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REVISTA PIXÉ - EDIÇÃO Nº 29 - ANO 4 - MARÇO/2022

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R E V I S TA

LITERÁRIA

edição Nº 29 ano 4 março/2022


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Eduardo Mahon Editor Geral


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editorial

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iante da urgência da inclusão social, o que fazemos nós com a bagagem que nos constituiu e que excluiu tanta gente? O que fazemos com a literatura que aprendemos a admirar, desde a dramaturgia grega? Aquelas estátuas, todas muito brancas, aquelas pinturas de mulheres, todas muito loiras, aqueles rompantes romanos de raptos e firulas francesas amaneiradas? O que fazemos com a cultura que nunca deixou de ser elitista: Bach, Chopin, Brahms? E as antigas lições de etiqueta com direito a talheres de prata e guardanapo de linho branco? Muita gente acredita que tudo isso deva ser deletado do contemporâneo. Uma vez banida essa cultura considerada excludente, abriremos espaço para outras formas de expressão, inclusiva, democrática, popular. Será mesmo? Talvez seja esse o maior dilema de nossa época. Ao olhar para trás, é impossível que qualquer intelectual minimamente sensível não se mostre indignado. Não convém aqui fazer uma lista das injustas exclusões e odiosos apagamentos. Qualquer publicação seria insuficiente. No entanto, como viver sem passado? Como pensar o mundo sem ajuda das bibliotecas que nos influenciaram até aqui? Como desapegar do “gosto” construído desde a infância? Sem qualquer dúvida, a preferência estética é uma construção, porque não existe obra de arte que seja intrinsecamente boa ou ruim. Os padrões de julgamento mudam tanto que até mesmo o desejo muda com eles. O mundo variou tanto de opinião sobre o que é bom e mau que é dispensável provar o óbvio. E agora? Viveremos sem culpa amando Flaubert e os dramas pequeno-burgueses?, Proust e os paradoxos da high society?, Dostoievski e seus espíritos atormentados? Parece válido o questionamento. A tradição de rupturas definiu a modernidade. Tomando distância no tempo, entendemos que todas as pequenas e grandes

revoluções estéticas não partiram senão de uma pequena elite. O conservador, mesmo travestido de liberal ou de revolucionário, de fascista ou de socialista, de cubista ou de surrealista, enfim, de todo e qualquer “ista” dos muitos “ismos” disponíveis, nunca deixou de ser um conservador. Como cantava Cazuza, o que observamos não passa de um museu de grandes novidades. Sim, novidades que rapidamente envelhecem. O intelectual que queria mudar o mundo sempre gostou de se deleitar com croissants quentinhos. Aliás, parece que pouco mudou de lá para cá. Não é de agora a pretensão de pensar a periferia a partir de autores europeus, de olhar para o pobre a partir de um bangalô de vime, de pontificar rebeliões ao lado do samovar. Então: o que fazer? Parece-nos que uma violência não justifica a outra. A lei de Talião é a pior solução para os dilemas culturais que se apresentam num mundo que reclama por equidade. Queimar livros, esquecer autores, banir do repertório formativo os clássicos é repetir o mesmo crime que o passado impingiu. Dessa vez, curiosamente, quem busca a revanche são intelectuais beneficiados por essa mesma matriz que se quer silenciada. Muito ao contrário do que possa parecer, a valorização do cânone não exclui experimentalismos. Somente a vanguarda mais enfurecida imaginou que, para o novo vir ao mundo, seria preciso matar o passado. Ora, devemos conviver todos. O velho de hoje já foi o novo de ontem e nós, novíssimos em folha, vamos ficar podres de velhos em pouco tempo. Esse dilema é movido por uma enorme insegurança. Que insegurança? Freud explica. Como toda criança, o intelectual inseguro quer adular os coleguinhas, se enturmar na tribo de eleição. Portanto, publicamente renega tudo e todos o que possam constranger essa unanimidade artificial. Suspeitamos, contudo, que debaixo do travesseiro sobre o qual dormem, Shakespeare repousa escondido a sussurrar durante a noite...


expediente Direção Geral e Edição: Eduardo Mahon Artista Visual Convidada: Francien Krieg Colaboradores desta edição: Olga Maria Castrillon-Mendes, Aclyse Mattos, Álvaro Fausto Taruma, Caio Augusto Leite, Cristina Campos, Divanize Carbonieri, Eduardo Mahon, Felipe Eduardo Lázaro


SUMÁRIO 2 6 8 10 14 16 18 20 22 24 26 28 30 32 34 36 38 40 44 46 48 50 54 56 60 70 72 74 76 78 80 82 84 86 88 90 94 98

Editorial Olga Maria Castrillon-Mendes Aclyse Mattos Álvaro Fausto Taruma Caio Augusto Leite Cristina Campos Eduardo Mahon Divanize Carbonieri Flavia Ferrari Gabriel de Mattos Ireneu Bruno Jaeger João Pereira Coutinho Lily Magaflor Lorenzo Falcão Luciano Lanzillotti Lucinda Nogueira Persona Marcelo Pereira Rodrigues Marcos Mamuth Marcos Almeida Pfeifer Mateus Elias Matheus Guilherme Antunes Mirian de Carvalho Renato Medeiros

Francien Krieg

Elizah Leigh Nicolas Behr Nirlei Maria Oliveira Pablo Rezende Paulo Sesar Pimentel Raquel Naveira Rubenio Marcelo Stéfanie Sande Thiago Costa Waldney Jorge de Lisboa Helvio Moraes Mariana Belize Maristela Carneiro Anna Maria Ribeiro Costa

Braga, Flavia Ferrari, Gabriel de Mattos, Ireneu Bruno Jaeger, João Pereira Coutinho, Lily Magaflor, Lorenzo Falcão, Luciano Lanzillotti, Lucinda Nogueira Persona, Marcelo Pereira Rodrigues, Marcos Mamuth, Marcos Almeida Pfeifer, Mateus Elias, Matheus Guilherme Antunes, Mirian de Carvalho, Nicolas Behr, Renato Medeiros, Elizah Leigh, Nirlei Maria Oliveira, Pablo Rezende, Paulo Sesar Pimentel, Raquel Naveira, Rubenio Marcelo, Stéfanie Sande, Thiago Costa, Waldney Jorge de Lisboa, Helvio Moraes, Mariana Belize, Tempo e finitude, Maristela Carneiro, Anna Maria Ribeiro Costa. Projeto Gráfico/Diagramação: Roseli Mendes Carnaíba


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NUM PESCAR DE OLHOS

Olga Maria Castrillon-Mendes É pesquisadora da literatura brasileira. Autora de Taunay viajante: construção imagética de Mato Grosso (Cuiabá: EdUFMT, Cáceres: EdUNEMAT, 2013); Discurso de constituição da fronteira de Mato Grosso, 2017; Matogrossismo: questionamentos em percursos identitários (Carlini & Caniato, 2020) e Letras cacerenses (Cuiabá: Carlini & Caniato, 2021, em coautoria).


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Tempo e finitude

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enorme interesse sobre a temática do tempo e da memória tem muito a ver com certo ato de resistência ao massacrante processo de apagamento das experiências, que só acontece no tempo. Seria o “fim da história” de uma sociedade atemporal que perdeu a memória, condição básica da produção artística contemporânea. Na arte, o tempo é algo que nos pertence, diferentemente do tempo cronológico ligado à fluidez, à passagem, ou mais terrivelmente, à finitude. O “espírito da época”, o Zeitgeist, forma alemã de se relacionar com o tempo, foi o exercício dos românticos para diluir a concepção newtoniana em vigor. Colocado frente à cultura de massa do século XX, o tempo é algo relativo, nada a ver com a cronologia – lugar de apego ao passado ou ao futuro. Nesse sentido, torna-se difícil aceitar o processo natural do envelhecimento. Pelo contrário, o desejo de eternidade perde o sentido perante a finitude do ser. É lançar os olhos para o alto negócio do mercado de cosméticos e a necessidade de manutenção da juventude para se instalar a ânsia do permanente. Esticados ou enrugados teremos o mesmo fim. Estar em um tempo é se colocar no jogo entre o modismo e as tradições que se sucedem e disputam lugar na história. Esse movimento é antigo. Está nas medidas temporais dos gregos, passa pela relação do ser humano com os três tempos: passado, presente e futuro, tido como “psicológico”, de Santo Agostinho, até chegar na noção do tempo ilusório, portanto, inexistente; ou pode ser relativo e significar diferentemente para cada pessoa. Assim, o tempo estaria nas relações entre nós e nossas próprias definições. Talvez por isso, a partir da segunda metade do século XX, ao invés de tempo, os filósofos imprimiram o termo temporalidade, tido para Sartre “como dimensão intrínseca e estrutural da forma como o ser humano se percebe no mundo”¹. Portanto, na linha das concepções fenomenológicas, o tempo é algo mutável e histórico. O que distingue o presente do passado e do futuro? O tempo é divisível ou fluxo contínuo? Embora haja muitos caminhos para a exploração dos conceitos, em áreas diversas do conhecimento, a noção de idade, longe de ser subjetiva, é algo que surge do exterior da questão. Ou seja, ao ser afetado pela noção de não eternidade, o ser humano vive em constante luta consigo mesmo. Estamos preparados para a finitude?!

¹ SARTRE, J. P. [1943]. O ser e o nada: ensaio de ontologia do tempo - Neurose. 4 ed. RJ: Forense Universitária, 1977, p. 11-85.

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Aclyse Mattos É escritor, poeta e professor da Faculdade de Comunicação e Artes da UFMT. Livros publicados: Motosblim: a incrível enfermaria de bicicletas (infantil – 2019) O sexofonista (contos - 2018), Sabiapoca – Canção do Exílio sem Sair de Casa (infantil – 2018), Festa (poesia – 2012), Quem muito olha a lua fica louco (poesia – 2000).

MAHON DO AMANHÃ Mahon são vários: Hoje descobrimos o Mahontem! Mas ontem era Mahonje? Mahonje é quase um Monje (assim visto de longe).

Um personagem à procura de um autor mas personagem Valente Que saca do Cartola Um Rosa, um Chico sem fim

Tanto que Maris descobriu Nalguma biblioteca alquímica “Ensinamentos de um Mahonje”

Depois de pronta a mistura Chamou o Mestre Cantor Para o Conhaque provar “Que falta por mais, Dom Helvio Moraes?”

Com certeza é poesia, mas vão classificar de auto ajuda, já que se tudo muda, parece que nada muda!

Abra ali o Baú do Ataulfo Pegue do samba dois trunfos Um cavaco – um cavaquinho Misture tudo tudinho

Mahonje é um monje de poética religião daqueles que no mosteiro tem um alambique no porão

Pronto O conhaque virou vinho Vamos logo repartir Que o bonde vai partir

Desce as escadas Sobe nas tamancas E mexendo o caldeirão Num zas: Conhaque de Alcatrão

O Bonde São Januário O Trem da Central do Brasil Onde isso vai parar? Onde já se viu?


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Álvaro Fausto Taruma Escritor moçambicano. Publicou Para Uma Cartografia da Noite (2016), Matéria Para Um Grito (2018) e Animais do Ocaso (2021). Tem colaborado com jornais e revistas literárias em Moçambique e Portugal

NINGUÉM LÊ POESIA AOS SÁBADOS 1. Deus precisa de mais petróleo para girar o mecanismo do universo sou a janela que teima em apagar sua luz. 2. We came we saw he’s dead chuva de tomahawks no deserto não se preocupem isto é apenas o começo. 3. Prefiro a doçura das tâmaras à solitude das mesquitas ninguém leva a mal só mais um pecado somos todos tecidos da mesma matéria salobre. 4. Move-se em silêncio o bispo no tabuleiro tu és o caminho a verdade e a vida os desgraçados batem as palmas. 5. Dormimos com a água acima dos joelhos os peixes comeram o que sobra do nosso sono e a chuva cai desde o princípio dos séculos.


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NEM COM O PETRÓLEO ARDEU A TARDE (Evidências) 1. Medir como posso? o pulso da noite com a luz que ressuma do voo do vagalume e o sono justaposto à estante de livros. 2. Habitamos este século de larvas nossos os nomes boiando por dentro da nuvem Okay, Houston, we’ve had a problem here. 3. Eis o que me propõe Auden: a poesia como a incorruptível paixão pela linguagem tá bom, bem-vindo à esta terra, Moçambique. 4. Havia um jardim onde se diz: foi lançada a semente de Deus hoje vi entre dois edifícios a última acácia cair foi antes de se cobrar pelo imposto municipal. 5. Atravessamos a avenida e nenhuma sirene sazona por trás de nós Caminhamos para lá do recolher obrigatório do coração sem pressa, há-de haver uma manhã de sorrisos transparentes.


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perco entre palavras homens que seriam eu e encontro ao fim de tantas ceifadas frases este tão só e somente, semente sem futuro quase ideia e sem consideração me aceito apesar de devastado é do homem ser estado e desgoverno antipátria e ufanista no corpo da utopia circulo com estes mapas sem escala em meus olhos correm rios que vão pra nenhum mar deste sangue não virá placenta nova em mim me encerro enclausurado em meu fado e se mais canto mais me corto e me afio e desconfio que depois não sobrará o que ouvir ruir é do homem como são das cidades e dos impérios com seus monumentos quanto mais decaem tanto mais são belos


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Caio Augusto Leite Nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) com dissertação sobre A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018, na França e na Bélgica, a convite da Universidade Sorbonne. Teve textos publicados nas revistas digitais escamandro, A Bacana, mallarmargens, Vício velho, Lavoura, Subversa, Literatura & Fechadura e Alagunas É autor dos livros Samba no escuro (Scortecci, 2013), A repetição dos pães (7Letras, 2017) e Terra trêmula (Caiaponte, 2020), além de colunista da revista digital Ruído Manifesto.


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Cristina Campos É doutora em Educação (USP, 2007); mestra em Educação (UFMT, 1999); especialista em Língua Portuguesa (UFMT, 1989), Semiótica (UFMT, 1995) e Semiótica da Cultura (UFMT, 1996). Professora aposentada de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, pelo IFMT – Campus Cuiabá. Ocupa a Cadeira 16 na Academia Mato-grossense de Letras. É autora das seguintes obras: Pantanal mato-grossense: o semantismo das águas profundas (Cuiabá: Entrelinhas, 2004), Conferência no Cerrado (Tanta Tinta, 2008), Manoel de Barros: o demiurgo das terras encharcadas (Carlini & Caniato, 2010), O falar cuiabano (Carlini & Caniato, 2014), Bicho-grilo (Carlini & Caniato, 2016) e Papo cabeça de criança travessa (Tanta Tinta, 2017).


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DE PASSAGEM Para Lucinda Nogueira Persona Descartei de vez a cartela de hormônios que o gineco prescreveu como essencial reposição e pressinto bem inútil: ilusório rosário desfiado dia a dia com seu mantra trec-trec (bem pilantra) a desafiar a Morte. Por que engolir, uma a uma, as pílulas diárias que raspam o gargalo da garganta, grãos de areia seca a escorrer na ampulheta de Cronos? Afinal, devagarinho, a vida sempre se esvai... Água que flui escapando aos pingos pelas frinchas. Estranha ausência de sentido esta que me toma de assalto vez por outra, um nada nada nirvânico. Reajo cultivando em silêncio a horta, o filho, a obra, o que fica. Mergulho de cabeça no fim do fio do pavio. Só por hoje!


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Divanize Carbonieri é doutora em letras e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poemas Entraves (2017), Grande depósito de bugigangas (2018), A ossatura do rinoceronte (no prelo) e Furagem (no prelo), além da coletânea de contos Passagem estreita (2019).


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POLEGAR o polegar é um fruto feio entre a prole sã uma degenerescência da estirpe desagregado dos outros por um precipício para sempre em degredo deselegante com sua falange hipoplásica enquanto os irmãos são graciosos e contíguos em camaradagem mas é essa apartação que permite o movimento em pinça traço distintivo de nossa espécie e nem a braquidactilia lhe tirou tal mérito

INTENTO a mão braquidátila não mais datilografa nem escreve à caneta com caligrafia firme a mão braquidátila se estica sobre o teclado seus dígitos encurtados cobrem todos os caracteres a mão braquidátila é como um cabo que conecta o cérebro à máquina instrumento que capta num átimo o intento de uma arte máxima


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céu e sol [mar à parte] pouco de mel pouco de sal muito de cal e fel puta pauta contra pinto só pinta puta com que sinto ? discurso ou poema não saco e empaco no mar de Ipanema

: a be cê ? sobre o quê lê e não vê foda-se

Eduardo Mahon 44, é carioca da gema, advogado e escritor. Mora em Cuiabá com a esposa Clarisse Mahon, onde passa sufoco com seus trigêmeos: José Geraldo, João Gabriel e Eduardo Jorge. Autor de livros de poemas, contos e romances, publica pela Editora Carlini e Caniato.


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NADA Nunca viajei a lugar nenhum Nunca deixei esta casa E vejo pela janela esta rua de asfalto Que a cada década Recebe um novo pavimento Anseio pela máquina Cheiro de química asfáltica Que cobre a antiga rua Gasta pela chuva pelo atrito Pelo vento que movimenta os elementos Pelos passos dos que saem Pelos carros pelos ônibus pelas rodas Pelo bicho por tudo o que aqui encontra rota Menos por meus passos Estanques Que não pisam na rua em frente à casa (talvez em sonho) Sei que qualquer passo Haverá de passar um dia pelo asfalto Serei quando?

Flavia Ferrari (Santana de Parnaíba/SP) É poeta e professora. Escreve contos infantis desde 2014. Começou a publicar seus poemas em 2020, no início da pandemia, mas a escrita esteve presente em sua vida desde a adolescência. Teve poemas publicados pelo Toma Aí Um Poema, Escrita Cafeína, Editora Trevo, Projeto Enluaradas e Revista Literária Pixé. É autora do livro Meio-Fio: Poemas de Passagem (Editora Toma Aí um Poema/2021).


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SÉCULOS Querer não basta É preciso rastejar pelo território sem trincheiras Sob as balas que cruzam e tiram a pele Sonhar de nada vale É preciso subir ao palco e assassinar o rei Desligar o som e encerrar o show Viver não é suficiente É preciso morrer cem vezes E outras tantas Para que o tempo seja generoso E restaure o humano revolucionário Que possa enfim descansar Sem sentinelas Sobre a terra que lhe foi devolvida


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PONTO

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aiu um pouco mais cedo. Ninguém iria notar mesmo: chefia intermediária, muitos contatos fora da sede, necessidade de aumentar as vendas. A concessionária ficava no final da cidade, Novo Paraíso do Norte acabava bem ali. Era uma das vantagens ou desvantagens da cidade construída pela Colonizadora em terras da Colonizadora: ela (Ela?) decidia quando e se o perímetro urbano ia ser alterado. As concessionárias de veículos e implementos agrícolas ficavam na borda da região constituída de prédios e casas térreas. O ponto de ônibus ficava logo ali, entre a concessionária e o início das terras sem ocupação, abertas para os restos da floresta amazônica. Linhas, pouquíssimas. Também para quê?, não havia conjuntos residenciais nem chácaras onde morassem trabalhadores que precisassem de transporte coletivo. Ele gostava de ficar ali sentado no ponto, olhando o lado onde não tinha mais cidade. Gostava de imaginar pegando o ônibus-para-lugar-nenhum, ir para a estação Futuro, direção Imprevisto. Fumava um ou dois cigarros, borrifava o spray de própolis e hortelã (a mulher não precisava saber que ele voltara ao vício), dava uma olhada para o lado da cidade já iniciando a sumir na rápida noite do norte, cambaleava para a concessionária, pegava o carro e voltava para casa, esposa e casal de filhos. Amanhã voltava para o trabalho, revisava clientes, fugia para fumar o primeiro cigarro, almoçava em casa rapidamente, voltava, saia, ponto, último cigarro. Depois de amanhã voltava... - Tem um cigarro? Sobressaltou-se. - Eh, desculpe. Cheguei quando você ainda estava fumando... Eu também... Olhos cansados, como os dele. Mas cobertos de uma camada lambuzada de rímel aplicado de manhã. Blusinha possivelmente de uniforme verde clara, escondida por um agasalho envelhecido, saia abaixo do joelho, possivelmente combinando com a blusa. Ele não respondeu. Ela sorriu torto (dentes tortos) e enfiou a mão na bolsa falsa de grife. - Eu também... – O spray de própolis, com gengibre. – Meu irmão não pode saber. Ele ofereceu um cigarro. Pegou mais um para si mesmo. Que se dane. - Saí mais cedo hoje. Bem mais cedo. Nunca te vi aqui. No fim-início da cidade... Anoitecia quando os dois borrifaram uma boa quantidade de spray nas gargantas.


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* ** Afinal tinha mulher e dois filhos. Mas a vista do final da cidade era muito bonita. Nem se preocupava mais em observar o horário. Saía bem mais cedo. Ela também. Trocavam conselhos, ele falava da vida de casado com uma agregada da Colonizadora, talvez herdeira de terras além do fim da cidade. Contavam histórias sobre os sócios originais, sobre surpresas nos testamentos. Ela, sempre com agasalhos diferentes sobre o mesmo uniforme. “Você não precisa saber qual concessionária é. Basta saber que é de carros chiques, mas não luxuosos, daqueles que você passa por eles se quer mostrar dinamismo.” Nem nomes trocaram. Trocavam sagas familiares. A dela se resumia a um irmão; eram filhos de um agregado bastardo da Colonizadora, mãe e pai falecidos que estavam nas franjas da empresa. “Acho que eles eram tolerados, como a gente hoje. Meu irmão não me deixou procurar emprego na Colonizadora, na própria empresa mesmo. Mas sei que minha concessionária é de um laranja deles.” Ficavam olhando o pôr do sol no além-cidade. Agora vendo um outro além. Os dois disseram, no mesmo fim de dia, que acabaria sendo melhor continuar além daquele ponto. * ** Olhar a paisagem, cada vez mais fim. O mais além continuava lá: além. Já era o terceiro cigarro. Ela atrasava hoje. Logo hoje. A paisagem ia ficando mais escura em frente ao ponto. Ele jogou o cigarro só começado e tirou outro do maço amassado. E esquecera o spray de própolis com hortelã. Ela finalmente chegou. Agasalho novo sobre o velho uniforme verde claro. Não falou nada, nem precisava. Olharam-se, depois cada um olhou para a paisagem se dissolvendo. O ônibus chegou silencioso, escuro. Ela só olhou para ele. A bolsa que carregava era maior que o tamanho habitual. A pasta dele não era diferente. Ela subiu os degraus desgastados do ônibus. Esperou. O veículo velho chacoalhou retomando o caminho para além do fim. A paisagem em frente sumiu na noite. Mas afinal, dois filhos e uma esposa...

Gabriel de Mattos É arquiteto, professor universitário e publicou, entre outros, os livros “Doce Irresponsabilidade”, “Vertiginoso” e “O Primeiro Filho”. Ponto faz parte do Ciclo de Novo Paraiso, sobre as cidades do norte de Mato Grosso.


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CASCATA

A cascata me viu e sorriu. Ela precipitava palavras no abismo A certa altura magia pura termos leves amorosos calorosos vaporizavam-se em mil sentidos mas floridos e subiam novamente constantemente em brancas nuvens quais vaga-lumes No entanto, estupendo termos sinistros espatifam-se no fundo Imundo onde se escondem peixes vorazes jacarés e anacolutos. Através do véu de escuma de versos enorme biblioteca com inúmeras antologias Poéticas. Aqui aos meus pés em pedra suave e lisa está ancorada canoa cheia de versos futuristas.

Ireneu Bruno Jaeger Ocupa a cadeira nº 1 de Academia Sinopense de Ciências e Letras. É um dos fundadores da mesma. É professor aposentado da Universidade do Estado de MT. Publicou poesias, crônicas literárias e um romance. Recebeu Moção de Aplauso da Câmara de Vereadores e da reitoria pelo histórico da UNEMAT do Estado e do Campus de Sinop. Ao todo publicou 14 obras. É catarinense de nascimento e mato-grossense de coração desde 1977.


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João Pereira Coutinho É escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

É POSSÍVEL REJEITAR UMA OBRA DE ARTE DE UMA ARTISTA NEGRA SEM SER POR RACISMO

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uma outra vida, que hoje me parece irremediavelmente distante, formei-me em história da arte. Não me arrependi. Pelo contrário: continua sendo uma paixão, mas não uma profissão. O problema, creio, estava no excesso de política que começou a rondar a disciplina. Não sou um prosélito do esteticismo. Não acredito na arte pela arte. E sei bem que a política sempre fez parte do pacote. Não falo de casos óbvios, como os quadros “papistas” de Rafael, a produção pré e pós-revolucionária de Jacques-Louis David ou as denúncias de Picasso sobre a guerra civil espanhola.


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Mesmo casos aparentemente “limpos” —lembro um, que sempre me comove: o “Navio Negreiro”, de J. M. W. Turner— refletem a sensibilidade moral de um tempo. No caso de Turner, não é possível olhar para a composição e fechar o debate numa análise formal. Quando vemos os escravos mortos ou doentes sendo jogados no mar, ainda com as correntes, convém perceber que Turner estava a participar dos movimentos abolicionistas britânicos com uma das mais poderosas denúncias desse horror moral que foi o tráfico negreiro. Quando falo da “politização” da arte, eu falo de outra coisa: a noção de que a arte só existe para cumprir um programa ideológico que, para além de extra-artístico, secundariza a dimensão estética da obra. É uma espécie de esteticismo ao contrário, em que a arte pela arte é substituída pela pura ideologia. Em ditaduras, isso é bastante comum —do realismo soviético até a denúncia da “arte degenerada” pelos nazistas, exemplos não faltam. Mais estranho é achar isso normal em tempos de liberdade: ou a arte cumpre uma agenda específica, ou deve ser ignorada. E quem não concorda com essa doxa é racista/homofóbico/ transfóbico/misógino (pode escolher). Um caso recente, que abalou o mundo das artes em Portugal, ilustra o meu ponto. A artista portuguesa Grada Kilomba, com uma obra sobre o racismo, não foi escolhida para representar o país na Bienal de Veneza de 2022. Motivo? Segundo Djamila Ribeiro, nesta Folha, por causa de uma “branquitude ressentida” que não tolera “os questionamentos de seus privilégios que vêm historicamente decidindo quem pode ou não falar”. No caso de Grada Kilomba, isso se explica pelo fato de um membro do júri, ao contrário dos restantes três jurados, não ter atribuído uma pontuação elevada à artista, desvalorizando o seu projeto e impedindo a sua escolha oficial. Por outras palavras: não escolher Kilomba é ser racista. E também misógino, como se leu em Portugal em artigos de uma violência delirante. Não faço comentários sobre a arte de Kilomba, que conheço mal, muito menos sobre o projeto apresentado a concurso, “A Ferida”, que não conheço de todo. Meu ponto é outro: ainda é possível rejeitar uma obra de arte de uma artista negra (e mulher) sem sermos lançados para a fogueira do racismo (e da misoginia)? Depende dos argumentos usados, claro, razão pela qual fui ler a fundamentação do crítico Nuno Crespo, o alegado racista da situação. Para minha surpresa, ali temos um jurado que reconhece Kilomba como uma “brilhante escritora e pensadora” e a sua equipe como dotada de “reconhecido mérito” e “relevância nacional e internacional”. Porém, e em relação ao projeto apresentado (que era o que contava), o crítico manifesta reservas analíticas e de gosto (falta “singularidade” e “consistência”, “não é inovador” etc.) que em nenhum momento resvalam para o racismo ou para a misoginia. Há 25 anos, quando deixei o mundo da arte para trás, o ambiente já era tóxico. Mas ainda não existia, concedo, o terrorismo emocional de hoje: a ideia perigosa de que só existe uma “linha justa” que o crítico ou o artista têm de seguir fielmente, sob pena de fuzilamento moral. Dizer que esse ambiente é puro veneno para a reflexão e para a criação artística seria um eufemismo. Como seria um eufemismo acrescentar que o silêncio covarde ou cúmplice de muitos críticos e artistas com tais inquisições será, a prazo, o fim de todos eles. Felizmente, o debate que a não escolha de Grada Kilomba gerou em Portugal permitiu escutar outras vozes, que não se deixaram intimidar pela gritaria reinante. É um sinal de esperança.


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UNIVERSO ENTRE MINHAS COXAS Eu deixo que você fique, que você brinque, em todo esse Universo contido entre minhas coxas. Na doce curvatura em flor que me desabrocha como mulher. Em cada suavidade de cetim da minha pele. No Sagrado antigo e precioso que porto em meu corpo. A doçura em mel que de mim escorre. Secreta, rara. Dádiva, somente para os que sabem encontrar. Se deixo que você fique, deixo que você beba, reconheça a beleza da conquista. Não tome por garantido algo que não é seu. Sou eu quem possuo o Universo, a Origem do Mundo. Você é apenas o argonauta honrado que passou no teste e agora eu permito que brinque aí. Se delicie. Com calma, com gosto, Com a boca de quem sabe o mistério que acessa. Deixe corpo, deixe alma se levarem. De que mais a vida é feita, se não de fogo e água doce?

Adentre ao Universo. Discorra sensações e sentimentos com um suave dedilhar. Brinque! Se demore! Se permito, aproveite! Experimente cada suspiro que solto. Ouça cada movimento que nossa interação produz em mim. Goze de sua estadia no meu Universo. Vibre da transcendência que encontra nesses momentos em que divido com você, toda a minha doçura minha potência de vida minha entrega em alegria e gozo. E então, pouse! Me abrace, me acolha e venha no meu colo repousar em água serena como quem chega em casa depois da tormenta, da guerra, da satisfação do cruel desejo ardente. Se deixo que brinque no Universo que tenho entre minhas coxas, em êxtase segure, pegue, contemple o intervalo de tempo em que te pertenço. Até que se feche, e você seja feito sedento, outra vez.


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Lily Magaflor Olá a todos, sou Lilly Magaflor, poeta curitibana. Sou autora do livro A Flor Invertida. Embora, sempre tenha amado poesia e trabalhado como declamadora na minha adolescência, foi apenas na pandemia que me libertei e comecei a escrever. Sou mãe, trabalho com Mentoria e com Arte. Minhas redes sociais são um espaço de divulgação do meu trabalho autoral e ainda tenho um canal no YouTube no qual declamo Poesias de poetas de todos os lugares e épocas.


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onomatopeia

palco

precisei viver um tempão, mais de 60 anos, para apreender uma palavra: cricrilar.

o que eu gosto mesmo e onde ninguém me segura é o palco. zona de conforto, uma ova. quero mais é taquicardia e aquele friozinho na barriga. mesmo que não seja aquela coisa toda espetacular, quero estar presente dentro do espetáculo que é a vida.

eu adoro conhecer novas palavras e talvez você também: eis-me aqui... poeta daqueles que não precisa de muita cerimônia pra versejar: repassa logo a novidade meu carinho especial pelas onomatopeias está compartilhado e dá voz aos grilos

bom, já disse o que queria. uma vez pronto o verso, vou dormir sabendo que o sonho cabe no sono. no mais, um bocejo e o meu beijo

Lorenzo Falcão “Nasci inexplicavelmente para ser poeta”, reconhece Lorenzo Falcão na breve biografia que acompanha “mundo cerrado” (assim mesmo sem maiúsculas por opção do autor). “O cerrado é meu lar e a poesia, o meu mundão sem porteira”, conclui o jornalista, que nasceu em Niterói (RJ), mas cresceu em Mato Grosso, “entre barrancos, pedras e sombras”, e trabalha há muitos anos como jornalista na área de cultura.


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INSENSÍVEL JORNADA Ao lado da janela do ônibus passam transeuntes, vegetação, ruas, que parecem à espera do fim: pessoas sem sorrisos, árvores sem frutos, lixo com larvas. É uma vida sem viço: como se tanto fizesse ao ser urbano, ficar ou partir dessa insensível jornada.

Luciano Lanzillotti É Doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ, autor de Geometria do Acaso, Editora Dialética, 2021.


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Lucinda Nogueira Persona É escritora, poeta, professora e membro da Academia Mato-grossense de Letras. Nasceu em Arapongas, PR, e vive em Cuiabá, MT. Estreou na poesia em 1995 com o livro Por imenso gosto. Publicou, entre outros: Ser cotidiano (1998), Sopa escaldante (2001), Leito de Acaso (2004), Tempo comum (2009), Entre uma noite e outra (2014) e O passo do instante (2019).


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CASAL Dia a dia, levam a vida assim na silenciosa profundidade do costume (como uma viagem em direção ao que já se conhece) vão seguindo com suas obrigações e cada vez mais esquecidos de uma coisa ou outra Quando caminham juntos nos aposentos da casa no parque ou no supermercado nem é lado a lado cada um vai ora um pouco mais à frente ora um pouco mais atrás As pernas e os pés em revezada procissão conjugal e até parece que nenhum dos dois está da sombra do outro saudoso.


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ELES ESTÃO ESCREVENDO O QUÊ? ELES ESTÃO ESCREVENDO PARA QUEM?

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embro-me que em uma das edições da FLIP, o escritor Sérgio Sant’Anna ter reclamado do fato de o Brasil ter muitos escritores e poucos leitores. Desde então, venho refletindo sobre a lucidez dessa provocação. Pois foi assim que foi entendida à época, como escritor entendi o que ele quis dizer e atualmente concordo com ele. Como profissional da escrita, tenho reparado na quantidade irritante de joio em detrimento ao trigo. Cheguei à última Bienal do Rio no Riocentro e calhou de me sentar como ouvinte de um evento com celebridades: lembrei-me do nome Prioli, parecida com o a priori comumente usados por nós, filósofos. Lá fiquei sabendo que o livro da loura era um best-seller. Meu espírito se assemelhou ao de Ariano Suassuna lendo em palestra uma reportagem elogiosa sobre o Chimbinha da Banda Capypso. Se ele era genial, o que afirmar de Bach, Mozart etc?! Fiz a analogia: se o livro da beldade que discute política é alta literatura, o que dizer de Balzac, Flaubert e Zola?! A mesma Bienal que teve como atração a icônica figura de leitor. Coube ao ator global Antonio Fagundes essa apresentação. Mas tudo bem, se até Fernanda, a Montenegro, cabalou votos para adentrar a honrosa ABL, e se o músico condecorado foi Gil e não Chico Buarque, então o panorama está posto. “Para o mundo que eu quero descer”, ouço Raul Seixas bradar. Qual o grande romancista do Brasil atualmente? Não vale modismos nem representatividade travestida de literatura. Não vale consensos suspeitos de concursos nem ser amigo do Manuel da Cultura, nem ficar puxando saco de editores na vã expectativa de adentrar a cena mainstream, devo confessar que a coisa toda está uma bosta. (Sr. editor, posso utilizar este termo de excreção, ou o resultado dela? É que pelejei aqui para encontrar termo mais apropriado. Não consegui). Vamos para as redes sociais participarmos dos Clubes de Livros e estranhamente moçoilas apaixonadas, com poses de feministas, estampam em suas capas de livros aqueles homens saradões que quase me levam à depressão, em termos comparativos. E tudo com nome de inglês: John, Robert etc. E o que temos de vampiros por aí... Resumo da ópera triste: do que poderíamos denominarmos de clássicos atualmente, Philip Roth, Jonathan Franzen, Modiano, Houellebecq, Coetze e outros mais, nenhum é brasileiro. Nenhum será brasileiro, a ver a nossa mendicância editorial. Sinto muito, amiguinhos da PIXÉ, por ter agido aqui como o menininho a apontar a nudez do Rei.

Marcelo Pereira Rodrigues É filósofo e escritor, autor de 13 livros, alguns traduzidos para o exterior. Seus escritos já foram divulgados em muitos países. É editor-chefe da Revista Conhece-te.


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Marcos Mamuth É também (des)conhecido como Marcos Alberto Taddeo Cipullo. Nasceu em São Paulo, no bairro da Mooca, em 1965. Guitarrista e compositor desde 1979. Psicólogo desde 1988. Escritor desde 1986. Professor universitário desde 1993; a partir de 2008, na Universidade Federal de São Paulo (Campus Baixada Santista). Poeta desde sempre.

Edital de Boas-Vindas (Ou… Os Amores Breves Também São Eternos Quando Bem Guardados Nas Caixas de Lembranças) Se eu soubesse que você viria, teria limpado a casa, jogado fora algumas recordações amareladas, escritas, com mãos trêmulas em folhas antigas. E escancarado as janelas para que o ruído do mundo me despertasse, pois dormi ao longo de muitos e desnecessários invernos, acomodado no silêncio tenso das esperas.

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REVISTA PIXÉ Teria tirado o pó dos livros, aqueles que registram minhas mais tristes passagens. E lavado a boca para me livrar desse gosto amargo de descrença e cinismo que me vem envenenando lentamente. Teria desamarrotado os lençóis, a alma, os projetos há muito guardados em gavetas secretas. E tirado o véu dos espelhos, sem medo dos relâmpagos, das tempestades, do vento cantando canções incompreensíveis. Se eu soubesse que você viria, teria mandado embora meus convidados, cancelado o baile de máscaras para novamente usar meu verdadeiro rosto. E praticado com mais afinco a arte de degustar a vida em seus temperos suaves. Mas não houve tempo ou anúncio. Nem presságios ou os arautos celestes soprando suas trombetas de ouro. Apenas o som sutil de um encontro. Mal pude juntar os fragmentos de minha história, dispersa em tantas juras inglórias e ruas desertas. Mal pôde o medo apossar-se de mim. Surpresa e deslumbramento forçando duramente as engrenagens enferrujadas, o misterioso mecanismo da paixão que nunca fora abandonado de vez. Vejo-o novamente em marcha inexorável, resoluto e faminto. Será suficiente para alimentá-lo o que restou de mim, meus pequenos truques, e palavras mágicas desgastadas em rituais inúteis?


REVISTA PIXÉ Agora, no final deste dia, caminho suavemente sobre sua pele clara e macia. Esquecido em algum lugar, o relógio no qual aprisionei a hora de partir. Por isso, sou permanência, coragem e recomeço. Outra vez novamente, e de novo, eu a reconheço. Abro as portas e comportas destes meus olhos secos. Seja bem-vinda a meus fantasmas amestrados, à coleção de sonhos que deram errado, a minhas esperanças medrosas, tão desejosas de companhia. Ao meu sexo desaprisionado, ao nexo intenso do meu desejo errante e ignorado. A casa é modesta, as janelas dão para dentro; mas, no centro da sala, sem nome, sem hora, brilha o sol desse afeto nosso, essa fome que hoje vigora, e ontem nos pariu. Só não repare na bagunça. A faxineira partiu, e eu só faço o que posso...

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FOLHA

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flamboyant mostrou mais cedo a sua flor vermelha nesse ano. As plantas receberam chuva no fim do inverno e muito sol no decorrer da primavera. Assim ela já chamou o verão para perto e as folhas sentiram a sua seiva trabalhar mais intensa, interpretando a estação do calor antes do tempo. Aliás, o tempo das folhas, dos bichos é o tempo que a própria natureza nos oferece com o sol e a chuva. O andar é forte e ali está o butiazeiro, primo do buriti. Um butiazeiro existe o ano todo, cresceu desde pequeno, desde semente e atravessou dias, estações, anos e décadas de chuva, sol, sereno, frio, calor, ventos, noites enluaradas e seres que por ele passaram, amalgamando a vida. Acho que Guimarães Rosa quando viu o buriti, foi absorvido para dentro dele. Nele, sentiu sua morte nas folhas secas do verão tórrido. Quando chove no buriti, suas palavras molham os livros, a nossa literatura, o nosso povo e o povo de outros povos. A fonte de suas palavras é a água das vertentes dos altos, chapadas, da profundidade da alma dos caboclos e sertanejas, de pessoas que foram capturadas pelo verde solar que reflete e se inebria de vida bebendo a luz do astro rei, sendo a amostragem do calor, do mato, do silvestre, do doce fruto, da esperança d´água. Uma planta assim, diversa em existência e aspectos, impregna o sangue dos habitantes humanos de sua região, de verde clorofila, fazendo dessas pessoas, simbiose da paisagem, dos grilos, da poeira, dos dias e noites, com olhar de crepúsculo e alvorada. Bocas que nada falam, olhos que guardam a sabedoria da terra.

Marcos Almeida Pfeifer É jornalista, 39 anos, que quando canta, toca violão e está entre amigos gosta de ser chamado de Caco. Meu coração pulsa com a música e a poesia brasileira de Tom Jobim, Milton Nascimento, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Roque Ferreira, Clementina de Jesus. Tenho 17 anos de rádio em emissoras de Porto Alegre, como a Rádio da Universidade onde atuei como produtor, apresentador e repórter até 2015. Há 5 anos conto histórias e apresento música gaúcha, popular brasileira e sul-americana no programa Falando da Terra na radiosul.net - Sou graduado em jornalismo pela UFRGS (2009) e trabalho também como revisor. Já fui professor voluntário de Geografia em Pré-Vestibular Popular de Porto Alegre. Acredito na arte e na música como transformadoras do ser humano.


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O PASSAGEIRO – Lotado de novo... João se levantou do ponto e subiu os degraus do ônibus. Equilibrando-se no veículo em movimento, pegou o cartão que estava na carteira e passou na máquina. Ao erguer a vista, cruzou olhares com os que estavam amontoados do outro lado da catraca. Escondendo bolsas e celulares, examinavam-no de cima a baixo. João fez sua passagem à força, abrindo espaço com os ombros por entre o calor dos corpos dos passageiros, que o perscrutavam em silêncio enquanto se roçavam. O cheiro de suor impregnava o ar. No fundo do ônibus, onde, por algum motivo, as pessoas raramente se aglomeram, havia um único assento vago do qual João logo se apoderou. Era perto da janela. Ele fez menção de abri-la, mas entre ele e a janela havia um homem muito alto dormindo. Pelo seu tamanho, seria impossível puxar a folha da janela sem empurrar o homem. Resmungou. Ali no fundo, o cheiro azedo estava mais forte. Camadas de suor dormido, talvez. João procurava se distrair pensando em algo, mas o odor imobilizava seus pensamentos. As casas do bairro que passavam eram a única atração que podiam, vagamente, competir com o cheiro. “Pútrido”. João procurava palavras para descrevê-lo. Conforme os pontos de ônibus iam passando, o cheiro foi se tornando mais pungente, mais incômodo, mais “cadavérico”. Na esquina, o ônibus virou bruscamente, e o corpo massivo do homem pendeu sobre João. – Ei! João o empurrou com força usando o cotovelo, e seus pelos se arrepiaram com o toque. A carne do homem emanava frio em meio ao mormaço do meio dia. Quando João se virou para o vizinho, deparou-se com um rosto pálido. Por entre os cabelos caídos, via–se os olhos semiabertos sem vida e os dentes podres entre os lábios frouxos. – Oi – chamou João. De braços cruzados, o homem não reagia. As mãos em garra pressionavam a pele sem trégua numa aparência marmórea, desmaiada, como se os dedos e os antebraços tivessem sido esculpidos de uma só pedra. Seus pés, cruzados, mantinham um ângulo constante apesar do movimento do veículo. No balançar do ônibus, todo seu corpo movia-se monoliticamente. No rosto de João o suor do calor juntou-se ao suor do medo. O cheiro de putrefação agora ardia em suas narinas ao reconhecer a fonte do odor no rosto chupado, nas mãos esqueléticas e no bucho inchado do passageiro. A inquietude de João já atraía atenção. Quanto mais João tremia, mais os demais o associavam à figura do homem, tentando compreender a ligação entre os dois. Estático, João aguardou o próximo ponto, qualquer fosse ele. As portas se abriram e João pulou em direção à saída, repelindo quem estivesse à frente. Saiu ofegante lutando para manter o equilíbrio sobre as pernas bambas. Respirou fundo e se sentou no ponto. Quando o ônibus chiou e as portas se cerraram batendo-se entre si, João procurou a janela que quisera abrir. Detrás dos cabelos caídos, o homem o encarava com grandes e redondos olhos avermelhados e um riso gengival cheio de dentes podres. Mateus Elias É graduando em engenharia civil, influencer, youtuber, faixa preta de karatê, tocador de viola de cocho e escritor. No canal “Xomano do Saber” fala de literatura e de cultura mato-grossense. Publica seus textos no blog “Memórias do Xomano” e é autor do livro de poesias “Cada Memória Vivida”. É autor de letras de canções em Portugal pela Rausstuna. Nasceu e mora em Cuiabá.


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manga bourbon debaixo da mangueira a sombra me abraça minha voz estridente se comove ao som das asas e dos pássaros rumo ao poente ergue o vara pau pegador de manga segue as linhas hereditárias moradia de cupim na árvore de puro mármore e fruto coração desenhei minhas raízes

haicai cuiabano na boca do povo pequi roído vira ovo


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Matheus Guilherme Antunes, 21 anos É cuiabano, corretor de texto e escreve poesia desde os doze. Fez ensino médio integrado no IFMT Campus Cuiabá - Bela Vista, onde foi bolsista do projeto de extensão Banco de Leitura e pôde realizar diversas apresentações artísticas pelo grupo Ocupação Poética. Atualmente, está no 3° ano de Letras Português e Francês na UFMT, é um dos idealizadores do sarau artístico do Instituto de Linguagens, atual projeto de extensão SarArt – Entre Línguas e Letras, do qual faz parte da Comissão Organizadora. Além disso, teve poemas e haicais publicados na revista Ruído Manifesto e na revista independente Selo Itan na primeira e na segunda edição, como também, selecionado em 3° lugar na categoria poesia no primeiro Concurso Rodivaldo Ribeiro de Literatura com o poema Margens Secas.


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NA CAMA DE ALMODÓVAR V Ata-me à tua carne desejante. Ata-me às oscilações do verbo. E ao tremor do silêncio. Às traduções da palavra “amor”, me afasto das paráfrases porque tal sentimento, na fala ou nos escritos, jamais eclode pleno. Deslizantes no filme, as imagens retêm no instante a paixão em foco. Carmim é o nome do sangue. Carmim é o gosto da romã. Com as cores do apaixonado, visto-me para os matizes do amor. Ata-me! Na cama de Almodóvar minhas sementes gritam ao cio. Em total concordância, ata-me o matador. Sua adaga perfura-me o coração. Sangramos ao jorro do gozo.

Mirian de Carvalho É Doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde lecionou Estética nos Programas de Graduação e Pós-Graduação. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA); da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA); da União Brasileira de Escritores (UBE) - RJ e SP, e do PEN Club. Participou da Comissão Cultural do Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), de 2002 a 2010. Foi 2ª vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), de 2002 a 2005. Nos dias atuais, dedica-se à poesia, à dramaturgia, à crônica e à pesquisa no campo da cultura brasileira. Publicou vários livros e, mais recentemente, ensaios intitulados A carnavalização na arte poética de Oleg Almeida. São Paulo: Livraria da Física, 2021 e, na poesia, A cama virtual. Rio de Janeiro: Synergia, 2021.


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Matéria Plástica

Renato Medeiros É Doutor em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB), jornalista cultural e idealizador do perfil @pigmum.arte, sobre artes visuais, exposições e museus. Em 2021, foi premiado em 1º lugar no Salão Jovem Arte MT, na categoria Pintura.


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As dobras do tempo sobrepostas na pintura de Francien Krieg

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m dos princípios da pintura está na sobreposição de camadas. Muitas composições pictóricas tornam-se visíveis a partir da relação estabelecida entre seus diferentes estratos de cor, que avançam de dentro para fora do suporte artístico. Nesse processo, suas propriedades plásticas vão adquirindo notoriedade. Ou seja, a transformação da matéria vai dotando a imagem de complexidade e, assim, vão se sobrepondo também diferentes camadas possíveis de sentido. Se a pintura pode ser vista desse modo, não será difícil ver como Francien Krieg opera esse princípio em suas composições, principalmente naquelas que retratam o corpo da mulher idosa. Em sua pesquisa artística, Krieg expressa interesse pelos mistérios da transitoriedade do corpo. Inclusive observando e acompanhando continuamente seu próprio amadurecimento como mulher e como artista. Ela declara ter herdado do pai certo fascínio pela morte e que, desde o início de sua carreira, tem se deparado com os inevitáveis caminhos que levam até o fim da vida. Caminhos que o próprio corpo torna visíveis, nas rugas que se multiplicam, dobrando-se e desdobrando-se na pele. Novas texturas constituídas pela sobreposição de camadas ainda carregadas de vida e cheias de memórias. A artista retrata, sobretudo, camadas do tempo, que marcam o seu corpo e os corpos de outras mulheres. Por isso, talvez seja possível afirmar que as formas nas pinturas de Krieg aparecem por meio dessas dobras de cor e de tempo, no campo da materialidade e da subjetividade, respectivamente. São elas que configuram texturas apuradas, em arranjos intrincados que ultrapassam a representação da pele e alcançam também o plano de fundo de grande parte das composições. São elas que criam a sinuosidade das linhas e oferecem a impressão de ondulação do tempo, de vibração por meio dos vincos da vida. Ainda no campo das subjetividades, há também a possibilidade de se pensar essas texturas visuais que vibram diante dos olhos como sobreposição das inúmeras vidas vividas em um mesmo corpo. Os infortúnios e as alegrias de ser humano, de ser sujeito. No caso, um sujeito-corpo de mulher. E assim pode-se acrescentar ainda uma camada sociocultural para pensar as inúmeras condições pelas quais esses corpos-mulheres podem ser sujeitados ao longo de uma vida. Entre elas, a objetificação sexual, a violência física e psicológica contra à mulher, o controle patriarcal sobre a vida doméstica e reprodutiva, além do ageísmo, que discrimina e invalida corpos envelhecidos. Toda essa carga pesa, também desdobrando-se em camadas sobre esses corpos, cuja complexidade Francien Krieg talvez busque expressar a partir de uma nudez que se afasta de modelos canônicos verificados na arte da pintura de outros tempos. Esses são os desnudamentos que eu gostaria de destacar na obra de Krieg: o desnudamento da pintura pelo princípio da sobreposição de camadas de cor, mesmo quando esse princípio parece estar velado pelo flerte com o hiper-realismo e sua exuberância desconcertante; e o desnudamento do corpo maduro, afastado da idealização clássica da beleza e que encara de frente a vibração luminosa de suas dobras, rugas e camadas de tempo.


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Francien Krieg Guest artist

BIOGRAphy

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rancien Krieg was born in the Netherlands, she followed monumental design on art academy The hague. Her work is in the Tullman collection Chicago, ING collection Amsterdam, Formal Scheringa collection, mohlman museum collection, van Lien collection and many private collections. Her work was exhibited at the MEAM museum Barcelona, Wausau museum the US , Scheringa museum NL, and Mohlmann museum NL, also she was working with gallery Mokum, gallery Beinart Brunswick Australie, Abend gallery, Zhou B art center Chicago and Robert Lange Studios. This summer she will be an artist in residence in Canada New foundland at Pouch cove and she recently published her first art book about the series of the aging female body which she painted for 10 years. www.francienkrieg.com. francienkrieg@gmail.com.


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EDUCATION 1999-2003: Free academy The Hague painting; 1993-1998: Royal Academy of The Hague direction Monumental design Artist in Residence 2019 : Pouch cove foundation Canada New foundland Memberships: International guild of realisme; Portrait society of America; Poets and artists PRIZES AND NOMINATION 2021: finalist MoD portrait; 2021: second prize painting of the year; 2020 : Boldbrush award winner December; 2019: nominated by the public “artist of the year”; 2019: pre selection Figurativas MEAM; 2019: competition.net honourable mention; 2018: TRAC exhibition Leeuwarden; 2017: nominated for Figurativas MEAM Barcelona; 2017: nominated for de Portrait Price NL; 2010: Talensprijs Pulchri second price; 2006: Talensprijs Pulchri third price COLLECTIONS ING Collection, former Scheringa Collection, Van Lien Collection, Tullman Collection Chicago, tiny museum Reflex Modern Galery Amsterdam , collection museum Mohlmann and private collections in- and outside The Netherlands FAIRS 2017: Art Breda, with Galerie Lauswolt; 2015: Realism Fair Amsterdam, with Galerie Lauswolt; 2012: Realism Fair Amsterdam, with Galerie Mokum; 2011: Lineart Art Fair Gent, with Galerie Pinsart; 2009: Scope Basel, with Willem Kerseboom Gallery; 2009: Art Amsterdam, with Galerie Mokum MUSEUM EXHIBITIONS 2021: international womensday MEAM Barcelona; 2020 Wausau museum USA: Painting the figure now; 2019: MEAM Painting today groupexhibition; 2019: Groupexhibition Mohlmann museum; 2018: Wausau Museum of Contemporary Art, Wausau, US, Painting the figure NOW; 2018: Museum Møhlmann, Appingedam, The feminine touch; 2015: Museum De Koperen Knop, Hardinxveld Giesendam, Aging men; 2014: Museum van Lien, Fijnaart, Surprising visit, with Hester Schroor and Thea Figee; 2012: Gemeentemuseum, Den Haag, Public/private; 2012: Gemeentemuseum, Den Haag, XXS; 2011: Museum van Lien, Fijnaart, From K to Z works from the museum’s collection; 2009: Scheringa Museum, Opmeer, permanent exhibition museum’s own collection. SOLO AND DUO EXHIBITIONS 2022: solo exhibition Anart San Antonio USA; 2017: Gallery Beinart, Brunswick, Australia, met Effie Pryer en Ville Loponen; 2011: Galerie Pinsart, Brugge, Above the couch, with Eline Peek; 2011: Galerie Mokum, Amsterdam, solo; 2009: Galerie Pinsart, Brugge, solo; 2008: Pulchri, Den Haag, Beautiful person, solo; 2004: Galeria, Entropia Wroclaw, Polen, solo.


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GROUP EXHIBITIONS ABROAD 2020: James baird gallery : Women exhibition; 2020: Abend gallery miniature show; 2020: Gallery Stone Sparrow NYC group expo: Sinner or sain; 2020: Contemporary narratives Stone Sparrow NY; 2020: Abend gallery Small works exhibition; 2020: Ardent olders 33 contemporary gallery Chicago; 2020: Ambivalence 33 contemporary gallery Chicago; 2020: Shelter 33 contemporary Chicago; 2020: gallery Stone sparrow NYC Manhattan group expo : Unseen; 2017: Gallery Abend, Denver, US, Sight unseen; 2016: Mas de les Gralles, Barcelona, Spain; 2016: Zhou B Art Center, Chicago, VS, Freak out show; 2013: Galerie van Campen & Rochtus Antwerp, Belgium, Begeerte, curator Natasja Bennink; 2013: Townsend Atelier, Chattanoga, US, Women painting women [r]evolution; 2013: Zhou B Art Center, Chicago, US, From motion to stillness; 2010: Robert Lange Studios, Charleston, US INITIATOR / ORGANIZATION EXHIBITIONS 2017: Pulchri, Den Haag, Refigure, group exhibition with Hanneke Naterop, Danielle Luinge, Jantien de Boer, Dorien Plaat, Milan Schmidt, Francien Krieg and Pedro Quesada; 2010: Bergkerk Deventer, Broos, group exhibition with Lotta Blokker, Eline Peek, Lita Cabelut, Hester Schroor and Dorien Plaat. EXPOSICIONES INDIVIDUALES RECIENTES; Une exposition de Gerardo Feldstein, APPART Paris, Francia 2019, Equilibrios, Galería Alfredo Ginoccio, México. Nos Otros, Museo Casa Carnacini, Prov. Bs. As. en 2016. Feldstein, Artista Invitado para la celebración del X° aniversario del Museo de Arte Contemporáneo Raúl, Lozza, Alberti, Prov. de Bs. As. en 2013. Y No Esencia Perdida, Galería Holz, Bs. As. en 2012. Drähte Ausstellung, La Galería, LÜchow, Alemania. In Estabilidades, Dácil Art Gallery, Bs. As. en 2011. Somos, Mundo Nuevo Art Gallery, Bs. As. en 2010. SELECCIÓN DE MUESTRAS COLECTIVAS ÚLTIMOS AÑOS; » 2019 Art FaireTokyo, DKarte Gallery. Art París , Asociattion Art Culture Sulpture. Huntenkust, Ulft, Holanda , Gerardo Feldstein. » 2018 Art Expo Malaysia, DC Gallery, Malaysia. Barcú, DC Gallery, Colombia. ArtChico DC Gallery, Colombia. Faca, Galería Imaginario, Hipódromo Argentino, Bs. As. Salón Manuel Belgrano, Dibujo y Escultura, Mueso E. Sívori, Bs. As. Heterodoxa, Museo de la Cárcova, Bs. As » 2017, Hunten Kunst Art Fair, Ulft, Holland. Beyond Time and Space, Gwangju National Muesum, South Korea. Zu-recht gebogen, Land Man 3, KÖlon, Germany. Stroke Art Fair, Munich, Alemania. Art Lima, Galería Alfredo Ginoccio, Perú. Salón Nacional de Artes Visuales, Dibujo y Escultura, Palais de Glace, Bs. As. Salón Manuel Belgrano, Dibujo y Escultura, Mueso E. Sívori, Bs. As. » 2016 Salón Nacional, Escultura, Palaís de Glace. Salón Manuel Belgrano, Dibujo y Escultura, Mueso E . Sívori, Bs. As. » 2015 Art Revolution Taipei, Taiwan. Affordable Art Fire Milan, LZ Fine Art, Milan, Italia. » 2014 4th Edition Houston Fine Art Fair, LZ Fine Art, Houston, EEUU. ART LIMA, LZ Fine Art, Lima, Perú. 2013, KIAF -Korean Art Fair, Mundo Nuevo Art Gallery , Korea del Sur. » 2014 Tercera Muestra y Subasta de Arte Contemporáneo, Amia. 2012, Multikulturelle Ausstellung, La Galería, Lúchow, Alemania. KIAF -Korean Art Fair, Mundo Nuevo Art Gallery , Korea del Sur. » 2014 Arteaméricas, LZ Fine Art, Miami, EEUU. 2011, Arte Ba Galería Holz, Bs. As.


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Elizah Leigh Eco-cheerleader, wordsmith, art swoonstress/dabbler, lover of all creative pursuits. Children’s book author/illustrato.

Francien Krieg: The Unvarnished Landscape of Life

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o we ever show our true selves to the world? In the early stages of Francien Krieg’s painting career, she pondered how human beings tend to be a masked species. The act of concealment is deeply engrained within every one of us. In many cases, it is as natural to us as breathing. Culturally, of course, there are variations. Some are taught that bodies should be shrouded and feelings stuffed down. On a global scale, however, bare faces and naturally pigmented tresses are inevitably deemed unappealing. We learn that we must enhance our features with cosmetics and hair dye – among many other elaborate interventions – in order to fulfill society’s standards of presentability. Contemplating this globally accepted form of brainwashing, one thing became abundantly clear to Francien Krieg. The vast majority of us have bought into the highly romanticized or otherwise glorified version of the human body. Our society does not want to see artfully depicted figures that stray from that idealized archetype. It goes beyond painterly aesthetics, however. People don’t even want to look in a mirror and see the harsh reality of their own chronological age staring back at them. We go to great lengths to project a physical image of ourselves that sweeps truth under the rug. How very intriguing, the Dutch painter thought. What if I were to really tell it like it is? Francien Krieg’s subject matter has nothing to do with shock value, titillation, or lack of imagination. It is deeply entrenched in the truth zone. The whether we like it or not zone. She doesn’t just paint emotionally saturated self-portraits that zing with compositionally unique angles. Francien Krieg renders unvarnished flesh that is as reflective of the rollercoaster ride of life as it is of the ravages of time. Her muses offer the beholder an aging process reality check that is both stirring and uncomfortably prophetic. As it turns out, “they” are “we”… eventually. Let’s see what Francien has to say on the matter. I’m not sure if being my own muse elevates my paintings. However, in a way, making my portraits so personal for the viewer ends up making my whole body of work more interesting.


62 ANYONE WHO TAKES A MOMENT TO READ YOUR ARTIST STATEMENT WILL FIRST BE GREETED WITH YOUR PHOTOGRAPH. THEY WILL IMMEDIATELY RECOGNIZE THAT YOU ARE AN ATTRACTIVE WOMAN. IT IS ONLY UPON DIGESTING YOUR WORDS THAT THE READER WILL REALIZE THAT – LIKE SO MANY OTHER LOVELY LADIES AROUND THE WORLD – YOU, TOO, WRESTLE WITH THE UNPLEASANT REALITIES OF GETTING OLDER. INSTEAD OF LAMENTING THE PHYSICAL CHANGES THAT ACCOMPANY EACH PASSING YEAR, HOWEVER, YOU SEEM TO BE CREATIVELY RETALIATING. DOES YOUR ART GIVE AGING THE MIDDLE FINGER? » Extending a middle finger would deny the aging process. I try to artistically demonstrate the reality of aging through a lens of compassion and curiosity. It is a long journey throughout the aging process. It ultimately concludes with death. Everyone wants to become old, but they don’t want to BE old. My paintings acknowledge that aging is a part of life. My work also confronts that truth by documenting it. YOUR PORTFOLIO SEEMS TO PUSH AND PULL IN TWO DIFFERENT DIRECTIONS. THE FIGURATIVE ART IN WHICH YOU CAPTURE FAMILY AND SENIOR MUSES CONVEYS WARMTH, INTIMACY AND GREAT REVERENCE. ON THE OTHER HAND, YOUR PERSONAL SELF-PORTRAITURE TENDS TO BE RAW, UNCOMFORTABLE AT TIMES, AND OCCASIONALLY CONFRONTATIONAL. IS THAT A FAIR ASSESSMENT? » The aging ladies and family portraits that I work on require a delicate and sensitive approach. Conversely, I feel completely free to paint myself in a more direct and raw way. I see my body purely as a tool to paint how I like. My initial feeling about the human body has never disappeared in my work – it is a bizarre object. I feel close to my body. On the other hand, I know nothing about what is going on inside, and that makes it a mysterious object. When I

REVISTA PIXÉ paint myself in strange angles, I am focusing on the honest curiosity that I have regarding this bizarre thing called the human body. YOUR SELF-PORTRAITS SEEM TO OOZE REBELLION. IS BEING CALLED A FIGURATIVE ART PUNK ROCKER A COMPLIMENT OR AN INSULT? » I think art should rub in the wrong way, or at least touch the viewer’s emotions in some way – positive or negative. If my work accomplishes that, then yes, it is a compliment to be called a figurative art punk rocker. Lately, I’ve been drawn to far bolder color palettes as a celebration of life. I am using color as a way to emphasize the fact that I feel like a strong woman. SOME FEEL THAT THE JOB OF AN ARTIST IS TO EXPOSE THEIR TRUE, AUTHENTIC AND UNVARNISHED SELF TO THE BEHOLDER. THIS PARTICULAR CREATIVE PHILOSOPHY REALLY SEEMS TO RESONATE WITH YOU. DO YOU USE CANVASES IN THE WAY THAT SOME PEOPLE USE PERSONAL JOURNALS? » As a person, I am an open book. I am not easily ashamed or embarrassed. In my work, the directness that I have as a person is apparent. But, my self-portraits are meant to be universal images that people can relate to. I create images about certain emotions that I experience as a human being. Since I’m feeling those things, I have a hunch that others feel similarly. I don’t think I am unique as a person. I just try to make a connection to other people’s emotions with my paintings. I approach conversations the same way. I open up to people about my feelings, and then they feel free to open up to me as well. That is the beauty of openness, I think. The nude figure has long been your main artistic focus. Some of your poses are especially imaginative, and at times even a wee bit provocative. And yet, it doesn’t seem like you’re purposefully trying to titillate the beholder. It is certainly not my intention to shock the viewer, since I don’t think there is anything shocking to see. The nude human body, painted for decades by many great masters,


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always seems to be rendered in the same glorifying manner. I want to show the beauty of a realistic body without being cliché. It is also how I think about life and many situations that occur. I always try to see things from a different angle before I judge someone. So, my poses are quite literally about seeing things in a fresh new way. When I paint myself in strange angles, I am focusing on the honest curiosity that I have regarding this bizarre thing called the human body.

these boundaries are. I never really studied painting. I went to art school, but I studied monumental art. After that, I started painting and just began experimenting. I cannot say that I am consciously trying to create a unique visual experiment. As a painter, the process of creating is mostly based on instinct or feelings. I just keep moving forward, trying new things and reacting to that. That is what creating means to me.

DO YOU BELIEVE THAT YOUR PAINTING NICHE IS “BALLSY”? » For me, my paintings are not ballsy because I don’t have an issue with nudity. The human body is the purest and natural thing that there is. When we are without clothes, we are without masks. We cannot hide behind anything that makes us look richer, wiser, more interesting or cooler. We are all the same.

CONVEYING YOUR PERSONAL TRUTH AS A WOMAN SEEMS INTEGRAL TO YOUR BODY OF WORK. OF ALL THE STORYTELLING DEVICES THAT YOU COULD USE AS AN ARTIST, WHY HAS SELF-PORTRAITURE RESONATED SO STRONGLY WITH YOU? » It is convenient. I am the most flexible model I could possibly find and I am always available. Since art is always very personal, I am able to express my feelings in my self-portraits. Due to the pandemic, working with older ladies was no longer an option. That is why I began creating many more self-portraits. Additionally, I started making smaller portraits of myself since my children were at home and I had a lot less time available. That forced me to work fast and complete a painting every day. This became a sort of a journal of how I experienced the COVID-19 situation. I experienced various emotional states throughout the pandemic which I think many people can easily relate to.

WHEN DID YOU JUST KNOW THAT BECOMING A PAINTER OF UNCONVENTIONALLY PORTRAYED NUDES WOULD BE YOUR ARTISTIC SIGNATURE? » Earlier in my career, I began receiving recognition for my portraits of older nude ladies. That seemed to become my brand. I’m not fond of being branded, of course. I prefer working on different series because that reflects the many sides I have as a human being. Things are not one-dimensional. People shouldn’t expect an artist to be content working in just one style. THERE IS AN AESTHETIC QUALITY TO YOUR ART THAT MAKES IT SEEM REALLY INTERESTING RATHER THAN VULGAR. SOMETIMES, SHAPES AND LINES SEEM FAR MORE NOTICEABLE IN YOUR WORK THAN NIPPLES AND OTHER LADY BITS. ARE YOU STEPPING OUTSIDE OF THE CONVENTIONAL FIGURATIVE ART BOUNDARIES FOR THE EXPRESS PURPOSE OF CREATING A UNIQUE VISUAL EXPERIENCE? » To be honest, I don’t think I really know what

IS THERE EVER A POINT IN SELFPORTRAITURE WHEN THE VULNERABILITY THAT YOU CHOOSE TO DISPLAY STOPS FEELING CATHARTIC? » I imagine that people will continue relating to my portraits as long as they find it hard to show their fragile and sensitive sides. On the other hand, who says that I will continue painting these kinds of nudes? Maybe I will go in a complete different direction one day. Since the world is changing around me, I hope that my art will also keep evolving.


64 WHEN YOU GAZE AT A SELF-PORTRAIT THAT YOU CREATED EVEN ONE YEAR AGO, WHAT IS THAT EXPERIENCE LIKE? DO YOU FEEL “BRAVE” OR “BOLD” FOR DOCUMENTING YOUR BODY AND SPIRIT ON CANVAS? » No, not really. I look at them in a different way. It is more about technique, how I handled the paint and all. Sorry. Not the most inspiring thoughts, right? OCCASIONALLY, THE REFLECTION STARING BACK AT US IN THE MIRROR IS NOT ONE THAT OUR BRAIN AGREES WITH. PERHAPS WE THINK THAT WE LOOK MUCH BETTER, POSSIBLY A LITTLE WORSE, OR SOMEWHERE IN BETWEEN. IS GAZING AT YOUR SELFPORTRAITURE BENEFICIAL OR DETRIMENTAL TO YOUR EMOTIONAL HEALTH? » A painting is not reality, so I feel detached in a way. Things always look softer and more beautiful in a painting, though. The hard reality is the image I see in the mirror where my skin starts to hang. I don’t see the same beauty as I once did 20 years ago. Of course, I am also only human. I am not adverse to painting myself in the most flattering angle or perspective. My more confrontational paintings (from low angles where you look up my crotch) are not really me. Recently, someone asked to see the reference photos for that array of paintings. They were curious about how much resemblance there is to my painted works of art. Of course, I refused. Those photos are very private – I have my borders. OUR GLOBAL CULTURE IS MOVING TOWARD THE MINDSET THAT WE SHOULD ACTUALLY LOVE THE SKIN THAT WE’RE IN. HAS YOUR SELF-PORTRAITURE ENABLED YOU TO STOP BEING AS CRITICAL OF YOUR SELF-PERCEIVED FLAWS? » When I finish one of my paintings, I don’t really see myself on the canvas anymore. It is more the process of deciding my composition, palette, and then actually creating my work of art. When one of my paintings is done, it is done. I don’t think I see my body as having many flaws. I appreciate my body and I feel lucky for having a healthy one. Any physical flaws are very unimportant in life, I think.

REVISTA PIXÉ Things always look softer and more beautiful in a painting, though. The hard reality is the image I see in the mirror where my skin starts to hang. YOU’VE EMBLAZONED A VERY EXPOSED VERSION OF YOURSELF UPON CANVAS MANY TIMES. REMARKABLY, YOU NEVER SEEM TO RUN OUT OF NEW WAYS TO DOCUMENT THE SAME BODY. HOW DO THOSE ENDLESSLY UNUSUAL POSES OCCUR TO YOU? » They occur to me because I continue moving forward in my artistic practice. Rather than thinking too much or waiting for inspiration, I am a person who keeps doing. I start in the morning and work hard. Most ideas come to me while I’m lying in bed at night. I feel as though nighttime is such a waste of my time – it is my least favorite part of the day! DOES BEING YOUR OWN MUSE ELEVATE THE QUALITY OF YOUR PAINTINGS? » I’m not sure if being my own muse elevates my paintings. However, in a way, making my portraits so personal for the viewer ends up making my whole body of work more interesting. The beholder is able to learn a lot about me as a person through the lens of my self-portraiture. IF YOU UTILIZED ART MODELS RATHER THAN YOURSELF, WOULD YOU STILL FEEL COMFORTABLE CREATING BOLDER COMPOSITIONS? WOULD HIRING MUSES RESULT IN ART THAT MERELY JUST WHISPERS? CONVERSELY, DOES TAKING ON THE ROLE OF ONE’S OWN MUSE YIELD ART THAT SCREAMS? » For over 15 years, I’ve worked with models and still do. Occasionally, I’ve painted older and obese models in strange, unusual angles that could be considered compositionally bold. For me, however, I don’t associate more bizarre angles as resulting in far bolder compositions. There are many ways to be bold that can be also done in a whisper. I always try to see things from a different angle before I judge someone. So, my poses are quite literally about seeing things in a fresh new way.


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66 GUSTAVE COURBET’S SCANDALOUS L’ORIGINE DU MONDE MADE THE MASSES GASP 155 YEARS AGO. THAT PAINTING EVEN PROMPTED FACEBOOK TO BAN SOMEONE’S ACCOUNT IN 2011. WHAT ARE YOUR THOUGHTS ON THIS? » During Courbet’s era, the image of the vulva was seen as shocking. In the current period of time that we live in, nudity is readily accessible on the internet and even in old-fashioned Playboy magazines. Comparatively, my work can hardly be seen as shocking. I make images of bodies that are not perfect, but I want them to be seen as strong and powerful. On the other hand, I would not say that we live in a more open-minded era at all. My artwork has been removed countless times from social media as well as from exhibitions. There has always been lots of discussion around my work, which has always surprised me. But, since I’ve noticed that my portraits tend to touch a delicate nerve with my audience, that has motivated me to continue moving forward. Art should touch, distress, and even confuse people. I’m on the right track with my work because I have paid attention to people’s reactions. I believe that my portraits have touched a nerve in many people. Some of the images I’ve painted stir feelings within the beholder about their own aging process and fear of death. Art always reflects back on the viewer’s own fear, love, and emotions. We are all different people and we all react quite differently to art. Everyone wants to become old, but they don’t want to BE old. My paintings acknowledge that aging is a part of life. AS DESENSITIZED AS OUR GLOBAL CULTURE HAS BECOME TO CERTAIN IMAGERY, U.S.-BASED SOCIAL NETWORKS ARE INCREDIBLY PRUDISH REGARDING ARTFULLY RENDERED NUDES. HAS YOUR WORK EVER BEEN TARGETED BY THE SOCIAL NETWORK NIPPLE/GENITAL POLICE? » My art has been targeted many, many, many times. I stopped getting upset about it, to be honest. If that is their way of thinking, it is sad. In a way,

REVISTA PIXÉ children grow up thinking that there is something wrong with a nude body. Interestingly, my family portraits – in which parents hold their naked children – touch a nerve for many people. In my perspective, that is just so bizarre. Love is the most powerful thing in the world. Why would they want to create something dirty out of my depiction of that familial bond? It is a pity that people get so uptight about this. My son likes to play in the garden in the nude. Even that prompted others to comment in a negative manner, which is hard to believe. That only makes my commitment to this series of portraits I’ve been working on even stronger. Nothing is wrong with nudity. Furthermore, being nude is not the same as having sex. [Not that there is anything wrong with sex, of course.] PEOPLE REPORT THE SOCIAL MEDIA ACCOUNTS OF OTHERS, EVEN IF THEIR COMPLAINTS AREN’T WARRANTED. HOW ARE YOU ABLE TO PURSUE ADVENTUROUS FIGURATIVE PAINTING WHEN TODAY’S ONLINE CULTURE IS FILLED WITH ENDLESSLY OFFENDED ‘CRITICS’? DOESN’T IT TAKE A LOT OF EXTRA ENERGY TO PROTECT YOUR ACCOUNTS? » I refuse to use a flag or cover anything up in my paintings just to please the social media police. Lately, the censorship hasn’t been so bad. I regularly post nude paintings and no longer get kicked off of social media, so for the moment, it isn’t a real issue. ARE YOU ARE VERY FAST PAINTER? HOW DO YOU MANAGE TO BE SO CREATIVELY PRODUCTIVE EVEN THOUGH YOU ARE A MOTHER TO TWO YOUNG CHILDREN? » I will admit, I am a workaholic. But truthfully, I paint fast because I have 20 years of experience and I just love to paint. What also helps is that I have a husband who really respects what I do and gives me all the space I need to pursue my work. Of course, I give my children and husband a lot of attention. Without them, I would not be able to work at all. I am happy with my life and I really just have lot of positive energy to make the most of every day!


REVISTA PIXÉ THE DUTCH HAVE A FAR MORE RELAXED AND HEALTHY ATTITUDE TOWARD NUDITY THAN OTHER CULTURES. IS IT ACCEPTABLE FOR YOUR CHILDREN TO SEE YOUR SELF-PORTRAITS OR YOUR ELDERLY FIGURATIVE NUDES? » My children spend time in my home studio on a regular basis. They’ve seen my nude body many times in my self-portraits. It’s not strange. The reaction that my children have to my older nude ladies is the same. They’ve grown up with these images. I hope it teaches them that this is what real bodies look like. Interestingly, my children’s friends react quite differently to my paintings. The front door of my house is connected to my art studio. Whenever a friend comes over to play, they look directly inside my workspace. Sometimes I forget that not all children grow up in such a free way as my own children do. I think that in my village, people probably look at me as a bit of a strange woman, but I am ok with that. AS TIME HAS PASSED, YOUR SELFPORTRAITURE HAS EVOLVED TO BECOME FAR MORE SELF-ASSURED, MATTER-OF-FACT, AND EVEN ASSERTIVE. HAVE ANY OF THE FOLLOWING POINTS FACTORED INTO THIS? » You’ve reached the age where you no longer give a #*@!. You are more comfortable opening yourself up emotionally. Artistically, you are portraying a specific role. I think it is because I am now a much happier person than I ever was before. I worry less about the opinions of others. Consequently, I feel far more comfortable expressing myself in whatever way I desire. Also, for a long time, I made paintings with very soft muted colors. Lately, I’ve been drawn to far bolder color palettes as a celebration of life. I am using color as a way to emphasize the fact that I feel like a strong woman. WHEN PEOPLE CALL YOU “BRAVE” FOR DOCUMENTING THE TRANSIENCE OF YOUR HUMAN CONDITION, IS THAT COMPLEMENTARY OR ANNOYING? » It says more about the person who uses the word brave for my work. My models can perhaps

67 be regarded as brave, but I don’t think that my paintings reflect my own bravery. HAS YOUR SELF-PORTRAITURE HELPED YOU TO CULTIVATE A HEALTHIER EMOTIONAL OUTLOOK ON YOUR OWN MORTALITY? » I think my series “Precious Bodies” helped me more with that process. Those self-portraits are more about the here and now. Now that I am 47, I feel that my self-portraits will continue to be far more focused on aging. I can no longer pretend to be a young chick in my paintings anymore. DOES THE FACT THAT YOU HAVE MADE A NAME FOR YOURSELF AS A STRONG PORTRAITIST EVER FEEL CREATIVELY LIMITING? » I feel free to paint what I want, but that is only because I have been working as a professional artist for more than 20 years now. I made a little bit of a name for myself with portraits featuring older women. Before that, I felt like it was necessary to make a consistent body of work to be branded as an artist. Now, I feel free to work on different series. When I focused solely on creating paintings featuring older nudes, people questioned why I wasn’t producing work that would sell more easily. Somehow, I had such a strong urge to keep painting those women that I never listened to anyone who questioned my direction. I knew that those paintings simply had to be made. Eventually, I do believe that even if you paint different subject matter, you can always find the red line in your work. It comes from within. Somehow, there is always a connection. IS THERE ANY OTHER TYPE OF ART THAT YOU WOULD SECRETLY LOVE TO DABBLE IN BUT CAN’T BECAUSE YOU ARE ‘TYPECAST’ AS A FIGURATIVE PAINTER? » I would love to experiment if I could find more time in the day. I accepted an invitation to attend Pouch Cove Foundation’s residency program for one month. It was wonderful to have 4 whole weeks to really focus on my work. I would love to do that more often!


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WHY HAVE YOU DECIDED TO BECOME AN ARTIST? WAS THERE A DEFINING MOMENT IN YOUR LIFE WHEN YOU KNEW YOU WERE AN ARTIST? » I don’t think you really can decide on one moment to be an artist, for me it was more that I discovered that creating art gave me great satisfaction and that it became more and more important to me. The dialogue whit the audience is something that is essential with art for me, and as long as I feel I can communicate with my art with people I will continue.

HOW HAS YOUR WORK CHANGED OVER TIME? HAS YOUR SKILL OR IDEOLOGY CHANGED? » My work has changed technically recently I think , when I discovered more a la prima painting instead of the multiple layers. It is much more energizing to work like that, I like the freshness of my latest works and the process is less frustrating for me and more enjoyable. I use much more colour instead of the more pale skin-colors I was using many years. The subject matter has not changed that much I think, the red line stays for me the transience of the human body

WHAT ARE YOUR IDEAL CONDITIONS FOR WORKING ON YOUR ART? » To have the whole day ahead, no other chores to do but only be able to focus on painting and to start a new work which I am really excited about!

WHAT TYPE OF ART DO YOU MOST IDENTIFY WITH (REALISM, EXPRESSIONISM, SURREALISM, ETC - IT DOESN’T HAVE TO BE CONFINED TO THE STYLE YOU WORK IN)? » I think contemporary realisme is the term my work fits in the most. I appreciate so many different artists and I learn from all of them, but to name a few: karen woolley Offutt , Jules Kraijer , Jenny Saville, Jan van der Kooi, Rein Pol, Hanneke Naterop and many more. What’s your clearest memory from your childhood? The summer holidays were we always went for 4 to 5 weeks sailing with the boat to all kind of small adventurous little islands were I could play I complete freedom.

WHAT’S YOUR BACKGROUND? DO YOU HAVE A FORMAL ART EDUCATION OR ARE YOU SELF-TAUGHT? » I went to art academy and followed and graduated in monumental art but after that I only wanted to paint and I am in my technique self-taught. But I do follow masterclasses and online tutorials now and then to keep it fresh. WHAT’S THE MOST IMPORTANT OR MOST MEMORABLE ADVICE YOU’VE BEEN GIVEN ABOUT EITHER YOUR CREATION TECHNIQUES OR IN MARKETING YOURSELF? » I could not name 1 advice , I believe more in finding your own voice also through getting bad advice or tips from people, to feel within that that is not for me. But a very good Dutch painter Jan van der Kooi once said to me: hide yourself from the outside world , work in silence on a new series and then make an impressive entrance again in the artworld . sometimes the social media is time consuming and getting to important.. I am still thinking about following his advice and go off the radar for some time..

WHAT THEMES DO YOU FIND MOST INTERESTING? » If art can make you feel vulnerable . Art that can make a connection to people and have them think about clichés in a different way. WHO IS YOUR FAVOURITE ARTIST? » To many to name and that can change every day , but I really like Colleen Barry at the moment. WHAT JOBS HAVE YOU DONE OTHER THAN BEING AN ARTIST? » Working for a phone company at the customers service , dishwasher, housekeeper , working in a clothing shop , frame shop, working at a gallery , working in a vegetarian restaurant etc,


REVISTA PIXÉ WHAT MEMORABLE RESPONSES HAVE YOU HAD TO YOUR WORK? » From extreme happiness to extreme anger, were someone was so upset to look at a portrait of mine hanging in the window of a gallery that she became very angry and it was even in the newspaper. Some very touching positive reactions to my paintings with the woman with the amputated breast. WHERE DO YOU FIND INSPIRATION? » Mostly I get inspired by a beautiful older woman, at the moment being in quarantine I only paint myself. I get inspired by this period of time were everything is different and we have to start looking for new ways to continue life. This is a big inspiration for me to have this fresh look on life. WHAT DO YOU THINK ARE YOUR STRONGEST ABILITIES CONTRIBUTING TO THE SUCCESS OF YOUR WORK? » I am a hard worker, I am not scared to make a complete fool of myself and for me there is great beauty in being vulnerable . What do you dislike most about the art world? Some artists feel quickly threatened by another artist, I believe in making connections with other artists can make us stronger. WHAT ROLE DO YOU THINK THE ARTIST HAS IN TODAY’S SOCIETY? » A very important role were we can look at situation from a complete different perspective and be critical to society or show beauty of things which should be appreciated more. SHOULD ART BE PUBLICLY FUNDED? » Yes WHAT RESEARCH DO YOU DO WHEN BEGINNING A NEW PIECE? » I mostly just start directly on the canvas . sometimes I make little colour studies or sketches.

69 The research lies more In getting to know the model and trying to catch that in a painting. Or with my self portraits to search what it is I want to tell the people with the painting. IF YOU COULD HAVE A SUPERPOWER, WHAT WOULD YOU HAVE AND WHY? » Well.. I would safe the world of course and have world peace forever! But on a more selfish level I would like to be able to paint better, there is always room for improvement and that is why painting is so interesting, you never stop learning. Name something you love / don’t love, and why. I love people who have a positive attitude , they give energy instead of sucking it out of you and I don’t like people who are always negative about everything, complain but don’t do anything about it.. WHAT IS YOUR DREAM PROJECT? » Finishing my dream studio of 100 m2 which is attached to the house and is my future studio and space to teach, now due to corona we decided to postpone the renovation.. NAME THREE ARTISTS YOU’D LIKE TO STUDY WITH, FROM THE PAST OR PRESENT AND WHY. » I think there are so many artists I could learn from, and from all of them I could learn something different,, I could not name 3 specifically, but if I have to: Will st John, to learn to be more patient with a work , Sam Drukker to learn more about thinking about ever brushstroke and Adreinne Stein I want to learn about her use of colors which I think are amazing. WHAT COULDN’T YOU DO WITHOUT? ART AND MY FAMILY OF COURSE » What do you do when you’re not inspired? If I am not inspired I start working anyway and then I am not making the best painting maybe but most times just by starting to work I will get inspired anyway despite the bad start.


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Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) Nasceu em Cuiabá, em 1958. Está desde 1974 em Brasília. Seu primeiro livrinho, mimeografado, é de 1977, o Iogurte com Farinha, seu “best seller”, pois vendeu cerca de 8.000 exemplares de mão-em-mão. Foi redator publicitário. Participou do movimento ecológico, tendo fundado várias ONGs ambientalistas no DF nos anos 80. Seu livro Laranja Seleta – poesia escolhida – 1977-2007 – lançado pela Língua Geral, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, em 2008. Em 2015 o Instituto de Letras da Universidade de Brasília instituiu o “Prêmio Nicolas Behr de Literatura”. Sua obra tem sido objeto de dissertações de mestrado e documentários. Casado, três filhos, se dedica profissionalmente a um viveiro de plantas. Adora Brasília.

VISÃO DO PARAISO não posso? você olha demais ver é tocar com os olhos


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VANTAGEM aprendi com alcina que casar é parar de sofrer sozinho para sofrer junto

PRA QUÊ POESIA? se no final ela não se entrega se não abre o sorriso se ela se guarda

ANTIMUSA escreva não me mostre nunca publique


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Nirlei Maria Oliveira É poeta e Bibliotecária com mestrado em Ciência da Informação, nasceu em Formiga MG, e reside em Campinas, SP. Trabalha no IFSP, Campus de Hortolândia. Atua com ações e projetos de estímulo à leitura. Autora do livro de poemas Palav(Ar) (2021). Organizadora das coletâneas: Quarentena Poética (2020) e Cotidiano, Poesia, Resistência (2021).


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GATOS RONDAM A RUA sintomas, apenas sintomas de alegria de euforia de alforria assim, amanheço revestida deste sol insistente de quase 10h que entra pelas janelas abertas e se espalha pelo quarto preciso habitar as urgências das manhãs como quem volta da guerra com sede voraz de viver - o hojevestida para: atravessar armada de versos - as ausênciasencher a boca com versos entre os afiados dentes morder palavras inquietas e observar a paisagem morna que entra pelas minhas retinas, ainda sonolentas ainda assim, sigo rituais das manhãs: repetição repetição repetição quem sabe o sagrado permanece queimar velas e incensos para os anjos e para os vivos assim, apenas assim, o dia começa despeço da casa pés na soleira da porta ir sair partir ir gatos rondam a rua cumplicidade e silêncio


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SOPA DE OSSOS ‘’E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça Como uma flor a se entreabrir.’’ (Baudelaire) Meio dia (e meia angústia) O sol castiga os olhos e não aquece o coração Estômagos e bocas vazias se avolumam (desde às 7 horas da manhã) Em uma viela pintada à merda e urina O que antes era uma iguaria para os abutres Se torna a refeição O que antes era uma moradia de larvas e vermes Se torna a ágape Os ossos aquietam os olhos Iludem estômagos e bocas vazias (mas não aquece o coração). 1 litro de água (da rua) 2 colheres de sal (emprestada do vizinho) 3 ramos de cebolinha (do fundo do quintal) 4 vértebras 5 vísceras Coloque um ingrediente por vez (não há legumes ou verduras nesta casa) Misture bem Até não sobrar dúvida sobre o cheiro pútrido. Reúna os 5 membros da família A refeição de cada dia está pronta Diante da esplêndida carniça A fome será sanada por 6 ou 7 horas. É tempo de dormir E o sono não aquieta os olhos Não aquece o coração E não preencha a ausência Das bocas e dos estômagos vazios.

Amanhã A mesma fila, a mesma história (se é que resta alguma dúvida) Pés de frango? Carcaça de porco? Cabeça de peixe? A mesma fome? A mesma Fome. No chão do deserto urbano de ossos Cada ossatura são flores se entreabrindo Flores feitas de fezes, malversação e espera. A fome diária A angústia diária Fundem-se em um mesmo corpo frágil e andrógeno O preço de quem tem fome é a Morte.


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Pablo Rezende É filho de dona Ilda, poeta e professor de Língua Portuguesa, Literatura e Redação da Rede Pública do Estado do Mato Grosso. É graduado em Letras – Português/ Inglês pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e Mestrando em Estudos Literários pela Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT). É autor do livro O dever e o haver, publicado pela Literata, em 2011. Têm poemas publicados em várias antologias poéticas nacionais e internacionais.


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Paulo Sesar Pimentel Natural de Mato Grosso do Sul, mas residente em Mato Grosso há mais de 20 anos. Graduado em Letras, Mestre em Estudos de Linguagem e Doutor em Psicologia, é professor do IFMT Campus Cuiabá – Bela Vista. Publicou as coletâneas de contos “O cão sem penas” (2014), “Diário de Uma Quase” (2010), “Café com Formigas” (2005) e “Ângulo Bi” (2002 - com outros autores mato-grossenses).

AS TECLAS

P

rincipiou a noite e decidi não sair. Talvez este tenha sido meu maior equívoco. A dor é saber que não há saída. Ouço daqui, com a porta trancada, o barulho que fazem para romper este obstáculo e o roupeiro que ainda preservam um resquício de vida suficiente pelo menos para relatar. Estou cercado e meu desespero quase me impede de escrever. Contarei agora o que há pouco começou e torço para que dure toda a noite e enfim eu seja talvez salvo pela empregada. A solidão sempre me foi uma agradável companhia. Eu sempre a cortejo com a televisão ligada e às vezes com o telefone na mão. Pois foi o que fiz. Liguei o aparelho e peguei o fone com o intuito lógico de fazer uma ligação. Ao digitar o número desejado, ouvi claramente os respectivos nomes das teclas apertadas. Bem, meu telefone não dispõe deste recurso e isto muito me espantou. Mas espanto maior


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foi ver as teclas do telefone pularem, uma a uma, de seus respectivos lugares e, com o fio do fone na mão, tentarem me algemar. Sacudi rapidamente os braços e, quando caíram, eu sapateei sobre elas com muita vontade e um imenso assombro. Pisquei muitas vezes para ter certeza de que meus olhos não me iludiam ou minha mente me enganava com um sonho de mau-gosto. Não tive, porém, tempo para me recompor, pois, mal havia sentado, fui obrigado a pular e gemer alto com o apertão que levei das teclas dois e cinco do controle remoto. A aparência destas pequenas diabetes era indescritível. Tentei repetir a dança sobre elas, mas elas, muito ligeiras, haviam se esgueirado pelos cantos do sofá, à exceção da danada número cinco que pagou a dor de minhas nádegas. Corri, então, para o canto da sala e quase perdi os sentidos. Caí sentado com as costas apoiadas na parede quando novamente tive um susto que definitivamente não poderia ser fruto de uma repentina loucura. Do meu piano, pulando, primeiro as brancas, depois as pretas, vieram todas as teclas em minha direção. O pior, entretanto, não era isso, ou melhor, não era só isso. Em suas mãos estavam as cordas do instrumento. Entendi rapidamente qual era o objetivo das perversas. Corri para atravessar a sala e chegar até a cozinha e me armar de uma faca. No caminho, espedacei algumas das pretensiosas assassinas e tonteei outras. Estas, recuperando-se do impacto de meus pés, correram atrás de mim, soltando uma escala de sons que me pareceram impropérios, xingamentos, ameaças ou, quem sabe, gritos de guerra. Claro que meus passos me deram uma grande vantagem, todavia esta não me deu o bom senso de não olhar para trás. Quando isso eu fiz, não pude conter mais um berro de desespero. As teclas do controle remoto saíram dos cantos do sofá e juntarem-se às demais, vindo com toda a pressa possível em minha direção. Neste momento, eu já estava na porta da cozinha, entretanto não pude entrar, pois em minha direção caminhavam todos os botões dos eletrodomésticos. O espanto neste ponto atingiu picos semelhantes ao do Himalaia. Estava cercado por pequenos e grandes quadrados, retângulos, triângulos e círculos homicidas que objetivavam simplesmente chegar até mim. Pois bem, um conseguiu. O asterisco do telefone apertou algo bem afiado contra o dedão do meu pé e foi rapidamente esmagado pela parte ferida. O mal, contudo, estava feito. O sangue reavivou a força das criaturas que agora me cercavam. Pulei e, neste movimento, pisoteei uma dezena de assassinos minúsculos, sendo quase todos pertencentes ao controle remoto. Este ato causou furor em meus perseguidores. Então, eu corri muito e cheguei ao quarto, tranquei a porta, enfiei um tapete bem grosso pela fresta entre o piso e a madeira, coloquei o roupeiro reforçando a obstrução e sentei-me na cama, tentando pensar numa razão, uma explicação ao menos e, claro, numa fuga. Enquanto fazia isso, dei-me conta de que eu vivia, realmente, um sonho kafkiano. Esta descoberta, no entanto, em nada me consolou, afinal, pensei em A Metamorfose e lembrei que, para Kafka, não existe final feliz. Bem, sem nenhuma alternativa plausível, restou-me legar à posteridade meu sofrimento. Sentei-me em meu computador e iniciei este relato, tendo eu agora a certeza de que não terei tempo até que a empregada chegue ou que minha empreitada esteja concluída. Elas estão quase rompendo a porta e o tapete. Acho que não posso fazer mais nada. Até porque agora são as teclas do computador que estão se pressionando espontaneamente. Uma delas já pulou do teclado e acertou minha testa. Acho que meu olho esquerdo foi cegado pelo Esc. Meu dedo mínimo foi mordido pelo enter. Enquanto estas me atacam, sem que eu tenha mais qualquer vontade de resistir, as letras continuam se movendo num ritmo alucinante, cada uma dizendo ou soletrando o signo que representa. Já não posso mais ver. Outra tecla, não sei precisar qual, me cegou o outro olho. Não posso mais escrever. Se amanhã, encontrados um corpo e uma narrativa, houver nos jornais uma divertida e bizarra história escrita pelas teclas de um computador, acreditem cegamente nelas. Eu acreditei, pois, no fim de tudo, só elas mesmas restam e continuam a escrever


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REVISTA PIXÉ Raquel Naveira É escritora, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infanto-juvenis. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (onde exerce atualmente o cargo de vice-presidente) e ao PEN Clube do Brasil.

CUPIM DO BOI É estranho o cupim do boi! Uma corcova, Um toutiço, Um montículo de pregas Sobre o dorso do zebu. Um pássaro pousa sobre o cupim alvo Como duna no deserto, Enquanto o touro Rumina do estômago à boca, Da boca ao rim, As gotas de sol no capim. A corcunda gordurosa Parece uma cabeça no capuz, Um muçulmano que se esconde Sob o couro Que bloqueia a luz. Há movimento de cosmo Nas ondas de pele Desse boi recurvado, Pronto para ser jogado às piranhas Em ritual de sacrifício. Na invernada, A tristeza do boi Me atinge Em punhaladas.


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Rubenio Marcelo É membro efetivo ocupante da Cadeira 35 da Academia Sul-Mato Grossense de Letras, da qual foi secretário-geral e atualmente é diretor cultural. É membro correspondente da Academia Mato-Grossense de Letras. Poeta, escritor e compositor, possui treze livros publicados (3 em coautorias) e três CDs – uma de suas obras mais recentes: o livro Vias do Infinito Ser (poemas) está indicado para o Vestibular 2021 da UFMS.


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DESERTOS Decerto reamanhecerei como quem ensaia uma canção nos desertos... e para a sorte do dia algo a me lembrar que na areia não vicejam bustos [talvez pálidos arbustos] – deles não preciso comigo apenas o prazer do silêncio e o aceno de alguns acordes azuis – uns dez ou vinte... ah, pra que ouvintes que nada entendem de solitude!?...


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Selfie de 2010 (pós-caipirinha) nesse dia reparo que estamos contribuindo eu e você para o florestamento da cidade (“Jóquei”, de Matilde Campilho) ninguém pensa em nada além do saldo bancário no preço do queijo e previdência privada não há tempo no dia a dia para poesia nostalgia e romance há de se pagar as contas e morrer de morte morrida (se deus quiser e ele há de querer) augusto em são paulo não faz ideia de que em cuiabá stéfanie pensa nele depois de todos esses anos ela rabisca da saudade em versos à lápis na margem da apostila do concurso federal ele não sabe nem pode saber vai passar (se deus quiser e ele há de querer)


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Stéfanie Sande É escritora e doutoranda em escrita criativa na PUCRS, autora dos romances “O último verso”e “Virgínia”.


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Thiago Costa É historiador. Faz doutorado em Estética e História da Arte pela USP. Autor de “O Brasil pitoresco de J.B. Debret ou Debret, artista-viajante” (RJ, 2016) e organizador – ao lado de Ariadne Marinho – de “O jardineiro de Napoleão. Alexander von Humboldt e as imagens de um Brasil/América (sécs. XVIII e XIX)” (Curitiba, 2019). Docente do IFMT – campus Fronteira Oeste/Pontes e Lacerda.


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OS ERMOS

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Para Ricardo Guilherme Dicke

ndou cem mil léguas com a enxada em cima do lombo. Sol alto. Ao longe via a umidade quente que subia do chão. Os pés descalços, cascudos, inchados. Feridos de sangue. Tinha ódio. Em seu rastro vinham montes de cólera e de dor. O suor descia pelo rosto marcado pela catapora, embaçando-lhe a visão das coisas, das estradas. A enxada por sobre o lombo desnudo molhado pela transpiração. Sol ardente, o calor emanando dos espaços ao redor. Sentia vontades de morte. Mortes e aniquilação. Um desejo de extermínio maior que o céu e a terra e as profundezas. Fugia do furor das secas da caatinga, mata branca rasteira cheia de ossos, cheia de fome. A aridez que lanceava o sertão e fazia as gentes simples do agreste sofrer. Tanta falta de tudo. Os parentes iam em retirância vagueando pelo estirão até a beira do mar. Grande parte morria. Igual aos bichos. Nas veredas, no seridó, no cariri. Ficava sozinho. Só Maria ao seu lado. Certa vez ele também quis ir-se embora. Juntar mais Maria em outro interior, em campo sem dono onde pudesse tocar cabrito e boi. Criar os meninos e a menina. Filhos seus e de Maria. Ilusão. Poeira. Tempo de antigamente. Esquecido. Perdido. O esquecimento. Também fugia das lembranças. O sofrimento. Lembrou de Maria. As carícias dos castigos divinos de Maria. Cabelos compridos negros como a noite. Como os olhos profanos da coruja. Da cor da pele da onça pantera negra. Da cor negra do corpo que queima debaixo dos sóis imensos do imenso Mato Grosso. Um sorriso doce, um jeito doce, que nem o gosto doce da rapadura. Sua risada era como abundâncias de águas frescas, o colo esparramando gozos, feito correnteza de rios maiores que a fundura dos oceanos. O grande Araguaia infinito. O Teles-Pires, o Guaporé. Uma beleza sem fim. Um mistério insondável. As distâncias cresciam. O céu se expandia. Os horizontes se alargavam. Chamas incandescentes invisíveis. O fogo castigava, devorava. Andou duzentas mil léguas com a enxada em cima do lombo queimado de sol. Ao longe via a umidade quente que subia do chão de terra. O suor corria pelas curvas do corpo fatigado, puído pela vida. Segurava o cabo da enxada com força, com as mãos grossas coalhada de calos. Tinha sede. Engolia a saliva. Boca seca. As chagas nos pés esfolados fluíam borrões de vermelho escuro de sangue. Deixava manchas carmesins no descorado dos caminhos. Quando pequeno atravessava o infinito para buscar água nos terrenos de seu ninguém que diziam tinha dono. A barriga estufada, de tanta pedra e tijolo e areia e água barrenta. Baleava. A mãe fazia rezas, benzas, choros, clamava os santos católicos e os deuses-espíritos ancestrais para que acudissem. E ninguém vinha. E o sofrimento aumentava. O sofrimento. Os mortos de casa se amontoavam no quintal, com os animais e os insetos. Com a seca. Fedia. Só o esquecimento. Pensou em Maria. Serpente peçonhenta que o abandonara para se ir com o circo, ou o puteiro, porque assim conheceria o mundo e as estrelas que brilhavam durante o dia. Dias claros, de estrelas majestosas, coloridas. Como os girassóis antigos que imaginavam no tempo da infância. Estremeceu, vacilou. Ódio. Das coisas e de Deus e das coisas de Deus e dos assuntos humanos e de todos os homens, dos que habitaram e dos que ainda iriam habitar essa terra de fatalidades e imundícies. Ódio dos homens e das cores. Mundo vaporoso feito de areias e ventos que subiam e se desmanchavam no vácuo das alturas dos sítios brancos. O vazio. Fechou os olhos. Suava. O sofrimento. O esquecimento.


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O ESPELHO

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rnaldo chegou a casa na mesma hora de sempre. 18h30min. Abriu a porta. Entrou. Quase caiu de costas quando se viu sentado assistindo à televisão. Só não caiu porque a curiosidade foi maior que o espanto. Arnaldo via outro Arnaldo dentro de casa. Parecia que não se viam. Arnaldo continuou observando a si mesmo. O outro Arnaldo deitou no sofá e colocou as pernas no encosto de cabeça do mesmo jeito que Arnaldo fazia. Assistiu um pouco e dormiu. Arnaldo não tirava os olhos de si mesmo. Viu o outro acordar e se encaminhar para a cozinha com o mesmo andar que ele tinha. Abriu a geladeira e bebeu água na boca da garrafa. Pegou um doce com mesma mão com que Arnaldo pegava. Arnaldo estava tremendo de medo e assombro. Quem era esse outro Arnaldo? O outro voltou para a sala, pegou o controle remoto e zapeou pelos canais de televisão do primeiro ao último. Parece que não tinha gostado de nenhum. Arnaldo também detestava todos os canais e isso o deixou preocupado. Esse Arnaldo também não gosta de tevê, mas mesmo assim permanece vendo. Esse sou eu? O tempo passa. Ninguém chega. Só Arnaldo observando Arnaldo. O jornal das oito acabou e outro Arnaldo fez o que o original sempre fazia. Assistiu às mesmas notícias no outro canal. Arnaldo começa a odiar o outro Arnaldo. Quem gostaria de ver as mesmas notícias em outro canal? Era Arnaldo detestando Arnaldo. Desligou a televisão. Foi ao banheiro. O outro Arnaldo pegou uma revista velha, sentou no vaso e ali ficou. Lendo notícias velhas, mas interessado como se fossem as últimas novidades da vida. O Arnaldo original ficou perplexo ao ver que sua cópia tinha as mesmas atitudes no banheiro. Era o Arnaldo sem acrescentar uma vírgula. A cópia, enfim, ligou o chuveiro. Tomou banho, se lavou bem, menos entre os dedos dos pés. Igualzinho ao original. Desligou o chuveiro. Secou-se com a toalha. Voltou para a televisão. Recomeça a assistir. O Arnaldo original acompanha tudo. Meio com raiva de si mesmo, meio com medo por se ver no outro. Será que as pessoas sabem que eu sou assim? Passos são ouvidos. Abre-se a porta. Alguém está chegando. É a mulher de Arnaldo. Ele não sabe que o fazer; se grita para ela voltar ou se se esconde na esperança de que a cópia só seja uma ingrata ilusão. Arnaldo se esconde atrás da porta. Ana entra. Beija o filho e Arnaldo cai morto atrás da porta.


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Waldney Jorge de Lisboa É professor de Língua Portuguesa da rede pública estadual e Mestre em Educação pela UFMT. Criado no bairro Cristo Rei, antigo Roção, antigo Capão de Negro. Morador de Várzea Grande e observador do mundo. Interessado em misticismo, Ufologia e pescaria. Acha melhor quando essas três coisas aparecem juntas. O desejo de dizer coisas se fortaleceu ao entender melhor as possibilidades da palavra e as nuanças do ser humano. O que não é dito é tão importante quanto o como foi dito. Constrói narrativas de fora para dentro. Sabe que o mundo acontece depois dos seus olhos.


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“- Sempre quis ter uma garotinha, diferente de muitos pais, quis uma menina. - Você me ama? - Muito mais do que você pensa, tua mãe nunca te quis, mas eu vou te amar pra sempre. Todas as palavras de afeto eram sempre escolhidas com muita violência, ancoradas por um tipo de amor que estampa capa de jornal. Todo dia, uma mulher é assassinada porque alguém a odeia, e o crime é chamado de passional. Como se o afeto estivesse no ferir. O que meu pai falava por meio das ações era “te agrido, porque há um limite para ter o teu corpo”. O livro da Monique Malcher, vencedor do Jabuti, categoria Conto, tem várias passagens brilhantes como esta. Acho que ela vai nos brindar com muita coisa boa no futuro. Concordo com a prefaciadora, Paloma Amorim, que o livro “não se encaixa necessariamente em uma categorização de gênero, estabelecendo assim uma relação muito viva entre prosa e poesia”. Talvez aí estejam as virtudes e os equívocos do livro. Os primeiros contos são, em sua maior parte, uma espécie de descrição de memórias. Como eu digo?... Acho que isso funciona, no início, mas depois senti que vai ficando maçante, o que me fez refletir muito por esses dias, porque, no fim das contas, acho que eu quis exigir o bom e velho plot do começo-meio-e-fim e uma ação bem definida, estruturando tudo, no melhor sentido aristotélico do termo. rs. Não, estou sendo precipitado. A prosa poética da Malcher funciona bem nesses contos-descrição-de-memórias. O problema é que ela retoma os mesmíssimos temas em vários contos subsequentes: a infância perto da avó, a morte da(s) avó(s), a relação com a mãe, a figura monstruosa do pai, etc. É uma espécie de “variação sobre o mesmo tema”, coisa de que gosto muito. Mas é preciso saber fazer a tal variação sobre o mesmo tema. Nesse caso, pra mim, não funcionou bem. Depois de uns tantos contos, ela recorre ao bom e velho plot. O livro ganha uma nova força, por um tempo. Na terceira parte, temos de novo as descrições de sentimentos, relatos de experiências que se repetem um bocado. Os homens são execrados – pra falar a verdade, eu só me lembro de um conto, sobre a morte cruel de um amigo, em que a figura masculina é vista com ternura. De resto, é só esse pai horroroso, uns amantes passageiros e insignificantes, outros, indignos. Muitas imagens de dor que se repetem à exaustão. Às vezes, basta um conto começar e a gente já adivinha (“era como um soco”; “um vazio das minhas coisas, das tantas dores”; “uma enxaqueca tem me atravessado”…; lógico que isso poderia até dar mais unidade às narrativas; talvez dê; mas, pra mim, foi ficando tudo previsível e um pouco tedioso). Só sei que, por fim, eu não via a hora de terminar a leitura. E o livro não terminava. Como eu comprei na versão para o Kindle, não sabia ao certo quantos contos havia. Pensei que fossem mais de cinquenta. São trinta e cinco. De todo modo, voltaria a ler alguns com muito prazer. Mas não agora.

Helvio Moraes Possui Mestrado (2005) e Doutorado (2010) em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Realizou estágio de doutorado na Università di Bologna. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT, credenciado (docente permanente) no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários - PPGEL, com sede em Tangará da Serra. De fevereiro de 2015 a fevereiro de 2016, foi visiting professor junto ao Dipartimento di Scienze Politiche e Sociali da Università degli Studi di Firenze, Itália. Publicou o livro A Cidade Feliz (Ed. da Unicamp, 2011), que compreende o estudo e a tradução comentada da utopia de Francesco Patrizi da Cherso. Na carreira artística, lançou recentemente o álbum musical “Profano Absoluto”.


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Mariana Belize Escreve no Projeto Literário Olho de Belize e é mestranda em Literatura Brasileira pelo Programa de Letras vernáculas da UFRJ. É poeta e seus textos estão no Palavra Belize, no wordpress.

O JOGO DA LITERATURA NO ENSAIO DE RONALDO LIMA LINS

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ompreender os temas que movem a ensaística de Ronaldo Lima Lins, como a relação entre a literatura e a existência, é lidar também com as nuances que somente a literatura pode apreender. É o que se vê no texto “Kafka, um traidor, herói de Borges”, contido no livro de ensaios O felino predador (2002) de Ronaldo Lima Lins, publicado pela Editora UFRJ.


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REVISTA PIXÉ Refletindo sobre o conto de Jorge Luis Borges “Tema do herói e do traidor”, Ronaldo Lima Lins desenvolve, numa ponte entre filosofia, história e literatura, uma reflexão sobre os impasses que os autores, na própria vida, também vivem. As incertezas entre suportar a própria existência, compreender por onde e para onde se conduz o processo histórico, ao mesmo tempo, em que constroem suas obras. Obras nas quais, através de mecanismos literários, as nuances do mundo aparecem como frestas e abismos. Daí a noção dos autores como heróis e traidores: com a mesma mão criam os projetos e revelam a sociedade. E justamente nesse processo de revelação traem a própria sociedade, já que suas críticas visam desagregar ideias e ideais que a estruturam. Lins usa a própria construção do conto de Borges como motor central do desenvolvimento do ensaio, fazendo a desmontagem da figura do herói e traçando sua contraparte correspondente como traidor. Os dois acabam figurando juntos no mesmo personagem, demonstrando a máxima potência da contradição que os autores vivem com relação à própria vida e à posição social que ocupam. Ronaldo Lima Lins chama esse processo de “dilaceramento interno” (2002, 81) e afirma que as duas faces nascem como frutos desse dilaceramento e se colocam de formas contraditórias: daí é que se desenvolvem os paradoxos: “É pelo contraditório que se amplia o espaço de dominação e, pior ainda, a angústia de saber que não há liberdade autêntica num universo de valores degradados. […] Em diversos sentidos, a expressão artística não pode deixar de incorporá-las” (2002, 85). Sobre a figura do artista e seu papel na sociedade, Ronaldo Lima Lins alerta para o fato de que “nos alicerces que desenvolvemos para nos sustentar, na argamassa pesada e sólida das nossas esperanças, também há aí um veneno que corrói as estruturas e denuncia a fragilidade das nossas ideias” e também que, ao mesmo tempo, “há um certo conforto em nos perceber como vítimas, conforto homólogo em nos saber agentes – nós, os traidores de uma causa, de um valor, de um sentimento de fraternidade” (2002, 85). Longe do desejo de uma resolução final e definitiva, Ronaldo Lima Lins segue no texto desenvolvendo a percepção de que, para o artista, interessa o processo da criação e, mais profundamente, o processo que se desenvolve na própria modernidade. Nisso percebe que “as angústias ‘modernas’ das nossas formas de expressão não se destacam de todo dos séculos XIX, XVIII ou XVII…” (2002, 86) porque também demonstra que dentro de sistemas aparentemente inabaláveis como o Absolutismo, por exemplo, já existe o germe de sua própria ruína. Este germe se desenvolve, de certa forma, através da literatura que pode conter em suas manifestações diversas, no seu contraditório, as nuances da complexidade da época, os paradoxos da sociedade e, assim manifestos, eles corroem as estruturas ditas inabaláveis de certas sociedades. Ronaldo Lima Lins traz ainda para o ensaio uma costura entre Borges, Kafka e Joyce para tratar de suas semelhanças para além das influências diretas ou indiretas que sofreram uns dos outros. Dizendo que “há algo neles que trabalha em profundidade”, Lins trata do exercício da literatura como algo que retoma uma tradição trágica. Uma tradição que, embora diferente do sentido grego tradicional, coloca a condição humana à frente como ateia, e “achamo-nos traídos, inteiramente sós na consciência do nosso destino” (2002, 87). E ainda é maior essa consciência na medida em que, pensando no sentido existencialista, não há destino: o indivíduo é livre para construir sua trajetória da maneira


REVISTA PIXÉ como lhe aprouver, a partir das escolhas que faz. Novamente a contradição aparece, pois toda escolha é também a renúncia de um caminho e a traição de um desejo. No raciocínio que segue, Lins fala da condição do artista que escolhe no anonimato das ruas o herói não identificado para representá-lo. Cita daí em diante os heróis dos escritores que toma como exemplos no texto. Mais adiante, vai novamente problematizar essa escolha, dessa vez apontando que as escolhas dos escritores, mesmo tomando para suas obras o herói anônimo no cotidiano – suas inquietações, que são também as de seu leitor –, ao desenvolver a linguagem cada vez mais voltada para uma revolução interna acaba criando um código quase secreto, pois relegado a poucos leitores. Seu exemplo é Joyce, ao escrever Ulisses (1983). A contradição é justamente escolher um herói que venha do povo, mas dentro da construção da linguagem não seja percebido pela maioria de seus leitores como um igual. Ao adentrar o universo ficcional de Franz Kafka, Ronaldo Lima Lins revela ainda mais as camadas do exercício da literatura como “uma coerência que nos expõe a respeito da dimensão do equívoco” (2002, 90). Citando o personagem Joseph K., do livro O processo (2005), afirma que, ao contrário deste, não podemos supor que se encaram os aspectos ameaçadores da sociedade com rapidez em compreendê-los ou em resolvê-los. Na verdade, é o oposto: quando a sociedade é observada, “as frestas disponíveis” (2002, 91), ou seja, a visibilidade possível, só é ensejada justamente pelo viés do contraste, o que acentua seu aspecto mais sombrio, “a crise dos valores, a inutilidade da revolta, [...] um movimento que, desejemos ou não, passará, esmagando-as, por cima das nossas aspirações” (2002, 91). Desse modo, Ronaldo Lima Lins reitera a impossibilidade de se estar no mundo, funcionando como sujeito, reforçando a ideia de um “recuo psicológico” (2002, 91). Em Kafka, esse recuo não é nem mesmo demonstrado. Expõe-se apenas a condenação quase automática, que não permite nenhuma resistência, pois jamais se mostra de onde vem, para onde levará, quais são seus resultados, seus motivos e, principalmente, sua finalidade. É justamente aí que mora o que Lins chama de “cansaço” (2002, 91). Assim, segue-se que a traição permanece inscrita no distanciamento de amigos e familiares e a paz perpétua se torna sinônimo de estar morto. Resta ao ser humano uma vergonha de que, no caso de Joseph K., “dois minutos de existência, numa atmosfera de adversidade, […] surgem como num ganho” (2002, 92). Porém, o que interessa ao ensaísta é demonstrar que, para além da vergonha, existe a posição de antagonismo frente ao mundo. Retomando Borges e seu conto “Tema do herói e do traidor”, Ronaldo Lima Lins traz para o fim do ensaio uma perspectiva diferente. O que ele demonstra é que, na verdade, interessa ao leitor a construção da figura do herói, ficcionalmente falando, pois também nele a traição se inscreve num “delicado jogo de confrontos e contrastes”. Isso é que torna a literatura o campo onde esse jogo melhor se constrói, se estrutura e, ao mesmo tempo, confronta o mundo: confrontando a literatura mesma, e dentro dela, seu enigma.

BIBLIOGRAFIA LINS, Ronaldo Lima. O felino predador: ensaio sobre o livro maldito da verdade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002.

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CONTEMPORARTE Maristela Carneiro Maristela Carneiro é Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – PPGECCO/UFMT. Docente da Faculdade de Comunicação e Artes – FCA/UFMT, é Mestre em Ciências Sociais e Doutora em História. Co-Líder do Grupo de Pesquisa ContemporArte. Dentre seus interesses, destaque para Estudos de Gênero, Feminismos, Artes e Cultura Visual, Pensamento Decolonial e Epistemologias do Sul.

rosa azul

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impressionante como uma imagem é capaz de puxar outras tantas. Essa é uma das características mais marcantes do pensamento humano: a capacidade associar elementos e construir conceitos. Um sinal sensível, por ínfimo que seja, desperta em nossas mentes uma cadeia interminável de outros sinais. Estes sinais, é lógico, não se guiam por nenhuma objetividade, pois ao se conectarem nessas redes complexas, as imagens e os sons criam línguas, religiões e todo tipo de narrativa. Essas narrativas, por sua vez, adquirem influência cada vez maior em nosso pensar, e se torna mais e mais difícil captar qualquer sinal, senão pelas lentes de nossos preconceitos. Por isso é tão mais fácil para a criança se encantar com uma nova textura ou uma nova cor: seus sentidos ainda não estão tão condicionados.


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REVISTA PIXÉ Um exemplo de como este pensar se constrói é a relação que estabelecemos entre a gestação e a família. Em si, não há correlação direta entre as duas coisas. Entre várias espécies de mamíferos o macho e a fêmea se encontram apenas para copular, depois o macho vai embora, a fêmea zela pela cria até que ela possa dar conta de si mesma e então a abandona também, possivelmente para jamais se reencontrarem. Outros animais se organizam em grupos, quase sempre um coletivo de fêmeas ao redor de um macho dominante. Não há, todavia, qualquer sentimento nessas uniões. As fêmeas meramente buscam os machos mais bonitos, fortes e saudáveis para se aproximarem e fazerem deles progenitores de suas crias, pois são essas as características que instintivamente elas desejam passar adiante. Os machos, por sua vez, buscam, também instintivamente, passar seus genes adiante. Tornar-se perene. Quando não há fêmeas que os selecionem, eles recorrem à violência: agridem outros machos para tomar seu lugar ou copulam forçosamente com fêmeas que não os desejam. Certamente há demonstrações de afeto e cuidado entre lobos, coalas e tamanduás, mas essas são poucas e esparsas em uma dura rotina, que constantemente exige garantias difíceis de se obter no fluxo incerto da natureza: encontrar comida, não ser comido, reproduzir-se, sobreviver. Essa não é uma rotina amigável à formação de laços profundos e indissolúveis. É de se supor que nossos ancestrais mais remotos viviam incertezas semelhantes. Peças de literatura antiga como a Epopeia de Gilgamesh, a Ilíada e mesmo a Bíblia mencionam confrontos violentos entres líderes de clãs e raptos de mulheres como parte do cotidiano, da rotina social de então, práticas que, exceto pelo verniz, acabar por se assemelhar muito às dinâmicas observadas entre chimpanzés e gorilas. Entretanto, para nós, seres das redes simbólicas, certezas, por mais tênues que sejam, são indispensáveis. Da necessidade de garantias surgiram as ferramentas, o fogo, a agricultura, a moradia, as religiões, as práticas artísticas, os rituais funerários. A garantia torna a vida mais confortável, mas também cobra suas taxas: a permanência, os muros das leis, a esperança de manutenção da ordem que coloca nas mãos de uma minoria o poder sobre a maioria. Tentamos ser mais que simples primatas, porém a necessidade de perpetuação da espécie segue sendo dolorosamente almejada, não sem artifícios coloridos que tentam pintar um quadro mais interessante e mais amplo, que esteja além da mera reprodução. Para nós, a relação é quase que automática: quando uma pessoa carrega outro ser em seu útero está iniciando uma família. Não é apenas uma cria, a ser descartada tão logo possa cuidar de si o suficiente para sobreviver. Isso implica solenidades de toda ordem. A criança nascerá em um núcleo de gente conhecida, rodeada por parentes e amigos. Receberá uma educação conforme os valores do núcleo. Será considerada motivo de orgulho ou de vergonha, de acordo com sua capacidade de atender às múltiplas e infinitas expectativas, e mesmo sua decisão de se importar ou não com as consequências dessa dinâmica impactará no modo como a sociedade a observa. Não é à toa que a chamada “gravidez solo” incomoda tanto: a criança que não tem pai, aos olhos da sociedade cristã, já nasce como um


REVISTA PIXÉ delito, fruto de uma união ilícita, do pecado carnal de um casal não sancionado pelas devidas autoridades religiosas e jurídicas. Colocar em questão o desejo da gravidez em si já é tomado como um acinte. Que inconveniência sequer se pensar que uma gravidez ou a constituição de uma família não é prioridade para todas as pessoas, em especial, para todas as mulheres. Ainda crianças, as meninas parecem precisar apresentar demonstrações favoráveis à maternagem futura – se alguma delas não o fizer, bem, que serumaninho mal-criado! O casamento é uma narrativa, mas é uma narrativa que acreditamos piamente ser real e natural. Não se trata de uma arbitrariedade total: é uma narrativa útil, que também serve ao propósito de nos pintar como seres superiores. Racionais. Tão estimada. Para os estados organizados, desde a antiguidade, dividir as pessoas em núcleos residenciais facilita a taxação, a convocação para o serviço militar e obras públicas, a distribuição de bens, a punição de transgressores. Os romanos fizeram muito para transformar a vida familiar em um pequeno governo: para além de um vínculo de afeto e sustento material, o pater familias era a máxima autoridade executiva, legislativa e jurídica de um lar. A educação do lar era a primeira apresentação do indivíduo às obrigações e punições da vida em um estado. A ascensão do capitalismo ao longo dos séculos XVIII e XIX também deixou suas marcas. A combinação entre a economia e a família burguesa se estruturaram sistemas educacionais e modelos de governo constitucional com os quais nos debatemos ad nauseam. As contestações em torno do bem-estar social, da obrigatoriedade do voto, da desmilitarização da polícia e políticas de ação afirmativa se iniciam quando, em meio a um grupo de pessoas, incluindo uma gestante, alguém enuncia as malditas palavras: É menino ou menina? Azul ou rosa? Azul ou rosa? Segue-se então uma indústria: alianças, vestidos, chefs, cerimonialistas, salões de festas, fábricas de bebidas, lojas infantis, carrinhos de bebê, toneladas de plástico em forma de forninhos, bonecas, soldadinhos e arminhas de brinquedo. Enquanto isso, em porões bem escondidos, crianças costuram roupinhas e empacotam lembrancinhas. Mãos infantis são empregadas no plantio e coleta de alimentos, para que jantares sofisticados continuem sendo realizados como ocasiões memoráveis. Crias usadas para exaltar outras crias. Outras pequeninas mãos, na República Democrática do Congo e em Serra Leoa, por exemplo, extraem diamantes para adornar alianças de casais no mundo todo. Assim como a produção de ouro em Gana, a mineração intensiva tem um impacto irremediável nos ecossistemas locais, rompendo não só os limites da decência humana pela exploração de trabalhadores famintos, mas atacando também o solo em que, ironicamente, muitas famílias [sobre]vivem – talvez não por muito tempo. Tudo que essas pequeninas mãos fazem se presta a alimentar narrativas humanas que erguem fantasias sobre fantasias. Do ventre do mundo, o que temos? Mais que filhos e filhas, a maternagem gera mães. E essas mães são tão frágeis e sensíveis quanto suas crias, suscetíveis continuamente ao jogo do rosa-azul-rosa-azul-rosa-azul, tal e qual as pílulas de Alice.

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HALUHALUNEKISU, A ÁRVORE DO SABER

Anna Maria Ribeiro Costa É doutora em História pela UFPE e Professora do Univag. Chegou às terras do povo indígena Nambiquara na Primavera de 1982. Dos índios recebeu o nome Alusu, por conta de seus hábitos alimentares. Nessas terras, conheceu José Eduardo, com quem tem dois filhos: Theo e Loyuá. Vem se dedicando aos estudos sobre os povos indígenas de Mato Grosso, com especial atenção ao Nambiquara.


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A origem da morte

A

conteceu no ‘tempo de antigamente’, termo que indica um tempo que, por ser tão longínquo, não tem como contar, no entendimento dos Halotesu, Kithãulhu, Sawentesu, Wakalitesu, Niyahlosu, Siwaihsu e Hinkatesu, grupos da etnia Nambiquara do Cerrado. Aponta um tempo pretérito, fabuloso ou heroico, no qual existem seres e fatos que exprimem forças das vidas humana, sobrenatural, animal, vegetal. Na aldeia, havia uma mulher velha, bem velha, de cabelos brancos, desdentada, em pele e osso. Vivia reclusa em sua casa, cansada. Sempre deitada, pensava no filho que saía diariamente para caçar e ao retornar não podia contar com suas tarefas de assar beiju de mandioca e carne. Não aceitava sua condição de velhice. Decidida a mudar aquela situação, caminhou lentamente para a beira do córrego. Levou em seu cesto-cargueiro uma cuia de cabaça, sementes de urucum, colar e cinto de contas de coco tucum. Quando chegou, ainda que muito cansada, arrancou sua pele enrugada, como se fosse uma roupa. Seus cabelos brancos e ressecados saíram junto à pele. Agachou-se, banhou-se com água que escorria da cuia de cabaça. Após o banho, a pele da mulher velha apareceu nova, seus cabelos negros e lisos ganharam vida como de menina-moça. Pintou seu corpo com tinta vermelha das sementes de urucum, enfeitou-se com o colar e o cinto de contas pretas do coco tucum, a pérola negra do cerrado. A belezura da mulher vestia seu corpo. A mulher, nova e bonita, pendurou a pele velha em um arvoredo perto do córrego onde havia se banhado com a água encantada. Quando voltou à aldeia, ensinou às mulheres velhas a trocarem de pele como a cobra e a lagartixa sabem fazer. Desse dia em diante, ninguém mais morreu. Recomendou às crianças que não mexessem na pele velha que estava esticada no arbusto, próxima ao córrego. O filho da mulher, agora vestida de juventude, ao voltar da caçada, surpreendeu-se ao encontrar sua mãe tão jovem e bonita a preparar beiju e a alimentar o fogo à espera da carne para cozimento. Enquanto isso, as crianças seguiram curiosas para a beira do córrego a procurar a pele velha da mulher nova. Com seus pequenos arcos de embira, arremessaram flechas de talo de buriti na pele velha. A algazarra da meninada chegou aos ouvidos da mulher nova que saiu correndo para ver o que estava acontecendo. Tarde demais: encontrou sua pele velha toda perfurada. Ali mesmo chorou, chorou, chorou. Aquele choro comprido que costuma ser ouvido em cerimonias de falecimento. Chorou porque sabia que havia perdido a oportunidade de permanecer eternamente forte, jovem e bonita. Logo depois da morte da pele velha da mulher apareceram a doença, a velhice, a morte. Indistintamente acometiam crianças, jovens e adultos. Até mesmo aquelas mulheres que trocaram de pele.

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R E V I S TA

LITERÁRIA


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REVISTA PIXÉ - EDIÇÃO Nº 29 - ANO 4 - MARÇO/2022 by Roseli Carnaiba - Issuu