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O Retorno de Ellie Black - Book Preview

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“Não consegui parar e vivenciei cada reviravolta até o fim.” STEPHEN KING

EMIKO

JEAN

O

RETORNO DE

ELLIE BLACK


EMIKO JEAN

ESPECIALISTAS LITERÁRIAS NA ANATOMIA DO SUSPENSE


the return of ellie black

Copyright © 2024 by Emiko Jean Publicado mediante acordo com Folio Literary Management, llc e Agência Literária Riff Ltda. Todos os direitos reservados. Este livro é uma obra de ficção. Quaisquer referências a eventos históricos, pessoas ou lugares reais são utilizadas de forma ficcional. Outros nomes, personagens, lugares e eventos são produtos da imaginação do autor, e qualquer semelhança com eventos, lugares ou pessoas reais, vivos ou mortos, é mera coincidência.

Tradução para a língua portuguesa © Fernanda Lizardo, 2026

Diretor Editorial Christiano Menezes Diretor de Novos Negócios Chico de Assis Diretor de Planejamento Marcel Souto Maior Diretor Comercial Gilberto Capelo Diretora de Estratégia Editorial Raquel Moritz Gerente de Marca Arthur Moraes Gerente Editorial Bruno Dorigatti Editor Paulo Raviere Editor Assistente Lucio Medeiros

Capa e Projeto Gráfico Retina 78 Coordenador de Diagramação Sergio Chaves Designer Assistente Jefferson Cortinove Preparação Marta Sá Revisão Bárbara Parente Natália Agra Finalização Sandro Tagliamento Marketing Estratégico Ag. Mandíbula Impressão e Acabamento Braspor

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852

Jean, Emiko O retorno de Ellie Black / Emiko Jean ; tradução de Fernanda Lizardo. –– Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2026. 304 p. (Coleção ELAS) ISBN: 978-65-5598-601-3 Título original: Return of Ellie Black

1. Ficção norte-americana I. Título II. Lizardo, Fernanda III. Série 26-0165

CDD 813 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2026] Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda. Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com


E M I KO J E A N

T R A D U ÇÃO FER N AN DA L IZ A RD O


Para G & M. Obrigada. Estou abalada, mas continuo acreditando.


EMIKO JEAN O RETORNO DE ELLIE BLACK

PRÓLOGO

É assim que começa… Com uma garota correndo por uma floresta, com as veias constritas de adrenalina. Ela expira em rajadas curtas e regulares. Há terra sob suas unhas, manchas de lama fresca na calça jeans, sangue em seu moletom, e seu hálito cheira a vômito. Em breve… Logo ela estará em casa. Imagens vêm à tona. O único semáforo na Main Street. As venezianas verdes lascadas de sua casa. O deque desgastado do barco de pesca de seu pai. Ao longe, uma buzina soa, e ela se abaixa, cobrindo os ouvidos; o som penetra em seu crânio como um grito angustiado. O mundo diminui e se torna abstrato, uma profusão de cores intensas. A buzina para e as árvores vão aos poucos voltando ao foco. Ela conta suas respirações enquanto seus batimentos se estabilizam. Uma. Duas. Três. Então, conta os passos. Quatro. Cinco. Seis. Quantos serão necessários para alguém encontrá-la? Sete. Oito. Nove. Seus ossos estão pesados, seus pés, extenuados. Ela veio de longe. Sua sombra se estende adiante, como se, na verdade, fosse ela a persegui-la — venha me pegar. Dez. Onze. Doze. Seu corpo oscila. Talvez ela devesse se sentar. Treze. Quatorze. Quinze. Ela se esforça para continuar. O sol está mais alto por trás das nuvens cinzentas. O ar tem cheiro de pinho e resina. Como água e musgo. Como a própria vida. 9


“Ei! Você está bem?” Dois caminhantes aparecem — pai e filho —, virando uma curva da trilha. Carregam mochilas abarrotadas, encimadas por sacos de dormir enrolados; um deles traz uma panela pendurada, e o outro, duas canequinhas de metal. A garota diminui o passo e se aproxima deles. Dezesseis. Dezessete. Dezoito. O pai coloca um braço sobre o peito do filho para protegê-lo da garota, e ela hesita, capturada por seus olhares minuciosos. Os olhos do rapaz são castanhos e têm pequenos pontinhos dourados, e a fazem se lembrar de alguém conhecido. Sua mente tropeça e viaja de volta no tempo. Diga-me, o que você faria por alguém que ama? Qualquer coisa. Eu faria qualquer coisa. O pai pigarreia. “Moça, você está bem?” Ele a observa. Ela imagina o que ele está vendo. Uma pele nojenta. O cabelo embaraçado. Um corpo ossudo. Um moletom manchado de sangue. Ela é algo que o mundo mastigou e cuspiu. O filho torce o nariz. “Moça!”, o pai a chama de novo, desta vez, com mais afinco. Ele dá um passo hesitante em direção a ela. A garota lambe os lábios secos e rachados e se esforça para manter a voz firme ao responder: “Oi!?”. “Você está bem?”, o pai pergunta de novo. A garota pisca. Balança a cabeça. Olha para o vazio. “Não, acho que não estou.” “Qual é o seu nome?” “Meu nome?” Quem é ela? O que se tornou? Um invólucro. Para ser carregado. Para ser guardado. Para ser preenchido. “Isso, qual é o seu nome?” As palavras do pai vêm arrastadas. A garota hesita mais uma vez. Seu nome está preso em algum lugar ali dentro. Lá no fundo, nas profundezas onde ela o escondeu. Para que ficasse a salvo. Para não ser lembrado. Para jamais ser esquecido. Ela apruma os ombros e o resgata. “Elizabeth”, diz, num suspiro. 10


Fazia uma eternidade que ela não pronunciava todas essas sílabas. Seu nome. Seu nome verdadeiro. O nome que sua mãe escolheu porque era clássico e tinha um quê de realeza, e carregava todas as esperanças e os sonhos para sua filha — faculdade, carreira, uma família, felicidade, alegrias. Em outra época, a garota ostentava seu nome com orgulho, como se fosse uma coroa. No passado, alguém sussurrava aquele nome para ela, o amor na ponta da língua. Se revirando, por fim, a menina arranca de si seu nome completo. “Meu nome é Elizabeth Black. Acho que estou desaparecida.”

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EMIKO JEAN O RETORNO DE ELLIE BLACK

CAPÍTULO UM

Chelsey acorda com seu celular tocando. “Não”, resmunga seu marido, Noah. “Silencia esse troço.” O colchão range quando ele se afasta dela. Apoiando-se em um cotovelo, Chelsey tateia, procurando o telefone na mesinha de cabeceira. Passa um pouco da meia-noite. Ela silencia o toque e olha para a tela. “É coisa do trabalho.” “Espero que, ao menos, tenha morrido alguém”, murmura Noah. Chelsey sorri com o senso de humor irônico de Noah. Ela é policial, investigadora. É bem provável que alguém tenha morrido de fato. “Detetive Calhoun”, ela atende, acendendo a luz e se sentando na beira do colchão. Um arrepio percorre sua espinha. A primavera em Coldwell Beach é sempre fria. O verão também. Os moradores têm sorte quando algum dia passa dos 18ºC. Este trecho do litoral em Washington fica situado entre dois penhascos rochosos e é conhecido por seu clima temperamental. Os exploradores Lewis e Clark o marcaram no mapa como um local inabitável. “Chelsey.” É o chefe dela, o sargento Abbott. Tão logo ele a chama pelo primeiro nome, ela para de piscar. Não importa que ele sempre se dirija aos seus colegas homens pelos sobrenomes. Não faz a menor diferença. “Recebi uma ligação. Encontraram uma moça.” Ele faz uma pausa. “Ela se identificou como Elizabeth Black.” Ao ouvir esse nome, Chelsey, enfim, pisca. Ellie Black. Viva? Faz dois anos. Ela se levanta de imediato e coloca o telefone no viva-voz. 12


Noah acende o abajur. Uma correntinha de ouro com dois pingentes pende do pescoço dele — o 21, número da camisa dele na época do basquete, e um medalhão com a imagem de um santo. Chelsey nunca consegue se lembrar de qual é o santo — algum guerreiro espiritual na batalha do bem contra o mal. “O que aconteceu?” Ele se senta e coça a barba. Ela pressiona um dedo sobre os lábios, pedindo silêncio, e depois pesca uma caneta e um papel na gaveta ao lado, enquanto Abbott vai recitando as informações. Dois caminhantes encontraram Ellie Black na Floresta Estadual do Capitólio. Ele diz a ela os números de telefone deles. Ellie foi levada ao hospital Legacy Memorial. Ainda não há informações sobre seu estado de saúde. Chelsey pesquisa a localização no Google. Olympia. Duas horas a sudeste de Coldwell. “Quero que você vá ao hospital.” “Já estou indo.” Ela veste uma calça jeans. “Coloquei Douglas para investigar a trilha onde ela foi encontrada.” Uma pausa lenta e intensa. Douglas. Filho do sargento Abbott. Ela o conhece desde que eram crianças. Os pais deles eram policiais. O pai de Chelsey tinha a patente mais alta, era o chefe da polícia. E o pai de Doug ainda usava uniforme de patrulheiro, naquela época; ainda não era sargento, ainda não era o chefe dela. Doug é alguns anos mais velho que Chelsey. Ele ficou uns bons anos na esbórnia antes de seguir os passos do pai. Pouco tempo antes, Abbott havia promovido seu filho a investigador, assim como Chelsey, embora ela tivesse mais experiência. Mas Chelsey não tinha problemas com isso. Sério. Eles poucas vezes se cruzavam, no fim das contas. Ela trabalhava no suporte à vara de família, e Doug, na divisão de narcóticos. Ela se lembra de um dos piqueniques do pessoal da delegacia. Quando eles eram jovens. Quando Lydia, a irmã de Chelsey, ainda estava viva. Doug estava com um grupo de garotos, zombando de Chelsey. Eles ficavam perguntando se ela havia chegado em uma caixa de bentô. Chelsey era adotada. Japonesa nata. O restante de sua família era composto de gente loira de pele leitosa. Mesmo agora, mais de trinta anos depois, a lembrança é visceral. A melancia azedando em seu estômago. As nuvens 13


cobrindo o sol. As risadas vertidas em lágrimas derramadas de um modo silencioso, sob um carvalho. Depois disso, Chelsey passou a andar cabisbaixa, com o olhar mirando o chão. Certa vez, um namorado fez troça de sua postura, imitando a maneira como ela se curvava. Desde então, Chelsey precisou percorrer um longo caminho. Ela ainda se lembra de Doug, de seu ex-namorado e de outras pessoas iguais a eles, com seus tentáculos ávidos para contê-la. “Chelsey, você ainda está na linha?” Ela engole saliva duas vezes. “Estou.” “Se for Ellie Black, mesmo, quero que o responsável seja encontrado. Quero que ele seja preso, e quero logo.” Chelsey se irrita com o comando, mas repele aquele sentimento. “Entendido.” Ela enfia os braços nas mangas da blusa, mantendo o celular em uma das mãos. “A imprensa vai ficar em cima da gente”, ele continua. “Vão ficar de olho. Eu também estarei atento. Portanto, não vou admitir erros.” “Vou te manter informado.” “Certo”, diz ele. Chelsey desliga, termina de se vestir e prende o cabelo em um rabo de cavalo baixo e apertado. Sapatos. Cadê os sapatos? “Eu ouvi direito? Acharam Ellie Black?” Noah a segue pelo apartamento. É um lugar legalzinho. Provisório. As paredes são brancas. O teto é chapiscado. Tem um sofá. Uma mesa de jantar. Em essência, as tralhas de Noah, incluindo dois pôsteres emoldurados de Battlestar Galactica — um com um punho erguido com as palavras assim dizemos todos embaixo, e outro com uma silhueta de uma bela mulher, uma Cylon, que declara nunca esqueça quem é o inimigo. Tanto Chelsey quanto Noah são geeks vidrados em ficção científica. “Ainda não averiguaram”, diz ela a Noah. Não acontece com frequência, mas houve uma ou duas ocasiões na carreira de Chelsey em que alguém apareceu alegando ser algum desaparecido, na expectativa de arrancar dinheiro de pais aflitos. Poucas semanas após o desaparecimento de Ellie, os pais dela hipotecaram a casa 14


para oferecer uma recompensa de cinquenta mil dólares. Bem, o momento não é favorável a fraudes. Ellie não sumiu por tempo suficiente a ponto de estar fisicamente irreconhecível. Dois anos, duas semanas e um dia, para ser exata. Chelsey mantém um calendário em que marca o aniversário de seu sumiço. “Jesus, quais são as chances?” Noah para perto da lareira. Na cornija, há fotografias — uma de Noah usando beca e capelo, de quando conquistou o título de mestre, e outra dele e de sua família num rodeio, os pais e todos os seis filhos usando jeans e chapéu de caubói. Uma foto no cartório, quando ele e Chelsey selaram um casamento discreto. E, por último, uma de Chelsey adolescente, camuflada da cabeça aos pés, com um rifle pendurado no ombro e um cervo morto no chão — sua primeira morte. Seus anos no ensino médio da Coldwell High School foram chumbo grosso, arrancando muito seu couro e carecendo de muitas orientações da bússola para achar o rumo de casa. Chelsey atravessa a sala e vai até a cozinha, onde os restos do curry do jantar ainda temperam o ar. Há um cofre sobre o balcão laminado. Ela gira o seletor; lá dentro, ficam sua arma e o coldre. Noah esfrega a nuca. Ele se sente desconfortável na presença de armas de fogo, embora tenha crescido em uma chácara, atirando em coiotes nos fins de semana, e apesar de ter se casado com uma policial. “Acho que não vai dar tempo de a gente olhar nenhuma casa amanhã, né?” Ele pega as chaves de Chelsey de cima do balcão e as entrega a ela. Ela segura as chaves. “Desculpe.” O pedido de desculpas é seco. Eles namoraram durante um ano e meio. Estão casados há pouco mais de seis meses e, desde então, têm se dedicado à missão de encontrar uma casa nova. Um lugar para se estabelecer de vez. Chelsey botou defeito em todas as propriedades visitadas até agora. “Tudo bem. Eu entendo…”, ele diz, mas a decepção se instala nos olhos dele. Quando você se casa com um policial, há centenas de versões do casal no relacionamento — você, ele e todos os casos e os familiares atrelados a eles, como a mãe de Chelsey costumava dizer. “Não sei quando vou conseguir remarcar”, ela diz. 15


Ele coça a testa. “Não se preocupe com isso.” Mais uma vez, há um lampejo na expressão dele. Será que Noah está se cansando dessa dança? Desse recuo de Chelsey toda vez que ele tenta dar um passo adiante? Quando se conheceram, foi assim também. Noah sempre tentando acompanhar o ritmo de Chelsey. Naquela noite, dois anos atrás, o Peet’s estava lotado. Era a véspera da promoção de Chelsey, a investigadora. Ellie Black desapareceria no dia seguinte. Os policiais lhe deram muitos tapinhas nas costas, parabenizando-a e se oferecendo para lhe pagar uma rodada de cerveja, mas ela recusou. Já havia ficado tempo demais ali no bar. Noah se aproximou do balcão, se espremendo ao lado dela. “Meu nome é Noah”, ele se apresentou. “Acabei de terminar meu mestrado. Sou professor substituto no ensino médio, mas estou procurando algo em período integral.” Chelsey sempre desconfiava de pessoas que davam informações demais, assim, de cara. “Quero dar aulas de educação física”, ele gritou, acima do barulho. Chelsey sinalizou para Tim, o barman, para ele fechar a conta. Noah levou a mão ao peito, num gesto de ofensa fingida. “Você está indo embora? Foi o lance do professor de educação física?” “Não, nada contra professores”, disse Chelsey, rabiscando seu nome na conta. Tim botou uma embalagem de comida para viagem na frente dela. “Diga ao chefe que mandei um oi”, disse Tim, olhando para Noah. Ela agradeceu e, então, voltou a olhar para Noah. “Tenho que levar o jantar para o meu pai”, ela disse. O pai dela estava no meio de uma quimioterapia e mais doente do que um cão sarnento. Irritado pra burro. Para ele, quase tudo tinha gosto de metal. Ele só conseguia comer asinhas de frango apimentadas e balas azedinhas. Ela foi abrindo caminho entre a multidão, e Noah a acompanhou. “Deixe-me acompanhá-la”, ele insistiu quando já estavam lá fora. A respiração dele soltava um vaporzinho no ar da noite primaveril. Noah estava com as mãos enfiadas nos bolsos. Ela fez uma pausa e o encarou. 16


“Sinto-me lisonjeada, mas não estou interessada em namorar agora. Meu trabalho é agitado. Meu pai está com câncer…” Chelsey esperava que a palavrinha com C cumprisse sua função. Que fosse assustar Noah. Dando um sorriso, ele se empertigou. “Deixe-me acompanhá-la”, repetiu Noah. “Eu te ajudo.” Ela riu dele. “Por acaso, parece que eu preciso de ajuda?” “Não, mas, em regra, as pessoas resistentes assim são as que mais precisam de ajuda.” Ela não queria gostar dele. “Você sofre de síndrome do salvador?” “Só com mulheres bonitas.” Após dizer isso, sorriu, e, então, ela viu seus dentes brancos cintilando em contraste com a barba. “Tá bom, então.” Disse, lhe concedendo permissão para acompanhá-la. Ele largou o próprio carro no bar, e ambos seguiram no carro dela. Chelsey fez questão de deixar sua arma visível. Ele assobiou baixinho quando viu a casa. “Lugar legal”, ele comentou, olhando o telhado de duas águas. “Venha.” Ela destrancou a porta. O pai dela estava no sofá, vendo o seriado Homeland na tv. “Quem diabos é você?”, o pai dela sibilou ao ver Noah. Ele estava careca, com as bochechas fundas e a pele pálida. Um tanque de oxigênio descansava ali do lado; a cânula nasal tinha sido descartada em uma almofada cor-de-rosa. A mãe dela adorava aquele sofá. “Pai”, ela o repreendeu. “Você deveria estar usando isto aqui.” Ela colocou a mangueira de volta na cabeça dele. “Fiz uma pergunta”, berrou o pai. “Este é o Noah. Ele me seguiu até aqui em casa.” O pai dela se recusou a apertar a mão de Noah. “Câncer, hein?”, disse Noah, relaxando o braço junto ao corpo. “Na chácara onde eu cresci, um cavalo nosso teve câncer. Ele gostava dos comprimidos de canabidiol que o veterinário receitava. Talvez eles te ajudem.” “Você está me comparando a um cavalo, rapaz?” 17


Chelsey tentou não interferir. Ficou esperando para ver como Noah lidaria com a situação. Se ele pediria uma carona de volta ao bar. Ela sequer havia tirado o casaco, já na expectativa de ter que sair de novo. “Não, senhor”, respondeu Noah, sério e estoico. “O cavalo era muito mais legal.” Atônito, o pai de Chelsey deu uma gargalhada, tossiu, engasgou-se com um pouco de sangue e convidou Noah para se sentar. Chelsey piscou para afastar aquela lembrança e encarou Noah, com as chaves soltas em sua mão, agora. “Preciso ir.” Noah deu um beijo na bochecha de Chelsey e disse “Se cuida!”. É o que ele sempre diz. Um pedido fútil. Como se ela pudesse deter uma bala, um soco ou um carro guiado por um bêbado com seu pezinho de chumbo no acelerador. Ela meteu os pés nos sapatos e desceu correndo as escadas rumo à noite fria. Noah esperou no topo, encostado no batente da porta. Ela o manteve em seu campo de visão enquanto entrava no carro, um Oldsmobile herdado do pai. No vidro traseiro tinha um adesivo escrito Firefly. Noah trouxera para ela no terceiro encontro deles. Durante aquele jantar, ela se abrira para ele a respeito das responsabilidades de ser policial. Tinha desabafado pra valer. Depois, eles levaram as sobras do jantar para o pai dela. Então, enquanto o velho dormia, perdido no éter da analgesia, Chelsey acompanhou Noah até a caminhonete. Lá, ele a beijou. A noite estava tranquila, calma, preta e cintilante como cetim. Ela desabotoou a blusa. Ele abriu a porta do carro. Eles entraram, tiraram as roupas e movimentaram os quadris em sincronia. Ela se apaixonou por ele bem rápido. Na maior parte do tempo, Chelsey compartilha tudo com Noah. Ele sabe sobre Lydia, a irmã dela falecida. Sabe sobre o divórcio dos pais dela. Sabe que, no dia seguinte ao aniversário de 18 anos de Chelsey, a mãe dela fugiu para Scottsdale. Sabe sobre a morte do pai dela porque esteve presente enquanto o câncer o levava. E Noah sabe que ela herdou a casa depois da partida do pai, um lugar com quarenta anos de móveis ultrapassados e lembranças ruins. 18


Mas ele não sabe de tudo. Ao volante, Chelsey acena para Noah, engolindo em seco contra a culpa e o medo. Sente o gotejamento lento do pavor. Ela não quer perdê-lo, mas não vai ser capaz de segurá-lo sem abrir mão de outra coisa. Ela liga o carro, engata a ré e sai, com Noah encurralado na armadilha de seus faróis.

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EMIKO JEAN O RETORNO DE ELLIE BLACK

CAPÍTULO DOIS

Chelsey está dirigindo para Olympia há trinta minutos, quando, enfim, relaxa as mãos no volante. Não há trânsito, exceto por alguns caminhões ocasionais. Também não há postes de iluminação na estrada de pista dupla. Ela aumenta a luz dos faróis e se acomoda mais confortavelmente no assento. Essa faixa estreita de terra é o único acesso a Coldwell. Um lado é formado por árvores escuras e penhascos cinzentos que brilham ao luar prateado, e o outro é o oceano de crista branca, protegido por uma guarda de metal retorcido bem frágil. Um dia, um tsunami vai varrer essa estrada, e Coldwell ficará encalhada. Ela respira fundo. Conhece o caminho de cor, e agora pode se permitir afundar no banco. Deixar correr solto. Perder-se nas lembranças. Ellie Black. Ela se lembra do primeiro chamado, dois anos atrás, um dia depois de conhecer Noah. O crepitar do rádio e a voz rouca do despachante anunciando que uma garota de 17 anos não tinha voltado para casa depois de sair para dormir na casa de uma amiga. Chelsey de imediato fez o retorno pela Main Street e foi direto para a casa dos Black, serpenteando pela emaciada Coldwell. Não conseguia se lembrar de quando foi que a cidade começou a mudar. A erosão era lenta, a ação da água estava desbastando as rochas. Primeiro, a equipe das escolas foi reduzida em 30%. Depois, a biblioteca fechou. Em seguida, fecharam o centro recreativo. No passado, quando Chelsey era jovem, ali era 20


um local bem movimentado. As crianças nadavam na piscina durante o verão. Jogavam futebol no outono. Basquete no inverno. Faziam artesanato na primavera. Agora, o prédio estava fechado, sucumbindo devagar à água salgada e às tempestades. E as crianças? Eram obrigadas a ficar na internet ou a brincar na floresta. Os Black moravam no lado norte da cidade, em um bairro povoado sobretudo por famílias de pescadores e funcionários das fábricas de conservas. As casas ficavam escondidas por trás de zimbros crescidos, gramados amarronzados e cercas de arame. Chelsey bateu à porta dos Black. A varanda encharcada chapinhava sob seus pés. Doug atendeu. Naquela época, ele ainda usava o uniforme de policial, ainda não tinha sido promovido a investigador. “Ei.” Ele a saudou com um sorriso largo. Ele era jovem, tolo e estava animado além da conta com o caso. Contente por ter sido o primeiro a chegar à cena do crime. “Já comecei a colher os depoimentos”, ele disse. “Deveria ter esperado por mim”, Chelsey ralhou. As bochechas dele ficaram da cor de salmão. “Desculpe.” Jimmy, o pai de Ellie, apareceu, contornando Doug para se apresentar. “Jimmy Black.” Ele estendeu a mão, e Chelsey a apertou. “Detetive Calhoun, do Departamento de Polícia de Coldwell.” Jimmy semicerrou os olhos, olhando para ela. “Há quanto tempo você está na polícia?” A aparência juvenil de Chelsey não a favorecia. Sem rugas e surpreendentemente asiática. Ela viu na expressão de Jimmy a dúvida, a impressão que ele tinha de que Chelsey era jovem demais, estrangeira demais. Será que ela ao menos falava inglês? “Já estou servindo há quase uma década”, disse ela, baixando o olhar e, então, voltando a encará-lo. “Eu gostaria de focar em Elizabeth. Podemos falar sobre o caso dela?” Mais tarde, ela se orgulhou disso. Tinha conseguido se manter serena. Concentrada. Mesmo sendo seu primeiro caso como investigadora. Embora seu coração estivesse martelando, uma batida enervante e imprudente. Às vezes, ela se perguntava por que se sentia tão pequena. Queria saber quais mãos a moldaram, quais a desgastaram. Aquilo pareceu o suficiente para Jimmy. Ele a deixou entrar. “Obrigado por vir, detetive.” 21


“Pode me chamar de Chelsey”, disse ela, entrando com passos lentos na sala de estar. Kat, a mãe de Ellie, estava lá, sentada em um sofá de veludo azul desbotado, com uma caneca de café intocada nas mãos. Jimmy afundou ao lado da esposa, perto o suficiente para tocá-la, mas sem tocá-la. Ambos estavam tensos, como se estivessem se preparando para uma tempestade iminente. Chelsey se acomodou em uma poltrona xadrez gasta em frente a eles. “Contem-me o que está acontecendo”, ela pediu. “A central disse que a filha de vocês não voltou para casa.” Doug ficou postado perto da porta, com as mãos no cinto, os pés afastados e o peito estufado. Kat olhou para sua caneca. “Tentei ligar para Ellie”, ela começou a falar, com uma voz vazia que Chelsey reconhecia como choque. “A gente sempre acha que esse tipo de coisa só acontece com os outros. Então, liguei para India.” De onde estava, Chelsey via a cozinha, onde uma lixeira de reciclagem transbordava de garrafas vazias — de vinho, uísque, tequila. Um dos armários estava quebrado, como se tivesse sido atingido por um punho. Chelsey ergueu o queixo, apontando para o estrago. “O que aconteceu com seu armário?” “Fiz um buraco nele”, explicou Jimmy, com tranquilidade. Ele estava calmo demais? “Eu estava irritado.” “Antes ou depois de Ellie desaparecer?” O ar na sala pareceu estagnar; depois, começou a pulsar. Kat baixou a cabeça. De vergonha? Constrangimento? Medo? “Antes”, respondeu Jimmy, com a voz baixa. “Não tenho nada a esconder. Você quer colher impressões digitais? Quer revistar a casa? Vá em frente.” “Tudo bem. Eu gostaria de dar uma olhada. Em especial no quarto de Ellie, mas posso esperar”, disse Chelsey. Ela botou Jimmy no final da fila de suspeitos. Então, se voltou para Kat. “Quem é India?” Kat engoliu em seco. “Eu não a conheço bem. Ellie não tem muitos amigos. Eu ouvi o nome dela pela primeira vez há uma semana. Graças a Deus, eu insisti para Ellie me dar o número de telefone dela. Ellie ia passar 22


a noite na casa da India. Mas India disse que a última vez que viu Ellie foi em algum hotel de beira de estrada. Estavam dando uma festa.” Kat pousou sua caneca na mesa de centro, emitindo um ruído alto. “É como se eu estivesse em algum universo paralelo. Como isso está acontecendo?” Há muitas formas de arrancar informações de uma pessoa. No entanto, Chelsey decidiu se conter. Kat não tinha muito mais o que revelar, e Jimmy nem estava em casa na hora da possível ocorrência, tinha saído para trabalhar. “Tenho certeza de que Ellie vai aparecer. Você sabe como as garotas são”, Doug supôs. “Elas têm ideias malucas e fogem o tempo todo.” Chelsey contraiu os lábios, odiando a suposição de que, ao nascer mulher, você se torna automaticamente culpada de alguma coisa. Jimmy se levantou, com as mãos em punhos. Ele era um cara grandalhão e mantinha um taco de beisebol perto da porta da frente. “Ela não é assim. Minha filha não é dessas.” Ele avançou até onde Doug estava. “Ellie não fugiria assim.” Chelsey foi rápida ao se colocar entre eles; a imponência de seu um metro e meio apartou os dois homens. Ao mesmo tempo, ela focou o taco, calculando quantos passos Jimmy precisaria dar para pegá-lo — três, talvez dois. “Oficial Abbott”, disse ela, “por que você não vai dar uma voltinha?” Era uma pergunta retórica. “D-desculpe”, gaguejou Doug, levantando as mãos. “Eu não quis ofender.” Depois disso, ele ficou no gramado, olhando o celular. Doug gostava de fazer vídeos e postá-los nas redes sociais. Jesus Cristo. Ele era o típico filho do meio, sempre disposto a agradar. “É verdade o que ele disse?” A esperança brilhou nos olhos de Kat. “Isso acontece o tempo todo?” Em situações como aquela, as estatísticas eram as melhores aliadas de Chelsey. “No que diz respeito às meninas da faixa etária de Ellie, de 16 a 21 anos, elas voltam para casa em 81% das vezes.” Ela não acrescentou que as chances diminuíam para meio por cento depois de 24 horas. Era melhor deixar as coisas se desenrolarem com naturalidade. “Agora, contem-me mais sobre Ellie.” Kat listou vários fatos pouco relevantes. “Ellie é cabeça-dura. Teimosa, às vezes. Suas notas não são ótimas, mas ela é muito inteligente. 23


Jimmy, você se lembra de quando ela tirou uma nota alta na prova de redação na quinta série? Ela não tem muitos amigos, mas seu namorado, Danny, a adora.” Todos aqueles detalhes para mostrar o quanto Ellie era especial. Uma prova de que ela merecia ser procurada, ser encontrada. Kat, é claro, não fazia ideia de que todo caso era atrelado a um valor monetário. Um cálculo meticuloso, no qual a importância da vítima era multiplicada pela riqueza de seus pais e, depois, dividida por sua raça e sua religião. Quanto mais pobre e escura a garota, menos fundos e tempo o departamento disponibilizava para seu resgate — afinal de contas, o público fica um pouco menos indignado quando uma moça com tais características desaparece. Talvez a mãe de Ellie pressentisse isso — algumas filhas valiam mais que outras. Chelsey não concordava com esse ponto de vista. No entanto, aceitando ou não, era uma realidade, ainda que ela preferisse não acreditar nela. Chelsey revistou o quarto de Ellie e saiu logo depois, prometendo ligar quando tivesse mais informações. Não era uma emergência. Ainda não. Os sapatos, o celular e o sangue de Ellie ainda não haviam sido encontrados. Kat ainda não tinha chorado aquele tipo de choro soluçado que toma conta do nosso corpo inteiro. E toda a existência dos Black ainda não tinha sido destilada a uma vida que goteja dia após dia. Ainda assim, Chelsey logo efetuou o procedimento-padrão, entrevistando todos os que tinham visto Elizabeth pela última vez. Começando por India. “Olha… Ellie e eu só saímos juntas algumas vezes. Nós nos divertíamos juntas, mas não somos íntimas”, disse India através de uma frágil porta de tela. India tinha cabelos loiros-claros, daquele tom que vem em caixinhas, e um pequeno piercing prateado no nariz, que refletia um pontinho de luz. Chelsey sentiu cheiro de bebida alcoólica emanando dela, não fresco, mas expirando pelos poros. India estava de ressaca. “Mas foi tudo ideia de Ellie”, continuou ela. “O quê?”, cutucou Chelsey. Uma gaivota trinou e pousou no quintal. “A festa. Eu providenciei nosso transporte, só isso. Eu não sou a guardiã dela.” 24


"Entendi." A garota estava mais preocupada com a possibilidade de estar encrencada do que com o desaparecimento de Ellie. “Olha, eu não quero saber da festa. Se você bebeu, se usou drogas…”, Chelsey garantiu a ela. “Só quero encontrar Ellie.” Aquilo acalmou India o suficiente, a ponto de ela ter concordado em enviar fotos da festa para Chelsey. Chelsey usou as fotos para estabelecer parte da cronologia. Às 23h31, o último momento em que Ellie foi capturada pela câmera no quarto do hotel. Às 23h39, ela foi embora. Num minuto, estava lá e, então, não estava mais, uma borboleta carregada pelo vento. Depois, Chelsey interrogou Daniel Partridge, o namorado de Ellie. “Eu estava em casa dormindo”, ele declarou, sacudindo uma perna. Eles estavam na casa dele, sentados em bancos de madeira junto a uma pequena mesa embutida com talos de trigo esculpidos nas laterais. “Tem alguém que pode confirmar seu paradeiro?” Chelsey olhava para ele sem piscar. Lydia, sua irmã, costumava chamar aquela expressão de cara de raposa. A maioria dos crimes é perpetrada por algum conhecido da vítima. Danny parecia um cara legal. No entanto, o perigo mora exatamente nos caras legais. Os maus costumam trazer seus crimes na manga, junto a toda a sua bagagem emocional complexa. Já os caras legais escondem as coisas muito bem escondidas. Daniel parou de sacudir a perna. Semicerrou os olhos. “Meus pais estavam trabalhando, mas minha mãe trouxe o jantar.” Os pais dele eram donos de um bar e restaurante na Main Street. Alguns meses antes, Chelsey se lembrou, o Fishtrap tinha sido vandalizado, as frases pele vermelha e voltem pra reserva foram pintadas nas vitrines da frente com tinta laranja neon. Os Partridge eram da etnia Chinook. Eles limparam a pichação, instalaram câmeras de segurança e penduraram a bandeira de seu povo na fachada. “Gostaria de ligar para a sua mãe, se você não se importar”, disse Chelsey. “Para confirmar seu depoimento.” Danny pulou do banco e começou a abrir as gavetas da cozinha até encontrar um pedaço de papel e uma caneta com o logo de uma loja de iscas e equipamentos de pesca. Rabiscou o nome e o número de telefone de sua mãe e jogou o papel sobre a mesa como se fosse um desafio. “Aí está.” 25


Ele se sentiu ofendido. Mas, a princípio, todos eram suspeitos. Ela havia verificado até mesmo os depoimentos de Kat e Jim. Analisou a maneira como eles seguravam suas canecas. Com muita força? De modo muito casual? Que tipo de detalhes eles deram? Eles foram muito prolixos ou muito vagos? A verdade sempre caminha nas pontas dos pés sobre uma linha muito frágil e estreita. Acontece que Danny tinha motivos para ficar na defensiva. Ele não tinha passado a noite toda em casa, conforme havia alegado. Ele estava mentindo. Estava se escondendo atrás de sua indignação. Então, Chelsey falou com os jovens que estiveram na festa e com os professores da escola de Ellie. Os relatos a respeito de Ellie variavam de péssimos a pior que péssimos. “Ela era tão fake, fingindo ser rica”, disse uma colega de turma. “Aquela garota? Eu sempre achei que ela acabaria assassinada, um dia”, disse um professor, tão cheio de si que deixou Chelsey nauseada. A chuva respinga no para-brisa e Chelsey volta ao presente. Ela aciona os limpadores. Está chegando à Olympia. Aproximando-se de Ellie. Mais meia hora, e ela estará no hospital. Só de pensar nisso, ela sente algo apertando seu peito, como um laço. A rodovia se alarga em três faixas. Há mais carros, caminhões, restaurantes de fast-food, hotéis variados e postos de gasolina. Ela olha para o telefone, descartado no banco do carona. Deveria ligar para Jimmy e Kat. Jimmy mantivera contato com Chelsey. Fazia cinco meses que ela tinha visto ele pela última vez. Ele tinha o hábito de visitar a delegacia, de vez em quando. Chegava assim que iniciavam o expediente da manhã, com uma garrafa de café e uma dezena de donuts da Cottage Bakery em suas mãos calejadas. Da última vez, ele os entregara a Suzette na recepção e papeara um pouco com ela, perguntando sobre seu marido e seus netos. Ele se aprumou assim que viu Chelsey, e ela o levou a uma sala privativa e fechou a porta. Sentaram-se frente a frente, com uma mesa entre eles, e começaram seu ritual. No início, era sempre conversa-fiada. “Como você está, Jim?” “Tudo bem”, dizia ele. “E Kat?” 26


“Ah, você sabe… Ela tem seus dias bons e seus dias ruins. Sam e a família dela vão se mudar para cá em breve, e isso a animou um pouco.” Ellie tinha uma irmã mais velha, Sam. Com dez anos de diferença. Elas não eram próximas. Não como Chelsey e Lydia tinham sido. Ela e Lydia podiam não ter compartilhado o sangue, mas compartilhavam todo o restante. “Vocês são como duas ervilhas da mesma vagem”, a mãe delas costumava dizer. “Que bacana”, comentou Chelsey. “E você? Como está aquele seu carinha? Eu vi o nome dele no jornal, soube que o time foi pro estadual.” Noah tinha finalizado seu primeiro ano lecionando na Ilwaco High School e também treinava o time de basquete; havia conquistado uma vaga no campeonato estadual. Ele ficou arrasado quando eles perderam. Então, viajou com os irmãos para a cabana de férias de seus pais a fim de espairecer. “Noah está bem.” Chelsey fez uma pausa, pois sabia muito bem qual pergunta Jimmy tinha vindo fazer. Talvez fosse melhor acabar logo com aquilo. Ela via aquelas conversas como o ato de sacrificar um cachorro velho. Por que adiar? “Não temos nenhuma pista nova, Jim”, ela disse de um modo gentil. “Você sabe que eu teria te ligado se tivéssemos novidades.” Jimmy suspirou e tirou o boné de beisebol, aninhando a aba entre as mãos. Seu cabelo estava arrepiado em tufinhos de cinza e castanho. “Posso ver?” “Claro.” Chelsey se levantou e pegou a caixa de papelão de 30 x 30 que guardava as provas. Colocou-a na mesa e lembrou a Jimmy de não violar nenhum saco plástico. “Ainda é um caso em aberto.” Jimmy assentiu uma vez. Ele conhecia as regras. E fazia sempre a mesma coisa. Primeiro, ele lia o inquérito. Depois, as declarações das testemunhas. Sempre procurando qualquer coisa que Chelsey tivesse deixado passar. Qualquer pedaço de informação que pudesse ser a chave para escancarar o caso de Ellie. Por último, ele avaliava as provas materiais, manuseando cada pedaço como se fosse uma relíquia em ruínas — um dos tênis de Ellie, seu celular com a tela rachada, uma amostra de cascalho com sangue, os prints das imagens das câmeras de segurança do hotel e da igreja pentecostal ao lado do estacionamento onde as coisas 27


de Ellie foram encontradas. Os caminhões e os carros espalhados bloqueavam toda a vista de Ellie. Chelsey chegou a ir atrás de todos os donos de cada placa que conseguira identificar. Ninguém tinha visto nada. “Apenas me diga que você ainda acredita que ela está viva por aí.” Chelsey começou a colocar o conteúdo de volta na caixa. Seriam aquelas as últimas coisas que Ellie havia segurado? O que aqueles objetos diriam se pudessem falar? Quais segredos eles poderiam sussurrar? “O caso ainda está aberto. Só vou parar de procurar quando Ellie for encontrada”, ela prometeu, porque acreditava… e talvez estivesse sendo tola, mas ela precisava acreditar. Tinha sido talhada pelo fio da navalha da esperança. Naquela última vez, Jimmy apenas assentiu de modo solene e pediu licença para sair, vacilante. Chelsey deixou que ele fosse embora, sem dizer mais nada. Tinha aprendido o suficiente para saber que Jimmy Black, assim como a maioria dos homens, precisava de privacidade quando desmoronava. Chelsey respira fundo, se desvencilhando das lembranças enquanto para em um sinal vermelho. Há uma placa do hospital Legacy Memorial afixada no cruzamento. É chegada a hora. Ela pega o celular e liga para os Black. O telefone toca e toca. Dois anos. Duas semanas. Um dia. Depois do desaparecimento de Ellie Black, Chelsey passou a ser voluntária em todo e qualquer caso que envolvesse violência contra mulheres. E trabalho era o que não faltava. Todas aquelas mulheres espancadas, aquelas mulheres machucadas, todas aquelas mulheres mutiladas eram amparadas por Chelsey. Chelsey achava que era um tipo de expiação. Ela não tinha conseguido salvar Lydia. E ela não estava conseguindo resolver o caso de Ellie. O telefone dos Black, enfim, é atendido. “Alô”, diz Jimmy. Uma televisão berra ao fundo, mas a voz dele está rouca de sono. “Ei, Jim, é a Chelsey. Kat está por aí? Tenho notícias.” Ela fica esperando Jimmy acordar Kat e pensa na filha deles. Vislumbra Ellie espiralando em sua mente. Lá está ela, parada à sombra de uma curva deserta. Calada. Esperando sua vez de falar. Sim, é chegada a hora. 28


ELA VOLTOU PARA CASA, MAS ALGO CRUEL FLORESCEU DENTRO DELA Um thriller psicológico sombrio, intenso e surpreendente. A detetive Chelsey Calhoun, marcada pelo desaparecimento da própria irmã, investiga o retorno súbito de Ellie Black, outra menina sequestrada há dois anos. Ellie está viva, mas completamente calada. A detetive sabe que seu silêncio esconde verdades e segredos perturbadores que ameaçam mais vítimas. Com um ritmo raro e viciante, o livro mistura um suspense afiado com uma reflexão profunda sobre o impacto duradouro da violência contra as mulheres.


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O Retorno de Ellie Black - Book Preview by DarkSide® Books - Issuu