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Exposição dEbAclE, de Mattia Denisse, na Galeria Municipal de Arte

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curadoria Cláudia Ramos

dEbAclE: Uma viagem no «lugar do morto»

Sentado num carro, no “lugar do morto” (termo que sempre me fascinou pela sua carga metafísica), ou seja, à direita do condutor. Observo a paisagem desfilar. Ela atravessa-me. Fujo, certamente, mas sem saber exatamente de quê nem para onde. Ver a paisagem desfilar é hipnótico; adormeço e acordo sucessivamente, perdendo a noção do tempo e da fronteira entre o sonho e a realidade. Deslizo de uma paisagem onírica para uma paisagem real sem me aperceber; ambas se confundem. No sonho, surgem zooms sobre detalhes incongruentes. Nada me pode ou deve parar. A paisagem deixa marcas fugazes, memórias imprecisas, sem tempo para o detalhe. Fugir, custe o que custar. Aurora ou crepúsculo. À noite, a escuridão esconde-me; de dia, escondo-me eu.

Arthur Dessine

dEbAclE inscreve-se de forma coerente no percurso de Mattia Denisse, prolongando uma prática onde desenho, escrita e imagem não se organizam em hierarquia, mas em contiguidade. Ao longo do seu trabalho, o desenho aproxima-se da escrita não apenas como meio, mas como modo de pensamento: uma superfície onde o sentido se acumula sem se fixar, onde a repetição não clarifica, antes desloca, e onde cada imagem parece funcionar como fragmento de uma narrativa que nunca se deixa totalizar.

A entrada da exposição apresenta uma espécie de “história fantástica da camuflagem”: um conjunto de imagens em torno da ocultação, do mimetismo e da possibilidade de desaparecer. A camuflagem surge aqui menos como motivo do que como condição. Ver implica esconder-se; aparecer implica risco. A paisagem não revela completamente, e o sujeito que a atravessa nunca é totalmente visível. Entre sombra e exposição, instala-se uma tensão contínua — não dramática, mas persistente.

A partir daí, essa lógica intensifica-se através de um dispositivo contínuo que convoca o travelling no seu duplo sentido: deslocação física e movimento cinematográfico do olhar. Não se trata de observar paisagens, mas de atravessá-las. A sucessão de imagens não organiza um inventário de catástrofes, ainda que convoque territórios marcados por formas de ruptura — naturais, históricas ou imaginadas. O que se constrói é antes um regime perceptivo: um estado de atenção instável, onde o olhar deixa de coincidir com domínio.

O título, dEbAclE, condensa essa condição. Derivado do francês débâcle — que designa a rutura e o degelo de um curso de água —, não remete apenas para ruína ou fracasso, mas para um momento de fluxo e libertação súbita de matéria acumulada. Este duplo movimento — entre desmoronamento e deslocação — atravessa toda a obra: as paisagens não são fixas, são atravessadas por forças; não são cenários, são superfícies em transformação.

É neste contexto que a ideia de “lugar do morto” ganha espessura. Mais do que uma posição física, trata-se de uma condição perceptiva: ver sem conduzir, avançar sem determinar a trajectória. O espectador é colocado nesse lugar — não como sujeito soberano do olhar, mas como corpo exposto ao movimento, dependente de um percurso que não controla. A obra não se oferece à contemplação distanciada; implica uma vulnerabilidade. Essa vulnerabilidade é reforçada pela oscilação constante entre estados: vigília e sono, memória e projeção, realidade e ficção. As imagens parecem surgir num intervalo onde o tempo se suspende, onde a paisagem tanto pode ser lembrada como imaginada. Esta incoincidência — entre o que se vê e o que se reconhece — não é erro: é o próprio movimento do trabalho. É aí que o desenho opera: não para estabilizar, mas para manter em aberto.

Neste sentido, o desenho pode ser entendido como travessia. Não como imagem isolada, mas como frase longa, fluxo, passagem. Cada elemento participa de um contínuo onde a repetição constrói ritmo e não conclusão. Tal como um leporello — um livro em expansão contínua —, também aqui não há início claro nem direção única: há um percurso que se faz no tempo do corpo. No “lugar do morto”, ver é já abdicar de controlar. E é nesse gesto — entre exposição, deslocação e indeterminação — que a obra encontra a sua intensidade.

Cláudia Ramos

Solve et coagula

História Fantástica da Camuflagem, 2025

Acrílico e óleo sobre tela

160 × 119 cm

A Técnica da Avestruz

História Fantástica da Camuflagem, 2025–2026

Óleo sobre tela

160 × 119 × 3,5 cm

Nymphéas VS Hiroshima

Recto Verso e Vice Versa, 2024–2025

Óleo sobre papel Arches 300 g/m²

76 × 56 cm

dEbAclE

2026

Óleo sobre papel Arches Oil e cartão microcanelado

Dimensões variáveis

GALERIA MUNICIPAL DE ARTE

Presidente da Câmara

Municipal de Almada e Pelouro da Cultura

Inês de Medeiros

Diretor Municipal de Desenvolvimento Social

Eduardo Quinta Nova

Diretora de Departamento de Cultura

Rute Moura

Chefe de Divisão do Centro de Arte Contemporânea

Nuno Moura

Frente de Casa

Elsa de Sousa

Filipe Barbosa

EXPOSIÇÃO

Curadoria

Cláudia Ramos

Produção

Ana Taipas

Paulo Ramos

Comunicação

Paula Freire

Secretariado e apoio à direção

Carla Novais

Serviço Educativo

Ana Sofia Godinho

Elsa de Sousa

Tradução

José Roseira

GALERIA MUNICIPAL DE ARTE

Av. Nuno Alvares Pereira 74 A 2800-177 Almada

T. 212 724 724 casadacerca@cm-almada.pt

HORÁRIO

Montagem

Ana Taipas

Paulo Ramos

Divisão de Manutenção do Edificado e Apoio às Atividades Municipais

Impressão

Original Pixel

Agradecimentos

CRIA.

Felipe Feijão

Francisca Bagulho

Gracal

Mário e Zé

Mário Silva

Vasco Costa vivóeusébio

Terça a sábado: 11h-13h / 14h-19h

Encerra domingos, segundas e feriados

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