enquanto criador. A REALIDADE DE DEUS CONSISTE EM AMOR

Em Santo Agostinho, sim, e

Interiori

DIGESTO ECONÔMICO

Essa mudança de perspec tiva é total. Mas não me pa rece que o mais interessante seja procurar no pensamento de três ou quatro séculos os elementos que se devem a uma

possível influência do cristia nismo ou à colocação de ques tões filosóficas que surgem por ocasião de uma consideração

homem interior, ou na interioridade do homem, habita a ver

teológica do conteúdo da reve lação cristã. Isto seria a reu

dade. Isto é na intimidade. Isto é totalmente novo. Trata-se de

nião dos ingredientes com os quais se fará algum dia uma

não existia. Busca-se coisa e por outros mo

Colocado 0 problema nestes termos, trata-se de buscar Deus onde pode ser encontrado em

primeiro lugar, onde mais se manifesta — em

mim.

Santo

Agostinho recorre rigorosamen te a seu eu — “mihí quaestio-

factus sum” — fiz questão de mim mesmo. Não é o caso de

perguntar o que é ò homem'. Aristóteles respondería — um

animal racional, um animal político, um animal social. Não 0 homem, mas eu. E quando neque Santo Agostinho diz ego ípse capio totu quod sum” — nem eu mesmo compreendo

tudo 0 que sou, — quer dizer que minha própria realidade me excede e não sou dono dela, porque me remete a algo que está mais além, e que seria


I

106

DIGESTO

Deus e à alma. Nada mais? Ab solutamente nada mais.

ECONÔMICO

sará a Santo Agostinho na me dida em que lhe faça falta para

nho emprega a palavra alma no sentido religioso com que aparece nos Evangelhos, O que significa a passagem evangéli ca em que se pergunta de que serve ao homem ganhar o mun do se perde a alma? A palavra alma quer dizer eu (não o eu),

conhecer a Deus e à alma.

quer dizer minha realidade.

O que tem isto a ver com os gregos? Com o pensamento antigo? Deus e a alma e nada mais. Tudo o mais

que

só interes

O

verdadeiramente lhe inte

ressa, 0 tema de sua investiga ção, é esse e não outro. O CRISTIANISMO

FOI

PENSADO, PELA PRIMEIRA VEZ, COM CONCEITOS GREGOS

Quando aplicamos a palavra filosofia ao pensamento da Gré cia e de Roma, ou ao cristia nismo como tal, falamos de coisas profundamente distintas.

O que se busca é outra coisa, 0 que se entende por verdade

é algo bem diferente. Quando Santo Agostinho diz — Deus et anima setre cupio — sua anima

pouco tem a ver com a psykhé aristotélica. Era ambos casos traduzimos alma. A alma

de Aristóteles é um principio natural, a Perl psykhês ou De Anima pertence aos tratados

físicos, enquanto Santo Agosti-

Minha realidade pessoal, algo que não existe para um grego, que não pensa nesses termos. Os gregos falam do

“homem” (aníhropos), dos mor tais e dos imortais que são os deuses. Quando usam os pro nomes, recorda Ortega, servem-se do plural nós — hemeís.

A

primeira

pessoa,

eu,

não

aparece.

107

buscar o eu, precisamente co mo pessoa, como intimidade, e

nela, a Deus. Eu me interesso a mim mesmo porque é aí onde

encontro Deus. Se o procuro pelo mundo, dificilmente o en contro. Quando entro em mim mesmo é quando posso desco brir 0 rastro de Deus, me des cubro como ímago Dei, imagem de Deus.

É na

dade

posso

que

em primeiro plano. Aparece a noção de alma como sinônimo

dessa pessoa que sou eu, que consisto primariamente em al ma ou espírito, spirltus^ e o

espírito é a entrada de si mes mo, a inferioridade, em forma superlativa, a intimidade “In homine

habitat

veri-

tas”, diz Santo Agostinho: no

filosofia cristã. Mas não se trata disto, em princípio. O cristianismo dá origem ^ a longo prazo — muito lentamen te, a uma mudança de perspec tiva do pensamento filosófico, um novo ponto de vista, uma transferência da importância das questões, um problema que

minha intimi

antes outra

encontrar

tivos.

o

rastro de Deus, onde posso rastrear essa realidade, não só suprema, como autora de todas

as demais, e é claro, da minha, enquanto criador. A REALIDADE DE DEUS CONSISTE EM AMOR

Em Santo Agostinho, sim, e

Interiori

DIGESTO ECONÔMICO

Essa mudança de perspec tiva é total. Mas não me pa rece que o mais interessante seja procurar no pensamento de três ou quatro séculos os elementos que se devem a uma

possível influência do cristia nismo ou à colocação de ques tões filosóficas que surgem por ocasião de uma consideração

homem interior, ou na interioridade do homem, habita a ver

teológica do conteúdo da reve lação cristã. Isto seria a reu

dade. Isto é na intimidade. Isto é totalmente novo. Trata-se de

nião dos ingredientes com os quais se fará algum dia uma

não existia. Busca-se coisa e por outros mo

Colocado 0 problema nestes termos, trata-se de buscar Deus onde pode ser encontrado em

primeiro lugar, onde mais se manifesta — em

mim.

Santo

Agostinho recorre rigorosamen te a seu eu — “mihí quaestio-

factus sum” — fiz questão de mim mesmo. Não é o caso de

perguntar o que é ò homem'. Aristóteles respondería — um

animal racional, um animal político, um animal social. Não 0 homem, mas eu. E quando neque Santo Agostinho diz ego ípse capio totu quod sum” — nem eu mesmo compreendo

tudo 0 que sou, — quer dizer que minha própria realidade me excede e não sou dono dela, porque me remete a algo que está mais além, e que seria


DIGESTO

106

necessário para o conhecimen to. Isto nada tem a ver com o

pensamento

helênico

ou

ro

a realidade criada, e a mim, sua imagem e semelhança. Esta a nova perspectiva di fícil de descobrir e

mano.

Para formular este proble ma, Santo Agostinho recorrerá, evidentemente, ao pensamento grego. Os conceitos, os recur sos, serão helênicos ou roma nos. Mas 0 problema, não. Nem a perspectiva, e menos ainda a motivação. Eu preciso saber quem sou eu, e não entendo quem sou se não compreendo toda a minha realidade, que não é redutível a uma coisa, mas que é uma pessoa. A isto Santo Agostinho chamará spirltus ou anima, algo definido pela entrada em si mesmo, a interioridade, a intimidade, on de me descubro

ECONÔMICO

como

ímago

Dei. Eu preciso, por conseguin te, conhecer a Deus para saber quem sou, e a única maneira de conhecer a Deus é aprofun dar em mim mesmo, levar ao extremo a compreensão desta imagem, porque somente assim poderei entrever ou conhecer, de algum modo, essa realidade da qual sou imagem', e que é a divindade, o ser criador, que contém em sua existência toda

formular.

Se queremos traduzir isto em termos doutrinários, tudo se desvanece. Não

há

nada

que

se possa parecer a um sistema filosófico, comparável ao aristotelismo, por exemplo, feito a partir do pensamento cristão.

Há um hiato, um abismo que separa mento

idearum

a realidade do cristão como

de

pensa corpus

seu próprio pro

blema original. Há um equívo co naquilo que se chama de pensamento cristão, já que os textos, os raciocínios, não co brem, adequadamente, aquilo de que se está falando, ou seja, aquilo de que se trata e de que não se chega, precisamente, a falar. É um pensamento mas carado em grande parte. Tra

ta-se, no fundo, de outra coisa. E por isso aparece no pensa

mento cristão, de modo recor

rente, uma desvalorização de si mesmo, uma falta de estima a respeito de suas realizações. O cristão, como tal, forja uma

doutrina, que depende em últi ma

instância

do

pensamento

greco-romano, sente no fim que

DÍGESTO ECONÔMICO

109

não é isso, que há por baixo uma questão mais radical, mais importante, que não consegue sequer formular. Este desajuste entre a ins piração do pensamento cristão e sua realização é dramático. Em alguns momentos parece que a filosofia se aproxima dos seus problemas, mas são òs me

nores.

Curiosamente,

quanto

maior perfeição dialética e de raciocínio se alcança maior ó

a distância. Há uma inundação de um pensamento

complexO;

rico, perfeito — o grego —, que acaba abrumando e quase escur.ecendo essa intuição capi tal, esse problema radical que é 0 verdadeiro assunto do pen samento cristão. O tomismo, por exemplo, está literalmente inundado pelo pensamento aristotélico, a tal ponto que São To

más tem a impressão de que o filosofia já está feita: foi feita

por Aristóteles, que a fez admi ravelmente e é verdade tudo o

que disse. Santo Tomás faz sua filosofia pessoal nos interstícios do aristotelismo. É como as er vas que nascem entre as pe dras. Nos interstícios dessa

maravilha intelectual quase to¬

da verdadeira que é o pensa

mento aristotélico, aí está o que seria próprio do pensamento de Santo Tomás.

Em Santo Agostinho, em Santo Anselmo, em Hugo e Ri

cardo de San Victor, às vezes em Santo Tomás, em Eckehart, aflora em alguns momentos, ao longo da Idade Média, a nota radical e profunda em que con siste a inovação do cristianis mo. Em "San Anselmo y el In sensato" tentei mostrar esse nú

cleo original, ao analisar o sen tido do argumento ontológico nos quatro primeiros capítulos da "Proslogíon" de Santo Ansel

mo, há mais de quarenta e cin co anos. Creio que ali se pode encontrar o primeiro germe do que agora estou desenvolvendo. A raiz de boa parte

destes

equívocos consiste em que

o

cristianismo não era uma filo

sofia, nem sequer uma teologia, mas uma religião. Acontece que o cristão pode ter de fazer uma filosofia. Quando e por quê? A idéia de que o cristianis

mo dá uma segurança, e, por tanto, 0 cristão não tem razão de ser filósofo a não ser na me-


DIGESTO

106

necessário para o conhecimen to. Isto nada tem a ver com o

pensamento

helênico

ou

ro

a realidade criada, e a mim, sua imagem e semelhança. Esta a nova perspectiva di fícil de descobrir e

mano.

Para formular este proble ma, Santo Agostinho recorrerá, evidentemente, ao pensamento grego. Os conceitos, os recur sos, serão helênicos ou roma nos. Mas 0 problema, não. Nem a perspectiva, e menos ainda a motivação. Eu preciso saber quem sou eu, e não entendo quem sou se não compreendo toda a minha realidade, que não é redutível a uma coisa, mas que é uma pessoa. A isto Santo Agostinho chamará spirltus ou anima, algo definido pela entrada em si mesmo, a interioridade, a intimidade, on de me descubro

ECONÔMICO

como

ímago

Dei. Eu preciso, por conseguin te, conhecer a Deus para saber quem sou, e a única maneira de conhecer a Deus é aprofun dar em mim mesmo, levar ao extremo a compreensão desta imagem, porque somente assim poderei entrever ou conhecer, de algum modo, essa realidade da qual sou imagem', e que é a divindade, o ser criador, que contém em sua existência toda

formular.

Se queremos traduzir isto em termos doutrinários, tudo se desvanece. Não

há

nada

que

se possa parecer a um sistema filosófico, comparável ao aristotelismo, por exemplo, feito a partir do pensamento cristão.

Há um hiato, um abismo que separa mento

idearum

a realidade do cristão como

de

pensa corpus

seu próprio pro

blema original. Há um equívo co naquilo que se chama de pensamento cristão, já que os textos, os raciocínios, não co brem, adequadamente, aquilo de que se está falando, ou seja, aquilo de que se trata e de que não se chega, precisamente, a falar. É um pensamento mas carado em grande parte. Tra

ta-se, no fundo, de outra coisa. E por isso aparece no pensa

mento cristão, de modo recor

rente, uma desvalorização de si mesmo, uma falta de estima a respeito de suas realizações. O cristão, como tal, forja uma

doutrina, que depende em últi ma

instância

do

pensamento

greco-romano, sente no fim que

DÍGESTO ECONÔMICO

109

não é isso, que há por baixo uma questão mais radical, mais importante, que não consegue sequer formular. Este desajuste entre a ins piração do pensamento cristão e sua realização é dramático. Em alguns momentos parece que a filosofia se aproxima dos seus problemas, mas são òs me

nores.

Curiosamente,

quanto

maior perfeição dialética e de raciocínio se alcança maior ó

a distância. Há uma inundação de um pensamento

complexO;

rico, perfeito — o grego —, que acaba abrumando e quase escur.ecendo essa intuição capi tal, esse problema radical que é 0 verdadeiro assunto do pen samento cristão. O tomismo, por exemplo, está literalmente inundado pelo pensamento aristotélico, a tal ponto que São To

más tem a impressão de que o filosofia já está feita: foi feita

por Aristóteles, que a fez admi ravelmente e é verdade tudo o

que disse. Santo Tomás faz sua filosofia pessoal nos interstícios do aristotelismo. É como as er vas que nascem entre as pe dras. Nos interstícios dessa

maravilha intelectual quase to¬

da verdadeira que é o pensa

mento aristotélico, aí está o que seria próprio do pensamento de Santo Tomás.

Em Santo Agostinho, em Santo Anselmo, em Hugo e Ri

cardo de San Victor, às vezes em Santo Tomás, em Eckehart, aflora em alguns momentos, ao longo da Idade Média, a nota radical e profunda em que con siste a inovação do cristianis mo. Em "San Anselmo y el In sensato" tentei mostrar esse nú

cleo original, ao analisar o sen tido do argumento ontológico nos quatro primeiros capítulos da "Proslogíon" de Santo Ansel

mo, há mais de quarenta e cin co anos. Creio que ali se pode encontrar o primeiro germe do que agora estou desenvolvendo. A raiz de boa parte

destes

equívocos consiste em que

o

cristianismo não era uma filo

sofia, nem sequer uma teologia, mas uma religião. Acontece que o cristão pode ter de fazer uma filosofia. Quando e por quê? A idéia de que o cristianis

mo dá uma segurança, e, por tanto, 0 cristão não tem razão de ser filósofo a não ser na me-


DIGESTO

-11-0

dida em que já não é cristã, ou não o é plena e autenticamente nunca

me

convenceu

inteira

mente, ainda que tenha sido compartilhada por Ortega em algumas ocasiões. Porque ê um nível de segurança que não tem muito a ver com o outro. O CRISTÃO TRANSFERE PARA DEUS TODA A REALIDADE CRIADA

Quando se fala da “seguran ça do cristão”, do que se trata? O cristão está seguro, tem se gurança de quê? Está certo de que a realidade criada é ape nas criada; é secundária em re lação ao criador. Mas isto não suprime o problema, ao contrá

rio, toma mais problemática .r realidade criada. Porque além de todos os problemas que n

homem tem normalmente, .está, ainda, o problema da criação. Todos os problemas da ontologia aristotélica, por exemplo, são váHdos para o cristão. Para ele, como para o grego, é iguaimente problemático saber o que é substância e o que é aciden

te, o que é ato e o que é po

ECONÔMICO

DIGESTO ECONÔMICO

111

go, a questão prévia e radical

que, no suposto da aniquilação,

do por que existe algo ou por que há realidade, não represen ta um problema. O que sim r preocupa é saber por que as

nam no dia de minha morte, e acabou-se a questão. Portanto, é questão de esperar.

coisas mudam, por que variam, por que perecem, mas a reali dade como tal não é um proble ma para ele e sim para o cris tão. Assim como a questão a respeito da realidade, que clas se de realidade é essa que sus tenta sua existência, que pode ser criadora, que pode, não so mente ser como fazer ser.

Assim é que se olharmos de

perto a segurança do cristão, resulta ela muito insegura. Ou

tro aspecto decisivo: o que está ■em questão para o cristão é. em cada caso, eu. Mlhl quaestio factus sum. Isto é, estou envolvido no problema. Preciso saber a que me ater com res Não me basta, peito a mim. portanto, conhecer o que acon tece com 0 cosmos, homem,

ou com o

Não se trata do ho-

mem, trata-se de mim enquanto

realidade estritamentel pessoal

e, - não 0 esqueçamos,

que se

entende perdurável, destinada a

perdurar.

Isto quer dizer que

tência, o que são as categorias.

não haverá um só dia em que

Acrescente-se que, para o gre-

por-

o problema desapareça,

todos os meus problemas termi

O argumento de Epicui’o, co locado cruamente, é este: a morte não me inquieta, porque

enquanto vivo, a morte não exis te, e quando a morte chega, já não estou eu. Ou seja, nunca me encontro com ela. A morte

entra por uma porta e eu saio por outra. Esta é uma forma bastante crua, mas é o que, em definitivo, os gregos pensam. Para o grego a perduração é bastante duvidosa e, em todo caso, tem um caráter relativa mente impessoal. 0 grego não está muito certo da imortalida

de pessoal, mas coloca a ques tão em termos bastante abstra

tos, como a sobrevivência

da

alma — a psykhé — no Hades. Não bem esse caráter estrita-

mente pessoal que tem para o cristão.

Dentro do

Cristianis

mo, se trata de mim, de meu próprio destino, do que se cha mará a salvação — sentido que se banalizou depois, mas que deve recuperar todo seu valor.

Assim, a realidade sempre vai me preocupar. Não haverá

um só momento em que se pos sa dizer: apaga e vamos embo ra, acabaram-ss os problemas. Os problemas não acabam.

Ao

contrário, são muito mais agu dos, pois o cristão, no fundo, es tá muito menos seguro do que aquele que não é cristão. Tem todos os problemas do não-cristão e outros mais graves ainda. Nunca me par-sceu que o cris tão, quando está instalado na sua fé, tenha seus problemas resolvidos.

Acontece que tem havido, dentro do cristianismo, uma es

pécie de jogo duplo. Isto é, co locaram-se com frequência

os

problemas no mesmo nível em que eles eram colocados para o filósofo antigo. E, dessa ma neira, os problemas estão, de certo modo, resolvidos se se parte da fé.

Afirma-se: o mun

do foi criado, toda a realidade é criada; depende de um ato de criação; Deus é a realidade su

perior e criadora, etc.

Neste

caso, parece haver, efetivamen te, segurança, mas seria a se gurança do grego. Podemos di zer que se um grego acreditas

se no conteúdo da

revelação

cristã, se sentiria seguro. Mas, o cristão não se sente seguro,


DIGESTO

-11-0

dida em que já não é cristã, ou não o é plena e autenticamente nunca

me

convenceu

inteira

mente, ainda que tenha sido compartilhada por Ortega em algumas ocasiões. Porque ê um nível de segurança que não tem muito a ver com o outro. O CRISTÃO TRANSFERE PARA DEUS TODA A REALIDADE CRIADA

Quando se fala da “seguran ça do cristão”, do que se trata? O cristão está seguro, tem se gurança de quê? Está certo de que a realidade criada é ape nas criada; é secundária em re lação ao criador. Mas isto não suprime o problema, ao contrá

rio, toma mais problemática .r realidade criada. Porque além de todos os problemas que n

homem tem normalmente, .está, ainda, o problema da criação. Todos os problemas da ontologia aristotélica, por exemplo, são váHdos para o cristão. Para ele, como para o grego, é iguaimente problemático saber o que é substância e o que é aciden

te, o que é ato e o que é po

ECONÔMICO

DIGESTO ECONÔMICO

111

go, a questão prévia e radical

que, no suposto da aniquilação,

do por que existe algo ou por que há realidade, não represen ta um problema. O que sim r preocupa é saber por que as

nam no dia de minha morte, e acabou-se a questão. Portanto, é questão de esperar.

coisas mudam, por que variam, por que perecem, mas a reali dade como tal não é um proble ma para ele e sim para o cris tão. Assim como a questão a respeito da realidade, que clas se de realidade é essa que sus tenta sua existência, que pode ser criadora, que pode, não so mente ser como fazer ser.

Assim é que se olharmos de

perto a segurança do cristão, resulta ela muito insegura. Ou

tro aspecto decisivo: o que está ■em questão para o cristão é. em cada caso, eu. Mlhl quaestio factus sum. Isto é, estou envolvido no problema. Preciso saber a que me ater com res Não me basta, peito a mim. portanto, conhecer o que acon tece com 0 cosmos, homem,

ou com o

Não se trata do ho-

mem, trata-se de mim enquanto

realidade estritamentel pessoal

e, - não 0 esqueçamos,

que se

entende perdurável, destinada a

perdurar.

Isto quer dizer que

tência, o que são as categorias.

não haverá um só dia em que

Acrescente-se que, para o gre-

por-

o problema desapareça,

todos os meus problemas termi

O argumento de Epicui’o, co locado cruamente, é este: a morte não me inquieta, porque

enquanto vivo, a morte não exis te, e quando a morte chega, já não estou eu. Ou seja, nunca me encontro com ela. A morte

entra por uma porta e eu saio por outra. Esta é uma forma bastante crua, mas é o que, em definitivo, os gregos pensam. Para o grego a perduração é bastante duvidosa e, em todo caso, tem um caráter relativa mente impessoal. 0 grego não está muito certo da imortalida

de pessoal, mas coloca a ques tão em termos bastante abstra

tos, como a sobrevivência

da

alma — a psykhé — no Hades. Não bem esse caráter estrita-

mente pessoal que tem para o cristão.

Dentro do

Cristianis

mo, se trata de mim, de meu próprio destino, do que se cha mará a salvação — sentido que se banalizou depois, mas que deve recuperar todo seu valor.

Assim, a realidade sempre vai me preocupar. Não haverá

um só momento em que se pos sa dizer: apaga e vamos embo ra, acabaram-ss os problemas. Os problemas não acabam.

Ao

contrário, são muito mais agu dos, pois o cristão, no fundo, es tá muito menos seguro do que aquele que não é cristão. Tem todos os problemas do não-cristão e outros mais graves ainda. Nunca me par-sceu que o cris tão, quando está instalado na sua fé, tenha seus problemas resolvidos.

Acontece que tem havido, dentro do cristianismo, uma es

pécie de jogo duplo. Isto é, co locaram-se com frequência

os

problemas no mesmo nível em que eles eram colocados para o filósofo antigo. E, dessa ma neira, os problemas estão, de certo modo, resolvidos se se parte da fé.

Afirma-se: o mun

do foi criado, toda a realidade é criada; depende de um ato de criação; Deus é a realidade su

perior e criadora, etc.

Neste

caso, parece haver, efetivamen te, segurança, mas seria a se gurança do grego. Podemos di zer que se um grego acreditas

se no conteúdo da

revelação

cristã, se sentiria seguro. Mas, o cristão não se sente seguro,


DIGESTO

112

porque é outro seu

problema,

muito mais radical. Aquilo que tranquilizaria o grego, não tran

quiliza o cristão. Não creio que o cristão dispense a filosofia, de modo algum. Mas a coisa é mais grave ainda.

Até agora falamos, bastan

te helenicamente, do ser cria dor e do ser criado.

E, mais

cristãmente, de que o homem

I

é imagem e semelhança de Deus. Parece que se trata de uma hierarquia dos entes: o criado é, evidentemente, infe rior ao criador, tem uma reali dade que não se basta a si mes ma, recebida, mantida por uma potência criadora. Há outro ti po de realidade, o ser criador, suficiente, necessário e podero so.

E

há

.essa realidade

es

tranha que é o homem, criada como as demais, mas à imagem e semelhança de Deus. Isto è,

ECONÔMICO

do (é uma realidad.9 criada co mo as outras), mas seu mode lo não é criado, é o Criador,

Deus, o que lhe confere

uma

posição intermediária extrema-

realidade

de

Deus, o cristão

não diz nada que se pareça com 0 que diz o pensamento grego. Não se trata de algo que

seja separado (khoristón), ab soluto, ou que seja imperecível e incorruptível, o primeiro mo tor imóvel que move sem ser movido. Tudo isto pode ser ver

dade, e será recolhido por São

Tomás que o levará à teologia e à filosofia. Sim, mas não é 0 primário. No Antigo Testa mento, Deus diz: "Eu sou o que

sou, sou, sou”. Eu . Que senti do

teria

isto

na

boca de

um

tem certo parecido com Deus. Enquanto Deus cria as coisas tendo em

que tem isto a ver com o con

modelos

exemplares (idéia platônica que passa para o cristianismo, e que será interpretada como as "es

ceito grego de alethéla, ainda que seja precisamente esta pa

pécies”), 0 modelo

seu

exemplar

com o qual Deus cria o homem é 0 próprio Deus, o que não re tira 0 homem do mundo do cria-

0 CRISTIANISMO SUPÕE UMA DESCIDA AO SUBSOLO DA FILOSOFIA

deus grego? Ou para o Deus dos filósofos gregos? Quando Cristo diz "Eu sou a verdade”,

mente os

taçào das coisas? É uma pessoa quem diz: eu sou a verdade.

mente estranha.

Este não é, entretanto, o ponto mais delicado e grave. Quando se coloca a questão da

lavra a que São João usa no

Evangelho e que Cristo usou, provavelmente, ao falar com

Pilatos? O que isto tem a

ver com a patencía, a manifes-

H3

DIGESTO ECONÔMICO

realidade é essa — o amor —

que se predica de Deus, e, por isso mesmo, do homem tam

bém, já que 0 homem é ima gem de Deus.

GREGA

Deus 0 0 homem aparecem como

Quando o pensamento cris tão original se formaliza, tanto

São João como São Paulo, di rão que Deus é amor Amor? O que tem isto a ver com as

condições do ente? Recorde-se que 0 modelo que serve de ba se ao pensamento grego são os objetos matemáticos, únicos, imutáveis, invariáveis que não são gerados nem parecem, es tritas "consistências”. Mas não

são reais, não são coisas ver dadeiramente.

Se juntássemes

o caráter de coisa real, separa da de “volume”, a essa imuta

bilidade, isto seria o ser verda deiro.

0 grego se lhe dissessem a sério que Deus é amor. Lembremos que isto levou muito tempo para ser levado a sério dentro do cristianismo, fora da vida

O gre-

amorosas

e

pessoais. Pessoais no sentido cie que se lhes pode aplicar — ao homem de modo direto e a Deus de maneira analógica, ou palavras copor eminência mo quem ou como eu e tu. E esse amor é efusivo, algo que mana e se difunde; que se di

funde (ou melhor, efunde), mas

que não é emanação. Que põa e.xistência realidades distin tas de Deus. O modo de efusão na

amor divino é tal que faz dá realidade àquilo que scr. ó ele mesmo. Não que nao oesse

Deus se ame a si mesmo, se difunda a

si

mesmo,

Uno de Plotino.

Imagine-se a cara que faria

estritamente religiosa.

realidades

como

o

O grego, mal

que bem, o entenderia.

Mas

não é isso. Deus coloca em existência alguém com quem se

pode defrontar e não algo, apeA criatura pode levantar-

nas.

se frente a Deus

e dizer-lhe:

não. E por seu lado, o amor hu-

go não entenderia que tipo de 'mano consiste em projeção em


DIGESTO

112

porque é outro seu

problema,

muito mais radical. Aquilo que tranquilizaria o grego, não tran

quiliza o cristão. Não creio que o cristão dispense a filosofia, de modo algum. Mas a coisa é mais grave ainda.

Até agora falamos, bastan

te helenicamente, do ser cria dor e do ser criado.

E, mais

cristãmente, de que o homem

I

é imagem e semelhança de Deus. Parece que se trata de uma hierarquia dos entes: o criado é, evidentemente, infe rior ao criador, tem uma reali dade que não se basta a si mes ma, recebida, mantida por uma potência criadora. Há outro ti po de realidade, o ser criador, suficiente, necessário e podero so.

E

há

.essa realidade

es

tranha que é o homem, criada como as demais, mas à imagem e semelhança de Deus. Isto è,

ECONÔMICO

do (é uma realidad.9 criada co mo as outras), mas seu mode lo não é criado, é o Criador,

Deus, o que lhe confere

uma

posição intermediária extrema-

realidade

de

Deus, o cristão

não diz nada que se pareça com 0 que diz o pensamento grego. Não se trata de algo que

seja separado (khoristón), ab soluto, ou que seja imperecível e incorruptível, o primeiro mo tor imóvel que move sem ser movido. Tudo isto pode ser ver

dade, e será recolhido por São

Tomás que o levará à teologia e à filosofia. Sim, mas não é 0 primário. No Antigo Testa mento, Deus diz: "Eu sou o que

sou, sou, sou”. Eu . Que senti do

teria

isto

na

boca de

um

tem certo parecido com Deus. Enquanto Deus cria as coisas tendo em

que tem isto a ver com o con

modelos

exemplares (idéia platônica que passa para o cristianismo, e que será interpretada como as "es

ceito grego de alethéla, ainda que seja precisamente esta pa

pécies”), 0 modelo

seu

exemplar

com o qual Deus cria o homem é 0 próprio Deus, o que não re tira 0 homem do mundo do cria-

0 CRISTIANISMO SUPÕE UMA DESCIDA AO SUBSOLO DA FILOSOFIA

deus grego? Ou para o Deus dos filósofos gregos? Quando Cristo diz "Eu sou a verdade”,

mente os

taçào das coisas? É uma pessoa quem diz: eu sou a verdade.

mente estranha.

Este não é, entretanto, o ponto mais delicado e grave. Quando se coloca a questão da

lavra a que São João usa no

Evangelho e que Cristo usou, provavelmente, ao falar com

Pilatos? O que isto tem a

ver com a patencía, a manifes-

H3

DIGESTO ECONÔMICO

realidade é essa — o amor —

que se predica de Deus, e, por isso mesmo, do homem tam

bém, já que 0 homem é ima gem de Deus.

GREGA

Deus 0 0 homem aparecem como

Quando o pensamento cris tão original se formaliza, tanto

São João como São Paulo, di rão que Deus é amor Amor? O que tem isto a ver com as

condições do ente? Recorde-se que 0 modelo que serve de ba se ao pensamento grego são os objetos matemáticos, únicos, imutáveis, invariáveis que não são gerados nem parecem, es tritas "consistências”. Mas não

são reais, não são coisas ver dadeiramente.

Se juntássemes

o caráter de coisa real, separa da de “volume”, a essa imuta

bilidade, isto seria o ser verda deiro.

0 grego se lhe dissessem a sério que Deus é amor. Lembremos que isto levou muito tempo para ser levado a sério dentro do cristianismo, fora da vida

O gre-

amorosas

e

pessoais. Pessoais no sentido cie que se lhes pode aplicar — ao homem de modo direto e a Deus de maneira analógica, ou palavras copor eminência mo quem ou como eu e tu. E esse amor é efusivo, algo que mana e se difunde; que se di

funde (ou melhor, efunde), mas

que não é emanação. Que põa e.xistência realidades distin tas de Deus. O modo de efusão na

amor divino é tal que faz dá realidade àquilo que scr. ó ele mesmo. Não que nao oesse

Deus se ame a si mesmo, se difunda a

si

mesmo,

Uno de Plotino.

Imagine-se a cara que faria

estritamente religiosa.

realidades

como

o

O grego, mal

que bem, o entenderia.

Mas

não é isso. Deus coloca em existência alguém com quem se

pode defrontar e não algo, apeA criatura pode levantar-

nas.

se frente a Deus

e dizer-lhe:

não. E por seu lado, o amor hu-

go não entenderia que tipo de 'mano consiste em projeção em


I

114

DIGESTO

direção do outro, ou com o ou tro, e está nutrido da alteridade. O CRISTÃO

ESTÁ

MENOS SEGURO

criado, enquanto eu, é absoluto. Está ante Deus, pode amá-lo, pode negá-lo, pode opôr-se a Uma vez que recebeu sua

tem

como

coisa

própria e tem que fazê-la longo de toda sua vida.

ao

Isto nada tem a ver com o

pensamento antigo, a partir de cujos supostos seria ininteli gível. Significa uma mudança radical de instalação no mundo. Uma mutação do próprio tema da filosofia, da problematicidade filosófica enquanto tal. Esta inovação se expressa em con

ceitos como 0 de pessoa, filia ção. Deus é pai, não o pai dos

homens, mas nosso pai, de ca

da um de nós, definido por esse amor

indeficiente.

E

irmãos, o judeu, o grego, o ro

na, a plenitude, o cumprimen

não, por que, então? Curiosa mente isto é 0 que se esquece hoje, depois de dois milênios de

O homem criado por Deus, radicalmente dependente dele, enquanto criatura, uma vez

realidade, a

Essa ressurreição não signi fica apenas perduração. Signi fica participação na vida divi

mos todos filhos de Deus — se

QUE NÃO É CRISTÃO

somos

nós, por ser filhos do Pai, ir mãos. Isto tem pouco sentido

115

DIGESTO ECONÔMICO

para o homem antigo. Só são irmãos os filhos do mesmo pai. Quando se diz que somos mano, isto é assim porque so

QUE AQUELE

ele.

ECONÔMICO

cristianismo.

Esta é a mudança radical, tão radical que rara vez se per cebe. E como se fosse pouco, o cristão faz esta colocação pen sando em sua vida perdurável, que não consiste apenas e prin cipalmente na imortalidade do

homem (o que para um grego faz muito sentido já que mui tos acreditaram que o homem ou pelo menos parte dele era imortal). O que cre e espera o cristão é a ressurreição. Que terá uma vida pessoal e corporea,

exatamente

ressuscitado.

como Cristo

Se somente nesta

vida esperamos em Cristo, so mos os mais miseráveis de to

dos os homens, diz São Paulo. Se os mortos não ressuscitam,

Cristo não ressuscitou, nossa predicação é falsa, vã é nossa fé. Isto gentios.

é escândalo

para

os

to dessa filiação que consiste em amor. Acontece que os teó 0 logos se intelectualizaram que não quer dizer que tenham

sido excessivamente inteligen tes — e desde Santo Tomás, es

pecialmente, insistem quase que exclusivamente na visão beatífica. Isto é capital, não o nego, mas não é da visão beatífica

que falavam São João e São Paulo. Trata-se de amor, da

participação real na vida divi na, de sermos "filhos da casa”, de uma nova Jerusalém. A vi

da perdurável (ou eterna como se diz impropriamente), a vid-^ humana pessoal perdurável. E essa vida há de acontecer no outro mundo, que é outro e é

mundo. Ou, para empregar uma terminologia atual e própria, trata-se de uma tancial.

vida

circuns

Tudo isto é alheio ao pensa mento grego. E também ao cristão, se poderá dizer. Evi dentemente é 0 que se deveria dizer. Mas, em última análise, tudo isto foi muito pouco pen-

sado. É curioso ver que entre uma vida religiosa meramente piedosa de um lado, e uma es peculação teológica e filosófi ca helenizada, de outro, esca pou 0 significado da verdadei ra transformação da filosofia ouando nela irrompe o cristia nismo. Essa forma de filosofia

é cansativa, difícil de manfer, e

se abandona

uma

vtz

e ou

tra, se cai dela comn se fosse uma cri-^ta instável. Esta é a história inteira do pensamento europeu desde as origens do cristianismo até hoje.

Essa filosofia que nasce

do

cristianismo, da condição humana que é ser cristão, ainda

está por fazer, e é possível que se’a nosso tempo, o que mais

tenha afastado dela e o que e possuir. chegou a elaborar se

por primeira vez, o repertório de conceitos adequados com os

quais seria possível tentar oensá-la. Conceitos que trazem den

tro de si, é claro, toda a tra dição grega, mas que não se resumem a ela, não dependem dela, e se atrevem a exercer frente a essa ilustre, prodigio

sa tradição, a liberdade.


I

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DIGESTO

direção do outro, ou com o ou tro, e está nutrido da alteridade. O CRISTÃO

ESTÁ

MENOS SEGURO

criado, enquanto eu, é absoluto. Está ante Deus, pode amá-lo, pode negá-lo, pode opôr-se a Uma vez que recebeu sua

tem

como

coisa

própria e tem que fazê-la longo de toda sua vida.

ao

Isto nada tem a ver com o

pensamento antigo, a partir de cujos supostos seria ininteli gível. Significa uma mudança radical de instalação no mundo. Uma mutação do próprio tema da filosofia, da problematicidade filosófica enquanto tal. Esta inovação se expressa em con

ceitos como 0 de pessoa, filia ção. Deus é pai, não o pai dos

homens, mas nosso pai, de ca

da um de nós, definido por esse amor

indeficiente.

E

irmãos, o judeu, o grego, o ro

na, a plenitude, o cumprimen

não, por que, então? Curiosa mente isto é 0 que se esquece hoje, depois de dois milênios de

O homem criado por Deus, radicalmente dependente dele, enquanto criatura, uma vez

realidade, a

Essa ressurreição não signi fica apenas perduração. Signi fica participação na vida divi

mos todos filhos de Deus — se

QUE NÃO É CRISTÃO

somos

nós, por ser filhos do Pai, ir mãos. Isto tem pouco sentido

115

DIGESTO ECONÔMICO

para o homem antigo. Só são irmãos os filhos do mesmo pai. Quando se diz que somos mano, isto é assim porque so

QUE AQUELE

ele.

ECONÔMICO

cristianismo.

Esta é a mudança radical, tão radical que rara vez se per cebe. E como se fosse pouco, o cristão faz esta colocação pen sando em sua vida perdurável, que não consiste apenas e prin cipalmente na imortalidade do

homem (o que para um grego faz muito sentido já que mui tos acreditaram que o homem ou pelo menos parte dele era imortal). O que cre e espera o cristão é a ressurreição. Que terá uma vida pessoal e corporea,

exatamente

ressuscitado.

como Cristo

Se somente nesta

vida esperamos em Cristo, so mos os mais miseráveis de to

dos os homens, diz São Paulo. Se os mortos não ressuscitam,

Cristo não ressuscitou, nossa predicação é falsa, vã é nossa fé. Isto gentios.

é escândalo

para

os

to dessa filiação que consiste em amor. Acontece que os teó 0 logos se intelectualizaram que não quer dizer que tenham

sido excessivamente inteligen tes — e desde Santo Tomás, es

pecialmente, insistem quase que exclusivamente na visão beatífica. Isto é capital, não o nego, mas não é da visão beatífica

que falavam São João e São Paulo. Trata-se de amor, da

participação real na vida divi na, de sermos "filhos da casa”, de uma nova Jerusalém. A vi

da perdurável (ou eterna como se diz impropriamente), a vid-^ humana pessoal perdurável. E essa vida há de acontecer no outro mundo, que é outro e é

mundo. Ou, para empregar uma terminologia atual e própria, trata-se de uma tancial.

vida

circuns

Tudo isto é alheio ao pensa mento grego. E também ao cristão, se poderá dizer. Evi dentemente é 0 que se deveria dizer. Mas, em última análise, tudo isto foi muito pouco pen-

sado. É curioso ver que entre uma vida religiosa meramente piedosa de um lado, e uma es peculação teológica e filosófi ca helenizada, de outro, esca pou 0 significado da verdadei ra transformação da filosofia ouando nela irrompe o cristia nismo. Essa forma de filosofia

é cansativa, difícil de manfer, e

se abandona

uma

vtz

e ou

tra, se cai dela comn se fosse uma cri-^ta instável. Esta é a história inteira do pensamento europeu desde as origens do cristianismo até hoje.

Essa filosofia que nasce

do

cristianismo, da condição humana que é ser cristão, ainda

está por fazer, e é possível que se’a nosso tempo, o que mais

tenha afastado dela e o que e possuir. chegou a elaborar se

por primeira vez, o repertório de conceitos adequados com os

quais seria possível tentar oensá-la. Conceitos que trazem den

tro de si, é claro, toda a tra dição grega, mas que não se resumem a ela, não dependem dela, e se atrevem a exercer frente a essa ilustre, prodigio

sa tradição, a liberdade.


I

116

DIGESTO

Vários vícios acompanham a maconha

ECONÔMICO

PesQuUa reali zada

no

A heróica

De

partamento de Clínica da Faculdade de Medicina da USP pelo prof. Mauro S- Weintraub com 1.500 crianças da 8,a sárie de escolos

Paulo mostrou que existe correlação

entre

consumo de

da

Grande

São

maconha pelos

adolescentes com o de álcool, tabaco e inibidores do apetite (psicoestimulantes que só pedem ser adquiridos com receita médica especial). Dos vicia

Polônia

dos ^em maconha, cem por cento faziam uso diário de grandes quantidades de álcool e tabaco, drogas consideradas “recreacionais”, cujo consumo \em sendo íortemente estimulado pela publicidade veiculada nos meios nicação. De acordo com o profeisor, a sociedade de consumo,

de comu com

sui

crescente abundância, faz cem que as pessoas não só queiram consumir cada vez mais, mas tambsm de uma só vez. As drogas são resposta .a essa

frustração, na medida em que muitas são consumidas ao mesmo tempo. Origem — Embora a maconha fosse conhecida na China há mais de qua tro mil e setecentos anos, foi somente nas últimas década.s que se começou a estudar, mais a fundo, sua farmaccdinámica (o que ela produz no corpo)

e sua farmacocinética (o que o corpo faz com a droga). No Brasil, a maco nha foi introduzida pelos escravos vindos de Angola e ató vinte anos atrás seu consumo era considerado apanágio de margniais, cem o termo “maco

nheiro” adquirindo caráter pejorativo- Mais recentemente, por.m,

ocorrem

mudanças. A que^se deve esse fenômeno? — pergunta o pesquisador, para

GiMes

Um povo que tem lutado pela sobrevivência, pela liberdade e pela honra. O artigo foi

publicado no "Jornal da Tarde", de São Paulo, do qual, data vênia, o transcrevemos.

acrescentar que nao existe e.xplicação unânime. O que se sabe é que o con

sumo de maconha no Brasil aumenta --.em progressão geométrica e, para agravar o problema, existe clesmformação sobre sc.’s efeitos, ou, pior ainda,

verdadeira propaganda que apregca ser a maconha totalmente inócua e isenta de efeitos deletérios a longo prazo. Contraproducentes revelam-se ainda palestras e conferências dadas por leigos que, embora bem intencio nados, não têm conhecimento da matéria. Quando levadas aos jovens, essas

palestras apenas aguçam

a curiosidade,

sem orientá-los corretamente. O verificou que foi por curiosi

estudo realizado na Faculdade de Medicina

dade que todos os que uravam maconha se iniciaram nela- Foi estudada amostra de estudantes de quase todas as camadas sociais da Grande São Paulo e verificada percentagem surpreendentemente elevada de referên

cias quanto à necessidade de auxilio psicológico ou psiquiátrico, prlncipalmente de parte dos jovens que ainda não usaram maconha. Tanto as crian

ças como os adolescentes e joveng têm problemas, esperam que tudo melhore com

o

Os pais qur.se .s.emnrc

amadurecimento da pevson-ilida-de do

filho. Quando buscam auxílio profissional,

este raramente é eficaz e, às

vezes, contraproducente, sendo os pais, sobretudo as mães, acusados de “culpados”. No ambiente extradomiciliar que frequentam, os jovens encon tram apoio, afeto, compreensão e “tratamento” nas drog-as. Segundo o profMauro, o consumo da maconha constitui muitas vezes tentativa desesperada

de superação dos problemas. Ele conclui alertando que alguma coisa pre cisa eer felí-a urgentemente nesse setor, com ajuda das universidades que “têm ccnchçõe,3 de propor alguma coisa”.

(Do Boletim da U.S.P.)

L2pouge

“A cena se passa na Polô

nia, isto é, em lugar nenhum". Assim é apresentado o cenário do Père Ubu, a farsa de Alfred

Jarry escrita no começo deste século. E isso é verdade, mas é também uma verdade qne se

transforma em

seu

contrário,

pois a Polônia não existe, ou melhor, ela sempre teve de conquistar ao nada a sua vida, conquistá-la a seus inimigos, à

dela um país naturabnente he róico. Quando, em 1621, os poloneses foram pedir ao pa pa Paulo V que lhes desse algumas relíquias, este respon deu: “Apanhem um punhado da terra de sua pátria. Não há nela uma só parcela que não seja a relíquia de um mártir”.

Terra ossuário,

terra ali

mentada e fertilizada pelo ne

sua tragédia. De tal forma que

gro sangue dos mortos, e que

provavelmente nenhum país do mundo existe com tanta força

reconquista à morte, sem ces sar, sua própria vida. Essa é

quanto ela. Uma antiga fami

a Polônia. E

liaridade com 0 martírio

sobre sua geografia já explica

faz

um breve

olhar


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DIGESTO

Vários vícios acompanham a maconha

ECONÔMICO

PesQuUa reali zada

no

A heróica

De

partamento de Clínica da Faculdade de Medicina da USP pelo prof. Mauro S- Weintraub com 1.500 crianças da 8,a sárie de escolos

Paulo mostrou que existe correlação

entre

consumo de

da

Grande

São

maconha pelos

adolescentes com o de álcool, tabaco e inibidores do apetite (psicoestimulantes que só pedem ser adquiridos com receita médica especial). Dos vicia

Polônia

dos ^em maconha, cem por cento faziam uso diário de grandes quantidades de álcool e tabaco, drogas consideradas “recreacionais”, cujo consumo \em sendo íortemente estimulado pela publicidade veiculada nos meios nicação. De acordo com o profeisor, a sociedade de consumo,

de comu com

sui

crescente abundância, faz cem que as pessoas não só queiram consumir cada vez mais, mas tambsm de uma só vez. As drogas são resposta .a essa

frustração, na medida em que muitas são consumidas ao mesmo tempo. Origem — Embora a maconha fosse conhecida na China há mais de qua tro mil e setecentos anos, foi somente nas últimas década.s que se começou a estudar, mais a fundo, sua farmaccdinámica (o que ela produz no corpo)

e sua farmacocinética (o que o corpo faz com a droga). No Brasil, a maco nha foi introduzida pelos escravos vindos de Angola e ató vinte anos atrás seu consumo era considerado apanágio de margniais, cem o termo “maco

nheiro” adquirindo caráter pejorativo- Mais recentemente, por.m,

ocorrem

mudanças. A que^se deve esse fenômeno? — pergunta o pesquisador, para

GiMes

Um povo que tem lutado pela sobrevivência, pela liberdade e pela honra. O artigo foi

publicado no "Jornal da Tarde", de São Paulo, do qual, data vênia, o transcrevemos.

acrescentar que nao existe e.xplicação unânime. O que se sabe é que o con

sumo de maconha no Brasil aumenta --.em progressão geométrica e, para agravar o problema, existe clesmformação sobre sc.’s efeitos, ou, pior ainda,

verdadeira propaganda que apregca ser a maconha totalmente inócua e isenta de efeitos deletérios a longo prazo. Contraproducentes revelam-se ainda palestras e conferências dadas por leigos que, embora bem intencio nados, não têm conhecimento da matéria. Quando levadas aos jovens, essas

palestras apenas aguçam

a curiosidade,

sem orientá-los corretamente. O verificou que foi por curiosi

estudo realizado na Faculdade de Medicina

dade que todos os que uravam maconha se iniciaram nela- Foi estudada amostra de estudantes de quase todas as camadas sociais da Grande São Paulo e verificada percentagem surpreendentemente elevada de referên

cias quanto à necessidade de auxilio psicológico ou psiquiátrico, prlncipalmente de parte dos jovens que ainda não usaram maconha. Tanto as crian

ças como os adolescentes e joveng têm problemas, esperam que tudo melhore com

o

Os pais qur.se .s.emnrc

amadurecimento da pevson-ilida-de do

filho. Quando buscam auxílio profissional,

este raramente é eficaz e, às

vezes, contraproducente, sendo os pais, sobretudo as mães, acusados de “culpados”. No ambiente extradomiciliar que frequentam, os jovens encon tram apoio, afeto, compreensão e “tratamento” nas drog-as. Segundo o profMauro, o consumo da maconha constitui muitas vezes tentativa desesperada

de superação dos problemas. Ele conclui alertando que alguma coisa pre cisa eer felí-a urgentemente nesse setor, com ajuda das universidades que “têm ccnchçõe,3 de propor alguma coisa”.

(Do Boletim da U.S.P.)

L2pouge

“A cena se passa na Polô

nia, isto é, em lugar nenhum". Assim é apresentado o cenário do Père Ubu, a farsa de Alfred

Jarry escrita no começo deste século. E isso é verdade, mas é também uma verdade qne se

transforma em

seu

contrário,

pois a Polônia não existe, ou melhor, ela sempre teve de conquistar ao nada a sua vida, conquistá-la a seus inimigos, à

dela um país naturabnente he róico. Quando, em 1621, os poloneses foram pedir ao pa pa Paulo V que lhes desse algumas relíquias, este respon deu: “Apanhem um punhado da terra de sua pátria. Não há nela uma só parcela que não seja a relíquia de um mártir”.

Terra ossuário,

terra ali

mentada e fertilizada pelo ne

sua tragédia. De tal forma que

gro sangue dos mortos, e que

provavelmente nenhum país do mundo existe com tanta força

reconquista à morte, sem ces sar, sua própria vida. Essa é

quanto ela. Uma antiga fami

a Polônia. E

liaridade com 0 martírio

sobre sua geografia já explica

faz

um breve

olhar


118

DIGESTO

essa sua eterna parceria com 0 infortúnio: aberta por todos os lados, ela está cercada por

seus inimigos. Ao Sul, ela foi cobiçada pelos tártaros, turcos e austríacos. Ao Norte, o Báltico não impediu a chegada dos

ECONÔMICO

A RESISTÊNCIA

É claro que qualquer outro povo, atirado nessa engre nagem infernal, teria escolhido

0 silêncio, a escravidão, talvez a astúcia. Mas este povo, sa-

uma guerra que duraria cem anos. A Leste, a gigantesca Rússia espreita e, de tempos em tempos, lança suas legiões

be-se lá por que misteriosas razões, sempre preferiu a re sistência. Um exemplo disso é 0 anjo, que dá as horas, na torre da Igreja de Nossa Se

de mongóis, lituanos,

nhora de

então

temíveis

soviéticos

suecos,

para

russos,

Cracóvia

—

cidade

tão bela que até os nazistas a

stalinistas.

A Oeste, um outro guerrei

ro vigia: a Alemanha, de on de, século após século, vinham os germanos, os prussianos, os nazistas. A história dessa ter

ra é uma série de guerras, um

pouparam — e que, ao meiodia, bate apenas quatro bada ladas, em memória a um episó dio de resistência ao invasor ocorrido no século XIII. É a

história de um pastor que, ao ver os tártaros chegando per to de Cracóvia, alertou a cida

verdadeiro açougue, uma la dainha monótona. Igrejas são

de tocando sua

fechadas, a língua é proibida, as escolas fechadas. O país é riscado do mapa quatro vezes. Os mais vingativos o demolem

tes de ser morto com uma fle-

como se demole uma casa, até não ficar pedra sobre pedra.

Foi 0 que fez Hitler, que trans formou

Varsóvia

dade fantasma.

em

uma ci

trombeta. Mas

.só pôde dar quatro toques, an chada na garganta.

essas

histórias

119

tulski que o salvou de uma em boscada em que ele caíra. “São os poloneses e vôm vindo intei ramente

bêbados”

comentou

um ajudante de ordens de Napoleão. “Pois eu gostaria que todos os meus oficiais vives sem bêbados como esses heróis

poloneses”^ respondeu o Impe rador. Uma outra

versão con

ta que 0 ajudante teria dito: “Eles são loucos”. E isso, cer

tamente, é mais exato, pois es sa é a loucura do Deus que dá à Igreja sua luz invencível através dos séculos, a loucura da coragem que amontoa seus mortos.

Loucura, generosidade que,

como

se

elas fossem contemporâneas. Elas são numerosas. Em 1808,

Napoleão estava guerreando na Espanha, e tinha poloneses em seu exército. Pois foi justamen te a legião do general Kozie-

do

definitivamente

o

poderio

otomano.

Mas 0 imperador austríaco não perdoa a Polônia, recusan do até

mesmo

comida

a seu

exército. O orgulho também é uma especialidade polonesa (“sabemos morrer melhor do

que viver”), e eles voltam siienciosamente para casa. A liberdade

De que serviu a insurrei

ção de Varsóvia, com seus 300 mil civis mortos? Talvez à de fesa da honra e da liberdade, pontos sobre os quais os po sao loneses intransigentes. Aliás, quando eles já não têm

às vezes, faz fronteira com a Em 1683, paixao pelo inútil. quando a Polônia acabou de

mais um país para si mesmos,

sair exausta da guerra com os

do afora, participando de todas

suecos, Viena pede à Europa ajuda contra os 140 mil homens

as cruzadas pela liberdade, com Napoleão, entre os pobres da Comuna de Paris em 1871, se guindo Garibaldi ou Abraham Lincoln, nas barricadas de Vie

do exército otomano que a as

Os poloneses conhecem to das

DIGESTO ECONÔMICO

sediam. Luís XIV manda um

pequenino contingente. A Polô nia não espera um segundo

vamos

encontrá-los

pelo mun

na, do Canadá^ até mesmo de

chamado. Chefiada pelo rei Jan Sobieski, atira seus fran-

São Domingos.

galhos

Mas também, quando eles recuperam seu pais, sua histó ria, defendem sua liberdade de

de

exército contra

os

turcos, estraçalha-os, expulsaos, e salva a Europa, afastan-


118

DIGESTO

essa sua eterna parceria com 0 infortúnio: aberta por todos os lados, ela está cercada por

seus inimigos. Ao Sul, ela foi cobiçada pelos tártaros, turcos e austríacos. Ao Norte, o Báltico não impediu a chegada dos

ECONÔMICO

A RESISTÊNCIA

É claro que qualquer outro povo, atirado nessa engre nagem infernal, teria escolhido

0 silêncio, a escravidão, talvez a astúcia. Mas este povo, sa-

uma guerra que duraria cem anos. A Leste, a gigantesca Rússia espreita e, de tempos em tempos, lança suas legiões

be-se lá por que misteriosas razões, sempre preferiu a re sistência. Um exemplo disso é 0 anjo, que dá as horas, na torre da Igreja de Nossa Se

de mongóis, lituanos,

nhora de

então

temíveis

soviéticos

suecos,

para

russos,

Cracóvia

—

cidade

tão bela que até os nazistas a

stalinistas.

A Oeste, um outro guerrei

ro vigia: a Alemanha, de on de, século após século, vinham os germanos, os prussianos, os nazistas. A história dessa ter

ra é uma série de guerras, um

pouparam — e que, ao meiodia, bate apenas quatro bada ladas, em memória a um episó dio de resistência ao invasor ocorrido no século XIII. É a

história de um pastor que, ao ver os tártaros chegando per to de Cracóvia, alertou a cida

verdadeiro açougue, uma la dainha monótona. Igrejas são

de tocando sua

fechadas, a língua é proibida, as escolas fechadas. O país é riscado do mapa quatro vezes. Os mais vingativos o demolem

tes de ser morto com uma fle-

como se demole uma casa, até não ficar pedra sobre pedra.

Foi 0 que fez Hitler, que trans formou

Varsóvia

dade fantasma.

em

uma ci

trombeta. Mas

.só pôde dar quatro toques, an chada na garganta.

essas

histórias

119

tulski que o salvou de uma em boscada em que ele caíra. “São os poloneses e vôm vindo intei ramente

bêbados”

comentou

um ajudante de ordens de Napoleão. “Pois eu gostaria que todos os meus oficiais vives sem bêbados como esses heróis

poloneses”^ respondeu o Impe rador. Uma outra

versão con

ta que 0 ajudante teria dito: “Eles são loucos”. E isso, cer

tamente, é mais exato, pois es sa é a loucura do Deus que dá à Igreja sua luz invencível através dos séculos, a loucura da coragem que amontoa seus mortos.

Loucura, generosidade que,

como

se

elas fossem contemporâneas. Elas são numerosas. Em 1808,

Napoleão estava guerreando na Espanha, e tinha poloneses em seu exército. Pois foi justamen te a legião do general Kozie-

do

definitivamente

o

poderio

otomano.

Mas 0 imperador austríaco não perdoa a Polônia, recusan do até

mesmo

comida

a seu

exército. O orgulho também é uma especialidade polonesa (“sabemos morrer melhor do

que viver”), e eles voltam siienciosamente para casa. A liberdade

De que serviu a insurrei

ção de Varsóvia, com seus 300 mil civis mortos? Talvez à de fesa da honra e da liberdade, pontos sobre os quais os po sao loneses intransigentes. Aliás, quando eles já não têm

às vezes, faz fronteira com a Em 1683, paixao pelo inútil. quando a Polônia acabou de

mais um país para si mesmos,

sair exausta da guerra com os

do afora, participando de todas

suecos, Viena pede à Europa ajuda contra os 140 mil homens

as cruzadas pela liberdade, com Napoleão, entre os pobres da Comuna de Paris em 1871, se guindo Garibaldi ou Abraham Lincoln, nas barricadas de Vie

do exército otomano que a as

Os poloneses conhecem to das

DIGESTO ECONÔMICO

sediam. Luís XIV manda um

pequenino contingente. A Polô nia não espera um segundo

vamos

encontrá-los

pelo mun

na, do Canadá^ até mesmo de

chamado. Chefiada pelo rei Jan Sobieski, atira seus fran-

São Domingos.

galhos

Mas também, quando eles recuperam seu pais, sua histó ria, defendem sua liberdade de

de

exército contra

os

turcos, estraçalha-os, expulsaos, e salva a Europa, afastan-


120

forma quase alucinada: em 1939, Varsóvia tinha 1.300.000

DIGESTO

ECONÔMICO

da Suíça. Essa é uma tradição admirável. Mas perigosa, ao

habitantes; em 1945, ao entrar

mesmo tempo, pois, à força de

na cidade, o Exército Verme lho encontrou quinze sobrevi

derramar seu sangue, é o pró prio país que acabará morren

ventes, quinze espectros. Entre 1939 e 1945, morreram sete mi lhões de poloneses, um pouco mais do que a população total

do se

continuar

insistindo

Terceiros

em

atirar-se assim, século após sé culo, contra inimigos que sem pre são mais fortes do que ele.

Mundos

Palinologia, nova área para estudo morfológico do pólen

9

Os grãos de pólen das plantas, além da importância que têm como células reprodutores masculinas, apresentam-se como elemento de valor classificatório (taxonômico) para vários fins, devido às oaracterístlca.s morfológicas — tamanho, forma, abertura (sulcos c poros) e ornamentação da exina (tegumento externo do grão de pólen). Devido à crescente utilidade para fins de aplicações e investigações, criou-se nova área na ciência botânica, a palinologia, para designar o estudo morfológico do pólen e dos esporos e suas aplicações. Essas informações foram prestadas pelo prof. Clovis Ferraz de Oliveira Santos, chefe do Departamento de Botânica da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Segundo ele. o ter mo palinologia foi criado por Kyde e Williams (1945), mas quem e.studou

o pólen pela primeira vez foi Marcelo Malpighi (1670j, empregando mi croscópios rudimentares, tendo observado que ele variava no tamanho, cor 6 forma nas diversas plantas. Posteriormente, outros pesquisadores descobriram novas características, como o número de aberturas (uma nas monocotiledôneas e trés nas dicotiledòneas).

Jean

Plerre Gomane

Com este título, a revista "Études",

de Paris^ publicou o seguinte artigo de Jean Pierre Gomane sobre os Terceiros Mundos.

O francês ama as idéias claras: o Terceiro Mundo era

uma delas. Imaginava-se mui to bem quais eram os dois ou tros

mundos:

o ocidental e

o

é bem n caso nessa matéria, da maioria de nossos compa triotas — pressentia, às vezes, alguma anomalia na homoge neidade assim postulada de

No início do século XX, o estudo do pólen conheceu grande impulso devido aos progressos na microsoupia ólica, princípalmente o microscópio eletrônico, à descoberta das alergias por ele provocadas e seu reconheci

socialista (1). O terceiro,

tanto. se definia de forma ne gativa e por simples elimina

mais de cem Estados situados

mento como guia-fóssil e elemento de valor na taxonomia vegetal. Aplicaçoes A palinologia engloba várias áreas especializadas. É o caso da palinotaxinomia. estudo do pólen sob o aspecto morfológico e taxonô mico das plantas superiores, que tem papel importante na solução de problemas filogenéticos e diagnese das plantas. É também pré-requisito essencial para as áreas aplicadas, pois esses estudos são feitos por processo

ção; não era n primeiro nem 0 segundo, era simplesmente

em todas as partes do mundo, com exceção da Europa. Aqui,

todo 0 resto.

por exemplo, eis um agregado

(Continua na ijágiim loüJ

por

É certo que o observaiior distraMo e algo indiferente —

Notas:

( 1)

loto para utilizar apenas termos

totalitário,

por exemplo.

nrutros. mas poder-se-ia escrever: o capitalista e o


120

forma quase alucinada: em 1939, Varsóvia tinha 1.300.000

DIGESTO

ECONÔMICO

da Suíça. Essa é uma tradição admirável. Mas perigosa, ao

habitantes; em 1945, ao entrar

mesmo tempo, pois, à força de

na cidade, o Exército Verme lho encontrou quinze sobrevi

derramar seu sangue, é o pró prio país que acabará morren

ventes, quinze espectros. Entre 1939 e 1945, morreram sete mi lhões de poloneses, um pouco mais do que a população total

do se

continuar

insistindo

Terceiros

em

atirar-se assim, século após sé culo, contra inimigos que sem pre são mais fortes do que ele.

Mundos

Palinologia, nova área para estudo morfológico do pólen

9

Os grãos de pólen das plantas, além da importância que têm como células reprodutores masculinas, apresentam-se como elemento de valor classificatório (taxonômico) para vários fins, devido às oaracterístlca.s morfológicas — tamanho, forma, abertura (sulcos c poros) e ornamentação da exina (tegumento externo do grão de pólen). Devido à crescente utilidade para fins de aplicações e investigações, criou-se nova área na ciência botânica, a palinologia, para designar o estudo morfológico do pólen e dos esporos e suas aplicações. Essas informações foram prestadas pelo prof. Clovis Ferraz de Oliveira Santos, chefe do Departamento de Botânica da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Segundo ele. o ter mo palinologia foi criado por Kyde e Williams (1945), mas quem e.studou

o pólen pela primeira vez foi Marcelo Malpighi (1670j, empregando mi croscópios rudimentares, tendo observado que ele variava no tamanho, cor 6 forma nas diversas plantas. Posteriormente, outros pesquisadores descobriram novas características, como o número de aberturas (uma nas monocotiledôneas e trés nas dicotiledòneas).

Jean

Plerre Gomane

Com este título, a revista "Études",

de Paris^ publicou o seguinte artigo de Jean Pierre Gomane sobre os Terceiros Mundos.

O francês ama as idéias claras: o Terceiro Mundo era

uma delas. Imaginava-se mui to bem quais eram os dois ou tros

mundos:

o ocidental e

o

é bem n caso nessa matéria, da maioria de nossos compa triotas — pressentia, às vezes, alguma anomalia na homoge neidade assim postulada de

No início do século XX, o estudo do pólen conheceu grande impulso devido aos progressos na microsoupia ólica, princípalmente o microscópio eletrônico, à descoberta das alergias por ele provocadas e seu reconheci

socialista (1). O terceiro,

tanto. se definia de forma ne gativa e por simples elimina

mais de cem Estados situados

mento como guia-fóssil e elemento de valor na taxonomia vegetal. Aplicaçoes A palinologia engloba várias áreas especializadas. É o caso da palinotaxinomia. estudo do pólen sob o aspecto morfológico e taxonô mico das plantas superiores, que tem papel importante na solução de problemas filogenéticos e diagnese das plantas. É também pré-requisito essencial para as áreas aplicadas, pois esses estudos são feitos por processo

ção; não era n primeiro nem 0 segundo, era simplesmente

em todas as partes do mundo, com exceção da Europa. Aqui,

todo 0 resto.

por exemplo, eis um agregado

(Continua na ijágiim loüJ

por

É certo que o observaiior distraMo e algo indiferente —

Notas:

( 1)

loto para utilizar apenas termos

totalitário,

por exemplo.

nrutros. mas poder-se-ia escrever: o capitalista e o


DIGESTO

122

brilhante e bem galante; mas,

ECONÔMICO

DIGESTO ECONÔMICO

123

não longe, eis um soldado ve lho, astuto e caçoista. Lá, um

te era — o Terceiro Mundo. De uma coisa se tinha certeza e ali mentava nossa boa consciên

sobre o conformismo de um pensamento que quase não se

1946 (3), quase não se preocu

renovou

desde

beduíno

cia: era preciso ajudá-lo a tor-

ca dos

“Terceiros

Grandes. Pretendiam manter suas distâncias: a Conferência

nar-se

militantes,

ainda se locomove de

camelo; noutro lugar^ já diri

semelhante

a

nós!

ge um Mercedes. Aquele, des

Atualmente, todas estas di

cobriu as delícias do liberalis

vergências interiores àquilo que chamávamos Terceiro Mun do, divergências de ordem na

mo em Oxford ou em Harvard; outro

converteu-se

ao

marxis

mo à “Patrice Lumumba” (2)

ou,

mais

agradavelmente,

à

moda da Sorbonne. Este Esta

do é dirigido por mulher;

no

vizinho^ jamais se encontrava uma mulher. Um. tem uma po pulação continental, outro a de uma capital de província. Em um, as pessoas se amontoam

nas cidades, em outro as caba nas são vistas espalhadas pelo campo. Certo grande Estado já existia quando Roma era ape nas um pequeno burgo; certa construção artificial batizada “nação” não passa de um agru pamento de etnias heterogê neas. Este nos invade com seu

tural,

demográfica,

política,

cultural, social, econômica, tor naram-se evidentes, para nós. graças, em particular, aos cen tros de distribuição da infor mação que. na ocorrência — uma vez não se transforma em

a

idade

herói

Mundistas”

atualmente

muito

Quem julga o presente pe la medida do passado se expõe, na verdade, a tais dissabores.

afro-asiática de Bandung, em março de 1955, estimulou um movimento que deveria resultar no não-alinhamento (4). Este chegou a desviar-se um pouco

O

no tempo de Sukarno, já gran

desiludidos.

Terceiro

Mundo

tornou-se

múltiplo e devemos nos confor

de fanfarrão do imperialismo.

mar com isso. É, portanto, a

No momento, Fidel Castro, pa

uma reposição em ordem, que deve se acompanhar de uma reposição em causa, que pre cisamos nos entregar imediata

rece, tem a intenção, de pros seguir nessa evolução, mas

costume —, parece ter repre

mente, se quisermos tomar par

sentado

te em um mundo que não seja 0 simples reflexo de nossas próprias nostalgias.

corretamente

seu pa

pel de despertar para a reali dade. Chegamos, portanto, a duvidar da validez do postula do, tão tranquilizador, em sua

simplicidade,

da

unidade

do

Terceiro Mundo. De fato.

este

Terceiro

Em

Mundo

existe?

pavam em servir de peões aos

UM

DENOMINADOR

COMUM

O Terceiro Mundo tinha nascido, há trinta anos mais ou

menos, da briga dos dois Gran

verdade, nós o temos encontra do, uns ou outros, mas isso há

des. Os novos Estados, saídos das descolonizaçõesconcedidas

vinte ou dez anos. Qual é, en

com maior ou

menor boa von

sem correr o risco de provocar

faíscas, menos ainda a explo são, no seio de um movimento em que Tito, único sobreviven te entre os pais fundadores, gostaria de permanecer fiel aos princípios originais. Nu merosos Estados moderados sustentam o movimento en tre cerca de noventa países

participantes (5). Desde Bandung, entretanto, menção expressa era feita, no comunicado final, da necessi dade de uma “cooperação eco-

têxtil; aquele nos suplica que lhe compremos o açúcar. Aqui a seca permanente; lá, inun dações endêmicas. Tudo isto.

tretanto, a realidade de hoje e

tade ou arrancadas a partir de

como podemos apreendê-la de modo a poder agir sobre ela?

( 3)

As Filipinas

ou seja, três quartos da huma

Seria perigoso e, de fato, per-

( 4)

nidade, é — ou mais exatamen¬

feitamente estéril, repousarmos

Afro-asiática a princípio. A confarência de Bandung foi essencialmente de participa ção asiática. A África não havia alcançado, na ocasião, sua era das independências.

5)

Dos quais três europeus: Chypre, Malta e, evidentemente, a Yugosiavia. Sobre o nãoaiinhamento e, noladamente, a úitlma conferência que se manteve em La Havana em setembro da 1979, cf. Eugòne Berg, "Os países não alinhados na encruzilhada dos caminhos", Délense nationale, outubro de 1979, p. 79-94.

(2)

A

universidade

acolhe

“Patrice

estudantes

do

Lumumbn"

Terceiro

da

Mundo.

amizade

dos

povos,

situa-sc

ein

Moscou

e

em 1946, a

(ndia em 1947.


DIGESTO

122

brilhante e bem galante; mas,

ECONÔMICO

DIGESTO ECONÔMICO

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não longe, eis um soldado ve lho, astuto e caçoista. Lá, um

te era — o Terceiro Mundo. De uma coisa se tinha certeza e ali mentava nossa boa consciên

sobre o conformismo de um pensamento que quase não se

1946 (3), quase não se preocu

renovou

desde

beduíno

cia: era preciso ajudá-lo a tor-

ca dos

“Terceiros

Grandes. Pretendiam manter suas distâncias: a Conferência

nar-se

militantes,

ainda se locomove de

camelo; noutro lugar^ já diri

semelhante

a

nós!

ge um Mercedes. Aquele, des

Atualmente, todas estas di

cobriu as delícias do liberalis

vergências interiores àquilo que chamávamos Terceiro Mun do, divergências de ordem na

mo em Oxford ou em Harvard; outro

converteu-se

ao

marxis

mo à “Patrice Lumumba” (2)

ou,

mais

agradavelmente,

à

moda da Sorbonne. Este Esta

do é dirigido por mulher;

no

vizinho^ jamais se encontrava uma mulher. Um. tem uma po pulação continental, outro a de uma capital de província. Em um, as pessoas se amontoam

nas cidades, em outro as caba nas são vistas espalhadas pelo campo. Certo grande Estado já existia quando Roma era ape nas um pequeno burgo; certa construção artificial batizada “nação” não passa de um agru pamento de etnias heterogê neas. Este nos invade com seu

tural,

demográfica,

política,

cultural, social, econômica, tor naram-se evidentes, para nós. graças, em particular, aos cen tros de distribuição da infor mação que. na ocorrência — uma vez não se transforma em

a

idade

herói

Mundistas”

atualmente

muito

Quem julga o presente pe la medida do passado se expõe, na verdade, a tais dissabores.

afro-asiática de Bandung, em março de 1955, estimulou um movimento que deveria resultar no não-alinhamento (4). Este chegou a desviar-se um pouco

O

no tempo de Sukarno, já gran

desiludidos.

Terceiro

Mundo

tornou-se

múltiplo e devemos nos confor

de fanfarrão do imperialismo.

mar com isso. É, portanto, a

No momento, Fidel Castro, pa

uma reposição em ordem, que deve se acompanhar de uma reposição em causa, que pre cisamos nos entregar imediata

rece, tem a intenção, de pros seguir nessa evolução, mas

costume —, parece ter repre

mente, se quisermos tomar par

sentado

te em um mundo que não seja 0 simples reflexo de nossas próprias nostalgias.

corretamente

seu pa

pel de despertar para a reali dade. Chegamos, portanto, a duvidar da validez do postula do, tão tranquilizador, em sua

simplicidade,

da

unidade

do

Terceiro Mundo. De fato.

este

Terceiro

Em

Mundo

existe?

pavam em servir de peões aos

UM

DENOMINADOR

COMUM

O Terceiro Mundo tinha nascido, há trinta anos mais ou

menos, da briga dos dois Gran

verdade, nós o temos encontra do, uns ou outros, mas isso há

des. Os novos Estados, saídos das descolonizaçõesconcedidas

vinte ou dez anos. Qual é, en

com maior ou

menor boa von

sem correr o risco de provocar

faíscas, menos ainda a explo são, no seio de um movimento em que Tito, único sobreviven te entre os pais fundadores, gostaria de permanecer fiel aos princípios originais. Nu merosos Estados moderados sustentam o movimento en tre cerca de noventa países

participantes (5). Desde Bandung, entretanto, menção expressa era feita, no comunicado final, da necessi dade de uma “cooperação eco-

têxtil; aquele nos suplica que lhe compremos o açúcar. Aqui a seca permanente; lá, inun dações endêmicas. Tudo isto.

tretanto, a realidade de hoje e

tade ou arrancadas a partir de

como podemos apreendê-la de modo a poder agir sobre ela?

( 3)

As Filipinas

ou seja, três quartos da huma

Seria perigoso e, de fato, per-

( 4)

nidade, é — ou mais exatamen¬

feitamente estéril, repousarmos

Afro-asiática a princípio. A confarência de Bandung foi essencialmente de participa ção asiática. A África não havia alcançado, na ocasião, sua era das independências.

5)

Dos quais três europeus: Chypre, Malta e, evidentemente, a Yugosiavia. Sobre o nãoaiinhamento e, noladamente, a úitlma conferência que se manteve em La Havana em setembro da 1979, cf. Eugòne Berg, "Os países não alinhados na encruzilhada dos caminhos", Délense nationale, outubro de 1979, p. 79-94.

(2)

A

universidade

acolhe

“Patrice

estudantes

do

Lumumbn"

Terceiro

da

Mundo.

amizade

dos

povos,

situa-sc

ein

Moscou

e

em 1946, a

(ndia em 1947.


DIGESTO ECONÔMICO

124

DIGESTO ECONÔMICO

125

co¬ dois tipos de fenômenos lonização e subdesenvolvimen

mento —, a outra econômica —

tinha preconizado a manuten ção de uma “conferência eco

to — parece, portanto^ eviden

0 subdesenvolvimento. De um

te, sua situação respectiva de

nômica

Tais

causa e de efeito é o objeto de

modo geral, portanto, e apesar de algumas notáveis exceções,

idéias resultaram na CNUCED, criada em 1963 (6). É, portan

constantes polêmicas, os histo

pode-se adiantar que o termo

tos observadores mais restriti

riadores como os

to, no seio deste areópago que

vos e situando-se em plano me nos discutível, 0 do desenvolvi

os países ditos do Terceiro Mundo, ou ainda em desenvol

pronunciando-se mais frequen temente em função de seu pró prio sistema de referência ideo

Terceiro Mundo, no sentido mais habitual, recobre, atual mente, como antes, esta dupla

nôraica

internacional”.

A con

ferência de Belgrado, em 1962, internacional”.

economistas

vimento. se reúnem no seio do

lógica. É bem possível que, na

grupo dito dos “77”. Atualmen te, graças ao reforço de uma

maioria dos casos, um subde

quarentena de outros países que durante esse tempo chega

bretudo tecnológico preexisten te tenha

tornado

ram à independência, este gru

empresa

colonial e

po comporta

por sua vez, tenha agravado

cento

e dezoito

membros (7). que, todos, têm

senvolvimento econômico e so mais fácil

a

que esta,

bem que em graus diversos, e têm, também, na sua quase to

tal situação em proporções su jeitas, aí também, a aprecia ções diversas. A colonização teria tido pelo menos esta uti lidade, a de facilitar a tomada

talidade a condição de, num

de consciência, de uma solida

momento de sua história, terem sofrido a dominação das gran des potências européias ou americanas, mais frequente

riedade de

em

comum

um

atraso

no

seu

desenvolvimento econômico, se

mente sob a forma colonial.

Se a correlação entre estes (li )

(UNCTAD

em

por

parte

daqueles que a sofreram. A re ferência à dominação ocidental

permitia, portanto, ligar duas noções de natureza diferente: o

uma política

CNUCED 6 a sigla tía "ConforSncia das Nações Unidas para volvimento"

(7 )

destino,

0

não-alinha-

Comércio

e

o

Desen-

inglês).

Precisemos que. no seio da CNUCED. a China não pertenço _ao grupo dos "77’', mas formo sozinha um grupo particular. O problema da religação da China ao Torceiro Mundo é muito controvertido, ein razão da posição particular do um país em todos os aspectos sem semelhanças. A movimento dos não-alinhados.

China, presente em Bandung. também não pertence ao

realidade.

Quando se estabelecem duas listas de paises. o grupo dos “77”

e o “movimento dos

não-alinhados” reúnem, na maioria dos casos, os mesmos

participantes. Só são excluídos do segundo grupo os países cujos laços com o “imperialis

desenvolvimento parecem, por tanto, constituir o denominador comum do Terceiro Mundo. Ob

servemos, entretanto, que cer

mento

econômico, conservam

apenas o segundo critério e definem o Terceiro Mundo “co

mo 0 conjunto dos países da América Central e do Sul, da

África e da Ásia, que fazem parte do grupo dito dos “77”.

Os países da Europa do Sul e a China dele não fazem par te” (9).

mo” são demasiado evidentes:

O PETRÓLEO,

a Coréia do Sul, por exemplo (8). Em compensação, o nãoalinhamento se esforça por con

quistar, quando não, a adesão, pelo menos a simpatia de paí ses desenvolvidos, que tenham sua política estrangeira mar cada pela neutralidade. Países

como a Áustria, a Suíça, a Fin lândia, são, assim, convidados

FATOR DE DIVISÃO Uma

mais

das recriminações permanentes e, aliás,

mais justificadas

do Terceiro

Mundo com relação aos paí ses desenvolvidos, consumido

às reuniões dos não-alinhados.

res vorazes de matérias-pri mas. se incluia na expressão da “degradação dos termos da

Apesar destas exceções margi nais, 0 não-alinhamento e o sub-

trializados.

[ 8)

Mas

{ 9)

Yves

a

República

Democrática

Berthelot.

Gérard

1978.

1.

Tardy

da Coréia

troca”,

dos países não-indusEstes

viam dimi-

(do Norte) também faz parte dela.

"O desafio econômico do Terceiro Mundo. Relatório ao comissariado geral para o Plano de 9 de janeiro de 1970", A Documentocão Fran

cesa,

vol.

p

17.


DIGESTO ECONÔMICO

124

DIGESTO ECONÔMICO

125

co¬ dois tipos de fenômenos lonização e subdesenvolvimen

mento —, a outra econômica —

tinha preconizado a manuten ção de uma “conferência eco

to — parece, portanto^ eviden

0 subdesenvolvimento. De um

te, sua situação respectiva de

nômica

Tais

causa e de efeito é o objeto de

modo geral, portanto, e apesar de algumas notáveis exceções,

idéias resultaram na CNUCED, criada em 1963 (6). É, portan

constantes polêmicas, os histo

pode-se adiantar que o termo

tos observadores mais restriti

riadores como os

to, no seio deste areópago que

vos e situando-se em plano me nos discutível, 0 do desenvolvi

os países ditos do Terceiro Mundo, ou ainda em desenvol

pronunciando-se mais frequen temente em função de seu pró prio sistema de referência ideo

Terceiro Mundo, no sentido mais habitual, recobre, atual mente, como antes, esta dupla

nôraica

internacional”.

A con

ferência de Belgrado, em 1962, internacional”.

economistas

vimento. se reúnem no seio do

lógica. É bem possível que, na

grupo dito dos “77”. Atualmen te, graças ao reforço de uma

maioria dos casos, um subde

quarentena de outros países que durante esse tempo chega

bretudo tecnológico preexisten te tenha

tornado

ram à independência, este gru

empresa

colonial e

po comporta

por sua vez, tenha agravado

cento

e dezoito

membros (7). que, todos, têm

senvolvimento econômico e so mais fácil

a

que esta,

bem que em graus diversos, e têm, também, na sua quase to

tal situação em proporções su jeitas, aí também, a aprecia ções diversas. A colonização teria tido pelo menos esta uti lidade, a de facilitar a tomada

talidade a condição de, num

de consciência, de uma solida

momento de sua história, terem sofrido a dominação das gran des potências européias ou americanas, mais frequente

riedade de

em

comum

um

atraso

no

seu

desenvolvimento econômico, se

mente sob a forma colonial.

Se a correlação entre estes (li )

(UNCTAD

em

por

parte

daqueles que a sofreram. A re ferência à dominação ocidental

permitia, portanto, ligar duas noções de natureza diferente: o

uma política

CNUCED 6 a sigla tía "ConforSncia das Nações Unidas para volvimento"

(7 )

destino,

0

não-alinha-

Comércio

e

o

Desen-

inglês).

Precisemos que. no seio da CNUCED. a China não pertenço _ao grupo dos "77’', mas formo sozinha um grupo particular. O problema da religação da China ao Torceiro Mundo é muito controvertido, ein razão da posição particular do um país em todos os aspectos sem semelhanças. A movimento dos não-alinhados.

China, presente em Bandung. também não pertence ao

realidade.

Quando se estabelecem duas listas de paises. o grupo dos “77”

e o “movimento dos

não-alinhados” reúnem, na maioria dos casos, os mesmos

participantes. Só são excluídos do segundo grupo os países cujos laços com o “imperialis

desenvolvimento parecem, por tanto, constituir o denominador comum do Terceiro Mundo. Ob

servemos, entretanto, que cer

mento

econômico, conservam

apenas o segundo critério e definem o Terceiro Mundo “co

mo 0 conjunto dos países da América Central e do Sul, da

África e da Ásia, que fazem parte do grupo dito dos “77”.

Os países da Europa do Sul e a China dele não fazem par te” (9).

mo” são demasiado evidentes:

O PETRÓLEO,

a Coréia do Sul, por exemplo (8). Em compensação, o nãoalinhamento se esforça por con

quistar, quando não, a adesão, pelo menos a simpatia de paí ses desenvolvidos, que tenham sua política estrangeira mar cada pela neutralidade. Países

como a Áustria, a Suíça, a Fin lândia, são, assim, convidados

FATOR DE DIVISÃO Uma

mais

das recriminações permanentes e, aliás,

mais justificadas

do Terceiro

Mundo com relação aos paí ses desenvolvidos, consumido

às reuniões dos não-alinhados.

res vorazes de matérias-pri mas. se incluia na expressão da “degradação dos termos da

Apesar destas exceções margi nais, 0 não-alinhamento e o sub-

trializados.

[ 8)

Mas

{ 9)

Yves

a

República

Democrática

Berthelot.

Gérard

1978.

1.

Tardy

da Coréia

troca”,

dos países não-indusEstes

viam dimi-

(do Norte) também faz parte dela.

"O desafio econômico do Terceiro Mundo. Relatório ao comissariado geral para o Plano de 9 de janeiro de 1970", A Documentocão Fran

cesa,

vol.

p

17.


I

DIGESTO

126

ECONÔMICO

nuir, em termos reais, o valor de suas exportações, essencial

nômica

mente constituídas por estas matérias-primas, minerais ou

mantido na Argélia em setem

agrícolas, em relação ao valor dos produtos acabados que

po, a expressão teve êxito, tan

eram obrigados a importar pa ra seu próprio desenvolvimen to. Isto mostra quanto o au mento do preço do petróleo foi,

nacionais quanto junto ao gran

num primeiro tempo,

saudado

talvez, não exatamente no sen

unanimemente pelo Terceiro Mundo como uma vitória, e a

tido desejado pela maioria do

satisfação, num caso particu lar, excepcionalmente favorá

vel, é verdade, de uma reivin dicação comum. Os países ex portadores de petróleo não in vocavam a noção de “justo pre ço”? Começou-se, então, a so

nhar, aqui

e ali, baseando-se

um pouco ligeiramente sobre este precedente com a organi zação de países exportadores de café ou de cacau, de urânio ou de amendoins que, calcando sua atitude sobre a da OPEP, teriam ditado suas condições aos consumidores.

Antecipando, aliás, de um mês 0 acontecimento

da guer

ra do Kippour, 0 Terceiro Mun do não exigia, pela voz do pre

sidente Boumedienne, a defini ção de uma “nova ordem eco-

0

internacional”,

encontro

bro de 1973?

dos

desde

não-alinhados

Desde

esse tem

to no seio das instâncias inter

de público. As relações de força sofreram, neste campo, profundas modificações, mas, Terceiro

Mundo.

Com

efeito,

todas as matérias-primas estão longe de ter a importância ou caráter insubstituível, até ago

DIGESTO ECONÔMICO

127

do industrializado, apesar de algumas veleidades de facha da, evitou cuidadosamente con tribuir para subverter funda mentalmente a situação ante rior que se pode qualificar, por antítese, de a antiga ordem. Esse mundo esforçava-se, no máximo, piara fazer valer al gumas reivindicações novas. A noção extremamente original e renovadora, revolucionária em certos aspectos, de “patrimônio

res, não obstante pertencessem, uns e outros, ao Terceiro Mun-

comum da

do.

humanidade”,

da

interminável

a

as Nações Unidas editaram, em fins de 1974, a “carta dos di

ber o quanto tinham sido ludi briados numa operação que de veria, ao contrário, ter provo cado um processo libertador.

reitos e deveres econômicos dos Estados”. Ê certo que. no

timas do aumento

dos preços

consumiam cada vez mais ener

lo problema da energia, o mun-

Esta trinca mais profunda,

importante.

(11)

A convenção de

Lomé foi

concluída

cinquentena de

Sem dúvida ssrá

até mesmo evitada. No entanto, a divisão do Terceiro Mundo se

manifesta, discreta mas fre quentemente, por certos inci dentes ou protestos. Viu-se isso, particularmente, por ocasião da quinta

sessão da CNUCED

em maio de 1979, em Manilha.

Não era, entretanto, por falta de se ter cuidado minuciosamente

de estabelecer uma posição em comum, (11). Assim, dos oito

ropéia (10). É certo que foi fei(10)

dos consumido

talvez que na aparência, não provocou, até agora, ruptura

ros, batizado Stabex, esforçase por regularizar os orçamen tos das exportações dos países do Terceiro Mundo associados à Comunidade Econômica Eu

0 próprio desenvolvimento? Obnubilado unicamente pe

dos interesses

quadro restrito da convenção de Lomó, um sistema de segu

gia esforçando-se em promover

exportado

res de petróleo, e os defensores

materializar-se. É certo que

res ou insuficientemente pro dutores não tardaram a perce

do petróleo, ao mesmo título que os países desenvolvidos, e isso tanto mais que, economica mente frágeis e vulneráveis,

dois grupos distintos. Estados representantes dos

conferência

do direito do mar, não chegou

Não eram eles, também, as vi

vida no desacordo, tinha con firmado implicitamente a fenda progressiva verificada a partir da crise de 1974, separando em

evn-

ra, do petróleo. Os países do não-produto-

na avenida Kiéber, que, além

de ter-se atolado, sendo dissol

cada pela primeira vez no seio

Terceiro

Mundo

ta uma conferência em Paris,

em

1975 e renovada em 1979 entre os nove Estados, a maioria antigos territórios coloniais

Estados da

CEE o uma

do um ou 03 países

de outro dos Nove e situados em sua grande maioria na África, embora do Terceiro Mundo assim associados sejam agrupados sob a abreviatura

AGP: África, Caralbas, Pacífico. Chamado "documento de Arusha", cidade da Tanzânia ondo os ministros

dos

Assuntos

estrangeiros do grupo dos "77" haviam realizado uma Conferência preparatória durante

o

mês

de fevereiro

precedente.


I

DIGESTO

126

ECONÔMICO

nuir, em termos reais, o valor de suas exportações, essencial

nômica

mente constituídas por estas matérias-primas, minerais ou

mantido na Argélia em setem

agrícolas, em relação ao valor dos produtos acabados que

po, a expressão teve êxito, tan

eram obrigados a importar pa ra seu próprio desenvolvimen to. Isto mostra quanto o au mento do preço do petróleo foi,

nacionais quanto junto ao gran

num primeiro tempo,

saudado

talvez, não exatamente no sen

unanimemente pelo Terceiro Mundo como uma vitória, e a

tido desejado pela maioria do

satisfação, num caso particu lar, excepcionalmente favorá

vel, é verdade, de uma reivin dicação comum. Os países ex portadores de petróleo não in vocavam a noção de “justo pre ço”? Começou-se, então, a so

nhar, aqui

e ali, baseando-se

um pouco ligeiramente sobre este precedente com a organi zação de países exportadores de café ou de cacau, de urânio ou de amendoins que, calcando sua atitude sobre a da OPEP, teriam ditado suas condições aos consumidores.

Antecipando, aliás, de um mês 0 acontecimento

da guer

ra do Kippour, 0 Terceiro Mun do não exigia, pela voz do pre

sidente Boumedienne, a defini ção de uma “nova ordem eco-

0

internacional”,

encontro

bro de 1973?

dos

desde

não-alinhados

Desde

esse tem

to no seio das instâncias inter

de público. As relações de força sofreram, neste campo, profundas modificações, mas, Terceiro

Mundo.

Com

efeito,

todas as matérias-primas estão longe de ter a importância ou caráter insubstituível, até ago

DIGESTO ECONÔMICO

127

do industrializado, apesar de algumas veleidades de facha da, evitou cuidadosamente con tribuir para subverter funda mentalmente a situação ante rior que se pode qualificar, por antítese, de a antiga ordem. Esse mundo esforçava-se, no máximo, piara fazer valer al gumas reivindicações novas. A noção extremamente original e renovadora, revolucionária em certos aspectos, de “patrimônio

res, não obstante pertencessem, uns e outros, ao Terceiro Mun-

comum da

do.

humanidade”,

da

interminável

a

as Nações Unidas editaram, em fins de 1974, a “carta dos di

ber o quanto tinham sido ludi briados numa operação que de veria, ao contrário, ter provo cado um processo libertador.

reitos e deveres econômicos dos Estados”. Ê certo que. no

timas do aumento

dos preços

consumiam cada vez mais ener

lo problema da energia, o mun-

Esta trinca mais profunda,

importante.

(11)

A convenção de

Lomé foi

concluída

cinquentena de

Sem dúvida ssrá

até mesmo evitada. No entanto, a divisão do Terceiro Mundo se

manifesta, discreta mas fre quentemente, por certos inci dentes ou protestos. Viu-se isso, particularmente, por ocasião da quinta

sessão da CNUCED

em maio de 1979, em Manilha.

Não era, entretanto, por falta de se ter cuidado minuciosamente

de estabelecer uma posição em comum, (11). Assim, dos oito

ropéia (10). É certo que foi fei(10)

dos consumido

talvez que na aparência, não provocou, até agora, ruptura

ros, batizado Stabex, esforçase por regularizar os orçamen tos das exportações dos países do Terceiro Mundo associados à Comunidade Econômica Eu

0 próprio desenvolvimento? Obnubilado unicamente pe

dos interesses

quadro restrito da convenção de Lomó, um sistema de segu

gia esforçando-se em promover

exportado

res de petróleo, e os defensores

materializar-se. É certo que

res ou insuficientemente pro dutores não tardaram a perce

do petróleo, ao mesmo título que os países desenvolvidos, e isso tanto mais que, economica mente frágeis e vulneráveis,

dois grupos distintos. Estados representantes dos

conferência

do direito do mar, não chegou

Não eram eles, também, as vi

vida no desacordo, tinha con firmado implicitamente a fenda progressiva verificada a partir da crise de 1974, separando em

evn-

ra, do petróleo. Os países do não-produto-

na avenida Kiéber, que, além

de ter-se atolado, sendo dissol

cada pela primeira vez no seio

Terceiro

Mundo

ta uma conferência em Paris,

em

1975 e renovada em 1979 entre os nove Estados, a maioria antigos territórios coloniais

Estados da

CEE o uma

do um ou 03 países

de outro dos Nove e situados em sua grande maioria na África, embora do Terceiro Mundo assim associados sejam agrupados sob a abreviatura

AGP: África, Caralbas, Pacífico. Chamado "documento de Arusha", cidade da Tanzânia ondo os ministros

dos

Assuntos

estrangeiros do grupo dos "77" haviam realizado uma Conferência preparatória durante

o

mês

de fevereiro

precedente.


DIGESTO

128

ponto fixados, nenhum mencio nava a imposição de penas pe lo aumento do preço do petró leo sofrido pelos países não produtores. O tabu petroleiro foi finalmente violado

em Ma-

nilha pelo representante da Costa Rica — país que não ti nha participado da reunião preparatória — mas seu pro testo foi mal sucedido diante da

promessa feita pela OPEP de evocar posteriormente este pro

blema, 0 que,

aliás, foi feito

em Caracas em dezembro últi

mo. Assim, uma vez mais,

o

Terceiro Mundo continuou for-

malmente unido, embora, para numerosos participantes, a di nâmica unitária pareça bastan te enfraquecida. Para tentar devolver-lhe vigor num plano menos espinhoso, a ênfase c

ECONÔMICO

tram-se Cuba e Vietnã (13).

Nacional Bruto CPNB) por habi tante em 1976, avaliado em dó lares, varie nos "países indus

O resto, quer dizer, aproxi madamente, os cento e vinte países que constituem teorica

trializados” de 1.010 para a Turquia a 9.160 para Suíça; nos "países de economia plani-

a 4.520 para a Alemanha do Lcsbs; nos "países petroleiros

matizá-los, ou s'£'ja diversificá-

mente 0 Terceiro Mundo, apa recem sob três rubricas dife rentes Prim'edro, encontramos uma lista extremamenterestri

maneira

"paísies

mentariedade

com

a

frase

"cooperação Sul-Sul”. Do Terceiro

Mundo aos

Terceiros Mundos

À

luz dos

acontecimentos

que relembramos brevemente em grandes linhas, parece, por

tanto,

necessário, rever

los, os critérios utilizados,

para

de

demasiado esquemá-

tica e global, para definir os participantes do Terceiro Mun

do. Diversos sistemas de clas sificação foram desenvolvidos desde 1974, alguns privilegian do de modo talvez excessivo o fator petroleiro (12). O Banco

ro Mundo, posto que, ao lado da URSS ou da RDA, encon

ta: 7 países

exced’entário”. Todos os Esta dos membros da OPEP nao

aparecem, portanto, neste grupo, mas

tados ao mesmo tempo de uma fraca população e de uma pro

dução

sistema econômico e,

mes-

meiros países

Estados) de um lado, e os “paí

mesmo sobr.e sua desigualdade

ses de economia

mundos, ou seja, os industrializados (25

guagem jornalística corrente, os garantidos". Digamos, para

(14)

102, junho de 1974.

como

alcançando ou até mesmo ultra passando nitidamente o dos cha"países industrializados mados também às vezes, na lin

falsa penúria, conflitos reais’ .

n.o

de

subdesenvolvidos

aspectos,

em

muitos

dispõem dos meios

finanosáros necessários para remediar seu “handicap” e ob viar ao seu atraso adqjirindo não somente equipamentos, mas

parte dos países mais ricos do mundo, o produto "per capita”

(13)

Paris,

excedentário”,

2.620 para o Sultana to de Oman a 14.480 para os Emirados Ára bes Unidos (14). Estes Estados petroleiros, que se tomaram brutalmente ricos a partir de 1974, mas que permaneceram

também pessoal capaz de pô-lo:^

de, dois países ditos do Tercei-

Aíriconos.

de capital

para o Vietnã

em ação. Quando estes mesmos

Mundo esfor

(12) Cf Ignacy Sachs, "Energia e prospectivo Internacional;

ficada”, de 160

fazendo

çam-se por exaltar sua complePolíticos

importante,

elementos conjuga-

Todos são árabes e podem ser

planificada" (13 Estadois) de outro, estes últimos comportando, é verda

Estudos

petroleira

estes dois

consideradexs

ao

apoiando-sé por hábil parado xo, sobre sua diferença, até

de

somente os países do-

reagrupamento do conjunto dos Estados do mundo, segundo o

entre estes dois países. Assim,

Revista

de

dos justificando a denominação.

nio tempo, segundo o nível do produto “per capita”; é assim que encontramos os dois pri

ses do Terceiro

qualificados

petroleiros de capital

Mundial dedicou-se, no seu re latório anual de 1978, a um

posta, de preferência, no discur so dos “77”), sobre o interêsse de uma cooperação justamente

doravante reconhecida, os paí

129

DIGBSTO ECONÔMICO

fixar a;3 idéias, que o Produto

paí&es chegam, além disso,

a

produzir um excedente, que é o

caso maüs frequente, eles o uti lizam, pelo menos parcialmen te, para investi-lo nos países Industrializados de preferência, de modo a perpetuar os lucros tirados, hoje, do petróleo quan-

O auadro foi reorodurldo parcialmente no suplemento do jornal "Le Momie”, 24-25 de Junho de 1979. acompanhado do um dossier Intitulado: "Um único mundo, suple mento mundial

para uma nova ordem econômica

Lembremos que para a França 6 de 6.730.

Internacional”.


DIGESTO

128

ponto fixados, nenhum mencio nava a imposição de penas pe lo aumento do preço do petró leo sofrido pelos países não produtores. O tabu petroleiro foi finalmente violado

em Ma-

nilha pelo representante da Costa Rica — país que não ti nha participado da reunião preparatória — mas seu pro testo foi mal sucedido diante da

promessa feita pela OPEP de evocar posteriormente este pro

blema, 0 que,

aliás, foi feito

em Caracas em dezembro últi

mo. Assim, uma vez mais,

o

Terceiro Mundo continuou for-

malmente unido, embora, para numerosos participantes, a di nâmica unitária pareça bastan te enfraquecida. Para tentar devolver-lhe vigor num plano menos espinhoso, a ênfase c

ECONÔMICO

tram-se Cuba e Vietnã (13).

Nacional Bruto CPNB) por habi tante em 1976, avaliado em dó lares, varie nos "países indus

O resto, quer dizer, aproxi madamente, os cento e vinte países que constituem teorica

trializados” de 1.010 para a Turquia a 9.160 para Suíça; nos "países de economia plani-

a 4.520 para a Alemanha do Lcsbs; nos "países petroleiros

matizá-los, ou s'£'ja diversificá-

mente 0 Terceiro Mundo, apa recem sob três rubricas dife rentes Prim'edro, encontramos uma lista extremamenterestri

maneira

"paísies

mentariedade

com

a

frase

"cooperação Sul-Sul”. Do Terceiro

Mundo aos

Terceiros Mundos

À

luz dos

acontecimentos

que relembramos brevemente em grandes linhas, parece, por

tanto,

necessário, rever

los, os critérios utilizados,

para

de

demasiado esquemá-

tica e global, para definir os participantes do Terceiro Mun

do. Diversos sistemas de clas sificação foram desenvolvidos desde 1974, alguns privilegian do de modo talvez excessivo o fator petroleiro (12). O Banco

ro Mundo, posto que, ao lado da URSS ou da RDA, encon

ta: 7 países

exced’entário”. Todos os Esta dos membros da OPEP nao

aparecem, portanto, neste grupo, mas

tados ao mesmo tempo de uma fraca população e de uma pro

dução

sistema econômico e,

mes-

meiros países

Estados) de um lado, e os “paí

mesmo sobr.e sua desigualdade

ses de economia

mundos, ou seja, os industrializados (25

guagem jornalística corrente, os garantidos". Digamos, para

(14)

102, junho de 1974.

como

alcançando ou até mesmo ultra passando nitidamente o dos cha"países industrializados mados também às vezes, na lin

falsa penúria, conflitos reais’ .

n.o

de

subdesenvolvidos

aspectos,

em

muitos

dispõem dos meios

finanosáros necessários para remediar seu “handicap” e ob viar ao seu atraso adqjirindo não somente equipamentos, mas

parte dos países mais ricos do mundo, o produto "per capita”

(13)

Paris,

excedentário”,

2.620 para o Sultana to de Oman a 14.480 para os Emirados Ára bes Unidos (14). Estes Estados petroleiros, que se tomaram brutalmente ricos a partir de 1974, mas que permaneceram

também pessoal capaz de pô-lo:^

de, dois países ditos do Tercei-

Aíriconos.

de capital

para o Vietnã

em ação. Quando estes mesmos

Mundo esfor

(12) Cf Ignacy Sachs, "Energia e prospectivo Internacional;

ficada”, de 160

fazendo

çam-se por exaltar sua complePolíticos

importante,

elementos conjuga-

Todos são árabes e podem ser

planificada" (13 Estadois) de outro, estes últimos comportando, é verda

Estudos

petroleira

estes dois

consideradexs

ao

apoiando-sé por hábil parado xo, sobre sua diferença, até

de

somente os países do-

reagrupamento do conjunto dos Estados do mundo, segundo o

entre estes dois países. Assim,

Revista

de

dos justificando a denominação.

nio tempo, segundo o nível do produto “per capita”; é assim que encontramos os dois pri

ses do Terceiro

qualificados

petroleiros de capital

Mundial dedicou-se, no seu re latório anual de 1978, a um

posta, de preferência, no discur so dos “77”), sobre o interêsse de uma cooperação justamente

doravante reconhecida, os paí

129

DIGBSTO ECONÔMICO

fixar a;3 idéias, que o Produto

paí&es chegam, além disso,

a

produzir um excedente, que é o

caso maüs frequente, eles o uti lizam, pelo menos parcialmen te, para investi-lo nos países Industrializados de preferência, de modo a perpetuar os lucros tirados, hoje, do petróleo quan-

O auadro foi reorodurldo parcialmente no suplemento do jornal "Le Momie”, 24-25 de Junho de 1979. acompanhado do um dossier Intitulado: "Um único mundo, suple mento mundial

para uma nova ordem econômica

Lembremos que para a França 6 de 6.730.

Internacional”.


I

130

DIGESTO

do este se esgotar. Uma parte, enfim, destes capitais, vai se-investir no

resto do

Terceiro

Mundo sob forma ds ajuda pa ra tentar acalmar os protestos como os que se elevaram por ocasião da Conferência de Ma-

nilha, evocada

acima. Múlti

plos estabelecimentos bancários de capitaüs árabes foram cria dos com essa finalidade e par.ecc' que os principais investi dores nos países em desenvolvi-

meito são o Kuwait, a Arábia Saudita e a Líbia (15).

Certos

países do Terceiro

Mundo, a maioria desprovidos de petróleo, mas dotados d: uma infra-estrutura

industrial

não negligenciável, reagiram à

crise, agravada mas não provocada excluslvamente pelo

aumento dos preços do petró leo, exatamente como o fizeram os países ditos industrializados, quer dizer, esforçando-se para aumentar suas exportações

a

fim da equilibrar sua balança exterior endividada pela fatura petroleira. Este processo nos é familiar, é o mesmo preconiza¬ (15)

Segundas

Intenções

sentes

tipo

deste

políticas, de

ação

até mas

ECONÔMICO

do por nossa própria conta pe los nossos dirigentes políticos. Mas parece ter sido realizado com maior dinamismo e eficá

cia nos

paísesi

do

culdade suplementar no cami nho de seu desenvolvimento foi como um estimulante para le var a bom termo uma “indus

trialização que se

rápida”. É

assim

qualificam, às

vezes,

estes Esítados que, levando em conta trunfos importantes, mo uma menor retribuição

sua mão-de-obra,

no mercado mundial, pelo me nos em certos setores, uma con corrência

países,

assustadora.

entretanto,

(16)

Estes

não

são

muito numerosos — no máximo

uma quarentena — e quase to dos figuram na lista intitula da pelo Banco Mundial: “País em desenvolvimento

de renda

média (16). As vedetes são co

nhecidas, da Coréia do Sul ao Brasil ou

do Irã à Costa

do

Marfim, único país da África, no Sul do Sahara a entrar nes

ta categoria, surgida sobretudo

proselitismo havería

co de

introduziram

religioso. nSo estão certamento alguma inconseguêncla do nossa parte

nos espantarmos ou nos Indignarmos, pois esta foi. e continua sendo, na

Terceiro

Mundo para os quais esta difi

au em

o prática geral

matéria.

O PNB per capito dos países desta categoria vai da 410 para a Liberla a 2.590 para CIngapura (em

dólares

e para

1976).

131

DIGESTO ECONÔMICO

na Asia Oriental, na América

Latina

e, a menor título,

no

ficientes para constituir espaços econômicos viáveis, parece um

Sem que todos

handicap sério, quando não re-

possam atingir asj realizações dos quatro ou cinco primeiros dentre eles, esses países não são de'sp‘rovidos de trunfos de diversas natui'ezas_ Alguns são, além disso, exportadores de petróleo (Equador, Argélia.

dibitório. O Banco Mundial clasislfica-os como "países em

mundo árabe.

Laque,

Venezuela), e pode-se

prever, bastante favoravelmen

te 0 seu desenvolvimento econômico, apesar

das dificuldades

específicas de um ou de outro lado, consistindo elas, mais fre quentemente, nos dois campo.s conexos

da

demografia e

da

produção alimentar (17). Infelizmente

o caso

dos

sessenta países restantes parece .sor completamente diferen-

te, um terço aproximadamente,

sendo aliás constituído de miniestados — menos de 1 milhão de habitantes —, ou até mesmo de micro-e.stados — menos de 100.000! Sua pobreza intrínse

ca, acrescida, em alguns deles,

psías dimensões humanas insu-

desenvolvimento de fraca

ren

da” indo do Butan (80 dólares

de PNB por habitante) ao Se negal (410, cifras de 1976) (18). Observemos que dois dentre eles figuram entre os exporta dores de petróleo, explicando-se sámplelsmente sua pobreza re lativa por um peso demográfi co considerável; trata-se da Indonésia e da Nigéria. Enfim, os vinte e cinco últimos países desta lista, qualificados pudlcameute pelais. Nações Unidas

de “países menos adiantados”, entre os quais se encontram de

zessete países situadas na Áfri ca ao Sul do Sahara, desde já considerados, sem vãs precau

ções diplomáticaiS', como deven do sobreviver, no futuro, ape nas por um constante recurso à solidariedade mundial. Me didas de socorro totalmente es

pecíficas, tais como perdão de

Í17) Só fazíamos intervir aqui fatores econômicos. Mas i precedente Iraniano nos prova Que não são os únicos a entrarem em consideração. fim ^10 sobretudo Ilhas ou arquipélagos das Caraibas, do oceano Índico ou do Pacífico tondo rocentemente atingido ou no ponto de atingir uma Independência tao oficial

Quanto formal O caso do Sultanato de Brunei. no Norte de Borneu, é exemplar a osse respeito, este território de 160.000 habitantes tendo sido, segundo os termos do seus dirigentes, "condenado à Independência" pela Grã-Bretanha em 1963.


I

130

DIGESTO

do este se esgotar. Uma parte, enfim, destes capitais, vai se-investir no

resto do

Terceiro

Mundo sob forma ds ajuda pa ra tentar acalmar os protestos como os que se elevaram por ocasião da Conferência de Ma-

nilha, evocada

acima. Múlti

plos estabelecimentos bancários de capitaüs árabes foram cria dos com essa finalidade e par.ecc' que os principais investi dores nos países em desenvolvi-

meito são o Kuwait, a Arábia Saudita e a Líbia (15).

Certos

países do Terceiro

Mundo, a maioria desprovidos de petróleo, mas dotados d: uma infra-estrutura

industrial

não negligenciável, reagiram à

crise, agravada mas não provocada excluslvamente pelo

aumento dos preços do petró leo, exatamente como o fizeram os países ditos industrializados, quer dizer, esforçando-se para aumentar suas exportações

a

fim da equilibrar sua balança exterior endividada pela fatura petroleira. Este processo nos é familiar, é o mesmo preconiza¬ (15)

Segundas

Intenções

sentes

tipo

deste

políticas, de

ação

até mas

ECONÔMICO

do por nossa própria conta pe los nossos dirigentes políticos. Mas parece ter sido realizado com maior dinamismo e eficá

cia nos

paísesi

do

culdade suplementar no cami nho de seu desenvolvimento foi como um estimulante para le var a bom termo uma “indus

trialização que se

rápida”. É

assim

qualificam, às

vezes,

estes Esítados que, levando em conta trunfos importantes, mo uma menor retribuição

sua mão-de-obra,

no mercado mundial, pelo me nos em certos setores, uma con corrência

países,

assustadora.

entretanto,

(16)

Estes

não

são

muito numerosos — no máximo

uma quarentena — e quase to dos figuram na lista intitula da pelo Banco Mundial: “País em desenvolvimento

de renda

média (16). As vedetes são co

nhecidas, da Coréia do Sul ao Brasil ou

do Irã à Costa

do

Marfim, único país da África, no Sul do Sahara a entrar nes

ta categoria, surgida sobretudo

proselitismo havería

co de

introduziram

religioso. nSo estão certamento alguma inconseguêncla do nossa parte

nos espantarmos ou nos Indignarmos, pois esta foi. e continua sendo, na

Terceiro

Mundo para os quais esta difi

au em

o prática geral

matéria.

O PNB per capito dos países desta categoria vai da 410 para a Liberla a 2.590 para CIngapura (em

dólares

e para

1976).

131

DIGESTO ECONÔMICO

na Asia Oriental, na América

Latina

e, a menor título,

no

ficientes para constituir espaços econômicos viáveis, parece um

Sem que todos

handicap sério, quando não re-

possam atingir asj realizações dos quatro ou cinco primeiros dentre eles, esses países não são de'sp‘rovidos de trunfos de diversas natui'ezas_ Alguns são, além disso, exportadores de petróleo (Equador, Argélia.

dibitório. O Banco Mundial clasislfica-os como "países em

mundo árabe.

Laque,

Venezuela), e pode-se

prever, bastante favoravelmen

te 0 seu desenvolvimento econômico, apesar

das dificuldades

específicas de um ou de outro lado, consistindo elas, mais fre quentemente, nos dois campo.s conexos

da

demografia e

da

produção alimentar (17). Infelizmente

o caso

dos

sessenta países restantes parece .sor completamente diferen-

te, um terço aproximadamente,

sendo aliás constituído de miniestados — menos de 1 milhão de habitantes —, ou até mesmo de micro-e.stados — menos de 100.000! Sua pobreza intrínse

ca, acrescida, em alguns deles,

psías dimensões humanas insu-

desenvolvimento de fraca

ren

da” indo do Butan (80 dólares

de PNB por habitante) ao Se negal (410, cifras de 1976) (18). Observemos que dois dentre eles figuram entre os exporta dores de petróleo, explicando-se sámplelsmente sua pobreza re lativa por um peso demográfi co considerável; trata-se da Indonésia e da Nigéria. Enfim, os vinte e cinco últimos países desta lista, qualificados pudlcameute pelais. Nações Unidas

de “países menos adiantados”, entre os quais se encontram de

zessete países situadas na Áfri ca ao Sul do Sahara, desde já considerados, sem vãs precau

ções diplomáticaiS', como deven do sobreviver, no futuro, ape nas por um constante recurso à solidariedade mundial. Me didas de socorro totalmente es

pecíficas, tais como perdão de

Í17) Só fazíamos intervir aqui fatores econômicos. Mas i precedente Iraniano nos prova Que não são os únicos a entrarem em consideração. fim ^10 sobretudo Ilhas ou arquipélagos das Caraibas, do oceano Índico ou do Pacífico tondo rocentemente atingido ou no ponto de atingir uma Independência tao oficial

Quanto formal O caso do Sultanato de Brunei. no Norte de Borneu, é exemplar a osse respeito, este território de 160.000 habitantes tendo sido, segundo os termos do seus dirigentes, "condenado à Independência" pela Grã-Bretanha em 1963.


132

DIGESTO

dívidas, préstimos

ajuda alimentar, não

em

"reembolsáveis”

são preconizadas por diversas instâncias internacionais a seu favor

ECONÔMICO

ta diferença de tratamento já entrou amplamente na prática, mas não é talvez supérfluo exa minar seu mecanismo, bem co mo julgar &9U bom fundamen¬ to.

Para uma política diferenciada

Em razão do conteúdo emo cional que se liga atualmente a

esta matéria-prima, o petrólso parece ter agido tanto como ca talisador quanto como real fa tor seletivo no estabelecimento

»

de uma tipologia nova qu-c passou a dividir os países do Terceiro Mundo em três cate gorias. É certo que encontra mos na primeira só paises ex portadores de petróleo, mas

outros membros da OPEP figu

Os ‘‘países petroleiros de capital excedente” aparecem, antes de tudo, como clientes

rentáveib, ainda que mais

es

clarecidos e mais exigentes do que poderiamos esperar por

parte

de

interlocutores

não dispondo, como nós, de uma longa experiência em matéria de relações econômicas internacionais. Após um breve período durante o qual soubemols

usar

e talvez

abusar de comportamentos que se aparentavam com os de no

133

DIGESTO ECONÔMICO

em relação a tal diálogo muitos

surda luta

preconceitos. Estes países não

África, uma vez que se trata essencialmente dela, poderá,

se desinteressam absolutamen te do resto do Terceiro Mundo,

do qual parecem ter^se afasta do involuntariamente, em razão mesmo da sua recente riqueza.

Chegou-se também a imaginar um sistema que, sob pretexto

nos

garantem as compras dos

países do Terceiro Mundo, até

mesmo dos mais pobres (19) Tal é o mecanismo novo conhe

cido de agora em diante

pelo

à maioria dos membros do gru po,

excessivas,

uma problemática diferen

te nas suas r-elações com o mundo desenvolvido; portanto, no que nos concerne mais dire

tamente, com a Europa, e par ticularmente com a França. Es-

não figura

para

eles a não ser como alternati

va num jogo econômico e diplo mático que eles dominam com uma sutileza inesperada por parte de quem professava

sós, não temos mais meios pa ra lhe prodigar! Esta comstru-

diamente num mundo em

de condomínio euro-árabe, que

cada um dos três conjuntos parece realçar, não obstante as características gerais comun.3

ciar-se da nossa tecnologia assim como da nossa experiên cia em desenvolvimento, que,

cos e pobres, consiste de fato, em obter sua participação e-m encargo financeiro que suportávamos até agora, conservan do ao mesmo tempo para nós as vantagens econômicas que

sentavam de forma alguma co mo pedintes e .sobre os buais fundamos esperanças talvez

de passagem. Em compensação,

pelo menos, continuar a benefi

ção intelectual extremamente brilhante, será marcada de ci

nome de Trilogo, cujo resulta

na terceira, como observamo}

A

de restabelecer uma certa for ma de solidariedade entre ri-

vos ricos, estes países foram capazes de utUizar, muito ha bilmente', a concorrência inter nacional Alssim o diálogo euroárabe, no qual eles não se apre

ram na segunda e até mesmo

de influências.

do será, se tuir a

funcionar, substi

dominação, imposta

à

África pela Europa durante a

era colonial, por uma espéci £'

promete ser tempestuoso se jul garmos pelos primeiros efeitos do que aparece mais como uma (19)

nismo ou de ingenuidade? De qualquer modo ela comete o erro de apresentar-se bem tar que

os países ditos desenvolvidos não têm mais o monopólio do avanço tecnológico que se apressaram, antes, .em trans ferir por um lucro imediato, aos mais adiantados dos países em desenvolvimento. Estas, por sua V62, dedicam-se a se plan tar solidamente nos países menos adiantados, em nome do novo princípio, já invocado, da cooperação Sul-Sul. Todo 0 mal não viria portan to destes países que, não sa tisfeitos em nos comprar usi nas, pretendem servir-se delas

Com efoito, Q solvabllldade de certos países é tão fraca que a maioria de suas com pras são financiadas por ajuda eictorior. Ajuda "ligada", quer dizer devendo ser

utilizada obrigatoriamente para a aciulsição de bens ou de serviços no pais de origem do ojuda. Assim, o que é considerado oficlalmente como umo exportação do país doador não passa, de fato, de uma subvenção Indireta a um ramo de atividade.


132

DIGESTO

dívidas, préstimos

ajuda alimentar, não

em

"reembolsáveis”

são preconizadas por diversas instâncias internacionais a seu favor

ECONÔMICO

ta diferença de tratamento já entrou amplamente na prática, mas não é talvez supérfluo exa minar seu mecanismo, bem co mo julgar &9U bom fundamen¬ to.

Para uma política diferenciada

Em razão do conteúdo emo cional que se liga atualmente a

esta matéria-prima, o petrólso parece ter agido tanto como ca talisador quanto como real fa tor seletivo no estabelecimento

»

de uma tipologia nova qu-c passou a dividir os países do Terceiro Mundo em três cate gorias. É certo que encontra mos na primeira só paises ex portadores de petróleo, mas

outros membros da OPEP figu

Os ‘‘países petroleiros de capital excedente” aparecem, antes de tudo, como clientes

rentáveib, ainda que mais

es

clarecidos e mais exigentes do que poderiamos esperar por

parte

de

interlocutores

não dispondo, como nós, de uma longa experiência em matéria de relações econômicas internacionais. Após um breve período durante o qual soubemols

usar

e talvez

abusar de comportamentos que se aparentavam com os de no

133

DIGESTO ECONÔMICO

em relação a tal diálogo muitos

surda luta

preconceitos. Estes países não

África, uma vez que se trata essencialmente dela, poderá,

se desinteressam absolutamen te do resto do Terceiro Mundo,

do qual parecem ter^se afasta do involuntariamente, em razão mesmo da sua recente riqueza.

Chegou-se também a imaginar um sistema que, sob pretexto

nos

garantem as compras dos

países do Terceiro Mundo, até

mesmo dos mais pobres (19) Tal é o mecanismo novo conhe

cido de agora em diante

pelo

à maioria dos membros do gru po,

excessivas,

uma problemática diferen

te nas suas r-elações com o mundo desenvolvido; portanto, no que nos concerne mais dire

tamente, com a Europa, e par ticularmente com a França. Es-

não figura

para

eles a não ser como alternati

va num jogo econômico e diplo mático que eles dominam com uma sutileza inesperada por parte de quem professava

sós, não temos mais meios pa ra lhe prodigar! Esta comstru-

diamente num mundo em

de condomínio euro-árabe, que

cada um dos três conjuntos parece realçar, não obstante as características gerais comun.3

ciar-se da nossa tecnologia assim como da nossa experiên cia em desenvolvimento, que,

cos e pobres, consiste de fato, em obter sua participação e-m encargo financeiro que suportávamos até agora, conservan do ao mesmo tempo para nós as vantagens econômicas que

sentavam de forma alguma co mo pedintes e .sobre os buais fundamos esperanças talvez

de passagem. Em compensação,

pelo menos, continuar a benefi

ção intelectual extremamente brilhante, será marcada de ci

nome de Trilogo, cujo resulta

na terceira, como observamo}

A

de restabelecer uma certa for ma de solidariedade entre ri-

vos ricos, estes países foram capazes de utUizar, muito ha bilmente', a concorrência inter nacional Alssim o diálogo euroárabe, no qual eles não se apre

ram na segunda e até mesmo

de influências.

do será, se tuir a

funcionar, substi

dominação, imposta

à

África pela Europa durante a

era colonial, por uma espéci £'

promete ser tempestuoso se jul garmos pelos primeiros efeitos do que aparece mais como uma (19)

nismo ou de ingenuidade? De qualquer modo ela comete o erro de apresentar-se bem tar que

os países ditos desenvolvidos não têm mais o monopólio do avanço tecnológico que se apressaram, antes, .em trans ferir por um lucro imediato, aos mais adiantados dos países em desenvolvimento. Estas, por sua V62, dedicam-se a se plan tar solidamente nos países menos adiantados, em nome do novo princípio, já invocado, da cooperação Sul-Sul. Todo 0 mal não viria portan to destes países que, não sa tisfeitos em nos comprar usi nas, pretendem servir-se delas

Com efoito, Q solvabllldade de certos países é tão fraca que a maioria de suas com pras são financiadas por ajuda eictorior. Ajuda "ligada", quer dizer devendo ser

utilizada obrigatoriamente para a aciulsição de bens ou de serviços no pais de origem do ojuda. Assim, o que é considerado oficlalmente como umo exportação do país doador não passa, de fato, de uma subvenção Indireta a um ramo de atividade.


DIGESTO

134

ECONÔMICO

xam, contudo, de ter certa uti

efeitos perturbadores, nota damente no plano social, tan to nos países antigamente industrializados (transferências

lidade.

de

tão bem ou melhor do que nós? Estes “novos Japões” (20) de onde nos vem o perigo não dei Toda

a dificuldade

de

elaborar a seu respeito uma po

lítica coerente provêm, preci samente, da ambigüidade que preside nossas

relações

com

empregos),

quanto

nos

países que se industrializam (respeito das regras humani tárias

elementares

téria de trabalho).

em

ma

Mas esse

eles. Concorrentes temíveis em

movimento não será freado de

certos campos, chegam a pôr

modo algum por medidas aber ta ou maliciosamente protecio nistas que seriam, de resto, to talmente inoperantes em outros mercados, onde a concorrência

em dificuldade setores inteiros

de nossa atividade produtiva. Mas este sucesso é, para eles, era contrapartida, a condição indispensável de um desenvol vimento econômico que os transforma em clientes rentá veis para outros setores indus triais, onde possuímos ainda um avanço, e até um monopó lio tecnológico. Parece portan to que, contrariamente ao que

se podia temer, uma tal evolu

se

exerce

livremente e onde

tentamos, não sem dificulda des, manter nossas posições co

merciais, como por exemplo no Oriente-Próximo.

Descobrimos

com espanto a capacidade con correncial dos novos países in dustriais

da

Ásia

comn a Co

réia do Sul, Taiwan, a índia, e

ção é globalmente benéfica pa

amanhã, sem dúvida, a China.

ra nossas economias em declí

Algumas firmas européias, notadamente francesas, não he

nio.

(21).

O duplo

mento industrial

desenvolvi

parece irre-

versivelmente estimulado.

ve-se, (20) (21)

é

certo,

De

moderar seus

sitam, aliás,

em utilizar em

subempreitadas empresas des tes países, e até em engajar

Cf Claude Couriet, Pierre Judete. "os novos Japões" na corrida ao

crescimento. Pa monde diplomatique" (dezembro de 1979. Quando se ouso exibir na tribuna da Assembiéia nacional uma roupa do banho "modo In Korea". a honestidade ou a lógica não obrigaria a declarar Igualmente que as Korean Airlines” tinham comprado quatro "Alrbus" e quo isto era necessariamente condição daquilo? A balança de nossas trocas com os poisos em Industrialização rá radoxo e risco

pida de

é,

aliás,

da semi-Industriallzação,

frequentemonto

equipamentos.

"Le

beneficiária,

razão

de

suas

necessidades

em

bons

DIGESTO ECONÔMICO

135

pessoal vindo destes países, in

se verifica casualmente em um

finitamente

e de

ou outro desses países. Não é

qualificação ao pessoal

também honesto considerar co

europeu expatriado (22). Restam enfim, os países

mo adquirida uma inovação tecnológica ainda muito im perfeitamente dominada, tal co mo a exploração das profunde zas marinhas, que transforma

igual

menos caros,

que, sem nos embaraçar com

vã figura de retórica, chama remos simplesmente países po bres. Não é interdito

esperar

que alguns dentre eles, graças a alguns trunfos de ordem eco nômica ou humana, chegarão, sem muita demora, a atingir uma categoria superior. Mas.

para a maioria deles, pode-se perguntar se o próprio termo desenvolvimento não constitui um eufemismo. Nossas relações com eles não devem ser mon tadas principalmente na espe

rança de algum lucro econômi co, mesmo quando este pare ça legítimo em certos aspecto.s (23). Não é razoável procurar a miragem de um futuro, alta mente hipotético, baseado em descobertas posteriores de ri

quezas naturais atualmente insuspeitadas, mesmo quando isso (22)

ria

radicalmente a sorte

dos

Estados insulares ou dotados de uma ampla testada marítima.

As relações

com os países

do Terceiro Mundo são essen

cialmente, para a França, es tabelecidas com países africa nos.

A África

cola

em

nossa

pele (24), ela nos esconde o mundo. Diariamente surgem indícios deste fato desolador —

provenha ele do mundo oficial, da imprensa, da universidade, dos negócios ou. simplesmente, de almas animadas de uma au

têntica generosidade. Cabería analisar a política africana da

França, mas isso consistiría em outro artigo.

É um fato. contudo, além

dos governantes

que. e dos

Cf Jcon-Pierre Gomane, ‘‘As reiaçíSes entre o mundo árabe e a Asia do Leste, exem plo de cooperação Sul-Sul''', "Maghreb Machrek', Paris, Lb Documentation frençalse, 4.0 trimestre

1979.

[23)

Não evocamos aqui os lucros privados de uma pessoa ffsica ou de um grupo, lucros quo podem muito bem coexistir com investimentos não rentáveis no plano econô¬

(24)

Quando

mico ao do

Siil

nível

da coletividade nacional.

escrevemos

do

Sahara

e,

"África" de

um

sem

modo

outra

ainda

precisão, mais

trata-se

evidentemente

restritivo, unicamente dos

da

África

países

que

mantám com a França laços particulares (Cf Jean-Pierre Gomane, As Instituições da cooperação

francesa,

Estudos, Junho de

1975,

p. 851-866).


DIGESTO

134

ECONÔMICO

xam, contudo, de ter certa uti

efeitos perturbadores, nota damente no plano social, tan to nos países antigamente industrializados (transferências

lidade.

de

tão bem ou melhor do que nós? Estes “novos Japões” (20) de onde nos vem o perigo não dei Toda

a dificuldade

de

elaborar a seu respeito uma po

lítica coerente provêm, preci samente, da ambigüidade que preside nossas

relações

com

empregos),

quanto

nos

países que se industrializam (respeito das regras humani tárias

elementares

téria de trabalho).

em

ma

Mas esse

eles. Concorrentes temíveis em

movimento não será freado de

certos campos, chegam a pôr

modo algum por medidas aber ta ou maliciosamente protecio nistas que seriam, de resto, to talmente inoperantes em outros mercados, onde a concorrência

em dificuldade setores inteiros

de nossa atividade produtiva. Mas este sucesso é, para eles, era contrapartida, a condição indispensável de um desenvol vimento econômico que os transforma em clientes rentá veis para outros setores indus triais, onde possuímos ainda um avanço, e até um monopó lio tecnológico. Parece portan to que, contrariamente ao que

se podia temer, uma tal evolu

se

exerce

livremente e onde

tentamos, não sem dificulda des, manter nossas posições co

merciais, como por exemplo no Oriente-Próximo.

Descobrimos

com espanto a capacidade con correncial dos novos países in dustriais

da

Ásia

comn a Co

réia do Sul, Taiwan, a índia, e

ção é globalmente benéfica pa

amanhã, sem dúvida, a China.

ra nossas economias em declí

Algumas firmas européias, notadamente francesas, não he

nio.

(21).

O duplo

mento industrial

desenvolvi

parece irre-

versivelmente estimulado.

ve-se, (20) (21)

é

certo,

De

moderar seus

sitam, aliás,

em utilizar em

subempreitadas empresas des tes países, e até em engajar

Cf Claude Couriet, Pierre Judete. "os novos Japões" na corrida ao

crescimento. Pa monde diplomatique" (dezembro de 1979. Quando se ouso exibir na tribuna da Assembiéia nacional uma roupa do banho "modo In Korea". a honestidade ou a lógica não obrigaria a declarar Igualmente que as Korean Airlines” tinham comprado quatro "Alrbus" e quo isto era necessariamente condição daquilo? A balança de nossas trocas com os poisos em Industrialização rá radoxo e risco

pida de

é,

aliás,

da semi-Industriallzação,

frequentemonto

equipamentos.

"Le

beneficiária,

razão

de

suas

necessidades

em

bons

DIGESTO ECONÔMICO

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pessoal vindo destes países, in

se verifica casualmente em um

finitamente

e de

ou outro desses países. Não é

qualificação ao pessoal

também honesto considerar co

europeu expatriado (22). Restam enfim, os países

mo adquirida uma inovação tecnológica ainda muito im perfeitamente dominada, tal co mo a exploração das profunde zas marinhas, que transforma

igual

menos caros,

que, sem nos embaraçar com

vã figura de retórica, chama remos simplesmente países po bres. Não é interdito

esperar

que alguns dentre eles, graças a alguns trunfos de ordem eco nômica ou humana, chegarão, sem muita demora, a atingir uma categoria superior. Mas.

para a maioria deles, pode-se perguntar se o próprio termo desenvolvimento não constitui um eufemismo. Nossas relações com eles não devem ser mon tadas principalmente na espe

rança de algum lucro econômi co, mesmo quando este pare ça legítimo em certos aspecto.s (23). Não é razoável procurar a miragem de um futuro, alta mente hipotético, baseado em descobertas posteriores de ri

quezas naturais atualmente insuspeitadas, mesmo quando isso (22)

ria

radicalmente a sorte

dos

Estados insulares ou dotados de uma ampla testada marítima.

As relações

com os países

do Terceiro Mundo são essen

cialmente, para a França, es tabelecidas com países africa nos.

A África

cola

em

nossa

pele (24), ela nos esconde o mundo. Diariamente surgem indícios deste fato desolador —

provenha ele do mundo oficial, da imprensa, da universidade, dos negócios ou. simplesmente, de almas animadas de uma au

têntica generosidade. Cabería analisar a política africana da

França, mas isso consistiría em outro artigo.

É um fato. contudo, além

dos governantes

que. e dos

Cf Jcon-Pierre Gomane, ‘‘As reiaçíSes entre o mundo árabe e a Asia do Leste, exem plo de cooperação Sul-Sul''', "Maghreb Machrek', Paris, Lb Documentation frençalse, 4.0 trimestre

1979.

[23)

Não evocamos aqui os lucros privados de uma pessoa ffsica ou de um grupo, lucros quo podem muito bem coexistir com investimentos não rentáveis no plano econô¬

(24)

Quando

mico ao do

Siil

nível

da coletividade nacional.

escrevemos

do

Sahara

e,

"África" de

um

sem

modo

outra

ainda

precisão, mais

trata-se

evidentemente

restritivo, unicamente dos

da

África

países

que

mantám com a França laços particulares (Cf Jean-Pierre Gomane, As Instituições da cooperação

francesa,

Estudos, Junho de

1975,

p. 851-866).


136

DIGESTO

aparelhos de Estado, na Áfri ca, na América Latina, no Oriente Próximo ou na Ásia — para não falar do mundo desen

volvido, sob esses dois avatares, 0 socialista e o liberal —

ECONÔMICO

Estado como o único mediador

de todos os nossos passos e de nos crermos dirigidos por seu projeto político. No fim de con

tas, Terceiro Mundo ou Tercei

tiça. A solução de tais proble mas se prende muito parcial mente, apenas, às atribuições do poder público que, às vezes,

ros Mundos, para lá do anoni mato de algumas cento e vinte construções de Estados mais ou menos recentes, frágeis, ar tificiais, impotentes ou cons trangedoras, há três bilhões de

os provocou, e até mesmo agra

seres

vou.

amar, ajudar.

há seres humanos que padecem necessidade, sofrimento, injus

Cessemos de considerar o

Imigração

humanos,

a

e

emprego

conhecer, E.

K.

Rahardt

(Continuação da págrioa 120)

comparativo com lâminas da referência de material polínlco prevlamente identificado. Nas áreas de aplicação em que se utiliza estudo dos pólens dos sedimentos (guia-fóssU) obtidos em depósitos naturais no solo, sub solo ou lagos naturais quaternários, pode-se solucionar diversos proble mas ligados à paleontologia, paleoecologia, arqueologia ou petrologia (área denominada geojjalinologia). No Brasil, o estudo com pólens fósseis na reconstrução da flora e conhecimento de alterações climáticas possibilitará aplicações nos cerrados. Trabalhos descritivos sobre pólen das plantas de cerrado já têm sido realizados por Maria Lea S. Laboriu, T. Melhen e outros. Quanto ao estudo do pólen da atmosfera, chamado aeropallnologia, é de utilidade na área da medicina relacionada com alergia e dela se ocuparam, no Brasil, Oliveira Lima, Mendes, Lacaz, Nelhen e Mokino. O pólen pode ainda ser empregado na identificação das plantas apícolas, por meio dos grãos contidos nos méis ou dos coletados pelas abelhas e armazenados em bolotas nas corbícolas dos patas traseiras das abelhas apis, ou outros insetos. É área conhecida como mellissopallnologia. Pela

análise poUnica dos méis pode-se determinar a origem geográfica deles, através da flora apícola d© diferentes regiões do país. É possível, ainda, por esse método identificar as plantas nectaríferos e poliníferas, ou am bas. Por último, o pólen presta-se para avaliação do período de flores cimento das plantas entomófilas (polinlzadas com auxílio de insetos). (Do Boletim da U.S.P.).

É preciso tornar mais eficiente o

recrutamento da mão-de-obra imigrante.

O autor é representante especial para a América do Sul do Comitê Intergovernamental

para as Migrações Européias. A estratégia do Go\erno

no

campo do emprego, agmdo atra vés do Conselho Nac onal de Política de Emprego e o Siste ma Nacional de Emprego (SI-

NE), é a de aperfeiçoar o fimcionamento do mercado de tra balho fornecendo informação,

orientação e serviços de colo cação àqueles que estão à pro cura de emprego, bem como serviços de informação e re-

crutamento aos empregadores. Ao mesmo tempo, procura co letar dados

relativos

às neces

sidades de mão-de-obra, à de manda na criação de novos em pregos e às tendências da mi gração interna e do mercad? de trabalho em gerai, sobre quais dados a futura política de emprego se baseará. O ob jetivo é 0 de utilizar e valori zar ao máximo os abundantes


136

DIGESTO

aparelhos de Estado, na Áfri ca, na América Latina, no Oriente Próximo ou na Ásia — para não falar do mundo desen

volvido, sob esses dois avatares, 0 socialista e o liberal —

ECONÔMICO

Estado como o único mediador

de todos os nossos passos e de nos crermos dirigidos por seu projeto político. No fim de con

tas, Terceiro Mundo ou Tercei

tiça. A solução de tais proble mas se prende muito parcial mente, apenas, às atribuições do poder público que, às vezes,

ros Mundos, para lá do anoni mato de algumas cento e vinte construções de Estados mais ou menos recentes, frágeis, ar tificiais, impotentes ou cons trangedoras, há três bilhões de

os provocou, e até mesmo agra

seres

vou.

amar, ajudar.

há seres humanos que padecem necessidade, sofrimento, injus

Cessemos de considerar o

Imigração

humanos,

a

e

emprego

conhecer, E.

K.

Rahardt

(Continuação da págrioa 120)

comparativo com lâminas da referência de material polínlco prevlamente identificado. Nas áreas de aplicação em que se utiliza estudo dos pólens dos sedimentos (guia-fóssU) obtidos em depósitos naturais no solo, sub solo ou lagos naturais quaternários, pode-se solucionar diversos proble mas ligados à paleontologia, paleoecologia, arqueologia ou petrologia (área denominada geojjalinologia). No Brasil, o estudo com pólens fósseis na reconstrução da flora e conhecimento de alterações climáticas possibilitará aplicações nos cerrados. Trabalhos descritivos sobre pólen das plantas de cerrado já têm sido realizados por Maria Lea S. Laboriu, T. Melhen e outros. Quanto ao estudo do pólen da atmosfera, chamado aeropallnologia, é de utilidade na área da medicina relacionada com alergia e dela se ocuparam, no Brasil, Oliveira Lima, Mendes, Lacaz, Nelhen e Mokino. O pólen pode ainda ser empregado na identificação das plantas apícolas, por meio dos grãos contidos nos méis ou dos coletados pelas abelhas e armazenados em bolotas nas corbícolas dos patas traseiras das abelhas apis, ou outros insetos. É área conhecida como mellissopallnologia. Pela

análise poUnica dos méis pode-se determinar a origem geográfica deles, através da flora apícola d© diferentes regiões do país. É possível, ainda, por esse método identificar as plantas nectaríferos e poliníferas, ou am bas. Por último, o pólen presta-se para avaliação do período de flores cimento das plantas entomófilas (polinlzadas com auxílio de insetos). (Do Boletim da U.S.P.).

É preciso tornar mais eficiente o

recrutamento da mão-de-obra imigrante.

O autor é representante especial para a América do Sul do Comitê Intergovernamental

para as Migrações Européias. A estratégia do Go\erno

no

campo do emprego, agmdo atra vés do Conselho Nac onal de Política de Emprego e o Siste ma Nacional de Emprego (SI-

NE), é a de aperfeiçoar o fimcionamento do mercado de tra balho fornecendo informação,

orientação e serviços de colo cação àqueles que estão à pro cura de emprego, bem como serviços de informação e re-

crutamento aos empregadores. Ao mesmo tempo, procura co letar dados

relativos

às neces

sidades de mão-de-obra, à de manda na criação de novos em pregos e às tendências da mi gração interna e do mercad? de trabalho em gerai, sobre quais dados a futura política de emprego se baseará. O ob jetivo é 0 de utilizar e valori zar ao máximo os abundantes


138

DIGESTO

recursos

humanos do Brasil.

Assim como o maior serviço so cial é 0 de proporcionar um

emprego

útil e compensador,

ECONÔMICO

mão-de-obra para as planta ções de café e para a expan são

da

indústria

de

transfor

mação em São Paulo.

também o mais importante ele mento

no

processo de

desen

volvimento é representado por um trabalhador bem treinado cujos serviços sejam utilizados de maneira eficiente.

Nos dias de hoje, a imigra ção é um processo altamente seletivo que envolve o recruta mento e a integração de rela tivamente poucos elementos, que são

O Brasil é, por tradição, um

país de imigração; homens e mulheres de muitas raças e na cionalidades aqui se juntaram

para abrir seu vasto território,

contribuíram para SGU desenvolvimento e auxiliaram a criar os imensos recursos de mão-deobra de que dispõe o País atual

mente. Não é, portanto, surpre endente que a imigração repre sente uma parte integrante da estratégia do Governo no que se refere a recursos humanos.

Entretanto, a imigração hoje em dia difere em

muito

dos

movimentos relativamente gran des que caracterizaram o século XIX e a primeira metade do século XX, e que foram de tanta importância, por exem plo, para o desenvolvimentoda agricultura e viticultura no Rio Grande do Sul, ou que forne ceram grande quantidade

de

entretanto

altamente

qualificados no campo da téc nica, do ensino e da pesquisa.

Tais elementos, que não se en contram imediatamente dispo níveis no mercado de trabalho local, irão atender uma com provada demanda e contribuir de um modo claramente deter

minado para as metas de senvolvimento

de

econômico e so

cial do País. Assim, o proces so pelo qual o imigrante é re

crutado, transportado para o Brasil e colocado no emprego é um assunto pertinente aos te mas do presente Semmário. Em 16 de junho de 1976. um acordo tripartite foi assinado entre o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério do Tra balho e o Comitê Intergovernamental para as Migrações Eu ropéias, com 0 objetivo de tor nar possível uma maior cola boração no que se refere à rea-

DIGESTO

139

ECONÔMICO

lização da política brasileira de imigração. Nos termos desse

acordo, o Ministério do Traba lho forneceu os meios que pos sibilitaram ao CIME expandir sua rede de escritórios de co

locação no País articulando-se com 0 Sistema Nacional de Em-

prego, tendo ainda aperfeiçoa do os seus serviços relaciona dos com a recepção, adapta

ção e integração de imigrantes

permanentes. O CIME comprometeu-se a fornecer, regular mente, informações sobre os números e tipos de imigrantes colocados no País sob seus aus

pícios, bem como sobre as pos sibilidades de recrutar no ex

terior 0 tipo de mão-de-obra de que

o Brasil viesse a necessi-

tar a qualquer momento. Sob

termos do acordo, o Minis tério do Trabalho fornecerá ao

os

CIME, regularmente, dados so bre a situação do mercado de trabalho no que se refere àque las profissões para as quais o recrutamento de imigrantes

permanentes seria po--sivel

e

países de origem. Dessa

ma

neira, 0 acordo de 16 de junho de 1976 deu à imigração um

papel significativo na política de emprego do Governo, forne cendo ao mesmo tempo um elo entre o mercado de trabalho do Brasil e as fontes de recruta mento de mão-de-obra no ex terior.

Foi solicitado nário considerar

a este Semi três temas

principais: a produção de in formação tendo em vista uma melhor organização dc merca do de trabalho; a intermedia çao do trabalho e educação; e a geração de emprego e a va

lorização do trabalhador. O CI ME, na realização das tarefas e si atribuídas pela sua Consti tuição e pelo acordo tripartite, já está engajado em algumas das

atividades

relacionadas

com esses temas, e possui a capacidade de envolver-se mais profundaments com os mesmos no futuro. Uma

vez reconhecido o fa

desejável, enquanto ao CIME caberá preparar, seguindo a orientação do Governo, mate

to de que a imigração seletiva de mão-de-obra estrangeira po

rial informativo sobre o Bràsil para ser distribuído aos can didatos à emigração nos seus

força de trabalho local, aper

de elevar o nível

técnico

da

feiçoar a sua produtividade e auxiliar na criação de uma tec-


138

DIGESTO

recursos

humanos do Brasil.

Assim como o maior serviço so cial é 0 de proporcionar um

emprego

útil e compensador,

ECONÔMICO

mão-de-obra para as planta ções de café e para a expan são

da

indústria

de

transfor

mação em São Paulo.

também o mais importante ele mento

no

processo de

desen

volvimento é representado por um trabalhador bem treinado cujos serviços sejam utilizados de maneira eficiente.

Nos dias de hoje, a imigra ção é um processo altamente seletivo que envolve o recruta mento e a integração de rela tivamente poucos elementos, que são

O Brasil é, por tradição, um

país de imigração; homens e mulheres de muitas raças e na cionalidades aqui se juntaram

para abrir seu vasto território,

contribuíram para SGU desenvolvimento e auxiliaram a criar os imensos recursos de mão-deobra de que dispõe o País atual

mente. Não é, portanto, surpre endente que a imigração repre sente uma parte integrante da estratégia do Governo no que se refere a recursos humanos.

Entretanto, a imigração hoje em dia difere em

muito

dos

movimentos relativamente gran des que caracterizaram o século XIX e a primeira metade do século XX, e que foram de tanta importância, por exem plo, para o desenvolvimentoda agricultura e viticultura no Rio Grande do Sul, ou que forne ceram grande quantidade

de

entretanto

altamente

qualificados no campo da téc nica, do ensino e da pesquisa.

Tais elementos, que não se en contram imediatamente dispo níveis no mercado de trabalho local, irão atender uma com provada demanda e contribuir de um modo claramente deter

minado para as metas de senvolvimento

de

econômico e so

cial do País. Assim, o proces so pelo qual o imigrante é re

crutado, transportado para o Brasil e colocado no emprego é um assunto pertinente aos te mas do presente Semmário. Em 16 de junho de 1976. um acordo tripartite foi assinado entre o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério do Tra balho e o Comitê Intergovernamental para as Migrações Eu ropéias, com 0 objetivo de tor nar possível uma maior cola boração no que se refere à rea-

DIGESTO

139

ECONÔMICO

lização da política brasileira de imigração. Nos termos desse

acordo, o Ministério do Traba lho forneceu os meios que pos sibilitaram ao CIME expandir sua rede de escritórios de co

locação no País articulando-se com 0 Sistema Nacional de Em-

prego, tendo ainda aperfeiçoa do os seus serviços relaciona dos com a recepção, adapta

ção e integração de imigrantes

permanentes. O CIME comprometeu-se a fornecer, regular mente, informações sobre os números e tipos de imigrantes colocados no País sob seus aus

pícios, bem como sobre as pos sibilidades de recrutar no ex

terior 0 tipo de mão-de-obra de que

o Brasil viesse a necessi-

tar a qualquer momento. Sob

termos do acordo, o Minis tério do Trabalho fornecerá ao

os

CIME, regularmente, dados so bre a situação do mercado de trabalho no que se refere àque las profissões para as quais o recrutamento de imigrantes

permanentes seria po--sivel

e

países de origem. Dessa

ma

neira, 0 acordo de 16 de junho de 1976 deu à imigração um

papel significativo na política de emprego do Governo, forne cendo ao mesmo tempo um elo entre o mercado de trabalho do Brasil e as fontes de recruta mento de mão-de-obra no ex terior.

Foi solicitado nário considerar

a este Semi três temas

principais: a produção de in formação tendo em vista uma melhor organização dc merca do de trabalho; a intermedia çao do trabalho e educação; e a geração de emprego e a va

lorização do trabalhador. O CI ME, na realização das tarefas e si atribuídas pela sua Consti tuição e pelo acordo tripartite, já está engajado em algumas das

atividades

relacionadas

com esses temas, e possui a capacidade de envolver-se mais profundaments com os mesmos no futuro. Uma

vez reconhecido o fa

desejável, enquanto ao CIME caberá preparar, seguindo a orientação do Governo, mate

to de que a imigração seletiva de mão-de-obra estrangeira po

rial informativo sobre o Bràsil para ser distribuído aos can didatos à emigração nos seus

força de trabalho local, aper

de elevar o nível

técnico

da

feiçoar a sua produtividade e auxiliar na criação de uma tec-


DIGESTO

liO

ECONÔMICO

nologia nacional e dos recursos

do recrutamento de pessoal no

iTumanos

exterior.

destinados

a

utilizá-

la, e iTma vez compreendido que essa mão-de<>bra não irá competir com a força de traba lho local, fica claro que quan to mais precisaraente forem avaliadas

e determmadas

rrecessidades

de

as

mão de-obra

estrangeira, mais eficazmente poderá a imigração contribuir para os reais interesses brasi leiros.

Os

cinco escritórios de

colocação do CIME, localizados

estrategicamente em Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janei

ro, São Paulo e Porto Alegre, se mantêm em permanente e estreito contato com emprega dores, bem como universidades nas áreas sob sua jurisdição, a fim de avaliar, da maneira

mais exata possível, quais

as

necessidades de pessoal alta mente qualificado que não é en contrado no mercado local de trabalho. EUes estão também

em contato com representantes do Sistema Nacional de Empre go nas suas respectivas re giões a fim de partilhar das in formações sobre a demanda lo cal de mão-de-obra, e até que ponto tais necessidades podem e devem ser atendidas através

Este acesso prag.mático à coleta de dados sobre c merca¬

do de trabalho deve, obviamen

te, ser complementado por es tudos mais amplos que tomem

em consideração uma planeja da expansão industrial e agrí cola, a necessidade de avanço

tecnológico em certos setores,

a provável expansão demográ fica da força de trabalho, e os recém-formados por escolas

técnicas e universidades, além do déficit existente de tipos es

pecíficos de recursos humanos.

A combinação

dessas

proje

ções a médio e longo prazo, com os contatos normais coti dianos com os empregadores em potencial, deverá fornecer um diagnóstico mais exato, no

que se refere

à carência de

mão-de-obra imigrante, do que aquele que se pode fazer no momento. Se as necessidades da indústria, agricultura e es tabelecimentos de ensino forem então coordenadas e o re

crutamento levado a efeito atra vés de um canal central, tornar-se-ão maiores as possibili dades de atender às necessida

des do País, no que se refere

DIGESTO

ECONÔMICO

a pessoal estrangeiro altamen te qualificado.

Desde a sua criação em 1952, 0 CIME trouxe para o Brasil aproximadamente 120 000 imi grantes e suas famílias, embo ra

a taxa

anual de movimen

tos tenha decrescido considera velmente nesses últimos anos como resultado de um recruta mento mais seletivo. A média

anual, durante os cinca anos de 1973 a 1977, foi de 820 técnicos e 540 dependentes. O CIME mantém acordos permanentes

com serviços de emprego na Europa, onde candidatos ade quados à imigração para o Bra sil (e para outros países latinoamericanos) são encaminhados ao CIME para entrevista e se leção. O recrutamento é reali

141

que recebe de pessoas desejo sas de obter uma colocação nu América Latina, e ajuda a re crutai* candidatos para atendi

mento de ofertas de emprego submetidas

às Missões do CI

ME.

O CIME possui acordos semelhantes com agências governamentais

e

semigovema-

mentais ligadas ao fornecimen

to de pessoal altamente quali

ficado para países em desen volvimento. Os acordos com o

Ministério da Cooperação Téc nica da Alemanha e eom o Ins tituto Ítalo-Latino-Americano

constituem bons exemplos. Es sas agências auxiliam o CIME no recrutamento de professores universitários, pesquisadores e

zado de acordo com a Lista de

pessoal qualificado

Ocupações, preparada e perio dicamente revisada pelo Minis

Este é um outro exemplo do elo

tério do Trabalho, a qual indi

CIME entre

ca aquelas profissões conside radas em demanda no Brasil e

não disponíveis, em número su ficiente, no mercado de traba lho local. Um ótimo exemplo desta cooperação é representa do pelo acordo entre o CIME e a Agência Central Alemã de Em prego (ZAV); a ZAV encami

nha ao CIME todos os pedidos

estabelecido os

deste tipo. através

do

mercados

de

trabalho da Europa e do Bra

sil. Sendo que alguns países da Europa estão preparados para

considerar esta troca de

pes-

soai como forma importante de assistência econômica c veiculo para a transferência de tecno

logia e, inclusive, dispostos conceder certas facilidades

a co¬

mo incentivos financeiros, para


DIGESTO

liO

ECONÔMICO

nologia nacional e dos recursos

do recrutamento de pessoal no

iTumanos

exterior.

destinados

a

utilizá-

la, e iTma vez compreendido que essa mão-de<>bra não irá competir com a força de traba lho local, fica claro que quan to mais precisaraente forem avaliadas

e determmadas

rrecessidades

de

as

mão de-obra

estrangeira, mais eficazmente poderá a imigração contribuir para os reais interesses brasi leiros.

Os

cinco escritórios de

colocação do CIME, localizados

estrategicamente em Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janei

ro, São Paulo e Porto Alegre, se mantêm em permanente e estreito contato com emprega dores, bem como universidades nas áreas sob sua jurisdição, a fim de avaliar, da maneira

mais exata possível, quais

as

necessidades de pessoal alta mente qualificado que não é en contrado no mercado local de trabalho. EUes estão também

em contato com representantes do Sistema Nacional de Empre go nas suas respectivas re giões a fim de partilhar das in formações sobre a demanda lo cal de mão-de-obra, e até que ponto tais necessidades podem e devem ser atendidas através

Este acesso prag.mático à coleta de dados sobre c merca¬

do de trabalho deve, obviamen

te, ser complementado por es tudos mais amplos que tomem

em consideração uma planeja da expansão industrial e agrí cola, a necessidade de avanço

tecnológico em certos setores,

a provável expansão demográ fica da força de trabalho, e os recém-formados por escolas

técnicas e universidades, além do déficit existente de tipos es

pecíficos de recursos humanos.

A combinação

dessas

proje

ções a médio e longo prazo, com os contatos normais coti dianos com os empregadores em potencial, deverá fornecer um diagnóstico mais exato, no

que se refere

à carência de

mão-de-obra imigrante, do que aquele que se pode fazer no momento. Se as necessidades da indústria, agricultura e es tabelecimentos de ensino forem então coordenadas e o re

crutamento levado a efeito atra vés de um canal central, tornar-se-ão maiores as possibili dades de atender às necessida

des do País, no que se refere

DIGESTO

ECONÔMICO

a pessoal estrangeiro altamen te qualificado.

Desde a sua criação em 1952, 0 CIME trouxe para o Brasil aproximadamente 120 000 imi grantes e suas famílias, embo ra

a taxa

anual de movimen

tos tenha decrescido considera velmente nesses últimos anos como resultado de um recruta mento mais seletivo. A média

anual, durante os cinca anos de 1973 a 1977, foi de 820 técnicos e 540 dependentes. O CIME mantém acordos permanentes

com serviços de emprego na Europa, onde candidatos ade quados à imigração para o Bra sil (e para outros países latinoamericanos) são encaminhados ao CIME para entrevista e se leção. O recrutamento é reali

141

que recebe de pessoas desejo sas de obter uma colocação nu América Latina, e ajuda a re crutai* candidatos para atendi

mento de ofertas de emprego submetidas

às Missões do CI

ME.

O CIME possui acordos semelhantes com agências governamentais

e

semigovema-

mentais ligadas ao fornecimen

to de pessoal altamente quali

ficado para países em desen volvimento. Os acordos com o

Ministério da Cooperação Téc nica da Alemanha e eom o Ins tituto Ítalo-Latino-Americano

constituem bons exemplos. Es sas agências auxiliam o CIME no recrutamento de professores universitários, pesquisadores e

zado de acordo com a Lista de

pessoal qualificado

Ocupações, preparada e perio dicamente revisada pelo Minis

Este é um outro exemplo do elo

tério do Trabalho, a qual indi

CIME entre

ca aquelas profissões conside radas em demanda no Brasil e

não disponíveis, em número su ficiente, no mercado de traba lho local. Um ótimo exemplo desta cooperação é representa do pelo acordo entre o CIME e a Agência Central Alemã de Em prego (ZAV); a ZAV encami

nha ao CIME todos os pedidos

estabelecido os

deste tipo. através

do

mercados

de

trabalho da Europa e do Bra

sil. Sendo que alguns países da Europa estão preparados para

considerar esta troca de

pes-

soai como forma importante de assistência econômica c veiculo para a transferência de tecno

logia e, inclusive, dispostos conceder certas facilidades

a co¬

mo incentivos financeiros, para


DIGESTO

142

encorajar

DIGESTO

econômico

anos. A finalidade desse levan

seus nacionais a tra-

tamento é a de saber

balhar por algum tempo na América Latina, resulta a for

se

os

dos com referência às condi

ções no Brasil antes de sua partida da Europa; se estão se

acréscimo bastante signifi cativo aos níveis mais altos de

adaptando bem

um

seus recursos humanos.

Com a finalidade de obter o melhor de um programa de imi

gração seletiva, é recomendá vel auxiliar os imigrantes a se

integrarem rapidamente a üm de que possam render com sua capacidade total no mais breve espaço de tempo possível. O

ao seu

novo

este objetivo

em vista, o CIME iniciou

re

necessidades

dos imigrantes simplesmente porque o problema não foi ain

este levantamento será apre sentado brevemente ao Ministé

para merecer uma atenção es

rio do Trabalho.

do Governo nessas áreas é tal

Igualmente importante será coordenar

e harmonizar a po

no em outros campos além do de mão-de-obra para assegurar

que elas apoiem a política de

tica fiscal e de taxação, leis

que regem a previdência social, legislação trabalhista particu larmente no que se refere à re

gulamentação e ao exercício de profissões, a rápida revalida

centemente um levantamento com uma amostra de imigrantes divididos em quatro grupos distintos: aqueles que se encon

ção de diplomas, bem como re

tram no país há menos de meses; de 6 meses a 2 anos; de 2 a 5 anos; e há mais de 5

campo social com as quais se

6

conta as

dos

imigração. Esses campos correlatos incluem política e re gulamentação aduaneira, polí-

de idioma. Com

em

gração. O relatório relativo a

fim de fornecer

formação, orientação © ensino

va

da considerado ou devido ao fato de aparentemente não ser

devem ser tomadas para faci litar a sua adaptação e inte

lítica e a legislação du Gover

serviços aos imigrantes perma nentes destinados a facilitar a sua adaptação e integração; tais serviços devem incluir in

em um

país, e que medidas eventuais

acordo de 16 de junho de 1976 reconhece este fato e estipula que 0 Ministério do Trabalho dê apoio e recursos ao CIME a e apí^rfeiçoar

deseja estabelecer-se novo país.

143

Frequentemente a política nssses campos de ação não le

imigrantes estão bem informa

mação de importante canal pe lo qual 0 Brasil pode receber, quando considerado necessário,

ECONÔMICO

gulamentos de saúde .e um número de outras

medidas

no

defronta o recém-chegado que

0 número de imigrantes dirigi suficientemente

volumoso

pecial. Obviamente, se a ação que torna difícil para um técni co imigrante estabelecer-se ra pida e adequadamente no seu novo país, ou exercer sua pro fissão com 0 "status” compatí vel com o seu treinamento, es tará frustrada a política de imigração do Governo. Exem

plificando,

se um engenheiro

im'grante constata que é tão difícil e complicado para ele lornar-se membro da sua asso

ciação de classe que se vê for

çado a trabalhar sem o “status" profissional ao qual teria direi to em virtude da sua formação,

c bem pouco provável que ele se sinta motivado a ponto de poder dar sua melhor contrí buição ao país cue o tenha re cebido.

A imigração também está ligada ao segundo tema do Se

minário,

ou seja, a ação

ne

cessária para garantir um re lacionamento

satisfatório entre

educação e trabalho^ Os

pro

fessores universitários e pes quisadores estrangeiros qui vieram para este país estão ajudando a criar uma nova classe de brasileiros altamente

treinados, capazes de desem penhar papéis de liderança na moderna sociedade tecnológica. Não existindo no Brasil a quan tidade necessária de professo

res do nível exigido para for mar, em número suficiente, os técnicos altamente qualificados de que a indústria necessita, a única alternativa além daque la de enviar brasileiros para serem treinados no exterior, r a importação dos professores necessários, seja em caráter permanenteou por período tem porário. Como já foi menciona do, 0 CIME possui acordos df cooperação com organizações européias com o objetivo de fa cilitar este processo. Em um nível mais baixo na

escala

de

qualificações,

o

CIME pode suprir o mercado, e na verdade já o fez anterior-


DIGESTO

142

encorajar

DIGESTO

econômico

anos. A finalidade desse levan

seus nacionais a tra-

tamento é a de saber

balhar por algum tempo na América Latina, resulta a for

se

os

dos com referência às condi

ções no Brasil antes de sua partida da Europa; se estão se

acréscimo bastante signifi cativo aos níveis mais altos de

adaptando bem

um

seus recursos humanos.

Com a finalidade de obter o melhor de um programa de imi

gração seletiva, é recomendá vel auxiliar os imigrantes a se

integrarem rapidamente a üm de que possam render com sua capacidade total no mais breve espaço de tempo possível. O

ao seu

novo

este objetivo

em vista, o CIME iniciou

re

necessidades

dos imigrantes simplesmente porque o problema não foi ain

este levantamento será apre sentado brevemente ao Ministé

para merecer uma atenção es

rio do Trabalho.

do Governo nessas áreas é tal

Igualmente importante será coordenar

e harmonizar a po

no em outros campos além do de mão-de-obra para assegurar

que elas apoiem a política de

tica fiscal e de taxação, leis

que regem a previdência social, legislação trabalhista particu larmente no que se refere à re

gulamentação e ao exercício de profissões, a rápida revalida

centemente um levantamento com uma amostra de imigrantes divididos em quatro grupos distintos: aqueles que se encon

ção de diplomas, bem como re

tram no país há menos de meses; de 6 meses a 2 anos; de 2 a 5 anos; e há mais de 5

campo social com as quais se

6

conta as

dos

imigração. Esses campos correlatos incluem política e re gulamentação aduaneira, polí-

de idioma. Com

em

gração. O relatório relativo a

fim de fornecer

formação, orientação © ensino

va

da considerado ou devido ao fato de aparentemente não ser

devem ser tomadas para faci litar a sua adaptação e inte

lítica e a legislação du Gover

serviços aos imigrantes perma nentes destinados a facilitar a sua adaptação e integração; tais serviços devem incluir in

em um

país, e que medidas eventuais

acordo de 16 de junho de 1976 reconhece este fato e estipula que 0 Ministério do Trabalho dê apoio e recursos ao CIME a e apí^rfeiçoar

deseja estabelecer-se novo país.

143

Frequentemente a política nssses campos de ação não le

imigrantes estão bem informa

mação de importante canal pe lo qual 0 Brasil pode receber, quando considerado necessário,

ECONÔMICO

gulamentos de saúde .e um número de outras

medidas

no

defronta o recém-chegado que

0 número de imigrantes dirigi suficientemente

volumoso

pecial. Obviamente, se a ação que torna difícil para um técni co imigrante estabelecer-se ra pida e adequadamente no seu novo país, ou exercer sua pro fissão com 0 "status” compatí vel com o seu treinamento, es tará frustrada a política de imigração do Governo. Exem

plificando,

se um engenheiro

im'grante constata que é tão difícil e complicado para ele lornar-se membro da sua asso

ciação de classe que se vê for

çado a trabalhar sem o “status" profissional ao qual teria direi to em virtude da sua formação,

c bem pouco provável que ele se sinta motivado a ponto de poder dar sua melhor contrí buição ao país cue o tenha re cebido.

A imigração também está ligada ao segundo tema do Se

minário,

ou seja, a ação

ne

cessária para garantir um re lacionamento

satisfatório entre

educação e trabalho^ Os

pro

fessores universitários e pes quisadores estrangeiros qui vieram para este país estão ajudando a criar uma nova classe de brasileiros altamente

treinados, capazes de desem penhar papéis de liderança na moderna sociedade tecnológica. Não existindo no Brasil a quan tidade necessária de professo

res do nível exigido para for mar, em número suficiente, os técnicos altamente qualificados de que a indústria necessita, a única alternativa além daque la de enviar brasileiros para serem treinados no exterior, r a importação dos professores necessários, seja em caráter permanenteou por período tem porário. Como já foi menciona do, 0 CIME possui acordos df cooperação com organizações européias com o objetivo de fa cilitar este processo. Em um nível mais baixo na

escala

de

qualificações,

o

CIME pode suprir o mercado, e na verdade já o fez anterior-


DIGE5TO ECONÔMICO

144

mente, com instrutores para escolas de formação profissio nal ou escolas de hotelaria,

O ponto de que trata o pa rágrafo anterior sobrepõe-se ao

Cfuando novos cursos de instru-

seja, a criação de empregos e a valorização do trabalhador.

instituídos ou quando se torna necessário aumentar .a çao

sao

produção de certas classes pro

fissionais para as quais existe uma demanda urgente.

Esses são meios práticos e

diretos pelos quais imigrantes

podem ajudar a garantir que as

instituições

educacionais

preparem os estudantes realisticamente para enfrentarem as

exigências que lhes serão fei tas quando estiverem exercen do as suas profissões. Existe ainda um outro método, indire

to mas muito eficaz^ O próprio fato de técnicos estrangeiros altamente qualificados traba

lharem lado a lado com brasi leiros que possuam menor qua

lificação técnica ou menos ex

periência, faz com que o téc nico nacional adquira maior conhecimento e experiência. Es ta transferência de tecnologia

por osmose representa uma das mais valiosas contribuições que

técnicos imigrantes podem fa zer para elevar o nível da força

de tiabalho como um todo.

terceiro tema do Seminário, ou

A criação de empregos é essen cialmente, em grande parte, uma questão de investim-ento em setores econômicos selecio

nados

e projetos

obra inten.siva.

de mão-de-

A fim de am-

pliar ao máximo os seus efei tos sociais é quase inevitável que a maior parte dos empre gos criados se destine a traba lhadores que não possuem qual quer qualificação ou àqueles semiqualif içados. Entretanto, a fim de possibilitar a esses elementos obter emprego, exi ge-se um mínimo irreduzível de pessoal técnico responsável por

gerência e supervisão. Isto

s<-

torna ainda mais evidente quan

do existe uma política voltada

para o emprego mais intensivo de recursos humanos nos pro-

públicos e particulares. Com frequência, não se encon tram localmente esses elemen-

jetos

ou tos altamente qualificados então já possuem eles um em

prego efetivo. Nessas circuns tâncias, a imigração de técni-

145

DIGESTO ECONÔMICO

COS estrangeiros cuidadosamen te selecionados e possuindo o

nível técnico exigido, pode ga rantir 0 sucesso dos programas referentes à criação de empre gos.

Na presente exposição foi feita uma tentativa de demons trar como as especializações técnicas e a experiência dos contribuir imigrantes podem do para a melhor organização mercado de trabalho, bem como para

um

melhor relaciona-

inei to entre educação e traba lho, e para a criação de em

pregos mais satisfatórios m1-dividualmenle, e de maior uti

ses entraves trazendo para o País tanto o pesisoal qualificado de que se necessita de imedia to, quanto também instrutores

que irão auxiliar no treinan^tito de brasileiros para o futuro; sendo esses últimos provavel mente os mais importantes, a

longo prazo Já existe o meca nismo que possibilita o fluxo de

imigração seletiva para os fins acima mencionados, tendo esse mecanismo sido nforçado pelo

acordo tripartite de 16 de junho

de 1976, bem como pela recen te decisão de criar-se uma Se cretaria de Imigração dentro do Ministério do Trabalho.

0 que é necessário agora é

lidade .t.‘Conômica. Em um pais

de dimcn.=^ão continental como o Brasil, com um enorme vo lume de recursos humanos que

um

estudo mais profundo das profissões e níveis

indústrias,

técnicos, onde exista demand.”

proprio Governo está tentan do ul’!:zar de maneira mais' efi ciente e racional a fim de ace

de mão-de-obra imigrante, bem como um esforço determinado para fazer com que o seu re

lerar 0 desenvolvimento e ele-

crutamento, colocação e inte gração se tornem mais eficien

0

var 0 padrão de vida dos trabalhadores, é natural que ocorram

obstáculos, entraves e cerde mão-de-obra

tas carências

treinada e técnica. A imigração seletiva está em. condições de concorrer para a redução des-

tes e mais rápidos. Há disponi bilidade do tipo de técnicos ne

cessários, mas há também de manda dos mesmos em muitos

outros países do mundo; assim, é preciso tomar-se medidas po-


DIGE5TO ECONÔMICO

144

mente, com instrutores para escolas de formação profissio nal ou escolas de hotelaria,

O ponto de que trata o pa rágrafo anterior sobrepõe-se ao

Cfuando novos cursos de instru-

seja, a criação de empregos e a valorização do trabalhador.

instituídos ou quando se torna necessário aumentar .a çao

sao

produção de certas classes pro

fissionais para as quais existe uma demanda urgente.

Esses são meios práticos e

diretos pelos quais imigrantes

podem ajudar a garantir que as

instituições

educacionais

preparem os estudantes realisticamente para enfrentarem as

exigências que lhes serão fei tas quando estiverem exercen do as suas profissões. Existe ainda um outro método, indire

to mas muito eficaz^ O próprio fato de técnicos estrangeiros altamente qualificados traba

lharem lado a lado com brasi leiros que possuam menor qua

lificação técnica ou menos ex

periência, faz com que o téc nico nacional adquira maior conhecimento e experiência. Es ta transferência de tecnologia

por osmose representa uma das mais valiosas contribuições que

técnicos imigrantes podem fa zer para elevar o nível da força

de tiabalho como um todo.

terceiro tema do Seminário, ou

A criação de empregos é essen cialmente, em grande parte, uma questão de investim-ento em setores econômicos selecio

nados

e projetos

obra inten.siva.

de mão-de-

A fim de am-

pliar ao máximo os seus efei tos sociais é quase inevitável que a maior parte dos empre gos criados se destine a traba lhadores que não possuem qual quer qualificação ou àqueles semiqualif içados. Entretanto, a fim de possibilitar a esses elementos obter emprego, exi ge-se um mínimo irreduzível de pessoal técnico responsável por

gerência e supervisão. Isto

s<-

torna ainda mais evidente quan

do existe uma política voltada

para o emprego mais intensivo de recursos humanos nos pro-

públicos e particulares. Com frequência, não se encon tram localmente esses elemen-

jetos

ou tos altamente qualificados então já possuem eles um em

prego efetivo. Nessas circuns tâncias, a imigração de técni-

145

DIGESTO ECONÔMICO

COS estrangeiros cuidadosamen te selecionados e possuindo o

nível técnico exigido, pode ga rantir 0 sucesso dos programas referentes à criação de empre gos.

Na presente exposição foi feita uma tentativa de demons trar como as especializações técnicas e a experiência dos contribuir imigrantes podem do para a melhor organização mercado de trabalho, bem como para

um

melhor relaciona-

inei to entre educação e traba lho, e para a criação de em

pregos mais satisfatórios m1-dividualmenle, e de maior uti

ses entraves trazendo para o País tanto o pesisoal qualificado de que se necessita de imedia to, quanto também instrutores

que irão auxiliar no treinan^tito de brasileiros para o futuro; sendo esses últimos provavel mente os mais importantes, a

longo prazo Já existe o meca nismo que possibilita o fluxo de

imigração seletiva para os fins acima mencionados, tendo esse mecanismo sido nforçado pelo

acordo tripartite de 16 de junho

de 1976, bem como pela recen te decisão de criar-se uma Se cretaria de Imigração dentro do Ministério do Trabalho.

0 que é necessário agora é

lidade .t.‘Conômica. Em um pais

de dimcn.=^ão continental como o Brasil, com um enorme vo lume de recursos humanos que

um

estudo mais profundo das profissões e níveis

indústrias,

técnicos, onde exista demand.”

proprio Governo está tentan do ul’!:zar de maneira mais' efi ciente e racional a fim de ace

de mão-de-obra imigrante, bem como um esforço determinado para fazer com que o seu re

lerar 0 desenvolvimento e ele-

crutamento, colocação e inte gração se tornem mais eficien

0

var 0 padrão de vida dos trabalhadores, é natural que ocorram

obstáculos, entraves e cerde mão-de-obra

tas carências

treinada e técnica. A imigração seletiva está em. condições de concorrer para a redução des-

tes e mais rápidos. Há disponi bilidade do tipo de técnicos ne

cessários, mas há também de manda dos mesmos em muitos

outros países do mundo; assim, é preciso tomar-se medidas po-


146

DIGESTO

sltivas no sentido de atraí-los.

Se a imigração pretende contri buir ic maneira útil para atin gir os objetivos nacionais 1

campo de ela

emprego, deve

ser

assistida e orientada atra

vés de uma política bem defi

ECONÔMICO

nida qus estabeleça prioridades e metas, que crie incentivos e que coordene e harmonize ou tros aspecios da política na cional, a fim de ensejar e faci litar 0 fluxo dos técnicos cessários.

U.S.P. estuda ofuscamento nas rodovias

Os direitos humanos

ne

o Núcleo de Desen volvimento

Tecno

e

lógico de Transportes da USP, do Departamento de Engenharia de Translógico de Transportes da USP, do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica, está realizando pesquisa sobre ofuscamento (noturno e

o

dos EIJA

diurno) em nossas rodovias, por meio de convênio envolvendo o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem. O prof. Felippe Augusto Aranha Domingues, chefe do Departamento de Engenharia dc Transportes e coordenador ge-

ral do Núcleo, destaca a importância do convênio, explicando que, ao contrário de outros itens, da técnica rodoviária e das atuais condições de segurança,

é quase inexistente — até no exterior — preocupação maior em relação ao estudo do ofuscamento nas rodovias. «Omissão surpreendente» — enfatiza o professor — “quando não são ignorados os perigos — não raro fatais — causados pelo problema em estradas, mesmo nas mais modeiTias, no mundo inteiro». Entre nós — O Brasil é um dos campeões mundiais de acidentes rodoviários, classificação nada bsonjeira que, segundo o professor, se deve em grande parte ao elevado número de desastres provocados pela cegueira momentânea do ofuscamento solar. Sua manifestação é mais comum nas es tradas com direção leste-oeste, que coincide com as posições do nascente e do poente do sol, mas pode também surpi*eender o motorista menós avisado numa curva ou rompa, principalmente quando o sol se encontra perto da linha do horizonte. À noite, os furóis altos substituem o sol e o ofuscamento noturno apresenta-se como problema de igual gravidade para quem dirige. Aqui, há outras agravantes: faróis refletidos no retrovisor, lanternas muito claras de freios dos carros que estão à sua frente, etc. Estudos — Afirma o professor que «a intensidade do ofuscamento depende do ângulo de incidên cia dos arios luminosos do globo ocular, em relação à linha de visão. A pu pila pode compensar no máximo um aumento de luminosidade de 17 vezes, enquanto a luminosidade real varia na proporção de um para vários milhões. A adaptação residual é feita pela retina, mas não é imediata, pois o temi>o (Continua na página 160)

Samuel P- Huntington

A reconstituição do poderio americano

só pode ter efeitos positivos. Professor da Universidade de Harvard Dui’ante as décadas de 60

e 70, muitos intelectuais expu seram 0 que talvez possa ser melhor denominado “O Mito da

Repressão Americana e, 0

isto

conceito de que o envolvi-

mento dos EUA na política de outras sociedades é quase in variavelmente hostil à liberda de e apoiador da repressão nessas mesmas sociedades. Os

Estados Unidos, como Hans J.

Morgenthau disse em 1974, são “amigos da repressão”: “Com uma invariável cons

tância, desde o fim da H Guer

ra Mundial, temos intervido em nome da

repressão

conserva

dora e fascista contra a revo

lução e a reforma radical. Numa época em que as socie dades se acham numa etapa revolucionária ou pré-revolucionária, nós nos convertemos na


146

DIGESTO

sltivas no sentido de atraí-los.

Se a imigração pretende contri buir ic maneira útil para atin gir os objetivos nacionais 1

campo de ela

emprego, deve

ser

assistida e orientada atra

vés de uma política bem defi

ECONÔMICO

nida qus estabeleça prioridades e metas, que crie incentivos e que coordene e harmonize ou tros aspecios da política na cional, a fim de ensejar e faci litar 0 fluxo dos técnicos cessários.

U.S.P. estuda ofuscamento nas rodovias

Os direitos humanos

ne

o Núcleo de Desen volvimento

Tecno

e

lógico de Transportes da USP, do Departamento de Engenharia de Translógico de Transportes da USP, do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica, está realizando pesquisa sobre ofuscamento (noturno e

o

dos EIJA

diurno) em nossas rodovias, por meio de convênio envolvendo o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem. O prof. Felippe Augusto Aranha Domingues, chefe do Departamento de Engenharia dc Transportes e coordenador ge-

ral do Núcleo, destaca a importância do convênio, explicando que, ao contrário de outros itens, da técnica rodoviária e das atuais condições de segurança,

é quase inexistente — até no exterior — preocupação maior em relação ao estudo do ofuscamento nas rodovias. «Omissão surpreendente» — enfatiza o professor — “quando não são ignorados os perigos — não raro fatais — causados pelo problema em estradas, mesmo nas mais modeiTias, no mundo inteiro». Entre nós — O Brasil é um dos campeões mundiais de acidentes rodoviários, classificação nada bsonjeira que, segundo o professor, se deve em grande parte ao elevado número de desastres provocados pela cegueira momentânea do ofuscamento solar. Sua manifestação é mais comum nas es tradas com direção leste-oeste, que coincide com as posições do nascente e do poente do sol, mas pode também surpi*eender o motorista menós avisado numa curva ou rompa, principalmente quando o sol se encontra perto da linha do horizonte. À noite, os furóis altos substituem o sol e o ofuscamento noturno apresenta-se como problema de igual gravidade para quem dirige. Aqui, há outras agravantes: faróis refletidos no retrovisor, lanternas muito claras de freios dos carros que estão à sua frente, etc. Estudos — Afirma o professor que «a intensidade do ofuscamento depende do ângulo de incidên cia dos arios luminosos do globo ocular, em relação à linha de visão. A pu pila pode compensar no máximo um aumento de luminosidade de 17 vezes, enquanto a luminosidade real varia na proporção de um para vários milhões. A adaptação residual é feita pela retina, mas não é imediata, pois o temi>o (Continua na página 160)

Samuel P- Huntington

A reconstituição do poderio americano

só pode ter efeitos positivos. Professor da Universidade de Harvard Dui’ante as décadas de 60

e 70, muitos intelectuais expu seram 0 que talvez possa ser melhor denominado “O Mito da

Repressão Americana e, 0

isto

conceito de que o envolvi-

mento dos EUA na política de outras sociedades é quase in variavelmente hostil à liberda de e apoiador da repressão nessas mesmas sociedades. Os

Estados Unidos, como Hans J.

Morgenthau disse em 1974, são “amigos da repressão”: “Com uma invariável cons

tância, desde o fim da H Guer

ra Mundial, temos intervido em nome da

repressão

conserva

dora e fascista contra a revo

lução e a reforma radical. Numa época em que as socie dades se acham numa etapa revolucionária ou pré-revolucionária, nós nos convertemos na


148

DIGESTO ECONÔMICO

primeira potência no mundo do status quo pré-revolucionário.

1. A supressão da liberdade em regimes autoritários de di

Uma política assim pode uni

reita é quase sempre menos penetrante do que nos regimes totalitários de esquerda. Nos anos 1960 e 1970, por exemplo, as violações de direitos huma

camente

conduzir

ao desastre

moral e político.”

Essa argumentação, tal co mo os inúmeros pronunciamen

tos de outros intelectuais que apoiam o mito da repressão dos EUA, padece de dois defeitos básicos.

Em primeiro lugar, ela con funde 0 apoio para a esquerda com a oposição à repressão. Sob esse aspecto, ela representa uma outra manifestação da ex

tensão em que a semelhança de objetivos

imediatos

pode

tornar indistinta a linha de se paração entre liberais e revo

lucionários. No entanto, aqueles que apóiam a “revolução e a reforma

radica!

em

outros

países, raramente demonstram qualquer preocupação maior com a liberdade e a dignidade

humanas do que aqueles que apóiam a “repressão conserva dora e fascista”. Na verdade, se deve haver uma escolha en tre ditaduras de direita e de

esquerda, existem pelo menos três bons motivos em termos de liberdade para se preferir a primeira à última.

nos na Coréia do Sul receberam

ampla cobertura nos veículos de comunicação americanos, em parte porque havia na Co réia do Sul jornalistas, grupos religiosos, intelectuais, e líde res políticos da oposição que podiam chamar a atenção para tais transgressões. A ausência de uma cobertura noticiosa se melhante acerca das transgres sões dos direitos humanos na Coréia do Norte evidenciou não

a ausência de repressão na quele país, mas de sua totali dade.

2. As ditaduras de direita

são, como os registros históri cos revelam, menos permanen tes do que as ditaduras de es querda; Portugal, Espanha, e Grécia são justamente três exemplos de ditaduras que fo ram substituídas por regimes democráticos. Apesar do espe rançoso movimento no sentido do pluralismo na Polônia, até 1981 nenhum regime comunista

DIGESTO ECONÔMICO

tinha

sido substituído

149

por um

regime democrático. 3.

Em

consequência

da

competição global entre os Es tados Unidos e a União Sovié

tica, os regimes de direita são normalmente mais suscetíveis à influência americana e de ou

tras nações ocidentais do que as ditaduras de esquerda, e tal influência tende irresistivel mente para o lado da liberda de. Por outro lado, a influên

cia soviética é exercida inva riável e poderosamente — como

aconteceu duas vezes na Tcheco-Eslováquia — sobre o setor da repressão. Este último detalhe leva a

CIA e do mundo de negócios dos EUA. Sua imagem dos Es tados Unidos era, porém, im perfeita em

ambas as dimen

sões. Durante os anos 60 e 70, 0 poderio norte-americano re lativo ao de outros governos e sociedades declinou significati vamente. Em meados da década

de 70, a capacidade dos Esta dos Unidos de exercerem influ

ência no que estava ocorrendo em outras sociedades era ape nas uma pálida sombra do que tinha sido há um quarto de século.

Quando o poderio dos EUA tinha efeitos sobre outras socie

dades, porém', isto se dava no sentido da liberdade, do plura

outra falácia fundamental do mito da repressão americana tal como foi elaborado por Mor-

lismo

genthau e outros. Seu retrato do mundo da década de 60 e 70 estava dominado pela imagem' de uma América do Norte esmagadoramente pode-

vre, mais liberal e mais demo crático do mundo, com salva guardas institucionalizadas mui to superiores para os direitos de seus cidadãos do que as de qualquer outra sociedade. Em consequência, qualquer aumen to no poder ou influência dos

rosa

e

irresistivelmente repres-

siva. Eles, com efeito, susten tavam uma crença atualizada 'ilusão da onipotência norteamericana”, que atribuía os na

males de outras

sociedades a

maquinações do Pentágono, da

e

da

democracia.

Na

prática, os Estados Unidos constituem-se no país mais li

Estados

Unidos

nos

assuntos

mundiais geralmente resulta — não inevitavelmente, mas de modo muito frequente — na


148

DIGESTO ECONÔMICO

primeira potência no mundo do status quo pré-revolucionário.

1. A supressão da liberdade em regimes autoritários de di

Uma política assim pode uni

reita é quase sempre menos penetrante do que nos regimes totalitários de esquerda. Nos anos 1960 e 1970, por exemplo, as violações de direitos huma

camente

conduzir

ao desastre

moral e político.”

Essa argumentação, tal co mo os inúmeros pronunciamen

tos de outros intelectuais que apoiam o mito da repressão dos EUA, padece de dois defeitos básicos.

Em primeiro lugar, ela con funde 0 apoio para a esquerda com a oposição à repressão. Sob esse aspecto, ela representa uma outra manifestação da ex

tensão em que a semelhança de objetivos

imediatos

pode

tornar indistinta a linha de se paração entre liberais e revo

lucionários. No entanto, aqueles que apóiam a “revolução e a reforma

radica!

em

outros

países, raramente demonstram qualquer preocupação maior com a liberdade e a dignidade

humanas do que aqueles que apóiam a “repressão conserva dora e fascista”. Na verdade, se deve haver uma escolha en tre ditaduras de direita e de

esquerda, existem pelo menos três bons motivos em termos de liberdade para se preferir a primeira à última.

nos na Coréia do Sul receberam

ampla cobertura nos veículos de comunicação americanos, em parte porque havia na Co réia do Sul jornalistas, grupos religiosos, intelectuais, e líde res políticos da oposição que podiam chamar a atenção para tais transgressões. A ausência de uma cobertura noticiosa se melhante acerca das transgres sões dos direitos humanos na Coréia do Norte evidenciou não

a ausência de repressão na quele país, mas de sua totali dade.

2. As ditaduras de direita

são, como os registros históri cos revelam, menos permanen tes do que as ditaduras de es querda; Portugal, Espanha, e Grécia são justamente três exemplos de ditaduras que fo ram substituídas por regimes democráticos. Apesar do espe rançoso movimento no sentido do pluralismo na Polônia, até 1981 nenhum regime comunista

DIGESTO ECONÔMICO

tinha

sido substituído

149

por um

regime democrático. 3.

Em

consequência

da

competição global entre os Es tados Unidos e a União Sovié

tica, os regimes de direita são normalmente mais suscetíveis à influência americana e de ou

tras nações ocidentais do que as ditaduras de esquerda, e tal influência tende irresistivel mente para o lado da liberda de. Por outro lado, a influên

cia soviética é exercida inva riável e poderosamente — como

aconteceu duas vezes na Tcheco-Eslováquia — sobre o setor da repressão. Este último detalhe leva a

CIA e do mundo de negócios dos EUA. Sua imagem dos Es tados Unidos era, porém, im perfeita em

ambas as dimen

sões. Durante os anos 60 e 70, 0 poderio norte-americano re lativo ao de outros governos e sociedades declinou significati vamente. Em meados da década

de 70, a capacidade dos Esta dos Unidos de exercerem influ

ência no que estava ocorrendo em outras sociedades era ape nas uma pálida sombra do que tinha sido há um quarto de século.

Quando o poderio dos EUA tinha efeitos sobre outras socie

dades, porém', isto se dava no sentido da liberdade, do plura

outra falácia fundamental do mito da repressão americana tal como foi elaborado por Mor-

lismo

genthau e outros. Seu retrato do mundo da década de 60 e 70 estava dominado pela imagem' de uma América do Norte esmagadoramente pode-

vre, mais liberal e mais demo crático do mundo, com salva guardas institucionalizadas mui to superiores para os direitos de seus cidadãos do que as de qualquer outra sociedade. Em consequência, qualquer aumen to no poder ou influência dos

rosa

e

irresistivelmente repres-

siva. Eles, com efeito, susten tavam uma crença atualizada 'ilusão da onipotência norteamericana”, que atribuía os na

males de outras

sociedades a

maquinações do Pentágono, da

e

da

democracia.

Na

prática, os Estados Unidos constituem-se no país mais li

Estados

Unidos

nos

assuntos

mundiais geralmente resulta — não inevitavelmente, mas de modo muito frequente — na


150

DIGESTO

promoção da liberdade e dos direitos humanos no mundo. A

expansão do poderio america no não é sinônimo de expansão da liberdade, mas existe uma significativa correlação entre

a ascensão e o declínio do po der americano no mundo e a ascensão e declínio da liber dade e da democracia no mundo.

A única maior expansão das liberdades democráticas na história do mundo ocorreu no

fim

da

n

Guerra Mundial,

quando regimes democráticos estáveis foram fundados nos países do Eixo derrotados: Ale manha, Japão, Itália e — como uma antiga parte da Alemanha

— a Áustria. No começo da década de 80, estes países ti nham' uma população de mais de 200 milhões, e incluíam a terceira e a quarta maiores economias do mundo. A impo sição da democracia nesses países resultou quase que in teiramente do empenho dos Es tados Unidos.

Na Alemanha e

no Japão, em particular, o Go verno dos EUA desempenhou

ECONÔMICO

terminação e poderio dos Es tados Unidos, os antigos países do Eixo foram, como John D. Montgomery acentuou, “força dos a ser livres”.

Inversamente,

os

passos

modestos dados no rumo da de mocracia e da liberdade na Po

lônia, Tcheco-Eslováquia e Hun gria foram rapidamente rever tidos e a repressão stalinista instituída ali, uma vez tendo ficado claro que os Estados Unidos não eram capazes de projetar seu poder na Europa Oriental. Se a II Guerra Mun dial tivesse terminado em algo menos do que uma vitória total, ou se os Estados Unidos tives

sem desempenhado um papel menos significativo no propiciamento dessa vitória (como foi,

na verdade, o caso a Leste do Elba), essas transições no ru mo da democracia na Europa Central e na Ásia Oriental não teriam ocorrido. Mas, com a

161

DIGESTO ECONÔMICO

influência norte-americana

As intervenções dos fuzilei

na segunda e terceira décadas deste século; a intervenção dos EUA na Nicarágua, no Haiti e

ros navais norte-americanos no

da

na República Dominicana pro duziram as eleições mais livres e a competição política mais aberta na história desses pai-

ses. Ali, como em' outros países da América Central e do Cari

be, a influência norte-americana

foi

em apoio às eleições livres exercida geralmente em

resposta aos protestos de gru

pos de oposição contra as ações repressivas de seus próprios

governos, e em resultância dos

temores dos EUA de que uma revolução, ou guerra civil, viesse a ocorrer caso fosse

A atenção dos Estados Uni dos foi dirigida principalmente

para a Europa e a Ásia

nos

anos logo posteriores à II &uer-

ra Mundial,

negligenciando a

Cuba. No início da década de

ribe e da

60, a América Latina tornouse 0 foco de programas de aju da econômica em grande esca la, programas de treinamento

América

Central,

to para impedir as revoluções

democráticos também coincidi ram com a ascensão e declínio

venções dos agentes federais no comportamento das eleições no Sul dos EUA na década de 60: inscrição de eleitores, pro teção contra a violência eleito ral, garantir o voto livre e uma apuração honesta.

Desse modo, em suas inter

sociais significativas uma igual dade de oportunidade de parti cipação no processo político.

os exércitos norte-americanos, a democracia seguia na esteira.

mento das instituições democrá ticas. Em consequência da de-

outras

venções em oito países do Ca-

negada às forças políticas e

exceção parcial da Coréia do Sul, onde quer que marchassem

um papel importante no delinea-

blica Dominicana e em

partes durante aqueles anos apresentavam amiúde uma se melhança notável com as inter

América Latina, de um modo geral. Tal situação começou a mudar por volta do fim da dé cada de 50, e alterou-se dra maticamente após Fidel Castro ter conquistado o poder em

entre 1900 e 1933, os Estados Unidos agiram na pressuposi

Na América Latina, a as censão e a queda de regimes

Haiti, na Nicarágua, na Repú

ção de que “o único meio tan como para determinar sua jus

e assistência militar, esforços de propaganda, e a reiterada

tificação no caso de virem a

atenção do presidente e outros

irromper, é garantir

funcionários norte-americanos de alto nível.

livres”.

eleições


150

DIGESTO

promoção da liberdade e dos direitos humanos no mundo. A

expansão do poderio america no não é sinônimo de expansão da liberdade, mas existe uma significativa correlação entre

a ascensão e o declínio do po der americano no mundo e a ascensão e declínio da liber dade e da democracia no mundo.

A única maior expansão das liberdades democráticas na história do mundo ocorreu no

fim

da

n

Guerra Mundial,

quando regimes democráticos estáveis foram fundados nos países do Eixo derrotados: Ale manha, Japão, Itália e — como uma antiga parte da Alemanha

— a Áustria. No começo da década de 80, estes países ti nham' uma população de mais de 200 milhões, e incluíam a terceira e a quarta maiores economias do mundo. A impo sição da democracia nesses países resultou quase que in teiramente do empenho dos Es tados Unidos.

Na Alemanha e

no Japão, em particular, o Go verno dos EUA desempenhou

ECONÔMICO

terminação e poderio dos Es tados Unidos, os antigos países do Eixo foram, como John D. Montgomery acentuou, “força dos a ser livres”.

Inversamente,

os

passos

modestos dados no rumo da de mocracia e da liberdade na Po

lônia, Tcheco-Eslováquia e Hun gria foram rapidamente rever tidos e a repressão stalinista instituída ali, uma vez tendo ficado claro que os Estados Unidos não eram capazes de projetar seu poder na Europa Oriental. Se a II Guerra Mun dial tivesse terminado em algo menos do que uma vitória total, ou se os Estados Unidos tives

sem desempenhado um papel menos significativo no propiciamento dessa vitória (como foi,

na verdade, o caso a Leste do Elba), essas transições no ru mo da democracia na Europa Central e na Ásia Oriental não teriam ocorrido. Mas, com a

161

DIGESTO ECONÔMICO

influência norte-americana

As intervenções dos fuzilei

na segunda e terceira décadas deste século; a intervenção dos EUA na Nicarágua, no Haiti e

ros navais norte-americanos no

da

na República Dominicana pro duziram as eleições mais livres e a competição política mais aberta na história desses pai-

ses. Ali, como em' outros países da América Central e do Cari

be, a influência norte-americana

foi

em apoio às eleições livres exercida geralmente em

resposta aos protestos de gru

pos de oposição contra as ações repressivas de seus próprios

governos, e em resultância dos

temores dos EUA de que uma revolução, ou guerra civil, viesse a ocorrer caso fosse

A atenção dos Estados Uni dos foi dirigida principalmente

para a Europa e a Ásia

nos

anos logo posteriores à II &uer-

ra Mundial,

negligenciando a

Cuba. No início da década de

ribe e da

60, a América Latina tornouse 0 foco de programas de aju da econômica em grande esca la, programas de treinamento

América

Central,

to para impedir as revoluções

democráticos também coincidi ram com a ascensão e declínio

venções dos agentes federais no comportamento das eleições no Sul dos EUA na década de 60: inscrição de eleitores, pro teção contra a violência eleito ral, garantir o voto livre e uma apuração honesta.

Desse modo, em suas inter

sociais significativas uma igual dade de oportunidade de parti cipação no processo político.

os exércitos norte-americanos, a democracia seguia na esteira.

mento das instituições democrá ticas. Em consequência da de-

outras

venções em oito países do Ca-

negada às forças políticas e

exceção parcial da Coréia do Sul, onde quer que marchassem

um papel importante no delinea-

blica Dominicana e em

partes durante aqueles anos apresentavam amiúde uma se melhança notável com as inter

América Latina, de um modo geral. Tal situação começou a mudar por volta do fim da dé cada de 50, e alterou-se dra maticamente após Fidel Castro ter conquistado o poder em

entre 1900 e 1933, os Estados Unidos agiram na pressuposi

Na América Latina, a as censão e a queda de regimes

Haiti, na Nicarágua, na Repú

ção de que “o único meio tan como para determinar sua jus

e assistência militar, esforços de propaganda, e a reiterada

tificação no caso de virem a

atenção do presidente e outros

irromper, é garantir

funcionários norte-americanos de alto nível.

livres”.

eleições


152

DIGESTO

ECONÔMICO

Segundo a Aliança para o Progresso, o poderio dos EUA seria utilizado para promover

ter sido possível numa época em que os Estados Unidos pa

e

buir pelo continente, bilhões de dólares em doações magnâni mas. O resultado disso foi que novas eleições tiveram lugar no ano seguinte, e Belaunde foi eleito livremente presidente do país.

sustentar o Governo demo

crático e uma maior igualdade social no

resto do hemisfério

ocidental.

Este alto

grau no

exercício do Poder dos EUA na América Latina

coincidiu com

o grau mais alto de democra cia na América Latina. Este

período testemunhou, no dizer de Tad Szulc, ‘o crepúsculo dos tiranos”: foi a época em que num certo ponto todos os

10 países sul-americanos, com' a única exceção do Paraguai, tiveram alguma aparência de governo democrático.

reciam estar à beira de distri

Seis anos depois,

contudo,

quando Belaunde foi deposto num golpe, os Estados Unidos não se achavam em posição de reverter o golpe de Estado, ou sequer impedir o governo mi

litar que assumira o poder de nacionalizar a maior parte das propriedades dos cidadãos nor te-americanos naquele país. O poder e a vontade que tinham

Logo após o golpe militar do Peru, em julho de 1962, os Estados Unidos puderam' usar seu poder mais eficientemente

estado atuantes ali no início da década de 60 se evaporaram

a fim de

por volta dos fins do

motivar um retorno

ao governo democrático. O em baixador

norte-americano

foi

chamado de volta a seu país; as relações diplomáticas foram

mesmo

decênio, e com eles a possibi lidade de devolver ao Peru a trilha democrática.

Mediante um processo algo

no

mais complexo, o declínio do

montante de 81 milhões de dó lares foi cancelada. Nove ou

norte-americano desempenho acarretou finalmente resulta dos semelhantes no Chile. Nas

suspensas;

e

uma

ajuda

tros países latino-americanos foram induzidos a romper re lações com a junta militar — um cometimento que só podia

DIGESTO ECONÔMICO

153

vor de Eduardo Frei e fizeram uma contribuição significativa

fins da

e possivelmente decisiva para a sua vitória sobre Salvador Allende. Nas eleições de 1970

fusão de regimes autoritários nessa região. Com esse declí

no

Chile, 0 governo dos

EUA

um esforço comparánao fez vel ao anterior a fim de derro tar Allende, que venceu o plei to popular por estreita margem de votos.

Nessa emergência, os Esta dos Unidos tentaram persuadir 0 Congresso chileno a que se

de

60 e início

da de 70, coincidiu com a di

nio houve também um declínio

nos padrões de moralidade de mocrática

e

direitos

humanos

que os Estados Unidos podiam tentar aplicar aos governos da região. No início de 1960, na América Latina (assim como nas décadas de 1910 e 1920 no Caribe e na América Central), a meta dos Estados Unidos era

impedi-lo de tomar posse. Am

bos esses esforços violavam tanto as normas de política chilena como as da moralida

a competição democrática e as eleições livres. Mas por volta de meados da década de 70, es sa meta se enfraqueceu, dei xando de atender aos gover nos democráticos para tentar persuadir os governos autori

de norte-americana, e não ti veram êxito. Por outro lado,

do muito gritante os direitos de

recusasse

a confirmar a vitó-

ria de Allende e buscaram pro mover um golpe militar para

caso

os Estados

Unidos

tives-

sem se mostrado tão atuantes nas eleições populares de 1970 como

haviam-se mostrado

nas

de 1964, Allende bem que po dería ter sido derrotado nova

tários a não infringirem de mo seus cidadãos.

Uma relação similar entre 0 poder norte-americano e o governo democrático prevale

ceu na Ásia. Ali,

também, o

mente, e a destruição da de

auge do poder dos EUA foi al cançado no início e nos meados

do evitada.

da década de 60, e ali, igual mente, o declínio desse poder

mocracia chilena, em' 1973, si

eleições chilenas de 1964,

os

Estados

to

Em conjunto, o declínio do papel exercido pelos Estados

da a influência possível em fa-

Unidos na América Latina, em

Unidos exerceram

década

foi seguido de um declínio na democracia e liberdade.


152

DIGESTO

ECONÔMICO

Segundo a Aliança para o Progresso, o poderio dos EUA seria utilizado para promover

ter sido possível numa época em que os Estados Unidos pa

e

buir pelo continente, bilhões de dólares em doações magnâni mas. O resultado disso foi que novas eleições tiveram lugar no ano seguinte, e Belaunde foi eleito livremente presidente do país.

sustentar o Governo demo

crático e uma maior igualdade social no

resto do hemisfério

ocidental.

Este alto

grau no

exercício do Poder dos EUA na América Latina

coincidiu com

o grau mais alto de democra cia na América Latina. Este

período testemunhou, no dizer de Tad Szulc, ‘o crepúsculo dos tiranos”: foi a época em que num certo ponto todos os

10 países sul-americanos, com' a única exceção do Paraguai, tiveram alguma aparência de governo democrático.

reciam estar à beira de distri

Seis anos depois,

contudo,

quando Belaunde foi deposto num golpe, os Estados Unidos não se achavam em posição de reverter o golpe de Estado, ou sequer impedir o governo mi

litar que assumira o poder de nacionalizar a maior parte das propriedades dos cidadãos nor te-americanos naquele país. O poder e a vontade que tinham

Logo após o golpe militar do Peru, em julho de 1962, os Estados Unidos puderam' usar seu poder mais eficientemente

estado atuantes ali no início da década de 60 se evaporaram

a fim de

por volta dos fins do

motivar um retorno

ao governo democrático. O em baixador

norte-americano

foi

chamado de volta a seu país; as relações diplomáticas foram

mesmo

decênio, e com eles a possibi lidade de devolver ao Peru a trilha democrática.

Mediante um processo algo

no

mais complexo, o declínio do

montante de 81 milhões de dó lares foi cancelada. Nove ou

norte-americano desempenho acarretou finalmente resulta dos semelhantes no Chile. Nas

suspensas;

e

uma

ajuda

tros países latino-americanos foram induzidos a romper re lações com a junta militar — um cometimento que só podia

DIGESTO ECONÔMICO

153

vor de Eduardo Frei e fizeram uma contribuição significativa

fins da

e possivelmente decisiva para a sua vitória sobre Salvador Allende. Nas eleições de 1970

fusão de regimes autoritários nessa região. Com esse declí

no

Chile, 0 governo dos

EUA

um esforço comparánao fez vel ao anterior a fim de derro tar Allende, que venceu o plei to popular por estreita margem de votos.

Nessa emergência, os Esta dos Unidos tentaram persuadir 0 Congresso chileno a que se

de

60 e início

da de 70, coincidiu com a di

nio houve também um declínio

nos padrões de moralidade de mocrática

e

direitos

humanos

que os Estados Unidos podiam tentar aplicar aos governos da região. No início de 1960, na América Latina (assim como nas décadas de 1910 e 1920 no Caribe e na América Central), a meta dos Estados Unidos era

impedi-lo de tomar posse. Am

bos esses esforços violavam tanto as normas de política chilena como as da moralida

a competição democrática e as eleições livres. Mas por volta de meados da década de 70, es sa meta se enfraqueceu, dei xando de atender aos gover nos democráticos para tentar persuadir os governos autori

de norte-americana, e não ti veram êxito. Por outro lado,

do muito gritante os direitos de

recusasse

a confirmar a vitó-

ria de Allende e buscaram pro mover um golpe militar para

caso

os Estados

Unidos

tives-

sem se mostrado tão atuantes nas eleições populares de 1970 como

haviam-se mostrado

nas

de 1964, Allende bem que po dería ter sido derrotado nova

tários a não infringirem de mo seus cidadãos.

Uma relação similar entre 0 poder norte-americano e o governo democrático prevale

ceu na Ásia. Ali,

também, o

mente, e a destruição da de

auge do poder dos EUA foi al cançado no início e nos meados

do evitada.

da década de 60, e ali, igual mente, o declínio desse poder

mocracia chilena, em' 1973, si

eleições chilenas de 1964,

os

Estados

to

Em conjunto, o declínio do papel exercido pelos Estados

da a influência possível em fa-

Unidos na América Latina, em

Unidos exerceram

década

foi seguido de um declínio na democracia e liberdade.


DIGESTO

154

A influência norte-america

cracia

filipina.

ECONÔMICO

Quando o pre

DIGESTO ECONÔMICO

155

Isto ocorre por dois

O impacto positivo do poder

moti

na tinha sido mais ampla nas

sidente Marcos instituiu seu re

norte-americano sobre a liber-

vos.

Filipinas, país que, durante um

gime de lei marcial em 1972, a

quarto de século após a II Guer ra Mundial, possuía o sistema mais aberto e democrático, afo ra 0 Japão, no Leste e Sudeste asiáticos. Após as eleições de

influência

dade em outras sociedades é, em parte, o resultado das opções conscientes de presidentes como John Kennedy e Carter dando uma alta prioridade à promo-

gentes americanos e os que promovem as decisões são, ine

1949, admitidas como fraudu lentas, e em face da crescen

norte-americana no

Sudeste asiático

estava

nitida

mente em declínio, e os Esta dos Unidos dispunham então de poucos recursos de influência com os quais pudessem afetar o rumo da política filipina.

te ameaça ao governo filipino Talvez de uma maneira até

representada pela rebelião dos Huk, a ajuda militar e econô

mais direta,

mica dos EUA aumentou gran

vado

A intervenção direta norteamericana na política das Fi lipinas desempenhou então um papel decisivo não só na pro moção de Ramon Magsaysay à presidência do país, como tam bém na garantia de que as

eleições parlamentares de 1951 e as presidenciais de 1953 fos e honestas.

Nas

três eleições seguintes, as Fi lipinas enfrentaram o teste de mocrático mais severo: os pre sidentes não foram reeleitos.

Nos anos subsequentes, po rém, a presença cia

grau mais ele-

democracia e

liber

dade política no Vietname tam

demente.

sem abertas

de

0

e a influên

norte-americanas

declina

ram nas Filipinas e com isso deteriorou-se o apoio à demo¬

bém coincidiu com o nível mais alto de influência dos EUA no

país. As únicas eleições livres da

história

do Vietname ocor

reram em 1967, quando a inter venção militar norte-americana estava no seu auge. Nc Vietna

me, como na América Latina, a intervenção dos EUA teve um efeito pluralizante sobre a política, limitando o Governo e incentivando e reforçando a oposição política. A derrota dos Estados Unidos no Vietname e a exclusão do poderio norteamericano na Indochina foram

acompanhadas em três países da imposição de regimes e uma repressão virtualmente absolula.

çao da democracia e dos direi-

tos humanos.

Mesmo sem essa

opção consciente, contudo, a presença ou exercício do poder dos EUA numa esfera estran

geira geralmente segue um im

pulso semelhante.

A natureza

dos Estados Unidos não deixa outra alternativa senão a de destacar-se entre as nações co

mo 0 proponente da liberdade e da democracia.

O poder tende a corromper, e 0 poder absoluto corrompe de modo absoluto. O poder dos EUA não se constitui numa ex

ceção; claramente pode e tem sido usado tanto

para

bons

quanto maus propósitos em ter mos de liberdade, democracia e direitos humanos. Mas, também em nome desses valores, o po der norte-americano tem muito menos possibilidades de ser mal-usado ou corrompido do que 0 poder de qualquer outro governo de destaque.

Primeiro, porque os diri

vitavelmente,

os

produtos

de

sua cultura, dedicados geral mente aos valores liberais e democráticos. Isto não significa que alguns líderes não possam às vezes incorrer em ações que

se coloquem contra esses valo res. Evidentemente, tal acon tece: a percepção se entorpece, as

necessidades

atinentes

à

segurança podem vir a ditar outras ações, a conveniência predomina e os fins imediatos justificam deixar de lado o ob jetivo de maior alcance. Mas os que formulam a política nor te-americana são provavelmen te mais arredíos do que aque les de outros países a esses ajustes de conveniência e mais relutantes em sacrificarem os valores liberais e democráticos.

Segundo, o pluralismo insti tucional e a dispersão do Poder no sistema político norte-ameri cano impõem limitações — não igualadas em nenhuma outra sociedade — à capacidade dos funcionários de cometerem abu

sos do Poder, e também asse guram

que

as

transgressões


DIGESTO

154

A influência norte-america

cracia

filipina.

ECONÔMICO

Quando o pre

DIGESTO ECONÔMICO

155

Isto ocorre por dois

O impacto positivo do poder

moti

na tinha sido mais ampla nas

sidente Marcos instituiu seu re

norte-americano sobre a liber-

vos.

Filipinas, país que, durante um

gime de lei marcial em 1972, a

quarto de século após a II Guer ra Mundial, possuía o sistema mais aberto e democrático, afo ra 0 Japão, no Leste e Sudeste asiáticos. Após as eleições de

influência

dade em outras sociedades é, em parte, o resultado das opções conscientes de presidentes como John Kennedy e Carter dando uma alta prioridade à promo-

gentes americanos e os que promovem as decisões são, ine

1949, admitidas como fraudu lentas, e em face da crescen

norte-americana no

Sudeste asiático

estava

nitida

mente em declínio, e os Esta dos Unidos dispunham então de poucos recursos de influência com os quais pudessem afetar o rumo da política filipina.

te ameaça ao governo filipino Talvez de uma maneira até

representada pela rebelião dos Huk, a ajuda militar e econô

mais direta,

mica dos EUA aumentou gran

vado

A intervenção direta norteamericana na política das Fi lipinas desempenhou então um papel decisivo não só na pro moção de Ramon Magsaysay à presidência do país, como tam bém na garantia de que as

eleições parlamentares de 1951 e as presidenciais de 1953 fos e honestas.

Nas

três eleições seguintes, as Fi lipinas enfrentaram o teste de mocrático mais severo: os pre sidentes não foram reeleitos.

Nos anos subsequentes, po rém, a presença cia

grau mais ele-

democracia e

liber

dade política no Vietname tam

demente.

sem abertas

de

0

e a influên

norte-americanas

declina

ram nas Filipinas e com isso deteriorou-se o apoio à demo¬

bém coincidiu com o nível mais alto de influência dos EUA no

país. As únicas eleições livres da

história

do Vietname ocor

reram em 1967, quando a inter venção militar norte-americana estava no seu auge. Nc Vietna

me, como na América Latina, a intervenção dos EUA teve um efeito pluralizante sobre a política, limitando o Governo e incentivando e reforçando a oposição política. A derrota dos Estados Unidos no Vietname e a exclusão do poderio norteamericano na Indochina foram

acompanhadas em três países da imposição de regimes e uma repressão virtualmente absolula.

çao da democracia e dos direi-

tos humanos.

Mesmo sem essa

opção consciente, contudo, a presença ou exercício do poder dos EUA numa esfera estran

geira geralmente segue um im

pulso semelhante.

A natureza

dos Estados Unidos não deixa outra alternativa senão a de destacar-se entre as nações co

mo 0 proponente da liberdade e da democracia.

O poder tende a corromper, e 0 poder absoluto corrompe de modo absoluto. O poder dos EUA não se constitui numa ex

ceção; claramente pode e tem sido usado tanto

para

bons

quanto maus propósitos em ter mos de liberdade, democracia e direitos humanos. Mas, também em nome desses valores, o po der norte-americano tem muito menos possibilidades de ser mal-usado ou corrompido do que 0 poder de qualquer outro governo de destaque.

Primeiro, porque os diri

vitavelmente,

os

produtos

de

sua cultura, dedicados geral mente aos valores liberais e democráticos. Isto não significa que alguns líderes não possam às vezes incorrer em ações que

se coloquem contra esses valo res. Evidentemente, tal acon tece: a percepção se entorpece, as

necessidades

atinentes

à

segurança podem vir a ditar outras ações, a conveniência predomina e os fins imediatos justificam deixar de lado o ob jetivo de maior alcance. Mas os que formulam a política nor te-americana são provavelmen te mais arredíos do que aque les de outros países a esses ajustes de conveniência e mais relutantes em sacrificarem os valores liberais e democráticos.

Segundo, o pluralismo insti tucional e a dispersão do Poder no sistema político norte-ameri cano impõem limitações — não igualadas em nenhuma outra sociedade — à capacidade dos funcionários de cometerem abu

sos do Poder, e também asse guram

que

as

transgressões


DIGESTO

156

que venham a ocorrer, inevita

intelectuais dos EUA nos anos

velmente se tornem do conheci

70 — de que os Estados Unidos não poderíam nunca agir bem

mento público.

em nome A imprensa norte-americana é extraordinariamente livre, forte e vigorosa na exposição da

má política e dos funcionários corruptos. O Congresso norteamericano tem poderes de in vestigação, legislação e contro le financeiro não igualados em nenhuma outra legislatura

na

cional. A capacidade dos

fun

cionários dos EUA de violar os

valores de sua

sociedade é,

portanto, altamente limitada, e a extensão em que a imprensa se acha munida de informes a

respeito de como alguns funcio nários hajam violado esses va lores

é uma

evidência não de

que tal conduta esteja mais di fundida que em qualquer outra sociedade, mas sim que é me nos tolerada do que em outras sociedades.

A crença de que os Estados mal Unidos não podem agir em nome dos valores da liber

dade e da democracia

é,

evi

dentemente, tão errônea no ex

desses

DIGESTO ECONÔMICO

ECONÔMICO

que denominavam enfoques moralistas, legalísticos, utópi

cos e wilsonianos que, segun

valores. É

muito mais provável que o Po der dos EUA seja empregado em nome de tais valores do que 0 Poder de qualquer outro país importante. O futuro mundo

do

alegavam,

tinham prevale

cido anteriormente na conduta das relações exteriores norteamericanas. Esse novo realis mo alcançou sua apoteose no

no

papel principal desempenhado pelo equilíbrio do Poder na teoria e na prática de Henry

inlimamen-

Kissinger. Contudo, na década

da liberdade

está assim

157

te ligado ao futuro do Poder dos EUA. Mas de modo para doxal — e erroneamente — os

proponentes de pareceres mui to diversos a respeito das re lações políticas exteriores nor te-americanas têm coincidido amiúde em ver um conflito en

tre ambas as coisas, interpre tando a participação dos EUA no mundo como o resultado de duas motivações conflitantes, o interesse nacional e o Poder, de um lado, e a moralidade po lítica e Os princípios, de outro.

Pouco depois do término da II Guerra Mundial, surgiu nos EUA um grupo significativo de escritores e pensadores, como Reinhüld Niebuhr, George Kennan, Walter Lippmann, Hans

terior como o é nos EUA. Mas também é errônea a crença —

J. Morgenthau e Robert Osgood, que expuseram um “novo

mais prevalecente nos círculos

realismo”.

Eles criticavam

o

de 70, 0 novo realismo veio a ser desafiado pelo “novo moralismo”, e o fiel da balança que se tinha inclinado numa direção após a II Guerra Mun dial agora vinha a inclinar-se acentuadamente

na

outra

di

reção.

Esta mudança foi uma das mais significativas consequên

Ajuda Externa, .etn 1966, e

às

condições dos direitos humanos

110 início da década de 70,

e

depois nas eleições de 1976, quando Jimmy Carter criticou energicamente o presidente

Ford, por acreditar “que não há quase nenhum lugar para a moralidade nos

assuntos exte

riores, e que nós devemos co locar os interesses próprios acima dos

princípios”-

Como

presidente, Carter situou os di reitos humanos numa posição Central nas relações exteriores norte-americanas.

As

delimitações entre

moralistas

os

e os realistas fica

ram desse modo claramente deliniadas, mas num ponto eles zrj achavam de acordo: acredi

do Caso Wa-

tavam que 0 conflito entre a moralidade e o interesse pró

e a paixão doutrinária que do minou a política dos Estados

prio, ou os ideais e o realismo,

cias do Vietnã,

tergate, e o surto democrático

Unidos nos anos 60. Ela repre

era uma realidade. A verdade,

porém, é que, enquanto em al

sentou 0 deslocamento para o mundo exterior do moralismo,

guns aspectos o conflito se mos tra real, em outros, particular

que anteriormente fora endere

mente quando formulado

çado contra as instituições nor

termos de um conflito entre a

te-americanas. O novo moralis

liberdade e o Poder, não é assim. Definida desse modo, a

mo manifestomse primeii’amen-

te na ação do Congresso, com a

adição do Título IX à Lei

de

dicotomia não reflete um

tendim.shto

exato das

em

en-

opções


DIGESTO

156

que venham a ocorrer, inevita

intelectuais dos EUA nos anos

velmente se tornem do conheci

70 — de que os Estados Unidos não poderíam nunca agir bem

mento público.

em nome A imprensa norte-americana é extraordinariamente livre, forte e vigorosa na exposição da

má política e dos funcionários corruptos. O Congresso norteamericano tem poderes de in vestigação, legislação e contro le financeiro não igualados em nenhuma outra legislatura

na

cional. A capacidade dos

fun

cionários dos EUA de violar os

valores de sua

sociedade é,

portanto, altamente limitada, e a extensão em que a imprensa se acha munida de informes a

respeito de como alguns funcio nários hajam violado esses va lores

é uma

evidência não de

que tal conduta esteja mais di fundida que em qualquer outra sociedade, mas sim que é me nos tolerada do que em outras sociedades.

A crença de que os Estados mal Unidos não podem agir em nome dos valores da liber

dade e da democracia

é,

evi

dentemente, tão errônea no ex

desses

DIGESTO ECONÔMICO

ECONÔMICO

que denominavam enfoques moralistas, legalísticos, utópi

cos e wilsonianos que, segun

valores. É

muito mais provável que o Po der dos EUA seja empregado em nome de tais valores do que 0 Poder de qualquer outro país importante. O futuro mundo

do

alegavam,

tinham prevale

cido anteriormente na conduta das relações exteriores norteamericanas. Esse novo realis mo alcançou sua apoteose no

no

papel principal desempenhado pelo equilíbrio do Poder na teoria e na prática de Henry

inlimamen-

Kissinger. Contudo, na década

da liberdade

está assim

157

te ligado ao futuro do Poder dos EUA. Mas de modo para doxal — e erroneamente — os

proponentes de pareceres mui to diversos a respeito das re lações políticas exteriores nor te-americanas têm coincidido amiúde em ver um conflito en

tre ambas as coisas, interpre tando a participação dos EUA no mundo como o resultado de duas motivações conflitantes, o interesse nacional e o Poder, de um lado, e a moralidade po lítica e Os princípios, de outro.

Pouco depois do término da II Guerra Mundial, surgiu nos EUA um grupo significativo de escritores e pensadores, como Reinhüld Niebuhr, George Kennan, Walter Lippmann, Hans

terior como o é nos EUA. Mas também é errônea a crença —

J. Morgenthau e Robert Osgood, que expuseram um “novo

mais prevalecente nos círculos

realismo”.

Eles criticavam

o

de 70, 0 novo realismo veio a ser desafiado pelo “novo moralismo”, e o fiel da balança que se tinha inclinado numa direção após a II Guerra Mun dial agora vinha a inclinar-se acentuadamente

na

outra

di

reção.

Esta mudança foi uma das mais significativas consequên

Ajuda Externa, .etn 1966, e

às

condições dos direitos humanos

110 início da década de 70,

e

depois nas eleições de 1976, quando Jimmy Carter criticou energicamente o presidente

Ford, por acreditar “que não há quase nenhum lugar para a moralidade nos

assuntos exte

riores, e que nós devemos co locar os interesses próprios acima dos

princípios”-

Como

presidente, Carter situou os di reitos humanos numa posição Central nas relações exteriores norte-americanas.

As

delimitações entre

moralistas

os

e os realistas fica

ram desse modo claramente deliniadas, mas num ponto eles zrj achavam de acordo: acredi

do Caso Wa-

tavam que 0 conflito entre a moralidade e o interesse pró

e a paixão doutrinária que do minou a política dos Estados

prio, ou os ideais e o realismo,

cias do Vietnã,

tergate, e o surto democrático

Unidos nos anos 60. Ela repre

era uma realidade. A verdade,

porém, é que, enquanto em al

sentou 0 deslocamento para o mundo exterior do moralismo,

guns aspectos o conflito se mos tra real, em outros, particular

que anteriormente fora endere

mente quando formulado

çado contra as instituições nor

termos de um conflito entre a

te-americanas. O novo moralis

liberdade e o Poder, não é assim. Definida desse modo, a

mo manifestomse primeii’amen-

te na ação do Congresso, com a

adição do Título IX à Lei

de

dicotomia não reflete um

tendim.shto

exato das

em

en-

opções


8Sl

O0IW9NO03 oxsaoia

DIQESTO ECONÔMICO

reais com que se defrontam os formuladores da política norte-

dos Unidos teve, inevitavelmen te, tal efeito. Imbuidos do mi

americana no trato com o mun

to da repressão norte-america na, os novos moralistas, sem atentarem para a contradição,

do exterior. Mas, paradoxal mente, a dupla tendência do novo moralismo foi a de defen

der a expansão da liberdade global e, simultaneamente, efe tivar uma redução do Poder dos EUA-

O declínio relativo ao Poder norte-americano na década de 70 derivou de muitas fontes.

Uma delas foi, seguramente, o surto democrático (do qual o novo moralismo fazia parte) nos Estados Unidos na década

de 60 e começo da de 70. A forte reconsagração dos valo

res democráticos, liberais e po pulistas que

ocorreu durante

aqueles anos gerou, finalmente, os esforços para limitar, mode

saudaram o fim da hegemonia dos Estados Unidos no hemis fério Ocidental e, ao mesmo

e à liderança política dos Esta-

cujo desenvolvi

mento podia ajudar a converter numa realidade aqueles direi tos.

O novo realismo das déca

ricano no mundo e a resultante

É também paradoxal

que,

na década de 70, aqueles mem bros do Congresso que insistiam mais

acerca

da necessidade de

expansão do poderio norte-ame expansão da liberdade patroci nada pelos EUA mundialmente. O novo moralismo do início da década de 70 coincidiu com o

relativo

declínio do

poderio

promover os direitos humanos no exterior, se mostrassem amiúde mais ativos na redução do Poder dos EUA que podia

norte-americano e a concomi tante erosão da liberdade e da democracia no mundo- Ao limi

ajudar a alcançar aquele resul tado- Na votação decisiva du

moralismo promovera tal declí

rante o

94.0

Congresso,

por

exemplo, 132 representantes vo

político e econômico dos EUA

diplomáticos

direitos humanos quanto do po

derio militar,

ca Latina.

vor

cia, funcionários

formemente em favor tanto dos

das de 40 e 50 coincidiu com a

taram sistematicamente a

As intensas e persistentes críticas veementes feitas pelos veículos de comunicação, pelos intelectuais e os congressistas às instituições militares, agên cias de Serviços de Inteligên

bros do Congresso votaram uni

tempo, deploraram a intensifi cação da repressão na Améri

rar e reduzir o poderio militar, no exterior.

159

fa¬

de emendas sobre os direi-

tos humanos na legislação

de

ajuda ao exterior. Setenta e oito daqueles 132 representantes vo taram também sistematicamen

te contra uma instituição mili tar mais ampla, e outros 28 par tidários sistemáticos dos direi tos humanos dividiram seus vo tos no tocante à instituição mi litar. Somente 26 dos 132 m-sm-

tar 0 Poder

dos EUA, o novo

nio. Em certa medida, também, o novo moralismo foi uma con

sequência do declínio. A preo cupação do novo moralismo com os direitos humanos em todo o

mundo, refletia claramente o desgaste da liberdade global e dos valores democráticos

em

relação ao mundo. Paradoxalmente,

os Esta-

humanos à medida que seu Poder de promover os direitos humanos diminuía. A aprovação do Título IX da Lei de Ajuda ao

Exterior, em

1966, um impor

tante lesforço do Congresso a fim de promover os valores de

mocráticos no exterior, ocorreu em meio ao firme declínio da ajuda econômica norte-america na para o exterior. De manei

ra similar, as várias restrições quanto aos

direitos

humanos

que o Congresso inseriu nas Leis de Ajuda ao Exterior na década de 70 coincidiram com

a substituição geral da ajuda militar pelas venda.s de armas militares-

Quando o poderio norteamericano era claramente pre dominante, tais medidas legis lativas e embargos eram supér fluos:

nem era necessária

a

Emenda Harkin para transmi tir a mensagem da superiorida

de da liberdade. A mensagem

ali estava à vista de todos, nos deslocamentos de tropas, forças-tarefa de porta-aviões, gas tos de ajuda ao exterior, e ope

doB Unidos tornaram-se, desse modo, mais preocupados com os

rações do Serviço da Inteligên

meios de

desapareceram de cena, a fim

proteger os direitos

cia.

Quando

esses elementos


8Sl

O0IW9NO03 oxsaoia

DIQESTO ECONÔMICO

reais com que se defrontam os formuladores da política norte-

dos Unidos teve, inevitavelmen te, tal efeito. Imbuidos do mi

americana no trato com o mun

to da repressão norte-america na, os novos moralistas, sem atentarem para a contradição,

do exterior. Mas, paradoxal mente, a dupla tendência do novo moralismo foi a de defen

der a expansão da liberdade global e, simultaneamente, efe tivar uma redução do Poder dos EUA-

O declínio relativo ao Poder norte-americano na década de 70 derivou de muitas fontes.

Uma delas foi, seguramente, o surto democrático (do qual o novo moralismo fazia parte) nos Estados Unidos na década

de 60 e começo da de 70. A forte reconsagração dos valo

res democráticos, liberais e po pulistas que

ocorreu durante

aqueles anos gerou, finalmente, os esforços para limitar, mode

saudaram o fim da hegemonia dos Estados Unidos no hemis fério Ocidental e, ao mesmo

e à liderança política dos Esta-

cujo desenvolvi

mento podia ajudar a converter numa realidade aqueles direi tos.

O novo realismo das déca

ricano no mundo e a resultante

É também paradoxal

que,

na década de 70, aqueles mem bros do Congresso que insistiam mais

acerca

da necessidade de

expansão do poderio norte-ame expansão da liberdade patroci nada pelos EUA mundialmente. O novo moralismo do início da década de 70 coincidiu com o

relativo

declínio do

poderio

promover os direitos humanos no exterior, se mostrassem amiúde mais ativos na redução do Poder dos EUA que podia

norte-americano e a concomi tante erosão da liberdade e da democracia no mundo- Ao limi

ajudar a alcançar aquele resul tado- Na votação decisiva du

moralismo promovera tal declí

rante o

94.0

Congresso,

por

exemplo, 132 representantes vo

político e econômico dos EUA

diplomáticos

direitos humanos quanto do po

derio militar,

ca Latina.

vor

cia, funcionários

formemente em favor tanto dos

das de 40 e 50 coincidiu com a

taram sistematicamente a

As intensas e persistentes críticas veementes feitas pelos veículos de comunicação, pelos intelectuais e os congressistas às instituições militares, agên cias de Serviços de Inteligên

bros do Congresso votaram uni

tempo, deploraram a intensifi cação da repressão na Améri

rar e reduzir o poderio militar, no exterior.

159

fa¬

de emendas sobre os direi-

tos humanos na legislação

de

ajuda ao exterior. Setenta e oito daqueles 132 representantes vo taram também sistematicamen

te contra uma instituição mili tar mais ampla, e outros 28 par tidários sistemáticos dos direi tos humanos dividiram seus vo tos no tocante à instituição mi litar. Somente 26 dos 132 m-sm-

tar 0 Poder

dos EUA, o novo

nio. Em certa medida, também, o novo moralismo foi uma con

sequência do declínio. A preo cupação do novo moralismo com os direitos humanos em todo o

mundo, refletia claramente o desgaste da liberdade global e dos valores democráticos

em

relação ao mundo. Paradoxalmente,

os Esta-

humanos à medida que seu Poder de promover os direitos humanos diminuía. A aprovação do Título IX da Lei de Ajuda ao

Exterior, em

1966, um impor

tante lesforço do Congresso a fim de promover os valores de

mocráticos no exterior, ocorreu em meio ao firme declínio da ajuda econômica norte-america na para o exterior. De manei

ra similar, as várias restrições quanto aos

direitos

humanos

que o Congresso inseriu nas Leis de Ajuda ao Exterior na década de 70 coincidiram com

a substituição geral da ajuda militar pelas venda.s de armas militares-

Quando o poderio norteamericano era claramente pre dominante, tais medidas legis lativas e embargos eram supér fluos:

nem era necessária

a

Emenda Harkin para transmi tir a mensagem da superiorida

de da liberdade. A mensagem

ali estava à vista de todos, nos deslocamentos de tropas, forças-tarefa de porta-aviões, gas tos de ajuda ao exterior, e ope

doB Unidos tornaram-se, desse modo, mais preocupados com os

rações do Serviço da Inteligên

meios de

desapareceram de cena, a fim

proteger os direitos

cia.

Quando

esses elementos


DIGESTO ECONÔMICO

160

de propiciarem a liberdade e os direitos humanos, o Congres so julgou necessário inserir condições e requisitos cada vez mais explícitos na legislação. Estas medidas legiislativas foram, com efeito, um esforço para compensar o declínio do Poder dos EUA. Em termos de

proteção da liberdade no exte rior, .^las não eram de modo al gum um substituto para a pre sença do poderio norte-ameri cano. A reconstituição deose Poder — político, econômico e militar — só pode ter efeitos positivos sobre as condições de liberdade e democracia em todo o mundo(Continuação cia página 146)

de contração da pupila é de três segundos e a dilatação, quando se passa do claro para o escuro, demora muito mais». A estas informações, científi camente pesquisadas, o prof. Felippe acrescenta: «A cegueira momentânea do ofuscamento varia em torno de três segundos e um carro a 80 km/h percorre 70 m em três segundos, significando que um motorista com a vista ofuscada percorre 70 m sem nada ver. Outro aspecto importante é o do tem po morto (tempo decorrido entre a informação sensorial c o momento da resposta). Quando a 80 km/h, antes que o motorista teniia tempo de reagir e acionar o freio, o carro terá percorrido entre 15 e 18 m, que serão soma dos aos 50 (aproximadamente) depois da frenagem. O tempo morto, a ve locidade e o tempo de írenagem em caso de ofuscamento, podem ser ele mentos causadores de acidentes fatais». Na elaboração do trabalho, o pro fessor e sua equipe utilizam o computador da USP para acompanhar o mo vimento do sol durante o ano, determinando quais os trechos de esticadas

sujeitos a ofuscamento. Os dados teóricos obtidos são observados, com ins

trumental adequado, nas estradas, verificando-se discrepâncias devidas à refração atmosférica terrestre e a outros fatores. Com este estudo, entidades responsáveis pelo projeto de nossas rodovias terão condições de saber em que situações o ofuscamento poderá ocorrer. Afirma o professor que os re

SERVIÇO DE GARANTIA DO CRÉDITO MERCANTIL E DE SERVIÇOS - SEGAM

Tem por finalidade a proteção mútua dos associados, mediante o registro e cadastramento dos “clientes impontuais” atendendo a consultas dessa situação. Registro de desabonos, com protestos de títulos, falências e concordatas.

sultados da pesquisa proposta no convênio poderão ser aplicados ao projeto das novas rodovias ou nas estradas já existentes, nos locais onde sabida mente ocorre ofuscamento solar ou noturno e, portanto, deve ser mais uma condícionante importante, para que o projetista apresente em cada caso. conscientemente’, a melhor solução, de acordo com o conjunto de seus co nhecimentos técnicos e sua criatividade. A duração prevista para a pesquisa é de 24 meses.-(Do Boletim da ü.S.P.).

Rua Boa Vista. 51 - C. Postal'8082 - Cep 01014 - Telex (11) 23355 - SP - PABX 239-1333,


DIGESTO ECONÔMICO

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de propiciarem a liberdade e os direitos humanos, o Congres so julgou necessário inserir condições e requisitos cada vez mais explícitos na legislação. Estas medidas legiislativas foram, com efeito, um esforço para compensar o declínio do Poder dos EUA. Em termos de

proteção da liberdade no exte rior, .^las não eram de modo al gum um substituto para a pre sença do poderio norte-ameri cano. A reconstituição deose Poder — político, econômico e militar — só pode ter efeitos positivos sobre as condições de liberdade e democracia em todo o mundo(Continuação cia página 146)

de contração da pupila é de três segundos e a dilatação, quando se passa do claro para o escuro, demora muito mais». A estas informações, científi camente pesquisadas, o prof. Felippe acrescenta: «A cegueira momentânea do ofuscamento varia em torno de três segundos e um carro a 80 km/h percorre 70 m em três segundos, significando que um motorista com a vista ofuscada percorre 70 m sem nada ver. Outro aspecto importante é o do tem po morto (tempo decorrido entre a informação sensorial c o momento da resposta). Quando a 80 km/h, antes que o motorista teniia tempo de reagir e acionar o freio, o carro terá percorrido entre 15 e 18 m, que serão soma dos aos 50 (aproximadamente) depois da frenagem. O tempo morto, a ve locidade e o tempo de írenagem em caso de ofuscamento, podem ser ele mentos causadores de acidentes fatais». Na elaboração do trabalho, o pro fessor e sua equipe utilizam o computador da USP para acompanhar o mo vimento do sol durante o ano, determinando quais os trechos de esticadas

sujeitos a ofuscamento. Os dados teóricos obtidos são observados, com ins

trumental adequado, nas estradas, verificando-se discrepâncias devidas à refração atmosférica terrestre e a outros fatores. Com este estudo, entidades responsáveis pelo projeto de nossas rodovias terão condições de saber em que situações o ofuscamento poderá ocorrer. Afirma o professor que os re

SERVIÇO DE GARANTIA DO CRÉDITO MERCANTIL E DE SERVIÇOS - SEGAM

Tem por finalidade a proteção mútua dos associados, mediante o registro e cadastramento dos “clientes impontuais” atendendo a consultas dessa situação. Registro de desabonos, com protestos de títulos, falências e concordatas.

sultados da pesquisa proposta no convênio poderão ser aplicados ao projeto das novas rodovias ou nas estradas já existentes, nos locais onde sabida mente ocorre ofuscamento solar ou noturno e, portanto, deve ser mais uma condícionante importante, para que o projetista apresente em cada caso. conscientemente’, a melhor solução, de acordo com o conjunto de seus co nhecimentos técnicos e sua criatividade. A duração prevista para a pesquisa é de 24 meses.-(Do Boletim da ü.S.P.).

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fortes das empresas fiquem MAIS FORTES e os pontos fracos DESAPAREÇAM e ainda, que haja um melhor trabalho de equipe, fator fundamentalno desenvolvimentode uma empresa.

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DIGESTO ECONÔMICO, número 288, janeiro 1982 by Diário do Comércio - Issuu