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ALGARVE INFORMATIVO #138

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ALGARVE INFORMATIVO 30 de dezembro, 2017

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LEÔNCIO E LENA EM DIGRESSÃO PELO ALGARVE… E NÃO SÓ «Leôncio e Lena», peça vencedora do 1.º Convite à Criação da Rede Azul – Rede de Teatros do Algarve, foi a cena, no dia 14 de janeiro, no Cine-Teatro Louletano, dando o pontapé de saída para uma digressão que a levará a praticamente todos os equipamentos culturais da região algarvia, mas também ao Teatro do Bairro, em Lisboa, e ao Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Texto:

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Fotografia:

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eôncio e Lena acontece num Algarve dividido entre o pequeno reino do Barlavento e o pequeno reino do Sotavento, em que Leôncio e Lena são os respetivos príncipes. Entretanto, por vontade real, os seus destinos devem cruzar-se por vias do matrimónio, mas ambos fogem para Lisboa para evitar o enlace combinado. Quis, porém, o destino que os dois se cruzassem na capital e, sem se conhecerem, apaixonam-se e acabam mesmo por se casarem. A história é uma adaptação do texto de Georg Büchner, «Leôncio e Lena», uma narrativa simples e, em simultâneo, bastante vanguardista, que foi agarrada por João de Brito para concretizar mais esta produção do LAMA – Laboratório de Artes e Média do Algarve. O objetivo foi aproveitar o romantismo e poética das palavras para trabalhar questões como o metateatro, a dissonância, a música, o vídeo e a desconstrução, utilizando-se as identidades e especificidades da história e ALGARVE INFORMATIVO #138

cultura algarvias, nomeadamente os contrastes entre barlavento e sotavento. “Tinha este projeto mais ou menos na gaveta depois de ter visto o espetáculo original, há uns anos, pelo Teatro da Cornucópia. Gostei bastante do texto e fiquei com vontade de pegar nele de outra forma, até porque já tinha participado noutro trabalho do Büchner como ator, «A Morte de Danton»”, conta João de Brito. Tratando-se de um apoio concedido por uma estrutura algarvia, o ator e encenador farense decidiu, assim, adaptar o original à realidade da região onde nasceu, sem a pretensão de ser uma recriação histórica com o intuito de explicar o que são o sotavento e o barlavento. “No texto original existem os reinos de Pipi e Pupu e eles fogem para Itália, aqui, escapam para Lisboa, porque o Leôncio e a Lena não se querem casar com uma pessoa que não conhecem. No entanto, mesmo os noivos tendo fugido, o rei quer celebrar à mesma o casamento 6


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naquele dia. O Valério e a Aia, os companheiros omnipresentes dos príncipes, trazem dois autónomos mascarados para a cerimónia, que acabam por ser o Leôncio e a Lena”, resume João de Brito. “A história acaba por ter um final feliz, mas é uma paródia, uma comédia de enganos, com uma forte crítica social para fazer pensar as pessoas. Queremos ser aquilo que não somos porque a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha”, acrescenta. Na história, os dois protagonistas nasceram em berço de ouro mas caminham em prol da liberdade que lhes foi negada pelo seu estatuto, ao mesmo tempo que Valério personifica o tédio e a ALGARVE INFORMATIVO #138

aversão ao trabalho dos nobres da época. “Eles são bons é a não fazer nada”, comenta o encenador, com uma risada, reconhecendo que ainda continuam a existir casamentos por interesse na sociedade moderna. “É um clássico transversal a todas as gerações e sociedades e que vai estar agora em cena em diversas salas de espetáculo do Algarve. O apoio da Rede Azul contempla uma viagem por 11 teatros municipais e já estivemos no Mascarenhas Gregório, em Silves, e agora no Cine-Teatro Louletano. Até março seguem-se os restantes e estamos muito entusiasmados. Vamos estar também no Teatro do Bairro, em Lisboa, e no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra”, adianta João de Brito . 8


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Foto: Paulo Moreira ALGARVE INFORMATIVO #138

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JOÃO PEDRO PAIS

NUMA NOITE MÁGICA EM VILA DO BISPO João Pedro Pais foi o convidado especial das festividades do feriado municipal de Vila do Bispo e deu um concerto fenomenal, no Pavilhão Multiusos da Raposeira, na noite de 21 de janeiro. O espetáculo insere-se na tournée «Improviso» e o espaço encheu por completo, com centenas de pessoas ao rubro e a vibrar com os sucessos de 20 anos de carreira do lisboeta. Texto:

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Fotografia:

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inda hoje o espetador mais atento se recorda da prestação de João Pedro Pais no programa de televisão da SIC «Chuva de Estrelas», em 1995, no qual ficou em segundo lugar ao interpretar «Ao passar de um navio» dos Delfins. O enorme talento demonstrado para a música levou-o a colocar de lado a sua carreira desportiva, onde ainda foi campeão de luta greco-romana e, dois anos depois, lançava o seu disco de estreia, «Segredos». Depressa se tornou num campeão de vendas, mas sem perder o seu lado irreverente, sem pretensões de ser vedeta, de cabelo despenteado, voz rouca,

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guitarra nas mãos, quase um Bruce Springsteen de sangue e timbre lusitano. Desde então, editou mais discos de originais: «Outra Vez» (1999), «Falar Por Sinais» (2001), «Tudo Bem» (2004) «A Palma e a Mão» (2008), «Desassossego» (2012) e «Identidade» (2015), mas também protagonizou o projeto «Lado a Lado», em 2006, com Mafalda Veiga, uma parceria que deu frutos inesperados e que esgotou por completo os Coliseus de Lisboa e do Porto. Antes disso, em 2003, já tinha sido convidado para fazer a primeira parte da tournée ibérica de Bryan 14


Adams, mais uma oportunidade para evidenciar as suas facetas de compositor e intérprete. Não admirou, por isso, que, no ano seguinte, atuasse também na primeira edição do Rock In Rio – Lisboa, mediático festival ao qual regressaria em 2010. Em outubro de 2010 foi colocado à venda o primeiro DVD da carreira de João Pedro Pais, com um concerto no Coliseu dos Recreios, que rapidamente atingiu o primeiro lugar do top nacional de vendas e que se manteve por vários meses no top 5 dos discos mais vendidos em Portugal. As tournées seguintes foram constituídas por múltiplos espetáculos de lotação esgotada, no continente e ilhas, e é a digressão do disco «Identidade» que trouxe o cantor até ao Algarve, mais concretamente ao

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concelho de Vila do Bispo, para uma noite simplesmente mágica no Pavilhão Multiusos da Raposeira, no dia 21 de janeiro. O concerto, em formato acústico, num conceito de «Improviso», deixou em delírio as muitas centenas de pessoas que encheram por completo o espaço e que cantaram os êxitos de João Pedro Pais do princípio ao fim, mas o cantor conserva toda a sua humildade, num quase desapego em relação ao sucesso, mesmo estando a comemorar as duas décadas desde o álbum de estreia. “Não sei o que vou ser daqui a dois ou três anos porque isto é tudo bastante efémero. Hoje, as coisas acontecem mais depressa e mantenho a mesma

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mentalidade de há 20 anos, nunca dei nada por garantido. Ando aqui enquanto me sentir bem e me divertir a mim próprio e aos outros, é isso que faz sentido para mim”, sublinhou João Pedro Pais, poucas horas antes do mítico concerto da Raposeira.

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Uma postura que, de facto, se tem mantido constante, fiel a si mesmo, à medida que os anos têm passado, não procurando ser quem não é, não se mascarando de popstar com discursos politicamente corretos ou ao sabor das modas. “Já tenho idade para ter juízo”, 16


dúvidas e frustrações, e tentar criar canções com as quais as pessoas se identifiquem”, entende o compositor, considerando que já está tudo inventado na música e que há imensos artistas com bastante mais talento do que ele. “Tento seguir as pisadas daqueles com quem me identifico e escolher o melhor caminho para mim, mesmo quando a minha música não se adeque àquilo que as rádios querem passar neste ou naquele momento”.

justifica, simplesmente, com uma risada. “Há miúdos nesta nova geração com bastante jeito e talento, que trabalham para conseguir alcançar os seus objetivos, cujas músicas me agradam. O difícil é ter paciência para nos escutarmos a nós próprios, para lidarmos com as nossas 17

Manter-se fiel a si mesmo, mas recriando-se continuamente, não é uma tarefa ao alcance de qualquer um, daí que muitos artistas desapareçam ao fim de um ano ou dois de estrada e outros andem por cá há algumas décadas. A receita, porém, não é nenhum segredo dos deuses. “É estar atento ao que fiz mal no passado, ao que resultou menos bem, e tentar, às vezes, despir as canções musicalmente, não as pôr tão cheias de instrumentos, de informação. O simples é o mais complicado de se alcançar”, reconhece. “Acredito que as letras ainda dizem qualquer coisa às pessoas, mas há outros que ficam agarrados à batida e não ligam tanto às ALGARVE INFORMATIVO #138


palavras. Mas até não nos podemos queixar muito porque os portugueses têm tradição de ligar ao que as canções dizem. O pop britânico faz um êxito com uma música que diga apenas «I Love You, I Love You», desde que a melodia seja forte e tenha os arranjos adequados”, compara João Pedro Pais.

NOVO ÁLBUM? VAMOS A ISSO… Grandes efeitos produzidos pelas novas tecnologias não é, sabemos bem, o estilo de João Pedro Pais, um compositor e cantor que gosta da simplicidade, de manter a música o mais natural possível, porque se habituou a ouvir Eric Clapton enquanto crescia, do mesmo modo que agora escuta John Mayer ou Dave Matthews Band, mas também Jorge Palma, “que toca piano divinamente bem”. “Não sou nenhum intelectual, tenho o meu gosto pessoal e sei por onde quero ir e, quando vou ver um espetáculo, o que me agarra é a maneira como os artistas tocam viola, como executam o instrumento. A mim não me interessa tocar uma batida que vem não sei de onde, de um aparelho qualquer. Gosto, sim, de ver alguém a colocar as mãos no teclado do piano e a fazer soar grandes melodias, assim como na guitarra ou na bateria”. Como as canções de João Pedro Pais não são as tais do «I Love You, I Love You», como estamos de paciência para compor novos temas ao fim de duas décadas de carreira, questionamos. “Há sempre histórias para contar, mas não posso fugir muito ao que vivo no dia-a-dia. Tive a sorte de não ter nascido num ambiente ALGARVE INFORMATIVO #138

demasiado conturbado, não vivi aquela época de 74, do regime ditatorial, da saída do Estado Novo. Nomes como José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho, escrevem do que vivenciaram, eu advenho de uma juventude que prestou mais atenção à música na década de 90”, refere o entrevistado, lembrando-se de bandas como Duran Duran, Roxy Music ou Pearl Jam. “Intervir toda a gente o faz no quotidiano, mas não escrevo temas de protesto, se bem que tenha o «Civilização»”. Nesta viagem pelo tempo, João Pedro Pais apanhou igualmente a fase em que as bandas nacionais se viraram para a língua inglesa, mas o lisboeta não entrou nesse caminho, porque é em português que gosta de contar as suas histórias. “Quem canta em inglês deve ter uma boa pronúncia e isso não é tão fácil como parece. Quando toquei com o Keith Scott, guitarrista do Bryan Adams, dei-lhe a ouvir alguns artistas portugueses que cantavam em inglês e ele disse que se notava logo que não eram americanos ou britânicos”, indica, falando igualmente dos produtos que saem dos concursos televisivos inspirados no longínquo «Chuva de Estrelas». “Adoro a Carolina Deslandes, é um grande talento. Pode não ter aquele vozeirão rasgado, mas nem é preciso, porque a sua musicalidade leva-a para outros patamares. Claro que há artistas que chegam e desaparecem num instante, porque é preciso serem educados, terem bons conselhos para não se perderem pelo caminho”.

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Foto: Salvador Colaço

E porque duas décadas de carreira são sempre um momento de relevo na vida de qualquer artista, perguntámos se vem algum novo disco de originais a caminho. “Este ano faço 20 anos, não é? Então, vamos a isso”, responde, com um sorriso. Resta-nos, então, esperar por mais novidades, porque o concerto de Vila do Bispo já faz parte do passado e deixou-nos repletos de boas memórias. A quem lá não esteve, fica o alerta: João Pedro Pais estará 19

de novo no Algarve, no dia 14 de fevereiro, para um concerto no Teatro das Figuras, em Faro. “Eu ajo muito por impulso, daí o concerto chamar-se «Improviso», e fazemos uma viagem musical desde 1997, mas o espetáculo de Faro deverá ser semelhante a este. Será um concerto intimista, despido do elétrico, menos roqueiro, em que o importante é a essência das canções e que as pessoas as cantem” .

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OPINIÃO

Profanar as celebrações do Nascimento de Cristo é Proibido Antónia Correia (Professora)

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o Natal celebra-se o nascimento do Salvador do Mundo - Jesus, um nascimento simbólico que paralisa o país.

Tolerâncias de ponto, mais do que justificadas, férias e festividades segregam serviços que, por defeito, deveriam funcionar em pleno, independentemente da época do ano. Às ausências próprias das festividades acresce a sobrecarga dos serviços de saúde e de justiça, mais do que conhecida e apregoada em todos os meios. A população envelheceu, os serviços de saúde precisam de ser redimensionados, mas não são. Mas insano, ou até profano, é atrever-se a falecer na véspera das celebrações do Nascimento de Cristo. Tolerância de ponto, constrangimentos dos serviços, falta de médicos legistas, atrasam um processo que, afinal, também é uma celebração. Diz a Bíblia: "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que voltes à terra; porque dela foste tomado”, Genesis, 3.19. Pois, mas devolver à Terra o que veio da Terra também é difícil, senão impossível, pelo menos

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em Faro, onde o espaço no cemitério simplesmente não existe. Entre sobrelotação dos serviços, serviços que simplesmente não funcionam porque lhes foi concedida tolerância ou serviços que funcionam apenas uma a duas vezes por semana, protela-se a entrega dos corpos para as últimas celebrações, ao mesmo tempo que se promovem e incentivam as festas familiares. As celebrações fúnebres, direito irrevogável das famílias, não têm data. Ironia do destino, muitas vezes os funerais coincidem com a missa de sétimo dia, ou talvez esta missa seja proferida antes do funeral, porque pouco há a fazer num sistema ineficiente que há muito ultrapassou os limites dos constrangimentos pontuais. Finalmente, e para retirar ainda mais dignidade ao ato, a última morada é sonegada por falta de espaço nos cemitérios. Corpos que procuram o descanso eterno continuam a ser vítimas de um sistema social que simplesmente não funciona, muito provavelmente porque é insano falecer na véspera do Natal! .

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MESTRES DO TROMPETE E ACORDEÃO EXPLORAM NOVAS SONORIDADES EM MORPHOSIS Hugo Alves e João Frade são, indiscutivelmente, dois dos melhores artistas algarvios de todos os tempos, verdadeiros mestres nos seus instrumentos de eleição, o primeiro no trompete, o segundo no acordeão. Agora, decidiram juntar os seus talentos inatos para explorar novas sonoridades, num projeto em constante mutação e sem medo de arriscar. Texto:

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projeto «Morphosis», de Hugo Alves e João Frade, está a ser um dos produtos culturais mais interessantes daqueles que saltaram para a ribalta ao abrigo do programa cultural «365 Algarve» e, após algumas tentativas falhadas, por questões de agenda, finalmente conseguimos assistir a um concerto desta dupla improvável, no dia 3 de fevereiro, em São Brás de Alportel. Depois de terem participado noutros projetos com outros músicos, a vontade de fazer um trabalho diferente com trompete e acordeão andava na mente de Hugo Alves já há algum tempo e, em 2016, esse desejo concretizou-se. “Partimos para isto com temas que tinha escrito, não propositadamente para esta formação, mas rapidamente começamos a produzir coisas novas, porque o «Morphosis» é isso mesmo, é estar em constante transformação”, explica Hugo Alves. Os primeiros concertos serviram para afinar os ponteiros e deram logo nas vistas, de tal modo que o duo foi convidado pela organização do «365 Algarve» para integrar este programa conjunto das Secretarias de Estado do Turismo e da Cultura. E o desafio de Hugo Alves foi prontamente aceite por João Frade, acordeonista consagrado, com uma carreira internacional de gabarito e que é conhecido precisamente por gostar de diversas sonoridades e por estar sempre aberto a novas experiências. “A minha formação não é, de facto, convencional e projetos desta natureza são bastantes estimulantes para mim. Aqui há um fator extra de incentivo, pois não existe um instrumento rítmico, uma percussão, baixo ou contrabaixo. Depois, sempre gostei imenso de trompete, «casa» muito ALGARVE ALGARVE INFORMATIVO INFORMATIVO #138 #138

bem com o acordeão, e conseguimos atingir uma grande coerência de som”, descreve João Frade. Com dois mestres em ação, ainda por cima dois adeptos do improviso e do experimentalismo, Hugo Alves não consegue dizer se é fácil ou difícil escrever temas para o duo, mas garante que são ambos bastante exigentes com o resultado final. “Chegamos ao ponto do João ter que selecionar qual o seu acordeão que funciona melhor colado a um trompete e do meu lado sucede o mesmo, porque os instrumentos têm características diferentes, lidamos com eles todos os dias e temos uma relação muito estreita com eles. Uma diferença de dois por cento, para nós, é demasiado grande”, refere Hugo Alves, adiantando que mesmo os temas são alvo de constantes mudanças, daí que nenhum concerto seja igual ao do dia anterior. “O que acontecer hoje em São Brás de Alportel de certeza que vai ser diferente do que ocorrerá amanhã em Monchique”, garante o trompetista. «Morphosis» transcende, então, todas as linguagens musicais e o intuito é descobrir novos caminhos, sem descurar as raízes do acordeão e do trompete. Contudo, não se trata de pegar em temas de jazz e colocar o acordeão no meio, nem tocar com o trompete uma música mais popular ou tradicional. “Não colocamos de lado a possibilidade de executar algum standard com esta formação, porque terá sempre uma cor diferente, mas a ideia é explorar mesmo novos ambientes e vamos construindo temas em conjunto e sem

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obedecer a uma estética comum de composição”, reforça João Frade. Certo é que o projeto tem resultado tão bem por estarmos na presença de dois artistas «fora da caixa», que não se agarram com unhas e dentes ao que é habitual nos seus respetivos instrumentos, opinião que é partilhada por ambos. “Ainda ontem trouxe um tema novo que estava a escrever e deixei-o inacabado para, em parceria com o João, tentarmos chegar ao maior entrosamento possível entre o trompete e o acordeão. Quem o concluiu foi o João e funcionou bastante bem. Acho que o sucesso do «Morphosis» também é fruto do momento que nós dois atravessamos enquanto artistas, em que queremos criar algo distinto, fora do normal”, analisa Hugo Alves. “Cada tema tem a sua história e dá-nos infinitas 25 25

possibilidades porque, mesmo sendo pequena, esta formação é bastante flexível”.

UM PROJETO PARA CONTINUAR, SEM DÚVIDA Sem um instrumento tradicional a marcar o ritmo, e com dois mestres do improviso juntos, fica a curiosidade de saber como tudo isto depois funciona em palco e se é fácil para cada um acompanhar as experiências e as «invenções» do outro. “Às vezes acontece um «fugir» para um lado e o outro ter que ir rapidamente atrás dele, mas isso é algo bonito. Gostamos de tocar no fio da navalha, de entrarmos em zonas de risco”, responde João Frade, com um sorriso, enquanto Hugo Alves revela que tem sido fácil conciliar ALGARVE ALGARVE INFORMATIVO INFORMATIVO #138 #138


as superpreenchidas agendas de ambos. “Esta é a nova vida, estamos habituados a ter agendas complicadas e o «Morphosis» agora faz parte dessa complicação”. O produto é de qualidade, disso não há dúvidas, mas será que o público está a reagir bem a esta junção de instrumentos com percursos tão diferentes, perguntamos. “O público tem crescido drasticamente desde a primeira atuação, em qualidade e quantidade. Os concertos têm tido casa cheia e isso significa que as pessoas estão recetivas, que sentem curiosidade em ver o que se anda a fazer no Algarve. Há poucas semanas tocamos, em dias consecutivos, em Vila Real de Santo António e Castro Marim, que ficam à distância de poucos quilómetros um do outro, e os dois espetáculos estiveram esgotados”, conta Hugo Alves, adiantando

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que o mesmo êxito foi alcançado em Vila do Bispo. “Estamos a falar de zonas mais periféricas do Algarve – mas nem por isso menos importantes – e fica demonstrado que há público para a cultura na região. Para nós, músicos, é importante exercermos a nossa atividade profissional, mas também que as pessoas venham, porque dar concertos para meia dúzia de espetadores é sempre um bocado estranho”. Face ao sucesso alcançado, a dupla assegura que a vontade é seguir em frente com o «Morphosis», mesmo sabendo-se que o programa «365 Algarve» decorre apenas até maio do corrente ano, ainda que com fortes perspetivas de ser renovado. “O projeto já existia antes do «365 Algarve» e

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acredito que iria para a estrada mesmo sem ele, mas temos que realçar a importância destes programas. Há investimento para se fazer em cultura e há retorno sobre isso e os concertos da Orquestra de Jazz do Algarve também têm sido bastante bem aceites pelo público”, sublinha Hugo Alves. “Esta economia da cultura existe e faz falta às pessoas”, enfatiza. Sobre a possibilidade da dupla lançar um disco, João Frade confirma o desejo de terem um registo físico do projeto, mas o mais provável é ser um vídeo ao vivo e, para isso, já estão a gravar os concertos que vão dando um pouco por toda a região, até para servir de cartão-devisita para novas digressões. Trabalho não falta a Hugo Alves e João Frade, pelo que serão de esperar também 27 27

novidades nas suas carreiras a solo, embora o trompetista confesse que, de há uns anos para cá, sente pouca vontade de se enfiar alguns dias num estúdio para gravar um disco. “Prefiro sessões ao vivo, dão-nos energias diferentes. O ano passado tive o projeto dos «Magic Stars» e deve estar para sair qualquer coisa dele, assim como da Orquestra de Jazz do Algarve, mas aí é ainda mais complicado juntar a formação toda numa sala com acústica razoável para se produzir um disco”, explica Hugo Alves. “Do meu lado, continuo a participar em bastantes projetos de outros músicos e tenho um disco em nome próprio para lançar em breve, que será gravado no estrangeiro”, conclui João Frade .

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OPINIÃO

Expedição 18.2. Nuno Silva (Técnico de Comunicação)

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azar o bolso de umas calças que não uso há muito tempo é tradicionalmente um exercício de algum entusiasmo e expectativa. Como se naqueles bolsos daquelas calças depositasse a confiança que não tenho no meu cartão de multibanco e, dramaticamente, toda a minha vida dependesse disso. Nunca peço muito. 1 euro que seja. 2 euros que fossem. Ou uma nota de 5, se aquele saquinho de algodão e esperança quiser perder a cabeça. Enfim, vivo aquele mergulho cego quase com a mesma intensidade com que passo a ferro…nunca sei bem no que vai dar, mas espero que corra bem. Contudo, numa destas manhãs de sono e letargia, em que até o galão clarinho e a torrada mal torrada conspiravam contra mim, uma dessas expedições quis por bem salvar-me um dia que se antevia longo e nebuloso. “Mas Nuno, como se contraria um galão que abusou no café e uma torrada que abusou no torrado, se é a própria ciência que nos diz serem a medida certa para uma manhã feliz?”. Simples: naquela manhã, fiquei milionário. A Expedição 18.2 às calças esquecidas no guarda-fato amazónico da manhã de 22 foi a melhor até à data. Sou capaz de jurar que ouvi o meu mindinho direito gritar «eureka» quando, depois de alguns apalpões inglórios, ter sentido na sua testa, ali onde a unha encontra a pele, o doce toque de um papel velho e amarrotado. “Já está, café para todos”. Afinal não. Não era uma nota de 5. Muito menos uma de 10. Não era uma nota de todo. O pedacinho de papel mentiroso que tinha acabado de engrupir todo o meu corpo era azul, com letras ainda mais azuis e um logótipo em tons de vermelho tinto. Confesso que, por momentos, me senti desiludido. Era capaz de apostar até que tinha sido uma nota a deixar ali aquele cartão, só para me ver subir ao Olimpo e cair logo depois. Mas foi chuva de pouca molha. Aquele cartão, ou papel enrugado, fez muito mais do que pagar cafés aos meus colegas de trabalho. Lembrei-me de onde vinha, como tinha ido ali parar e, sobretudo, quando e porquê. Quis a vida que este ano eu me visse integrado num grupo fantástico de jovens voluntários: Portugal estava ALGARVE INFORMATIVO #138

em cinzas e era preciso ajudar. Foi duro, cansativo e muito angustiante, mas só nós sabemos como nos fez bem. Conseguimos juntar, em menos de 48 horas, mais de duas toneladas de bens de primeira necessidade. Num abrir e piscar de olhos, Faro e os farenses encheram, à pele, um camião TIR de comida, roupa, colchões e imobiliário. Coisa pouca. Creio que todos nós pensávamos estar a ir em ajuda dos outros, mal sabendo que eram «os outros» que nos iam ajudar a nós. Vimos mais do queríamos. Ouvimos mais do que gostaríamos, mas fez-nos um bem «terrível». No fundo, o que aquele papel me lembrou, depois de, na madrugada anterior à viagem, o proprietário do camião mo ter dado, é que é nas alturas mais difíceis que nos fazemos mais humanos. Vermos o poder do dar e a gratidão do receber. Vermos a crueldade de quem destrói e a coragem de quem constrói. E, para mim, ver o dia em que no meio das cinzas recuperámos a gata que, sem orelhas, sem pelo e sem unhas, me acorda, hoje e todos os dias, com a mais áspera das línguas, a mais demoníaca das fomes e o mais sincero dos amores…ou obrigados. Ali, lembrei-me que aquele fora o meu gesto de 2017. Aliás, muito provavelmente, este terá sido o gesto da minha vida. Contudo e a verdade é que não sou a melhor pessoa do mundo por isso. Nem sequer a melhor pessoa da minha rua. E é bom sabê-lo. Assim, numa manhã que começou com pão queimado, acabou com um sorriso gigante. Há uma medida exata para as melhores coisas da vida. É pequena e surda. Não treme, não vacila. Diz-nos, porque fala, que há uma razão para estarmos cá. É a medida que move os homens bons e nos faz ver de olhos fechados. Ainda temos muito a aprender com ela, mas vêm aí mais 365 dias para tentarmos. Por isso amigos, não é o ano que tem de ser bom, somos nós. Que 2018 simplesmente venha, se é de uma desculpa que precisamos para recomeçar. E que seja eu a fazê-lo bom, com todos os que se quiserem juntar. Até já 2018! .

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PEDRO

TOCHAS

IMPARÁVEL

EM LOULÉ O inigualável Pedro Tochas regressou ao Algarve, no dia 5 de fevereiro, para apresentar um mix de dois espetáculos no Cine-Teatro Louletano. Foi uma oportunidade única para assistir aos melhores momentos de «Maiores de 18» e «Já tenho idade para ter juízo», mas também à pura essência da stand-up comedy ao seu mais alto nível. Texto:

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agitação era muita em redor do Cine-Teatro Louletano, na tarde de domingo, 5 de fevereiro, para assistir ao vivo ao que de melhor a stand-up comedy tem para apresentar, pois Pedro Tochas – o maluco de cabelo em pé que conhecemos dos anúncios do «Freeze» – trazia na bagagem uma coletânea dos momentos mais marcantes dos seus dois últimos espetáculos, designadamente «Maiores de 18» e «Já tenho idade para ter juízo». No fundo, tratava-se de pequenas histórias, divagações, alucinações, improvisações e interações constantes com o público, sobre temas da atualidade, com uma pitada de sexo à mistura, sem nunca fugir do bom-tom. Hora e meia de risadas permanentes com um artista que anda nisto há 25 anos, um dos primeiros em Portugal a pisar palcos para contar piadas, mas também as pedras da calçada, pois Pedro Tochas iniciouse como artista de rua. Um quarto de século depois, continua a vibrar intensamente sempre que tem um público pela frente, seja meia dúzia de espetadores ou algumas centenas, como era o caso nesta tarde domingueira por terras algarvias que bem conhece. “Eu gosto mesmo daquilo que faço e isso é importante para o sucesso dos espetáculos. Nota-se quando um artista está em palco apenas a pensar no cheque que vai receber, ou quando está ali por paixão, com total entrega. Eu dou sempre tudo o que tenho”, garante, ainda cheio de adrenalina. Minutos antes tinha estado a tirar fotografias com os fãs, no hall do Cine-Teatro Louletano, e até recebeu o pedido de desculpas de um jovem casal que tinha chegado ao espetáculo com uns minutos de atraso. Como se adivinha, já não se livraram de algumas piadas da língua afiada de Pedro Tochas, porque o artista não perde essas oportunidades para improvisar. “As pessoas têm que perceber que isto não é televisão e que quem está no palco está a ver tudo o que se passa à sua volta. Eu sou o tipo de comediante que adora brincar com o que está a acontecer no momento”, justifica, adiantando que essa rapidez de reação se vai adquirindo com a experiência. “Depois, é uma questão de treinar o teu cérebro para reagir rápido, porque os conteúdos são sempre uma incerteza”. O que se vai ganhando também com a tarimba é a capacidade de não se ultrapassar os limites, de não ferir suscetibilidades, mas a tarefa não é fácil, admite Pedro Tochas, porque cada pessoa tem os seus próprios limites. “Temos que fazer o melhor julgamento possível e, acima de tudo, sermos verdadeiros naquilo que fazemos, ALGARVE INFORMATIVO INFORMATIVO #138 #138 ALGARVE

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não estarmos a pensar apenas em agradar a este ou aquele”, aconselha o entrevistado. “O objetivo é brincar com as pessoas e não deixá-las desconfortáveis ou magoadas. Agora, se um espetador me começar a chatear o juízo, o que às vezes acontece, ai sujeita-se”, avisa, com um sorriso. O facto de os espetáculos serem normalmente para maiores de 16 anos não significa que Pedro Tochas use palavrões, simplesmente fala de sexo e utiliza uma linguagem adulta. “Eu falo de certas coisas que espero bem que uma criança de 10 anos não perceba nada disso. Até para perceber quando estou a ser irónico ou sarcástico é preciso alguma experiência e maturidade, porque muito do que digo tem segundas intenções”, explica, considerando ainda que o próprio público deste género de espetáculos evoluiu muito no passado recente. “Mesmo a oferta cultural aumentou bastante na última década, com programação para públicos distintos. Depois, com o tempo, as pessoas percebem que, ao vivo, tudo é mais espetacular. Na televisão, podes fazer pausa ou rewind, aqui não, estás a ver o artista a soar em palco e isso é fabuloso. Só que este trabalho não se faz de um ano para o outro e temos que agradecer às autarquias que apostam na cultura”, sublinha, em tom mais sério. A versatilidade e capacidade de improviso são, de facto, duas notas dominantes das atuações de Pedro Tochas, mas este nunca descurou a formação, nem a troca de ideias e conceitos com os colegas. Curiosamente, andava a estudar engenharia química quando começou como artista de rua e, de repente, estava descoberta a sua real vocação, aquilo que lhe enchia mesmo a alma de alegria. “Faço vários tipos de stand-up comedy, na rua, palestra para empresas, espetáculos para crianças, com piadas, malabarismos, balões. Como sou um artista a solo, escrevo as minhas próprias coisas e faço o que me dá mais prazer”, aponta, não se julgando nenhuma vedeta apesar do êxito que tem. “É uma profissão como outra qualquer. A diferença é que, durante uma hora e meia, estou em cima do palco e está toda a gente a olhar para mim. No resto do tempo estou em casa a preparar material novo”, descreve. “Hoje, ser artista é uma carreira normal e tanto estamos desempregados como ator ou como engenheiro. Em todas as áreas há altos e baixos e eu também não quero subir muito, é mais fácil manter-me a meio”. Entretanto, para março deveremos ter espetáculo novo de Pedro Tochas, que já anda em testes por espaços mais pequenos de Lisboa . ALGARVE INFORMATIVO #138 ALGARVE INFORMATIVO #138

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OPINIÃO

Sem crenças, nem superstições Paulo Cunha (Professor)

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m destes dias, «tropecei» num sítio na internet que servia de repositório de «frases-feitas» para a época da passagem de ano. Logo de seguida, através do mesmo motor de busca, aparecerem-me muitos mais «links» do mesmo género e para todos os gostos. Confesso que ainda não me tinha apercebido como, até nos desejos pessoais seja do que for, é, hoje, possível encontrar a «papinha toda feita» para partilha imediata. Vivemos num tempo onde todo o tempo conta, a originalidade perdeu espaço para o consumo imediato e até a transmissão dos sentimentos mais naturais e sinceros já é formatada e padronizada. Sempre que o calendário acrescenta um novo ano, em todo o mundo multiplicam-se os desejos de Bom Ano Novo, acompanhado de muita felicidade, paz, saúde e amor. Antigamente telefonávamos ou transmitíamo-lo cara a cara, agora reencaminhamos as tais frases-feitas escritas por cima de fotos, pinturas e desenhos. Dir-me-ão: “O que interessa é a intenção”. Sim, interessa a intenção, mas se espremermos o sumo de tal desejo, verão que nada mais constitui do que, apenas isso, um cliché igual a tantos outros que, diariamente, trocamos e banalizamos entre nós. O início de um novo ano é mais uma longa caminhada com o futuro como destino. Sendo os desejos e a esperança de construir algo melhor o mote para esta época, grande parte de nós deposita nas crenças e nas superstições um papel muito importante para se certificar de que tudo corre como o previsto, e que garante a presença de energias positivas em torno de si. Entre muitas,

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relembro-vos as seguintes crenças e superstições no ritual da Passagem do Ano: beijar a pessoa amada na passagem do ano, usar roupas novas no Ano Novo, deixar as portas da casa abertas, sair de casa no momento das doze badaladas e voltar a entrar com o pé direito, pular com o pé direito à meia-noite, dar três saltos com uma taça de champanhe na mão, dançar à volta de uma árvore, comer uvas passas enquanto soam as doze badaladas, colocar uma nota no sapato na noite da passagem de ano, usar uma peça de roupa amarela, manter a carteira cheia de dinheiro, o frigorífico com bastante comida e a despensa repleta de alimentos durante o primeiro dia do ano, estrear-se roupa interior, não chorar, não comer frango, não lavar os pratos no primeiro dia do ano, não deixar dívidas pendentes, não sair de casa antes de receber a primeira visita no ano e essa visita tem que trazer algum presente. Lendo a descrição de todos estes usos e costumes que se institucionalizaram nos festejos da Passagem do Ano, fico com a sensação que depositamos mais esperança na «sorte» das nossas crenças e superstições do que no poder dos nossos atos. Por isso, quando alguém me deseja “Bom Ano Novo!”, invariavelmente respondo: “Vou fazer por isso!”. Embora seja apenas simbólico, acrescentar um novo ano ao calendário poderá despoletar em nós, finalmente, a aspiração de mudar o que está mal e valorizar o que está bem. Daí o meu sincero desejo, sempre que entramos num novo ano, resumir-se apenas à seguinte frase: “Um Ano Novo à medida das vossas aspirações e merecimentos!”. Para nós e para vós! .

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RITA REDSHOES encantou Loulé com o seu pop sinfónico

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O Cine-Teatro Louletano voltou a viver uma noite mágica, com um espetáculo inesquecível de Rita Redshoes, integrado na tournée de promoção do novo disco de originais «Her». Um registo mais sinfónico com a introdução de um quarteto de cordas que catapultou os temas da artista para um novo patamar e o público rendeu-se por completo, às novas melodias, mas também aos êxitos de outros álbuns, agora com uma roupagem mais clássica. Texto:

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Cine-Teatro Louletano recebeu, no dia 24 de fevereiro, a estreia em terras algarvias da tournée de Rita Redshoes do novo álbum «Her», num concerto inserido no ciclo musical «Femina» que pretende trazer a Loulé, ao longo de 2017, grandes vozes no feminino. E quem se deslocou à principal sala de espetáculo do maior concelho do Algarve assistiu a um concerto fenomenal, com um quarteto de cordas a acompanhar o piano e as várias guitarras da Rita, que nasceu Ribeiro e surgiu na música como Redshoes. Temas profundos que nos faziam vivenciar histórias, de olhos fechados, outros mais simples, com batidas mais mexidas. O público esgotou a sala e não se cansou de bater palmas no final de cada tema. No palco, viu-se uma Rita encantada da vida, a fazer o que mais gosta, de sorriso nos lábios, até teve que se levantar uma vez do piano com o calor que lhe aquecia a alma. Não estava ali a picar o ponto ou a pensar no cachet, mas a vibrar com a sua música, a falar da cataplana mista que tinha comido, minutos antes, do outro lado da estrada, no Restaurante Avenida, e também do famoso Carnaval de Loulé, que iria animar a cidade a partir do dia seguinte. Uma artista de mão cheia, cujo percurso começou, como baterista, num grupo de teatro de escola. Cedo deu mostras do seu imenso talento em múltiplos instrumentos e passou por diversos projetos musicais como autora e intérprete, entre os quais Atomic Bees, Photographs, Rebel Red Dog, David Fonseca, The Legendary Tigerman, ALGARVE INFORMATIVO #138

Noiserv. Em 2008, aventurou-se finalmente em nome próprio, com «Golden Era», seguindo-se «Lights & Darks» (2010) e «Life is a Second of Love» (2014). No ano passado, Rita Redshoes rumou a Berlim para gravar o seu quarto álbum de estúdio, «Her», onde depressa se evidencia uma sonoridade mais sinfónica, graças à introdução de um quarteto de cordas que passou a acompanhá-la na estrada. Para além de ser o disco em que mais instrumentos tocou (piano, omnichord, teclados e guitarra acústica), outra novidade, que resultou em pleno, ao incluir três temas em português, um deles escrito em coautoria com Pedro da Silva Martins. “Já tinha vontade de o fazer há alguns anos e, curiosamente, a primeira música que escrevi para este trabalho saiu logo em português. Aconteceu de uma forma muito espontânea e genuína”, explicou, horas antes de subir ao palco em Loulé, confirmando a sonoridade mais clássica proporcionada pelos arranjos de cordas do princípio ao fim de «Her». “Penso que há uma maior maturidade neste disco e, embora não seja concetual, acaba por ter um fio condutor a todas as canções, que se prende com o lado feminino, não só na mulher, mas em todos nós. Aborda o modo como lidamos com esse lado feminino, fala de alguns preconceitos que ainda existem na sociedade moderna, é um disco mais direto em relação aos seus anteriores”. Um lado mais sinfónico de Rita Redshoes que já era notório nas bandas sonoras que tem escrito nos últimos anos, não fosse ela uma apaixonada por 40


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orquestras. “Neste quarto disco assumi por completo este meu gosto pela sonoridade mais clássica e que advém também da minha formação académica. O pop/rock está-me no sangue, assim como o prazer em fazer arranjos para cordas”, referiu a artista, que tenta inovar constantemente em cada álbum que compõe. “Procuro sempre dar um passo para um sítio diferente, porque a arte vive de arriscarmos e não de nos acomodarmos. Claro que há fios condutores que têm a ver com a nossa personalidade e gostos próprios e que acabam por estar presentes em tudo o que fazemos e acredito que esse lado orquestral nunca vai deixar de existir em ALGARVE INFORMATIVO #138

mim. Isso não significa que o próximo disco não possa ser, por exemplo, mais eletrónico”, aponta, com um sorriso. O que se deve manter, no futuro, são os temas compostos e interpretados em português, por ter adorado a experiência, uma reação partilhada pelos fãs. “É uma janela que não se vai voltar a fechar e que, certamente, se vai desenvolver mais”, assegura, ao mesmo tempo que reconhece que viver da arte, em Portugal, ou no Mundo, é um ato de coragem, para os homens e para as mulheres. “No fundo, a qualidade é aquilo que deve imperar, embora, às vezes, tudo fique um bocadinho confuso. Faz-se muita 42


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coisa atualmente, o que torna mais difícil chegar às pessoas, que não têm tempo para conhecer, assimilar e escolher entre toda a oferta que lhe é proposta. É uma guerra constante, mas move-me a vontade de mostrar o que faço ao público e, felizmente, as coisas têm corrido bem. Não me posso queixar, apesar das dificuldades que eu sinto, assim como todos os meus colegas”. Para continuar são também as bandas sonoras, adianta Rita Redshoes, porque os convites e os desafios continuam a surgir com regularidade. “Desde pequena que me sinto atraída por elas, estou sempre bastante atenta à música nos filmes. Julgo que a minha música, mesmo nos meus álbuns a solo, tem esse lado ALGARVE INFORMATIVO #138

cinematográfico, daí as propostas para escrever para cinema e teatro. É um lado muito saudável que tenho, porque implica mover-me noutros ambientes, descentrar-me da questão das canções, e depois transporto essa aprendizagem para os meus discos”, analisa. “Em Portugal, há público para vários projetos musicais, para aqueles onde impera mais o ritmo e a repetição das melodias, e para os outros onde o texto é mais importante e que exigem mais atenção e um bocadinho mais de tempo para serem absorvidos e compreendidos. Eu, particularmente, gosto de ouvir música que me desafia, que me põe a pensar”, revela a entrevistada em final de conversa.

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DIOGO PIÇARRA ESTREIA NOVO DISCO EM CASA, NO TEATRO DAS FIGURAS Está quase a chegar ao mercado o sucessor de «Espelho», o álbum sensação que marcou a estreia da carreira a solo de Diogo Piçarra. De nome «Do=s», o disco foi feito praticamente na estrada, porque o cantor farense anda numa constante tournée, quase sem tempo para respirar, mas o produto final é, sem dúvida, um registo digno de se ouvir. E vão ser os algarvios os primeiros a assistir em palco aos novos temas, porque Diogo Piçarra fez questão do concerto de apresentação se realizar em Faro, no dia 24 de março, no Teatro das Figuras. Texto:

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uitos são os vencedores dos populares concursos televisivos de talentos que prometem mas, infelizmente, nunca chegam a passar disso mesmo, de uma promessa. Uns porque não têm talento suficiente para singrar no «mundo cão» da música, e da cultura, em geral; outros porque vão a correr para o estúdio, iludidos pela fama inesperada que alcançaram no pequeno ecrã, sem terem ainda a maturidade necessária para gravar um disco; outros ainda porque não são devidamente acompanhados/aconselhados sobre o que implica ser artista. Em nenhuma dessas categorias se encaixa Diogo Piçarra, o «nosso» Diogo Piçarra. Depois de vencer uma edição dos «Ídolos», foi tirar mais formação musical, trabalhou os seus temas com calma, sem correrias, sem pressas desmedidas. O resultado foi «Espelho», lançado em 2015, um sucesso tal que ainda não parou de andar em digressão de Norte a Sul de Portugal. E foi nessa vida de artista, de casa às costas, de concerto em concerto, que foi nascendo «Do=s», cujo espetáculo de apresentação vai ter lugar, no dia 24 de março, no Teatro das Figuras, na cidade de Faro que o viu nascer e crescer. “Este novo trabalho é uma evolução natural do meu estilo de cantar, da minha própria composição e produção. Nada tem a ver com o «Espelho», apesar de possuir algumas baladas, é uma nova sonoridade”, distingue, em início de conversa. Uma nova abordagem, mais eletrónica, que também resulta da correria em que anda constantemente de um lado para o outro, de modo que todos os temas foram compostos em computador, antes de passarem para as mãos dos vários produtores envolvidos no álbum. “Ando na estrada há dois anos e foi muito complicado ir para estúdio para gravar sequer uma bateria ou um baixo”, justifica, confirmando que o processo criativo de «Do=s» foi completamente distinto em relação ao «Espelho». “Posso dizer que demorei 24 anos a fazer o primeiro álbum, é o disco da minha vida. Desta vez, tive cerca de ano e meio, mas estou bastante satisfeito e orgulhoso do produto final. Adoro as músicas e tenho a certeza de que vão contribuir imenso para os espetáculos”, afiança o entrevistado.

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Um som mais eletrónico que resulta do género de música que Diogo Piçarra mais ouve na atualidade, mas também por estar atento às novas tendências, ao que o público mais procura em cada momento. “No primeiro disco já mostrei um pouco desta faceta em alguns temas. A minha música é bastante transversal nas idades e géneros e, para ser realmente bom, um tema tem que soar bem, seja cheio de produção, ou simplesmente numa guitarra ou num piano. Fiz esse teste e julgo que vai agradar a pessoas dos 8 aos 80 anos”, afirma o farense. “Algumas pessoas que vão aos meus concertos estão à espera de me ver sentado ao piano a cantar, mas sempre tentei incutir, em palco, mais energia do que aquela que estava presente no registo discográfico. Neste novo disco, isso vai ser ainda mais evidente, estarei poucas vezes sentado ao piano”, adianta. Tal não significa que Diogo Piçarra não goste da componente mais acústica da sua música, aliás, revela o desejo de, no futuro, fazer uma tournée apenas de auditórios com essa faceta. Mas, para já, é com uma batida mais eletrónica que vamos vê-lo em concerto, num disco onde, reconhece, a responsabilidade foi maior, devido ao êxito do «Espelho». “Quando estava a compor, tentei não pensar muito nisso, o importante era fazer as músicas e experimentar novas sonoridades. Depois, foi fazer uma triagem para selecionar aquelas que iriam de encontro ao que o público gosta. É fundamental ter essa sensibilidade, porque eu gosto delas todas, mas os outros podem não ter a mesma opinião. Não há que ter medo de jogar músicas fora”, sublinha o cantor. Um processo de escolha em que conta com dois poderosos aliados, os próprios pais, confessa, com um sorriso. “Se o meu pai e a minha mãe gostam, mais pessoas da sua faixa etária vão apreciar, mas é errado julgar que toda a gente vai adorar a minha música. Alguns artistas pensam dessa maneira e, quando as coisas não correm bem, vem a desilusão. Sei exatamente a posição em que me estou a colocar com este disco”, indica Diogo Piçarra, com grande maturidade. Sempre com os pés bem assentes no chão, independentemente dos inúmeros espetáculos que tem dado nos últimos dois anos ou dos milhões de visualizações que os 51

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seus vídeos têm no You Tube, Diogo Piçarra está ciente de que o segundo disco normalmente é a «prova dos nove» dos artistas, a prova de fogo dos músicos. “Já me disseram muitas vezes que o mais difícil não é ter sucesso, é conseguir mantê-lo. Ter uma música no top, um single a tocar na rádio, um vídeo cheio de visualizações, é relativamente fácil, o complicado é acontecer o mesmo na próxima música, ou fazermos melhor, superar-nos a nós próprios. O segundo disco, por vezes, é a «morte do artista» e espero que isso não aconteça comigo. Se, por acaso, assim acontecer, estou preparado para tudo e parto para o terceiro disco de cabeça levantada”, garante. Com letras e músicas novamente compostas por si, cada tema de «Do=s» é independente dos outros, mas com aspetos em comum, para criar um fio condutor no álbum. “A minha maneira de cantar e de escrever está mais coerente. No «Espelho», tinha músicas de estilo folk, pop, rock, eletrónica, agora, está tudo mais homogéneo”, analisa o farense, referindo que tanto gosta de tocar em espaços mais intimistas como auditórios e teatros, como em grandes festivais ou feiras. “Nos auditórios há uma magia especial, as pessoas estão sentadas, em silêncio, respeitam mais o artista, estão mais concentradas. Num festival, tenho milhares de pessoas à minha frente, o ambiente é mais de festa. Este Verão andarei sobretudo em grandes festivais e feiras, mas espero fazer uma tournée só de auditórios, onde mostrarei uma faceta mais intimista”, aponta. No palco, a seu lado, estará a mesma banda, músicos também eles farenses, alguns conhecidos de longa data, dos exMindlock. “Faço questão de ter na minha equipa pessoas próximas de mim, amigos, porque esse à vontade, essa segurança, fazem a diferença em palco. Quando olho para trás, vejo três irmãos”, assume Diogo Piçarra, que podia ter no seu projeto os tais instrumentistas que tocam para as grandes estrelas, mas a sua escolha recaiu sobre Filipe Cabeças, Francisco Aragão e Miguel Santos. “São excelentes profissionais, mais velhos do que eu, e conseguem ensinar-me algumas coisas”, salienta. “Estou muito satisfeito, surpreendime a mim próprio, com músicas que nunca pensei escrever. O espetáculo de dia 24 de março, no Teatro das Figuras, vai ser o primeiro da tournée do «Do=s», disse logo que tinha que ser em Faro, na minha cidade, na minha região, para retribuir o carinho que tenho recebido de todos” . ALGARVE INFORMATIVO #138

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OPINIÃO

A Vida e os seus Aforismos Adília César (Escritora) “Cuidar do que ainda sobra, recriar o que se perdeu”. Mary Reynolds, arquitecta paisagista

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simplicidade de um bom aforismo encerra uma enorme complexidade: aprofundar num instante de sabedoria um pensamento altruísta que sirva de exemplo de vida a todos nós, muitas vezes mudando o cenário de intervenção, transpondo a ideia para outros universos, constitui uma façanha intelectual. Gosto especialmente de aforismos filosóficos, os que elegem a contemplação da filosofia como potencial via de acesso à felicidade humana, em estreita partilha e cumplicidade com os outros seres vivos e com a natureza. Tendo a Literatura como ponto de partida e consignando o conceito de «consciência das palavras» de Elias Canetti, percepciono a minha própria humanidade no contacto com a obra de outras pessoas que empunharam bandeiras de sonhos, não como armas (confesso que já bani essa palavra do meu vocabulário), mas como se fossem declarações de princípios para viver a vida, baseados na seguinte questão colocada por muitos empreendedores humanistas: não gostarias de mudar o mundo para melhor, nem que fosse apenas um pouco? O aforismo referido no título enceta um bom caminho. Olho em volta. Por onde hei-de ir? Por aqui ou por ali? Com quem? A fazer o quê? O que se perdeu e precisa de ser recriado? Vejo o mundo que tenho à minha disposição e não posso considerar-me neutra, no sentido de me deixar esmagar pela máquina político-social, conformando-me com os males da contemporaneidade e não empreendendo qualquer esforço para os superar. Que mundo é este? Desigualdades sociais e económicas, apesar de se apregoar um estado democrático; consumismo exacerbado, apesar de se apelar ao espírito natalício de solidariedade e amor ao próximo; alterações climatéricas com consequências catastróficas, apesar de todas as tentativas de denúncia e apelo a uma consciência colectiva de maior respeito pela natureza; ligação compulsiva a novos objectos tecnológicos, apesar da sua inutilidade na vida concreta dos utilizadores; relações virtuais enganadoras, apesar de

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vivermos todos perto uns dos outros, amalgamados em edifícios de apartamentos nas grandes cidades, e de conhecermos tão bem os meandros da psicologia dos afectos. Há uma inocência e uma resignação que não me são permitidas. Inicio um processo de introspecção que validará ou não as minhas atitudes durante o decurso de um passado recente, olhando para os trezentos e sessenta e cinco dias que se esfumaram nos degraus do tempo, sabendo que em cada um eu poderia ter subido ou descido, de acordo com o meu livre arbítrio. No entanto, a vida é uma equação matemática, uma teoria da relatividade única e peculiar, aplicada a cada um de nós, como se fosse uma construção impossível representada num desenho de Escher, e nesse sentido existem encruzilhadas que nos obrigam a ficar no mesmo lugar. Mas esses dias, parecendo fatais, são logo seguidos por outros dias de esperança, e por isso, sei que a decisão de subir, descer ou ficar no mesmo lugar foi sempre da minha responsabilidade. Contudo, congratulo-me com os exemplos de outras pessoas bem mais empreendedoras do que eu, que fizeram deste mundo um lugar um pouco melhor para se viver e com as quais posso aprender. Através da Literatura para a Infância e Juventude descobri alguns mestres que deixaram uma herança aforística e filosófica que não posso desprezar. Em todas estas obras sente-se a presença do aforismo que dá o título à minha última crónica do ano, com sugestões de boas leituras: Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll (1865); O Profeta de Khalil Gibran (1923); O Principezinho de Antoine de SaintExupéry (1943); Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach (1970); Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig (1974); O Tao de Pooh de Benjamin Hoff (1982). Na minha opinião, “cuidar do que ainda sobra, recriar o que se perdeu” é uma contemplação filosófica a não perder de vista. Votos de um excelente ano de 2018 a todos os leitores do Algarve Informativo . 54


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UM ESPETÁCULO (BELA E ABEL) Texto:

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oi com um Teatro Lethes praticamente esgotado que estreou, no dia 25 de março, mais uma produção da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, a sua 72ª, com base num texto original de Robert Pinget e encenação de Elisabete Martins. «Um Espetáculo (Bela e Abel) é uma peça sobre o Teatro enquanto metáfora da vida, sobre duas visões distintas desta forma de arte e da maneira como elas, por vezes, convivem na mesma instância unificadora da Arte do Teatro nos tempos modernos. Em palco temos Abel, um encenador obcecado com a materialização do espetáculo que idealizou, e Bela, uma produtora sobretudo preocupada em refrear os voos da imaginação alheia. “Por um lado, a visão da ligeireza, dos «holofotes», do diletantismo, do que interessa ao público porque o diverte; do ALGARVE INFORMATIVO #138

outro, a visão da profundidade, da busca pelo rigor artístico, da verdade dramática que perturba o público, porque o faz questionar”, explicou Elisabete Martins, poucos minutos depois do baixar do pano. “É numa constante tentativa/erro que eles se confrontam com a sua essência e assim é a nossa vida, de querermos muito e, quando nos damos conta, esquecemonos do essencial”, acrescentou a encenadora. Nos planos temático e formal, o texto explora aspetos em que se identificam afinidades com o universo de Samuel Beckett, mas Robert Pinget explora e sugere outros aspetos que ultrapassam o absurdo da situação e o vazio de comunicação becktteanos e que se projetam noutro tipo de conflitualidades. “O espetáculo é uma procura do que é importante, do que se quer mostrar. Começamos com o palco cheio de 58


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adereços e terminamos com a cena vazia. Nos primeiros anos das nossas vidas queremos experimentar tudo e depois, com o decorrer do tempo, vamos fazendo escolhas, vamos limando, vamo-nos restringindo ao que é essencial”, comparou Elisabete Martins. “Há sempre uma grande dificuldade em falar do que nos vai na alma e costuma-se dizer que as pessoas querem ir ao teatro para se divertirem. Mas é preciso refletir também e este texto faz-nos ver que isto tudo, afinal, não são só luzes e gargalhadas. O Almada Negreiros já afirmava que ‘a alegria é a coisa mais séria da vida’ e esta encenação é, aparentemente muito leve e divertida, mas tem uma forte reflexão sobre a vida”. Escolhido o texto por Luís Vicente, o diretor artístico da ACTA, e entregue a encenação a Elisabete Martins, a opção por

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Bruno Martins e Glória Fernandes foi instintiva, garante a entrevistada. “Foi uma decisão imediata, uma dupla perfeita. Começamos os ensaios em final de janeiro e trata-se de um texto bastante difícil de decorar e de trabalhar porque, nesta linha do absurdo, os textos são normalmente «circulares» e com múltiplos sentidos”, referiu, adiantando que, depois de mais três sessões no Teatro Lethes, «Um Espetáculo (Bela e Abel)» parte logo para a estrada. Antes do início da tournée há, contudo, mais oportunidades para se ver o espetáculo no Teatro Lethes, este sábado (21h30) e domingo (16h). “A receção do público tem sido muito boa, o Bruno e a Glória fazem um trabalho extraordinário, portanto, venham ver, que passam uma hora bastante agradável na nossa companhia” .

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OPINIÃO

Eu prefiro um tugerante Mirian Tavares (Professora) “Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares”. Cecília Meireles

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utro dia dei boleia ao filho e a dois amigos. A certa altura, no meio da conversa, um deles diz: “É chato não acreditarmos em nada”. E o outro: “É verdade. Assim nos sentimos muito sós, pois só contamos connosco”. Começam ali uma longa reflexão sobre as vantagens e desvantagens de não terem uma religião, de não serem crentes. Já não me lembro como terminaram a conversa, porque a meio entraram outros temas, mas no fundo fiquei com a sensação de que a consciência de não se crer numa força superior é algo que pode ser doloroso, é uma espécie de nudez, que costumava acontecer, muitas vezes, mais tarde: sentirmo-nos nus diante de nós mesmos sem um Deus para culparmos ou a quem pedirmos socorro. Mas, ao mesmo tempo, eles são muito novos e na verdade sabem que não creem, mas não sabem que creem. Que acreditam neles mesmos, nos amigos, na família, no sol que morre e renasce todos os dias, na ciência e até, se calhar, um bocadinho nalgum Deus, ou força invisível que sentem estar lá, de alguma maneira a ampará-los. Porque crer faz parte da nossa condição humana, é o que nos torna capazes de sermos uns pelos outros e de levantarmos todas as manhãs sem medo de que o sol não nasça, porque ele é uma evidência. São também ainda muito novos para saber que a falta de fé numa religião não significa não crer em Deus, ou que ter uma

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religião não é sinónimo imediato de obscurantismo. Mas, no fundo, são filhos do tempo em que vivem, este sim, demasiado obscuro que nos obriga a abrir mão de uma multiplicidade de escolhas e dos caminhos diversos que poderíamos trilhar, em troca do maniqueísmo do «ou isto ou aquilo». Se tenho uma religião, faço dela uma arma contra aqueles que não pensam da mesma forma que eu, escudo-me nas suas mais obscuras determinações para não ter que pensar por mim mesmo ou, se pelo contrário, sou ateu, crucifico todo aquele que não é. Se sou feminista, odeio os homens, que são sempre parte do patriarcado e como tal, opressores. Se sou de esquerda, não vejo outro caminho, ou outra esquerda possível que não aquela do meu partido ou das minhas simpatias. Se sou conservador, não vejo outra saída que não à volta ao fascismo. Eu prefiro acreditar que há muito mais que apenas duas escolhas. Qua as coisas podem ser diversas e que temos mais caminhos que apenas um ou outro. E quem me ensinou isso foi o filho, quando tinha uns dois anos. Eu já impaciente, diante de uma birra, pergunto: “Preferes tomar banho ou ficar de castigo?”. Ao que ele responde: “Eu prefiro um tugerante!” .

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ESTA NOITE NÃO HÁ TEATRO! Texto:

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o Dia Mundial do Teatro, celebrado a 27 de março, o Auditório Municipal de Olhão esgotou por completo apesar de um enorme cartaz à porta anunciar que, naquele dia, não haveria sessão. Mesmo assim, a principal sala de espetáculos da Cidade da Restauração encheu por completo, pregando um valente susto a um sui-generis contínuo que estava nas suas lides de limpeza. O funcionário bem se cansou de explicar à plateia que não ia acontecer nada naquela noite, aliás, onde é que já se viu fazer teatro a uma segunda-feira? Os avisos foram muitos, mas as pessoas não arredaram pé e, para que a saída de casa não tivesse sido em vão, o contínuo propõe-se a representar a peça que estava em cartaz (se a assistência pedisse com muito jeitinho), porque sabia o texto de cor e salteado e só não tinha sido escolhido para personagem principal porque o encenador não simpatizava com ele. A ele junta-se, em palco, um técnico de luz e som do auditório que também estava a arrumar as coisas naquela noite e que pensava que seria ele o grande protagonista da história. No último instante, mais um ator inesperado, a mãe do contínuo, que tinha ficado desconfiada com a demora do filho em chegar a casa e tinha ido ver o que se passava. Isto porque o filho ALGARVE INFORMATIVO #138

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sofria daquela doença de gostar de pessoas do mesmo sexo, mas garantia já estar curado, embora os seus tiques fizessem a plateia desconfiar do contrário. Com três atores improvisados em cena, começa-se a representar a «Cinderela», quer dizer, uma história ligeiramente parecida com a dessa mítica personagem do imaginário infantil, mas com muitas adaptações à realidade olhanense e, também, com bastantes percalços pelo meio. Isto porque, já se sabe, nenhum deles era ator profissional, nem sequer amador, e o enredo ia sendo feito quase em cima do joelho. Já mais para o fim da história, nova personagem entra na história, o «amigo colorido» do contínuo, que acaba por personificar o príncipe que se tinha apaixonado por aquela Cinderela de bigode e pelos no peito. Foram estes os ingredientes reunidos pela companhia «A Gorda» para assinalar o Dia Mundial do Teatro, com a peça de nome «Hoje Não Há Teatro», da autoria do conhecido João Evaristo e com interpretações do próprio João Evaristo, Joaquim Parra, Isa Mondim, Leonel Santos e Mário Moreno. Um trabalho que faz parte de uma trilogia que contempla ainda Bailarinas e Pezinhos de Xumbo I e II e onde se desvenda a forma como um varredor de uma sala de espetáculos consegue concretizar o sonho de ser diretor, encenador e cabeça de cartaz da sua própria companhia de teatro. “Há um espetáculo para estrear, há público na sala, mas depois nada acontece e o encenador, que é um bocadinho aldrabão, arranja sempre maneira de dar a volta à situação e enganar as pessoas. Aproveitamos para fazer alguma crítica do teatro dentro do teatro, das relações que existem entre os atores, da forma como se montam as produções”, explicou João Evaristo, já trajado com a sua roupa normal depois do espetáculo ter terminado. O sucesso de «Bailarinas e Pezinhos de Xumbo» foi tal que andou em cena durante cinco anos, até dar origem à tão aguardada sequela, para mais cinco anos de digressão. “Ao fim de uma década, pensamos que estava na altura de concluir a trilogia com o início de toda a história. Esta peça, ao contrário dos outros dois episódios, vive muito do jogo de luzes e do espaço de cena, portanto, não pode ser apresentada em qualquer sala”, indica João Evaristo. “Aqui deturpamos uma história conhecida (Cinderela) introduzindo referências à realidade e figuras de

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Olhão, para que as pessoas percebam as diferenças. Mas é adaptável a qualquer local do país porque não se trata de uma peça profundamente olhanense, como são os casos do «Mê menine… e o tê pai?» e do «Mê menine… e a tua mãe?». Aliás, vamos a Tavira no dia 21 de abril”, adianta o encenador. Antes disso, «Hoje Não Há Teatro» já andou por Ferragudo e Conceição de Tavira, para além do Auditório Municipal de Olhão, e João Evaristo garante que é a mais complicada do repertório da companhia «A Gorda». “São muitos adereços, entradas e saídas constantes de várias personagens, a história a desenrolar-se a grande velocidade, ficamos estourados fisicamente”, assegura, ainda a recuperar o fôlego, aproveitando para revelar que a saga do «Mê menine» está a ser gradualmente encerrada. “Estamos a apostar agora no «Móce mó», eu e o Parra, que se aproxima um pouco da stand-up comedy e que nos permite ir a espaços menos convencionais. Mas também temos em mãos o «Olhão - Seis Retratos à lá minuta», que queremos trazer ao Auditório Municipal de Olhão em maio, durante uma mostra do teatro que se faz no concelho” . ALGARVE INFORMATIVO #138

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OPINIÃO

Vamos a isto José Graça

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om a tomada de posse da Assembleia Intermunicipal do Algarve, nesta semana, ficou concluído o processo eleitoral dos órgãos das Autarquias Locais, realizado no dia 1 de outubro e que se traduziu numa grande vitória do Partido Socialista, a nível regional e a nível nacional. Até 2021, eleitos do PS presidirão aos órgãos da AMAL - Comunidade Intermunicipal do Algarve, através de Jorge Botelho (Conselho Intermunicipal) e de Adriano Pimpão (Assembleia Intermunicipal), dez Câmaras Municipais, 13 Assembleias Municipais e 45 Juntas de Freguesia do Algarve. A generalidade dos serviços regionais desconcentrados da Administração Central e dos institutos públicos são já liderados por dirigentes ou personalidades próximas do partido que também governa os destinos da República, onde tem vindo a ganhar protagonismo o algarvio Mário Centeno, eleito Presidente do Eurogrupo, no dia 4 de dezembro de 2017. Que fazer com tudo isto?! Como escreve Moisés Naím na obra «O fim do Poder», “as democracias precisam de partidos políticos” que ganhem o poder e governem com responsabilidade, formando novas gerações de líderes e controlando os que já estão no Poder. Desde 2012, o PS tornou-se uma organização estável e respeitada na região, ganhou quatro eleições consecutivas (sempre com resultados acima da média nacional) e assumiu a governação do País num contexto de incerteza e, acima de tudo, de muita esperança no futuro… Face ao abandono do Algarve durante a legislatura anterior, os eleitores devolveram uma maioria significativa ao PS na eleição dos representantes na Assembleia da República em 2015, elegendo quatro dos nove deputados algarvios em São Bento, permanentemente respaldados pelos órgãos regionais na sua intervenção política! Em termos de Autarquias Locais, este será um mandato exigente, marcado certamente pela

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concretização do pacote de Descentralização e do aumento de competências e da capacidade de intervenção dos Municípios, das Freguesias e, quero acreditar, das Comunidades Intermunicipais. A crer na determinação demonstrada pelo presidente reeleito da Assembleia Intermunicipal, será um mandato de maior proximidade aos temas regionais, com disponibilidade para fazer mais sessões e reforçar a sua visibilidade, algo que consideramos fundamental para concretizar a confiança dos Algarvios, essencial para valorizar os projetos intermunicipais, operacionalizar as redes regionais de serviços públicos e servir melhor o Algarve! Apesar das competências do órgão deliberativo da AMAL, relacionadas no artigo 84.º da Lei das Autarquias Locais, parecerem ser apenas de foro organizativo interno, os membros eleitos por cada uma das Assembleias Municipais nunca perderam o sentido da região e inscreveram no seu regimento que a principal “atividade da Assembleia Intermunicipal visa a salvaguarda dos interesses da Região do Algarve e a promoção do bem-estar da população, no respeito pelas normas jurídicas”. Com uma maioria estável no único plenário regional de natureza essencialmente política, deve assumir as suas responsabilidades e ser capaz de coordenar interesses e perspetivas diversas, envolvendo, inspirando e mobilizando os Algarvios. Em primeiro lugar, adaptando-se à realidade, debatendo e enfrentando os desafios do Algarve para tornar-se uma região competitiva e sustentável. Logo depois, valorizando o papel político da própria Assembleia Intermunicipal, aproximando-a dos demais Autarcas e dos Cidadãos, trazendo-a para o lugar que merece no século XXI. Finalmente, lutando com serenidade pelo cumprimento do desígnio constitucional da Regionalização! . (Membro do Secretariado Regional do PS-Algarve e deputado da Assembleia Intermunicipal do Algarve)

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SYN.Tropia: Um concerto de dança para todas as audições Texto:

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programa do Festival Som Riscado descrevia «SYN.Tropia» como um concerto-dança para surdos e outras audições, numa coprodução do Cine-Teatro Louletano, do Centro de Estudos de Ovar e do Teatro de São Luiz que pretendia ir muito para além dos espetáculos sonoros a que estamos habituados a assistir. A conceção e interpretação são da responsabilidade de Yola Pinto (bailarina e coreógrafa) e Simão Costa (pianista e compositor), que desde 2011 têm trabalhado juntos na pesquisa em volta do som e das várias formas como pode ser escutado. “É um projeto que decorre do C_Vib, que esteve na edição de 2016 do Som Riscado, onde quatro esculturas sonoras exploravam, de uma forma bastante interativa, os percursos físicos do som, a relação do toque com a perceção sonora. Temos tido a sorte de ALGARVE INFORMATIVO #138

nos cruzarmos com programadores culturais que acreditam francamente neste tipo de trabalho – às vezes sem se saber bem onde vão dar estas pesquisas e investigações – como é o caso do Paulo Pires, da Susana Duarte e da Fátima Alçada”, destaca Yola Pinto, depois de terminada a primeira sessão do dia 5 de abril. O espetáculo utiliza, então, informações que provêm do som mas que não chegam através do ar, mas sim pelo tato e pela visão, traduzindo-se na fusão de duas realidades performáticas, a dança e o som, com sons graves para serem percecionados pelas pessoas surdas. “A ideia é tratarmos todos equitativamente nas suas diferenças e não deixamos de fora as pessoas que ouvem, embora o espetáculo remeta, claramente e desde o início da sua 76


criação e pesquisa, para o paradigma de quem não ouve. Trabalhamos com o polo de Lisboa da Associação Portuguesa de Surdos, que nos acolheu com muito entusiasmo e simpatia, e há bastante para aprender com eles”, refere Simão Costa. “Temos o hábito de separar os sentidos, colocar cada um na sua gaveta, mas há diversos estudos recentes de neurologia e neurofisiologia que dizem que não é bem assim que as coisas funcionam. Há uma interinfluência muito maior dos cinco sentidos do que aquilo que acreditamos”, reforça o compositor. Do conceito à prática, «SYN.Tropia» não tem um enredo propriamente dito, antes, sim, uma segmentação dramatúrgica mais ligada às formalidades da música, ou seja, é um espetáculo dividido em sete faixas, ecossistemas. “Esta ligação entre a sintropia, que significa juntos na mesma

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direção, na mesma forma, e o seu oposto, a entropia, que personifica a desorganização do sistema, é explorada por estímulos visuais, objetos, luzes, desenhos, movimentos, tudo o que provoque o som”, adianta Yola Pinto. Depois, em palco, a dupla desfruta dos muitos meses de pesquisa e trabalho árduo. “Por mais enfase que possamos dar à dinâmica do processo, subir ao palco é o momento de apresentação dos resultados. Há muitos pormenores a desenvolver para além da performance, porque estamos também a dirigir todo o projeto, e valemo-nos da experiência acumulada e da escolha dos tempos e segmentação para que tudo corra bem”, acrescenta Simão Costa. Quando entra o público, a dupla sabe bem o que tem que fazer, mas não entra

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simplesmente em piloto-automático, porque cada espetáculo encerra os seus próprios mistérios. “Dado o nível de detalhe exigido, reservamos uma boa parte da nossa energia para o momento da interpretação. Estamos em constante escuta e diálogo com o público, caminhamos juntos, há uma grande disponibilidade para encaixarmos as suas reações no espetáculo. O público é a última peça do puzzle, que convidamos para se sentar, connosco, numa plateia cheia de dispositivos estáticos”, sublinha Yola Pinto. Simão Costa lembra, entretanto, que a natureza é, em muitos casos, sintrópica, produz mais energia do que utiliza. “Pensamos que o dispêndio de energia tem um desperdício, uma componente que é incontrolável, andamos sempre numa dinâmica de esforço. Contudo, na natureza,

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apanhamos boleia de sistemas mais abrangentes. Neste espetáculo, definimos dinâmicas de improvisação, mas estruturadas, mudando os tempos em função da reação do público”, descreve o músico. “Se as dinâmicas de jogo se estabelecerem de forma favorável, há secções que crescem. Quando as pessoas não estão tão disponíveis, cumpre os objetivos a que se propôs e seguimos para a «faixa» seguinte. É um concerto de dança onde exploramos e evidenciamos a maneira como o som tem impacto no corpo”, concluem Yola Pinto e Simão Costa, antes de começarem a preparar o espetáculo do início da tarde .

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OPINIÃO

Fast Casual Food II A - Pizzarias Augusto Lima (Cozinheiro, Formador e Consultor)

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um artigo anterior falei de conceitos que se reproduzem e se recopiam e que têm ou deveriam ter um preço atrativo, quantidade para fazer uma refeição ligeira, qualidade e, por norma, encontram-se em locais bem situados e satisfazem, de forma muito alargada, o gosto de muita gente. Todos se encaixam no Fast Casual Food Concept, um conceito que associa bom gosto, inovação e preço, um trio forte que ctua de mãos dadas com a lei da procura e da oferta. Falei no anterior artigo de Hamburguerias e, desta feita, falarei de Pizzarias. Para que sejam eficientes na abertura e consistentes nas vendas, evitando falências por má gestão ou por falta de qualidade, como na abertura de qualquer tipo de estabelecimento de comidas, primeiro deve-se investir no Cozinheiro, na formação deste e dos proprietários – se estes não a tiverem – e, logo a seguir, mas tão importante como a primeira ação, nos produtos e na sua escolha. Fora de Itália, quase todas as pizzarias produzem alguns pratos de massa e algumas dessas, muitos pratos de massa sem a formação capaz para a confeção desta especialidade Italiana que, tal como a pizza, se alastrou de forma viral por todo mundo. Em Itália, podemos encontrar as Tratorias que se assemelham às Tascas portuguesas ou aos Bistros franceses, onde se come de forma tradicional, com ingredientes da horta, por norma casas geridas por famílias com receitas únicas e ancestrais, sendo algumas delas de Pizzas e de Massas ou Pastas. Para se fazer uma boa pizza são importantes todos os artigos e passos, mas eu diria que os principais são a farinha, a água, o tempo de fermentação, o local da fermentação e a temperatura do forno, que deve ser adequada à espessura pretendida do disco de massa. A água a usar deverá ser de muito boa qualidade e fria, nunca morna, muito menos quente, pois isso iria matar o fermento, no primeiro caso, e acelerar o processo de fermentação, no segundo. As farinhas variam na espessura e na quantidade de glúten, o que

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fará com que as massas se apresentem com ou mais volume e menos ou mais húmidas, pois retêm mais a humidade. A espessura da farinha varia entre o n.º (ou Tipo) 45 ao 150, sendo que, quanto maior é o número do tipo de farinha, menor é a moagem, ou seja, quanto menor o número, mais refinada, menos integral é a farinha. Em Portugal, as farinhas mais usadas para fabrico de massa de pão e afins, são as Tipo 65, muito brancas, logo, muito refinadas, mas que contêm um pouco mais de amido e de glúten mas menos fibra, dando origem a um pão de miolo branco e fofo. Os especialistas em massas de pizzas defendem que as farinhas devem ser mais densas, com mais fibra e menos glúten, proporcionando massas que necessitem de ser bem trabalhadas e que fermentem devagar, fazendo com o que o produto final seja muito mais digestível e leve no estômago, ao contrário das fermentações rápidas com muito glúten e pouca fibra. Para que o processo de fermentação seja lento, devemos, para além da água fria (cerca de 4ºC, usar um local de trabalho frio, assim como frio deve ser o local de fermentação (ou armários frigoríficos) a uma temperatura entre os 8 a 12ºC, dependendo dos tipos de massas. A perfeição fará com que se adquira maquinaria cujo atrito (no seu trabalhar), seja menor o que fará com que a massa não aqueça no processo. A temperatura ideal da cozedura de uma pizza deve rondar entre os 450ºC e os 485°C, em se tratando de um forno a lenha e entre 300 e 350º num forno a gás ou elétrico, profissional, claro, e deve ser trabalhada com a mão ou com o rolo de dentro para fora do disco da massa de modo a não deixar a borda muito fina, pois sairá queimada e dura, no final. Muito mais há para falar sobre esta especialidade que, apesar de simples, tem muitas questões importantes a ter em conta, como o molho de tomate e os ingredientes, para que possamos estar de frente a uma delícia irresistível. Sobre eles e outros falarei no próximo artigo .

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«A FREGUESIA» DO TEATRO DO ELÉTRICO RECORDOU

OS 100 ANOS DE QUARTEIRA

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O programa comemorativo do Centenário da Freguesia de Quarteira chegou ao fim, no dia 13 de abril, com o espetáculo «A Freguesia», encenado pelo Teatro do Elétrico. Foram mais de 50 pessoas que, ao longo de hora e meia, no palco montado em plena Praça do Mar, recordaram a memória e multiculturalidade de Quarteira. Texto: Fotografia:

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epois de um ano pautado por múltiplas atividades, os festejos do centenário de Quarteira concluíram com «A Freguesia», preparada pelo Teatro do Elétrico do quarteirense Ricardo Neves-Neves, radicado há mais de uma década em Lisboa. O espetáculo contou com 15 atores em cena, uma orquestra de 15 elementos, vídeoprojeção de um cenário desenhado ao vivo, e envolveu também artistas da terra, nomeadamente a fadista Isa de Brito e a cantor de hip-hop Perigo Público. Vários palcos dispostos na Praça do Mar prenderam a atenção do público e criaram uma dinâmica viva nas apresentações, num peça de teatro sobre a Identidade, a Tradição e a Contemporaneidade de Quarteira que foi encomendado a Ricardo Neves-Neves pela Câmara Municipal de Loulé. “É uma homenagem aos quarteirenses onde damos a voz às gentes da terra. O texto está construído sob a forma de depoimento e cada personagem fala da sua vida em Quarteira, seja agora ou antes do boom do turismo”, explicou o encenador, indicando que foram feitas imensas entrevistas pessoais a cidadãos da freguesia. ALGARVE INFORMATIVO #138

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A esse trabalho no terreno somou-se uma investigação sobre todos os momentos relevantes da história de Quarteira e utilizou-se algum material da autoria de Raul Brandão, de quem se celebra, em 2017, os 150 anos do nascimento. “O seu livro «Os Pescadores», apesar de não ser passado em Quarteira, refere-se às pessoas do Algarve e à dureza da relação das gentes da pesca com o mar e com todas as condicionantes que eram impostas pelo clima. De repente estavam 20 dias impedidas de irem ao mar por causa do mau tempo, sem terem qualquer sustento”, contou. A poesia de José Gomes Ferreira e do Poeta Pardal também se encontra no enredo de «A Freguesia», com este «cozinhado» a ser complementado com textos originais do próprio Ricardo Neves-Neves. Depois, em palco, estarão os atores Ana Valentim, Bruno Xavier, Catarina Rôlo Salgueiro, Elsa Galvão, Joana Almeida, Joana Campelo, Joana de Carvalho, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Rui Melo, Sílvia Figueiredo, Tadeu Faustino e Vítor Oliveira, com a participação especial de Maria João Luís, para além de uma orquestra montada de propósito para este espetáculo e de uma banda de metal, os «Sinistro», que assinalaram a viragem da pequena aldeia de Quarteira ALGARVE INFORMATIVO #138

para destino turístico de massas. “É o momento em que perde a sua identidade, em que vê as suas tradições irem por água-abaixo, numa viragem menos feliz que a cidade continua a enfrentar, de uma certa desorganização urbanística em que se destruiu o velho para se construir o novo. Contudo, há o «velho» e o «antigo» e há tradições que 86


se devem manter e uma identidade que há que preservar para deixar testemunho”, distinguiu. As palavras do dramaturgo e encenador confirmam que, apesar de ser o encerrar de um programa comemorativo, não houve a tentação de se romantizar a história de Quarteira, de tornar tudo 87

«ouro sobre azul». “Não há nenhuma cidade ou pessoa cujo percurso seja todo bonito e temos que contar as grandes aventuras, as histórias de amor, os falhanços e as conquistas. Tudo isso está neste espetáculo porque não queríamos estar aqui a contar uma mentira”, frisou Ricardo Neves-Neves. “Estamos em Quarteira e vemos as dificuldades que a ALGARVE INFORMATIVO #138


cidade ainda apresenta, os problemas que ainda estão por resolver, mas também a enorme qualidade de vida que tem. Vivo em Lisboa há 13 ou 14 anos e sei perfeitamente o que só encontro aqui, na terra onde nasci”, reforçou o entrevistado. Dezenas de elementos em ação constante, entre atores e músicos, mas nada de bastidores, porque não se tratava de um espaço cultural tradicional, ou seja, tudo foi feito a céu-aberto, para todos verem. “O dispositivo cénico é num primeiro plano muito simples, não há hipóteses de fazer uma composição complexa em termos de dinâmica de espaços. Mesmo ALGARVE INFORMATIVO #138

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assim, usámos quatro planos: o estrado que é o palco principal, que contempla também uma elevação, para além do terraço da galeria e do terraço de uma casa privada. Foi uma sucessão de várias cenas, de diferentes histórias, com os atores sempre em palco. Mesmo que só estivesse a falar um, havia sempre qualquer coisa a acontecer e todas as personagens tinham uma vida própria”, indicou. Um espetáculo difícil que começou a ser ensaiado, em Lisboa, em fevereiro, depois de ter terminado a fase de investigação e conceção do texto, que durou quatro meses. Já em terras algarvias, seguiramse três dias de intensos ensaios no Cine-Teatro Louletano, antes do ensaio geral na quarta-feira, na Praça do Mar. Um regresso que, apesar do ritmo frenético, era há muito aguardado por Ricardo Neves-Neves. “Estava com bastante vontade de fazer um espetáculo sobre Quarteira e em Quarteira, embora já tivesse trazido outras peças a Loulé. Depois deste, vamos ter uma peça de teatro de rua, aqui na Praça do Mar, no final de julho ou no início de agosto. Finalmente, vamos trazer ao Cine-Teatro Louletano o «Encontrar o Sol» e «A Noite de D. Luciana», que teve duas nomeações para os prémios da Sociedade Portuguesa de Autores – Melhor Espetáculo do Ano e Melhor Atriz do Ano, a Rita Cruz”, adiantou ainda o encenador . ALGARVE INFORMATIVO #138

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INSPIRITUM PERCORREU RUAS DE LAGOA

O Teatro Experimental de Lagos interpretou, na noite de 18 de abril, em Lagoa, o primeiro de seis espetáculos de narração oral, teatro e dança, ao abrigo do programa «365 Algarve» e com o objetivo de promover o património oral do Algarve. O percurso iniciou-se no Mercado Municipal, passou por diversas ruas da cidade de Lagoa e culminou no Convento de São José, perante uma plateia que foi seguindo atentamente o enredo. Texto: ALGARVE INFORMATIVO #138

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om o apoio do programa «365 Algarve», o Teatro Experimental de Lagos propôs-se levar a cabo seis espetáculos de narração oral, teatro e dança, em Lagoa e Lagos, com o intuito de recordar usos e costumes do património oral algarvio perdidos no tempo. Os percursos contemplam uma viagem aos contos e lendas do imaginário da região e, por isso, cada espetáculo – que é traduzido em simultâneo para inglês – acaba por ser único, talhado para o espaço onde é interpretado, sempre a partir de personagens que nascem da memória coletiva do local. O programa arrancou no dia 18 de abril, pelas 21h, junto ao Mercado Municipal de Lagoa, onde se encontravam os atores Bruno Batista, Nelda Magalhães, Arantxa Joseph e Melissa Santos. Bruno Batista funcionava como guia para os espetadores ALGARVE INFORMATIVO #138

que se juntaram na rua e recordou alguns episódios que tiveram lugar neste espaço, no passado, logo pela manhã, quando os populares iam comprar peixe fresco depois de ouvirem tocar o sino. Com o surgimento de uma aparição, quiçá um fantasma, a história movimenta-se, muda de lugar, percorre algumas ruas de Lagoa, até chegarmos ao Convento de São José, primeiro à capela, depois andando pelos corredores sombrios, culminando finalmente em algumas salas onde decorre uma exposição que recorda tradições antigas do concelho. A interação com o público foi constante, em português e inglês, com as pessoas muito interessadas em conhecer, in loco, algumas lendas e contos do imaginário lagoense. A ideia surgiu, há dois anos, num desafio da Direção Regional da Cultura do Algarve 96


ao TEL para criar uma performance que dinamizasse alguns monumentos da região, assim surgindo «Era o Vento, Era Eu», mais ligado ao universo marítimo e piscatório, com sereias, pescadores e piratas, interpretado na Fortaleza de Sagres. Na edição seguinte do DiVaM, nova proposta, desta feita a pensar no espírito dos lugares, com lendas do universo popular, dai nascendo «Inspiritum». “São percursos narrativos em que o teatro está presente, mas não são personagens a viver situações, mas sim a contar histórias adaptadas aos vários lugares”, explica Bruno Batista. Uma adaptação que não é fácil, porque os percursos não pretendem contar a história dos lugares ou dos monumentos em si, mas ficcionar a partir desses locais. “Isso obriga-nos a procurar contos populares que tenham

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a ver com a cultura portuguesa e esta junção da realidade com a ficção dá corpo ao «Inspiritum»”, indica o ator, acrescentando que há sempre uma lógica no percurso delineado para cada performance. “Muitas vezes tudo começa com um guia que, ao longo do percurso, se vai transformando e vão também aparecendo novas personagens. O público tem que acompanhar atentamente a história que vai acontecendo à sua frente para perceber onde o enredo vai parar. São várias linhas narrativas que, todas juntas, fazem sentido”, frisa Bruno Batista. Um trabalho sem «rede», assim se pode dizer, porque nunca há a certeza do número de pessoas que vão acompanhar o trajeto, nem das suas idades ou

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nacionalidades, nem da forma como vão reagir à performance. Aliás, o percurso narrativo do dia 18 de abril foi muito preenchido por intervenções da assistência, dos espetadores, que iam comentando o que o guia ia contando. “Num espetáculo teatral há um texto que foi decorado e que é para ser dito daquela forma específica, nos contos há uma maior envolvência com o público. Aqui, essa interação é feita através do guia, mas depois há umas personagens que aparecem pelo meio da história e que não sabemos muito bem o que são. Os percursos estão repletos de aparições e desaparecimentos das personagens, quase de forma mágica”, refere Bruno Batista .

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Uma noite fantástica com

PEDRO ABRUNHOSA E O TRIO DE JAZZ DE LOULÉ O Cine-Teatro Louletano recebeu, no dia 3 de maio, o sexto capítulo do ciclo musical «O Longe é Aqui», desta vez com o Trio de Jazz de Loulé e Pedro Abrunhosa. O resultado foi uma viagem fantástica pelo repertório do carismático cantor e compositor portuense, mas também por alguns clássicos internacionais do jazz. Texto:

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ciclo musical «O Longe é Aqui», dinamizado pela Cine-Teatro Louletano, voltou a proporcionar mais uma noite de excelência, a 3 de maio, com Pedro Abrunhosa a aceitar o desafio lançado pelo recém-criado Trio de Jazz de Loulé e a dar um concerto realmente extraordinário. O espetáculo começou com a prata da casa em palco, João Pedro Coelho (piano), António Quintino (contrabaixo) e João Pereira (bateria), que compõem o Trio de Jazz de Loulé, uma novidade no panorama cultural algarvio que pretende cimentar o trabalho de duas décadas desenvolvido na área do jazz em Loulé. Após os dois temas iniciais, é chamado a cena o convidado especial da noite, o portuense Pedro Abrunhosa, que saltou para o estrelato, em 1994, com o aclamado álbum «Viagens», na época tendo a seu lado os «Bandemónio». Desde então, tem sido um percurso repleto de sucessos, como o atesta o disco «Contramão», editado em 2013, agora ao lado dos «Comité Caviar». Foi um concerto inédito onde Pedro Abrunhosa revisitou o seu repertório, mas com uma tonalidade mais jazzística que lhe é bem familiar. De facto, o reconhecido intérprete e compositor chegou à música precisamente pela via erudita, a estudar Análise, Composição e História da Música com Álvaro Salazar e Jorge Peixinho, na Escola de Música do Porto. No Conservatório estudou Composição com Cândido Lima, após o que integrou o Grupo de Música Contemporânea de Madrid, do compositor Enrique X. Macias, com quem participou em espetáculos em Espanha e ALGARVE INFORMATIVO #138

Portugal. Nos anos 80 já era um exímio executante de jazz e colaborou com grandes nomes da cena jazzística por toda a Europa, casos de Paul Motion, Bill Frisell, Joe Lovano, David Liebman e Billy Hart. Ensinou contrabaixo na escola do Hot Club de Lisboa e, mais tarde, fundou a Escola de Jazz do Porto e a «Cool Jazz Orchestra», que viria a transformar-se em «Pedro Abrunhosa e a Máquina do 104


Som» para executar os seus temas originais. Com esta experiência na bagagem, podese dizer que o álbum «Viagens» foi uma completa surpresa para quem o conhecia. Com os «Bandemónio» a seu lado, criou um disco de rock cheio de jazz e de vida, que atingiu a tripla platina, com mais de 140 mil exemplares vendidos. Desde então, 105

o rol de êxitos é sobejamente conhecido, com os discos «Tempo», «Silêncio», «Momento», «Palco», «Intimidade». Em 2010, nova mudança de figurino, reúne os «Comité Caviar», alia-se ao produtor João Bessa e lança o álbum «Longe», antecessor de «Contramão», o sétimo disco de estúdio de Pedro Abrunhosa, que viu a luz do dia em 2013. ALGARVE INFORMATIVO #138


Portanto, as expetativas eram muitas à hora de início do concerto no Cine-Teatro Louletano e a noite foi uma verdadeira revelação para o próprio artista. “Há uns anos, quando eu ainda tinha cabelo, era preciso viajar muitos quilómetros para se ver músicos com a qualidade deste Trio de Jazz de Loulé. Felizmente que esta sede de fazer, bem e diferente, e a democratização e descentralização da cultura, têm dado resultados. A cultura é um bem precioso e esta noite foi uma experiência muito boa, a mistura de linguagens foi interessante”, descreveu Pedro Abrunhosa, poucos minutos depois do apagar das luzes de palco. “Para mim, foi um regresso a uma ideografia e a um imaginário que me são familiares e, da parte deles, houve uma adaptação ao meu repertório, que é mais pop, mais literário. A canção é sempre uma estrutura que ALGARVE INFORMATIVO #138

assenta na palavra, enquanto o jazz se baseia no improviso e noutro tipo de dinâmica”, reconhece. O espetáculo surgiu, como referido, a convite do Trio de Jazz de Loulé, um desafio que foi prontamente aceite pelo portuense pelo seu amor à música. “No fundo, falamos todos a mesma língua, mas com sotaques diferentes. Eu introduzi o funk em português no nosso património musical, mas hoje tocamos também canções norte-americanas e uma francesa”, conta, acrescentando que o palco é, para ele, um sítio de celebração, de festa, de partilha e exagero, mas também de recolhimento. “O público está imbuído num espírito de festa, as pessoas estão aqui para serem encantadas, mas foram ditas coisas importantes nesta noite e algum registo da música era mais íntimo e 106


emocional. Foi um processo litúrgico não dogmático, não religioso, porque a espiritualidade da música é um veículo que a arte tem para dentro de nós”, sublinhou Pedro Abrunhosa.

NO PRECIPÍCIO DA 3.ª GUERRA MUNDIAL Pedro Abrunhosa regressou a uma cidade de Loulé que bem conhece, porque a sua carreira enquanto músico profissional começou no Algarve, a tocar nos bares de Faro e Vilamoura. “Acho que todos os músicos passam pelo Algarve, é uma espécie de El Dorado para a aprendizagem na estrada. Fiz cá muitos amigos, que ainda mantenho, e conheço bastante bem a zona”, afiança, ainda a recuperar o fôlego depois um concerto onde, em diversos momentos, trabalhou «sem rede». “Eu 107

adoro desafios, não gosto de coisas fáceis. Nestas duas noites regressei ao hotel com as músicas que tínhamos estado a ver, fui trabalhá-las, ouvi-las. Gravei o João Pedro Coelho no piano, fui para o quarto cantar por cima dos temas e alguns eram francamente difíceis. Fazem parte do repertório clássico do jazz – por isso é que eu vesti aquele fatinho – e têm que ser bem interpretados”. Um voltar ao «laboratório» que sempre o apaixonou, enquanto músico e professor, daí que não tenha ficado muito alarmado por apenas ter dois dias para ensaiar com o Trio de Jazz de Loulé. “Nada é perfeito, a música está cheia de erros, e ainda bem que assim é, só revela o seu carater humano. Esta noite houve alguns erros, mas foram feitos de uma maneira tão musical que foram ALGARVE INFORMATIVO #138


perfeitamente assimilados pelo público. É como um erro numa pintura de Picasso, não sabemos muito bem o que é erro e o que é voluntário”, compara, ao mesmo tempo que revela que o próximo disco de originais está muito bem encaminhado. “Estamos há seis meses a gravar, está praticamente pronto, faltam letras em três músicas. Por isso, já sei quais vão ser, provavelmente, os próximos êxitos daqui a uns meses”, antevê, sorridente. Um processo criativo de permanente atenção à realidade, de dinâmica, de desaparecer e voltar a reaparecer, porque Pedro Abrunhosa gosta do resguardo, da paz, do silêncio e sossego para, de três em três anos, lançar novas canções. “E estas últimas são as mais fortes que escrevi na minha carreira, em termos de densidade e espessura emocional. Precisamos de ALGARVE INFORMATIVO #138

canções que abanem as pessoas, porque a frivolidade atingiu um ponto tão baixo de distração face à realidade”, desabafa, preocupado. “Vivemos no precipício da 3.ª Guerra Mundial, com dois loucos a comandar botões nucleares, e com uma terceira louca a ter, provavelmente, um grande resultado eleitoral em França. Isto é muito perigoso, temos todos que estar bastante atentos e o rock continua a ser uma poderosíssima forma de fazer chegar mais longe as mensagens. O rock sempre foi uma maneira de dizer às pessoas para não ficarem quietas, para não se satisfazerem com tão pouco, nem com reality-shows ou redes sociais, porque, de repente, desliga-se a tomada e tudo isso acaba” .

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NILTON

proporcionou uma matiné repleta de gargalhadas no

Cine-Teatro Louletano Há quase um mês que o Cine-Teatro Louletano estava esgotado para assistir ao regresso de Nilton a terras algarvias e o humorista não defraudou as expetativas, levando ao delírio todos os presentes. O fazedor de conteúdos bem-dispostos continua a ser um dos mais reconhecidos comediantes da atualidade, seja através dos programas de televisão ou de rádio a que dá rosto e voz, dos livros que escreve ou dos múltiplos espetáculos que realiza de norte a sul do país, e confirmou mais uma vez esse estatuto no dia 11 de junho, em Loulé. Texto: ALGARVE INFORMATIVO #138

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Nilton é daqueles humoristas a cujos espetáculos não convém chegar atrasado, por causa das piadas que se perde e porque esses «infelizes» espetadores de imediato se tornam alvo da sátira deste beirão que durante muitos anos foi DJ na Praia da Rocha, antes do fenómeno da stand-up comedy se ter instalado em Portugal. Por isso, não esconde o carinho especial que sente pelo Algarve e pelas suas gentes, do mesmo modo que não perde uma pitada do que se passa ao seu redor, no quotidiano, ideias para material novo que, de imediato, são memorizadas no telemóvel e, à noite, ganham mais consistência no papel. Assim aconteceu, por exemplo, com os participantes do Campeonato Nacional de BTT - Maratonas que se realizou em Loulé, no dia 11 de junho, estando a meta instalada em frente à Câmara Municipal de Loulé, a poucos metros do Cine-Teatro Louletano, onde Nilton ia atuar nessa tarde. “Se não olharmos para as bicicletas, aquilo é um monte de homens de calção justo de licra a andar na rua e todos bastante abonados. Parece um casting para filmes porno”, compara, com um sorriso, numa conversa antes do início de mais um espetáculo com as suas dissertações do dia-a-dia. “São coisas que vejo e que fico a pensar nelas, mas também inclui alguns apontamentos do «Alcides», uma personagem que já testei este ano no Festival Sol Rir, em Albufeira. Mas é um conceito em que fico muito preso a um texto e eu gosto imenso de falar com a plateia, de interagir com as pessoas”, refere.

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Na noite anterior, Nilton tinha atuado no Casino da Póvoa do Varzim, no extremo oposto do país, para um público diferente daquele que teria pela frente em Loulé, o que faz com que os espetáculos vão fluindo ao sabor das conversas que mantém com as pessoas. Por isso, nunca se sabe muito bem o que se vai encontrar. “É um espetáculo com uma orgânica viva, em constante mutação, e é isso que me dá mais gozo. 114


Não sou grande fã da peça de teatro fechada, em que dizemos o texto que trouxemos escrito de casa e está feito. Gosto de trazer a plateia para o palco”, afirma, embora considere que deixou de haver grandes diferenças entre os públicos que assistem aos espetáculos consoante o local onde eles têm lugar. “Quem vai ver stand-up comedy, por exemplo, a um casino, não é necessariamente o cliente típico do casino. Vão as pessoas que gostam do teu trabalho e que, à partida, 115

estão mais recetivos às tuas piadas. O humor é uma frequência e o público já sabe que o Nilton está virado para aquela onda”. Nilton avisa, contudo, que o reconhecimento público apenas leva as pessoas às salas de espetáculo, depois disso, nada está garantido. “Temos que ter piada na mesma e trabalhar imenso para que isso aconteça, caso contrário, o reconhecimento público, o estatuto, ALGARVE INFORMATIVO #138


desaparecem num instante. Isto é um pouco como nos meus tempos de DJ em que precisava manter a pista cheia e, para isso, tinha que escolher músicas que as pessoas gostassem de dançar. Se vejo que um tema não está a ter aceitação do público, que não estão a gostar, passo à frente”, indica, enquanto aproveitava para lanchar após algumas centenas de quilómetros de viagem. Claro que esta mudança de direção, esta versatilidade, só são possíveis quando se tem repertório e experiência suficientes para tal. Aliás, enquanto as pessoas que vão a um concerto de música, querem sempre ouvir os temas mais conhecidos de um artista ou banda, os sucessos de toda uma carreira, quem vai ver um espetáculo de stand-up comedy está à espera de material novo e não das piadas do costume. “Eu, realmente, escolhi a profissão errada. Na comédia, é uma obrigatoriedade ter sempre textos originais e eu passo os dias a escrever sobre tudo e mais alguma coisa. Ainda ontem deixei um lembrete no telemóvel sobre o uso que os portugueses dão às tshirts. Dão-nos uma t-shirt duma maratona qualquer em que nem sequer participamos e ela vai servir para tudo, para usarmos 10 vezes na rua, depois para dormirmos e, em último caso, para encerarmos o carro. Somos os maiores utilizadores e recicladores de t-shirts do mundo”, comenta Nilton.

SÓ ESTÁ NO TOPO QUEM QUER TRABALHAR Esta necessidade de escrever diariamente é ainda mais forte por causa do programa

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de rádio que tem na RFM, portanto, qualquer pormenor, por mais corriqueiro ou insignificante que possa parecer ao comum cidadão, pode dar origem a um texto humorístico. “Temos que desenvolver um «olhar de comediante» e estar com esse chip sempre ligado, porque a rádio é uma máquina trituradora que, amanhã, precisa de um texto novo”, salienta Nilton, não criticando os humoristas que não escrevem o seu próprio material. “O princípio da stand-up comedy é seres tu a criares os teus textos, porque é a tua visão, a tua maneira de ver as coisas, mas não há nenhuma lei que obrigue a isso. Eu sou um fazedor de humor que tem que se adaptar a todos os cenários que encontro e isso é mais fácil quando o material é da minha própria autoria. Num destes dias participei, de manhã, na convenção nacional de uma empresa de vidros para carros, em Coimbra. À tarde, atuei para uma marca numa ilha no Alqueva, a meio do lanche. Com esta rotina, a capacidade de me adaptar é fundamental”, sublinha o entrevistado. Espetáculos que, no caso específico do ramo empresarial, são feitos à medida do cliente e, inclusive, das pessoas que vão estar na assistência. “São dias inteiros a ler as biografias dos trabalhadores, a preparar piadas para essa gente toda, e isso, depois, toca a plateia de uma maneira completamente diferente”, assegura Nilton, confessando que, no meio disto tudo, sobra pouquíssimo tempo para dormir. “Quando acabar o espetáculo de Loulé volto logo para Lisboa porque ainda tenho que escrever o material para o programa da rádio. Amanhã vou logo 116


cedo aos estúdios gravar e, às 10h, tenho que estar no aeroporto para seguir para Los Angeles. Mesmo nos Estados Unidos vou estar a escrever conteúdos e a fazer os momentos em direto. É uma loucura, 10 mil quilómetros por mês, mas é a vida que escolhi”. Tempo não pode faltar, contudo, para a vida pessoal, nomeadamente para ir buscar o filho à escola, às 17h, e depois estar com a família até às 22h/23h. “A essa hora vou para o computador escrever e, às cinco da manhã, toca o despertador. Durmo três ou quatro horas por dia e sei que devia ter mais cuidado com a saúde, a alimentação e a forma física, mas nem por

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isso”, admite, com um encolher de ombros. “A separação das águas, em qualquer profissão, faz-se pelo trabalho de cada um. Com talento há muitos. Com vontade e capacidade para trabalhar há poucos e são esses que continuam a ter sucesso”, avisa Nilton, revelando ainda que está a preparar um novo projeto para televisão, mas sem data concreta para começar. “Parei de fazer o «5 para a meia-noite» há poucos meses, depois de sete anos no ar, e agora quero fazer uma pausa”, justifica. E mais tempo não havia para conversar, porque o público já ia entrando no CineTeatro Louletano e o artista tinha que se preparar .

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FOLKFARO TROUXE DANÇAS DO MUNDO A FARO Texto:

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Folkfaro voltou a trazer as danças do mundo à capital algarvia, e não só, com a 15.ª edição a confirmar os pergaminhos de maior festival de folclore do Sul de Portugal. De 19 a 27 de agosto assistiu-se a um colorido especial por Faro e outras localidades da região, em mais uma organização do Grupo Folclórico de Faro, que conta com o apoio principal do Município de Faro. Estiveram representadas as músicas, danças e trajes de povos de diferentes continentes, através da participação de grupos provenientes de sete nações. Ao todo, foram mais de 300 participantes, entre bailadores e músicos, que mostraram a riqueza das tradições populares das suas terras. «Povos, Culturas e Tradições!...» foi o lema da edição de 2017 e os grupos presentes foram selecionados entre mais de uma centena de propostas recebidas pela organização. Assim, o elenco do XV Folkfaro foi constituído por: Folk Ensemble Madara (Shumen), da Bulgária; Ensembles Murager e Inju Marzhan (Atyrau), do Cazaquistão; Grupo Folklórico Costa Rica (Asserri), da Costa Rica; Gruppo Gergent (Sicília), ALGARVE INFORMATIVO #138

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da Itália; Ballet Folklórico de Orizaba (Orizaba), do México; e Ensemble Warszawianka (Varsóvia), da Polónia. Para além dos grupos internacionais, também as tradições portuguesas estiveram bem representadas por prestigiados grupos folclóricos de diversas regiões de Portugal, designadamente: Grupo Tradicional «Os Casaleiros» - Azambuja; Rancho Folclórico Rosas do Lena – Batalha; Grupo Folclórico de São Torcato – Guimarães; Grupo Etnográfico da Serra do Caldeirão – Cortelha (Loulé); Rancho Folclórico da Casa do Povo da Conceição de Faro; Grupo Folclórico de Faro (organizador) – Adulto, Infantil e Cancioneiro. ALGARVE INFORMATIVO #138

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A Gala de Abertura voltou a realizar-se no Teatro das Figuras, na noite de 19 de agosto, com todos os países participantes, naquele que foi o pontapé de saída para nove intensos dias, repletos de espetáculos e inúmeras atividades. A Gala contou com as participações especiais da Companhia de Dança do Algarve e da cantora Sandra Cristo, a apresentação do grupo anfitrião e a estreia de todos os seis grupos internacionais convidados. Os espetáculos diários regressaram este ano ao Palco do Passeio da Docas, entre 20 e 27 de agosto, em simultâneo com a Feira dos Doces, Frutos Secos e Bebidas Regionais. Em cada uma dessas noites atuaram os diversos grupos estrangeiros, assim como o Clube de Danças João de Deus, Associação São Brás Bailando, Grupo «Amar Guitarra» e Fado com Cátia Alhandra, acompanhada por José Alegre e Rafael Pacheco. O FolkFaro ALGARVE INFORMATIVO #138

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apresentou ainda espetáculos nas freguesias de Faro e nos concelhos de Loulé, Olhão, São Brás de Alportel, Albufeira, Tavira e Silves, num total de 15 localidades. As animações de rua, na baixa e no Mercado Municipal, assim como os desfiles dos grupos da Pontinha ao Passeio da Doca, e as animações musicais na «Tertúlia Algarvia», geraram um ambiente de alegria e festa um pouco por toda a cidade. Os programas especiais para crianças na Biblioteca Municipal de Faro e no Refúgio Aboim Ascensão, os programas para idosos em várias instituições e um programa especial para os reclusos no Estabelecimento Prisional reforçaram a componente social do festival. Mas houve também lugar a Ateliers de Dança na Escola EB 2,3 Santo António, onde os mais curiosos podiam aprender e praticar um pouco das danças do mundo com os grupos participantes . ALGARVE INFORMATIVO #138

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CARLÃO «PARTIU A CASA TODA» EM LOULÉ

O Cine-Teatro Louletano deu o pontapé de saída para a nova temporada, no dia 9 de setembro, com um fantástico concerto de Carlão. O ex-vocalista dos Da Weasel trouxe ao Algarve os êxitos de «Quarente», deu a conhecer alguns temas do segundo álbum de originais prestes a sair para o mercado e contou com uma convidada super especial, Sara Tavares. E foi, de facto, uma noite super especial… Texto: Fotografia: ALGARVE INFORMATIVO #138

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arlão abriu a nova temporada do CineTeatro Louletano com um concerto que prometia ser para toda a família e assim aconteceu, com a principal sala de espetáculos de Loulé a abarrotar de público de todas as idades. Foi um cenário algo improvável, assistir-se a um concerto de hip-hop num espaço mais habituado a outras sonoridades, a peças de teatro ou a performances de dança, mas a verdade é que a aposta resultou em pleno, melhor do que a encomenda, surpreendendo, inclusive, o carismático músico, um dos rostos mais familiares dos portugueses depois dos muitos anos à frente da banda Da Weasel. O concerto foi contagiante, com os sucessos do primeiro disco de originais, «Quarente», a colocarem as pessoas a cantar os refrões, palavras de ordem contra o que está mal no sistema e contra os crimes de «colarinho branco», rimas de amores e desamores, de vícios e maus hábitos, mensagens bem características desta sonoridade que em tempos foi vista com maus olhos mas que conquistou, com mérito próprio, o seu lugar no panorama musical mundial. E Carlão foi, e continua a ser, um dos seus principais motores em Portugal, um homem vibrante que se apresentou em palco de forma genuína, não escondendo as emoções fortes que lhe iam na alma ao ver pela frente uma plateia tremenda e completamente rendida à sua música. O espetáculo serviu igualmente para se conhecer melhor algumas canções do segundo disco de originais, com edição prevista ainda para este ano, com destaque para os singles «Agulha no Palheiro», uma canção de amor fresca com uma batida dançável, e «Viver pra Sempre», um tema viciante com letra de Carlão e música de Boss AC. A seu lado, os companheiros do costume, DjGlue, o baixista Nuno Espírito Santo, Gil Pulido nos teclados e Bruno Ribeiro na voz, mas o espetáculo de Loulé teve um aliciante extra, Sara Tavares, esse poço de luz e

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energia que infecta, no bom sentido, claro, todos em seu redor. No final, Carlão confessou que não estava à espera de «partir a casa toda» em Loulé, embora o objetivo seja sempre dar o melhor concerto possível. “Gosto bastante desta proximidade e intimidade com o público, mas não é normal atuar em auditórios porque se convencionou que este tipo de música não é para este género de espaços. Mas foi muito bom”, confirma o músico, ainda a recordar a plateia de pé a cantar e a abanar os braços. Aliás, na última música da noite, «Dialectos de Ternura» de Da Weasel, em versão Buraka Som Sistema, até para o palco foram dançar alguns espetadores. “A minha música tem um lado bastante festivo, de dançar e saltar, mas as palavras são uma componente importante e, nestes espaços menores, as pessoas acabam por perceber melhor o que estamos a dizer. Mesmo a atuação do DJ é mais percetível para o público do que num festival, com aquela confusão toda”, compara.

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(...) “AS MINHAS MÚSICAS TÊM CRÍTICAS, MAS ISSO FAZ PARTE DA MINHA RESPONSABILIDADE SOCIAL, NÃO ESTOU A FAZER POLÍTICA” (…)

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Pôr as pessoas a mexer, mas também a pensar, sempre a pensar, é para isso que serve o hip-hop e é neste registo sonoro que Carlão é mestre e senhor, embora reconheça que sempre foi um pouco «bastardo» ou «mestiço» neste movimento. “Desde que nasci que as misturas fazem parte da minha vida. O hip-hop marcou-me muito, da mesma forma que o punk e o hardcore, até mesmo o metal, pela maior agressividade da música. O hip-hop tem é uma vertente verbal bastante acentuada, a música serve as palavras e não o contrário. A minha maneira de entregar ao público aquilo que escrevo é rimada e reppada simplesmente porque não sei cantar”, refere, com uma risada.

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Críticas ao que está mal não faltam nos temas de Carlão, não perde uma oportunidade de dar uma «ferroada» aos vilões da sociedade, mas também aos impostores, àqueles que querem fazer tudo e mais alguma coisa, quando não têm capacidade para isso, até mesmo aos «djs» que passam as atuações de braços no ar, quando, supostamente, deviam estar a fazer as misturas nos pratos. Mas, apesar disso, não se sente habilitado para fazer música 100 por cento de intervenção. Lá está, não inventa, não pretende fazer aquilo que não está no seu ADN, nos seus genes. “Há pessoas com muito mais propriedade para isso, mas tento fazer a minha parte, porque acho que andamos todos um pouco adormecidos. Num concerto que dei no Sudoeste e que não foi tão diferente deste – se calhar teve mais asneiras, porque estamos mais soltos num festival – perguntaram-me se aquilo era um comício ou um concerto. Se acham que eu sou político, estamos todos tramados”, comentou Carlão. “As minhas músicas têm críticas, mas isso faz parte da minha responsabilidade social, não estou a fazer política”, distingue. O que resultou extremamente bem foi a presença de Sara Tavares, que cantou com Carlão os temas «Blá Blá Blá» e «Crioula». “Ela é uma força da vida, é incrível, para além da voz, tem uma luz muito especial. É daquelas raras pessoas que tem o pacote todo, possui todas as qualidades”, enaltece. “É muito bonita, por fora e por dentro, e contagia qualquer um”, reforça, admitindo que este é daqueles concertos que lhe dá vontade de viver para sempre. “Senti-me emocionado em vários momentos e é muito bom quando isso acontece, percebes que a coisa está a bater certo”, finalizou Carlão, antes de rumar ao hall do Cine-Teatro Louletano, onde uma legião de fãs o aguardava com ansiedade . ALGARVE INFORMATIVO #138

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SIMPLESMENTE

MOPHANTÁSTICOS!!! Quatro anos depois do lançamento do EP «Mopho», o quinteto de músicos algarvios regressou em grande estilo com o primeiro longa duração de originais, intitulado «Estranho em Mim». Um som potente, mas também harmonioso, onde as guitarras, a bateria, o baixo e os teclados se misturam num equilíbrio perfeito, conforme se comprovou, ao vivo, no concerto dado na Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro, no dia 15 de setembro. Texto:

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STRANHO EM MIM marcou o regresso dos Mopho aos estúdios, quatro anos após o lançamento do EP homónimo de estreia. Mais maduros e conscientes do que pretendem no universo musical, Ricardo Rosa (guitarra e teclados), Ruben Azevedo (bateria), Pedro Bandeira (voz), André Gomes (baixo) e Paulo Duarte (guitarra) surgem com um disco que representa o rock português no seu melhor nível, como ficou bem patente no concerto de apresentação que deram na Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro, no passado dia 15 de setembro. Terminada a atuação, verdadeiramente explosiva e cativante, Ricardo Rosa recordou que os primeiros temas da banda foram criados em 2010, com o EP a ser gravado em 2013 e, finalmente, «Estranho em Mim», em 2017, colocado no mercado pela editora «Last Man Standing». “A nossa história começou com o Pedro Bandeira, que juntou alguns amigos para fazer algo novo, e com qualidade, no panorama musical algarvio. Claro que isso é mais fácil de dizer do que fazer, porque temos as nossas vidas familiares e profissionais, o que obriga a uma grande vontade e jogo de cintura para arranjar tempo para os ensaios e concertos”, admitiu o guitarrista. Originais cantados em português é o que se encontra no repertório dos Mopho, numa sonoridade com várias influências mas onde sobressaem as do rock norteamericano, com fortes guitarradas, um baixo omnipresente e as orquestrações e programações a acrescentarem uma maior sofisticação. “É o estilo que nos chega mais facilmente aos ouvidos, através das ALGARVE ALGARVE INFORMATIVO INFORMATIVO #138 #138

rádios e do you tube, e que persiste na nossa memória coletiva. Um rock americano, elétrico, mas também melancólico e cantado em português”, descreveu, em poucas palavras, Ricardo Rosa, confessando que tem uma certa dificuldade em tocar algo que seja demasiado alegre. “A minha quinta parte do processo criativo é muito dark e emocional, daí a presença das teclas, dos violinos, dos coros, ambiências que ajudam a compor um cenário obscuro onde me sinto mais confortável”.

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Parte musical que é composta em conjunto pelos cinco elementos, ao passo que as líricas são da responsabilidade do vocalista, Pedro Bandeira. “Ele pensa no tema e faz a letra do início ao fim. As canções falam de amores e desamores, dificuldades, vitórias e derrotas, pelo que qualquer pessoa se pode identificar com as nossas músicas”, acredita Ricardo Rosa, garantindo que cantar na língua materna sempre foi a opção dos Mopho. “Ainda muito devagar, mas o português está a ganhar terreno e a conquistar o seu 141 141

espaço, mesmo além-fronteiras”, afirmou. Devagar foi, igualmente, a produção de «Estranho em Mim», não por causa de dificuldades em reunir os cinco elementos para ensaiar, mas pela ida para estúdio, onde tudo tem que ser feito com maior rigor e cuidado. “É algo mais intenso e demorado, desde a fase da pré-produção à captação, mistura e pós-produção. Até termos o disco físico na mão leva sempre mais tempo do que aquilo que imaginamos. E quando as ALGARVE ALGARVE INFORMATIVO INFORMATIVO #138 #138


pessoas são perfeccionistas como é o meu caso, que não descansam enquanto não estiver tudo correto, o processo torna-se ainda mais lento. Fazer um disco numa de improviso é fácil, mas essa não é a filosofia dos Mopho. A música é matemática: temos que estabelecer a harmonia entre as guitarras; os teclados pretendem reproduzir fielmente o trabalho de um ensamble de violinos, o que obriga a dividi-los entre baixos, médios e agudos; há que definir onde entram os coros e os pianos e que tipo de pianos se utiliza. Foram quase dois anos para gravar o disco”, relata Ricardo Rosa. Mil e cuidados que justificam a demora porque «Estranho em Mim» é, sem dúvidas, um excelente disco de rock, que dá gosto ouvir uma, duas, três vezes de seguida, numa viagem de carro ou na tranquilidade das nossas casas. Mas não é um rock fácil, rotineiro, de palavras ocas e sem sentido, daquele que, por isso mesmo, entra depressa no ouvido. “É um disco que vai beber ao rock progressivo, não muito complexo, mas que nos dá algum trabalho, que nos força a voltar atrás para ouvir novamente. Só assim se compreendem todas as nuances, as guitarras, as segundas vozes. É, talvez, o trabalho mais rico e completo que esta banda já fez”, analisa.

aumentar exponencialmente a oferta disponível no mercado. Depois, a «guerra» é conseguir «furar», dar nas vistas, chegar a quem interessa, para ter tempo de antena nas rádios e televisões. “Isso não significa que, quem não dá nas vistas, não tenha qualidade, é um meio complicado por uma série de fatores. Felizmente que as bandas, hoje, já se conseguem mexer bem sozinhas e chegar a palcos que abrem o caminho para outros palcos maiores e por aí adiante”, observa o músico. “Havendo dinheiro, criatividade e tempo, uma banda pode fazer praticamente tudo sozinha ou com a ajuda de amigos, desde o agenciamento

Contudo, por muita qualidade que uma banda, ou um disco, possam ter, na hora da verdade é o público que dita o seu sucesso e Ricardo Rosa admite que os Mopho possam não ser daqueles que saltam para a ribalta logo ao primeiro contato. Até porque, nos tempos modernos, gravar uma música, ou um disco, é relativamente fácil, o que veio ALGARVE ALGARVE INFORMATIVO INFORMATIVO #138 #138

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ao design, da produção à realização dos videoclips. Tudo o que fizemos neste disco foi da nossa iniciativa e com profissionais de grande talento”, salienta. Depois do concerto de apresentação na Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro, os Mopho atuaram, logo na noite seguinte, em Setúbal, ao mesmo tempo que «Estranho em Mim» já está disponível para compra em todas as plataformas online, casos da Amazon, Google Play, I-Tunes e Spotify. “O objetivo é fazer o máximo de datas possível para promover o disco, de norte a sul de Portugal, embora esse circuito também

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não seja fácil”, indica Ruben Azevedo, que entretanto se tinha juntado à conversa depois de dar atenção aos fãs. “Agora é fazer o caminho natural das coisas. Tocar, tocar, tocar, depois virá outro disco, que ainda vai ser melhor do que este e, de preferência, vai demorar menos tempo a gravar, porque todos os dias aprendemos com os erros do passado para que não se repitam no futuro. O que nos interessa é apresentar o disco, em palcos grandes ou pequenos, sempre agradecendo às pessoas que disponibilizam o seu tempo para ouvir a nossa música”, finalizou o baterista .

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FILIPE CABEÇADAS VOLTA A MOSTRAR O QUE VALE, MAS AGORA A SOLO O single «Bring Back The Man» marca a estreia de Filipe Cabeçadas a solo, precisamente duas décadas desde que iniciou a sua caminhada nas lides da música. Para trás ficou um trajeto que incluiu diversas bandas de referência do pop/rock algarvio, sendo que, de há uns anos a esta parte, integra o coletivo que acompanha Diogo Piçarra. Agora, porém, é a vez de se aventurar sozinho, num estilo diferente daquele a que nos tinha habituado, e a primeira amostra confirma o que já todos sabíamos… temos artista … e de topo. Entrevista:

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oi em 1997 que Filipe Cabeçadas começou a dar os primeiros passos na sua carreira de compositor, multi-instrumentista e produtor, aprendendo a teoria no Conservatório Regional de Música do Algarve e colocando esses conhecimentos, de imediato, na prática, na altura nos metaleiros Raw Machine e Mindlock. O adolescente tornou-se adulto, mas não perdeu a sua irreverência e continuou a integrar bandas de culto do panorama algarvio, casos dos Melomeno-Rítmica, LUDO e Nome. Depois, começou a tocar como freelancer com diversos múltiplos artistas, o último dos quais o também farense Diogo Piçarra. Pelo meio, licenciouse em Estudos Artísticos na Universidade do Algarve e fez uma Pós-Graduação em Artes Musicais e Tecnologias da Música na Universidade Nova de Lisboa. Numa destas tardes outonais fomos dar com ele nos «Boxer Studios», em São Brás de Alportel, a preparar o segundo videoclip do seu trabalho em nome próprio, sendo que o primeiro «cheirinho», «Bring Back the Man», já anda a rodar nas rádios e plataformas digitais há algumas semanas. “Era uma vontade que vinha sendo maturada nos últimos dois anos, porque o formato de banda já não servia para mim. No início deste Verão dei por mim a falar mal de muitas coisas, até de alguns projetos artísticos do Algarve, e perguntaram-me qual era o exemplo que eu dava. Fez-se uma faísca, não podia limitar-me a apontar o dedo. Decidi «jogar-me aos leões» e quero que este trabalho tenha mérito por mim, e não por alguns sucessos que tenha alcançado no passado inserido em determinadas bandas”, explica Filipe Cabeçadas. ALGARVE INFORMATIVO #138

Uma prova de fogo que, em primeiro lugar, pretende mostrar ao próprio Filipe Cabeçadas o que ele vale, não está demasiado preocupado com aquilo que os outros vão pensar, e até escolheu um estilo musical diferente do que trazia na bagagem. “Todos nós somos um animal em constante mutação. Não somos a mesma pessoa que éramos há um ano ou há um mês, e os nossos gostos refletem isso. Eu adoro heavy metal, mas fui ganhando outras sensibilidades 146


musicais que são mais desafiantes. Queria sair da minha zona de conforto intelectual, não usar uma fórmula que domino por completo”, refere o entrevistado, revelando que o primeiro single foi composto em 15 minutos. “Nem pensei no género que a música era, nem com aquilo com que iria ser conotado, estava simplesmente a tentar provar a mim o que conseguia fazer”. Depois do tema de apresentação «Bring Back the Man», a nova música, que sairá 147

por altura do Natal, vai ter uma sonoridade diferente, uma cover numa onda mais familiar e comercial, porque essa é a liberdade que uma carreira a solo proporciona, fazer o que lhe vai na alma naquele momento em concreto, obviamente com um mínimo de coerência. “Fui para estúdio com o esboço de cinco músicas, gravei-as e ficaram lá. Entretanto, surgiram outros temas e até pensei em lançar o disco este ano, mas a minha agenda é bastante complicada de gerir e não ALGARVE INFORMATIVO #138


queria correr o risco de falhar com alguém. O objetivo é lançar o álbum no outono de 2018 e, até lá, vou lançando um single de três em três meses, sempre acompanhado de um videoclip. Estas estão fechadas, mas é possível que, pelo caminho, faça mais canções para juntar ao coletivo”, indica, de forma descontraída, numa pequena pausa das gravações. O processo torna-se mais fácil, e rápido, porque Filipe Cabeçadas é praticamente um homem-orquestra, dominando diversos instrumentos. “Claro que dá mais trabalho, mas nem penso nisso, estou a fazer o que gosto. Num projeto a solo tem-se mais liberdade e há menos «problemas» sociais e stress, mas o risco é muito maior”, admite o entrevistado. “Uma coisa é termos tudo imaginado na cabeça, com todo o know-how que possuímos, outra coisa é ir para o terreno. Por mais que tenhamos tudo esquematizado ao detalhe, há que colocar os instrumentos a dialogar em equilíbrio uns com os outros e não sabemos se isso vai resultar. Neste tema, acho que me safei”, observa, com um sorriso.

PRONTO PARA «ENFRENTAR AS FERAS» SOZINHO Escrever as letras também não tem sido uma dor-de-cabeça, porque Filipe Cabeçadas sempre teve um olhar crítico em relação àquilo que o rodeia, não se limita a «passear» pela vida sem pensar no que acontece, sem tentar que a sua voz se ouça. E assim surgiu «Bring Back the Man», em que um homem olha para o seu reflexo no espelho e se questiona sobre o que será a sua vida dali para a frente, se vai

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continuar a ser o mesmo ou se vai tentar ser alguém melhor. E outros temas vieram depois desse a um ritmo acelerado, numa magia que o compositor ainda está para perceber. “Normalmente aparece primeiro a música, depois a letra mas, às vezes, as melodias surgem já com palavras que fazem todo o sentido naquele instante. Isso faz com que o assunto da letra flua a partir dessas palavras que acompanharam, de forma natural, os acordes. Noutras situações demora mais tempo para encontrar a palavra certa para encaixar na sílaba certa, porque queremos acabar um refrão a «abrir a goela» e não estar ali fechadinho. Há um esquema para se fazer músicas, mas cada uma tem pequenas vozes a falar dentro dela, é essa a magia”, considera. Letras com sumo, sempre, com sentido, com mensagem, nada de banalidades, assegura Filipe Cabeçadas, porque a música é um ato de comunicação entre emissor e recetor. “Sou formado em Artes e já recebi muitas mensagens, desde a pintura ao teatro, da dança ao cinema. Comunicar, para mim, não pode ser um ato banal e quero que as pessoas levem qualquer coisa com elas depois de ouvirem uma música, que as faça refletir, sentirem-se melhor ou mais tristes, porque a tristeza também faz parte da vida”, afirma, salientando que a opção pelo inglês teve um motivo bastante simples: “É mais fácil escrever música em inglês, o que, dito por um português, pode parecer um contrassenso. Em inglês, uma frase pode ter três ou quatro significados diferentes. O português é 148


uma língua mais fechada e encontrar as palavras certas para a música respirar exige uma arte muito maior. Como eu queria mesmo fazer este disco e tinha que ser neste momento, escolhi o inglês, porque é onde eu estou agora. Para além disso, uma língua mais universal abre-me mais portas para, um dia, se eu quiser, ir fazer concertos no estrangeiro”, justifica. O mais complicado neste desafio poderia ser, contudo, ser o cabeçade-cartaz, o rosto do projeto, ter todos os holofotes a incidir sobre si, depois de duas décadas a subir aos palcos inserido em bandas onde era o guitarrista ou baterista. Filipe Cabeçadas acredita, todavia, estar pronto para «enfrentar as feras» sozinho. “Foi mais um dos aspetos que tive em consideração quando decidi apresentar-me em nome próprio. Vou estar a comunicar, a 100 por cento, com o público que estiver à minha frente, a transmitir as minhas cenas, as psicoses e as coisas boas também. Tenho tido experiências de vida brutais nos últimos dez anos, vivi em vários sítios, andei imenso na estrada. Há dias estive na Suíça, agora vou para Macau, e tudo isso 149

nos preenche. Se tenho alguma sensibilidade e capacidade para reciclar essas experiências e criar algo de novo a partir daí, também tenho a obrigação de, depois, mostrar o que faço aos outros. Chega de falsas modéstias, vamos trabalhar, mantendo os pés bem assentes na terra”, afirma, com convicção, antes de regressar às gravações no «Boxer Studios» . ALGARVE INFORMATIVO #138


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OS «CANTOS E LAMENTOS» DE

RICARDO MARTINS «Cantos e Lamentos» é o novo disco de Ricardo Martins, um virtuoso da guitarra portuguesa natural de São Brás de Alportel que, para além de acompanhar os principais fadistas da praça algarvia, não descura o estudo e o aperfeiçoamento deste típico instrumento português. Guitarra portuguesa que, neste álbum, se faz acompanhar de mais uma mão-cheia de instrumentos, resultando num trabalho que, de facto, dá gosto ouvir. Texto:

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cabado de chegar de lua-demel e antes de abalar novamente, desta feita a trabalho, para o Canadá e Estados Unidos, conseguimos «raptar» Ricardo Martins para uma conversa de café, logo pela manhã, na cidade de Loulé, para melhor conhecermos «Cantos e Lamentos», o novo disco instrumental do mestre da guitarra portuguesa. O álbum foi gravado no Zipmix Estúdio e misturado no Estúdio Pé de Vento, no início do ano, sendo apresentado oficialmente, a 25 de novembro, no Club Farense, em Faro, precisamente após chegar da tournée pelo continente norte-americano. A guitarra portuguesa é, como se adivinha, a figura de proa do novo trabalho discográfico de Ricardo Martins, mas o normal dia-a-dia do são-brasense é passado a acompanhar fadistas consagrados em palco, porque ter uma carreira a solo como instrumentista é uma tarefa dura em terras lusitanas. “É, de facto, mais fácil acompanhar alguém que cante, há muito mais espetáculos em virtude da recetividade do público ser maior. Mas apaixona-me o som deste instrumento e penso que ainda há um longo caminho a percorrer em torno da guitarra portuguesa, que a composição pode fugir um pouco das raízes do fado. Ouço bastante música instrumental e sinto-me muito feliz a compor instrumentais para a guitarra portuguesa, mas também componho temas para serem cantados”, refere o entrevistado.

«Cantos e Lamentos» não é o primeiro disco instrumental de Ricardo Martins mas é, porém, o primeiro inteiramente ALGARVE INFORMATIVO #138

constituído por temas originais. Quanto ao antecessor, intitulado simplesmente «Ricardo J. Martins», foi um género de «disco zero», não porque não tivesse já material próprio, mas porque há sempre alguma hesitação e incerteza quando se vai dar a conhecer, pela primeira vez, o que se criou na sua cabeça e coração. “O autor acha sempre que o produto final está um bocado aquém da expetativa, mas temos que dar por concluídos os 154


trabalhos e colocá-los cá fora”, frisa, reconhecendo que a concorrência existente neste nicho de mercado é de excelente nível. “Há muita gente a tocar guitarra portuguesa, contudo, a maioria é como acompanhantes. Os nomes mais sonantes como solistas são o Custódio Castelo, Marta Pereira da Costa, Ricardo Rocha e Mário Pacheco, todavia, mesmo esses têm que tocar com fadistas”, aponta. 155

Nomes de peso que têm em comum os largos anos de aprendizagem, de estudo, dedicados a este característico instrumento português, quase 15 anos no caso concreto de Ricardo Martins. “Nesta caminhada é necessário conhecer a linguagem do antigamente, mas também as coisas mais recentes. Há que estar aberto a outras influências para sabermos onde estamos e para ALGARVE INFORMATIVO #138


onde pretendemos ir. Há sempre puristas em todas as áreas, só que a maneira de acompanhar o fado em meados do século passado foi-se alterando ao longo dos tempos. Claro que é importante ir «beber à fonte» e conhecer e reconhecer todos os talentos do passado, mas é essencial dar o nosso cunho pessoal. Para além disso, há imensa gente a chegar ao fado proveniente de outros estilos, desde o clássico ao jazz, que enriquecem a canção lusitana”, salienta. Isso mesmo se comprova em «Cantos e Lamentos» onde, para além da guitarra portuguesa, da viola e do baixo – os habituais acompanhantes do fado – se encontram também o acordeão, percussões tradicionais, flauta de bisel, ALGARVE INFORMATIVO #138

contrabaixo com arco e voz como instrumento lírico. “As músicas que fiz, não sendo eu um purista do fado, pediam mais instrumentos para criar um ambiente diferente”, justifica, concordando que, depois, não é fácil «casar» tantas sonoridades distintas. “O fulcral ao montar o puzzle é não se perder a raiz da guitarra portuguesa, porque são, sem dúvida, músicas para guitarra portuguesa. Mais complicado de ultrapassar é a ausência da letra, porque é ela que, normalmente, conta a história da música e há um refrão que fica no ouvido. Num tema instrumental, a melodia é o ponto central para que ele se torne atrativo, para que não seja apenas um «despejar» de notas ao acaso. Depois, escolhemos um título 156


que permita à pessoa ver mais além do que a música em si”, explica.

essência se lhes retirarmos alguns instrumentos”, assegura o são-brasense.

É PRECISO APOSTAR MAIS NA MÚSICA INSTRUMENTAL

Haver público, ou não, para a música instrumental é, todavia, apenas uma das faces da moeda, já que não há espetáculos ao vivo se os programadores dos equipamentos culturais não os contratarem. E, nesse aspeto, Ricardo Martins lamenta que nem todos estejam dispostos a arriscar num produto de sucesso menos garantido. “É a voz, e o vocalista, que normalmente atraem os espetadores. A música instrumental é vista um pouco como «música para músicos» ou para servir de ambiente, contudo, há muitas pessoas interessadas neste género de trabalho. O problema é que a informação não lhes chega e, por outro lado, é sempre mais fácil apostar-se num som mais comercial”, observa.

Gravar um disco instrumental parece, assim, mais complexo do que se possa imaginar, não é apenas um músico de eleição fechar-se num estúdio e fazer tudo sozinho, à sua maneira e feitio, confirma Ricardo Martins. “É essencial trocar ideias com os músicos que tocam os diversos instrumentos para percebermos aquilo que eles podem acrescentar ao tema. Cada instrumento tem as suas técnicas próprias e cada músico tem a sua maneira distinta de os tocar e é tudo isso que pode tornar um tema mais rico. Não basta meter a pauta à frente dos músicos”, avisa o entrevistado. Tendo Ricardo Martins consciência de todas estas nuances, «Cantos e Lamentos» até foi relativamente rápido de gravar, no entanto, ter o «CD» físico nas mãos e pronto para vender é apenas o primeiro passo, seguindo-se a promoção, distribuição, agenciamento de espetáculos e tudo o mais. Um processo que é difícil para a esmagadora maioria dos artistas, e mais ainda quando se trata de um álbum instrumental. “Hoje há muitas plataformas online onde a música é vendida de forma digital ou se encontra gratuitamente, motivo pelo qual acabamos por vender mais discos logo após as atuações do que propriamente nas lojas tradicionais. Tocar ao vivo da exata maneira como o disco foi gravado também exige cinco ou seis músicos, mas os temas não perdem a sua

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Assim sendo, embora a faceta de solista seja a grande paixão de Ricardo Martins, não se coloca a hipótese de deixar de acompanhar fadistas com a sua guitarra portuguesa. “Em países como Alemanha, Itália ou Espanha as mentalidades estão mais recetivas à música instrumental, porque também há mais compositores instrumentais. Em Portugal, a pergunta é sempre «quem é que vai cantar?», falta alguma educação nesse campo”, desabafa o entrevistado, o que não significa que não existam já datas em agenda para se puder ouvir, ao vivo, a «Cantos e Lamentos», antes pelo contrário. “O objetivo é dar a conhecer ainda mais a sonoridade da guitarra portuguesa e os meus temas originais”, remata Ricardo Martins . ALGARVE INFORMATIVO #138


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UMA HISTÓRIA DIFERENTE SOBRE A CONQUISTA DE LISBOA AOS MOUROS Texto:

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Teatro Lethes recebeu, de 7 a 12 de novembro, «História do Cerco de Lisboa», uma adaptação do romance homónimo de José Saramago em cujo ponto de partida está um ato de rebeldia criativa: o revisor Raimundo Silva escreve um «não» nas provas de um livro de história onde se afirmava que, em 1147, os cruzados tinham ajudado os portugueses na conquista de Lisboa aos mouros. O transtorno causado na editora por este ato «inexplicável» serve de pretexto para que a gestora Maria Sara lance um desafio ao revisor: a escrita de um romance no qual a ficção se imponha à verdade histórica, isto é, no qual D. Afonso Henriques conquiste Lisboa sem a ajuda dos cruzados. A ideia para este projeto surgiu, há mais de um ano, em conversa entre Rodrigo Francisco, do Teatro de Almada, e Luís Vicente, diretor da ACTA, e de imediato se avançou para uma parceria envolvendo pessoas que, embora se conheçam de longa data, nunca antes tinham trabalhado juntas em teatro. “O José Peixoto, por exemplo, foi meu professor ALGARVE ALGARVE INFORMATIVO INFORMATIVO #138 #138

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quando eu era um jovem principiante. Que eu me recorde, nunca antes aconteceu realizar-se em Portugal um projeto com esta amplitude, com quatro estruturas significativas do teatro português a colaborarem numa criação artística com um sentido comum e com a direta participação dos seus respetivos corpos artísticos, técnicos, de gestão e de produção”, destaca Luís Vicente. Outra diferença em «História do Cerco de Lisboa» é que os atores interpretam as personagens ao mesmo tempo que não deixam de mostrar que são atores a interpretar personagens, algo que acontece, de forma natural, à vista do público. Mas, antes de tudo, há José Saramago e o seu pensamento acerca da «questão ibérica». “Pareceu-me interessante esta colaboração entre as quatro companhias portuguesas com uma dramaturgia e uma encenação de colegas espanhóis. Embora a narrativa dramática tenha centralidade no cerco de Lisboa pelo D. Afonso Henriques, com o auxílio dos Cruzados – circunstância que é ALGARVEINFORMATIVO INFORMATIVO#138 #138 ALGARVE

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contestada pela personagem que interpreto, o revisor Raimundo Silva”, refere Luís Vicente, considerando que “os grandes autores constituem sempre uma boa oportunidade de partilha da existência humana, de reflexão acerca do desígnio humano e do afazer artístico”. A peça é uma coprodução da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve e da Companhia de Teatro de Almada, da Companhia de Teatro de Braga e do Teatro dos Aloés, estando a Encenação a cargo de Ignacio García e a Dramaturgia nas mãos de José Gabriel Antuñano. É interpretada por Ana Bustorff, Elsa Valentim, João Farraia, Jorge Silva, José Peixoto, Luís Vicente, Pedro Walter, Rui Madeira e Tânia Silva, com Cenografia de José Manuel Castanheira, assistido por Pedro Silva e pelos estagiários Filipe Fernandes, Francisca Castro, Inês Carrillo, Maria Luís e Sofia Lacerda. A música é de Ignacio García, os Figurinos de Ana Paula Rocha, a Luz de Guilherme Frazão e o Som de Miguel Laureano . ALGARVE INFORMATIVO #138

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