Skip to main content

DESABAFOS ... SEM ESPINHAS

Page 1

PAULO CUNHA DESABAFOS… SEM ESPINHAS

desabafos… sem espinhas

1 Crónicas publicadas na Revista Algarve Informativo


PAULO CUNHA

2


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

3


PAULO CUNHA

ÍNDICE Paulo Cunha: Sensibilidade e Bom Gosto ……….….….………… 9 Paulo Cunha, um ativista cultural ………………………………….. 11 Paulo Cunha, um Homem que cultiva o nosso jardim! ….. 13 O Algarve é (sempre) notícia! ……….…….………………………… 17 (in)Formação de Públicos? ……………………….…………………… 19 Comer dentro da gaveta ….……………………………………………. 21 Os primeiros 15 anos ….…………………………………………………. 23 Qual o custo/preço de um Músico? ………………………………. 25 Tal pai, tal filho… ou será o contrário? ………………………….. 27 Privatize-se Portugal! ….…….……………………….….…….………. 29 A marca «Algarve Musical» …………………….….……….………… 31 Deficientes?... ….…………………….…………………………………….. 33 Os nossos «pontos de restauro» …………………………………… 35 “Lá em casa quem manda é ela!” ……………………..………….. 37 Faro Capital Nacional da Cultura 2005 – 10 anos depois… ……………………………………………..…………..39 “… e já agora: queria pedir-te um favor!” ……………………… 41 Algarve todo o ano?... Obviamente! ……………………………… 43 Festas e vais… ……………………………………………………………….. 45 “Vem de fora? É bom!” …………………………………………………. 47 Mais um ano… letivo …….……….…….…….…………………………. 49 Ensino desarticulado da Música ….……….……………………….. 51 O Algarve na Europa da Cultura ………………….…………………. 53 Os representantes do povo ………………………….……………….. 55 Não tive tempo!.…………………………………………….……………… 57 Famílias Skype ………………………………………………..…………….. 59 Esquerda, direita, em frente… Marche! ………………………… 61 Politizados ou partidarizados? ………………………………………. 63 Não tenho tempo! ………………………………………………………… 65 Sem comentários! ……………………………………………..…………. 67 Feicebuques… …………………………………………………………….… 69

4


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Mas porquê, pai?... ….…….….………………………………….….….… 71 Mini(stério) da Cultura ou Mistério da Cultura? ……………... 73 Natal todo o ano ……….….….………………….…….………………….. 75 “A educação é o que sobra quando se esquece tudo o que se aprendeu na escola” ………….….………………… 77 Para cantar mais: www.cantarmais.pt ………………………….… 79 Para que - uma vez por todas - a produção cultural algarvia se transforme em património de todos nós ………. 81 Então: «Vá-de-Viró» para todos vós! ……………………………… 84 Diz-me o que ouves… …………………………………………………….. 87 Deixa estar! ………………………………………….………………………… 89 Ó «nosso» Algarve ………………………………………………………….. 91 Quando os nossos «fusíveis» fundem… ….………………………. 93 O ócio criativo ………………………….….…………………………………. 95 Tira um «Curso a sério»! …………………….……………….….……… 97 Adversários ou inimigos? ……………………………………………….. 99 365 dias Mulher ……………………………………………………………. 101 Pai, um dia é pouco! …………………………………………………….. 103 Uma vida inteira dentro duma mochila ………………………… 105 Querida avó, querido avô… ………………………………………….. 107 Diz que vais da minha parte! ………………………………………… 109 Intervir musicalmente?... Sempre! ……………………………….. 111 Onde estavas no «25 de abril»? ……………………………………. 113 Turismo e hidrocarbonetos – uma coexistência improvável ……………………………………….. 115 Quem num coro canta seus males espanta! … ……………… 118 Bebés com Música ……………………………………………………….. 120 Clubites à parte ……………………………………………………………. 123 Bem-vindos à Escola Pública! ……………………………………….. 125 Portuguese spoken here …....….…………………………………….. 127 Festas p’ra pulares ……………………………………………………….. 129 … e que a bola continue a rolar! …………………………………… 131 O Algarve é mais Algarve aquém e além agosto! ………….. 133 «Programações Musicais» a pedido ……………………………… 135

5


PAULO CUNHA

Reflexos da educação… ou da falta dela! …….….……………. 137 Nos emigrantes vi o vigésimo quarto jogador da Seleção Portuguesa de Futebol! ….….….….…… 139 Na praia somos (quase) todos iguais …………………….……… 142 3.ª guerra mundial? ….……………….………….…………….………. 144 Férias das férias ……….….….….….….….………….….….…………. 146 Cidades com Cultura …….…….…….…….…….…….….………….. 148 A Música Portuguesa está bem e recomenda-se! …….….. 150 À margem daquilo que não compreendo, não tolero, nem aceito ………………………………………….…….. 152 Todos os dias são da Música ………………………………………… 154 Algarve + Arte = (+) Turismo …………………………………….….. 157 Inovar? Sim, para humanizar! ………………………………………. 160 Qual crise da meia-idade, qual quê!? ….………………………. 162 De «Zé Cabra» a Maria Leal… ………………………………………. 165 Terá a Cultura que ser elitista? …………………………………….. 168 Só se desilude quem anda iludido! ……………………………….. 171 Procuro consciência cívica! Sabem onde está?... ………….. 174 A vantagem de não ter um «plano B» ………………………….. 177 Há tantas formas de sermos humanos! ……………………….. 180 Que desperdício tanto desperdício! ……………………………… 183 Quando o choque tecnológico nos choca …………………….. 186 O preço de uma vida ……………………………………………………. 188 Façamos do ano novo, bom! ………………………………………… 191 Lavoura musical ………………………..…………………………………. 193 Homenagear a vida, em vida ……………………………………….. 196 Opinião pública e opinião publicada …………………………….. 198 O perigoso regresso à política do «Pão e Circo» …………… 201 Ladrões de tempo ………………………………………………………… 204 E do imaterial se fez matéria ………………………………………… 207 O triângulo «religião - clube - partido» ………………………… 210 Pontes em vez de muros ………………………………………………. 213 Bota-abaixismo ……………………………………………………………. 216 Empreendedorismo a 100 por cento ……………………………. 219

6


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Gosto de Portugal! …………………………………………………………. 221 «Gostos» à parte ……………………………………………………………. 223 Quanto vale um professor? ……………………………………………. 226 Liberdade, quem a tem chama-lhe sua… ……………………….. 229 Qual é o sexo do amor? …………………………………………………. 232 De Bolsa em Bolsa, até quando? …………….……….…………….. 235 Generalizações sexistas …………………………………………………. 238 Canções há muitas… ………………………………………………………. 241 O sentido da vida …………………………………………………………… 244 Quero (apenas) ser feliz! ……………………………………………….. 247 À Terra, eternos devedores …………………………………………… 250

7


PAULO CUNHA

8


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Paulo Cunha: Sensibilidade e Bom Gosto Há pessoas que nos esmagam com o seu profissionalismo – são os perfeccionistas que colocam gosto e devoção em tudo, fazendo de cada jornada uma missão de vontade e amor. Outras há que nos encantam pela forma de ser. Pessoas simples, humildes e ao mesmo tempo elegantes na abordagem das circunstâncias e da gente. Na vida em geral. E depois há ainda um terceiro grupo – os virtuosos – que nos enchem a alma por saberem tantas coisas e por nos fazerem ver que a vida vai muito além das obrigações mundanas e dos bens materiais. De vez em quando, encontramos alguém detentor de uma ou duas destas facetas da vida. Por norma, são pessoas especiais e com as quais gostamos de estar e aprender. Mas raramente, muito raramente, conseguimos ter o privilégio de conhecer alguém que aglutina todas estas virtudes. A mim tocou-me ter esse privilégio a partir do momento em que conheci o Paulo Cunha e me fiz seu amigo. Imediatamente percebi quão sério é na sua profissão (de professor, como eu) que desempenha com empenho e paixão, dando-se aos seus alunos sem remissão. Ele é professor de Educação Musical no Agrupamento de

9


PAULO CUNHA

Escolas João de Deus, ele é membro do Conselho de Administração do Conservatório de Música de Olhão e, em ambas as instituições, é um colega considerado e respeitado. À medida que o fui conhecendo melhor, pude também perceber que do ponto de vista do carácter, no Paulo mora alguém superior. Um homem que se realiza dando de si, sem pedir nada em troca. Sempre em prol do outro. Seja na sua atividade profissional, ou seja na vida em comunidade. E depois vem a música – há sempre música na vida do Paulo. Para além de intérprete virtuoso, ele é também um musicólogo daqueles a quem muito devemos. Sobretudo pelo seu trabalho incansável de levantamento sistemático da música regional, com trabalho expressivo ao nível da etnomusicologia algarvia. Para os que não o conhecem, saibam que por trás daquele sorriso franco, está um professor e investigador de excelência, um humanista como há poucos e um espírito da arte, sensível e livre como todos deveríamos querer ser. Obrigado pelo exemplo, meu amigo Paulo. O Presidente da Câmara Municipal de Faro, Rogério Bacalhau

10


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Paulo Cunha: Um ativista cultural Há responsabilidades que são maiores do que outras. Admito que esta crónica se demonstrou um exercício de escrita de grande dificuldade. Procurei colocar-me do lado do leitor comum e ver o que a escrita do Paulo Cunha nos tem trazido à reflexão. Falar de 101 dias de crónicas, é falar de 101 dias de reflexão e de escrita. O título surgiu no imediato pois é esta a dimensão que mais se relaciona com a nossa atividade. Sem dúvida que a música é a fonte do entusiasmo, mas existe um constante ensejo na escrita do Paulo Cunha para mudar o mundo ou para denunciar as injustiças. As palavras certas denunciam as injustiças sociais sem hesitação, nem receios. Talvez daí venha também o seu poder de sedução de diferentes públicos. O apreço vem de gente diversa: alunos, colegas, agentes culturais, amigos. A vocação educativa e pedagógica está em cada palavra utilizada e é frequente ser a voz escrita do que muitos não querem ler. A educação, a música, o desemprego, a falta de ética, a ausência de valores e a discriminação estão entre o mote de muitas das 101 crónicas, mas também a vida e a sua celebração.

11


PAULO CUNHA

O Paulo é um homem que está associado a muitas dinâmicas cívicas e culturais, na sua vasta experiência estão projetos como a «Música de Pais para Filhos», o Grupo Coral Outras Vozes, o Festival do Órgão de Faro, o grupo musical Vá-de-Viró, o Conservatório de Música de Olhão, o projeto musical e social «Cantar Mais», entre outras. Essa experiência real permite-lhe um contacto diverso e diversificado com muitas realidades que se percebem na sua escrita. O Paulo Cunha é um grande entusiasta da educação e da cultura no Algarve, e a sua participação ativa e ativista é um benefício para todos nós. Tendo consciência da relevância destas palavras, espero ter sido fiel ao sentimento e ao pensamento. Muitas felicitações por estas 101 crónicas e que este exercício cultural permaneça com os seus bons frutos por muitos mais. A Diretora Regional de Cultura do Algarve, Alexandra Rodrigues Gonçalves

12


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Paulo Cunha: Um Homem que cultiva o nosso jardim! Quando o Daniel Pina me convidou para escrever umas palavras sobre Paulo Cunha, nesta publicação que reúne as 101 crónicas escritas para o «Algarve Informativo», foi com imensa alegria que aceitei. Paulo Cunha é, para mim, «um homem que cultiva o seu jardim» – como diria Jorge Luís Borges - com um sorriso amigo e privilegiando a amizade e o contributo implicado e cidadão para a construção de uma sociedade de valores. Caso pretendêssemos fazer a história da música, da educação musical, do associativismo e da cultura no Algarve teríamos de passar inevitavelmente pelo nome de Paulo Cunha. Quero, contudo, enfatizar para além do profissional (professor, músico) o Homem, a pessoa que nos brinda com a sua sabedoria, dedicação, amizade, bondade e respeito pelo outro. Num exercício de memória, não consigo precisar quando conheci o Paulo Cunha, ou como, desde que a minha filha foi sua aluna, o gostamos de tratar carinhosamente: o «professor» Paulo Cunha; um verdadeiro pedagogo que marca quem com ele tem o privilégio de aprender. Mas sei bem que, quando aceitei o desafio da Direção Regional de Cultura do Algarve, foi uma das primeiras pessoas que pensei para conversar, para ouvir e para convidar a participar nas sessões públicas destinadas à construção do Plano Estratégico de Cultura para o Algarve, tendo participado numa das sessões «Quintas

13


PAULO CUNHA

de Cultura», «A criação cultural no Algarve», no painel «Criar Sons», tendo escrito o artigo «Criar Sons no Algarve». Contudo, consigo recuar no tempo e pelas veredas da memória lembrar-me de ouvir falar e de me cruzar com Paulo Cunha nos tempos de Liceu (atual Escola Secundária João de Deus), mas só quando regressei ao Algarve para trabalhar, depois dos anos de universidade em Coimbra, é que tive o privilégio de conhecer o Paulo Cunha (há vinte anos!) e de ter a sorte de ir acompanhando os seus projetos: «Vá-de-Viró», Associação Música XXI onde foi um dos fundadores e é o sócio número 1, coral feminino «Outras Vozes», o Conservatório de Música de Olhão (um dos bons exemplos na região), ou o projeto pioneiro e inovador na região de «Música para Bebés». Quero, ainda, referir o exemplar trabalho de excelência e dedicação que realiza com as turmas de surdos do Agrupamento de Escolas João de Deus, entre tantos outros projetos. Mas, acima de tudo, falar de Paulo Cunha é falar de sabedoria, simplicidade, dedicação e trabalho em rede, de acreditar que juntos conseguimos ir mais longe. Paulo Cunha é, para muitos de nós, uma fonte inesgotável de inspiração, um exemplo a seguir, daquelas pessoas que enriquecem quem com elas se cruza assim como a região que escolheram para viver. Ao longo destas 101 crónicas fomos conhecendo melhor Paulo Cunha e o seu pensamento, o seu olhar atento ao Mundo, a sua forma acutilante de escrever e de estar. Muitas vezes perturbador, sem medo de nos colocar a pensar, a ver para além da aparência. Crónicas de vida, de quem está atento ao mundo e ao outro, crónicas com pessoas dentro, crónicas plurais de quem não está espartilhado por preconceitos. Venham mais 101! A Comissária do Programa «365 Algarve», Dália Paulo

14


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

15


PAULO CUNHA

16


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

O Algarve é (sempre) notícia! O telemóvel tocou… No outro lado, depois de se apresentar, o interlocutor de imediato perguntou se me recordava da última vez que me tinha entrevistado. De apelido Pina e Daniel de seu nome próprio, logo dele me recordei pela sua amabilidade no trato e saber na função. Prontamente se encarregou de me explicar o seu novo sonho que, em forma de projeto informativo, começou há pouco tempo a dar os primeiros passos. Acompanhando numa rede social alguns dos meus «desabafos opinativos», desafiou-me a embarcar na sua «carruagem informativa» que, já em marcha, pretende chegar longe e a muitos destinos. Efetivamente, há quem chateie o parceiro do lado, há quem fale sozinho, há quem assobiei para o lado e até há quem queime calorias e gaste energias para, de tão cansado, chegar a casa e não ter ação para pensar no quer que seja. Pois… cá por estes lados tento comungar e partilhar ideias e pensamentos em forma da exorcização de alguns engulhos diários. Ora o que é um facto é que, de desabafos em desabafos e constatações em constatações, algumas ideias que expresso merecem a atenção e o reconhecimento de pessoas que, como eu, exercem no seu dia-a-dia uma forma de estar ativa e interventiva. Gente que faz acontecer… Gente que, tal como o Daniel, quer mostrar que o Algarve está vivo, recomenda-se, e isso é notícia!

17


PAULO CUNHA

Poder colaborar num projeto que se quer ganhador é sempre um desafio, pois obriga a atrair e a conquistar através do conteúdo da escrita, da imagem, da fotografia, da reportagem, da pesquisa, do grafismo, do lettering… enfim, duma multiplicidade de fatores que, com diminutos e parcos orçamentos, constitui um desafio constante. Mostrar e partilhar a opinião de quem vive nesta «ilha» criada pela existência de um Alentejo de permeio não é um dever, é um imperativo, pois só juntos nas ideias e nos ideais poderemos fazer valer as nossas reivindicações e anseios enquanto região diferente na identidade mas igual nas características que nos tornam devedores de um tratamento igualitário face aos nossos pátrios concidadãos. Depois de folhear digitalmente e ler a segunda edição da newsletter do «Algarve Informativo» fiquei com a nítida sensação que este poderá vir a ser um projeto com «pernas para andar» nos vários formatos de edição possíveis. Assim seja, pois é na adversidade e contrariedade das muitas «crises» que se reconhece o espírito lutador, empreendedor e ganhador. Felizmente tenho constatado que muitos algarvios, ao contrário do que alguns pensam, não adormeceram à sombra da bananeira a maldizer a sua sorte. É com estes que o Algarve se faz no dia-a-dia. Portanto: que o vosso seja também o nosso êxito! 11 de abril de 2015

18


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

(in)Formação de Públicos? Reza a história que, na altura em que decorreu a segunda guerra mundial, houve quem quisesse forçar Winston Churchill a cortar na despesa a orçamentar, reduzindo o apoio às artes para que, assim, houvesse mais dinheiro para o esforço de guerra. Ao qual Churchill respondeu: “Se fizermos isso, então estamos em guerra para defender o quê?”. Não estando em guerra aberta, nem declarada contra nenhum inimigo visível ou aparente, lutamos diariamente contra a mãe de todas as pequenas crises quotidianas, a Crise que, por estarmos reféns de um passado demasiado pesado, doloroso e penoso, nos impede de projetar um futuro condigno e duradouro. Um passado que tolda e inibe a capacidade criativa e mobilizadora de todos aqueles que, por omissão, demissão e ignorância, continuam a depositar o seu destino em quem não tem capacidade para o gerir. Esses mesmos que não hesitam em cortar a eito em tudo o que, a espaços temporais, já foi feito. E as velhas desculpas demagógicas são, invariavelmente, sempre as mesmas: “Estamos reféns da atual conjuntura económico-financeira”; “Primeiro alimenta-se o estômago, depois o espírito!”; “Custa-nos muito, mas temos que fazer opções políticas”. Depois, tapando o sol com a peneira, vão-se criando comissões de estudo e de análise para que se afira o impacto das referidas medidas, como se não fosse possível, antecipadamente, adivinhar as consequências nefastas da política de terra queimada no investimento cultural deste país.

19


PAULO CUNHA

Atente-se naquilo que os programadores culturais tanto gostam de falar como sendo prioritário no desempenho dos seus mandatos: a formação de públicos. Será que na sua formação enquanto tal aprenderam que os públicos se formam em paralelo com a sua formação enquanto seres cívicos, humanistas e consciencializados?… De berço, como em tudo na vida?! Sei do que falo, e falo com propriedade, pois como pai sei que, seja onde for, as artes têm público nos meus filhos. Sei também que o investimento realizado durante os dez anos em que, conjuntamente com companheiros músicos e professores, levei vários instrumentos e géneros musicais a grande parte das crianças algarvias, está agora a dar os seus frutos nas escolas de música, academias, bandas filarmónicas, agremiações culturais e auditórios algarvios. Uma pessoa fidelizada à cultura é-o em qualquer parte do mundo. Isso sim, é formação de púbicos. Experimentem observar os estrangeiros residentes e os turistas que enchem os nossos espaços culturais mesmo, por vezes, não sabendo ao que vão. Vão porque precisam e querem cultura! Está-lhes no sangue porque cresceram com ela. Por favor, não confundamos programação a gosto, divulgação e informação de eventos culturais com formação de públicos. Nada mais errado! 18 de abril de 2015

20


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Comer dentro da gaveta Antes que me «cruxifiquem» depois de ler as lembranças, constatações e considerações que aqui vou partilhar, deixo bem presente que sou algarvio, filho de uma algarvia e de um beirão que para cá migrou. Lembro-me da primeira vez que ouvi comentar que os “Algarvios comem dentro da gaveta”, termo que um aluno de Vila Real de Santo António, há cerca de trinta anos no Conservatório Regional do Algarve, me explicou ser usado no sotavento algarvio para caracterizar depreciativamente os algarvios na forma de partilhar o que é seu. Na altura acreditei, mas hoje sei que em termos históricos, tal não corresponde à verdade, pois o termo deriva do tempo em que o comércio não fechava à hora do almoço, e assim o comerciante comia dentro da gaveta para que quando chegasse um cliente o pudesse, de imediato, atender. Bastava fechála… Mas o termo ficou por cá a «bater», pois fruto do contacto e sociabilização com tantos amigos que escolheram o Algarve para residir, por experiência própria e observando os usos e costumes de algumas populações citadinas com que privei ao longo deste meio século de vida, constatei alguma falta de reciprocidade no que à partilha e ao dar do que é seu diz respeito. Convivendo com amigos de outras etnias e proveniências geográficas e regionais, constatei que o seu chão é o nosso chão, mas - dito por eles - o nosso chão não é o seu chão. É verdade!... Quantas vezes abri e escancarei as minhas portas e janelas aos meus colegas, a companheiros de lides várias e até a alguns amigos e o contrário raramente aconteceu?! Gente que se contacta no dia-a-dia mas não partilha o seu lar, a sua família, o

21


PAULO CUNHA

seu ser para além do seu trabalho, de uma rua da sua cidade ou de um Café de bairro. Sempre questionei a razão pela qual certas cidades algarvias têm tantos cafés, bares e restaurantes, alguns na mesma rua… Com o tempo percebi a razão: são a sala de estar de grande parte das famílias algarvias. Obviamente, receber em casa é abrir o nosso espaço aos outros, é expor a nossa vida real, é gastar para oferecer, é continuar a trabalhar depois dos convidados saírem, enfim… é dar! Infelizmente, esta é uma região em que o turismo caracteriza o preço da oferta; os convites são efetuados em grupo para depois serem cobrados individualmente; o parecer é mais importante que o ser. E assim, através da reciprocidade (ou falta dela), se afere muito das características de um povo! Dizia-me um amigo que, regressado de África, para cá veio viver depois do 25 de abril: - Os meus pais levaram anos a convidar e a receber colegas de trabalho, vizinhos e novos amigos e, volvido esse tempo, nunca chegaram a conhecer as casas dos seus convidados e convivas. Um dia cansaram-se… Conheceram, finalmente, uma das características de alguns algarvios. Confesso, também a mim isso sempre me fez «espécie». Talvez por isso no ano passado, depois de uma convocatória para uma Assembleia Geral de Condomínio marcada para o exíguo hall de entrada do meu prédio, eu, à revelia da minha família, coloquei a nossa casa à disposição das trinta frações representadas para que a reunião tivesse a dignidade e representatividade exigidas. Apareceu apenas um quarto dos condóminos convocados e assim, felizmente, menos tive que ouvir cá em casa pela minha forma de estar na vida… Coisas de um algarvio que gosta de partilhar! 23 de abril de 2015

22


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Os primeiros 15 anos Sinto algum pudor e até o «seu quê» de relutância em escrever este «público desabafo», pois sinto estar a advogar em causa própria, mas… muito provavelmente, se não for eu a fazê-lo, ninguém o fará! Poderá não ser informação ou notícia que mereça destaque ou partilha mas, para mim e para outros tantos como eu, ver o sonho tornado realidade e, volvidos quinze anos, merecer reconhecimento dos pares e das instituições parceiras deixa-me, sem qualquer margem para dúvidas, orgulhoso e reconhecido. Quando, ainda nos últimos meses do século passado, no escritório do meu amigo Mário Silva em S. Brás de Alportel, com ele congeminava a criação de uma nova associação cultural, suficientemente abrangente e eclética relativamente às várias vertentes artísticas, aos múltiplos gostos e influências culturais, às diversas faixas etárias, às muitas proveniências regionais e às variadas parcerias institucionais, jamais imaginaria que a «Associação Cultural Música XXI» nos «tocasse», algarvios, como tocou. A grande maioria não a conhece pelo nome, nem dela alguma vez ouviu falar mas, por certo, já assistiu ou participou nalguma iniciativa por ela produzida ou realizada. A título de exemplo refiro a edição de múltiplas edições literárias e discográficas, a realização da «Música de Pais para Filhos» em várias cidades algarvias, a produção da exposição fotográfica «World Press Photo» em Portimão, a realização do «Festival de Órgão» em Faro, entre muitas outras que seria fastidioso e descabido aqui enumerar.

23


PAULO CUNHA

Estive dez anos à frente da direção da dita e, chegada a altura, saí pelo meu próprio pé deixando-a, aparentemente, com saúde financeira suficiente e bastante para continuar na senda do investimento cultural a que de início se propôs. Mas… refém dos muitos créditos por receber de várias autarquias parceiras em produções e iniciativas conjuntas, tem vido a sentir nos últimos anos a crise que atacou, também, o livre associativismo em Portugal. Como muitas outras associações por este Algarve fora, este coletivo existe fruto da dedicação de uma mão cheia de carolas que, apaixonada e abnegadamente, dá do seu tempo, da sua família e da sua realização pessoal para fazer e ver acontecer aquilo que acredita ser o melhor para o enriquecimento cultural da região em que vive: o «seu» Algarve. Aquilo que nela me dá mais motivos de orgulho são - e continuarão a ser - os associados que dela fazem uma verdadeira associação. Não são tantos como eu gostaria e desejaria, pois acredito nas associações feitas por pessoas e não por profissionais do associativismo, mas são os suficientes para que quando com eles reúno na qualidade de presidente da sua Assembleia Geral, perceba o ânimo, o empenho, o agrado e a alegria com que, usando a «Música XXI», tentam dar o ênfase, a preponderância, a relevância e a dignidade de que a arte é credora e merecedora, especialmente, a sul. Saber que o legado nasceu e foi construído assente em princípios de honestidade, integridade, respeitabilidade, perseverança, dedicação e trabalho dá a todos que fizeram a sua história, de muitas estórias feita, um lugar na história. Para quem tem e preserva a memória! 1 de maio de 2015

24


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Qual o custo/preço de um Músico? Circula nas redes sociais um «post» onde um Músico responde a um empresário que procurava animação musical gratuita para o seu restaurante a troco de promoção e possibilidade de vender os CD de quem lá fosse tocar, resposta dada com tal requinte, inteligência e clarividência que mereceu a minha melhor atenção, agrado e concordância. Consta que relata uma situação realmente ocorrida. Como tal, vou aproveitar este espaço para o partilhar convosco: - "Somos um restaurante pequeno e causal no centro da cidade e estamos à procura de músicos para cá tocarem de graça, podendo assim promover a sua música e vender os seus CD. Este não será um emprego diário. Será para eventos especiais que, eventualmente, poder-se-ão tornar diários logo que a resposta do público se torne positiva. Preferimos que toquem Jazz, Rock e outros ritmos mais leves, de todo o mundo e de várias culturas. Está interessado em promover o seu trabalho? Então comunique connosco o mais rápido possível" – ao qual o Músico respondeu: "Feliz Ano Novo! Eu sou um músico com uma casa grande à procura de um dono de restaurante que venha à minha casa promover o seu restaurante, fazendo comida de graça para mim e para os meus amigos. Isto não acontecerá diariamente mas, em princípio, em eventos especiais, os quais poderão eventualmente aumentar e tornarem-se algo grande e diário se a resposta for positiva. Preferimos carne de primeira e refeições exóticas e culturais. Está interessado em promover seu restaurante? Então comunique connosco urgentemente !!!".

25


PAULO CUNHA

É um facto, grande parte dos portugueses olha para um Músico como alguém que serve unicamente para entreter (entertainer), seja qual for a situação, o lugar ou a ocasião. Se não vejamos: vai um Músico lá a casa ou a um encontro público e, invariavelmente, pedem-lhe para animar o «pessoal», pois já que é músico… obviamente não o fazem com os outros profissionais, seja qual for o ramo; há uma angariação de fundos, um concerto de solidariedade, um movimento humanitário, um evento comemorativo, e lá estão os Músicos a «alinhar»… gratuitamente, obviamente; vão tocar a um bar, a um «pub» ou a um restaurante e, muito naturalmente, grande parte das pessoas prestam-lhes a mesma atenção que à música que sai das colunas ligadas a um leitor de CD… nenhuma! É este o preço de um Músico em Portugal, o preço da indiferença, do abandono, do descrédito e da subestimação. E qual foi o custo de formação deste Músico, hoje votado à pública ostracização? Independentemente do género ou estilo musical, todos eles, às expensas das suas famílias e de si próprios, custearam mais de uma dezena de anos no ensino privado, desde tenra idade, paralelamente ao ensino genérico, longe de casa e da família e com grande força de vontade, determinação e abnegação. Houvesse alguém que se atravesse a contabilizar o investimento na formação de um Músico e ficaria, por certo, de «boca - mais do que – aberta» perante a enorme, disparatada e violenta disparidade entre a relação no custo da formação de um Músico e o preço com que o mesmo se «vende» para ganhar a vida. Não, nada que um Músico venha a ganhar será de mais… Apenas a ignorância que sobre eles recai! 9 de maio de 2015

26


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Tal pai, tal filho… ou será o contrário? Já alguma vez vos aconteceu sentirem-se envergonhados por causa de comportamentos alheios? É uma reação básica e estranha, uma vez que não somos nós os responsáveis pelo ato que a causou mas, pelo inesperado, estranheza e consequência do mesmo, instala-se um mau estar em quem o assiste. Foi o que me aconteceu na minha última deslocação ao Teatro Lethes (Faro) para assistir à última produção teatral da «ACTA». Numa tarde já um pouco encalorada e com meia casa composta, maioritariamente, por um público sénior, tive a receber-me à entrada o encenador/ator Luís Vicente, o que revela a relação de proximidade desejada por esta Companhia de Teatro sediada no Algarve. Pequenos gestos que tornam grande a relação entre o público e os artistas! Começando por endereçar uma comunicação/solicitação ao público presente, o diretor da Companhia terminou a sua alocução pedindo, eloquentemente, que o mesmo desligasse ou colocasse os seus telemóveis em silêncio, por forma a não incomodar o desenrolar da apresentação da peça. Sendo «À espera de Godot» uma das obras icónicas de Samuel Beckett e, neste caso, cuidadosa e meticulosamente recriada, encenada e interpretada por atores «de mão cheia», toda a atenção a lhe ser dispensada seria bem-vinda e desejável. Mas tal não aconteceu… Ainda a primeira parte estava a decorrer e já – recorrentemente – diálogos e comentários de dois espetadores se

27


PAULO CUNHA

sobrepunham à representação, como se num desafio de futebol se encontrassem. O meu mal-estar, a desconcentração, a desconcertação e o incómodo aumentavam à medida que o tempo passava… Eis senão quando um outro espetador sénior, atrás de mim, resolveu ligar o seu telemóvel/tablet, iluminando aquele setor da plateia. Assim se manteve mais de dez minutos, até que a aplicação em que navegava (google maps) resolveu começar a debitar em «alta-voz» o caminho pesquisado tão insistentemente para não sei onde… A sala gelou!... Imediatamente, o encenador, também em palco na qualidade de ator, resolveu interromper a representação pedindo para ligarem as luzes. O que depois se passou coíbo-me de aqui relatar, pois até ameaças por parte do espetador infrator, desavergonhado e despeitado, houve. Foi indigno, vexatório e atentatório contra a dignidade, integridade e profissionalismo dos atores, e de uma falta de respeito para com todos os que, como eu, pagaram o seu bilhete para sermos transportados a outra realidade que não aquela que nos acompanhou até ao fim da digna e brilhante representação. Já fora do Teatro fiz a analogia do que se passou com aquilo que conheço e constato no dia-a-dia das escolas portuguesas: interrupções constantes e falta de atenção e respeito pelo que os professores dizem; uso de aparelhos com multifunções enquanto decorrem as aulas; afronta ao papel, dignidade e autoridade do professor. Tal e qual o que assisti, impávido e nada sereno, numa sala de espetáculos da capital do Algarve, onde seniores me/nos mostraram o porquê e a razão dos mesmos comportamentos por parte dos seus juniores. Nada acontece por acaso… Isto de acusar os jovens de comportamentos indevidos e incorretos tem mais e muito que se lhe diga, porque neste e noutros casos a culpa não morre, definitivamente, solteira! 13 de maio de 2015

28


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Privatize-se Portugal! “A troika assim o exigiu e só nos resta cumprir!”, “Estava no programa eleitoral!”, “Se não o fizermos, teremos que restruturar as empresas e provavelmente seremos obrigados a proceder a «cortes» e despedimentos!”, são as frases feitas de gente que, com frases feitas, convenceu uns quantos, suficientes, que deram a maioria a um governo que - legitimamente - pode fazer o que quiser… à custa de quem não votou, e assim legitimou uma confortável aliança maioritária na Assembleia da Republica. Sou daqueles que não aliena o que é seu apenas por «dá cá aquela palha» ou por um caso de necessidade, mas resolúvel, pois sabe que no futuro poderá ser uma mais-valia. Primeiro tento esgotar todas as possibilidades, hipóteses e soluções possíveis. Sendo um «muito pequenino» administrador, sei que, quando o comando é débil e impreparado, mudando-o, os comandados, naturalmente, trabalharão bem melhor. Sei que a «Máquina do Estado» é atreita a vícios e manhas, mas também sei que tudo tem solução quando quem tutela os vários tentáculos estatais assim o quer (e sabe). Sei que há sempre solução quando a inevitabilidade não é a morte, mas o que atualmente registo é a morte declarada de símbolos e fontes de receita para o erário público português. Portugal não é apenas território, Portugal é essencialmente quem nele vive e o faz viver. Não se pode ver o património público português como um fardo ou um empecilho, mas sim como uma fonte de receita através dos portugueses que dele tratam, cuidam, protegem, garantem, trabalham e financiam. Coloquem nas

29


PAULO CUNHA

administrações das empresas públicas pessoas meritocraticamente preparadas e ideologicamente isentas e verão se será necessário, mais uma vez, vender a retalho parte das verdadeiras fontes geradoras de riqueza do país. Com tantas reservas em ouro, ninguém nelas ousa tocar ou falar, mas poucos questionam a venda ao desbarato das «galinhas dos ovos de ouro» que alguns se preparam para, muito brevemente, alimentar no seu «quintal». Recuso-me a acreditar que os mesmos gestores que operam milagres no setor privado não tenham capacidade de o fazer no setor público. Muito menos que o motivo seja unicamente a diferença no salário que auferem. Parece que, à medida que o tempo passa, tudo o que é «nosso» está inevitavelmente condenado a ser um fracasso, a dar prejuízo, a ser um «peso morto» e uma fonte de problemas. Começo a estar farto das inevitabilidades com que certos iluminados que usam os partidos políticos para se «orientarem» me tentam impingir para justificar o que para mim é injustificável. Sei que alguns pensam como eu e isso acalenta-me a esperança de continuar a viver em solo português (em Portugal). Vamos ver até quando?… 22 de maio de 2015

30


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

A marca «Algarve Musical» Em 2013, fruto de um ciclo de conferências promovido pela Universidade do Algarve e pela Direção Regional de Cultura do Algarve, denominado «Quintas de Cultura», foram editados em livro uma série de textos que daí resultaram. Não tendo nestes dois anos alterado uma vírgula ao que então pensava, aqui transcrevo o último parágrafo da minha participação na referida publicação. Vindo de quem vem vale o que vale, mas é esse o meu desejo para um Algarve mais cultural no qua à Música diz respeito: - “É altura de parar para pensar e confirmar a importância que as associações e coletividades algarvias não profissionais nem profissionalizantes ligadas à Música sempre tiveram e que, na atual conjuntura, está ser notória e fulcral. No atual panorama musical, são elas o garante na produção e realização musical efetiva no nosso diaa-dia. Mas será preciso chegar a estes extremos para os responsáveis institucionais e decisores políticos entenderem que elas sempre existiram e que, apesar de toda a sua intrínseca e voluntariosa riqueza musical, raras vezes foram merecedoras da devida e merecida atenção? São elas que, hoje, no Algarve real, através dos seus associados, colaboradores e diretores, idealizam, promovem, produzem, realizam, gravam, concretizam… Música! Chegámos ao momento em que é preciso dar o salto, pois, fruto das circunstâncias, nada será como dantes. Será um erro crasso, com consequências irreparáveis para as gerações que nos sucederão, ser conivente e deixar - outra vez - os agentes musicais algarvios serem marginalizados, subalternizados, vilipendiados, preteridos e esquecidos.

31


PAULO CUNHA

Para que isso não aconteça, é preciso que todos os que estão profissionalmente ligados à Música se consciencializem que a Música feita no Algarve só será devidamente respeitada e creditada quando todos eles a assumirem e considerarem como una, sem compartimentações preconceituosas. É necessário afirmar a atividade musical através da criação de estruturas profissionais onde todos os que pela sua exigência, dedicação, profissionalismo, qualidade e mérito possam constituir-se como um núcleo gerador de oportunidades criativas, interpretativas e performativas. Só assim poderemos, de uma vez por todas, tentar que a marca «Algarve Musical» se constitua como mais uma fonte de divulgação e rentabilização da nossa região. A bem da Música e do Algarve, criemos sons com outros tons”. 29 de maio de 2015

32


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Deficientes?... Adjetiva-se alguém que apresenta deformação física ou insuficiência de uma função física ou mental como deficiente. Pois… entendo, mas cada vez mais concordo menos com esta definição. É que ao longo dos meus trinta e três anos de docência tenho vindo a aprender com os ditos «deficientes» o que é efetivamente a deficiência. Passo a explicar: com cerca de vinte e poucos anos de idade aceitei lecionar as disciplinas de «Piano» e «Formação Musical» a uma aluna cega. Obviamente a formação e preparação de base para tal foi «zero». Valendo-me de algum altruísmo, do desejo de arriscar, da vontade de partilhar, do anseio de aprender e de querer ser solidário, avancei com tal desiderato… Trabalhei com a dita aluna para que prosseguisse estudos e hoje, com satisfação inaudita e enorme orgulho, vejo-a na qualidade de professora habilitada para lecionar várias «cadeiras» ligadas ao ensino da Música, além de ser uma ótima cantora e pianista de jazz. O tempo entretanto passou e eis que, há quinze anos, me «bateu à porta» outro convite improvável, o de acolher uma turma de alunos surdos no seio da aprendizagem musical. Se no início da carreira letiva o desafio me pareceu inegável, volvidos alguns anos, e estando intelectualmente mais maduro, resolvi pedir uns dias para refletir, informar-me e aconselhar-me, pois, mais uma vez, repetia-se a «cena» - formação e preparação de base para tal, «zero». E a história voltou a repetir-se… mais uma vez aceitei. E em boa hora o fiz!

33


PAULO CUNHA

Quinze anos volvidos em contacto com o mundo do silêncio e o resultado é encontrar-me hoje muito mais rico musical, intelecto e afetivamente. Foram várias turmas de gente que me ensinou muito mais do que eu me propus e lhes consegui ensinar. Inquestionavelmente! Daí a dificuldade em conceber e aceitar estes alunos como sendo deficientes, pois à declarada e assumida insuficiência e incapacidade de ouvir contrapõe-se a notória capacidade para igualar, e até superar, os ouvintes no que lhes é solicitado musicalmente. A forma como sentem as vibrações e nelas ouvem o que a natureza lhes roubou é comparável ao que os dedos da aluna cega viam ao tocar nas teclas do piano. Fui bafejado por esta graça que me tocou em vida, a de poder conhecer (e reconhecer) na falta de um ou mais sentidos, a superioridade de muitos na luta e superação constante contra a indiferença e o estigma de quem, não sabendo, não conhecendo e não querendo, tantas vezes os ostraciza. São concidadãos que merecem todo o nosso apoio, atenção e estima e não as costumeiras «caridadezinhas» para eleitor ver e logo a seguir esquecer. Por isso, muitas vezes - em tom brincalhão e com alguma provocação à mistura - digo que prefiro lecionar aos «deficientes declarados» do que aos «deficientes não declarados». Sim, porque considero mais deficiente aquele que pode e não faz do que aquele que não pode e faz! Para bons entendedores… 6 de junho de 2015

34


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Os nossos «pontos de restauro» É vulgar escutar o chavão/bordão «No meu tempo é que era bom!» proferido por gente que já viveu bastante tempo… mas não necessariamente bastante. Referem-se, por certo, ao tempo da sua juventude. Altura da vida em que os sonhos se encontram à mão de semear, os desejos a um passo de se concretizar, a esperança voa na constância dos dias e a amizade não tem prazo, objetivo, nem destino. Um tempo em que há tempo para desfrutar todo o tempo que a vida nos concede. Um tempo onde os momentos nos marcam de tal forma que nos criam uma âncora temporal e um azimute vivencial. Entretanto, o tempo passa e com ele se perde, inapelavelmente, a disponibilidade para aproveitar o que o novo tempo nos oferece: a possibilidade de todos os dias criar memórias que nos possibilitem não perder tempo a falar de um tempo já passado. A voracidade dos dias torna fugazes e voláteis momentos carregados de substância, criando-nos a ilusão, à medida que os anos passam, que foi ainda ontem que vivemos o ano passado, tal a rapidez com que dias iguais se atropelam uns a seguir aos outros. Quantas vezes damos conta que momentos e situações verdadeiramente importantes nos batem à porta e nós, não sabendo e/ou não querendo, não os deixamos entrar? Daí aquela sensação de perda e de saudade constante de um tempo em que fomos, efetivamente, felizes… Um tempo que já não voltará atrás, porque para trás ficou a disponibilidade da juventude que o marcou!

35


PAULO CUNHA

Na maioria dos casos fomos erguendo muros profissionais, sociais e familiares que nos acomodaram à modorra dos dias, aprisionandonos e espartilhando a possibilidade de ir criando um novo tempo: o tempo do agora! Um tempo em que as recordações sejam de tal forma constantes e em número suficiente que, tal como com um computador, a elas possamos recorrer sempre que os «vírus» diários nos entrem na nossa «memória operativa» e nos mandem «a baixo». Hoje já é possível atrasar o envelhecimento corporal e mental, mas não o é impedi-lo. Irremediavelmente a isso estamos condenados! Permitir que a mente flua e nos faça transcender para lá das amarras ao passado poderá ser, indubitavelmente, uma forma de envelhecer jovialmente. Basta para isso dar tempo ao tempo que ainda nos resta para continuar a criar «pontos de restauro». Os nossos «utilizadores» agradecerão! 13 de junho de 2015

36


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

“Lá em casa quem manda é ela!” Não consigo deixar de sorrir e «pensar com os meus botões» quando oiço algumas expressões (com o seu quê de idiossincrasia, na ótica de quem as profere) tão queridas de certos géneros e faixas etárias para justificar uma forma de estar e agir em família e em sociedade. É comum, numa roda de amigos mais velhos, ouvir alguns homens dizer, orgulhosa e altivamente, que “Lá em casa quem manda é ela!”, parecendo que, com esta afirmação, manifestam publicamente a sua partilha de poderes face ao contexto familiar em que estão inseridos. Querendo parecer ser detentores de grande condescendência e bonomia, anuem em subentender uma curiosa partilha de poderes: “Tu mandas lá em casa, eu mando no resto!”. Espremendo esta afirmação, facilmente damos conta que o sumo obtido não corresponde à fruta que nos querem vender. No fundo, a mensagem que passa cá para fora, e que qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe à primeira, é a desresponsabilização e não assunção das incumbências ligadas às tarefas domésticas, à educação e apoio aos filhos e à gestão do orçamento caseiro e familiar por parte de quem profere tais dislates... São tarefas domésticas que foram herdadas, em parte por obrigação, por mulheres que saíram de casa para casar com «filhos

37


PAULO CUNHA

de certas mamãs», formatados numa educação assente e inspirada nos exemplos vivenciados e inculcados em ambiente familiar. Educação de tal modo enraizada em determinados extratos sociais e culturais portugueses, que faz com que sejam as próprias mulheres a defender a não participação e ajuda dos seus maridos e filhos nas lidas da casa. Dir-me-ão que hoje já não é assim, que isso é coisa dos tempos da «outra senhora». Em parte, acredito que sim… que seja um fenómeno que se tenha vindo a desvanecer e diluir na falta de tempo doméstico, efetivo e útil, provocada pelos deveres profissionais do casal. Mas, em verdade também vos digo que cada casa é um mundo, e há «mundos» de gente jovem que me surpreende pela cabotinice dos seus atos entre as quatro paredes. Perante afirmações do género: “Isso são assuntos de mulher… Não se fala mais disso! Querem lá ver… Eu que até despejo o lixo todos os dias!?...” – só me ocorre dizer a esses homens: “Libertem-se, o lixo está na vossa cabeça!”. 19 de junho de 2015

38


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Faro Capital Nacional da Cultura 2005 – 10 anos depois… Finda a estrutura de Missão «Faro Capital Nacional da Cultura 2005», a minha amiga Ana Oliveira fez-me, em jeito de balanço, três perguntas, às quais respondi sucintamente na qualidade de exconselheiro cultural da referida estrutura e, na altura, presidente da direção da Associação Cultural Música XXI. Não sei se as respostas foram publicadas ou não na imprensa. Pouco importa, já é história…! Assim sendo, faça-se história com as mesmas perguntas e as mesmas respostas dadas há nove anos: 1 – Considera que FCNC cumpriu os seus objetivos, na medida em que se propunha ser um evento estruturante para a região, em termos de mudanças de hábitos culturais? Conseguiu, com alguns eventos mais mediáticos que realizou, mostrar aos autarcas da região que eventos culturais também servem para «vender» as suas localidades. Tenho vindo a constatar que o modelo de programação que foi então levado à prática (principalmente na vertente musical) é aquele que neste momento mais é aplicado pelas várias autarquias da região: programar em função do gosto vigente, baseado na escolha «à la carte» das propostas existentes nos múltiplos catálogos culturais que por cá proliferam. A falta de estruturação atempada da programação e o favorecimento de uma programação centralizada em detrimento das propostas dos agentes culturais da região foram as principais causas para que a FCNC tenha deixado poucas raízes no tecido cultural algarvio. Teriam sido as forças culturais da região, atuantes, conhecedoras da realidade local e independentes do poder que,

39


PAULO CUNHA

através dos seus projetos, poderiam ter alargado a oferta com iniciativas estruturantes na contínua formação de públicos. Pensadas, estruturadas e realizadas por gente do sul, provavelmente, essas iniciativas seriam hoje uma marca cultural da região… 2 – De que forma a Música XXI participou em FCNC? Participou na elaboração duma série de projetos que foram entregues, em devido tempo, aos seus programadores, não tendo nenhum deles merecido qualquer atenção e apoio. Participou também «cedendo» o seu presidente para integrar o Conselho Consultivo da FCNC, facto que não surtiu qualquer efeito prático na programação da FCNC. A única colaboração foi a colagem da FCNC a uma produção nossa, já implementada e com assinalável êxito: a exposição «World Press Photo», realizada em Portimão. 3 – Qual seria o formato ideal de uma capital da cultura? O formato ideal seria a realização de uma capital da cultura completamente independente de interesses políticos (partidários), sem condicionalismos estruturais e conjunturais e onde os programadores olhassem para a cultura como um fim e não um meio. Uma década depois, gostaria de poder, numa roda de amigos, confraternizar, debater e «tertuliar» com o homem que ainda tentou fazer algo para que as minhas queixas não tivessem, ontem e hoje, razão de existir… mas, vítima de contingências várias, então tal não conseguiu. Foi através desta iniciativa que António Rosa Mendes entrou - pela porta grande - na minha vida. Figura central, comissariou como soube e lhe deixaram uma Estrutura de Missão tardiamente estruturada por quem a decretou e financiou. Quis o destino, cruel, levá-lo do mundo dos vivos. Para ele, onde quer que esteja, vai o meu reconhecimento por, mal ou bem, ter tentado dar à nossa capital de distrito, capital importância! 28 de junho de 2015

40


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

“… e já agora: queria pedir-te um favor!” Nunca vos aconteceu olhar para o visor do vosso telemóvel e, identificando quem vos está a telefonar, questionarem-se: “o que será que ele/ela me vai pedir?”… É um facto indesmentível, à medida que os anos vão passando, diminuem os contatos com os outros «apenas» com o intuito de dar, partilhar e conviver. A juventude ficou para trás e com ela a forma desprendida e ingénua de contactar e convidar pelo simples prazer de estar com... Eis senão quando, com a velhice, ressurge a vontade de rever, de procurar, de estar, de partilhar e de mostrar. Já sem a pressão dos dias cheios e ávidos de tarefas e prossecução de objetivos, onde os sorrisos e risos francos andam arredios e o simples prazer de desfrutar da companhia de alguém é quase proibitivo. Outro sintoma desta forma de «consumir» a vida, em vez de vivê-la com e para os outros, é a facilidade com que se chama «amigo» a simples conhecidos, retirando à palavra a sua carga efetiva e afetiva, vulgarizando-a e substituindo emoções por racionalizações. Genuínas e simples ações, como o convidar para um evento, para um jantar em grupo ou para uma festa, trazem, por vezes, uma segunda intenção implícita. Já não falando no despudor, insensatez e falta de vergonha com que se usa a palavra «Convite» para levar os convidados a financiar a atividade para a qual foram convidados. Sou do tempo em que quem convidava, convidava porque podia e queria. Sem mais…

41


PAULO CUNHA

Hoje, os «Convites» têm (quase) todos um preço. O preço para quem os pede, o preço para quem os dá e o preço para quem os aceita. Atente-se nos eventos públicos que são apoiados e financiados com dinheiros de todos nós e para os quais estão sempre reservados lugares para convidados que, de uma forma ou de outra, pagaram ou pagarão o convite a quem os convidou. Num tempo cada vez mais mercantilista e consumista, as trocas de favores têm outro nome e fazem-se de variadíssimas formas. É o tempo que temos, o tempo onde a finança e a política ditam as regras sociais! Observo, nada impávido nem sereno, os comportamentos de gente que transmite às gerações vindouras, procedimentos em que a deturpação e banalização de condutas que garantiam idoneidade, competência, honestidade e amizade, são agora uma constante. Não estou aqui a tentar arvorar-me em moralista, nem defensor acérrimo dos bons costumes. Não é essa a minha intenção, nem o meu estar na vida… de modo algum! Não posso é passar pela vida sem questionar, nem refletir sobre quais foram as razões que levaram os valores que me foram incutidos no seio familiar a ser adulterados pela minha geração. Continuo a achar que não vale tudo para lá chegar… Até porque o «lá» afasta-nos dos de cá, e nada poderá ser pior para quem cá está do que perder a «ligação à terra». Esta Terra de gente feita! 4 de julho de 2015

42


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Algarve todo o ano?... Obviamente! O Verão chegou e com ele, em proporção direta, um turista por algarvio. Será que o vosso já chegou? Se ainda não, habituem-se à ideia: ele vem aí! É claro que não se distribuem de forma uniforme e equitativa pelos belos recantos do «nosso» Algarve, e ainda bem, pois felizmente vem «ao de cima» o espírito gregário e de «rebanho» tão característico do comportamento humano… E como dizia o outro: “Deixai-os vir, que eu sei para onde ir!”. Felizmente esta «ilha» com o Alentejo de premeio é suficientemente grande para fugirmos e nos defendermos de toda a pressão, tensões e stress acumulados que quase todos que nos visitam nesta época querem afogar nas cálidas e transparentes águas da costa algarvia. A questão é que por mais atrativa e apelativa que seja esta região, não é a mesma, por si só, que opera o milagre terapêutico de fazer «recarregar as baterias», a frase preferida proferida por tantos turistas que cá chegam com as «baterias» repletas de energias negativas e, sem darem conta, continuam a carregá-las apenas através do polo negativo, ao mesmo tempo que as distribuem - negativamente - por todos à sua volta. Basta estar atento aos comportamentos dos muitos visitantes que, trazendo consigo o peso de onze meses de trabalho árduo e mal pago, de mágoas, de angústias, de desilusões e de depressões encapotadas, não conseguem, em menos de um mês, despir este fato que lhes cai tão mal num sítio onde: “Quanto menos roupa, melhor”!

43


PAULO CUNHA

Quem cá vive (Algarve) sabe que, querendo e sabendo aproveitar, o Algarve tem outro encanto quando, noutro tempo e noutra altura, o sol continuando a brilhar, o mar continuando calmo e o campo continuando florido nos proporcionam a paz e a serenidade suficientes para vivermos bem connosco e com os que nos rodeiam. Sem concentrações, sem massificações e sem pressões. O outro Algarve que só quem já não está dependente e obrigado pelas contingências laborais e escolares conhece. Esse sim: o verdadeiro Algarve. Entretanto… nestes meses de Verão que venham muitos e que venham por bem! O Algarve, enquanto região, tem no turismo a sua «galinha dos ovos de ouro». Para um país que se habituou a ver sair em vez de entrar, este é um capital precioso. Um capital de todos nós, portugueses. Mas atentai, senhores decisores, diretores, administradores e governantes: quem trata desta joia preciosa é quem cá vive, e se quem cá vive se sente abandonado, subalternizado, enganado e esquecido durante todas as outras estações do ano para que nos meses de Verão seja então canalizada grande parte dos respetivos orçamentos com o único intuito de agradar e fidelizar quem vem de fora, é natural que não goste. Até porque algarvio que se preze é filho de boa gente! Assim sendo: “Bem-vindos caros turistas. Férias à vossa medida e não deixem de aproveitar uma das melhoras características desta região: os algarvios!”. Encontramo-nos então nesta enorme esplanada chamada Algarve! 11 de julho de 2015

44


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Festas e vais… Derivando, naturalmente, da palavra e do significado de festa, festival é tudo aquilo que se pretende num mesmo tempo, espaço e contexto: a celebração e fruição conjunta de algo que, afagando e estimulando os sentidos, nos propicia momentos de fruição, deleite e enriquecimento intelectual. Foi, é, e será uma fórmula que, independentemente das condições económicas e financeiras do país em que os mesmos se realizem, terão, indubitavelmente, êxito, pois as pessoas sabendo ao que vão e, ao mesmo tempo, reconhecendo a elevada quantidade e qualidade das manifestações integradas nesses eventos, sentem-se compelidas a desfrutá-los. É o caso de Portugal que, atravessando uma das piores crises socioeconómicas de sempre, não deixou de ter nos Festivais de todo o género um motivo de escape, alento, conforto e alheamento de todos os problemas de vária índole que nos têm vindo a afligir. Sabendo disso, muitas empresas altamente profissionalizadas têm explorado este filão que constitui a organização de Festivais, apostando na contratação de «estrelas» musicais que constituem êxito assegurado, juntando-lhe «comes e bebes» e outros motivos de entretenimento. Convém referir que todas elas, inteligentemente, «vão à luta» secundadas e fortemente patrocinadas por multinacionais que veem nestes eventos uma forma rápida, direta e eficaz de se publicitarem. Do ponto de vista empresarial é este, sem dúvida, o caminho! Tomando como exemplo o enorme êxito que tem constituído a realização de grandes festivais de música de verão, seria de esperar

45


PAULO CUNHA

que, dos mais de cem - estritamente musicais - que já decorreram e ainda virão a decorrer nesta altura, muitos deles fossem realizados no Algarve… por todos e mais alguns motivos que, por serem tão óbvios, nem aqui os menciono. Agora o que é facto é que esses e outros empresários continuam a não apostar na realização desses festivais no Algarve. Eles lá saberão e eu nem me atrevo a imaginar, nem tentar adivinhar as verdadeiras razões para que tal aconteça. Assim sendo, fica o Algarve, no que concerne a esta programação «à la carte» e de recriação e entretenimento pré-garantidos, com a organização na mão de autarquias que se substituem às entidades privadas. Nalguns casos, por sua (nossa) conta e risco, com programações interesseiras e de qualidade duvidosa. Obviamente, nada tenho a obstar quando todos ficam a ganhar (artistas, operacionais do espetáculo, público, autarquias e patrocinadores). Aliás, esta é também uma forma inteligente e eficaz de salvaguardar e até melhorar as finanças das autarquias algarvias. Agora o problema é quando tal não acontece e, num ápice, vemos, nos meses de verão, as parcas finanças das autarquias a serem prejudicadas e delapidadas em organizações que, vá-se lá saber porquê, tinham tudo para dar certo, mas… não deram! E depois é ouvir os responsáveis a colocar a costumeira culpa nos outros, alegando depois já não terem condições para financiar a programação cultural para os restantes dez meses do ano. São chamados então os do costume: os artistas algarvios, aqueles que todo o ano fazem mais do que simplesmente entreter os de cá e os lá. Agentes culturais e músicos algarvios que deviam ser o portaestandarte cultural de uma região em todos estes festivais realizados a sul, mas, inevitavelmente, por representarem a cultura, o estar e o ser algarvio não são merecedores da atenção de determinados programadores já previamente programados. Festa?... Sim, para os do costume! 18 de julho de 2015

46


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

“Vem de fora? É bom!” Nutro profunda admiração por povos que têm na sua matriz identitária e código genético, o respeito, a defesa e a valorização da sua identidade cultural. Gente que aprendeu, desde o berço, o valor do imaterial em tudo aquilo que de material viria a constituir a sua vida. Deixo aqui o exemplo de dois povos referenciais na opinião que aqui partilho: a Espanha e a Irlanda. Duas nações que, tal como Portugal, têm atrás de si uma longa história de separações, junções, anexações, colonizações e aculturações. O que hoje são deve-se à soma de todos estes e outros fatores, mas, sobretudo, ao imenso orgulho naquilo que as distingue enquanto nações: a sua cultura. Nas visitas que lhes fiz marcou-me profundamente a forma ativa e interventiva como afirmam, através de várias expressões artísticas, as características diferenciadoras das suas várias regiões. Assumem a sua grandiosidade pela polivalência cultural, destacando-a e levandoa a todos os que as visitam. Usam-na como forma de valorizar as suas províncias e as suas gentes, e isso, diferenciando-as, dá-lhes a respeitabilidade e admiração que só as grandes nações merecem. Por cá, com uma herança cultural enorme (quantitativa e qualitativa), custa-me constatar a forma como se vilipendia, de berço, a transmissão de uma riqueza identitária que nos torna únicos entre pares. Com uma educação e instrução assentes em valores e premissas anglo-saxónicas, habituámo-nos a ver os principais ideólogos, intervenientes e agentes no processo de aculturação a, deliberada ou ignorantemente, a negligenciar, banalizar e até ostracizar o que é nosso. E quando falo do que é nosso, refiro-me às tradições de uma região.

47


PAULO CUNHA

Tomemos como exemplo o Algarve… Não seria de esperar que sendo esta uma região que recebe todo o ano gente de várias partes do globo, tivesse nos seus agentes culturais um dos ex-líbris da sua matriz regional? Sendo eles os principais produtores e realizadores de cultura feita na região, seria natural que estivessem na linha da frente para serem um dos nossos cartões-de-visita, mas se atentarmos e refletirmos com atenção, reparamos que não é isso que acontece. Cada vez mais os programadores ligados às instituições públicas e privadas que organizam todo o tipo de animação turística, apostam quase exclusivamente numa programação artística assente numa centralidade «impingida» pelos vários meios de comunicação e publicidade. Sempre a gosto e de consumo rápido e garantido, mas de consequências nefastas e irreparáveis para as várias gerações que povoam o Algarve. O lema é «Vem de fora, é bom!». Ainda um destes dias, pesquisando para um trabalho específico, dei-me conta da reduzida quantidade de grupos musicais ligados à música étnica portuguesa em atividade no Algarve, constatando também, com alguma consternação e apreensão, o términus de alguns que foram referências na divulgação do nosso património no que à música tradicional diz respeito. As razões são mais do que evidentes, basta observar a quantidade de eventos por cá realizados onde a música regional algarvia (não) está presente. “Tocar para aquecer? Não!... Deixar de tocar para esquecer!”. E assim muitos de lá vão «cantando e rindo» com tanta pobreza de espírito de alguns de cá. E de quem é a culpa? De alguns políticos de pacotilha que ainda se atrevem a defender a regionalização. A «sua» regionalização… 25 de julho de 2015

48


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Mais um ano… letivo Ainda vazias de alunos, a sua única razão de ser e existir, as escolas de Portugal preparam-se para, mais uma vez, se verem conquistadas e povoadas pelo nosso maior tesouro nacional: os nossos filhos. É inquestionável que os nossos descendentes são a nossa principal riqueza! Riqueza que, grande parte do dia, é colocada à guarda, gestão e investimento da instituição «Escola». É lá, para o bem e para o mal, que vão passar as várias fases do seu crescimento enquanto indivíduos e seres sociais. Não havendo preço para um filho, não há nenhuma instituição bancária em nenhuma parte de mundo que valha tanto quanto uma escola cheia de alunos. Tal como num depósito à ordem, esperamos que volvido um ano letivo o nosso maior investimento renda, em conhecimento e saber, os juros devidos por lá os ter colocado. E é na soma destes investimentos individuais que obteremos o PIEC (Produto Interno Educacional e Cultural) que nos colocará - ou não - nos países mais desenvolvidos. Desenvolvimento que, natural e consequentemente, trará riqueza, seja ela de que índole for. Parecendo esta ilação irrefutável, estranho constatar que, a reboque, instigada e obrigada por várias entidades bancárias comunitárias e internacionais, vemos a Educação de um país (que tem tudo para dar certo!) ser vilipendiada e sonegada em nome das Finanças e da Economia. Embora os políticos partidários não o queiram assumir publicamente, temos hoje um sistema educativo doente, onde as principais maleitas são sentidas por todos os seus intervenientes. Senão vejamos: - O desemprego e o emprego mal remunerado geram encarregados de educação sem tempo, paciência nem vontade para educar, ajudar

49


PAULO CUNHA

e acompanhar os seus educandos; geram encarregados de educação revoltados contra tudo e contra todos; geram alunos agressivos, desinteressados e ausentes; geram alunos com necessidades educativas especiais totalmente entregues à boa vontade do reduzido número de técnicos especializados ao dispor; geram falta de condições e insegurança no espaço escolar por falta de assistentes operacionais; geram professores cansados, depressivos e desmotivados por terem de trabalhar por si e por todos os que se viram obrigados a se afastar do sistema de ensino; geram professores sem expetativa de um futuro melhor nem a recompensa devida pelo trabalho de uma vida; geram professores revoltados contra a obrigação de ter que cumprir programas inadequados, de ter que realizar exames de recuperação a alunos que não querem aprender, e de ter que executar um excessivo volume de trabalho burocrático, tudo para minorar os custos da reprovação dos alunos; gera grandes níveis de ansiedade, exaustão emocional e stress ocupacional, o facto de grande parte dos professores não poderem planificar a sua vida familiar para além da duração dos contratos e das diferentes zonas do país onde ficam colocados; geram cargas horárias excessivas e turmas sobrelotadas; enfim geram o que está vista de todos os que sabem e querem ver… Portanto, por muito que se queira remediar pela base, é no topo que está o segredo para que a Educação possa vir a ter o investimento que o betão e o alcatrão tiveram nas últimas décadas em Portugal. Investimentos esses que serão pagos por todos aqueles que hoje padecem do atual estado da Educação. Incongruências da vida que escolhemos para este país… 2 de setembro de 2015

50


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Ensino desarticulado da Música Sou do tempo em que estudar Música no Algarve era um privilégio de poucos, pois para além de haver apenas um Conservatório de Música na região (Faro), não havia qualquer tipo de financiamento para além do «bolso» dos encarregados de educação. Fui um privilegiado, pois sendo filho de um (simples) funcionário público e duma «doméstica», tive em quem nunca teve, o desejo que eu e o meu irmão tivéssemos. O tempo passou e com o tempo vieram as alterações estruturais e estruturantes que colocaram Portugal mais perto da Europa da Cultura e da Educação, posicionando assim também o Algarve mais perto da centralidade de que se via arredado dez a onze meses por ano. Foram anos em que, para felicidade e progresso de todos, a oferta vocacional da Música estendeu-se por uma região que até então apenas acolhia a produção musical dos outros. Do barlavento ao sotavento, o Ensino Particular e Cooperativo começou a gerar Conservatórios, Academias e polos de Música em Lagos, Portimão, Lagoa, Albufeira, Loulé, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António. Associações de pessoas que, de forma abnegada e altruísta, construíram autênticas fontes potenciadoras de arte e cultura numa região até então ávida de oferta musical. Com o acesso aos fundos europeus foi possível, através do ensino articulado, criar uma forma digna, prática e democrática de financiar os alunos que, desde cedo, mostravam aptidão, vocação e desejo pela Música. Para que tal acontecesse o Estado financiava na totalidade a mensalidade dos alunos que tivessem escolhido este tipo de ensino articulado com o ensino oficial.

51


PAULO CUNHA

Entretanto os fundos europeus têm-se vindo a transformar em financiamentos apenas afetos ao Orçamento de Estado, e perante tal cenário eis que, a dias de começarem as suas atividades letivas, as cerca de 97 instituições privadas que asseguram a maior parte da oferta de ensino artístico especializado em todo o país se vêm na contingência de ter cortes no financiamento através de contrato de patrocínio a celebrar com o Estado, na ordem de 97% nas iniciações, 79 por cento no ensino básico supletivo e de 16 por cento no ensino básico articulado. E assim se colocam em causa cerca de 8400 lugares financiados em Portugal (dados da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo) … É caso para colocar em causa esta social-democracia (tão pouco cristã) que me obriga mais uma vez a retroceder à memória dos meus tempos de aluno de Conservatório, onde só os meninos «bem» provenientes de famílias abastadas tinham a possibilidade de aprender Música fora do ensino regular oficial. Perante tal estado de coisas não é difícil ver o que irá acontecer, tanto por cá, a sul, como no resto do país: mensalidades a aumentar, alunos a desistir e a interromper o seu percurso musical, mais professores no desemprego e Conservatórios a fechar. Será que nascemos todos a saber música e não sabíamos? Talvez por isso, para quê «Conservatórios»?... Bem… como estamos tão perto das eleições para a Assembleia da República, pode ser que quando este meu «desabafo» for publicado, já estas medidas tenham sido revogadas e tudo tenha voltado ao que era. Até porque ver «dar o dito pelo não dito» não é coisa que me surpreenda no que à política diz respeito! 9 de setembro de 2015

52


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

O Algarve na Europa da Cultura Não tendo nascido ontem (nem de geração espontânea) para a Cultura… e sendo um homem do sul que o Algarve crestou, fiquei bastante satisfeito em saber que a autarquia da minha cidade de adoção (Faro) pretende candidatar a capital de distrito a «Capital Europeia da Cultura» em 2027. A primeira capital de distrito portuguesa que, almejando dividir tal organização com uma cidade da Letónia, se prepara (dez anos depois de se ter realizado estrutura de missão «Faro - Capital Nacional da Cultura – 2005») para colocar esta cidade nas «bocas do mundo» pelos melhores e mui nobres motivos. Qualquer algarvio sensato e de boa índole verá com agrado e orgulho esta aspiração. Eu sou o primeiro entre muitos! Mas… Tendo a candidatura que ser entregue até 2017 para ser escolhida em 2019 por um júri internacional que decidirá qual será a cidade portuguesa que honrará Portugal através da sua produção, participação e mostra cultural, cabe à equipa escolhida para elaborar a candidatura, a hercúlea tarefa de fazer valer os pergaminhos farenses/algarvios nesta meritória disputa. Ora assim sendo, e tendo como limite temporal cerca de dois anos de trabalho para que tal desiderato chegue a bom porto, manda o bom senso que se olhe para o passado e com ele se retire as devidas e necessárias ilações e ensinamentos para que esta candidatura não seja contaminada com aquilo que nas outras não surtiu o efeito desejado.

53


PAULO CUNHA

Sendo uma candidatura de uma cidade, deverá, antes de mais, ter implícita na sua génese, toda a região de que Faro é capital. Comparado com certas cidades cosmopolitas internacionais, o Algarve quase se assemelha a uma grande cidade atravessada pela estrada nacional 125 e pela via do Infante, tendo como ponto central, Faro. Deverá ser assim o farol de uma candidatura onde as questões e divergências históricas, autárquicas e político-partidárias deverão ficar para trás, privilegiando o crescimento e enriquecimento cultural da região. Deverá privilegiar a cultura e a educação para a cultura - tout court - sem se deixar amarrar a questões de ordem económica e financeira que, logo à partida, poderão fazer inquinar a qualidade da candidatura. Deverá privilegiar todos os equipamentos culturais da região e, ao mesmo tempo, requalificar e criar outros que possam vir a ter um papel estrutural e estruturante para a criação, produção e apresentação de cultura na região algarvia. Deverá ter em conta os algarvios (agentes, intervenientes e consumidores de cultura), pois serão eles os maiores e melhores veículos de promoção da região após a realização dos eventos inclusos na candidatura. Deverá, finalmente, ser idealizada também com o intuito de projetar alémfronteiras, a cultura (desconhecida) de uma região que tem tudo para se afirmar também através do turismo cultural. E se assim for, deixaremos, inquestionavelmente, um enorme legado para as gerações vindouras. Daqui a doze anos agradecerão tal candidatura. Eu desde já louvo e enalteço tal iniciativa. As maiores felicidades! Ganharemos todos, enquanto região e enquanto algarvios… 17 de setembro de 2015

54


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Os representantes do povo Jantando um destes dias com um amigo brasileiro e assistindo de soslaio a um debate entre os líderes de duas forças partidárias, eis que ele me lança a seguinte questão: “Qual será a razão pela qual, servindo as eleições que se avizinham para eleger os deputados de cada região de Portugal, a maioria da imprensa concentra apenas a sua atenção nos debates entre os secretários gerais dos partidos representados na Assembleia da República?”. Fazia-lhe confusão não ver os candidatos regionais a discutir e a dirimir as suas opiniões e visões estratégicas para a região que, pretensamente, irão representar e defender, pois é neles que o eleitor deveria fazer recair - ou não - o peso do seu voto?!... Apelando à minha capacidade sintética/analítica, tentei explicar-lhe as idiossincrasias de um povo ainda jovem no que à democracia diz respeito. Efetivamente ele tinha razão, a maioria dos portugueses acabam por ver estas eleições apenas como a oportunidade de escolher um primeiro-ministro que terá então a incumbência de constituir o governo do país, e não a de, em primeira instância, escolher os seus representantes na «nossa» Assembleia. É difícil explicar a um estrangeiro que muitos dos candidatos que aparecerão de carinha laroca e produzida nos panfletos que

55


PAULO CUNHA

encherão as caixas de correio e povoarão os «outdoor» à beira estrada plantados, nunca foram «tidos nem achados» quanto aos problemas, questões e assuntos da região pela qual se candidatam; que alguns nem dessa região são, passando nela apenas o tempo necessário para que os mais incautos e crentes fiquem com a sua imagem na retina; que alguns «cabeças de lista» assumam os cargos para logo de seguida saírem para «irem à vida», dando assim lugar a figuras apagadas, impreparadas e totalmente desconhecidas da população que os elegeu; que o dever de obediência à disciplina de voto do partido se sobreponha aos soberanos e inalienáveis direitos das populações que esses deputados deveriam representar na «Casa da Democracia»; que sendo um dos Parlamentos mais povoados na Europa, os muitos assentos não correspondem proporcionalmente a parlamentares que decidam a favor de quem os elegeu. Enfim… O Portugal do poder. E como final de conversa ainda lhe presenteei com outra característica muito própria do «Portuga»: exige, reclama, barafusta… mas sempre nas alturas despropositadas e nos sítios inapropriados. Se não vejamos… Vós, que comigo partilhais esta minha reflexão, sabeis por acaso o nome de todos os deputados da vossa região que cessaram funções e que no último mandato vos representaram no hemiciclo parlamentar? Não… Bem me parecia! Depois de eleitos os representantes, os representados caem no esquecimento. Obviamente, porque só é respeitado quem se faz respeitar! 23 de setembro de 2015

56


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Não tive tempo!... À medida que a idade vai avançando vão-nos batendo à porta, sem pedir licença, notícias que nos deixam completamente chocados, desconcertados e confusos, tal a dimensão das mesmas na nossa vida. É um facto, nada é mais certo que a nossa finitude. Para tal bastou apenas nascer. Daí a célebre frase «A vida são dois dias!», o dia em que nascemos e o dia em que morremos. De permeio tudo passa tão rápido que acaba por não caber num dia, tal a sua fugacidade. Sendo a morte o mais certo que temos na vida, passamos a vida a pensar que somos eternos, seres imbuídos de uma perenidade etérea que fará com que o amanhã seja sempre uma certeza… Nada mais errado! Certo, apenas o que já passou e o que estamos agora a vivenciar. Tal como o ato de me estar agora a ler e a pensar que tudo o que aqui escrevi não é mais do que a soma de puras evidências. Sem dúvida, evidências tais e tantas que se transformam em aparências. Parece que convivemos, parece que desfrutamos, parece que socializamos, enfim… parece que vivemos. Até que a realidade dos factos nos acorda desta dormência provocada e consentida. Será necessário sentir na pele a perda de um amigo para perceber que já o tínhamos perdido há já algum tempo? O tempo em que não houve tempo para com ele estar, o tempo em que o material

57


PAULO CUNHA

substituiu o emocional, o tempo da ilusão da falta de tempo… Tardiamente percebemos que, afinal de contas, o dia era feito de vinte e quatro horas e que bastavam sessenta minutos para trocar todos aqueles afetos guardados no peito. Deixá-los sair ter-nos-ia dado a sensação de um propósito e recompensa de vida, mas… não havia tempo! Passando por cá uma só vez, todos os momentos contam, e na soma dos mesmos se constrói uma história de variados momentos feita. Estórias partilhadas que nos projetam nos outros e nos fazem viver para lá de um «eu» egocêntrico, repetitivo e doentio. Não nos enganemos, temos tempo!… Não temos é vontade nem interesse em dar o primeiro passo. O passo para uma caminhada que se faz através de uma palavra, de um sorriso, de um gesto, de um abraço, de um olhar. E na brutal frontalidade da morte percebemos o que perdemos: o carinho que não foi dado, as perguntas que não foram feitas, as palavras que não foram proferidas e, sobretudo, a amizade que não foi alimentada. Cada velório acaba, assim, por se transformar numa catarse e numa profunda lamentação entre os que ainda por cá andam, para no dia seguinte tudo voltar ao mesmo: o insustentável peso dos dias. Onde, mais uma vez, não haverá tempo para o tempo dos outros! 30 de setembro de 2015

58


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Famílias Skype Elegemos, recorrentemente, políticos que acham muito natural os portugueses terem que emigrar, pois “Sempre foi assim!”, “Está-nos no sangue!”, “Somos um país de descobridores!”, “Assim espalharemos a nossa portugalidade pelo mundo!”, “Temos que ajudar o país a sair da crise!”, etc. e… tal. Frases feitas, feitas de menosprezo, desconsideração e desrespeito por quem - sem querer se viu obrigado a deixar para trás tudo com que sonhou e projetou. Concidadãos que, a exemplo de quem os condenou, gostariam também de ser felizes em Portugal! Tal não foi possível, pois por cá quem perdeu o emprego nunca mais o encontrou. Sonhar?... Só lá fora, num mundo em que a verdade tem um significado diferente daquele que nos habituámos a ouvir na boca de quem nos governou e continuará a governar. E assim, famílias outrora juntas no calor do lar, na troca e partilha de afetos e na construção de um ideal comum, veem-se obrigadas a trabalhar, trabalhar mais e… trabalhar ainda muito mais para poder esquecer, e - o mais rapidamente possível - poderem regressar. Não há um dia que não pense em todos eles, os que me privaram do prazer do seu contacto sem que tal tivessem desejado. Amigos que, uma vez por ano, «quando o rei faz anos», conseguem usufruir um pouco dos «seus» e do «seu» Portugal. O mesmo país que os estrangeiros mais endinheirados escolhem para viver e que eles, autóctones, tiveram que abandonar. Efetivamente, que raio de vida a nossa, tão efémera e, como se não bastasse, ainda nos empurra para longe de tudo aquilo que mais prezamos e gostamos… Tal e qual: um Portugal sequestrado!

59


PAULO CUNHA

Emigrantes que através do «milagre» operado pelo sistema global de comunicação «Internet», conseguem através de uma câmara vídeo/áudio, de um ecrã e de umas colunas, interagir virtualmente com todos aqueles dos quais foram obrigados a separar-se. Pais, filhos e cônjuges que deixam as câmaras ligadas por períodos ilimitados para poderem observar, imaginar e fruir momentos nos quais gostariam, por certo, de participar se estivessem junto dos seus entes queridos. De tal forma, que tenho sabido de casos em que os pais, separados por milhares de quilómetros, ajudam os filhos nos TPC, que cantam para os seus bebés adormecerem, que partilham o momento do jantar, que brincam e jogam uns com os outros, que adormecem ao mesmo tempo, enfim… uma multiplicidade de tarefas que os ajuda a reaproximar e a fazer esquecer esta malfadada sina que ciclicamente nos persegue. Uma geração herdeira da crise em que múltiplas famílias se veem obrigadas a suportar a sua manutenção e o seu crescimento, enquanto estrutura nuclear, através da comunicação virtual. Sentimentos reais partilhados através de dados… Porque não há distância que resista à saudade! 9 de outubro de 2015

60


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Esquerda, direita, em frente… Marche! Tentando explicar a uma criança de oito anos o que é a «Direita» e a «Esquerda» de que tanto se fala agora nos meios de comunicação, pedi-lhe para me trazer uma folha em branco e com um lápis traçar um risco a meio para que assim a dividisse em duas partes; de seguida pedi-lhe para escrever as palavras «direita» e «esquerda» nos lados correspondentes. Assim fez… Logo a seguir pedi-lhe para dobrar a folha ao meio, pela linha traçada. Mais uma vez assim fez, perguntando-me de seguida se aquilo que lhe estava a pedir era algum truque de magia. Ri-me, pela associação da pergunta com a realidade, e para terminar a explicação prática pedi-lhe para me dizer onde estavam agora as partes esquerda e direita da folha, ao qual ela, perspicazmente, me respondeu estarem viradas uma para a outra e assim sendo, no mesmo sítio: no meio. Na inocência da sua infância pediu-me que lhe resumisse a experiência, tendo-lhe eu respondido sucintamente que, na teoria, os partidos políticos se posicionam num horizonte que vai da esquerda à direita, para assim poderem convencer os seus simpatizantes a elegê-los conforme aquilo em que se reconhecem e apoiam. Quando são eleitos a folha dobra-se e, na prática, quase não se distinguem uns dos outros, pois chegaram ao centro das suas aspirações: o poder. Não sei se consegui o meu intento, mas pelo menos expliqueilhe conforme me é dado a observar o espetro político mundial, onde a prática não tem nada a ver com a teoria que lhe serviu de base programática. Só mesmo alguém muito desatento é que não o percebe, e pelos vistos é o que por aí mais há…

61


PAULO CUNHA

Faz parte da natureza humana escolhermos um lado e nesse lado nos acomodarmos por uma questão de proteção, de associação e de identidade, muitas vezes sem saber (nem querendo saber) o que o distingue, na prática, do lado contrário. Quem não tem lado é considerado alguém estranho e até perigoso, pois acaba por subverter a arrumação de «quem manda nisto tudo». E não estou a falar de qualquer tipo de anarquia militante, de modo algum… unicamente de reflexão e equidistância ideológica. Vulgarizou-se associar as convicções políticas a cores, a símbolos, a músicas, a slogans e a lados. Tudo bem pensado para que não nos percamos no caminho rumo à vitória… A vitória deles. Daqueles que, invariavelmente, arrumam as convicções na gaveta perante os interesses instalados. A nós fica-nos a ilusão de integrar aquela «família» que ajudámos a crescer mas na qual, afinal de contas, ninguém nos conhece e reconhece. Esquerda, direita? Basta mudar o lado em que estamos a observar o objeto e rapidamente se transforma em direita, esquerda. Vejamos alguns países comunistas do mundo como a China, Coreia do Norte e Cuba… terão efetivamente uma política de esquerda na sua praxis quotidiana? E o modelo político implementado nos países nórdicos, qual será o seu lado, ou terá uma mistura dos dois? Pois é… É muito mais fácil viver num mundo dividido em duas partes. O «Sim» e o «Não» estão garantidos. Eu gosto também do «Talvez» que o arcoíris me proporciona! 15 de outubro de 2015

62


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Politizados ou partidarizados? Recordo-me, embora fosse um miúdo, de nos primeiros anos após o 25 de abril ser lecionada a disciplina de «Introdução à Política» no ensino oficial, tendo posteriormente, e a exemplo do «Serviço Cívico», sido abolida do sistema educativo. Era a altura de despolitizar as escolas e deixar a política para quem dela iria viver. Foram tempos em que a Democracia dava os primeiros passos e onde muitos jovens que hoje são políticos profissionais e/ou estadistas reconheciam na teoria e na prática a política como melhor forma de garantir a defesa dos direitos dos cidadãos. Foram tempos onde o tempo para subterfúgios, jogos de bastidores, maquinações e inverdades era mais escasso do que hoje. Mal ou bem a democracia acontecia e crescia. Anos que marcaram uma geração que, como eu, cresceu e fez as suas opções políticas. Muitas delas estiveram na génese e no crescimento regional e nacional das estruturas partidárias que hoje assumimos como referências democráticas. Gente que com a política partidária nada quis embora mantenha uma consciência cívica apurada e participativa; gente que nos partidos se apoiou e cresceu social e profissionalmente; gente que se iludiu, desiludiu e desistiu; gente que permaneceu convicto e militante e gente que muitas «casacas» vestiu. No seguimento da aprovação da Lei de Bases em 1986 tentou-se colocar a Educação Cívica como objetivo central da Educação através da criação de disciplinas como «Desenvolvimento Pessoal e Social» e

63


PAULO CUNHA

«Área-Escola». Com a queda do muro de Berlim, a partir de 1990 vigorou o sistema a que os seus mentores apelidaram de «Educação para a Cidadania Democrática», assente cada vez mais no investimento na «Educação para os Media». Hoje é o que se sabe… O filósofo Padre Manuel Antunes, em 1979, dizia: “Para bem e para mal, Portugal é hoje uma sociedade politizada. Só assim poderemos retomar a história do nosso país, só assim será possível a reinvenção de Portugal por Portugal, a recriação de Portugal por Portugal, através da democracia como espaço da liberdade e da comunidade, da subjetividade e da legalidade, da consensualidade e da soberania popular”. Escreveria ele hoje o mesmo, em 2015? Penso que não! Sinto nas novas gerações com que contacto um grande desinteresse e demissão cívica e política pela condução dos destinos da nação. Politizado? Não… partidarizado! Portugal está hoje nas mãos de partidocratas que, tendo feito a sua «Introdução à Política» nas sedes e universidades de verão dos seus partidos, constituem muletas de interesses muito pouco nacionais. Quatro décadas desperdiçadas no que à consciencialização e sensibilização cívica e política dos portugueses concerne. Os resultados estão à vista: a abstenção, o cansaço, a negação e o desinteresse aumentam a olhos vistos. Perguntam-me o que fazer e eu respondo: - “Fazer o que ainda não foi feito… Ensinar nos locais próprios que a Politica não é algo mau. Maus são todos aqueles que dela se aproveitam, dando-lhe uma fama que não merece!”. 21 de outubro de 2015

64


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Não tenho tempo! “Não tenho tempo!” - Uma fase bordão que, sendo demasiadas vezes usada e banalizada por educadores para se desculparem ou escusarem de fazer o que não querem ou não têm «pachorra», está, cada vez mais, a ter um efeito negativo, preservo e reprodutor nos seus educandos. Tenho grande dificuldade em entender pais, que o são por opção, desejo e convicção, que não arranjam tempo para o bem mais precioso que a vida lhes concedeu: os seus filhos. Desde que nascem até que deixam o «casulo», o tempo passa num ápice, e nesse tempo, todo o tempo é insubstituível, inestimável e irrecuperável. Perante as naturais, necessárias e inevitáveis investidas dos seus filhos para que com eles façam «coisas», grande parte desta nova geração de «pais sobreviventes» escusa-se com as costumeiras desculpas: “Estou cansado, amanhã logo vemos se temos tempo…”, “Não me maces com «criancices»!”, “Agora não posso, vai falar com a tua/teu mãe/pai.”, “Tenho mais que fazer, não me chateies!” e “Não tenho tempo!”. E neste jogo do empurra e do mente/mente ficam todos a perder, pais que não acompanham nem contribuem para o crescimento emocional e intelectual dos seus filhos, nem filhos que, com a sua presença efetiva, não recompensam os pais por “os terem mandado vir”. Desencontros provocados por uma sociedade em que o Ter é - necessariamente - mais importante que o

65


PAULO CUNHA

Ser. Compreensivelmente (ou talvez não), muitos pais dirão: “Como posso ser eu feliz se não tenho como o ser?”. É um facto para quem acha que ter justifica deixar de dar e partilhar. Tempos em que a principal crise reside nos valores, e que a aparência supera a essência. A utilização do tempo de qualidade é, quanto a mim, o valor mais negligenciado e vilipendiado nas relações familiares dos portugueses. Sinto-o no meu dia-a-dia profissional e custa-me ver e contactar com pequenos seres que tão pouco recebem de quem tanto deveria dar. Apercebo-me disso quando as desculpas, recorrentemente, provêm de filhos que apenas coabitam na casa dos pais, dizendo-me que muitos deles raramente falam ou interagem com os progenitores. Não culpo a consequência, culpo a origem. Critico todos aqueles que permitem e legitimam uma sociedade que nos rouba o usufruto do nosso bem mais precioso, bem como a nossa continuidade enquanto seres consequentes e responsáveis: os nossos descendentes! Ainda hoje o referi a uma plateia de jovens que «bebiam» as minhas palavras como se algo de transcendente estivesse a proferir: “Tempo é a aquilo que distingue a vida da morte. Quem diz que não o tem para os seus, morreu em vida para uma relação que só o tempo se encarregará de matar!”. 30 de outubro de 2015

66


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Sem comentários! Não sei se já repararam, mas em cada português temos um comentador que fala por dois ou três… Não há acontecimento que não mereça comentário, desde da cama da vizinha que range mais do que o habitual, até à política que, não sendo bestial, irá ficar - por certo - pior do que mal. Dêem-lhes um assento e um interlocutor e logo ali nascerá um comentador de sofá, café ou bancada. Somos tão exímios e prolíferos a comentar que até temos comentadores pagos que comentam por encomenda. Comentam tudo e todos, comentam ocasiões especiais e até comentam em função das suas tendências, gostos e apetites. São comentadores que, sem qualquer prurido ou vergonha, não escondem ser dos clubes A, B ou C e dos partidos X, Y ou Z. Gente que não comenta de uma forma isenta, pois sabe que lhe faltará plateia, fazendo-o apenas em função da aceitação de quem pensa de forma igual. Profissionais da retórica que através dos seus comentários, muitas vezes carregados de verborreia, maledicência e interesses incógnitos, arregimentam acólitos e fiéis propagadores das suas «palavras santas». Custa-me ver tantas pessoas a quem se pede uma simples opinião a dizer, de uma forma desabrida e eloquente, que não sabem nem querem saber… Em suma, dizendo não ter opinião! Gente que, confrontada com questões do dia-a-dia que lhe diz, particular e

67


PAULO CUNHA

diretamente, respeito, limita-se a reproduzir e a partilhar o que os meios de comunicação lhe «ofereceram» através dos seus comentadores de serviço. Pessoas que raramente contraargumentam face a opiniões divergentes das suas, fazendo-o apenas com as «frases feitas» costumeiras, apanhadas aqui e ali nas caixasde-ressonância dos interesses vigentes. Porque opinar é diferente de comentar, ter opinião sobre seja o que for obriga, necessariamente, a saber do que se está a falar, correndo o risco de passar por tolo e ignorante quem o faz sem saber ao que vai. Exercer o direito de emitir uma opinião acarreta, obrigatoriamente, o dever de a saber defender. Infelizmente, não comenta quem sabe, comenta quem quer… muitas vezes com a displicência de um bocejo. Comentários despropositados que acarretam consigo, recorrentemente, a ignorância de quem os profere, ferindo com a acutilância de uma lança quem não os merece. Daí ter alguma relutância em comentar seja o que for, pois a realidade não precisa de ser comentada, encontra-se ao dispor de quem a saiba e queira interpretar. Sei que há muita gente que necessita de ter alguém que lhe descodifique a mensagem que quer ouvir, mas não seria bem mais interessante potenciar a análise dos factos através de um pensamento analítico e estruturado? Tal ensina-se e aprende-se (ou não) na escola... A importância de questionar o porquê das coisas. 5 de novembro de 2015

68


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Feicebuques… Embora há já muitos anos escreva (espaçadamente) artigos de opinião, estes que aqui convosco partilho, pela particularidade de serem de tal forma abrangentes e sem temática definida, levaramme a aceitar prontamente o convite endereçado pelo criador, executor e editor da publicação «on line» Algarve Informativo, Daniel Pina, para aqui desabafar ideias. Até aqui chegar e poder partilhar a minha opinião, seja sobre o que for, preciso de ser estimulado e espicaçado. Não escrevo o que os leitores querem ler, sobre assuntos mediáticos, por interesses pessoais ou por encomenda. Até começar a digitar nas teclas do «pc» cá de casa, o assunto que convosco irei partilhar pode até à última hora mudar… Gosto dessa imprevisibilidade, pois acaba por ser desafiante e gratificante, dando ao «meu mundo» mais um propósito de vida. Mesmo a propósito, hoje no facebook (a rede social mais utilizada por pessoas de todas as idades) dei de caras com uma notícia partilhada pelo meu amigo «Necas», em que o título sugestivo «Se quer ser feliz o melhor é abandonar o facebook» me fez abandonar a temática inicialmente programada para esta crónica de opinião. A notícia do estudo referia que: “A investigação indica que 88% das pessoas que deixaram o facebook durante sete dias admitiram sentirse mais felizes. Do mesmo modo, 84 por cento das pessoas

69


PAULO CUNHA

envolvidas disseram que conseguiram, por isso, apreciar mais a vida. Apenas 12 por cento das pessoas afirmaram estar insatisfeitas por não poderem utilizar a rede social.”. Frequento os meandros comunicacionais (e só esses!) dessa rede social (e só essa!) há cerca de cinco anos e não me considero em nada mais infeliz do que antes por ter aceitado o convite para dela fazer parte, muito menos sinto sintomas de privação quando dela estou ausente. Sinto-a como um complemento e uma forma de enriquecimento pessoal, pois só o facto de ter recuperado o contacto diário com amigos de infância e juventude; ter recuperado memórias esquecidas; ter conhecido as famílias, as vivências e as preferências de quem está longe e me é querido; ter mantido o contacto com antigos colegas e alunos; ter conhecido virtualmente pessoas que vim posteriormente a privar pessoalmente; ter partilhado gostos, ideias e ideais; ter conhecido e ter dado a conhecer informações pertinentes e úteis para a nossa vida; e ter podido «gostar» de quem merece apreço, admiração e reconhecimento, fazem manter-me ligado à rede sem qualquer tipo de reserva, receio ou constrangimento. Obviamente que conheço e reconheço todos os malefícios e contrariedades de não saber usá-la com a parcimónia, a independência, o recato e o cuidado exigidos. Mas não será assim com tudo o que provoca adição e dependência? Saber contrariar os impulsos de negar, refutar, contradizer e maldizer as opiniões e gostos alheios poderá ser uma boa forma de viver em paz com essa rede social que cresceu e popularizou-se mundialmente, pensada e estruturada num sinal de aceitação (o «like»). Outra atitude para a manter na nossa vida, de uma forma sã e enriquecedora, é fazer aquilo que sempre fizemos antes das redes sociais existirem: “Quem é meu amigo aceita-me como sou, quem não… é porque meu amigo não é!”. Assim sendo… 12 de novembro de 2015

70


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Mas porquê, pai?... - Oh pai, porque é que «essas pessoas» matam outras pessoas, assim sem mais nem menos? - pergunta-me recorrentemente a minha filha quando as notícias nos entram casa adentro de várias formas e por vários meios. - São pessoas que deixaram de acreditar na vida tal como a projetamos e vemos… Pessoas que não acreditam na liberdade e têm como objetivo a destruição do mundo tal como o entendemos. - Mas porquê? Porque é que matam e destroem famílias inteiras que não fizeram mal a ninguém, se eles também têm famílias? - Porque desistiram da vida… da «nossa» vida. São pessoas que cortaram radicalmente com o passado em nome de um futuro construído à medida dos seus sentimentos, desejos e ilusões… onde a destruição legitima o terror das suas ações. - Mas porquê?... Continuo sem entender! Enfim, tantos «porquês» que parecendo-nos a nós, adultos, tão difíceis de compreender, mais difíceis se tornam de responder, pois tudo o que possa ser agora dito a pequenos seres em formação condicionará, por certo, a imagem com que ficarão daqueles «outros» que nos poderão vir a fazer mal. Efetivamente vivemos tempos em que é difícil explicar a razão de atitudes e ações que, lógica e racionalmente, não têm qualquer razão de ser.

71


PAULO CUNHA

Preocupa-me ver todas estas crianças que fogem do terror, que crescem no terror e, se nada for feito para debelar e sanar tal flagelo, viverão - ainda mais - reféns do medo que o horror que presenciaram lhes plantou no peito. Aflige-me ver todos estes combatentes de causas insanas e perdidas, «fabricados» num mundo que nada mais lhes deu do que a vontade de morrer e levar consigo inocentes apenas culpados por terem nascido. Culpas?... Culpados?... Todos os que permitiram que num único planeta, as assimetrias sejam hoje tantas e tão diversas, que em determinadas regiões do globo se viva no século XXI e noutras ainda na idade média; todos os que, duma forma sub-reptícia e encapotada, permitiram que a loucura fosse acolhida no radicalismo ideológico, político e religioso; todos os que, substituindo-se a um «Deus» menor, financiam estes acólitos para quem os interesses incógnitos dos seus líderes pouco interessam. Como explicar a uma criança, as mortas gratuitas, a destruição de património, a perda de direitos, a submissão, a escravidão…? Como fazê-la entender que num mundo global, o esvoaçar das asas de uma borboleta tem consequências no outro lado do planeta? Como responder a questões sobre «realidades» que os seus pais jamais vivenciaram, equacionaram e pensaram? São as suas perguntas que nos devem manter atentos e «alerta!», pois serão eles, em última instância, os principais beneficiários (ou não) das medidas que ora tomarmos. Porque a «Liberdade, Fraternidade e Igualdade» não são – garantidamente – bens adquiridos, irreversíveis e imutáveis. Serão, tão somente, aquilo que deles fizermos! 19 de novembro de 2015

72


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Mini(stério) da Cultura ou Mistério da Cultura? Sou daqueles que sempre que há uma remodelação ministerial ainda acredita que um dos ministérios que me é mais querido (Cultura) terá a chefiá-lo um ministro isento, humanista, competente, conhecedor, honesto, sensato e idealista. É um processo que se tem vindo a assemelhar aos «furinhos» na caixa de chocolates «Regina». Lembram-se?... Cada furo, cada surpresa! Para muitos considerada a parente pobre de qualquer família governativa, seja ela de que quadrante político for, a Cultura acaba por estar destinada às sobras orçamentais. Poucos esperarão grandes projetos, empreendimentos e realizações de um ministério que parece existir para calar e alimentar alguns «artistas» e para financiar alguns eventos da nomenclatura vigente. Pretendem que seja a mulher bonita da foto de grupo. Está lá apenas para efeitos estéticos e decorativos, sem direito a abrir a boca. Não fosse esse o ministério que umas vezes passa a secretaria, voltando depois a ministério… mas sempre com letra pequena, tal a diminuta orçamentação que lhe tem sido destinada desde que vivemos em democracia. Às vezes ponho-me a imaginar que era criada uma lei que instituía uma base mínima para um ministério poder existir e funcionar como tal, por exemplo 1% do Orçamento Geral do Estado. Assim, sim…

73


PAULO CUNHA

Assim poderíamos ver as Direções Regionais de Cultura a fazer muito mais do que apenas «contar os tostões» e gerir as módicas quantias disponibilizadas para a produção cultural na província. Imaginei também que era criada outra lei que garantia a itinerância ministerial pelas várias províncias de Portugal. Talvez acabassem assim muitas das disparidades verificadas nos apoios que são concedidos à produção cultural por este país fora. Obviamente, isto sou eu a «utopizar». «Coisas» de alguém para quem a Cultura conta mais do que o valor que lhe é dado!... Para além das habituais razões partidárias, vulgarizou-se colocar como uma das condições primordiais para a escolha para o cargo, ser bom gestor. Relegando para segundo plano os conhecimentos técnicos, científicos, logísticos e operacionais; esquecendo a capacidade de ouvir, dialogar e criar consensos; menosprezando a visão criativa, empreendedora e estratégica, acabámos por constatar que em vez de ministros e secretários de estado da Cultura, muitos foram apenas gestores culturais do Ministério das Finanças. Nem os benditos e abençoados assessores os salvaram, pois quando não há «guito», engenho e arte, acabamos todos por ficar com a pior parte! Já com o gabinete de Ministro da Cultura ocupado, espero que o atual usufrutuário venha a colocar no seu mapa de prioridades uma região que – pretensamente – deve conhecer bem (Algarve), pois foi eleito como seu representante para a Assembleia da República. Para quem tem boa memória, e eu julgo ter… No fim do mandato falaremos! 27 de novembro de 2015

74


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Natal todo o ano Todos os anos, cada vez mais cedo, nos entra pela casa adentro uma data que para todos os cristãos, pretensamente, deverá ser de júbilo, agradecimento e comemoração pelo nascimento de Jesus Cristo. Uma época que, com o passar do tempo, tem vindo a vulgarizar e a banalizar as festividades a ela associada, como forma de prestar homenagem e vassalagem ao «deus consumo» personificado no «Pai Natal», figura publicitada pela «Coca-Cola» no início do século XX e que acabou por ajudar a subverter o verdadeiro espírito de Natal. É um facto: é Natal quando alguém nasce! Daí a «frase feita» que nos relembra que é Natal quando um homem e uma mulher querem. Dar ao mundo um novo ser e, por consequência, proporcionar-lhe tudo o que o possa ajudar a crescer saudável e feliz deverá ser, no meu modesto entender, o espírito de Natal. Foi isso que aprendi numa altura em que o Natal se consumia menos e se vivia mais… O atual Natal, planificado e construído no consumo, faz-nos mergulhar numa amálgama de sensações e sentimentos contraditórios. À medida que vamos ficando menos novos vamos sentindo que o tempo entre natais parece ser cada vez menor. As sensações de hipocrisia, constrangimento e angústia minam-nos ao constatarmos que chegou a época em que deveremos todos ser

75


PAULO CUNHA

«bonzinhos» uns para os outros e muito amigos da família. Instala-se também a sensação de obrigatoriedade por ter que dar, retribuir e partilhar com data e hora marcadas. Finalmente, a sensação de urgência e de stresse por ter que preparar, acompanhar, assistir e participar em todas as festas, «festazinhas», almoços, jantares, quermesses e compra de rifas... Dar e receber não tem hora marcada. Paz, amor, solidariedade, compreensão, fraternidade e tolerância, muito menos! Fingir e dissimular o que não está bem porque é Natal é tudo, menos Natal. Acaba por ser uma época onde os contrastes se agudizam ainda mais, pois quem está só, mais só acaba por se sentir… Faço muitas vezes a analogia com a «Música de Natal», que por ter sido composta imbuída do verdadeiro espírito natalício é quase toda ela bela, e assim sendo… porque não ouvi-la, interpretá-la e desfrutála durante todo o ano?... Da mesma forma, porque não alimentar os verdadeiros relacionamentos com sinceros e sentidos afetos? Todo o ano! Agora que o Natal se aproxima a passos largos e a crise continua a controlar e a moderar os gastos em prendas e ofertas - muitas vezes desnecessárias e supérfluas, eis que é chegada a altura de reforçar a dádiva de carinho, ternura, afeto e apoio a todos aqueles que deles precisam e merecem. São ofertas gratuitas que refletem o genuíno espírito de Natal e ajudam a aproximar os amigos que estão longe da vista mas perto do coração. 3 de dezembro de 2015

76


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

“A educação é o que sobra quando se esquece tudo o que se aprendeu na escola” Por sugestão de um amigo que conhece as minhas ideias e ideais sobre Educação, li há pouco tempo um artigo que fazia uma súmula de um inventário realizado pelo jornal «El País» sobre o que Albert Einstein pensava sobre o tema. Coligido a partir de cartas, ensaios biográficos e livros, estas ideias de um homem que enquanto estudante não gostou nem se interessou pela escola autoritária e desmotivadora do seu tempo - tendo-lhe sido, inclusive, imputada a fama de medíocre enquanto aluno - são hoje motivo de interesse e reflexão. Não, não foi um «mau» aluno!… Foi apenas aquilo que muitos dos atuais alunos são em Portugal: vítimas das circunstâncias. E como tantos mostrou-o nos bancos da escola, levando inclusive uma professora a vaticinar-lhe que nada seria na vida. Afinal de contas, um «dejá vu» que se repete insistentemente de geração em geração e que leva a estigmatizar quem não tira boas notas, sejam os motivos quais forem. Leva tudo pela mesma bitola! Na sua obra «A minha visão do mundo», publicada originalmente em 1949, Einstein defendia que: “A aprendizagem deve ser feita de uma maneira que possa ser recebida como a maior dádiva, e não como uma obrigação amarga.”. Tendo escrito também: “Aprendi desde muito cedo a extrair o importante, prescindindo de uma multiplicidade de coisas que (…) desviam a mente do essencial. O problema é que para os exames tinhas de enfiar tudo na cabeça, quer queiras ou não. (…) É um erro grave acreditar que a vontade de

77


PAULO CUNHA

olhar e pesquisar pode ser fomentada pela obrigação e pelo sentido de dever. Penso que até um predador animal saudável pode ser privado da sua voracidade se lhe for exigido continuar a comer quando não tem fome”. Afirmações que, refletindo a falta de investimento na curiosidade natural como força motriz para a aprendizagem, continuam ainda tão atuais. Numa carta dirigida ao seu filho, Eduard Einstein, publicada postumamente em 2008 na obra «Posteridade: cartas de grandes cidadãos norte-americanos aos seus filhos», de Dorie McCullough Dawson, o cientista recomendava-lhe a seguir o seu instinto e fazer aquilo que gostasse, já que essa é a melhor maneira de aprender: “No piano toca sobretudo o que gostares, mesmo que a professora não te o exija. Essa é a melhor maneira de aprender, quando estás a fazer algo com tanto prazer que nem te dás conta do tempo a passar”. Seja na arte ou na área que for, esta premissa continua a fazer toda a diferença: deixar a “vocação falar mais alto”, em detrimento de tudo o resto que para os outros é o mais importante. “Afinal de que me interessa a opinião dos outros se a vida a ser vivida é a minha?!...”. Na obra as «As minhas crenças» (1939) escreveu: “Deveria cultivarse nos indivíduos qualidades que promovam o bem comum. Isto não significa que «o indivíduo» se converta num simples instrumento da comunidade, como uma abelha (…). O objetivo deve ser formar indivíduos que atuem com independência e que trabalhem o seu principal interesse ao serviço da comunidade”, e “Temos que ter cuidado com os que pregam aos jovens o sucesso como o objetivo (principal) da vida (…). O valor de um homem deveria ser analisado em função do que dá, e não do que recebe. A função decisiva do ensino é despertar estas forças psicológicas (vontade de contribuir para o mundo) nos jovens.”. Reflexões de alguém que pelo exemplo da sua vida (vivida) deverão constituir um farol para quem ensinar é algo mais do que «apenas» instruir. Porque a gosto aprender é um gosto! 11 de dezembro de 2015

78


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Para cantar mais: www.cantarmais.pt Ao longo de mais de três décadas de ensino vocacional e genérico da Música sempre encarei a «Voz» como um instrumento primordial, fundamental e crucial para uma saudável e enriquecedora descoberta da Música. Sendo um instrumento portátil, único pelo seu timbre, gratuito e de fácil manutenção, o aparelho fonador humano é, sem qualquer margem para dúvida, o instrumento de, e para todas as classes sociais. Perspetivar, contextualizar, programar e direcionar deverão ser tarefas que todos os profissionais do ensino da Música terão que implementar se quiserem que o canto sirva de fio condutor para a descoberta de «outros mundos». Sendo a oferta de canções devidamente estruturadas e planificadas quase sempre restrita aos manuais escolares, a criação da plataforma digital www.cantarmais.pt veio democratizar o livre acesso a uma quantidade e variedade de canções que constituem uma poderosa e eficaz ferramenta para quem usa a canção no seu dia-a-dia. Pensado, programado e estruturado para educadores, este sítio aberto a todo o mundo está já suscitar a curiosidade e a acolher visitas de quem gosta «apenas» de cantar. À distância de uns quantos «cliques» constatamos que temos quase «a papinha toda feita»… É só assimilála e o proveito é nosso e de quem nos acompanha.

79


PAULO CUNHA

Sendo uma iniciativa da Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM) e contando com a colaboração da Direção Geral de Educação e da Fundação Calouste Gulbenkian, o projeto «Cantar Mais – Mundos com voz» assenta na disponibilização de um repertório diversificado de canções (tradicionais portuguesas, de música antiga, de países de língua oficial portuguesa, de autor, do mundo, fado, cante e teatro musical/ciclo de canções) com arranjos e orquestrações originais apoiadas por recursos pedagógicos multimédia e tutoriais de formação. Numa altura em que o canto volta, cada vez mais, a ser um chamariz para a socialização, para a interação e para o crescimento e realização pessoais, tenho vindo a constatar que quando apresento este «sítio» aos meus alunos, é com grande atenção, curiosidade e satisfação que me pedem para o pesquisar também com eles. Estruturado e construído para um acesso fácil e intuitivo, este «oásis musical» construído em Portugal tem tudo para dar certo: uma autoria credível, sábia e competente; um grafismo e cromatismo atraentes; colaboradores habilitados e criativos; harmonizações atrativas; arranjos eficazes e atuais; textos formativos, tutoriais e glossários apelativos e acessíveis… Enfim tudo aquilo que há muito tempo aguardávamos. Agora já não há motivo para não cantar mais. Seja quando, onde, e com quem for. Quem sabe, comigo?! Ou contigo… 20 de dezembro de 2015

80


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Para que - uma vez por todas a produção cultural algarvia se transforme em património de todos nós Sempre que saio para visitar outras localidades portuguesas, mais do que observar o que a natureza delas fez, tento apreciar a forma como a mão do homem as tornou ainda mais admiráveis, aprazíveis e apetecíveis. Neste constante olhar observador e contemplativo tenho vindo a constatar como certas cidades e regiões se têm afirmado através da sua relação programada, sustentada e continuada com a Cultura… a sua Cultura. Sem qualquer laivo de regionalismo demagógico ou bacoco, penso que investir na produção artística de um determinado local define-o, caracteriza-o, individualiza-o e potencia-o. Sinto-o quando registo que as obras artísticas que me são dadas a apreciar têm na sua génese e construção os traços identitários de quem as construiu. São essas características que, de forma indelével e subliminar, nos fazem também valorizar e querer voltar aos locais visitados. Quando oiço - e constato in loco - que determinados locais do nosso país estão «na moda», facilmente percebo as razões que os levaram a ser mimoseados com tal epíteto. O investimento planificado, estruturado e diversificado em determinadas áreas

81


PAULO CUNHA

nucleares tem vindo a aumentar consideravelmente a qualidade de vida das suas populações e isso reflete-se na forma como recebem quem as visita. Com admiração, mas também com alguma inveja à mistura, registo que, a exemplo do que há muito tempo se faz «lá fora», os artistas de determinadas regiões integram também o cartaz de visita que as torna tão acarinhadas e procuradas pelos autóctones e forasteiros. Integrando o «pacote», a cultura da região é mais um garante e potencialidade no selo de qualidade da mesma, tornando-a assim património imaterial exportável. Sentindo na pele o desinvestimento na produção cultural algarvia registado nos últimos anos, onde grande parte das autarquias algarvias se socorreu da carolice de artistas amadores e da (muito) boa vontade de alguns profissionais, concentrando os gastos com o setor cultural na habitual contratação sazonal de nomes firmados da animação nacional/internacional, penso ser mais do que a altura de «dar um murro na mesa» e «falar grosso» com quem tem a responsabilidade e o dever de proteger, acarinhar e incentivar o que por cá se faz. Já basta de tratar os artistas algarvios de forma sobranceira, displicente e até imoral! Como em qualquer setor da sociedade, a produção cultural necessita também de investimento. Os agentes culturais têm os mesmos encargos diários que o comum dos mortais, e como tal precisam que quem administra o dinheiro dos nossos impostos trace políticas de apoio antecipado e estruturado à produção cultural da região onde se inserem, e à qual são, ao mesmo tempo, devedores e credores. Sem apelar aos maus hábitos da subsidiodependência, penso que se pode manter vivo e pulsante o tecido artístico da região algarvia. Como? Patrocinando a encomenda, produção, realização ou edição de obras que servirão como referência cultural atualizada da região para os algarvios e para todos os que nos visitam; apoiando, eficaz e merecidamente, as associações e estruturas culturais geradoras de

82


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

atividades não lucrativas; fomentando e impulsionando a globalização das várias vertentes artísticas, conjuntamente com outras referências identitárias da região; programando em rede para que se torne possível permutar e partilhar atividades culturais de relevo entre os vários municípios algarvios; criando uma bolsa/listagem de artistas residentes que garantam uma representação fiel e condigna no resto do país do atual «Algarve Cultural»; planificando e estruturando uma programação anual atempada, assente na promoção e divulgação da produção cultural realizada em todo o distrito; promovendo residências e intercâmbios artísticos; valorizando o ensino artístico como garante de continuidade, crescimento e afirmação cultural da região. Esperando que todos os organismos oficiais e privados que tutelam a Cultura me oiçam, desejo que seja este o ano da mudança… para melhor. A arte - a sul - agradece! 7 de janeiro de 2016

83


PAULO CUNHA

Então: «Vá-de-Viró» para todos vós! Quando em setembro de 1992 um grupo de jovens alunos me interpelou numa das escadarias do Conservatório Regional do Algarve (Faro), questionando a possibilidade de poder vir a coordenar uma classe de conjunto alternativa e complementar às que então existiam, estava longe de imaginar que, volvidos mais de 23 anos, hoje dedicaria o meu tempo a um grupo que cresceu comigo e que me ajudou a crescer. Prontamente o desafio foi aceite e daí nasceu um agrupamento com caráter académico e pedagógico que se veio a denominar «Grupo de Música Tradicional do C.R.A.». Cedo percebi que uma das formas de o fazer crescer seria convidar para o integrar, gente que «soubesse da poda», com conhecimentos adquiridos na escola musical da vida e, o mais depressa possível, dálo a conhecer ao mundo. E assim foi… Quando demos por isso estávamos a tocar em todo o Algarve, divulgando a «nossa» música e a instituição à qual pertencíamos. Um ano depois sentimos o natural desejo de batizar o grupo com um nome que o identificasse em termos do género musical, do objetivo, e da região de proveniência. «Vá-de-Viró» foi decisão consensual, pois o seu significado (frase utilizada pelos pescadores algarvios com a qual se dá ordem para fazer virar o barco quando se pretende recolher as redes de pesca) assentava que nem uma luva no seu propósito quanto ao destino da música de cariz tradicional.

84


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Tendo a sua música chegado aos ouvidos de um produtor musical responsável por uma editora internacional dedicada à edição de música étnica (Playa Sound), prontamente foi convidado para gravar um disco (Escale au Portugal) com distribuição mundial. Daí, e por consequência, começaram as primeiras digressões internacionais (Canadá, Alemanha e Espanha). Com a desvinculação da instituição onde nasceu e a inevitável saída e entrada de novos elementos com formação e percursos musicais diferenciados, em conjunto com o consequente crescimento musical e artístico dos seus membros, cada novo registo discográfico veio a refletir mudanças constantes num som que um crítico musical apelidou de “original e… muito Vá-de-Viró”. Sendo um grupo que tocava, pelo menos, mais do que uma vez por mês, com o passar do tempo transformou-se num grupo hibernado, condenado como muitos outros grupos algarvios a deixar de existir, a ter que mudar de nome ou a «travestir-se». Hoje, com um naipe de músicos de exceção que se respeitam e admiram enquanto profissionais, e que adoram tocar juntos, continuam, abnegada e estoicamente, a encontrar-se apenas para desfrutar do prazer que a sua música lhes proporciona. Muitos algarvios ficam admirados e impressionados por saber que o grupo ainda existe, pois nunca mais dele ouviram falar, outros questionam as razões porque não são convidados a tocar na região de onde são oriundos pois (tal como o vinho do Porto) cada vez estão melhores… Não respondendo publicamente, sabem de antemão que não tocando no «seu» Algarve jamais serão conhecidos e reconhecidos no resto do país. Obviamente tenho refletido muito sobre as razões que fizeram com que tantos grupos musicais que fizeram parte do nosso património musical algarvio tenham cessado a sua atividade. São por demais evidentes, e somadas tiveram efeitos nefastos e irreversíveis na produção musical da região. Porque os velhos hábitos, estigmas e

85


PAULO CUNHA

preconceitos passam de geração em geração, muitas das entidades públicas e privadas que contratam músicos fazem-no com base nos pressupostos com que a generalidade dos programadores e produtores usam na sua escolha: o que é novidade é que «pega»; o que vem de fora é que é bom; o que está na moda é que vende; se não passa na rádio e televisão não interessa; se é da região tem qualidade inferior; se é da terra toca à «borla» ou com um grande «desconto» no cachet, para assim se promover. Efetivamente está na altura de dar um grande vá-de-viró nesta forma encapotada de desprezar o que é nosso. De que serve apregoar aos quatro ventos a nossa grandiosidade, quando os atos revelam a pequenez de quem os pratica? Não há maior afirmação de uma região do que aquela que é feita com a sua cultura! E não é preciso sair do Algarve para o constatar… 14 de janeiro de 2016

86


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Diz-me o que ouves… Nunca estranharam ouvir sempre as mesmas músicas na estação radiofónica que elegeram como sendo aquela que vos acompanhará no automóvel, no trabalho ou em casa? Já repararam que as ditas músicas obedecem a um padrão, a um estilo musical definido e a determinadas interpretações e intérpretes? De tal forma que cada estação acaba por se definir e catalogar através da música que passa. Invariavelmente, no início de cada ano letivo sei através das respostas dos meus alunos quais são os cantores e grupos musicais que «estão na berra». Basta perguntar-lhes que género de música é que ouvem e grande parte apelida-o de «RFM», «Antena 3», «Cidade», «Comercial» ou outro parecido. Basta sintonizar o rádio numa destas estações e, recorrente e repetidamente, esbarro num dos nomes de grupos e intérpretes que através deles conheci. Tendo crescido num tempo em que os radialistas levavam os seus discos para o estúdio e produziam e realizavam o seu programa tentando cativar e agarrar a atenção do ouvinte, e assim fidelizá-lo para aquela hora radiofónica, é com algum agastamento e até uma «pontinha de saudade» que hoje vejo estes programas de autor reduzidos e confinados às poucas rádios locais existentes.

87


PAULO CUNHA

Hoje, as músicas são alinhadas num «power play» que dispara automaticamente em programação devidamente agendada no computador. Ao apresentador resta apenas emprestar a sua voz a programas que mais não servem do que modelar e condicionar a apreciação e o gosto de quem os ouve. Servindo de fonte de financiamento para conglomerados empresariais detentores de empresas de comunicação, a «venda» de determinados artistas e géneros musicais é um negócio apetecível para quem com eles quer ganhar dinheiro. Não é assim de estranhar que as editoras multinacionais comprem tempo para através das ondas hertzianas promoverem e venderem os seus produtos. De tal forma que acabam por «secar» tudo à volta, impedindo a promoção de qualquer edição de autor ou de editoras independentes. E assim acabamos a ouvir o que não queremos, o que não gostamos e até o que aparenta ter qualidade duvidosa. Mas o que dizer dos mais jovens, aqueles que através dos programas de rádio, de tv e até de youtube acabam por moldar o seu gosto à incumbência de quem os «massacra» com os mesmos «artistas» de sempre? Por isso, e por muito mais, não estranhei quando constatei que o kizomba (música e dança de pares de origem angolana) tinha «invadido» Portugal. Bastou saber quem foi que financiou tal operação nesta porta da Europa onde a mesma língua ajudou a disseminar um ritmo que é hoje um dos preferidos de muitos portugueses. É caso para pensar no que aconteceria se quem tem o saber, a competência e os meios para o fazer, investisse na música de origem portuguesa nos países onde a nossa língua também se fez pátria. O problema é o mesmo de sempre: enquanto Portugal servir apenas como porta de entrada seremos sempre um público atento, maravilhoso, carinhoso, reconhecido… em relação aos outros, os de fora! 21 de janeiro de 2016

88


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Deixa estar! Pegando na frase “Laissez faire, laissez aller, laissez passer” (deixai fazer, deixai ir, deixai passar), usada sobretudo por quem defende o liberalismo económico, é fácil extrapolar o seu primeiro sentido para o que hoje se passa nas escolhas que metade da população portuguesa faz para a sua vida. Não o fazendo - na maioria - com tal intuito, a demissão que um em cada dois portugueses coloca nas escolhas cruciais para o seu destino acaba por ter o mesmo efeito, deixando a vida correr o curso idealizado por quem já a destinou. Começando em contexto familiar, transportado para o universo escolar e, mais tarde, devidamente cristalizado nas relações socioprofissionais e comportamentos cívicos, esta forma displicente, desprendida e amorfa como muitos dos seres com que privamos encaram a vida, faz-me pensar que tal atitude é terreno fértil para a manietação e absoluto controlo por parte de gente menos séria e escrupulosa. “Porque sim!”, logo seguida de “Deixa estar!...”, são frases-bordão impensadas que muitas vezes (demasiadas) ouvimos como resposta ao porquê de determinadas atitudes e, ao mesmo tempo, justificar a incompreensão, demissão, omissão e negação perante a assunção de uma posição perante assuntos e matérias nucleares e fundamentais para a vida de todos nós. Tendo tido a honra e o privilégio de privar com cidadãos portugueses que deram tanto de si e dos seus para que a democracia

89


PAULO CUNHA

fosse hoje uma realidade, custa-me constatar que cerca de metade da população portuguesa não exerça um dos direitos mais nobres, importantes e consequentes consagrados na Constituição Portuguesa: o direito ao voto. Não sendo obrigatório, muitos deixaram de o encarar como um dever cívico enquanto decisores políticos, sociais e morais, motivando assim um progressivo alheamento e demissão em relação à causa pública. Escalpelizadas, esmiuçadas e debatidas por sociólogos, politólogos e comentadores, as razões são por de mais evidentes. Todos os que abdicam de escolher, passando ao seu congénere a «procuração» de decidir por si terão, por certo, uma razão para o fazer… Mas será que a ponderaram e maturaram suficientemente para que mais tarde não venham a ser confrontados com as consequências de tal decisão, quando derem conta que estão a criticar as escolhas dos outros? Aceito e concordo com a legitimidade da abstenção enquanto tomada de posição perante o progressivo descrédito que a política partidária tem vindo a merecer por parte dos cidadãos mais esclarecidos. É, sem qualquer margem para dúvida, uma atitude mais coerente do que votar no mal menor, pois “Mal por mal, o mal já está feito… e não é para repetir!”. Mas o que dizer de todos aqueles que, como eu, sentem que a história se constrói com a soma das «cruzinhas» que fazemos no boletim da história? Não será já altura de todos os que sabem a razão pela qual não votam, de fazer algo a título pessoal e/ou coletivo para que os verdadeiros independentes das «tricas, trocas e baldrocas» partidárias coloquem outra vez os portugueses a gostar de si? Sim! Gostar de nós passa por depositar a nossa confiança em quem a merece… e porque o futuro não se delega, construamo-lo com a participação de todos! 28 de janeiro de 2016

90


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Ó «nosso» Algarve É comum ouvir gente que saiu do Algarve dizer que tal foi necessário para, finalmente, conhecer a real dimensão, peso e importância desta província portuguesa. Gente que, invariavelmente, saiu com vontade de ficar e que, não o tendo feito, volta sempre que pode, adiando o inevitável e definitivo regresso. Afinal de contas: quem nasce ou «renasce» numa terra abençoada pela natureza, sente-se abençoado por nela passar o resto da sua vida! É um facto, a importância das coisas é aquela que lhes damos! Basta imaginar o que sentirão os peixes que vivem dentro de um pequeno aquário… para eles, aquele é o seu mundo e basta-lhes, não imaginando sequer o quão diminuto e restrito o é face ao oceano. Daí a importância de sair para perceber que a grandiosidade dos recursos naturais e a forma como os autóctones os gerem não tem sido merecedor, por parte de quem nos governa, do devido e merecido crédito e mérito. Por ser a habitual «casa de férias» de muitos portugueses durante cerca de três meses por ano, vulgarmente apelidados de «silly season», para demasiados o Algarve funciona como uma espécie de estância turística que, a exemplo de muitas unidades hoteleiras, também fecha nos restantes meses. Basta ouvir a forma como falam

91


PAULO CUNHA

desta região para além dos meses de verão, e a importância que lhe é dada comparativamente a outras que estão cada vez mais a ser noticiadas pela forma como gerem os seus recursos naturais em proveito dos seus habitantes e visitantes. Em termos de contexto contributivo, em relação a todas outras é uma das províncias que mais riqueza gera. Por assim ser e por ser já um dado adquirido, tem vindo a desmerecer a atenção de quem tem responsabilidade de acautelar a manutenção, crescimento e valorização de todos os outros setores de produção desta província. Refém da ideia errada que o Algarve existe exclusivamente de, e para o turismo, e onde nada acontece para além do período de lazer e ócio, temos vindo (algarvios) a sentir na pele o descrédito e abandono por parte de quem olha para o Algarve apenas como um grande e vasto areal que se espraia pela costa. Por isso não é de estranhar ouvir tantos a queixar-se que nada do que por cá fazem chega para lá do Alentejo, quanto mais alémfronteiras!? Mas como poderemos nós mudar este estado de coisas, dando ao Algarve o devido e merecido destaque, tornando-o notícia para além das súbitas e imprevisíveis alterações meteorológicas e suas consequências? Sou daqueles que advoga e defende que pensar e agir «em grande» ensina-se e aprende-se nos bancos da escola. De pequeno, como em tudo! Olhando para esta região inserida num todo global e uno; com orgulho e perseverança; sem a mesquinhez e a falsa modéstia dos subservientes; afirmando ideais; negociando e debatendo contrapartidas; promovendo e criando pontes interregionais. Para que o Algarve, o tal destino de férias para onde todos rumam quando querem ficar «silly», não seja visto aos olhos de quem nos visita como uma região onde apenas se descansa e pouco mais acontece, é altura de nos deixarmos de «provincianices» regionalistas e começarmos a pensar e a agir como portugueses de primeira. Que o somos! 4 de fevereiro de 2016

92


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Quando os nossos «fusíveis» fundem… Foi sem grande surpresa que, mais uma vez, ouvi noticiado num canal televisivo que “Um estudo realizado com cerca de mil professores de escolas portuguesas revelou que 30 por cento dos docentes padeciam da síndrome de burnout, ou seja, estavam exaustos emocionalmente e sem qualquer sentimento de realização profissional”. Este estudo levado a cabo durante três anos, entre 2010 e 2013, por uma equipa de investigadores do ISPA - Instituto Universitário teve como base os resultados obtidos na inquirição feita a cerca de mil docentes que davam aulas a alunos do 2.º, 3.º ciclos e ensino secundário. Tendo como objetivo perceber se existiriam mais docentes em stress ou em burnout, no final verificou-se que 30 por cento dos professores estavam em burnout, uma percentagem que fica um pouco acima dos números habituais registados nos outros países, que rondam entre os 15 e os 25 por cento. Apurou-se também que a maior parte dos docentes em burnout são mais velhos, têm vínculo à função pública e dão aulas no ensino secundário. O estudo revelou ainda que existem entre 20 a 25 por cento de docentes que sofrem de stress, ansiedade e depressão. Convém também referir que o estudo foi feito numa altura em que se registaram algumas mudanças, tais como a avaliação de professores, o aumento de alunos por sala de aula ou o aumento da idade de reforma. Não sendo exclusiva do sistema educativo, esta maleita afeta também todas as profissões com contacto constante, direto e prolongado com pessoas, aliado também a uma dedicação exacerbada à atividade profissional. Tendo em conta todas as mudanças sociais e políticas, o burnout começa já a ser um problema

93


PAULO CUNHA

social de extrema relevância devido à exaustão emocional e falta de realização profissional. Afeta não só o professor, mas também o contexto educacional, uma vez que o mal-estar sentido pode originar problemas de saúde, perda de motivação, irritabilidade, aumento dos níveis de absentismo e abandono da profissão, o que pode interferir na realização dos objetivos pedagógicos propostos. A síndrome burnout (do inglês to burn out, queimar por completo) é um processo lento que se vai instalando e acaba por ser detetado quando a exaustão ultrapassa um determinado limite, a realização profissional diminui e o cinismo aumenta, altura em que muitos já não têm força para se controlar. Acontecendo, por norma, a meio da carreira, entre os dez a quinze anos de atividade, é típico em pessoas altruístas que se dedicam muito ao emprego e pode ser afetado por outras características individuais, como por exemplo o estado civil, sendo mais propensos os não casados ou sem relação afetiva estável. Os sintomas psicológicos do burnout podem ser um cansaço extremo, falta de paciência para atender os outros, o que é grave em profissões de ajuda como os bombeiros, polícias ou médicos. Atitudes depressivas, irritabilidade, autoagressividade ou heteroagressividade, sensação de vazio e cansaço físico e emocional extremo são outros sintomas. Tendo mais de três décadas de interação, observação e análise do sistema educativo onde, profissionalmente, me insiro, tenho na apresentação e análise destes dados um motivo de preocupação acrescido, pois enquanto professor e encarregado de educação aflige-me e preocupa-me constatar que um em cada três professores portugueses está em burnout. De que serve, e a quem serve ter as luzes do conhecimento apagadas? É que com os «fusíveis fundidos» não há luz que se acenda na aprendizagem dos nossos alunos. Para bom entendedor… 11 de fevereiro de 2016

94


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

O ócio criativo Pode parecer descabido e até um contrassenso vir aqui opinar sobre a importância de «fazer nada» (que não é o mesmo que nada fazer), quando tantos por cá andam a tentar - desesperadamente arranjar alguma coisa para fazer. De preferência, remunerada!... Numa altura em que as consequências provocadas pelas desigualdades sociais tornam urgente uma real tomada de consciência e de posição sobre o papel e a contribuição de cada um na vida dos outros, urge conseguir arranjar tempo para pensar. Simplesmente… O sociólogo italiano Domenico di Masi, defensor que as pessoas deveriam reservar uma parte do seu dia para fazer nada, porque só assim seriam capazes de ter boas ideias e, consequentemente, terem tempo para criar, coloca-me em absoluta consonância e concordância com tal teoria! Vivendo num mundo e num tempo onde as palavras-chave para o «sucesso» são motivação, iniciativa, rendimento, e onde, cada vez mais, a pressão laboral é exercida na pessoa a partir de dentro de si e na necessidade de ser produtiva, empreendedora e audaz, torna-se premente tentar arranjar mecanismos que nos ajudem a lidar com o facto de tal nem sempre vir a ser concretizável. Numa sociedade onde o trabalhador modelo é o trabalhador capaz de realizar múltiplas tarefas em simultâneo e na perfeição, do «yes, we can» e do «like», torna-se urgente ensinar os jovens a aprender a lidar com o fracasso, experiência fundamental numa vida humana em construção e mutação.

95


PAULO CUNHA

A história conta-nos que foram nos longos períodos de atenção, silêncio e concentração que surgiram as grandes criações humanas. Do mesmo modo, as nossas relações familiares sofrem quando somos incapazes de lhes conceder a nossa total atenção, algo difícil no meio de todas as distrações e solicitações que nos atingem. O excesso de informação, de comunicação, de emoções e de objetivos provocam no individuo dispersão, incapacidade de estar centrado e desgaste mental e físico. Trazendo também a este texto o filósofo Byung-Chul Han, aqui partilho a necessidade urgente de reaprender o dom da atenção, da escuta, do silêncio, do deter-se, do dar espaço, do não cair nas «engrenagens» de consumo e produção, para que o ser humano não se converta “numa máquina de rendimento, cujo objetivo consiste no funcionamento sem alterações e no máximo de rendimento”. Trata-se de crescer na pedagogia do olhar: “Aprender a ver significa acostumar o olho a observar com calma e com paciência, a deixar que as coisas se aproximem dos nossos olhos, quer dizer, educar o olho para uma profunda e contemplativa atenção, para um olhar alargado e pausado.” Fazer nada é, tão simplesmente, acrescentar às nossas vidas janelas temporais onde possamos ver para além da modorra dos dias préfeitos. Transformar os pequenos «nadas» em folhas de papel onde, na sua brancura e candura, possamos redesenhar uma nova vida. Uma vida digna de ser vivida! A nossa… 18 de fevereiro de 2016

96


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Tira um «Curso a sério»! Muitos que no «seu tempo» ouviram da boca dos seus pais as costumeiras frases “Tens que estudar para ser alguém na vida!”, ”Tira um curso a sério!” ou “Vê lá se essa área tem saída!?”, dizem-no agora com o mesmo paternalismo, convicção e esperança com que os seus progenitores o disseram. O tempo passa mas os velhos tabus sociais que nos foram incutidos por todos aqueles que ajudaram a construir os alicerces da atual sociedade de consumo, mantêm-se. É uma herança cultural que, duma forma ténue e lenta, tarda em mudar. É inquestionável a importância de adquirir conhecimentos seja em que área for, para, sobretudo, nos enriquecermos moral e intelectualmente, independentemente do rótulo e dos prémios e regalias que a sociedade nos venha a atribuir na sua hierarquia do «quem é Quem». Toda a gente é alguém na vida! Na vida de quem prezamos e nos preza. É isso o mais importante, pois para além do usufruto inconsequente e ostentação mundana de bens materiais, o bem-estar dos «nossos» acaba por ser o garante da nossa verdadeira importância nesta curta passagem terrena. Quando alguém faz a destrinça qualitativa entre o sério e o menos sério no que à importância profissional diz respeito, coloca-se a questão se a mesma é dada apenas pelo índice de empregabilidade, da média salarial, da capacidade de progressão, do status social ou também contempla a satisfação, a realização, o preenchimento e a felicidade pessoal de cada um. Não serão também os ditos cursos

97


PAULO CUNHA

inferiores, aqueles que não sendo superiores tornam a nossa vida superior? Afinal de contas tira-se um curso para ser superior a outrem ou para tornar superior a nossa aprendizagem da vida, na vida e para a vida? Observando a forma como muitos educadores tentam condicionar as escolhas vocacionais dos seus educandos, em nome de uma projetada e muito almejada «saída profissional», tenho vindo a constatar que nos seus percursos académicos muitos desses alunos hipotecam e vilipendiam a sua felicidade em nome duma aparente certeza e segurança profissional. Entendo o desejo de qualquer pai que os seus filhos encontrem uma forma de subsistência que lhes garanta a possibilidade de também constituir família. Mas a que custo?... Apeteceu-me aqui desabafar este estado de espírito após ter ouvido um comentário de um jurado dum concurso onde é avaliado o talento dos concorrentes. Artista de formação e de convicção, aconselhava um jovem a continuar a investir o seu tempo e energia, dedicando-se «de alma e coração» àquilo que o fazia feliz: a arte onde mostrava vocação e competência. Tendo finalizado a dissertação com o eloquente e assertivo conselho: “Não ligues a quem te diz para tirares um curso a sério. Um curso a sério é o que fazes!”. Apetece-me perguntar-vos o que é hoje um «curso a sério». Não podendo, deixo-vos aqui a questão para colocarem aos vossos filhos… Talvez eles saibam! 25 de fevereiro de 2016

98


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Adversários ou inimigos? Embora, aparentemente, as palavras «adversário» e «inimigo» possam carregar com elas os piores sentimentos da natureza humana, há no seu significado muito que as distingue. Depois duma consulta atenta a qualquer dicionário de língua portuguesa, poderemos verificar que aquele que se eleva contra outro para lhe disputar a posse de uma coisa ou o triunfo de uma ideia é um adversário; sendo que alguém hostil, prejudicial e nocivo é considerado inimigo. À força de tanta ser pronunciada, já se tornou um cliché a ideia que na vida partidária os inimigos estão dentro dos próprios partidos e os adversários nas outras forças partidárias. Assim sendo, e a ser verdade, causa-me alguma admiração e até perplexidade observar como é que tanta gente se sujeita ao escrutínio e análise pessoal para a respetiva aprovação na filiação em grupos onde, supostamente, irão sofrer!?... Sim, porque ninguém se sujeita a sair de casa para estar com certas pessoas que, apesar dos apertos de mão e das palmadinhas nas costas, os tratam com cinismo, hipocrisia e desrespeito… a não ser que os ganhos e as mais-valias superem todas essas vicissitudes. Bem, mas isso é lá com os «camaradas» e «companheiros», pois se lá estão é porque assim o quiseram, ninguém os obrigou!

99


PAULO CUNHA

Mas o que dizer dessa mesma situação em realidades onde não podemos fugir nem dizer que não? Refiro-me, obviamente, à grande parte das classes profissionais existentes. Nos seus locais de trabalho, profissionais qualificados acabam por passar um terço do dia, sujeitos a disputas estéreis e insanas com algumas pessoas que trazem o pior da natureza humana para a sua profissão. Por despeito, por inveja, por pequenez intelectual e até por malvadez, inquinam relações laborais e consequentemente tornam as respetivas classes profissionais mais frágeis. Colocando-se assim numa posição em que serão mais fáceis de manipular por interesses externos, menos produtivas e eficazes, e mais atreitas a críticas, sujeitam-se a alguns julgamentos infundados por parte de certos setores da opinião pública. Por analogia comparo este tipo de comportamentos primários ao que muitos fazem nos estádios de futebol: enquanto os adversários jogam, o público injuria-se e agride-se com os requintes de malvadez próprios de verdadeiros inimigos. Não adianta pois falar dos outros, quando é no âmago de quem fala que reside o problema. Basta parar para pensar e quantificar quantos inimigos fizemos por comportamentos não amigos para com eles. Muitos?... Poucos?... Nenhum?... Na resposta reside a relação que temos com a vida. E em devido tempo a vida retribuirá! 4 de março de 2016

100


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

365 dias Mulher Agora que o dia em que simbolicamente se homenageia e celebra o género feminino já passou - e porque, da mulher, todos os dias o são - sinto-me ainda mais compelido em aqui deixar o meu modesto, mas sentido contributo em relação a esta data carregada de tanto simbolismo histórico e civilizacional. Começo, antecipadamente, por pedir as mais sinceras desculpas a todos a quem as minhas palavras possam, de algum modo, parecer sexistas. Escrevo-as assumindo uma visão desejável de um mundo onde a única característica que nos diferencie não seja o género, mas unicamente o sexo com que nascemos. Humanos apenas… Considerando-me um privilegiado por, desde sempre, ter trabalhado num mundo laboral (Educação) onde as mulheres sempre estiveram em maioria e sempre desempenharam lugares de coordenação e direção, tenho a plena noção que vivo numa «bolha» onde a realidade diária não espelha as desigualdades e assimetrias profissionais que grande parte das mulheres sentem no seu dia-a-dia em diversos contextos geográficos, socioeconómicos e socioculturais. Continua a «fazer-me espécie» consagrar um dia à mulher, pois da forma como é aproveitado e usado por algumas, sempre me pareceu redutor e até banal, tal a importância do evento histórico que a data evoca. Mas o que mais me confrange e preocupa é constatar que muitos dos jovens com quem convivo diariamente inculcaram a ideia que este dia é o dia em que as mulheres ficam dispensadas de fazer as «tarefas de mulher» para assim puderem festejar o «seu dia».

101


PAULO CUNHA

Seja nas relações profissionais, sociais ou familiares, a mulher continua a carregar e a ser vítima de um fardo demasiado pesado, assente na tradição, cultura e religião, onde o preconceito e o estigma continuam a minar e a condicionar uma plena vivência democrática e igualitária entre seres humanos. Diferentes entre si, iguais nos direitos e nos deveres! Tão simples na teoria mas tão longe de ser verdade numa realidade onde a educação, ou a falta dela, tem um peso central e primordial. Sejam homens ou mulheres, quanto mais sensibilizados e alertados para a necessidade de mudar o que não está bem, em prol duma sociedade onde a palavra «todos» abarque efetivamente os dois géneros, mais rapidamente teremos uma sociedade mais feliz e realizada e, consequentemente, mais produtiva. Ao contrário do velho discurso de certas avós que, não raras vezes, desabafavam a «maldição» de terem nascido mulher, enquanto ao mesmo tempo bendiziam a sina dos seus filhos homens, a atualidade tem vindo a garantir a afirmação, o orgulho e a satisfação de ser e viver a feminilidade em toda a sua plenitude. Colocar na ordem do dia a discussão da justa e devida paridade entre sexos não tem dia. É um erro crasso eleger apenas o homem como causador principal da desigualdade de direitos e deveres entre géneros, tendo em conta que muitos dos comportamentos que se perpetuam de geração em geração são incutidos através da assimilação dos modelos familiares. Lutar pelos direitos da mulher não constitui uma guerra entre sexos. É uma luta que deverá ser feita a dois (mulher e homem), onde os principais vencedores serão os vindouros, herdeiros e transmissores de uma nova forma de pensar, estruturar e viver a vida. Para que todos os dias sejam «Dia do Ser Humano»… simplesmente! 11 de março de 2016

102


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Pai, um dia é pouco! O primeiro registo de que há conhecimento como homenagem ao pai tem já quatro mil anos e foi encontrado por arqueólogos, escrito em argila, na antiga Babilónia. Reza a história que tudo começou em 1910 nos Estados Unidos da América, quando uma americana deu início a uma petição sugerindo uma celebração aos pais, depois de ter ouvido um discurso de homenagem às mães. O seu pai tinha-a criado sozinho, conjuntamente com seus cinco irmãos, pelo que inicialmente o «Dia do Pai» era festejado na data do seu aniversário, a 19 de Junho. Hoje celebra-se no dia de S. José, em Portugal e também noutros países. Sou daqueles que acha que tudo o que é realmente importante na vida deverá ser celebrado, dignificado e homenageado todos os dias. Sem dia marcado para nos lembrar que muito do que somos o devemos aos nossos pais, «Pai e Mãe» são a maior instituição desde que o «mundo é mundo». Não há como negá-lo! Nem as exceções, que infelizmente as há, poderão condicionar esta celebração a um mero dever com dia programado. O amor não tem dia marcado! Para além do mercantilismo próprio das sociedades de consumo, associado a todas as datas onde tudo tem dia e todo o dia é dia de comprar para oferecer, festejar quem nos gerou e educou deverá constituir um referencial para todos os dias desta nossa curta passagem. A melhor forma de o fazer é mostrar-lhes, presencial e

103


PAULO CUNHA

efetivamente, o amor que por eles nutrimos. Confinar a expressão e transmissão de afetos aos nossos pais a dias datados, marcará irremediavelmente o momento em que com eles quisermos estar e eles já cá não estarão. Porque para o inevitável a contagem é decrescente e há muito começou… Quando oiço falar em «Dia do Pai» vêm-me imediatamente à memória todos aqueles pais que, separados da mãe dos seus filhos, se veem, por decisão judicial, na contingência de sentir na pele, e no coração, a terrível sensação de só poderem estar com os seus filhos dois fins de semana (quatro dias) por mês. É neles que penso quando oiço jovens que, com lágrimas contidas e palavras embargadas, me relatam que não puderam fazer com os pais tudo aquilo que lhes sugeri e solicitei, pois só estão com eles de quinze em quinze dias. Estou, obviamente, a referir-me a todos aqueles pais que o quiseram ser e todos os dias o comprovam, agindo como tal. Aqueles que se veem para além das funções de progenitores, mantedores e cuidadores. Aqueles que educam, ensinam e, sobretudo, compartilham diariamente com os seus filhos a sua maior dádiva: o seu amor paternal. Aprende-se a ser pai, sendo-o! Entregando-nos a essa nobre missão e devoção, todos os dias descobrimos nos nossos atos tudo aquilo que o tempo se encarregou de apagar ou fazer esquecer da nossa memória. E como é bom redescobrir a nossa história através dos nossos filhos… Há mais de duas décadas que não lhe posso expressar o carinho, respeito e amor que continuo a nutrir por ele, mas não é o facto do meu pai já cá não estar que me fará deixar de falar dele no presente, pois sei que enquanto eu viver, ele viverá em mim. É essa a magia da paternidade: podermos viver para além do presente, projetando no futuro dos filhos tudo o que nos foi transmitido pelos nossos pais no passado. Essa sim, a verdadeira homenagem! 18 de março de 2016

104


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Uma vida inteira dentro duma mochila Falando com alguns jovens, perguntei-lhes o significado de refúgio. Grande parte deles, apesar da tenra idade, responderam-me prontamente ser um sítio onde poderiam encontrar segurança, ajuda e conforto. Perante tais afirmações, apeteceu-me perguntar-lhes o que achariam que os seus pais fariam se, de repente, se sentissem atemorizados e até aterrorizados se fossem perseguidos devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinados grupos sociais ou opinião política… mas não o fiz, pois pelo seu semblante fiquei desde logo esclarecido sobre qual seria a sua resposta. Tendo em conta as migrações forçadas, que estão a grassar por este «mundo fora», com especial enfoque e atenção por parte dos «media» para o êxodo registado em direção à «nossa» Europa, temonos vindo a confrontar com atitudes fraturantes, discriminatórias e xenófobas que, devido a estes eventos, estão finalmente a dar a conhecer com que massa foi construída esta União Europeia. Sob um terreno pejado de «minas ideológicas», enterradas em vários períodos da história, germinam agora as diferenças que continuam a fazer explodir desentendimentos no que aos direitos humanos concerne. Muitos de nós, manietados por um preconceito alimentado pelas diferenças socioeconómicas, diferenças étnicas, diferenças raciais, diferenças culturais, diferenças religiosas e muitas outras que continuamos a sublimar, assistimos - impávidos e serenos - a uma realidade humilhante que a qualquer «homem de boa vontade» envergonha.

105


PAULO CUNHA

Mais do que chamar à razão quem da razão pouco uso faz, urge fazer a transferência e projetar para a nossa realidade diária, a realidade de gente que, dum momento para outro, se viu espoliada de toda uma história de vida. Gente que para além da roupa que traz no corpo, traz na sua pequena bagagem os despojos de uma luta que não foi, e continua a não ser, a sua. Gente que guarda como maior tesouro a memória de um passado construído a pensar num futuro melhor e apenas tem a certeza de um futuro desconhecido repleto de incertezas, dúvidas e angústias. Já, por um momento que seja, experimentaram colocar-se na pele destes seres tão humanos quanto vós, e que se sujeitam às piores e inimagináveis provações e agruras, colocando a todo o momento em risco a sua vida e a dos seus? Para chegar a esse ponto é preciso ter atingido o «fim da linha». Ninguém foge para o desconhecido porque quer, mas porque a isso é obrigado. Fogem para longe do fogo que lhes queimou a alma, saltando desamparados para um futuro incerto. Não ter medo nem preconceito de os amparar fará, por certo, a diferença. A diferença de quem os tornou refugiados. Da mesma forma que se aprende a discriminar através dos (maus) exemplos que temos por perto, também se aprende o valor da compreensão, do respeito, da partilha, do altruísmo e da solidariedade, quando colocamos esta forma de estar e de ser como referências educativas para quem connosco priva. Num mundo em constante mutação, será essa a maior e melhor herança que poderemos deixar aos nossos descendentes: sementes de paz! 24 de março de 2016

106


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Querida avó, querido avô… Há já alguns anos que é possível encontrar nalguns sítios alojados na Internet, um texto sobre os avós, pretensamente escrito por uma menina de oito anos. Reza o seguinte: “Uma avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem “Despacha-te!”. Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam histórias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós. Toda a gente deve fazer o possível por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão”. Texto escrito com a inocência própria de uma criança e focalizado na figura da avó, pode - e deve - ser direcionado e interpretado no universo dos dois avós em geral. É um facto, é impossível lê-lo sem ser contagiado pelas palavras ternurentas, cândidas e até humoradas com que uma neta vê e presenteia a sua avó! A ligação entre netos e avós é uma ligação única, diferente daquela que os mais novos têm com os pais e da que têm com outros adultos, sejam eles familiares ou não. Criam-se laços marcados por uma profunda ternura, pela experiência e também pela ausência da responsabilidade final enquanto educadores, podendo assim

107


PAULO CUNHA

desfrutar da relação de uma forma mais sã, alegre e descontraída. Numa sociedade como a portuguesa, o papel dos avós é, na maioria das vezes, central e nuclear na vida das crianças. Ao criarem os pais, os avós transmitiram-lhes um conjunto de valores que muito provavelmente serão replicados na educação dos filhos. Ao passar tempo com os mais velhos, as crianças compreendem o que esteve na origem dos princípios da sua família, o que lhes transmitirá uma forte noção de pertença e de referenciais futuros. O avô e a avó são um porto seguro e os mais novos sabem-no, mesmo que de forma instintiva. Sabem também que não se relacionam com os mais velhos da mesma forma que o fazem com os pais. Por muito que a educação respeite os mesmos princípios, os cenários e os contextos são diferentes, acabando as crianças por se adaptar de forma imediata. Todos nós, pais, sabemos que na casa dos avós os mimos são mais do que muitos e não acabam… E ainda bem! Os avós ajudam a educar, mas também a «deseducar». Compram inúmeros brinquedos, guloseimas, roupas, etc. Deixam passar a hora de dormir. Permitem a quebra de certas regras… E ainda bem! São estas pequenas transgressões que, de forma inconsequente, permitem a estes pequenos seres em formação, viver e desfrutar uma infância única e insubstituível, a sua… Juntos integram a única e verdadeira instituição não oficial de beneficência e solidariedade social (os avós de Portugal), que de forma graciosa e benemérita ajuda a sarar as feridas provocadas por todos aqueles que nos obrigam a colocar a produção à frente da educação e fruição dos nossos filhos. Já pais, os nossos pais continuam a dar-nos «berço» e «colo» através dos nossos filhos. Possamos nós retribuir com a mesma afetividade, disponibilidade, dinamismo e dedicação que eles, benditos e preciosos avós! 28 de março de 2016

108


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Diz que vais da minha parte! Ao longo da história, apesar de perniciosos e lesivos, certos comportamentos tornaram-se tão comuns que, mesmo socialmente criticáveis, são hoje reconhecidos como intrínsecos à natureza humana. Vulgarizou-se chamar «chico-espertismo» a comportamentos assentes na batota, na falcatrua, no suborno, na corrupção, na usurpação e no engano. Uma forma de estar que se tem vindo a consolidar através da replicação das ditas atitudes. Desde que permaneçam na esfera privada de quem os pratica, muitos desses comportamentos são inconsciente e subliminarmente tolerados, tornando-se até desculpáveis. É curioso observar como, aos olhos de muitos, certas figuras se transformam, num ápice, de bestiais em bestas. Como se o poder, de um momento para o outro, os tivesse tornado pessoas desonestas, mentirosas e infratoras. Não serão os que, acérrima e veementemente, criticam, também possuidores das características que tanto censuram? Para um observador isento, e mais atento, é possível observar que havendo predisposição, a ocasião, inevitavelmente, fará o ladrão. E a predisposição cresce à medida que cresce o acesso ao dinheiro dos outros! Chegámos a um estado de coisas em que é possível ver adultos com responsabilidades a vários níveis e de vária índole a vangloriarem-se,

109


PAULO CUNHA

em círculos fechados, das «artimanhas, façanhas e patranhas» ilegais e imorais que usam (e abusam) para somar mais bens patrimoniais à sua existência. E quem não o faz é tomado por papalvo, ingénuo e até «totó»! A culpa não «morre solteira» sobre o pouco que nos vão deixando saber da atuação fraudulenta de alguns dos muitos poderosos. Sendo já um hábito escutar e ler que «eles vão para lá para se encher e para se governar!», seria interessante observar, em iguais circunstâncias, a atuação de muitos que usam tais tiradas como arma de arremesso pela inveja e despeito que sentem por lá não estar. Sobre Portugal alguém escreveu: “O povo português precisa de perceber que o problema de Portugal não é só a meia dúzia de políticos no poder (lá em cima), pois eles são apenas o reflexo dos mais de dez milhões de oportunistas (aqui em baixo). Os políticos de hoje foram os oportunistas de ontem!”. Sendo uma visão extremada e redutora do percurso histórico que nos levou a esta forma de estar assente num «nacional-porreirismo», alicerçado em «jogadas e esquemas», não deixa de haver um fundo de verdade nesta análise ao nosso Zé Povinho. Recordo-me como se fosse ontem, quando numa reunião mais acalorada um dos intervenientes «sacou» do seu telemóvel e nos disse: “Poder? Poder são todos os contactos que aqui tenho… De Presidentes da Câmara a Ministros!”. Na troca de favores, assente nas famosas «cunhas», vão-se construindo teias onde a ética, a moral, os valores e a competência são substituídos pelas «jogadas do costume». Como cantaria o músico/poeta do outro lado do Atlântico: “Começar de novo e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido. Ter-me rebelado, ter-me debatido, ter-me machucado, ter sobrevivido. Ter virado a mesa, ter-me conhecido, ter virado o barco, ter-me socorrido.”. Talvez assim!?… 7 de abril de 2016

110


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Intervir musicalmente?... Sempre! Se é impossível dissociar o 25 de abril da história da música contemporânea portuguesa, também é verdade que muito do que originou a revolução dos cravos começou a ser construído com palavras e notas musicais. Para além das estórias que ajudaram a construir a história de um país que iniciou uma revolução política com música, é de salientar a importância que muitos músicos de vários quadrantes musicais tiveram – e continuam a ter – na consciencialização cívica e política de muitos que (ainda) teimam em fazer a vida acontecer. Se atentarmos nas grandes revoluções, registamos que sempre houve escritores, músicos, pintores e escultores na sua génese, a provocar e estimular a consciência para aceitar a mudança. Fernando Namora, no caderno «Sentados na Relva» afirmou que "A arte era o nosso veículo de protesto; impunha-se que os romances e os poemas que escrevíamos fossem a voz desses homens cujo grito não era ouvido, fossem o registo de uma realidade iníqua que urgia denunciar e resgatar". Em Portugal as «canções da resistência» assumiram uma função social e política desde o princípio dos anos 60, nomeadamente com a eclosão da Guerra Colonial em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Muitos foram os poetas/músicos que encontraram a palavra e a música exata para esse momento. Mesmo aqueles que, aparentemente, não entraram na denúncia do regime, escreveram letras e músicas onde a revolta estava alegórica, subliminar e metaforicamente presente.

111


PAULO CUNHA

As «canções de resistência» ou «canções de protesto», consideradas após a revolução de abril de 1974 como «canções de intervenção», eram constituídas por poemas e músicas de denúncia e surgiam como forma de lutar por um mundo melhor. Possuíam uma mensagem universalista, livre de qualquer constrangimento social ou político. Na sua base estiveram, muitas vezes, poemas que exprimiam o sentimento de um povo oprimido e maltratado, com esperança de liberdade e justiça social. Noutros países, constituíram, sobretudo, canção de protesto de movimentos pacifistas e antibelicistas. Passadas as campanhas de dinamização cultural, as manifestações de engajamento partidário e o exacerbamento panfletário, eis-nos chegados a um tempo em que falamos deste período da história da música portuguesa já «devidamente» enquadrado no século passado. Mas estará a «música de intervenção» já arrumada numa das estantes da história destinada a ser periodicamente revisitada sempre que chega abril? Enquanto músico e professor tenho feito a minha quota-parte para que tal não aconteça! Sei também que por este país fora, muitos pedagogos, professores, divulgadores, jornalistas e músicos de vários géneros musicais imprimem às suas dissertações, ações culturais, criações e apresentações musicais, toda uma carga ideológica e cívica que não é indiferente a quem os escuta e com eles desperta para outra realidade diferente daquela que nos é «vendida» por muitos. Continuo a pensar que enquanto houver um músico/poeta que consiga juntar as 26 letras do alfabeto português e as 7 notas musicais com o intuito de lutar pela manutenção e preservação da liberdade e da justiça social, continuará a haver «música de intervenção» em Portugal. Até porque: “Músico de intervenção é aquele que intervém para além da Música!”. 14 de abril de 2016

112


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Onde estavas no «25 de abril»? Popularizada pelo grande Herman José, a charge televisiva inspirada pelos programas do jornalista Armando Baptista-Bastos, onde perguntava aos convidados onde estavam no «25 de abril», continua ainda na ordem do dia. Enquanto houver memória e ainda estiverem vivos todos os que, de alguma forma, foram tocados pelos eventos daquele período revolucionário, todas essas estórias pessoais continuarão a construir a história coletiva de um Portugal renovado. Quem como eu já ultrapassou o meio século de vida, sabe que, de uma forma ou de outra, o «25 de abril» teve consequências em tudo que até agora vivemos, independentemente de quem, sub-reptícia e veladamente, ainda continua a criticar a Revolução que teve o condão de nos abrir as portas para a liberdade de o fazer. Pela importância capital que este acontecimento teve na nossa história contemporânea, não há hoje nenhum «maduro» que não se recorde onde estava e o que estava a fazer nesse dia. E é dessas trocas e partilhas de vivências que aferimos a forma como a «Revolução» nos revolucionou… ou talvez não!? Sei que alguns continuam (e continuarão) a maldizer o transtorno que tal mudança de paradigma político operou nas suas vidas. Fruto de várias reformas então realizadas e de uma descolonização mal planificada e pior executada, muitos ainda se queixam das perdas de bens, de regalias, de status social e de outras tantas coisas. Mas entre o deve e o haver, sabemos hoje que a maioria dos portugueses continua a apontar este evento histórico como o maior catalisador para a luta pela “liberdade, paz, pão, saúde e habitação”.

113


PAULO CUNHA

Olhando para trás e fazendo o balanço natural e devido, é possível constatar que muitas das expetativas se goraram, sentindo-se hoje um esmorecimento da chama que acalenta o sonho que abril em nós plantou: ver uma sociedade onde a justiça social e o respeito pelos direitos, garantias e liberdades sejam uma realidade plena e consequente. Ao invés, deparamo-nos com uma cristalização de procedimentos e atuações consubstanciada na total falta de respeito pelos valores humanos e onde os valores económico-financeiros ditam quem é quem neste país lindo mas, cada vez mais, mal frequentado. Quando há 42 anos, na manhã do dia 25 de abril, numa das salas da Escola Primária de S. Luís, em Faro, «assisti» com os meus colegas ao decorrer dos eventos que marcaram o «25 de abril», transmitidos pelo pequeno rádio que a professora então levou para acompanhar a Revolução em direto, estava longe de imaginar a forma e a intensidade com que tais acontecimentos iriam marcar a vida de tantos. À tarde, tendo «fugido» de casa para «participar» na Revolução, observei de perto as ações e as palavras de ordem que muitos proferiam para dentro das instalações da PIDE, perto da Escola Tomás Cabreira. No dia seguinte, pressentindo que se estava a fazer história, não deixei que o meu pai deitasse fora os jornais que então tinha comprado. Agora, dobradinhos e amarelinhos, são a melhor aula de história que posso dar aos meus filhos. São a testemunha viva de dias onde duas músicas e alguns molhes de cravos vermelhos tornaram Portugal um país inigualável em todo o mundo. E vós, os mais velhos… onde estavam no «25 de abril»? A vossa história será um legado vivido e sentido que deixarão aos mais novos para que, de geração em geração, se transforme em património de Liberdade. Liberdade que não se compra, não se vende… Conquistase todos os dias! 21 de abril de 2016

114


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Turismo e hidrocarbonetos – uma coexistência improvável Se perguntarem a qualquer estrangeiro que conheça minimamente Portugal o que caracteriza o Algarve fora de portas, certamente responderá: o turismo. Sem qualquer tipo de veleidade ou vaidade, qualquer algarvio ou residente no Algarve sabe que vive num dos maiores tesouros com que a natureza bafejou este país à beira mar nascido. Aliás, os dados da AICEP confirmam-no, pois preveem que “cerca de 23 por cento do emprego nacional no prazo de 10 anos se registe no setor do turismo e que cresça a um ritmo saudável e continue a atrair investimento estrangeiro na criação de equipamentos de nível superior”. É inquestionável que este «bem» se transformou numa riqueza inestimável e insubstituível para Portugal. Contribuindo para uma boa fatia do PIB português e sendo o único paraíso acessível a muitos portugueses que só aí conseguem «carregar baterias», nada é mais errado do que pensar que ao maltratá-lo só os autóctones serão afetados. Com o anúncio por parte da Repsol e da Partex que começarão a fazer as primeiras perfurações para prospeção de hidrocarbonetos ao largo do Algarve já em Outubro, levámos «à má fila» o primeiro «murro no estômago». Aliás, tudo o que a coberto de uma legalidade encoberta foi feito até aqui chegarmos, tresanda a tudo a que os hidrocarbonetos estão associados.

115


PAULO CUNHA

Em boa hora muito já está a ser escrito, debatido e esclarecido pelas entidades competentes e movimentos cívicos. Ao mesmo tempo, lamentamos agora a falta prévia de apresentação e esclarecimento por parte dos «nossos» representantes eleitos sobre quais seriam as implicações resultantes de concessionar a exploração de hidrocarbonetos em terras e mares algarvios. Fica-nos aquela sensação de «dejá vu», onde quem os elegeu são sempre os últimos a saber. Não quero acreditar que para este caso, a velha premissa “O que não tem remédio, remediado está!” faça aqui jurisprudência. Mal estaríamos se assim fosse, pois não honraríamos os antepassados que tanto zelaram e defenderam o «Reino dos Algarves»! Nunca vos aconteceu estarem refastelados na praia e por vezes serem «bafejados» com aqueles odores a gasolina expelidos pelas embarcações de recreio que pululam na calmaria das nossas águas, já sem falar nas manchas de óleo à superfície que nos fazem retrair no ato de mergulhar nas águas azuis do nosso mar? A mim já!... E não é o facto do gás ou do crude poder vir a ser retirado de poços terrestres ou marinhos situados longe da minha casa que me deixa menos preocupado, pois colocará em perigo toda a fauna e flora que torna o Algarve um local único e formoso. Razão tem o povo que, para estes e para outros casos, sabiamente diz: “Quem tudo quer, tudo perde!”. Pois eu atrevo-me a dizer que quando o petróleo e/ou o gás começarem a jorrar quem se vai lixar será - como sempre - o mexilhão, aqui bem representado pelos algarvios que, agarrados à «sua» rocha, continuarão a aguentar o embate de muitas marés. Nada a que já não estejam habituados!... Não acredito nas pias, sãs e inocentes intenções dos promotores desta miraculosa e lucrativa exploração de recursos naturais, apresentada por alguns como uma possível panaceia para os «males de finanças» que enfermam as nossas contas públicas. Até porque não nos faltam exemplos do destino a que foram votados certos

116


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

locais depois de lhes terem sido sugadas, secadas, sacadas, extorquidas e destruídas as suas «fontes». Depois?... Depois haverá sempre um outro «Allgarve» noutro local, de preferência «clean», não esventrado e sem qualquer tipo de poluição à espera de quem vendeu este Algarve de onde vos escrevo. Incongruências de quem só aferirá o valor do que perdeu quando o deixar de ter. Tão comum naqueles que não conseguem entender que há muitos tipos de energias. Basta renovarem-se! E já agora: imaginem que descobriam petróleo em Lisboa, ou no Porto... Como seria?! 28 de abril de 2016

117


PAULO CUNHA

Quem num coro canta seus males espanta! Ultimamente têm sido divulgados uma série de estudos científicos que apontam para os benefícios de cantar em grupo: - Benefícios para vários estados mentais, comprovados pela associação da estrutura e da melodia da música à atividade cardíaca dos membros de um coro, onde o ato de cantar em uníssono desencadeia um efeito de sincronização, fazendo com que o ritmo cardíaco dos cantores aumente e diminua ao mesmo tempo e à mesma velocidade, proporcionando assim um efeito similar aos exercícios de ioga; - Benefícios ao nível do bem-estar de pacientes com determinadas doenças incapacitantes como a doença de Parkinson, esclerose múltipla e doenças respiratórias, e que assim, através da prática coral, aumentam a exercitação dos músculos associados à emissão vocal e controlam melhor os seus níveis de stresse e de ansiedade; - Benefícios na socialização e entreajuda entre pessoas que padecem de sintomas aliados a estados de solidão, angústia e depressão. Cada vez mais se verifica que certas empresas e organismos oficiais adotam e incentivam o canto coral entre os seus funcionários com o intuito de assim poderem garantir e promover uma maior integração, interação, proatividade e desenvolvimento cognitivo e motor entre

118


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

os seus funcionários, bem como incentivar a diminuição ou até mesmo o abandono do uso do tabaco e do álcool. Jordi A. Jauset, especialista em neurociência musical, salienta que cantar num coro ajuda a construir uma relação de confiança, de coesão e até mesmo de generosidade com os colegas. O autor do livro «Cerebro y música: una pareja saludable» explica que cantar é uma atividade eficaz contra estados de stresse e depressão: "Cantar aumenta os níveis de cortisol e oxitocina, hormonas que, entre outras coisas, aumentam a autoconfiança e o nível de bem-estar pessoal". Jauset salienta também que o canto pode atuar como uma espécie de armadura contra doenças neuro-degenerativas: “Cantar é uma espécie de ginástica neuronal”. Cantar em grupo é uma expressão da vontade coletiva. Basta pensar nos cânticos de apoio nos estádios de futebol, nas canções de trabalho, nos hinos, nas procissões, nos festivais de música, nos coros de igreja ou nas marchas militares. A história prova-nos que os rituais sincronizados sempre contribuíram para a solidariedade de grupo. Há mais de quatro décadas a cantar em coro e a coordenar grupos corais, posso hoje afirmar, inequívoca e perentoriamente, que cantar num coro é algo ao alcance de todos que (simplesmente) tenham a capacidade de entoar a afinação pretendida e de se ouvir, ouvindo ao mesmo tempo os outros. Mas mais importante que tudo isso, para integrar um coro é preciso ser (ou aprender a ser) humilde, respeitador, solidário, cumpridor, disponível e participativo. É talvez o coletivo onde os vários grupos que o integram (naipes) mais se respeitam e entreajudam, sempre com o intuito de alcançar o objetivo de transformar um ato natural e singular num enorme prazer coletivo. É esse o segredo para querer cantar num coro: colocar o nosso timbre vocal à disposição do enorme arco-íris sonoro que constituirá um bem comum: o todo que nos/vos (en)cantará! 5 de maio de 2016

119


PAULO CUNHA

Bebés com Música Por vezes perguntam-me qual é a melhor idade para aprender Música, ao que respondo serem os últimos meses de gestação de um filho ainda por nascer (aliás, nalgumas culturas considera-se que uma criança quando nasce já tem um ano de idade). Concretizando: a aprendizagem da Música deve ser iniciada o mais cedo possível, sendo nesse caso particular uma aprendizagem tendencialmente passiva, onde a mãe acaba por ter um papel preponderante e nuclear. Toda ela poderá ser uma fonte musical, pois ao falar, cantar, tocar e ouvir determinada música estará a proporcionar ao feto, experiências e vivências sensoriais que virão, por certo, a ter influência no nascimento, no sono, na alimentação, na atenção, na aprendizagem e no contacto com a Música. Pediatras, neurologistas, psicólogos e investigadores defendem que a Música contribui para o desenvolvimento da criança a diferentes níveis. Nos primeiros tempos de vida, já retém e imita sons, aprendendo a coordenar os movimentos com a respiração. São vários os estudos que comprovam que o recém-nascido tem um grande número de competências sensoriais e de processamento de

120


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

informação, a partir das quais se estabelece a sua interação e comunicação com o mundo. Com a Música, as crianças são estimuladas a escutar e a vocalizar sons, desenvolvendo-se também em termos motores, adquirindo assim uma maior consciência corporal e rítmica. Há diferentes formas de integrar os bebés nas atividades relacionadas com a música, independentemente da sua etapa de crescimento. Nos primeiros meses de vida começam a vocalizar sons no colo dos pais ao mesmo tempo que, tal como «pequenas esponjas», absorvem toda a ambiência musical que os rodeia. Dos nove aos doze meses o bebé já se movimenta e dança, reagindo à voz cantada e aos instrumentos. Entre os dois e os três anos, a espontaneidade, a autonomia e a capacidade da criança interagir e reproduzir tudo o que ouve aumenta consideravelmente. Enquanto educadores e professores devemos aconselhar e incentivar os pais para que o contacto com a Música passe a fazer parte das suas rotinas diárias (antes do sono, durante o banho e na hora das refeições). São atividades enriquecedoras em termos de aquisições musicais propriamente ditas, mas também em termos de relacionamento entre pais e filhos. Felizmente, em Portugal, cada vez mais vão surgindo iniciativas pedagógicas e atividades formativas produzidas e realizadas por profissionais habilitados e competentes onde, duma forma relaxada, espontânea e lúdica, trabalham linguagens musicais diversas e atividades a partir das quais se explora o som, o corpo, o espaço e o tempo, e se desenvolve o vocabulário e o pensamento musical da criança. É inquestionável que o contacto precoce com a Música contribui para a aquisição da linguagem, para o estímulo das atividades motoras, para a interação social e afetiva e para a indução e descoberta do raciocínio e do conhecimento. Citando Edwin Gordon, um dos mais prestigiados investigadores da atualidade no âmbito da Psicologia e da Pedagogia da Música, deixo à consideração e reflexão de quem de direito o seguinte: “A aptidão

121


PAULO CUNHA

musical duma criança é inata mas é afetada pela qualidade do meio em que vive.” (…) Isto significa que o efeito que um ambiente musical fértil tem sobre a aptidão musical duma criança diminui progressivamente à medida que a idade da criança aumenta, o que torna inestimável a importância de cedo se usufruir de um ambiente musical adequado. A partir dos nove anos de idade, o nível de aptidão musical duma criança deixa de ser influenciado pelo ambiente musical, mesmo que este seja de elevada qualidade”. Está tudo dito (digo eu)! 12 de maio de 2016

122


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Clubites à parte Sempre que termina um Campeonato Nacional de Futebol tenho alunos a perguntarem-me qual é a minha equipa de futebol, ao que respondo ser a equipa da terra onde resido. Invariavelmente retorquem, questionando qual - dos grandes - é afinal o meu clube!? Percebo que muito do que lhes digo cairá, por certo, em saco roto, pois não é fácil mostrar a jovens que vivem em plena integração e consonância com os hábitos mediáticos e consumistas proporcionados pelas grandes Sociedades Anónimas Desportivas (SAD) deste país, o que é o espírito desportivo de um clube que vive do, e para o amadorismo dos atletas da terra. Penso que a grandiosidade de um clube não se mede apenas pela quantidade de títulos conquistados, pelos jogos ganhos, pela percentagem de jogadores «vendáveis», nem pelo valor de transferência dos seus jogadores. Deverá estar ligado ao número de praticantes, à quantidade de modalidades desportivas, à igualdade de tratamento para os vários desportos praticados, ao investimento igualitário nas disciplinas desportivas oferecidas e na qualidade e quantidade de associados das respetivas agremiações desportivas. São esses os verdadeiros pressupostos que tornam um Clube grande aos olhos de quem vê o desporto para além da apropriação mercantilista de empresas que nele apenas veem uma apetecível e inesgotável fonte de receita. Penso que não poderia haver melhor analogia do que a que hoje é usualmente praticada: os reis do capital transformaram o futebol no

123


PAULO CUNHA

proclamado desporto-rei. É um facto, vivemos numa monarquia desportiva onde grande parte dos portugueses são súbitosdependentes de um só desporto: o futebol. O futebol de competição (puro e duro) que aos poucos substituiu o futebol da arte e do prazer… aquele de que que sou fã, independentemente do clube ou da nacionalidade. Aproveitando-se da necessidade básica que qualquer ser humano tem em obter momentos de prazer, êxtase, euforia e gratificação, a indústria do futebol criou redes de habituação e viciação que transformaram um simples desporto numa complexa máquina onde à sua volta giram múltiplos e intricados interesses. Em torno de uma marca, que outrora começou como o nome de um clube desportivo, gerem-se negócios que estão para além do conhecimento e do entendimento da maioria dos adeptos. E como tal, assim deverá continuar a ser para que o desporto de massas continue a gerar as devidas e esperadas «massas», época após época! Que interessa o que gastam, quando o que se ganha supera o esperado? Por isso a necessidade de ter como clube do coração, um dos habituais clubes ganhadores! Independentemente de terem poucos jogadores portugueses, os «Clubes Grandes» garantem sempre retorno em forma de emoções fortes justificadas por fortes investimentos. “Pode ser verdade o que escreves, mas quero lá saber! Nasci neste clube e com ele hei-de morrer. Não vale a pena chateares-me com tanta «prosápia intelectualóide», pois este é um dos prazeres da vida, do qual não abdico!”, dir-me-ão. Ao qual eu pergunto: “Imaginem que dedicavam aos problemas do vosso país a metade da atenção que dedicam aos «problemas» do vosso clube de futebol. O que aconteceria?...”. Provavelmente todos os políticos que povoam o mundo do futebol sabem a resposta. Pois é… Karl Marx não disse que o futebol é o ópio do povo, mas bem podia ter dito! 19 de maio de 2016

124


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Bem-vindos à Escola Pública! Agora que mais um ano letivo está chegar ao fim, as águas da Educação voltam a agitar-se, tal como se de uma mudança de maré se tratasse. Alterações no sistema de ensino que vão e vêm e no seu percurso vão condicionando todos os que nele gravitam. Quase apetece perguntar “Qual era o Ministro da Educação quando estudaste para assim saber o que passaste?”. Uma imprevisibilidade que já não me surpreende, pois ao longo da minha vida escolar (desde os seis anos até hoje), as experiências educativas multiplicaram-se na justa medida em que mudaram as figuras de proa da Educação. Infelizmente, cedo percebi que a Educação, tal como noutros setores da sociedade, está refém de políticas muito pouco educativas, sentindo-me hoje como se tivesse vivido várias vidas enquanto agente educativo. Depois de um período de quatro anos em que o sistema educativo assistiu a uma regressão sem precedentes num percurso que augurava realização e êxito para todos os intervenientes, muitos dos que agora vociferam e criticam as medidas que o atual Ministério da Educação se prepara para implementar, então nada disseram nem nada fizeram. Porquê?... Todos sabem a resposta mas só agora parecem ter acordado para uma realidade que é bem maior e mais complexa do que apenas os tão - recentemente - escalpelizados «Contratos de Associação». Quase que me apetece dizer a todos que, de cátedra, agora opinam sobre o seu investimento público no Ensino Privado: “Bem-vindos à Escola Pública!”. A tal que agora tantos defendem com sendo tão boa

125


PAULO CUNHA

ou melhor que aquela que muitos não querem largar. É interessante observar a reação das pessoas quando sabem que lhes estão a «mexer nos bolsos» pois, invariavelmente, mexem-se. Quando não sabem ou não querem saber, deixam-se estar! “Olhos que não veem, coração que não sente”, parece ser a premissa de muitos educadores e encarregados de educação que em relação aos seus educandos apenas se preocupam com as notas que aparecem na pauta. Saberão efetivamente o que se perdeu no furacão «Troika», no que à Escola Pública concerne? A resposta será dada quando mais tarde os historiadores e sociólogos se debruçarem sobre quais foram os custos desses cortes na geração «Crise», a tal de que tantos agora falam e escrevem por motivos de agenda política. Sou daqueles que, enquanto encarregado de educação, não chorei nem chorarei os «tostões» que invisto com os meus impostos na educação pública dos meus filhos. Chorei ter que pagar mais impostos e em contrapartida ter visto diminuído o investimento na educação que preconizei para eles! Falar nos filhos dos outros é por inerência falar nos nossos, por isso sempre estranhei ver tanta permissividade, serenidade, complacência e até concordância com medidas que foram tomadas no Ensino Público. Foram cortes e mais cortes que delapidaram o «mundo» dos nossos descendentes: a Escola Pública. Embora não concorde com determinadas tomadas de posição, percebo-as, pois quem é que não quer o melhor para os seus filhos? À custa do quê e de quem? Pois… Isso são outras estórias! E pelo meio lá vai caminhando a economia de mercado indiferente a quem tem e a quem não tem. Eu tenho absoluta convicção que todo o dinheiro dos nossos impostos que for investido na Educação Pública e na Cultura Pública dará frutos para além do nosso tempo. Germinarão no nosso bem mais precioso! “Haverá lá melhor e maior investimento?!...”. 27 de maio de 2016

126


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Portuguese spoken here Adoro viver no sul deste velho continente! Não tendo pedido para aqui nascer, tal como muitos de vós fui bafejado pela graça de aqui ter visto a primeira luz do dia e ter vivido muitos dos momentos que me marcaram e moldaram enquanto pessoa. Por isso e por muito mais não me canso de afirmar o carinho e respeito que nutro por este Algarve que a natureza tão bem tratou. Sendo daqueles que acha que quando as coisas estão bem não devem ser mudadas mas sim preservadas, constato que o espírito cívico e ecológico das novas gerações está cada vez mais presente nas suas atitudes no que à manutenção e preservação do Algarve natural concerne. E isso dá-me alento e esperança! Sendo «minha» esta pequena parcela de terra lambida pelo mar, é também de todos aqueles que a tomaram como «sua». Aliás… é pretensão descabida tomar como nosso seja o que for que a natureza nos concedeu, portanto são algarvios todos aqueles que, no Algarve, o tornam uma província ainda melhor do que já é. Ora é isso que me leva a estar atento à forma como os indígenas tratam quem adota esta terra também como sua. Sabendo que é um dos locais que muitos europeus escolhem para gozar a sua merecida reforma, grande parte adquire uma parcela de terra transformando-se assim num «estrangeiro algarvio». Seria pois natural que tendo escolhido Portugal como seu segundo país ou país de adoção, todos estes novos algarvios acolhessem como seu o maior símbolo de Portugal. Aquele que Camões e Pessoa fizeram chegar aos quatro cantos de mundo, mas que, ignorante e teimosamente,

127


PAULO CUNHA

muitos autóctones não entendem nem reconhecem como uma maisvalia para a nossa afirmação identitária: a nossa língua! Custa-me ter ultrapassado o meio século de vida e continuar a assistir - no Algarve - a diálogos completamente improváveis, onde parece que quem, em nome da venda do que quer que seja, reinventa e mastiga palavras em «portinglês» para que estes novos algarvios adquiram a sua mercadoria. Tal como muitos portugueses que ao irem viver para o estrangeiro tentam aprender a língua nativa para assim melhor se orientarem e governarem, não seria natural que quem para cá veio viver aprendesse a língua do país de acolhimento? Sempre assim aconteceu com todos os portugueses que escolheram um sítio para emigrar e que de lá regressaram a falar uma segunda língua como se da primeira se tratasse. Mas o que é facto é que o contrário não se verifica! Custa-me ouvir, recorrentemente, residentes estrangeiros a dizer que não falam nem escrevem português porque se acomodaram à forma de estar dos algarvios, que para vender o seu produto abdicaram da sua língua para mais depressa e eficazmente garantirem o lucro almejado. Muitos até me dizem que por causa disso mesmo não convivem mais com a generalidade dos portugueses, pois sentindo-se confinados à língua universal (inglês), acabam por se fechar em pequenas ilhas socioculturais e informativas onde a portugalidade, tal como a conhecemos, está ausente. Será subserviência, complexo de inferioridade, pequenez intelectual, oportunismo, simpatia exacerbada, maior fluência linguística e facilidade de comunicação? Confesso: não sei! Mas fazme «espécie», pois ao contrário de alguns países vizinhos deitamos a perder um dos maiores tesouros nacionais: a nossa língua, escrita e falada. Agora que Portugal parece estar na moda talvez não fosse mal pensado tentar colocar a língua portuguesa também na moda. Saíamos todos a ganhar, algarvios de toda a Europa. 2 de junho de 2016

128


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Festas p’ra pulares E finalmente eis-nos chegados a junho, o mês dos Santos Populares com festas e arraiais por todo o país nas noites de Santo António, de São João e de São Pedro. As principais são as Festas de Lisboa, na noite de 12 de junho (véspera do dia de Santo António), as Festas do Porto e Braga na noite de 23 de junho (véspera do dia de S. João) e as festas de S. Pedro que, em 29 de junho, se comemoram em várias localidades do país, tais como Sintra e Évora. Não sendo propriedade nem destinadas a ninguém em concreto, são festas que, tal como os santos que lhes dão o nome e a razão de ser, são de todos que a elas se queiram juntar e participar. Daí o epíteto «popular», pois quem é que não gosta de saltar a fogueira; de dançar nas marchas populares; de oferecer à namorada ou namorado aromáticos vasos de manjerico, onde se colocam quadras falando de amor; de degustar apetitosas sardinhas «pingando no pão», de acompanhar os tremoços com umas «minis geladinhas»; de calcorrear as bancas de petiscos da época e «picá-los» ao sabor de um «copinho de vinho»; de deleitar-se com o cromatismo esfusiante e sonoro do fogo-de-artifício; dos efeitos alegóricos dos arcos e balões; da parafernália estrepitosa dos martelinhos de plástico batendo na cabeça dos incautos transeuntes; dos odores a cidreira, a alfazema e a alho-porro?

129


PAULO CUNHA

No entanto não se julgue que esta tradição é unicamente portuguesa, pois estas festas acontecem em diversos países, associadas ao costume pagão de festejar o solstício celebrado em junho. São habitualmente designadas as «festas juninas», como acontece, por exemplo, no Brasil. Ainda sou do tempo em que na cidade que me viu crescer (Faro) era costume juntar um molhe de tábuas, fazer uma fogueira num passeio onde não houvesse casas muito por perto e saltá-la com se não houvesse amanhã, para a seguir oferecer às garbosas vizinhas os esperados vasos de manjericos onde despontavam quadras onde não escondíamos as nossas secretas intenções, ou não estivessem estas festas ligadas ao solstício de verão e a antigos rituais de fertilidade!... Como em tantas outras cidades por este país fora, em nome duma certa modernidade, progresso e segurança de pessoas e bens, perdeu-se aquela espontaneidade e liberdade que nos fazia ansiar pela chegada do fim das aulas para então podermos ir festejar – na rua – os santos da rua: os Santos Populares. Daí até à estilização, padronização e uniformização foi um passo que colocou os «nossos» festejos do passado no século XXI. E quanto a factos não há argumentos! Resta-nos, citadinos, gozá-las o melhor que sabemos e podemos, pois se há festas com sabor e cheiro a Portugal, são estas com certeza. Portanto: encontramo-nos por aí, numa dessas muitas festarolas abençoadas pelo céu algarvio, pulando, saltando e cantarolando. Como convém! 9 de junho de 2016

130


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

… e que a bola continue a rolar! Outrora destemidos e corajosos, saíamos em frágeis embarcações e conquistávamos novos mundos ao mundo, regressando mais ricos espiritual, intelectual e pecuniariamente. Um espírito empreendedor, lutador e laborioso que granjeou proveito, fama e respeito alémfronteiras. Fruto de vicissitudes várias, o proveito esvaiu-se e a fama e o respeito quedaram-se por ruas onde a amargura e a melancolia criaram um emaranhado de caminhos que não nos levaram muito longe. Sob o domínio e o jugo financeiro de países com economias emergentes, resta-nos mostrar o nosso brio e raça lusitana através de competições onde possamos entrar em jogo - idealmente - de igual para igual. Pegando no sentido literal do termo, é através de um jogo que é rei em Portugal que, correndo, driblando e rematando, trazemos ao presente guerras e conquistas antigas. Através do futebol os portugueses veem-se e sentem-se representados por uma seleção de bravos guerreiros. Não interessa se daí poucos proveitos diretos para a nação advêm, pois o que está em jogo é o orgulho e a autoestima coletiva de um país. Pesados e devidamente quantificados, serão esses ganhos indiretos que colocarão todo um país a sorrir, rir, cantar, brincar, pular e festejar… e uma nação recompensada, alegre e feliz é necessariamente uma nação mais produtiva.

131


PAULO CUNHA

O desejo é tanto e tão grande que durante as competições de futebol onde Portugal está representado, o país entra em «piloto automático» e metamorfoseia-se numa enorme nação a apoiar e a gostar de si própria. Adversários clubísticos desavindos dão as mãos e juntos cantam a «Portuguesa»; espaços públicos e comerciais antes repletos de gente transformam-se em sítios apetecíveis para frequentar enquanto os jogos decorrem; portugueses que nunca hastearam a bandeira no dia de Portugal descerram bandeiras e bandeirinhas portuguesas em todas as janelas e varandins das suas casas; mães e avós que na altura dos jogos dos clubes vão para a cozinha ver a telenovela ou outro programa qualquer, quando «toca» à Seleção de Portugal lá se mantêm (nada quedas e pouco mudas) junto dos homens da casa, torcendo (e torcendo-se) pelos destinos de todos nós; festas inesperadas e improvisadas surgem após as vitórias e colocam gente que nunca se falou a abraçar-se e festejar como se fossem amigos de toda uma vida. Enfim, uma bola que rola e que a todos enrola! Mal comparado, esta dedicação, atração, frenesim e bulício que a representação portuguesa nos campeonatos de futebol nos traz, quase parece um enorme antidepressivo popular, onde uma bola a rolar opera o «milagre» de nos colocar a sonhar e a acreditar que afinal somos capazes. Fico muitas vezes a matutar no que poderíamos ser enquanto país, se dedicássemos aos assuntos estruturantes e prioritários para a nação metade do tempo que dedicamos a um desporto que, de quando em quando, nos faz lembrar a estirpe de que somos feitos. Um adormecimento em que teimamos em viver e que a «pancada» de uma bola de vez em quando faz acordar. No Facebook o nosso slogan para o Europeu de Futebol 2016 é «Não somos 11, somos 11 milhões». Por mim poderia ser «11 milhões de portugueses – a minha Seleção»… Sempre! 16 de junho de 2016

132


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

O Algarve é mais Algarve aquém e além agosto! “Então e agora que toda a gente foi lá para «baixo» é que os senhores vêm cá para «cima»!?...”, é o comentário que recorrentemente oiço quando me perguntam de onde venho, sempre que em agosto deambulo com a família pelo Portugal profundo e desconhecido. E a resposta que damos é invariavelmente a mesma: “ Fugimos de tudo aquilo que nos fez precisar de ter férias!”. Não é necessariamente a profissão que nos coloca em estado de esgotamento, fadiga ou stress. Resultante de uma soma de fatores exógenos que nos condicionam o quotidiano, a nossa psique despoleta uma série de reações fisiológicas que nos levam a precisar de procurar refúgio em sítios em que a influência e a intervenção do homem são diminutas ou até inexistentes. Há mais de meio século a viver nesta província abençoada pelo melhor que a natureza poderia proporcionar, cedo percebi que uma simples saída para o campo ou para junto do mar operava um efeito calmante, regenerador e até terapêutico no que ao meu bem-estar concerne. Percebi também que afastar-me das pessoas e, consequentemente, da excessiva carga negativa que transportam e

133


PAULO CUNHA

emanam podia ser benéfico para a minha saúde e a dos «meus». Volvidos estes anos concluí que não estou só relativamente ao usufruto daquilo que o Algarve tem para oferecer: a sua natureza tal como sempre foi e continua a ser. Um privilégio ao alcance dos autóctones que durante quase onze meses têm ao seu dispor o melhor que esta «ilha entalada entre Espanha, o Alentejo e o mar» nos tem para dar. Condicionados por um calendário escolar em que o mês de agosto se torna, na maioria dos casos, o mês de todas as férias, grande parte dos portugueses desce ao Algarve no mês em que, afinal de contas, o Algarve é menos Algarve. São as temperaturas excessivas; é a colonização linguística; são os preços inflacionados; são as filas intermináveis para tudo e mais alguma coisa; é a falta de paciência e de civismo em situações de grandes ajuntamentos; é a falta de espaço para estacionar; é a ocupação quase selvática da nossa zona de conforto na praia; é o uso indevido e desrespeitoso de algum património natural e edificado; é o abandono temporário duma forma de estar identitária em nome duma subserviência mercantilista, a todos os níveis bacoca e tacanha… enfim, razões mais do que suficientes para sair de cá (Algarve) no mês em que, pelo menos para mim, agosto não é a gosto. Saio, mas volto… Sempre! Até porque o «paraíso mora à nossa porta» grande parte do ano. Queiram e saibam os portugueses descobri-lo na devida altura, coisa que muitos estrangeiros aposentados que por cá moram já há muito tempo fizeram, e sentirão na pele e no coração tudo aquilo que aqui escrevo. Pode parecer um cliché ou até um chavão publicitário já estafado, mas: “O Algarve é mais Algarve aquém e além agosto!”. 23 de junho de 2016

134


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

«Programações Musicais» a pedido Ainda sou do tempo em que muitos algarvios ansiavam pela chegada do verão para que, com ele, chegasse também o Festival Internacional de Música do Algarve. Decorriam os anos 80/90 do século passado quando, sentado num gabinete da Fundação Calouste Gulbenkian, o diretor artístico da referida instituição, o olhanense Luís Pereira Leal, programava o dito festival, trazendo a esta província - culturalmente esquecida durante o resto do ano - o melhor que, no seu entender, no domínio da dita «Música Erudita» poderíamos oferecer aos turistas que nos visitavam nos meses fortes de verão. Fruto de contingências várias: músicos algarvios a tocar no dito Festival… nem vê-los! Já na altura isso me fazia «espécie»… Confinar a música feita no Algarve aos Festivais de Folclore pareciame redutor e de «vistas curtas», mas as sucessivas direções da Região de Turismo do Algarve lá sabiam a razão porque o faziam e permitiam. O tempo passou e com ele veio o tempo de outros Festivais, Encontros e «Eventos que tais», onde o Algarve passou a constar no mapa de peregrinação de muitos músicos nacionais e internacionais, ainda que, maioritariamente, nos meses onde o calor aperta e o exterior desperta. E com os ditos vieram também os mesmos «vícios» herdados do século passado: Festivais pagos com dinheiros públicos feitos à medida de interesses privados. Em 2005, enquanto membro do conselho consultivo da Estrutura de Missão «Faro -

135


PAULO CUNHA

Capital Nacional da Cultura», vi o então programador na área da Música trazer ao Algarve todos os seus «amigos musicais», pouco ligando ao que lhe transmiti sobre a mais-valia de muitos músicos algarvios. Consubstanciei e concluí assim o que já antes pensava sobre a importância da escolha dos programadores musicais. Posso estar errado, mas ainda sou daqueles que vê um programador musical como um selecionador de uma modalidade desportiva qualquer: sabendo da «poda», observa, analisa e escolhe em função do ganho comum. Ora é isso que, salvo raras exceções, não acontece nesta terra a sul gerada e construída. Técnicos camarários transformados em programadores põem e dispõem à medida que o tempo vai passando e a teia de contactos os vai transformando em «reizinhos», aos quais grande parte dos músicos começa a prestar vassalagem e a «beijar a mão». Sem da cadeira levantarem o traseiro, programam a pedido e por consulta dos muitos «cardápios musicais» que se amontoam nas suas secretárias. Sem o escrutínio e a supervisão de quem lhes tutela o pelouro, a seu bel-prazer gerem a sua preciosa agenda feita do «amiguismo» e das «cunhas à medida», cimentada em anos de cristalização no lugar. Quantas vezes ouvimos o público e certos músicos a questionar porque é que, ano após ano, são sempre os mesmos a tocar, não dando oportunidade aos novos e aos músicos «proscritos» (aqueles que não mendigam uma oportunidade para tocar)? E a resposta é sempre a mesma: “Enquanto ele/ela lá estiver será sempre assim!”. Sem que se saibam quais são os critérios que presidem às escolhas ditadas por estes «poderosos decisores», muitos músicos vão ficando pelo caminho sem nunca terem visto a sua arte ser apoiada, dignificada e divulgada pelos «agentes culturais» das autarquias da sua região. Sem garantia de qualidade, diversidade, originalidade, inovação e abrangência, assistimos cada vez mais a uma massificação de gostos em torno de «podres poderes», assentes nas habituais trocas de favores que em nada, nem ninguém dignificam. “Também na Música?”, perguntar-me-ão… Também na Música! 30 de junho de 2016

136


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Reflexos da educação… ou da falta dela! Embora viva numa região onde o convívio dos seus residentes com a multiculturalidade e diversidade étnica, racial e religiosa seja intenso e rico, fruto da permanente entrada e saída de turistas, ainda consigo surpreender-me com algumas «tiradas» por parte de alguns elementos duma geração - pretensamente - esclarecida e progressista. É com alguma perplexidade e estranheza que, ano após ano, assisto a comentários e a atitudes efetuadas em contexto escolar que me deixam a matutar nas razões e causas que levam jovens de tenra idade a terem atitudes racistas e xenófobas. Tentando compreender esta realidade que, embora em menor grau, assola também esta terra cosmopolita e de brandos costumes, não fico indiferente a comentários, incitamentos e afirmações que denotam, implícita e explicitamente, uma grande dose de discriminação e, nalguns casos, até de ódio. Depois de os confrontar e admoestar, tenho tentado perceber porque é que tantos jovens injuriam e depreciam os seus pares com epítetos claramente racistas e xenófobos. Muitos deles respondem-me abertamente que não gostam de «pretos», de «ciganos» e de «gente de fora», apenas porque sim… Resposta à qual eu insisto numa explicação lógica e plausível. Invariavelmente as razões que me dão, envergonhadas e tímidas, acabam sempre naquilo que lhes foi transmitido em casa.

137


PAULO CUNHA

Com o passar dos anos deixei de me surpreender. Aliás, de outra forma não poderia ser, pois a educação de base é dada (ou não) pela família, acabando por moldar e condicionar a forma como os jovens veem e se posicionam perante o mundo. Sei, enquanto pai, encarregado de educação e professor que, apesar de todas as influências exteriores (que são muitas e diversificadas), a forma como muitos jovens reagem em contexto grupal tem origem em muitas situações que ocorrem a coberto e no recato das quatro paredes das suas casas. Como exemplo costumo apresentar a quantidade de vezes com que já me deparei com cruzes suásticas desenhadas em cadernos de adolescentes, respondendo-me liminarmente que sabem qual é o seu significado, assumindo-o e dizendo que já falaram sobre o assunto com os pais. Perante tais afirmações, nada me resta fazer. Está tudo dito: a educação é dada pelos encarregados de educação, cabendo à sociedade balizá-la e contextualizá-la. Mesmo com a facilidade de acesso à informação diversificada e fidedigna que o mundo virtual proporciona, é a transmissão das ideias, ideais e valores que passam de geração em geração que irão influenciar e condicionar a forma como se perpetuam comportamentos e atitudes. E isso preocupa-me, pois vivendo e trabalhando numa zona onde pouco se sente os preconceitos raciais, culturais e religiosos, ainda me deparo com jovens já formatados para marginalizar, culpar e ofender quem é diferente de si. Numa altura em que a globalização está na «berra» e em que guerras várias provocam êxodos massivos de exilados e refugiados, eis-nos chegados a um tempo em que a necessidade de uma mudança interior urge. Não vejo outra forma para lá chegar senão a da educação para a cidadania, para o civismo e a para a igualdade. A tal que é dada em casa e se espelha na sociedade. Plantando sementes de mudança talvez consigamos diminuir a «influência nefasta da parte má da História nas nossas vidas». Eu todos os dias tento. E vós?… 7 de julho de 2016

138


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Nos emigrantes vi o vigésimo quarto jogador da Seleção Portuguesa de Futebol! Já na ressaca da «bendita» conquista do Campeonato Europeu de Futebol – 2016 por parte de Portugal, e com quase tudo dito, escrito, esmiuçado e dissecado sobre os méritos destes bravos guerreiros que, através das suas artes e manhas futebolísticas, nos levaram ao colo até ao supremo êxtase, ainda me atrevo a convosco partilhar - já a frio - um pouco da satisfação e orgulho que tenho em ser português. Sendo um povo herdeiro de uma história sem precedentes nem igual, onde a bravura, a estoicidade, a tenacidade e o aventureirismo de um tempo se misturaram com a incúria, a falsidade e a passividade de outro tempo, somos hoje - para o melhor e para o pior - o fruto daquilo que os nossos antepassados plantaram em nós. Somos, sem qualquer sombra de dúvida, gente boa! Gente que quando acorda da letargia e da dormência a que se vota é capaz de «virar a mesa» e mostrar ao mundo «com quantos paus se faz uma canoa». Por motivos e vicissitudes várias, Portugal transformou-se num país que, ciclicamente, tem visto muitos dos seu filhos deixarem Portugal para, lá fora, garantirem o que certos «escolhidos» cá lhes negaram.

139


PAULO CUNHA

Sendo um país com tudo para dar certo - nascido entre a terra e o mar, bafejado por um clima invejável e «lindo por natureza» - este pequeno país torna-se grande quando os portugueses assim o desejam! Não bastando afirmá-lo e parecê-lo, muitos lutam todos os dias para sê-lo: grandes. Sendo esses mesmos que, em várias áreas, se tornam num exemplo de perseverança, dedicação e tenacidade. É algo que nos está nos genes, mas que, por má liderança ou por falta dela, continua adormecido à espera que impulsos exteriores despoletem a almejada afirmação lusitana. Quem, para além e independentemente do fenómeno e do fervor futebolístico, esteve atento a este apoio crescente, maciço e incondicional a uma seleção nacional, percebeu que, tanto os dez milhões de portugueses de cá como o milhão de lá, foram de semana a semana aumentando os seus níveis de autoestima e orgulho nacional, culminado num arrebatamento nunca antes visto neste novo século. Sendo um desporto que, inegavelmente, move grandes massas e muitas «massas», sentir que através de uma bola conseguimos driblar todos os países que nos subjugam nos domínios que realmente interessam, mesmo sendo apenas uma vitória desportiva, não deixa de ter um sabor a vitória transversal e global! Sendo apreciador desportivo, segui com especial interesse e atenção a caminhada em crescendo da seleção do desporto que muitos, por cá, apelidam de «desporto-rei», não deixando de reparar que, ao contrário de algumas outras seleções europeias, foi esta seleção que, de jogo para jogo, arregimentou e angariou apoiantes para o objetivo final. Agora, já campeões europeus, todos festejam como se tal vitória tivesse sido um desígnio nacional, esquecendo-se que poucos acreditaram que tal fosse possível e concretizável. Entre aqueles que nunca negaram qualquer tipo de apoio estão todos os que, fora de Portugal, sabem bem o que é lutar contra o preconceito, contra a sobranceria e contra a xenofobia. Emigrantes que em todo o mundo foram literalmente o vigésimo quarto jogador da seleção portuguesa de futebol. Aqueles que, lá fora, são considerados tão bons como os melhores e todos os dias fazem por

140


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

conquistar o respeito e os direitos devidos a qualquer cidadão europeu. É gratificante e moralizador ver o galardão da vitória final entregue a um grupo de homens provenientes de todas as regiões onde a língua portuguesa é também a sua pátria, sob a liderança de um visionário que sabe o que quer e para onde vai. Fossemos assim em tudo o resto e ninguém nos «apanhava»! 15 de julho de 2016

141


PAULO CUNHA

Na praia somos (quase) todos iguais Cada vez que vou a uma praia pública e fixo os olhos em toda a área que a compõe, fico com a sensação que é, sem qualquer margem para dúvida, o sítio onde grande parte de nós é aparentemente - igual ao seu semelhante. Despidos de roupas, de marcas, de modas, de tendências, de adereços e de bugigangas, todos aparecem aos olhos do comum dos mortais (quase) como vieram ao mundo, ressalvando obviamente a devida ocultação das partes pudibundas por forma a preservar a desejável «manutenção da moral e dos bons costumes». De tal forma que, não raras vezes, à beira-mar deparamo-nos com amigos e conhecidos com quem privamos habitualmente e que, apenas de fato de banho ou bikini, ao nos cumprimentarem nem sequer os reconhecemos. Tal como muitos que através das suas atitudes aparentam ser uma coisa mas afinal são outra, também a roupa e certos adereços podem esconder diversos «eus». Daí apreciar e louvar todos aqueles que não têm receios, pruridos e vergonha de se expor tal como são! Não sendo uma forma de estar e de ser ao alcance de todos, estar «nu» perante os outros acarreta, óbvia e necessariamente, algumas contrariedades e penalizações infligidas por uma sociedade que lida mal com a transparência e a verdade, sejam elas quais forem! De tal forma que até apetece dizer: “Mostra-me o que tapas e dir-te-ei como efetivamente és!”.

142


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Ainda um destes dias me deparei com duas situações que espelham a forma como, por motivos vários, se encara a exposição e partilha pública do «eu» privado: a primeira registou-se quando um colega professor que fazia nudismo numa aprazível «ilha» algarvia ultrapassou com distinção a situação de se ver confrontado com uma recém-aluna que com ele foi ter, tendo (de roupa despido) com ele falado, mantendo com toda a naturalidade a sua postura e dignidade pessoal e profissional; a segunda presenciei-a na semana passada na praia da minha terra natal, quando entre várias cidadãs europeias de peito descoberto se banhava uma senhora de origem árabe totalmente vestida e com todo o cabelo coberto (chador?), acompanhada pelo seu marido que, sempre que podia, apreciava o que natureza, através das generosas formas europeias, lhe/nos presenteava. Recordo o que alguns autóctones suecos me disseram há mais de trinta anos quando, numa piscina pública de Sundsvall, comigo privavam: “Esta piscina para nós equivale às vossas praias. Quem não o tem, imagina o mar num tanque azul cheio de água!...”. Tal como eles, continuo a pensar que só troca o areal, as algas, as conchas, as marés, as ondas, o sal da água e até as «bolinhas de Berlim» por um tanque cheio de água quem, por razões que por vezes até a própria razão desconhece, se isola em condomínios fechados em si próprio. Sendo algarvio de alma e coração, habituei-me desde cedo à igualdade no desfrute e na fruição que a praia pública proporciona. Despidos de tudo o que através da roupa nos diferencia, colocamos (brancos/pretos, pequenos/grandes, magros/gordos, etc.) nas palavras e nas atitudes uma forma única e partilhada de conviver e saborear muito do melhor que o Algarve tem para oferecer. Um privilégio ao alcance de todos os que dele queiram e saibam aproveitar e usufruir. Assim sendo, fica combinado o encontro para, à beira mar, trocarmos palavras molhadas, bem temperadas com o sal de boas gargalhadas! Até já… 21 de julho de 2016

143


PAULO CUNHA

3.ª guerra mundial? Não sendo supersticioso, muito menos agoirento, por quem o é já bati três vezes nas tábuas da mesa onde está assente a folha em que vos escrevo este desabafo, simplesmente por achar que, pelo facto de sermos brandos nos costumes, não o devemos ser na precaução e prevenção das possíveis ameaças que tornam a aparente paz em que vivemos numa «paz podre». Não me achando pessimista por natureza, tomo a realidade dos factos como um sério aviso para a eminência do que nos poderá acontecer! Por comparação com o clima de terror que vai minando os centros nevrálgicos do «1.º Mundo», é de toda a pertinência e urgência projetar para Portugal cenários similares aos acontecimentos que têm vindo a aterrorizar e a chocar todo o mundo (dito) civilizado. Sem qualquer complexo, seja de que índole for, é perfeitamente plausível imaginar um evento terrorista numa região constantemente pejada de turistas como é o Algarve. Sendo um «caldeirão» multiétnico e multicultural onde se juntam e se misturam «infiéis» de todo o mundo, esta região que se tem mantido segura e incólume a ações bárbaras e assassinas não está livre da insanidade e da loucura humana. Não pensar, não falar, nem antever estes cenários, tornar-nos-á mais permeáveis a todas as consequências desta guerra sem território definido, nem altura marcada. A maioria dos estrategas e ideólogos militares vaticinam nestes novos métodos de guerrilha

144


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

urbana assente no terror, indícios que a «3.ª guerra mundial» já começou. É óbvio que todos aqueles que só pensam nas «coisas» quando elas vêm ter consigo, acharão estas projeções e antevisões, catastróficas e irrealistas. Não defendendo que o medo comande as nossas vidas, não posso deixar de alertar para a sensibilização e capacitação de todos os que, não querendo, só por existirem fazem já parte duma guerra sem tréguas nem quartel. Não se regendo pelos preceitos, convenções e regras que aprendemos no extinto SMO (Serviço Militar Obrigatório), esta nova forma de matar para «vencer» não olha a meios para conquistar os fins! A sua globalização tornou o mundo num enorme cenário de terror eminente. Sem medo de morrer, os atacantes constituem-se nas próprias armas do ataque, não tendo qualquer tipo de pejo, sensibilidade ou remorso pelos atos hediondos que estão dispostos a praticar. Nesta carnificina latente, quanto maior for o número de baixas, mais «em alta» ficará o propósito final de instalar o medo… e através do medo vencer! Segundo a história e os cânones militares, as guerras tornam-se mundiais quando os conflitos bélicos contam com a participação de países de vários continentes, sendo as consequências extensíveis a todo o mundo. Observando a atual realidade, não será isso que já está a acontecer, ainda que com as habituais descriminações em relação aos países mais pobres e menos influentes? A «3.ª Guerra mundial» já começou e todos já foram convocados para ela, só que não o sabem, por ignorância ou por opção. Lutar contra o medo é uma «guerra» diária. Ganhando-a, preservaremos um bem precioso e insubstituível: a Liberdade. Acredito que enquanto a Liberdade prevalecer e continuar a guiar os nossos pensamentos e atos, não haverá loucura que, em nome de ideais políticos e religiosos, nos possa vencer! 29 de julho de 2016

145


PAULO CUNHA

Férias das férias Muitos portugueses, reféns das interrupções escolares dos filhos e dos familiares, acabam por escolher (quando tal lhes é permitido) o mês de agosto para gozar as tão almejadas e merecidas férias. Seja no setor público ou no privado, esta interrupção consignada na lei, acaba por ser o escape e o contraponto para um ano de trabalho e dedicação profissional, sendo comum, por isso, fazer a analogia das férias ao «carregar baterias»! Tal como eu, muitos de vós regressaram esta semana ao vosso trabalho/emprego. Só por esse facto já nos deveremos sentir felizes e compensados, pois nos dias que correm, tê-lo certo e seguro não é para todos. Sendo por definição uma interrupção relativamente longa de trabalho, destinada ao descanso dos trabalhadores e derivando da palavra «féria», que em latim queria dizer Dia de Festa, é hoje habitualmente aceite que as férias são o período escolhido para «festejar o descanso». Podendo parecer um contrassenso, é isso que muitos acabam por fazer, abdicando do necessário descanso mental e físico. Em constante bulício, tentam celebrar a época e fazer muito do que poderiam ter feito nos outros onze meses, chegando ao fim das férias extenuados e a precisar de férias das férias. Podemos encontrar muitos momentos de lazer e descanso através da gestão e da arrumação das rotinas diárias e dos fins de semana e feriados que durante o ano temos ao dispor, bastando para isso criar as «nossas (pequenas) férias». Aquelas que, não sendo

146


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

institucionalizadas, funcionam como «escapadinhas» ao stress que, acumulado, nos faz chegar a agosto a querer «viver» um ano num único mês. Por isso, constantemente, encontro pessoas a queixaremse que as férias lhes souberam a pouco, pois pouco tiveram de férias. Porque as verdadeiras férias começam na nossa mente, ao escolher o tempo, o lugar e o modo como vamos «fugir» de tudo o que nos faz precisar delas! É também frequente sentirmo-nos melancólicos, principalmente se as férias foram agradáveis. A melancolia por vezes conjuga-se com alguma ansiedade pelo facto de terminar um período que é vivido com uma maior calma, onde não há horários rigorosos a cumprir, prazos ou objetivos. O regresso ao trabalho e a necessidade de articular os horários com os horários escolares dos filhos, com a consequente passagem da tranquilidade para a agitação diária, poderá gerar alguma ansiedade. O nível de ansiedade sentido depende do grau de descontentamento que se tem relativamente ao emprego, do nível de exigência que se sente existir no nosso trabalho, do grau de incerteza, mas também do relacionamento que se mantém com os nossos colegas. No entanto, o regresso ao trabalho não tem de ser necessariamente uma fonte de emoções negativas. Basta para isso valorizar tudo aquilo que nos fez escolher a nossa formação profissional, considerando e dignificando, ao mesmo tempo, todos aqueles que nos apoiam e nos querem bem, tanto no contexto profissional como no pessoal. Está mais que provado que a felicidade gera produtividade, por isso saber fugir daquilo que nos apoquenta é meio caminho andado para não desesperar por férias. Sou daqueles que acha que as férias merecem-se, mas para que tal aconteça temos que nos sentir bem com nós próprios, e consequentemente com os outros. Férias não são dias de fuga, são dias de encontro e de reencontro… grande parte das vezes connosco! 2 de setembro de 2016

147


PAULO CUNHA

Cidades com Cultura Sendo o Algarve uma região que vive quase exclusivamente do turismo e para o turismo, e podendo o turismo ser considerado uma indústria que se serve de recursos naturais e/ou artificiais (aqueles que são criados pelo homem e entre estes os recursos culturais), não é pois de estranhar o forte investimento na animação cultural que, nos últimos anos, tem vindo a ser feito como forma de promoção local. Podendo uma Cidade ser interpretada de formas diferentes, consoante cada indivíduo, a sua formação, visão e reflexão, é lícito citar e parafrasear alguns autores que a consideram: - Um espaço multidimensional, e um lugar em que é possível uma mistura de interpretações mais ou menos corretas do mundo, do país e do próprio lugar. - Espaços naturais de acolhimento de instituições projetantes de inteligência e acumulação de saber; territórios estratégicos da inovação e criatividade; habitats da excelência da humanidade, centrados no conhecimento, na aprendizagem e na difusão do saber. - Um local de prestação de serviços, um lugar de troca de todas as naturezas, quer à sua própria população, quer à do exterior. Entendo por isso o esforço financeiro que várias cidades algarvias têm vindo a desenvolver na orçamentação da programação virada

148


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

para a animação e o lazer, como forma de poder ter êxito no atual contexto de competição global. Sendo uma forma de gestão meritória, pois acaba por colocar as autarquias a substituir-se, no trabalho e no investimento, às entidades privadas que pouco ou nada têm investido na realização de eventos de média e grande escala no Algarve, vem assim por este meio ajudar – ainda que sazonalmente – a reforçar a identidade do local onde os eventos se realizam. Consubstancio e partilho a opinião de Ernâni Rodrigues Lopes na sua obra «O papel das cidades no desenvolvimento de Portugal»: “Uma cidade para ser bem-sucedida tem que criar condições para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e competitividade, encontrando uma razão de ser, um caráter, um perfil próprio, uma atratividade, diversos fatores de diferenciação e capacidade sustentada de oferta de serviços, capacidades e competências”. Sendo a época veranil quente por natureza a sul de Portugal, todos os eventos projetados para o exterior que privilegiem uma rápida assimilação, participação e fruição são garantia de sucesso em termos de afluência de público. No imediato, tudo o que tem o apoio da poderosa máquina que é o Marketing acaba por ter a aceitação desejada e esperada pelos promotores e produtores dos muitos e variados Festivais que povoam os verões nas cidades do barlavento e sotavento algarvio. Fico satisfeito que assim seja, pois vejo nos turistas e nos residentes algarvios, sinais de felicidade, regozijo e orgulho por constatarem que as «suas» cidades andam nas «bocas do mundo» pelas melhores razões! Fosse assim no resto do ano, em que as cidades algarvias tivessem na programação dos seus magníficos equipamentos culturais, um especial enfoque nas várias vertentes artísticas, privilegiando também o cariz eminentemente cultural, formativo e pedagógico de muito do que por cá se faz. Fosse assim… e os resultados far-se-iam sentir da mesma forma que no Verão! 9 de setembro de 2016

149


PAULO CUNHA

A Música Portuguesa está bem e recomenda-se! É interessante, dá que pensar e até pode vir a ser um bom ponto de partida para um estudo mais aprofundado, refletir sobre o atual estado da música portuguesa… em Portugal. Refiro unicamente Portugal, pois por mais que se tente colocar a música portuguesa «lá fora», acaba sempre no catálogo destinado à música étnica ou à «world music». Um universo pequeno e restrito, mas que, paulatinamente, tem vindo a abrir algumas portas além-mar e a conquistar o respeito e a admiração de muitos que, nos seus países, viajam até nós através da nossa música. Apesar do visível e notório desinvestimento público - registado nos últimos anos - na formação e educação musical dos nossos jovens, são cada vez mais aqueles que procuram no «privado» aquilo que a gestão da «coisa pública» lhes tirou. Seja através do associativismo, através do ensino particular e cooperativo ou através de outras formas de ensino e aprendizagem, cada vez mais se veem jovens a perseguir o sonho de uma carreira no mundo da música. Sim… porque a atração, o apego e a felicidade que esta forma de arte proporciona ninguém lhes tira! Os resultados estão à vista e só não os vê quem não sabe ou quem não quer. No que à música diz respeito, Portugal está cada vez mais a gostar de si próprio. As causas são várias: - Uma maior e melhor valorização e promoção da música/letra composta, escrita e interpretada em português;

150


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

- Uma maior diversidade na oferta de meios de comunicação, de difusão, de promoção e de partilha; - Um maior investimento na produção musical feita em Portugal; - Uma maior abertura por parte das gerações mais novas às suas tradições, à interculturalidade e à conjugação e articulação de diferentes géneros musicais. Por consequência todos estes fatores têm levado a que, cada vez mais, tenhamos um maior mercado interno para a «nossa» música. Tardou tal evidência e constatação, mas podemos hoje afirmar que estamos a adquirir uma identidade musical própria, feita de uma mistura descomplexada do património histórico e identitário português com um novo Portugal desejoso de crescer e reafirmar-se também através da música. É hoje possível encontrar uma paridade e equidade qualitativa entre o que por cá se faz e que nos habituámos a receber de fora. Seja qual for o género musical, os músicos portugueses estão a «dar cartas» num jogo que se quer global. E quando assim é, os que nos visitam levam consigo para os seus países mais uma das nossas preciosas riquezas: a Música Portuguesa. Há muito tempo percebi que certos países têm na sua música um património altamente exportável, sem precisar que lhos digam. Com um enorme orgulho pela sua cultura e prezando e valorizando a palavra escrita e cantada na língua de origem, levam gente como eu a visitá-los com o intuito de enquadrar e contextualizar a sua música com tudo o que a fez ser como é. Por tudo o que aqui escrevi e por muito mais, quero saudar e felicitar todos os que contribuíram - sem qualquer apoio por parte de quem está sempre pronto para colher os louros - para o caminho promissor que a música feita em Portugal ora trilha! 16 de setembro de 2016

151


PAULO CUNHA

À margem daquilo que não compreendo, não tolero, nem aceito Foi com regozijo e orgulho que, recentemente, vi o reitor da Universidade do Algarve, António Branco, tomar uma medida que revela a magnitude e magnificência do seu mandato reitoral. Contra a cultura da preservação da tradição, justificada e assente tãosomente no peso da história e dos hábitos adquiridos, em boa hora ousou exarar um despacho reitoral com o intuito de serenar e normalizar as atividades de acolhimento e integração dos novos alunos. Sendo uma medida que vai contra um status quo que se tem mantido através da replicação de atitudes e ações assentes num conjunto de regras e regulamentos que regem as relações hierárquicas e sociais da comunidade estudantil, é natural que gere alguma controvérsia no seio da mesma. Aliás, bradarão aos céus vozes defendendo a praxe académica como a verdadeira, digna e única forma de acolher, integrar e ajudar os «caloiros». Mas terá a atual praxe essa praxis?... Tomando como base as normas praxísticas assentes nas relações hierárquicas entre os estudantes (direitos e deveres), a etiqueta académica e o protocolo, coloca-se a dúvida se terão os ex-praxados, agora praxadores, adquirido nos curtos anos do seu percurso universitário, a maturidade, a sensatez e a sapiência que lhes

152


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

permitirá agir de forma diferente daquela com que foram «brindados» quando entraram no mundo académico. Também os maus exemplos e hábitos se copiam e, por melhor escrito e humanizado que seja o código de conduta, na impetuosidade e desvario do momento, muita asneira se produz e reproduz. Atualmente, o próprio verbo praxar carrega em si toda uma carga pejorativa e negativa, fruto do que, ao longo do tempo, tem sido feito na deturpação e usurpação do verdadeiro e genuíno sentido de «Praxe Académica». Extravasando para lá dos muros da Academia, muito dos atuais modelos de praxe são copiados de forma mesquinha, prepotente e ignóbil, como forma de achincalhar, denegrir e vexar outros que não fazem (ainda) parte da «pandilha». Basta estar atento a muitos rituais iniciáticos que povoam instituições que se queriam insuspeitas, impolutas e exemplares, para facilmente se perceber que a praxe começa cedo nos bancos da escola. Não querendo, nem devendo generalizar, pois nem todos utilizam a praxe da mesma forma e com o mesmo intuito, quero aqui também realçar a forma como muitas Associações Académicas e Universidades deste país a usam em atividades e ações de caráter solidário e filantrópico, onde na interajuda e na partilha cumprem o propósito de integrar, socializar e solidarizar. Essa é, a meu ver, uma forma digna e produtiva de evoluir na história e na dinâmica da praxe! Sempre tive dificuldade em retorquir à opinião de quem usa o chavão “Sempre foi assim. É a tradição!”, pois sendo uma apreciação pouco racional, presa num anti evolucionismo básico, não me deixa qualquer margem de manobra para um debate e reflexão saudável, séria e proveitosa. Praxes assentes em rituais de iniciação que perpetuam o poder de outrem sobre um seu igual? Não! Já me basta o dia-a-dia para conviver com o desdém e humilhação gratuita de poucos sobre muitos! 22 de setembro de 2016

153


PAULO CUNHA

Todos os dias são da Música Desde 1975, data em que foi instituída pelo International Music Council (uma instituição fundada em 1949 pela UNESCO, que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música), que o «Dia Mundial da Música» se comemora anualmente a 1 de outubro. Esta data visa relembrar e alertar para a importância de promover a arte musical em todos os setores da sociedade, de divulgar a diversidade musical e de fomentar a aplicação de ideais como a paz, a amizade, a evolução das culturas e a troca de experiências. Quando o carismático vocalista do grupo U2 , Bono Vox, referiu que: “A música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas”, quis com o seu testemunho pessoal mostrar-nos o fabuloso e incomensurável poder da música enquanto linguagem humanizadora e pacificadora. Tal como o grande escritor Hans Christian Andersen, que frisou que: “Onde as palavras falham, a música fala”, também muitas «personalidades» com responsabilidades de vária ordem o sabem, mas não o assumem como prioridade, nem como veículo potenciador de mudança. Já se tornou recorrente, e até maçador, falar e escrever sobre o assunto, mas enquanto se assiste a um desinvestimento acentuado e

154


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

a um abandono progressivo de medidas que em tempos permitiram ter alguma esperança em ver Portugal na senda da - plena integração na Comunidade Europeia no que à música diz respeito, assiste-se a uma retórica já gasta, assente nos sacrifícios que «todos» temos que fazer em nome da economia e das finanças públicas do país. «Música política» que os vários artistas da música já se habituaram a ouvir mas continuam a não entender, nem a gostar. Tornou-se habitual festejar o Dia Mundial da Música com música, mas tendo em conta a desproporção entre a qualidade da música que por cá se cria e interpreta e o uso que dela se faz durante todos os dias em que a música não tem honra de destaque, merecia que todos os aspirantes a músicos e atuais músicos «colocassem a boca no trombone» e, em vez de tocar, partilhassem o seu testemunho sobre o que é ser, hoje, músico em Portugal. Por certo muita gente ir-se-ia surpreender com o que iria ouvir! Sendo Portugal um país pequeno, é grande na quantidade de bons músicos que possui em todos os géneros musicais. Gente que passou e continua a passar grande parte do tempo a estudar, a aperfeiçoarse e a atualizar-se, mas continua a ser encarada por todos aqueles que os deveriam promover e destacar como uma das nossas maisvalias enquanto país, apenas como um grupo de meros «entertainers». Fossem os músicos uma classe profissional coesa e, com classe, lutassem pela sua credibilização e valorização artística e laboral e, muito provavelmente, deixariam de ser tratados à margem das outras profissões. Mas isso são «outras músicas», feitas de «quintas e quintais» arraigados na natureza e conduta humana. Ao contrário do que muitos pensam, não se nasce músico, nem é músico quem quer… O músico constrói-se, cresce e amadurece com muito «sangue, suor e lágrimas»! Por isso me confrange ver tantos músicos inebriados pela sua música e de costas voltadas para a música dos outros… porque a música é demasiado grande e importante para a pequenez de alguns homens que dela vivem.

155


PAULO CUNHA

Já alguma vez se deram ao trabalho de identificar e quantificar os momentos em que estão em contacto com a música, desde que acordam até ao momento de adormecer? É um bom exercício para nos mostrar a importância da mesma nas nossas vidas. Desde a antiguidade que a música está associada à arte das musas, e assim continuará a estar enquanto houver quem a dignifique e valorize! Assim sendo: viva a música, todos os dias! E já agora, deixem-se atingir… porque, como disse Bob Marley: “A parte boa da música é que quando ela te atinge, não sentes dor alguma”. 30 de setembro de 2016

156


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Algarve + Arte = (+) Turismo Quando em 2013 fui convidado pela Direção Regional de Cultura do Algarve e pela Universidade do Algarve para dar o meu contributo escrito numa publicação conjunta, intitulada «Quintas de Cultura – A criação cultural no Algarve», terminei o texto referindo: “É altura de parar para pensar e confirmar a importância que as associações e coletividades algarvias não profissionais nem profissionalizantes ligadas à Música sempre tiveram e que, na atual conjuntura, está ser notória e fulcral. No atual panorama musical, são elas o garante na produção e realização musical efetiva no nosso dia-a-dia. Mas será preciso chegar a estes extremos para os responsáveis institucionais e decisores políticos entenderem que elas sempre existiram e que, apesar de toda a sua intrínseca e voluntariosa riqueza musical, raras vezes foram merecedoras da devida e merecida atenção? São elas que, hoje, no Algarve real, através dos seus associados, colaboradores e diretores, idealizam, promovem, produzem, realizam, gravam, concretizam… Música! Chegámos ao momento em que é preciso dar o salto pois, fruto das circunstâncias, nada será como dantes. Será um erro crasso, com consequências irreparáveis para as gerações que nos sucederão, ser conivente e deixar - outra vez - os agentes musicais algarvios serem marginalizados, subalternizados, vilipendiados, preteridos e esquecidos. Para que isso não aconteça é preciso que todos os que estão profissionalmente ligados à Música se consciencializem que a Música feita no Algarve só será devidamente respeitada e creditada quando todos eles a assumirem e considerarem como una, sem compartimentações preconceituosas. É necessário afirmar a atividade musical através da criação de estruturas profissionais onde todos os que pela sua exigência, dedicação, profissionalismo, qualidade e mérito possam constituir-se como um núcleo gerador de oportunidades criativas, interpretativas e performativas. Só assim poderemos, de uma vez por todas, tentar

157


PAULO CUNHA

que a marca «Algarve Musical» se constitua como mais uma fonte de divulgação e rentabilização da nossa região. A bem da Música e do Algarve, criemos sons com outros tons”. Volvidos três anos, no início deste ano, numa palestra/tertúlia para a qual tive a grata honra e prazer de ser convidado pela Câmara Municipal de Loulé, fiz - mais uma vez - um pequeno balanço da atual situação no que à cultura e às artes (criadas, produzidas e consumidas no Algarve) concerne, tendo na altura frisado o estranho, constante e continuado alheamento das entidades ligadas ao turismo algarvio na utilização das associações e artistas da região como agentes catalisadores, potenciadores e angariadores de mais e melhores turistas para a «época baixa». Tendo então a questão, colocada em tom de queixume, ficado a pairar no ar… Eis se não quando, parecendo ter ouvido as nossas «preces», a atual Secretaria de Estado do Turismo decidiu canalizar um milhão e meio de euros para o programa «365 Algarve». Um programa que pretende articular Cultura e Turismo no Algarve, destinado a apoiar e promover a oferta cultural na chamada época baixa do turismo, de modo a tornar a região algarvia mais atrativa e apetecível ao longo do ano e a combater a sazonalidade entre os meses de novembro e maio de 2017. Sendo, desde sempre, um acérrimo e convicto defensor da promoção e divulgação da força criativa e produtiva dos agentes culturais algarvios junto de quem nos visita, é com enorme satisfação e agrado que vejo a Comissária deste programa, Dália Paulo, privilegiar uma programação participativa e identitária, construída exclusivamente com associações culturais e municípios algarvios. Ao envolver cinquenta e uma entidades, que apresentarão sessenta e três projetos, em mais de mil apresentações ao longo de oito meses, residentes e visitantes terão acesso ao melhor que em termos artísticos por cá se faz. Desejo muito que este programa venha a ser um êxito junto de todos os intervenientes, pois se assim suceder poderá vir a ser

158


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

ampliado, ganhar novos parceiros, apontar novas estratégias de afirmação identitária às várias autarquias algarvias e ser replicado noutras províncias com potencial turístico. A sua continuidade dependerá de conseguirmos, em tempo útil e eficaz, publicitar e promover lá fora a cultura que se faz cá dentro; de mostrarmos a quem nos visita o apoio (efetivo) que damos aos «nossos» artistas; de criar canais que facilitem a «exportação» da arte feita a sul para as origens de proveniência dos turistas; de potenciar a partilha e usufruto das mais-valias e sinergias das várias entidades envolvidas! Só assim teremos um «Algarve todos os dias, onde todos contam!». 6 de outubro de 2016

159


PAULO CUNHA

Inovar? Sim, para humanizar! Se atentarmos nas tensões recentes e constantes entre a Uber e os táxis, a Airbnb e os hoteleiros, a Spotify e as discográficas, a TripAdvisor e as agências de viagem, entre outras, veremos que as mesmas são apenas um dos fenómenos mais visíveis da atual revolução e disrupção tecnológica e digital a que assistimos diariamente e nos ultrapassa de forma veloz, pela esquerda e pela direita e, aparentemente, sem marcha atrás. Reféns de uma economia de mercado onde a gradual desumanização da produção é justificada por uma globalização de processos, assente numa maior rentabilização dos recursos tecnológicos colocados ao nosso dispor, caminhamos para um futuro cada vez mais incerto e imprevisível. O que não seria necessariamente mau, se os ditos meios de produção fossem colocados ao serviço e em benefício do bem-estar de todos. E também porque o sonho vive de uma realidade desconhecida, mas desejada! Cada vez mais, as palavras-chave para esta nova geração que já nasceu em plena era tecnológica e digital são: «empreendedorismo», «inovação» e «mérito». São palavras que carregam em si todo um desejo de crescer, superar e vencer. Desejo que acompanha e, ao mesmo tempo, é acompanhado pela voracidade e velocidade com que as novas tecnologias se desenvolvem com o intuito de fornecer

160


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

mais «armas» para esta enorme corrida global ao topo da pirâmide do mundo empresarial. Sendo favorável e adepto das novas tecnologias (tecnologias de informação e comunicação, energia e robótica) e vendo com enorme agrado a forma como grande parte das mesmas nos ajudam a obter mais tempo de qualidade, a nos aproximar mais uns dos outros e a tornar o planeta mais saudável e sustentável, defendo o investimento na Educação - de forma devidamente programada e continuada - como meio de nos posicionarmos num patamar em que dependamos cada vez menos de vontades alheias e dúbias. Esta revolução contínua que, ao contrário da industrial, substitui o petróleo, o carvão, o aço e outros recursos naturais pelo conhecimento e pelo empreendedorismo, aponta-nos um caminho de constante mudança. Constitui um novo paradigma de vida onde a eminente «fuga para frente» e o desejo de descobrir não nos deixam, muitas vezes, tempo para consolidar determinados conhecimentos e práticas. Daí a dificuldade em aceitar a mudança apenas pela mudança, destituída do propósito principal de beneficiar a humanidade. É intrínseco à natureza humana a vontade de cada nova geração querer embarcar e navegar em águas diferentes às dos seus progenitores. E nesta agitação constante “…sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.”. Mas na necessidade constante de inovar, esquecemos por vezes o principal: porquê e para quê inovar? Centrados no «como, quando e quanto», negligenciamos a quem, em última análise, se destina a mudança. Perder de vista o objetivo principal das mudanças operadas, em nome de um progresso urgente, emergente e competitivo, faz-me pensar e alertar para a necessidade da reflexão atenta, participada e ativa de todos. Porque a todos interessa que, pela humanização da máquina não se maquinize o homem! 14 de outubro de 2016

161


PAULO CUNHA

Qual crise da meia-idade, qual quê!? Sempre que, com algum tempo, me olho ao espelho reparo nas alterações que a passagem do tempo me tem oferecido. Muita delas sem que eu a elas aspirasse ou mesmo as quisesse, mas já que cá estão… o melhor é aproveitá-las! Até porque a vida é feita de mudança e como já alguém disse: “Estar vivo é o contrário de estar morto!”. E que bom que é estar vivo, sabê-lo e, mais que tudo, aproveitá-lo. Não escrevo em causa própria, pois atravessei os «quarentas» e entrei nos «cinquenta», serena e pacificamente, sem necessidade de grandes introspeções, saudosismos, meditações, amarguras e lamentações. Portanto, quando oiço amiúde certas mulheres (de outros) culpando a (maldita) crise da meia-idade dos homens, fico a matutar sobre o que será isso: «a meia-idade»?! Como se medíssemos a nossa existência por séculos, e ao nos aproximarmos da sua metade acordássemos - de repente - para vida… Recordo-me de há uns tempos ter lido numa publicação dita feminina, uma série de dicas que indiciariam que os homens poderiam estar a entrar na tão apregoada «crise da meia-idade». Entre outros citavam os seguintes comportamentos: sentir tédio com o trabalho, pessoas e coisas que antes gostava; sentir nostalgia e

162


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

saudade dos «velhos tempos»; desejar retroceder no tempo e cumprir metas não alcançadas; auto culpar-se pelos fracassos pessoais e escolhas feitas; sentir desejo de estar só; sentir obsessão com a aparência; sentir o desejo ou pensamentos de ter um caso, especialmente com pessoas mais jovens; mudar o comportamento sexual; ter a sensação de não amar mais o cônjuge e/ou sentir-se ressentido com o casamento; desejar largar tudo e viver o que nunca viveu antes; sentir-se compelido por alimentos, álcool ou droga; sentir-se incerto sobre o rumo a seguir na vida; descontrolar-se com o dinheiro; culpar o cônjuge pelos seus problemas e por se sentir «amarrado» ao relacionamento; tentar parecer poderoso através da aquisição de bens caros; procurar itens que os jovens costumam adquirir como piercings, joias ou tatuagens. Sei que algumas mulheres estarão agora com um sorriso nos lábios, mas fui confirmar e eram essas as características que lá estavam escarrapachadas. Quem as escreveu lá saberá… Como observa a psiquiatra Françoise Millet-Bartoli, autora do livro «A crise da meia-idade, uma segunda oportunidade», “(…) tal como o adolescente se interroga, de forma fatalista, sobre o seu objetivo na vida, o adulto de meia-idade também ele se interroga frequentemente sobre o sentido da existência.”, por isso não é de estranhar que a chamada crise se ancore em razões que sugerem um questionamento constante do que fazer e como fazer na «metade» que ainda lhe resta viver. Numa sociedade que valoriza a juventude e a sua criatividade, cada vez mais os quarentões/cinquentões sentem-se mais vulneráveis. Ao viverem com a obsessão de serem postos de lado como coisas velhas por causa do seu modo de vida rotineiro e da sua forma de estar, profissional e sentimentalmente acomodada, tentam assim experienciar uma segunda adolescência. Tendo a crise económica conjuntamente com a progressiva desvalorização do estatuto de macho que sustenta a família propiciado também uma maior desresponsabilização em relação à instituição «família» (tal como aquela que nos foi dada a conhecer enquanto filhos), novos valores e comportamentos surgiram, tornando outros obsoletos.

163


PAULO CUNHA

Várias amigas minhas apontam esta crise transversal ao género masculino como a principal culpada de muitas infidelidades e mau estar latente na vida de muitos casais, pois a tentação de recuperar o prestígio e o destaque perdidos com uma «mulher-troféu» está sempre presente. Talvez… mas como em tudo na vida não convém generalizar, pois muitos homens são pais e maridos empenhados e presentes. Grande parte deles procura outras formas de redescobrir a vida através da entrega ao desporto, às atividades artísticas e à espiritualidade, o que por vezes são tidas como, injustamente, risíveis e menosprezadas pelos que os rodeiam. Pois é meus caros homens, apesar do nosso declínio físico ser já visível e a sociedade baseada na cultura da juventude e da beleza começar a apontar-nos o dedo acusador, olhem para o tesouro que têm em casa e que, tal como vós, precisa que - em família continuem a mudar o mundo e a deixar que o mundo vos mude também. Só juntos poderemos conseguir que a idade se transforme numa conquista, não numa crise! 21 de outubro de 2016

164


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

De «Zé Cabra» a Maria Leal… Desde que tenha capital próprio para financiar a produção, qualquer pessoa pode hoje colocar no mundo uma obra sua, mesmo que para a fazer não tenha nem engenho nem arte. A democratização da produção (dita) cultural chegou a todos com a diminuição dos custos e encargos com a mesma, conjuntamente com a necessidade de todos os intervenientes na máquina que serve e se serve da Arte se autofinanciarem. A velha premissa que não é artista quem quer, mas sim quem o mostra ser, esbateu-se com o tempo, diluída nas necessidades inerentes à emergente avidez da sociedade de consumo. Quando, há mais de uma década, um «maduro» com a minha idade, de seu nome Casimiro Afonso, gravou dez temas em apenas quatro horas, tendo assim realizado o seu sonho de gravar um disco (mesmo sem saber cantar), por certo não acreditaria no que lhe viria a acontecer quatro anos depois… O cd foi descoberto por um grupo de amigos que viajava por Itália. Acharam-lhe tanta graça que colocaram alguns dos temas na internet, o que acabou por ser descoberto pela equipa do programa da manhã da Rádio Comercial. A partir daí fez-se história: vendeu mais de 40 mil cd, recebeu uma grande cobertura e divulgação das principais rádios nacionais e

165


PAULO CUNHA

estações televisivas e tornou-se num ídolo no meio estudantil. Depois de imensos espetáculos ao vivo, «Zé Cabra» tornou-se um fenómeno e ficou famoso por cantar fora de tom (desafinado) e com um ritmo duvidoso. Como era expetável, depois da novidade ter sido devidamente triturada e espremida, rapidamente os mesmos que a lançaram e promoveram, perceberam que a mesma água não passa duas vez debaixo da mesma ponte. Daí o esquecimento e desinteresse a que a dita «estrela» mediática foi (até hoje?...) votada, apesar de várias tentativas para regressar ao showbiz português. Mas como tudo na vida, também na música os ciclos se repetem geracionalmente, tornando aquilo que foi novidade para os pais, agora novidade para os filhos. E neste caso pelas piores razões! Era também previsível que o filão risível da imperfeição musical aliado ao ignóbil desejo de explorar as fragilidades intelectuais e emocionais de quem quer - a todo o custo - aparecer, parisse outros «artistas» do mesmo gabarito. E eis que, fruto de uma regressão cultural movida e impulsionada pelos «mass media», de novo se abre a caixa de pandora para algo a que chamam música, de lá saindo uma trupe de renovados (en)cantadores. Bastando estar atento aos «playback» totais mais do que retocados e elaborados que nos são dados a presenciar nas manhãs e tardes televisivas, é possível perceber que o senso comum musical também se deseduca. Eis se não quando, a exemplo do que aconteceu há uma década, surge outra personagem musical que, através da força da disseminação social que a internet permite, entrou nas nossas casas sem ser convidada. Com jeitos e trejeitos bamboleantes e uma voz tratada com Photoshop (segundo a própria), Maria Leal surgiu recentemente para explorar o filão do anedotário musical em que certo gosto se transformou. É claro que tal situação me preocupa, pois custa-me ver cada vez mais o gosto popular a ser condicionado pela injeção de capitais multinacionais nas várias redes de difusão e promoção, apenas com o

166


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

intuito de nos limitar o gosto musical entre muros comerciais préestabelecidos. «Tendo-os na mão», a indústria lá vai criando e mantendo alguns «artistas» enquanto fontes geradoras de receitas, pouco interessando se cantam bem ou não… aliás para quê, se hoje tudo se maquilha com programas que afinam até o cacarejar de uma galinha!? Entretanto, o que dizer a todos aqueles que investiram quase toda uma vida na sua educação e formação musical e que, por cá, continuam a ver-se preteridos por estes «artistas» de ocasião? É que a culpa não é deles, por aproveitarem a oportunidade, a culpa é de quem - subliminarmente - condiciona o gosto de uma enorme faixa da população que tem na tv, na rádio e na internet os seus professores de Educação Musical para toda a vida. É caso para dizer: “Só não vê quem não quer ouvir. Ou será o contrário?...”. 28 de outubro de 2016

167


PAULO CUNHA

Terá a Cultura que ser elitista? Começo este «desabafo» com uma pergunta provocatória que, inevitável e naturalmente, induz resposta imediata. Negativa, obviamente! Quem é que, vivendo em democracia, negará e afrontará duas das premissas básicas de um estado de direito: o direito à Educação e o direito à Cultura? Direitos constitucionalmente consagrados, mas que depois de mais de quatro décadas parecem continuar ainda arredados de um pleno e consequente usufruto por parte de todos os nossos concidadãos. Fruto de realidades assentes em desigualdades de oportunidades geradas por assimetrias económicas, financeiras, geográficas, culturais e educacionais, continuamos a constatar que muitos portugueses continuam ainda a olhar para a cultura «por um canudo». Em meados do século XVIII, Johann Gottfried Herder referiu que a cultura é o próprio sangue vital das pessoas, o fluxo da energia moral que mantém intacta a sociedade. A cultura de um povo define-o! Segundo os românticos alemães (Schelling, Schiller, Fichte, Hegel e Holderlin), a cultura dá forma à linguagem, à arte, à religião e à história, deixando o seu carimbo no mais pequeno acontecimento. Nenhum membro da sociedade, por mais mal-educado que seja, está desprovido de cultura, uma vez que cultura e pertença social são a mesma coisa.

168


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Outros, mais clássicos que os românticos, interpretaram a expressão no seu significado a partir do latim. Para Wilhelm von Humbolt, fundador da universidade moderna, a cultura estava associada não ao crescimento natural mas ao seu cultivo. Nem todos a possuiriam, uma vez que nem todos teriam o desejo, o tempo, a inclinação ou a habilidade para aprender o que era preciso. O objetivo da universidade era a preservação e destaque da herança cultural, e a sua passagem à geração seguinte. Herder define a cultura como algo separado, uma ilha do «eu» no oceano do «eles». Humboldt defende que a pessoa culta olha a humanidade como um todo, conhece a arte e a literatura de outros povos e simpatiza com a vida humana em todas as suas superiores formas e aspirações. As duas ideias mantêm-se vivas, sem que grande parte de nós as divida entre «baixa» e «alta» cultura… e ainda bem! Fazê-lo deixará, inevitavelmente, alguém de fora e, consequentemente, provocará querelas e criará fações entre aqueles que procuram definir o que é afinal cultura. Defendo que quem mais contribui para a elitização da cultura é todo aquele que, de forma preconceituosa, lhe aponta o dedo como fonte de elitismo! Tal como uma fonte de água cristalina pronta a saciar a sede de qualquer alma sequiosa, a própria vida jorra fontes de cultura, prontas a serem consumidas por quem as quiser e delas estiver disposto a usufruir. As elites culturais constroem-se na estratificação social e no isolamento grupal, e desconstroem-se com o acesso a uma linguagem cultural comum que permita ao comum dos mortais «descodificar» a oferta cultural que lhe é proporcionada. Seja individualizada ou de «massas», não há razões para apresentar justificações para não a consumir, quando, não raras as vezes, nos quer entrar pela porta a dentro e somos nós que não lhe franqueamos a entrada. Só com uma real e consequente educação para a descoberta, para o conhecimento, para a interpretação e para a fruição da cultura - de uma forma aberta e extensível a todas as gerações, condições

169


PAULO CUNHA

socioeconómicas e proveniências geográficas - poderão apagar esse estigma que teima manchar uma palavra tão bonita (cultura) com outra tão feia (elitista). Como em tudo o que realmente importa, é inevitável: a solução encontra-se na Educação… de preferência a começar no berço! 3 de novembro de 2016

170


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Só se desilude quem anda iludido! Há cerca de oito anos, também numa quarta-feira, ao deslocar-me para o meu local de trabalho tive o grato prazer de ouvir através do rádio do carro, a notícia de que tinha sido eleito para presidente dos EUA, Barack Obama. Pela sua carreira académica e profissional, pelo seu percurso cívico e político e pelas promessas eleitorais, na altura inspirou-me confiança e esperança. Confesso que me deixou também feliz ver alguém de origem africana a ocupar o lugar, pois os cargos também se fazem e constroem de simbolismo. Os anos passaram e, com altos e baixos, nos dois mandatos possíveis fez o que soube, o que podia e o que lhe permitiram fazer. Esperando uma passagem de testemunho que continuasse a manter a esperança de ver esta superpotência como um garante de equilíbrio, defesa e manutenção de uma paz global, o mundo assistiu - mais uma vez - às habituais lutas internas nas «primárias» partidárias, onde Republicanos e Democratas escolheram os candidatos que, no entender dos seus apoiantes, preenchiam os requisitos para se apresentar nas eleições de 8 de novembro de 2016. Com a encenação já esperada, cedo se percebeu que os dados do jogo já rolavam há muito e o jogo parecia padecer dos vícios

171


PAULO CUNHA

habituais. Estruturas oligárquicas onde feudos construídos ao longo de vários mandatos ditavam as regras, em paralelo com o descomunal poderio económico que fazia entrar a mensagem de um mediático candidato até no mais recôndito e pobre lar da «underclass». Hoje, no «day after» eleitoral, a cena repetiu-se: saí de casa e a caminho do trabalho, às 8h30, ouvi o locutor a anunciar a vitória do candidato republicano, tendo, ao contrário do que me aconteceu há quase uma década, sentido um choque emocional tão grande que fiquei com a sensação que me tinham batido (à má fila) por trás da viatura…, tendo de imediato sustido a respiração e apagado a emissão radiofónica. “Um baque próprio dum basbaque!”, pensei! Felizmente lá me animei quando ao chegar à sala de aula percebi que muitos jovens debatiam, de forma ativa, o resultado que, por certo, virá também a influenciar as suas vidas. A preocupação era generalizada e transversal. Parecia que todos tínhamos acordado para um pesadelo! Quase como todos os meus amigos, gente informada e interventiva, também a mim me apeteceu exorcizar publicamente, em tom de catarse, os demónios que me assaltavam o espírito, pois não é todos os dias que se goram as mais previsíveis expectativas face ao humanamente desejável. “Mas isso somos nós, gente educada e formatada para esperar e aceitar mudanças graduais em prol da defesa, evolução e preservação da humanidade… “, matutei. Assim sendo, lá me contive nas esperadas, copiadas e replicadas múltiplas explicações para um fenómeno que tornou hoje cada um de nós também um comentador político. Não, não é fácil aceitar a vitória de alguém que, mostrando nos atos e nas palavras ser uma pessoa que não respeita os mais básicos direitos e deveres humanos, a defesa e a preservação do meio-ambiente e as conquistas evolutivas e socias, virá a ser o líder do outrora apelidado «mundo livre»! Bem sei que deveria estar mais atento aos sinais da história recente, que tem dado à demagogia e ao populismo um poder

172


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

emergente e viral, aproveitando-se dos alvos preferenciais dos países onde as assimetrias socioeconómicas são uma realidade, ainda que muitas vezes encapotada. Eleitores com parcas e vergonhosas condições de vida, ou sem instrução básica, ou abandonados e ostracizados na 3ª idade, são a mola que impulsiona este recorrente desejo de mudança, catapultado pelas palavras de todos aqueles que para chegar ao poder já perderam toda e qualquer tipo de vergonha e pudor. É uma verdade irrefutável: se nada fizermos para mudar o atual sistema político, independentemente das cores e dos lados, muitas surpresas aí virão, pois o cansaço, a desilusão e a ira acumulados terão que explodir nalgum momento. É só uma questão de tempo… e o tempo não é para ilusões, tão ao gosto de muitos políticos da velha guarda. Pelos jovens, os tais que hoje me mostraram (mais uma vez) que a educação e a instrução são a solução, é tempo de agir! 11 de novembro de 2016

173


PAULO CUNHA

Procuro consciência cívica! Sabem onde está?... Custa-me ir atrás de «cidadãos», seja a pé ou locomovido, e vê-los deitar para o chão aquilo que depois de utilizado, e já sem utilidade, se tornou lixo, conspurcando assim corredores, elevadores, passeios, caminhos, estradas e jardins. Custa-me ver «cidadãos» a levar os seus «animais de estimação» à rua para dejetarem as fezes que, entregues à sua sorte, irão ser pisadas por incautos e distraídos transeuntes. Custa-me ver «cidadãos» a atirar pelas janelas das suas casas, «restos» e beatas que sujarão as varandas dos vizinhos que, não tendo culpa do efeito da força da gravidade, receberão do «céu» as indesejadas oferendas. Custa-me ver as finas areias e as cálidas águas da orla marinha, manchadas e cobertas de matérias e materiais expelidos e abandonados por grupos de «cidadãos» que, individual ou corporativamente, usam o mar como tapete para esconder a sua porcaria não biodegradável. Custa-me constatar que, conhecendo o efeito dos gases nocivos que são enviados para a atmosfera, continuamos a eleger «cidadãos» que patrocinam e potenciam tais atos, como se o amanhã não importasse. Enfim… custa-me viver entre gente que pela sua total falta de cumprimento

174


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

dos deveres de cidadania, apenas usa o epíteto de cidadão por usufruir dos seus direitos! Perante tantas discrepâncias entre o que é defendido pelos teóricos e ideólogos da Escola Democrática como sendo as premissas básicas para o desenvolvimento e formação interpessoal/social dos cidadãos e o que é, quotidianamente, observado na prática e na vivência diária entre várias gerações, coloca-se a questão sobre o que é que está a correr mal na passagem e assimilação dos pressupostos e do conteúdo da mensagem. Por isso se pretende e deseja que a Educação para a Cidadania capacite as novas gerações a saberem ouvir; a saberem debater/argumentar; a autodisciplinarem a sua participação; a aceitarem pontos de vista diferentes dos seus; a interpretarem reações; a serem sensíveis a sentimentos; a evitarem situações de conflito; a negociarem; a resolverem conflitos; a criarem empatia com os outros; a analisarem pontos fracos/pontos fortes nos outros; a apreciarem qualidades e competências; a trabalharem com os outros; a partilharem saberes; a empenharem-se na resolução de dificuldades dos outros; a cooperarem na busca de soluções para situações ou problemas; a participarem em projetos coletivos; a avaliarem criticamente o desempenho dos outros; a adaptarem-se a situações comunicacionais diversas; a relacionarem-se corretamente com os seus pares e com os adultos; a consciencializarem-se da importância do indivíduo no bem-estar coletivo; a serem sensíveis ao sofrimento físico e emocional; a aceitarem a diferença; a implicaremse na defesa do ambiente; a tomarem posição perante as agressões ao ambiente; a participarem na definição de regras de funcionamento e convivência; a descobrirem a importância ou a simbologia das heranças culturais da sua comunidade; a compreenderem o funcionamento e a finalidade de instituições ou organizações. Posto isto, ponho-me a pensar para que servirão tantos, tão importantes e inestimáveis objetivos comportamentais, quando o atual ensino centrado no «saber para o ter», por oposição ao «saber para o ser», não lhes dá o devido crédito e valor? Para que se sintam mudanças relevantes e consequentes nas nossas vidas é necessário

175


PAULO CUNHA

redefinir e recentrar as prioridades familiares e sociais. Porque nada acontece por acaso e tudo aquilo que nos apoquenta e nos «tira do sério» acaba por ser o efeito da erosão e do descrédito a que hoje chegou o ensino de, e para os valores. Pois é… a falta de cultura cívica custa-me e também a muitos de vós que, «comendo e não gostando», lá vamos calando e, assim, consentindo. Se todos fizermos a nossa (pequena) parte no seio familiar, as consequências, por certo, far-se-ão sentir de forma efetiva e consequente na interação social de todos nós. Para que, de uma vez por todas, deixemos de barafustar e maldizer as razões que nos afastam e possamos - finalmente - louvar os ideais solidários que nos aproximam… Os tais que nos farão reencontrar o prazer de viver em comunidade! 18 de novembro de 2016

176


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

A vantagem de não ter um «plano B» “E se falhar?... Qual é o plano? Não me digas que não tens um «plano B»?”, esta é uma das muitas frases feitas que nos habituámos a escutar quando alguém inicia qualquer projeto, seja profissional ou pessoal. Mas valerá mesmo a pena ter um plano alternativo para tudo o que venhamos a fazer nas nossas vidas? “Quanto mais queremos alguma coisa, menos provável é que tenhamos um plano para a ter”, ouvi eu um destes dias num programa radiofónico, citando uma especializada revista científica. Tal afirmação despertou-me a atenção, bem como a da minha filha de nove anos que então me acompanhava. Perante tal declaração, vi-me na obrigação de lhe explicar a razão que me levava a concordar com tal ideia. E tendo ouvido tantas vezes na comunicação social uns senhores a perguntar qual era o «plano B» para a ação de outros tantos, lá consegui a sua melhor atenção. Saber planificar pressupõe uma boa dose de estruturação, organização e arrumação mental, aliada a um firme desejo de atingir ou alcançar algo. Ser persistente em tais desideratos dar-nos-á uma boa margem de sucesso! Já muitos disseram que “De boas intenções está o inferno cheio!”, pois sabem que as boas intenções acabam por

177


PAULO CUNHA

não ser suficientes como garantia de êxito. Embora a honestidade, a preparação profissional e a capacidade de trabalho ajudem, só por si não chegam para a prossecução e conclusão de um determinado plano. O plano serve para definir limites temporais, afastando-nos assim do impulso (muito humano) de nos acomodarmos, o que nos levará, inevitavelmente, a adiá-lo ou não cumpri-lo. É bom planificar por objetivos! Objetivos ambiciosos, que provavelmente serão trabalhosos e até incómodos, mas que, com esforço e determinação, serão concretizáveis. Basta olhar à nossa volta para constatar que quem planeia e planifica, atinge mais facilmente e mais vezes os seus objetivos. É necessário planear tendo objetivos a curto e a médio prazo, pois o encurtamento do espaço temporal faz-nos perspetivar melhor a realidade. Partir para algo com um «plano B» já «na manga» prejudica o empenho, a força de vontade e o compromisso. A realidade dos factos comprovam que ter, a priori, um «plano B» torna mais aceitável falhar e diminui a energia colocada no plano inicial. Aliás… só o facto de lhe atribuir a segunda letra do abecedário, torna-o hierarquicamente inferior ao «plano A». Dá-lhe um peso de remedeio, ou até de segunda escolha. Sei que a atual sociedade de consumo «ensina» os nossos jovens a andarem devidamente municiados com muitos planos, para que possam disparar em várias direções, tentando assim atingir o sucesso almejado, seja em que domínio for. Não é essa a minha forma de ver, nem de estar na vida. Um plano devidamente pensado, maturado e arquitetado vale por si, pela sua individualidade e pelo seu mérito… não poderá, nem deverá, ser descartado ao mínimo deslize ou contratempo. Sou pelos «planos A», seja a que nível for. Únicos até serem concretizados, ou não… e serem substituídos por outros «planos A». É tudo uma questão de saber o que se quer da vida, trilhando apenas os caminhos que nos levam à concretização dos nossos sonhos. Sem atalhos enviesados!

178


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Ainda no carro, depois de escutar o dito programa, (por alto) explanei estas ideias de modo a que uma criança as entendesse. Como epílogo perguntei-lhe qual era, então, o seu «plano B», ao que - lampeira - prontamente me respondeu: “Oh pai, eu nem o «A» tenho, quanto mais o «B»!?...”. E com essa tirada me calou, sem antes eu ter largado uma boa e franca gargalhada! 25 de novembro de 2016

179


PAULO CUNHA

Há tantas formas de sermos humanos! Depois de consultar os significados da palavra «humanidade» num dicionário, dois chamaram-me particularmente a atenção pelo facto de ambos derivarem da mesma palavra, mas andarem cada dez mais desencontrados; são eles: «natureza humana» e «benevolência e compaixão». Oiço falar, cada vez mais, da necessidade de restabelecer os valores humanistas como forma de lutar contra o crescente egocentrismo capitalista em que a sociedade (dita) evoluída todos os dias mergulha. Oiço!... Mas será essa a doutrina que ora vinga? Aquela que defende que a organização social deve desenvolver-se a partir do bem-estar humano, por oposição ao consumismo, a tudo aquilo que é superficial, ao narcisismo, bem como a tudo aquilo que não é próprio da dignidade humana?... Não. Antes pelo contrário! Assistimos assim a um verdadeiro atentado ao desenvolvimento integral da humanidade através duma crescente «coisificação» do homem enquanto produtor e/ou consumidor. É comummente aceite que a melhor forma de avaliar uma sociedade é aferir a forma como trata os seus pobres e necessitados. Desvalidos que, transformados e tratados como coisas, são frequentemente esquecidos pelos vários segmentos duma sociedade

180


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

onde, cedo, se aprende a respeitar, a idolatrar e a aspirar os vários tipos de poder. O crescente hedonismo «coisifica» o homem, tornando-se um sinal do trágico destino da humanidade: a banalização da vida, a perda de valores éticos e morais, invertendo a prioridade da «coisa» sobre a vida. Esta forma perversa de exploração de determinadas classes sociais por outras, a que assistimos em vários locais do globo, só é superável pelo facto do homem possuir em si a capacidade de revolucionar a sua forma de estar no mundo. E é na soma dessas revoluções interiores que se operará a grande revolução, feita por homens de palavra transformada em ação. Tomando como símbolo/ícone alguns homens e mulheres que têm passado pela nossa vida e, através de revoluções pacíficas, tiveram/têm o condão de deixar nas suas ações, descendência, continuo esperançado que consigamos ter mais comportamentos humanizados (benevolência e compaixão) uns para com os outros. São esses os meus heróis, os tais que tiveram o condão de semear em muitos de nós sementes de mudança interior. Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama, Nelson Mandela, José Mujica, Papa Francisco, entre tantos outros (anónimos e desconhecidos) que - através de palavras transformadas em ações - nos têm mostrado que o verdadeiro poder reside na forma como todos os dias nos mudam a vida para melhor. Assisti há pouco tempo a um programa em que os humanos são caracterizados através da qualidade e quantidade de humanismo que colocam nas suas atitudes em prol da humanidade, tendo-me deparado com uma resposta à questão sobre qual era o sentido/significado da vida, que, verdadeiramente, me arrebatou! “Manter a inocência e o sorriso de criança pela vida fora!”, uma resposta simples mas que condensa em si tudo aquilo que é realmente importante no nosso curto e efémero percurso. Temos permitido que uma vida conduzida e direcionada para uma, cada vez maior, humanização e glorificação dos bens materiais nos

181


PAULO CUNHA

aprisione e nos arrede do que realmente interessa: eu, tu, ele, nós, vós, eles… humanos iguais nos deveres e nos direitos. Mas, afinal de contas, terão as novas gerações que continuar a ser e a viver como nós… ou poderão, nas suas diferenças, vir a tratar e a ser tratadas como gente (humana)? Continuo, esperançado, a acreditar que sim! 1 de dezembro de 2016

182


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Que desperdício tanto desperdício! Talvez devido à educação e vivência no seio de uma família onde se valorizava o que se tinha, sempre me fez confusão conviver com situações em que via desperdiçar e deitar fora determinados bens em condições de serem utilizados ou consumidos. Com o passar do tempo, essa sensação agudizou-se na proporção direta com o maior conhecimento de uma realidade, a vários níveis, atentatória à dignidade humana. Daí continuar a ter alguma dificuldade em lidar com o progressivo culto ao desperdício que muitos praticam em nome da necessidade de estar em constante sintonia com o progresso. Um aparente progresso onde a matéria é tratada como se não fosse finita e o desejo de consumir por parte dos povos ditos mais desenvolvidos se transformou num impulso compulsivo de autossatisfação. Se observarmos com olhos de ver (e de sentir) as várias realidades que nos rodeiam, constataremos a pouca importância que é hoje dada à sensibilização e à educação para o (re)aproveitamento e reciclagem de recursos colocados ao nosso dispor. Todos os dias somos, desde que acordamos, subliminarmente sugestionados - de

183


PAULO CUNHA

forma virtual e real - a consumir de forma desenfreada e desnecessária. Basta fazermos um pequeno exercício de introspeção e autoanálise para aferirmos a forma como lidamos com os bens que tornamos nossos para logo de seguida deles prescindirmos de forma não reutilizável e definitiva. Quantas vezes não damos por nós a servirmo-nos de comida que, depois da refeição, em grande parte, é despejada no lixo? Quantas vezes, em nome de modas e caprichos, compramos peças de vestuário ou de calçado que se irão amontoar em armários atafulhados de bens inertes e desnecessários? Quantas vezes não cedemos aos pedidos dos nossos filhos para adquirir «consumíveis» de curta validade, pois no ano seguinte serão substituídos pela nova geração dos previsíveis sucessores? Quantas vezes não adquirimos utensílios «baratos» que pela sua total inutilidade se irão tornar caros? Como se costuma dizer: “Há males que vêm por bem!”, o que parece ter sido o caso com a malfadada crise económica/financeira que nos bateu à porta e que, instalando-se, nos fez reinventar uma nova forma de olhar e pensar o consumo. Este «back to basics» forçado tem-nos mostrado que é possível fazer bem e com igual qualidade com menos recursos. Como? Cortando nos excessos e nos desperdícios e programando e estruturando uma nova forma de gestão dos bens disponíveis. Diz o povo, e com razão, que: “Quem não tem dinheiro, não tem vícios!”. Ora, extrapolando esta pérola da sabedoria popular para o nosso quotidiano, é bom de ver que andamos viciados em bens de consumo supérfluos, desbaratando o dinheiro que nos fazem crer que temos, mas que afinal de contas não é nosso! Passamos por esta vida queixando-nos que o dinheiro não dá para nada, mas ao mesmo tempo endividamo-nos para comprar o que não precisamos, desperdiçando recursos finitos e perdendo oportunidades de deixar um mundo melhor para os vindouros. Incongruências de uma sociedade que adotou o ter para ser, quando afinal tem tudo para apenas ser… Feliz! Basta olhar para todos aqueles que com tão pouco

184


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

partilham o pouco que têm, enquanto outros tantos, de compra em compra, de moda em moda, de atualização em atualização, continuam em constante insatisfação. Desperdícios que em épocas festivas como a que ora entramos, me fazem aqui desabafar sobre esta estranha forma de convivermos com tantas assimetrias tão pouco natalícias. Natal é nascimento, mas é também deixar nascer dentro de nós a consciencialização que podemos mudar o mundo de muitos que chamariam aos nossos desperdícios, Natal. Por isso, do Natal gosto do seu espírito, e não do espírito da «coisa» comercial em que o Natal se tornou. E porque o espírito não se dá nem se recebe, partilha-se… deixo-vos aqui o desejo que o bem-estar e a alegria dos outros seja o vosso/nosso Natal. De preferência todo o ano! 9 de dezembro de 2016

185


PAULO CUNHA

Quando o choque tecnológico nos choca Eu sei que qualquer «choque tecnológico» custa a «engolir» se não for acompanhado por um choque cultural que nos leve a adaptar os nossos usos e costumes a uma constante nova realidade onde, diariamente, a tecnologia dita regras. Mas o que fazer quando, mesmo assim, tais mudanças nos chocam? Ponderei o suficiente antes de escolher este tema como desabafo, pois sei que, podendo parecer o «bota-de-elástico» que um dia, eventualmente, já poderei ter criticado, muitos de vós dirão que não deveremos contrariar os sinais dos tempos. Tomada de posição com a qual concordo, quando a mesma não interfere e influi no bem-estar emocional e no saudável crescimento intelectual dos nossos jovens. Sendo do tempo em que os intervalos escolares serviam para, como o nome indica, intervalar e intercalar as aulas com atividades lúdicas, onde as crianças e os jovens podiam exteriorizar o que as suas hormonas (aos saltos) então lhes pediam, e onde a atividade física fosse o contraponto indicado (e desejado) para o imobilismo da teoria aprendida na sala de aula, confrange-me - hoje - passar por tantos jovens saudáveis e vê-los sentados «agarrados à máquina». Com um utensílio que de telemóvel pouco tem, pois mais parece uma reduzida consola de jogos, são cada vez mais os alunos que trocam o salutar convívio entre si por uma completa alienação digital onde a atração pelo jogo, a comunicação virtual e a partilha efémera de um quotidiano veloz e inconsequente tomou conta dos seus merecidos e necessários momentos de lazer.

186


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Facilmente se substituiu as brincadeiras e convívios, que hoje nos fazem recordar com saudade e nostalgia os momentos da infância e da juventude, por momentos onde a satisfação imediata e fugaz nada mais acrescenta do que uma mera passagem do tempo. Aliás, são os próprios jovens os primeiros a reconhecer a total falta de propósito e de causa-efeito no tempo em que desbaratam o seu «tempo de qualidade». Já não bastando as solicitações tecnológicas que lhes povoam as suas casas, onde no recato do lar se poderão entregar a todo tipo de devaneios virtuais, assistimos a um isolamento autoimposto num espaço que, para além da aprendizagem, se pretende que seja também de partilha, de comunicação, de interação e até de diversão. Em nome de um entretenimento inconsequente, presencio - não impávido nem sereno - ao desbaratar de um tempo único, precioso e insubstituível na formação intelectual, social, e principalmente, emocional dos nossos jovens. A quantidade é tanta e tão variada na panóplia tecnológica que é «oferecida» a estes alvos privilegiados (e apetecíveis), que tudo o que hoje é o melhor, amanhã deixa de o ser com a facilidade de uma mudança para a última atualização. Daí a teia em que, sem sabermos nem darmos conta, nos vemos enredados por interpostas pessoas. A novidade toma conta do quotidiano dos que nos seguirão com a velocidade e voracidade dos dias, sem que nada possamos fazer para os devolver ao prazer de viver e contemplar a natureza dos dias feitos de, e com humanidade. Sendo apologista das novas tecnologias, luto diariamente através dos meus parcos recursos para que o choque tecnológico seja algo que nos ajude a «saborear» a vida, e não uma fonte de manipulação por parte de quem a deseja sugar. Por isso e por muito mais: façamos a nossa parte para que o mundo real não nos coloque à parte! 16 de dezembro de 2016

187


PAULO CUNHA

O preço de uma vida Aprendi muito nos dezoito meses em que eu e os meus camaradas de armas fomos obrigados a dar uma parte da nossa vida para que, pretensamente, Portugal estivesse mais protegido militarmente contra qualquer ameaça à sua soberania, dissuadindo assim qualquer tipo de agressões e ameaças. Aprendi o que quis, mas, sobretudo, aprendi muito do que não quis. Embora tivesse cumprido o «Serviço Militar Obrigatório» em tempo de paz, percebi que muitas mentes de alguns camaradas com quem convivi estavam em guerra. Em guerra com elas próprias. Conheci então, entre muitos, o preço de uma simples munição e o de um obus (projétil oco de carga explosiva), que em «semanas de campo» eram desbaratados em treinos para a manutenção da eficácia dos militares. Por isso entendo agora o porquê de muitos países investirem muito mais dos seus recursos na «morte» (como apregoada defesa da vida) do que na própria vida! Desde que o homem é homem que se conhecem registos históricos do uso da guerra para vários propósitos, diferenciando-o assim dos outros animais que só matam para se alimentarem. É, invariavelmente, o acesso às matérias-primas que leva os «senhores

188


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

da guerra» a escudarem-se nas diferenças étnicas, territoriais, políticas e religiosas para alimentar guerras que geram em si um horror diário que não cessa de lançar sementes de ódio e de vingança a nível global. Em locais de culto e em ocasiões em que se celebra a fé, facilmente se ouve falar da importância da paz para as nossas vidas. São frases bonitas e cheias de verdade e sentido, proferidas por gente que, independentemente do credo ou religião, ama a vida… São pessoas de paz! Mas o que fazer quando, entre, e à custa dessas pessoas, milita gente que usa a religião como pretexto para exteriorizar todo o ódio, incompreensão e irracionalidade de que é feita? O que fazer quando o medo toma conta de democracias maduras e consistentes, fazendo renascer comportamentos ignóbeis, abjetos e hostis por quem não é igual e pensa de forma diferente de nós, fazendo o todo pagar pela parte? O que fazer quando, em nome de ideologias estéreis e inconsequentes, se extremam posições entre concidadãos que conseguem trazer o horror da guerra para a civilidade das suas vidas? A guerra nunca foi, nem será apenas dos outros! Apesar do caráter regional de muitas que grassam por este mundo fora, as matanças de civis indefesos e de militares (que não passam de meros joguetes às mãos de interesses dúbios e incógnitos) têm efeitos nefastos e colaterais no equilíbrio social e comportamental da humanidade. Ao contrário de alguns, não sou daqueles que pensa que as guerras são um mal necessário para ajudar a reduzir o progressivo crescimento demográfico nos países em vias de desenvolvimento. São, nada mais, nada menos, do que um avolumar de atrocidades que colocam seres indefesos à mercê de monstros que, ao contrário das estórias infantis, fazem com que a nossa história venha a ter um final infeliz. Atrevo-me aqui referir que, cada vez mais, a vida humana vale cada vez menos, tal a forma desprendida, inconsequente e irracional com que muitos tratam os seus iguais, perdendo todo e qualquer respeito pela sua e pela vida dos outros. Preocupa-me ver a guerra a acontecer em quase todo o mundo; ver a guerra plasmada em todos

189


PAULO CUNHA

os noticiários; ver a guerra a condicionar o destino do planeta terra e, consequentemente, o nosso destino; ver a generalização da indiferença pelas consequências da guerra. Como me perguntava a minha filha há uns anos: “Oh pai, os «senhores da guerra» não têm filhos? É que se têm, parece que não gostam deles!?” - hoje a pergunta parece-me cada vez mais pertinente e acertada na argumentação. É verdade, não foi preciso ter «ido à tropa» para em cada Natal eu lhe responder que uma das maiores prendas que me/nos poderiam dar é a paz no mundo. Uma frase feita, feita de muito querer. Porque, acreditando, querer é poder! 22 de dezembro de 2016

190


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Façamos do ano novo, bom! Já repararam que nas semanas que medeiam a passagem do ano civil, o cumprimento social que antes se limitava a um «Olá estás bom?!...» passa para o sacramental «Bom ano (novo)!»? Tratamento esse que, quase por magia, nos faz esquecer o que passou com a esperança que o ano que nos espera seja diferente, para melhor! De repente, o mundo enche-se de bonomia e todos trocam desejos de boa vontade, quase como se, desse modo, expiassem os pecados que em nome próprio cometeram e que tornaram o mundo dos outros menos agradável de ser vivido. Todos sabemos que as alterações no nosso «modus vivendi» resultantes da transição de um ano para o outro são meramente simbólicas, pois não é o facto de juntar um novo dia ao ano que passou que tornará a nossa vida distinta da anteriormente vivida. Acrescentar um novo ano ao calendário gregoriano trará unicamente a novidade de recomeçarmos mais um ciclo nas nossas vidas. Novo ciclo que, invariavelmente, começa com o desejo de mudanças, mas que com o desenrolar das atividades diárias nos enreda numa teia de procedimentos em tudo iguais aos que, com o final do «ano velho», queríamos ver pelas costas. Compreendo a necessidade interior que todos nós temos em poder usar, tal como muletas, datas-chave que nos indiquem o ponto de partida seja para o que for. Por isso a utilização do velho chavão: “Ano novo, vida nova.”. A questão é que só isso não chega, pois os

191


PAULO CUNHA

anos passam e o caixote do lixo das mudanças desejadas não para de crescer! Parece que ao verbalizar vezes sem conta o desejo de «Bom ano!», nos autoconvencemos que é desta vez que se vão concretizar os desejos que a vida nos negou. Sabendo de antemão que o ano só será melhor do que o que passou se conseguirmos abdicar e despojar de tudo aquilo que nos fez mal, continua a impressionar-me a atitude de tantos que apenas colocam nas mãos do divino e da sorte o melhoramento da sua vida. Colocando de parte tudo o que, na natureza, não conseguimos dominar, muita coisa há que podemos transformar através do trabalho conjunto em prol da mudança. Alterações interiores que somadas trarão ao exterior das nossas vidas uma considerável melhoria. Nada de novo que já não saibamos, mas que, ano após ano, teimamos em esquecer. Sem qualquer veleidade em aqui querer promover a autoajuda e a motivação através de frases feitas, apenas partilho convosco o desejo de mudança que, através do exemplo, poderemos operar num mundo que trilha caminhos de uma mudança pouco consciente e consistente por parte de quem, pretensamente, nos deveria ajudar a ter um «Ano Bom!». Feita de estórias falsas e mal contadas, os anos passam e a história repete-se com a mesma cadência, trajetória e duração que a terra demora a dar a volta em torno do sol. Por isso pergunto para que serve desejar «Bom ano!», quando nada fazemos para o tornar num ano bom? Gandhi há muito que respondeu a essa questão com uma frase certeira e lapidar: “Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.”. Faça-se então uma nova história onde as mulheres e os homens de boa vontade tenham um papel preponderante e determinante. E, já agora… contem comigo! 5 de janeiro de 2017

192


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Lavoura musical Decorria o ano 2001 e, após proposta apresentada ao então vereador da Cultura do Município de Faro, Eng.º Augusto Miranda, eis que a recém-criada Associação Cultural Música XXI via aprovada a realização em Faro de dois dos vários concertos da produção «Música de Pais para Filhos». Pensados, estruturados e planificados para bebés até aos 24 meses, estes concertos didáticos e formativos viram pela primeira vez a luz do dia no auditório da Biblioteca Municipal de Faro, local que ficou de imediato repleto de bebés e papás ávidos de novas experiências musicais. Foi - finalmente - nos dias treze de novembro e quinze de dezembro que, através dos pais/professores/músicos, Rui Gonçalves (violino) e Joaquim Galvão (flauta transversal), consegui começar a partilhar com os algarvios muito do que alguns músicos, no seio familiar, fazem com os seus filhos de tenra idade. Com o acolhimento, apoio e divulgação entusiasta da comunicação social regional e nacional, várias autarquias algarvias acabaram por, naturalmente, abraçar a realização do ciclo completo de concertos nas suas regiões. E assim, localidades como Loulé, Albufeira, Portimão, Lagoa e Olhão viram durante vários anos ser facultado pelas suas autarquias o acesso gratuito à estimulação, fruição e

193


PAULO CUNHA

educação musical de base aos seus munícipes mais jovens, através do contacto com vários instrumentos das famílias das percussões, cordas e sopros. Quando me propus partilhar muito do que aprendi e vivenciei com vários mestres, pais e filhos (principalmente os meus), quis, desde logo, rodear-me dos melhores músicos e pedagogos que a região algarvia me oferecia, pois sempre fui da opinião que para os nossos filhos devemos disponibilizar o melhor! Não sendo um conceito original, quis através das explicações sucintas e focalizadas que acompanhavam a intervenção dos instrumentistas, usar os bebés para chegar aos seus pais. Como? Falando com os pais e lançandolhes pistas, dando-lhes trabalhos de casa, estimulando-lhes o desejo de brincar e fazer jogos musicais, induzindo-lhes o desejo de complementar com música as atividades diárias, promovendo a audição ativa e participativa com os seus filhos. Porque, tal como esponjas, nos primeiros meses de vida os bebés absorvem, através dos vários sentidos, tudo o que os rodeia. Com a duração de vinte e cinco minutos de música com mais cinco de explicações e sugestões, estas sessões privilegiam o contacto direto entre os emissores (músicos) e os recetores (pais e filhos), sem recorrer ao uso de outras atividades que desviem e dispersem a atenção dos bebés. O foco único e principal da «Música de Pais para Filhos» é a música e todas as qualidades de que é composta, tendo como objetivos principais: estimular sensorialmente as crianças envolvidas; promover a audição passiva e ativa; conhecer e aprender a distinguir morfologicamente os instrumentos; conhecer e identificar os timbres dos instrumentos; associar o som à fonte sonora; promover a interação e aproximação entre pais e filhos através da música; estimular e exercitar a memória tímbrica, melódica e rítmica; promover a audição, a seleção e a apreciação musicais; aferir e potenciar o desenvolvimento das várias competências cognitivas/artísticas; estimular a aprendizagem da música enquanto linguagem, paralelamente à da fala.

194


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Volvidos mais de quinze anos, que bem e feliz me sinto por ter entre alguns alunos e público, jovens que me dizem ter estado nos «meus concertos para bebés», pois os pais tal lhes confidenciaram. Mas onde eu encontro mais motivos de orgulho é o facto de me dizerem que muitos dos pais seguiram os meus conselhos e isso agora, segundo os filhos, faz toda a diferença na forma como encaram e incluem a música nas suas vidas. Isto sim, é semear para mais tarde colher… Autêntica lavoura musical! 13 de janeiro de 2017

195


PAULO CUNHA

Homenagear a vida, em vida À medida que os «velhos amigos» se iam reencontrando à porta da igreja onde jazia o corpo do defunto que se preparavam para velar, iam aumentando também os comentários sobre aquele que carpiam. Qualquer transeunte que por perto passasse ficaria com a sensação que o morto deveria ser alguém muito querido daqueles que então lhe teciam os maiores louvores, destacando todas as suas qualidades humanas e profissionais. Com tantos adjetivos e predicados, quase parecia alguém preste a ser entronizado ou até beatificado, tais as manifestações de apreço, carinho e admiração após a sua morte. Frases como “A vida são dois dias!”, “Não somos nada!”, “Estamos nas mãos do criador!”, “Ainda tinha tanto para dar!”, “Coitado(a), era tão boa pessoa” e “Chegou a sua hora!” davam o mote ao tom de lamúrias que fazem parte destas manifestações coletivas onde, de repente, todos parecem acordar para a dura realidade que é perder alguém de quem se gosta! Sendo o cerimonial atrás descrito, aquilo que nos habituámos a ver à medida que a vida nos vai descontando os dias que ainda nos faltam, aproximando-nos assim da inevitável finitude, tento reconhecer quem se esconde na hipocrisia da «última homenagem». Gente que em vida não arranjou tempo para os vivos e que,

196


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

entretanto, lamenta que a morte lhes tenha roubado a oportunidade que no passado enjeitaram; gente que em vida expressou e salientou apenas os defeitos, para - na morte - encontrar só as qualidades; gente que em vida deixou que a inveja e a cobiça pautassem e interferissem nas suas relações profissionais e pessoais para - na morte - tecer as maiores considerações e elogios. Enfim… gente que não convidaríamos para o nosso funeral! Por isso não consigo entender aqueles que deixam para amanhã, tudo aquilo que podem (e devem) fazer hoje!? Todos os dias nos levantamos sem saber se, por vontade própria, nos voltaremos a deitar. Sendo a morte o mais certo que a vida nos dá, continuo a ter alguma dificuldade em compreender todos aqueles que prescindem de alimentar as suas relações afetivas em nome dum enriquecimento material efémero. São os tais que serão recordados por terem passado pela vida sem que a vida por eles tenha passado. Cada vez me convenço mais que são as boas memórias que cá deixamos que nos propiciarão a vida para além da morte. A falta que cá fizermos será preenchida por recordações onde os conselhos, ações e exemplos de vida marcarão a nossa presença no quotidiano de quem connosco privou. Mais do que os bens materiais, serão a imaterialidade e a espiritualidade dos afetos trocados em vida que deixarão a marca em quem cá ficar. Essa sim, a maior herança que podemos aspirar legar a quem nos ama e nos quer. Em vez de lamentar o que não foi dito nem feito em vida, não seria bem mais proveitoso, compensador e consequente mostrar o quanto gostamos de todos os que, como nós, deixarão também um dia o mundo dos vivos? É natural que se chore a dor de os ver partir, mas de uma coisa podemos ter a certeza: através dos momentos únicos, inolvidáveis e irrepetíveis que com eles passámos, sabemos que viverá em nós um pouco de si. Por isso meus caros: enalteçam em vida tudo aquilo que - na morte - os vossos entes queridos não escutarão. Olhos nos olhos, mão na mão, com todo o coração! 20 de janeiro de 2017

197


PAULO CUNHA

Opinião pública e opinião publicada Tropecei numa frase do opinante e articulista Vasco Pulido Valente (escrita em 2009 e retirada de um determinado contexto) que me conseguiu colocar a matutar sobre a atual dicotomia «opinião pública versus opinião publicada». Rezava a dita o seguinte: “O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender”. Quase em tom de resposta veio-me à memória uma opinião do insigne escritor e pensador Umberto Eco, que em relação à opinião pública publicada nas redes sociais - teve em 2015 o seguinte desabafo: “As redes sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam-lhes imediatamente para calar a boca, enquanto agora têm o mesmo direito a falar do que que um vencedor do Prémio Nobel”. Ambas opiniões nos transportam para o atual uso (e algum abuso) da informação «sem filtros» que todos os dias chega, por várias vias, ao nosso conhecimento. As redes sociais constituíram-se como um fenómeno que nos permitiu ter acesso a conteúdos que, de outra forma, não conheceríamos. Mas… nem tudo são rosas, e a verdade é que muitas pessoas não estão preparadas para saber usar a Internet em geral e as redes sociais em particular.

198


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Tentar saber se as notícias que - em catadupa e de forma voraz são postas a circular são fidedignas, é hoje um exercício de confiança e de alguma «fezada» nas fontes noticiosas, pois cada vez há mais gente a querer intervir na realidade noticiada, acrescentado um, dois ou mais pontos… fazendo assim valer o velho ditado «Quem conta um conto acrescenta um ponto!». Ora se a realidade se pretende neutra, aos olhos de quem a observa acaba por ter uma infinidade de interpretações resultantes das mentes que a processam, tentando dar-lhe cores que não tem ou esbatendo-a em várias tonalidades cinza próprias das mentes cinzentas que a interpretam. Mas uma coisa é certa: por mais cores que a pintem nunca perderá a sua cor inicial! Nem sempre em sintonia, a opinião pública e a opinião publicada sustentam-se, condicionam-se e necessitam-se como forma de garantir que a opinião chegue ao «público-alvo» e assim cumpra os seus vários intentos. Por isso é cada vez mais fácil observar a forma como certas pessoas com aspirações em vários campos, através do populismo mediático, apelam aos diversos meios de comunicação como forma de conseguir influenciar a opinião pública e assim alcançar os seus objetivos. Para além de alguns iluminados que saltitam entre vários meios de comunicação, perorando em pose altiva sobre todos os assuntos e assim fazendo da sua opinião também notícia, a democratização da opinião através da partilha cibernética (blogues, redes sociais e sites pessoais e corporativos) fez saltar para algumas publicações, onde a idoneidade e a qualidade formal e de conteúdo são elementos referenciais e catalisadores, o que de melhor se pensa e se escreve. Este é um caso onde a opinião pública e a publicada se conjugam a favor do consumidor final, que, em última análise, somos todos nós. Assim, na diversidade da opinião publicada conseguiremos (opinião pública) separar o trigo do joio e perceber se quem analisa e comenta a realidade a vê tal como ela é ou a filtra com óculos de cores muito pouco neutras.

199


PAULO CUNHA

De outra forma, como poderia este vosso simples professor de Educação Musical alguma vez imaginar ver os seus «desabafos» escritos numa publicação como esta, na qual tem a honra e o prazer de vos escrever sobre interpretações, aspirações e alguns sonhos?! Por isso não me esqueço de relembrar a quem teima esquecer: “Cuidai!... Que a liberdade só vive em quem dela cuida!”. 27 de janeiro de 2017

200


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

O perigoso regresso à política do «Pão e Circo» Sendo o termo «populismo» resultante duma, pretensa, simpatia pelo povo e constituindo-se como uma doutrina ou prática política que procura obter o apoio popular através de medidas que, aparentemente, são favoráveis às massas, é hoje possível constatar, através dos ensinamentos da história, que o populismo se alimenta da demagogia, na medida em que estabelece um vínculo emocional com o «povo» (aqui tratado como categoria abstrata), resultando daí um autoritarismo consentido e uma dominação impercetível por quem é dominado. Trata-se de um conceito político que é usado por movimentos organizados, e até por partidos tradicionais, que se mostram combativos perante as classes dominantes, seja na prática efetiva, na retórica ou nos discursos. Apela à simpatia do povo para construir o seu poder, entendendo-se por «povo» as classes sociais baixas e sem privilégios económicos ou políticos. Costuma basear a sua estrutura na denúncia constante dos males que encarnam as classes privilegiadas. Os líderes populistas, por conseguinte, apresentam-se como redentores dos humildes. Enquanto filosofia política, e na aceção teórica e positiva do termo, o populismo defende a constituição de movimentos que procurem

201


PAULO CUNHA

construir o poder a partir da participação popular e da inclusão social, afirmando os direitos e o poder dos desfavorecidos (povo) em detrimento dos privilégios da elite. Colocado em prática, carrega em si todo o sentido pejorativo do termo, já que se baseia em medidas políticas que não visam o bem-estar nem o progresso de um país, mas sim a anuência dos eleitores e a total ausência de questionamento das respetivas consequências. Os apelidados «políticos populistas» assentam toda a sua praxis e oratória no descontentamento dos cidadãos com a crise financeira, com as instituições políticas, com o medo das ameaças terroristas e com os fluxos migratórios. Parece assim haver um jogo e um equilíbrio entre um líder que manipula as pessoas, mas que tem também, de alguma forma, que representá-las e defender os seus interesses. Claro que essas fronteiras entre representação e manipulação variam continuamente, o que explica momentos em que o líder parece ser conduzido pelas massas e outros em que parece, em termos políticos, levá-las para onde deseja. Conhecida também sob a denominação de «Pão e Circo» (panem et circenses), esta forma de domínio remonta ao tempo dos antigos imperadores romanos. A palavra «povo» quando associada ao sufixo de origem grega «ismo», torna-se o que, séculos depois, voltamos a experienciar: um conjunto de ações políticas - mascaradas de simpatia e boa vontade - postas em prática como forma de aliciar e ludibriar as classes sociais mais pobres e menos esclarecidas. Na prática, o populismo realiza políticas nacionalistas de substituição de importações, de estatização de atividades económicas estratégicas, de imposição de restrições ao capital estrangeiro e de concessão de direitos sociais. É, como tal, uma panaceia ao dispor dos extremos das ditas «direita» e «esquerda». Basta o recurso à linguagem simples e popular, à propaganda pessoal massiva, ao assistencialismo e ao autoritarismo. Obviamente, sem esquecer o necessário controlo e bom uso dos meios de comunicação enquanto instrumento de divulgação e propaganda das ações governativas.

202


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

E agora que aqui vos deixei o (meu) pequeno manual sobre o significado do termo agora tão em voga na boca dos comentadores, deixo-vos também um conselho: “Mais do que falar de populismo, urge combatê-lo! Como? Identificando-o e promovendo o necessário esclarecimento de quem, pelos motivos sobejamente conhecidos, só vê a cenoura à frente do nariz, tais as palas que a falta de instrução/educação e a falta de acesso aos bens essenciais ergueram em seu redor”. Dizer «NÃO!» ao populismo demagógico pressupõe combater o que o origina! Tão simples de entender, mas, feitas as contas, tão difícil de concretizar!?… 3 de fevereiro de 2017

203


PAULO CUNHA

Ladrões de tempo Tendo acabado de cantar uma canção do cantautor Bernardo Costa (Agir) com os meus alunos, apeteceu-me usar o refrão da mesma para com eles tentar perceber o real significado da frase “Se tempo é dinheiro, eu vou gastá-lo contigo, até porque tempo é tudo o que tenho para te dar (…)”. Comecei por questionar a razão pela qual se usa comummente o chavão ou cliché «Tempo é dinheiro!» para qualificar tempo. Como era previsível, responderam-me fazendo a correspondência entre a quantidade de tempo despendido no trabalho e a quantidade de salário remunerado pelo mesmo. É claro que poderia ter tentado desmontar tal associação com o facto de haver muita gente que trabalha pouco e ganha muito, e o contrário também ser verdade, mas não o fiz pois queria apenas que entendessem o conceito material de tempo. Fiz, por isso, a analogia com uma frase que todos ouvimos com alguma frequência em tom de retórica e queixume: “Aquele tem a mania que o tempo dele vale mais que o meu!?”. Não valendo dinheiro nem sendo quantificável, qual será então o valor do tempo? Em termos de trabalho remunerado convencionou-se atribuir um «x» por hora em função de inúmeros e diversos fatores. Mas o que dizer sobre o valor do tempo onde não exercemos qualquer atividade monetariamente rentável?

204


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Por isso recorri a outros bordões de linguagem onde a noção do «dever e o haver» está subliminarmente presente, tais como: “Não me faças perder tempo!” ou “O tempo que eu gastei contigo!”. Não havendo tempo à venda, não nos podemos dar ao luxo de o desperdiçar, pois não sabendo qual é nosso prazo de validade, o tempo (que se pretende de qualidade) ganha um valor inqualificável, inegociável, intransmissível e insubstituível. Desde que se nasce, da mesma forma que se inicia a contagem crescente em termos de vida vivida, começa também a contagem decrescente para o final. Não sabermos quando ocorrerá o derradeiro suspiro faz-nos negligenciar, desbaratar e desaproveitar o tempo que nos resta. Sendo de tal forma precioso, custa-me ver tanta gente a não arranjar tempo para o tempo dos outros. Principalmente para o tempo daqueles que, previsivelmente, estão já com um crédito temporal diminuto em relação ao tempo dos mais novos. Depois é ouvir todos aqueles que encheram a vida de planos e projetos deixando para amanhã o que podiam (e deviam) ter feito ontem lamentar a ausência daqueles para os quais esperaram por um tempo para além do seu tempo. Desconhecendo o tempo que nos resta, todo o tempo conta para a conta do tempo. Daí o «crime» que constitui roubar a outrem um dos bens mais preciosos com que nascemos: o tempo que nos resta para atingir o «0» na escala da nossa contagem decrescente. Assistimos diariamente a esta usurpação - institucionalizada - de tempo, efetuada com a maior desfaçatez, desplante, arrogância e displicência, por pessoas que acrescentam tempo às suas atividades, roubando-o a quem por elas espera e desespera. Nenhuma atividade nem relacionamento estão imunes a este roubo histórico de história de vida… a minha, a tua, e a de todos que sentem prazer em «chupar a vida até ao tutano». Por isso – «Transigência 0» para quem, de atraso em atraso, nos acelera a vida com totais perdas de tempo! Sabendo que é no exemplo dos mais velhos que os mais novos se alimentam, não é de estranhar a disseminação desta falta de respeito

205


PAULO CUNHA

pelo próximo. Daí o tempo que tento ganhar junto dos jovens, fazendo assim com que não me roubem o tempo que ainda me resta. Quanto tempo? Não sei… Quando já cá não estiver, vocês o dirão! Mas uma coisa é certa e sabida: quanto menor é o tempo previsível, maior é a intolerância a todos os «ladrões de tempo» que entre nós proliferam. Para eles… já não tenho tempo! 10 de fevereiro de 2017

206


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

E do imaterial se fez matéria Em 1989, com a Recomendação da UNESCO aos estados-membros sobre a Salvaguarda da Cultura Popular e Tradicional promulgada na 31.ª Conferência Geral, assistiu-se a uma tomada de consciencialização e de responsabilização da importância da diversidade cultural, especialmente da valorização das culturas populares e das tradições intangíveis. Esta Recomendação constitui o embrião da noção de património imaterial. Nela é sublinhada “a natureza específica e a importância da cultura tradicional e popular como parte integrante do património cultural da cultura vivente.”. É também reconhecida a “extrema fragilidade de certas formas da cultura tradicional e popular e, particularmente, dos aspetos correspondentes das tradições orais”. Uma frase fica então célebre neste contexto: “Numa cultura tradicional, muitas vezes quando um ancião morre, é toda uma biblioteca que se queima!”. A Recomendação de 1989 chamava ainda a atenção para a proteção dos produtores e detentores da tradição, para além dos produtos culturais. No dia 17 de Outubro de 2003 foi aprovada a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial no decurso da 32.ª Conferência Geral das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a

207


PAULO CUNHA

Cultura (UNESCO). Esta Convenção entrou em vigor no dia 20 de abril de 2006, tendo como principais objetivos a salvaguarda do património cultural imaterial; o respeito pelo património cultural imaterial das comunidades, dos grupos e dos indivíduos; a sensibilização, a nível local, nacional e internacional, para a importância do património cultural imaterial e do seu reconhecimento mútuo; a cooperação e o auxílio internacionais, no quadro de um mundo cada vez mais globalizado que ameaça uniformizar as culturas aumentando simultaneamente as desigualdades sociais. Considera-se património cultural imaterial, de acordo com a Convenção: «(…) as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural. Esse património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio, da sua interação com a natureza e da sua história, incutindo-lhes um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo, desse modo, para a promoção do respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana» (Artigo 2.º). Volvidos mais de dez anos após a entrada em vigor da citada Convenção, continua ainda por cumprir a plena implementação dos elos inseparáveis da cadeia: a criação, a produção, a distribuição/difusão, o acesso e a fruição das expressões culturais veiculadas pelas atividades, bens e serviços culturais. Em tempo de balanço, sinto que ainda há muito por fazer no que à prossecução destes objetivos concerne, de forma planificada, estruturada e devidamente apoiada pelas estruturas locais do poder público e privado. Aqui e ali, no campo da música, tenho constatado que existem estruturas associativas, músicos, professores e musicólogos que, com parcos recursos e sem grandes apoios, têm-se substituído a quem,

208


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

por representação, incumbência e dever à causa pública, deveria zelar pelo espírito da Convenção, tendo em conta que os processos de salvaguarda e de revitalização do património cultural imaterial estão em permanente transformação. Urge, por isso, criar estruturas orgânicas que respondam, no campo das várias valências culturais, pela pesquisa, sistematização, revitalização e divulgação de tudo que integra a identidade de um povo e de uma região. E para evitar, também, que certas manipulações de ordem religiosa, política, comercial ou económica possam opor-se à sobrevivência do nosso património imaterial. Porque nem tudo o que reluz é matéria! 20 de fevereiro de 2017

209


PAULO CUNHA

O triângulo «religião - clube - partido» Quando qualquer criança é brindada com a sacramental pergunta “O que é que queres vir a ser quando fores grande?”, naturalmente responde com um encolher de ombros, pois, para além de, provavelmente, não ter ainda pensado nisso, se o fez, encontrou no horizonte uma panóplia de possíveis profissões. Qual de nós não quis vir a ser tudo, à medida que o tempo da meninice por nós passou?!... Foi a própria forma como a sociedade está estruturada que nos afunilou o caminho, direcionando-nos para uma escolha profissional onde, valorizando uma competência, acabámos por desvalorizar outras. E elas por cá continuam, ainda que adormecidas e à espera da altura certa para despertar. De tenra idade, a sociedade ocidentalizada encaminha-nos para escolhas que nos posicionarão e arrumarão em determinados segmentos e extratos da sociedade. Somos induzidos a escolher uma cor preferida, um animal de estimação preferido, uma flor preferida, um género de música preferido, um escritor preferido, um prato preferido, uma marca preferida… enfim, «Um» entre muitos outros que nos agradariam tanto ou mais ainda do que aqueles que nos vimos obrigados a eleger só para que nos deixassem em paz...

210


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Reféns dos cânones sociais que nos catalogam e posicionam, caminhamos em «fila indiana» com todos os que, como nós, têm já a sua vida ordenada, organizada e devidamente programada. Nada de novo que já não saibamos, pois são estes os comportamentos que ajudamos a perpetuar através da replicação da educação para a uniformização em que fomos formatados. Perpetuarmo-nos através da padronização de usos e costumes, daí vermos tantos a tentar condicionar o gosto e o poder de decisão de outros tantos. Educados na cultura dos três «F» (Fado, Futebol e Fátima), muitos dos nossos progenitores, que viveram grande parte da sua juventude sob a influência destes três pilares do «Estado Novo», deixaram no Portugal de hoje sinais que, indelével e subliminarmente, nos continuam a marcar. Já há algum tempo em plena liberdade social, muitos portugueses continuam presos no interior de um triângulo composto pelo «Partido, Clube e Religião», referências que os continuam a unir e a desunir. Por isso é hoje tão difícil, tal como quando éramos pequenos, responder que não alinhamos nas bitolas socialmente padronizadas e aceites como as certas e ideais. Não escolhendo um lado em detrimento de outro, somos catalogados como uma espécie de «párias sociais», uma vez que não nos enquadramos dentro do triângulo onde todos, até morrer, professarão uma só religião, votarão num único partido e terão sempre o mesmo clube. Como explicar a quem não quer (ou não sabe) entender que não precisamos da legitimação e do reconhecimento dos pares para que nos sintamos vivos e úteis à sociedade?! Grande parte das pessoas vive para a aceitação e valorização grupal, quando na maioria das vezes nem sabe explicar a razão das suas escolhas, nem o porquê, nem a forma como as defendem. Vivem condicionadas pelas regras a que se autoimpuseram quando limitaram a sua opção de escolha.

211


PAULO CUNHA

Desde que me conheço, sempre apreciei e valorizei o valor da liberdade, embora só a tenha sentido na plenitude a partir dos dez anos de idade, altura em que os cravos vermelhos ganharam outro significado em Portugal. Poder apreciar e usufruir tudo o que a vida tem para nos dar, sem constrangimentos autoimpostos, é algo que tento partilhar com quem me rodeia, pois todos os dias testemunho que é possível ser feliz assim. Sem religião, sem partido, sem clube… Fora do triângulo, mas respeitando-o como ponto de encontro de gente de boa vontade. O respeito que se ganha com a liberdade de pensamento! 3 de março de 2017

212


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Pontes em vez de muros Já depois de termos saído do palco, em amena «cavaqueira» enquanto descomprimíamos e confraternizávamos com uma «mini» numa mão e um pastel de bacalhau na outra, o nosso companheiro de lides musicais, Jorge Semião, referiu-nos um vídeo onde Simon Sinek (escritor e orador motivacional) falava sobre a «Geração Millennial», o qual nos poderia ajudar a contextualizar muito do que ali conversávamos. Já em casa segui a sua recomendação e degustei a dita publicação, tendo o que lá ouvi despoletado o interesse de colocar o «motor de busca» a funcionar para melhor documentarme, e assim poder tecer uma opinião mais abalizada sobre o que motiva - hoje - os ditos «choques geracionais». Tomando como referência algumas abordagens antropológicas e sociológicas sobre as últimas gerações (ainda que generalistas), onde se encaixam os vários ramos dos nossos agregados familiares, foi-me possível apurar que: - A geração «Baby Boomer» (1946/1964) deve o nome à «explosão demográfica» que se verificou nos Estados Unidos no fim da Segunda

213


PAULO CUNHA

Guerra Mundial. Nasceu com o Estado Social e viveu a era do emprego para a vida, da conquista de direitos laborais e de muitos avanços civilizacionais. É descrita como idealista e tem sido o suporte da Economia. - A geração «X» (1965/1979) define-se pelos elevados níveis de ansiedade perante a perspetiva de que já não haverá Segurança Social quando chegar à idade da reforma. É frequentemente caracterizada como «cínica», fruto de alguma desilusão e da não concretização de expetativas e sonhos de juventude. Sendo a geração que viu nascer o computador pessoal e a internet, consegue identificar os aparelhos tecnológicos que os antecederam. É a geração que, em grande parte, garante o apoio e o suporte às gerações seguintes. - A geração «Y (Millennials)» (1980/1996) é uma geração multicultural, tolerante, globalizante, empreendedora, racional, mas ao mesmo tempo, insatisfeita, angustiada, individualista, competitiva e em constante busca motivacional e procura de compensação sensorial. Dá preferência à experiência, não à posse. Dependente da tecnologia, é também conhecida como a «Generation Me». - A geração «Z» (1997/2012) é a geração «multitarefa» por excelência, onde a comunicação é feita com imagens e símbolos. Num caminho iniciado pela «X» e aprofundado pela «Y», os «Z» são ecologicamente conscientes e procurarão produtos e serviços sustentáveis. Os maiores problemas desta geração estão relacionados com o relacionamento social e a capacidade de se constituir como ouvinte, uma vez que passa grande parte do seu tempo em produção, interação e consumo virtuais. Se antigamente as gerações eram formadas por períodos de cerca de vinte e cinco anos, hoje, em virtude de tudo mudar a uma velocidade estonteante, é cada vez menor o tempo de surgimento de novas gerações com características específicas, diferenciadas e cada vez mais adaptadas aos «novos tempos». Por isso a necessidade de todos, sem exceção, devermos estar atentos aos motivos que nos levam a ter procedimentos de incompreensão, de desrespeito e de incoerência perante comportamentos que por não compreendermos, não aceitamos.

214


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Desde os primórdios que as várias gerações, uma após outra, esgrimiram argumentos que as levaram ao progressivo desentendimento e afastamento entre elas, daí a importância de sabermos mais sobre o que nos divide, para que assim, intergeracionalmente, possamos criar pontes em vez de muros. Até porque já nos bastam todos os outros muros… 10 de março de 2017

215


PAULO CUNHA

Bota-abaixismo Ainda no rescaldo de outra derrota de uma equipa portuguesa com um clube alemão, o meu amigo Adriano St. Aubyn explicou-me a sua teoria sobre o poderio do futebol germânico no mundo. Segundo ele, mais do que a eficácia do futebol jogado, o principal segredo reside na forma como os clubes se respeitam, interagem e entreajudam, tornando assim o futebol efetivamente um desporto-rei no que aos diversos tipos de ganhos concerne. Fundamentou a sua análise com uma ocorrência que, até então, eu desconhecia: o facto do clube Borussia Dortmund se ter «afundado» numa crise financeira sem precedentes após ter conquistado o título alemão da temporada 2001/2002, em grande parte devido ao dinheiro gasto em contratações caras. Perto de decretar falência, o clube teve que vender vários jogadores importantes, bem como o «naming rights» do seu estádio para tentar equilibrar as suas dívidas. Tendo perdido força e protagonismo no cenário futebolístico alemão, e já perto de se extinguir como clube de futebol, recebeu uma ajuda providencial

216


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

do seu rival, Bayern de Munique, que lhe emprestou dois milhões de euros, quantia necessária para, em 2007, se reerguer. Efetivamente, seria impensável ver uma das equipas que, por norma, discutem a conquista dos vários títulos do futebol português a emprestar o seu dinheiro para «salvar» da descida de divisão ou até da extinção enquanto clube, um qualquer seu rival direto. Percebi o seu ponto de vista, tendo-lhe dado de imediato toda a razão. O que tornou o futebol germânico forte e ganhador, a exemplo de muitas outras atividades, foi a saudável concorrência entre pares. Só o facto de ter congéneres que nos façam frente, faz-nos aumentar imediatamente a fasquia qualitativa da nossa prestação, aumentando, por conseguinte, a satisfação de quem do nosso trabalho usufrui. O segredo está na dignificação dos adversários como forma de atingirmos uma maior valorização pessoal, não o contrário! Tal como num prato culinário, é a dicotomia qualidade/quantidade dos produtos selecionados que o tornam mais rico, mais atraente e mais saboroso. Também na vida tal sucede: rodearmo-nos de gente de gabarito igual ou superior faz-nos estimular o desejo de superação e de conquista, tornando a nossa contribuição para a sociedade mais apreciada e desejada. Tal como uma escada que nos eleva para além da mediocridade daqueles que veem na desgraça alheia a sua graça, a valorização interpessoal só gratifica e enriquece quem a pratica! À medida que vamos ganhando anos na nossa conta pessoal, ganhamos também a capacidade de reconhecer as ervas daninhas que junto a nós permitimos que crescessem, roubando-nos a frescura, a graciosidade e a beleza que só a vida condigna e plenamente vivida propicia. Gente que, através do famigerado «bota a baixo», mascara a sua pequenez, tentando destruir quem lhe possa fazer sombra. Um jogo rasteiro próprio de «gentalha» (mistura de gente com acendalha) que vive a sua vida a atiçar fogos com o intuito de devastar a grandiosidade dos verdadeiros pensadores e empreendedores.

217


PAULO CUNHA

Levamos grande parte do tempo a despender recursos e energias a, literalmente, lutar contra este tipo de seres que, sendo como são, em tudo veem possível concorrência, transformando adversários em verdadeiros inimigos. Parecendo ter nascido com o polo negativo na testa, em tudo colocam defeito, puxando para baixo quem lhes possa fazer frente, seja no que for. O seu negativismo latente seca tudo em redor, fazendo do «bota-abaixismo» uma forma de estar na vida, nivelando por baixo muito daquilo que, crescendo, teria tudo para dar certo. É a forma invejosa, negativa, depreciativa e malévola como certas pessoas encaram os seus pares que faz encolher um país que outrora se espraiou pelo mundo fora. Há por cá demasiados seres a aspirar ser grandes à conta da sua pequenez… Para eles: a minha real indiferença! Só o destaque que grande parte de nós lhes dá é que lhes permite ter a cabeça acima da linha pantanosa onde se movem. Por isso meus caros, já vai sendo altura de gritar: “vá de retro!”… E já agora: “bota-a-cima!”. 17 de março de 2017

218


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Empreendedorismo a 100 por cento Gosto de desafios que me levem para além daquilo que estabeleci como metas a atingir, por isso quando a proposta se adivinha como um estímulo para alcançar algo para além do Paulo Cunha com que todos os dias convivo, normalmente aceito. Foi o caso, quando há dois anos o jornalista Daniel Pina me desafiou para, de uma forma regular, escrever no seu recém-nascido projeto, a dar na altura os primeiros passos no mundo virtual. «Algarve Informativo» foi o nome com que o seu progenitor o batizou. Segundo o próprio me explicou, pretendia que a publicação crescesse imbuída num espírito positivo, dignificando e valorizando o empreendedorismo e a obra das gentes do sul. Dois anos volvidos, o sonho deste laborioso lutador tornou-se uma realidade consolidada e materializada na edição de cem números digitais da revista «Algarve Informativo». Com a redação, laboratório fotográfico e a editora literalmente às costas, provou que é possível renascer profissionalmente aos quarenta anos. Vítima e refém da malfadada «crise» que tantos como ele atirou para o desemprego, provou que a useira e vezeira frase «Querer é poder!» faz todo o sentido, quando à inteligência se alia a perseverança, o dinamismo e o empreendedorismo. Tal como esta, Portugal está repleto de estórias de sucesso. Estórias escritas por muitos empreendedores na página da história contemporânea de Portugal. Sou daqueles que fica feliz por ver os merecedores triunfar, por isso ver a região onde vivo ser condigna e

219


PAULO CUNHA

meritoriamente noticiada por esse mundo fora enche-me de prazer e de orgulho. Destacar e valorizar o que por cá se faz, sem constrangimentos, sem temores nem complexos foi a chave do triunfo deste algarvio (por adoção) que viu o Algarve como um todo, uma região onde a serra e o mar tem gente boa dentro. Afinal o empreendedorismo é isso mesmo: é tentar concretizar os sonhos em realidade; é saber desviarmo-nos dos «Não!», que tal como as pedras no caminho nos fariam, por certo, cair; é ver para além do que alcança a própria vista; é acreditar que é possível tornar o «Impossível!» possível; é do «Nada» construir o «Tudo». Apesar das lamúrias, queixumes e duma certa melancolia latente provocada pelos malfadados «fados» por que passámos (e continuaremos a passar), mesmo assim conseguimos ser um povo com características muito peculiares, e até únicas, conseguindo transformar derrotas em vitórias… quando assim queremos e a isso nos dispomos! Depois de vicissitudes várias que deitariam qualquer um a baixo, registo com agrado e orgulho a forma como tantos portugueses souberam «dar a volta por cima», superando assim as agruras de uma vida em que a forma ingénua, passiva e consentida face ao dislate e ao desnorte de alguns governantes permitiu que se chegasse até onde se chegou. Realço também o mérito deste diligente cidadão que, com cada vez mais meios de comunicação social a encerrar a sua atividade, soube «arregaçar as mangas e manter-se à tona de água», conquistando público além-fronteiras através da virtualidade das suas publicações, noticiando o melhor do que se passa e se faz no Algarve. Tornou-se proprietário, diretor, editor, redator, fotógrafo, gráfico e paginador e «fez-se à vida que já se fazia tarde!». Um exemplo de persistência e de tenacidade! Por isso dedico-lhe hoje o meu «desabafo», tamanha é a proeza de atingir as 100 edições de uma revista onde a qualidade do Algarve se compagina com os conteúdos que enriquecem a dita. Parabéns Daniel Pina… 100 por cento empreendedor! 24 de março de 2017

220


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Gosto de Portugal! No decurso de uma conversa informal onde participavam alguns convivas de países diferentes, tentei explicar o significado da palavra «saudade» através da transferência daquilo que estariam naquele momento a sentir por estarem longe dos «seus» (entendo «seus» como família, pátria e língua). De imediato se fez silêncio, e nos olhos húmidos de alguns leu-se a palavra saudade em cada lágrima contida pela solenidade do momento. Grande parte dos portugueses vê esta palavra como sua, tal a dificuldade de a traduzir para outras línguas, tendo-se criado até o mito que é intraduzível noutra língua, tal o sentimento de pertença que nela depositámos. Não me interessando, para o caso, o que é de quem, apenas quero aqui registar este sentimento tão poderoso que trespassa o globo terrestre tal como uma flecha e nos faz viajar pelo passado com os pés no presente e a mente no futuro. Pretendendo escrever sobre este país que alguns apelidam como “Magnífico mas muito mal frequentado!”, logo tropecei nessa palavra que cada navegador, combatente ou emigrante fez crescer no seu coração sempre que de cá foi obrigado a sair. São eles que, melhor do que ninguém, sabem descrever o Portugal que deixaram e que, no regresso, reencontraram. Não sou apologista que se tenha que perder, deixar ou abandonar seja o que for para quantificar e qualificar o seu valor… agora que tal ajuda, ajuda! E não… não acho que Portugal seja mal frequentado, pois para além das suas belezas naturais, são os portugueses que, com a sua forma peculiar de estar e de ser, temperam esta mistura única no mundo.

221


PAULO CUNHA

Desde de que comecei a ter autonomia financeira para viajar, e já locomovido em viatura própria, comecei a descobrir os vários «Portugais» que coexistem dentro de um só país. Para além das variações geográficas e das características meteorológicas que o diferenciam, toda a cultura herdada dos vários povos que por cá passaram continua a ser uma referência identitária e individualizante. Referências culturais que tendo deixado marca nos usos e costumes das várias províncias portuguesas, são hoje referências icónicas que nos aguçam o apetite para as visitar. Para além das belezas naturais com que a natureza brindou este pequeno/grande país à beira mar nascido, descobrir as suas belas edificações e a sua monumentalidade (com o tempo e a dedicação devidas) é projetarmo-nos no futuro através das lições do passado. Não sendo meu nem teu, é de todos os que o visitam, usufruem, desfrutam, acarinham, respeitam e dignificam. É «meu» apenas no sentido que é o país que me deu o chão e a língua que se tornaram a minha grande casa. Sei o quanto dele gosto pelas saudades que dele tenho sem dele sair. Não preciso que quem o visita me mostre e certifique a qualidade de vida que este «cantinho» repleto de aconchego e bem-estar proporciona, pois desde cedo aprendi a sair para fora, cá dentro… e nunca me dei mal! Percebo que qualquer habitante doutro país tenha também, tal como nós, esse sentimento de pertença pela nação que o viu nascer e crescer, mas… mas quero acreditar que algo nos torna diferentes… Sem nacionalismos, populismos nem pretensiosismos! Mais tarde ou mais cedo pagaremos à (nossa) terra o que a terra fez por nós. Devedores, retribuiremos tornando-a a casa de todos, onde todos seremos família. É esse o meu sonho: um Portugal onde o fado, acompanhado por instrumentos de todo o mundo, se cante e se oiça - cada vez mais - numa tonalidade Maior (mais alegre)! 31 de março de 2017

222


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

«Gostos» à parte Contactaram-me, por mais de uma vez, questionando a minha disponibilidade para fazer crítica discográfica, bem como crítica a espetáculos musicais realizados no Algarve, ao que respondi que muito me honravam tais convites, mas entendia não me sentir bem a avaliar publicamente a criatividade e o labor dos meus pares. Até porque: “Quem sou eu para colocar em causa a criação e a prestação artística dos outros?...”! Por isso sempre adotei uma postura de apreciação em relação ao que me foi dado a «ouver». Tão simples: se me «tocou» e me agradou, seja por que razão for, terei todo o prazer em partilhar a satisfação que tal manifestação musical me provocou; se, pelo contrário, a obra em análise não me provocou qualquer reação, tentarei perceber a razão pela qual a mesma «nada me disse». Se ainda assim me for solicitada uma «apreciação pública», fá-lo-ei valorizando os seus aspetos positivos, porque tê-los-á por certo! Em última análise, tento preservar duas características que muito prezo – o positivismo e a independência! Vivemos tempos em que a certificação dada por outrem é cada vez mais importante na escolha seja do que for. A opinião alheia condiciona e direciona a nossa sem que disso, aparentemente, demos conta. Sem aconselhamento prévio, vemo-nos muitas vezes em situações em que a hesitação e a insegurança substituem a ação

223


PAULO CUNHA

esperada, desejada e consentânea com a nossa forma de ser e de estar na vida. Colocando nas mãos de outros a decisão sobre aspetos que condicionam a nossa existência, permitimos que «ditadores» por nós criados ditem tendências, modas, comportamentos e decisões. São eles, no fundo, os verdadeiros detentores do poder, pois decidem o que (para o bem e para o mal) iremos consumir! Sabemos hoje que, através da proliferação e massificação dos meios de promoção e de divulgação ao nosso dispor, o facto de alguém ser muito «gostado» nas redes sociais, obter boas críticas por parte dos fazedores de opinião, aparecer nas revistas, ser falado, comentado e tocado repetidamente na TV, nas Rádio e na Internet é o caminho certo para orientar o gosto dos consumidores. Caminhos planificados e construídos em concelhos de administração de grandes multinacionais, onde em cima da mesa estão dossiers com os vários «estudos de mercado» previamente encomendados. Hoje, seja em que setor produtivo for, já pouco acontece por acaso, daí a importância dos «selos de garantia» colocados por determinados opinadores e críticos. Instalados em sítios estratégicos e possuidores de seguidores incondicionais que os veneram e replicam até à exaustão, têm nas suas mãos o poder de fazer e desfazer produtos e produtores em função das críticas que, no alto do seu pedestal, proferem. Num destes dias tive a oportunidade de constatar o que atrás escrevi, quando vi imensos jovens ainda de tenra idade (muitos dos quais meus alunos) num concerto de um excelente músico algarvio. Perguntei-lhes então qual a razão que os tinha motivado a ir com os pais àquele concerto e não a outros… A resposta não se fez esperar: “… porque aquele artista passava a toda a hora nas rádios que ouviam! Ah… e os seus vídeos no youtube eram «altamente» produzidos!”. Desengane-se pois quem pensa que é totalmente imune, equidistante e independente da opinião dos outros em relação ao que consome. Antes pelo contrário! Experimentem levar os mais

224


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

novos do vosso agregado familiar às compras e verão a importância das «marcas» e dos «selos de garantia» de determinados produtos, devidamente certificados pela quantidade de vezes que passaram nos anúncios das várias «caixas e caixinhas» às quais têm acesso. São cada vez menos os que estão «out of the box» e isso preocupa-me, pois lá dentro tudo é manipulável. «Gostos» com sabor a desgosto! 7 de abril de 2017

225


PAULO CUNHA

Quanto vale um professor? Desde que me entendo que me habituei a olhar para a figura do professor e a interpretá-la e a qualificá-la como a personificação de alguém com grande valor. Não porque tal mo tivessem dito, mas porque cedo entendi que para aprender, alguém tinha que me ensinar. “E como é importante aprender para crescer!...”. Independentemente daqueles que, apesar da qualificação/habilitação, nunca mostraram qualquer preparação, desejo ou devoção pelo ensino (os quais logo esqueci), a grande maioria contribuiu de várias formas para chegar onde cheguei. Ajudaram-me a moldar o barro de que era feito, transformando-me no que ora sou! Ora o assunto que aqui me traz não é propriamente a minha visão da classe docente enquanto docente, e muito menos enquanto encarregado de educação! Apeteceu-me, tão-somente, analisar a forma como alguns setores da sociedade encaram hoje a profissão «Professor». Tendo a posição privilegiada de poder questionar «in loco» o que é que os alunos acham sobre a profissão, aflige-me constatar a forma como, aos seus olhos, este é um ofício a não escolher, tal a forma como muitos deles veem ser tratados, hoje, os seus mestres. Não sendo preciso ser um professor com o cargo de diretor de turma para ouvir as muitas queixas e queixumes contra os colegas

226


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

«Professores», facilmente se fica com a sensação que é uma classe que, por ser constituída por elementos com formações académicas distintas, de proveniências variadas e com grande exposição pública, está constantemente «na berlinda» no seio familiar dos seus alunos. Com o tempo fui cimentando a sensação que a imagem que se criou do «professor» é distorcida por uma série de fatores intrínsecos à natureza humana. Aliás, doutra forma não poderia ser, pois quem lida com matéria viva, da vida colhe os seus frutos! Carregando o estigma do «funcionário público (muito bem) favorecido», é descrito com a ligeireza e a leviandade de quem, não querendo pensar, exala todo o seu fel acusando-o de muitos males que proliferam na sociedade atual. Para muitos, «Professor» é alguém que trabalha pouco, tem muitas férias, ganha muito e limitase «apenas» a ensinar. Inverdades que à custa da disseminação constante por parte de alguns «iluminados» que desde novos tomaram algum professor «de ponta» (trazendo-o «atravessado» pela vida fora) e assim conseguiram transformar a parte no todo. Educador, psicólogo, animador, mediador - entre muitas outras funções - o professor metamorfoseia-se naquilo que a sala de aula o empurra para ser. Apesar da preparação prévia, cada nova aula é sempre uma perfeita incógnita, e no mau comportamento de uns poucos acabam por sofrer sempre todos… mas no final de contas a culpa será sempre do professor!? Tal como um Árbitro, um Polícia ou um Juiz, terá sempre o ónus da culpa do resultado final… Nada a fazer! Esse será sempre o fardo que transportará até morrer, seja qual for a avaliação que o tempo, mais tarde, lhe fizer. Sou daqueles que acha que quando morre um professor morre o seu corpo, mas não o seu conhecimento. Esse foi espalhado por todos os alunos que consigo quiseram aprender, herdando-o e perpetuando-o pelas gerações vindouras. Não, não sou daqueles que acha que tenha que ser a morte a atestar e certificar o mérito de um mestre. O melhor certificado é revelado todos os dias na forma como homenageamos os professores que - positivamente - nos marcaram

227


PAULO CUNHA

através do seu ato de ensinar. E como em qualquer profissão, dos maus nunca rezará a história! Terminando como comecei, e independentemente de - cedo - ter caído neste caldeirão chamado «Educação», continuo a achar que os professores dos meus filhos, dos teus e dos outros valem bem mais do que aparentam valer. Valem tudo aquilo que têm para dar, assim os alunos o queiram receber! 12 de abril de 2017

228


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Liberdade, quem a tem chama-lhe sua… Como já era habitual, desci a Avenida 5 de outubro com o destino traçado pela frequência da 4.ª classe na Escola Primária de S. Luís, em Faro. Lá cheguei… mas nessa manhã algo tinha acontecido de diferente, pois a rotina tinha sido de imediato quebrada com o aviso dado pela professora: “Hoje a aula vai ser acompanhada por um pequeno rádio portátil, que ficará ligado…!?” Entre o anúncio e a explicação das razões para tal decisão, muitas ideias nos passaram pela cabeça, pois nunca tal tínhamos presenciado – uma aula dada com o recurso a «novas tecnologias»?! “O Presidente da República (Américo Tomás) e o Presidente do Conselho de Ministros (Marcello Caetano) foram presos e há revolta militar e popular nas ruas”, foi o que, admirados e perplexos, escutámos de uma professora um pouco enervada. A aula decorreu normalmente e, face à evolução dos acontecimentos, lá saímos da escola de mão dada aos pais, que, expetantes e preocupados, nos tinham aguardado à porta da escola. Sendo um puto com dez anos, e pelo facto de ser filho de um pai politicamente informado, que habitualmente connosco comentava as «Conversas em Família» com que Marcello Caetano, na RTP 1, brindava os portugueses que tinham televisão, cedo percebi que aquele dia iria ter repercussões na vida de todos nós. A liberdade tinha definitivamente entrado no meu quotidiano, e só o facto de

229


PAULO CUNHA

posteriormente ter participado no derrube do muro que separava os alunos das alunas no espaço do recreio da escola, já foi um ato revestido de grande simbolismo. Já não necessitando de continuar a falar em surdina, pois no «Estado Novo» até as paredes e as árvores tinham ouvidos, poderíamos finalmente assumir uma posição e defendê-la publicamente sem medo de castigos e represálias. Não estaria a contar-vos este episódio que vivi conjuntamente com gente da «minha cepa», se hoje não continuasse a pensar em todos aqueles que, incógnitos e esquecidos, deram muito da sua vida (e até a própria vida) para que hoje aqui pudesse escrever o que penso, sem filtros nem censura e, sobretudo, sem medo. Não sendo um dado adquirido, muitos «baixam a guarda» e deixam que, de forma sub-reptícia e encapotada, alguns lhes criem a ilusão que vivem em plena liberdade. Nada mais enganador!... Basta estarmos atentos a alguns comportamentos, indiciando receios e temores vários por parte de alguns setores da sociedade portuguesa, para verificar que - infelizmente - a liberdade plena (ainda) não é um dado adquirido para todos! Sei que, apesar de não o manifestarem publicamente, muitos referem a «Revolução dos Cravos» como a culpada por muito do que a seguir aconteceu, nomeadamente a forma como decorreu a descolonização, as nacionalizações, a reforma agrária, o desvio e a usurpação de bens públicos, a corrupção, e muito mais… mas convém não esquecer que a liberdade não tem qualquer culpa da utilização que certos políticos dela fizeram (e continuam a fazer!). Decorridos mais de quarenta anos, temos hoje a liberdade que merecemos, pois dela nos tornámos reféns através da forma como permitimos que a usassem. Gostei de ler uma publicação do meu amigo (e «moço do meu tempo») Joaquim Bento, que, analisando a obra «Anabasis» (obra do historiador e soldado grego Xenofonte), acabou por destacar a frase que Ciro terá proferido aos seus generais: “Sejam merecedores da liberdade que possuem e pela qual eu vos congratulo... Eu preferiria

230


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

a vossa liberdade à grande riqueza e poder que tenho". Porque a liberdade não é dada, mas todos os dias conquistada! É esse o nosso maior poder e riqueza – saber usá-la para que a nossa liberdade seja também a dos todos. Por isso aqui relembrei o dia 25 de abril de 1974, para que vós possais também lembrar que todos os dias são dias de revolução interior. Pela Liberdade! 21 de abril de 2017

231


PAULO CUNHA

Qual é o sexo do amor? Já preparados para o casamento, aperaltados, cheirosos e sorridentes, lá nos deslocámos em direção ao Registo Civil. No caminho a nossa jovem filha mostrava toda a expectativa, curiosidade e boa disposição que uma cerimónia onde se celebra o amor entre dois seres humanos desperta. Fruto da mistura de sentimentos bons que se entrecruzam nessas ocasiões, as reações à celebração eram as esperadas. A felicidade pairava no ar e os convivas espelhavam a satisfação que sentiam em ver os noivos a materializar o contrato que, legal e socialmente, os uniria como casal. Depois das habituais assinaturas, eis que a notária sugeriu que os dois se beijassem… e assim foi. Ternamente, ele selou o momento dando um beijo ao seu marido. Marido e marido, unidos no amor, nos deveres e nos direitos que um casamento se propõe perpetuar. Casamento terminado, já no momento das fotografias de grupo, uma das convidadas, em tom de desagrado, mostrou-nos algum espanto por termos levado a nossa filha de seis anos a um casamento entre pessoas do mesmo sexo. Perante tal afirmação nenhum de nós dois, progenitores, respondeu, deixando ser a criança a mostrar-lhe através das suas expressões e palavras a satisfação que teve em ali estar, partilhando a «normalidade» que é ver os outros felizes. Um

232


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

ser em crescimento e em formação que, sem necessidade de recorrer a grandes explicações, nem elaboradas teorizações, facilmente inculcou o estar de uma família que aceita os outros tal como são. Tendo nascido heterossexual, e desde novo ter manifestado atração pelo sexo oposto, tive com a sexualidade uma relação perfeitamente ajustada aos meus sentimentos. Fi-lo em privado, sem que isso interferisse na minha vida social nem profissional. Por isso, continuo a ter alguma dificuldade em entender certos argumentos que muitos usam para condenar na «praça pública» a sexualidade dos outros. Lembro-me perfeitamente quando pela primeira vez presenciei um beijo afetuoso entre dois amigos do mesmo sexo. Estranhei, pois era algo para o qual não tinha sido «formatado», mas logo percebi que o beijo em nada diferia daqueles que eu dava. A estranheza residiu, tão-somente, na falta de preparação e sensibilização para tornar normal tudo aquilo que não tem nada de anormal. Porque amar é normal! Penso que é um ótimo exercício de estímulo intelectual colocarmonos na pele de alguém que é diferente de nós. Alguém que como nós tem os mesmos direitos e os mesmos deveres mas, por preconceito, por pequenez intelectual ou por crenças de vária índole por parte da sociedade, se vê frequentemente espoliado do direito de viver a sua vida de forma natural, sã e transparente. A paixão não escolhe idade, nacionalidade, raça, credo, género ou o quer que seja que lhe queiram impor como «certo». Tal como uma fonte onde a água jorra por caminhos inesperados e enviesados, a vida coloca à disposição de todos oportunidades e momentos que deverão ser vividos em toda a sua plenitude e magnificência. Sem reservas, sem preconceitos, sem temores, sem vergonhas e sem estigmas.

233


PAULO CUNHA

Não será um direito de todos sermos felizes e fazer os outros felizes na única vez que por cá passamos? Não será também um dever de todos respeitar as diferenças que nos distinguem e nos tornam únicos, como forma de abolir - de uma vez por todas - as «anormalidades» que só existem nas mentes de alguns? Quando oiço apregoar que cada vez há mais oferta de locais «gayfriendly» fico a pensar se o normal não seria todos os locais públicos aceitarem e respeitarem qualquer ser humano, independentemente da sua orientação sexual!? Só o facto de haver sítios que refiram essa forma de tratamento, logo indicia que muitos outros não o fazem. Não é criando guetos baseados seja no que for que se conquista a compreensão, a aceitação e o respeito por quem é diferente de nós. Porque acredito que na comunhão de gostos, de comportamentos e de formas de estar e de ser reside a nossa maior riqueza enquanto animais racionais, desejo piamente que as novas gerações cresçam imbuídas no respeito pela diversidade. Para que a «frase feita» “Todos iguais, todos diferentes” não seja apenas isso, uma frase feita! É tão simples ser feliz, porque é que há tanta gente a complicar?!… 27 de abril de 2017

234


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

De Bolsa em Bolsa, até quando? “Anda um pai a criar um filho para isto?...” é uma afirmação a que me habituei a ouvir nos últimos tempos, tal o desespero e a desilusão com que alguns progenitores veem o resultado do seu empenho e investimento colocados na formação pessoal e profissional dos seus descendentes. E se assim é com os pais, imaginemos o que sentirão os filhos, que em altura de poderem também vir a ser pais, se veem na contingência de adiar ou anular a perspetiva de constituir uma vida familiar estável. Reféns de uma precaridade que, a vários níveis, cresce galopantemente, toda uma geração vive o seu dia-a-dia sem a esperança de um futuro para além do prazo do seu contrato. Uma geração a prazo que sem o respaldo dos familiares não viveria, apenas sobreviveria! Muitos preferem não pensar nisso (e se calhar fazem bem!) e, usufruindo apenas o quotidiano, tentam viver um dia após o outro, mantendo assim alguma sobriedade e equilíbrio emocionais. Mas o que dizer do resultado do trabalho que desenvolvem e que, diretamente dependente e condicionado pela precariedade dos seus contratos, num ápice se vê desbaratado, vilipendiado e descontinuado!? Poderia aqui falar em muitos setores de

235


PAULO CUNHA

produtividade onde tal acontece, mas vou centrar-me num que me é especialmente caro, pois acompanho-o com alguma acuidade através dos relatos e do convívio com colegas e amigos duma investigadora bolseira que me é querida (a minha mulher). Imaginam pois a tristeza e a revolta que sinto quando assisto às cerimónias de defesa das teses de doutoramento de jovens investigadores e, logo aí, antevejo o que os espera anos mais tarde, após serem-lhes negadas as tão almejadas «bolsas de investigação» que lhe permitirão dar continuidade ao seu trabalho e à sua vida pessoal. Custa-me ver quem tutelou/tutela a Ciência em Portugal desbaratar tamanha riqueza, não potenciando a criação de condições para que tantos investigadores (com letra grande) permaneçam no país que tanto neles investiu, roubando-lhes assim a satisfação e o orgulho que um dia sentiram por, volvidos tantos anos de laborioso e árduo trabalho, terem – finalmente – atingido o patamar mais alto do seu percurso académico. Temos hoje um Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que se diz chocado com os relatos de investigadores que andam há décadas a saltar de bolsa para bolsa, com períodos de interregno entre elas (com desempregos sem subsídio pelo meio). Pretendendo institucionalizar uma nova forma de contratação (a prazo) para os trabalhadores científicos, não irá conseguir com essa medida apenas criar uma carreira na investigação e no ensino superior, mais uma vez precária? Entretanto o tempo vai passando e, também por cá, os nossos investigadores continuam a «dar cartas» no panorama das descobertas científicas, tornando Portugal uma referência no campo da investigação científica… a prazo, uma vez que os governantes que tutelam a Ciência se vão sucedendo, desaparecendo de cena na altura de «bater o pé» na negociação para a cativação de mais verbas para o seu Ministério, aparecendo somente para dar a cara na altura de usufruir dos louros alheios. E assim se vai vivendo, fazendo tanto com tão pouco. Sempre à custa da dedicação e entrega dos mesmos de sempre!

236


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Continuando a não promover e a incentivar a fixação do conhecimento entre portas, Portugal permanecerá um país adiado, enviando para fora o que de melhor tem vindo a criar em vários domínios da investigação. Colocar o intelecto ao serviço da evolução, assente em princípios de crescimento sustentável será, sem qualquer margem para dúvidas, a maior aposta e investimento que um país poderá fazer pelos vindouros. Somos um país pequeno em área, mas um país que outrora se tornou grande porque ousou descobrir. Não é mantendo à míngua a mão-de-obra dos excelentes centros de investigação que por cá temos, que daremos continuidade ao descobrimento de «outros mundos». Mundos que clamam por serem descobertos por uma vasta plêiade de «precários excecionais». Já chega de bolsas e «bolsinhas», contratos e «contratozinhos», sempre a prazo. É que a evolução não tem prazo e o amanhã é já hoje! 4 de maio de 2017

237


PAULO CUNHA

Generalizações sexistas Sempre me causou alguma impressão, desconfiança, e até alguma aversão, as generalizações que se fazem sobre quase tudo. É natural que numa sociedade onde o consumo dita regras, os estrategas da economia de mercado tentem classificar e «arrumar» os consumidores através dos seus comportamentos. Desde que o «mundo é mundo» que se tenta distinguir o comportamento masculino do feminino através de atitudes que se tornaram comuns a cada um dos géneros. Por isso, não é de estranhar ler e ouvir afirmações que, de tanto proferidas, parecem, tal como num manual de instruções, ganhar força de verdade e assim distinguir-nos. Na qualidade de leitor e observador atento, penso que as mesmas não passam de estereótipos e até de mitos. Compreendo pois que certos investigadores e autores de renome questionem algumas investigações realizadas por esse mundo fora sobre o que diferencia os dois sexos. Sabendo que as predições baseadas somente no género são muitas vezes inexatas, os mesmos questionam sobretudo se os enormes esforços para apoiar generalizações estereotipadas não terão apenas o objetivo de manter e de justificar a existência de esferas separadas para os homens e as mulheres?!

238


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Habituámo-nos a conviver com chavões sobre «Mulher» e «Homem» que, de tantas vezes proferidos e repetidos, ganharam o valor e estatuto de verdades insofismáveis. Muitas delas, senão a maioria, pensadas e proferidas com carácter simplista, redutor e sexista. Classificando diversas formas de pensar e de agir como femininas ou masculinas, a sociedade habituou-se a arrumar certas formas de pensar e de estar na vida como femininas ou masculinas. Daí escutarmos os clichés do costume, tais como: “Com aquele comportamento de «macho» nem parece uma mulher… até joga à bola e tudo!” ou “Vê-se logo o que é que ele deve ser, com aqueles trejeitos e maneirismos!”. Clichés que, na maioria dos casos, não passam disso mesmo - frases feitas alicerçadas em ideias preconcebidas e numa educação preconceituosa, onde tudo o que sai do padrão comportamental é catalogado num qualquer género duvidoso e estranho. Têm sido desenvolvidos uma série de estudos nas últimas décadas onde se pretendeu recolher argumentos que ajudassem a sustentar uma teoria sobre a origem das diferenças entre géneros, admitindose hoje que não existe uma única explicação para todas as diferenças entre os sexos, devendo recorrer-se às múltiplas e distintas teorias para explicar os diferentes tipos de comportamento. “Um primeiro facto surpreendente é que o esforço para comparar os sexos não tem equivalente noutras categorias sociais, apesar de alguns autores sugerirem que as diferenças entre outros grupos sociais, nomeadamente as classes sociais e os grupos étnicos, são provavelmente mais importantes”. (Archer, J. - 1996). No entanto, se as primeiras classificações dos seres humanos comparavam, de facto, raças e classes sociais, estes procedimentos tornaram-se politicamente incorretos, ao passo que as comparações entre homens e mulheres não parecem colocar o mínimo problema. “Um dado interessante também é que se poderia esperar que fosse fácil fazer uma lista de diferenças entre os sexos, numa sociedade onde existem tantas desigualdades de estatuto e de poder entre eles. Porém, a constatação de que é tão complicado evidenciar diferenças

239


PAULO CUNHA

tão fracas entre os sexos e que os resultados obtidos são tão inconsistentes, não deixa de ser surpreendente”. (Lott, B - 1996). Não deixa de ser também surpreendente constar que há tantos investigadores e autores a tentar definir os dois sexos nas perspetivas psicológica, biológica e social e, de repente, vemos tantos «opinantes de Café? a balizarem pontos de conduta e a traçarem uma linha definitiva no que, relativamente aos comportamentos, nos separa. Por isso mesmo, cada vez mais me afasto das conclusões que a «voz populi» entende como as certas para uma (sã?) convivência em sociedade. Explicações que são transmitidas de geração em geração, condicionando e inculcando comportamentos «normalizados», por exemplo: os meninos gostam de bola, as meninas gostam de bonecas. Será?... Ou terá que ser?! Não me queiram convencer que, para além das diferenças morfológicas e fisiológicas, somos detentores de tantas características diferenciadoras que parece que nascemos em planetas diferentes. Imaginem o que direi eu, que há 35 anos trabalho num universo onde as mulheres estão em clara maioria (Educação) e dirijo um coro só com mulheres… Acham que sinto (enquanto homem) as diferenças com que as «pintam»?... Generalizações e nada mais! 12 de maio de 2017

240


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Canções há muitas… Já em fase de misturas finais e de masterização, e após ter levado o meu filho comigo para o estúdio de gravação, apercebi-me, já em casa, que havia uma das canções que o Miguel trauteava insistentemente. Perguntei-lhe se era aquela a canção que mais gostava, e porquê? Respondeu-me que sim, e no alto dos seus três anos disse-me apenas que a música era «gira». Referia-se, evidentemente, ao refrão que facilmente «ficava no ouvido». Bem dito, bem feito… Estava escolhida a música que iria abrir o cd! Se agradava e despertava a atenção a uma criança, que na sua ingenuidade e simplicidade a escolheu (tornando-a sua), então seria essa a música que desempenharia o papel de cartão-de-visita do trabalho discográfico. Anos volvidos, o tempo mostrou-me que eu estava certo, pois a dita ainda hoje se ouve… nem que seja no toque do meu telemóvel! Ora, o que torna então uma canção atrativa, apetecível, consumível e intemporal? É uma resposta que poderá ser fácil de responder, mas que na prática se torna difícil e árdua de concretizar! Muitas vezes não sabemos a razão pela qual uma melodia cantada nos coloca uma lágrima no canto do olho, nos faz a pele ficar toda arrepiada, ou nos provoca um «friozinho» na espinha. Há por certo uma conjugação de fatores que «mexem» com a nossa sensibilidade. Fatores esses que

241


PAULO CUNHA

nos condicionam e nos conduzem para uma rápida apreciação e eficaz aceitação de algumas canções em detrimento de outras. Por isso, são cada vez mais os arranjadores e produtores musicais que, tal como designers de moda, «vestem» muita da música que, despida de quaisquer influências, nasce virgem da criatividade e inspiração do compositor. As fórmulas são muitas, mas não há fórmulas certas… felizmente! Há quem musique uma letra/poema; há quem escreva uma letra/poema para uma melodia; há quem crie a letra e a música em simultâneo; há quem componha a melodia em função da harmonia; há quem componha a harmonia em função da melodia; há quem queira acompanhamento rítmico; há quem privilegie apenas o ritmo associado à melodia; há quem crie apenas para um determinado intérprete; há quem interprete só determinadas criações; há quem faça os arranjos instrumentais e produza as suas obras; há quem deixe os arranjos e a produção nas mãos de outrem; há quem componha por encomenda; há quem componha por necessidade; há quem componha por inspiração… Enfim, uma panóplia de opções que não garantem o êxito e a consagração duma canção no mural das músicas que a passagem do tempo não apagou, mas que misturadas nas proporções certas - e com o precioso «empurrão» da promoção e da divulgação - poderão tornar-se pérolas musicais resistentes à passagem e corrosão do tempo. Tendo em conta os considerandos atrás referidos, coloca-se então a questão nuclear e primordial para quem vive da música e para a música: como manter o seu público satisfeito e fidelizado? Compor em função do consumidor, compor em função dos intérpretes ou compor unicamente o que dita a inspiração? É que, por mais inspirados que os músicos sejam, se a música não provocar no público o tal «clic» que o faz comprar discos e ir aos concertos, não haverá, por certo, vontade que sempre prevaleça e carreira que sempre dure. É provavelmente, mais uma vez, na soma das partes que poderemos encontrar a solução para estas dúvidas que todos os dias pairam nas mentes dos músicos portugueses.

242


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Devido à ausência continuada de uma educação estética e artística de base, colhemos hoje os frutos do vazio formativo que se instalou em determinadas áreas artísticas. Os resultados são os que estão à vista, basta ligar os canais generalistas de TV e analisar a programação musical (feita à medida) dos programas de «entretenimento». Mas como em tudo na vida não convém generalizar, pois constata-se também que o sentido crítico e o bom gosto têm vindo paulatinamente a ganhar adeptos nas gerações mais novas. Crescimento intelectual e cultural que é hoje fruto do investimento empenhado e abnegado de muitos pais que, fazendo o possível e o impossível para garantir a formação artística dos seus educandos, têm feito mais pelo crescimento cultural deste país do que muitos governantes juntos. É também esse o segredo duma boa canção, o investimento público na formação de um público que a saiba ouvir, entender, apreciar, interpretar e valorizar. De canção em canção, façamos nós também a canção da nossa vida. Bem precisamos! 18 de maio de 2017

243


PAULO CUNHA

O sentido da vida Um destes dias, enquanto fazia o percurso habitual do meu local de trabalho para casa, deparei-me com um «maduro» do meu tempo que já não via há décadas e do qual guardo boas memórias de adolescência, principalmente dos momentos em que nos encontrávamos e discutíamos o sentido da vida (habitualmente à entrada da rua de Santo de António em Faro). Tê-lo reencontrado fez-me avivar memória de ricas, truculentas, inspiradas e marcantes conversas que em tertúlia mantínhamos. Moços novos (e inocentes) cheios de sonhos, de esperança e de um profundo desejo de contribuir para mudar o «nosso mundo». Malta porreira que através das palavras soltas e bem-intencionadas com que tentava esgrimir as ideias que a diferenciava, conseguiu construir um elo de afetos entre ela. Parece que foi ontem que eu (o Cunha), o Necas, o Castro, o Semião, o Bispo, o Canau, o Marujo, o Luís «Peixinho», o Estevinha, e por vezes outros, fazíamos ao vivo aquilo que muitos tentam hoje fazer na virtualidade das redes sociais: socializar. Confesso que, talvez por eu andar na rua sem óculos ou por ele já se encontrar algo «branco» e embarbado, não o reconheci. Só após

244


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

me ter interpelado é que o seu timbre vocal me fez escancarar a porta entreaberta da memória. E que bom e reconfortante que foi revê-lo, para, nos parcos e apressados minutos que estivemos juntos, pormos os últimos anos em dia. Foi nesse hiato de tempo que o ouvi dizer com um sorriso nos lábios: “Olha… Gostava do que fazia, mas como muitos outros neste país - fui há pouco tempo «convidado a sair do meu emprego»!”. Fiquei em silêncio e só a minha expressão de espanto e desalento o fez continuar, tentando assim consolar-me. “É a vida, Cunha! Já não sou novo, mas também não sou «velho» para que me reformar. Mas não há problema, não te apoquentes… Estou bem, sou um indivíduo ativo e ainda tenho «muito para dar»!”, foram as palavras de alguém que, ao contrário de outros, viu no seu infortúnio um motivo para se renovar e, através da sua positividade, tocar e contagiar pessoas que veem sempre «o copo meio vazio». Quase todos nós temos familiares e amigos que viram interrompidas e destruídas carreiras que no início das suas vidas profissionais se vislumbravam prometedoras e risonhas, mas que, devido a vicissitudes várias, se viram na contingência de rumar para outros caminhos e direções. Afinal, ao contrário do que imaginaram, projetaram e a assumiram como certo, não era aquele o seu «sentido da vida»! Quantos deles renasceram e, voltando a nascer, nos mostraram que a vida é feita de muitos caminhos. Caminhos prontos a serem descobertos, trilhados, calcorreados e desfrutados por quem a isso se dispõe. Por isso me continua a fazer alguma confusão quando, numa primeira abordagem, pessoas que já não se veem há algum tempo aferem o estado emocional de cada um através de perguntas onde as respostas indiciam os vários padrões de felicidade comummente aceites pela sociedade. Em vez de questionarem se os amigos se sentem realizados, plenos e felizes na sua vida, seja ela qual for, grande parte das pessoas avaliam a felicidade dos outros pela arrumação familiar, profissional e social dos mesmos. Nada mais enganador! Não basta tirar o retrato físico para, através da observação atenta, aferir a satisfação do retratado. Muitos sorrisos

245


PAULO CUNHA

falseiam uma realidade interior onde «a bota não bate com a perdigota»! Não há padrões estáticos e imutáveis no que à felicidade concerne. Aquilo que para uns é indiferente, para outros é tudo o que poderá fazer a diferença. Constato que há gente que leva toda a vida à procura da felicidade, quando, querendo e estando disponível, a felicidade encontra-a, vinda de onde menos se espera. Muitas vezes, de adversidades que aparentam ser irreversíveis e irreparáveis, se constata que a porta não se fechou, ficou apenas entreaberta para deixar a vida fluir por caminhos até então inexplorados. Daí responder de uma forma simples e singela quando me perguntam qual é o meu sentido da vida: “Tentar obter da vida o máximo de momentos onde a minha felicidade e a dos outros esteja presente!”. Não é esse também o vosso? Quem sabe, no fim o cômputo seja positivo!? Assim sendo: “Carpe Diem”! 26 de maio de 2017

246


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

Quero (apenas) ser feliz! De todas as vezes que, com os meus filhos, saí do consultório do meu amigo de infância, João Rosa, fi-lo com a certeza que eles tinham saído de lá melhores pessoas, mais animados do que entraram e, por certo, mais aliviados da maleita que os apoquentava. Como ele, acredito que respeitar e valorizar a individualidade potencia a autoestima e o bem-estar emocional. Deslocando o nosso centro de atenção para algo melhor e mais positivo, ficamos com a sensação de tranquilidade e serenidade. Daí ser adepto da ideia que uma mente sã ajuda a sarar melhor e mais depressa um corpo doente. Saber ouvir, prestar atenção, dosear e medir as palavras e não interromper o interlocutor enquanto fala, foram atitudes que os meus filhos, de «pequeninos», me foram relembrando, dizendo-me “Eu estou a falar!”, ou pegando no meu queixo e rodando-me a cabeça com o intuito de direcionar a atenção dos meus olhos para os seus. É algo que eles continuam a não me deixar esquecer: a

247


PAULO CUNHA

importância de escutar e dar atenção aos mais novos. Quando todos os dias tenho cerca de cem pares de olhos a fitar-me, querendo intervir, opinar e mostrar a sua sabedoria, tenho essa premissa em mente, dando-lhes espaço e respeitando-o. Aliás… como poderia eu querer que me respeitassem se eu não o fizesse também? Fruto de uma sociedade altamente competitiva, onde os bens materiais são para muitos um objetivo de vida, muitas crianças são pressionadas para se tornarem rapidamente adultas e serem as melhores entre pares. Muitos pais ficam com a sensação que se não colocarem periodicamente «pilhas» nos seus filhos, eles irão ficar para trás, ultrapassados pelos «melhores» do que eles. São pais que, projetando-se nos filhos, têm como principal objetivo vê-los sempre nos lugares da frente. Para o conseguir, os educadores não duvidam em exigir que os seus educandos frequentem múltiplas atividades extraescolares, preparando e condicionando-lhes o caminho até limites inacreditáveis, pois há que conquistar o êxito a qualquer preço. Mas o pior é que creem que o fazem «pelo bem dos seus filhos». Por isso, não é de estranhar que nas últimas décadas muitos pais tenham assumido um modelo de educação sustentado na hiperpaternidade («pais helicópteros» que não se cansam de voar sobre seus filhos, incessantemente). São pais que desejam que os seus «protegidos» se preparem para a vida, mas não no sentido da livre escolha por parte dos seus filhos. Tal desejo é restrito e condicionado pela ambição que os filhos igualem ou superem as condições profissionais, familiares e socioeconómicas dos progenitores. Não querendo colocar em causa esta forma de cuidar e educar por parte de muitos pais da minha geração, assiste-me colocar a questão se este modelo de educação não colocará uma pressão desnecessária sobre os mais pequenos, roubando-lhes assim grande parte da sua infância e, consequentemente, criando adultos emocionalmente fracos? A infância é um período de aprendizagem, mas também de alegria e diversão. As crianças devem aprender de maneira divertida, devem errar, deixar voar a imaginação e passar o seu tempo com

248


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

outras crianças. Esperar que as crianças sejam «top» em determinadas áreas, mantendo sobre elas expectativas muito elevadas, fará com que vivam sob uma tensão que não necessitam. Filhos que experimentam e agem sozinhos serão, porventura, capazes de direcionar o seu pensamento autonomamente e as suas capacidades e habilidades naturais poderão conduzi-los ao verdadeiro êxito - a conquista do seu espaço em função da realização pessoal! Enquanto educador e professor em constante construção, penso que é importante que demonstremos e transmitamos aos nossos filhos o seguinte: que os amamos de forma incondicional e em todos os momentos, independentemente dos erros que cometam; que as brincadeiras, as fantasias e as «criancices» fazem parte do processo natural de crescimento, e por isso são desejáveis e não condenáveis; que deverão fazer o que gostam, não importando do que se trata, pois quando fazemos o que gostamos aproveitamos o tempo em vez de o perder; que são tão especiais para nós, pais, como todos os outros filhos também o são para os seus; que merecem ver os seus direitos serem respeitados, respeitando também os direitos dos outros. Ainda um destes dias li uma frase de um jovem que suporta o que atrás referenciei: “Quando alguém que já não me vê há algum tempo me encontra, invariavelmente pergunta-me se já tirei a carta de condução, se já tenho emprego, se já tenho casa, se já me casei, se ganho bem, se já tenho filhos? Porque é que não me pergunta apenas se estou feliz a fazer o que faço… seja o que for?!”. Para quem passa por esta vida uma só vez, penso que está tudo dito! 2 de junho de 2017

249


PAULO CUNHA

À Terra, eternos devedores Acomodados e bem arrumados nas nossas vidinhas, lá vamos deixando o tempo passar, projetando um futuro à medida dos nossos desejos diários e necessidades a curto prazo. «Navegando à vista», deixamos que o presente guie um futuro desejado, mas – por muitos - pouco pensado, planificado e estruturado. Aliás, quantas vezes não escutamos os amigos a proferir frases do género: “De que adianta andar a pensar muito no futuro, quando está provado que a vida nos está sempre a «trocar as voltas»?” ou “O futuro a Deus pertence!”. Colocamo-nos de «mão beijada» à mercê de quem pensa e decide por nós, e quando chega a altura de «pedir contas», esquecemo-nos que fomos nós que fizemos a «cama onde nos deitámos». Todos sabemos que vivemos numa grande casa comum, de seu nome «Terra», mas por não a aceitarmos como um ser vivo que nos acolheu no seu seio, assumimo-la como nossa, quando, afinal de contas, por dela dependermos, nós é que somos sua propriedade. Embora construamos muros, paredes e divisórias para nos individualizar, partilhamos recursos que, sendo comuns, tornam a nossa vivência necessariamente coletiva e global. Sendo o planeta Terra o produtor e o fornecedor dos recursos que nos mantem vivos, estamos irremediavelmente sujeitos à forma como reagirá ao mal

250


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

que lhe fizermos. A toda a hora, e em vários locais do planeta, cada vez mais este ser vivo (único e insubstituível) nos mostra que nos pode dar o paraíso, mas também o inferno. Sim, por que não é preciso morrer para os conhecer. Ambos estão à nossa disposição. Cá, onde fazemos, ou não, por merecê-los! Ainda um destes dias tive a oportunidade de constatar a falta de preparação, de consciencialização e de resposta cívica face à perda prolongada de um bem que quase todos veem como acessível e inesgotável. Bastou uma rotura numa conduta de abastecimento aos reservatórios privar de água grande parte da cidade onde vivo, para, em meio-dia, levantar um coro de protestos, de indignação e de acusações. Aproveitando tal acontecimento, acabei por usar a minha proeminente «veia pedagógica» para, cá em casa, imaginarmos um futuro em que as restrições aos bens essenciais fossem periódicas e constantes. Não precisei de usar muita retórica, pois só num dia já tinham sentido na pele o que é viver num meio citadino e não ter água para tomar banho, para despejar o autoclismo, para cozinhar, para lavar a louça e a roupa, para regar as plantas… enfim para tudo aquilo que só nos lembramos quando dela temos falta. Uma situação que, malfadada e desgraçadamente, se tornou tão comum em tantas zonas do globo terrestre. Grande parte da humanidade vive sem acesso a água potável, às várias formas de energia e aos alimentos essenciais, fruto da insanidade, tirania e despotismo de ditadores que, através de vários meios, condenam o seu povo a viver em condições miseráveis e deploráveis. É caso para perguntar o que é que está a ser feito pelos governantes mundiais que elegemos e nos representam? Pois… falam muito e bem, mas assobiam para o lado quando as câmaras de TV já não estão ligadas! E nós?... Precisaremos também que nos faltem os bens essenciais para começarmos a ficar preocupados com o futuro dos que nos seguirão? Sim, porque serão eles que herdarão as consequências das nossas atuais decisões. Defender a consciência cívica, ecológica e ambiental não pode ser uma moda… É - já - uma necessidade imperiosa a incluir nas nossas práticas diárias! É importante que cada

251


PAULO CUNHA

vez mais nos sensibilizemos para a importância de conservar a biodiversidade do planeta, incentivando a reciclagem e o consumo controlado, como forma de combater o desperdício. Não podemos esquecer que a atmosfera é uma só, que as águas se interligam e que os ventos e os climas são planetários. É preciso que se exerça uma cidadania participativa e comprometida com a sustentabilidade e o planeta. A escola e a família devem ser um dos pontos de partida para essa mudança. É urgente que as estratégias de «Educação Ambiental» envolvam também a geração adulta, sendo a criação de estruturas de comunicação entre os cidadãos e os projetos ambientais o principal meio para que esta modificação ocorra. Viremos a ter, por certo, um mundo melhor quando todos, sem distinção, integrarmos e participarmos ativamente em projetos que devolvam à Terra tudo o que ela nos deu e continua (ainda) a dar. Cidadãos conscientes – a certeza de melhores viventes! 9 de junho de 2017

252


DESABAFOS… SEM ESPINHAS

253


PAULO CUNHA PAULO CUNHA

desabafos… sem espinhas

254

Crónicas publicadas na Revista Algarve Informativo


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
DESABAFOS ... SEM ESPINHAS by Algarve Informativo - Issuu