dEbAclE: Uma viagem no «lugar do morto»
Sentado num carro, no “lugar do morto” (termo que sempre me fascinou pela sua carga metafísica), ou seja, à direita do condutor. Observo a paisagem desfilar. Ela atravessa-me. Fujo, certamente, mas sem saber exatamente de quê nem para onde. Ver a paisagem desfilar é hipnótico; adormeço e acordo sucessivamente, perdendo a noção do tempo e da fronteira entre o sonho e a realidade. Deslizo de uma paisagem onírica para uma paisagem real sem me aperceber; ambas se confundem. No sonho, surgem zooms sobre detalhes incongruentes. Nada me pode ou deve parar. A paisagem deixa marcas fugazes, memórias imprecisas, sem tempo para o detalhe. Fugir, custe o que custar. Aurora ou crepúsculo. À noite, a escuridão esconde-me; de dia, escondo-me eu.
Arthur Dessine
dEbAclE inscreve-se de forma coerente no percurso de Mattia Denisse, prolongando uma prática onde desenho, escrita e imagem não se organizam em hierarquia, mas em contiguidade. Ao longo do seu trabalho, o desenho aproxima-se da escrita não apenas como meio, mas como modo de pensamento: uma superfície onde o sentido se acumula sem se fixar, onde a repetição não clarifica, antes desloca, e onde cada imagem parece funcionar como fragmento de uma narrativa que nunca se deixa totalizar.
A entrada da exposição apresenta uma espécie de “história fantástica da camuflagem”: um conjunto de imagens em torno da ocultação, do mimetismo e da possibilidade de desaparecer. A camuflagem surge aqui menos como motivo do que como condição. Ver implica esconder-se; aparecer implica risco. A paisagem não revela completamente, e o sujeito que a atravessa nunca é totalmente visível. Entre sombra e exposição, instala-se uma tensão contínua — não dramática, mas persistente.
A partir daí, essa lógica intensifica-se através de um dispositivo contínuo que convoca o travelling no seu duplo sentido: deslocação física e movimento cinematográfico do olhar. Não se trata de observar paisagens, mas de atravessá-las. A sucessão de imagens não organiza um inventário de catástrofes, ainda que convoque territórios marcados por formas de ruptura — naturais, históricas ou imaginadas. O que se constrói é antes um regime perceptivo: um estado de atenção instável, onde o olhar deixa de coincidir com domínio.
O título, dEbAclE, condensa essa condição. Derivado do francês débâcle — que designa a rutura e o degelo de um curso de água —, não remete apenas para ruína ou fracasso, mas para um momento de fluxo e libertação súbita de matéria acumulada. Este duplo movimento — entre desmoronamento e deslocação — atravessa toda a obra: as paisagens não são fixas, são atravessadas por forças; não são cenários, são superfícies em transformação.
É neste contexto que a ideia de “lugar do morto” ganha espessura. Mais do que uma posição física, trata-se de uma condição perceptiva: ver sem conduzir, avançar sem determinar a trajectória. O espectador é colocado nesse lugar — não como sujeito soberano do olhar, mas como corpo exposto ao movimento, dependente de um percurso que não controla. A obra não se oferece à contemplação distanciada; implica uma vulnerabilidade. Essa vulnerabilidade é reforçada pela oscilação constante entre estados: vigília e sono, memória e projeção, realidade e ficção. As imagens parecem surgir num intervalo onde o tempo se suspende, onde a paisagem tanto pode ser lembrada como imaginada. Esta incoincidência — entre o que se vê e o que se reconhece — não é erro: é o próprio movimento do trabalho. É aí que o desenho opera: não para estabilizar, mas para manter em aberto.
Neste sentido, o desenho pode ser entendido como travessia. Não como imagem isolada, mas como frase longa, fluxo, passagem. Cada elemento participa de um contínuo onde a repetição constrói ritmo e não conclusão. Tal como um leporello — um livro em expansão contínua —, também aqui não há início claro nem direção única: há um percurso que se faz no tempo do corpo. No “lugar do morto”, ver é já abdicar de controlar. E é nesse gesto — entre exposição, deslocação e indeterminação — que a obra encontra a sua intensidade.
Cláudia Ramos
Solve et coagula
História Fantástica da Camuflagem, 2025
Acrílico e óleo sobre tela
160 × 119 cm
A Técnica da Avestruz
História Fantástica da Camuflagem, 2025–2026
Óleo sobre tela
160 × 119 × 3,5 cm
Nymphéas VS Hiroshima
Recto Verso e Vice Versa, 2024–2025
Óleo sobre papel Arches 300 g/m²
76 × 56 cm
dEbAclE
2026
Óleo sobre papel Arches Oil e cartão microcanelado
Dimensões variáveis
GALERIA MUNICIPAL DE ARTE
Presidente da Câmara
Municipal de Almada e Pelouro da Cultura
Inês de Medeiros
Diretor Municipal de Desenvolvimento Social
Eduardo Quinta Nova
Diretora de Departamento de Cultura
Rute Moura
Chefe de Divisão do Centro de Arte Contemporânea
Nuno Moura
Frente de Casa
Elsa de Sousa
Filipe Barbosa
EXPOSIÇÃO
Curadoria
Cláudia Ramos
Produção
Ana Taipas
Paulo Ramos
Comunicação
Paula Freire
Secretariado e apoio à direção
Carla Novais
Serviço Educativo
Ana Sofia Godinho
Elsa de Sousa
Tradução
José Roseira
GALERIA MUNICIPAL DE ARTE
Av. Nuno Alvares Pereira 74 A 2800-177 Almada
T. 212 724 724 casadacerca@cm-almada.pt
HORÁRIO
Montagem
Ana Taipas
Paulo Ramos
Divisão de Manutenção do Edificado e Apoio às Atividades Municipais
Impressão
Original Pixel
Agradecimentos
CRIA.
Felipe Feijão
Francisca Bagulho
Gracal
Mário e Zé
Mário Silva
Vasco Costa vivóeusébio
Terça a sábado: 11h-13h / 14h-19h
Encerra domingos, segundas e feriados