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A Última Contadora de Histórias - Book Preview

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A ÚLTIMA CONTADORA DE HISTÓRIAS

DONNA BARBA HIGUERA

the last cuentista

Copyright © Donna Barba Higuera, 2021 Todos os direitos reservados.

Imagem de Capa © Raxenne Maniquiz

Tradução para a língua portuguesa © Jana Bianchi, 2023

Diretor Editorial

Christiano Menezes

Diretor Comercial Chico de Assis

Diretor de MKT e Operações

Mike Ribera

Diretora de Estratégia Editorial Raquel Moritz

Gerente Comercial

Fernando Madeira

Coordenadora de Supply Chain

Janaina Ferreira

Gerente de Marca

Arthur Moraes

Gerente Editorial

Marcia Heloisa

E ditora

Nilsen Silva

Capa e Proj. Gráfico Retina 78

Coordenador de Arte Eldon Oliveira Coordenador de Diagramação

Sergio Chaves

Finalização

Sandro Tagliamento

P reparação

Flora Manzione

Revisão

Carolina Pontes

Maria Sylvia Correa

Retina Conteúdo

Impressão e Acabamento Leograf

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari - CRB-8/9852

Higuera, Donna Barba A última contadora de histórias / Donna Barba Higuera ; tradução Jana Bianchi. Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2023. 288 p.

ISBN: 978-65-5598-307-4

Título original: The Last Cuentista

1. Ficção norte-americana 2. Distopia 3. Ficção científica I. Título II. Bianchi, Jana

23-4637

Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2023]

Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento LTDA. Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ — Brasil www.darksidebooks.com

CDD 813

Para o papai: Das primeiríssimas histórias antes de dormir aos nossos papos diários, obrigada por toda uma vida de histórias.

“Os iucategos acreditam que a obsidiana é mágica, sabia?”, diz ela. “Um portal que reúne pessoas que se perderam umas das outras.” Ela aperta os lábios. A pele marrom enruga na direção do nariz como a casca rachada de uma árvore.

“Eles não deviam me obrigar”, retruco.

“Mas você precisa ir, Petra.” Lita olha para o outro lado por um tempão antes de voltar a falar. “Crianças não devem ser separadas dos pais.”

“Mas você é a mãe do papai. Se for assim, ele devia ficar com você. Nós todos devíamos.” As palavras mal saíram da minha boca e já sei que estou parecendo uma criancinha.

Ela solta uma risada profunda e baixinha.

“Sou velha demais para uma viagem tão longa. Mas pra você… Dios mío , um planeta novinho em folha! Será emocionante!”

Meu queixo treme. Afundo a cabeça no colo dela, apertando sua cintura.

“Eu não quero deixar a senhora.”

A barriga dela sobe e desce quando ela suspira fundo. Em algum ponto do deserto que margeia a casa de Lita, um coiote uiva chamando os amigos.

Como se combinado, as galinhas começam a cacarejar, e uma das cabras assustadas solta um balido.

“Você precisa de um cuento ”, diz Lita, se referindo a uma das histórias que costuma contar.

Nós nos deitamos, olhando para o céu estrelado. O vento quente do deserto passa soprando por nós enquanto Lita me puxa para o abraço mais apertado do mundo. Não quero sair dele nunca mais.

Ela aponta para o cometa Halley. Daqui, não parece tão perigoso.

“Había uma vez”, começa ela, “um nagual serpente de fogo. A mãe dele era a Terra. O pai, o Sol.”

“Um nagual serpente?”, pergunto. “Mas como o Sol e a Terra podem ser pais de algo meio humano, meio animal…?”

“Xiiiu… A história é minha.” Ela pigarreia e pega uma das minhas mãos entre as suas. “Serpente de Fogo estava possesso. A mãe Terra cuidava dele e o alimentava, mas o pai Sol não se aproximava. O pai trazia colheitas,

mas também grandes secas e morte. Em um dia muito quente, enquanto Sol pairava sobre o nagual”, Lita agita o braço na direção do céu, “a criatura desafiou o pai. A mãe implorou ao filho que continuasse com ela para sempre, mas o jovem Serpente de Fogo disparou na direção do pai.”

Lita fica em silêncio. Sei que a pausa é parte da estratégia dela para manter o suspense. Funciona.

“E depois?”

Ela sorri e continua:

“Com a cauda flamejando, Serpente de Fogo ganhou velocidade até não conseguir mais frear. Mas quando começou a se aproximar do pai, Sol, percebeu que tinha cometido um erro. As chamas dele eram mais fortes e poderosas do que qualquer outra coisa no universo. O nagual deu uma volta ao redor do pai, retornando a toda velocidade na direção de seu lar, mas era tarde demais. O fogo do Sol tinha queimado seus olhos, e ele não conseguia mais enxergar.” Lita estala a língua. “Pobrecito, cego e voando tão rápido que não tinha como diminuir a velocidade. Incapaz de encontrar a mãe.” Ela suspira. Lá vem a parte das histórias em que a voz de Lita fica mais suave, como se ela estivesse só explicando como chegar à padaria da esquina. “Então, a cada setenta e cinco anos, ele repete a jornada na esperança de se reunir a ela.” Ela aponta de novo para Serpente de Fogo. “Perto o bastante para sentir a presença da mãe, mas nunca a ponto de poder dar um abraço nela.”

“Mas dessa vez vai ser diferente”, digo, sentindo uma onda de calor subir pelas costas.

“Sim”, responde ela, me puxando mais para perto. “Em alguns dias, Serpente de Fogo vai enfim reencontrar a mãe. Y colorín Colorado, este cuento se ha acabado”, diz ela, encerrando o cuento . Esfrego a mão de Lita várias vezes, memorizando suas rugas.

“Quem te contou essa história? Sua avó?”

Lita encolhe os ombros.

“Ela me contou alguns pedaços. Talvez eu tenha inventado o resto.”

“Tô com medo, Lita”, sussurro.

Ela dá tapinhas no meu braço.

“Pelo menos fiz você parar de pensar no assunto?”

Não respondo de vergonha. A história dela de fato me fez esquecer. Esquecer do que pode acontecer com ela e todas as outras pessoas do mundo.

“Não precisa ficar com medo”, diz ela. “Eu não estou. É só o nagual voltando pra casa.”

Olho para o Serpente de Fogo, em silêncio.

“Vou ser igual à senhora um dia, Lita. Uma contadora de histórias.”

Ela se senta de pernas cruzadas, olhando para mim.

“Uma contadora de histórias, isso mesmo. Está no seu sangue.” Ela se inclina na minha direção. “Mas igual a mim? Não, mi hija. Você precisa descobrir quem é e então ser essa pessoa.”

“Mas e seu eu estragar suas histórias?”, pergunto.

Lita envolve meu queixo com uma das mãos de pele macia e marrom.

“Não tem como. Elas viajaram centenas de anos e passaram por muitas pessoas até chegarem a você. Agora, você precisa se apropriar delas.”

Penso em Lita e na mãe dela, e na mãe da mãe dela. Em quantas coisas sabiam. Quem sou eu para seguir os passos dessas mulheres?

Aperto o pingente.

“Nunca vou esquecer suas histórias, Lita.”

“Eu sei. O planeta pra onde você tá indo também vai ter um sol ou dois.” Ela bate no próprio pingente com a pontinha da unha. “Procura a direção em que eu estou quando chegar por lá?”

Meu lábio inferior treme, lágrimas escorrem pelo meu rosto.

“Não acredito que a gente tá deixando a senhora pra trás.”

Ela enxuga meu rosto.

“É impossível me deixar pra trás. Eu sou parte de você. Você está me levando pra outro planeta e centenas de anos no futuro, junto com as minhas histórias. Que sorte a minha!”

Dou um beijo no rosto dela.

“Prometo te dar orgulho.”

Apertando meu pingente de obsidiana, me pergunto se Lita vai ficar olhando o Serpente de Fogo pela janela embaçada enquanto ele se encontra com a mãe.

fundo: “Plêiades Ltda. Reimaginando tudo aquilo que você pensava sobre uma viagem interestelar. Luxo entre as estrelas, reservado apenas à elite aventureira”.

Penso no que as espaçonaves são agora. Essas pessoas nas megatelas, com seus sorrisos tratados com branqueamento, não são nada parecidas com a gente: cientistas, terraformadores e líderes que o governo achou que mereciam viver mais do que os outros. E como minha família conseguiu entrar nessa seleção? Como esses políticos do governo fizeram essa escolha? E se mamãe e papai fossem mais velhos? Quantos dos próprios políticos foram selecionados para embarcar sem passar por processo algum?

Parece errado estar fugindo de fininho da Terra enquanto tanta gente fica para trás. Só ontem contaram para meus pais aonde estamos indo. Papai diz que a Plêiades estava guardando as naves em uma instalação imensa no antigo aeroporto de Denver, pois as primeiras viagens oficiais da empresa só aconteceriam daqui a dois anos. Os testes inaugurais no espaço próximo, feitos alguns meses atrás, foram um sucesso, mas como estamos partindo meio às pressas, esta vai ser a primeira viagem interestelar das embarcações.

Se uma erupção solar não tivesse mudado a trajetória do cometa semana passada, daqui a alguns dias a gente estaria assistindo à passagem inofensiva do Serpente de Fogo, como acontece desde os primórdios.

As instalações do local de lançamento não passam de uma estação da guarda florestal além de alguns portões do Parque Nacional. Tento não pensar no que vi na entrada. Da estação da guarda, somos orientados a pegar uma trilha pela floresta junto com outros passageiros. Mais famílias se juntam logo atrás da nossa, esperando a vez delas de embarcar na espaçonave. O bosque de álamos e pinheiros filtra a luz do sol como o vitral da história de Jonas e a baleia lá na igreja. Me sobressalto quando escuto a gritaria de filhotes de passarinho bem acima da nossa cabeça. Olho para o alto e vejo uma andorinha-das-chaminés partir do ninho em busca de mais comida. Os gritinhos dos filhotes param assim que ela sai. A mamãe pássaro nem imagina que todo esse trabalho é uma perda de tempo. Aperto os olhos e vejo as cabeças minúsculas

acima da borda do ninho. A princípio, fico triste pelos bichinhos, tão pequenos e indefesos. Mas depois penso que, de certa forma, os pássaros são os sortudos. Nunca vão saber o que os acertou.

Continuamos até a espaçonave por um caminho que poderia ser uma trilha de caminhada qualquer. É o êxodo final da Terra menos oficial que se pode imaginar. Meus pais me disseram que o governo ficou de olho nas redes e descobriu que vários grupos extremistas e seguidores de teorias da conspiração suspeitavam que havia algo errado rolando. Eles estavam certos. Meu irmãozinho, Javier, para de supetão quando deixamos a camuflagem da mata de cedros e saímos para um campo verdejante. Uma espaçonave absurdamente grande, que mais parece um louva-a-deus de inox e cristal, surge diante de nós.

“Petra…?” Ele agarra meu pulso.

Do lado oposto do campo há uma réplica exata da nossa nave. Assim, de longe, parece ter metade do tamanho do titã à nossa frente. Como vejo só essas duas naves, sei que a terceira já decolou. Papai diz que perderam contato com a Terra depois de uma última mensagem indicando que estavam perto de Alpha Centauri.

“Tá tudo bem.” Dou um empurrãozinho para que Javier siga em frente, mesmo que minha vontade também seja de correr de volta para a floresta.

Penso em Lita, nos meus professores e colegas de sala, e me pergunto o que estão fazendo agora. Não quero imaginar todo mundo com medo a ponto de tentar se esconder de algo que não pode ser evitado.

Em vez disso, imagino Lita e tia Berta deitadas sob a manta vermelha e preta de franjas, bebendo café com um “toque secreto” enquanto veem o nagual serpente voltando para casa.

“Berta! Não é hora de ser avarenta.” Lita vira a garrafa de vidro cor de âmbar, vertendo o líquido também cor de âmbar na caneca de café.

“Tem razão”, responde tia Berta. “A gente não vai ter um próximo Natal pra guardar isso aqui”, diz ela, e Lita serve mais bebida na caneca dela.

Elas fazem um brinde, dão um golão e apoiam as costas na nogueira de mais de cem anos de tia Berta.

Essa é a história delas que vou guardar na memória.

Antes de os meus pais serem escolhidos, várias pessoas começaram a saquear os lugares. Quando perguntei a mamãe porque se davam ao trabalho, já que logo as coisas nem existiriam mais, os olhos dela marejaram.

“As pessoas estão com medo. Algumas vão fazer coisas que achavam que nunca seriam capazes de fazer. A gente não tem o direito de julgar ninguém.”

Ainda não entendo como alguns estão calmos e outros se revoltando. Acho que devia ficar feliz por meus pais terem sido escolhidos para irem a Sagan, o planeta novo. Mas sinto que recebi o último copo d’água da Terra e estou tomando tudo sozinha enquanto as outras pessoas observam.

Fito o cometa e faço uma careta. Odeio você

Como formiguinhas em uma marcha ordenada na direção do formigueiro, eu e minha família andamos em silêncio pelo gramado, junto com vários cientistas e outra família com um adolescente loiro. Quando nos aproximamos, em vez da estação de lançamento padrão feita de concreto que eu esperava encontrar, vemos apenas grama recém-cortada.

“Vocês nem vão perceber a passagem do tempo quando a gente estiver a bordo”, mamãe diz baixinho. “Não tem por que ficarem nervosos.”

Mas, quando ergo o rosto, vejo ela apertar os olhos com força e balançar a cabeça como se, de alguma forma, aquilo fosse fazer tudo isso sumir. “E quando a gente chegar em Sagan”, continua minha mãe, “vamos começar do zero, como em uma fazenda. Vai ter mais gente da idade de vocês.”

Isso não me anima muito. Não quero fazer amigos nunca mais . Tive até que soltar minha tartaruga Rápido nos fundos da casa de Lita. Talvez ele sobreviva ao impacto do cometa enfurnado na toquinha dele e viva sua vida sem mim.

“Que idiotice”, murmuro. “Talvez eu devesse contar pra eles sobre a minha vista pra não deixarem a gente embarcar.”

Mamãe e papai se entreolham. Ela me pega pelo braço e me puxa de lado. Sorri quando a outra família passa por nós.

“Que história é essa, Petra?”

Sinto lágrimas nos olhos.

“E a Lita? É como se vocês não estivessem nem aí pra ela.”

Mamãe fecha os olhos.

“Você não tem nem noção de como tá sendo difícil.” Ela suspira fundo e depois olha para mim. “Sinto muito que isso esteja deixando você triste, mas agora não é hora de falar desse assunto.”

“Quando vai ser a hora?”, pergunto, alto demais. “Daqui a centenas de anos, quando ela já estiver morta?”

O garoto loiro, agora à nossa frente, olha para trás. O pai chama a atenção dele, que se vira e continua andando.

“Petra, a gente não sabe exatamente o que vai acontecer.” Mamãe olha de soslaio para a outra família. Pega em sua trança e torce a ponta dela na mão.

“Eu acho que você tá mentindo.”

Mamãe olha para papai e pousa a mão no meu braço.

“Neste momento, Petra, o mundo não gira em volta do seu umbigo. Já parou pra pensar em como as outras pessoas estão se sentindo?”

Quase falo que o mundo talvez nem volte a girar, mas meu braço começa a balançar. Quando vejo, mamãe está tremendo.

Ela aponta para a direção de onde a gente veio.

“Viu aquelas pessoas esperando do lado de fora do portão?”

Desvio o olhar. Não quero lembrar da mulher tirando a aliança e empurrando o bebezinho dela nos braços de um guarda armado. “Por favor, por favor”, dizia ela sem parar quando passamos de carro pelo portão. Assim como previsto, aquela família e centenas de outras deram um jeito de descobrir que o governo está escondendo alguma coisa.

“Elas dariam qualquer coisa pra embarcar com a gente.” Mamãe se inclina para a frente, seus olhos fixos nos meus. “Quer mesmo ir embora?”

Penso naquela mãe com o bebê e em como seria nunca mais ver papai, mamãe ou Javier.

“Não”, respondo.

Uma mulher e uma menina se aproximam de mãos dadas. Do topo do capuz do moletom da garotinha sai um chifre prateado em espiral. Quando passam, ela vira a cabeça sem nem disfarçar e me encara, desconfiada.

“Suma, para ”, sussurra a mãe, e a menina desvia o olhar.

Mamãe se vira na direção das duas, e sei que ela as viu prestando atenção em nós.

“Então será que você pode guardar suas opiniões só pra você por enquanto?”, conclui ela.

E então segue em frente, passando por papai e Javier a passos largos. Papai ergue as sobrancelhas para mim e balança a cabeça. Com isso, sei que ele não vai mais tolerar gracinhas. Javier corre até mim, tropeçando em uma pedra no caminho. Tromba comigo, e o coloco de pé de novo. Damos as mãos.

“Tá tudo bem”, diz meu irmão, exatamente como falei para ele agora há pouco. Dessa vez, é ele quem me dá um empurrãozinho.

Respiro fundo quando nos aproximamos da rampa de entrada da nave em forma de louva-a-deus. A superfície frontal, do tamanho de um campo de futebol, se eleva acima de nós. Janelas ao longo da seção dianteira fazem parecer que a embarcação está com a boca aberta, expondo longas presas entre o topo da cabeça e a parte de baixo da mandíbula. Duas patas traseiras se estendem na direção do solo, ancorando a espaçonave no lugar.

À distância, pontinhos minúsculos adentram a barriga da outra nave insetoide, programada para partir pouco depois do nosso embarque.

Javier aponta para dois compartimentos ovais com aparência de asas na parte traseira da embarcação.

“A gente vai ficar ali?”, pergunta ele, e papai assente. “É maior que a minha escola inteira”, sussurra Javier.

“É mesmo.” O sorriso falso de mamãe parece estar tentando convencê-lo de que estamos indo para a Disney de novo. “Pouquíssimas naves são capazes de carregar tanta gente pra tão longe.”

“E a gente vai dormir?”, pergunta ele.

“Vai ser só um cochilinho”, diz mamãe.

O “cochilinho”, e o que ele vai nos dar, é a única parte positiva disso tudo. Mas, ao contrário das sonequinhas de meia hora de Javier, o sono em questão vai durar trezentos e oitenta anos.

Ele deu um pulinho pro lado na cama para abrir espaço para mim. Em vez do pijama, estava vestindo o moletom da Gen-Gyro-Gang que não tirava fazia três dias. Depois que os geneticistas chineses recriaram Pete Peludo e os holofotes do mundo se voltaram para o mamutezinho clonado, todas as crianças passaram a ter um moletom da ggg com Pete no meio, um bebê hipacrossauro de um lado e um pássaro dodô do outro. Javier estendeu a mão e me entregou a cópia dele de Sonhadores , um livro de papel de verdade que era do meu pai quando ele era criança. Aquela coisa era velhíssima, escrita muito antes da invenção dos librexes e dos geradores de história.

“Agora não, Javier.” Devolvi o livro favorito dele à prateleira acima da cama.

“Ahhhh”, resmungou meu irmão.

Por um segundo, mamãe e papai pararam de falar, e coloquei o indicador sobre os lábios.

“A gente devia estar dormindo.”

Me inclinei para dar um beijo de boa-noite nele, mas no processo bati o dedinho do pé com força na quina da cama. Cobri a boca com a mão e caí no colchão ao lado dele.

“Foi mal”, sussurrou ele.

Gemi de dor.

“Não foi culpa sua. Eu não vi.” Massageei o dedinho. “Esses meus olhos idiotas…”

Javier estendeu a mão para segurar a minha.

“Não precisa se preocupar, Petra. Eu vou ser seus olhos.”

Senti um nó na garganta, e aconcheguei o corpo dele contra o meu. Peguei a mão de Javier e passei o dedo sobre sua marca de nascença em forma de constelação, um punhado de sardas bem na curva entre o dedão e o indicador, a mensagem silenciosa que só ele e eu conhecemos. Me acomodei no travesseiro, com a cabeça bem perto da dele, e ficamos olhando o sapo-anão-africano de Javier nadar de um lado para o outro no fundo do aquário. Com as pernas compridas e membranas entre os dedos, ele parecia um tomatillo com palitos de dente espetados no lugar dos membros.

“Você tá dando muita comida pra esse sapo.”

“Eu batizei ele de Gordo, então tudo bem”, disse ele.

Dei uma risadinha e continuei esfregando a marca de nascença até a respiração do meu irmão ficar mais profunda. Da capa do livro Sonhadores , a mãe da história olhava de forma atenciosa para nós, com os olhos e os lábios em uma expressão gentil, como a de Lita.

Saí de trás de Javier e desci da cama. O corredor estava na penumbra, então decidi que seria mais seguro ir de fininho até a sala para ouvir a conversa. Fui tateando o caminho para não trombar com nada, e então rastejei para trás do sofá.

“É meio mórbido”, dizia mamãe. “Cento e quarenta e seis pessoas, exatamente o número de monitores em cada espaçonave. É tudo de que os humanos precisam pra continuar com diversidade genética suficiente caso o resto da população da Terra morra.”

Por diversão, eles sempre propunham situações científicas hipotéticas um para o outro. Achei que era o caso, só mais uma conversa de nerds em uma noite de lazer.

“Minha impressão é de que os monitores estão fazendo um grande sacrifício pelo resto de nós”, mamãe continuou.

“Eles foram escolhidos pra essa missão por uma razão, assim como a gente”, disse papai.

“Mas a gente vai até o fim do percurso.”

“Eles continuam sendo passageiros”, retorquiu papai. “E a gente não sabe exatamente o que nos espera. Não tem como saber se a vida deles vai ser melhor ou pior que a nossa.”

O papo começou a soar como algo que não era uma conversa hipotética. O relógio da cozinha bateu as dez horas da noite.

“Ligar tela”, disse papai, abrindo o noticiário das dez programado especificamente para eles.

Olhei por cima do encosto do sofá.

“Hoje à noite, nos juntamos ao Fórum Mundial da Paz, onde um movimento internacional está crescendo.” A apresentadora ergueu as sobrancelhas, mas a testa dela não formou uma ruga sequer. “Este… novo e interessante movimento vem recebendo muitos elogios de um lado e críticas ainda maiores do outro.”

Um homem de nariz pontudo e com o cabelo cortado bem rente às têmporas começou a falar. Sua voz suave não combinava com os traços acentuados que ele tinha.

“Este foi um século de muitos desafios. Logo, encararemos outros. Imagine um mundo onde os humanos sejam capazes de entrar em consenso. Com união e coletividade, podemos evitar conflitos. Sem conflitos, não há guerras. Sem o custo das guerras, não há mais fome. Sem diferenças de cultura, aparência, conhecimento…”

Enfiei mais um pouco a cabeça entre as almofadas para enxergar melhor. Atrás do apresentador, havia uma fileira de homens e mulheres uniformizados com cabelo descolorido e penteado para trás com gel, abraçando a cintura uns dos outros. Com sorrisos idênticos e nem um traço de maquiagem no rosto.

“São a inconsistência e a desigualdade que nos levam ao incômodo e à infelicidade. Esse esforço coletivo garante a sobrevivência”, disse o homem.

“Sim”, disse papai para o cara que não podia ouvi-lo. “Mas a que custo?”

“E não é isso que a gente tá fazendo?”, perguntou mamãe. “Sobrevivendo?”

Papai suspirou.

O homem deu um passo para trás para se alinhar com as outras pessoas.

“Junte-se a nós. Nosso Coletivo é mais forte como uma entidade única. Com sua confiança, podemos apagar o sofrimento e a dor do passado. Nós vamos…”

“… criar uma nova história”, disseram em uníssono as outras pessoas iguais.

Papai desligou o áudio do aparelho.

“Acho que estão falando de uma forma totalmente diferente de sobrevivência. Vai me dizer que isso não é assustador?”, disse ele, apontando para a tela.

Me sentei sobre os calcanhares. O mundo que aqueles esquisitos propunham não parecia tão ruim para mim. Sem guerra. Sem fome. Sem ter que pensar que roupa vestir para ir à escola todo dia.

Como se papai estivesse lendo minha mente, continuou:

“A parte assustadora não é exatamente o que eles querem. O que me preocupa é a forma que propõem para alcançar isso.”

Eu geralmente não podia ficar acordada até tão tarde para assistir ao noticiário, então sabia que devia estar perdendo coisas interessantes aquele tempo todo. O que exatamente era tão assustador no que aquele cara estava propondo?

Vi papai balançando a cabeça.

“Igualdade é bom. Mas igualdade e equidade são duas coisas bem diferentes. Às vezes, as pessoas falam as coisas sem contemplar o que realmente significam… Esse dogma tá bem no limiar entre as duas coisas.”

Fiz uma nota mental para pesquisar no dia seguinte o que dogma significava.

“Então você acha que ninguém vai sobreviver.” Mamãe apontou para a tela.

“A gente não pode se preocupar com isso. Temos problemas maiores, tipo competir com outros países por espaçonaves.”

“Garanto que pelo menos o Japão e a Nova Zelândia têm algumas que vão decolar nos próximos dias. A questão é se eles também têm ou não um assentamento secreto viável.” Mamãe suspirou. “Talvez esse Coletivo esteja certo. A paz e a cooperação internacional já eram.” Ouvi umas batidinhas e soube que papai estava dando tapas no joelho. “Vai ser responsabilidade nossa lembrar o que deu certo e facilitar as coisas pros nossos filhos e netos. Abraçar as diferenças e ainda assim achar um jeito de viver em paz.”

Engatinhei de volta para o meu quarto e empurrei Josefina para o chão. Fiquei me perguntando se um daqueles monitores que meus pais tinham mencionado me ajudaria a limpar meu quarto. Para qual parte dos Estados Unidos aquela espaçonave iria nos levar por conta do novo projeto da mamãe e do papai? Como fazer para Javier parar de dar comida demais para o sapinho dele?

Foi só mais tarde que descobri que, naquela noite, ao contrário de mim e das pessoas no noticiário, meus pais já sabiam o que estava prestes a acontecer. Nós sequer estaríamos acordados para interagir

com os monitores ou bagunçar os quartos. A gente não estava indo para lugar algum na Terra. A “missão” dos meus pais é em um planeta fora do nosso sistema solar, um lugar chamado Sagan. Os monitores, escolhidos para cuidar de nós enquanto dormimos, não vão nem estar vivos para testemunhar nossa chegada. Mas, com sorte, os tatara-tatara-tataranetos deles estarão lá quando a gente acordar.

E o sapo gordinho de Javier está comendo à vontade em um laguinho.

Quando a Terra é devastada por um cometa, Petra Peña, uma aspirante a contadora de histórias, embarca em uma jornada rumo a um novo planeta. Centenas de anos depois, ela desperta nesse novo mundo como a única a se recordar da Terra, pois um Coletivo sinistro apagou as memórias de todos para redimir os erros humanos. Carregando consigo as narrativas do passado, Petra se torna a portadora da esperança para um futuro melhor.

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