Danielle Fonseca brinca com Cage e Glass ( música & imagem-texto) Ilton Ribeiro[1] Existe um diálogo da imagem e o som já percebido ao longo dos séculos, percebe-se um certo incômodo desde o momento em que, no ato de se fazer algo visual para a memória sonora (música) se fazia também um desenho colorido; as primeiras partituras chegavam a trazer iluminuras; iluminuras na porta do texto eram tidas como uma luz que iluminaria o caminho do leitor, é a retirada do sujeito da escuridão. Esse diálogo de imagem e som se aperfeiçoou com a chegada das óperas, período em que marca a história dessa relação amorosa do sonoro com visual. A ópera configura um diálogo mais complexo de linguagens: Palavras, pinturas, música, teatro, figurino (que chegaram muitas vezes influenciar a moda não só na Europa) de uma cantora que também é atriz, e que pode virar pop estrela. Daniele Fonseca nasceu em Belém (1975) começou expor suas obras a partir de 1995 e sempre manteve um desafio do diálogo de linguagens distintas, principalmente com a literatura (Max Martins) e a música (John Cage, Phillip Glass, Eric Satie, etc). John Cage (1912-1992) foi um singular inventivo da música erudita no ocidente, lembra-se quando num teatro, um dos principais de Nova Yorque, numa noite de gala, um público seleto, todos lugares preenchidos, então Cage entra com um piano de brinquedo e toca uma composição para tal brinquedo. Imagine a cara dos críticos conhecedores de música. Works for piano & prepared piano são célebres composições de Cage, já interpretado e registrado por gente como Joshua Pierce, Maro Ajemian, Merilyn Crispelli e Joe Kubera[2]. Phillip Glass (1937) sempre foi acometido pela “palavra – imagem”. Dedicou-se a um poema sinfônico sobre os Rios da Amazônia (cd Águas da Amazônia)[3] e entre tantas trilhas sonoras destacamos a do filme “Ponto de mutação” onde no final do filme a música de Glass se mistura ao poema de Neruda (Mindwalk, 1990 EUA, direção de Bernt Capra). Em fevereiro de 2001 o professor Coli publica na Folha de São Paulo um ensaio intitulado túnica dos sons. E traz uma imagem da cena da sarça ardente da ópera de Schoenberg, ele se referia à apresentação de tal obra no Metropolitan em Nova Yorque, no ano de 1993. Coli se dedica a esse estudo semiológico já alguns anos, ele lembra duma citação de Nattiez quando diz: “É verdade que toda a música age sobre nós, mas nós o sabemos, desde o trabalho de Hanslick: “a música não significa nada por si própria” ( apud, Coli, 1993). Hanslick havia apresentado em 1854 uma obra intitulada “Do belo da música” onde apresenta a dicotomia música poesia – especificações irredutíveis, linguagens que são possíveis ao esmiuçamento, mas não entendê-las como unidade, sem hipótese alguma de fusão. Na década de 70 (século XX), teóricos franceses discorreram sobre esse fenômeno. Eram semiólogos, entre eles se destacava: Jean – Jacques Nattiez, Bruno Nettl, Nicolas Ruwwet sob a batuta de Jean Molino, tendo como canal a revista “Musique em jeu”. Eles se preocupavam com a música enquanto linguagem e tentavam explicá-la em métodos inspirados na lingüística estrutural e generativa. Da imagem – texto para música A Imagem e a música sempre viveram uma briga de amor – ao contrário do que se pensa – seja como música, ou como imagem. Um exemplo daquela é a ópera “Moses und Aron”[4] composição de Schoemberg, de herança hebraica e que portanto obedece uma tradição de que seu Deus não pode ser revelado em imagem. Todavia nesta ópera, começada em 1932 – inacabada – traz uma cena do Antigo Testamento quando Deus (....) resolve fazer-se imagem para um mortal (Moisés) por meio de uma sarça ardente – Esse encontro fez com que o rosto de Moisés tenha ficado de tal forma iluminado que o povo hebreu, durante alguns dias, não conseguia contemplar o velho patriarca. Pensar que a voz de Deus que não se revela em imagem pode ser vista por meio de uma sarça e agora levado para uma interpretação sonora pode ser no mínimo extraordinário, no sentido que se desafia como som aquilo que não chegou a ser imagem (imaginado) no texto. A voz de Deus na Sarça e as tábuas quebradas dos dez mandamentos