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O Inferno Que Nos Persegue

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ANDREW JOSEPHWHITE

hell followed with us

Copyright © 2022 by Andrew Joseph White

All rights reserved.

First published in the United States under the title hell followed with us by Andrew Joseph White. Published by arrangement with Peachtree Publishing Company Inc. All rights reserved.

Arte da capa © by Evangeline Gallagher Design original da capa por Melia Parsole

Tradução para a língua portuguesa © floresta, 2023

Diretor Editorial Christiano Menezes

Diretor Comercial Chico de Assis

Diretor de MKT e Operações

Mike Ribera

Diretora de Estratégia Editorial

Raquel Moritz

Gerente Comercial

Fernando Madeira

Coordenadora de Supply Chain

Janaina Ferreira

Gerente de Marca

Arthur Moraes

Gerente Editorial

Bruno Dorigatti

E ditora

Marcia Heloisa

Adap. de Capa e Proj. Gráfico Retina 78

Coordenador de Arte

Eldon Oliveira

Coordenador de Diagramação

Sergio Chaves

Designer Assistente Jefferson Cortinove

Finalização

Sandro Tagliamento

P reparação

Marta Almeida de Sá

Revisão

Yonghui Qio

Retina Conteúdo

Impressão e Acabamento Leograf

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852

White, Andrew Joseph O inferno que nos persegue / Andrew Joseph White ; tradução de floresta. — Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2023. 320 p.

ISBN 978-65-5598-324-1

Título original: Hell Followed with Us 1. Ficção norte-americana 2. Literatura fantástica 3. Horror I. Título II. floresta

23-4949

Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2023]

Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento LTDA. Rua General Roca, 935/504 — Tijuca 20521-071 — Rio de Janeiro — RJ — Brasil www.darksidebooks.com

CDD 813

tradução floresta

Para as crianças que afiam os dentes e mordem. — A.J.W.

NOTA DO AUTOR

Quando ateamos fogo, inalamos um pouco da fumaça. Sou muito a favor do fogo e de queimar tudo o que pode ser queimado, mas, conselho meu, tenha cuidado quando for derramar o querosene.

Este livro contém representações de violência explícita, transfobia, abuso doméstico e religioso, automutilação e tentativa de suicídio.

O Inferno que nos Persegue é um livro que fala de sobrevivência. É um livro sobre crianças queers no fim do mundo tentando viver o suficiente para crescer. É um livro sobre as coisas terríveis que as pessoas fazem em nome da crença e do privilégio. Então, se você acha que algum dos assuntos citados aqui pode te queimar, eu respeito a sua decisão de recuar. Na verdade, eu o admiro — eu nunca fui tão cuidadoso.

Entretanto, se você se aproximou ainda mais, o suficiente para sentir o calor nas bochechas…

Escrevi este livro por alguns motivos: porque queria que houvesse mais histórias sobre meninos como eu. Porque eu estava com raiva. Porque eu ainda estou com raiva. Mas, principalmente, eu queria mostrar para as crianças queers que elas podem atravessar o inferno e sair vivas. Talvez não inteiras, talvez transformadas para sempre, porém, ainda assim, vivas e dignas de amor.

É isto o que você vai encontrar aqui. Coisas terríveis, sobrevivência, amor e um futuro pelo qual vale a pena lutar.

Afie seus dentes, acenda seu fogo e vamos nessa!

Um abraço, Andrew

E assim deus falou conosco — pois, mais uma vez, falhamos com Ele, mais uma vez, ele se arrepende de suas criações, então, mais uma vez, a Terra deve inundar! E nós realizamos Sua empresa sagrada, amém!

— Alto reverendo padre Ian Clevenger, antes de liberar o vírus Dilúvio na Times Square Não temas.

Josué 1:9, Bíblia King James

CAPÍTULO 1

Vocês retornarão à terra, pois dela foram tirados; pois do pó foram feitos e ao pó retornarão. — Oração angelical

É isso o que acontece quando você é uma pessoa criada como Anjo: você não processa o luto.

O luto é um pecado. A perda é criação de Deus, e chorar as pessoas mortas é insultar a visão Dele. Entrar em desespero diante da vontade Dele é um sacrilégio. Como você ousa trair o plano de Deus lamentando o que Ele pode tirar porque sempre foi Dele? Herege infiel e repugnante, deveriam pendurar você no muro para as pessoas descrentes verem o que as aguarda. Romanos 6:23 — porque o salário do pecado é a morte .

Então, a imagem do corpo do meu pai queima nas dobras do meu cérebro, se inscreve por entre os sulcos das minhas digitais, e eu engulo essa imagem em seco até me engasgar. Os Anjos bloqueiam aquelas partes de nós que se lembram de como é chorar até não podermos mais. Nós aprendemos a mascarar o luto, guardá-lo para depois, depois, depois , até que, um dia, nós morremos.

Eu acho que não preciso me preocupar. Se os anjos conseguirem o que querem, todo esse luto logo vai ser problema Dele. E se não conseguirem… Deus, por favor, não…

Estou correndo. Tem sangue do meu pai em minha boca. O irmão Hutch deu um tiro no peito do meu pai para fazê-lo parar e outro na cabeça, para matar. O irmão Hutch grita para mim: “Podemos fazer isso do jeito fácil, podemos mesmo!”. Os outros Anjos varrem a margem do rio, brilhando reluzentes ao sol escaldante de fevereiro, andando de modo lento e confiante pelas ruas. Eles não precisam ter pressa. Eles sabem que vão acabar me pegando.

Um menino de 16 anos contra um esquadrão da morte composto de Anjos? Já era pra mim.

Esbarro em um pilar de pedra que fica perto da margem do rio e me dobro buscando ar. Meu cabelo está grudado na testa, uma gosma de suor e sangue — o sangue do meu pai — secando no meu rosto e em minhas mãos. Meus pulmões queimam. Não sei se o rugido nos meus ouvidos vem do meu coração batendo ou é o barulho do rio.

Meu pai se foi. Ele está morto, ele está morto, ele está morto.

“Deus, por favor”, sussurro até conseguir me fazer parar. O que me faz pensar que Ele vai me responder agora? “Por favor, faça alguma coisa, qualquer coisa…”

“Irmã Woodside!”, chama o irmão Hutch. “Sua mãe está preocupada! Ela quer a filha dela em casa.”

A primeira coisa que meu pai me disse — depois que minha mãe falou que eu logo veria os planos de Deus para a minha mulheridade, que ela talharia essa mulheridade em mim se precisasse — foi que eu sou homem, que lutei por isso e que ninguém poderia tirar isso de mim.

Abra os olhos. Respire. Se acalme, Benji, se acalme.

Os esquadrões da morte ainda não me pegaram.

Eu posso terminar o que meu pai começou.

Eu posso dar o fora de Acheson, da Pensilvânia.

Por trás do pilar, dou uma olhada na rua. O distrito na margem do rio deve ter sido bonito antes do Dia do Juízo Final. Antes do Dilúvio. Agora, a hera sobe pelos arranha-céus de vidro e os carros enferrujam em estacionamentos abandonados que parecerem cemitérios. Os gramados e os jardins se tornaram selvagens, sufocando tudo o que podem alcançar. As flores abrem em fevereiro. É um dos poucos meses bons para elas. Em abril, estarão mortas de sede.

Mas não vejo nenhum Anjo. Ainda não.

O irmão Hutch grita olhando para os céus: “Não queremos machucar você!”.

A única entrada ou saída na parte sul de Acheson é a ponte — a única que os Anjos não destruíram no Dia do Juízo Final. Estou a meia quadra de lá. Os esquadrões da morte estão se aproximando, e a guarda da ponte foi convocada para se juntar à caçada; então, esta é minha única chance. Eu deveria estar fazendo isso junto ao meu pai. A ideia era irmos embora de Acheson juntos. A ideia era irmos até o Condado de Acresfield juntos . Agora, ele é um cadáver no gramado de um hotel em ruínas; seus miolos foram absorvidos pela terra, voltaram para a terra, pois ele foi arrancado dela.

Não posso terminar o que começamos se eu ficar aqui implorando para Deus que as coisas sejam diferentes. Isso não vai trazer meu pai de volta.

Respire.

Corra.

Estou correndo faz dias, mas não desse jeito. Não com as pernas gritando e os tênis batendo na calçada no ritmo dos batimentos do meu coração. Finjo que meu pai está bem atrás de mim, que não posso ouvi-lo porque estou respirando muito pesado, que posso confundir ele com um borrão nas janelas do outro lado da rua.

Chego à boca da ponte. Não paro, só mergulho nos destroços dos carros que obstruem a entrada. A ponte brilha prateada; de suas torres de suspensão pendem fios de metal grossos de uma margem a outra. A ponte pertence aos Anjos agora. Há uma bandeira tremulando bem no alto: deus te ama. Cadáveres balançam enrolados nos fios, seus órgãos estão meio amarelados, meio rosados, dependurados de suas barrigas, para obscurecer sua nudez, como se fossem Adão e Eva com vergonha de seus corpos.

Um dos corpos está todo torcido, a perna, virada em um ângulo estranho, e eu não sei dizer quem fez isso, se os Anjos ou o Dilúvio. O Dilúvio é cruel. E faz coisas terríveis com um corpo.

Não que eu precise de outro lembrete disso.

É uma ponte longa. Quase posso me convencer de que meu pai está me esperando no outro lado, carregando nossas mochilas e se perguntando “ Por que você está demorando tanto? ”. Eu me jogaria sobre ele, e nós correríamos até sair de Acheson, e iríamos para tão longe de qualquer acampamento ou colônia de Anjos que ninguém mais nos encontraria. Meu pai e eu memorizamos um mapa de todos os postos avançados nos estados vizinhos e de todos os fortes principais da América do Norte. Vamos ficar bem. Vamos ficar bem.

“ Ali! ”

Não posso olhar, não posso .

Eu olho.

Sei que o Anjo atrás de mim é o irmão Hutch porque as vestes dele estão manchadas com o sangue do meu pai. Ele carrega um rifle pendurado no ombro, preso em uma alça, e está perto o suficiente para que eu consiga ver os hematomas nas juntas de seus dedos, as manchas em sua máscara.

As máscaras afastam o Dilúvio, mas faz tempo que não uso uma. Não posso ser infectado duas vezes.

“Irmã Woodside!”, grita o irmão Hutch, e os outros Anjos surgem das sombras, das ruínas, das vielas, e eu sigo em frente, sem parar nem por um minuto.

A segunda coisa que meu pai disse — quando finalmente conseguimos escapar, ouvindo os gritos dos monstros e as botas batendo no chão — foi que, se os Anjos querem me pegar, então, eu tenho que fazê-los sofrer por isso.

Ainda sinto o gosto do sangue dele.

Salto as barreiras de segurança no posto de controle dos Anjos e caio com tudo no chão, do outro lado. Aqui atrás tem umas cadeiras de jardim, uma bíblia e algumas garrafas de água. A estrada está cheia de cacos de vidro. Os corpos balançam.

Corra.

Sonhei com o outro lado da ponte, com o modo como seria o outro lado. Meu pai e eu podíamos seguir para o norte e encontrar um lugar para passar o verão. Claro, haveria Anjos, porque haveria Anjos até que a última pessoa descrente estivesse morta, mas nós teríamos o mundo inteiro para evitá-los. Talvez encontrássemos alguém: um belo descrente que se apaixonaria por mim enquanto eu molhasse suas mãos na água morna e enfaixasse suas feridas. Ele seria fofo, um pouco atrevido e queer até não poder mais, e ele não confundiria meus pronomes quando visse meu peito pela primeira vez. Talvez ele fosse loiro, como meu noivo. Mas, na maioria das vezes, não.

Pare. Não pense nele. Não pense no Theo. E nada disso importa mesmo, porque nada disso vai acontecer. Nunca! O Dilúvio vai acabar comigo como acaba com todas as outras coisas, e eu preciso manter o monstro longe dos Anjos. Preciso ir embora, preciso dar o fora daqui, preciso… Um Anjo assobia, e o assobio é recebido com um grito.

Entre os carros mais adiante, um emaranhado de membros se desdobra, guinchando e uivando com toda a desgraça do inferno, lamentando e rangendo os dentes. Uma criatura feita de cadáveres e de Dilúvio

— costelas afiadas alinhadas em suas costas em uma fileira de espinhas, olhos piscando entre os tendões, os músculos tão inchados que rompem a pele — se ergue dos destroços. Garras do tamanho dos ossos de um braço agarram a cabine de um caminhão e a amassam.

Eu paro de correr. Não. Não, não, não . não .

Não uma Graça. Não quando eu estou tão perto.

O que outrora foi o rosto de uma pessoa se abre desde a base do maxilar e vai se rasgando, passando por entre os olhos, e chega até a nuca, deixando à mostra os dentes escurecidos pela podridão do Dilúvio. Ouço, vindo de longe, o som de botas e de gritos, mas não importa. A única coisa que importa é o monstro vindo para cima de mim, pingando uma gosma podre e bloqueando a única saída.

A terceira coisa que meu pai disse — depois que ele descobriu o que eu podia fazer, quando estendi a mão para uma Graça e implorei que ela matasse todos os Anjos que encontrasse pela frente; quando mergulhei em um mar de sangue com uma besta abraçada em mim.

Ele me disse para ser bom.

Para nunca me tornar o monstro que os Anjos querem que eu seja, pois o mal gera o mal que gera o mal.

O som das botas fica mais lento e cessa. Minhas pernas vacilam. Eu caio no chão, pressionando as palmas de minhas mãos na estrada em chamas.

Seja bom. Faça eles sofrerem. Ser bom significa ficar quieto, ser obediente, rejeitar o poder do vírus da mesma forma que Eva devia ter rejeitado a maçã. Fazê-los sofrer significa me apoderar da Graça e levar os Anjos comigo em um arrebatamento de carne e fúria.

Eu poderia acabar com isso. Poderia sussurrar até o outro lado da rua e fazer os Anjos se arrependerem de ter colocado as mãos em mim.

Quase estendo a mão para a Graça, mas…

Meu pai morreu segurando o meu rosto — seu sangue descendo pela minha língua, manchando minhas bochechas, emaranhado no meu cabelo — e me implorando para ser bom.

Ele não está me esperando. Não posso continuar correndo desse jeito. Estou cansado, muito cansado.

O bem vence.

“Eu vou ser bom. Eu vou ser bom. Eu vou ser bom”, digo em voz alta como se isso pudesse fazer o fracasso parecer melhor, como se as minhas entranhas não estivessem gritando para queimar os Anjos no fogo

do inferno, como se, de alguma forma , eu pudesse obedecer a todas as palavras do meu pai de uma vez. “Eu vou ser bom, ó Deus, dá-me a Tua força, me guia e me conduz…”

Um líquido quente escorre pelo meu queixo e eu limpo a boca. Meus dedos voltam pretos e vermelhos.

Um par de botas pesadas surge no canto do meu olho, rodeado por vestes brancas manchadas. Olho para a minha mão, para o horizonte, para o sol nascendo.

É isso o que Ele quer mesmo? Esse é realmente o plano Dele?

O irmão Hutch diz “Sinto muito!”, e quase dá para acreditar nele.

Solto um gemido terrível que vem do fundo da garganta. É o mais perto que chego de chorar nos últimos anos. Além do irmão Hutch e além da Graça, o rio corre, perfeitamente azul, claro e límpido; as montanhas do Condado de Acresfield cintilam verdes e douradas; as asas negras dos pássaros carniceiros brilham ao sol da manhã.

Finjo que meu pai está lá do outro lado. Digo que fui bom e falo para ele ir embora sem mim. Digo que vou encontrá-lo um dia, quem sabe, talvez, eu prometo.

O irmão Hutch diz: “Hora de ir pra casa!”.

CAPÍTULO 2

Em que os Anjos acreditam? Como verdadeiros devotos, nossa prioridade é servir ao senhor. Sabemos que a salvação vem quando servimos a Deus, no cumprimento de Seu comando final. Nós nos chamamos anjos para proclamar nossa verdade em servidão. — Site oficial do Movimento Angelical

É hora de ir pra casa.

O irmão Hutch estende a mão em minha direção. A mão que fechou as mãos da minha mãe em oração, a mão que apertou o gatilho para o meu pai.

Casa significa voltar para Nova Nazaré. Voltar para Theo, para a minha mãe. Todo Anjo em Nova Nazaré cairá de joelhos, implorando para que eu seja abençoado. Theo me aceitará de volta como sua prometida , como se ele não tivesse cuspido em mim e me chamado de vadia mentirosa e ingrata. Minha mãe beijaria o meu rosto, fingindo não notar minhas roupas de menino e o cabelo curto, e então ela me trancaria em uma cela de isolamento até o Dilúvio me transformar em um monstro. Em Serafim. Uma besta de seis asas queimando com o fogo divino, conduzindo as Graças e o Dilúvio para a guerra, abrindo o caminho para o Paraíso através dos corpos das pessoas descrentes.

Eu não seguro a mão dele.

Não quero voltar para casa.

Sinto um aperto no estômago e vomito na estrada. Um vômito amarelo, vermelho e preto que subiu azedo e quente pela minha garganta. Ao meu redor — click, click, clack , um coro de armas destravando. Mas os Anjos não vão atirar. Eles não vão me matar. Só imagino o que as pessoas fiéis fariam com o soldado que me matasse. Ele seria crucificado. Abririam ele, para que visse os vermes se contorcendo em seus próprios intestinos.

“Ei!”, grita o irmão Hutch para os soldados. “Abaixem as armas. Agora!”

Vomito de novo. Não sai nada, só ácido. O irmão Hutch murmura alguma coisa de uma forma tão gentil que chega a dar medo.

“Vamos, vamos”, sussurra. Ele passa a mão entre os meus ombros, fazendo pequenos círculos. “Está tudo bem.”

Minhas primeiras palavras saem em um chiado trêmulo, borbulhando de saliva. “Tira a mão de mim.”

“Tudo bem”, diz o irmão Hutch. “Eu entendo. Ouvi como o seu pai te chamou. Ben, certo? Vou te chamar de Ben, se é isso o que você quer. Sua mãe está preocupada com você, Ben. Ela quer que você volte pra casa.”

Minha mãe não está preocupada comigo . Ela está preocupada com a salvação.

Eu digo: “Apodreça no inferno”.

Isso foi demais. O irmão Hutch rosna e me puxa para cima — não o suficiente para eu ficar em pé nem de joelhos, mas o bastante para olhar nos olhos dele. Seus olhos injetados e cruéis.

“Que tal um acordo?”, pergunta ele. Eu tento me soltar, mas ele me segura firme. “Vou te dar uma escolha. Você pode vir com a gente do jeito fácil ou podemos te levar à força. Você pode se comportar ou eu posso quebrar suas pernas.” Ele está sorrindo. O sorriso faz o rosto dele brilhar de uma forma terrível. Uma máscara jamais poderia esconder isso. “Escolha sua. Como você prefere?”

Tem alguma coisa na bochecha do irmão Hutch. Uma gosma estranha, macia e rosada. Um pedacinho de carne.

Um pedacinho do meu pai.

Eu cuspo na cara dele.

O irmão Hutch solta um berro. A podridão líquida do Dilúvio — saliva misturada com minhas próprias vísceras em decomposição — respinga dentro dos olhos dele antes que ele possa limpar, e eu recebo um golpe tão forte que chego a ver estrelas. Só o que ouço é um guincho agudo. Não consigo me equilibrar, e minha cabeça bate no chão.

“Não é contagioso”, informa um guarda da ponte, tirando as mãos do irmão Hutch do rosto dele. “Não é contagioso, irmão, a irmã Kipling disse…”

Levo um chute e caio de costas. O asfalto quente me queima através da camiseta. O cascalho solto se crava em minhas omoplatas. O salto de uma bota me prende ao asfalto e pressiona o meu estômago como se estivesse tentando apagar uma bituca de cigarro.

Conheço o homem em cima de mim. A cicatriz no nariz dele, seus olhos pequenos, as rugas em sua testa.

“Steve”, sussurro, como se dizer o verdadeiro nome dele, e não “irmão Collins”, pudesse fazer um assassino santo de Deus ser mais bondoso. “Steven. Sou eu. Você me conhece.”

Nós nos conhecemos quando eu tinha 11 e ele tinha 21, porque chegamos a Nova Nazaré quase na mesma época. Eu me lembro de quando ele ganhou as marcas do esquadrão da morte: asas talhadas nas costas, penas desde o ombro até o fim das costelas. Theo olhou para as novas tatuagens da forma como menininhos olham para soldados voltando da guerra. Eu olhei para as tatuagens da forma como as menininhas olham para aquele tio do qual suas irmãs dizem para ficar longe.

Steven cede um pouco, e eu acho que pode ter funcionado, mas ele me segura pelo pescoço e aperta minha cabeça contra seu peito. Ele cheira tanto a suor que quase consigo sentir o gosto.

Um movimento rápido, e aparece uma faca encostada na minha garganta. Bem grossa, com uma lâmina preta brilhando ao sol.

“Você quer tanto ser um menino”, diz Steven. “Acho que podemos começar cortando coisas fora. Não é assim que funciona?”

Não consigo dizer nada. Balanço a cabeça. Não .

“Foi o que pensei. Então, seja uma boa menina e obedeça a ele.”

Desculpa, pai. Desculpa.

Eu digo: “Certo”.

O irmão Hutch pega a Bíblia no posto de controle da ponte enquanto Steven me enfia em um conjunto de roupas brancas e pendura uma máscara nas minhas orelhas — uma máscara de tecido fino usada apenas além dos muros de Nova Nazaré, onde estamos além da proteção de Deus. “ Puta ”, sussurra Steven, olhando para a minha bermuda jeans folgada antes de elas serem cobertas pelas vestes. Os guardas da ponte assumem suas posições atrás das barreiras de segurança, aguardando o enforcamento das pessoas descrentes e permitindo a passagem dos

Anjos mensageiros de acampamentos distantes. O soldado ao lado da Graça atrai a besta, fazendo-a sair de trás dos carros, e seu corpo desfeito pelo vírus treme na brisa úmida que vem da água.

“Senhor”, grita o irmão Hutch, erguendo a mão livre, como se tentasse alcançar os corpos balançando lá em cima. Todo mundo se junta a ele, menos eu. “Senhor, como eu Te louvo; como és grande em Sua misericórdia infinita por nos devolver nosso abençoado Serafim!”

Eu vou ser bom. Eu vou ser bom. Eu vou ser bom. Vou manter Serafim escondido, trancado no meu peito, vou fazer o que for preciso para garantir que os Anjos nunca consigam pegar a arma na qual eles me transformaram.

Mas estou tão cansado de fugir…

O esquadrão da morte me leva para longe da ponte, para longe do Condado de Acresfield, e me conduz pelas ruas de Acheson, em direção à Nova Nazaré. Pergunto se posso me limpar, mas eles não deixam, então, o sangue do meu pai ainda está grudado no meu rosto, no meu cabelo e nas minhas mãos. Sai . Tento limpar nas mangas, mas o sangue grudou nas linhas dos meus dedos e nas dobras das palmas das minhas mãos. Queria enfiar as mãos em água fervente. Sai, sai, sai.

Steven agarra o meu ombro e me sacode. “Cala a porra dessa boca.”

Eu me encolho. Esse linguajar jamais seria permitido dentro dos muros de Nova Nazaré. Mesmo se não fosse falado em voz alta. Minha mãe disse que Deus sabe de qualquer jeito.

Além dos soldados e da Graça que nos segue se arrastando, as únicas coisas que vemos durante a manhã toda são carros abandonados e prédios vazios. Faz só dois anos que o mundo acabou, então, tudo está quase como costumava ser: um monte de adesivos colados em pontos de ônibus, o mato crescendo pelas rachaduras na calçada, as árvores crescendo para fora de seus quadrados de terra no concreto. Um cadáver pendurado em um mastro e letras enormes no prédio atrás dele, gritando: arrependa-se, pecador

É assim que funciona agora. Todo mundo está morrendo, é só uma questão de saber o que vai matar você: os Anjos, o Dilúvio, uma insolação ou uma boa e velha sepsia.

No caso da maioria da humanidade, foi o Dilúvio. A mãe de Theo foi sacrificada no Dia do Juízo Final, e ele sofreu seu luto da única forma que

era permitido: aprendendo tudo. Que o Dilúvio matou bilhões de pessoas, com gente missionária como a mãe dele levando o vírus para todas as cidades grandes do mundo. Que o vírus mata você quando um novo conjunto de costelas cresce e fura seus pulmões ou que algumas poucas pessoas azaradas sobrevivem o suficiente para encontrar a salvação na forma de uma Graça. Que os esquadrões da morte se infectam com um gostinho do Dilúvio em seu ritual de iniciação, caminhando na linha tênue entre ficar um passo mais perto de Deus e sucumbir à doença…

Que Serafim é um equilíbrio entre a necessidade do Dilúvio de devorar e sua necessidade de sobreviver — faminto o bastante para me transformar em um monstro, paciente o bastante para fazer isso direito. Porque a irmã Kipling fez do Dilúvio um vírus poderoso e criou um Serafim perfeito.

Ela me fez perfeito.

A Graça grunhe, balançando que nem um cavalo espantando moscas. Eu devo bater na altura de seu peito curvado. Quando a boca dela está fechada, consigo enxergar resquícios da pessoa — das pessoas — que ela costumava ser. Dentes humanos entre presas serrilhadas. Os restos de um nariz pequeno e arredondado.

O irmão Hutch percebe que estou encarando. Desvio o olhar, mas não adianta. Ele começa a andar mais devagar para acompanhar o meu passo. À nossa frente, dois soldados olham um mapa, cochichando sobre emboscadas que já ocorreram e novos caminhos pela cidade.

Acheson tem devorado os Anjos ultimamente.

“Não é incrível?”, cantarola o irmão Hutch, estendendo os dedos na direção da Graça. “A nova vida que foi dada pra essas pessoas? Nosso Senhor foi muito misericordioso por permitir que elas nascessem de novo, que se tornassem guerreiras em nossa luta pelo plano Dele. Como você.”

Como eu . Foi para isso que fui escolhido. Para o vírus me transformar em um monstro que vai conduzir os Anjos ao Paraíso.

Que vai varrer a humanidade da Terra de uma vez por todas, como Deus mandou.

* * *

Um pouco depois do meio-dia, o mais jovem do esquadrão pede um descanso. Estamos em uma rua larga com restaurantes e escritórios hipsters com logos estranhos. Alguns foram abandonados bem antes

do Dia do Juízo Final, graças à inflação em disparada, ao preço dos aluguéis e a tudo o mais, na verdade. Cartazes sobre a conservação da água e chamadas abertas para protestos descascam nas paredes, ao lado de avisos de despejo e placas comunicando falência. Não vejo nem um corpo e nem uma propaganda dos Anjos por algumas quadras. Deve ser um caminho novo.

“Estou com sede”, reclama o soldado mais jovem. Estou tentando saber quem ele é o caminho todo, mas não consigo. Ele é irmão de quem? Filho de quem? “Meus pés doem.”

Steven empurra uma garrafa de água contra o peito dele. “Então, bebe. E para de reclamar.”

Eu também não faria uma pausa se estivesse escoltando minha melhor oportunidade de vida eterna. Mas o irmão Hutch diz: “Ele está certo!”. O olho de Steven contrai por cima da máscara dele. “Não adianta a gente se cansar tanto. Ainda estamos a uma hora da Reformada.”

Reformada? Ele quer dizer Igreja Evangélica da Fé Reformada. As memórias do lugar voltam muito rápido, feito o vômito no fundo da minha garganta. Eu devia ter previsto isso. A Reformada fica no meio do caminho entre a ponte e Nova Nazaré; é o lugar perfeito para descansar nesta cidade bestial, e, se entrar naquele lugar, vou enlouquecer. Se eu tiver que entrar em qualquer igreja de novo…

“Sentem”, ordena o irmão Hutch. “Comam, descansem. Todos vocês.”

“Graças a Deus”, diz o mais jovem, que imediatamente se joga contra o capô de um sedã todo furado de balas. Os outros reviram os olhos para ele. Ele é bem magro e esquisito, não muito mais velho que eu. Talvez tenha acabado de passar pelo treinamento, talvez suas asas ainda estejam doloridas, talvez tenha sido designado para um esquadrão que acabou assumindo a missão mais importante do mundo. Se ele é tão novo como parece, me surpreende que ninguém tenha dado um tapão nas costas dele, bem no lugar onde as tatuagens ainda doem. Theo reclamava disso o tempo todo, quando ainda tinha companheiros de esquadrão dos quais reclamar. Tudo bem, eu sou importante demais para esse tipo de briguinha.

Se Theo não tivesse sido expulso dos esquadrões da morte, poderia ser ele ali. Meu prometido, me encarando com uma máscara e uma arma.

Um soldado aponta para a estrada. A Graça se dobra e se senta, tremendo o tempo todo. Na cabeça das Graças sobra massa cinzenta o suficiente para elas serem forçadas a seguir comandos básicos — sente-se,

fique, mate. Steven não me concede a dignidade de seguir ordens. Ele só me força a sentar no meio-fio. Os outros trocam pacotes de comida e o mapa, rezando em cima das refeições e se aglomerando à sombra. O novato briga pelo mapa e o arranca das mãos de alguém que está bufando de triunfo.

Entrelaço meus dedos ensanguentados e pressiono os lábios nas juntas dos dedos como se também estivesse rezando. Se vamos fazer essa pausa, preciso tirar uma vantagem disso. Deve haver uma saída. Se eu conseguir alguma distância entre mim e os Anjos, qualquer distância, posso despistá-los de novo. Há um café antigo atrás de nós com a porta de vidro quebrada, revelando um caminho por um salão com mesinhas chiques direto para uma porta com uma placa de saída de emergência.

Se eu conseguir distrair os Anjos por tempo suficiente, consigo escapar.

Ao lado do sedã, o novato diz: “Estamos bem perto do lugar onde o Salvação desapareceu”.

Todo mundo para. O desconforto se instala feito uma névoa.

Ouvi alguma coisa sobre isso, um tempo atrás. O Esquadrão Salvação saiu em uma missão para encontrar um acampamento de descrentes no mês passado e não voltou. Minha mãe organizou um encontro no gramado da capela para eles, erguendo as mãos para ajudá-los a encontrar seu lugar destinado ao lado de Jesus, o dom da vida eterna agora e para sempre no céu . Mas não foi um funeral. Os Anjos não fazem funerais.

O irmão Hutch pega o mapa. “Não, acho que não”, responde ele. “Não estamos nem perto do distrito nordeste, vamos ficar bem. Deveríamos estar…”

A Graça funga.

“E estamos”, afirma irmão Hutch. “Não estamos?”

Outro soldado se aproxima. “Achei que estávamos fazendo o caminho mais longo.”

“Eu também”, diz irmão Hutch. “Pode ser que tenhamos nos perdido perto do tribunal.” crack

Um rasgo se abre na garganta de Steven, como se alguém tivesse mirado mal a massa central, dilacerando o pescoço dele e gerando uma profusão de carne e artérias cortadas. Ele fica em pé por um segundo, gorgolejando, e cai.

Caímos direto em uma emboscada.

A Graça dá um grito, um grito alto e longo. Ela se levanta fazendo barulho e sua boca abre e forma um buraco cheio de dentes e saliva; ela segue balançando em direção ao prédio de escritórios no outro lado da rua. Eu me protejo atrás do sedã. O irmão Hutch se posiciona ao meu lado, apoiando o rifle sobre o peito.

crack . O novato cai em silêncio, de olhos esbugalhados. crack . Ele está morto.

Os Anjos se espalham. Alguns pulam pelo vidro quebrado da vitrine ao lado, alguns se escondem atrás da caminhonete estacionada na frente do sedã. O cadáver de Steven me encara, a boca aberta, uma auréola de sangue se espalhando ao redor da cabeça.

“Onde eles estão?”, pergunta irmão Hutch aos gritos.

“Ali!”, grita alguém de volta, apontando para o telhado do prédio de escritórios.

Lá em cima, iluminado pelo sol, há um vulto preto que… sumiu. O irmão Hutch faz eu me abaixar e rosna: “ Fique! ”.

Ele explode.

Não é um tiro certeiro. A bala acerta o olho e arranca um pedaço de seu crânio, abrindo-o. Eu caio para trás, batendo no meio-fio. O irmão Hutch já era. O homem que assistiu com um sorriso gentil no rosto enquanto minha mãe limpava meu joelho machucado, o homem que cumprimentou Theo e eu em nosso noivado e nos desejou um casamento feliz na guerra santa — esse homem já era. Seu corpo cede. Tem pedaços de miolos grudados no sedã. Tem pedaços de miolos grudados em mim

O crânio dilacerado do meu pai. O sangue dele na minha boca.

Se eles querem o monstro deles, então faça eles sofrerem por isso.

Estou em pé. Eu me afasto do sedã, subo as escadas do café, atravesso a porta de vidro quebrada. Rasgo minhas vestes e arranco a máscara. Só preciso chegar à porta dos fundos. Posso despistar os Anjos. Consigo fazer isso se…

Percebo um movimento atrás do balcão do café.

Um menino de preto aponta um rifle para o meu peito.

O Inferno que nos Persegue é um livro assumidamente queer, sangrento e blasfemo. E também é uma história que fala sobre identidades trans, famílias escolhidas, resistência ao fundamentalismo e principalmente sobre a importância de encontrar um lugar seguro em um mundo que luta contra determinadas existências.

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