

ALGARVE INFORMATIVO




ÍNDICE
Paulo Cunha (pág. 10)
Mirian Tavares (pág. 14)
Ana Isabel Soares (pág. 18)
Sílvia Quinteiro (pág. 22)
Fábio Jesuíno (pág. 26)
Paulo Neves (pág. 30)
PIC Turismo da CCDR Algarve (pág. 38)
Prémio Nacional João de Deus (pág. 48)
15 anos de Teia D’Impulsos (pág. 56)
II Faro Acro Cup (pág. 64)
Pedro Abrunhosa em Olhão (pág. 90)
«Caleidoscópio» no Teatro das Figuras (pág. 106)
«Paraíso, Meu Paraíso» no Cineteatro Louletano (pág. 128)








Ao que isto chegou?
Paulo Cunha, professor
expressão «chorar sobre o leite derramado» significa que não vale a pena lamentarmo-nos ou arrependermonos por algo que já aconteceu e já não pode ser mudado. Essa metáfora, que tem origem na vida rural, onde o leite era/é valioso, simboliza a ideia de aceitar o que já passou e seguir em frente. É um facto, em vez de ficarmos presos ao passado, é mais importante focarmo-nos no presente, tentando encontrar soluções para evitar novas perdas no futuro.
Verifica-se atualmente em muitos países um retrocesso civilizacional que poderá ser explicado pela perda sistemática de direitos, pelo enfraquecimento das instituições democráticas e pelo aumento das desigualdades sociais. A esses fatores determinantes poderemos também juntar a polarização política, a desinformação e os desafios ambientais, comprovando-se assim que o retrocesso é multifacetado e resulta de uma combinação de causas locais e globais.
Entre os exemplos concretos de perda de direitos, destaca-se a restrição ao direito de manifestação em vários países, bem como o aumento de políticas que limitam o acesso à informação e à
liberdade de imprensa. O enfraquecimento das instituições democráticas pode ser observado na erosão da independência judicial, na manipulação de processos eleitorais e na crescente interferência do poder executivo sobre os órgãos fiscalizadores. Relativamente ao aumento das desigualdades sociais, verifica-se uma concentração crescente de riqueza, cortes em políticas sociais essenciais e a marginalização de grupos vulneráveis, perpetuando assim ciclos de pobreza e exclusão.
Apesar do acesso à informação e de um elevado grau de literacia, indivíduos considerados esclarecidos podem, em determinados contextos, apoiar líderes autoritários. Diversos fatores contribuem para esse fenómeno. Em momentos de instabilidade económica, insegurança social ou crise de representação política, a promessa de ordem, eficácia e mudança rápida oferecida por figuras de perfil dominante e autoritário pode tornar-se extremamente sedutora. Frequentemente, estes líderes apresentam soluções simples para problemas complexos, o que pode parecer pragmático ou até visionário aos olhos de quem se sente frustrado com a lentidão e a fragmentação das democracias tradicionais.

A polarização política e a desinformação - mesmo entre pessoas instruídas - criam bolhas de perceção que reforçam narrativas e discursos de medo, ameaça e urgência. Por vezes, a defesa de valores ou interesses específicos (económicos, culturais e identitários) sobrepõe-se aos princípios democráticos, levando ao apoio de soluções autoritárias como meio de proteção ou preservação desses valores. Importa também destacar o desencanto com as elites políticas tradicionais e a perceção de corrupção ou ineficácia que pode motivar o voto em figuras que, apesar do carácter autocrata, prometem renovação e rutura com o sistema. Assim sendo, votar em ditadores não é necessariamente o resultado de ignorância, mas sim o reflexo de inquietações profundas, perceções de
ameaça e a procura por respostas imediatas num contexto de complexidade e incerteza.
O extremismo, em qualquer das suas formas, emerge frequentemente como catalisador de degradação social, precisamente porque alimenta divisões, fomenta a intolerância e mina os alicerces do convívio democrático. Ao promover explanações simplistas e maniqueístas, o extremismo recorre ao medo, à desinformação e à antagonização do «outro» para justificar a exclusão e legitimar práticas discriminatórias. Este ambiente polarizado enfraquece a coesão comunitária, tornando cada vez mais difícil o diálogo e o entendimento mútuo.
Ao se imporem, as ideias e os ideais radicais provocam a erosão dos direitos fundamentais, a limitação das liberdades e garantias e a deterioração do funcionamento das instituições democráticas. Mergulhada em ciclos de medo e hostilidade, a sociedade vê assim aumentar as desigualdades, a marginalização de grupos vulneráveis e a fragilização das estruturas sociais. O extremismo não só aprofunda as fissuras já existentes, como impede avanços sociais, colocando em risco a construção de comunidades mais justas, inclusivas e resilientes.
É um facto: de que interessa lamentar “Ao que isto chegou!?”, quando está nas nossas mãos refletir e agir sobre “Como é que se chegou a isto?”.
Foto: Daniel Santos



Da invisibilidade
Mirian Tavares, professora
ulher de 50 só serve para fazer churrasco”, disse um amigo há muitos anos. Na altura, eu estava no esplendor dos 20. Discordei com violência dessa frase machista e absurda, mas, com o passar do tempo, tenho pensado no que ele realmente quis dizer. Depois dos 50, as mulheres tornam-se invisíveis, de moto próprio ou devido ao papel que lhes é dado na sociedade. As mulheres de 50 são, muitas vezes, trocadas por modelos mais novos. Sofrem dos calores da menopausa e do desejo que diminui – o que é paradoxal: fica-se mais quente e menos quente em simultâneo. É certo que os 50 são os novos 40, vive-se mais e fica mais longe a idade em que nos consideramos velhos. Outro dia, alguém me falava da morte de um parente. Perguntei: quantos anos ele tinha? 80. Tão novo! Imagina, aos 80 ainda podemos ser novos, dependendo do lugar de onde se olha. Claro que a mim me dá jeito, passados vários anos dos 50, que os 50 sejam os novos 40. Que as mulheres se cuidem e se mimem e que troquem os
Por afrontamento do desejo insisto na maldade de escrever mas não sei se a deusa sobe à superfície ou apenas me castiga com seus uivos (...).
Ana Cristina César
chinelos pelos saltos. Mas sinto na pele o passar dos anos, as marcas, o peso metafórico e literal da idade. Quando entrei na menopausa, o meu ginecologista disse: bem-vinda ao outono da vida. Mudei de ginecologista. O outono, apesar de ser uma bela estação, é também o tempo do recolhimento, das folhas que caem, do frio que começa a apertar a alma. Não me sinto no outono, mas sintome, muitas vezes, invisível. Parece que a nós, mulheres maduras, chamemos-lhe assim, é negado o desejo de ser desejante. E também de ser desejável. Mesmo que já não nos recolhamos no abrigo do lar a fazer tricô, vivemos, muitas vezes, num estado “entre”. Ainda não somos velhas, mas também não somos jovens. Já passámos por muito e, às vezes, paira sobre nós o espírito de Mallarmé: a carne é triste e li todos os livros. Há centenas de frases de motivação, de exercícios para a autoafirmação, para o autocuidado e para aumentar a autoestima. Mas a verdade, e digo pelo que sinto e pelo que vejo nas amigas à minha volta, é que nos tornamos loucas, pesadas, difíceis. Tornamo-nos desinteressantes. Ou, pelo menos, muitas de nós sentem-se assim – não mais objetos do desejo, sequer, sujeitos


desejantes. Talvez porque esteja quase a fazer anos, penso nessas coisas. E é um exercício quotidiano desarmar o estigma, que é também de cada uma de nós. Às vezes, bate o desejo, qual Greta Garbo, de gritar: I want to be alone. Mas é
maravilhoso como a vida é um bicho interessante e provocador. A psicanálise diz: a saída é pelo desejo. E não desejo virar carne para churrasco tão cedo.
Foto: Isa Mestre



Um livro e um filme: Crónica dos Bons Malandros
Ana Isabel Soares, professora
ada como o desaparecimento de um autor para revisitar a sua obra. Sobretudo, quando se trata daqueles autores que tanto prezamos, tanto fazemos nossos que acolhemos a notícia da morte com a incredulidade absurda de quem os tomava por imorredoiros. Poucas semanas depois da morte de Mário Zambujal, registo a lembrança tão grata do que me deixou. Desde logo, na ocasião em que, há umas três décadas, fazia eu o meu tirocínio de docência no Colégio Internacional de Vilamoura, acedeu ao convite que lhe fiz para ir falar aos alunos sobre isto de escrever literatura – para mim, pelo menos, foi uma conversa inesquecível. Não saberei dizer se algum aluno o recordará, mas acredito que sim. Depois disso, vi-o por vezes na televisão, nos jornais, ouvi-o na rádio – o normal. Mas dar-me conta de que os anos e a vida tinham passado por ele como passam por mim foi uma forma cruel de perceber a óbvia, natural, persistente injustiça da morte. Enfim, é assim com todos os que nos vão morrendo e preferíamos que não fossem (os meus tios mais velhos, puf..., no espaço de um ano), mais ainda quando são ou os fazemos nossos.
O grande contributo para a memória comum, porém, é o que o Mário Zambujal deixa para a posteridade da língua portuguesa, nos livros que foi publicando – sobretudo na merecidamente mítica Crónica dos Bons Malandros. Não reabro há muito tempo as páginas desse livro. Não porque não gostasse de o fazer (ainda o procurei no lugar certo da estante, a zona da prosa portuguesa onde deveria repousar por ordem alfabética, entre a Leonor Xavier de Ponte Aérea e a Ana Zanatti de O Sexo Inútil –, mas a Crónica é mais desassossegada, volta-não-volta pego nela e levo-a para o quarto, para a cozinha, para onde quer que calhe); mas tenho frescas as frases na ideia, como se tivesse acabado de as ler, de lágrimas nos olhos de tanto rir.
Recentemente, além disso (a assinalar o desaparecimento do autor, a RTP2 permitiu-o), pude rever a adaptação para cinema que do livro fez o bom cineasta Fernando Lopes e perceber que não me recordava das suas imagens tão bem quanto das palavras de Zambujal. Em boa hora o (re)vi: foi o antídoto perfeito para a sensação de perda que a morte tinha instalado. Encontrei Zambujal dentro do filme, literal e metaforicamente: numa das cenas, quando Silvino Bitoque (Duarte Nuno) conta ao resto do bando que a sua passagem pelo crime nos Estados Unidos

confundiu até o FBI (“Os FBIs nem sabiam que havia um país chamado Bairro Alto!”, ri), o escritor aparece à esquerda do ecrã, sentado, de cigarro na mão, a uma mesa de café à frente do papel datilografado, como se fosse mais um dos ocupantes do café e partilhasse o mundo com as suas próprias personagens: Renato, Marlene, Adelaide Magrinha, Lina Despachada, Pedro Justiceiro, Arnaldo Figurante (as belíssimas Lia Gama, Céu Guerra, Zita Duarte, os malandros João Perry, Nicolau Breyner, Paulo de Carvalho). O grupo fica praticamente congelado na ação, passa a ser fundo da cena, enquanto o escritor parece hesitante em decidir-lhes, pelas palavras que alinha na página, os destinos. Cada uma daquelas atrizes, cada um dos atores, foi para mim sinal do reencontro com um tempo que já não há – como se repetisse hoje as palavras que Jorge Listopad pronuncia no filme (1984,
recorde-se), em comentário à “cleptomania” de Silvino-em-criança, “O Bairro Alto ainda existe?”.
Uma das limitações do filme – o tempo era de apertos orçamentais, fazia-se o que se podia – vem de não se ter podido gravado no local a cena do assalto à Gulbenkian. Mas o realizador encontrou um modo engenhoso e cândido de a substituir e até nisso o despretensiosismo do filme – que inclui um delicioso número musical, ou o próprio Fernando Lopes a receber sobre a cabeça uma coroa de louros caída de uma das estátuas de Lisboa – é paralelo ao do livro. Lisboa é, aliás, como no livro de Zambujal, protagonista: que outra razão haveria para se desenhar ali esta história de malandragem? Porque teria Lopes demorado tanto o olhar sobre ela, por exemplo na noite e nas luzes do Largo de São Pedro de Alcântara? É um belo e nostálgico filme, com momentos que ressoam o hilariante da prosa de Mário Zambujal (por exemplo, na cena de perseguição automóvel em que o carro da polícia desliza, encavalitado nas duas rodas laterais, ou a carrinha dos malandros salta passeios na Praça de Espanha). E termina numa terna nota da ficha técnica, que cala fundo, hoje, o tom de elegia: “Assistente espiritual: Diogo Seixas Lopes” (filho de Fernando Lopes e de Maria João Seixas, que à data teria 12 anos e viria a morrer em 2016, aos 43).
(No dia em que escrevo, 25 de março de 2026, ainda é possível ver o filme de Fernando Lopes através do site da RTP, em
https://www.rtp.pt/play/p6498/e915313/cr onica-dos-bons-malandros)
Foto: Vasco Célio


Pelo sim, pelo não… Sílvia Quinteiro, professora
ansada de um inverno invulgarmente longo, aos primeiros raios de sol corro para junto do mar. Procuro o sítio do costume, um recanto afastado da ilha. Como sempre, quase ninguém. Do alto do passadiço, demoro-me a observar a leve ondulação de prata. As gaivotas, guardiãs da praia, são certamente as mesmas que aqui deixei no final do verão passado: olham-me de esguelha e, com um aceno de cabeça, autorizam-me a entrar.
No areal, apenas uma mulher e uma criança. Um guarda-sol, como os de antigamente, com riscas largas a formar triângulos de cores vivas.
O aroma inconfundível da maresia, das plantas que cobrem as dunas. E o marulhar? Ah, o marulhar…
Retiro os óculos, fecho os olhos, ergo o rosto na direção do sol. A pele, sequiosa, bebe o calor. Que saudades tinha do verão!
Um brado desperta-me deste estado de quase encantamento.
— Não entres na água! Ainda não fizeste a digestão!
Abro os olhos. A mãe levanta-se e gesticula para que a criança regresse à zona de segurança. A pequena devolve-lhe um olhar triste e obedece. Em passo lento, muito lento. Os ombros descem-lhe,
pesados. A mãe insiste, chama-a para a sombra. Diz qualquer coisa que não ouço, mas reconheço o cenário: a mão no ombro da menina, a areia sacudida, a toalha ajeitada para que se deite.
Recordo o sofrimento: a espera, a sombra, a voz insistente a mandar-me dormir a folga. A amaldiçoada folga, atentado à energia inesgotável da infância. É verdade que não perecia de congestão, mas ficava à beirinha de morrer de tédio.
Naquele tempo, havia mil maneiras insólitas de ir desta para melhor — e, sendo para melhor, era difícil perceber tanta aflição.
Água fria durante a digestão era o fim. Nem por fora, nem por dentro. Sim, porque ingerida tinha a mesma consequência. Estávamos, por isso, condenados a três horas de enfado e água morna.
Deitávamo-nos contrariados, fingindo fechar os olhos. Na verdade, estavam apenas semicerrados, em vigília, à espera. Resistir ao sono era uma batalha perdida para os adultos, vencidos pelas baforadas quentes do ar. Escapávamos. Não nos atrevíamos a entrar na água — a crença estava instalada —, mas ficávamos por ali, na areia, entregues ao tempo: a brincar; a descobrir as cores escondidas nas conchas de madrepérola; a explorar o interior dos ovos de choco trazidos pelo mar, presos a galhos; e a deixar que minúsculos caranguejos translúcidos nos fizessem cócegas nas mãos e nos braços.


Longe das praias escondiam-se outros perigos fatais. As correntes de ar, silenciosas, traiçoeiras, letais. O andar descalço, origem de inúmeras constipações que acabavam em pneumonia e, depois, já se sabe. Sair com o cabelo molhado era imprudência grave. Dormir destapado, quase uma sentença. Beber leite e comer laranja, um perigo. Engolir caroços era particularmente arriscado: podia nascer uma árvore dentro de nós ou crescer um pé de feijão que, ao invés de sair por uma orelha, se embrulhasse no cérebro e, está visto, íamos para os anjinhos. E o que dizer das pastilhas elásticas, que, uma vez engolidas, se colavam ao estômago e nunca mais saíam? Era a morte do artista.
Havia, pois, perigos por todo o lado, mas, curiosamente, não se morria dos que hoje nos espreitam. Era seguro andar de carro sem cinto; andar de mota e de bicicleta sem capacete e a fazer acrobacias; descer as ruas em seguríssimos carrinhos de rolamentos; viajar em pé em carrinhas de caixa aberta; viver em casas onde o fumo do tabaco se podia confundir com uma manhã de nevoeiro. E ninguém falecia por subir às árvores, saltar muros, correr por telhados ou atirar-se para dentro de tanques.
Também não era por cair que a coisa se dava. Uma sorte, considerando que caíamos muito.
Joelhos abertos, cotovelos em carne viva, cabeças rachadas, e os adultos, imperturbáveis, a tratar tudo como pouco mais do que nada:
— Ai, que grande dói-dói! Olha, vê lá se não te saem por aí as tripas.
Não havia ferida que não sarasse com um golpe de mercúrio ou de água das malvas.
Também não se morria por comer pão com manteiga e açúcar, em camadas generosas, nem por molhar torradas na banha ainda quente da fritura. Nem sequer por começar o dia com uma gemada crua dentro do café. Sim, as crianças bebiam café, e não fazia mal. Bebíamos água da mangueira do quintal ou de qualquer outra que encontrássemos pelo caminho, comíamos fruta diretamente da árvore, limpando-a à camisola. Caía? Apanhava-se, soprava-se e marchava.
— O que não mata, engorda — era sabido.
Hoje, mudaram os receios, mudaram as recomendações, temos outros papões ao virar da esquina.
Ainda assim, antes de avançar para o apetecido mergulho, olho para o telemóvel. 13h40.
Falta uma hora para acabar de fazer a digestão.
Vou sentar-me numa esplanada e já cá volto.
Pelo sim, pelo não…


O interior de Portugal não pode ser discriminado
Fábio Jesuíno, empresário
interior de Portugal não pode continuar a ser tratado como uma região secundária ou esquecida. Apesar da sua enorme importância histórica, cultural, económica e ambiental, estas zonas têm sido frequentemente marcadas pelo despovoamento, pela falta de investimento e pela desigualdade no acesso a serviços essenciais.
Falar do interior é falar de milhares de portugueses que continuam a viver, a trabalhar e a resistir em territórios que tantas vezes são ignorados pelas decisões políticas e administrativas. É falar de famílias que enfrentam dificuldades acrescidas para aceder a cuidados de saúde, a transportes públicos, a escolas, a serviços do Estado e até a ligações digitais de qualidade. É falar de jovens que, muitas vezes, são forçados a sair da sua terra, não por falta de vontade de ficar, mas por falta de condições para construir ali o seu futuro.
Discriminar o interior é aprofundar as diferenças entre portugueses. Considero uma realidade completamente injusta, perigosa e profundamente lesiva para a coesão nacional. Um país não pode
ambicionar desenvolvimento verdadeiro se continuar a concentrar recursos, investimento e atenção apenas no litoral e nas grandes áreas urbanas, deixando para trás vastas regiões que têm potencial, riqueza e capacidade de contribuir para o futuro coletivo.
No meu dia a dia, continuo a ver situações claras de discriminação. Essa discriminação manifesta-se de várias formas, na dificuldade de acesso a serviços públicos, na demora de respostas administrativas, na escassez de transportes, na desertificação de equipamentos essenciais e, também, na forma como muitos apoios e fundos comunitários nem sempre chegam de forma justa e eficaz. Existe uma série de desigualdades cada vez mais frequentes, que vão abrindo uma ferida cada vez mais profunda na sociedade portuguesa.
No interior do país, existem muitas escolas encerradas que testemunham o abandono progressivo de várias comunidades. Algumas dessas antigas escolas foram requalificadas e aproveitadas para outros fins, o que demonstra que é possível dar uma nova vida a estes espaços. No entanto, muitas continuam sem qualquer utilização, votadas ao esquecimento e a degradarem-se dia após dia. Esta

realidade representa, não só a perda de património público, mas também o reflexo da desertificação humana e da falta de estratégia para revitalizar o interior. Em vez de serem deixadas ao abandono, estas infraestruturas poderiam ser recuperadas e transformadas em espaços de apoio social, cultural, associativo ou até empresarial, contribuindo para devolver dinamismo às localidades onde se encontram.
Portugal precisa de deixar de olhar para o interior como periferia e começar a reconhecê-lo como prioridade. Isso exige mais do que discursos ocasionais. Exige investimento real, descentralização efetiva, incentivos à fixação de empresas e famílias, reforço dos serviços públicos,
melhor aproveitamento dos fundos europeus e uma política de desenvolvimento regional que não trate todos por igual quando as desigualdades de partida são tão diferentes. Tratar de forma justa é, muitas vezes, investir mais onde há mais fragilidade.
O interior de Portugal não pode ser discriminado. Não por razões económicas, não por razões geográficas, não por conveniência política. Um país verdadeiramente desenvolvido mede-se pela forma como trata todos os seus territórios e todos os seus cidadãos. O problema não é apenas económico, é também social, humano e democrático.


Procura-se Paulo Neves, «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
or momentos vamos colocar de lado (do pensamento) os fundos comunitários.
Também vamos fazer de conta que não há uma guerra (várias até). Atentemos ao nosso retângulo (o Algarve, como se fosse Portugal deitado).
Sim, os fundos vão reduzir-se e os efeitos do conflito vão perdurar.
Estão a conseguir? Difícil, mas conseguimos pensar só nisto e não encontramos mais grande coisa além do costume…nós, a pensar em nós.
É que antevejo a revolução que se vai passar em Sines (além do porto de águas profundas) e fico feliz pela enorme expectativa de investimentos privados, benefícios e incentivos fiscais.
Uau!! Dali até Setúbal, vamos ter uma enorme especialização económica, fixação e atração de talentos ao território e uma coerência de infraestruturas e equipamentos a atravessar da frente atlântica até Espanha e mais além. O anterior governo deixou marca em progresso.
Mais a norte, Coimbra volta a aparecer no mapa das opções com Viseu, até Aveiro e em redor de Leiria, todo o
trabalho de fazer reviver gentes e povoações depois das tempestades. O Presidente da República está a puxar pelo território, animando vontades e concentrando atenções na recuperação em força. A inovação está a passar por ali.
O Centro ainda, até Santarém, Almeirim e mais puxam pelo sector agroindustrial e fazem brilhar na diferença da sua afirmação de potencialidades logísticas.
O Norte…bem o Norte, à parte o eixo até Braga (a caminho de Vigo), é uma caixinha de surpresas na resiliência e orgulho que Portugal tem que olhar para o desenvolvimento partilhado até Bragança. Tal e qual o Baixo Alentejo e o Algarve, pois.
Não falo da (grande) Lisboa, nem de Évora, pois já vi que estão muito bem, ainda que vão ficar melhor. Investimentos, infraestruturas, concentração e desenvolvimento de múltiplas oportunidades.
Devíamos estar todos assim. Mas o interior norte, o baixo Alentejo e, sim, também o nosso Algarve, não se vislumbra desígnio que assumamos.
Procura-se uma estratégia mobilizadora, que nos reúna num sentido de investimento. Algo que seja futuro, além do turismo. Precisamos mais de
outros sectores para termos melhor turismo e qualidade de vida. Precisamos de mais coletivo e concertação além do municipalismo.
Reconheço que tem havido mais inovação, diversificação, criatividade, reconheço que há mais conhecimento e ação comum, mas parece faltar-nos um rumo que todos conheçamos, critiquemos, mas nos mobilize pela persistência e comunhão de esforços. A região precisa de se afirmar e já é conhecida para lá do retângulo Portugal.

Agora temos uma CCDRAlg plurirepresentada sectorialmente, com certeza será dotada de mais meios próprios e também mais competências efetivas de coordenação. Sei que há urgência de cumprimento de fundos nos prazos, mas falo de conjugação ao invés de dispersão do cada um por si para fazer. Falo de captar investimento externo além dos fundos de gestão turística de empreendimentos.
Tratemos de anunciar ao vento o que queremos, o que temos o que vamos ser em 2050 e mais além.
Tratemos de falar de coisas difíceis em casa e trabalhar nas soluções com quem está disponível para a ação. Voltemos a
ser grandes como há séculos. Afirmemos o arco latino europeu daqui até à Roménia, aproveitemos o eixo atlântico até norte europeu e a frente face à América e norte de África. As portas, além do digital e com o digital, estão aí para consolidar e continuar a surpreender.
Rompamos este atavismo de nos fazerem pequenos numa região e país grande. O medo da critica, a burocracia que leva ao receio da marca justiceira, assumamos o que queremos ser, juntos.
No essencial, sequer há problemas entre partidos ou políticos, não temos
uma sociedade dividida e era fácil estarmos divididos sendo apenas 450 mil entre 16 concelhos. Todos conhecemos todos e sabemos que nos devemos unir para conseguir a atenção dos investimentos essenciais com massa critica benéfica para todos.
Não esperemos pelo governo, todos estão mais preocupados onde há mais votos.
Nós temos a vantagem de ser uma região conhecida e que gera PIB e redistribui solidariamente para demais. Orientemo-nos depois de consensualizar e dar a conhecer a todos esse algo que ainda procuramos – um desígnio comum que sirva quem nos procura e quem aqui vive(rá).
Não há de ser só uma coisa, mas algo será. Vamos fazer discutir, anunciar, que programas de coisas serão, priorizar e votar?



Alferce: quando as pedras contam quatro mil anos de história
e lá de cima, no Cerro do Castelo de Alferce, o olhar alcança a serra e os vales profundos de Monchique. A paisagem é vasta, mas é o chão que surpreende: sob os pés estão marcas de quatro mil anos de ocupação humana, do Calcolítico à época islâmica omíada, no século IX.
As muralhas que um dia protegeram este castelo chegaram até nós em ruínas, com troços colapsados e panos ainda de pé, com dois metros de altura. Para lhes dar nova vida, foram lançadas campanhas de conservação e restauro, das quais nasceu o Núcleo Museológico de Alferce, cujo apoio vem do Programa ALGARVE 2020.
Na aldeia, esse pequeno espaço expositivo mostra fragmentos arqueológicos recuperados do sítio. Muitos estão incompletos, mas foram recriados com desenhos e representações gráficas que ajudam a imaginar cerâmicas, armas ou utensílios do quotidiano. É uma forma de transformar restos em narrativas visíveis.
O sítio teve várias vidas: também foi ermida. Hoje funciona como centro

interpretativo, com visitas feitas por marcação na Junta de Freguesia, guardiã deste património.
Pouco mais abaixo, a descoberta prolonga-se nos Passadiços do Barranco do Demo, suspensos sobre desfiladeiros.

O percurso leva o visitante por trilhos vertiginosos até ao próprio castelo, unindo a emoção da natureza ao fascínio da arqueologia.
Foto: Junta de Freguesia do Alferce




CCDR Algarve promoveu primeira
reunião da Plataforma de Inovação e Colaboração «Turismo»
Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, I.P. (CCDR Algarve) levou a cabo, no dia 18 de março, no Auditório David Assoreira, em Faro, a primeira reunião da Plataforma de Inovação e Colaboração (PIC) dedicada ao Turismo. A iniciativa reuniu entidades do setor do turismo, instituições científicas e tecnológicas, empresas e outros agentes do
ecossistema regional de inovação, com o objetivo de promover a articulação entre conhecimento, inovação e atividade empresarial, bem como identificar oportunidades de colaboração que reforcem a competitividade e a sustentabilidade do turismo no Algarve.
Enquadrada na Estratégia Regional de Especialização Inteligente (EREI), esta plataforma pretende contribuir para o desenvolvimento de soluções inovadoras e sustentáveis para o setor, reforçando a ligação entre políticas públicas,
Texto: Daniel Pina| Fotografia: Daniel Pina
investigação, inovação e empreendedorismo e promovendo a criação de valor para a região. A sessão de abertura contou com as intervenções de Cristiano Cabrita, vice-presidente da CCDR Algarve, André Gomes, Presidente da Região de Turismo do Algarve, Patrícia Pinto, Vice-Reitora da Universidade do Algarve, e Lurdes Serpa Carvalho, Diretora da Unidade de Planeamento e Desenvolvimento Regional da CCDR Algarve. “A nossa Estratégia Regional de Especialização Inteligente tem tido várias reuniões e sessões, esta é apenas mais uma, assente naquilo que entendemos ser um pressuposto de governação responsável por parte da CCDR. Para chegarmos aqui, o Algarve teve que desempenhar um conjunto de dinâmicas junto das entidades públicas e privadas para levar a cabo um
processo participativo, porque só assim é que faz sentido falar em desenvolvimento regional. O desenvolvimento regional não se consegue apenas com entidades públicas, consegue-se, sobretudo, com a valorização dos nossos parceiros, com as empresas, com os empresários, com as entidades públicas e privadas”, referiu Cristiano Cabrita.
Neste caminho, a CCDR Algarve identificou prioridades para a sua estratégia com vista ao desenvolvimento regional, assente, não só no turismo, mas também nos recursos endógenos, nas indústrias culturais e criativas, na saúde e bem-estar, e também nas questões relacionadas com a sustentabilidade ambiental e a digitalização. “É neste ecossistema que temos vindo a


trabalhar, com enorme responsabilidade, num processo multinível, mas também com um modelo de governação que está subjacente precisamente a esta estratégia de resiliência e de especialização inteligente”, declarou o vice-presidente da CCDR Algarve, que salientou “a importância que o turismo tem na transformação económica do Algarve e para enfrentar os desafios que aí vêm, e que são muitos” “O turismo consegue ligar e juntar as pontas, trazer
para a mesa de discussão novas ideias, com um pressuposto muito importante, e sempre subjacente, naturalmente, que é a criação de riqueza, o alavancar do valor, o crescimento económico”, prosseguiu Cristiano Cabrita. “Todos temos a responsabilidade de transformar, de trazer para cima da mesa mais conhecimento, mais tecnologia, mais sustentabilidade e mais valorização do território. Não se fazem plataformas turísticas, não se fomenta desenvolvimento regional,

não se geram novas dinâmicas no turismo, sem contarmos com os contributos dos empresários, homens e mulheres que arriscam, que trazem novas ideias, que são responsáveis por um novo empreendedorismo. As entidades públicas não conseguem fazer este alavancar de valor sem o conhecimento e a capacitação dos nossos empresários e das nossas empresas”, realçou.
Futuro do turismo constrói-se com inovação, conhecimento e sustentabilidade
No dia em que a Região de Turismo do Algarve comemorava 56 anos de existência, André Gomes destacou “a capacidade do turismo para mobilizar, participar e contribuir diariamente para responder aos desafios da região” “Ao longo destas décadas, a RTA desempenhou um papel absolutamente central na promoção do destino «Algarve», na valorização da sua oferta e na afirmação de uma estratégia comum para o turismo regional. Esta capacidade que temos tido de demonstrar, de representar, de mobilizar e de articular todo um ecossistema turístico do Algarve tem sido claramente uma das grandes forças do nosso destino, e tem sido aquilo que nos tem possibilitado atingir os resultados que, após ano, temos vindo a registar. Há também que reconhecer o trabalho coletivo de várias gerações de profissionais, dos empresários, dos autarcas, de todos os trabalhadores do setor, que ao longo destes anos contribuíram para transformarmos o Algarve numa referência turística internacional”, apontou o presidente do Turismo do Algarve.
André Gomes lembrou que o turismo da região se construiu sempre com base em cooperação, em parceria, numa visão estratégica partilhada. “O turismo, não obstante muitas narrativas que se possam discutir, tem sido, de facto, o grande motor da economia regional, e continuará certamente a desempenhar

um papel central no desenvolvimento da nossa região. Mas sabemos que o contexto em que os destinos turísticos hoje operam é muito diferente daquele que conhecíamos há duas ou três décadas atrás. A competição internacional intensificou-se, os padrões de procura estão a mudar rapidamente e os desafios ambientais e tecnológicos colocam também novas exigências aos nossos territórios”, avisou o presidente da RTA, daí entender que “o futuro do turismo não se constrói apenas com promoção, não obstante essa ser uma das importantes vertentes do nosso trabalho”. “Constrói-se com inovação, conhecimento e sustentabilidade, e é precisamente por
isso que iniciativas como esta Plataforma de Inovação e Colaboração ganham particular importância. Ao reunirmos aqui instituições públicas, universidades, empresas e todos os agentes do território ligados ao setor do turismo, estamos a criar um espaço onde o conhecimento se cruza com a experiência empresarial e onde também podem surgir novas soluções para estes novos desafios que todos os dias nos são colocados na nossa atividade. Esta Estratégia Regional de Especialização Inteligente do Algarve aponta exatamente nesse sentido, porque, ao promovermos processos de descoberta empreendedora e ao incentivarmos a cooperação entre a

ciência, entre as empresas, entre as políticas públicas, estamos a criar condições para que esta inovação se transforme em valor para o nosso território”, justificou André Gomes.
Ora, do ponto de vista do Turismo do Algarve, esta inovação passa por três grandes prioridades estratégicas, a primeira das quais a sustentabilidade dos recursos locais, com particular ênfase para o uso eficiente da água. A segunda prioridade, de acordo com André Gomes, é a transformação digital do setor, “porque a digitalização está a alterar profundamente a forma como os turistas escolhem os seus destinos, como reservam as experiências e como
interagem com os territórios” “Os destinos que conseguirem melhorar a tecnologia e os dados na gestão turística terão garantidamente uma vantagem competitiva clara nos próximos anos”, assumiu, antes de definir a diversificação e a qualificação da oferta turística como terceira prioridade. “O Algarve, hoje, é muito mais do que o sol e praia, muito mais do que o golfe, que serão sempre os produtos pelos quais somos mais internacionalmente reconhecidos e premiados, mas temos conseguido valorizar cada vez mais os nossos recursos naturais, culturais e económicos, mantendo a tónica também na importância da preservação da nossa identidade e autenticidade. O Turismo de Natureza tem sido claramente um dos produtos que nos tem permitido afirmar o Algarve fora da época alta, assim como o Turismo Náutico e o Enoturismo. Baseamo-nos em factos reais e concretos para contrariar narrativas, perceções, ideias e achismos. Temos vindo a desempenhar, todos em conjunto, um grande trabalho para continuarmos a evoluir para um destino forte e cada vez mais inovador, sustentável e resiliente”, salientou André Gomes.
Turismo faz parte do ADN da Universidade do Algarve
A Universidade do Algarve não faltou, com seria de esperar, à primeira reunião da Plataforma de Inovação e Colaboração dedicada ao turismo, “porque faz todo o sentido criar espaços de diálogo estruturado que permitam debruçarnos, não só sobre os problemas e

desafios que o setor enfrenta, mas, acima de tudo, tentar em conjunto desenhar soluções, caminhos que permitam que o nosso Algarve, por via do turismo, seja mais inovador, mais sustentável e mais resiliente”, elogiou Patrícia Pinto, Vice-Reitora da Universidade do Algarve. “A UAlg é uma instituição profundamente enraizada na nossa região, por isso, o turismo faz também parte do nosso ADN. Formamos, desde há muitos anos, gerações de profissionais que hoje lideram e inovam no setor, através da nossa Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo e da nossa Faculdade de Economia. Temos uma oferta muito diversificada e profundamente ligada às necessidades do setor e os nossos estudantes aprendem em sala de aula, naturalmente, mas também aprendem no território, nos estágios que a nossa universidade lhes consegue oferecer, nos projetos que temos com empresas, no contacto com este destino turístico
que é um verdadeiro laboratório vivo para o ensino e para a investigação”, descreveu, realçando precisamente que “a investigação que desenvolvemos é reconhecidamente de excelência”. “A Universidade do Algarve é uma referência nacional e internacional ao nível da produção de conhecimento com vista ao desenvolvimento sustentável dos destinos turísticos e à promoção do bem-estar. A investigação transforma-se em ferramentas concretas que podem depois dar resposta a problemas reais”, disse.
Patrícia Pinto chamou ainda a atenção para o papel que a Universidade do Algarve tem desempenhado no Observatório Para o Turismo Sustentável do Algarve, “uma estrutura de transferência de conhecimento, monitorizando a atividade turística e fornecendo dados cruciais para a tomada de decisão informada por parte dos agentes públicos e privados do setor” “O Observatório é, e poderá ser
ainda de uma forma mais consolidada, o expoente máximo de uma parceria consolidada entre a Universidade, a Região de Turismo do Algarve, a CCDR e o Turismo de Portugal, que permite ouvir o território e também, por via do trabalho que fazemos, devolver contributos em termos de conhecimento útil. O desafio que temos pela frente não é apenas o de gerir a procura turística ou de mitigar os seus impactos, mas também de criar caminhos de sustentabilidade e regeneração. A Universidade do Algarve quer continuar a ser um parceiro ativo nesta caminhada, colocando o seu conhecimento e a sua capacidade de inovação ao serviço de um desígnio coletivo, o de construir uma região mais próspera, mais coesa e mais sustentável”, declarou a ViceReitora.
Terminada a sessão de abertura, a primeira parte do encontro foi dedicada ao papel crescente da tecnologia digital e verde na atividade turística da região. Na comunicação «Estado da Arte das Tecnologias Aplicadas ao Turismo», Joaquim Nascimento, presidente da Algarve Evolution, sublinhou o impacto emergente da inteligência artificial, nomeadamente da chamada «IA agêntica», capaz de executar autonomamente tarefas como pesquisa, comparação e reserva de serviços turísticos. O responsável alertou para a necessidade de adaptação das empresas, recomendando a preparação dos seus canais digitais para interação direta com sistemas de IA, que tenderão a substituir os utilizadores na procura de ofertas. Foi também apresentado um projeto
apoiado pelo programa ALGARVE 2030, que prevê apoiar 15 PME do setor turístico através de diagnósticos de maturidade digital e planos de ação personalizados, com vista à integração de soluções de inteligência artificial e robótica.
Seguiu-se um painel centrado nos desafios da sustentabilidade e resiliência do destino Algarve. Na comunicação «Inovação e Resiliência no Turismo», Hugo Pinto, investigador do CinTurs e docente da Universidade do Algarve, avisou que o atual sucesso turístico da região pode ocultar vulnerabilidades estruturais, nomeadamente a dependência de fatores externos como a procura internacional e os ciclos económicos. Defendeu que a resiliência deve ir além da capacidade de recuperação, implicando uma transformação do modelo económico regional, e destacou a importância da diversificação económica, da inovação e da articulação entre empresas, universidades e políticas públicas.
As mesas-redondas, moderadas por Aquiles Ribeiros, Vogal do Programa Regional ALGARVE 2030, e por Duarte Padinha, da RTA, reforçaram a importância de um ecossistema regional de inovação colaborativo, bem como a transição para modelos de turismo mais sustentáveis e regenerativos. Este último conceito propõe uma abordagem que vai além da mitigação de impactos, visando valorizar os destinos através da regeneração de ecossistemas, do reforço das comunidades locais e da valorização do património.



«Uma Pedra na Boca», de Rita
Taborda Duarte, vence Prémio Nacional João de Deus (Poesia)
Texto: Daniel Pina| Fotografia: Daniel Pina
obra «Uma Pedra na Boca», integrada no volume «Não Desfazendo –Poesia 19982023», da autoria de Rita Taborda Duarte, editado pela INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, em junho de 2023, foi a vencedora da terceira edição do Prémio Nacional João de Deus (Poesia) 2025, no valor de 10 mil euros. O prémio é
promovido pela Câmara Municipal de Silves, com o apoio da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Terras do Arade como entidade associada.
O júri, constituído por José António Gomes, Catherine Dumas e Violante Magalhães, deliberou por unanimidade distinguir a obra, salientando que «Uma Pedra na Boca» se diferencia pela intensidade duma expressão pessoal assente na mestria da linguagem poética da autora, marcada pela originalidade, e




no domínio da técnica composicional do poema. “Os poemas, ora adotando a forma breve, ora formas mais extensas, articulam com êxito passos coloquiais, em que se interpelam um tu e um eu, e uma métrica mais clássica, não excluindo uma certa tonalidade humorística. Tais aspetos não podem ser dissociados nem da profundidade ideotemática dos textos (em que avultam a singularidade de uma insubmissa voz lírica de mulher e um
complexo de tópicos decorrentes de tal circunstância, incluindo a questão da própria criação poética), nem da unidade de um conjunto que, por outro lado, ativa, de modo expressivamente pertinente, várias referências poéticas intertextuais clássicas e contemporâneas”, refere o júri.
A cerimónia pública de entrega do galardão teve lugar no dia 8 de março, integrada nas comemorações do 196.º

aniversário do nascimento de João de Deus. “A genuína sinceridade às vezes tem dificuldade em obedecer a frases feitas e a protocolos. Nem é tanto como premiada, mas principalmente como cidadã, que quero agradecer ao Município de Silves e à Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, porque, quando o poder económico e o poder político se conjugam de alguma maneira para dar poder à cultura, isso é muito bom sinal. A poesia é tantas vezes considerada o
parente pobre das artes, quando é a base da cadeia alimentar da cultura”, declarou, na hora de receber o prémio, Rita Taborda Duarte. “João de Deus é uma referência da literatura, da poesia, da pedagogia, do ensino, da educação, une toda uma vila. Vivemos num mundo cada vez mais sombrio, tão atrevidamente ignorante que faz descarte da memória e do conhecimento, num país que, aos poucos, vai procurando rasurar o uso da língua, tornando-a plana, com frases feitas e palavras gasosas, pelo que é fundamental não se desistir da linguagem da poesia, aquela que realmente chega ao fundo”, considera a autora.
Rita Taborda Duarte agradeceu a cada um dos membros do júri, “três leitores intensíssimos da poesia e da literatura portuguesa”. “Ter pessoas que tanto admiro a dedicarem o seu tempo ao meu livro, lendo, pensando sobre ele, isso é, para mim, o verdadeiro prémio em si. O livro encontrou o seu leitor ideal, cumpriu a sua missão”, frisou a escritora, que confessou ainda que receber este prémio, e festejar o nascimento de João de Deus, no Dia Internacional da Mulher, é especial. “O meu livro fala-nos de pedras, não as que existem no meio do caminho da nossa vida, mas as pedras que se têm colocado na boca da mulher ao longo de tantos anos e de maneiras tão diversas, tão tormentosamente criativas. A poesia que pulsa em muitos destes poemas, mesmo não sendo óbvio, não deixa nunca, afinal, de ser política, como, aliás, tudo o que fazemos neste mundo. E não deixa também nunca de

falar de amor, como toda a poesia destes tempos imemoriais, mesmo tratando-se de formas particulares de amar. Estes poemas são, sobretudo, um modo de respirar. Nestes tempos em que vamos vivendo o luto na Terra, há que tentar respirar à tona, mostrar que, bem ou mal, mais mal que bem, ainda cá estamos, ainda cá ando”, concluiu.
Criado, em 2021, pelo Município de Silves no âmbito das comemorações do 190.º aniversário do nascimento do Poeta-Educador João de Deus, o Prémio Nacional João de Deus tem como objetivo distinguir e divulgar a criação literária de autores com obra publicada em língua portuguesa. Com periodicidade bienal, alterna entre a produção poética e a literatura infantil e juvenil, tendo esta terceira edição sido
dedicada à poesia. A quarta edição será lançada em março de 2027, “mas não é apenas um prémio literário, é um instrumento político e cultural ativo”, considerou Maxime Sousa Bispo, vicepresidente da Câmara Municipal de Silves. “Ao longo destes anos, o executivo municipal tem investido de forma consistente na promoção da língua portuguesa, na valorização da criação literária e no reforço da literatura como vetor de emancipação do ser individual, mas também de emancipação coletiva. Este investimento materializa-se no apoio contínuo ao autor, no apoio à edição, à leitura e à educação literária, porque acreditamos que a cultura é um direito e um instrumento de transformação social”, sublinhou o autarca, que aproveitou para realçar a parceria com a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de


Terras do Arade, “cuja colaboração tem sido decisiva e muito profícua”.
Sobre João de Deus, “foi pioneiro numa literatura infantojuvenil e na alfabetização popular”. “Com a Cartilha Maternal, permitiu que muitas crianças aprendessem a ler e a escrever, dando igualdades de oportunidades e de acesso à cultura. É este o legado que o
Prémio Nacional Literário pretende perpetuar: a valorização da palavra escrita como instrumento de emancipação, de desenvolvimento da personalidade do ser humano e de transformação da nossa sociedade. Reconhecemos autores que, com a sua escrita, reforçam a identidade cultural do país, também da nossa região, e afirmam a literatura com direito coletivo e recurso educativo”, reforçou Maxime Sousa Bispo.




Gala de 15 Anos da Teia D’Impulsos assinala nova etapa da associação
Texto: Daniel Pina| Fotografia: Teia D’Impulsos
Jupiter Algarve
Hotel foi palco, no dia 16 de março, da Gala
Comemorativa do
15.º aniversário da Associação Teia
D’ Impulsos, um momento de celebração que reuniu parceiros institucionais, entidades públicas e privadas, colaboradores, voluntários e amigos da associação. A iniciativa assinalou uma década e meia de intervenção cívica,

social e comunitária, proporcionando um espaço de partilha, reconhecimento e projeção de novos desafios para o futuro.
As celebrações tiveram início com um welcome drink, marcado por um ambiente acolhedor e momentos de convívio, networking e reencontro entre convidados. A receção foi acompanhada por música ambiente ao vivo, interpretada pelos músicos Maria Correia, Manuel Martins, Martim Barreiros, Núria Botelho e Afonso Silva, que contribuíram









para criar uma atmosfera elegante e descontraída, prolongando-se também durante o jantar.
Seguiu-se o jantar comemorativo, que começou com a intervenção do Presidente da Associação Teia
D’Impulsos, Luís Brito. Ao longo da noite, registaram-se ainda as intervenções institucionais de Ricardo Pinto, Diretor Regional do Algarve do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), e de Sandra Pereira, VicePresidente da Câmara Municipal de Portimão, que destacaram o papel da associação no desenvolvimento social, cívico e juvenil da região. Durante o jantar
foram reveladas várias surpresas para os convidados, destacando-se a apresentação do novo logótipo da Teia
D’Impulsos, desenvolvido por Joel Augusto, e o lançamento do novo website, criado por Roberto Vieira, símbolos de uma nova etapa na história da associação e do reforço do seu compromisso. A decoração dos centros de mesa esteve a cargo do Atelier 1 mais 1, contribuindo para a elegância e identidade visual do evento. A noite ficou assim marcada como um momento de celebração, reconhecimento e renovação do compromisso da Associação Teia
D’Impulsos com a comunidade e com os desafios do futuro.









CEDF organizou II Faro Acro Cup
em Estoi (1)
Texto: Daniel Pina| Fotografia: Daniel Pina
stoi encheu-se de energia, talento e emoção, nos dias 21 e 22 de fevereiro, com a realização da II Faro Acro Cup, numa excelente organização do CEDF –Clube Educativo e Desportivo de Faro que reuniu no Pavilhão da EB 2,3 Poeta Emiliano da Costa largas dezenas de jovens promessas e de já muitas certezas da ginástica acrobática no início de mais uma temporada desta belíssima e
exigente modalidade. O evento contou com a participação da maior parte dos clubes algarvios que têm ginástica acrobática, mas também de muitos emblemas provenientes do resto do país, incluindo ilhas, reflexo do enorme sucesso que a primeira edição da Faro Acro Cup registou no ano transato, assim como do excelente trabalho que é realizado na região numa modalidade que continua a encantar público de todas as idades.










































































































PEDRO ABRUNHOSA ABRILHANTOU
DO AUDITÓRIO MUNICIPAL MARIA
Texto: Daniel Pina| Fotografia: Daniel Pina

ABRILHANTOU 17.º ANIVERSÁRIO
MARIA BARROSO


Auditório
Municipal Maria Barroso, em Olhão, celebrou, no dia 21 de março, o seu 17.º aniversário com um concerto que contou com um convidado muito especial, Pedro Abrunhosa.
Viajante incansável, escritor de palavras que ficam e homem de palco por excelência, Pedro Abrunhosa é na estrada que se reencontra e é em concerto que revela toda a força da sua identidade artística. A sua escrita poderosa e inconfundível ganha vida em canções que se tornaram verdadeiros hinos, lendas e adágios da música portuguesa,
atravessando gerações e marcando profundamente o público.
Com uma carreira ímpar, feita de milhares de concertos, salas esgotadas, grandes festivais e digressões que o levaram aos quatro cantos do mundo, Pedro Abrunhosa é multiplatinado em praticamente toda a sua discografia e distinguido com todos os principais prémios nacionais. Não admirou, por isso, que o Auditório Municipal Maria Barroso tivesse lotação esgotada em mais uma noite memorável, onde a música, a palavra e a emoção se uniram para celebrar, não só um dos maiores nomes da música portuguesa, mas também 17 anos de cultura, arte e encontros neste espaço.



























CAMADA CONTINUA A BRILHAR COM O FANTÁSTICO «CALEIDOSCÓPIO»

Texto: Daniel Pina| Fotografia: Daniel Pina
BRILHAR «CALEIDOSCÓPIO» (1)



údico, misterioso, encantador, sempre em movimento, assim é o caleidoscópio, objeto que pode ser visto como um símbolo da diversidade e da interconexão de todas as coisas. E o «Caleidoscópio» que a CAMADA Centro Coreográfico apresentou, no dia 6 de março, no Teatro das Figuras, em Faro, foi precisamente uma celebração da riqueza e da diversidade de possibilidades da arte da dança.
Neste espetáculo, crianças, jovens e adultos, alunos da CAMADA Centro Coreográfico, uniram-se num percurso entre diferentes temas e estilos de dança, transformando o palco num caleidoscópio visual e emocional. Com Direção Artística de Carolina Cantinho, Direção Pedagógica de Margarida Cantinho e Coreografias de Paula Cabral, Margarida Cantinho, Viviana Costa, Carolina Cantinho, Ana Alberto e Maria Dias, «Caleidoscópio» esgotou por completo a principal sala de espetáculos da capital algarvia.










































«PARAÍSO, MEU PARAÍSO» ESTREOU NO CINETEATRO
Texto: Daniel Pina| Fotografia: Daniel Pina

PARAÍSO» CINETEATRO LOULETANO


relação do ser humano com a tecnologia, os hábitos diários com o digital e a busca incessante por uma versão melhorada de nós próprios, são alguns dos temas abordados no novo espetáculo da companhia ArQuente, «Paraíso, meu Paraíso», que estreou, no dia 6 de março, no Cineteatro Louletano.
Para dirigir e encenar esta peça, a ArQuente convidou a coreógrafa e dramaturga Lígia Soares, que aceitou o
desafio de trabalhar com uma equipa de intérpretes com diferentes percursos profissionais (dança, música, teatro e até biologia). O espetáculo foi nascendo ao longo de três residências artísticas, com o Palácio Gama Lobo, em Loulé, a ser nos últimos meses, o laboratório desta experiência partilhada. “Trabalhámos sempre numa relação de cocriação. Como ponto de partida, tínhamos o tema e eu fui propondo improvisações e ideias, que depois foram sendo desenvolvidas por toda a equipa. Não vinha com nada fechado, nem com materiais já produzidos. Fomos fazendo uma descoberta conjunta. O meu papel




foi ir compondo e encenando, a partir dos materiais que iam aparecendo ao longo dos ensaios. Foi um processo muito orgânico, com uma metodologia que se desenhou a si própria”, explica a diretora artística da peça.
Em palco, Bilonda Bukasa, João Tatá Regala, Sara Vicente e Teresa Silva abrem caminho a uma reflexão sobre espaço físico e espaço digital e a busca de paraísos pessoais. Numa espécie de jogo, com uma certa ironia, explora-se o contrassenso entre estar sempre ligado, mas simultaneamente desconectado. “Outro aspeto muito interessante tem a ver com o tempo… a velocidade do tempo. Vivemos num mundo cada vez mais acelerado, em que procuramos soluções muito rápidas e eficazes. E quem produz os conteúdos já presume
que não há escapatória a essa aceleração. Numa espécie de busca pela felicidade seguimos gurus, conselhos e ideias que são partilhados globalmente e vindos de pessoas que, na maioria das vezes, só conhecemos através dos ecrãs. E é curioso serem essas pessoas a levarem-nos a um estado de felicidade. Ao longo do processo criativo, trabalhámos muito nessa necessidade de conexão através do digital e na peça brincamos com essa ideia”, descreve Lígia.
«Paraíso, meu Paraíso», que estreou no ano em que a ArQuente celebra o seu 20.º aniversário, conta com a coprodução do Cineteatro Louletano e do Teatro das Figuras. Depois de Loulé, a peça subiu ao palco do Teatro das Figuras, no dia 26 de março.















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