LESBOCENSO: Mapeamento de Lésbicas e Sapatonas do Distrito Federal
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LESBOCENSO: Mapeamento de Lésbicas e Sapatonas do Distrito Federal
2020 Projeto SAPATÃO VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ Edital - Fale Sem Medo
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Realização:
Apoio:
LesboCenso - Mapeamento de Lésbicas e Sapatonas do Distrito Federal Uma publicação Coturno de Vênus - Associação Lésbica Feminista de Brasília v. 1, n.1, 2020. Equipe: Iariadney Alves da Silva - Elaboração dos textos e Análise dos dados Lélia de Castro Gramignolli - Elaboração dos textos e Análise dos dados Melissa de Oliveira Navarro Barreto - Elaboração dos textos e Análise dos dados Mariana Meriqui Rodrigues - Elaboração dos textos, Análise dos dados e Revisão técnica Raíssa Vieira de Melo - Análise dos dados e Elaboração de gráficos Raquel Mesquita - Análise dos dados e Elaboração de gráficos Ana Cláudia Beserra Macedo - Elaboração dos textos e Análise dos dados Laurianne de Miranda Gomes - Administração Financeira do projeto Fernanda Nunes A. Fonseca - Tabulação dos dados para o Encontro Lesbopolitizar Mayra Ferreira de Souza - Diagramação Brasília, agosto de 2020
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SUMÁRIO
1. A Coturno de Vênus 2. Contextualização do Distrito Federal e Entorno 3. O LesboCenso 4. Encontros Lesbopolitizar 5. Análise dos dados: Eixo Autoidentificação Eixo Educação Eixo Saúde Eixo Trabalho e Renda Eixo Violência 6. Considerações Provisórias
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8 9 10 12 14 17 18 19 21 22
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1. A Coturno de Vênus A Coturno de Vênus é uma associação lesbofeminista, antirracista, antiLGBTIfóbica e anticapacitista do Distrito Federal. Fundada em 2005, ano que o Brasil experimentou um momento de conquista e avanços políticos devido à eleição do ex-presidente Lula, possibilitando a existência de maiores espaços de articulação política de movimentos sociais com alguns espaços institucionais, como Movimentos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans (LGBT) . No entanto, muitas violências LGBTfóbicas continuaram a existir, fazendo com que muitas organizações começassem a se institucionalizar na luta contra a violência LGBT. Neste contexto, a Coturno de Vênus surge como uma organização lésbica, antirracista e feminista com a missão de promover os direitos humanos - sexuais, reprodutivos, ambientais, sociais, econômicos e culturais – para as lésbicas; enfrentar a discriminação por orientação afetivo-sexual, raça/etnia, gênero, corporalidade, posições político-sociais e/ou geracionais; e incentivar a visibilidade e o protagonismo lesbiano.
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Em 2009 é inaugurado um espaço físico na cidade de Guará, Brasília -DF, a Casa Roxa, sendo o primeiro Centro de Referência LGBTI do Distrito Federal para o combate à lesbofobia e outras violências domésticas e intrafamiliares. Foi espaço para diversas atividades como as Ações Lésbicas - para celebrar o mês da visibilidade lésbica - workshops, cine-debate, grupos de estudo e ações ocasionais de caráter de intervenção. Portanto, a Coturno de Vênus desde a sua fundação surge como uma organização de intervenção social com princípios que convergem com políticas de direitos humanos que foram alcançadas e implementadas no Brasil. No mesmo ano, a sede da Coturno de Vênus também atuou como suporte para o enfrentamento de violências tipificadas pela Lei Maria da Penha, primeira lei brasileira a falar sobre lesbofobia e outras violências domésticas e intrafamiliares. A Coturno de Vênus esteve presente nas Conferências Nacionais sobre Políticas Públicas de Direitos Humanos LGBT, Conferências
como o Conselho Distrital de Direitos da Mulher e, assim, realizando controle social de políticas públicas. No ano de 2016 a Coturno se reestrutura em um contexto de golpe à democracia em que estão ameaçados esses direitos duramente conquistados. Com essa conjuntura política, nos encontramos diante de desafios em que o avanço dos conservadorismos e fundamentalismos políticos e religiosos que ameaçam a nossa existência lésbica. Nossa luta coletiva se pauta na construção de uma sociedade radicalmente baseada pelo afeto e solidariedade entre mulheres.
A Coturno de Vênus é a primeira Associação Lésbica Feminista do Distrito Federal.
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2. Contextualização do DF e Entorno O Distrito Federal é um quadrilátero que está situado na região Centro Oeste do território brasileiro. É a única unidade federativa que não é composta por municípios e sim por 33 Regiões Administrativas (RA), dentre elas a capital Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960. Temos diversas regiões administrativas mais antigas que Brasília. Planaltina, a mais antiga RA do Distrito Federal, completou 161 anos, assim como outras RA’s, foi fundamental para o desenvolvimento do DF e para a construção da Capital do país. O Distrito Federal é multicultural por acolher pessoas vindas de diversas regiões do Brasil, o que nos faz ter uma grande diversidade cultural dentro da área geográfica do DF.
O Entorno é composto por 14 cidades que circundam o DF, sendo elas: Novo Gama, Águas Lindas de Goiás, Alexânia, Cidade Ocidental, Cocalzinho de Goiás, Cristalina, Formosa, Luziânia, Padre Bernardo, Santo Antônio do Descoberto e Valparaíso de Goiás. A proposta do LesboCenso objetivou fazer o mapeamento das lésbicas e sapatonas do Distrito Federal e Entorno, visto que as residentes destas regiões nomeadas de entorno, acessam e são atendidas por serviços públicos referenciados no Distrito Federal. Porém o número de respostas de lésbicas e sapatonas do entorno foram insuficientes para amostra substancial.
PLANALTINA FORMOSA 31
26 4 6
5 1
23 18
ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS 3
9 32
30
33 17 15
28
BRASÍLIA 11 22
10
20
12
29
25
19 8
21
16 27
24
7 14
13
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NOVO GAMA
Mapa 1. Fonte: LesboCenso, 2020 DATUM: SIRGAS 2000
VALPARAÍSO DE GOIÁS 1 2 3 4 5 6 7
8
Plano Piloto Gama Taguatinga Brazlândia Sobradinho Planaltina Paranoá
8 9 10 11 12 13 14
Núcleo Bandeirante Ceilândia Guará Cruzeiro Samambaia Santa Maria São Sebastião
15 16 17 18 19 20 21
Recanto das Emas Lago Sul Riacho Fundo Lago Norte Candangolândia Águas Claras Riacho Fundo II
22 23 24 25 26 27 28
Sudoeste/Octogonal Varjão Park Way SCIA/Estrutural Sobradinho II Jardim Botânico Itapoã
SIA Vicente Pires 31 Fercal 32 Sol Nascente/Pôr do Sol 33 Arniqueira
29 30
3. O LesboCenso O LesboCenso teve como objetivo identificar e mapear lésbicas e sapatonas de diferentes gerações, raças e etnias, corporalidades, classe sociais, com intuito de promover a elaboração de dados sobre quem somos, onde estamos, quais são nossos potenciais e capacidades para possíveis pontos de vinculação entre as nossas diferenças. Este mapeamento também buscou oportunizar a formação de redes entre nós demograficamente, informações para fortalecer identidades coletivas sapatônicas, em contraposição às opressões lesbofóbicas que esses espaços nos impõem no cotidiano, especialmente em um contexto de avanços dos fundamentalismos e conservadorismos, no qual a nossa existência em si já é uma resistência. O levantamento censitário da população lésbica e sapatona e a presença de indicadores de orientação sexual nos registros administrativos é uma responsabilidade do Estado. Contudo, reconhecendo a lesbofobia estrutural e institucional, sabemos que é urgente a produção de dados sobre nós, inclusive para reivindicação de elaboração de legislação e de políticas públicas.
dados coletados, mesmo sendo um formulário no qual as pessoas não precisavam se identificar. Os números de respostas que obtivemos ainda não refletem a população lésbica e sapatona do DF e Entorno em termos absolutos, mas permitem uma amostragem da realidade. Reunimos dados como faixa etária, raça/etnia, emprego, religião, grau de instrução, acesso à saúde e índices de violência. Diferente de censos e pesquisas realizadas por órgãos e institutos de pesquisas especializados, a aplicação foi executada de modo colaborativo com outras coletivas lésbicas locais, buscando contribuir para a facilitação de redes e para subsidiar a reivindicação de políticas públicas para lésbicas e sapatonas. Algumas etapas da realização deste projeto de identificação e mapeamento foram estabelecidas coletivamente e com participação de lésbicas e sapatonas com diferentes vivências, olhares e capacidades de contribuição. Desta feita, observamos a importância da parceria entre Estado e Movimento Social para a elaboração de dados e desenvolvimento de políticas públicas efetivas.
Metodologia O LesboCenso consiste em um formulário que foi disponibilizado virtualmente durante o período de um ano nas redes sociais Instagram e Facebook da Coturno de Vênus. Este período longo de coleta de dados se justifica pelo motivo de segurança em relação aos
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4. Encontros Lesbopolitizar A metodologia de elaboração do questionário contou com a realização de dois encontros nomeados de “Lesbopolitizar” com intuito de produzir acúmulo político e teórico para a elaboração e avaliação prévia do formulário. Ambos os encontros foram abertos e ocorreram no Distrito Federal. O primeiro foi em 2018, em um local central para acolher, durante um final de semana, ativistas lésbicas e sapatonas de diversas regiões administrativas para elaborar o questionário de mapeamento. Foi um dia de atividades, que envolveram: rodas de conversa, atividades musicais e organização do espaço de forma coletiva. A ampla articulação para essa reunião permitiu a elaboração e o reconhecimento enquanto lésbicas e sapatonas a partir de diferentes influências territoriais, para além das gerações, raças e etnias, corporalidades e classe sociais.
Lesbopolitizar – Encontro realizado em 21 de janeiro de 2018
Metodologia Com base nos critérios estabelecidos no primeiro encontro Lesbopolitizar, o grupo definido durante o evento trabalhou na elaboração do questionário, que foi disponibilizado posteriormente para consulta e validação das participantes do encontro por meio virtual. Também foram realizados diálogos e troca de experiências com parceiras de coletivas e organizações lésbicas e sapatonas de outros estados brasileiros e de outros países latino-americanos, para a maior quantidade de considerações sobre o questionário aplicado.
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Lesbopolitizar – Encontro realizado em 21 de janeiro de 2018
Diretoria da Coturno de Vênus
Apresentação do grupo de trabalho
Apresentação dos dados prévios do LesboCenso
Apresentação do grupo de trabalho
Parte das participantes do Encontro
O segundo encontro Lesbopolitizar aconteceu nos dias 30 de novembro e 01 de dezembro de 2019. Atividade de imersão de um dia e meio com rodas de conversa, grupo de trabalho e confraternização, além do local para dormir, alimentação e ajuda de custo para o transporte. O encontro teve como proposta debater os dados pré-sistematizados do LesboCenso ao longo de quase um ano, quando em setembro de 2019, alcançamos o número de 1.000 questionários respondidos. A apresentação dos dados prévios consolidados norteou o debate e de acordo com nossas realidades tão diversas, os cinco eixos foram definidos dada a importância de obtenção de dados sobre autoidentificação, educação, saúde, trabalho e o atravessamento das violências.
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5. Análise dos dados A estrutura final do questionário do LesboCenso contou com 19 seções com perguntas sobre autoidentificação, territorialidade, formação, ocupação, renda, violências, família, saúde, redes e contatos. Um ponto importante a ser destacado é que para este formulário não foram definidas variáveis fixas para auto identificação tanto para a parte de orientação sexual quanto para a parte de raça e etnia. Foi utilizada perspectiva
de autodeclaração, onde às pessoas que responderam o questionário puderam, a partir de próprio reconhecimento da sua identidade sexual e racial, declarar qual a nomenclatura que melhor lhe representa naquele momento. Entendemos os limites desta escolha, porém acreditamos nas possibilidades de ampliar o debate político sobre as identidades que a autodeclaração proporciona.
O questionário disponibilizado eletronicamente foi respondido por 1353 pessoas e destas, utilizamos 968 respostas. Consideramos para a análise dos dados apenas aquelas respostas de quem se autoidentificou enquanto lésbica, sapatona e suas variações, como por exemplo, homossexual feminina. Foram descartadas do conjunto de dados as respostas duplicadas, de lésbicas e sapatonas que não moram no DF/Entorno, bissexuais, homens trans ou demasiadamente vagas como por exemplo, respostas que se declararam como humana, pessoa, ou até mesmo o nome próprio. No que tange à localização e abrangência territorial do formulário, embora nossa pretensão fosse abarcar as lésbicas e sapatonas do entorno, a adesão foi de apenas 5% do entorno, sendo insuficientes para uma amostragem da realidade. Desta forma, focamos a análise nas respostas do Distrito Federal. Observamos que 25% das lésbicas e sapatonas que tiveram mais acesso ao questionário residem no Plano Piloto. As participações de lésbicas e sapatonas residentes em Guará, Taguatinga, Águas Claras, Samambaia e Ceilândia também foram expressivas, representando 33,16% das respostas.
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Quantas respondemos ao LesboCenso? Distrito Federal (924)
Entorno (44)
5%
95%
O LesboCenso abarcou participantes de 16 a 64 anos. O maior número de respondentes ficou na faixa etária entre 19 a 29 anos. O que coincide com a idade produtiva, no sentido de serem estudantes ou trabalhadoras. Considerando que a maioria das lésbicas e sapatonas que responderam são jovens, a ausência de representatividade em outras faixas etárias propõe uma reflexão sobre como e quais as condições que as lésbicas e sapatonas mais velhas estão inseridas nos diversos atravessamentos apresentados.
Gráfico 1 Fonte: LesboCenso, 2020
Densidade
0.06
0.04
0.02
0.00 20
30
40 Idade
50
60
Gráfico 2 Fonte: LesboCenso, 2020
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Eixo Autoidentificação Lésbica (576) Sapatão (290) Mulher Gay (53) Homossexual feminina (33)
Lésbica e/ou sapatão (8) Sapatona (6) Sapatã (1) Homossexual (1)
3%
30%
60% 5%
Como preferimos ser identificadas? No que se refere a como preferimos nos identificar, 60% das participantes preferem ser identificadas como Lésbicas e 30% como Sapatão, além de outras identificações de orientação afetivo sexuais, como homossexuais femininas e mulheres gays. As respostas provocam questionamentos sobre identidades elaboradas a partir de atravessamentos como raça, classe, territorialidade, geração e corporalidades, que problematizam como lésbicas e sapatonas elaboram suas identidades a partir da orientação afetivo sexual .
Gráfico 3 Fonte: LesboCenso, 2020
Participação no LesboCenso por raça/etnias Branca (556) Negra (243) Parda, Indígena, Amarela e outras (169)
18%
25%
57%
Gráfico 4 Fonte: LesboCenso, 2020
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Outro dado sobre autoidentificação é a participação no LesboCenso por raça/etnia. O maior número de respostas registrado é de lésbicas e sapatonas brancas, correspondendo a 57%, seguido de 25% de lésbicas e sapatonas negras. Ressaltamos que nessa porcentagem não estão incluídas as lésbicas e sapatonas pardas. Esse questionamento sobre autodeclaração foi debatido no primeiro Lesbopolitizar e definido como uma pergunta aberta a fim de provocar o debate sobre autodeclaração, para subsidiar projetos e ações voltados para a questão de identidade racial. Portanto, no gráfico o valor de 18% corresponde a lésbicas e sapatonas pardas, indígenas, amarelas e outras formas de autodeclaração. Observamos que as respostas enviadas foram outras identificações raciais para além das estipuladas pelo IBGE.
PLANALTINA
FORMOSA
ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS BRASÍLIA
NOVO GAMA
Percentual de negras na população lésbica (%)
VALPARAÍSO DE GOIÁS
-0.0 -0.2
Este mapa ilustra a correlação entre territórios e espaços geográficos em relação à raça/etnia. Os tons mais fortes de laranja se referem as lésbicas e sapatonas negras, as quais habitam principalmente regiões periféricas, enquanto lésbicas e sapatonas brancas se concentram principalmente nas regiões centrais do DF, como podemos observar no próximo gráfico.
NA
-0.4 -0.6 -0.8 - 1.0 Mapa 2. Fonte: LesboCenso, 2020
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PLANALTINA
FORMOSA
ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS BRASÍLIA
NOVO GAMA
Percentual de brancas na população lésbica (%)
VALPARAÍSO DE GOIÁS
-0.0 -0.2
Este mapa ilustra a correlação entre territórios e espaços geográficos em relação à raça/etnia. Os tons mais fortes de verde se referem as lésbicas e sapatonas brancas, as quais habitam principalmente regiões centrais, enquanto lésbicas e sapatonas negras e não-brancas se concentram principalmente nas regiões periféricas do DF.
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NA
-0.4 -0.6 -0.8 - 1.0 Mapa 3. Fonte: LesboCenso, 2020
Quão assumidas somos Assumidas em todos os lugares de convívio (644) Assumidas em alguns lugares de convívio (314) Não assumidas (10)
32%
67%
Gráfico 5 Fonte: LesboCenso, 2020
A categoria “assumida” apresentada neste gráfico, refere-se à possibilidade de expressar e de experienciar sua orientação sexual livremente em seus espaços de convívio. Observamos que 67% das lésbicas e sapatonas que são assumidas em todos os espaços de convívio, representam a maioria da região do Plano Piloto e 32% das lésbicas e sapatonas em alguns lugares de convívio são de outras regiões administrativas. Podemos deduzir que o espaço territorial do Plano Piloto possibilita que as mulheres que responderam o formulário sejam assumidas em seus espaços de convívio. Poucas lésbicas e sapatonas não assumidas responderam o formulário, o que demonstra uma lacuna de dados.
Eixo Educação Nossa escolaridade
Ensino Fundamental Completo (4) Ensino Médio Incompleto (38) Ensino Médio Completo (79) Ensino Superior Incompleto (309) Ensino Superior Completo (276) Nível Técnico (24) Especialização (135) Mestrado (78) Doutorado (25) 8%
3% 4%
8%
14% 32%
2%
29%
Gráfico 6 Fonte: LesboCenso, 2020
No que tange à educação, mais de 85% das lésbicas e sapatonas dentre negras e brancas que responderam o LesboCenso têm grau superior de escolarização em andamento, completo, especialização, mestrado e doutorado, o que nos leva a elaborar que o LesboCenso teve maior adesão de lésbicas e sapatonas universitárias. Quando cruzamos os dados sobre trabalho e escolaridade, constatamos que o desemprego entre lésbicas e sapatonas negras é de 66% enquanto o de lésbicas e sapatonas brancas é de 38%. Podemos observar de acordo com o dados que o desemprego não se refere necessariamente à falta de escolarização.
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Eixo Saúde PLANALTINA
FORMOSA
ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS BRASÍLIA
NOVO GAMA
Lésbicas que não possuem plano de saúde
VALPARAÍSO DE GOIÁS
-0.0 -0.2
NA
-0.4 -0.6
No eixo destinado à saúde, o mapa apresentado possibilita observar que a maioria das lésbicas e sapatonas que residem em outras regiões administrativas em relação ao Plano Piloto não possuem plano de saúde, apontando para maior acesso a estes serviços através do Sistema Único de Saúde SUS. Vale ressaltar que o cruzamento de dados aponta que as lésbicas e sapatonas brancas são as que compreendem essa maioria com acesso à rede privada de saúde. Entretanto podemos afirmar a partir de relatos feitos nos encontros do Lesbopolitizar, que a qualidade de acesso de atendimento tanto na rede pública quanto na privada é deficitária
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-0.8 - 1.0 Mapa 4. Fonte: LesboCenso, 2020
no que tange às especificidades das lésbicas e sapatonas nos atendimentos, em especial, nos procedimentos vinculados à saúde sexual e reprodutiva.
Eixo Trabalho e Renda PLANALTINA
FORMOSA
ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS BRASÍLIA
NOVO GAMA
Taxa de desemprego da população lésbica
-0.0 VALPARAÍSO DE GOIÁS
-0.2
NA
-0.4 -0.6
Nas análises sobre empregabilidade das lésbicas e sapatonas, destacam-se algumas variáveis para a determinação da taxa de desemprego. No mapa acima, nota-se que a taxa de desemprego é maior nas regiões periféricas. A empregabilidade das lésbicas e sapatonas também está relacionada ao fato de serem assumidas em todos os espaços, fato que pode ser observado nos gráficos seguintes. A taxa de desemprego das lésbicas e sapatonas assumidas em todos os espaços é menor que a das lésbicas e sapatonas que são assumidas apenas em alguns espaços de convívio, que por sua vez têm menor empregabilidade que as lésbicas e sapatonas que não são assumidas.
-0.8 - 1.0 Mapa 5. Fonte: LesboCenso, 2020
Podemos inferir que lésbicas e sapatonas não assumidas tem em geral situação empregatícia pior do que lésbicas e sapatonas assumidas em todos os espaços, a partir de uma possibilidade de que no Distrito Federal as servidoras públicas tem mais segurança na questão trabalhista devido à estabilidade da carreira. Entretanto é necessário aprofundarmos pesquisas sobre outras realidades e atravessamentos, em especial de lésbicas e sapatonas negras periféricas.
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Sobre a renda individual das lésbicas e sapatonas que responderam o LesboCenso, o gráfico apresenta que a maioria recebe menos de R$1.000,00 por mês. Existe uma limitação da possibilidade de cruzamento dos dados entre as variáveis de renda e escolaridade. É baixa a correlação entre renda e escolaridade.
Quantidade
400
200
0
Sim Não Trabalha/Assumidas Gráfico 7 Fonte: LesboCenso, 2020
250
Quantidade
200 150 100 50 0 Não Sim Trabalha/Assumidas apenas em alguns locais Gráfico 8 Fonte: LesboCenso, 2020
400
Quantidade
300
200
100
0
19 20
Menos de R$ 1.000,00
De R$ 1.000,00 a R$ 2.000,00
Renda
De R$ 2.000,00 a R$ 3.000,00
Mais de R$ 4.000,00
Gráfico 9 Fonte: LesboCenso, 2020
Eixo Violência Percentual de entrevistadas que declararam já ter sofrido algum tipo de violência relacionada à lesbofobia Já sofreu violência (810) Nunca sofreu violência (158) 17%
83%
A análise dos dados sobre violência se coloca como um dos grandes desafios pois a própria definição de violência ainda está em disputa, tendo em vista que vivemos em uma sociedade onde as relações estão estruturadas no racismo, sexismo, misoginia e lesbofobia. Neste sentido, o gráfico abaixo aponta para o dado alarmante que 83% das mulheres que responderam o questionário sofreram algum tipo de violência relacionada à lesbofobia.
Gráfico 10 Fonte: LesboCenso, 2020
Principais tipos de violência causada por lesbofobia Assédio moral (78%) Assédio sexual (10%) Violência institucional (7%) Violência psicológica (3%) Outros (2%)
3%
7%
2%
10%
78%
Gráfico 11 Fonte: LesboCenso, 2020
No que se refere ao tipo de violência sofrida, 78% das respostas apontaram como sendo assédio moral, seguido de 10% de assédio sexual. Quando cruzadas com as informações sobre quem são os agentes da violência, podemos observar que as pessoas que compõem o círculo próximo de convivência são a maioria dos agentes de violência, totalizando 58% entre amigos, conhecidos, pai, mãe e outros familiares.
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Entre aquelas que já sofreram lesbofobia, qual foi o agente da violência? Pessoas conhecidas: amigas(os) pai/mãe e outros familiares (58%) Chefe/colega de trabalho (8%) Desconhecidos(as) (29%) Outros (5%)
Porém é importante ressaltar que 29% dos agentes de violência são desconhecidos, o que nos faz refletir sobre como os espaços públicos não são espaços seguros para as lésbicas e sapatonas. Este questionário específico não possibilitou o cruzamento de dados entre as respondentes que são assumidas, os espaços e os agentes de violência.
5%
29% 58%
8%
Gráfico 12 Fonte: LesboCenso, 2020
6. Considerações provisórias O que conseguimos, o que esperamos e os próximos passos A demanda para obtenção de estatísticas precisas sobre violências, vivências e experiências sapatônicas é central para o movimento. Tendo em vista o recrudescimento do conservadorismo e os retrocessos nas políticas públicas, e ressaltando que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTIs, a falta de dados nos mobilizou em 2018. O LesboCenso é a primeira iniciativa de censo voltado para população de lésbicas e sapatonas, com uma perspectiva colaborativa e coletiva de elaboração e compilação de dados.
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Sem informações sobre a população lésbica e sapatona, como é possível desenvolver políticas públicas específicas? Considerando a “ausência do Estado” nesta seara, a Coturno de Vênus lançou o LesboCenso, iniciativa que visou coletar informações censitárias das lésbicas e sapatonas que vivem no Distrito Federal. O LesboCenso foi disponibilizado por meio de um formulário eletrônico na internet, que reuniu dados como faixa etária, raça/etnia, emprego, religião, grau de instrução, acesso à saúde e índices de violência.
Esta foi uma iniciativa pioneira realizada em nível local, mas que pode possibilitar articulações entre as organizações e ativistas em âmbito nacional. Acreditamos que essa experiência pode servir de base para outras pesquisas, pois observarmos durante o percurso a importância em aprofundar as variáveis para cruzamento de dados e subsídio maior de informação. O projeto LesboCenso, incluindo sua fase de elaboração com o encontro Lesbopolitizar, oportunizou aprendizados importantes. Acreditamos que foi um processo pedagógico de construção coletiva de dados que oportunizou visualizar demandas, mas também apontou as lacunas acerca de questões que precisam ser ajustadas às nossas práticas lesbofeministas, dentre as quais destacamos:
1) Fortalecimento de confiança entre nós: no processo de divulgação
do LesboCenso recebemos diversos relatos de lésbicas e sapatonas que afirmaram não se sentirem seguras ou confortáveis para responder o questionário, pois existem vários dispositivos voltados para “roubar” e “vender” dados pessoais. Também foi relatado o receio na era de “fake news”, em que poderia se tratar de um projeto falso, para fins de ataques lesbofóbicos. Em todas essas situações explicamos se tratar de uma organização lesbofeminista, com cerca de 15 anos de atuação e de um censo para promoção de incidência política a partir de consolidação de dados ainda não existentes sobre nós. Mesmo assim, foi dificultosa essa criação de vínculos e confianças. Este é um trabalho que precisamos levar adiante proporcionando um espaço seguro de compartilhamento das informações.
2) Lesbofobia social - abjeção a ser associada à imagem lésbica e sapatona: nas divulgações pelas ruas, praças, paradas de ônibus e mesmo em paradas de orgulho LGBTI, muitas pessoas se recusaram a receber ou mesmo se sentiram ofendidas ao serem abordadas por nós com cartões na mão. Uma repulsa e receio de ser socialmente vinculada à imagem de lésbica, mesmo ao explicarmos que se tratava de divulgação de um projeto social, que estávamos dialogando com a sociedade em geral sobre o projeto e a necessidade de termos dados e informações sobre lésbicas e sapatonas e que elas poderiam passar os cartões adiante, visto que as pessoas poderiam ter vizinhas, amigas, familiares, professoras, etc. Notamos a necessidade de aprofundar nossas campanhas de combate à lesbofobia.
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3) Lesbofobia social - hipersexualização dos corpos lésbicos: também
durante as divulgações em espaços públicos, notamos que muitas mulheres entendiam que, ao abordarmos para divulgação e explicação do projeto, estávamos “dando em cima”, em uma concepção que lésbicas só falam com outras mulheres por motivações sexuais, o que chamamos de “super auto-estima hétero”. Precisamos trabalhar ainda mais na temática de direito à cidade e da cidadania lésbica.
4) Lesbofobia institucional: ao tentar deixar os cartões em alguns espaços
- hospitais, escolas, padarias, etc. - alguns responsáveis não permitiram que deixássemos os cartões no local, outros retiraram os cartões assim que saímos do local. Foram oportunidades para dialogar sobre a presença e existência de lésbicas e sapatonas nos diversos lugares e setores da sociedade. Mais uma vez, nos chamou a atenção para o debate sobre cidadania e direitos humanos de lésbicas e sapatonas. Ao longo desse processo, pudemos perceber alguns pontos fortes na mobilização e articulação, especialmente ao podermos contar com parcerias de mobilizadoras e lideranças nas comunidades de diferentes regiões administrativas do Distrito Federal, fossem elas lésbicas, de outras identidades políticas LGBTI ou do movimento feminista e negro. Além de divulgação
“boca a boca”, elas fizeram vídeos e divulgaram nossas postagens em suas redes sociais. Foi notório também o interesse de lésbicas e sapatonas de outros estados em terem esse projeto em suas localidades, o que nos incentiva a continuar trabalhando e aperfeiçoando o LesboCenso para replicarmos em âmbito nacional.
No que tange aos dados específicos apresentados neste material, apontamos para alguns desafios que foram colocados no momento final de análise. Consideramos esses desafios como parte integrante dos próximos passos a ser desenvolvidos a partir desta cartilha.
1) Acesso à saúde: um dos desafios da população lésbica e sapatona é
garantir acesso à saúde de qualidade que leve em consideração a especificidade dessa orientação sexual e de nos sentirmos à vontade para falar das nossas relações sem receio de lesbofobia. Na questão ginecológica, por exemplo, toda a atenção está calcada na heteronormatividade fazendo que a atenção dispensada pelo profissional de saúde às lésbicas e sapatonas seja inferior, se comparado à heterossexual. A duração de atendimento é menor, a ausência de cuidado é maior pois não abarca o cuidado às especificidades da saúde sexual e/ou reprodutiva de lésbicas e sapatonas.
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2) Violência Lesbofóbica: nos dados de violência é expressivo o número de
lésbicas e sapatonas que responderam ter sofrido algum tipo de violência lesbofóbica, tanto em ambientes públicos quanto em ambientes privados. Dado alarmante é o número de agentes de violência serem familiares, pessoas próximas e conhecidas, apresentando questionamentos sobre em quais situações, nós, lésbicas e sapatonas, estamos inseridas em relações que não sejam atravessadas pela lesbofobia. Ao mesmo tempo que o número de violências perpetradas por pessoas desconhecidas aponta para a questão sobre como elaborar espaços de segurança para nos assumirmos sem nos sentir vulnerabilizadas nos diversos ambientes. Quais são os espaços existentes de acolhimento para não nos sentirmos sozinhas, desde que nos descobrimos enquanto lésbicas e sapatonas e no processo de envelhecermos? Outro desafio posto com o limite das variáveis utilizadas neste questionário é o cruzamento de dados sobre violência lesbofóbica com dados de segurança pública, como por exemplo, se existem denúncias dos casos de violência e os seus desdobramentos.
3) Educação: observamos os limites de nossa abrangência a partir do eixo
de educação, no qual o maior número de respostas são de lésbicas e sapatonas com maior grau de escolaridade, de estudantes ou formadas, público que mais difundiu o LesboCenso. Desta feita, faz-se necessário ampliar a pesquisa para abarcar outras escolaridades atreladas aos atravessamentos de identidades de gênero, raça/etnia, classe social e territorialidade. Aprofundar análise sobre cruzamento entre escolaridade e renda, territorialidade e acesso à saúde também se coloca como um desafio.
4) Lesbofobia e envelhecimento: abordar as lésbicas e sapatonas com
mais de 50 anos, falar sobre o envelhecimento das lésbicas e sapatonas relacionando as questões de qualidade e acesso à saúde, assim como demandas de saúde mental e sexual; empregabilidade; redes e contatos; acesso à cidade e espaços de convívio. Além de problematizar sobre as condições financeiras para manutenções básicas, tipos de moradias, quais as relações de convívio que estão estabelecendo, se estão sozinhas ou em comunidades familiares e/ou de afetos composta por amigas e amigos ou se estão em relacionamentos afetivos sexuais.
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Apresentação do grupo de trabalho
O foco dos eixos apresentados nesta cartilha partiu de uma escolha política de incidência direta na elaboração e implementação de políticas públicas, porém o questionário proposto oportunizou a coleta de dados relativos às relações de conjugalidade e afetivos sexuais das respondentes. Consideramos um aspecto importante da subjetividade das lésbicas e sapatonas, por estruturar espaços considerados seguros para exercerem sua sexualidade de forma livre. Vale ainda problematizar como esses encontros respondem ao estereótipo de conjugalidade repentina entre lésbicas e sapatonas, sobre “casarem” no segundo encontro. A necessidade de um vínculo de conjugalidade é atravessado pela solidão e lesbofobia, que tanto pode ser em decorrência de expulsão de casa, rejeição da família, a impossibilidade de se relacionar livremente, sem perseguição, sem cerceamento e com autonomia. Essa cartilha ficará disponível online nas redes para visibilizar as nossas experiências e alcançar outras lésbicas e sapatonas, como ferramenta de fortalecimento. Com esta cartilha, buscamos fomentar o debate e proporcionar outras pesquisas e coletas de experiências. Nosso intuito é provocar encontros para articulação entre movimento social, academia e poder público na realização de pesquisas oficiais, que nos proporcionarão embasamento substancial sobre como os marcadores da diferença se interseccionam apresentando dinâmicas e complexidade dos sistemas de opressão no processo de construção das/os sujeitas/os.
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