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Nos Somos Todos Iguais na Escuridao - Book Preview

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NÓS SOMOS

TODOS IGUAIS NA

ESCURIDÃO


JULIA HEABERLIN

ESPECIALISTAS LITERÁRIAS NA ANATOMIA DO SUSPENSE


Para Deyanira Montemayor Martinez Amiga querida Imigrante linda Cidadã norte-americana Anjo no céu Querida amiga Inmigrante hermosa Ciudadana estadounidense Ángel arriba


Leva-se de oito a dez horas para cavar uma cova usando apenas as mãos, ainda mais se estiver escuro. De cinco a seis, caso você tenha um ajudante. Não é como nos filmes. É preciso mais do que somente uma pá com uma boa lâmina. Você precisa de uma motosserra para partir as raízes. De uma picareta. E mesmo que não haja nenhuma rocha no solo, há sempre argila em lugares como o Texas, tão difícil de se quebrar quanto pedras. Sempre levo uma fita métrica e uma régua, pois é necessário fazer um buraco muito maior do que você imagina. E é preciso ir fundo o suficiente para que as pessoas e os animais nos arredores não sintam o cheiro do corpo em decomposição. Eu calcularia aí uma camada de terra de 45 centímetros para ficar seguro. Resumindo, se você quer saber o que acho, não creio que vão encontrar a tal menina Branson. Nunca vi nada parecido com essa busca pelo corpo dela. Vasculharam cada fazenda. Cada pedacinho do terreno no entorno do lago. Os policiais fizeram um mapa codificado por cores e a varredura foi de centímetro a centímetro, ano após ano, até esquadrinhar tudo. E digo mais: se a garota foi enterrada por aqui, e enterrada rápido, ela foi enterrada por alguém experiente. Talvez um fazendeiro. Talvez uma pessoa que já tenha matado muito. — Albert Jenkins, 66 anos, coveiro. Extraído do documentário The Tru Story


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Ela representa um mistério daqueles. Sinto isso bem lá no fundo, no meu ossinho do braço, aquele que meu pai quebrou quando eu era criança. Meu braço nunca erra. Eu a cutuco com o bico da minha bota como faria com qualquer animal morto. Um olho se abre e se fecha. Não está morta. Talvez meio morta. O calor, aqui, está tão intenso que os grilos estão pedindo socorro. Não tenho tempo para essa merda, Deus. Que diabo, cacete. Por que ela não é um cachorro? Foi assim que ela me pareceu no reflexo do retrovisor, um cachorro atropelado. Por isso dei a volta com a minha caminhonete. Bem, primeiro eu ouvi Deus dizer: “Pare”. Aí olhei pelo retrovisor e vi aquele calombo um pouco depois da cerca. Quando estacionei, eu já havia construído todo o cenário na cabeça. Eu ajudaria o cachorro. Ele ia ocupar o lugar vazio no banco do passageiro, onde Chance ficava, sorrindo para mim de língua pra fora, até ser levado por aquele tumor imenso que brotou em seu pescoço três meses atrás. Agora isto. Uma menina misteriosa, inerte, longe da rodovia, a cabeça brilhando como um anjo do deserto de asas cortadas. Ela deve ter uns 12 talvez 13 anos. Ou 10. Diabo, não sei dizer. Para os caras como eu, todas as meninas hoje em dia parecem ter 15 anos, quando na verdade têm 11. 11


Ela está deitada descalça sobre a terra esturricada, por volta de um metro atrás de uma cerca de arame farpado, caminhões pesados passando a toda do outro lado. Os lábios vermelhos como os da Branca de Neve. Um lenço com lantejoulas douradas amarrado firmemente sobre um dos olhos, como se ela tivesse sido enfaixada por uma princesa. Ou talvez ela seja a princesa. Ou talvez ela seja só uma menina normal, sem muitas opções de curativo disponíveis. Eu não devia ter bebido aquela terceira cerveja no almoço. Atrás dela, nada além de pasto queimado pelo sol. Não há sangue fresco visível nela. Ela com certeza não veio da rodovia e pulou a cerca de arame farpado. Eu, um cara em boa forma, tive de pular e até agora estou chupando o sangue do meu polegar. Não, ela veio daquele campo, do nada, cortesia do meu camarada Deus. Ele a deixou totalmente à minha mercê. Seu vestidinho branco está encharcado de suor. Os braços estão esticados fazendo um V acima da cabeça. Tem alguns hematomas na bochecha e no ombro, onde o vestido está rasgado. E ela é magricela. Seus joelhos e cotovelos não seriam capazes nem mesmo de fazer cócegas caso ela tentasse resistir. De repente, seu peito começa a subir e a descer, feito um cervo exausto. Mais viva do que morta, analiso. Seu olho, o descoberto, abre-se rapidamente por um segundo. Aí se fecha de novo, ingurgitado tal qual um carrapato. Decerto os grandes questionamentos da vida devem estar ocorrendo agora na escuridão daquela cabeça. Qual seria o melhor jeito de morrer? Com o sol lhe fritando como um bacon para depois você virar café da manhã de um pássaro? Ou nas mãos de um desconhecido na estrada? Os pelos de todo o meu corpo estão eriçados. Não sou idiota. Conheço os golpes que rolam por aí. Garotas largadas como isca. Dito isto, este trecho da estrada do Texas é puro céu azul e planícies a perder de vista. Acabei de ouvir dois caminhoneiros num restaurante de beira de estrada dizendo que este pedaço do Texas comprovava que a Terra era plana e que o muro de Donald Trump foi planejado secretamente para nos impedir de cair. Confiro tudo, fazendo rapidamente um giro completo, de 360 graus. A menina e eu estamos a sós. 12


Eu me aproximo. Meu corpo projeta uma sombra total sobre o dela. E então ela se mexe. Levanta-se do jeito que dá com a energia que tem. Agora ela vê a cena toda, mesmo com o lenço brilhante amarrado sobre um olho. Cara grande. Carro grande cheio de esconderijos. E não dá para apagar um período em cana, por mais curto que tenha sido. Sanidade e felicidade são uma combinação impossível. É o que diz o papelzinho que minha irmã, Trumanell, colou no meu volante. Trumanell anda curtindo Mark Twain. Fica o tempo todo colando merdas de autoajuda e otimismo na minha caminhonete para me animar na estrada. A menina não diz uma palavra. Não suplica por água. Nada. O sol está batendo na porra do lenço e gerando reflexos, o que dificulta para vê-la direito. Então estico o braço e arranco o tecido. E a menina enfim emite um som, sua boca se abrindo tal qual um buraco no chão. Uma carreta de dezoito rodas leva seu grito consigo. E vejo o que ela está escondendo.

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Um de seus olhos brilha como uma esmeralda. O outro está quase fechado, afundado, não se aguenta aberto sozinho. Sei o que isso significa. Meu pai perdeu um olho quando criança. Dependendo de seu humor, ele usava ou um tapa-olho ou um olho de vidro vagabundo. O olho de vidro parecia ter sido arrancado de um ursinho de pelúcia de olhos castanhos largado quieto num canto qualquer. Nada passava incólume pelas mãos do meu pai, sobretudo se fosse uma criatura tímida. Quando eu tinha 8 anos, papai ouviu uma piada que fiz sobre isso, um grande erro da minha parte. Ele gostava de lembrar a Trumanell e a mim que a maioria dos piratas não usava tapa-olho por ter um olho faltando — e sim para se condicionar a lutar em navios e a matar pessoas na escuridão total. Esse era seu jeito de nos dizer que ele era tenaz até na escuridão. O olho ausente da menina me faz perceber que ela é mais um dos testes de Deus, algum tipo de presságio. Concentro-me no outro lado de seu nariz, no olho cintilante e tomado de pavor. “Papai também não tinha um olho”, digo, puxando conversa. “O povo daqui já perdeu muitas lascas e pedaços. Braços. Polegares. Pernas. Dedos do pé. Equipamentos agrícolas, guerra, fogos de artifício… Aqui as pessoas arrancam as coisas no dente e seguem a vida. Nesse mundão, ninguém liga. Meu pai dizia que ter um olho só fazia deixar ele mais forte.” 14


O que meu pai dizia na verdade era que o olho de ursinho de pelúcia poderia muito bem me cegar caso eu ousasse encará-lo. Enquanto falo, ouço Trumanell na minha cabeça. Não encoste. Não encoste. Você vai se contaminar. Nós dois conhecemos de cor as regras do azar, e o azar tá ardendo nessa menina igual a uma gripe das piores. Ela foi contaminada por outra pessoa. É assim que o azar funciona, um germe que viaja o mais rápido possível de uma pessoa a outra, na expectativa de gerar um ferimento fatal, mas já satisfeito com qualquer agouro. Eu ainda tinha a opção de ir embora. Seu olho bom é uma joia verde cintilante, poderosa. Diz que ela já fez sua escolha. Que vai preferir arriscar entrar numa caminhonete com um cara grande feito eu em vez de permanecer sozinha aqui nesta terra com a gangue de cascavéis e urubus que a rege. “Meu nome é Wyatt”, digo. “Até que você me diga o contrário, vou chamá-la de Angel, porque você é angelical. Sua cabeça brilhando. Esses braços abertos como se desenhasse anjinhos na poeira, igual fazem na neve. Era isso que você tava fazendo?” Estou brincando, tentando deixá-la à vontade para que eu possa botá-la no carro sem que ela faça uma cena. Mas a menina não tem qualquer reação, nem mesmo um sorrisinho. Inferno, vai ver ela nunca viu um floco de neve na vida. Tem umas crianças no oeste do Texas que só sentem a chuva na cara depois dos cinco anos de idade. Ela pega a garrafa d’água que ofereço e manda goela abaixo rápido demais. Quando acaba de engolir, lhe entrego o pedaço de carne seca que eu trouxe, aquele que eu pretendia usar para persuadir meu novo cachorro a sair do campo. É quando sinto um novo tranco no meu osso. Firmo meu braço para cessar o tremor. Vejo aquilo que eu já deveria ter visto na grama logo de cara. Não tenho medo de dentes-de-leão. É que tenho uma história com eles. A menina fez um círculo ao redor de si usando uma boa quantidade deles, de um modo cuidadoso, como um círculo de proteção de conto de fadas. Isto, ou alguém decorou um túmulo para ela antes de desová-la ali. 15


Tem uma pilha aos seus pés, os botões despencados, já murchando ao sol. Ajoelho e conto os caules. Dezessete pedidos. O máximo que consegui no nosso pasto, em um dos piores dias, foram 53, e não foram 53 pedidos diferentes, e sim um só pedido, desesperado, sendo repetido sem parar. Quem sabe o que se passa na cabeça dessa menina? O que ela gostaria de pedir? Só sei que estou com um pé dentro e outro fora de seu túmulo de dentes-de-leão, e o que sinto não é bom. Trumanell costumava brincar com flores silvestres quando a gente se escondia no campo atrás de casa. Ela contava histórias para me impedir de voltar correndo com meu canivete para matar nosso pai, que se gabava dia sim, dia não do seu direito de nos apagar igual à chama de uma vela. Minha irmã dizia que tremoços-azuis eram lindas lasquinhas do céu. Ela me fazia cócegas com os canguçus-do-campo e me dizia que eram meninos-fantasma que pintavam suas pétalas de laranja e amarelo ao pôr do sol. Os talos de milho se transformavam em soldados à noite, nos vigiando para que pudéssemos nos esconder. Coisas bestas como essas. Desde os dez anos, sei que essas merdas de conto de fadas não funcionam. As lascas de céu azul? Não são feitas de flores bonitas. São feitas de vidro. Mas nutro um respeito saudável pelas coisas que meu braço diz. Ele está dizendo: Vá embora. Senão você vai voltar para a cadeia, ainda que aquele talvez seja o seu lugar. Esta menina me lembra Trumanell. Ela já sentiu coisas que nunca deveria ter sentido. Dá pra ver em seu olhão verde, que tolera o dobro da carga. Ela ainda está à espera de sua lasquinha de céu azul. Acreditando em círculos mágicos, pois vai que eles funcionam… Deixo a hesitação de lado. Você me deve esta, Deus. Entro no círculo e a pego no colo. Ela amolece em meus braços como uma criança, cabeça baixa, queixo colado no peito. Ela é uma criança. Não se esqueça. Minha irmã está tagarelando comigo, muito embora ela esteja lá em casa, a quase 25 quilômetros de distância, terminando de lavar a louça ou lendo um de seus livros. 16


Na metade do caminho para o carro, a menina levanta o rosto lentamente. Abre a boca rubra e vejo que sua língua está manchada do mesmo tom de vermelho. Por isso não espero o que vem a seguir. Por isso não vejo o que está na mão dela. Ela leva um dente-de-leão aos lábios e sopra seu miolo bem na minha direção, com toda a força. O pedido atinge minha bochecha como um espirro, voa pelo meu nariz, gruda nos meus cílios. Tomo o gesto como um aviso de que ela está se comunicando com um poder superior. Que sopro desperdiçado, querida. Deus ouve a mim e a você todos os dias, e veja só onde estamos. Quando abro a porta da caminhonete para depositá-la, um dos ditados de Trumanell esvoaça, um pensamento de uma velha senhora irlandesa. O destino não é uma águia, ele se esgueira como um rato. Enquanto me afasto, o papel sai voando e fica preso na cerca de arame farpado.

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Trumanell é uma sombra na varanda, esperando. A menina em meus braços está imóvel como um cadáver, o lenço dourado brilhando em volta do pescoço. O sol, em seu máximo brilho, a ilumina como se ela estivesse pegando fogo. Como ela está de olhos fechados, não dá para sacar nada de errado. A sombra da nossa avó na varanda era o sinal claro de que o perigo havia passado e de que era seguro retornar do campo. Então Mama Pat morreu, e tudo ficou nas costas de Trumanell, que tinha 10 anos na época. Ouço a mente de Trumanell tiquetaqueando como o mecanismo de um relógio enquanto ela segura a porta de tela para eu passar. De onde ela veio? Por que ele não chamou a polícia? A pele de pêssego de Trumanell está enrugada de preocupação, do mesmo modo como me lembro do rosto dela da primeira vez em que a vi me olhando através das grades do berço que papai construiu. O rosto dela estava a quatro dias de completar 5 anos, sendo assim, eu tinha dois, ambos inocentes. Trumanell subiu no berço e meteu as mãos suadas e cálidas sobre meus ouvidos bem a tempo. Ouvi um grito de longe, como se estivesse enfiado em um armário. Trumanell me disse que foi nesse dia que nosso pai matou nossa mãe. Ela foi cremada, sem autópsia. Dali em diante, toda vez que Trumanell tinha a oportunidade de catar com as mãos algo ruim e levá-lo embora, ela o fazia. 18


Aliás, foram essas mesmas mãos que um dia me agarraram e me levaram pela escadaria até o sótão do celeiro, meus tênis vermelhos desaparecendo depois do último degrau, a um segundo de serem vistos. Foram elas que deram três tiros em um avestruz que escapuliu da fazenda ao lado, estraçalhou nosso filhote de cachorrinho, e depois veio atrás de mim. Foram elas que costuraram bolsos secretos nas bainhas das cortinas do nosso quarto para, assim, esconder qualquer arma que estivesse disponível. Uma faca de carne, um revólver, uma agulha de tricô, uma lata de Lysol. A única coisa que eu sabia era que Trumanell nunca deixava minha cortina ficar vazia. Toda vez que eu enfiava a mão, tinha algo ali. Papai nos batia às vezes. Mas o mais comum era nos fazer tortura psicológica. A mente de Trumanell era sua terceira mão. Ela conseguia enganar o papai nove vezes em dez. Minha garota esperta. Era assim que ele a chamava depois de uma garrafa de Jack Daniel’s. Ele a batizou de Trumanell, um nome meio menina, meio menino, para lembrá-la todos os dias de que ele gostaria mais se ela fosse outro homem para carregar sua linhagem. Em segredo, eu a chamava de True, “verdadeira”, porque era isso que ela era. Enquanto passo, Trumanell bota uma de suas mãos mágicas na testa de Angel. Está verificando se Angel está morta. Sinto um suspiro percorrer meu corpo, não sei se veio de Angel ou de mim. Isso porque a mão de Trumanell na testa dela é como a da Virgem Maria. Fria como um rio, abrandando a dor em todas as outras partes do corpo. A mão dela o faz boiar, a água lambendo de todos os lados, os peixes fazendo cócegas em seus pés, seu rosto voltado para o sol. Acomodo o corpo de Angel no sofá. Olhos ainda fechados. Tem uma antiga mancha de sangue no verso da almofada onde a cabeça dela agora repousa, que tinge as seis flores cor-de-rosa de marrom, como se o inverno tivesse atingido apenas algumas delas. Trumanell mantém esta casa um brinco, mas aquela almofada, fica do jeito que é, invisível, mas ainda uma lembrança de um dia ruim. “Vou chamá-la de Angel”, anuncio. “Isso não é uma boa ideia”, sussurra Trumanell. 19


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Os olhos da menina tremelicam e se abrem, depois se fecham com a mesma rapidez. De repente, seu medo é um fio desencapado chicoteando pela sala. Ela está certa em não confiar em mim, o filho de um mentiroso, tão bom quanto meu pai, se não melhor. Ainda tem terra e penugem de dente-de-leão grudados no couro cabeludo. A parte bagunçada de seu cabelo está rosada pelo sol. O esmalte roxo em suas unhas está quase todo descascado. Um vislumbre de Trumanell deveria ter acalmado Angel. A menina pode até achar que eu sou o diabo, mas Trumanell é uma mulher de olhos e cabelos castanhos, 53 quilos, 1,65 de altura, capaz de tirar o fôlego de qualquer um, um verdadeiro anjo nesta sala. Trumanell está ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha da menina. Isso entrega o tamanho de sua tensão. Eu nem contei a ela que Angel tem um olho igual ao do papai, ou falei dos dentes-de-leão, todos dispostos em um círculo, ou o que o osso do meu braço estava dizendo no campo, ou como a menina soprou as sementes de seu azar em mim com a mesma naturalidade com que se traga um cigarro. Lila, com sua franja preta espigada e boca solene, observa a nós três de sua foto na parede. Papai sempre nos dizia que um dos olhos de Lila conseguia enxergar tudo. A gente via ele se mexer. Eu ainda vejo. Não importa que eu já tenha idade suficiente para saber que se fixarmos o olhar num ponto, luz e sombra, Lila vai ganhar vida; ou que nosso pai se empenhava na hora de nos ludibriar. Pelo que ele contava, Lila era uma prima nossa de 17 anos que na véspera de Natal havia se enforcado em uma árvore com uma fita vermelha no terreno de um antigo manicômio perto de Wichita Falls. Todo dia 24 de dezembro, papai nos levava até a tal árvore. Seguindo suas instruções, Trumanell sempre amarrava uma fita vermelha em seus cabelos, retirada de um pacote que nosso pai deixava embrulhado no assento dela na mesa da cozinha. Esse pacote sempre continha algo bom. Um suéter de cashmere cor-de-rosa, uma garrafa dourada de perfume Gucci Guilty, um celular. 20


Enquanto Trumanell observava, ele ordenava que eu subisse na árvore e amarrasse a fita vermelha em um galho alto, fazendo um nó corrediço. A vida de vocês é uma fita frágil, dizia ele, que eu poderia arrebentar facilmente. Trumanell, agora sentada no chão, de pernas cruzadas como uma criança, enroscando no dedo aquela mecha invisível de cabelo até ela se retesar feito uma corda bamba. Papai sempre insistia para que Trumanell usasse o cabelo em um coque apertado. Uma vez, quando ela estava na quarta série, ele prendeu uma mecha solta de volta com o dedo cheio de manteiga de amendoim e a fez ir à escola daquele jeito. Nelly manteiga de amendoim, de coque na cabeça, não deixa a gente botar geleia, então tomara que ela faleça. Era isto que os meninos cantavam para ela no parquinho. No ensino fundamental, eles a apelidaram de Geleca para se referir às partes macias que ela jamais deixava que tocassem. Mas não é como se Trumanell não tivesse vencido em algum momento. Os garotos gostavam de Trumanell. Aquele coque deixava Trumanell mais bonita. Ela o enfeitava com as flores e bijuterias que tinha herdado de Mama Pat. Todas as meninas da escola começaram a usar coque, mesmo quando ninguém na tv usava. Esse era o tanto que todos queriam ser como True, o quanto ela era popular. Trumanell está muito bonita hoje, preocupada com Angel, com os cabelos soltos. Livres. Gostaria que o restante dela também pudesse sentir-se livre. Gostaria de não ter de trazer o mundo para ela. Ela seria uma boa companhia na caminhonete. Ela me impediria de sair catando coisas por aí que eu não deveria pegar. Mas, não, minha irmã mais velha sempre diz que vai estar aqui à espera para quando eu voltar. Nós dois sabemos que, na verdade, ela está esperando pelo papai. Faz dez anos que as coisas desandaram. Ou seja, agora ela tem 29 anos. Parece que ainda tem 19. Das seis às oito, esse é o ritmo dela agora. Acorda de madrugada e se põe a limpar coisas que não precisam ser limpas, vagando pelo jardim, colhendo pêssegos, em um minuto cantarolando Patsy Cline e, no outro, Beyoncé, até hoje me dizendo que tudo vai dar certo. 21


Trumanell é a única que acredita que minha alma ainda tem condições de ser salva. Acho cento e dez por cento que não. Deus e eu temos um entendimento. Nossas conversas, os testes Dele — isso é só a gente passando o tempo. Esta imensa casa branca, meu purgatório. Brinco com Trumanell que eu poderia parar de trabalhar de caminhoneiro e transformar este lugar em um museu. Ela poderia sentar-se à varanda e vender chá gelado e os biscoitos de canela da vó embrulhados em filme plástico. A gente poderia cobrar entrada igual faz a porra do parque nacional Lyndon B. Johnson, onde o trigésimo sexto presidente da nossa nação convidava as pessoas a visitarem sua casa de tijolos nas pradarias como se fosse o próprio Taj Mahal. Aí eu espalharia só uns salpicos de tinta vermelho-sangue em todo aquele branco impecável, porque menos é sempre mais. Deixe por conta da imaginação, não dos olhos. Papai me ensinou isso. Eu replantaria o trigo e contaria a verdadeira história de Nelly e da manteiga de amendoim para a molecada que fica por aí pelo pasto inventando coisas sobre a gente, coisas que quase tocam a nossa verdade. Ficam bebericando cerveja nas carrocerias dos carros, uivando para a lua, brincando de dar sustos, zanzando e acelerando suas picapes perto da minha porteira. Todo dia 7 de junho eu fico quietinho, só ouvindo a algazarra deles. O que tem nessa carreta? Você é doido pra caceta! Renda chantili! Mostra sua cara pra gente aqui! Uma década depois, ninguém na cidade sabe a história do que de fato aconteceu aqui na casa dos Branson. A eles resta apenas ficar chacoalhando minha porteira, enlouquecidos, e ficar elucubrando sobre a verdade. Angel voltou a fingir-se de morta no sofá. Trumanell continua no chão, bocejando, dizendo que está pronta para botar a camisola, embora seja o meio da tarde. É Angel quem se sobressalta com a batida à porta. Pela primeira vez, ela vê o meu revólver.

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A casa dos Branson surge ao longe como Moby Dick emergindo do mar — uma imensa baleia territorial branca que parece ter assustado tudo o mais ao redor. E deve mesmo ter assustado. Então não tenho um bom pressentimento. Nunca quando venho para cá. Se a casa é uma baleia assassina, o passado é um tubarão rebelde circulando à espreita, esperando por mim. Dez anos atrás, a fúria na casa Branson era ensurdecedora. Máquina contra rocha, revólver contra vidro, metal contra argila. Mais de duzentos homens saltaram sobre a porteira e invadiram a fazenda sem qualquer cerimônia. Avós, pais, irmãos, tios, médicos, advogados, fazendeiros, professores, encanadores. Eles caçavam uma Trumanell de 19 anos com pás, retroescavadeiras e detectores de metais. Arrebentaram janelas com coronhadas de rifle, romperam as fitas que cercavam a cena de crime, pisotearam o trigo, cavaram buracos até ratos e cobras desabrigados correrem pelo campo transformado em uma lua apocalíptica e profundamente cavoucada. Na época, o pai de Trumanell, Frank Branson, também desaparecido, era o suspeito número um. Seu filho, Wyatt, era o número dois. Já haviam se passado vinte dias. Os policiais, em menor número, tinham a opção de sacar suas armas e tocar o zaralho para controlar aquelas mesmas pessoas que se sentavam ao lado deles na igreja, ou então tomar distância e ficar assistindo à destruição da sua cena de crime. 27


Meu pai era o chefe deles. Seguindo suas ordens, a polícia então recuou e deixou a cidade mandar ver. Uma tempestade violenta irrompeu naquela noite, depois que os saqueadores se exauriram. Ela transformou todos os buracos em pequenas lagoas de lama. Na ocasião, restos de fita amarela da polícia voaram por quilômetros, se enroscando nos galhos altos das árvores, fitas caóticas clamando para que Trumanell, a namoradinha da cidade, voltasse para casa. Em toda primavera, ainda vejo pedaços de plástico amarelo socado nos ninhos de pássaros, nos juncos, e me pergunto se seria a mesma fita que voou da casa dos Branson. Sempre me pergunto se Trumanell estaria me mandando um recado, em vez de embalagens rasgadas de m&m de amendoim, que foi o que encontrei na única vez em que subi em um antigo carvalho para conferir. Acelero o carro a oitenta por hora, levantando poeira vermelha. A radiopatrulha está falando como se narrasse uma história em quadrinhos sombria: há um esquilo impedindo uma mulher de entrar em casa. Um homem na Halsall 3262 alega que sua esposa está espancando-o com seu taco de beisebol da sorte. Não há nenhum palavrório para questionar o porquê de eu estar sozinha, assustada, acelerando em uma estrada de pradaria com suas árvores espalhadas feito veleiros, pensando em como meu pai, o falecido policial fodão da cidade, me disse para nunca mais voltar a este pequeno inferno no Texas, a menos que fosse para enterrar suas cinzas. Não tente descobrir a verdade sobre Trumanell. Algumas respostas devem ficar para o acaso. No entanto, eu voltei. Cinco anos atrás, enterrei as cinzas do meu pai ao lado das da minha mãe no Cemitério da Santíssima Trindade, nos limites da cidade, e me tornei uma policial novata aqui, seguindo os passos do meu pai e do meu avô. Arrastei o homem que havia recém-casado comigo, um advogado de Chicago chamado Finn, em homenagem a Huck Finn, e que concordou em dar uma chance à minha cidade natal por exatos cinco anos. Ele sabia o quanto eu era assombrada pelo dia 7 de junho de 2005, o quadradinho preto no meu calendário. Ele sabia o quanto a noite do desaparecimento de Trumanell estava enredada à minha própria história. 28


Ninguém se surpreendeu quando o caminhão de mudança chegou e desempacotou minhas coisas para desaguá-las na casa do meu pai, quando o certo seria levar os pertences dele embora. Os nativos quase sempre retornam, em especial aqueles que juraram jamais fazê-lo. O Texas é um belo veneno que você bebe do peito da mãe; quanto mais velho você fica e quanto mais você foge, mais ele lateja no seu sangue. E além disso, há o meu próprio legado nesta cidade. Já me disseram que sou especial, uma menina corajosa, é assim desde que eu tinha 3 anos e subi numa escada com uma vasilha Tupperware para capturar um morcego raivoso que cogitava dar uma dentada na minha prima de 11 meses, Maggie. Nunca me esquecerei daquela cena, ela rindo e apontando para a morte enquanto o bicho girava em volta de sua cabeça. A verdade é que eu não sou corajosa. Nem tão solícita. É só que eu temo algumas coisas mais do que temo outras. Eu tinha mais medo de a minha prima morrer do que de cair de uma escada que poderia muito bem ser um arranha-céu. Mais medo de não virar uma policial admirada como o meu pai do que de tornar-me policial. Mais medo de largar as coisas inacabadas aqui do que de, em algum momento, meter a cara e concluí-las. Mais medo de as coisas darem errado hoje se eu não tivesse vindo sozinha e tivesse trazido meu parceiro de ronda na polícia, que acha que Wyatt Branson é doido de pedra e que deveria ter sido preso há anos — embora não haja provas de que ele tenha matado a irmã e o pai, ambos desaparecidos. Muito embora Wyatt tenha sido encontrado longe de casa naquela noite, fora de si, perto do lago. Embora meu próprio pai tenha trabalhado no caso dos Branson e, até o dia de sua morte, tenha proclamado Wyatt inocente. Manobro atrás do veículo de Wyatt, dizendo a mim mesma que é só mais um alarme falso. Desde que aquele documentário incendiário foi ao ar no mês passado, marcando o aniversário de dez anos do caso, as chamadas de emergência triplicaram. Tudo isso porque um agente aposentado do fbi sentado em sua poltrona de veludo da La-Z-Boy, o rosto meio na sombra, disse ao mundo que suspeitava que Wyatt fosse um assassino — um serial killer — ainda na ativa. 29


E então a imagem trocou da poltrona para os rostos ávidos de três loiras platinadas e uma ruiva posando em motocicletas, groupies que viviam de perseguir Wyatt em suas longas viagens, sempre postando o paradeiro. Uma delas alegava ter visto Wyatt comprando um “vestido azul suspeito” em um Walmart nos arredores de Beaumont. A ruiva, a mais bonita delas, jogou o cabelo para o lado para mostrar marcas vermelhas no pescoço. Ela disse que Wyatt agarrou seu pescoço durante um encontro sexual no banheiro de um posto de gasolina. “Nunca mais vou caçar essas transas com famosos”, ela jurou com a maior candura enquanto a câmera passeava pelo seu decote. “O sexo foi uma delícia, mas pensei que fosse morrer.” Um diretor vencedor do Oscar se uniu a um conhecido jornalista para fazer o tal documentário, e ainda assim eles fizeram merda. Cagaram tudo completamente. Espero que o informante anônimo também tenha errado hoje. Foi só uma frase simples que me fez pisar fundo no acelerador. Wyatt Branson está com uma menina.

A tinta fresca na casa dos Branson emite um ruído branco, está grudenta no calor, a pintura tem apenas três semanas. O pasto está aparado até onde é possível, é assim que Wyatt o mantém agora. Abro a janela do carro, reduzindo a velocidade, ouvindo os pneus triturarem o cascalho. É o único som presente. Julho é sempre quente e um paradouro só. É uma melancolia que faz meu coração doer, como se o luto estivesse brotando do solo por cada criatura morta que um dia já conheceu a vida. Resolvi não ligar o giroflex. Nem a sirene. Wyatt pinta a casa todo dia 7 de junho — paredes, venezianas, telhas, colunas. Faz “por insistência de Trumanell”, muito embora diga não haver tinta branca suficiente para cobrir as coisas que aconteceram na casa. O ritual de pintura de Wyatt marca o início do verão. É o despertador da cidade enlutada por sua garota desaparecida. Como um reloginho, o dono da Dicky’s Ferragens — que não quer arrumar confusão com Wyatt — sempre reserva 21 galões de branco renda chantili com quarenta por cento de desconto, além de mais três rolos e dois pincéis de brinde. 30


Wyatt diz que Trumanell folheia as amostras de tinta que ele traz para casa todo ano, mas ela sempre escolhe o renda chantili. Não branco véu de noiva, porque Trumanell fica deprimida por só ter conseguido ser noiva ao desfilar pelo milharal com uma coroa de margaridas na cabeça. E nem branco-pérola, porque ela nunca ouviu o oceano rugindo, exceto em uma concha que certa vez apareceu no pasto, do nada. E branco-lírio também não, porque a faz recordar dos odores no funeral de Mama Pat. E nem branco raio de luar, porque a lua nem sempre foi amiga deles naquele campo. E também nada de branco-osso, porque a faz lembrar do estalido do braço de seu irmão ao fraturar. Abro a porta do carro, não me esforço para ser discreta, imaginando que Wyatt já sabe que estou aqui. Quando eu tinha 16 anos, Wyatt Branson me dizia que conseguia ouvir até o esvoaçar dos meus cílios. Ele dizia que mariposas, aqueles pedaços de papel voador, tinham a melhor audição do mundo, e que ele ouvia igual a elas. Wyatt sabia mentir bem. Hoje, escolho acreditar nele. Ele ouve meus olhos piscarem, o nó na minha garganta, meu primeiro passo na varanda artrítica. Para todos os lados que olho, os pastos estão desertos. O celeiro, parado. Wyatt não cultiva a terra nem cria gado ou cavalos há uns cinco anos. O que deveria parecer perfeitamente normal dispara pequenos alarmes. Um vestido — não azul — flutuando sozinho no varal. Uma mangueira enrolada em torno de um galão de herbicida com um dente-de-leão no rótulo. Latas de tinta empilhadas na varanda em uma pirâmide obsessiva. Dormideiras cor-de-rosa, as favoritas de Trumanell, em um vaso, cravadas num solo adubado e úmido. Cortinas pesadas que estão nas janelas desde que eu era criança, bem fechadas. Puxo a porta de tela com delicadeza para testá-la. Trancada. O silêncio, tão infinitamente branco. Penso em como a vida poderia ser diferente se não fosse por aquele morcego que definiu o curso das coisas. Ele me fez acreditar que a vida poderia dar certo se eu me esforçasse. Mesmo depois do dia 7 de junho de 2005, ainda acredito. Levanto minha mão para bater à porta. 31


CERTAS FERIDAS PERMANECEM ABERTAS PARA SEMPRE A descoberta de uma menina abandonada à beira da estrada ameaça desvelar os segredos de um caso não resolvido em uma cidade do Texas. Uma década antes, uma líder de torcida desapareceu da fazenda onde morava com a família, restando apenas a marca ensanguentada de sua mão. Agora Odette Tucker, a policial mais jovem da cidade, teme que a misteriosa garota encontrada seja um catalisador que reacenderá antigas dores. Neste soberbo thriller atmosférico, Julia Heaberlin se consolida como uma das melhores autoras do gênero.


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