CADA DIA É UM NOVO RIO

CADA DIA É UM NOVO RIO
Cada dia é um novo rio apresenta uma seleção de documentação pertencente ao espólio de Pedro Morais, em particular materiais relacionados com o Atelier Livre AT.RE, desenvolvido entre 1979 e 1994 na Escola António Arroio. Missivas, editais e textos aproximam-nos de uma prática pedagógica construída na continuidade entre o fazer, o pensamento, a relação e a experiência partilhada.
O Atelier Livre nasceu, segundo Pedro Morais, de uma provocação lançada por um aluno, Pedro Vasconcelos. Com o consentimento de Artur Baptista, então presidente do Conselho Diretivo da Escola, foi ocupado um espaço de trabalho na cave da António Arroio. A partir daí, o AT.RE tornou-se um lugar de experimentação, liberdade e exigência, sujeito a admissão por portefólio, mas atravessado por uma circulação muito mais ampla: missivas, haikus, almoços, convívios, exposições, conversas e alunos de outras escolas.
A seleção aqui apresentada não procura encerrar uma experiência passada, mas tornar sensível uma pedagogia em movimento. O ensino aparece aqui como relação: entre professor e alunos, entre artistas e interlocutores, entre o gesto individual e
uma comunidade de trabalho. Pedro Morais dizia que estimulava os alunos, como «uma espécie de amigo mais velho», por vezes provocador, e essa posição parece atravessar os materiais reunidos: menos a transmissão de um método fixo do que a criação de condições para que cada um pudesse encontrar uma forma própria de ver, fazer e pensar.
No seu trabalho e no seu ensino, Pedro Morais aproximou a arte de um acontecimento. Fazer não significava apenas produzir uma obra, mas estar atento ao instante em que alguma coisa pode surgir. Essa atenção ao que acontece — aos desvios, aos pequenos nadas, ao inesperado que só se vê quando se faz — atravessa também o modo como esta seleção se apresenta.
Aqui, cada documento não é apenas prova de um percurso; é sinal de uma relação, de uma pergunta, de uma possibilidade que continua aberta.
Na vitrina horizontal, uma carta dirigida a Pedro Morais e diferentes trabalhos que lhe foram oferecidos dão a ver a dimensão relacional desta história. Alguns são da autoria de alunos do Atelier Livre; outros, de artistas que mantiveram com Pedro
Morais uma relação de proximidade, correspondência e partilha. Numa carta, Francisco Tropa afirma que «o atelier não morreu, existe no pregar de um prego ou no enroscar de um parafuso»; numa peça em papel, Rui Calçada Bastos escreve: «São estas as testemunhas do tempo. As pedras.» Mais do que testemunhos afetivos, estas presenças revelam a permanência de uma experiência que, para além do ensino, continuou a agir nas práticas, nas relações e nos percursos daqueles que dela participaram ou com ela se cruzaram.
O título Cada dia é um novo rio sugere essa continuidade em transformação. Um rio nunca permanece igual, mesmo quando conserva o seu curso. Também este conjunto não se apresenta como matéria imóvel: cada documento abre uma possibilidade de leitura, faz reaparecer uma voz, desloca uma relação. Na Sala de Leitura da Casa da Cerca, a exposição propõe um encontro com o arquivo como lugar vivo: cada dia, ainda, um novo rio.
Cláudia Ramos
SALA DE LEITURA
Vitrine horizontal
1 Autor desconhecido, Caixa Madeira, papel, tinta e pequenas bolas de bilhar em resina. 4,5 × 16,5 × 10 cm. s.d.
2 José de Almeida, Atelier Livre AT.RE — Konvite
Papel e tinta. 12 × 8,5 cm. 3 de maio de 1982.
3 Rui Calçada Bastos, «São estas as testemunhas do tempo. As pedras.»
Tinta a óleo sobre papel. 9 × 8,4 cm. s.d.
4 Autor desconhecido, Caixa Madeira e lápis. 6 × 9 × 9 cm. s.d.
5 Francisco Tropa, Caixa Madeira, gesso de estuque, escama e sombra de olhos. 6 × 13 × 6 cm. s.d.
6 Autor desconhecido, Sem título
Madeira. 2,5 cm altura × 12,5 cm diâmetro. s.d.
7 Francisco Tropa, «O atelier não morreu…»
Carta a Pedro Morais, tinta e grafite sobre papel. 8 × 14,5 cm. 1995.
9 Pedro Morais, Edital — «Sem afazeres é este “fazer”»
Papel, tinta e grafite. 21 × 29,5 cm. s.d.
10 Pedro Morais, Missiva / Ilusão-Ego
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. 1984.
11 Pedro Morais, Edital — «Este fazer, Arte, é sem refúgio»
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. s.d.
12 Pedro Morais, Que a mão no olhar percorre / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. janeiro de 1986.
13 Pedro Morais, Que a mão no olhar percorre / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. março de 1986.
14 Pedro Morais, Que a mão no olhar percorre / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. abril de 1986.
15 Pedro Morais, Um olhar / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. janeiro de 1987.
Prateleiras centrais dos armários-estante envidraçados
8 Pedro Morais, Atelier Livre AT.RE — Escola António Arroio [texto de enquadramento do atelier], papel e tinta. 21 × 29,5 cm. 1989.
16 Pedro Morais, O eco do olhar / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel, tinta e grafite. 21 × 29,5 cm. janeiro de 1988.
17 Pedro Morais, Relatório / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. 1987–1988.
18 Pedro Morais, De forma a... / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel, tinta e grafite. 21 × 29,5 cm. janeiro de 1988.
19 Pedro Morais, Relatório / Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel, tinta e grafite. 21 × 29,5 cm. 1988–1989.
20 Pedro Morais, Edital — Oval das mãos
Papel, tinta e grafite. 21 × 29,5 cm. s.d.
21 Pedro Morais, Edital — «Nem eu, nem tu, nem ele (…)»
Papel, tinta e grafite. 21 × 29,5 cm. s.d.
22 Pedro Morais, Edital — «A ignorância crassa (…)»
Papel, tinta e grafite. 21 × 29,5 cm. s.d.
23 Pedro Morais, Atelier Livre — Curso Experimental de Artes Plásticas
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. 1988–1989.
24 Pedro Morais, Curso Experimental de Artes Plásticas / Atelier Livre AT.RE
Papel, tinta, caneta e grafite. 21 × 29,5 cm. dezembro de 1989.
25 Pedro Morais, «Olhem o sol dia 1 de fevereiro (…)»
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. janeiro de 1989.
26 Pedro Morais, Edital — «Nada pode cobrir a nudez do fazer...»
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. s.d.
27 Pedro Morais, Edital — «Um pai tinha duas filhas...»
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. s.d.
28 Pedro Morais, Edital — «Mais importante do que andar é descalçar os sapatos»
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. s.d.
29 Pedro Morais, Missiva adiada
Papel e tinta. 21 × 29,5 cm. 1992.
Presidente da Câmara
Municipal de Almada e Pelouro da Cultura
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Chefe de Divisão do Centro de Arte Contemporânea
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Curadoria
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Produção e montagem
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Paulo Ramos
Comunicação
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Secretariado e apoio à direção
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Mário Rainha Campos
Sílvia Moreira
Centro de Documentação e Investigação Mestre
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Gestão das coleções
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Jardim Botânico
Sónia Francisco
Hugo Ribeiro
Frente de Casa
Anabela Almeida
Fernando Simões
Hélder Gonçalves
Júlia Garcia
Tatiana Marques
Victor Borges
Apoio geral
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Apoio à montagem
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Tradução
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Design gráfico
vivóeusébio
Produção de materiais gráficos
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Parceria
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HORÁRIO
De segunda a domingo. Encerra aos feriados.
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Horário de inverno 1 OUT – 31 MAR 10h15-17h30