


A IRMANDADE SECRETA DE SUA MAJESTADE




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Copyright © Juno Dawson, 2022 Todos os direitos reservados.
Imagens de capa e miolo: © Freepik, © Retina78
Tradução para a língua portuguesa © Dandara Palankof, 2023
Diretor Editorial
Christiano Menezes
Diretor Comercial
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Diretor de Mkt e Operações
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Diretora de Estratégia Editorial
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Gerente Comercial
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Coordenadora de Supply Chain
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Gerente Editorial
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Editora
Nilsen Silva

Capa e Proj. Gráfico Retina 78
Coordenador de Arte Eldon Oliveira
Coordenador de Diagramação
Sergio Chaves
Finalização
Sandro Tagliamento
Preparação
Monique D’Orazio
Revisão
Francylene Silva
Victoria Amorim
Impressão e Acabamento Leograf
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari - CRB-8/9852
Dawson, Juno
Realeza das Bruxas: A irmandade secreta de Sua Majestade / Juno Dawson; tradução de Dandara Palankof. — Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2023. 432 p.
ISBN: 978-65-5598-336-4
Titulo original: Her Majesty’s Royal Coven
1. Ficção inglesa 2. Literatura fantástica I. Título II. Palankof, Dandara
23-5341
CDD 823
Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção inglesa
[2023]
Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento LTDA.
Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ — Brasil www.darksidebooks.com








Dedicado ao meu coven, O “Adult Lady Helpline”.
Os espíritos do mal observam
garotas tolas e curiosas e, por isso, mais propensas a serem enganadas por velhos praticantes de magia maléfica.
Malleus Maleficarum , 1486
Concordo com quem disse que [as Spice Girls] são soft porn. Elas são o anticristo.
Thom Yorke, do Radiohead , 1997









Na noite que antecedeu o solstício de verão, cinco garotas se esconderam em uma casa na árvore. A cabana, refinada demais para ser chamada por esse nome, era bastante sólida, aninhada nos galhos artríticos de um carvalho tricentenário. Lá embaixo, na Mansão Vance, os preparativos para as festividades do dia seguinte tinham chegado ao fim. A data era mais uma desculpa para os adultos buscarem vinhos empoeirados em suas adegas por dois dias seguidos do que uma reunião de planejamento. Eles, já tendo passado do leve pileque há muito tempo, não haviam notado a ausência das meninas.
Em cima da árvore, a mais nova, Leonie, estava aborrecida porque a mais velha, Helena, tinha dito que ela não poderia se casar com Stephen Gately, do Boyzone. “Não brinco mais”, disse Leonie.
Uma congregação de velas queimava na janela da casa na árvore, a cera, gotejando da beirada, formava estalactites empelotadas. A luz cor de âmbar dançava irrequieta pelas paredes, lançando sombras como as de uma fogueira pelo rosto de Leonie. “Por que a Elle sempre pode escolher primeiro?”
O lábio inferior de Elle tremulou e seus olhos azuis-bebê se encheram de lágrimas. De novo. Era por isso que sempre podia ser a primeira a escolher. Ela abria o berreiro.
“Acho que as duas podem se casar com o Stephen”, interveio Niamh Kelly, sempre pacificadora.
“Não podem, não!”, disse sua irmã gêmea, a plenos pulmões. “Como é que isso ia funcionar?”
Niamh fechou a cara para ela. “Eu não acho que a gente vai se casar de verdade com o Boyzone, né, Ciara? A gente tem 10 anos!”
Helena declarou com autoridade: “Quando a Elle tiver 20 anos, o Stephen vai ter 30, então tá tudo bem”.
Leonie se levantou com os punhos cerrados, como se fosse deixar a casa na árvore.
“Ah, tá bom! Se você vai sair batendo o pé feito uma criancinha, beleza”, exclamou Helena. “Podem ficar vocês duas com o Stephen. Coitado do Keith.”
Leonie cutucou a porta do alçapão com o dedão do pé. “Não é isso, Helena. É só uma brincadeira. É besteira. Enfim, eu falei que vou me casar com o Maluco no Pedaço , então nem importa.”
Houve um momento de silêncio. Todas sabiam o que a estava perturbando; porque era o que perturbava a todas elas. As velas crepitaram.
Ouviu-se o ruído ébrio da risada dos adultos que vinha de dentro da casa. “Não quero ter que fazer aquilo amanhã.” Enfim Leonie colocou para fora o que realmente queria dizer. Ela voltou para o carpete e se sentou de pernas cruzadas. “Meu pai não quer que eu faça. Ele disse que é do mal.”
“Seu pai é um eejit ”, * berrou Ciara.
Niamh, a mais velha das gêmeas Kelly por apenas três minutos e meio, disse: “Na Irlanda, nós somos consideradas pessoas de sorte”.
“Ele tá dizendo que minha avó é do mal?”, questionou Elle. “Ela é, tipo, a pessoa mais legal do mundo inteiro!”
A situação era mais difícil para Leonie; a primeira em sua linhagem, desde que se tinha lembrança, a exibir os traços. Como Helena esperava entender? Sua mãe, a mãe de sua mãe e todas as mães da família Vance antes delas também haviam sido abençoadas. “Leonie”, disse Helena com a segurança absoluta que apenas uma adolescente mandona de 13

* “Idiota”, em dialeto do inglês irlandês. (N. T.)


anos é capaz de possuir. “Amanhã vai ser moleza, igual a uma assembleia na escola. A gente forma uma fila, faz o juramento, a Julia Collins vai te abençoar e é isso. Nada muda de verdade .”
Ela enfatizou o dji verdadji, mas todas elas sabiam que aquilo era mentira. Agora restavam bem poucas delas, menos a cada geração. Aquela vida e aquele juramento não eram como o dia em que Ciara cortara a franja com um par de tesouras de unha. Na época, o cabelo logo cresceu de novo, mas não havia como voltar atrás do que fariam no dia seguinte. O sino havia soado e a hora de brincar havia terminado. Leonie tinha apenas 9 anos.
“Eu também tô nervosa”, declarou Elle, tomando a mão de Leonie.
“Eu também”, disse Niamh, que então se virou para a irmã.
“Acho que também tô”, concordou Ciara, relutante.
Helena trouxe uma das velas até o centro do tapete velho e imundo. “Venham, formem um círculo”, chamou. “Vamos praticar o juramento.”
“Aff, precisa?”, resmungou Ciara, mas Helena lhe dirigiu um shhh. Ela não se deixava intimidar pelas gêmeas, não importava o quanto as anciãs tivessem síncopes por causa do potencial delas.
“Se a gente o souber de cor, não vai ficar nervosa na hora, vai?”
Niamh entendeu que isso ajudaria Leonie e repreendeu a irmã. As garotas se reuniram ao redor da vela e deram as mãos. Era difícil dizer o quanto aquilo era fruto da imaginação, mas, mais tarde, elas viriam a jurar que tinham sentido uma corrente fluir através de seu circuito humano, partilhando e amplificando seus próprios dons latentes.
“Todas juntas”, pediu Helena, e elas se puseram a entoar:
À mãe eu juro
Solenemente preservar a sagrada irmandade
Seu poder poderei exercer
O segredo deveremos manter
A terra devemos proteger
Inimigo de minha irmã, é meu inimigo
A força é divinal
Nosso elo, perene
Que homem algum venha quebrar
O coven é soberano
Até meu suspiro final.
E todas elas o sabiam de cor. Palavra por palavra.
Na noite seguinte, tiveram permissão para vestir suas capas de veludo preto-azulado pela primeira vez. Tinham cheiro de novas em folha, dos plásticos nos quais estavam embaladas. Como eram longas demais (para que ainda servissem quando crescerem ), as meninas as ergueram para a bainha não arrastar pela relva conforme subiam a colina de Pendle Hill. *
A procissão serpenteou colina acima, até o âmago da densa floresta que sufocava o vale feito uma pele. Cada uma segurava um lampião para iluminar o caminho, mas a trilha irregular, à noite, era uma verdadeira predadora de calcanhares. Com o tempo, os carvalhos foram se abrindo para revelar uma clareira iluminada pela lua, com um rochedo plano no centro. Havia poder naquele lugar, qualquer tolo conseguia sentir.
Era assustador para as meninas, é claro, estar cercada pelas anciãs.
Uma centena delas, com os rostos parcialmente ocultos pelos capuzes. Ainda mais assustador era ver todas, uma a uma, se aproximar da placa de pedra para deixar a sua oferenda. Espetavam o polegar com a ponta de um punhal de prata e depositavam uma pequenina pérola vermelha de sangue no caldeirão de teixo. Julia Collins, com seu rosto de matrona espiando por baixo do capuz, convocou as meninas, uma de cada vez. Elas beberam do cálice até seus olhos ficarem pretos e, quando isso aconteceu, ela mergulhou o dedo na tigela de teixo e desenhou a marca do pentagrama em suas jovens testas.
Quando o relógio bateu lúgubre a 1h no longínquo vilarejo, elas deixaram de ser meninas e enfim se tornaram bruxas.

* Pendle Hill, no Norte da Inglaterra, é conhecido por um famoso julgamento de bruxas, em 1612. (N. T.)



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Meu nome é Helena Vance e sou a Alta Sacerdotisa em exercício do crsm. É uma grande honra liderar o maior, e único, coven do Reino Unido afiliado à Aliança do Coven Unificado™.
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Alta Sacerdotisa




Em seus sonhos, Conrad ainda estava vivo. Eram cenas breves, banais e domésticas: ela ainda conseguia sentir o cheiro do jantar que ele tinha preparado, e ela estaria lavando a louça quando ele deslizasse os braços ao redor de sua cintura. Sentiria os lábios dele roçando em sua nuca, com The Archers baixinho ao fundo. Fragmentos estranhos voltavam a ela: migalhas de torrada caídas sobre a cama no domingo de manhã retornando para assombrá-los ao anoitecer; ela se inclinando sobre ele para olhar pela janela do avião quando estavam prestes a pousar em Dublin; passeios com o cachorro por Hardcastle Crags em uma preguiçosa tarde de sábado; aquele cheiro de húmus úmido e alho selvagem. Outras vezes, ela sonhava apenas que estava escutando sua respiração. Ele sempre adormecia no segundo em que a cabeça tocava o travesseiro, como se tivesse narcolepsia ou algo assim, e Niamh, alguém de sono agitado na melhor das hipóteses, com frequência se fixava em sua maré tranquila para acalmar a mente tagarela.
Naquele momento, ao despertar, ela o procurou, apenas para sentir o lado frio da cama.
Era como cutucar uma ferida o tempo todo.
Por que estou acordada?
Seu celular. Seu celular estava tocando. Ela se lembrou de que estava de plantão. Merda.

Chutou o edredom para longe e afastou um ninho de cabelo castanho-avermelhado do rosto. O celular vibrava na mesa de cabeceira, na tela se lia fazenda barker . Era 0h53. Ainda era a Hora das Bruxas, pensou ela, com pesar. Uma concepção equivocada bem comum; qualquer hora é ótima para as bruxas.
Niamh limpou a garganta. Sempre achara pouco profissional falar como quem estava dormindo durante o horário de plantão, embora fosse raro alguém ligar tão tarde.
“Alô? Sra. Barker?”
“Ah, olá, dra. Kelly”, respondeu Joan, fazendo sua melhor voz de telefone. “Espero não tê-la acordado?”
“De forma alguma”, mentiu Niamh. “Tudo bem com a senhora por aí?”
“É Pepper de novo…” Não era necessária nenhuma outra explicação.
A égua estava velha. Velha e cansada.
“Chego aí em dez minutos”, disse Niamh.
Ela vestiu umas peças de roupa mal combinadas que estavam empilhadas nas costas da cadeira de sua penteadeira e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo. Tigre mal se mexeu em seu cesto quando ela passou pela cozinha na ponta dos pés, fazendo apenas um huff com o nariz, para expressar sua irritação por ter sido acordado. O border terrier já estava acostumado às suas idas e vindas noturnas.
Fazia frio para uma noite do fim de março, não frio o bastante para uma geada, mas quase. Era uma pena, ela esperava que já pudesse guardar o inverno no armário até o ano seguinte. Enquanto caminhava, enrolou ao redor do pescoço um cachecol, que ganhara de presente de um de seus clientes. Niamh chegou até seu Land Rover e, conferindo o retrovisor, pressionou os olhos com a ponta dos polegares, tentando parecer menos sonolenta. Nem é preciso dizer que não funcionou completamente.
A fazenda dos Barker ficava a um curto trajeto de carro, no outro lado de Hebden Bridge. Niamh poderia fazer o percurso até dormindo, mas achou melhor ligar o rádio bem alto, só por garantia. A estrada que ia da vila de Heptonstall até a cidade de Hebden Bridge era sinuosa, perigosamente íngreme e escorregadia por conta da chuva que havia caído


mais cedo. Ela dirigiu com cuidado, deixando as janelas bem abertas para ajudar no seu despertar.
Geralmente efervescente, Hebden Bridge estava silenciosa de um modo quase sinistro. Os pubs, bares e restaurantes haviam fechado havia horas e a Market Street estava escura. Niamh dirigiu até os chalés e velhos moinhos despontarem na vastidão escura de Cragg Vale. No horizonte, a casa da fazenda era a última luz em quilômetros.
Os portões estavam abertos, prontos, e ela fez a curva com o Land Rover para descer a trilha suja e acidentada na direção da escola de equitação. Joan Barker estava à sua espera, com um casaco impermeável por cima do pijama de flanela e as pernas axadrezadas enfiadas em galochas. Niamh desligou o motor e saiu do carro, arrastando consigo a bolsa que trazia no banco do passageiro. “Como ela está, Joan?”
“Ah, dra. Kelly, não está nada bem.”
Um pavor familiar tomou seu estômago. “Vamos lá dar uma olhada?”
Assim que chegaram ao estábulo, Niamh não precisou usar nenhuma habilidade arcana para ver que Pepper estava mal. “Ah, querida”, disse, ajoelhando-se ao lado da velha égua da raça Cleveland que descansava na palha, respirando de forma superficial.
“Precisa de alguma coisa, doutora?”, perguntou Joan.
O melhor seria que Joan ficasse fora do caminho por um tempo. Se ela visse o que estava prestes a acontecer, Niamh teria dificuldade para explicar. “Tenho aqui tudo o que preciso para Pepper, mas a senhora não teria um café preto para mim, teria? Minha hora de dormir já passou faz tempo.”
“Claro. Volto em dois palitos.” Joan se virou nos calcanhares para retornar à casa da fazenda. É verdade o que dizem sobre as pessoas de Yorkshire: elas farão qualquer coisa por você e a chaleira nunca fica fria.
Quando Joan se afastou, Niamh pousou as mãos sobre o flanco de Pepper. “Ah, pobrezinha, meu doce de menina.”
Com os animais, ela não conseguia ouvir pensamentos inteiros, do modo como podia fazer com humanos. Pensamentos, assim como a luz e o som, viajavam em ondas, e ela era capaz de sintonizar uma frequência se lhe desse na cabeça, mas os animais se comunicavam de um

modo puramente emocional. Naquele exato momento, Niamh sentiu uma fadiga enlutada e uma exaustão completa vinda de Pepper. Em resumo, ela já estava farta. Era como olhar em um espelho e reconhecer isso em seu rosto, em vez de ouvir.
Niamh era muito melhor como senciente do que como curandeira. Ela conseguia localizar um problema, sentir os vermelhos raivosos no corpo de um animal, mas não era talentosa o suficiente para fazê-los irem embora sozinha, como uma curandeira faria. No entanto, ela poderia absorver parte da dor, serenar a pobrezinha.
Niamh transmitiu seus pensamentos para a mente da égua com clareza. Você está aguentando bastante, não está? Relaxe, minha menina; pode ir, agora. Descanse. Você sempre se saiu muito bem, e sempre foi tão boa.
De Pepper, houve uma última e teimosa investida, uma contração nas patas traseiras. Ela choramingou baixinho. Niamh entendeu. A égua não queria decepcionar sua senhora.
Ah, não vai decepcionar. Joan te ama e não quer que você sofra, né? Pode se recostar e se deixar levar, velha amiga. Não há nada mais para fazer aqui, e Joan tem muita fibra. Ela primeiro vai se abater, mas depois haverá só o amor.
E, com isso, ela sentiu de Pepper um abençoado alívio. Como se tivesse recebido permissão. “Eu posso ajudá-la a ir embora”, Niamh disse em voz alta. Ela alcançou seu kit e retirou um frasco de Repouso Eterno : um extrato de valeriana e cicuta que Annie a ensinara a fazer pouco depois de se formar. Pepper estava sentindo dor, e isso a aliviaria. Seria como pegar no sono com o aquecedor ligado. Niamh desenroscou a tampa do pequeno frasco marrom. Abra bem a boca , ela pediu a Pepper, e a égua obedeceu. Niamh colocou algumas gotas na língua dela. “Muito bem, minha querida.” Então, descansou a cabeça na de Pepper e quase pôde ouvir sua gratidão, de tão forte que era.
Joan voltou para o estábulo carregando uma fumegante caneca de café. “Como é que ela está, doutora?”
Niamh se levantou e pegou a bebida. Essa era a pior parte. “Ela está morrendo, sra. Barker. Sinto muito. Esta será a última noite dela.”
O lábio de Joan tremulou. “Não há nada que você possa fazer?”


“Eu a deixei confortável, ela não vai sentir dor alguma.” Niamh a envolveu com um dos braços e a guiou até a baia de Pepper, “Venha, vamos ficar com ela enquanto adormece. Ela sabe que estamos aqui.”
Niamh e a fazendeira se ajoelharam ao lado de Pepper enquanto sua respiração refluía como a chegada da maré baixa.


Havia mais buracos no teto do que em um escorredor. Seu ponto de observação, um depósito abandonado, estava amargamente frio, e Helena se encontrava sobre uma crosta de cocô de pombo desde o nascer do sol. Ela não reclamou; isso não seria aceitável diante das outras. Precisava dar o exemplo, e não tolerava reclamonas.
Em uma organização composta quase inteiramente por mulheres, ela precisava ser bastante diligente para apagar pequenos incêndios de dissidência antes que os sinais de fumaça chegassem aos feiticeiros, ou pior, ao governo. Isso significava que não podia haver fofoca, maledicência e, é claro, lamúrias. O Coven Real de Sua Majestade era forte, impenetrável e unido.
Com frequência, Helena fazia referência ao fundamental discurso de Eva Kovacic na CovCon 18: ela havia falado de modo bastante eloquente sobre como o patriarcado teme, acima de tudo, que as mulheres se unam; de modo que as cisões femininas internas apenas azeitam essa máquina. Desde então, Helena adotara isso como um mantra pessoal. Ela ergueu os binóculos até o rosto. A rua lá fora estava tranquila, a hora do rush se encerrando. Um eventual retardatário, atrasado para o trabalho, passou correndo pelo esconderijo de tijolos aparentes com um café na mão, mas era isso. Helena se virou para Sandhya e, seguindo sua própria crença, conteve a irritação. “Temos alguma coisa ?”


Sandhya levou os dedos à têmpora e falou, sem pronunciar palavra alguma, com as sencientes que estavam esperando na van lá fora. “Ainda nada, senhora.”
Um pássaro fez cocô a cerca de um centímetro de distância dos mocassins Prada de Helena. Ela o sentira passar zunindo diante de seu nariz e dera um passo para trás. Os pombos nas vigas arrulharam em zombaria. “Pelo amor de Gaia”, ela esbravejou, virando-se para a jovem oráculo de sua equipe. “Emma, tivemos alguma atualização?”
“Não, senhora. De acordo com as nossas previsões, ele virá hoje.” Como muitas das oráculos mais jovens, ela não fazia tentativa alguma de esconder sua calvície com uma peruca, ostentando-a como um símbolo de orgulho. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas onde ele estava?
“Você por acaso não chegou a ver nenhuma hora? Eu posso dar uma descida pra comprar um croissant?”
“Senhora”, interrompeu Sandhya. “Talvez tenhamos achado algo. Há alguém na rua usando um encantamento.”
Magia rústica, pensou Helena. Ele teria chegado tão baixo? Se havia se dado ao trabalho de se disfarçar, significava que ele sabia que também estava sendo vigiado. “As sencientes conseguem dizer quem é?” Ela deu mais uma olhada com seus binóculos. Na rua oposta à velha fábrica de chocolates, era mais um dia comum em Manchester. Helena viu uma mulher com um carrinho de bebê, duas mulheres mais velhas com sacolas de mercado abarrotadas, um homem que usava o terno brilhante e a reveladora gravata rosa-salmão característicos de um corretor imobiliário, e alguns estudantes chineses, que deviam estar a caminho de sua primeira aula do dia. Eles estavam a apenas algumas ruas da Universidade Metropolitana de Manchester.
“Estão dando um jeito nisso”, afirmou Sandhya, tocando a têmpora outra vez. Helena desejou que ela não fizesse isso, porque além de ser um gesto muito irritante, sencientes não precisavam cutucar o rosto para transmitir mensagens. A assistente só agia assim para sinalizar à Helena que estava trabalhando, mas tudo o que conseguia era dar a impressão da chegada de uma enxaqueca.

Helena observou a rua outra vez. Um dos alunos — um jovem de cabelo descolorido — se deixou afastar um pouco do grupo enquanto jogava no celular. Ele parecia matéria-prima pré-adolescente para uma das bandas de k-pop das quais sua filha gostava. Estava com o grupo? Ou tentava se perder na multidão?
O garoto se deteve, olhando diretamente para a casa geminada comum que elas estavam defendendo naquela manhã. Depois de um instante, olhou por cima do ombro e voltou a mirar o esconderijo. Ele não estava com os outros.
“É ele”, constatou Helena, jogando o binóculo para uma de suas auxiliares. Às vezes não é necessário ser vidente, só observadora. “O moleque de cabelo descolorido. Mobilizem-se e ocultem a rua inteira.”
Flexionando os dedos, Helena impeliu o ar da sala para a frente, lançando os últimos cacos de vidro que restavam nos caixilhos das janelas. Ela intumesceu um colchão de ar sob seus pés, permitindo que ele a erguesse e a carregasse para fora, pela saída que havia criado. Não deixaria Travis Smythe escapar outra vez. Esperava por esse ajuste de contas há um longo tempo.
Seu coração disparou, de forma quase vertiginosa.
Não. Ela precisava deixar de lado as vinganças pessoais: isso não era nada profissional.
Quando ela mergulhou na direção da rua, com seu sobretudo ondulando, viu sua equipe saltar da van falsa da transportadora dpd e sair em direção do alvo. Estava certa. No instante em que Smythe viu o que estava acontecendo, abandonou o encantamento e voltou à aparência habitual: flexível e magricelo, com dreadlocks que iam quase até a cintura.
Ele acertou primeiro a equipe de interceptação e, com um balançar de pulso, jogou um carro estacionado em três das bruxas. Disparou no ar na direção delas. Havia ficado mais poderoso desde a guerra. Por sorte, a telecinese de Jen Yamato era mais poderosa e, com a mente, ela deteve o veículo em pleno ar antes que ele as atingisse. Ela sustentou o carro, um Fiesta, no alto, permitindo que Robyn e Clare pudessem se abaixar e rolar por debaixo dele. Mais uma vez usando seus poderes, Smythe tirou Clare do chão, lançando-a contra os degraus do esconderijo. Ela caiu com um grito dolorido.


Por trás dele, próximo ao fim da rua, Helena pousou com graça. Pedestres fortuitos passavam com tranquilidade, cegos para o que estava acontecendo. Era evidente que o feitiço de ocultamento de Sandhya estava funcionando. Tecnicamente, não eram invisíveis , mas os mundanos não os viam. A senciente, bem acima deles, estava implantando uma instrução bastante simples em suas mentes, de forma contínua: não há nada para ver aqui . “Desista, Smythe”, Helena vociferou. “Nós o cercamos. Acabou pra você.”
Ao mesmo tempo, ela canalizava o máximo de vento que podia. Logo, um vendaval gélido despencou sobre a Bombay Street. “Vá se foder, Vance!”, gritou Smythe contra o vento, cambaleando para trás.
“Por que você viria até aqui? Bem debaixo do nosso nariz?” Helena manipulava seu campo com habilidade, aumentando a carga dos íons no ar. Uma tempestade se formou na ponta de seus dedos.
Smythe tirou o carro do domínio de Jen e o atirou por sobre a sua cabeça em um arco, na direção de Helena. Ela disparou um recém-criado relâmpago, fazendo uma centena de milhões de volts fluirem de suas mãos para o triste e pequenino Fiesta. O carro explodiu ao seu redor, mas ela nada sentiu. Então, Helena resfriou o ar que a circundava até ficar congelante, criando um casulo de segurança para si mesma. Atravessando o fogo como se não fosse nada, ela viu Smythe estremecer. Também havia ficado mais poderosa desde a guerra.
Ele se preparou para fugir, mas Robyn interveio. “Fique onde está”, ela ordenou com calma, e ele congelou, como se seus pés tivessem sido grudados no asfalto com supercola. Ela era uma senciente de Nível 4 e ele, só um homem.
“Saia da minha cabeça, sua puta”, rosnou Smythe.
“Eu não gosto dessa palavra”, retrucou Helena, agarrando seu flanco. Ela tornou o ar ao seu redor carregado de novo, só por garantia. Robyn não conseguiria conter um outro senciente por muito tempo, mesmo que fosse um homem. “ Por que você voltou, Travis? Poderia ter ficado escondido na Itália, pelo resto de sua vida patética.” Bolonha estava ganhando uma reputação e tanto como um viveiro de dissidência, um ponto focal para a crescente inquietação que atravessava a Europa.

Mais ou menos a cada década, uma bruxa ou — o que era mais provável — um feiticeiro tinha a brilhante ideia de se levantar contra seus opressores mundanos, como se fossem os primeiros a pensar isso. Helena examinou a si mesma. Ainda era aceitável chamar os mundanos de hal ? Humanos de Aptidão Limitada. Ela se recordava de Neve lhe dizendo que tal acrônimo agora era politicamente incorreto. Os mundanos têm diversas aptidões, afinal de contas, embora não muito interessantes.
O coven estava ciente de bolsões de descontentamento latente ao longo do Leste Europeu, da Rússia, mas ninguém estava com pressa para reprisar a guerra civil de Dabney Hale. E agora que tinha sob custódia o cúmplice mais cruel de Hale, ela esperava que isso transmitisse uma mensagem para qualquer um que pensasse em botar lenha na fogueira. Smythe tinha muito sangue bruxo em suas mãos. Merecia as Chaminés pelo que havia feito.
“Estou esperando”, sibilou Helena, a eletricidade azulada crepitando entre seus dedos.
“Você sabe por que eu vim…”
Ela lançou um severo olhar de relance na direção do esconderijo. “Ela?”
“Ela.”
Helena riu. Não conseguiu evitar. “Tolo. Acha que ela teria feito o mesmo?”
Os olhos cor de âmbar de Smythe fervilharam, queimando de ódio.
Ele estava prestes a responder, mas Helena levou a mão ao bolso do casaco e soprou um pouco de Senhor dos Sonhos em seu rosto. Pensando bem, não havia nada que ele pudesse dizer que ela quisesse ouvir. Ele aspirou o pó rosado e, um segundo depois, seus olhos se reviravam. Robyn o libertou e ele desabou no chão.
Ela estava em silêncio, impressionada com o quanto havia se contido. Teria sido justo e razoável que o queimasse vivo pelo que ele havia feito. Hale tinha dado as ordens, porém Smythe, e outros como ele, as havia cumprido de bom grado.
Em vez disso, Helena foi ver como estava a pobre Clare, que levara um golpe e tanto. A colega já tinha lhe ajudado a sair da sarjeta, com a dignidade mais ferida do que o corpo. Satisfeita por ver que ela estava


bem, Helena distribuiu instruções à subequipe: “Prendam-no, tragam a equipe de limpeza e localizem o dono do veículo para um reembolso”. Ela apontou com a cabeça para a casa geminada. “Vou dar uma olhada na Bela Adormecida e, depois, acho que farei uma visita a Hebden Bridge, pois já passou da hora…”
Com um movimento de dedos, Jen ergueu o corpo de Smythe, tal qual um peixe flácido, flutuando-o em direção à van. Helena cobriu o rosto contra a fumaça espessa que subia ondulando dos destroços. Ela ergueu as duas mãos sobre o fogo e ele se extinguiu em um instante.
Travis Smythe acorrentado antes das 10h. Em qualquer outra semana, isso seria motivo de grande celebração; mas, infelizmente, aquele rato era o menor dos problemas.
Como Alta Sacerdotisa, nunca havia existido contratempo que ela não pudesse resolver. Se grande parte de seu trabalho consistia em um jogo de malabarismo, ela havia mantido a maioria das bolas no ar durante anos. No entanto, aquilo era algo novo e preocupante, e ela odiava admitir, mas precisava de ajuda. Precisava de Niamh.



















Nos anos 1990, um grupo de pré-ado lescentes se une ao Coven Real de Sua Majestade, a maior comunidade do Reino Unido, e são iniciadas na bruxaria. Vinte e cinco anos depois, suas vidas tomam caminhos distintos. Quando uma profe cia sobre a Criança Maculada ameaça o mundo das bruxas, elas se reúnem, enfrentando traumas, diferenças e preconceitos para sobreviver. A Irmandade Secreta de Sua Majestade,














primeiro volume da trilogia Realeza das Bruxas, aborda assuntos importantes como questões de gênero, estruturas de poder, racismo, feminismo radical trans-excludente e supremacia branca. Escrito pela autora Juno Dawson, o livro é um verdadeiro caldeirão que mistura a energia contagiante das Spice Girls, a magia misteriosa de Jovens Bruxas e a ação eletrizante de Kingsman: Serviço Secreto.








