GALERIA MUNICIPAL DE ARTE
10.10.2025 – 14.02.2026
WILFRID ALMENDRA HARVEST PT A Galeria Municipal de Arte de Almada apresenta Harvest, a primeira exposição individual institucional em Portugal do artista luso-francês Wilfrid Almendra. A sua obra parte de uma profunda atenção ao trabalho e à classe trabalhadora, bem como aos materiais que nos rodeiam, à fragilidade, à precariedade e às economias alternativas, questionando simultaneamente a nossa relação com o consumo, o conforto e o valor das coisas. Na Galeria Municipal, Harvest assume a forma de uma instalação imersiva composta por várias placas de vidro (recolhidos de estufas desativadas), objetos hiper-realistas em bronze e alumínio, elementos híbridos de madeira e plantas. Este labirinto material e simbólico desenha um espaço de atravessamentos, de pausas e de transparências, onde se cruzam memórias do trabalho agrícola e operário, a força e a fragilidade da matéria, a evocação das hortas comunitárias e referências culturais que vão da pintura ao cinema. Ao que convoca um olhar atento amplo e ao detalhe, Harvest propõe uma leitura poética e crítica sobre o valor do trabalho, de formas alternativas de comércio e sobre a forma como habitamos o mundo. Há um gesto persistente no trabalho de Wilfrid Almendra: o de recolher, reparar e transformar. Entre o que a cidade rejeita e o que a terra devolve, o artista constrói uma economia paralela feita de trocas, confiança e proximidade. Cada obra nasce de uma circulação de matérias e de afetos — pedras, tecidos, vidro, flores secas, pedaços de metal, laranjas, azeite, conversas — que compõem um território íntimo, partilhado e precário. Em Almendra, tudo é transformado, tudo se converte em signo de uma experiência vivida. O território rural português surge como um arquivo afetivo, atravessado pela memória e pela perda, mas também pela persistência das coisas simples. A prática de Almendra assenta num lugar de tensão entre o que é frágil e o que resiste. As esculturas 1parecem sempre à beira da rutura: uma cerâmica tão
fina que quase se parte, uma pedra que sustenta uma estrutura/porta, uma flor que srevive entre duas placas de vidro. Mas é dessa instabilidade que surge a força. O gesto de manter o equilíbrio — mesmo quando tudo parece pronto a desfazer-se — é, em si, uma forma de resistência. Os materiais não são neutros: transportam histórias, memórias e geografias. Muitos são recolhidos em estaleiros, terrenos baldios ou oficinas desativadas, outros resultam de trocas diretas ou de colaborações com comunidades que habitam os interstícios do sistema produtivo. Essa economia de reciprocidade desloca o centro do valor: o que importa não é o preço das coisas, mas a relação que as sustenta. Assim, o processo artístico torna-se também um gesto político e cívico — uma forma de imaginar outras maneiras de viver em comum. O olhar que Almendra dirige ao mundo é o de quem recusa a hierarquia entre o útil e o descartável. Tudo pode ser matéria, tudo pode ser portador de sentido. O que é considerado lixo, sobra ou falha ganha uma nova dignidade ao ser incorporado nas obras. Há, em todo o seu trabalho, uma ética da atenção — um modo de reparar no que é pequeno, vulnerável ou invisível, e de reconhecer aí um potencial de beleza e de verdade. As obras de Almendra não se impõem; distribuem-se em pequenas constelações, convidando o visitante a um percurso lento, quase doméstico. Cada peça pede uma aproximação física e emocional, um olhar atento. O conjunto forma um campo de relações — um ecossistema precário e poético onde tudo se liga: o corpo, o objeto, o território e o tempo. Harvest é, em última instância, uma reflexão crítica sobre a possibilidade de reconstruir a partir do que resta. Oferece uma meditação sobre os modos de consumo contemporâneos, explorando caminhos alternativos de troca e questionando a nossa relação sensível com o mundo.