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A Casa da Escuridão Eterna - Book Preview

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A CASA DA ESCURIDÃO ETERNA

h o m e b e fo r e d a r k

Copyright © 2020 by Todd Ritter

“Sixteen Going on Seventeen,” from The Sound of Music

Lyrics by Oscar Hammerstein II Music by Richard Rodgers

Copyright © 1959 Williamson Music Company c/o Concord Music Publishing Copyright renewed All Rights Reserved Used by permission Reprinted by permission of Hal Leonard LLC

Este livro é uma obra de ficção Nomes, personagens, locais e eventos são frutos da imaginação do autor ou usados meramente no âmbito ficcional Qualquer semelhança com pessoas reais vivas ou mortas empresas eventos ou localidades não passa de uma coincidência

Imagem de Capa © Vitor Willemann

Imagens do miolo © Adobe Stock

Tradução para a língua portuguesa © Daniel Bonesso 2025

Diretor Editorial iretor Christiano Menezes

Diretor de Novos Negócios

Chico de Assis

Diretor de Planejamento

Marcel Souto Maior

Diretor Comercial

Gilberto Capelo

Diretora de Estratégia Editorial

Raquel Moritz

Gerente de Marca

Arthur Moraes

Gerente Editorial

Bruno Dorigatti

Editor Paulo Raviere

Editor Assistente

Lucio Medeiros

Capa e Projeto Gráfico Retina 78

Coordenador de Diagramação Sergio Chaves

Designer Assistente Jefferson Cortinove

Preparação Retina Conteúdo

Revisão Bárbara Parente

Rodrigo Lobo Damasceno

Finalização Roberto Geronimo Marketing Estratégico Ag Mandíbula

Impressão e Acabamento Braspor

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852

Sager, Riley A casa da escuridão eterna / Riley Sager ; tradução de Daniel Bonesso. — Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2025. 368 p.

ISBN: 978-65-5598-509-2

Título original: Home Before Dark 1. Ficção norte-americana 2. Suspense I. Título II. Bonesso, Daniel

25-0730 CDD 813

Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2025]

Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com

Sager A CASA DA ESCURIDÃO ETERNA

Riley

Tradução

Daniel Bonesso

Para aqueles que contam histórias de fantasmas… E aqueles que acreditam nelas.

Toda casa tem uma história para contar e um segredo a ser compartilhado.

O papel de parede na sala de jantar pode esconder os riscos de lápis que marcam o crescimento de crianças que viveram lá há décadas. Sob o chão revestido de linóleo e desbotado pelo sol, pode haver a madeira que um dia foi pisada por soldados da Guerra de Independência.

As casas estão em constante mudança. Paredes pintadas, pisos laminados e rolos de carpete escondem os segredos e histórias de um lar, garantindo seu silêncio até que alguém chegue para desvendá-los.

É isso que eu faço.

Meu nome é Maggie Holt. Sou designer de interiores e, de muitas formas, uma historiadora. Vou atrás e tento desenterrar a história de cada casa. Tenho orgulho do que faço e sou boa nisso.

Eu escuto.

Aprendo.

E uso esse conhecimento para projetar um design de interior que, embora seja totalmente moderno, consiga também remeter ao passado do lugar.

Toda casa tem uma história.

A nossa é uma história de fantasmas.

Além de ser uma mentira.

E, agora que outra pessoa morreu debaixo desse teto, é chegada a hora de finalmente contar a verdade.

CASA DOS HORRORES

UMA HISTÓRIA REAL

EWAN HOLT

MURRAY-HAMILTON, INC., NOVA YORK, NY

CASA DOS HORRORES PRÓLOGO

1º de julho

“Papai, você tem que procurar pelos fantasmas.”

Parei espantado à porta do quarto de minha filha, do modo como os pais ficam quando um filho diz algo realmente estranho. Acho que deveria ter me acostumado com isso desde que ela fez 5 anos. Porém não me acostumei. Ainda mais agora, diante de um pedido tão esquisito.

“Tenho mesmo?”

“ Sim ”, insistiu Maggie. “Não quero eles no meu quarto.”

Até aquele momento, eu não fazia ideia de que ela sequer soubesse o que era um fantasma, quanto mais de que temia a presença de um no seu quarto. Aparentemente, mais de um, percebi pela escolha da palavra. Eles.

Culpei a casa por esse novo comportamento. A mudança para Baneberry Hall ocorreu há quase uma semana, tempo suficiente para notar suas excentricidades, mas não o bastante para nos acostumarmos a elas. A movimentação repentina de um vulto nas paredes, os barulhos à noite, um ventilador de teto que, na última velocidade, soava igual ao ranger de dentes.

Com a sensibilidade de qualquer garota da sua idade, Maggie estava tendo problemas para se ajustar a tudo isso. Quando foi para cama na noite passada, ela me perguntou quando voltaríamos para nossa antiga casa, um apartamento escuro e sem graça de dois quartos em Burlington. O problema agora eram os fantasmas.

“Acho que não faz mal”, disse, tentando animá-la. “Por onde começo a procurar?”

“Debaixo da cama.”

Um pedido supercomum. Tive o mesmo medo quando estava com essa idade, de que algo horrível estava se escondendo na escuridão, poucos centímetros abaixo do local no qual eu dormia. Abaixei-me, usando as mãos e joelhos como apoio para dar uma olhada rápida debaixo da cama. Apenas uma fina camada de poeira e uma meia rosa perdida se escondiam ali.

“Nada aqui”, informei. “Qual o próximo lugar?”

“No closet ”, disse Maggie.

Desconfiando disso, eu já estava a caminho do closet quando ela falou. Essa parte da casa — apelidada de “Ala da Maggie”, pois continha não apenas seu quarto, como também uma brinquedoteca adjacente — ficava no segundo andar, sob o beiral do telhado inclinado. Por conta da inclinação do teto, metade da porta de carvalho do closet também era inclinada, além de antiga. Ela nos causava a sensação de estar diante da porta de uma casa dos contos de fadas, sendo esse um dos motivos pelos quais decidimos que aquele espaço deveria ser da Maggie.

“Nada no closet ”, afirmei enquanto fazia uma cena, segurando a única lâmpada que pendia do teto para iluminar e procurar de maneira espalhafatosa entre os cabides cheios de roupas. “Mais algum lugar?”

Com o dedo indicador trêmulo, Maggie apontou para o enorme guarda-roupa parado como um segurança a poucos metros do closet . Era uma relíquia do passado da casa. Uma bem estranha. Com quase dois metros e meio de altura, sua base afunilada se alargava gradualmente até uma formidável subdivisão no meio, para voltar a se estreitar até a parte de cima. Coroando a peça, havia querubins, pássaros e ramos de hera entalhados e subindo pelos cantos até o topo. Achei que, igual à porta do closet , trazia um pouco da magia dos livros para o quarto de Maggie. Ele me lembrava As Crônicas de Nárnia .

Porém, quando comecei a abrir as portas duplas do guarda-roupa, Maggie prendeu a respiração, preparando-se para encontrar alguma coisa horrorosa, que ela acreditava estar à espreita lá dentro.

“Quer mesmo que eu abra?”, perguntei.

“Não.” Maggie parou, então mudou de ideia. “Sim.”

Abri e deixei as portas do guarda-roupa escancaradas, revelando um espaço ocupado por apenas alguns vestidos frufrus que minha esposa comprou na esperança de nossa filha, que se vestia como um menino, fosse usá-los algum dia.

“Está vazio”, falei. “Viu?”

De seu lugar na cama, Maggie espiou o guarda-roupa aberto, antes de soltar um suspiro de alívio.

“Sabe que não existe esse negócio de fantasmas, não é?”, perguntei.

“Você está errado.” Maggie escorregou ainda mais para dentro das cobertas. “Eu já vi eles.”

Mesmo assustado, tentei não transparecer meu medo ao olhar para minha filha. Tinha noção de como sua imaginação era fértil, no entanto não acreditava que poderia ser tão vívida assim, a ponto de ver coisas que não existiam e acreditar que eram reais.

E ela realmente acreditava. Sabia disso pela forma como me encarava de volta, com as lágrimas brotando no canto de seus olhos arregalados. Ela acreditava, e isso a deixava aterrorizada.

Sentei no canto da cama. “Fantasmas não são reais, Mags. Se não acredita em mim, pergunte pra sua mãe. Ela vai te dizer a mesma coisa.”

“Mas eles são reais”, insistiu Maggie. “Eu vejo eles o tempo todo e um deles conversa comigo, o Senhor Sombra.”

Um arrepio gelado subiu por minha espinha. “Senhor Sombra?”

Maggie acenou com a cabeça assustada uma única vez.

“E o que o Senhor Sombra fala?”

“Ele diz…” Maggie engoliu em seco, lutando para segurar as lágrimas. “Ele diz que a gente vai morrer aqui.”

A CASA DA ESCURIDÃO ETERNA RILEY SAGER

No momento em que coloco o pé dentro do escritório, já sei como as coisas vão se desenrolar. Não é a primeira vez. Na verdade, perdi a conta da quantidade de vezes que isso aconteceu. E mesmo que cada uma tenha sutis mudanças, o resultado é sempre o mesmo. Estou preparada para repetir tudo, principalmente quando a recepcionista me oferece um sorriso que, junto ao brilho em seus olhos, demonstram que ela me reconheceu. Não há dúvida de que ela é bem familiarizada com o Livro.

A melhor bênção de minha família.

E também, nossa maior maldição.

“Tenho hora marcada com Arthur Rosenfeld”, informo. “Meu nome é Maggie Holt.”

“Claro, senhora Holt.” A recepcionista me olha rapidamente de cima a baixo, comparando a menininha sobre quem leu com a mulher diante dela usando botas desgastadas, calça cargo verde e uma camisa de flanela suja com serragem. “O senhor Rosenfeld está em uma ligação agora. Ele a atenderá em breve.”

A recepcionista — cuja plaquinha na mesa indica o nome de Wendy Davenport — aponta para uma cadeira perto da parede. Me sento, enquanto ela continua a olhar na minha direção. Presumo que esteja procurando pela cicatriz na minha bochecha esquerda, uma linha pálida com uns três centímetros de comprimento. Até que essa minha marca é bem famosa, levando em consideração a impopularidade das cicatrizes.

“Li o seu livro”, a secretária me diz, afirmando o óbvio.

É impossível não a corrigir. “Você quer dizer o livro do meu pai.”

É um engano comum. Mesmo que meu pai apareça na capa como único autor, todo mundo assume que toda família teve alguma coisa a ver. O que até pode ser verdade para minha mãe, contudo não tive absolutamente nenhuma participação no Livro, apesar de ser uma das personagens principais.

“Eu amei”, continua Wendy. “Claro, quando não estava morrendo de medo.”

Ela espera, e me contorço internamente, sabendo o que vem em seguida. É sempre assim. Toda maldita vez.

“Como foi para você?” Wendy se inclina para frente até seu busto generoso ficar espremido contra a mesa. “Ficar naquela casa?”

A pergunta que sempre vem à tona quando alguém faz a conexão entre mim e o Livro. Aprendi desde cedo que é bom ter uma resposta pronta para essa situação. Pode ser muito útil, como algo que se deixa por cima na caixa de ferramentas.

“Não consigo me lembrar de nada daquele tempo.”

A recepcionista arqueia uma sobrancelha depilada em excesso. “Nada mesmo?”

“Eu tinha 5 anos. Você consegue lembrar muita coisa dessa idade?”

Pela minha experiência, isso encerra a conversa cerca de 50 por cento das vezes. Os que são apenas curiosos entendem o que quero dizer e deixam para lá. Aqueles com um interesse mais mórbido não desistem com tanta facilidade. Pensei que Wendy Davenport, com suas bochechas coradas e roupas da Banana Republic, seria do primeiro grupo. Acontece que estou errada.

“Mas a experiência foi tão horrível para sua família”, continuou. “Com certeza, me lembraria de alguma coisa.”

Há mais de uma forma de continuar essa conversa a depender do meu humor. Caso estivesse numa festa, alegre e relaxada após alguns drinques, é provável que faria a vontade dela e diria: “Lembro de estar com medo o tempo todo, mas sem saber o motivo”.

Ou talvez: “Acho que fiquei tão assustada que minha mente bloqueou tudo”.

Ou quem sabe, minha predileta: “Algumas coisas são assustadoras demais para serem lembradas”.

Só que não estou numa festa. Nem alegre ou relaxada. Estou no escritório de um advogado, prestes a ouvir o testamento do meu recém-falecido pai. Minha única opção é ir direto ao ponto.

“Nada daquilo aconteceu”, falo para Wendy. “Meu pai inventou tudo. E quando digo tudo, realmente quero dizer tudo. Tudo naquele livro é mentira.”

A expressão de Wendy muda, seus olhos bem abertos em curiosidade dão vazão a uma cara fria e decepcionada. Sei que a desapontei, mas ela deveria ficar grata pela minha honestidade. Já meu pai, nunca achou isso necessário.

Sua versão da verdade variava bastante da minha, apesar de ele também ter uma resposta pronta para essa pergunta, o roteiro era sempre o mesmo, não importava quem estivesse com ele.

“Menti sobre muitas coisas em minha vida”, meu pai diria a Wendy Davenport, jogando um charme. “Mas nunca sobre o que aconteceu em Baneberry Hall. Cada palavra naquele livro é verdadeira. Juro pelo Deus Todo-Poderoso.”

Ao dizer isso estaria se referindo aos fatos da versão que o público conhece, que segue mais ou menos essa linha: vinte e cinco anos atrás, minha família morou numa casa chamada Baneberry Hall, perto da vila de Bartleby, em Vermont.

Chegamos no dia 26 de junho.

E fugimos no meio da noite de 15 de julho.

Vinte dias.

Foi o período de tempo que conseguimos morar naquela casa antes das coisas ficarem assustadoras demais para permanecermos um minuto a mais.

Não era seguro, meu pai contou para a polícia. Havia algo de errado com Baneberry Hall. Uma série de coisas aconteceu por lá. Coisas perigosas .

Ele não queria admitir que a casa era assombrada por um espírito do mal.

Nós juramos nunca retornar. Nunca.

Esse depoimento, transcrito em detalhes no relatório policial, foi noticiado por um repórter local de um jornal impresso supervalorizado, conhecido como Gazeta de Bartleby. A matéria, incluindo diversas afirmações do meu pai, logo entrou no radar do serviço de notícias estaduais e chegou a jornais maiores em cidades mais populosas… Burlington e Essex e Colchester. A partir daí, a notícia se espalhou como um vírus, pulando de cidade em cidade, metrópole em metrópole e de estado em estado. Quase duas semanas depois de fugirmos do lugar, um editor de Nova York ligou com uma oferta para transformar nossa história em livro.

Como estávamos morando num quarto de motel que fedia a fumaça de cigarro e aromatizante de limão, meu pai não pensou duas vezes. Escreveu o livro em um mês, transformando o banheiro minúsculo daquele quarto de motel num escritório improvisado. Uma das minhas primeiras memórias é dele sentado de lado na privada, martelando aquela máquina de escrever sobre a pia do banheiro.

O resto é história.

Best-seller instantâneo.

Fenômeno mundial.

A história baseada em “fatos reais” mais popular desde Horror em Amityville .

Por um tempo, Baneberry Hall foi a casa mais famosa dos Estados Unidos. Revistas escreviam a seu respeito. Programas de notícias faziam reportagens nela. Turistas se reuniam do lado de fora do portão de ferro forjado da propriedade, tentando vislumbrar um pedaço do telhado ou um reflexo da luz solar nas janelas. Até a revista The New Yorker fez uma charge dois meses após o lançamento do Livro. O desenho mostrava um casal parado com o corretor de imóveis do lado de fora de uma casa caindo aos pedaços. “Nós amamos a casa”, dizia a esposa. “Mas será que é assombrada o suficiente para render um livro?”

Quanto a mim e minha família, bem, aparecemos em tudo que era lugar. Na revista People , nós três com uma expressão séria em frente a uma casa na qual nos recusávamos a entrar. Na Time, meu pai sentado sob um véu de sombras com uma aparência distinta e sinistra. Na televisão, meus pais sempre vitimizados ou passando por um verdadeiro interrogatório, dependendo do entrevistador.

Neste exato momento, qualquer um pode ir até o YouTube e assistir ao vídeo da nossa entrevista no programa 60 Minutes . Lá estamos nós, a imagem da família perfeita. Meu pai, com o cabelo bagunçado, mas bonito, ostentando uma barba que só voltaria a estar na moda de novo uma década depois. Minha mãe, linda, apesar de sua expressão um tanto rígida, a tensão no canto de seus lábios denunciando que ela não estava confortável com a situação. E, por fim, eu de vestido frufru azul, sapatos engraxados e uma faixa preta no cabelo com uma franja que hoje traz um enorme arrependimento.

Não falei muito durante a entrevista. Praticamente, balançava a cabeça para dizer que sim e não ou me fingia de tímida e me escondia na minha mãe. Acho que minhas únicas palavras foram: “Eu estava com medo”, apesar de nem me lembrar o que sentia. Não consigo me lembrar de nada sobre nossos vintes dias em Baneberry Hall. O que me lembro está misturado com o conteúdo do Livro. Em vez de memórias, tenho flashes . É como ver a fotografia de uma fotografia. A imagem está embaçada, as cores estão desbotadas e tudo parece com pouca luz.

Obscuro .

Essa é a palavra perfeita para descrever nossa estadia em Baneberry Hall. Não deveria ser surpresa que muitas pessoas duvidam da história do meu pai. Sim, têm aqueles, como Wendy Davenport, que acreditam que o Livro é real. Alguns acreditam, ou querem acreditar, que o período em que ficamos em Baneberry Hall se desenrolou exatamente como meu pai descreve. Porém, outros milhares estão certos de que não passou de uma farsa.

Olhei todos os sites e tópicos do Reddit para desmascarar o Livro. Li todas as teorias. A maioria presume que meus pais não demoraram para perceber que compraram uma casa acima do que podiam bancar e precisaram de uma desculpa para se livrar dela. Outros sugerem que os dois eram charlatões que adquiriram uma casa onde algo trágico aconteceu de propósito com o objetivo de lucrar em cima.

A teoria que me sinto menos inclinada a acreditar é a de que meus pais, sabendo que estavam com um devorador de dinheiro em mãos, tentaram de alguma forma aumentar o valor da casa para vender depois.

Em vez de gastar uma fortuna em reformas, decidiram dar outra coisa para Baneberry Hall: uma reputação. Só que não é assim tão fácil. Casas assombradas perdem seu valor, seja por causa dos possíveis compradores ficarem com medo ou por conta da notoriedade que o imóvel atrai.

Continuo sem saber o motivo pelo qual saímos tão de repente. Meus pais se recusaram a me contar. Talvez estivessem de verdade com medo de ficar. Talvez, de fato, temessem por nossas vidas. No entanto, sei que não foi por Baneberry Hall ser assombrada. O maior motivo para isso, obviamente, é que fantasmas não existem.

Claro, uma quantidade considerável de gente acredita neles, mas as pessoas acreditam em qualquer coisa. Que o Papai Noel é real, que não pousamos na lua e que o Michael Jackson está vivo e trabalhando nos cassinos de Las Vegas.

Acredito na ciência, que chegou à conclusão de que quando morremos, realmente morremos. Nossas almas não ficam para trás, vagando como gatos de rua até que alguém nos perceba. Não nos tornamos versões soturnas de nós mesmos. Nem ficamos aqui para assombrar .

Minha total falta de memória relacionada à Baneberry Hall é outro motivo para eu acreditar que o Livro não passa de uma história para boi dormir. Wendy Davenport estava certa ao presumir que uma experiência assim tão horrível deixaria algum vestígio na minha memória. Acredito que me lembraria de ser puxada até o teto por uma força invisível, como o Livro afirma. Lembraria de ser sufocada com tanta força por alguma coisa que deixou marca de dedos no meu pescoço.

Me lembraria do Senhor Sombra.

O fato de não me lembrar de nada disso, só pode significar uma coisa: não aconteceu.

Ainda assim, o Livro não saiu da minha cola pela maior parte da vida. Sempre fui a garota estranha que morou numa casa assombrada. No fundamental, eu era a excluída que todos deveriam evitar a qualquer custo. No ensino médio, ainda era a excluída, só que, naquela época, isso era algo maneiro, o que me tornou a garota popular que menos queria ser reconhecida na escola. Então veio a faculdade, quando acreditei que as coisas iriam mudar, como se estar longe dos meus pais pudesse

de alguma forma me desprender do Livro. Em vez disso, fui vista como um objeto curioso. Ninguém chegava exatamente a me evitar, porém, ou tinham certa cautela na hora de fazer amizade ou procuravam ficar mais distantes na hora de estudar.

Arrumar um encontro era uma droga. A maioria dos rapazes nem chegava perto. E boa parte daqueles que se aproximavam era fã de Casa dos Horrores e demonstrava mais interesse em Baneberry Hall do que em mim. Se um potencial namorado demonstrasse um grama de empolgação sobre conhecer o meu pai, eu já sabia onde estava me metendo.

Hoje, eu trato qualquer interessado em amizade ou namoro com uma boa dose de desconfiança. Depois de passar mais pernoites do que eu gostaria com um tabuleiro Ouija no colo ou ir para “encontros” que terminavam num cemitério com perguntas se eu enxergava algum fantasma entre os túmulos, é impossível não duvidar das intenções dos outros. A maioria dos meus amigos está comigo há séculos. Boa parte deles finge que o Livro nem existe. E se alguém tiver alguma curiosidade sobre a estadia da minha família em Baneberry Hall, essa pessoa me conhece o suficiente para não fazer qualquer pergunta.

Todos esses anos depois e minha reputação ainda me precede, mesmo não me enxergando como alguém famosa. Tenho certa notoriedade. Recebo e-mails de estranhos que chamam meu pai de mentiroso ou que falam que estão orando por mim ou que buscam se livrar de um fantasma que têm certeza estar preso no porão. De vez em quando, um podcast de assuntos paranormais ou um programa de caça-fantasmas entra em contato e pede uma entrevista. Recentemente, uma convenção de terror me convidou para um meet-and-greet junto a uma das crianças de Amityville. Recusei e espero que aquela criança também.

Agora, cá estou, enfiada numa cadeira barulhenta em um escritório de advocacia em Beacon Hill, ainda aturdida pela montanha-russa de emoções semanas depois da morte do meu pai. No atual momento, um terço de mim está em estado de irritação — muito obrigada, Wendy Davenport — e os outros dois terços são pura tristeza pelo luto. Do outro lado da mesa, um advogado continua a detalhar as diversas maneiras que meu pai não deixou de lucrar com o Livro. As vendas permaneceram

numa constância modesta, com um pico anual nas semanas que antecedem o Halloween. Hollywood continuou a entrar em contato quase que regularmente, a oferta mais recente foi para transformar a história numa série de tv, algo que meu pai nem se importou de me contar. “Seu pai foi muito inteligente com seus investimentos”, diz Arthur Rosenfeld.

No momento em que o advogado se refere ao meu pai no passado, uma pontada de dor me atinge. É outro lembrete de que o perdi para sempre e que sua ausência não é decorrente de uma viagem distante por aí. O luto pode ser traiçoeiro. Às vezes consegue permanecer na surdina por horas, tempo suficiente para os pensamentos alegres e enganosos tomarem conta. Então, quando você está se sentindo bem e baixou a guarda, ele explode no seu interior como fogos de artifício no fim de ano, e toda a dor que acreditou ter ido embora volta vociferando. Ontem, foi com a música da banda predileta do meu pai no rádio. Hoje, é ouvir que, como única herdeira, receberei quase quatrocentos mil dólares.

O valor não é uma surpresa, meu pai me falou semanas antes de sua morte. Foi uma conversa estranha, porém necessária, ainda mais desconfortável pelo fato de minha mãe ter escolhido não receber parte dos lucros do Livro quando eles se divorciaram. Meu pai se esforçou para fazê-la mudar de ideia, alegando que metade de tudo lhe pertencia. Minha mãe não concordou.

“Não quero nada disso”, ela dizia irritada durante as várias discussões que tinham sobre o assunto. “Jamais desejei isso, desde o começo.”

“Em seguida, temos a questão da casa”, continua Arthur Rosenfeld.

“Que casa? Meu pai tinha um apartamento.”

“Baneberry Hall, é claro.”

A surpresa estremece meu corpo, fazendo a cadeira em que estou ranger.

“Meu pai era o proprietário de Baneberry Hall?”

“Sim”, responde o advogado.

“Ele comprou de volta? Quando?”

Arthur coloca a mão em cima da mesa com os dedos colados uns nos outros. “Até onde sei, seu pai nunca a vendeu.”

Permaneço sem reação, arrebatada pelo choque, tentando absorver tudo que ouvi. Baneberry Hall, o lugar que alegaram ter nos aterrorizado ao ponto de não termos escolha a não ser fugir de lá, permaneceu com meu pai pelos últimos vinte e cinco anos.

Acredito que ele não conseguiu se livrar dela — é possível, considerando a reputação da casa — ou não quis vender. O que poderia significar uma infinidade de coisas, ainda que nenhuma delas faça sentido. Tudo que tenho certeza é de que meu pai nunca me contou que ainda era proprietário da casa.

“Você tem certeza?”, falo, torcendo para Arthur ter cometido um terrível engano.

“Toda certeza. Baneberry Hall pertencia ao seu pai. O que significa que agora é sua. De cabo a rabo, como costumam dizer. Suponho que eu deveria lhe entregar isto.”

Arthur coloca na mesa duas chaves presas a um chaveiro simples e as empurra na minha direção.

“Uma abre o portão e a outra a porta da frente”, diz ele.

Encaro as chaves, relutante em pegá-las. Não tenho certeza quanto a aceitar essa parte da minha herança. Fui criada para temer Baneberry Hall, por motivos que nem sei direito. Ainda que eu não acredite na versão oficial do meu pai, ser a proprietária da casa não me agrada muito.

Além disso, tem a questão do que ele disse em seu leito de morte, quando decididamente escolheu não me contar sobre a casa. Fico arrepiada quando suas palavras ecoam na minha memória.

Lá não é seguro. Não para você.

Quando enfim pego as chaves, elas estão quentes, como se Arthur as tivesse retirado de cima de um motor de carro. Fecho os dedos e sinto os dentes das chaves morderem a palma da minha mão.

É quando o luto desfere outro soco em mim. Dessa vez, com uma luva que carrega decepção e um pouco de descrença.

Meu pai está morto.

Ele omitiu a verdade sobre Baneberry Hall minha vida inteira.

Agora, aquele lugar é meu. O que significa que todos os seus fantasmas, reais ou imaginários, me pertencem também.

“Está procurando um livro de suspense capaz de mantê-lo acordado até depois da meia-noite? Não procure mais.”

STEPHEN KING

PREPARE-SE PARA VISITAR

UMA CASA COM UM

PASSADO SINISTRO, QUE FARÁ SUA MENTE

QUESTIONAR OS LIMITES

ENTRE O REAL

E O SOBRENATURAL.

A designer de interiores Maggie Holt conhece bem os segredos que as casas podem nos contar, através das marcas deixadas por seus moradores, quando resolve reformar sua antiga moradia em Baneberry Hall. Durante sua infância, ali ocorreram eventos que marcaram toda sua existência. Tudo que ela sabe a respeito do local e de suas histórias sobrenaturais vem de um antigo livro escrito por seu pai, Ewan Holt. Aos poucos, as certezas de Maggie vão caindo por terra e dúvidas crescentes passam a atormentá-la cada vez mais. Ela vai desenterrar histórias assustadoras dos escombros da casa e das ruínas de sua memória, apenas para descobrir que a verdade pode ser ainda mais surpreendente.

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