Esta edição da Revista Técnica chega num momento particularmente marcante para o setor cerâmico europeu. A indústria vive hoje um cenário simultaneamente desafiante e repleto de novas oportunidades, impulsionado pela inovação, pela transição energética, pela digitalização e por uma crescente exigência regulatória. Mas, mais do que isso, vive um período de afirmação técnica e estratégica.
No início de fevereiro de 2026, a habitual participação portuguesa na Feira Ambiente, em Frankfurt, demonstrou de forma inequívoca a força e a vitalidade da indústria nacional. As empresas portuguesas apresentaram-se com qualidade, inovação, design e capacidade de resposta, reforçando a imagem de um setor moderno, exportador e altamente competitivo. Esta presença robusta, construída ao longo de décadas e hoje representada por dezenas de empresas nesta feira, evidencia a confiança crescente dos mercados internacionais no produto cerâmico português.
A este marco junta-se outro momento histórico: a decisão da Comissão Europeia de aplicar um direito antidumping definitivo de 79% às importações de cerâmica de mesa e cozinha provenientes da China. Esta medida representa uma conquista fundamental para a defesa do setor europeu e, em particular, da indústria nacional. É o reconhecimento de anos de trabalho, de resiliência e da capacidade de toda a fileira em demonstrar, com rigor, os impactos das práticas desleais de concorrência sobre empresas, trabalhadores e territórios. É, também, um sinal claro de que a Europa valoriza a produção responsável, qualidade certificada e padrões ambientais elevados.
Neste contexto de transformação acelerada, exemplos como o projeto Cer+Sustentável na vertente da capacitação de trabalhadores, ou o LaserMarKer, na vertente da inovação, assumem um papel determinante na modernização da indústria, promovendo competências técnicas, digitalização, rastreabilidade, eficiência, sustentabilidade e reforço da competitividade. O cruzamento entre inovação tecnológica, design avançado e saber-fazer, amplamente explorado nesta edição, demonstra como o setor está a preparar-se para um futuro mais exigente, mas também mais promissor, na capacidade de responder a mercados que valorizam produtos sustentáveis, diferenciadores e alinhados com novas expectativas de consumo.
Enquanto Centro de Tecnologia e Inovação, o CTCV reforça a sua ambição estratégica de Vigilância Tecnológica e a missão de apoiar as
empresas na interpretação das novas exigências europeias, na adoção de soluções tecnológicas e na capacitação estratégica dos seus profissionais. O lançamento do podcast LISTeN to Industry confirma este compromisso: criar conhecimento, dar voz ao setor, antecipar tendências e aproximar indústria, ciência e políticas públicas.
A Revista Técnica continua, assim, a ser um espaço de reflexão e partilha, num momento em que o setor demonstra, com convicção, que está preparado para enfrentar desafios, consolidar conquistas e construir um futuro mais sustentável, inovador e competitivo, transformando competência em valor, presença em posicionamento e conhecimento em liderança.
Jorge Marques dos Santos Presidente do Conselho de Administração do CTCV
O PAPEL DA NERLEI CCI NA CONSOLIDAÇÃO DA FILEIRA CASA EM FRANKFURT – 25 ANOS DE RESILIÊNCIA E ESTRATÉGIA
Projeto Cer+Sustentável – Capacitação da Indústria Cerâmica para a Sustentabilidade
AMBIENTE 2026 – Empresas Portuguesas Expositoras
Design Computacional na Cerâmica: Estado da Arte e Oportunidades
Da presença ao posicionamento: Repensar a internacionalização da Fileira Casa
Eye-tracking como ferramenta objetiva para reforçar o design centrado no utilizador na indústria cerâmica
Materiais cerâmicos e de cristalaria – casos da França e Dinamarca
Desafios e oportunidades no sector da louça utilitária
Louça Cerâmica: Ensaios, Regulamentação e Exigências dos Mercados Internacionais
Rótulos e declarações ambientais – instrumentos para a sustentabilidader
LaserMarKer – Desenvolvimento de soluções laser para rastreabilidade e personalização de produtos cerâmicos
CERAMIC+: Tecnologia, inovação e património para a revitalização do artesanato cerâmico no espaço SUDOE
LISTeN to Industry: dar voz ao setor, ligar conhecimento, antecipar o futuro
A Normalização como Fator de Competitividade e Sustentabilidade nos Mercados da Construção Sustentável
2026 // #33 | FEVEREIRO/MARÇO | Bimestral
Propriedade, Edição e Redação
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Colaborações
A. Sarabando, Alice Oliveira, Anabela Amado, Ana Boavida, Ana Carvalho, Arabela Fabre, Carlos Pinto, Cátia Carreira, Eva Costa, F. Azedo, G. Marques, Helena Teixeira, Henrique Carvalho, I. Rondão, J. F. Pinto, J. Marinheiro, J. Monteiro, Joana Rovira Martins, Jorge Carneiro, José Pedro Almeida, Luc Hennetier, Marco Leite, Maria Aguiar, Maria Ferreira, Marisa Almeida, N. M. Ferreira, Nádia Jordão, P. Santos, Paulo Rios, Regina Santos, Sandra Carvalho, Sérgio M. Rebelo, Sofia Ferreira, Sofia Torres Costa, T. C. Marques, Teresa Gonçalves, Tiago Martins, Victor Francisco.
Design e Arte Final
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Capa
Fotografia CTCV Impressão
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Tiragem
250 exemplares
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O PAPEL DA NERLEI CCI
NA CONSOLIDAÇÃO DA FILEIRA CASA EM FRANKFURT – 25 ANOS DE RESILIÊNCIA E ESTRATÉGIA
Henrique Carvalho
NERLEI CCI – Associação Empresarial da Região de Leiria/Câmara de Comércio e Indústria
Entre os dias 6 e 10 de fevereiro de 2026, Frankfurt consolidou-se uma vez mais como o "hub" mundial da indústria de bens de consumo. A edição de 2026 da Ambiente, Christmasworld e Creativeworld registou números impressionantes: 4.636 expositores de 170 países e cerca de 140.000 visitantes
A NERLEI CCI – Associação Empresarial da Região de Leiria/Câmara de Comércio e Indústria celebrou este ano um marco histórico: 25 anos de presença ininterrupta e apoio às PME nacionais no certame.
A NERLEI CCI como catalisadora da internacionalização
A trajetória da NERLEI CCI na Feira Ambiente é o retrato da evolu-
ção do tecido empresarial português. O que se iniciou em 2001 com apenas três empresas de cerâmica da região de Leiria, culminou, em 2026, com o apoio a 67 empresas de todo o país.
Através do projeto conjunto International Business 2025-2026, o papel da Associação vai muito além do apoio logístico e financeiro e permitiu que PME de diversos setores — da cerâmica decorativa às cutelarias, passando pelos têxteis e utilidades domésticas — pudessem expor os seus produtos e novidades junto dos maiores players globais.
Após 25 anos de apoio a PME nacionais em certames, a NERLEI CCI consegue afirmar-se junto das empresas como um agente relevante, nomeadamente nesta feira, que é a mais importante a nível mundial, para os sectores presentes. Por outro lado, posiciona-nos como um parceiro incontornável no que respeita ao desígnio nacional de incre-
mentar as exportações portuguesas. Manter e reforçar esta ação durante um quarto de século, é algo que orgulha a Associação, sobretudo porque representa apoio concreto ao tecido Empresarial e ao País.
O retrato das empresas: impacto e resiliência
As 67 empresas que participaram na Feira com o apoio da NERLEI CCI em 2026 representam um impacto económico robusto no tecido nacional:
• 353 milhões de euros de volume de negócios.
• 231 milhões de euros em exportações (resultante de uma intensidade exportadora de 65%).
• 4.303 postos de trabalho diretos.
Esta edição ficou ainda marcada por uma demonstração extraordinária de resiliência. Apesar da tempestade Kristin ter afetado gravemente 29 empresas participantes a poucos dias antes do certame, o "espírito empreendedor" português prevaleceu.
Conclusão: um olhar sobre o futuro
Ao assinalar 25 anos de apoio à internacionalização em Frankfurt, a NERLEI CCI reafirma a importância das operações conjuntas. Num contexto global onde a incerteza é a nova realidade o apoio estruturado de uma Associação Empresarial/Câmara de Comércio e Indústria é o que permite às PME portuguesas mitigar riscos e maximizar oportunidades.
Portugal sai da Ambiente 2026 com o prestígio reforçado, não apenas pela qualidade intrínseca do seu produto, mas pela robustez das suas parcerias associativas. O futuro da Fileira Casa passa, invariavelmente, por esta capacidade de agir em conjunto, transformando desafios locais em sucessos globais.
De forma a dar continuidade ao que a NERLEI CCI tem vindo a fazer nos últimos 25 anos, foi apresentado um projeto conjunto para
apoiar a próxima edição. A edição de 2027 da Feira Ambiente, Christmasworld e Creativeworld já tem data marcada: de 29 de janeiro a 2 de fevereiro, Portugal terá novamente uma montra de excelência e qualidade representada por todas as empresas expositoras.
Projeto Cer+Sustentável – Capacitação da Indústria Cerâmica para a Sustentabilidade
1 NERLEI CCI - Associação Empresarial da Região de Leiria/Câmara de Comércio e Indústria; 2 Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), Coimbra
Resumo
O artigo apresenta a importância da capacitação da indústria cerâmica de louça decorativa e utilitária, através do projeto Cer+Sustentável, uma iniciativa estratégica de capacitação da indústria cerâmica portuguesa, enquadrada no COMPETE 2030 e promovida pela NERLEI CCI em parceria com o CTCV.
Com o objetivo de preparar melhor a indústria cerâmica da louça decorativa e utilitária, nos seus processos de internacionalização, este projeto responde aos desafios da descarbonização, eficiência energética, digitalização, inovação e competitividade internacional, reforçando as competências técnicas, organizacionais e digitais das PME. Com um investimento de cerca de 1,46 milhões de euros e execução entre 2026 e 2028, visa modernizar processos produtivos, promover a sustentabilidade e impulsionar a transformação digital.
A formação abrange áreas como eco-design, economia circular, ESG (Environmental, Social and Governance), gestão estratégica, ciência de dados, marketing digital e internacionalização. O modelo combina formação presencial e online, teórica e prática, envolvendo empresários, gestores e trabalhadores. As empresas beneficiam ainda de incentivos financeiros aos custos salariais, reduzindo o impacto económico da formação. O impacto esperado é estrutural, contribuindo para maior eficiência, inovação, sustentabilidade ambiental e reforço da competitividade externa do setor, consolidando a indústria cerâmica como referência no habitat sustentável.
A capacitação do capital humano, no contributo à competitividade da Indústria
da Louça Cerâmica e Decorativa
A indústria cerâmica portuguesa está a apostar na inovação, na eficiência energética e na qualificação dos seus recursos humanos para responder aos desafios ambientais e competitivos dos mercados internacionais. Na louça utilitária e decorativa, Portugal é o maior exportador europeu de louça cerâmica de uso doméstico – em faiança, barro fino, grés e barro comum – e o segundo maior a nível mundial, logo a seguir à China.
A indústria cerâmica portuguesa atravessa um período de profunda transformação estrutural, marcado por exigências crescentes ao nível da descarbonização, da eficiência energética, da digitalização industrial e da adaptação a mercados internacionais cada vez mais competitivos e regulados. A par destas pressões externas, as empresas enfrentam ainda desafios associados à reorganização das cadeias de abastecimento, à necessidade de inovação contínua e à escassez de recursos humanos qualificados. Neste contexto, o reforço das competências organizacionais, técnicas e digitais das PME, assume-se como um fator crítico de sustentabilidade e diferenciação competitiva.
Nos últimos anos tem-se assistido a um esforço crescente de modernização, com fortes investimentos em tecnologia e atividades de I&D, sejam projetos individuais, em consórcio ou mobilizadores, com o investimento em atividades de inovação e tecnologia e na contratação de quadros qualificados, que têm permitido um upgrade da cadeia de valor e o incremento das transações internacionais.
Adicionalmente, observa-se uma grande abertura e interesse pela tecnologia, inovação, design de produto e sustentabilidade, o que, em conjugação com as iniciativas coletivas que se têm desenvolvido, permitem à indústria encetar um caminho de inovação e sustentabilidade, evidenciando capacidade de inovação e renovação tecnológica, assistindo-se a uma tendência crescente de desenvolvimento de novas tecnologias e metodologias produtivas e de evolução dos processos de produção.
Esta indústria configura ainda assim e para potenciar o investimento em tecnologia, no caminho da sustentabilidade, um conjunto de necessidades a montante (com a incorporação de práticas de eficiência operacional, sustentabilidade, inovação e investimento produtivo) e a jusante, melhorando a sua capacidade de resposta a mercados internacionais, de uma maior aposta no seu capital humano, minimizando as fragilidades, capacitando-o para responder de forma qualificada aos desafios e exigências internacionais e à transferência de conhecimento entre gerações.
Num estudo desenvolvido pela Nova SBE, e liderado pelo CTCV no âmbito da Agenda verde ECP Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal, a automatização de processos assume-se como uma alavanca
para a evolução tecnológica destas empresas, estimando que mais de 50% das funções serão fortemente impactadas pela automação nos próximos 5 anos, o que obriga a que os quadros técnicos e os engenheiros de processo se especializem em automação, robótica e digitalização de processos, para otimizar e aumentar os níveis de eficiência e sustentabilidade dos processos industriais, já que quanto mais automatizados forem os processos industriais, maior é a contribuição na proteção ambiental, na redução de emissões de gases do efeito estufa, um dos grandes desafios desta indústria. Ao mesmo tempo a pressão regulatória em matéria de ambiente, e a exigência dos mercados, impõe às empresas modelos de produção mais sustentáveis. Este novo paradigma de produção pode ser visto numa primeira abordagem como um desafio complexo, mas terá de ser visto como uma oportunidade essencial para conseguir uma vantagem competitiva significativa, em especial nos mercados internacionais.
O Projeto Cer+Sustentável
Investir no conhecimento e na capacitação do capital humano, é investir no crescimento sustentável da indústria e é neste enquadramento que surge o projeto Cer+Sustentável – Capacitação da Indústria Cerâmica para a Sustentabilidade. Esta iniciativa visa uma clara aposta no capital humano das PME deste setor em particular, considerando-o como um pilar estratégico para a sua modernização e inovação, explorando programas inovadores, através de uma aliança estratégica entre a NERLEI CCI, enquanto promotor, e o CTCV, enquanto Centro de Tecnologia e Inovação e entidade formadora e uma equipa de formadores altamente qualificados nas áreas de intervenção do projeto.
O projeto encontra-se enquadrado no COMPETE 2030 – Programa Temático Inovação e Transição Digital, no âmbito do SIQRH – Formação Empresarial Conjunta, integrando o Cluster de Competitividade Habitat Sustentável, assumindo-se como uma intervenção estruturante dirigida às PME da indústria cerâmica, localizadas nas regiões Norte e Centro.
A caracterização do projeto evidencia a sua dimensão estratégica e o seu alcance nacional. Trata-se de um programa de qualificação empresarial de grande escala, com um investimento total de 1.462.073,10 euros. Este enquadramento financeiro posiciona o Cer+Sustentável como um dos mais relevantes investimentos recentes na capacitação da indústria cerâmica, refletindo uma aposta clara na valorização do capital humano como motor de modernização e competitividade. O projeto inicia em abril de 2026 e termina em 2028, assegurando tempo útil para consolidação de resultados e integração efetiva das competências adquiridas nas organizações.
O projeto tem como objetivo central reforçar as capacidades de gestão e qualificação das empresas participantes, promovendo simultaneamente inovação organizacional, modernização tecnológica e transformação digital. A intervenção incide sobre a digitalização e integração de ferramentas avançadas de gestão e produção, a melhoria da
eficiência energética e a descarbonização dos processos industriais, bem como o desenvolvimento de competências digitais avançadas, incluindo ciências de dados aplicadas e machine learning. Paralelamente, promove a valorização e adaptação dos recursos humanos através de estratégias de upskilling e reskilling, reforçando a capacidade de retenção de talento e a especialização interna das empresas.
O plano formativo contempla áreas críticas para o posicionamento competitivo do setor, como o eco-design e a engenharia de produto suportados por ferramentas digitais, a economia circular, a sustentabilidade ambiental, a governança ESG, a gestão estratégica e a melhoria da produtividade, a gestão ágil da cadeia de abastecimento, bem como a internacionalização através do reforço das competências em e-commerce, marketing digital e comunicação estratégica. Esta abordagem integrada permite atuar de forma transversal sobre processos, produtos, modelos de negócio e competências, assegurando coerência com as metas europeias de transição climática e transformação digital.
O modelo de implementação foi concebido para garantir aplicabilidade prática e alinhamento com a realidade empresarial. As ações de formação podem decorrer em regime presencial ou à distância, em formato intraempresa ou interempresa, integrando sessões teóricas, práticas simuladas e formação em contexto real de trabalho. Cada ação pode integrar até 25 formandos, assegurando equilíbrio entre escala e acompanhamento técnico especializado. Os destinatários incluem empresários, gestores e trabalhadores com vínculo laboral às PME beneficiárias, promovendo uma abordagem transversal e sistémica à transformação organizacional.
As vantagens de adesão ao projeto são particularmente relevantes para as empresas do setor. Para além do acesso a formação especializada alinhada com as exigências atuais do mercado, as PME beneficiam de um incentivo financeiro significativo aos encargos salariais dos trabalhadores em formação. Este mecanismo reduz substancialmente o custo efetivo da formação, permitindo que a qualificação seja encarada como investimento estratégico e não como encargo adicional. Acresce que o reforço de competências técnicas, digitais e de gestão contribui diretamente para a melhoria da eficiência operacional, redução de desperdícios, aumento da produtividade e reforço da capacidade de resposta a clientes e mercados internacionais.
O impacto esperado do Cer+Sustentável é de natureza estrutural, incidindo na modernização dos processos produtivos, na melhoria do desempenho energético e ambiental, na incorporação de práticas sustentáveis na gestão e no fortalecimento da competitividade externa da indústria cerâmica portuguesa. Ao promover uma cultura organizacional orientada para a inovação, sustentabilidade e digitalização, o projeto contribui para consolidar o posicionamento do setor enquanto referência no âmbito do Habitat Sustentável.
A parceria entre a NERLEI CCI e o CTCV constitui um elemento diferenciador da iniciativa, combinando proximidade ao tecido empresarial com conhecimento técnico e tecnológico aprofundado do setor. Esta
articulação garante coerência estratégica, rigor técnico e adequação das respostas formativas às necessidades concretas das empresas.
Num contexto de transformação industrial profunda, investir em qualificação, inovação e sustentabilidade é uma condição indispensável para assegurar a competitividade futura. O Cer+Sustentável afirma-se, assim, como um instrumento estruturante de capacitação empresarial, contribuindo de forma decisiva para uma indústria cerâmica mais resiliente, mais eficiente e plenamente alinhada com os desafios da transição digital e climática.
Plano de Formação
O Plano de Formação está estruturado em dois modelos de formação:
INTRAEMPRESA com o objetivo de responder à Excelência Operacional e que se realiza nas instalações das PME e privilegiando uma vertente de formação predominantemente prática, desenvolvendo situações similares à do contexto real de trabalho.
Designação do Curso
Processo Industrial Cerâmico
Otimização e rentabilização de processos industriais
Técnicas Laboratoriais de Controlo de matérias-primas e vidrados
Gestão da Produção
Práticas sustentáveis e circularidade
Pegada Ambiental e Ciclo de Vida do Produto Cerâmico
Economia Circular e Simbioses
Industriais: Reutilização e Valorização de Subprodutos
Gestão e Otimização de Recursos Hídricos do Processo Industrial
Métricas da Sustentabilidade Europeias e Nacionais
Apesar das necessidades serem comuns, os processos, materiais e produtos são distintos, sendo o objetivo desta formação utilizar casos reais e confrontar os colaboradores, promovendo o sentido de análise, crítico e de decisão, defendendo as suas ideias e posições, relativamente ao problema central, trabalhando por um lado a componente técnica, mas também a comportamental/atitude perante os desafios, os problemas, nomeadamente a resiliência, o sentido crítico, a análise de dados e a proposta de soluções. Na metodologia que se pretende aplicar na formação intraempresa, os colaboradores/ /formandos são desafiados a fazer análise de situações reais, sendo incentivados em equipa a identificar os problemas, decisões a tomar, as alternativas de ação e implementação
INTEREMPRESAS com o objetivo da resposta aos Desafios da Sustentabilidade e Melhoria dos processos de Internacionalização, podendo ser realizado em formatos presencial, online ou híbrido e em estreita articulação com os cursos realizados num formato intraempresa, para que o conhecimento transmitido tenha maior eficácia na sua transferência.
Objetivos
Percorrer todas as fases do processo, e introduzir práticas de sustentabilidade e descarbonização, em particular na gestão e eficiência de recursos
Criar mecanismos e ferramentas de custeio que permitam uma identificação clara da alocação de recursos (matérias-primas, energia, mão de obra e gastos gerais de fabrico) e a identificação de oportunidades de otimização nos processos fabris, para que haja um melhor controlo de custos e aumento das margens (maior competitividade internacional)
Capacitar para prevenir e controlar a ocorrência de defeitos e falhas no processo (melhoria da qualidade do produto colocado no mercado)
Criar um melhor planeamento, logística, automatização de processos e Ferramentas de controlo para redução de tempos de produção, expedição e entrega ao cliente (melhor posicionamento da empresa/marca)
Desenvolver uma resposta qualificada às exigências de clientes internacionais (maior capacidade de resposta às exigências dos clientes)
Permitir avaliar o impacto ambiental de produtos, processos e atividades industriais
Avaliar a capacidade de reaproveitamento e utilização dos resíduos como matérias-primas de ou para outras indústrias, numa lógica de circularidade
Minimizar o desperdício e garantir consumos responsáveis
Quantificar, atendendo às políticas e considerando o contexto da Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa, a necessidade de traçar metas relativas aos indicadores de sustentabilidade, bem como de elaborar relatórios de sustentabilidade é ainda desafiante para a maioria das empresas e deve começar a ser preparado
Designação do Curso
Rótulos de Sustentabilidade Internacionais
Auditorias de Cliente
Ecoinovação
Análise de dados para a tomada de decisão em mercados externos
Estratégias de entrada em mercados internacionais
Estratégias de marketing digital para a comunicação em mercados internacionais
Objetivos
Conhecer as exigências de clientes internacionais em matéria de sustentabilidade e estimular a oferta de produtos ou serviços com impacto ambiental reduzido, contribuindo para a promoção e um maior desempenho ambiental na resposta aos mercados externos
Conhecer os requisitos de certificação SEDEX (SMETA), ICS, HIGG FEM, SLCP, BSCI, FS e outras, conhecendo os modelos de auditoria de sustentabilidade, criadas com o objetivo de contribuir para que as empresas fornecedoras trabalhem de maneira ética, independentemente da sua dimensão
Estimular o desenvolvimento de novas soluções, produtos, processos, que têm como objetivo reduzir o seu impacto ambiental e, ao mesmo tempo, aumentar a sua eficiência e competitividade
Revelar a importância do processo de seleção de mercados internacionais, selecionando os que têm maior potencial para cada empresa, com a adoção da ciência de dados
Capacitar as empresas para a tomada de decisão das opções estratégias relativas ao ritmo de expansão e ao portfólio de produtos e mercados
Fornecendo ferramentas e estratégias para atingir públicos internacionais, considerando a complexidade de diferentes culturas, língua e regulamentações
O projeto foi avaliado com Mérito Final (MP) de 4,52/5, prevendo-se que 80% dos participantes melhorem a sua situação laboral após a formação, estando definidos mecanismos de monitorização, avaliação contínua e melhoria.
O projeto em números
• Período de execução: 01/04/2026 a 30/09/2028
• Volume de formação: 100.005 horas
• Número de cursos: 15
• PMEs envolvidas: 25
• Trabalhadores abrangidos: 1.480
• Formandos abrangidos: 4.375
• Modelos de formação:
- Intraempresa (excelência operacional – 114h)
- Interempresa (sustentabilidade e inovação – 42h)
Apresentação do projeto cer+sustentável, na Feira Ambiente
Design Computacional na Cerâmica: Estado da Arte e Oportunidades
Sérgio M. Rebelo 1 , Sofia Torres Costa 1 , Joana Rovira Martins 1 , Ana Boavida 1 e Tiago Martins 1 1 Universidade de Coimbra, CISUC/LASI – Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra, Departamento de Engenharia Informática
Os avanços nos métodos computacionais e na Inteligência Artificial têm transformado as práticas de design na cerâmica, introduzindo novas abordagens à produção e possibilidades formais. Situado na interseção entre o artesanato e a ciência dos materiais, o setor pode adotar técnicas computacionais que permitem explorar formas complexas, ultrapassando limitações das práticas tradicionais.
Neste contexto, o projeto Ceramorfose explora a convergência entre design, ciência da computação e cerâmica, desenvolvendo e aplicando métodos de design computacional para gerar novas soluções de forma dinâmica, interativa e iterativa. A integração entre o saber-fazer artesanal e os métodos computacionais expande as possibilidades criativas, permitindo a experimentação de soluções que esbatem as fronteiras entre a autoria humana e a agência computacional.
Como ponto de partida, realizou-se uma revisão sistemática da literatura para analisar a aplicação de métodos computacionais no design de cerâmica. Foram analisados 56 sistemas, permitindo identificar tendências e perspetivas conceptuais e técnicas. Este levantamento serviu de base à criação de um enquadramento analítico para organizar e interpretar as soluções geradas por estes sistemas. O en-
quadramento organiza-se em quatro dimensões: conceito, geração, interação e fabrico, mostrando diferentes formas de aplicação da computação ao longo das várias fases do design e da produção cerâmica, desde a conceptualização até à materialização.
Os resultados desta análise do estado da arte revelam uma predominância de métodos determinísticos aplicados a tipologias tradicionais, mas também identificam oportunidades relevantes para o setor. Estas incluem a exploração de conceitos como a personalização, a modularidade, a integração de aprendizagem de máquina e o desenvolvimento de modelos de interação que suportem processos co-criativos humano-computador.
Conceito
A análise revelou que a intenção conceptual dos processos computacionais no domínio da cerâmica é influenciada principalmente pela tipologia e pela função das peças resultantes (ver Figura 1).
Quanto à tipologia, os sistemas dividem-se em cinco categorias: con-
Figura 1 - Relação e distribuição dos atributos conceptuais (ti pologia e função) nos sistemas analisados.
tentores, azulejos e blocos, candeeiros, esculturas e tipologia mista. Os contentores representam cerca de metade dos casos, refletindo a sua centralidade histórica e a adequação à exploração computacional, permitindo variar o desenho sem comprometer a função. As esculturas exploram a expressividade, criando geometrias e padrões complexos. Azulejos e blocos e candeeiros surgem com menor frequência, sendo a computação usada principalmente para promover a personalização e a variação. Sistemas de tipologia mista exploram abordagens de criação livre ou de transferência de características visuais.
Quanto à função, predominam soluções decorativas ou mistas, com poucos casos exclusivamente utilitários. Os contentores dominam as categorias utilitária e mista, evidenciando o equilíbrio entre função e ornamentação. Em geral, observamos que design computacional aplicado à cerâmica opera sobre tipologias conhecidas, ampliando a sua expressividade e complexidade formal.
Concepção
Nos processos de concepção computacional em cerâmica, as formas podem ser criadas do zero ou a partir da modificação de uma forma base. Existem variações quanto à dependência de dados e à previsibilidade das soluções (ver Figura 2).
A maioria dos sistemas analisados foca-se na criação de novas formas, seja a partir de uma geometria base ou geradas por algoritmo. Menos frequentemente, alguns sistemas aplicam variações localizadas no relevo da superfície, como padrões ou texturas, sem alterar a estrutura principal.
Grande parte dos sistemas não depende de dados, recorrendo a design paramétrico, regras, gramáticas, métodos procedimentais ou algoritmos inspirados na natureza. Sistemas baseados em dados têm-se tornado mais comuns recentemente, especialmente através
de técnicas de Inteligência Artificial e de aprendizagem de máquina. Abordagens híbridas, embora incomuns, combinam métodos com diferentes dependências de dados, equilibrando autonomia computacional e controlo do designer.
Quanto à previsibilidade, predominam sistemas determinísticos, que geram soluções consistentes quando testados nas mesmas condições, embora também existam sistemas estocásticos, que geram soluções diferentes independentemente dos dados de entrada. Em resumo, a geração de formas em cerâmica apresenta diversidade metodológica, com predominância de abordagens determinísticas, mas com crescente relevância de métodos baseados em dados.
Interação
Considerando a interação entre utilizadores e os processos de design computacional, esta pode ser descrita por quatro atributos: tipo de ação, momento da interação, iniciativa criativa e autoridade na decisão final. Estes atributos permitem compreender a distribuição de agência e controlo entre humanos e os sistemas computacionais (ver Figura 3).
Muitos sistemas não permitem interação. Nos sistemas interativos, a forma mais comum é a manipulação de parâmetros, onde o utilizador define variáveis e restrições que orientam o processo generativo. Menos frequente é a manipulação direta da geometria, através de desenho, manipulação ou deformação em tempo real. Apenas num sistema a interação pretende avaliar as soluções, permitindo escolher entre as alternativas geradas.
O momento da interação ocorre principalmente antes da geração, na definição de parâmetros ou condições iniciais, sendo menos comum durante a geração e rara durante o fabrico, surgindo apenas em contextos experimentais. A iniciativa criativa e a decisão final permane-
Figura 2 - Distribuição e relação dos atributos de conceção (at ributos de design, dependência de dados e previsibilidade) nos sistemas analisados.
cem predominantemente com o utilizador humano, indicando que estes sistemas funcionam sobretudo como ferramentas de suporte à criatividade, expandindo capacidades humanas sem alterar significativamente a autoria.
Fabrico
O fabrico e a materialização de peças resultantes de abordagens de design computacional podem ser analisados segundo três atributos principais: os processos de produção, a replicabilidade das soluções e os materiais utilizados (ver Figura 4).
A manufatura aditiva domina o contexto de fabrico, com destaque para técnicas de extrusão de argila, especialmente o robocasting,
devido à sua acessibilidade e compatibilidade com fluxos de trabalho computacionais. São utilizados braços robóticos e sistemas de extrusão fixa, permitindo diversos gestos espaciais e níveis de controlo. Outras técnicas aditivas, como binder jetting, modelação por deposição fundida (FDM) e estereolitografia (SLA) são menos frequentes. Métodos subtrativos são raros, enquanto técnicas cerâmicas convencionais, como slipcasting ou modelação manual, são exploradas em alguns casos, frequentemente combinadas com moldes desenhados computacionalmente.
A maioria dos processos de fabrico é replicável. Alguns sistemas, porém, incorporam intervenção humana. A argila domina os materiais, sendo adequada à extrusão e central na prática cerâmica, enquanto plásticos e porcelana surgem ocasionalmente para testes ou superfícies refinadas. A vidragem é comum, normalmente com
Figura 3 - Distribuição e relação dos atributos de interação (a ção, momento, iniciativa, decisão final) nos sistemas analisado s.
Figura 4 - Distribuição e relação dos atributos de fabrico (pro cesso, reprodutibilidade, material) nos sistemas analisados.
função estética ou protetiva, por vezes orientada computacionalmente.
Em síntese, a fabricação na cerâmica computacional é predominantemente orientada pela manufatura aditiva, embora abordagens manuais e híbridas mantenham relevância.
Conclusões e Oportunidades
A análise do estado da arte permite concluir que a cerâmica computacional constitui um domínio ainda em consolidação, caracterizado por oportunidades de investigação que, embora apoiadas em práticas já testadas, permanecem pouco exploradas. Estas situam-se sobretudo na articulação entre a conceptualização, os processos generativos, a interação humano–máquina e o fabrico cerâmico.
A primeira oportunidade relevante é a personalização. Os sistemas computacionais permitem a geração de múltiplas variações de um mesmo objeto; contudo, a maioria das abordagens permanece limitada a variações paramétricas controladas pelo designer. Possibilita-se o desenvolvimento de sistemas que suportem uma personalização mais profunda, quer por parte de designers, quer do utilizador final. Esta abordagem potencia a criação de coleções e famílias de objetos geradas por um mesmo sistema computacional, prática tecnicamente viável, mas raramente explorada de forma explícita.
A modularidade é outra oportunidade identificada. A maioria dos sistemas analisados foca-se em objetos singulares, negligenciando abordagens baseadas em módulos combináveis. A sua aplicação à cerâmica computacional possibilitaria a criação de sistemas reconfiguráveis, expansíveis ou adaptáveis a diferentes contextos de uso. Apesar dos desafios materiais associados à cerâmica, esta abordagem mostra potencial em tipologias como revestimentos, elementos arquitetónicos, iluminação ou objetos compostos por múltiplas partes.
Quanto aos processos computacionais, nota-se uma forte dependência de modelos paramétricos determinísticos, evidenciando a oportunidade para o desenvolvimento de sistemas co-criativos. Abordagens baseadas em aprendizagem automática, modelos generativos e sistemas evolutivos podem permitir explorar novas formas de geração, mantendo coerência estilística ou respondendo a preferências do utilizador.
Associada a este desafio está a complexidade dos parâmetros, que dificulta a exploração de soluções. Conclui-se que a investigação de mecanismos que orientem o utilizador é muito relevante, por exemplo, através da aprendizagem de preferências ou da redução de opções. Além disso, a integração de outros tipos de inputs, como som, imagem, vídeo, prompts textuais ou combinações multimodais é uma linha promissora.
Ao nível do fabrico, a predominância da extrusão de barro revela a necessidade de explorar processos alternativos ou híbridos, como o binder jetting e a combinação de métodos aditivos e subtrativos.
Em síntese, a cerâmica computacional não se limita à geração paramétrica da forma e configura um campo fértil para o desenvolvimento de sistemas adaptativos, modulares e co-criativos na prática cerâmica. A investigação futura beneficiará de abordagens onde a computação não apenas automatiza, mas interage com o ser humano, o material e o processo criativo, promovendo sistemas mais expressivos e alinhados com as necessidades reais do setor cerâmico.
Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto Ceramorfose — Produtos cerâmicos usando Design Generativo, Inteligência Artificial e Manufatura Aditiva, projeto em fase de desenvolvimento pelo consórcio composto pela FBA. — Ferrand, Bicker & Associados, a PPA — Perpétua Pereira e Almeida, o CTCV — Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro e a UC — Universidade de Coimbra, financiado pelo Portugal 2030 — CENTRO2030 – UE, através do Sistema de Incentivos à Investigação e Desenvolvimento Tecnológico, projeto em copromoção n.º 17372, operação nº CENTRO2030-FEDER-01186800.
Da presença ao posicionamento: Repensar a internacionalização da Fileira Casa
Paulo Rios
AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal
A fileira casa e, em particular, o setor da cerâmica de mesa, integram um dos domínios onde Portugal tem demonstrado uma capacidade consistente de afirmação internacional, sustentada numa base industrial sólida, qualidade produtiva reconhecida, aposta crescente no design e incorporação progressiva de critérios de sustentabilidade.
Essa base é relevante, mas não elimina um desafio central: transformar presença internacional em posicionamento competitivo sustentável.
Num contexto internacional marcado por elevada concorrência, fragmentação de mercados e exigência crescente por diferenciação, a presença em plataformas globais como a Ambiente continua a ser importante. Importa, no entanto, afirmá-lo com clareza: a relevância de uma feira não resulta do evento em si, mas da estratégia que a enquadra.
Para as empresas portuguesas, a Ambiente deve ser encarada sobretudo como um instrumento de posicionamento, reforço de relações comerciais, acesso a novos interlocutores e leitura qualificada das tendências que hoje condicionam a procura internacional, do design à sustentabilidade, da rastreabilidade ao posicionamento ético.
A experiência demonstra, contudo, que participar numa feira não garante resultados quando a presença não é precedida por objetivos claros, preparação comercial adequada e um plano de acompanhamento estruturado. Muitas empresas regressam com contactos, mas sem critérios para os qualificar; com perceções de mercado, mas sem capacidade para as transformar em decisões estratégicas.
É neste ponto que se impõe uma mudança de paradigma. As feiras devem ser encaradas como instrumentos ao serviço de uma estratégia contínua de internacionalização, e não como ações isoladas. Reforçar relações comerciais, captar novos mercados e testar propostas de valor exige planeamento, foco e disciplina. Exige, sobretudo, que as empresas assumam que internacionalizar não é apenas vender produto, mas construir posicionamento.
Hoje, não basta apresentar um bom produto nem um bom conceito. O mercado internacional valoriza propostas coerentes, onde design, processo produtivo, sustentabilidade e posicionamento se reforçam mutuamente. Para muitas PME, isso implica trabalhar em parceria,
alinhar competências e estruturar a oferta de forma integrada. Nestas condições, ensinar o mercado deixa de ser opcional e passa a ser um elemento central da abordagem comercial, num contexto de forte pressão sobre preços e diferenciação cada vez mais exigente.
Este desafio manifesta-se de forma distinta entre empresas industriais e empresas de design, que coexistem na fileira casa com competências complementares, mas frequentemente desconectadas. As primeiras asseguram escala, consistência produtiva e capacidade de resposta; as segundas acrescentam diferenciação, linguagem estéti-
ca e funcional e proximidade às tendências de consumo. No mercado internacional, porém, estas dimensões são cada vez menos avaliadas em separado. A relevância constrói-se na articulação entre produto, design, narrativa e capacidade industrial e não na excelência isolada de cada componente.
A fileira parte de uma base que não é neutra nem irrelevante. Tem demonstrado capacidade de adaptação, inovação e superação, visível na aposta no design, na personalização, na fiabilidade produtiva e na integração de soluções ambientalmente mais sustentáveis. Qualidade, flexibilidade e confiança fazem hoje parte da perceção do mercado sobre a oferta nacional. O desafio já não está na capacidade de produzir, mas em transformar essa capacidade em maior relevância internacional, através de uma comunicação mais focada, maior arrojo na abordagem comercial e parcerias que reforcem coerência e escala à proposta apresentada.
Neste enquadramento, o papel da AICEP vai muito além do apoio à participação em feiras. Enquanto entidade pública responsável pela promoção internacional das empresas portuguesas, cria valor quando atua como parceiro estratégico, apoiando a definição de mercados prioritários, a leitura estruturada das tendências internacionais, a preparação das abordagens comerciais e a consolidação de redes de contacto qualificadas.
O objetivo não é incentivar presenças pontuais, mas ajudar as empresas a tomar melhores decisões, com base em informação, foco e coerência estratégica.
A internacionalização bem-sucedida da fileira exige, por isso, uma lógica integrada. Feiras internacionais como a Ambiente devem funcionar como pontos de ancoragem num percurso mais amplo, que inclui capacitação, presença regular nos mercados, construção de marca e reforço consistente da notoriedade da marca Portugal.
Internacionalizar não é apenas vender mais; é posicionar melhor, comunicar com clareza e construir relações de longo prazo.
A AICEP continuará a assumir esse desígnio: apoiar as empresas portuguesas na transição de uma presença internacional ocasional para uma atuação consistente, informada e estrategicamente orientada, reforçando simultaneamente a competitividade do setor e a reputação de Portugal nos mercados internacionais.
Eye-tracking como ferramenta objetiva para reforçar o design centrado no utilizador na indústria cerâmica
Teresa Gonçalves 1 , José Pedro Almeida 1 , Cátia Carreira 2 , Marco Leite 3
1 Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial (INEGI), 2 Vista Alegre,
3 Instituto Superior Técnico (IST)
Introdução
Num mercado cada vez mais competitivo, caracterizado pela necessidade de diferenciação e adaptação a mercados cada vez mais exigentes, os produtos são avaliados de acordo com a experiência do utilizador, a qualidade percecionada, a clareza funcional e o valor simbólico associado à marca e ao utilizador (Wang et al., 2024). Esses elementos afetam significativamente as decisões de compra, a aceitação do produto e a fidelidade do cliente a longo prazo (Berni et al., 2023).
Os recentes desenvolvimentos do mercado indicam que soluções tecnicamente equivalentes podem alcançar diferentes graus de sucesso com base nas perceções dos utilizadores finais. Fatores como a compreensibilidade do produto, a consistência formal, a robustez percebida e a versatilidade influenciam significativamente essas perceções (Still & Crane, 2017). Neste contexto, o design centrado no utilizador representa uma abordagem estratégica para o desenvolvimento de produtos competitivos que se alinham com as expectativas do mercado.
Integrar os utilizadores no processo de desenvolvimento permite antecipar necessidades, validar soluções e reduzir os riscos associados a decisões de design baseadas exclusivamente em critérios técnicos, estéticos ou de produção (Wacnik et al., 2025). No entanto, a avaliação contínua e consistente da experiência do utilizador continua a ser um desafio, especialmente quando se tenta compreender as reações emocionais que ocorrem imediatamente e, muitas vezes, inconscientemente durante a interação com o produto (Berni et al., 2023).
As emoções moldam a perceção, a utilização e o valor percecionado do produto ao longo do tempo, o que é especialmente significativo ao projetar soluções destinadas a uma longevidade prolongada, reutilização ou uma segunda vida (Chao et al., 2023). Neste contexto, o uso de ferramentas objetivas como o eye-tracking para observar o comportamento do utilizador durante a interação com o produto oferece uma oportunidade para melhorar o processo de desenvolvimento com dados objetivos (Guo et al., 2024).
Este artigo apresenta uma abordagem técnica aplicada que integra
a avaliação emocional no desenvolvimento de produto, recorrendo à tecnologia de eye-tracking como ferramenta de apoio à decisão. A metodologia de Design for Emotional Response é ilustrada através de um caso prático de desenvolvimento de uma embalagem com segunda vida da Vista Alegre, demonstrando o potencial desta abordagem para apoiar escolhas de design e reforçar a competitividade industrial.
Avaliação
emocional como ferramenta estratégica no desenvolvimento de produto
A resposta emocional de um utilizador molda significativamente a sua perceção geral de um produto, a sua aceitação e a sua retenção a longo prazo (Zhang et al., 2025). Emoções positivas, como admiração, curiosidade, interesse e estímulo, estão ligadas a uma maior qualidade percecionada, maior envolvimento e maior apreciação da solução proposta (Franzak et al., 2014). Num setor onde o desempenho técnico é frequentemente comparável entre os produtos, essas respostas emocionais podem servir como um fator diferenciador.
Além de influenciar as decisões de compra, as respostas emocionais afetam diretamente o uso diário do produto (Alonso-García et al., 2023). Os produtos que despertam interesse e envolvimento são normalmente manuseados com mais cuidado, examinados mais minuciosamente e integrados de forma mais consistente no contexto de uso do utilizador (Pandey & Vaidya, 2025). Essa relação é especialmente significativa no design de produtos e embalagens que oferecem funções adicionais ou potencial para reutilização.
A dimensão emocional desempenha um papel central nas estratégias que visam a sustentabilidade e a economia circular (Chapman, 2012). Os produtos e embalagens concebidos para reutilização ou ciclos de vida prolongados dependem significativamente da vontade dos utilizadores de os preservar e reintegrar no seu dia-a-dia (Mastria et al., 2024). Os produtos que promovem o apego emocional são mais suscetíveis de serem mantidos por períodos mais longos, reduzindo assim o descarte prematuro e promovendo uma utilização mais eficiente dos produtos (Chapman, 2012).
Apesar da sua importância, a avaliação das respostas emocionais depende frequentemente de métodos subjetivos, como questionários ou entrevistas. Embora estas abordagens forneçam informações valiosas, elas possuem limitações inerentes, pois dependem da capacidade do participante de reconhecer e articular emoções que surgem rápida e automaticamente durante a interação com o produto (Liu et al., 2023). Além disso, essas avaliações são normalmente realizadas após a experiência e podem não captar com precisão as reações imediatas durante o uso.
Eye-tracking como ferramenta técnica de apoio ao desenvolvimento de produto
A tecnologia de eye-tracking (Figura 1) regista o comportamento visual dos utilizadores, identificando a localização, a duração e a sequência de movimentos do olhar (Holmqvist et al., 2011). Esse método não invasivo fornece indicadores objetivos de atenção visual, interesse e envolvimento cognitivo, permitindo inferir reações emocionais a vários estímulos do produto (Goode et al., 2022; Wilkinson & De Angeli, 2014).
Quando aplicado ao desenvolvimento de produtos, o eye-tracking permite uma análise detalhada de como os utilizadores exploram visualmente os objetos, interpretam a sua forma e função e identificam os elementos que mais chamam a sua atenção (Kuo et al., 2021). Métricas como tempo de fixação, número de fixações, duração média do olhar e frequência do piscar de olhos facilitam a avaliação
do impacto de características como cor, geometria, textura, materialidade, robustez e funcionalidade (Guo et al., 2024).
A análise desses dados permite identificar discrepâncias entre os resultados pretendidos pelo projeto e as perceções reais dos utilizadores, além de esclarecer quais elementos facilitam ou dificultam a compreensão do produto (Wang et al., 2023). Quando correlacionadas com avaliações funcionais e emocionais, essas métricas servem como uma ferramenta de apoio à decisão, validando opções de design, orientando ajustes e reduzindo a incerteza no desenvolvimento de novas soluções (Skaramagkas et al., 2023).
A integração do eye-tracking no processo de desenvolvimento do produto oferece oportunidades para otimizar recursos, minimizar iterações físicas e melhorar a adequação do produto ao mercado. O uso dessa ferramenta durante as etapas iniciais permite a deteção precoce de problemas de perceção ou compreensão antes da industrialização, facilitando assim soluções mais eficazes que se alinham às expectativas do utilizador final.
Aplicação industrial: desenvolvimento de uma embalagem cerâmica com segunda vida
A metodologia foi implementada no desenvolvimento de embalagens para um produto cerâmico premium. Essas embalagens tinham como objetivo cumprir funções de transporte e proteção e servir a
Figura 1 - Tecnologia de eye-tracking
um propósito secundário após o seu uso inicial. O objetivo era avaliar como as características das embalagens afetam a perceção do utilizador, a resposta emocional e a disposição para reutilizá-las.
O estudo incluiu 140 participantes com diferentes características que interagiram com um protótipo físico da embalagem enquanto usavam óculos eye-tracking (Figura 2). A interação foi organizada em fases distintas: observação visual inicial, manuseio e desmontagem do produto. Essa metodologia permitiu a análise da progressão da atenção visual durante a experiência e facilitou a identificação de elementos que informam a compreensão da funcionalidade, robustez e potencial de reutilização da embalagem.
A avaliação foi complementada com questionários focados na perceção de valor, qualidade, durabilidade, versatilidade e adequação da solução. Características específicas, como a clareza funcional dos componentes, facilidade de desmontagem e perceção de robustez estrutural, também foram analisadas.
Os resultados demonstraram correlações consistentes entre as métricas de eye-tracking e as emoções positivas. Especificamente, emoções como admiração, estimulação e fascínio estavam ligadas a durações de fixação mais longas e padrões distintos de exploração visual. Essas
respostas emocionais estavam diretamente relacionadas a uma avaliação geral mais favorável do produto e a uma maior probabilidade de reutilização e valorização da segunda vida da embalagem.
Após a recolha de dados, o conceito e design foram revistos para incluir melhorias na cor, robustez estrutural e simplificação dos componentes. Além disso, todos os elementos da embalagem foram concebidos para uma utilização funcional secundária, reforçando assim o alinhamento entre a intenção do design e a perceção do utilizador.
Conclusões
A integração de ferramentas de observação objetiva, como o eye-tracking, no desenvolvimento de produtos oferece à indústria uma maneira de aprimorar o design centrado no utilizador com dados confiáveis. Ao associar o comportamento visual, a resposta emocional e a avaliação funcional, essa abordagem apoia decisões de design informadas, reduz riscos e aumenta a aceitação no mercado.
A aplicação da metodologia Design for Emotional Response em conjunto com o eye-tracking fortalece o processo de desenvolvimento do produto, capturando as emoções explícitas e implícitas do utilizador durante a interação com o mesmo. O eye-tracking fornece dados quantitativos sobre a atenção visual e a exploração de recursos, enquanto o Design For Emotional Response interpreta essas descobertas em termos de experiência emocional. Essa combinação identifica os atributos do produto que promovem prazer, confiança ou conexão emocional, fornecendo feedback integrado para orientar melhorias no design que aumentam o envolvimento do utilizador, o valor percecionado e a satisfação. Ao permitir a correlação entre comportamento visual, resposta emocional e envolvimento cognitivo, essas ferramentas fornecem uma compreensão abrangente de como os consumidores interagem com os produtos.
Este caso de estudo mostra que integrar a avaliação emocional no processo de desenvolvimento leva a produtos mais distintos, com maior valor percecionado, vida útil mais longa e maior potencial de reutilização. No setor cerâmico, esta abordagem alinha o desenvolvimento técnico, a experiência do utilizador e a sustentabilidade, o que aumenta a competitividade e impulsiona a inovação focada nas necessidades do utilizador e no ciclo de vida do produto. Ao combinar o eye-tracking e o Design for Emotional Response, a indústria adota um método holístico e baseado em dados que junta métricas exatas e emocionais para criar produtos visualmente atraentes, funcionais e ligados ao utilizador.
Referências
Alonso-García, M., Moreno Nieto, D., & Cabrera Revuelta, E. (2023). How Innovation Affects Users’ Emotional Responses: Implications for Product Success and Business Sustainability. Sustainability, 15(16), 12231. https://doi.org/10.3390/su151612231
Figura 2 - Testes da embalagem com eye-tracking
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Materiais cerâmicos e de cristalaria – casos da França e Dinamarca
Marisa Almeida; Anabela Amado; Regina Santos; Alice Oliveira; Eva Costa Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), Coimbra
1. Introdução
Os materiais e objetos em contacto com géneros alimentícios devem ser seguros para os consumidores não devendo transferir para os alimentos compostos em quantidades não aceitáveis, existindo por isso limites específicos impostos para a libertação potencial de substâncias durante o contacto com os alimentos.
Por definição estes compreendem qualquer material ou objeto que, no seu estado final, esteja em contacto direto com alimentos, ou seja concebido para esse fim, incluindo-se nesta definição embalagens, louça de mesa e utensílios de cozinha, recipientes de armazenamento, tubagens, depósitos, superfícies de trabalho, bem como maquinaria e equipamentos utilizados no processamento alimentar.
A nível europeu, o enquadramento geral é estabelecido pelo Regulamento (CE) n.º 1935/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de outubro (alterado pelo Regulamento (CE) n.º 596/2009 do Parlamento Europeu e do Conselho de 18 de junho e pelo Regulamento (UE) 2019/1381 do Parlamento Europeu e do Conselho de 20 de junho), que define os princípios aplicáveis ao fabrico e à colocação no mercado destes materiais.
No que respeita especificamente aos objetos cerâmicos, a Diretiva n.º 84/500/CEE do Concelho de 15 de outubro, alterada pela Diretiva n.º 2005/31/CE da Comissão de 29 de abril, estabelece limites máximos de migração de chumbo (Pb) e cádmio (Cd) a partir de artigos cerâmicos destinados a entrar em contacto com géneros alimentícios. Esta diretiva foi transposta para a ordem jurídica portuguesa pelo Decreto-Lei n.º 190/2007, de 11 de maio.
Os limites da Diretiva n.º 84/500/CEE são considerados por vários estados-membros como desatualizados face às evidências toxicológicas atuais, pelo que alguns países, nomeadamente a França e a Dinamarca, decidiram adotar limites nacionais mais restritivos.
A libertação de metais pesados a partir de louça cerâmica encontra-se geralmente associada à presença destes elementos em determinadas matérias-primas, pigmentos ou vidrados utilizados no processo de fabrico. Embora possam desempenhar funções tecnológicas específicas, a sua eventual migração depende de fatores como
a formulação do vidrado ou esmalte, as condições de cozedura e a qualidade das matérias-primas. Neste contexto, torna-se essencial que os operadores económicos conheçam detalhadamente a composição dos seus materiais, controlem os parâmetros de processo e assegurem a conformidade com os requisitos legais aplicáveis a nível nacional e internacional.
2. Enquadramento legislativo europeu
2.1 Limites legais em vigor
O regime jurídico aplicável aos materiais e objetos destinados a entrar em contacto com géneros alimentícios assenta no Regulamento (CE) n.º 1935/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de outubro. Este regulamento estabelece os princípios gerais de segurança aplicáveis a todos os materiais em contacto com alimentos, determinando que estes não devem transferir para os géneros alimentícios constituintes em quantidades suscetíveis de:
• representar um perigo para a saúde humana,
• provocar alterações inaceitáveis na composição dos alimentos, ou
• provocar uma deterioração das suas características organoléticas.
Nos termos do artigo 5.º deste regulamento, podem ser adotadas medidas específicas para determinados materiais. No caso dos objetos cerâmicos, essa medida específica é a Diretiva n.º 84/500/CEE do Conselho, de 15 de outubro, que estabelece limites máximos de migração de chumbo (Pb) e cádmio (Cd) a partir de artigos cerâmicos, no estado de produto acabado, destinados a entrar em contacto com alimentos.
A diretiva foi posteriormente alterada pela Diretiva n.º 2005/31/CE da Comissão de 29 de abril, que introduziu requisitos adicionais relativos à declaração de conformidade e aos critérios de desempenho do método analítico. Em Portugal, estas disposições encontram-se transpostas pelo Decreto-Lei n.º 190/2007, consolidando o regime aplicável aos objetos cerâmicos.
Importa salientar que, ao contrário da cerâmica, não existe atualmente legislação europeia harmonizada específica para artigos de vidro no que respeita a limites de migração de metais. Na prática, e por analogia técnica, o setor tem frequentemente utilizado os valores e metodologia estabelecidos para a cerâmica como referência.
A atual legislação comunitária em vigor é apenas para os produtos de cerâmica e os limites máximos admissíveis são apenas para a libertação de chumbo e cádmio, no entanto, com a sua revisão prevê-se uma extensão aos produtos de vidro e a inclusão de limites de libertação de outros metais pesados considerados perigosos e relevantes nos produtos por existirem em muitas matérias-primas e aditivos.
Atualmente, as quantidades de chumbo e de cádmio cedidas pelos objetos cerâmicos não devem ultrapassar os limites indicados na Diretiva n.º 84/500/CEE, os quais estão divididos em 3 categorias, conforme Quadro I e as respetivas definições apresentadas.
Quadro I – Limites de cedência dos metais em vigor (Diretiva 84/500/CEE)
Categoria Limites de cedência dos metais
Cádmio
Categoria 1 (Flatware) 0,8 mg/dm2 0,07 mg/dm2
Categoria 2 (Small holloware) 4,0 mg/l 0,3 mg/l
Categoria 3 (Large holloware) 1,5 mg/l 0,1 mg/l
Categoria 1 (Flatware): Objetos que não são suscetíveis de enchimento; objetos que se podem encher, nos quais a altura interna, medida entre o ponto mais baixo e o plano horizontal que passa pelo bordo superior, é inferior ou igual a 25 mm.
Categoria 2 (Small holloware): Todos os outros objetos passíveis de enchimento.
Categoria 3 (Large holloware): Utensílios de cozinha; Embalagens e recipientes para armazenagem com capacidade superior a 3 litros.
Estes limites aplicam-se à migração determinada segundo o método harmonizado (ácido acético 4%, 22°C, 24 horas).
2.2
Perspetiva
de
revisão
da Diretiva n.º 84/500/CEE
Em 2011, a Comissão Europeia iniciou discussões no grupo de trabalho “Food Contact Materials” sobre a eventual revisão da Diretiva 84/500/CEE. Em 2012, foi divulgado um primeiro projeto (“1st draft”), no qual se propunha uma redução substancial dos limites de migração de Pb e Cd, tendo a indústria sido consultada quanto ao impacto técnico e económico dessas alterações.
Os limites apresentados nesse primeiro projeto eram:
Quadro II – Limites de cedência dos metais no 1º Draft da revisão da Diretiva 84/500/CEE
Categoria Limites de cedência dos metais
Chumbo Cádmio
Categoria 1 (Flatware) 2,0 µg/dm2 1,0 µg/dm2
Categoria 2 (Small holloware) 10,0 µg/l 5,0 µg/l
Categoria 3 (Large holloware) 3,8 µg/l 1,9 µg/l
Comparativamente aos valores atualmente em vigor, estas propos-
tas representavam reduções muito significativas — por exemplo, na categoria 2, aproximadamente 400 vezes inferiores para o chumbo e 60 vezes inferiores para o cádmio.
A revisão tinha como prioridade a atualização dos limites de Pb e Cd à luz da evolução do conhecimento toxicológico e das avaliações de risco mais recentes. Paralelamente, foi discutida a possibilidade de:
• Extensão do âmbito aos artigos de vidro doméstico;
• Inclusão de limites de migração para outros metais potencialmente relevantes, tais como cobalto (Co), cobre (Cu), manganês (Mn), níquel (Ni), selénio (Se), alumínio (Al), arsénio (As), bário (Ba), ferro (Fe), estanho (Sn), antimónio (Sb), zinco (Zn), vanádio (V), titânio (Ti) e crómio ( Cr)
3. Limites de Migração de Metais adotados em Países Europeus
Apesar de discussões preliminares terem circulado ao longo dos anos sobre uma possível revisão da Diretiva n.º 84/500/CEE (incluindo um “1.º draft” de revisão que propunha limites muito mais restritivos), não existe, até ao momento, uma proposta formal de substituição publicada como ato legislativo europeu pós-2012.
No entanto, certos Estados-Membros tomaram iniciativas nacionais para estabelecer requisitos mais restritivos.
3.1 Requisitos em França
A França foi um dos países que sentiu, desde cedo, a necessidade de estabelecer requisitos específicos mais restritivos e abrangentes para a migração de metais em materiais em contacto com géneros alimentícios.
Neste contexto, a DGCCRF (French General Directorate for Competition Policy, Consumer Affairs and Fraud Control) elaborou uma nota técnica administrativa (Fiche MCDA n°2 (V01 – 01/05/2016), para orientação dos serviços oficiais de controlo, explicitando os critérios técnicos a ser usados nas inspeções com o objetivo de clarificar a aplicação interna do artigo 3.º do Regulamento (CE) n.º 1935/2004.
Esta nota, não sendo juridicamente vinculativa como um decreto, para operadores económicos reflete a interpretação oficial da autoridade de fiscalização francesa, indicando claramente quais os critérios que são usados em controlo oficial. Na prática, tem forte peso probatório e regulatório, implicando um risco real de não conformidade numa inspeção em caso de não cumprimento.
A referida nota técnica indica os critérios utilizados para a análise de risco e é aplicável a um leque alargado de materiais inorgânicos nomeadamente materiais cerâmicos, vidrados e não vidrados, vitrocerâmicos, vidro e de cristal. Adicionalmente, considera para além do Chumbo e Cádmio, limites de migração para o Cobalto, o Alumínio e o Arsénio.
Chumbo
No quadro seguinte apresentam-se os limites de migração de chumbo e cádmio considerados na nota técnica da DGCCRF, emitida em 2016.
Quadro III – Limites de cedência de Pb e Cd considerados em França para artigos cerâmicos
Categoria
Limites de cedência dos metais
Chumbo Cádmio
Categoria 1 (Flatware) 0,8 mg/dm2 0,7 mg/dm2
Categoria 2 (Small holloware) 4,0 mg/l 0,3 mg/l
Categoria 3 (Large holloware) 1,5 mg/l 0,1 mg/l
Contacto Labial
(qualquer objeto que apresente decoração exterior numa faixa de 20 mm de largura, medida a partir do bordo exterior do artigo) 1,5 mg/artigo 0,1 mg/artigo
No quadro seguinte apresentam-se por sua vez os limites de migração para os metais adicionais considerados em França como um risco para a saúde de acordo com o artigo 3.º do Regulamento (CE) n.º 1935/2004.
Quadro IV – Limites de cedência de Cobalto, Alumínio e Arsénio considerados em França Metais Limites de cedência
Alumínio 1 mg/kg
Cobalto 0,02 mg/kg
Arsénio Não detetável (l.d. ≤ 0,002 mg/kg)
Para estes metais os limites de cedência devem ser determinados após a realização de três migrações sucessivas, sendo considerados os limites relativos aos valores da terceira migração.
No caso dos artigos de vidro, de cristal e nos vitrocerâmicos são considerados critérios restritivos para um elemento adicional o Crómio hexavalente (Cr6+) e os limites aplicáveis no ensaio de contacto labial são mais permissivos do que no caso dos produtos cerâmicos, como se poderá verificar no Quadro V.
Quadro V – Limites de cedência para artigos de vidro, cristal e vitrocerâmicos
Um exemplo mais recente é a proposta da Dinamarca, notificada à Comissão Europeia no âmbito do procedimento TRIS (Technical Regulation Information System), sob o número 2025/0387/DK, para introduzir novos limites nacionais de migração de Pb e Cd para cerâmica, artigos esmaltados e estendendo também ao vidro, a entrar em vigor em 2026.
A proposta dinamarquesa pretende reforçar a proteção da saúde pú-
blica com base numa avaliação de risco realizada pelo DTU National Food Institute, segundo a qual os limites atualmente em vigor não são adequados para proteger eficazmente a população. Em concreto, o anexo da proposta estabelece categorias de artigos semelhantes às definidas na Diretiva, mas com valores de migração muito inferiores aos atualmente aplicáveis na UE:
Quadro VI – Limites de cedência dos metais propostos pela Dinamarca
Categoria Limites de cedência dos metais Chumbo Cádmio
Objetos que não podem ser cheios ≤ 0,3 µg/dm2 ≤ 0,4 µg/dm2
Artigos para enchimento cuja profundidade interna, medida entre o ponto mais baixo e o plano horizontal da borda superior, não exceda 25 mm (artigos planos) ≤ 0,3 µg/dm2 ≤ 0,4 µg/dm2
Borda (aro) de recipientes destinados a beber ≤ 0,3 µg/dm2 ≤ 0,4 µg/dm2
Biberões 1,5 mg/artigo 0,1 mg/artigo
Artigos destinados a beber 1,5 mg/artigo 0,1 mg/artigo
Outros artigos que podem ser cheios 1,5 mg/artigo 0,1 mg/artigo
Estes valores representam uma redução de várias ordens de grandeza em comparação com os limites da Diretiva n.º 84/500/CEE, refletindo a intenção de alcançar níveis praticamente impercetíveis de migração mensurável para Pb e Cd. A proposta prevê que os novos limites entrem em vigor a partir de 1 de julho de 2026, enquanto o decreto nacional deverá entrar em vigor em janeiro de 2026.
3.3 Implicações para o setor
A eventual revisão dos limites de migração implica impactos técnicos relevantes para a indústria cerâmica e cristalaria, nomeadamente:
• Reformulação de vidrados e pigmentos;
• Reavaliação da pureza das matérias-primas;
• Reforço do controlo analítico e validação metrológica;
• Potenciais ajustamentos de processo produtivo.
Neste contexto, a evolução legislativa não constitui apenas uma alteração formal de valores-limite, mas uma transformação estrutural nas exigências de conformidade aplicáveis aos materiais em contacto com alimentos.
Em Portugal, o Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV) desenvolveu um estudo (no âmbito do projeto SIAC, promovido pela APICER e concretizado pelo CTCV), onde foi realizada uma campanha de análise dos produtos de louça utilitária existentes no mercado (porcelana, faiança e grés) e produtos de vidro doméstico, determinando os valores de libertação de metais pesados.
Os resultados obtidos nesse estudo permitiram verificar que, relativamente à louça cerâmica portuguesa, várias amostras apresentam valores acima dos limites propostos (no 1º draft da revisão da diretiva) para
o cádmio e o chumbo, sendo estes essencialmente produtos de porcelana e alguns de faiança (Oliveira et al, 2018). No entanto, as amostras analisadas cumprem, sem qualquer problema, a legislação em vigor.
No caso dos produtos de vidro comum e de vidro cristal, apesar de na Diretiva n.º 84/500/CEE ainda não existir nenhuma proposta de valores limite, alguns ensaios evidenciaram valores acima do limite de quantificação do equipamento, nomeadamente para o chumbo, cádmio, cobalto e cobre. Salienta-se que alguns dos resultados de migração de chumbo e cádmio são bastante significativos, prevendo-se que alguns artigos terão dificuldade em vir a cumprir os limites, se estes forem iguais aos da cerâmica, conforme apresentados no referido draft.
Constata-se que a maioria dos valores de chumbo e cádmio que se encontram acima dos limites propostos no draft, estão associados à utilização de decorações, essencialmente obtidas por terceiro fogo. Enquanto nas cores sólidas a maioria dos valores são inferiores ao limite proposto, ou encontram-se abaixo dos respetivos Limites de Quantificação.
Verifica-se que os limites propostos no draft são 200 vezes mais exigentes do que os limites estabelecidos pela ISO 7086-2 (internacional) e 10 vezes inferiores aos limites mais rigorosos, que são os limites definidos atualmente pela Californian Prop 65 autorizado pela Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos.
Apesar de já se ter efetuado um desenvolvimento muito significativo a nível das composições dos vidrados e esmaltes no sentido de eliminar ou reduzir a migração de metais que coloquem em risco a saúde humana, a redução efetiva dos limites de libertação de metais poderá ainda colocar constrangimentos sérios à indústria cerâmica e vidreira, relativamente à palete de cores disponíveis para as decorações. Terá de haver uma adaptação quer dos setores quer dos consumidores para se conseguir cumprir com as novas exigências legislativas europeias, podendo ser necessário substituir alguns materiais e/ou métodos de produção ou mesmo reduzir a gama cromática apta para utilização na decoração dos artigos cerâmicos.
4. Considerações finais
O regime europeu aplicável à libertação de chumbo (Pb) e cádmio (Cd) a partir de artigos cerâmicos destinados a entrar em contacto com alimentos mantém-se, formalmente, ancorado na Directive 84/500/EEC, adotada ao abrigo do Regulation (EC) No 1935/2004. Apesar das discussões técnicas iniciadas há mais de uma década sobre a sua revisão, não foi até ao momento apresentada uma proposta legislativa europeia consolidada que substitua o quadro vigente.
Neste contexto de ausência de harmonização atualizada, as iniciativas da França e a mais recente da Dinamarca representam um desenvolvimento relevante. Ao propor limites de migração significativamente mais restritivos para Pb e Cd — mantendo, contudo, o
método de ensaio harmonizado (ácido acético 4%, 22°C, 24 h) para estes metais — o legislador dinamarquês desloca o debate do plano metodológico para o plano da proporcionalidade dos valores-limite e da adequação face à avaliação toxicológica mais recente.
A proposta nacional evidencia duas tendências estruturais: por um lado, a crescente exigência regulatória no domínio da segurança química dos materiais em contacto com alimentos; por outro, o risco de fragmentação do mercado interno sempre que a harmonização europeia não acompanhe a evolução científica e as expectativas sociais em matéria de proteção da saúde pública.
Do ponto de vista técnico-industrial, a redução dos limites de migração para níveis da ordem dos microgramas por litro implica desafios significativos, nomeadamente:
• maior controlo da composição das matérias-primas e vidrados;
• reforço da robustez metrológica e da sensibilidade analítica (com recurso generalizado a técnicas como ICP-MS);
• reavaliação de formulações decorativas e pigmentos;
• adaptação dos sistemas de controlo interno da qualidade.
Mais do que uma simples alteração quantitativa, trata-se de uma mudança de paradigma regulatório que aproxima os requisitos de conformidade de um cenário de “migração praticamente não detetável”.
A médio prazo, a iniciativa dinamarquesa poderá funcionar como catalisador para uma eventual revisão harmonizada da Diretiva Cerâmica a nível da União Europeia. Até lá, os operadores económicos enfrentam um cenário regulatório dinâmico, no qual a antecipação técnica, a monitorização legislativa contínua e a adaptação estratégica serão determinantes para assegurar conformidade e competitividade.
A. Oliveira, R. Santos, M. Almeida, A. Amado, “Avaliação e melhoria do desempenho da cerâmica e cristalaria em segurança alimentar”, Revista KÉRAMICA, n.º 353, pg. 7-11, julho/agosto 2018;
M. Almeida, A. Amado, R. Santos, A. Oliveira “Materiais cerâmicos e de cristalaria versus segurança alimentar”, Revista KÉRAMICA, n.º 378, pg. 11-13, setembro/outubro 2022
Fiche MCDA n°2 (V01 – 01/05/2016) “Aptitude au contact alimentaire des matériaux inorganiques (hors métaux et alliages) destinés à entrer en contact avec des denrées alimentaires, DGCCRF
Desafios e oportunidades no sector da louça utilitária
Jorge Carneiro e Carlos Pinto Grestel, Produtos Cerâmicos S.A.
O sector de louça utilitária de grés em Portugal tem-se destacado nos últimos anos pela sua vitalidade, comprovada pelo seu fulgor exportador, sendo o primeiro Exportador Europeu e segundo exportador a nível mundial, apenas suplantado pela China. Esta posição de destaque só foi alcançada pela contínua inovação tecnológica do sector, desenvolvimento de produtos e decorações diferenciadores, elevada qualidade e pela utilização de estratégias de marketing e de vendas. No entanto, é necessário continuar neste caminho de inovação e desenvolvimento. Embora um longo caminho tenha sido trilhado, alcançando-se resultados extremamente encorajadores, existem nuvens negras no horizonte que requerem um renovado impulso no desenvolvimento de uma indústria de louça mais eficiente e sustentável. Só com cadeias de abastecimento seguras, assentes em matérias-primas locais, independência energética, e um sistema produtivo mais eficiente e versátil, poderá o setor da louça de mesa assegurar o seu futuro.
Os desafios que estão identificados podem, e devem, ser encarados como oportunidades de transformação do sector, levando-o a adotar novas tecnologias, desenvolver novos produtos e formas de os produzir, que permitam à indústria portuguesa diferenciar-se no contexto mundial e ser competitiva.
Os desafios:
O desafio energético – custos e independência energética
Um dos maiores desafios que afeta a indústria cerâmica é o custo da energia, em particular o do gás natural (GN). O GN é o combustível mais utilizado no sector cerâmico e provém exclusivamente de importação. A total dependência de mercados externos faz com que o sector esteja à mercê de perturbações na cadeia de abastecimento e alterações da geopolítica mundial. Exemplo deste ponto foi a invasão da Ucrânia pela Rússia que alterou toda a cadeia de abastecimento de GN na Europa, extremamente dependente do GN Russo. A consequência foi o aumento significativo do preço do GN com forte impacto na saúde financeira das empresas nacionais, que resultou numa imediata perda de competitividade com mercados menos expostos a estas flutuações.
Não obstante os impactos negativos registados, este choque econó-
mico funcionou como um despertador, expondo a fragilidade energética em que nos encontramos. Foram desencadeados um conjunto de apoios e medidas focadas na redução desta dependência energética, com forte foco nas energias renováveis. Pode-se contestar a forma e o conteúdo das medidas, mas é inegável a sua relevância e
o seu impacto a médio e longo prazo, no que aos gases de combustão diz respeito. Estas medidas impulsionarão a produção de energia elétrica de origem renovável, a eletrificação de sistemas produtivos, sempre que possível, e o estímulo à produção de gases de combustão de origem renovável, em particular o hidrogénio (H2) e o biometano e captura de CO2
A substituição total ou parcial do GN por gases de combustão mais sustentáveis ou a eletrificação, a médio e longo prazo, será inevitável. Os secadores e fornos serão os equipamentos-chave neste processo, sendo responsáveis por >70% do consumo energético das empresas de louça de grés. A mudança passará, muito provavelmente, pela implementação de sistemas híbridos, eletrificando o que for possível e viável e pela introdução de misturas de gases de combustão, GN/H2/ biometano. A alteração dos sistemas a GN para sistemas com gases de combustão mistos deverá ser o futuro a médio prazo, pendente da disponibilidade e custo destes gases alternativos. O caminho poderá passar pela diminuição progressiva da percentagem de GN à medida que gases como o H2 verde e o biometano se vão tornando mais disponíveis.
Antes da substituição do GN, total ou parcial, por outras fontes de energia, existe um caminho muito relevante cujo impacto não pode ser menosprezado: a introdução de medidas de eficiência energética. De referir que o sector cerâmico tem sido exemplar na aplicação destas medidas, permitindo uma redução significativa no volume de emissões de CO2 por Kg de material produzido. Entre as medidas de eficiência energética com maior impacto temos as aplicadas nos fornos e secadores a GN. Fornos com melhor isolamento térmico, recuperação de ar quente do arrefecimento para o ar de combustão (>300ºC), pré-forno e outros equipamentos (e.g. secadores); mobília refratária mais leve; utilização do ar quente em cascata (interligação entre diferentes fornos, secadores e estufas).
A aplicação de medidas de eficiência energética, conjugadas com a redução de desperdícios associados ao processo produtivo podem, numa primeira fase, ser a resposta ideal para que o sector consiga atingir reduções significativa nas emissões de CO2 ainda antes da dis-
ponibilização de alternativas viáveis e sem impactar de forma significativa a sustentabilidade económica das empresas.
A eletrificação terá igualmente um papel central neste processo, em particular através da produção e utilização de energia verde. A sua disponibilidade passará pela produção própria e/ou local. Esta produção será fundamental para reforçar a independência energética das empresas, permitindo ainda interligações entre unidades industriais e a otimização da produção local – regime de comunidades energéticas baseadas em sistemas fotovoltaicos e eólicos.
O impacto da eletrificação deverá ser mais sentido quando aplicado em substituição ou como fonte de energia complementar da energia térmica. A sua utilização em secadores mistos (utilização de ar recuperado e sistemas elétricos), fornos mistos, com eletrificação das zonas de menor temperatura (zona inicial do forno),
A utilização de energias verdes provenientes de produção própria ou local será potenciada com recurso a sistemas de armazenamento de energia (baterias), permitindo a utilização de energia renovável nas horas de ponta e a redução do consumo da rede. Apesar de os principais entraves residirem ainda nos custos, na durabilidade e nos períodos de amortização, prevê-se uma evolução positiva que poderá tornar estas soluções economicamente viáveis a médio prazo.
O desafio das matérias-primas – disponibilidade e qualidade da matéria-prima existente
As zonas de Aveiro, Coimbra e Leiria destacam-se pela sua riqueza em matérias-primas utlizadas na indústria cerâmica, motivo pelo qual a região concentra a grande maioria das empresas cerâmicas nacionais. As melhores matérias-primas já começam a ter de ser racionadas devido ao seu elevado consumo e necessidade de prolongar a sua utilização. Uma forma de mitigar esta inevitabilidade será a sua utilização de forma racional, reduzindo ao mínimo os desperdícios. A valorização de resíduos e subprodutos nas pastas cerâmicas é um primeiro passo, já realizado por algumas empresas, mas com
potencial para crescer. Um segundo ponto passará pela utilização de matérias-primas menos nobres e que estejam mais disponíveis. Este caminho levará, inevitavelmente, a alterações nas pastas nomeadamente na sua coloração e propriedades mecânicas, algo que poderá ser ultrapassado com a investigação de novas formulações ou através do design.
O ecodesign terá um papel relevante quer no potenciar da utilização de resíduos e subprodutos, quer na redução do consumo de matérias-primas mais prejudiciais para o ambiente. Um exemplo da relevância do design na valorização de resíduos é a pasta Ecogres, onde a introdução de um resíduo da indústria metalomecânica cora a pasta com pintas pretas. O design aproveita o efeito estético introduzido pelo resíduo e fá-lo sobressair, fazendo a pasta corada ser um ponto em destaque na peça. Para além do apelo estético, consegue-se reduzir de forma significativa (até >50%) a quantidade de vidrado utilizada, matéria-prima com maior pegada de carbono pelo transporte e pela utilização de fritas na sua composição.
A incorporação de resíduos de indústrias não cerâmicas será outro fator decisivo para a redução do consumo de matérias-primas virgens. Existem já soluções no mercado e outras em fase de desenvolvimento, envolvendo a adição de resíduos/subprodutos de indústrias não cerâmicas (e.g. areias de fundição ou lamas do corte de pedras).
Para além do consumo de matérias-primas virgens existe o consumo elevado de água na produção de louça cerâmica. A sua redução pode passar pela aplicação de duas estratégias: primeiro, o seu uso racional, com implementação de pequenas medidas de poupança e redução de desperdícios (pontas de mangueiras mais pequenas, máquinas de pressão, fecho da água em horários não produtivos, monitorização de consumos sector a sector); segundo, a valorização da água utilizada através do seu tratamento nas ETARI’s e reintrodução do sistema produtivo por canais próprios. Esta última solução pode necessitar de ajustes ao tratamento das águas, de forma a permitir a sua utilização em todas as etapas do processo, mesmo na preparação de vidrados e de pasta.
O desafio da produtividade – eficiência no processo e otimização de recursos
Atualmente, a indústria de louça caracteriza-se por portfólios extensos, com produções relativamente pequenas, que variam de algumas centenas a poucos milhares de peças. Esta fragmentação produtiva gera inevitáveis constrangimentos, desde o elevado número de moldes necessários até aos tempos de setup, afetando negativamente os níveis de produtividade. Sendo a indústria cerâmica, em particular a de louça utilitária, intensiva em mão de obra e com várias etapas manuais (acabamento, aplicação de decorações ou enforna), torna-se imperativo introduzir ferramentas e metodologias que permitam mitigar estes custos.
A automação e a robotização de processos surgem como duas das soluções mais promissoras, com elevado potencial para aumentar a produtividade e reduzir custos associados a tarefas que não acrescentam valor. A sua introdução nos sistemas produtivos atuais não eliminará a necessidade de operadores humanos, mas alterará o perfil das tarefas, substituindo tarefas monótonas e repetitivas por atividade focadas na monitorização de equipamentos e no controlo de qualidade. Apesar de já ser amplamente utilizada noutros setores, incluindo a cerâmica de pavimento e revestimento e nos sanitários, a implementação destas tecnologias em sistemas produtivos com grande variedade de produção constitui ainda um desafio significativo, assim como a fragilidade das peças ao longo do processo, especialmente em unidades que operam em monocozedura.
A digitalização integral do processo produtivo será outro passo determinante para alcançar ganhos expressivos de eficiência. A sua aplicação ao desenvolvimento de produto, à monitorização e controlo da produção em tempo real, bem como à monitorização de consumos energéticos e de água, permitirá identificar desperdícios e racionalizar recursos, atuando de forma mais eficaz onde é necessário. Apesar de ser uma necessidade incontornável, os investimentos associados e a escassez de recursos humanos especializados constituem os principais obstáculos à sua implementação.
Conclusão
A capacidade da indústria portuguesa de louça utilitária de grés para responder aos desafios atuais — energéticos, ambientais e produtivos — dependerá da sua aptidão para transformar constrangimentos em oportunidades de inovação e diferenciação. A evolução para modelos mais eficientes, sustentáveis e tecnologicamente avançados exige uma abordagem integrada, suportada pela articulação entre o tecido empresarial, o conhecimento científico e as estruturas de interface que promovem a transferência de tecnologia. Este alinhamento será determinante para reforçar a competitividade das empresas, valorizar a produção nacional e afirmar a cerâmica portuguesa nos mercados internacionais, contribuindo simultaneamente para a consolidação de um setor mais resiliente e preparado para os desafios futuros.
Louça Cerâmica: Ensaios, Regulamentação e Exigências dos Mercados Internacionais
Eva Costa e Luc Hennetier
Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), Coimbra
A indústria portuguesa de louça cerâmica utilitária e decorativa é um dos pilares do setor cerâmico nacional. O subsetor que integra empresas de produtos utilitários e decorativos em faiança, porcelana, grés e terracota, representa cerca de 80% do total de empresas cerâmicas portuguesas, destacando-se pelo seu forte enraizamento territorial e pela predominância de PME com elevado know-how técnico. Trata se também de um setor intensivo em mão de obra, dada a relevância das operações manuais ao longo do processo produtivo, assumindo por isso um papel central na criação de emprego e na dinamização das economias locais.
A sua relevância traduz-se e estende-se também ao plano internacional: Portugal está entre os principais exportadores mundiais de louça cerâmica, ocupando, no caso específico da louça em grés, a posição de segundo maior exportador global, imediatamente após a China, e mantendo um lugar de destaque nos produtos de porcelana, apesar de contar um número reduzido de unidade industriais, mas de grandes dimensões.
As exportações portuguesas de louça destinam-se a mais de uma centena de mercados, com destaque para França, Espanha, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Países Baixos, que em conjunto representam a maior fatia da procura internacional. Esta capacidade de penetração externa resulta da combinação de fatores como a qualidade técnica, o design contemporâneo, a tradição produtiva e a crescente aposta em sustentabilidade e inovação.
Num contexto global de maior exigência competitiva e regulatória, o subsetor da louça cerâmica enfrenta hoje desafios e oportunidades relacionados com a certificação, controlo da qualidade, segurança no contacto alimentar e cumprimento de legislação nacional e europeia. Estes requisitos assumem um papel determinante para o acesso aos mercados, para a confiança do consumidor e para a diferenciação competitiva das empresas portuguesas. Em paralelo, instrumentos como as políticas anti-dumping da União Europeia desempenham um papel importante na defesa do mercado interno, mitigando a concorrência desleal associada à importação de produtos de mercados emergentes que nem sempre cumprem padrões comparáveis de qualidade, segurança ou sustentabilidade.
Assim, neste artigo, apresentam-se os principais ensaios laborato-
riais, certificações obrigatórias e exigências regulamentares aplicáveis aos produtos de louça cerâmica, em particular no que respeita ao contacto alimentar, desempenho funcional, e segurança.
Apesar da diversidade de requisitos legais e de ensaios aplicáveis aos produtos de louça cerâmica, o elemento central da conformidade regulamentar continua a ser a verificação da migração de chumbo e cádmio — parâmetros críticos para a segurança alimentar e para o acesso aos diferentes mercados. As obrigações específicas podem variar consoante o destino comercial, mas a avaliação da libertação destes metais pesados permanece o controlo prioritário dos processos de controlo de qualidade e certificação, servindo de base para garantir a segurança do consumidor.
Portugal e Europa
Os limites variam conforme a categoria do objeto e o tipo de ensaio (legal ou de qualidade). Em Portugal, os principais parâmetros são definidos pelo Decreto-Lei n.º 190/2007 (segurança alimentar) e pela norma NP 4555 (qualidade).
1. Ensaios de Segurança Alimentar (Obrigatórios)
A legislação exige que os materiais em contacto com alimentos não libertem substâncias nocivas. O ensaio de Migração de Chumbo e Cádmio é o ensaio mais crítico. Deve verificar-se os níveis de libertação destes metais estão dentro dos limites do Decreto-Lei n.º 190/2007, que transpõe a Diretiva 84/500/CEE.
A lei divide as peças em três categorias para definir os teores máximos de libertação após 24 horas de contacto com ácido acético a 4% (ver Tabela 1).
Estas análises são efetuadas no Laboratório de Análise de Materiais do CTC por Espetrofotometria de Absorção Atómica com chama e com câmara de grafite.
Declaração de Conformidade: O fabricante, deve emitir uma declaração garantindo que o produto cumpre o Regulamento (CE) n.º 1935/2004, baseada em relatórios de ensaios laboratoriais.
Categoria da Peça
Categoria 1 Artigos que não se enchem ou com profundidade interna ≤ 25 mm (ex: pratos rasos). 0,8 mg/dm² 0,07 mg/dm²
Categoria 2 Artigos que se enchem (ex: canecas, taças, pratos fundos). 4,0 mg/l 0,3 mg/l
Categoria 3 Utensílios de cozedura e recipientes > 3 litros (ex: panelas, bacias). 1,5 mg/l 0,1 mg/l
2. Ensaios de Desempenho e Qualidade (Norma NP 4555) (Opcionais)
Embora nem todos sejam puníveis criminalmente como a migração de metais, a norma portuguesa NP 4555-1:2018 define os padrões de qualidade para comercialização de louça para uso doméstico e de hotelaria. Embora defina as características que os produtos devem cumprir – como resistência mecânica, durabilidade, comportamento ao microondas, lavagem e outras propriedades funcionais – a sua verificação é feita através de um conjunto de ensaios normalizados, de nível europeu ou mesmo internacional, explicitamente referidos na própria norma.
Absorção de Água: Crucial para garantir a higiene e evitar a proliferação de fungos no corpo cerâmico. Embora os valores exatos possam ser ajustados conforme o contrato com o cliente (especialmente em hotelaria), a norma NP 4555-1:2018 estabelece referências comuns:
• Porcelana: < 0,5%.
• Grés: entre 0,5% e 3%.
• Faiança/Barro: > 6%. Pode ser superior, mas exige um vidrado íntegro para evitar infiltrações.
Resistência ao Choque Térmico: Garante que a peça não racha com mudanças bruscas de temperatura (ex: sair do frigorífico para o microondas). A peça deve resistir a uma variação brusca de temperatura (delta T) de pelo menos 80ºC para a louça de mesa (norma de ensaio: EN 1183) ou 180ºC para a louça de forno (norma de ensaio: EN 13834) sem estalar ou lascar.
Resistência à Lavagem Mecânica: Avalia-se o vidrado ou as decorações resistem a ciclos repetidos na máquina de lavar louça. No teste de referência (norma EN 12875 1), os produtos são submetidos a um mínimo de 125 ciclos de lavagem e não devem apresentar perda de brilho, alteração de cor, opacificação, nem qualquer tipo de depósito ou película permanentes. Em alternativa, os produtos podem ser testados de forma mais rápida segundo a norma EN 12875 4 (louça
doméstica) ou EN 12875 5 (louça de hotelaria), conforme o segmento a que se destinam.
Resistência ao Microondas: Verifica se a peça aquece excessivamente ou se danifica sob radiação. A temperatura da asa ou bordo não deve exceder um limite de segurança (Temperatura máxima de 56°C, quando ensaiado de acordo com a norma EN 15284) após o tempo de exposição normal, e a peça não pode apresentar sinais de fissuração ou degradação do vidrado.
Resistência ao Risco Metálico: O fenómeno de metal marking, ou seja, marcas cinzentas e riscos deixados por talheres na superfície vidrada constitui um problema relevante para a louça cerâmica, sobretudo no setor profissional, afetando a estética e a durabilidade dos produtos. No entanto, a sua avaliação tem sido dificultada pela ausência de métodos de ensaio internacionalmente reconhecidos, o que impede uma comparação quantitativa fidedigna entre diferentes produtos e fabricantes, e que obrigou ao desenvolvimento de diversos ensaios não normalizados por laboratórios, fabricantes e operadores de mercado.
Nesta ausência de referenciais internacionais, o CTCV, através da Comissão Técnica de Normalização CT 202, desenvolveu a primeira norma de ensaio reconhecida formalizada na NP 4555 2:2022, estabelecendo um método controlado e reprodutível para determinar a resistência da louça cerâmica à marcação por objetos metálicos. A norma introduz uma abordagem inovadora, baseada em esferas metálicas normalizadas de aços inoxidáveis que substituem os utensílios tradicionais e permitem um controlo preciso da força, área de contacto e dureza do material marcador — superando assim as limitações dos ensaios com facas.
O método consiste na realização de marcações lineares controladas sobre a superfície vidrada dos provetes, utilizando esferas metálicas normalizadas (AISI 420 e AISI 304), montadas num adaptador específico acoplado a um equipamento de ensaio. Cada amostra é sujeita a
Tabela 1 – Limites da migração de chumbo e cádmio. Fonte: Diretiva 84/500/CEE.
Descrição
Chumbo (Pb) Cádmio (Cd)
Figura 1 - Espetrofotómetro de Absorção Atómica com chama (à es q.) e com câmara de grafite (à dir.).
Figura 2 - Equipamento de teste de resistência ao risco metálic o (esq.) e ensaio de metal marking num prato de porcelana (dir.)
diferentes números de passagens sob forças definidas, simulando a ação real de talheres com durezas distintas. Após o ensaio, os provetes são avaliados visualmente sob condições de iluminação normalizadas, atribuindo-se uma classificação a cada marca e determinando se um coeficiente de metal marking (Cmm) que varia entre 0 (ausência de marcas) e 2 (marcação severa).
Mercados e normalização específicos
Para exportar ou vender louça cerâmica em França, deve-se ter especial atenção, pois o país aplica regras mais restritivas do que a norma base da União Europeia. A entidade reguladora francesa, DGCCRF (Direction générale de la concurrence, de la consommation et de la répression des fraudes), estabelece exigências adicionais para materiais em contacto com alimentos.
As principais diferenças e limites em França são:
1. Metais Adicionais (Além do Chumbo e Cádmio)
Enquanto em Portugal e na maioria da UE apenas se testam o chumbo e o cádmio, em França a nota informativa DM/4B/COM/002 exige a análise de outros metais:
• Alumínio (Al): Limite < 1 mg/kg.
• Cobalto (Co): Limite < 0,02 mg/kg.
• Arsénio (As): Não detetável (limite de quantificação de 0,002 mg/kg).
2. Condições de Ensaio Específicas)
Para artigos de utilização repetida (louça de mesa comum), a conformidade francesa baseia-se no resultado da terceira migração (o terceiro contacto sucessivo de 24h com ácido acético), ao passo que a norma base europeia utiliza frequentemente a primeira migração.
O Laboratório de Análise de Materiais do CTC efetua estas análises por ICP-OES.
3. Declaração de Conformidade
e Rotulagem
A documentação deve estar redigida em francês e confirmar explicitamente o cumprimento das normas francesas (DGCCRF) e do Regulamento (CE) n.º 1935/2004
• Símbolo "Verre et Fourchette": O uso do símbolo europeu de aptidão alimentar é obrigatório se a natureza do objeto não for óbvia.
4. Desempenho (Metal Marking e Choque Térmico)
O mercado francês é particularmente exigente quanto à qualidade visual da louça, dando especial importância à resistência ao metal marking e ao comportamento ao choque térmico. Grandes cadeias e retalhistas utilizam frequentemente ensaios específicos de marcação metálica — não normalizados no caso do metal marking — como critério de seleção, exigindo relatórios que demonstrem o bom desempenho dos produtos nas condições de uso comuns.
Estados Unidos da América
Para entrar no mercado dos EUA, as exigências são diferentes das europeias, focando-se fortemente na regulamentação da FDA (Federal Food and Drug Administration) e em leis estaduais específicas, como a da Califórnia
1. Limites da FDA (Nível Federal)
A FDA estabelece limites de lixiviação para chumbo e cádmio através do método ASTM C738. Os limites dependem da categoria do objeto:
Tabela 2 – Limites da migração de chumbo e cádmio. Fonte: Federal Food and Drug Administration
Cups & Mugs (Chávenas e canecas)) 0,5 mg/L 0,5 mg/L
Pitchers (Jarras/Cântaros) 0,5 mg/L 0,25 mg/L
2. A "Proposição 65" da Califórnia
Se se pretende vender na Califórnia (um dos maiores mercados dos EUA), os limites de migração são muito mais rigorosos do que os da FDA.
• Se a sua louça exceder os limites da Prop 65, mas estiver dentro dos limites da FDA, pode vendê-la, mas é obrigatório colocar um rótulo de aviso (Warning Label) na peça ou embalagem indicando a presença de substâncias que causam cancro ou defeitos de nascimento.
• Os limites da Califórnia para chumbo podem ser tão baixos quanto 0,1 a 0,226 mg/L, dependendo da peça.
Figura 3 - ICP-OES.
3. Louça para Crianças (CPSIA)
Se o seu produto for comercializado como "infantil" (ex: pratos com desenhos para crianças), as regras mudam drasticamente:
• Total Lead Content: O limite para o chumbo total no vidrado é de 90 ppm (partes por milhão), o que é um teste de composição química e não apenas de lixiviação.
4.
Ensaios de Qualidade (ASTM)
Ao contrário da Europa, onde a norma ISO ou NP é comum, nos EUA os compradores (como a Williams-Sonoma ou Pottery Barn) exigem frequentemente ensaios baseados nas normas ASTM:
• ASTM C1601/C1602: Para resistência ao micro-ondas e choque térmico.
• ASTM C556: Para resistência ao ataque de detergentes (máquina de lavar).
O Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro realiza todos os ensaios aqui descritos, vários deles acreditados pelo Instituto Português de Acreditação (IPAC) segundo a norma NP EN ISO/IEC 17025, assegurando às empresas condições rigorosas de controlo da qualidade para os diversos mercados de destino. Para além destes ensaios regulamentares e normativos, o CTCV encontra-se também totalmente equipado e disponível para realizar e /ou desenvolver ensaios específicos, adaptados às necessidades de cada produtor, apoiando a indústria na validação técnica dos seus produtos e na resposta às exigências particulares dos diferentes operadores de mercado.
Rótulos e declarações ambientais – instrumentos para a sustentabilidade
Marisa Almeida e Sofia Ferreira Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), Coimbra
1. Introdução
Os rótulos e declarações ambientais constituem instrumentos de política e gestão ambiental, que fornecem informações sobre um produto ou serviço no que diz respeito ao seu cariz ambiental e de sustentabilidade ou a aspetos ambientais mais específicos. O objetivo global dos rótulos e declarações ambientais é encorajar a procura e a oferta de produtos e serviços que exerçam menor pressão sobre o ambiente, estimulando, deste modo, o potencial de melhoria ambiental contínua ao longo da cadeia de abastecimento induzida pelo mercado. Para tal, deve ser comunicada informação verificável e exata, não enganosa, relativa a aspetos ambientais dos produtos e serviços (ISO, 2000).
Estes instrumentos visam igualmente promover padrões de consumo mais sustentáveis, contribuindo para a definição de políticas e práticas orientadas para o desenvolvimento de atividades e produtos com menores impactes ambientais, bem como para a sua eventual diferenciação positiva em processos de contratação pública e privada. No caso dos materiais de construção, a cadeia de intervenientes é grande e dispersa espacialmente, pelo que se torna complexa a difusão da informação ambiental a todos os intervenientes.
Existem diversas tipologias de rótulos e declarações ambientais, com objetivos diferentes, com um maior ou menor detalhe dos aspetos e impactes ambientais.
A Alemanha foi pioneira na rotulagem ambiental ao criar, em 1977/78, o programa Blue Angel, com base em recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico centradas na eficiência no uso de recursos e na reciclagem. Em apenas uma década, o programa já abrangia mais de 3000 produtos certificados.
A partir do final da década de 1980, vários países desenvolveram sistemas semelhantes: o Environmental Choice no Canadá (1988), o Eco Mark no Japão (1989), o Green Seal nos Estados Unidos (1990) e o Singapore Green Label em Singapura (1992). Na Europa, destacam-se o NF Environment, criado em 1991 pela Association Française de Normalisation, e o Nordic Swan Ecolabel, lançado em 1989 pelos países nórdicos. Posteriormente, surgiram outros programas, como o Good Environmental Choice Australia (2000) e o selo ecológico Falcão Bauer no Brasil (2007), entre muitos outros exemplos a nível internacional.
Muitos dos programas de rotulagem ambiental desenvolvidos sob a influência dos modelos alemão e canadiano adotam uma abordagem monocritério, centrando-se na avaliação de aspetos ambientais específicos — como determinados procedimentos produtivos, práticas ambientais ou a eliminação/substituição de substâncias particularmente poluentes.
Em contraste, sistemas como o Nordic Swan Ecolabel e o NF Environment assentam numa abordagem mais integrada, baseada na perspetiva de ciclo de vida do produto, considerando múltiplos impactes ambientais ao longo das diferentes fases do seu ciclo de vida.
A União Europeia criou, em 1992, o sistema de atribuição de Rótulo Ecológico Europeu (EU Ecolabel), posteriormente revisto em 2000 e reformulado em 2010, com o objetivo de criar um símbolo único e harmonizado a nível europeu, mantendo, contudo, a possibilidade de coexistência com outros sistemas independentes de rotulagem.
Por mandato da Comissão Europeia, o European Union Eco-Labelling Board desenvolve os critérios de atribuição para diferentes grupos de produtos, recorrendo a instrumentos como a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV). Em Portugal, a entidade competente para a atribuição das licenças de utilização do rótulo é a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE).
Figura 1 - Alguns exemplos de Rótulos Ambientais
2. Tipologias de rótulos e declarações ambientais
Assim, e face à necessidade de uniformizar e clarificar a abordagem dos rótulos e declarações ambientais, foram definidas normas pela ISO e pelo CEN, nomeadamente:
• ISO 14020 – Rótulos e declarações ambientais – Princípios gerais;
• ISO 14021 – Rótulos e declarações ambientais – Autodeclarações ambientais – Rotulagem ambiental Tipo II;
• ISO 14024 – Rótulos e declarações ambientais – Rotulagem ambiental Tipo I – Princípios e procedimentos;
• ISO 14025 – Rótulos e declarações ambientais – Declarações ambientais Tipo III – Princípios e procedimentos;
• ISO 21930 – Sustainability in buildings and civil engineering works - Core rules for environmental product declarations of construction products and services;
• EN 15804 – Sustentabilidade das obras de construção – Declarações ambientais dos produtos – Regras de base para as categorias de produtos de construção;
• EN 15942 – Sustentabilidade das obras de construção – Declarações ambientais de produto – Formato de comunicação empresa-empresa.
• EN 15978 – Avaliação do desempenho ambiental de edifícios (nível obra).
Os rótulos e as declarações ambientais podem ser de três tipos:
Rótulos Ambientais, Auto Declarações e Declarações Ambientais de Produto. No entanto, e apesar de terem objetivos semelhantes, nomeadamente encorajar a oferta e procura de produtos com menores impactes no ambiente, levando a uma melhoria contínua do desem-
penho ambiental dos produtos no mercado, existem diferenças significativas entre eles conforme apresentado na Tabela 1.
De seguida é apresentada uma breve descrição destes três tipos de rótulos e declarações ambientais.
2.1 Declarações ambientais do Tipo I
As declarações ambientais Tipo I (rótulos ambientais) são instrumentos voluntários, multicritério e sujeitos a verificação por terceira parte, cujo objetivo é identificar produtos ambientalmente preferíveis dentro de uma categoria definida. A sua estrutura e princípios são estabelecidos pela norma ISO 14024, que especifica os requisitos para a criação e funcionamento de programas de rotulagem, a seleção de categorias de produtos, critérios ambientais, caraterísticas funcionais e a avaliação da conformidade, promovendo credibilidade e transparência.
Neste tipo de rotulagem, a informação ambiental é normalmente comunicada de forma qualitativa e de fácil compreensão (símbolo/ logótipo), dirigida principalmente ao consumidor, o que pode implicar uma simplificação dos detalhes técnicos quando comparada com outros tipos de declarações ambientais.
Na Europa, o EU Ecolabel (Figura 2) foi criado pela União Europeia em 1992 como o rótulo ecológico oficial baseado nos princípios da ISO 14024, com critérios harmonizados para diferentes grupos de produtos, embora possa coexistir com outros programas nacionais ou privados. Os critérios ecológicos são definidos por decisões da
Breve definição
Público-alvo
Método de comunicação
Informação ambiental
Rótulos Ambientais (Tipo I)
Indicam se um produto ou serviço de uma categoria de produto é preferível em relação a outro por ter menor impacte ambiental.
Consumidor
Rótulo Ambiental
Qualitativa (benefício ambiental global)
Verificação por terceira entidade independente Sim
Baseado na Avaliação de Ciclo de Vida Não (podendo basear-se em alguns aspetos)
Critérios Ambientais
Categorias de produto
Autodeclarações (Tipo II)
Desenvolvido por fabricantes, distribuidores e outros, para comunicar os aspetos ambientais dos seus produtos ou serviços.
Consumidor
Texto e Símbolo
Qualitativa (melhoria num aspeto ambiental específico)
Declarações Ambientais de Produto (Tipo III)
Apresentam informação normalizada sobre o ciclo de vida dos produtos.
Empresas/Consumidor
Declaração de dados ambientais
Quantitativa (“Perfil ambiental”)
Não é necessária Sim
Tabela 1 – Quadro comparativo dos três tipos de rótulos e declarações ambientais (Almeida, 2019))
Comissão Europeia e regularmente atualizados; por exemplo, vários grupos de produtos como tintas e vernizes tiveram os seus critérios prolongados até 2027/2032 através da Decisão (EU) 2025/2607 e outras decisões recentes estendem critérios para diversos produtos reconhecidos pelo esquema.
O grupo de produtos “revestimentos duros” foi revisto em 2021 através da Decisão (EU) 2021/476, substituindo a anterior Decisão 2009/607/CE e abrangendo uma gama mais ampla de produtos de cobertura (ex.: pavimentos e ladrilhos cerâmicos) com critérios que consideram emissões atmosféricas, substâncias restritas, eficiência e desempenho ambiental ao longo do ciclo de vida.
À data atual, o esquema EU Ecolabel continua a crescer no número de licenças e produtos certificados em toda a União Europeia, refletindo uma adoção crescente de produtos com menor impacte ambiental.
2.2 Declarações ambientais do Tipo II
As declarações ambientais Tipo II consistem em autodeclarações efetuadas por fabricantes, importadores ou distribuidores, com o objetivo de comunicar aspetos ambientais específicos dos seus produtos através de afirmações, símbolos ou gráficos presentes no rótulo, embalagem ou material publicitário. Estas declarações são reguladas pela norma ISO 14021, que estabelece requisitos quanto à utilização de termos, símbolos, metodologias de cálculo e necessidade de informação comprovável.
Ao contrário das declarações Tipo I e Tipo III, as autodeclarações não envolvem certificação ou verificação obrigatória por terceira parte, embora devam basear-se em informação exata, verificável e não enganosa. A ausência de validação independente pode levantar questões de credibilidade, mas este tipo de instrumento apresenta a vantagem de custos reduzidos e maior flexibilidade de comunicação.
As declarações Tipo II incidem geralmente sobre um aspeto ambiental específico ou sobre uma fase limitada do ciclo de vida do produto, como a incorporação de material reciclado ou a redução do consumo de energia.
A ISO 14021 prevê que estas declarações possam coexistir com outros instrumentos de comunicação ambiental. Exemplos incluem:
• A alegação de incorporação de conteúdo reciclado, frequentemente representada pelo símbolo do anel de Möbius acompanhado, quando aplicável, da percentagem de material reciclado;
• A declaração de conformidade com a Diretiva 2004/42/CE (transposta para o Decreto-Lei n.º 181/2006), relativa à limitação das emissões de compostos orgânicos voláteis (COV) em tintas e vernizes.
2.3 Declarações ambientais do Tipo III
As declarações ambientais Tipo III, designadas Declarações Ambientais de Produto (DAP) ou Environmental Product Declarations (EPD), são instrumentos voluntários de comunicação do desempenho ambiental de um produto numa perspetiva de ciclo de vida, face às crescentes exigências de sustentabilidade da sociedade. Seguem a norma ISO 14025, fornecendo informação ambiental quantificada baseada em Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), conduzida segundo os princípios da ISO 14040 e da ISO 14044, devendo ser verificadas por terceira parte independente.
Ao contrário dos rótulos Tipo I, as DAP não estabelecem limiares mínimos de desempenho, mas disponibilizam informação objetiva que permite a comparação entre produtos que desempenham a mesma função, sendo particularmente utilizadas em contextos empresa-empresa (B2B), embora possam igualmente apoiar comunicação ao consumidor (B2C).
De mencionar que todos os produtos podem ter uma DAP (tipo III), enquanto os rótulos ambientais do tipo I apenas são atribuídos a produtos que cumprem no mínimo o desempenho ambiental pré-estabelecido pela entidade a quem compete a atribuição do rótulo.
No setor da construção, as DAP assumem especial relevância enquanto instrumento de suporte ao planeamento e avaliação ambiental de edifícios, podendo ser utilizadas por projetistas, empreiteiros e sistemas de certificação de sustentabilidade. O enquadramento europeu decorre mesmo do anterior Regulamento (UE) n.º 305/2011, atualmente revogado pelo regulamento n.º 2024/3110, que estabelece regras harmonizadas para a comercialização de produtos de construção, promovendo a sustentabilidade e a digitalização no setor.
As DAP são elaboradas com base em Regras para a Categoria de Produto (RCP/PCR), que definem requisitos metodológicos específicos para produtos com funções equivalentes. No domínio da construção, destacam-se a ISO 21930 e a EN 15804 (versão A2:2019+AC:2021), que estabelecem as regras base para DAP de produtos de constru-
Figura 2 - Símbolo oficial do EU Ecolabel
ção, incluindo a estrutura modular do ciclo de vida (A1–A3, A4–A5, B, C e D) e o conjunto atualizado de categorias de impacte ambiental alinhadas com os referenciais europeus mais recentes.
Adicionalmente foram publicados a nível europeu uma série de RCPs complementares para produtos de construção específicos, como sejam madeira, cimento, betão, ladrilhos cerâmicos (EN 16170), etc., que especificam e detalham algumas condicionantes próprias que a ACV e a DAP terão de cumprir mantendo, no entanto, o alinhamento com a norma de base (EN15804+A2).
De acordo com a EN 15804, as categorias de impacte a considerar nas DAP incluem:
• aquecimento global (4 subcategorias),
• depleção da camada de ozono,
• acidificação do solo e da água,
• eutrofização,
• formação de ozono fotoquímico,
• depleção de recursos abióticos-elementos,
• depleção de recursos abióticos-combustíveis fósseis,
utilizando como metodologia de Avaliação de Impacte do Ciclo de Vida (AICV) a metodologia da Pegada Ambiental de Produto (PEF) (ver maior detalhe adiante), a que acresce uma série de indicadores de categoria de impacte em termos de energia, resíduos, água, etc.
As DAP constituem igualmente um instrumento estratégico de mercado e de apoio ao ecodesign, embora a complexidade técnica, os custos associados e a heterogeneidade entre operadores de programa continuem a representar desafios, especialmente para pequenas e médias empresas.
3. Pegada ambiental do produto
Nos últimos anos verificou-se uma proliferação de metodologias de avaliação de pegadas ambientais, situação que levou a Comissão Europeia a promover o desenvolvimento de uma abordagem harmonizada, com vista a reduzir a fragmentação metodológica, aumentar a transparência e evitar custos adicionais para as organizações.
Nesse contexto, foi publicada a Recomendação da Comissão 2013/179/EU, posteriormente atualizada pela Recomendação 2021/2279, que estabelece métodos comuns para a medição e comunicação do desempenho ambiental ao longo do ciclo de vida de produtos (Pegada Ambiental do Produto – PAP/PEF) e organizações (PAO/OEF). A metodologia baseia-se nas normas de Avaliação do Ciclo de Vida ISO 14040 e ISO 14044, bem como em referenciais como o Manual ILCD, integrando uma abordagem multicritério.
Um dos elementos centrais da PAP é o desenvolvimento de Regras de Categoria de Produto específicas (PEFCRs), que definem requisitos metodológicos harmonizados (categorias de impacte, métodos de AICV, qualidade de dados, modelação de fim de vida), visando assegurar maior consistência, comparabilidade e reprodutibilidade dos
resultados. A metodologia prevê ainda a possibilidade de alegações comparativas, desde que suportadas por regras harmonizadas e por um produto de referência.
Foram desenvolvidos diversos projetos-piloto setoriais para testar a aplicação da metodologia, sendo também disponibilizados guias técnicos, bases de dados e ferramentas de apoio, incluindo soluções orientadas para PME.
As categorias de impacte e métodos recomendados pela PAP diferem dos previstos noutras normas setoriais (como as aplicáveis às DAP de produtos de construção), refletindo a ambição de harmonização a nível europeu e de reforço da coerência metodológica.
4. Greenwashing
Como referido anteriormente, a crescente procura por sustentabilidade e eficiência ambiental tem impulsionado o desenvolvimento de diversos instrumentos de comunicação ambiental. Contudo, nem todas as alegações ambientais presentes nos produtos ou serviços correspondem a práticas efetivamente sustentáveis, tornando essencial distinguir práticas ambientais legítimas de situações de greenwashing.
O greenwashing consiste numa estratégia de comunicação ou marketing que apresenta um produto, serviço ou organização como ambientalmente responsável, quando tal não é suportado por evidência verificável ou quando os benefícios ambientais são exagerados ou irrelevantes. Trata-se, portanto, de uma forma de publicidade enganosa que pode induzir o consumidor em erro.
Com o objetivo de reforçar a proteção dos consumidores e assegurar maior transparência nas alegações ambientais, a União Europeia aprovou a Diretiva (UE) 2024/825, que altera a Diretiva 2005/29/CE relativa às práticas comerciais desleais e a Diretiva 2011/83/UE relativa aos direitos dos consumidores. Esta diretiva introduz regras específicas para combater alegações ambientais vagas ou infundadas (como “eco”, “verde” ou “amigo do ambiente” sem fundamentação), bem como a utilização de rótulos de sustentabilidade não baseados em sistemas de certificação reconhecidos ou estabelecidos por autoridades públicas.
Paralelamente, encontra-se em fase avançada o processo legislativo da Green Claims Directive, que visa estabelecer requisitos harmonizados para a fundamentação, verificação e comunicação de alegações ambientais explícitas. Esta proposta prevê que as alegações ambientais sejam baseadas em metodologia científica reconhecida, suportadas por dados robustos e sujeitas a verificação independente antes da sua divulgação.
Este reforço legislativo procura dotar os consumidores de maior proteção contra práticas enganosas, promover concorrência leal entre empresas e incentivar a adoção de práticas ambientais genuínas e comprováveis.
O reforço do enquadramento jurídico europeu em matéria de alegações ambientais tem implicações diretas nos diferentes tipos de rótulos e declarações ambientais. As declarações Tipo II (autodeclarações), reguladas pela ISO 14021, são particularmente sensíveis ao risco de greenwashing, uma vez que não exigem certificação por terceira parte, passando agora a estar sujeitas a maior escrutínio no âmbito da Diretiva (UE) 2024/825. Alegações genéricas ou não fundamentadas poderão ser consideradas práticas comerciais desleais.
Assim, o novo quadro regulatório europeu tende a valorizar instrumentos estruturados, transparentes e verificados, ao mesmo tempo que restringe a utilização de alegações ambientais vagas ou não comprovadas, contribuindo para o reforço da credibilidade do mercado de produtos sustentáveis.
5. Considerações finais
A crescente integração das dimensões ambientais nos processos produtivos e nas decisões de consumo tem impulsionado o desenvolvimento de instrumentos de comunicação ambiental mais estruturados e tecnicamente robustos. Os rótulos e declarações ambientais constituem hoje mecanismos essenciais para promover transparência, apoiar a diferenciação de produtos e incentivar a melhoria contínua do desempenho ambiental ao longo do ciclo de vida.
A distinção entre rótulos Tipo I, autodeclarações Tipo II e declarações ambientais Tipo III evidencia diferentes níveis de rigor metodológico, verificação e profundidade da informação comunicada. Enquanto os rótulos multicritério e as DAP assentam em avaliação de ciclo de vida, com base em critérios definidos e verificação independente, as autodeclarações apresentam maior flexibilidade, mas também maior suscetibilidade a interpretações ambíguas e risco de alegações infundadas.
O reforço do enquadramento normativo europeu, nomeadamente através da Diretiva (UE) 2024/825 e da proposta de Green Claims Directive, representa um passo relevante no combate ao greenwashing e na harmonização das alegações ambientais. Este novo contexto jurídico valoriza metodologias baseadas em evidência científica, verificação independente e critérios transparentes, promovendo concorrência leal e maior confiança dos consumidores.
Em síntese, a evolução das ferramentas de rotulagem e declaração ambiental, articulada com o reforço legislativo europeu, contribui para uma comunicação ambiental mais credível e comparável, constituindo um instrumento estratégico para a transição para modelos de produção e consumo mais sustentáveis.
6. Bibliografia
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LaserMarKer – Desenvolvimento de soluções laser para rastreabilidade e personalização de produtos cerâmicos
P. Santos 1 , I. Rondão 1 , V. Francisco 1 , N. M. Ferreira 2 , T. C. Marques 2 , J. F. Pinto 2 , G. Marques 2 , J. Monteiro 2 , F. Azedo 3 , A. Sarabando 3 , J. Marinheiro 3
1 Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, 3040-540 Antanhol, Portugal; 2 i3N e Departamento de Física, Universidade de Aveiro, 3810-193, Aveiro, Portugal; 3 Porcelanas da Costa Verde S.A., 3840-385, Vagos, Portugal
Introdução
A tecnologia laser encontra-se amplamente consolidada em diversos setores industriais, como é exemplo o setor da metalurgia. No entanto, no setor cerâmico, a sua aplicação permanece ainda limitada, exigindo um aprofundado trabalho de parametrização e estudo da interação entre o feixe laser e o material cerâmico, de modo a viabilizar a sua utilização em contexto industrial.
Posicionamento do setor cerâmico e desafios do projeto
A indústria cerâmica portuguesa representa 1,4% do PIB nacional (COMPETE2030, 2024) e apresenta uma forte componente exportadora. No subsector da louça utilitária e decorativa, Portugal posiciona-se como um dos principais exportadores europeus (APICER, 2023). Num mercado global cada vez mais competitivo e exigente, fatores como sustentabilidade, eficiência energética, boas práticas ambientais e personalização assumem crescente importância, a par da qualidade, inovação e design.
O projeto LaserMarKer foi criado com o objetivo de integrar esta tecnologia no processo produtivo da indústria cerâmica, mais concretamente na porcelana. A proposta assenta na definição dos parâmetros do laser, atendendo às características específicas dos produtos e do processo cerâmico, permitindo a introdução de novas funcionalidades e de ganhos de eficiência. As três linhas principais de desenvolvimento deste projeto são a implementação da rastreabilidade e do Passaporte Digital de Produto (PDP) e decoração de peças sem recurso a tintas ou cozedura.
O consórcio do projeto é constituído pela Porcelanas da Costa Verde (PCV), empresa com forte conhecimento tecnológico no setor da porcelana, pela Universidade de Aveiro (UA), com experiência consolidada em investigação na área da tecnologia laser aplicada a materiais cerâmicos, e pelo Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), com vasta experiência em projetos de I&D no setor e profundo conhecimento do processo e do produto cerâmico.
Este projeto teve início em setembro de 2025 e encontra-se na fase de levantamento do estado da arte e vigilância tecnológica.
Neste momento está a iniciar-se a fase de estudo e desenvolvimento do processo de identificação de produtos cerâmicos, com a obtenção dos primeiros resultados preliminares.
O setor tem evoluído no sentido da implementação de automação, aumento da eficiência produtiva e energética e da redução do impacto ambiental. Neste contexto, a rastreabilidade assume particular importância, permitindo monitorizar em tempo útil o histórico das operações, a origem das matérias-primas e o percurso do produto ao longo do seu ciclo de vida. Contudo, não existem atualmente soluções tecnológicas que assegurem uma rastreabilidade global no processo cerâmico, sobretudo devido às características específicas do produto, nomeadamente as elevadas temperaturas de cozedura.
O projeto LaserMarKer propõe colmatar esta lacuna através da implementação da gravação a laser que cria uma identificação permanente na peça, capaz de subsistir às diferentes etapas do processo produtivo e acompanhar o produto durante toda a sua vida útil. Esta solução permite rastrear as peças desde as fases iniciais de produção até ao final do processo, bem como integrar o PDP, conforme previsto no Regulamento relativo à conceção ecológica de produtos sustentáveis no âmbito do Pacto Ecológico Europeu.
O PDP constitui um mecanismo eletrónico que regista informação relevante do produto, processa dados ao longo da cadeia de valor e facilita a partilha de informação entre produtores, distribuidores, autoridades e consumidores. A proposta do LaserMarKer visa precisamente colmatar esta lacuna através da criação de uma identificação
permanente na peça que subsista durante todo o processo produtivo desta e da sua vida útil (Figura 1).
Paralelamente, o LaserMarKer introduz uma abordagem inovadora à decoração, marcação de peças (backstamp) e personalização. Ao contrário dos métodos tradicionais, que recorrem à aplicação de tintas ou pigmentos e frequentemente exigem uma cozedura adicional entre 900°C e 1200°C para consolidação, a tecnologia laser permite modificar diretamente a superfície da peça, criando decorações, logótipos e marcas permanentes sem recurso a matérias-primas críticas, que geralmente compõem os pigmentos e tintas cerâmicas. Esta solução elimina etapas adicionais de cozedura, reduz o consumo energético e contribui para a descarbonização do processo produtivo (Figura 2).
Adicionalmente, no domínio da personalização, a gravação direta por laser possibilita um novo modelo operacional, mais ágil e eficiente, dispensando ajustes complexos ao processo convencional, reduzindo custos em recursos humanos, materiais e tempo, e permitindo uma resposta imediata às solicitações do cliente, mantendo elevados padrões de qualidade e durabilidade (Figura 3).
Conclusão
O projeto LaserMarKer propõe a integração da tecnologia laser no processo produtivo cerâmico, com impacto direto na rastreabilidade, na sustentabilidade, na eficiência energética e na flexibilidade de personalização. A iniciativa visa desenvolver uma solução tecnológica que contribua para a modernização e maior automatização do setor, assegurando a identificação e o acompanhamento das peças ao longo de todas as fases de produção, bem como durante a sua expedição e entrega ao cliente.
Assente na colaboração entre indústria e entidades do sistema científico e tecnológico, o projeto pretende desenvolver e validar soluções tecnologicamente robustas, integráveis em ambiente industrial relevante, contribuindo para a modernização e valorização do setor cerâmico português.
AGRADECIMENTOS: Projeto financiado pelos fundos FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do programa Inovação e Transição Digital do projeto “LaserMarKer - Desenvolvimento de soluções laser para rastreabilidade e personalização de produtos cerâmicos”, operação n.º CENTRO2030-FEDER-01473100.
Figura 1 - Identificação individual de peças através de códigos QR.
Figura 2 - Desenvolvimento de backstamps e logotipos sem recorr er a tratamentos térmicos.
Figura 3 - Personalização de peças on demand.
Figura 4 - Resultados preliminares da interação do laser com a porcelana.
CERAMIC+: Tecnologia, inovação e património para a revitalização do artesanato cerâmico no espaço SUDOE
Ana Carvalho, Nádia Jordão e Maria Ferreira
Lufapo Hub, Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), Coimbra
A cerâmica decorativa tradicional europeia constitui um património cultural de elevado valor histórico, artístico e identitário. No entanto, muitas das técnicas artesanais associadas a este sector encontram-se atualmente em risco de desaparecimento, em resultado da perda progressiva de conhecimento especializado, da escassez de apoio estruturado e da dificuldade de adaptação às exigências dos mercados contemporâneos. Em paralelo, observa-se um renovado interesse do público, do design e das indústrias criativas pelo artesanato, pela autenticidade dos materiais e pela valorização das tradições locais, particularmente no contexto do habitat contemporâneo.
É neste enquadramento que surge o Projeto CERAMIC+, uma iniciativa de cooperação transnacional no espaço SUDOE que procura responder de forma integrada aos desafios da preservação do património cerâmico e da modernização do sector artesanal. O projeto assenta na articulação entre saber-fazer tradicional, tecnologias avançadas de fabrico e estratégias de inovação orientadas para o
território, transformando a cultura local num verdadeiro motor de desenvolvimento económico e social.
Missão e objetivos do CERAMIC+
O CERAMIC+ tem como missão integrar estrategicamente o artesanato cerâmico tradicional com tecnologias de ponta, promovendo a revitalização, modernização e internacionalização do sector através da cooperação entre regiões europeias fortemente representativas da cerâmica tradicional: Comunidade Valenciana (Espanha), Nova Aquitânia e Occitânia (França) e Centro de Portugal.
O projeto estrutura-se em torno de três objetivos principais: i) atualizar as capacidades de inovação do sector da cerâmica tradicional; ii) assimilar soluções tecnológicas para desafios comuns, reforçando a competitividade e a sustentabilidade de artesãos e PMEs; iii) posicionar o sector da cerâmica tradicional como um sector de excelência no espaço SUDOE, com maior projeção internacional.
A estratégia adotada combina a preservação do património cultural cerâmico, a aplicação de tecnologias avançadas de fabrico sustentável e a transferência estruturada de conhecimento, envolvendo centros tecnológicos, escolas de arte e design, associações, entidades públicas e agentes económicos.
Preservação e atualização do património cerâmico
Um dos pilares fundamentais do CERAMIC+ é a preservação e atualização do património cultural e artesanal cerâmico, assegurada através da digitalização, documentação e inventariação sistemática de técnicas, peças e moldes tradicionais nas regiões participantes.
Este trabalho recorre a metodologias avançadas de digitalização, como a fotogrametria, a aquisição de nuvens de pontos e técnicas de reconstrução tridimensional, complementadas pela recolha de teste-
munhos e conhecimento imaterial associado às práticas artesanais. O resultado será a criação de uma biblioteca virtual de acesso livre, reunindo imagens de alta qualidade, modelos 3D, desenhos CAD e conteúdos audiovisuais, garantindo a conservação do património e a sua transmissão às novas gerações.
Este inventário constitui igualmente a base para a atualização do repertório cerâmico tradicional, permitindo a criação de novas peças adaptadas às tendências contemporâneas do habitat e do design, sem perda da identidade cultural dos territórios e dos autores.
O contributo do CTCV na inovação tecnológica aplicada ao artesanato cerâmico
O Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV) assume um papel central no CERAMIC+, liderando a componente dedicada ao desenvolvimento, demonstração e validação de tecnologias avançadas de fabrico aplicadas à cerâmica artesanal. Esta intervenção tem como principal objetivo demonstrar de que forma a inovação tecnológica pode apoiar artesãos e PMEs do sector da cerâmica tradicional, reforçando a sua competitividade, sustentabilidade e capacidade de resposta aos mercados contemporâneos, sem comprometer o valor cultural e identitário dos produtos.
No âmbito desta componente, o CTCV, em estreita colaboração com os restantes parceiros do consórcio, irá explorar, adaptar e testar um conjunto alargado de tecnologias, incluindo digitalização 3D, técnicas avançadas de modelação e reconstrução, impressão 3D, Robocasting, CNC, cobots e impressão a jato de tinta. Estas soluções serão avaliadas quanto à sua adequação às técnicas artesanais tradicionais e à escala produtiva das PMEs, sendo complementadas por estudos de sustentabilidade e pela aplicação do princípio DNSH (Do No Significant Harm) aos portefólios de produtos tradicionais.
As soluções desenvolvidas serão demonstradas e validadas através de atividades-piloto realizadas em Espanha, França e Portugal, permitindo testar novos processos produtivos, aumentar a eficiência, reduzir desperdícios e criar novas oportunidades de diferenciação e valorização económica do artesanato cerâmico.
Transferência de conhecimento, capacitação e Marketplace
A transferência de conhecimento constitui um eixo transversal do projeto. Enquanto centro tecnológico, o CTCV terá um papel determinante na formação de formadores, capacitando docentes de escolas de arte e design para a disseminação das tecnologias avançadas junto de artesãos e PME.
Serão desenvolvidos conteúdos pedagógicos específicos e promovidas oficinas de formação, workshops e ações de demonstração, as-
segurando que o conhecimento gerado é efetivamente assimilado e utilizado pelos agentes do sector. Este processo contribuirá para o reforço das capacidades técnicas dos artesãos, para a modernização das PMEs e para a redução de assimetrias territoriais no espaço SUDOE.
Um dos resultados mais visíveis do projeto será a criação de um Marketplace digital, onde serão apresentados os produtos, processos e soluções resultantes da hibridação entre técnicas tradicionais e tecnologias avançadas, promovendo a comercialização e a visibilidade internacional do artesanato cerâmico contemporâneo.
Comunicação, divulgação e impacto territorial
A comunicação e divulgação dos resultados do CERAMIC+ constitui um objetivo específico do projeto. As novidades, entregáveis, demonstradores e resultados serão divulgados através de diferentes meios, dirigidos a um público-alvo diversificado que inclui artesãos, artistas, diretores técnicos de PMEs, museus, decisores políticos, entidades de formação, universidades, investigadores, associações industriais, meios de comunicação social especializados e o público em geral.
A participação do consórcio em feiras especializadas e a inclusão de vários parceiros estratégicos, permitirão uma aproximação direta aos agentes do sector, potenciando a disseminação dos resultados, o con-
tacto com gestores de PMEs, investigadores, artistas e artesãos, e a criação de novas redes de colaboração. As oficinas de formação contribuirão para uma transferência de conhecimento efetiva e duradoura.
Conclusão
O CERAMIC+ representa uma abordagem inovadora e integrada à valorização do artesanato cerâmico, demonstrando que a tecnologia pode ser uma aliada estratégica da tradição. O papel do CTCV é determinante para assegurar que as tecnologias avançadas de fabrico são aplicadas de forma sustentável, acessível e orientada para as necessidades reais dos artesãos e das PME.
Ao transformar o património cultural em motor de inovação, desenvolvimento económico e coesão territorial, o CERAMIC+ contribui para posicionar o artesanato cerâmico do espaço SUDOE como um sector de excelência no contexto europeu.
O projeto CERAMIC+ é cofinanciado pelo Programa Interreg Sudoe, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER)
Espectrómetro de fluorescência de raios-X com dispersão de comprimento de onda.
Performance excecional com baixa manutenção graças à geometria ótica invertida, única no mercado, que evita a contaminação da ampola de raios-X e dos detetores.
LISTeN to Industry: dar voz ao setor, ligar conhecimento, antecipar o futuro
Arabela Fabre e Victor Francisco
Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), Coimbra
Num contexto de profunda transformação da indústria cerâmica nacional e europeia, o CTCV lançou o seu podcast institucional como um novo canal de proximidade com o setor, assumindo a comunicação técnica e estratégica como um pilar essencial da sua missão. O primeiro episódio do LISTeN to Industry constitui um marco simbólico e substantivo desta aposta, ao contar com a participação de Marcelo Franco Sousa, CEO da Matcerâmica e, à data, Presidente da Federação Europeia da Louça Cerâmica e Decorativa e figura central na representação e defesa dos interesses da indústria europeia de louça cerâmica.
Um setor estratégico sob pressão e em transformação
Ao longo da conversa, foi traçado um retrato claro do momento que a indústria europeia da louça cerâmica atravessa. Um setor historicamente forte, com elevado valor cultural, económico e social, mas que enfrenta hoje pressões sem precedentes. Entre os temas centrais abordados destacam-se o impacto dos custos energéticos, a crescente exigência regulatória, a concorrência de mercados extraeuropeus e a necessidade urgente de adaptação aos objetivos climáticos da União Europeia.
Foi sublinhado que a sustentabilidade deixou de ser uma opção estratégica para se tornar uma condição de sobrevivência. A descarbonização dos processos produtivos, a eficiência energética, a gestão responsável dos recursos e a economia circular surgem como eixos incontornáveis, mas também como oportunidades para reforçar a competitividade e a diferenciação do produto europeu.
Inovação, conhecimento e cooperação como resposta
Neste primeiro episódio, a valorização do conhecimento técnico e científico como motor de transformação surgem como pontes fortes. A inovação – quer ao nível dos materiais, dos processos, da digitalização ou dos modelos de negócio – é apontada como fator crítico para garantir resiliência e crescimento sustentável.
Neste contexto, o papel dos centros tecnológicos, como o CTCV, e das associações setoriais foi também destacado. Estas entidades surgem como verdadeiros facilitadores da transição, promovendo a ligação entre investigação, indústria e políticas públicas, apoiando as empresas na interpretação da regulamentação europeia e na implementação de soluções tecnicamente robustas e economicamente viáveis.
A cooperação à escala europeia foi igualmente enfatizada, não apenas como forma de representação institucional junto das instâncias comunitárias, mas como espaço de partilha de boas práticas, alinhamento estratégico e construção de respostas coletivas para desafios comuns.
O valor do produto europeu e a importância da comunicação
Outro tema presente nesta conversa, foi a valorização do produto cerâmico europeu. Num mercado global altamente competitivo, comunicar qualidade, sustentabilidade, segurança e design torna-se essencial. A defesa de regras de concorrência justas, baseadas em critérios ambientais e sociais equivalentes, foi apontada como condição necessária para proteger a indústria europeia e o emprego qualificado que esta gera.
É precisamente neste ponto que a comunicação assume um papel estratégico. Tornar visível o esforço de inovação, o investimento em sustentabilidade e o valor acrescentado do produto europeu é fundamental para consumidores, decisores políticos e mercados internacionais.
O
podcast como ferramenta estratégica para o setor
O lançamento do Podcast LISTeN to Industry insere-se plenamente nesta lógica. Enquanto formato acessível, flexível e próximo, o podcast permite aprofundar temas complexos, dar voz aos protagonistas dos diversos setores industriais e criar um espaço de reflexão que complementa os canais tradicionais de comunicação técnica, como a revista Técnica.
Mais do que um espaço de entrevistas, pretende-se que o LISTeN to Industry seja um espaço de reflexão alargada sobre os grandes desafios e oportunidades que hoje se colocam aos diferentes setores industriais, privilegiando a cerâmica, o vidro e os recursos minerais, cruzando perspetivas nacionais e europeias, com a realidade concreta das empresas, num diálogo informado, atual e orientado para o futuro. É, pois, uma plataforma de conhecimento, alinhada com a missão do CTCV de apoiar a competitividade da indústria cerâmica nacional e europeia. Ao aproximar especialistas, decisores, investiga-
dores e empresas, contribui para uma comunidade mais informada, mais preparada e mais coesa face aos desafios que se avizinham e contribui para o estabelecimento e reforço de sinergias de cooperação entre os stakeholders do ecossistema de inovação.
Um ponto de partida para um diálogo contínuo
Este primeiro episódio estabelece, assim, o tom e a ambição do LISTeN to Industry: promover pensamento estratégico, partilhar conhecimento qualificado e reforçar a ligação entre o setor, a ciência e a Europa. Num momento em que os setores industrias, em particular os atrás referidos, enfrentam decisões estruturais sobre o seu futuro, iniciativas como esta assumem um papel determinante na construção de uma visão comum e sustentável.
O LISTeN To Industry é uma produção do CTCV, com o apoio do COMPETE2030, Portugal2030 e Fundos Europeus e está disponível no canal de Youtube do CTCV bem como na plataforma digital SPOTIFY.
A Normalização como Fator de Competitividade e Sustentabilidade nos Mercados da Construção Sustentável
Helena Teixeira
Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), Coimbra
O CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro é uma entidade de referência nacional na promoção da inovação, desenvolvimento tecnológico e qualidade nos setores da cerâmica e do vidro. Reconhecido como Organismo de Normalização Setorial (ONS) pelo Instituto Português da Qualidade (IPQ), desde 2016, o CTCV desempenha um papel fundamental na elaboração, adoção e divulgação de normas técnicas, tanto a nível nacional como internacional, contribuindo para a competitividade e sustentabilidade destes setores.
O Instituto Português da Qualidade (IPQ), em parceria com o Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), enquanto Organismo de Normalização Setorial, e com o Cluster do Habitat Sustentável (CHS), promoveu no dia 21 de janeiro, nas instalações do CTCV, uma sessão do Roteiro de Normalização, iniciativa dedicada à divulgação da normalização como instrumento fundamental para a qualificação técnica, a competitividade, sustentabilidade e a internacionalização das empresas reforçando a ligação entre as normas e os desafios atuais dos mercados da construção sustentável.
A condução e apresentação dos trabalhos esteve a cargo da Helena Teixeira, elemento de ligação entre o ONS CTCV e o IPQ.
A sessão de abertura contou com Jorge Marques dos Santos, atual Presidente do Conselho de Administração do CTCV e antigo Presidente do IPQ, com vasta experiência no apoio técnico à indústria, na transferência de conhecimento e na articulação entre investigação aplicada, inovação e normalização nos setores da cerâmica, vidro e materiais associados e João Pimentel, atual Presidente do Instituto Português da Qualidade (IPQ), onde desenvolve atividade na área do sistema nacional de normalização, com especial enfoque na coordenação de políticas de normalização e na ligação entre o contexto nacional, europeu e internacional. Ambos falaram da importância da normalização como impulsionador da economia quer interna quer externamente.
Seguiu-se a intervenção de Inês Judas, Diretora do Departamento de Normalização do IPQ. Com um percurso sólido na coordenação do sistema nacional de normalização e representação internacional
de Portugal, a sua intervenção focou-se sobre o papel estratégico das normas e a articulação entre a regulação e o suporte à competitividade das empresas.
Esta sessão contou com três painéis – “Materiais para a Construção Sustentável”, “Funcionalidade, Eficiência e Conforto no Habitat” e “Materiais Naturais e Identidade do Habitat”.
O primeiro painel “Materiais para a Construção Sustentável”, moderado por Manuel Carrasqueira, Presidente da Comissão Técnica 224 “Cidades e Comunidades Sustentáveis”, teve como oradores Diana Correia, Presidente da CT 105 dos Cimentos da ONS ATIC, técnica com experiência no desenvolvimento e aplicação de soluções cimentícias, João Boia Paulo, profissional ligado à indústria cerâmica, com enfoque na inovação de produto, qualidade e normalização, responsável pela Melhoria Contínua na Revigrés e João Melo, gestor de produto da envolvente exterior da Saint-Gobain Portugal com percurso
na área dos materiais de construção, desempenho técnico e soluções para a eficiência energética. Juntos analisaram como a normalização funciona como alavanca para a descarbonização e para o sucesso na exportação. Foram debatidas questões de Competitividade e Mercado, Desafios e Sustentabilidade e Futuro e Ação, tais como que vantagens competitivas trazem certificações de sustentabilidade (ex.: DAP/EPD) para exportação de materiais de construção? Como a normalização ajuda a diferenciar materiais sustentáveis em mercados exigentes (ex.: Alemanha, Reino Unido)? Quais são as barreiras à adoção de normas de economia circular e reutilização de materiais, e como superá-las.
O segundo painel Funcionalidade, Eficiência e Conforto no Habitat focado no desempenho e bem-estar foi moderado por Sandra Jordão (DEC FCTUC), docente e investigadora com trabalho reconhecido nas áreas da engenharia civil, materiais e desempenho do ambiente construído. O painel contou com João Teles, Responsável pela Certificação, Normalização e Laboratório na OLI e presidente da CT139 – Aparelhos Sanitários, Alexandre Zenha, especialista em soluções construtivas, conforto e eficiência energética, que integra o Departamento de Marketing da Saint-Gobain Portugal, Margarida Oliveira, técnica com forte ligação ao desenvolvimento e valorização da cortiça enquanto material natural e sustentável, e ainda Salete Peixinho, representante do setor da madeira e mobiliário, com experiência em normalização, regulamentação e competitividade industrial. Este painel explorou a eficiência hídrica e energética como metas de design e inovação. Durante a sessão, foi evidenciada a importância das normas técnicas como instrumentos fundamentais para o acesso a mercados externos, destacando-se, em particular, as dificuldades sentidas por empresas nacionais na exportação para o mercado francês, decorrentes do elevado nível de exigência associado ao sistema NF UPEC. Este referencial impõe requisitos rigorosos de desempenho, durabilidade e segurança, constituindo um desafio técnico e económico significativo, especialmente para pequenas e médias empresas, mas assumindo simultaneamente um papel determinante na valorização da qualidade dos produtos.
Por último, tivemos o painel Materiais Naturais e Identidade do Habitat moderado por Érica Castanheira (DEM FCTUC), docente e investigadora com atividade nas áreas dos materiais, engenharia e
sustentabilidade, especialista em avaliação de ciclo de vida e economia circular. Contou-se com Catarina Claro, coordenadora do departamento técnico da ASSIMAGRA, com foco nas questões de sustentabilidade, na valorização de materiais naturais e enquadramento normativo, Paulo Pinto Santos, Diretor de Marketing das Porcelanas da Costa Verde com 30 anos de experiência em internacionalização e defensor do SMarketing, e novamente Margarida Oliveira da Amorim Cork, agora com o foco no setor da cortiça e reforçando a perspetiva da mesma enquanto material identitário e sustentável. O grande tema desta mesa foi como normalizar a tradição da cerâmica, pedra e cortiça sem perder a sua autenticidade.
Aqui, foi no contexto setorial abordada a realidade do setor da cortiça, onde se tem verificado o surgimento crescente de materiais alternativos de origem não natural, desenvolvidos para replicar características funcionais tradicionalmente associadas à cortiça. Esta evolução reforça a necessidade de normalização clara e tecnicamente robusta, que permita diferenciar materiais naturais e sustentáveis, assegurando critérios objetivos de desempenho, rastreabilidade e impacto ambiental.
A sessão de encerramento esteve a cargo de António Baio Dias, atual Presidente do Cluster Habitat Sustentável e Diretor Geral do CTCV. Com décadas de liderança em organismos de normalização setorial, António Baio Dias reafirmou o compromisso do setor com a integração técnica e a qualificação nacional no mercado global.
O Roteiro de Normalização sublinhou o contributo das normas para a harmonização de requisitos técnicos, a facilitação da avaliação da conformidade e o reforço da confiança entre fabricantes, clientes e entidades reguladoras. Foi destacada a importância da participação ativa das empresas e dos centros tecnológicos nos processos de normalização, garantindo que os referenciais normativos acompanham a evolução tecnológica e as necessidades reais da indústria.
A iniciativa reforçou o papel do CTCV enquanto entidade de suporte técnico e de interface com o sistema de normalização, promovendo a capacitação do tecido empresarial e incentivando a utilização estratégica das normas como fator de diferenciação, acesso a mercados e desenvolvimento sustentável.
Manifestação de interesse Associados CTCV
Vantagens exclusivas para Associados:
• Descontos em serviços
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O Grupo MCS® é constituído por um conjunto de empresas que operam na área mineira da extração e processamento de matérias-primas cerâmicas multiminerais. Oferecendo mais do que matérias-primas e pastas cerâmicas, o Grupo MCS® está comprometido com os princípios de extração responsável e sustentável, fornecendo “Minerais para a Vida”. O nosso sucesso é construído com base na inovação, I&D e parcerias colaborativas para superar os desafios do setor.