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REVISTA TÉCNICA #28 (ABRIL/MAIO)

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2 0 2 5 // # 2 8 | A B R I L / M A I O | B i m e s t r a l

€6,00

Minerais:

A Geodiversidade Nacional para a Transição Energética e Reindustrialização

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EDITORIAL Estima-se que a exploração de minerais em Portugal, num setor que tem perto de 2000 empresas, tenha faturado em 2023, cerca de 1,2 mil milhões de euros, o que revela a importância deste setor para a economia do nosso país, pela riqueza que cria, pelo desenvolvimento regional e pela geração de emprego, que tende a ser cada vez mais qualificado. Este é de facto um setor muito importante para o país e para a Europa, com a posição geográfica de Portugal a criar uma oportunidade de crescimento e diversificação de mercados. A 28ª edição da revista Técnica, sublinha a importância dos recursos minerais para a sustentabilidade, a inovação e o desenvolvimento económico, destacando o papel de Portugal na transição energética, na descarbonização e na reindustrialização europeia. Pretendeu-se ao longo desta edição e com os contributos de alguns dos principais agentes nesta matéria, colmatar a desinformação e clarificar conceitos, numa perspetiva de que se reconheça a geodiversidade nacional, como uma vantagem competitiva e um papel estratégico numa lógica de independência europeia de países terceiros e numa reindustrialização sustentável do velho continente, criando clusters industriais ligados à economia verde. Os desafios da reindustrialização e da transição energética europeia, com a crise climática e a sustentabilidade como principais pilares, pressupõem uma forte aposta num desenvolvimento de base tecnológica assente em tecnologias não poluentes, sendo o conhecimento, a inovação e o desenvolvimento de sinergias estratégicas, a resposta a esses desafios, como é o caso dos projetos elencados nesta edição, que procuram integrar a extração mineira e o processamento, para maximizar os benefícios económicos e sociais, ou a resposta interna a grandes obras públicas, como a linha ferroviária de alta velocidade Porto-Lisboa, ou o novo aeroporto, que pressupõem uma estratégia para garantir o abastecimento de matérias-primas essenciais como agregados, cimentos e argilas. Como Centro de Tecnologia e Inovação, que tem como missão a vigilância tecnológica nas suas áreas de atuação, o CTCV destaca nesta revista as iniciativas de extração, beneficiação e processamento de minerais críticos, bem como valorização de rejeitados, numa lógica de economia circular e eco-inovação, essenciais não só no caminho da transição energética e climática, posicionando o país como líder na cadeia de valor do lítio na Europa, mas também na beneficiação de indústrias transformadoras, como o vidro ou a cerâmica. Ao longo da revista são dados vários exemplos de beneficiação e valorização dos produtos extraídos, como é o caso da valorização de rejeitados de espodumena na produção de porcelana de alta alumina, que exemplificam como os resíduos podem ser transformados em materiais de

alto valor acrescentado e reintegrados em formulações cerâmicas ou outras indústrias, contribuindo para a substituição de recursos minerais virgens, aumentando a eficiência dos processos de sinterização e reduzindo o consumo de energia. O CTCV assume o seu compromisso como entidade de interface, no apoio a este importante setor de atividade, explorando alianças estratégicas entre o sistema de inovação e a indústria, procurando soluções que permitam um impulso e um forte contributo na reindustrialização da Europa e do País. Jorge Marques dos Santos Presidente do Conselho de Administração do CTCV

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SUMÁRIO

FICHA TÉCNICA 2025 // #28 | ABRIL/MAIO | Bimestral

01 Editorial

Propriedade, Edição e Redação

04 Recursos minerais na Europa e em Portugal: Hora de agir 08 A próxima Revolução é Mineral – E Portugal tem de estar Nela 10 Matérias-primas críticas: A sua importância acrescida na véspera do Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas (CRM Act)

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Novas matérias-primas minerais para cerâmica

18 Impacto do desenvolvimento tecnológico nos recursos minerais

22 Matérias-primas & Indústria da Cerâmica e do Vidro 24 Indústria extrativa e o papel social 26

Projeto de Beneficiação de Feldspato e Lítio (Espodumena) a partir da Mina de Alijó

CTCV - Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro Rua Coronel Veiga Simão, 3025-307 Coimbra (T) 239 499 200 (E) comunicacao@ctcv.pt (W) www.ctcv.pt NIF: 501632174

Diretor

Diretor-Adjunto

António Baio Dias

Sofia David

Subdiretor

Editor

Sandra Carvalho

Jorge Marques dos Santos

Coordenador Nuno Nossa

Colaborações António Ferreira da Silva, António Moura, Arnold Ismailov, Augusto Filipe, Beatriz Pedro, Carla Fortes, Carlos Lagoa, Célia Marques, C.S. Assumpção, Daniel P. S. de Oliveira, Eduarda Araújo, Erkki Levanen, Fábio Rocha, Fernando Tavares Rocha, Filipe Gonçalves, Hugo Lagoa, João Carlos Santos, José Lopes Velho, José Mário Castelo Branco, Katja Kilpimaa, Luís Faria Lopes, Luís Marques, Luís Martins, Miguel Goulão, Mirja Illikainen, Nahal Abie, Patrick N. Lemougna, Pedro Gonçalves, Pekka Tanskanen, Priyadharshini Perumal, Tiago Bartolomeu

Design e Arte Final José Luís Fernandes

Capa Projetada usando recursos da IA Gemini

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O Papel dos Projetos Estratégicos Europeus na Cadeia de Valor do Lítio: o caso da Mina do Romano

32 Prospeção e pesquisa na zona da mina de cobre de Miguel Vacas 36 Caminho para a Sustentabilidade nas Pedreiras: Soluções Atuais e Futuras com a Caterpillar®

38 Equipamentos Móveis e Modulares: Uma Resposta Inovadora à Escassez de Recursos e ao Desafio das Matérias-Primas Críticas

42 Reciclagem de Rejeitados de Espodumena na Produção de Porcelana de Alta Alumina

Impressão Gráfica Almondina - Progresso e Vida; Empresa Tipográfica e Jornalistica, Lda Rua da Gráfica Almondina, Zona Industrial de Torres Novas, Apartado 29, 2350-909 Torres Novas (T) 249 830 130 (E) geral@grafica-almondina.com (W) www.grafica-almondina.com

Tiragem 250 exemplares

Publicação Periódica inscrita na ERC (Entidade para a Comunicação Social) com o nº 127420 Estatuto Editorial disponível em https://www.ctcv.pt/estatuto-editorial.pdf É proibida a reprodução total ou parcial de textos sem citar a fonte. Os artigos assinados veiculam as posições dos seus autores.

46 Matérias-primas minerais e as grandes obras públicas em Portugal (2025 – 2035)

NextGenerationEU

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P O RTO • L I S B OA • S A N TA N D E R • M A D R I D • BA R C E L O N A • S E V I L H A


Recursos minerais na Europa e em Portugal: Hora de agir Luís Martins Associação Cluster Portugal Mineral Resources

Introdução A história do aproveitamento dos recursos minerais sempre acompanhou e serviu de alicerce à história do próprio homem. Todas as atividades humanas dependeram desde os primórdios, direta ou indiretamente, dos recursos minerais. E, neste aspeto, nos dias de hoje dominados por um desenvolvimento tecnológico com um ritmo sem precedentes, nada mudou: o nosso estilo de vida e todas as comodidades do nosso dia-a-dia continuam a depender, mais do que nunca, dos recursos minerais. Mesmo quando a atividade extrativa, atividade responsável pela disponibilização dos recursos minerais à sociedade, desenvolvida por pessoas e para as pessoas, passou a ter uma fraca aceitação social, devido aos impactes ambientais que gerava, a Europa continuou a utilizar de uma forma crescente este tipo de recursos, apenas deslocalizando a origem do seu fornecimento e dos seus impactes.

A IMP veio reconhecer a imprescindibilidade dos recursos minerais para a sociedade, para a competitividade, para o crescimento e para a geração de emprego na Europa. Reconheceu ainda que a dependência que a Europa detém do exterior no fornecimento destas matérias-primas coloca em risco a indústria europeia que delas depende, com todas as consequências resultantes, bem como a necessidade de implementar medidas capazes de assegurar um fornecimento seguro e sustentável, assentes em três pilares: - Primeiro pilar: Acesso às matérias-primas nos mercados mundiais isento de distorções; - Segundo pilar: Promover o aprovisionamento sustentável em matérias-primas de fontes europeias; - Terceiro pilar: aumentar a utilização eficiente dos recursos e incrementar a utilização de matérias-primas secundárias e o recurso à reciclagem.

Recentemente, assistimos a várias ações que demonstram claramente a sua importância geoestratégica, podendo inclusivamente serem usados como moeda de troca para o alcançar da paz na Ucrânia.

Após o lançamento da IMP, várias outras ações foram desenvolvidas pela CE no sentido de reforçar os seus princípios, sendo de realçar o grupo de trabalho que identificou em 2011 a 1ª lista de recursos minerais críticos para a Europa, com 14 substâncias. Esta lista foi revista por 4 vezes, cada 3 anos, incluindo a última, publicada em 2024, 34 matérias-primas críticas.

Desenvolvimentos nas últimas duas décadas

O contexto atual

A política descrita anteriormente veio colocar a Europa numa dependência perigosa, face ao exterior, do fornecimento de recursos minerais, sobretudo de certos minerais industriais e de metais.

Na UE, a indústria diretamente envolvida na produção e transformação de matéria-prima mineral representava em 2022, 371 000 postos de trabalho diretos e gerou cerca de 173,6 € biliões de volume de negócios líquido, isto para não referir milhões de postos de trabalho em sectores industriais a jusante (nomeadamente metal fabricado, maquinaria e equipamento), os quais dependem fortemente do abastecimento seguro de matérias-primas minerais.

Pese embora o contexto desfavorável, o Raw Materials Supply Group (RMSG) da atualmente designada DG GROW da CE esteve sempre ciente da debilidade atingida pelo sector extrativo europeu e das consequências resultantes dessa realidade, pelo que manteve um trabalho constante de suporte ao sector, culminado com o lançamento da COM(2008) 699 – Iniciativa Matérias-Primas: Atender às necessidades críticas para assegurar o crescimento e o emprego na Europa (IMP), a 4 de novembro de 2008, que constituiu um marco de grande magnitude e determinante para a mudança de paradigma, com impacto positivo no sector dos recursos minerais, tendo impulsionado todos os desenvolvimentos que se têm seguido, mantendo-se atual nos dias de hoje.

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Além disto, para muitas regiões da UE, a indústria mineira representa um importante fator de coesão territorial e de desenvolvimento local, sendo por vezes o único agente económico que verdadeiramente contribui para ganhos efetivos de prosperidade. Bastaria olhar para a evolução da lista de matérias-primas críticas, que passaram de 14 para 34 em 13 anos, para concluirmos que a nossa dependência delas tem aumentado (figura 1), pese embora


Figura 1

todos os esforços da CE para contrariar esta tendência, não acompanhados por medidas concretas dos Estados-Membros da UE. Será ainda de realçar que, na UE, o investimento em prospeção e pesquisa, a 1ª etapa de qualquer cadeia de valor mineral, permanece demasiadamente baixo e cada vez mais longe dos níveis praticados em muitas outras regiões do mundo (casos da Austrália e Canadá, por exemplo). Estas foram assim as principais razões que levaram a Comissão Europeia a tomar a iniciativa de preparar legislação que obrigasse os Estados-Membros a mudar a sua atitude passiva relativamente à revelação e aproveitamento de recursos minerais. Após negociações complexas com o Parlamento e Conselho Europeus, surge assim o Ato das Matérias-Primas Críticas, publicado em abril de 2024, cujo principal objetivo é “melhorar o funcionamento do mercado interno através da criação de um regime que assegure o acesso da União a um aprovisionamento seguro, resiliente e sustentável de matérias-primas críticas, incluindo através da promoção da eficiência e da circularidade ao longo da cadeia de valor”. Realce-se que o conceito de economia circular e a sua implementação no sector dos recursos minerais continua a ser considerado muito relevante. No entanto, não nos esqueçamos que existe uma capacidade limitada para que os produtos secundários sejam substituídos por produtos primários a preços competitivos, sendo aqueles manifestamente insuficientes. É ainda de salientar que, das 34 matérias-primas críticas, 17 são consideradas estratégicas, sendo estas, de entre as matérias-primas avaliadas, aquelas “com a mais alta classificação em termos de im-

portância estratégica, crescimento previsto da procura e dificuldade em aumentar a produção”.

E Portugal? Na sequência da publicação do Ato das Matérias-Primas Críticas, o governo português constituiu um grupo de trabalho para a elaboração de um plano de ação visando a sua implementação no país. Este plano foi apresentado publicamente no início do mês de dezembro de 2024, contemplando 19 iniciativas, das quais destacamos: - revisão do Decreto-Lei 30/2021, no sentido de acelerar e simplificar o licenciamento de novas áreas para prospeção, pesquisa e exploração de depósitos minerais, isto é, bens do domínio público, conforme definido pela Constituição portuguesa; - a abertura de concursos internacionais para a prospeção e pesquisa de matérias-primas e estratégicas, como o lítio e o cobre; - uma nova estratégia nacional para os recursos minerais, com especial relevo para um Plano Sectorial que, em sede de ordenamento do território, os inclua e salvaguarde, evitando situações de conflito com outros usos do solo e permitindo o seu potencial futuro aproveitamento; - lançamento de um Programa Nacional de Prospeção e Pesquisa, desenvolvido pelo Estado, isto é, um novo programa de fomento mineiro. Na verdade, a geodiversidade do País confere-lhe importância em várias destas matérias-primas críticas e estratégicas, sendo de realçar o cobre, o tungsténio, o lítio e o feldspato, entre tantas outras (figura 2).

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Figura 3

O papel dos Clusters

a longo prazo e só é possível construir com planos estratégicos de longo prazo. Assim, a materialização do “triângulo do conhecimento” em Clusters que promovam a colaboração entre empresas, instituições governamentais e instituições académicas e de investigação é essencial em qualquer sector (Figura 3) e em particular no dos recursos minerais.

Uma palavra final para o importante papel da clusterização na construção de cadeias de valor de recursos minerais e na implementação do Ato, tendo em conta que elas são muitas vezes complexas e demoram tempo a consolidar, mas são a chave para a sustentabilidade. Isto tendo em conta também que a economia de recursos é resiliente

Eles foram e serão peças fundamentais para aumentar a capacidade de investigação das nossas instituições e de inovação das nossas empresas. Sempre tendo em conta que os princípios da Iniciativa Matérias-Primas se mantêm totalmente válidos e que os desafios à indústria dos recursos minerais foram e serão constantes.

Figura 2

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A próxima Revolução é Mineral – E Portugal tem de estar Nela Miguel Goulão, Célia Marques ASSIMAGRA - Associação Portuguesa da Indústria dos Recursos Minerais

Preâmbulo: A Europa acordou para a urgência das matérias-primas críticas. Portugal, com uma importante geodiversidade e presença relevante de lítio, tungsténio, cobre e feldspato, pode desempenhar um papel-chave na autonomia estratégica europeia. Contudo, necessitamos de uma visão mais ambiciosa e descomplexada para o setor dos recursos minerais, com base na sustentabilidade, na inovação e na valorização local. O tempo é agora: ou aproveitamos esta oportunidade ou arriscamo-nos a ficar fora da nova revolução industrial.

Introdução Num contexto global marcado pela escassez de matérias-primas, pela instabilidade geopolítica e pela crescente necessidade de autonomia estratégica da Europa, os recursos minerais voltam ao centro do debate político, económico e ambiental. Portugal, pela sua geodiversidade única e pela presença comprovada de matérias-primas críticas — como o lítio, tungsténio, cobre ou feldspato — encontra-se numa posição privilegiada para desempenhar um papel-chave na transição energética e na reindustrialização europeia. Apesar desta oportunidade estratégica, desde a simples prospeção e pesquisa até à exploração de recursos minerais, continuamos a esbarrar em entraves significativos — desde a perceção muitas vezes distorcida da indústria extrativa até à difícil articulação com o

ordenamento do território e à excessiva morosidade dos processos de licenciamento. É imperativo romper com a inércia. Precisamos de uma abordagem ousada e integrada, que articule conhecimento das nossas reservas, sustentabilidade ambiental, inovação tecnológica e uma verdadeira valorização dos recursos minerais no contexto nacional. Mais do que nunca, exige-se visão de longo prazo, ambição política e a determinação de colocar os recursos minerais no epicentro da nossa estratégia industrial e de soberania económica.

A Geodiversidade como Ativo Estratégico Portugal é reconhecido pela sua riqueza geológica. De acordo com a classificação da Comissão Europeia, entre as 34 matérias-primas críticas identificadas, Portugal possui três com presença significativa: cobre, tungsténio e lítio, a que se junta o feldspato, essencial para a indústria cerâmica e do vidro. Além destes, há indícios promissores da existência de terras raras, ainda pouco estudadas, mas com elevado valor estratégico. Ao contrário de outros países europeus que optaram por fechar as suas minas, Portugal manteve parte da sua atividade extrativa, e hoje surge como uma das poucas fontes potenciais de fornecimento interno de recursos minerais para a Europa. Esta geodiversidade, quando associada ao conhecimento técnico-científico instalado, representa uma base sólida para o desenvolvimento de projetos sustentáveis. Importa, por isso, que o país reconheça este ativo como um trunfo geoestratégico e não como um fardo político.

A Sustentabilidade da Indústria Extrativa Rumo à Compatibilização com o Território Os recursos minerais estão na base do modelo de sociedade em que vivemos. Ainda assim, persiste a ilusão de que podemos prescindir desses recursos — ou, pelo menos, da sua exploração em território nacional. A transição digital e ambiental, pilares do Green Deal, dependem fortemente do acesso estável e sustentável a matérias-primas minerais, que são essenciais para garantir o cumprimento das metas de des-

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carbonização dos setores industriais e alcançar a ambicionada neutralidade carbónica até 2050 na Europa. A verdade é que os minerais são parte integrante do nosso quotidiano, muitas vezes de forma impercetível. A Europa reconheceu que já não pode continuar dependente de outras regiões para garantir o acesso a estes recursos essenciais, sobretudo quando eles existem no seu próprio subsolo. Neste contexto, Portugal tem de se reposicionar como protagonista ativo e contribuidor líquido no âmbito do Pacto Ecológico Europeu e na mobilização e implementação do Ato das Matérias-Primas Críticas. Apesar do setor dos recursos minerais já ter dado provas claras da sua relevância económica — com exportações superiores a mil milhões de euros e um posicionamento internacional notável da indústria da pedra natural — ainda há um enorme potencial por explorar. A ASSIMAGRA, enquanto entidade representativa do setor, tem vindo a liderar um movimento de mudança ao longo dos últimos 15 anos, trabalhando com as suas 260 empresas associadas para promover um novo paradigma assente na sustentabilidade. Enquanto setor económico fortemente dependente do território e dos recursos que ele oferece, a indústria extrativa reconhece os seus desafios e responsabilidades. Recuperar, requalificar e compensar o território são hoje práticas estruturantes. Mas não são suficientes. A valorização dos recursos minerais exige planeamento integrado, ecoeficiência, responsabilidade social e a adoção de técnicas modernas e menos impactantes — tudo isto com a consciência de que se trata de recursos finitos e não renováveis. Existem já exemplos concretos dessa transformação. No Parque Natural das Serras d'Aire e Candeeiros, mais de 100 pedreiras operam em articulação com o ICNF, IP e os municípios locais, num modelo de gestão partilhada que tem servido de referência. Este e outros casos, demonstram que é possível compatibilizar o património natural com a atividade extrativa — e que o caminho passa pela cooperação, pelo conhecimento e pela responsabilidade partilhada. Temos ao nosso alcance a capacidade de influenciar positivamente o futuro do setor, apoiando empresas na adoção de boas práticas e promovendo um novo modelo de desenvolvimento, mais eficiente e com menor impacto. O grande desafio é manter o equilíbrio entre o progresso económico e o respeito pelos limites do planeta. E esse desafio é nosso — coletivo, geracional e inadiável.

Europa: Autonomia Estratégica e Reindustrialização A guerra na Ucrânia, as tensões comerciais e a dependência de fornecedores externos, em especial da China, vieram evidenciar a vulnerabilidade europeia no acesso a matérias-primas críticas. Responder a essa fragilidade tornou-se uma prioridade política. Através do Pacto Ecológico Europeu, da Estratégia para as Matérias-Primas Críticas e

do novo Ato Europeu dedicado ao tema, a Europa sinalizou a necessidade urgente de garantir autonomia estratégica. Mais recentemente, seis projetos portugueses foram reconhecidos pela Comissão Europeia como estratégicos no âmbito da nova Lei das Matérias-Primas Críticas, integrando uma lista de apenas 47 iniciativas em toda a União Europeia. Tratam-se de iniciativas inseridas nas estratégias das empresas que operam em Portugal, designadamente: na mina de cobre de Neves-Corvo (Somincor/Boliden); nos projetos de lítio na mina do Barroso (Savannah Resources), na mina do Romano (Lusorecursos) e no projeto Lift One (Lifthium Energy, Grupo José de Mello/Bondalti). Este reconhecimento garante não só maior visibilidade internacional, mas também acesso facilitado a financiamento, a investidores estratégicos e a processos de licenciamento mais céleres, atendendo à importância destes projetos para o futuro coletivo europeu. Portugal, deve, assim, agarrar estas oportunidades para afirmar a sua capacidade de resposta para promover o uso eficiente dos seus recursos minerais e garantir a disponibilidade de matérias-primas, bem como o desenvolvimento das respetivas cadeias de valor para a tão necessária transição energética.

Conclusão Portugal pode e deve assumir um papel de liderança no novo paradigma europeu para os recursos minerais. A nossa geodiversidade, aliada à inovação industrial, ao conhecimento técnico e ao compromisso ambiental, oferece todas as condições para que o país seja um exemplo de compatibilização entre exploração e sustentabilidade. Importa reforçar o diálogo com a sociedade, acelerar os processos administrativos e investir continuamente em conhecimento e valorização local. O futuro é, inevitavelmente, mais mineral. E Portugal não pode, nem deve, ficar para trás. A oportunidade está à nossa frente — só precisamos de a agarrar com determinação, responsabilidade e visão estratégica.

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Matérias-primas críticas: A sua importância acrescida na véspera do Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas (CRM Act) Daniel P. S. de Oliveira 1 , 2 , Augusto Filipe 1 , Carla Fortes 1 , Pedro Gonçalves 1

1U n i d a d e d e R e c u r s o s M i n e r a i s e G e o f í s i c a , L N E G ; 2M i n e r a l R e s o u r c e s E x p e r t G r o u p , E u r o G e o S u r v e y s

Introdução Desde a publicação da Iniciativa Matérias-Primas em 2008 (CE 2008), que visava reduzir a dependência de importações e promover a extração sustentável, a Europa tem mostrado uma preocupação crescente com o aprovisionamento seguro e sustentável de matérias-primas críticas (MPC) para as transições ecológica e digital. Nos anos seguintes, a UE desenvolveu políticas para diversificar fontes de matérias-primas e reduzir a dependência externa, e a Estratégia Europa 2020 (CE 2010) reforçou a necessidade de gestão sustentável desses recursos. Desde 2011, a UE atualiza periodicamente uma lista de matérias-primas críticas essenciais para setores industriais e tecnológicos. A primeira lista identificou 14 MPC (CE 2011), refletindo preocupações com a dependência de importações. Em 2014, foi atualizada para 20 MPC (CE 2014), incluindo cobalto e terras raras. A terceira lista, de 2017, expandiu-se para 27 MPC (CE 2017), incluindo lítio, essencial para baterias e armazenamento de energia. A quarta atualização em 2020 (CE 2020) elevou o número para 30 MPC. A atualização de 2023 manteve essas 30 MPC e introduziu matérias-primas estratégicas (CE 2023), fundamentais para tecnologias ecológicas, digitais e setores espacial e de defesa.

digital da Europa. Ao longo de quase duas décadas, a UE procurou diversificar as suas fontes de matérias-primas, promovendo parcerias estratégicas, reciclagem e economia circular para reduzir a dependência de importações e garantir a sustentabilidade das cadeias de abastecimento.

Matérias-Primas críticas: o papel do LNEG O Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), enquanto Serviço Geológico de Portugal, tem procurado posicionar o país num patamar avançado de conhecimento sobre os recursos minerais nacionais, acompanhando as preocupações europeias. O LNEG tem aprofundado o conhecimento sobre esses recursos através da cartografia geológica, estudos de valorização de materiais, desenvolvimento de bases de dados minerais, apoio ao setor mineiro e participação em projetos estratégicos nacionais e internacionais. A criação de bases de dados de recursos minerais é essencial para o desenvolvimento sustentável, a economia e o ordenamento do território, reunindo informações sobre localização, quantidade, qualidade e acessibilidade dos recursos. Essas bases permitem uma gestão mais eficiente, contribuindo para práticas de mineração responsáveis e para o ordenamento territorial, evitando conflitos com áreas protegidas e urbanas, garantindo melhor planeamento urbano, infraestrutura e segurança jurídica na concessão e uso dos recursos.

A pandemia COVID-19, expôs fragilidades nas cadeias globais de abastecimento, levando a UE a reforçar a política de autonomia estratégica. Em 2021, a atualização da Estratégia Industrial destacou a necessidade de garantir o acesso a MPC para a resiliência industrial.

Sistema de Informação de Ocorrências e Recursos Minerais Portugueses (SIORMINP)

Em março de 2023, a Comissão Europeia apresentou o Regulamento Europeu sobre Matérias-Primas Críticas (CRM Act), visando reduzir a dependência de fornecedores únicos e garantir um aprovisionamento seguro e sustentável. Em março de 2024, o Conselho aprovou formalmente o CRM Act (Regulamento 2024/1252), estabelecendo um quadro para garantir o aprovisionamento seguro e sustentável de matérias-primas críticas essenciais para as transições ecológica e

O SIORMINP é um sistema de informação (SI) nacional desenvolvido desde 1997 que reúne, organiza e disponibiliza informações geocientíficas, técnicas e económicas relacionadas com ocorrências minerais, recursos e reservas, produtos associados, geologia, minas, atividades mineiras, resíduos e áreas com potencial mineiro em Portugal continental. A maioria dos dados contidos no SIORMINP podem ser acedidos através do geoPortal do LNEG (https://geoportal20dev.lneg.

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-2015, contribuiu significativamente para a harmonização de dados de recursos minerais, em conformidade com a diretiva INSPIRE, e para o desenvolvimento de uma rede permanente de informação mineral que facilita a partilha, integração e acessibilidade da informação geológica na Europa, como a Infraestrutura Europeia de Dados Geológicos - EGDI (www.europe-geology.eu). O MIN4EU criou um sistema distribuído de gestão de dados, baseado em padrões avançados de interoperabilidade e aproveitando projetos anteriores como o ProMine e o EuroGeoSource (Fortes et al. 2013). A arquitetura inclui um sistema de recolha centralizado (Figura 2), onde cada país europeu fornece dados seguindo normas e protocolos comuns que garantem a interoperabilidade através de um Web Feature Service (WFS).

Novas formas de aquisição e gestão de dados

Figura 1 - Mapa dos depósitos minerais que contêm MPC, segundo a lista publicada em 2023. O mapa pode ser obtido aqui: https://www.lneg.pt/product/critical-raw-materials-deposits-in-mainland-portugal-ed-2023/

pt/pt/bds/siorminp/#!). Este portal permite ainda aceder a serviços de visualização e descarregamento de dados geoespaciais compatíveis com a Diretiva INSPIRE, o que garante a interoperabilidade e harmonização dos dados.

Os Sistemas de Informação Geográfica (SIG) são ferramentas essenciais para integrar e analisar dados geoespaciais de múltiplas fontes, permitindo a gestão e organização de informação espacial multifonte e multiescala. A capacidade de sobrepor camadas de informação — como dados geológicos, geoquímicos, geofísicos, uso do solo, áreas protegidas e infraestruturas — oferece uma visão holística do território, fundamental para identificar áreas com potencial mineiro e planear estrategicamente atividades de prospeção. Os SIG também possibilitam a modelação preditiva de ocorrências minerais, integrando variáveis espaciais com algoritmos avançados de aprendizagem de Machine learning e deep learning, contribuindo para otimizar recursos e fundamentar melhor as decisões no futuro Programa Nacional de Prospecção. Os SIG podem ser alimentados com dados de Deteção Remota, uma técnica inovadora e não invasiva usada na monitorização contínua da Terra, especialmente para discriminação litológica e identificação de recursos minerais. A análise de imagens multiespectrais e hiperes-

A participação em diversos projetos de investigação tem permitido a compatibilização dos dados nacionais com os termos definidos pela Diretiva INSPIRE usados pela generalidade dos países em todos os projetos que decorrem a nível europeu: https://geoportal.lneg.pt/pt/ dados_abertos/servicos_inspire/ Este SI foi o principal instrumento que permitiu ao LNEG elaborar o primeiro mapa de matérias-primas críticas de Portugal Continental (de Oliveira et al., 2021a, b) com base na lista de matérias-primas críticas de 2020. Em função da atualização da lista MPC em 2023, o LNEG produziu novo mapa atualizado (de Oliveira et al., 2023, Figura 1).

Min4Eu O projeto europeu Minerals4EU (MIN4EU), desenvolvido entre 2013-

Figura 2 - Esquema organizacional das bases de dados geológicas do LNEG e fluxo de dados para outras bases de dados europeias.

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pectrais obtidas por plataformas como Sentinel-2, Landsat, PRISMA e EnMAP permite identificar assinaturas espectrais de minerais e estruturas geológicas. Esta tecnologia possibilita a deteção de minerais, lineamentos e zonas de alteração hidrotermal, fornecendo indicadores fundamentais para orientar a prospecção no terreno de forma mais eficiente e com menor impacto ambiental. O uso de veículos aéreos não tripulados (VANT's) permite adquirir informações de alta resolução espacial e temporal, sendo uma ferramenta complementar às plataformas orbitais pela sua grande flexibilidade operacional. Os VANT's têm evoluído tecnologicamente, melhorando segurança e diversidade de sensores, como óticos de alta resolução, multiespectrais, hiperespectrais, térmicos, LiDAR, magnéticos, de radiação gama e radar. Estes equipamentos capturam dados com alta resolução, mesmo em áreas de difícil acesso, oferecendo operações mais seguras, rápidas, flexíveis e economicamente vantajosas. São especialmente úteis para mapear áreas prioritárias no Plano Nacional de Prospeção, permitindo caracterizar o terreno e identificar alvos específicos para prospeção detalhada.

Conclusões Na véspera da implementação de um Programa Nacional de Prospecção (PNP), exigido pelo Artigo 19º do Regulamento Matérias-Primas Críticas (Regulamento 2024/1252), o conhecimento mineral e as bases de dados de recursos minerais desempenham um papel fundamental na implementação eficaz do regulamento EU. Contudo, falta ainda um conhecimento mais abrangente e uma visão de base do país inteiro (e.g., geofísica, geoquímica). A disponibilidade de dados geológicos harmonizados e atualizados é crucial para a identificação de novas fontes de MPC e para a avaliação do potencial de exploração dentro dos Estados-Membros. O LNEG, enquanto Serviço Geológico de Portugal, desempenha um papel central neste contexto sendo responsável pela elaboração do PNP, conforme exigido por este regulamento. Além disso, o LNEG participa ativamente na harmonização e disponibilização de dados geocientíficos, contribuindo para a criação de uma base de conhecimento sólida que suporta a tomada de decisões estratégicas no âmbito do CRM Act. Esta colaboração assegura que Portugal esteja alinhado com os objetivos europeus de garantir a segurança no abastecimento de matérias-primas críticas, promovendo simultaneamente o desenvolvimento sustentável e a competitividade económica.

Referências CE 2008. COM(2008) 699 final: COMMUNICATION FROM THE COMMISSION TO THE EUROPEAN PARLIAMENT AND THE COUNCIL. The raw materials initiative — meeting our critical needs for growth and jobs in Europe.

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CE 2010. COM(2010) 2020: Communication From The Commission. Europe 2020, A strategy for smart, sustainable and inclusive growth. CE2011. COM/2011/0025 final: Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions: Tackling the Challenges in Commodity Markets and on Raw Materials. CE 2014. COM/2014/0297 final: Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions: On the Review of the List of Critical Raw Materials for the EU and the Implementation of the Raw Materials Initiative”. CE 2017. COM/2017/0490 final: Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions: On the 2017 list of Critical Raw Materials for the EU. CE 2020. COM/2020/474 final: Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions: Critical Raw Materials Resilience: Charting a Path towards greater Security and Sustainability. CE 2023. Directorate-General for Internal Market, Industry, Entrepreneurship and SMEs, Grohol, M. and Veeh, C., Study on the critical raw materials for the EU 2023 – Final report. https://data.europa.eu/ doi/10.2873/725585 de Oliveira, D.P.S., Filipe, A., Gonçalves, P., Santos. S., Albardeiro, L. 2021a: Critical Raw Materials Deposits Map of Mainland Portugal. Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). ISBN – 978-989-675-101-2 de Oliveira, D.P.S., Filipe, A., Gonçalves, P., Santos. S., Albardeiro, L. 2021b: Critical Raw Materials Deposits Map of Mainland Portugal: New Mineral Intelligence in Cartographic Form, The Cartographic Journal, https://doi.org/10.1080/00087041.2021.1977882 de Oliveira, D.P.S., Gonçalves, P., Filipe, A., Santos. S., Albardeiro, L., Morais, I., Matos, J.X., Salgueiro, R. 2023: Critical Raw Materials Deposits Map of Mainland Portugal (Ed. 2023). Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). ISBN – 978-989-675-133-3 Fortes, C., Viegas, H., Oliveira, D., Filipe, A., Almeida, P. & Gruijters, S. 2013: EUROGEOSOURCE – The new generation of EU mineral and energetic resources Web GIS Systems using cloud computing. GEONOVAS, 26, p.3-10


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Novas matérias-primas minerais para cerâmica Fernando Tavares Rocha Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro

Introdução O crescimento da indústria cerâmica nas últimas décadas resultou numa enorme procura de matérias-primas minerais utilizadas na produção de produtos cerâmicos, provocando o aumento da sua importação, bem como a pesquisa de fontes alternativas. A indústria cerâmica de alto rendimento está exposta, a nível global, ao risco de escassez e/ou crescimento súbito dos preços das matérias-primas, particularmente das matérias-primas críticas, assim como pressão na sua cadeia de abastecimentos. Importa pois desenvolver abordagens inovadoras de recurso a fontes de matérias-primas mais diversificadas tais como litologias alumino-silicatadas diversas das tradicionais, a transformação de resíduos mineiros em sub-produtos valorizáveis para a indústria cerâmica, o desenvolvimento de matérias-primas tecnogénicas e o reaproveitamento dos resíduos da própria indústria cerâmica (tal-qual ou ativados química e/ou termicamente).

Dependência de Matérias-Primas Críticas (Critical Raw materials – CRM)

Figura 1 - Avaliação 2023 das matérias-primas pela Comissão Europeia com discriminação das matérias-primas não críticas, CRMs e os CRMs para a indústria cerâmica considerados em detalhe em Garcia-Ten et al. (2024).

A indústria cerâmica de alto rendimento está exposta, a nível global, ao risco de escassez e/ou crescimento súbito dos preços das matérias-primas, particularmente das matérias-primas críticas (CRMs). Importa ter uma visão geral da dependência de CRMs de um setor que transforma uma grande quantidade de recursos minerais, ou seja, a fabricação de cerâmica e sua cadeia de suprimentos (revestimentos e pisos, louças sanitárias e de mesa, fritas e esmaltes, pigmentos e tintas, etc.). O conceito de "criticidade" combina um risco comparativamente elevado de rutura do aprovisionamento com uma importância económica comparativamente elevada (Figura 1), não implicando que os CRM sejam absolutamente escassos (ou com reservas limitadas), enquanto que, por outro lado, sejam afetados pela vulnerabilidade das cadeias de abastecimento, a diferentes níveis, do global ao regional (Figura 2). A União Europeia elabora listas de CRMs (European Commission, Directorate-General for Internal Market, Industry, Entrepreneurship and SMEs, M. Grohol, C. Veeh. Study on the critical raw materials for the EU 2023: final report), que são classificados como "críticos" pelos seguintes motivos:

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Figura 2 - Perfis de risco de fornecimento (escassez e/ou crescimento de preços de CRMs) aos quais a indústria cerâmica está exposta, in Garcia-Ten et al. (2024).

- terem uma importância económica particularmente significativa para sectores-chave da economia europeia (por exemplo, aeroespacial, defesa, saúde, tecnologias ambientais, electrónica de consumo, automóvel);


- sofrerem de um elevado risco de abastecimento devido à elevada concentração de proveniência num pequeno número de países e à dependência muito elevada das importações; - serem de difícil substituição, devido às suas propriedades específicas para aplicações existentes e futuras.

obtido bons resultados sobre o aproveitamento de recursos de mais difícil exploração (nomeadamente por menor qualidade) na reutilização de rejeitados e de desperdícios industriais e no desenvolvimento de formulações que os integrem em fileiras industriais de maior valor acrescentado.

Um bom exemplo é o dos Feldspatos. Tendo como principais rochas-fonte litologias ígneas (com destaque para granitóides, pegmatitos, sienitos alcalinos), sedimentares (como areias arcósicas) e metamórfico-metassomáticas (tais como ortogneises), o seu uso na cerâmica é essencialmente como fluxo em telhas, louças sanitárias, louças de mesa, esmaltes, revestimentos vítreos e engobes. Os feldspatos são introduzidos em diferentes quantidades nos vários lotes cerâmicos: de alguns por cento até 60% ou mais, dependendo do grau de vitrificação necessário. São, pois, indispensáveis na cerâmica, em particular (Garcia-Ten et al., 2024) em ladrilhos e lajes de grés porcelânico (45–60% da formulação), louças sanitárias de porcelana vítrea (18–32% da formulação) e em esmaltes (20–70% da formulação). Importa, portanto, encarar a necessidade de substituição, com minerais como a sericite (mica moscovítica), talco e clorite.

Como outro exemplo, as cinzas volantes têm sido utilizadas como fonte alternativa de matéria-prima de alumina-silicato substituindo em parte argilas cauliníticas ou quartzo na composição de telhas cerâmicas.

Soluções de substituição Uso racional de subprodutos de mineração selecionados na indústria cerâmica Como já referido, o crescimento dinâmico da indústria cerâmica nas últimas décadas resultou numa enorme procura de matérias-primas naturais utilizadas na produção de produtos cerâmicos (especialmente revestimentos cerâmicos), seguindo-se o aumento da sua importação, bem como a investigação de fontes domésticas alternativas. Ao longo dos últimos anos, numerosos materiais residuais foram investigados, confirmando que a indústria cerâmica tem potencial para absorver grandes quantidades de vários rejeitos industriais que podem substituir matérias-primas minerais tradicionais. Merecem destaque os resíduos da mineração, pois permitem compaginar a diminuição/mitigação dos impactos ambientais com a valorização de subprodutos. É hoje já relativamente vasta a lista de estudos que reportam a reciclagem de resíduos de mineração em produtos cerâmicos. Incidem sobre rejeitados de exploração de minérios distintos e concluem que, em percentagens adequadas (geralmente até 20% em massa, mas a definir caso a caso), não prejudicam as características dos produtos-alvo, nem afetam de forma relevante as condições de processamento. Nos últimos anos, a valorização de resíduos deste tipo tem-se centrado na recuperação de espécies residuais de maior valor, com ênfase recente na extração de espécies escassas ou mesmo raras. As fases minerais silicatadas, recuperadas, têm sido destinadas ao Vidro (a sílica de melhor qualidade), à Cerâmica (se de qualidade apropriada) e (se de menor qualidade) ao mercado dos Agregados. Recentes estudos (Labrincha et al., 2014; Nouairi et al., 2018; Paiva et al., 2019) têm

Além disso, os resíduos podem comportar-se como fluxos em corpos cerâmicos: uma série de resíduos de vidros e resíduos de mineração entraram na prática industrial, mas apenas pequenas quantidades são geralmente toleradas (Zanelli et al., 2021). Utilização de matérias-primas tecnogénicas na tecnologia cerâmica Estudos recentes (Buravchuk et al., 2024)) têm demonstrado que rochas calcinadas e materiais de cinzas e escórias, como aditivos corretivos, melhoram as propriedades de matérias-primas argilosas de baixa qualidade, evidenciando a possibilidade de utilização destas matérias-primas tecnogénicas na cerâmica para o fabrico de diversos produtos. A utilização de rochas calcinadas e materiais de cinzas e escórias melhora a sinterização dos fragmentos, intensifica a cristalização de compostos semelhantes a mulitas, o que tem um efeito positivo nas propriedades físicas e mecânicas dos produtos cerâmicos: aumento da resistência e resistência à geada, deformações de encolhimento e diminuição da absorção de água. A utilização de rochas calcinadas e de cinzas e escórias permite obter produtos refratários com reduzida dependência de argilas refratárias.

Reflexão Final O campo da cerâmica e dos geomateriais é de grande interesse para a produção de materiais sustentáveis em linha com impactos de baixo carbono, reutilização de resíduos e reciclagem. Processos de baixa energia e baixa emissão de CO2 são necessários para a obtenção de materiais cerâmicos e compósitos de alta qualidade. Importa, portanto, desenvolver esforços conjuntos entre a Indústria e a Academia para desenvolver soluções sustentáveis e inovadoras para estes desafios societais críticos.

Bibliografia Nina I. Buravchuk, Olga V. Guryanova, Ivan A. Parinov (2024). Use of technogenic raw materials in ceramic technology. Open Ceramics, 100578, https://doi.org/10.1016/j.oceram.2024.100578 European Commission, Directorate-General for Internal Market, Industry, Entrepreneurship and SMEs, M. Grohol, C. Veeh. Study on the critical raw materials for the EU 2023: final report, Publications Office

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of the European Union. https://data.europa.eu/doi/10.2873/725585 (2023). Javier García-Ten, Michele Dondi, José Vítor M.B. Vieira Lisboa, Mónica Vicent Cabedo, Luis Pérez-Villarejo, Elisa Rambaldi, Chiara Zanelli (2024). Critical raw materials in the global high-throughput ceramic industry. Sustainable Materials and Technologies, Volume 39, e00832, ISSN 2214-9937, https://doi.org/10.1016/j.susmat.2024.e00832. J.A. Labrincha, J.I. Marques, W. Hajjaji, L. Senff, C. Zanelli, M. Dondi, M. & F. Rocha (2014). Novel inorganic products based on industrial wastes. Waste and Biomass Valorization, 5(3), 2014, pp. 385-392.

J. Nouairi, W. Hajjaji, C.S. Costa, L. Senff, C. Patinha, E. Ferreira da Silva, J.A. Labrincha, F. Rocha & M. Medhioub (2018). Study of Zn-Pb ore tailings and their potential in cement technology. Journal of African Earth Sciences, 139, pp. 165-172 H. Paiva, J. Yliniemi, M. lllikainen, V.M. Ferreira & F. Rocha (2019). Mine tailings geopolymers as a waste management solution for a more sustainable habitat. Sustainability, 11(4), e995. C. Zanelli, S. Conte, C. Molinari, R. Soldati, M. Dondi (2021). Waste recycling in ceramic tiles: a technological outlook. Resour. Conserv. Recycl., 168, Article 105289.

6.ª EDIÇÃO

JORNADAS

TÉCNICAS da CERÂMICA Convento São Francisco, Coimbra No âmbito da 6.ª edição das Jornadas Técnicas da Cerâmica, que este ano se realizam em Coimbra, um dos temas centrais é dedicado aos

«Recursos Minerais - Tecnologias e Processos Industriais» Neste encontro, que se realiza no dia 19 de novembro, no convento de São Francisco em Coimbra, vamos explorar o impacto dos recursos minerais, em particular os minérios e minerais industriais, refletindo sobre as oportunidades e os desafios que surgem para as empresas portuguesas numa era de transformação e de condições geopolíticas em constante mudança, obrigando as empresas a repensar a sua atuação, reunindo entidades e líderes nesta matéria, para discutir um tema de importância crucial para a competitividade da indústria e desenvolvimento económico do país. Junte-se a esta iniciativa e fique atento para mais novidades!

19 novembro 2025

SAVE the DATE

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Impacto do desenvolvimento tecnológico nos recursos minerais António Moura 1 , José Lopes Velho 2

1D e p a r t a m e n t o d e G e o c i ê n c i a s , A m b i e n t e e O r d e n a m e n t o d o T e r r i t ó r i o d a F a c u l d a d e d e C i ê n c i a s d a U n i v e r s i d a d e

d o P o r t o ; 2D e p a r t a m e n t o d e G e o c i ê n c i a s d a U n i v e r s i d a d e d e A v e i r o

Com o desenvolvimento tecnológico, novas soluções e materiais vão surgindo com inovações extraordinárias que moldam o estilo de vida dos cidadãos, muitas vezes sem eles se aperceberem de tal. Neste contexto, os minerais industriais constituem o alicerce mais importante ao nível dos materiais e das inovações. Na sociedade complexa em que vivemos poucos cidadãos têm uma vaga ideia da variedade de recursos minerais que servem como verdadeiros alicerces (bases para o fabrico) de milhões de produtos industriais sofisticados ou não, ao nosso dispor. Como alguém uma vez disse, “os recursos são como o ar só reparamos neles quando nos faltam”. Uma questão que se pode colocar é saber qual tem sido o impacto da evolução tecnológica nos recursos minerais, terá sido favorável ou prejudicial? Substituição? Complementaridade? Descoberta de novos minerais? Neste breve trabalho tentaremos mostrar, de um modo genérico, de que modo os recursos minerais têm vindo a responder às exigências dos mercados. Para tal, dividiremos o texto em quatro categorias: eliminação/substituição; complementaridade; descoberta; crescimento.

Figura 1 - (Antigo) minério de alunite da pedreira Allumiere, Roma, Itália. Amostra com 56% de natroalunite [NaAl 3 (SO 4 ) 2 (OH) 6 ], 18% de quartzo, 11% de cristobalite e 10 % de alunite. Coleção de minérios António Moura.

1. Eliminação/substituição Neste grupo identificamos recursos minerais que deixaram de o ser, ou por motivos de perigosidade para a saúde ou por se ter encontrado melhor alternativa, sobretudo em termos de preço e quantidades disponíveis. Nesta categoria destacamos três (antigos) recursos, o rádio, a criolite e a alunite. O rádio (usado apenas entre 1903 e 1944), deixou de ser um recurso em virtude da elevada radioatividade inerente ao elemento, facto que ocasionou a morte e a doença em dezenas de pessoas. Era usado sobretudo em tintas para ponteiros de relógios e instrumentação em aviões, e em medicina (acreditava-se que era benéfico à saúde…). Curiosamente Portugal foi um dos maiores produtores deste elemento [1]. A criolite (Na3AlF6), mineral impres-

cindível no fabrico do alumínio (ainda que muito raro, teve uma mina na Gronelândia ativa de 1856 a 1961) foi substituído por produtos químicos sintéticos e de baixo custo. A alunite [KAl3(SO4)2(OH)6] foi intensamente explorada em Itália na Idade Média (em particular nos territórios papais de Tolfa-Allumiere perto de Roma) para o fabrico de alúmen [KAl(SO4)2·12H2O], usado (entre outros fins) como mordente (fixador de pigmentos) tornando assim possível uma sociedade menos cinzenta pelo menos ao nível do vestuário.

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Figura 2 - Amostra de criolite da antiga mina de Ivigtut (sudoeste da Gronelândia). Coleção de minérios António Moura.

Quanto aos recursos minerais que se encontram numa fase decadente, destacamos novamente três, o esmeril, os nitratos e o diamante industrial. O esmeril (rocha composta maioritariamente por magne-


seguem satisfazer a procura, quer em termos de produção, quer em termos tecnológicos ao nível das suas propriedades intrínsecas. Incluímos minerais que estão a ser complementados por aquilo que designamos por minerais sintéticos, possuem a mesma estrutura e composição química, mas desta vez têm certos atributos não encontrados na versão natural. Vejamos algumas situações.

Figura 3 - Esmeril da ilha grega de NAXOS. Amostra com aproximadamente 5 x 5 cm. Coleção de minérios António Moura.

tite e corindo) usado desde a Antiguidade até aos dias de hoje como abrasivo, foi quase na totalidade substituído por abrasivos sintéticos, entre os quais sobressaem o carboneto de silício (de fórmula química, SiC) e os diamantes sintéticos. Os nitratos do Chile, compostos em 98% por NaNO3, (abundantemente publicitados nas estradas de Portugal, e não só, pela silhueta de um homem de chapéu a cavalo) baixaram a sua exportação de 3 milhões de toneladas (Mt) em 1916 para cerca de 722 940 t/ano na atualidade [2], fruto também da substituição por produtos de síntese química, com destaque para o amoníaco (o principal químico de azoto) com uma produção em 2023 de 152 Mt de nitrogénio contidas em amoníaco. Os nitratos naturais são utilizados na produção de nitrato de sódio, nitrato de potássio e salitre de sódio, para uso na indústria e na agricultura. Os diamantes industriais são empregues nas indústrias de ferramentas de corte e de artigos para o polimento, em serras e diamante em spray para polir nas últimas fases do polimento. De acordo com o U.S.G.S. [3] em 2023 a produção mundial de diamante industrial a partir de minas foi de 41 milhões de quilates (= 8,2 t). Cinco países (Rússia, Botsuana, R. D. Congo, Zimbabué e África do Sul), produziram 99% desses diamantes naturais. A produção mundial de diamantes industriais sintéticos, nesse ano, foi de 15 500 milhões de quilates (3 100 t); China, EUA e Rússia produziram 99% destes diamantes. Portanto a produção de diamantes sintéticos excede a produção mineira em 378 vezes, ou seja, a produção mundial de diamantes industriais faz-se praticamente à custa de diamantes sintéticos.

2. Complementaridade Neste bloco inclui-se um número alargado de minerais que não con-

Apesar de os recursos de carbonato de sódio mundiais serem elevados (contabilizados em 2025 pelo USGS em 25 000 Mt, dos quais 23 000 Mt nos EUA) a produção sintética é praticamente o dobro da extração a partir de minas (45,9 Mt contra 23 Mt, para o ano 2023), o que faz deste recurso um caso curioso de uma produção global “mista”. As necessidades mundiais pela soda são crescentes para satisfazer a procura em particular de países emergentes como a China e a Índia na produção de vidro, produtos químicos, detergentes, celulose e papel, tratamento de água, dessulfurização de gases, entre outros. Também o sulfato de sódio mantém este registo; neste caso a maioria (70%) é extraída a partir de minas (sendo Espanha o maior produtor mundial, com 4 minas ativas), sendo o restante um produto industrial. Este recurso explora-se a partir de 3 minerais: thenardite (Na2SO4), glauberite [Na2Ca(SO4)2], e mirabilite [Na2SO4•10(H2O)]. O mercado é fortemente dominado pelo sector dos detergentes cuja procura tem vindo a aumentar sobretudo da parte dos países emergentes cuja população urbana cresce a um ritmo elevado. Uma outra situação é a do calcário, cuja composição é a calcite, CaCO3. Apesar das reservas extremamente elevadas a nível mundial, a tecnologia tem vindo a construir unidades de produção de calcite microcristalina para mercados como a indústria farmacêutica e, sobretudo, o papel. Em Portugal existem duas unidades de produção de calcite para abastecer a indústria papeleira nacional. O objectivo é satisfazer as exigências de opacidade e de qualidade de impressão através da incorporação de partículas escalenoédricas de calcite que só se conseguem obter em unidades de produção específicas. As exigências ao nível da brancura, da forma e dimensão das partículas são muito elevadas em determinados tipos de papel pelo que a calcite natural não obedece aos padrões exigidos pela indústria. O caso dos zeólitos é extremamente interessante. Conhecidos desde meados do século dezoito, considerados como curiosidades da natureza, somente a partir da Segunda Guerra Mundial são intensamente procurados, mas perante as limitadas reservas e a insuficiente qualidade dos minerais como a clinoptilolite e a mordenite, a indústria química desenvolveu zeólitos sintéticos com propriedades muito específicas sobretudo ao nível da estrutura das partículas obtendo-se partículas com poros e cavidades de dimensões controladas, usados em aplicações tão diversas como a catálise, como crivos moleculares e em absorventes. Até ao momento foram descobertos mais de 80 zeólitos naturais e desenvolvidos mais de 150 sintéticos sobretudo para o sector petroquímico, e que se estende, por exemplo, aos detergentes. Apesar de o quartzo (SiO2) ser bastante abundante na Terra, a versão sintética é uma realidade industrial, destacando-se a sílica precipitada e a sílica gel. O objectivo da primeira é a obtenção de partículas com valores de superfície específica muito elevada, até 500 m2/g, mas com a segunda obtêm-se valores ainda mais elevados, até 800 m2/g, níveis tão elevados que não são encontrados na natureza. Os depó-

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66 000 hectares da mina de carvão a céu aberto Kolubara, também na Sérvia – em exploração desde 1896 e final previsto para 2050-60), mas apesar disso, e do seu enorme valor, tem sofrido fortíssima contestação de uma parte da população sérvia.

4. Crescimento

Figura 4 - Estrutura de um zeólito (mordenite) sintético. Representados apenas os átomos de silício (a bege) e de oxigénio (a vermelho). Ch. Baerlocher, Darren Brouwer, Bernd Marler and L.B. McCusker, Database of Zeolite Structures: http:// www.iza-structure.org/databases/.

sitos de hectorite [Na0.3(Mg,Li)3Si4O10(F,OH)2·nH2O], um mineral argiloso rico em lítio, são raros. A laponite®, um tipo de hectorite sintética, é produzida em grande escala e utilizada, introduzida pela Laporte Industries há mais de uma década. Idealmente, é homogénea em composição e cristalinidade, sendo possível produzir partículas nanométricas usadas em engenharia de tecidos, diagnóstico, óptica e que se estende à cosmética.

No atual processo de transição energética novos desafios têm-se vindo a colocar sobre os recursos minerais. A substituição dos combustíveis fósseis implica uma nova arquitetura mineral assente em grande parte em minerais alguns deles com reservas limitadas. A procura por lantanídeos (grupo de metais popularmente conhecidos como terras raras) e seus principais minerais (monazite, xenótimo, bastnaesite, loparite, argilas ricas em terras raras) tem vindo a aumentar fruto das propriedades físico-químicas daqueles elementos. E a pressão vai-se estender a outros elementos e minerais, muitas vezes fazendo parte do binómio produto/coproduto-subproduto, casos do cobre-ouro, níquel-cobalto ou molibdénio-rénio, o que torna extremamente complexa a atividade extrativa e transformadora de minerais para além dos desafios geopolíticos e de segurança das rotas de abastecimento.

Conclusão

Em síntese, neste bloco da complementaridade, os motivos são vários, reservas limitadas perante elevada procura, mas, sobretudo, a qualidade e atributos dos minerais que não são encontrados na natureza (a pureza é uma delas). Os sintéticos, em termos gerais, não substituem, mas complementam ao preencherem nichos de mercado. Podíamos aqui incluir outras situações que escapam ao conhecimento público, casos do caulino e do gesso, minerais industriais com uso crescente na indústria papeleira.

Com base no conjunto de informações que fomos identificando, podemos concluir que o conceito de recurso é móvel, isto é, existem, de facto, alguns minerais que o deixaram de ser ou que se encontram numa fase de descida da sua procura, mas esta realidade tem sido compensada pelo desenvolvimento das versões sintéticas que têm sido extremamente valiosas como resposta às necessidades tecnológicas. Para mais, o processo de transição energética irá constituir um novo desafio aos minerais, novas aplicações, minerais que passam a recurso, versões sintéticas, novos minerais. Tudo isto será potencialmente possível, mas somente nas próximas décadas poderemos ter uma ideia mais segura do que irá exatamente acontecer. Uma coisa é certa os recursos minerais continuarão a ser o alicerce dos desenvolvimentos tecnológicos e da sociedade.

3. Descoberta

Referências

Tal como acontece no mundo biológico, em que se vão descobrindo espécies, no reino mineral acontece o mesmo. É o caso da jadarite, silicato monoclínico de cor branca, cuja fórmula química é LiNaSiB3O7(OH). Foi descoberto em 2004 na Sérvia perto da cidade de Loznica e do rio Jadar, por geólogos da gigante mineira Rio Tinto, em consequência de trabalhos de prospeção para boratos. Este depósito de Jadar é de longe o mais importante da Europa pois contém 85,4 Mt com uma média de 1,76% Li2O e 16,1% B2O3, com uns adicionais 58,1 Mt de recursos inferidos com 1,87% Li2O e 12% B2O3 (Rio Tinto, 2022). A mina está projetada para ser subterrânea, com apenas 220 hectares de instalações industriais na superfície (compara-se com os

[1] Moura, A. e Lopes Velho, J., 2012. Recursos Geológicos de Portugal. Palimage. Coimbra. ISBN 978-989-703-017-8.

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[2] Servicio Nacional de Geología y Minería (Sernageomin), 2024. Anuario de la Minería de Chile 2023. Servicio Nacional de Geología y Minería, 243 p. Santiago. [3] U.S. Geological Survey, 2025, Mineral commodity summaries 2025 (ver. 1.2, March 2025): U.S. Geological Survey, 212 p., https://doi. org/10.3133/mcs2025.


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Sumário executivo O Grupo MCS® apresenta a sua visão sobre os desafios atuais e futuros das indústrias minerais e as perspetivas para o fornecimento de matérias-primas para a indústria da cerâmica e do vidro. A exploração de recursos minerais em todo o mundo, mas particularmente na Europa, está a tornar-se cada vez mais difícil do ponto de vista social, ambiental e de disponibilidade de recursos economicamente viáveis. As empresas têm vindo a adotar estratégias que garantam o fornecimento contínuo de matérias-primas, explorando modelos de negócios mais sustentáveis e com práticas de economia circular por forma a minimizar a sua pegada ambiental e prologar a vida dos recursos minerais. Na Europa, como noutras partes do mundo, a procura por recursos minerais está a superar a oferta, e recursos basilares para a indústria cerâmica, como argilas e caulinos, são cada vez mais escassos e de difícil acesso. Uma grande parte da população, em Portugal, na Europa e no mundo tem pouca noção do papel que os minerais têm no seu dia-a-dia, da sua importância para o estilo de vida atual, a sua escassez crescente e os riscos associados ao seu acesso. O slogan corporativo da MCS® “Minerals for Life” pretende ser um alerta sobre a importância dos minerais industriais para o estilo de vida atual, sendo crucial uma exploração e consumo responsáveis e criteriosos.

Omissões e más práticas passadas de alguns operadores, criaram uma má imagem da indústria e geraram uma concorrência desleal por parte dos prevaricadores para com as empresas cumpridoras. Exige-se pedagogia, compromisso e responsabilidade por parte do setor para alterar a forma de comunicação com as comunidades locais promovendo a cooperação para novos projetos.

Sinais de alerta Após a COVID, os setores de matérias-primas e cerâmica mostraram sinais positivos, com a construção global a crescer 6,5% em 2021. O mercado mundial de cerâmica, avaliado em mais de €120 mil milhões, deverá crescer 7,7% ao ano até 2028, embora apenas 4,1% na Europa, devido ao foco na renovação em vez de nova construção. O mercado de louças sanitárias também cresceu 7,6%. China, Índia e Brasil lideram na produção de pavimento cerâmico, Espanha e Itália mantêm-se entre os dez maiores produtores mundiais neste setor. Contudo, 2022 trouxe desafios como o aumento de custos de energia e das licenças para emissão de CO2, falhas na cadeia de abastecimen-

Introdução

to, subida nos preços dos materiais, maior pressão ESG (Environmental, Social and Governance) e consolidação do setor.

Embora cada país e cada empresa mineira tenham os seus próprios desafios, este artigo pretende abordar temas na ótica do parceiro fornecedor de matéria-prima para a indústria da cerâmica e do vidro. Destacamos os eventos e tendências disruptivas, como a crise energética e a descarbonização, bem como os desafios associados ao crescente sentimento anti-minas nas comunidades locais. Sobre os eventos acima mencionados e seus impactos na nossa atividade, recordemos que um é cíclico e o outro é incontornável face à responsabilidade que todos temos na mitigação das alterações climáticas. O aumento da procura por recursos minerais ocorre num tempo em que as empresas precisam de extrair recursos em maior profundidade e mais afastados das comunidades e do consumidor final, provo-

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cando um aumento dos custos operacionais e impacto nas margens, ao mesmo tempo que a indústria extrativa se encontra sob uma forte pressão para inovar e investir em tecnologia, de forma a reduzir a sua própria pegada de carbono.

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Desregulador – crise energética Os mercados de energia globais e europeus vivenciam períodos de instabilidade nos preços do gás e da eletricidade, que começaram a subir em 2021, reagindo ao Acordo de Paris, Green Deal e políticas da UE sobre os compromissos da transição energética. Para setores intensivos em energia, como são as empresas de processamento mineral e fabricantes de cerâmica, apesar do risco de perda de competitividade internacional, há poucas alternativas a não ser imputar esses custos aos clientes – neste campo de atuação


que é desigual, esse aumento poderá ser uma ameaça para a indústria. O que também não se sabe é por quanto tempo esses sérios desafios persistirão e se os consumidores finais estarão dispostos ou preparados para pagar os custos adicionais.

Sustentabilidade, Governança Ambiental, Social e Corporativa O Pacto Ecológico Europeu está a impactar as indústrias de minerais e produtoras de cerâmica e vidro. A MCS®, como outras empresas, enfrenta pressão crescente para adotar práticas de governança ambiental, social e corporativa (ESG). A procura global por recursos agrava os impactos ambientais, apesar de melhorias no setor mineiro, que ainda tem má reputação e adota lentamente práticas sustentáveis. No entanto, há oportunidades para reduzir a pegada ecológica através de tecnologias mais eficientes e práticas de economia circular. A transformação exige não só inovação tecnológica, mas também uma mudança de mentalidade. A MCS® apoia a Política de Minerais Sustentáveis da UE e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, reconhecendo a importância da reciclagem, mesmo com custos mais elevados.

Sentimento anti-minas O sentimento anti-minas tem crescido com a preocupação ambiental, mas muitas vezes ignora a importância para a Sociedade de um equilíbrio entre sustentabilidade ambiental e económica. É essencial reconhecer que os minerais são e continuarão a ser fundamentais, mesmo contando com o contributo da economia circular. Existe uma falta de consciência pública sobre o papel dos minerais e a realidade atual da extração mineira e sua regulamentação. Por isso, é vital informar e envolver as comunidades, combatendo desta forma a desinformação sobre este setor. Sem uma estratégia mineral clara na Europa, o fornecimento futuro de matérias-primas, o investimento no setor e a segurança económica ficam em risco, agravados pela crescente resistência local (NIMBY – Not In My Back Yard) a novos projetos.

Perspetivas e ações em curso Os desafios e mudanças nas indústrias mineira, cerâmica e vidro moldarão as futuras estratégias de mercado. Neste sentido, o Grupo MCS® tem vindo a trilhar o seu caminho, or-

em 2021 e denominado EcoCer4Life, inserido no PRR ECP – Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal de 100 milhões de euros para a indústria cerâmica em Portugal.

Com tecnologia de ponta, alimentado por energia renovável, este projeto reflete o nosso compromisso com a sustentabilidade, promovendo a recuperação e reintrodução de subprodutos da indústria cerâmica para reduzir o uso de matérias-primas primárias e minimizar o impacto ambiental.

Figura 1 – Localização da EcoCer4Life e das empresas cerâmicas do Distrito de Aveiro.

O EcoCer4Life pretende fechar o ciclo dos resíduos cerâmicos, garantindo a recolha e reciclagem de 100% dos desperdícios cerâmicos cozidos e não cozidos em Portugal. Localizada no coração do polo cerâmico português, na região de Aveiro, a unidade EcoCer4Life reduzirá significativamente a pegada logística, reforçando os princípios da economia circular, da simbiose industrial e da sustentabilidade. Em parceria com empresas e entidades alinhadas com esta visão, estamos também a lançar o Ceramic EcoPoint, um ponto de recolha dedicado a cerâmicas domésticas antigas, partidas ou sem uso. Desta forma, tanto consumidores como empresas terão uma forma simples e eficaz de contribuir ativamente para a sustentabilidade da indústria.

Conclusão Embora sejam tempos desafiantes para todos, é importante reconhecer que, para superar a diversidade de prioridades complexas e constante mudança, as empresas mineiras e produtores de cerâmica e vidro precisam de trabalhar cada vez mais em cooperação. São necessárias soluções inovadoras que permitam redesenhar modelos de negócio e promover culturas colaborativas para a redução da pegada ambiental do setor, através de uma melhor gestão de recursos, maior eficiência e soluções de carbono-zero. Maior transparência, compromisso e diálogo no seio da indústria e com as Entidades públicas, a nível local, regional e governamental são fundamentais para o alinhamento e compromisso estratégico de longo prazo. A nossa indústria tem um longo caminho a percorrer para, juntos, criarmos um futuro sólido e sustentável.

gulhando-se de integrar e promover um projeto pioneiro, lançado

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Indústria extrativa e o papel social Luís Marques Corbário - Minerais Industriais, S.A. / Grupo White Minerals

Diante da atual instabilidade política e social que o mundo atravessa, interessa analisar o contexto presente e os caminhos a seguir para um futuro de estabilidade e de crescimento sustentável. É, assim, fundamental que se responda de forma equilibrada às solicitações e questões ambientais atuais, tendo em consideração o impacte para as gerações futuras. Neste cenário, é crucial compreender e enquadrar o papel da indústria extrativa no crescimento económico e no desenvolvimento social, uma vez que o equilíbrio entre exploração de recursos, sustentabilidade e bem-estar coletivo deve ser a resposta para enfrentar os grandes desafios atuais, assegurando um futuro em segurança, estável e com qualidade de vida. Ouro, prata, ferro, cobre, água, petróleo e, mais recentemente, as chamadas 'Matérias-Primas Críticas' têm sido, ao longo da história, a principal causa de disputas, conflitos e problemas sociais que afetam povos em todo o mundo. E, atualmente, embora as discussões globais pareçam centradas em questões geográficas e territoriais, é evidente que o verdadeiro interesse recai sobre os recursos naturais. Presentemente, as tão discutidas terras raras também estão no centro de disputas que, à primeira vista, parecem envolver locais longínquos e sem grande interesse. Mas será que esses recursos geológicos são realmente de interesse secundário? Até onde as empresas estão envolvidas e quais os custos de toda esta corrida? E as pessoas? Qual o seu lugar nesta dinâmica? Como conciliar a atividade extrativa com a vida em sociedade? Valerá a pena? A procura de Recursos Geológicos assume, de facto, particular importância na vida das pessoas, na vida em sociedade. O bem-estar individual mistura-se com o coletivo estabelecendo-se um padrão de qualidade de vida assente em bens materiais que utilizamos diariamente e na capacidade individual de os adquirir. Ter um qualquer bem ou equipamento permite facilitar ou melhorar a vida de todos nós, com base nos conceitos e nos ritmos que a própria sociedade definiu e que fomos construindo. De forma simplista, mas igualmente realista, pode ser entendido que todos e quaisquer destes objetos da “nossa felicidade” dependem da utilização de recursos naturais, seja dos mais abundantes, aos mais raros. Deste modo, quando olhamos para um simples e vulgar prato, estamos a avaliar um objeto que, no mínimo, poderá ter demorado uns milhões de anos a chegar até esta forma – argilas cretácicas com caulinos e areias, alguns pós de vidro, que submetidos a diferentes

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processos de cozedura, resultam no produto final que temos em mãos. No entanto, ao observar este objeto a maioria das pessoas raramente se questiona sobre a sua origem. Não considera as dificuldades do processo extrativo, não reflete sobre como é produzido ou como adquire aquela forma! Para muitos, é apenas um prato. Mas nunca é só um prato. Nem um copo, um garfo ou um telemóvel. Cada um desses objetos nasce da extração de argilas, areias, metais e outros recursos essenciais. E são precisamente essas explorações, à volta das quais tanto ruído se instala, que disponibilizam recursos essenciais de valor incalculável para o bem-estar de todos. Este ruído, para não lhe chamar contestação, é gerado, em grande parte, por falta de informação ou aliteracia mineira, por problemas históricos e atropelos ambientais ou desconhecimento da atividade, mas também por pouco envolvimento e esclarecimento de alguns dos atores principais neste tipo de atividade. Por conseguinte, é crucial que as empresas se envolvam de maneira consistente no esclarecimento e na formação da sociedade, além de tornarem visíveis, como muitas já fazem, o esforço para minimizar os impactes ambientais e promover a requalificação ambiental. É importante destacar que, hoje em dia, o envolvimento da sociedade tem um maior dinamismo e intervenção em todas as atividades que possam interferir com a mesma, como é o caso da atividade extrativa potencialmente impactante no quotidiano dos indivíduos. O setor da indústria extrativa portuguesa tem as suas raízes principalmente em Pequenas e Médias Empresas, em grande parte de origem familiar, muitas das quais com um rico legado histórico e uma


estreita ligação com a população local. Essa ligação foi, principalmente, consolidada pela criação de emprego, uma das principais valências para a população das áreas circundantes aos núcleos empresariais. Em vários polos da indústria extrativa, a grande capacidade de empregabilidade deste setor é marcada por, mesmo em zonas de baixa industrialização, conseguir dar uma resposta alargada com criação de postos de trabalho diretos e indiretos, de grande abrangência económica e social. Todavia, nos dias de hoje, as respostas exigidas pela sociedade são mais amplas, mais exigentes e, sobretudo, estão sujeitas a um escrutínio social mais rigoroso, o que impõe às empresas um esforço maior no fortalecimento dos seus relacionamentos e na qualidade das suas respostas. A intervenção social das empresas, além das suas fronteiras físicas, tem assumido um papel fundamental, considerando a sua responsabilidade social. Esse envolvimento gera um impacto positivo nas comunidades e contribui para a projeção da marca, para além do interesse estritamente comercial. Com legislação bem definida e orientada no sentido de regular e controlar a atividade extrativa, interessa responder conforme definido nas regras em vigor, mas acima de tudo fazer bem. É isso que as empresas dos Grupos Corbário e White Minerals, onde desempenho funções, tentam fazer procurando sempre melhorar – melhoria contínua. Gerir bem os recursos existentes, extraindo em segurança, seguindo os planos de forma equilibrada, e acima de tudo, tendo presente a gestão sustentável dos recursos geológicos. Deste modo, as empresas do Grupo Corbário e as do Grupo Whiteminerals, com unidades extrativas dispersas pelo país e com grande diversidade de negócios, têm em comum as inúmeras dificuldades de processos de legalização burocratizados, extensos e que nem sempre respondem de forma expedita e eficaz às solicitações atuais. Apesar destes requisitos legais serem cada vez mais exigentes e as solicitações maiores, os nossos objetivos finais são a extração de argilas brancas ou vermelhas, caulinos, areias, feldspatos, talco, cassiterite e ilmenite, de forma a satisfazer as solicitações dos nossos clientes ou parceiros, mantendo os critérios de qualidade dos produtos e respondendo de forma afirmativa às nossas responsabilidades ambientais e sociais. Sair da empresa para conhecer os atores sociais locais, autarquias, associações locais, clubes desportivos, associações de apoios a idosos, escolas e muitos outros, é outro dos procedimentos normais nas empresas do Grupo nas quais desempenho as minhas funções como geólogo. Assim, consideramos que o papel das nossas empresas vai muito além das preocupações meramente económicas. De facto, ainda que com a consciência de responder positivamente aos nossos clientes, trabalhamos de forma diversificada, mas efetiva com a comunidade local. Este papel, que tem um peso significativo nas empresas, e faz a diferença nas comunidades locais, regionais ou mesmo nacional, é posto em prática sob diversas formas de trabalho e consequentemente com impacto diversificado nas mesmas. Alguns exemplos:

- A Prospeção e Pesquisa de Recursos Geológicos é uma vertente de investigação de campo complementada com a laboratorial, através de investimentos significativos, que permite às nossas empresas, mas também ao Estado, conhecer o território nacional e as riquezas existentes e passíveis de exploração. A identificação de novas jazidas, ou simplesmente a quantificação de reservas, é uma base de extrema importância para um melhor planeamento e gestão dos recursos em simultâneo com análise de investimentos, quer a nível local (concessão), quer a níveis regional ou nacional; - As parcerias estabelecidas entre as nossas empresas e estabelecimentos de ensino superior, com a realização de estágios, desenvolvimento de trabalhos no âmbito de mestrados. Destes trabalhos resultam o acompanhamento de ensaios de materiais recolhidos (amostragem diversa) para complemento de controlo de recursos geológicos, sendo uma das áreas que tem sido desenvolvida e com progressão garantida, tendo como objetivo principal aumentar o conhecimento científico, mas também desenvolver técnicos com capacidades e conhecimentos práticos no setor; - A ligação com as autarquias, com parcerias para resolução de problemas existentes nas localidades / comunidades, quer de índole estrutural, organizativa ou simplesmente de apoio a atividades de cariz social, desportivas ou outras; - A participação direta com todo o tipo de associativismo, cultural, desportivo ou de apoio social, ou a idosos é feito de forma efetiva quer na realização de eventos quer no apoio periódico destas associações. Durante os trabalhos de exploração, a ligação com a comunidade, apesar dos possíveis impactes, procuramos sempre minimizar e procurar as melhores técnicas, sendo que na fase de Recuperação Ambiental os interesses da comunidade local assumem primazia. Dando seguimento ao procedimento legal de Recuperação Paisagística, para além do critério obrigatório de execução, procuramos de forma efetiva encontrar as melhores soluções para o local, permitindo uma valorização com soluções benéficas para a população local incluindo zonas com passivos ambientais, ainda que não da nossa responsabilidade, existentes nalguns locais. Recuperar de forma planeada para deixar melhor do que o que estava antes. Este será sempre o nosso esforço. Apesar dos tempos conturbados que enfrentamos, consideramos que o modelo a seguir, com as respostas adequadas aos desafios propostos, é o caminho atualmente seguido por nós, onde a responsabilidade social, gestão sustentável e sustentada de Recursos Geológicos com ligação e resposta eficiente e efetiva às comunidades, é primordial. Vale a pena? Sim, vale a pena! Para nós, para as próximas gerações e para a comunidade em geral. Acreditamos que, com esta visão, estamos a contribuir para um futuro mais justo, sustentável e responsável no caminho do desenvolvimento económico e social que tanto almejamos todos, sobretudo agora com as crises geopolíticas instaladas tão perto de nós.

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Projeto de Beneficiação de Feldspato e Lítio (Espodumena) a partir da Mina de Alijó Das Cerâmicas às Baterias: Transformar uma Mina de Feldspato para Impulsionar a Transição Energética Gonçalves, Filipe 1 , Rocha, Fábio 2 , Lagoa, Carlos 2 , Lagoa, Hugo 2 , Assumpção, C.S. 1 1A M G L i t h i u m P o r t u g a l ; 2J o s é A l d e i a L a g o a & F i l h o s , S . A .

Resumo

1. Introdução

A beneficiação de pegmatitos com lítio da concessão mineira C-111 “Alijó”, localizada no norte de Portugal, é o foco de um projeto colaborativo entre o Grupo Lagoa e a AMG Lithium Portugal. A iniciativa tem como objetivo a criação de uma Unidade Semi-Industrial para Concentração de Espodumena e Feldspato (USEF), visando aperfeiçoar as características tecnológicas do feldspato enquanto se desenvolve a produção de concentrado de lítio. O depósito mineral de Alijó, que faz parte do campo aplito-pegmatítico Barroso-Alvão, é composto por quartzo, feldspatos, espodumena e micas, tornando-se uma fonte valiosa para as indústrias cerâmica e de lítio. Foram realizadas pesquisas geológicas, incluindo cartografia, deteção remota e campanhas de perfuração, com o objetivo de caracterizar os corpos mineralizados e avaliar a distribuição de lítio. Um circuito de processamento foi desenvolvido com base em estudos laboratoriais, incluindo moagem via-húmida, desenleamento, separação magnética e flotação, para otimizar a recuperação mineral.

O Grupo Lagoa em parceria com a AMG Lithium Portugal, está a desenvolver um projeto de beneficiação de pegmatitos com lítio da concessão mineira C-111 “Alijó”. Na sua fase inicial, este projeto levará à criação de uma Unidade Semi-Industrial para Concentração de Espodumena e Feldspato.

A unidade USEF processará 80.000 toneladas de minério anualmente, produzindo concentrado de espodumena (10.000 toneladas/ano), feldspato (39.000 toneladas/ano) e produtos secundários como micas, argilas e resíduos ricos em ferro. O projeto integra uma estratégia de zero desperdício, reintegrando subprodutos do processo em formulações cerâmicas e implementando um sistema de reciclagem de água em circuito fechado para aumentar a sustentabilidade ambiental. Este projeto alinha-se com o objetivo estratégico da União Europeia de reduzir a dependência de cadeias de abastecimento externas de lítio, promovendo o desenvolvimento mineiro e industrial local, em conformidade com os princípios ESG. Ao tirar partido da infraestrutura e experiência existentes, a iniciativa contribui para uma cadeia de valor de lítio mais sustentável e competitiva na Europa, estimulando o crescimento económico nas regiões interiores de Portugal.

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O projeto surgiu inicialmente pela intenção da José Aldeia Lagoa & Filhos SA (JALF), empresa mãe do Grupo Lagoa em melhorar as características tecnológicas do feldspato extraído da mina de “Alijó”. No entanto, sofreu uma evolução crucial com a incorporação da AMG na parceria, trazendo a sua experiência e know-how na produção de concentrados de lítio. O projeto mineiro “Alijó” está localizado no norte de Portugal, no município de Ribeira de Pena, no distrito de Vila Real, a cerca de 90 km a nordeste da cidade do Porto. A exploração do filão aplito-pegmatítico de “Alijó” começou em 2008, ano em que a concessão mineira C-111 “Alijó” foi atribuída à JALF, abrangendo uma área de 312 ha.

2. Depósito Mineral – Contexto Geológico e Mineralização O campo aplito-pegmatítico de Barroso-Alvão localiza-se no noroeste da Península Ibérica, onde podem ser encontrados centenas de aplito-pegmatitos intercalados, alguns ricos em espodumena, outros em petalite, e alguns estéreis em lítio, sem qualquer zonamento aparente local ou regional (Figura 1). Os aplito-pegmatitos ocorrem em metassedimentos do período Silúrico das unidades parautóctones da Zona de Galiza - Trás-os-Montes (ZGTM). Alguns desses pegmatitos parecem ter preenchido zonas de fraqueza sub-horizontais e sub-verticais, como zonas de cisalhamen-


Figura 3 - Fotografia aérea da mina de “Alijó”. Figura 1 - Mapa geológico do aplito-Pegmatito Barroso-Alvão. Sistema de coordenadas: WGS 1984 UTM Zona 29N. [1], Agência Portuguesa do Ambiente [2, 3], Sant'Ovaia, et al.[4] e Ribeiro, et al.[5].

Figura 2 - : Testemunho de sondagem realizada ao filão de “Alijó”, com mostras de espodumena. Figura 4 - Trabalhos mineiros na exploração do filão de “Alijó”.

to, e podem ser encontrados paralelamente uns aos outros em estruturas “en échelon”. A cartografia geológica realizada, identificou vários corpos aplito-pegmatíticos aflorantes, incluindo o filão de “Alijó”, que é atualmente o foco da atividade mineira para a indústria cerâmica. O filão principal de “Alijó” tem uma orientação N 15° W, superficialmente sub-vertical, com uma ligeira inclinação para o Oeste em profundidade, e uma possança que varia entre 15 a 45 metros. É composto predominantemente por aplito leucocrático e fases de pegmatito. A fase de aplito é composta principalmente por quartzo-albite com alguma moscovite, enquanto a fase pegmatítica contém quantidades significativas de feldspato potássico (geralmente microclina), albite, espodumena (Figura 2), alguma moscovite e quartzo.

Figura 5 - Sondagem mecânica com recuperação de testemunho, no filão principal de “Alijó”.

peção geológica e investigação para cartografar e caracterizar os corpos mineralizados na área da concessão mineira de “Alijó”.

3. Exploração Mineira e Investigação em Curso

Além da cartografia geológica, o projeto incluiu a aplicação de métodos geofísicos, técnicas de deteção remota e amostragem de campo.

Dentro desta concessão, foi desenvolvida uma mina a céu aberto (Figura 3), para extração de feldspato (Figura 4), enquanto matéria-prima para a indústria cerâmica.

Já foram realizadas três campanhas de perfuração mecânica no filão principal de “Alijó” (Figura 5), abrangendo 3.000 metros de perfuração com recuperação de testemunho, distribuídos por 18 furos.

Como parte deste projeto, estão a ser realizadas atividades de pros-

O objetivo é avaliar o desenvolvimento estrutural do filão em pro-

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Figura 7 - Unidade Industrial da Unipasta, S. A.

A USEF é um passo estratégico crucial para a valorização do depósito Figura 6 - Modelo tridimensional do filão principal de “Alijó”, com representação da interseção das sondagens.

fundidade e obter uma amostragem representativa para análise laboratorial. Este trabalho visa desenvolver um modelo tridimensional do depósito mineral e avaliar a distribuição dos teores de lítio para quantificar o recurso mineral. Tendo já sido calculado 14 Mton de pegmatito litinífero. (Figura 6).

4. Unidade Semi-Industrial para Concentração de Espodumena e Feldspato Com o objetivo de desenvolver o modelo de beneficiação do minério da mina de “Alijó”, vários estudos laboratoriais foram realizados para determinar o procedimento tecnológico para a obtenção de concentrados de espodumena e feldspato, bem como micas e lamas, visando criar uma Unidade Semi-Industrial para Concentração de Espodumena e Feldspato. Para tal, foi escolhida a unidade industrial Unipasta1 (Figura 7), localizada em Pombal, para acolher este projeto, uma vez que dispõe de capacidade instalada de moagem, licença industrial, não exige a construção de novos edifícios, está situada numa zona industrial com acessos e próxima do porto da Figueira da Foz, e pode absorver a produção de feldspato proveniente do processo de beneficiação da USEF, pela incorporação no seu processo industrial. Uma vez que a eficiência do projeto é uma tarefa contínua que envolve várias áreas de ação, desde o estudo e controlo do minério, adaptação do processo industrial, consumo de reagentes e energia, entre outros, a USEF será a unidade-piloto na produção e desenvolvimento da rota a ser utilizada no futuro em unidades industriais de maior escala. Garantindo uma solução técnica adequada com potencial de crescimento, essencial para mitigar os riscos de mercado, regulamentares e das partes interessadas.

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mineral de “Alijó”, uma vez que os produtos, o processo industrial e os potenciais mercados de grande escala, ou de nicho, serão promovidos numa abordagem de zero desperdício de minério, alcançando o maior valor acrescentado disponível no mercado. Com base nos estudos realizados, foi possível desenvolver um circuito tecnológico para o processamento do minério de “Alijó” (Figura 8), com resultados muito significativos na recuperação do cortejo mineral. A unidade industrial piloto da USEF foi projetada para processar anualmente 80.000 toneladas de minério de “Alijó”, alcançando uma recuperação mineral superior a 70%. De forma simplificada, o processo industrial compreende os seguintes estágios: • Utilizando a capacidade de moagem via-húmida já instalada na Unipasta, o minério será reduzido a um tamanho de partícula inferior a 200 µm; • Após a moagem, será realizado o processo de desenleamento para remover os finos gerados durante a moagem; • A polpa resultante será encaminhada para um equipamento de separação magnética (desferrização), uma vez que o alto teor de ferro dificultaria a concentração de espodumena e feldspato; • De modo a aumentar a recuperação metalúrgica, a polpa passará previamente por um processo (flotação) de remoção das micas; • Seguido para a fase final de flotação, composta por várias células pneumáticas, separando dois concentrados, feldspato e espodumena. • Com base na capacidade de processamento da unidade industrial, serão gerados os seguintes produtos: • Concentrado de Espodumena (10.000 ton/ano) – Produto principal do projeto, devido ao seu valor de mercado atual e mercados potenciais; • Feldspato (39.000 ton/ano) – O feldspato sairá deste processo numa granulometria próxima à utilizada na indústria cerâmica, contribuindo para a redução do consumo energético. Não é representado neste diagrama de tratamento, mas está em


Figura 8 - Diagrama do processo de tratamento da USEF.

estudo a adição de um estágio de beneficiação do feldspato, importante para criar alternativas de valor acrescentado na indústria cerâmica.; • Lamas (13.000 ton/ano) - As lamas serão diretamente incorporadas na formulação de pastas cerâmicas (Unipasta), reduzindo o consumo de energia, pois são moídas à granulometria apropriada; • Magnéticos (2.000 ton/ano) – Resultantes do processo de desferrização, estão a ser estudados para incorporação em pastas coloradas, dado o seu teor de ferro; • Micas (16.000 ton/ano) – Encontra-se em avaliação a aplicabilidade deste produto.

5. Relevância do Projeto Atualmente, é necessário repensar o modelo económico europeu, procurando aproximar a produção de bens e serviços da Europa, através da regulamentação da origem dos produtos, a fim de evitar consumos que não respeitem os padrões ESG, aos quais a sociedade deve aderir e promover. Mitigar o domínio da China na indústria do lítio, envolverá a criação integrada de projetos e sinergias como este, replicando estes conceitos em todos os níveis, para gerar uma economia europeia vertical, integrada e sustentável.

combater a sua desertificação, pela criação de empregos bem remunerados e fomentando uma economia local mais dinâmica.

Referências [1] Rodríguez Fernández, L.R.; López Olmedo, F.; Oliveira, J.T.; Medialdea, T.; Terrinha, P.; Oliveira, J.; Martín-Serrano, A.; Martín Parra, L.M.; Rubio, F.; Marín, C.; Mapa Geológico de Espanha e Portugal. Escala 1:1 000 000. IGME 2015. © Instituto Geológico y Minero de España (IGME); © Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). [2] Agência Portuguesa do Ambiente. Massas de Água Superficiais Rios de Portugal Continental: Conjunto de Dados Geográfico SNIAmb. [3] Agência Portuguesa do Ambiente. Massas de Água Superficiais Rios Albufeiras de Portugal Continental Conjunto de Dados Geográfico SNIAmb. [4] Sant'Ovaia, H.; Ribeiro, M.A.; Martins, H.C.B.; Noronha, F. Notícia explicativa da Carta Geológica de Portugal na escala 1:50000— Folha 6D—Vila Pouca de Aguiar. 2011. [5] Ribeiro, M.A.; Martins, H.C.B.; Almeida, A.; Noronha, F. Notícia Explicativa da Folha 6-C- Cabeceiras de Basto. Carta Geológica de Portugal na Escala 1/50 000; Instituto Geológico e Mineiro: Lisboa, Portugal, 2000; pág. 48.

Este valor acrescentado deve ser reinvestido na promoção de atividades mineiras e industriais mais sustentáveis, gerando também níveis mais elevados de emprego, promovendo o interior de Portugal para

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O Papel dos Projetos Estratégicos Europeus na Cadeia de Valor do Lítio: o caso da Mina do Romano Eduarda Araújo Lusorecursos Portugal Lithium, S.A. A transição energética é uma necessidade premente e como tal, o lítio assume-se como uma das chaves para a concretização deste objetivo. Assim, a crescente procura por matérias-primas críticas e estratégicas tem levado a União Europeia a dar prioridade à valorização e produção destes recursos, com o intuito de consolidar a respetiva cadeia de valor no espaço europeu. O aproveitamento do lítio, quando feito em condições ambientalmente e socialmente responsáveis, tem a potencialidade de gerar uma oportunidade económica, tanto pela criação de emprego, pela atratividade dos territórios onde os jazigos minerais existem, como pela possibilidade da criação de um cluster industrial que trate a matéria-prima e a transforme num produto de maior valor acrescentado.

É urgente que Portugal e a União Europeia percebam que a chave para um futuro sustentável e competitivo está na capacidade de gerir, explorar e agregar valor às suas próprias matérias-primas, tendo em vista as necessidades do mercado global.

Mina do Romano

O Papel Estratégico da União Europeia e de Portugal

A estratégia de aprovisionamento de matérias-primas críticas e estratégicas da Lusorecursos passa pela integração de duas fases da cadeia de valor do lítio num único projeto. Assim, assegura-se que todo o valor criado com a exploração do recurso geológico fica em Portugal, o que naturalmente potenciará emprego, tecnologia e inovação. Após a extração, o projeto tem como principal objetivo a produção de hidróxido de lítio mono-hidratado ultrapuro, a partir de concentrados minerais de petalite, para as indústrias de produção de células de baterias de ião-lítio e de armazenamento energético.

A dependência da União Europeia de países terceiros, na cadeia de valor do lítio, tem sido uma preocupação crescente. Em resposta a esta vulnerabilidade, foi publicado no Jornal Oficial da União Europeia, o Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas, de 11 de abril de 2024 [1], que estabelece um regime para garantir um fornecimento seguro, resiliente e sustentável de matérias-primas críticas no mercado europeu. Para alcançar esses objetivos, em março do presente ano, a Comissão Europeia identificou 47 projetos estratégicos distribuídos por 13 Estados-Membros, sendo um deles, o projeto da Mina do Romano.

Para além disso, objetiva-se ainda o fornecimento de matéria-prima para outras indústrias, como a da cerâmica e do vidro. O aproveitamento de minerais industriais como o feldspato e o quartzo constituem simultaneamente uma oportunidade e uma exigência para alcançar uma exploração sustentável. Assim, minimiza-se o impacte ambiental global da extração mineira na concessão “Romano” e aumenta-se a eficiência e sustentabilidade dos processos de produção, através da redução do consumo de recursos e do volume de rejeitados, dando um fim aos recursos naturais que poderiam ser descartados.

No entanto, para garantir que estes projetos atinjam os seus objetivos de forma eficaz e sustentável, é essencial promover uma sinergia entre a União Europeia, Estados-Membros e as diversas partes interessadas.

Com isto, a Lusorecursos objetiva demonstrar que em Portugal pode ser criado um projeto de investimento estrutural de alto valor acrescentado no setor mineiro e metalúrgico, que contribua ativamente para o desenvolvimento sustentável, valorizando os ativos ambientais, seja de produção ou de conservação, e promovendo o bem-estar social.

Portugal é um dos mais promissores países europeus onde os recursos de lítio existem com elevado potencial de aproveitamento, podendo vir a ter um papel de extrema importância no desenvolvimento e expansão de novas tecnologias não poluentes. Como tal, deve assumir um compromisso claro na industrialização do lítio, valorizando da melhor forma possível os seus recursos litiníferos na perspetiva de potenciar a descarbonização.

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Análise socioambiental As explorações mineiras, de lítio ou de outros minerais, trazem re-


percussões significativas, o que torna fundamental encontrar o ponto de equilíbrio.

lítio, desempenha um papel crucial na maximização dos benefícios económicos, tecnológicos e sociais.

A contínua avaliação e monitorização dos impactes ambientais e sociais, bem como a implementação de medidas de mitigação eficazes, serão fundamentais para o sucesso deste projeto e para a consolidação de Portugal, como um ator relevante no mercado europeu de lítio.

O caminho para o desenvolvimento sustentável exige, de forma inequívoca, a identificação, valorização e otimização dos recursos, garantindo que as gerações futuras possam usufruir de um crescimento equilibrado e responsável.

Deste modo, o projeto da Mina do Romano assenta numa estratégia de desenvolvimento sustentável em três esferas fundamentais nomeadamente, ambiental, social e económica. De um modo geral, há um compromisso em (i) preservar, valorizar e promover a Reserva da Biosfera Gerês-Xurés e toda a área envolvente; (ii) promover a coesão regional, revertendo a tendência de desertificação da região do Barroso e (iii) desenvolver a região com indústria sustentável e colaborativa, impulsionada por tecnologias inovadoras.

Referência bibliográfica [1] Regulamento (UE) 2024/1252 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de abril de 2024, que estabelece um regime para garantir um aprovisionamento seguro e sustentável de matérias-primas críticas e que altera os Regulamentos (UE) n.° 168/2013, (UE) 2018/858, (UE) 2018/1724 e (UE) 2019/1020 (Texto relevante para efeitos do EEE). (2024). Jornal Oficial, L 1252, ELI: http://data.europa.eu/eli/ reg/2024/1252/oj

Conclusão A exploração do lítio em Portugal representa uma oportunidade estratégica tanto para o país como para a União Europeia, com potencial para impulsionar a transição energética e a inovação tecnológica. A Lusorecursos, ao integrar as fases de extração e processamento do

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Prospeção e pesquisa na zona da mina de cobre de Miguel Vacas José Mário Castelo Branco Geologia e Geotecnia Consultores Lda.

Resumo A empresa canadiana Ibero Mining, através da sua subsidiária, a EVX Portugal Lda., é o operador dum projeto de prospeção e pesquisa situado nos concelhos de Estremoz, Borba, Vila Viçosa e Alandroal, denominado “Borba 2”. Na atual fase de investigação deu-se enfoque a uma primeira tentativa de avaliação do conjunto das mineralizações cupríferas da mina de cobre de Miguel Vacas, tendo-se perfurado 1.410 m, distribuídos por 11 sondagens. Deu-se prioridade à avaliação inicial da parte mais superficial da jazida na qual as mineralizações presentes poderão constituir um objetivo mineiro imediato em céu aberto, com recuperação do cobre por processos hidrometalúrgicos. Prevê-se a condução ainda durante o biénio de 2025-2026 de uma campanha de sondagens de 4.500 m com vista ao completo reconhecimento da jazida e de ampliação dos recursos minerais. Seguir-se-á numa fase ulterior a investigação do minério primário, este já com uma mineralogia compatível com a produção de um concentrado de cobre por flutuação.

Enquadramento geológico A mina de Miguel Vacas localiza-se na Zona de Ossa-Morena a qual representa o bordo sul do terreno autóctone ibérico, sendo constituída por formações de idades desde o Proterozóico até ao Paleozóico Superior. As rochas mais antigas na área ocupam o núcleo do conhecido anticlinal de Estremoz representadas por um núcleo do Precâmbrico (Formação de Mares) constituído por xistos negros, liditos e metagrauvaques. Sobre esta unidade assenta uma sequência, atribuída ao Câmbrico, constituída por mármores dolomíticos com intercalações de metavulcanitos básicos (Formação Dolomítica), conglomerados e metavulcanitos ácidos na base. As conhecidas explorações industriais de mármore localizam-se logo acima, no denominado Complexo Vulcano-Sedimentar Carbonatado de Estremoz, numa unidade de mármores calcíticos, na qual ocorrem intercalações de calcoxistos e metavulcanitos ácidos e básicos. A idade desta unidade não é consensual sendo-lhe atribuídas idades desde o Câmbrico ao Devónico Inferior. Envolvendo todo este conjunto, ocorrem formações

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Figura 1 - Mapa geológico geral com a localização da mina de Miguel Vacas dentro da área de prospeção e pesquisa de Borba 2.

de Idade Devónica-Silúrica representadas por xistos cinzentos, xistos negros carbonosos e liditos, os quais hospedam a mineralização de Miguel Vacas. A mina de cobre de Miguel Vacas desenvolve-se num complexo e amplo sistema anastomosado de brechas, filões e filonetes de quartzo e carbonato com sulfuretos, orientado NNE-SSW. A jazida foi identificada ao longo de uma secção com 2.1 Km de extensão até uma profundidade máxima de cerca de 300 m. No entanto, as sondagens existentes centraram-se na zona mais reduzida correspondente a um tramo desde o limite norte da exploração a céu aberto e nas extensões do alinhamento mineralizado para sul, ao longo dum segmento de 1.1 Km.

Paragénese Nesta zona constata-se, com base, quer no conhecido dos trabalhos mineiros antigos, quer ainda, da observação dos testemunhos das sondagens, que existe um perfil de alteração supergénica mais ou menos regular correspondente à porção mais superficial da mineralização cuprífera, a qual se estende desde a superfície até a uma profundidade média de 80 m. A mineralização supergénica inclui malaquite [(CuCO3Cu(OH)], pseu-


Figura 3 - Vista parcial da corta de Miguel Vacas e sondagem em curso na zona sul (Sondagem EBMV001).

Figura 2 - Fotos da mineralização cuprífera. Foto da esquerda: intervalo da sondagem MV009 mineralizada com malaquite e libethenite; foto da direita: detalhe da foto anterior.

domalaquite [(Cu5(PO4)2(OH)4], libethenite (Cu2OHPO4), crisocola (CuSiO3,2H2O), atacamite (Cu2OHCl), covelite (CuS), tenorite (CuO), calcocite (Cu2S), bornite ( Cu5 Fe S4), azurite [Cu (CO3)2(OH)2]. A paragénese “primária” subjacente está representada por calcopirite (CuFeS2), e pirite (FeS2), ocorrendo acessoriamente arsenopirite (FeAsS) e calcocite (Cu2S), iniciando-se, como referido, por volta dos 80m e estendendo-se em profundidade sem grandes alterações na sua paragénese até às cotas perfuradas anteriormente.

Sondagens mecânicas A campanha realizada em 2024 pela Ibero Mining incluiu 11 sondagens mecânicas com carotagem contínua, perfazendo um total de 1.410,2 m, centradas na zona de Pardais, junto à antiga mina de cobre de Miguel Vacas. O objetivo principal foi a caraterização das tipologias de minério e detalhar os resultados anteriores dos impactos sobre as zonas mineralizadas, nomeadamente com amostragens detalhadas, tendo em vista uma estimativa inicial do recurso mineral da zona investigada. A profundidade máxima da mineralização atingida por sondagens cifra-se em cerca de 330 m no furo MV-18, realizado pela Mining Exploration Lda. em janeiro de 1972, tendo sido concluído aos 405.7 m. Para levar a bom porto esses objetivos, muito contribuiu a opção da Ibero Mining por métodos de perfuração mais modernos e eficazes, nomeadamente o recurso a amostrador triplo de testemunho (Wireline Triple Tube), inicialmente testado em diâmetro PQ, passando-se depois ao diâmetro pretendido (HQ).

Figura 4 - Imagem 3D do modelo geológico da mineralização de Miguel Vacas com base nas sondagens existentes.

Obteve-se com isto um aumento de recuperação assinalável nas zonas mineralizadas mais fraturadas, tendo-se optado por esta técnica para 10 das 11 sondagens realizadas nesta campanha. As análises desta campanha, para além de confirmarem a presença de uma ampla zona mineralizada, vieram a indicar resultados sistematicamente superiores aos obtidos em anteriores investigações, sendo que se atribui esta diferença às melhores recuperações de testemunho obtidas nesta campanha. Apresenta-se na figura 5 uma secção geológica interpretativa incluindo uma sondagem anterior da Colt Resources (BOMV-15-001) a qual foi tentativamente replicada pela Ibero Mining (sondagem EBM001) para controlo e confirmação. Constata-se, claramente, que os resultados obtidos na sondagem recente da Iberio Mining incluem interceções com teores cupríferos significativamente superiores quer no que toca à espessura do feixe filoneano, como dos teores potencialmente económicos. Para o efeito tentou-se integrar o conjunto dos resultados recentes com os dados das sondagens anteriores, tarefa que se revelou nalguns casos impossível, noutros só parcialmente possível. Destaca-se que os resultados da Colt Resources foram considerados na sua tota-

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configurarem metodologias e procedimentos compatíveis com as normas internacionais em vigor, quer por falta de informação sobre os métodos analíticos, quer ainda pela forma de reporte dos resultados, nalguns casos genérica, parcial e faltando o detalhe da amostragem. Foram, no entanto, usados como auxiliares na interpretação do modelo geológico preliminar o qual servirá de base para a planificação de sondagens ulteriores tendo como pano de fundo a ampliação dos recursos nas áreas excluídas. Estimaram-se os valores médios da densidade para os pares minério/estéril e minério oxidado/fresco com base nas determinações de densidade nos testemunhos de sondagem pelo método de imersão. A zona de cobertura de solos e escombros foi excluída nos cálculos dos volumes. Os resultados obtidos até à presente data estão patentes na tabela seguinte: Figura 5 - Secção geológica abrangendo duas sondagens próximas com a indicação dos resultados analíticos mais significativos.

lidade válidos, enquanto todos os anteriores serviram somente para apoio para a modelação geológica e não foram tidos em conta na preparação dos modelos de blocos e consequentemente no cálculo do recurso mineral.

Avaliação preliminar dos recursos minerais Dando seguimento aos resultados obtidos na campanha de sondagens realizadas pela Ibero Mining, avançou-se com uma primeira modelação geológica da jazida e de um cálculo preliminar dos recursos minerais com base nos dados disponíveis. Os resultados iniciais obtidos apontam para um recurso da zona da mina de Miguel Vacas da ordem dos 6 milhões de toneladas com um teor médio de 0.82% de Cu, utilizando um teor de corte de 0.3% de Cu. Para além do recurso inferido, reconhece-se o potencial adicional de cerca de 8 milhões de toneladas neste mesmo setor e que deverá ser confirmado com sondagens adicionais a realizar ainda durante o ano de 2025. Assinale-se que, conforme referido, estes resultados são considerados parcelares dado que, uma parte significativa da massa mineral não se encontra aqui contabilizada. Isto reflete, tão-somente, a ausência de dados de análises compatíveis com os requisitos atuais das instituições de acreditação internacionais (CRISCO, JORC), dando, no entanto, uma informação qualitativa e semi-quantitativa para apoio ao modelo geológico. A metragem de sondagens total considerada para o cálculo do recurso inicial, foi de 2.703 m, sendo a contribuição da Ibero Mining de 1410 metros o que representa somente 39% do total das perfurações realizadas na área. Em virtude de os resultados analíticos das sondagens históricas não

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Ao potencial de expansão dos recursos inferidos na zona da corta, junta-se, ainda, o correspondente à continuação da jazida, tanto em extensão como em profundidade, cuja avaliação se prevê com recurso a sondagens adicionais. Com base nestes resultados, a Ibero Mining pretende continuar com a campanha de sondagens de forma a investigar e confirmar, por um lado a profundidade e as extensões laterais da mineralização identificada, e, por outro, a morfologia, continuidade, dimensão e teores das massas mineralizadas de Miguel Vacas.

Trabalhos futuros A campanha de sondagem planeada para o biénio 2025-2026 contempla aproximadamente 4.500 metros de perfurações, o que permitirá, esperamos, ampliar o atual recurso para mais do dobro do atualmente considerado. Para o efeito avançou-se com uma estratégia com um duplo objetivo: por um lado investigar a zona oxidada mais superficial em malha mais apertada (cerca de 100x100 m); por outro, intercetar a zona mineralizada primária, profundidades mais elevadas para confirmação da prevalência das mineralizações económicas em profundidade. A zona oxidada constitui potencialmente um objetivo mineiro a colocar rapidamente em operação, sendo provável neste caso uma exploração a céu aberto com recuperação do cobre com lixiviação do cobre em pilhas com recurso a soluções ácidas, seguida da extração electrolítica do cobre. A parte da jazida primária é encarada como um objetivo a explorar numa operação subterrânea seletiva, sendo que neste caso se prevê


Figura 6 - Secção longitudinal da mineralização de Miguel Vacas e impactos das sondagens realizadas pelas Ibero Mining e plano de sondagens para o biénio 2025-2026.

a recuperação do cobre e venda de concentrados de cobre diretamente às refinarias internacionais. Neste caso espera-se um concentrado de elevada qualidade em virtude da presença insignificante de eventuais contaminantes, da simplicidade da paragénese e da granulometria grosseira deste minério e consequente facilidade de separação no processo de beneficiação. Na sequência dos trabalhos projetados para a fase seguinte, e na dependência dos resultados obtidos, prevê-se a condução de estudos de caraterização mineralúrgica e testes à escala-piloto de beneficiação dos minérios. Esses resultados, espera-se, irão constituir um suporte mais sólido na caraterização e valorização do minério à escala industrial dum projeto mineiro, apoiado por um estudo de viabilidade económica.

Referências bibliográficas MAIA, M., MOREIRA, N. , VICENTE, MIRÃO, S. J., NORONHA, F., NOGUEIRA, P.,2020. Multi-Stage Fluid System Responsible for Ore Deposition in the Ossa-Morena Zone (Portugal): Constraints in Cu-Ore Deposits Formation. Geology of Ore Deposits, Vol. 62, No. 6, pp. 508–534. DOI: 10.1134/S1075701520060094 PEREIRA, M., 2022. Relatório das atividades de prospeção e pesquisa do 1º Ano de trabalhos. Área de Borba 2, CONTRATO Ref. MN/ /PP/003/21. Arquivos da DGEG.

PEREIRA, M., 2023. A National Instrument 43-101 Technical Report. Geology and mineralization of the Borba 2 copper-gold property, Alentejo, Portugal. EuroPacific Metals Inc. PEREIRA, M., 2023. Relatório das atividades de prospeção e pesquisa do 2º Ano de trabalhos. Área de Borba 2, CONTRATO Ref. MN/ /PP/003/21. Arquivos da DGEG. CASTELO BRANCO, J., PINTO, Z., PAÑEDA, A. 2005. Relatório do primeiro semestre de 2005. Área do Alandroal. Rio Narcea Gold Mines. Arquivos do LNEG (não publicado) CASTELO BRANCO, J., 2024. Relatório das atividades de prospeção e pesquisa do 3º Ano de trabalhos. Área de Borba 2, CONTRATO Ref. MN/PP/003/21. Arquivos da DGEG. FARIA, A. F., 2023. Mina de Miguel Vacas (Relatório Preliminar). Colt Resources. Arquivos do LNEG (não publicado). OLIVEIRA, V.M.J., 1982. Contribuição para o conhecimento geológico-mineiro da região do Alandroal – Juromenha (Alto Alentejo). Estudos, notas e trabalhos”; Vol. XXVI, fases 1 a 4. FERNANDES, G., 2012 – “Mineralizações de Cobre da Mina de Miguel Vacas: Caracterização Petrográfica e Geoquímica”; Mestrado da Faculdade de Ciências, Departamento Geologia.

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Caminho para a Sustentabilidade nas Pedreiras: Soluções Atuais e Futuras com a Caterpillar® Beatriz Pedro, João Carlos Santos STET S.A. / A TESYA COMPANY

O setor das pedreiras encontra-se num ponto de viragem. Os desafios são diversos e complexos, afetando tanto o dia a dia operacional como as estratégias de longo prazo das empresas que nele operam. João Santos, Gestor de Segmento de Pedreiras e Agregados da STET, destaca os temas mais recorrentes levantados por parceiros e clientes: • A dificuldade em atrair, formar e reter operadores qualificados; • A persistência de incidentes e quase-acidentes, mesmo em ambientes com forte cultura de segurança; • A pressão contínua para aumentar a produtividade e a eficiência; • E, cada vez mais, a necessidade urgente de reduzir emissões de CO2 e minimizar o impacto ambiental. Na STET, estamos empenhados em apoiar os nossos parceiros neste último ponto — promovendo a transição para uma operação mais limpa, eficiente e sustentável — com soluções tecnológicas e práticas desenvolvidas pela Caterpillar®, que já estão ao alcance de todos.

Sustentabilidade como Pilar Estratégico A CAT® tem vindo a posicionar a sustentabilidade como um eixo central de inovação, não apenas como resposta ao mercado, mas como compromisso com o futuro. Esta visão traduz-se em soluções que permitem aos nossos clientes reduzir as emissões e o consumo de combustíveis fósseis, aumentar a eficiência das operações, manter a competitividade num cenário de transição energética e adotar práticas sustentáveis assentes na lógica da economia circular, como os serviços de recuperação e reconstrução. Na STET, acompanhamos esta evolução lado a lado junto dos nossos parceiros, e identificamos quatro áreas de atuação prioritárias que já hoje podem ser implementadas com efeitos imediatos tanto na eficiência operacional como na redução do impacto ambiental.

1. Modernização da Frota: Equipamentos Mais Eficientes Uma frota atualizada é sinónimo de maior produtividade e menor pegada ambiental. A nova geração de equipamentos Caterpillar®

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inclui soluções híbridas e elétricas que respondem às exigências do setor: • Equipamentos totalmente elétricos, com carregadores móveis a bateria, ideais para operações silenciosas e livres de emissões diretas; • Modelos híbridos com transmissão elétrica (linha XE), que oferecem potência constante, ciclos mais rápidos e menor consumo de combustível. Estas inovações proporcionam ganhos significativos em eficiência energética, manobrabilidade e fiabilidade, sem comprometer a performance exigida nas pedreiras.

2. Telemetria e Análise de Dados: A Base da Melhoria Contínua Na STET acreditamos que uma tomada de decisão verdadeiramente eficaz começa com o acesso a dados fiáveis. A plataforma VisionLink® permite aos nossos clientes acompanhar em tempo real a utilização dos equipamentos, avaliar com precisão o consumo de combustível e as emissões de CO2, identificar padrões de inatividade e definir estratégias de melhoria operacional sustentadas em informação concreta. Este sistema torna-se ainda mais poderoso quando combinado com serviços que acrescentam valor ao dia a dia das operações, como a formação técnica de operadores — fator que pode representar ganhos de eficiência de até 30% no consumo de combustível — e a consultoria especializada para otimização do layout da pedreira, que contribui para um fluxo de trabalho mais fluido e eficaz, eliminando deslocações desnecessárias e aumentando a produtividade geral.

3. Reconstrução Certificada: Economia Circular em Ação A gestão sustentável dos ativos é um fator determinante para garantir a rentabilidade a longo prazo. O programa Cat Certified Rebuild oferece aos clientes a possibilidade de recuperar equipamentos usados com o mesmo nível de qualidade, fiabilidade e desempenho de uma máquina nova, mas a uma fração do custo. Este processo envolve a realização de mais de 350 testes e inspe-


ções, bem como a substituição ou recondicionamento de cerca de 7.000 componentes, resultando num equipamento que é entregue com garantia total. Desde 1985, mais de 43.000 máquinas foram reconstruídas ao abrigo deste programa, o que o torna um exemplo concreto da aplicação dos princípios da economia circular ao setor, reduzindo significativamente o desperdício de materiais e prolongando de forma eficiente o ciclo de vida dos equipamentos.

4. Combustíveis Alternativos: Soluções com Impacto Imediato A utilização de combustíveis com baixa intensidade carbónica tem vindo a assumir um papel cada vez mais relevante nas operações em pedreiras, representando uma solução prática e escalável para a redução da pegada ambiental. A STET e a Caterpillar® estão totalmente preparadas para apoiar esta transição energética. O HVO (Hydrotreated Vegetable Oil) surge como uma alternativa particularmente eficaz, podendo substituir diretamente o gasóleo sem necessidade de adaptações nos motores, com total compatibilidade com a maioria dos equipamentos CAT® e uma redução substancial nas emissões, sem comprometer o desempenho.

Também o biodiesel representa uma solução viável, com misturas até B20 amplamente aceites e a possibilidade de utilização de B100 em modelos específicos. Nestes casos, a qualidade do combustível e as condições de armazenamento são determinantes para garantir o bom funcionamento dos equipamentos. Mesmo perante eventuais desafios logísticos ou de custo, estas opções oferecem aos nossos clientes uma forma concreta de avançar para operações mais sustentáveis.

Preparar o Futuro com Soluções Concretas Na STET, acreditamos que a sustentabilidade e a competitividade não são objetivos opostos — são caminhos complementares. Com o apoio da Caterpillar®, estamos preparados para ajudar os nossos parceiros a responder aos desafios ambientais com inovação, eficiência e responsabilidade. Conheça de perto estas soluções, explore oportunidades e desenvolva connosco um modelo de operação mais inteligente, seguro e sustentável. Porque os desafios do setor só se vencem com visão, tecnologia e parceria. Juntos Construímos o Futuro!

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Equipamentos Móveis e Modulares: Uma Resposta Inovadora à Escassez de Recursos e ao Desafio das Matérias-Primas Críticas Tiago Bartolomeu TREEA MACHINERY, Lda.

Num cenário global marcado pela crescente escassez de matérias-primas minerais e pela acentuada dependência europeia de recursos estratégicos, torna-se cada vez mais premente o desenvolvimento de soluções que permitam uma exploração mais eficiente, sustentável e responsável dos recursos naturais. A utilização de equipamentos móveis e modulares representa uma dessas soluções, combinando inovação tecnológica, flexibilidade operacional e um impacto ambiental reduzido. Estes sistemas oferecem respostas concretas à necessidade de diversificação das fontes de matérias-primas, contribuindo simultaneamente para uma economia circular e para a valorização dos resíduos.

A Crise das Matérias-Primas Minerais e os Desafios Europeus A Europa enfrenta uma dependência significativa de matérias-primas críticas, muitas das quais são essenciais para sectores estratégicos como o da transição energética, manufatura avançada, mobilidade eléctrica e indústria digital. Elementos como o lítio, o cobalto, as terras raras, o níquel e o grafite são hoje considerados fundamentais para a produção de baterias, painéis solares, turbinas eólicas e outros equipamentos essenciais à descarbonização da economia.

No entanto, a sua disponibilidade é limitada e, muitas vezes, concentrada em países terceiros, criando vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento europeias. A lista de matérias-primas críticas da União Europeia, atualizada periodicamente, reflete esta preocupação, reforçando a necessidade de investir na exploração responsável, na valorização de subprodutos, e sobretudo, na reciclagem e recuperação de materiais contidos em resíduos. Paralelamente, mesmo os recursos minerais tradicionais, como as areias, os caulinos, os feldspatos e outros minerais industriais usados na cerâmica, no vidro ou na construção, têm vindo a escassear, devido à crescente pressão urbanística, à concorrência por usos do solo, obtenção de novas licenças e às restrições ambientais.

Equipamentos Modulares e Móveis: Tecnologia ao Serviço da Sustentabilidade Neste contexto, os equipamentos móveis e modulares destacam-se como ferramentas cruciais para mitigar os riscos associados à escassez de recursos. A sua mobilidade permite uma abordagem descentralizada à exploração e à recuperação de matérias-primas, abrindo novas possibilidades em locais anteriormente considerados inviáveis, tais como pequenas pedreiras, áreas urbanas, obras temporárias, minas abandonadas ou sítios de demolição.

Flexibilidade e Mobilidade: Adaptar-se ao Recurso, e Não o Inverso Ao contrário das infraestruturas fixas, que requerem grandes obras de engenharia e compromissos de longa duração com o território, os equipamentos modulares são instalados com intervenção mínima no solo, podendo ser transportados com facilidade entre projetos. Esta versatilidade permite um aproveitamento mais eficiente de depósitos minerais de pequena dimensão ou de materiais secundários dispersos, os quais, de outro modo, seriam economicamente inviáveis.

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Tal abordagem favorece a valorização in situ de recursos como as areias manufaturadas, provenientes da trituração de resíduos da construção ou da britagem de rochas, reduzindo a necessidade de extração de areias fluviais — um recurso cada vez mais escasso e ambientalmente sensível. Da mesma forma, permite processar resíduos da indústria cerâmica, do vidro, da pedra natural ou da demolição, convertendo-os em agregados reciclados ou matérias-primas secundárias.

Equipamentos Modulares e Móveis: Características e Vantagens Os equipamentos móveis e modulares distinguem-se pelas seguintes características: • Instalação rápida e com intervenção mínima no solo; • Fácil transporte entre obras, minas ou projetos; • Autonomia operacional com sistemas eléctricos ou híbridos; • Integração com unidades de britagem, lavagem, classificação e concentração As principais vantagens operacionais incluem: • Redução de custos de transporte de materiais; • Menor impacto ambiental e facilidade de licenciamento; • Optimização do uso de recursos locais; • Aplicação em locais remotos ou de difícil acesso; • Reutilização de água e eficiência energética.

Contribuição para a Economia Circular A economia circular exige soluções tecnológicas que permitam separar, limpar, classificar e valorizar os materiais em fim de vida. Os equipamentos móveis são cruciais neste processo, ao viabilizarem unidades de lavagem, separação granulométrica, separação densimétrica, concentração mineral e britagem secundária, todas passíveis de serem instaladas de forma autónoma em diferentes locais. A capacidade de realizar estas operações junto à fonte do resíduo reduz significativamente os custos logísticos e as emissões associadas ao transporte de resíduos ou minérios. Isto representa uma redução efetiva do impacto ambiental, uma vez que se evita a duplica-

ção de deslocações e se minimiza a pegada de carbono da operação global.

Eficiência na Produção de Matérias-Primas Secundárias e Críticas O reaproveitamento de resíduos industriais ou de construção não serve apenas para substituição de agregados comuns. Com o avanço da tecnologia de separação e concentração mineral, torna-se possível recuperar elementos metálicos valiosos, óxidos industriais e até matérias-primas críticas em concentrações economicamente relevantes. Estas práticas não substituem, mas complementam a mineração primária, oferecendo uma segunda fonte de abastecimento para as cadeias produtivas. É particularmente relevante em países como Portugal, que, embora tenham potencial geológico, enfrentam restrições ambientais e sociais à abertura de novas minas. Ao permitir a exploração urbana (urban mining) e a recuperação de minérios de baixos teores, os equipamentos móveis tornam-se veículos de acesso a recursos não convencionais.

Optimização de Recursos Hídricos e Energéticos Outro ponto crucial é a reutilização da água nos processos produtivos. Os sistemas modernos de lavagem mineral permitem o fecho do circuito hídrico, reduzindo o consumo de água doce e minimizando a geração de efluentes. Esta eficiência é particularmente importante em regiões com stress hídrico ou em operações temporárias onde não é possível garantir abastecimento contínuo. Além disso, os equipamentos modulares são geralmente mais eficientes em termos energéticos, com motores eléctricos ou híbridos, podendo funcionar com recurso a fontes renováveis, o que os torna alinhados com os objetivos de descarbonização industrial.

Integração com Tecnologias de Ponta Os equipamentos modulares e móveis são hoje concebidos para responder não apenas a operações convencionais, mas também para a

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produção de matérias-primas críticas para sectores de alta tecnologia. A capacidade de efetuar a concentração de minerais como quartzo de alta pureza, feldspatos especiais, lítio, entre outros, através de processos modulares e móveis, permite que pequenas operações participem nas cadeias de valor da indústria eléctrica, solar e automóvel. Esta capacidade de integração com cadeias de produção sofisticadas e exigentes aumenta o valor económico dos recursos extraídos ou reciclados, prolongando a sua vida útil e reduzindo a pressão sobre novas explorações mineiras.

Um Novo Paradigma para a Indústria dos Minerais e Resíduos A adoção generalizada de equipamentos modulares e móveis está a transformar a forma como se entende a mineração, a reciclagem e a valorização de resíduos. Já não se trata apenas de extrair ou eliminar — trata-se de gerir recursos com inteligência, versatilidade e responsabilidade ambiental. A tecnologia ao serviço da sustentabilidade permite hoje: • Recolher e valorizar resíduos no local onde são gerados; • Estender a vida útil dos recursos minerais com processos de beneficiação mais eficientes; • Substituir matérias-primas virgens por alternativas recicladas com desempenho técnico equivalente; • Reduzir o consumo de cimento através da optimização das formulações de betão com areias recicladas; • Criar ambientes livres de resíduos, com integração total dos subprodutos no ciclo produtivo; • Atuar com rapidez em projetos temporários, com mínima burocracia e sem ferir o equilíbrio ecológico do território.

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Enquadramento Legal e Comparação com Práticas Europeias Portugal tem vindo a adaptar-se às exigências da economia circular, embora o enquadramento legal para a reciclagem de resíduos e utilização de matérias-primas secundárias ainda exija maior celeridade e uniformização. Em vários países europeus, já se verifica uma integração plena de resíduos como recurso industrial, sendo atribuídas licenças simplificadas para operações móveis de reciclagem. O investimento em tecnologia modular e móvel poderá impulsionar Portugal a acompanhar a vanguarda europeia, promovendo práticas mais sustentáveis e eficientes no sector mineral e da construção.

Conclusão: Equipamentos Modulares e Móveis como Pilar da Resiliência e da Transição Ecológica Num mundo que enfrenta simultaneamente os desafios da escassez de recursos, da transição energética e da crise ambiental, as indústrias dos minerais e materiais devem reinventar-se com base na inovação tecnológica, na versatilidade operacional e na eficiência ambiental. Os equipamentos modulares e móveis surgem como um verdadeiro pilar dessa transformação, permitindo às empresas adaptarem-se às exigências atuais sem comprometer o futuro. Ao facilitar a valorização de resíduos, a recuperação de matérias-primas críticas, a redução e otimização do consumo de recursos virgens e a diminuição da pegada ecológica das operações, estes equipamentos posicionam-se como elementos fundamentais de um modelo industrial mais circular, resiliente e sustentável.


Sustentabilidade Promovemos práticas que respeitam o meio ambiente e garantem o equilíbrio entre exploração e preservação

Inovação Impulsionamos a inovação em toda a cadeia de valor e numa ótica de colaboração

Competitividade Fortalecemos a competitividade do setor através da inovação e do desenvolvimento de parcerias estratégicas


Reciclagem de Rejeitados de Espodumena na Produção de Porcelana de Alta Alumina Patrick N. Lemougna, Nahal Abie, Arnold Ismailov, Erkki Levanen, Pekka Tanskanen, Katja Kilpimaa, Mirja Illikainen, Priyadharshini Perumal Universidade de Oulu, Finlândia

Resumo

Introdução

A concentração de espodumena a partir de minério de pegmatito de lítio gera grandes quantidades de resíduos que necessitam de ser reciclados por questões de sustentabilidade e economia circular. Este estudo investigou a preparação de porcelana de alta alumina usando esses rejeitos, conhecidos como silte de quartzo feldspato (QFS). A composição teórica foi de 60,51% Al2O3, 34,34% SiO2, 2,98% K2O, 0,66% Na2O e 0,33% CaO. Uma composição de referência sem QFS também foi preparada. Ambas as composições foram tratadas termicamente a 1200, 1300 e 1400ºC. As amostras foram analisadas por várias técnicas, incluindo difração de raios X, SEM-EDS, TG/DSC, resistência à compressão e flexão, absorção de água, densidade aparente e dilatometria. Os resultados mostraram que corundum e mulita foram as principais fases cristalinas formadas em alta temperatura, além de alguma fase vítrea amorfa. A resistência à compressão e à flexão variaram de 25-60 MPa e 6-10 MPa, respetivamente. A moagem do QFS favoreceu a densificação da fase, induzindo maior retração de sinterização. Todas as amostras foram estabilizadas após o primeiro ciclo de aquecimento e apresentaram menos de 1% de mudança dimensional durante o segundo ciclo de aquecimento a 1400ºC. Os resultados da amostra de referência e das amostras feitas com 26,4% em peso de QFS foram comparáveis, indicando o potencial para reciclar rejeitos de espodumena como substituto de feldspato na produção de cerâmicas à base de corundum-mulita para aplicações de alta temperatura.

Os metais, especialmente o lítio, são essenciais para tecnologias de armazenamento de energia e a transição para fontes de energia verde. No entanto, a extração de metais gera grandes quantidades de rejeitos de mineração. A produção global de rejeitos de mineração é estimada em cerca de 14 biliões de toneladas, causando riscos ambientais e custos elevados de manutenção. A espodumena, usada para extrair lítio, contém apenas 6 a 7,5% de LiO2, gerando grandes quantidades de rejeitos durante o processo de flotação. A reciclagem desses rejeitos em materiais de valor agregado é um desafio global. Este estudo investiga a reciclagem de rejeitos de espodumena na produção de porcelana de alta alumina, contribuindo para a economia circular e a sustentabilidade.

Materiais e Métodos Os materiais utilizados incluíram alumina, rejeitos de espodumena, quartzo comercial, caulino e feldspato. A composição química dos materiais de partida é apresentada na Tabela 1. Na preparação das amostras, QFS, caulino e alumina foram usados para formular a composição de porcelana de alta alumina (HAP). A composição de referência (R-HAP) foi preparada a partir de quartzo comercial, feldspato, caulino e alumina. Para as composições tratadas a 1400ºC, uma delas foi baseada em QFS moído (F-HAP) para investigar o efeito da moagem no comportamento de sinterização. A moagem foi realizada por 2 horas em um moinho de bolas. Informações detalhadas sobre o design da mistura e as composições químicas são apresentadas nas

Palavras-chave: Porcelana de alta alumina; Rejeitos de espodumena; Alta temperatura; Reciclagem; Sustentabilidade; Economia circular Tabela 1 – Composição química dos materiais de base.

Samples

SiO2

Al2O3

Fe2O3

CaO

Na2O

K2O

TiO2

MgO

MnO

P2O5

SO3

LOI

QFS

77.59

13.48

0.24

0.29

4.73

3.36

0

0

0

0.13

0

0.05

Kaolin

55.17

41.09

0.80

0.05

0.25

1.80

0.02

0.29

0

0.13

0.05

12.43

Alumina

0.01

99.49

0

0

0.20

0

0

0

0

0

0

1.8

Quartz

98.82

0.75

0

0

0.15

0.14

0

0

0

0

0

0.11

Feldspar

67.33

18.52

0.17

0.71

5.90

6.84

0

0

0

0

0

0.09

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Tabela 2 – Misturas usadas nos testes.

Amostra HAP

QFS (g)

Caulino (g)

Alumina (g)

Quartzo (g)

Feldspato (g)

Água (g)

Temperatura (°C)

26.4

26.4

47.2

---

---

35

1200, 1300, 1400

26.4

47.2

---

---

35

1400

26.4

47.2

7.3

18.7

35

1200, 1300, 1400

26.4

F-HAP

(moído)

R-HAP

---

Tabela 3 – Composição química das misturas usadas nos testes.

Amostras

SiO2

Al2O3

Fe2O3

CaO

Na2O

K2O

TiO2

HAP/F-HAP

35.04

61.36

R-HAP

34.36

61.27

0.27

0.08

1.30

1.36

-

0.24

0.14

1.25

1.75

-

Referência (Oberžan et al., 2009)

34.34

60.51

0.33

0.23

0.66

2.98

0.2

Figura 3 - Distribuições de tamanho de partículas de alumina, caulino, QFS, QFS moído, quartzo e feldspato.

Figura 1 - Fotografia das matérias-primas

Figura 2 - Aspeto visual das amostras preparadas antes e depois do tratamento térmico à temperatura indicada.

Tabelas 2 e 3, e respetivo aspeto nas Figuras 1 e 2. A distribuição granulométrica da matéria-prima é apresentada na Figura 3.

Figura 4 - (a) Padrões de DRX das composições preparadas sinterizadas às temperaturas indicadas, (b) Análise quantitativa de raios X de espécimes tratados a 1200ºC e 1400ºC.

Resultados e Discussões

5). A resistência à flexão variou de 6 MPa a 10 MPa (Figura 6). A densidade aparente e a absorção de água variaram de 1,5 a 2,1 g/cm3

Os resultados mostraram que corundum e mulita foram as principais fases cristalinas formadas em alta temperatura, além de alguma fase vítrea amorfa (Figura 4). A resistência à compressão variou de 25 MPa a 60 MPa, aumentando com a temperatura de sinterização (Figura

e de 8 a 22%, respetivamente. À medida que a temperatura de sinterização aumenta, a absorção de água é reduzida e a densidade aparente aumenta. A análise de difração de raios X mostrou que as formulações tratadas termicamente eram compostas principalmente de corundum, mulita e quartzo. A análise SEM-EDS revelou uma

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densidade aparente variaram de 8-22% e 1,5 a 2,1 g/cm3, enquanto a resistência à compressão e à flexão variaram de 25-60 MPa e 6-10 MPa. O comportamento do QFS foi influenciado pela sua distribuição de tamanho de partículas, partículas mais finas obtidas após a moagem favorecendo maior resistência, maior retração de queima e formação de vidro, maior densidade e menor absorção de água após sinterização a 1400 ˚C. A análise de dilatometria mostrou que as amostras foram relativamente estabilizadas após o primeiro ciclo de aquecimento a 1400ºC, com menos de 1% de mudança dimensional durante o segundo ciclo de aquecimento a 1400ºC, indicando o potencial de adequação dos materiais preparados para aplicação em alta temperatura. Figura 5 - Resistência à compressão das amostras cerâmicas.

Os resultados da amostra de referência e das amostras contendo 26,4% em peso de QFS foram comparáveis, indicando o potencial para reciclar rejeitos de espodumena como substituto de feldspato na formulação de composições de porcelana de alta alumina para possível aplicação em alta temperatura.

Agradecimentos Este trabalho foi realizado no âmbito do projeto EXCEED 101091543 e do projeto “SecRes”, apoiado pelo projeto Business Finland Co-Innovation, 5040/31/2022. Parte do trabalho foi realizada com o apoio do Centro de Análise de Materiais, Universidade de Oulu, Finlândia.

Figura 6 - Resistência à flexão das amostras cerâmicas.

microestrutura mais densificada com o aumento da temperatura de sinterização. A análise de dilatometria mostrou que as amostras eram relativamente estáveis até cerca de 1050ºC antes de começarem a encolher. Todas as amostras continuaram a encolher após 1050ºC até 1400ºC, alcançando cerca de 13% de encolhimento para F-HAP, 10% para R-HAP e 8,5% para HAP.

Conclusões Este estudo investigou a preparação de porcelana de alta alumina incorporando rejeitos de espodumena como substituto de feldspato comercial. A composição teórica foi feita em peso de 60,51% Al2O3, 34,34% SiO2, 2,98% K2O, 0,66% Na2O e 0,33% CaO. Ambas as composições foram tratadas termicamente a 1200, 1300 e 1400ºC. Os resultados mostraram que corundum e mulita foram as principais fases cristalinas observadas em alta temperatura, além de uma quantidade substancial de fase vítrea amorfa. A presença de quartzo residual não dissolvido também foi observada, diminuindo com o aumento da temperatura de sinterização. A absorção de água e a

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This work has received funding from the European Union's EU Framework Program for Research and Innovation Horizon 2020 Grant Agreement No. 101091543 (EXCEED).


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Matérias-primas minerais e as grandes obras públicas em Portugal (2025 – 2035) António Ferreira da Silva 1 , Luís Faria Lopes 2

1C e n t r o T e c n o l ó g i c o d a C e r â m i c a e d o V i d r o , C o i m b r a ; 2A l d e i a & L o p e s G r o u p , S . A .

Introdução

Matérias-primas minerais para a construção

A próxima década representa um ciclo de transformação profunda das infraestruturas nacionais, impulsionado por um contexto singular: a disponibilidade de financiamento europeu através do Plano de Recuperação e Resiliência – PRR, do Portugal 2030 e de outros instrumentos financeiros comunitários.

No contexto nacional, as areias e as argilas comuns, os agregados, assim como o cimento, constituem a base de qualquer obra de construção, pelo que, por exemplo, se estimam grandes volumes destas matérias-primas minerais para alimentar cada quilómetro de ferrovia de alta velocidade, i.e., cerca de 30.000 toneladas, podendo atingir 5.000 toneladas de brita e balastro e 25.000 toneladas de betão. Para obras de grande porte, como pontes, túneis, barragens ou extensas plataformas logísticas, esses valores aumentam expressivamente.

Neste cenário, Portugal planeia investir centenas de milhões de euros em grandes obras públicas de natureza ferroviária, rodoviária e aeroportuária, assim como em barragens para armazenamento hídrico e energético e também em infraestruturas urbanas. A execução destas obras na próxima década coloca pressão significativa sobre a indústria da construção civil e obras públicas e, consequentemente, das inerentes atividades mineiras e transformadoras a montante. Entre os principais projetos, destacam-se a nova linha ferroviária de alta velocidade Porto-Lisboa, o novo aeroporto Luís de Camões e a expansão do aeroporto Humberto Delgado, assim como a terceira travessia do rio Tejo, amplos investimentos em barragens, redes de saneamento, habitação pública, infraestruturas logísticas e o reforço da rede elétrica e de gasodutos. Contudo, sem uma estratégia coerente para assegurar os recursos minerais imprescindíveis, existe o sério risco de incumprimento de calendários e cadernos de encargos, levando ao aumento notável de custos e da normal e já recorrente perda de competitividade do país face aos congéneres integrantes da União Europeia. Portugal deve assumir um papel ativo e relevante na prossecução dos objetivos comuns da União Europeia no âmbito do pacto ecológico europeu e da autonomia estratégica da Europa. Portanto, é certo que o sucesso na execução das grandes obras públicas nacionais será também uma contribuição decisiva para a coesão europeia e para o reforço do mercado interno, nomeadamente no que toca à mobilidade sustentável transfronteiriça e às redes de energia interligadas.

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Para um aeroporto de raiz, devem ser considerados, no mínimo, entre 5 e 10 milhões de toneladas de materiais, nos quais se incluem os vidros em fachadas e coberturas, os cerâmicos e a pedra natural noutros revestimentos e pavimentos, assim como todas as areias, os agregados e o cimento para produção do betão que é necessário para os edifícios e pistas. Na próxima década, em termos nacionais, a procura poderá ultrapassar, por vários anos consecutivos, os 100 milhões de toneladas de agregados e os 40 milhões de toneladas de cimento. Estes números implicam um aumento substancial da capacidade produtiva atual do país, hoje adaptada a um mercado de menor dimensão e ritmo. Em Portugal Continental, existem centenas de pedreiras licenciadas para extração de massas minerais com as tipologias industrial, ornamental e mistas (areias e argilas comuns, pedra natural e de agregados e minerais industriais de várias naturezas). No entanto, a sua produção tem-se mantido estável (ou até decrescente na última década), refletindo a reduzida procura após a crise do setor da construção entre 2011 e 2015. Atualmente, a procura já está em máximos históricos que tem vindo a ser estrangulada por um conjunto complexo de obstáculos, tais como os constrangimentos regulatórios em termos ambientais para licenciar novas explorações, na medida em que se encontram em zonas incompatíveis com instrumentos de gestão territorial – IGTs e onde a logística de transporte de matérias-primas / materiais de construção é dispendiosa e ambientalmente impactante a partir de determinadas médias-longas distâncias.


Constrangimentos de ordenamento do território Um dos principais bloqueios à expansão da capacidade extrativa em Portugal reside na incompatibilidade entre as áreas com efetivo potencial geológico / extrativo e os vários IGTs (PDMs, PROTs, REN/RAN, entre outros). Em muitos casos, os PDMs estão desatualizados e não refletem a necessidade urgente de recursos minerais para eficazmente alimentar várias fileiras industriais. O regular licenciamento ou ampliação de pedreiras e de areeiros é usualmente impedido por condicionantes territoriais que não consideram o vasto e cada vez mais emergente interesse público, ou seja, existe uma clara fragmentação na gestão dos recursos minerais ao nível municipal, regional e nacional, dificultando uma abordagem coordenada aos desafios emergentes relacionados com a elevada procura e constante redução da oferta. Muitos dos territórios com maior potencial localizam-se em zonas classificadas ou com sobreposição de valores ecológicos, paisagísticos ou culturais e daí ser indispensável promover uma revisão integrada dos IGTs que reconheça a importância estratégica dos recursos minerais e permita compatibilizar interesses legítimos dos agentes económicos e das demais partes interessadas através de diferentes mecanismos de compensação, mitigação e reabilitação ambiental.

A urgência da reindustrialização de Portugal A execução de grandes obras públicas num horizonte de elevada exigência temporal e técnica deve ser encarada não apenas como uma oportunidade de modernização das infraestruturas, mas também como uma alavanca crítica para a reindustrialização de Portugal. O país, à semelhança de muitos outros na Europa, assistiu nas últimas décadas a uma forte deslocalização ou terceirização das suas capacidades produtivas, levando a uma clara perda de competitividade industrial e económica.

Atualmente, a dependência externa de maquinaria pesada, aço estrutural ou sistemas ferroviários sofisticados representa um sério risco geoestratégico. Num contexto global marcado por crescentes tensões comerciais e logísticas, fortes flutuações de preços e a escassez de um largo espectro de matérias-primas minerais, garantir uma base industrial nacional robusta e alicerçada por um setor primário eficiente e sustentável, tornou-se uma prioridade incontornável. Adicionalmente, a revitalização da indústria associada às grandes obras públicas nacionais poderá passar pela reativação de fábricas inativas ou mesmo pela criação de novos polos/clusters industriais ligados à economia verde, para produção de componentes associados à mobilidade elétrica, infraestruturas de energia eólica ou tecnologias de tratamento de água. Portugal deve aproveitar este momento como uma janela estratégica para reforçar a sua posição no espaço económico europeu. Mais do que uma questão de natureza económica, a reindustrialização de Portugal é uma resposta decisiva rumo à sua superior autonomia, resiliência e criação de mais e melhor emprego qualificado em setores de alto valor acrescentado. As grandes obras públicas acima elencadas, entre outras a considerar no futuro, ao gerarem uma procura sustentada e previsível, criam o ambiente ideal para o relançamento industrial do país.

Riscos associados à escassez de areias, argilas, agregados e cimento A escassez dos recursos minerais para a construção civil e obras públicas poderá provocar atrasos nas empreitadas devido a falhas no seu fornecimento, o que obrigará à reprogramação de fases críticas como fundações, pavimentações e estruturas. Além disso, o transporte dos recursos para locais cada vez mais distantes, pode

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aumentar em 30 a 50% o custo por tonelada, pressionando orçamentos e comprometendo a viabilidade económica dos projetos. Existe também o risco de aumento de explorações ilegais (ou parcamente fiscalizadas), com impactes negativos no ambiente e na segurança laboral, eventualmente geradores de conflitos com comunidades locais e até mesmo a quebra de contratos internacionais.

Propostas de intervenção a curto-prazo É fundamental estabelecerem-se vias rápidas de licenciamento industrial e ambiental com redução de prazos para pareceres (e eventual aprovação automática após um determinado tempo decorrido). Adicionalmente, devem ser promovidas políticas de desburocratização transversal que incluam o licenciamento por comunicação prévia em obras de interesse público, a criação de balcões únicos para acompanhamento de grandes empreitadas, a reforma dos IGTs para compatibilizar a indústria extrativa com projetos de interesse nacional e a digitalização de procedimentos com interoperabilidade entre plataformas das entidades envolvidas. Do ponto de vista logístico, é essencial criar corredores especiais para o transporte de materiais, apoiar o transporte ferroviário e fluvial e organizar hubs logísticos regionais. Também se deverá promover a utilização de matérias-primas secundárias e/ou recicladas com integração obrigatória de percentagens mínimas em determinadas situações específicas/obras públicas.

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Considerações finais A próxima década será marcada por uma corrida à execução de grandes obras públicas e vários tipos de infraestruturas urbanas com prazos rigorosos e exigências técnicas e logísticas. A disponibilidade e acessibilidade aos locais de potencial extração, beneficiação e blending de areias, argilas, agregados e de outros minerais industriais, será uma das principais condicionantes do sucesso. Com efeito, é indispensável que Portugal antecipe a pressão sobre o seu setor extrativo e transformador, promovendo a modernização e a simplificação administrativa, garantindo assim uma resposta sustentável, eficiente e integrada a este desafio nacional. Salienta-se ainda que a reformulação das estratégias de ordenamento do território é absolutamente essencial para melhor desbloquear o potencial mineiro de Portugal e garantir a execução atempada das infraestruturas prioritárias para a próxima década. O sucesso da década de 2025-2035 dependerá, em larga medida, da capacidade de mobilizar, em tempo útil, os recursos materiais, humanos e administrativos necessários. Não se trata apenas de um desafio logístico, mas de uma verdadeira prova de planeamento e de manifestação de uma visão estratégica para Portugal e para o seu contributo enquanto Estado-Membro empenhado na construção de uma Europa mais forte, resiliente e autónoma, sobretudo considerando todo o contexto Geopolítico “turbulento” que se antevê para os próximos anos.


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O Grupo MCS® é constituído por um conjunto de empresas que operam na área mineira da extração e processamento de matérias-primas cerâmicas multiminerais. Oferecendo mais do que matérias-primas e pastas cerâmicas, o Grupo MCS® está comprometido com os princípios de extração responsável e sustentável, fornecendo “Minerais para a Vida”. O nosso sucesso é construído com base na inovação, I&D e parcerias colaborativas para superar os desafios do setor.

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