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Guia para Lésbicas na Escola Católica - Book Preview

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the lesbiana ’ s guide to catholic school

Copyright © 2022 by Sonora Reyes Todos os direitos reservados. Este livro deve ser comercializado exclusivamente no território brasileiro.

Tradução para a língua portuguesa © Jana Bianchi, 2023

Diretor Editorial Christiano Menezes

Diretor Comercial Chico de Assis

Diretor de MKT e Operações

Mike Ribera

Diretora de Estratégia Editorial

Raquel Moritz

Gerente Comercial

Fernando Madeira

Coordenadora de Supply Chain

Janaina Ferreira

Gerente de Marca

Arthur Moraes

Gerente Editorial

Marcia Heloisa

E ditora

Nilsen Silva

Capa e Proj. Gráfico Retina 78

Coordenador de Arte Eldon Oliveira

Coordenador de Diagramação

Sergio Chaves

Finalização

Sandro Tagliamento

P reparação

Fernanda Marão

Revisão

Carolina Pontes

Maria Sylvia Correa

Retina Conteúdo

Impressão e Acabamento Leograf

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852

Reyes, Sonora Guia para lésbicas na escola católica / Sonora Reyes; tradução Jana Bianchi. Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2023. 336 p.

ISBN: 978-65-5598-334-0

Título original: The Lesbiana’s Guide to Catholic School

1. Ficção norte-americana I. Título II. Bianchi, Jana 23-5340

Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2023]

Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento LTDA. Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ — Brasil www.darksidebooks.com

CDD 813

Tradução Jana Bianchi
GUIA PARA

A minha mãe. Mi outro yo.

Não confiarás em uma falsiane escrota

Sete anos de azar meu cu.

Faz muito tempo que não soco alguma coisa, e aquela penteadeira mereceu. Espelho idiota. Yami idiota.

Que se dane. Espelhos são supervalorizados, e encher o espelho de porrada é subestimado. Jamais gostei de olhar para mim mesma… Não porque não ache que sou gatinha. Tipo, eu sou gatinha, objetivamente falando, mas essa não é a questão. Gosto mais do meu reflexo assim. Tão rachado que mal dá para me reconhecer nele. Fragmentado nos lugares certos. Eu mesma fiz isso. Com meu punho. Quem disse que não sou durona?

Não levo desaforo para casa — contanto que o autor do desaforo seja um objeto inanimado. Eu não soquei o espelho com força o bastante para estilhaçar tudo, mas a pulsação nos nós dos meus dedos indica que foi bem forte mesmo assim. Sinto o ego inchar com o feito, e o que começa a inchar também é minha mão.

Merda. Quanto sangue.

Beleza, talvez eu não devesse ter feito isso. Minha mão está tremendo e começando a pingar, mas estou paralisada. Só consigo pensar em Bianca e na outra coisa que eu realmente não deveria ter feito.

Quem pede demissão para evitar a possibilidade de trombar com a ex? Nem ex, na verdade. Uma falsiane ex-traordinariamente ex-crota. Uma ex-melhor amiga, tanto que me dá vergonha ter tido sentimentos por ela algum dia.

Bianca nunca foi boa em guardar segredo, então não sei por que pensei que ela não abriria o bico sobre o que contei. A culpa é minha, por ter confiado nela. A última vez que a vi foi quando ela me arrancou à força do armário no fim do segundo ano do ensino médio. Eu estava feliz de nunca mais ter que olhar na cara dela, mas hoje ela fez questão de entrar justo no café onde eu trabalho. Trabalhava .

Ela teve a cara de pau de me confrontar no serviço. Não é como se eu tivesse como me defender. Nunca tive — não contra ela. Por causa dela, não consegui nem completar algumas semanas no meu trabalho de férias.

Quer dizer então que você vai fugir pra escola católica? Tá desesperada pra me evitar?

Sim. Desesperada a ponto de pedir demissão também. Qualquer coisa para não olhar para cara dela. Qualquer coisa.

“Yami?” Cesar bate na porta, mas não me espera responder antes de abrir uma fresta e dar uma espiadinha. “Já te ligo”, diz meu irmão ao telefone, para quem quer que esteja do outro lado da linha.

Ele deve ter ouvido o espelho quebrando. Arregala um pouquinho os olhos quando vê minha mão, então já provoco:

“Era sua namoradinha ?”

“Tipo isso.” Ele dá de ombros.

“Nossa, que pegador!”, digo, balançando a cabeça.

“ Enfim , tá tudo bem aí?”

Meu irmão encara os nós dos meus dedos ensanguentados e o espelho, esperando um explicação que não dou. Eu é que devia estar preocupada com ele, não o oposto. Os nós dos dedos dele estão começando a cicatrizar, o que também vai acabar acontecendo com os meus, e ele está com o olho roxo. Só mais uma variação do usual.

“Tá tudo bem aí ?”, devolvo a pergunta.

Cesar dá uma olhada rápida no espelho e depois em mim de novo antes de entrar. Salta o monte de roupa suja no chão e se senta na minha cama, sorrindo.

“Fechei todas as matérias com nota máxima!”, exclama ele.

Certo, não sou a única desviando do assunto. Cesar e eu temos um acordo tácito: podemos fazer perguntas pessoais apenas uma vez. Se um de nós não quiser responder, o outro não insiste. É assim que a gente faz para manter a paz. Cumprimento Cesar com um “toca aqui!” usando a mão boa e depois vou ao nosso banheiro compartilhado lavar o sangue da mão, deixando a porta aberta para que ele possa me ouvir.

“¡Eso! Não é à toa que você conseguiu uma bolsa na Slayton.”

Cesar é definitivamente o melhor aluno de nós dois. Adiantou um ano na escola, então estamos os dois indo para o penúltimo ano do ensino médio. Muita gente acha que somos gêmeos, e não estou nem aí. É um pouco menos constrangedor do que admitir que meu irmão mais novo é muito mais inteligente que eu. Não sou da turma dos mais inteligentes que nem ele, mas até que mando bem.

Sem uma bolsa de estudos para chamar de minha, preciso arrumar outro emprego com urgência para pagar minha metade das mensalidades. É o único jeito de a minha mãe conseguir arcar com o custo de mandar nós dois para a Escola Católica Slayton, e estou mais do que disposta a fazer o trabalho extra. Provavelmente ia morrer de vergonha se tivesse que voltar ao Colégio Rover depois do que a Bianca fez. Ir para a escola católica e achar outro serviço vão valer a pena se, em troca, eu nunca mais tiver que ver aquele rostinho lindo e traíra dela. Tchau, tchau, Rover, não acho que vou sentir saudades.

Depois que me livro de todo o sangue, cubro o corte com um pouco da cola medicinal instantânea de Cesar antes de voltar para o quarto. Quando termino, mal dá para perceber que tinha me machucado. Esconder a dor, ao menos, é algo que faço muito bem.

Cesar está deitado na minha cama, encarando o teto, brincando com o crucifixo no cordão que tem pendurado no pescoço.

“Você quer mesmo ir pra Slayton?”, pergunta ele.

Dou de ombros e me jogo ao lado dele na cama.

Bianca não é a única razão pela qual preciso ir para a Slayton, mas não posso contar isso para Cesar. Mamãe está nos forçando a ir para lá porque precisamos de uma “educação de mais qualidade”, com os melhores professores e um currículo mais avançado. Também é a forma de mamãe compensar o fato de que não tem mais tempo de levar a gente à igreja.

Foram essas as razões que nós duas demos para Cesar. Não contamos que também tem a ver com as dificuldades que ele está tendo no Rover, e que a mamãe acha que na Slayton vai ser mais seguro (por causa dos valores cristãos). Não contamos que insisti em mudar de colégio com ele para manter meu irmão longe de confusão. A Slayton é uma escola católica toda chiquetosa e também um novo começo, para nós dois. E agora ao menos vou lembrar de manter a boquinha calada sobre meus crushes. Dessa vez, vou ser uma lésbica no sigilo. Tipo a atriz Kristen Stewart.

Cesar vira de lado para me encarar.

“Ouvi dizer que só tem gente branca lá.”

“É provável.”

Os alunos no Rover são quase todos negros ou racializados e de ascendência mexicana, apesar de terem nascido nos Estados Unidos. A Slayton, por outro lado, fica na zona norte de Scottsdale, a uns quarenta minutos de carro de onde a gente mora. Digamos que não tem muita melanina naquela região. Eu provavelmente conseguiria pagar a mensalidade só vendendo protetor solar nos intervalos entre as aulas.

“E o time de futebol americano da escola é uma merda”, diz ele.

“Você nem joga.”

“E nunca vou jogar.”

Há uma tristeza nos olhos do meu irmão, como se jogar futebol americano já tivesse sido um sonho dele.

Juro, ele é o cara mais dramático que conheço.

“Nhoin, pobrecito.”

Tento beliscar sua bochecha, mas ele me dá um tapinha.

Cesar é só dez meses mais novo que eu, mas não quero que esqueça que é meu bebê.

“Ouvi dizer que tem, tipo, umas dez horas de tarefa de casa por dia. Isso é maus-tratos infantis. Quando a gente vai dormir? E comer? A gente vai morrer de fome!” Ele agita os braços no ar.

Gargalho e dou uma travesseirada nele.

“A gente vai sobreviver.” Não comento que ele é quem vai ter tarefa de casa extra, com todas as matérias do ensino superior que decidiu antecipar e o lugar na turma de melhores alunos que só ele conseguiu.

“Além disso, é melhor que a alternativa, certo?”

“Que alternativa?”

“Ah, você sabe…” Aponto para o olho roxo dele. “Apanhar?”, sugiro, e ele contrai o maxilar. Me sinto automaticamente mal por ter trazido o assunto à tona, então continuo. “Ou comer nugget de frango embolorado de almoço. Aquilo sim é maus-tratos infantis. Pelo menos em Slayton vão servir comida de verdade.”

“Acho que sim.” Ele não parece muito feliz.

Cesar não tem instinto algum de autopreservação. É quase como se quisesse continuar apanhando que nem um desgraçado no Rover.

Passo os braços pelos ombros dele.

“Não se preocupa. Se você ficar com saudades da comida do Rover, é só lamber a sola do sapato. Vai parecer que você nunca mudou de escola.”

Ele solta uma risadinha pelo nariz e ergue uma das pernas.

“Nem vem, meu sapato é super limpinho. Um prato cinco estrelas.”

“Eu disse a sola , tonto.” Faço menção de dar uma puxadinha na orelha dele, mas ele é mais rápido e puxa a minha antes. “Ai!” Esfrego o ouvido. Malditos reflexos lentos.

Mas tudo bem. Prefiro uma orelha puxada a um irmão possesso comigo.

Meu telefone vibra, e a fotinho de mamãe aparece na tela. Não sei por que ela me liga mesmo podendo só me chamar. Nossa casa não é tão grande a ponto de não dar para ouvir. Atendo mesmo assim.

“Oi, mami.”

“Vem pa’ acá, mi hija .”

“Tô indo!” Desligo.

Minha mente está a mil, tentando pensar em alguma desculpa para explicar como o espelho quebrou.

“Diz pra ela que fui eu que quebrei.” Cesar deve ler minha mente, mesmo sem nem estar olhando para mim. Ele é bom nisso.

“Por quê?”

“Ela vai acreditar em você, e não vai dar em nada pra mim.”

Ele está certo. O Cesar é o queridinho da mamãe. Se ele disser que quebrou um espelho, tudo que ela vai querer saber é se a mão dele está boa. Já se for comigo, vou ficar de castigo — no mínimo. Mesmo assim, não vou jogar a culpa nele desse jeito.

Reviro os olhos e vou para o quarto da minha mãe. No corredor, evito olhar para a coleção de crucifixos e a galeria de fotos de Jesus nas paredes. Ao que parece, um Jesus não é santidade o suficiente para me fazer virar hétero à força — não que mamãe saiba que precisa disso. Queria que Cesar não acreditasse tanto nesse tipo de coisa religiosa, porque aí eu poderia ao menos reclamar com ele sobre o assunto. O retrato maior é o que sempre me deixa particularmente incomodada. É um Jesus me encarando — não, me fulminando — com uma baita tristeza no olhar, como se soubesse que vou para o inferno. Não consigo ignorar a sensação de que não importa se sou ou não assumida. A voz de mamãe ralha na minha mente: Jesus vê tudo . Sinto o estômago se revirar, como se os crucifixos estivessem tentando exorcizar a lésbica em mim. Fito o carpete e avanço a passos rápidos pelo Corredor da Vergonha até entrar no quarto dela.

Já entro quase enfiando o pé em um brinco de miçanga. O padrão angular tenta imitar uma flor vermelha e laranja. Como sempre, o chão está cheio de contas, fios, arames e outros apetrechos de trabalhos manuais. No tempo livre, mamãe faz bijuterias e colares mexicanos de miçanga para vender, e ela manda bem demais. Como se já não fosse ocupada o bastante trabalhando em tempo integral em um callcenter e cuidando de dois filhos. Ergo a cabeça para ver se ela percebeu que quase pisei no brinco, mas ela não reage.

Mamãe dá um tapinha na cama, ao lado de onde está sentada. Está com o cabelo preso em um coque todo bagunçado e óculos escuros — o que costuma usar quando está com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Não sei o que aconteceu, mas acho que não tem relação com o espelho. Sou eu que ela chama quando está de óculos escuros. Está sempre preocupada demais com Cesar para despejar os problemas no colo dele. Salto a bagunça no chão e subo na cama para me aconchegar na nossa posição usual de denguinho. A cama dela é muito mais confortável que a minha, e, mesmo depois de crescida, sempre me sinto segura nela. Mamãe me abraça e começa a me fazer cafuné. Fecho os olhos, e ficamos as duas em silêncio por um tempinho.

Ela não fala nada sobre o espelho. Talvez nem tenha ouvido a quebradeira. Sei que devia estar confortando-a agora, mas me sinto muito culpada. Preciso tirar essas coisas do peito.

“Eu pedi demissão”, disparo. Melhor arrancar o curativo de uma vez. Ela teria descoberto cedo ou tarde. “Mas vou arrumar outro, prometo.”

“Ay, Dios mío…” Ela suspira e faz o sinal da cruz. “Não vai me dizer que a Bianca te convenceu a pedir demissão. Ela é uma má influência pra você.”

Ouvir o nome da Bianca faz meu corpo gelar por um instante. “Não, mami. A gente não é mais amiga.”

Tento não me abalar pelo fato de que ela ainda não percebeu. Faz só algumas semanas que a Bianca me arrancou à força do armário, então talvez mami só tenha passado os últimos tempos muito ocupada para perceber.

“Ay, ay, ay … Então mais tarde a gente fala sobre um emprego novo.”

Por alguma razão, ela não parece irritada pelo fato de que me demiti. Não era exatamente a reação que eu estava esperando.

“Beleza…”, digo.

Demora um tempinho para ela dizer sobre o que realmente quer falar.

“Preciso que você me faça um favor. Pode ser, lindinha?” A voz dela está rouca.

“Claro, mami.”

“Você sabe que quero o melhor pra você e seu irmão.”

“Sei.”

“Não sei mais o que fazer com aquele garoto.” Ela se deita de costas. “Seu pai que era ótimo em lidar com ele.”

Não falo nada. Papai foi deportado para o México quando eu tinha 10 anos. A gente se fala pelo telefone e por chamada de vídeo de vez em quando, mas não o vejo pessoalmente há anos. Depois que ele foi embora, minha mãe passou por poucas e boas tentando trazê-lo de volta para os Estados Unidos, e acabou gastando todas as economias da família pagando os advogados. Mas o sistema deixou a gente na mão, e não tem como ele voltar.

Papi e Cesar são as únicas duas pessoas que sinto que me entendem. É um saco só conseguir falar com meu pai por uma tela, e por pouquinho tempo por vez.

“Falei com ele hoje. Ele tá com saudades de você. E do Cesar.” Ela enxuga os olhos sob os óculos. “O Cesar… Ele não me escuta como escutava seu pai.”

Respiro com um pouco mais de alívio sabendo que ela está chateada com Cesar, não com meu emprego ou com o espelho. Mas sei que, cedo ou tarde, ela vai fazer a conversa ser sobre mim. Mamãe sempre faz isso.

“Vai ficar tudo bem com o Cesar, mami.” Aperto a mão dela.

Cesar sempre insiste que está bem e finge que é durão, mas o fato de ele revidar não faz com que a briga seja justa. Mamãe e eu já tentamos perguntar por que ele continua se metendo em briga e qual é o problema, mas ele estoura ou se fecha quando sente que está sendo questionado. O melhor que posso fazer por ele é ficar de olho, mas não estou dando conta nem disso. Parece que toda vez que me viro para o lado, ele arranja confusão ou leva uma surra do nada, então não me sinto capaz de acabar com os olhos roxos e os lábios partidos com os quais meu irmão continua aparecendo.

“Ele te dá ouvidos.” O lábio de mamãe está tremendo, e não sei o que fazer.

Enfio a mão machucada no bolso do casaco de moletom. Se ela descobrir que soquei alguma coisa, vai achar que sou o motivo das brigas em que Cesar anda se metendo. Qualquer deslize sempre faz com que as coisas sejam culpa minha. É muita pressão ter que ser modelo de perfeição para o meu irmão quando mal consigo cuidar da minha vida.

Desde que papai voltou para o México, temos esse acordo tácito de que devo cuidar de Cesar como ele fazia antes. De acordo com mamãe, se alguma coisa acontecer com Cesar, sou eu a responsável.

Estou cansada disso.

“O que você precisa que eu faça?”

“Que seja um bom exemplo pra ele. Que diga que essa vai ser uma oportunidade boa pra vocês dois. Que cuide dele. Essa escola nova é pequena, então vocês não vão ter problema.” A sensação que dá é que ela está dizendo que não ando cuidando bem dele no momento.

Como se o motivo de eu ter arrumado um emprego não fosse justamente poder ir junto para a escola de freira justamente para cuidar dele. Minha vontade é dizer que o que acontece com ele não é culpa minha, mas minha mãe não ia me ouvir.

“Tá bom, mami.”

“Ah, e você tá de castigo.”

“Como assim?” Me sento na cama.

Como pode ela me pedir um favor e depois me deixar de castigo, isso tudo enquanto fica aconchegadinha comigo? É uma surpresa meu pescoço não quebrar com a velocidade com que viro a cabeça.

“Até você arrumar outro serviço. Você sabe que não consigo arcar com a mensalidade da escola de vocês dois.”

“Eu vou arrumar”, digo.

Já estava planejando resolver isso. E ficar de castigo não importa, na verdade, já que a única pessoa com quem costumo sair agora é Cesar.

“E vai cuidar do seu irmão.”

“Pode deixar, mami”, digo, descendo da cama.

Vou deixar o Cesar achar que a conversa foi sobre o espelho.

Não terás outros deuses além do capitalismo 2

Eu devia estar me dedicando à tarefa de férias que chegou pelo correio da matéria de linguagem, mas encontrar um emprego é prioridade. Que tipo de escola dá tarefa de casa durante as férias, afinal? Se acabar encontrando um serviço, talvez faça uma apresentação sobre como lição de casa é uma coisa antiética que suga a vida de qualquer um.

Por mais que me ocupe preenchendo um formulário de emprego atrás de outro, ficar de castigo é solitário. Antes, Bianca me dava apoio moral ou conselhos. Mas agora sei que, para começo de conversa, nem minha amiga ela era.

Parte de mim quer ser grata pelo fato de que ela só contou que sou lésbica para um total de três pessoas — nossas outras amigas, Stefani e Chachi, e a mãe dela. Mas essa parte de mim é inocente demais. Ela não devia ter contado para ninguém . Acho que, olhando em retrospecto, nunca fui assim tão próxima das outras meninas no nosso grupo. Elas só me toleravam porque eram amigas de Bianca. Ela era a “líder” do grupo, e nós éramos suas fiéis discípulas.

Mas Bianca era mais que uma simples líder, e eu não era apenas uma discípula. Ela era a super-heroína, e eu, seu braço direito.

Beleza, talvez “braço direito” seja exagero. Eu estava mais para aquele tipo de mocinha em perigo que a heroína precisa salvar o tempo todo.

Ninguém se importa com essa personagem. Então, ainda bem que a Bianca acabou com essa ilusão, e não preciso mais me prestar àquele papel. Sou minha própria heroína agora, e ela é a vilã.

Acho que antes eu era bem ingênua. Já tinha visto o lado malvado da Bianca. Como ela metia o pau em todo mundo à toa. Como desprezava qualquer pessoa de fora do nosso grupinho. Sob as asas da Bianca, eu me sentia especial. Devia ter desconfiado que seria muito fácil para ela virar a cara pra mim e me transformar em alvo.

Por enquanto, procurar um emprego tem sido uma distração conveniente para eu esquecer um pouco a Bianca. Não preciso pensar em como a odeio enquanto estou ocupada preenchendo formulários e reescrevendo compulsivamente meu currículo. Passo o restante de junho e todo o mês de julho atrás de um serviço, mas depois de receber apenas rejeições desanimadoras, ainda não tive sorte. Meu currículo não é lá grande coisa, por mais que eu o incremente. Só tive um trabalho, como barista, e nem ele consegui manter por mais de algumas semanas. E são poucas as vagas em um raio de distância da minha casa que permita que eu possa ir a pé.

Tecnicamente, posso usar o telefone só para procurar emprego e em caso de emergência, mas não fui proibida de encarar o celular sem notificação alguma entre inscrições em processos seletivos. Meu fundo de tela faz com que me sinta um pouco melhor por não ter nenhuma mensagem de texto. É uma foto em que meu pai e eu estamos posando como participantes de um reality show de modelo de passarela. Eu tinha 8 anos, então meu pai está de joelhos para ficar mais ou menos na minha altura, e ambos estamos em uma posição esquisita, com as mãos nos quadris e os ombros torcidos. Sorrio para a imagem e considero ligar para meu pai, mas, como estou de castigo, apenas encaro a ausência de notificações mesmo. Me odeio por ter esperanças de ver o nome de Bianca aparecer na tela. Não devia estar com saudades dela. Devia era estar puta. E estou puta, mas…

“Argh!”

Vou até o quarto da minha mãe e salto as bijuterias, me jogando no colchão para me aconchegar na cama dela. Ela me mataria se eu pisasse nas coisas que deixa espalhadas por ali. Cubro a cabeça com o edredom, pensativa.

Mamãe só consegue pagar metade da minha mensalidade, então se eu não conseguir arrumar um emprego para cobrir minha parte, vou ter que voltar para o Rover. Sozinha. Não teria como cuidar do Cesar como mamãe gostaria. Ela já está irritada com o fato de que não posso participar das aulas exclusivas da turma de geninhos dele — se meu irmão acabar se metendo em confusão nesse tempo e perder a bolsa de estudos, a culpa vai ser minha.

Minha preocupação é essa, só essa. Não tem nada a ver com eu estar “fugindo” da Bianca. Nunca mais olhar para a cara dela é só mais uma vantagem dessa situação toda, isso se eu conseguir outro emprego. Mas ninguém quer contratar uma menina de 16 anos sem carro e sem experiência. Preciso pensar fora da caixa. Me sento e deixo o edredom cair de lado. Pensa. Pensa .

A cama é um lugar confortável demais para reflexões, então desço dela e me sento no chão. Mas não consigo me concentrar porque as coisas de bijuteria da minha mãe estão uma zona. Ela deixa peças pela metade espalhadas por todos os lados e nem se dá ao trabalho de separar as terminadas das que ela ainda precisa acabar. Começo organizando a bagunça para limpar a mente. Francamente, mamãe faria muito mais grana caso se organizasse melhor e se dedicasse pelo menos um pouquinho na divulgação da loja dela na Etsy. Por pura curiosidade, abro o site no celular. É bem constrangedor, para ser sincera. As fotos estão megaborradas, e de fundo minha mãe usou o carpete azul-escuro desbotado do quarto dela em vez de qualquer outra superfície. Convenhamos, não é um tom que favorece cores vibrantes.

Minha mãe não sabe nada de redes sociais nem de tecnologia. Isso me dá uma ideia… Talvez eu possa fazer uma surpresa! Quem sabe reformar a loja da Etsy dela e fazer uma conta no Instagram seja exatamente o que ela precisa. Com cuidado, pego as peças prontas no chão e escolho a minha preferida de cada estilo. Algumas bijuterias ela vende baratinho, tipo uns brincos de conta ou uns colares com pingente de cristal. Os braceletes trançados à mão são sempre um sucesso nas feirinhas de artesanato. Mas o que acho mais lindos são os trabalhos com miçanga. As cores que ela escolhe ficam mais vibrantes quanto misturadas, como se os padrões dessem a elas uma vida que não tinham antes. Os

colares, brincos e braceletes com padrões tradicionais me lembram muito o México. Não vou para lá desde pequenininha, mas sempre me sinto mais em casa do outro lado da fronteira.

Aliso o lençol branco na cama e disponho as bijuterias de mamãe. São lindas, mas o lençol não faz jus à fofura. Felizmente, mal preciso de motivo para me maquiar. Depois de fazer as unhas e uma maquiagem e arrumar o cabelo, estou pronta para ser modelo de bijuteria.

“Cesar! ¡Ayúdame!” , grito.

“Com o quê?”, berra ele de volta.

“Vem aqui!”

“Affe, tá bom.” Cesar entra, e o olhar dele alterna entre mim e as peças na cama. “Eita. O que você tá aprontando?”

“Ajudando a mamãe a ficar rica. Você vai ser meu fotógrafo.”

“Só se você for comigo no mercadinho buscar Takis picante.”

Hum. Juro que agora há pouco ele estava com uma menina pelo telefone, dizendo que está doente e não pode sair. Cesar definitivamente está usando essa história de comprar salgadinho para me tirar de casa. Ele nunca nem divide comigo — o que me deixaria irritada se eu gostasse de Takis. Acho que ele está abrindo mão de oportunidades de sair para garantir que estou bem.

Ele não sabe o que aconteceu, mas sabe que algo aconteceu. Tenho certeza de que sacou mais ou menos o que rolou, juntando o espelho quebrado e o sumiço de Bianca. Eu costumava estar com ela quase todo dia, na minha casa ou na dela, desde que somos criancinhas, mas é quase fim do verão e ela não aparece em casa desde antes do final do último período letivo.

“Mas eu tô de castigo”, resmungo.

“A mamãe tá trabalhando.” Ele dá uma piscadela, o que aparentemente só consegue fazer virando a cabeça e abrindo a boca para forçar o olho a fechar. “Além disso, ela quer que a gente leve uns tamales pra doña Violeta. Ela não precisa saber que a gente também foi até o mercado e comprou salgadinho.”

Não preciso de muito convencimento, porque não acho que merecia esse castigo. Tenho certeza de que ela vai me liberar no instante em que eu contar da minha ideia para o Etsy. E, para ser sincera, não queria que

Cesar fosse até o mercadinho da esquina sozinho. Mamãe também não ia querer. Os caras com quem ele sempre briga não moram muito longe, e ele parece que fica com o capeta no corpo quando não estou por perto. Prefiro não arriscar, mesmo estando quente a ponto de dar para fritar um ovo no asfalto.

“Beleza, mas então a gente tira as fotos antes.”

Entrego o celular para Cesar, e ele começa a tirar fotos de mim antes de eu estar pronta.

“Calma!”

Corro para botar um bracelete e exibo o pulso para a câmera, mas meu irmão balança a cabeça.

“Coloca aqueles também.” Ele aponta para um par de brincos marrom e azul que fazem conjunto com o bracelete.

Coloco as peças e poso com a mão tocando a orelha para que todas as peças apareçam juntas.

“Não precisa disso tudo. Sua boca nem tá aparecendo na foto”, diz Cesar, e relaxo os lábios antes contraídos em um beijinho.

Meu irmão é um fotógrafo desses mandões, mas ele arrasa. Continua dirigindo minhas poses e falando quais bijus combinar. Mas logo se enche, e me deixa na mão enquanto fico lá sofrendo para escolher o nome e a arroba do perfil do Insta. Depois de uma hora de reflexão, registro JoyeriaFlores tanto no Etsy quando no Instagram. O nome antigo dela no Etsy era Maria749, o que obviamente precisava ser modificado. Agora, preciso de dinheiro para fazer alguns anúncios. Deleto todos os atuais, já que é até difícil entender o que de fato ela está tentando vender em cada um. E, de acordo com o aplicativo, mamãe não recebe pedidos faz um tempinho, o que vai mudar já, já. Quero ser capaz de provar para mami que a loja é um sucesso antes de contar tudo para ela, então vou ter que penar.

O único problema é: já dei todo o dinheiro que ganhei enquanto estava empregada para minha mãe pagar a mensalidade da escola. Por sorte, tem alguém para quem posso pedir ajuda. Mando uma mensagem de texto curtinha para meu pai, contando o plano e mandando algumas das fotos que tirei. Também explico como funciona o impulsionamento pago de anúncios. Alguns minutos depois, meu celular vibra.

Papi: Ay, que linda ♥ Sua mami vai amar. Mal posso esperar pra ver a reação dela.

E logo depois recebo uma notificação do PayPal. Ele me mandou dinheiro o bastante para pagar pelos anúncios de uns vinte itens, mais uns vinte dólares extra e um emoji de coração.

Meu Deus, amo meu pai.

Depois de pagar as taxas do aplicativo, tomo o cuidado de dividir esses custos e incluir também a taxa do cartão e a da plataforma na hora de definir os preços unitários, assim não tomamos prejuízo em nada. Como é que mesmo com esse talento todo para ganhar dinheiro tem gente que não me contrata? Azar o deles.

Assim que termino de impulsionar os anúncios das minhas peças favoritas, compartilho algumas fotos e links no meu Twitter com uma legenda sobre como minha mãe trabalha duro para criar a mim e a meu irmão e como adoro essa mulher e as bijuterias dela e blá blá blá. É meio cafona, mas as pessoas engolem.

“Hora de buscar o salgadinho.” Cesar volta para o meu quarto com a expressão séria.

Leio a legenda mais algumas vezes e enfim posto tudo. Quando desço as escadas, meu irmão já está me esperando na porta com os tamales que pegou no congelador. Colocou as palhas de espiga cheias de massa de milho entre dois pratinhos de papel, e agora vamos levar a comida para doña Violeta. Ela está bem deprimida depois que o marido faleceu ano passado e não está se cuidando muito bem, então a vizinhança assumiu para si a missão de manter a idosa alimentada. Ela costumava ser a babá do quarteirão e cuidou de toda as crianças da nossa rua, já que nossos pais não tinham dinheiro para creche. Eram pelo menos oito de nós na casinha de um quarto só, e ela conseguia dar conta só Deus sabe como. Ela cuidou da gente na época, então agora é nossa vez de retribuir.

Assim que saímos, ouvimos tristes canções mariachi ecoando pelo bairro, vindas do alpendre da doña Violeta. Ela costumava tocar músicas típicas boas de dançar, mas agora está sempre depressiva. Fica sentada do lado de fora o dia inteiro, ouvindo uma música de sofrência atrás da outra enquanto os acordes fazem a quadra retumbar.

Dou uma olhada no celular o caminho todo. Nada. Acho que faz só alguns minutos que arrumei a lojinha e criei o Insta, então ainda não tenho com o que me preocupar. Guardo o telefone no bolso e torço para ter mais sorte quando olhar de novo. Menos de duas casas depois, já sinto a calçada queimar embaixo dos meus pés como se estivesse andando em uma frigideira de tortilha. Não avançamos nem um metro e meio e, por causa desse calor de Phoenix, já estou suando de escorrer. Ah, os sacrifícios que faço pela família…

A casa de Bianca é no caminho até a de doña Violeta, mas mantenho o olhar fixo no horizonte. Não quero nem olhar para o jardim que não chegamos a terminar de plantar juntas. Corro o risco de os vasos de cerâmica talavera que pintamos à mão me lembrarem que era divertido ser amiga de Bianca, e no momento preciso pensar nela como uma vadia malvada e sem coração. Mas Cesar encara a casa quando passamos, e não consigo não olhar.

Os vasos não estão vazios. As flores não morreram. Sinto o estômago embolar, e o sol parece duas vezes mais quente. Ela terminou o jardim sem mim.

“E aí, o que rolou entre vocês duas?”

Eu tinha a esperança de que meu irmão não fosse dizer nada, mas no fundo sabia que o assunto viria à tona cedo ou tarde.

Enxugo o suor da testa.

“Nada. Ela morreu pra mim.”

Cesar dá uma risada.

“Se ela morreu pra você, como é que não foi nada?”

“É que não quero falar sobre isso.”

Ainda consigo sentir a dor da punhalada que Bianca me deu não nas costas, mas no peito. Não posso falar sobre isso com Cesar, porém. Se Bianca está morta para mim, não preciso pensar em como as coisas seriam diferentes se eu nunca tivesse saído do armário para ela. Se Bianca não existe, posso seguir com a minha vida. Fico grata por nossa política do “perguntar apenas uma vez”, então não preciso pensar muito no assunto.

Também fico grata pelo fato do Rover até ser bem grandinho, então os boatos só se espalham mesmo dentro de um grupo específico de amigos. Assim, os rumores que surgiram sobre mim nunca chegaram aos ouvidos de Cesar, e vice-versa. Gosto assim.

Pego de novo o celular para me distrair dos pensamentos em Bianca. O Instagram ganhou algumas curtidas e uns seguidores, mas nada muito digno de nota. Dou uma resmungada. Sei que não é muito provável que o perfil bombe do nada, mas é difícil ter paciência.

“Para de olhar. Você só vai ficar mais nervosa”, diz Cesar, e, algumas casas à frente, o filhote de pit bull de doña Violeta começa a latir para nós. Isso é suficiente para distrair Cesar da chatice do meu telefone. Mas ele está certo. Vou tentar parar de olhar as notificações, pelo menos até a gente voltar para casa. Coloco o celular no silencioso para nem sofrer a tentação de espiar.

Cesar vai até o alambrado, e o bichinho faz festinha e lambe a mão dele pela grade. A coitadinha não pode entrar em casa, então passa o dia presa no gramado bem-aparado do quintal de doña Violeta. A maioria dos adolescentes do bairro passa para lhe levar comida, mas alguns se ofereceram para fazer a jardinagem, já que o mato estava crescendo sem controle. Agora a grama é cortada com frequência, e o cachorrinho não tem muito com o que se divertir.

Meu irmão parece que assumiu para si a missão de dar atenção ao animal sempre que passa por ali. Além dos esforços da comunidade, a cachorrinha é a única coisa que está impedindo que doña Violeta surte. Ela tem tipo um ano, e é fofa o bastante para distrair Cesar dos meus problemas. Fica nítido que ele está tentando preencher o espaço vazio que Bianca deixou, mas não precisa de detalhes da história. Amo isso no meu irmão.

Parece que doña Violeta só percebe nossa presença quando chegamos bem perto, dando abraços e beijos nas bochechas da senhora. Ela sorri com os olhos marejados, mas não diz nada.

“A gente trouxe tamales”, diz Cesar mais alto que a música, apontando para os pratos nas minhas mãos.

Ela não responde nada, então entramos e esquentamos a comida. Caso contrário, ela nunca ia comer. Enquanto Cesar requenta a iguaria, dou uma ajeitada na sala de estar. Os móveis são cobertos por uma capa de plástico transparente, o que só faz eles ficarem desconfortáveis pra caramba. Odiava aquilo quando era criança, e até hoje não entendo. A capa de um dos sofás ainda tem desenhos desbotados feitos com

caneta permanente, lembrança de uma tentativa de “decoração” minha e de Bianca quando éramos pequenininhas. Sinto o rosto corar com a lembrança. É como se, para todos os lugares que eu fosse, Bianca estivesse lá para me provocar.

A comida fica pronta, e Cesar e eu nos sentamos no chão do alpendre de doña Violeta enquanto ela come, contando as histórias que nos vêm à mente para tentar animar a senhorinha. Quanto mais tempo passamos com ela, menos tristes seus olhos ficam. Esperamos, e só nos despedimos quando o sorriso dela não parece forçado e temos certeza de que ela não vai passar o resto do dia chorando.

“Obrigada por tudo isso. Los quiero muchísimo”, sussurra ela enquanto beija minha testa, repetindo o gesto com Cesar logo depois.

“A gente também ama a senhora”, respondemos, e damos um abração na idosa.

Seguimos até o mercadinho de esquina para comprar os salgadinhos picantes de Cesar e voltamos para casa. A infantil pintura laranja faz nossa casa se destacar das outras. Meu pai, Cesar e eu pintamos a fachada em um verão, enquanto minha mãe viajava. Laranja é a cor preferida dela, e meu pai queria fazer uma surpresa, mas como a gente tinha 8 e 9 anos, não éramos lá muito especialistas em pintura. Mamãe diz que não repinta porque não tem dinheiro, mas acho que na verdade ela se apega à essa pintura por ser uma lembrança do meu pai.

Quando entramos, suados e (no meu caso) sem Takis, enfim me concedo o privilégio de olhar para o celular. O perfil JoyeriaFlores não chegou nem perto de viralizar, mas consegui algumas centenas de notificações no Twitter e no Instagram, com várias pessoas bem empolgadas nos comentários. Confiro o Etsy na hora.

Metade dos itens já tinham sido vendidos. Me jogo na cama e começo a chacoalhar os braços e as pernas, gritando tanto que Cesar vem correndo, todo preocupado.

“Tá… Melhor nem perguntar o que rolou.” Ele recua devagar, para longe do meu surto frenético.

Assim que me acalmo, posto um agradecimento pelo apoio de todo mundo, prometendo repor em breve alguns dos itens preferidos. Depois volto ao trabalho de tentar vender o resto das peças. Retorno ao

quarto da minha mãe e coloco algumas bijuterias em mim mesma antes de fazer alguns videozinhos para o TikTok. Só posto um, guardando o resto nos rascunhos para publicar mais tarde. Com sorte, um deles vai cair na aba “Para Você” de todo mundo e explodir. Quando a porta da frente abre, corro para cumprimentar mami, me preparando para ser logo liberada do castigo.

“Mami, tenho uma surpresa pra você!”, exclamo, dando um abraço nela.

“Uma surpresa?” Mamãe ergue uma das sobrancelhas.

Pego o telefone no bolso e abro o post do Twitter antes de entregar o celular para ela. Prendo a respiração enquanto observo seu semblante, tentando calcular em que parte do fio ela está. A expressão da minha mãe não muda, mas a vejo mover o polegar para clicar no link da Etsy.

“Gostou do nome? Olha só as vendas! Não é incrível! Esse vai ser meu novo trabalho! Posso te ajudar, cuidando das coisas online e tal.”

Sinto que estou prestes a chorar de tanta alegria. Mami deve estar orgulhosa desta gênia do empreendedorismo. Ela me devolve o celular.

“Apaga.”

Pisco várias vezes.

“Como assim?”

“Apaga.”

“ Por quê? ” Minha voz sai aguda sem querer.

“Porque eu mandei.”

Fico de queixo caído, olhando para minha mãe. Será que ela não percebe como isso pode ser bom para ela? Para todos nós? É ela que quer que eu ganhe mais dinheiro. Que me deixou de castigo justamente porque não estou ganhando dinheiro! Por que é tão cabeça-dura assim? Essa é a ideia perfeita, e, para ser sincera, não sei mais o que fazer. Parece que nunca consigo acertar com ela.

“Escuta, mi hija , meu dia foi longo. Não consigo lidar com isso agora.” Ela passa por mim e entra no quarto sem falar mais nada.

Vou correndo para o meu, me jogo na cama e solto uns gemidos com a cara enfiada no travesseiro.

Se dependesse só do meu pai… Ele amou a ideia. Talvez possa me ajudar. Ou talvez eu só precise reclamar com alguém. Mando uma mensagem de áudio para ele.

“Paaaaaapi, que saudades. A mãe tá sendo uma escrota”, começo, depois deleto e começo de novo.

“Paaaaaapi. Fala pra sua esposa deixar de ser escrota !” Apago.

Até minha raiva passar, gravo umas sete mensagens diferentes. Enfim mando uma comedida, explicando com calma a situação. Talvez ele faça sua mágica e enfie algum tipo de razão na cabecinha oca dela.

Meu celular continua vibrando com notificações, e depois de um tempo a foto do bloqueio de tela com meu pai e eu bancando de modelos fica toda preta quando a bateria acaba. Fico sem coragem de botar o telefone para carregar logo de cara, porque isso significaria ter que postar a notícia muito constrangedora de que a lojinha está fechada depois de um único dia.

Quando enfim conecto o celular no carregador, na manhã seguinte, as notificações continuam chegando a toda. O que me deixa puta, já que toda essa brincadeira acabou se revelando um baita esforço desperdiçado. Mas enfim vejo que tenho duas mensagens de texto. Uma da minha mãe…

Mami: Não precisa apagar…

E uma do meu pai.

Papi: Falei com ela ;)

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