Intervenção na Assembleia Municipal de Lisboa 27 de Março de 2018 OBRAS NO PARQUE DO PALACETE MENDONÇA
. Para que serve a classificação de “Imóvel de Interesse Público”? . Para que serve o parecer técnico negativo de Arquitectura Paisagística da DGPC? . Quais as responsabilidades da Câmara Municipal de Lisboa em todo este processo?
Classificados como “Imóvel de Interesse Público”, o Palacete e o Parque Mendonça foram mandados construir no início do século XX por Carolina e Henrique Mendonça, proprietários de roças em São Tomé. Com uma área aproximada de 3 hectares, o conjunto manteve-se na família até meados da década de 70. No início dos anos 90 passou para a posse da Universidade Nova de Lisboa. Reconhecendo o valor do património que tinha em mãos - Conjunto Palacete e Parque -, a Universidade Nova contratou, em Setembro de 1990, uma empresa especializada para realizar a recuperação do jardim. Para a limpeza da mata, abandonada há várias décadas, entrou uma brigada de jardineiros da Câmara Municipal de Lisboa, ao abrigo de um protocolo que permitiu a abertura do Parque ao público. Durante 2 anos funcionários da Câmara Municipal de Lisboa limparam os arruamentos principais, pondo a descoberto toda a beleza do traçado do Parque, com as valas de escoamento em basalto, a cascata, o lago, as estufas e outros elementos. (1)
O trabalho realizado permitiu pôr a descoberto a Quinta de Recreio, com pomar, horta, prado e olival; alamedas de tílias; o túnel de dragoeiros à entrada; o labirinto dos caminhos com altos muros de buxo; o caramanchão de rosas de Sta. Teresinha; a cascata, os bancos e colunas que celebravam um cedro monumental; a encosta de coníferas; o campo de ténis…(1) A Quinta era auto sustentável e possuía um complexo sistema de abastecimento de água. As estufas (aquecida e fria), os estufins bem como a casa de compostagem, tudo foi construído com grande rigor, qualidade e beleza.(1) Recuperado o Parque, agora aberto ao público, a Universidade Nova passou a realizar aí eventos, sociais, políticos e académicos, como, por exemplo, a comemoração dos 10 anos da morte do Prof. Alfredo de Sousa com a inauguração de uma instalação do artista Pedro Croft, criada propositadamente para o lago. A Fundação Calouste Gulbenkian cedeu à Universidade Nova 13 esculturas que foram colocadas em diferentes pontos do Parque, convidando os visitantes a percorrerem os primitivos trilhos, agora de novo limpos e postos a descoberto pela equipa de jardineiros da Câmara Municipal de Lisboa. O Parque Mendonça e a Exposição da Gulbenkian das Esculturas no Parque passaram a fazer parte dos roteiros da Câmara dos Jardins Históricos de Lisboa e a ser visitados por centenas de nacionais e estrangeiros. Nos últimos anos, as constantes restrições orçamentais e a saída da equipa de Jardineiros da Câmara tornavam difícil a conservação do arvoredo. Porém, a manutenção manteve-se e surgiram espontaneamente árvores que fizeram a renovação natural do Parque. Os caminhos foram-se cobrindo de um extraordinário tapete de musgo que se tornou a “imagem de marca” do Parque Mendonça recebendo, com uma passadeira verde, todos os visitantes. Em 2016 o Parque foi vendido à Fundação Aga Khan. Apesar de ter deixado de estar aberto à população, a reputação da Fundação, relativamente ao respeito pelo património era, creio que para todos nós, um garante de qualidade e respeito relativamente a uma futura intervenção a realizar neste centenário parque histórico. Foi portanto com enorme espanto que assistimos ao início das obras e tomámos conhecimento do projecto paisagístico.
Conheço e estimo muito este parque. Testemunhei de perto o amor e a dedicação de todos quantos aqui trabalharam durante várias décadas, entre os quais muitos funcionários da Câmara Municipal de Lisboa. O Parque do Palacete Mendonça foi entregue aos novos proprietários como um “tesouro”, intacto e único. Apesar do parecer técnico de arquitectura paisagista (DGPC), relativamente ao projecto, ser negativo, foi já completamente destruído o jardim em frente do Palacete. A impermeabilização dos solos provocada pela construção de um parque de estacionamento irá ter, por certo, consequências em toda a vegetação circundante, designadamente num núcleo raro de dragoeiros. O que está previsto para o restante área, desrespeita, em absoluto, as características do parque que o tornam único e foram o objecto da sua classificação. O Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles sonhava instalar neste lugar um museu de Arte Nova e um ferrocarril até Monsanto, integrado no Corredor Verde, para se poder apreciar as copas das árvores. Perante a barbárie do que ali está a acontecer voltamos a colocamos as perguntas: . Para que serve a classificação de “Imóvel de Interesse Público”? . Para que serve o parecer técnico negativo de Arquitectura Paisagística da DGPC? À Câmara Municipal de Lisboa, que durante anos cuidou deste Património e o tornou público, compete ainda esclarecer . Quais as suas responsabilidades em todo este processo.
Pela Comissão de Moradores do Bairro Azul Ana Alves de Sousa https://www.facebook.com/comissaomoradoresbairroazul/
(1) Informações que nos foram sendo dadas, ao longo dos anos, pelo Engº Rui Romão