Skip to main content

Boletim Informativo "Igreja Viva e Peregrina" mar-abr 2023

Page 1

Março / Abril 2023

Ano XXVI - nº 157

O CEGO QUE VOLTOU A ENXERGAR Uma das cenas bíblicas mais belas que ganha destaque na Quaresma é a cura do Cego de Nascença (Jo 9,1-41). Trata-se de um episódio propositalmente colocado por João na primeira parte do seu Evangelho, denominada “Livro dos Sinais” (Jo 2-12). Vale a pena uma leitura atenta do relato e perceber nas entrelinhas as intenções do Autor, sua perspicácia e criatividade ao confeccionar seu Evangelho. Trata-se de um relato longo, detalhado e cheio de dramaticidade como, aliás, são os demais textos no Quarto Evangelho. Obviamente, João tem suas intenções catequéticas ao redigir seu escrito. Afinal, assim ele se expressa no fim de sua obra: “Jesus fez diante dos discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,30-31). Portanto, a razão do escrito são os destinatários imediatos e tantos outros que buscarão seguir pelo Caminho do discipulado em qualquer época e local. Voltando à cena do “Cego de Nascença”: Aí se encontram os fariseus, o cego, os pais do cego e o próprio Jesus. Jesus se aproxima do cego pedinte e unge-lhe seus olhos dizendo: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”. Ele foi e voltou enxergando (Jo 9,7). A partir daí, o cego se torna o protagonista da ação, roubando a cena de Jesus! O cego nos prende e nos puxa para dentro da cena na qualidade de observadores atentos. A narrativa é tão viva que fala por si e merece ser encenada, usando as mesmas palavras do Evangelho. Chama a nossa atenção a fala do cego no desenrolar da cena. Tudo gira em torno da grande pergunta: Quem é Jesus? É a pergunta que a Igreja faz a seus fiéis na Quaresma. O leitor atento percebe, no linguajar do cego, uma evolução em suas respostas: primeiramente, reconhece Jesus como seu benfeitor (9,11); depois, como “profeta” (9,17), o enviado de Deus com poderes extraordinários. Somente após ter passado por muitas provas que o cego confessa Jesus como o “Senhor”: “Crês nesse Homem?”... “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”... “Tu o viste: é aquele que está falando contigo”... Respondeu: “Creio, Senhor” (9,35-38). O processo de iluminação do cego chega a seu ponto alto aí! Agora que ele enxerga e fica ao lado de Jesus, tem de contar com perseguições e conflitos! Depois que Jesus entra em sua vida, e uma vez iluminado, começa uma vida nova para o ex-cego! É assim que o Evangelista João se expressa para falar do Ato de Fé de quem se arrisca a ser discípulo. A Fé é uma experiência e, para se manter viva, supõe uma catequese progressiva e continuada. Note os títulos dados a Jesus, cada vez melhor elaborados. Merecem atenção também as demais figuras que entram em cena: os fariseus e os pais do cego. Os fariseus não aceitam o “Novo” que Jesus veio inaugurar. Negam os fatos e, quando contrariados, lançam mão do recurso mais fácil de que dispõem: expulsando do seu meio quem os incomoda (Jo 9,22). Há também os pais do cego, tímidos e medrosos diante das pressões externas que sofrem. Não querendo passar pelas importunações circunstanciais, saem pela tangente: “Sabemos que este nosso filho nasceu cego. Como está enxergando, não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Perguntai a ele; é maior de idade e pode falar sobre si mesmo” (Jo 9,20-21). Aí o próprio Evangelista realça as razões da perplexidade dos dois: “Disseram isso porque tinham medo dos judeus, pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Cristo” (Jo 9,22).

Assim acontece com os postulantes de todos os tempos (Postulante é a nomenclatura que a Igreja dá aos que solicitam o Batismo). Os candidatos ao Batismo estão sujeitos a passar pela experiência do cego do Evangelho. O percurso da fé implica na possibilidade de desencontros, de desafios e até de deboches da parte daqueles que se opõem à proposta da fé. Determinados ambientes sociais não favorecem a experiência cristã e até criam obstáculos aos que preferem seguir o Caminho. No entanto, é nesse mundo adverso que os postulantes são chamados a professar Jesus como Senhor! A cena do “Cego de Nascença” resume o Quarto Evangelho. Nela estão apresentados os grupos com os quais Jesus tinha que lidar na sua vida pública: os “fariseus” que rejeitam a Boa Nova, os “pais do cego” apontando para aqueles que padecem de complexo por causa de sua fé, e o próprio “cego” cuja fé em Jesus vai se amadurecendo aos poucos por uma catequese permanente. É bom notar que os cristãos dos primeiros séculos costumavam chamar o batismo de “iluminação” e os batizados de “iluminados”, gente que enxerga pelos olhos da fé. Por isso, esta cena do Evangelho é colocada nos escrutínios litúrgicos da Iniciação Cristã (Quarto Domingo da Quaresma e quarta-feira seguinte - ano A). A experiência do cego permanece muito atual e nos convida a refletir sobre a nossa fé. Quaresma é tempo de encontro: consigo mesmo para tratar da própria “cegueira” e crescer na iluminação interior; com o irmão para viver a solidariedade na fraternidade; e com o Senhor para renovar o Ato de Fé: “Tu crês no Filho do Homem?”... “Quem é Senhor, para que eu creia nele?”... “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”... “Eu creio, Senhor!” E ajoelhou-se diante de Jesus. Boa leitura! Boa meditação! Pe. Daniel Balzan - Pároco


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Boletim Informativo "Igreja Viva e Peregrina" mar-abr 2023 by Comunicação Paróquia São Roque - Issuu