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«Uma Coleção: onde o desenho acontece (1993–2025) / A Collection: where drawing happens (1993-2025)»

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O desenho tem vindo a constituir, e pensamos que cada vez mais nos nossos dias, uma disciplina das artes plásticas que tem ganho uma grande independência. Essa independência tem obrigado a reflectir sobre o desenho e um pouco, retrospectivamente, a procurar na própria história do desenho os alicerces do interesse que desenhar implica.

Rogério Ribeiro, Ver Desenho, 1988

ACERVO ARTÍSTICO MUNICIPAL

A coleção da Casa da Cerca começou a ser constituída com a doação de «Estudo para vendedora ambulante» de Maria Keil, em 1993, ano de abertura do Centro de Arte Contemporânea. Desde essa data, pretendeu-se reunir um conjunto de obras significativas e diferenciadoras na área do desenho, valorizando a sua importância e as suas características profundamente reveladoras, ainda que, à época, com escassa divulgação.

Com obras temporalmente situadas entre meados dos anos 50 e a atualidade, a coleção partiu deste núcleo inicial e foi-se alargando à pluralidade de suportes e técnicas que dão corpo à manifestação artística. Nos últimos anos, a Casa da Cerca –Centro de Arte Contemporânea assumiu, ainda, a responsabilidade pelo Acervo Artístico Municipal, aumentando, em quantidade e diversidade, as três centenas de obras já à sua guarda.

O Acervo é, atualmente, constituído por cerca de seis centenas de obras – abrangendo desenho, pintura, escultura, fotografia e gravura – da autoria de alguns dos mais expressivos nomes da arte contemporânea portuguesa: Alberto Carneiro, Ana Hatherly, Ana Vidigal, António Sena, Armando Alves, Carlos Nogueira, Catarina Domingues, Cisela Björk, Corpo Atelier, Cristina Ataíde, Diogo Pimentão, Domingos Rego, Fátima Pinto, Graça Pereira Coutinho, Gil Teixeira Lopes, João Vieira, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, Jorge Vieira, José Rodrigues, Júlio Pomar, Júlio Resende, Maja Escher, Manuel Valente Alves, Manuel Vilarinho, Maria Beatriz, Paula Rego, Pedro Barateiro, Pedro Calapez, Pedro Chorão, Pedro Saraiva, Pedro Vaz, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Rui Chafes, Rui Sanches, Ruth Rosengarten, Sérgio Vicente, Sofia Areal e Susanne Themlitz, entre outros.

Maria Miguel Cardoso

UMA COLEÇÃO: ONDE O DESENHO ACONTECE

(1993-2025)

«Uma Coleção: onde o desenho acontece (1993–2025)» parte da Casa da Cerca enquanto lugar — físico, simbólico e temporal — onde o desenho acontece. Mais do que um conjunto de obras,esta coleção resulta de uma prática continuada de atenção ao desenho como linguagem autónoma, campo de experimentação e forma de pensamento.

Com um sólido projeto cultural idealizado e concretizado por Rogério Ribeiro, a Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea afirmou-se desde o início como um espaço singular no panorama artístico português: um centro dedicado ao desenho, entendido não como etapa preparatória, mas como lugar de origem, de risco e de liberdade. A coleção que aqui se apresenta reflete essa visão inaugural e a sua continuidade, reunindo obras de diferentes gerações, abordagens e gestos, atravessadas por uma mesma insistência no traço, na linha e no tempo do fazer.

«Uma Coleção: onde o desenho acontece (1993–2025)» propõe, assim, um espaço de encontro entre artistas, obras e modos de desenhar, em que o desenho se afirma como prática viva e em permanente transformação. O lugar onde o desenho acontece não é apenas a folha ou a parede, mas também a instituição que o acolhe, conserva e reinscreve no presente, mantendo aberta a possibilidade de novas leituras, novos gestos e novas linhas.

A exposição organiza-se em quatro núcleos, nos quais as obras se aproximam por afinidades conceptuais, formais e temáticas. Trata-se de uma história possível e subjetiva da coleção — uma leitura, um olhar, um passeio por este conjunto de obras. Reunidas ao longo de mais de três décadas, estas obras contam também uma outra história da Casa da Cerca: uma história de relações, de cumplicidades e de apoio continuado ao trabalho dos artistas.

O primeiro núcleo intitula-se «Uma tentativa de escrita». Aqui, o desenho é pensado como gesto inaugural, próximo da escrita, do apontamento e da anotação. O traço aproxima-se da

UMA COLEÇÃO: ONDE O DESENHO ACONTECE (1993-2025)

linguagem: linhas que ensaiam significados, que murmuram, que se repetem ou se interrompem. O desenho surge como tentativa — nunca plenamente resolvida — de dizer, de registar, de pensar.

No segundo núcleo, «Linha-Corpo», o corpo surge como campo de inscrição do desenho: corpo observado, corpo vivido, corpo em movimento. Corpo linha, mancha, distendido e fragmentado, corpo gesto e corpo pulsão. O desenho é aqui pensado como prática física e sensível, em que o traço carrega a memória do gesto e a presença de quem desenha.

O terceiro núcleo, «Formas em estado nascente», reúne desenhos em que a figura emerge de forma crua, instintiva, por vezes frágil. O desenho é entendido enquanto processo de procura. A linha ou a mancha avançam como quem tateia a superfície, ensaiando percursos, acumulando gestos, descobrindo formas à medida que as inscrevem. Algumas dessas formas parecem suspensas no tempo, quase arcaicas ou intemporais; outras inscrevem-se em territórios inesperados, onde o desenho convoca o estranho, o onírico e o desvio.

Por fim, no último núcleo, «Habitar a Linha», o desenho expande-se e torna-se território, horizonte, espaço. A paisagem não surge apenas como representação do real, mas também como construção mental, emocional ou sensorial. Linhas que acumulam, percorrem, delimitam ou se perdem, desenhando lugares que existem entre a memória e a imaginação.

Esta exposição é, simultaneamente, uma despedida, um agradecimento e uma homenagem. Uma despedida de oito anos de trabalho enquanto curadora e programadora da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea; um agradecimento a todos os artistas com quem tivemos o privilégio de trabalhar ao longo deste período, bem como às equipas que, com empenho e profissionalismo, tornaram possível a concretização das muitas exposições realizadas. Um agradecimento muito especial à equipa da Casa da Cerca, parceiros e companheiros fundamentais deste percurso. À Exma. Senhora Presidente da Câmara Municipal de Almada, fica um reconhecimento particular pelo convite feito há oito anos, pelo desafio lançado e pela confiança depositada numa visão e num projeto.

UMA COLEÇÃO: ONDE O DESENHO ACONTECE (1993-2025)

Por fim, é uma homenagem à Casa da Cerca — este lugar singular, casa do desenho e espaço aberto ao mundo — com a confiança de que continuará a afirmar-se como território de experimentação, de acolhimento e de futuro para o desenho. Esta exposição assinala o fecho de um ciclo e a abertura de um novo tempo: uma página que se conclui para que outras possam ser escritas.

UMA COLEÇÃO: ONDE O DESENHO ACONTECE (1993-2025)

Filipa Oliveira

Drawing has become, and we think increasingly so nowadays, a discipline of the visual arts that has gained a great deal of independence. This Independence has forced us to reflect on drawing and, a little retrospectively, to look to the history of drawing itself for the foundations of the interest that drawing implies.

Rogério Ribeiro, Ver Desenho, 1988

MUNICIPAL ART COLLECTION

Casa da Cerca collection began with the donation of the artwork “Study for a street vendor” by Maria Keil, in 1993, the opening year of the Contemporary Art Centre. From the outset, the aim was to assemble a group of significant and distinctive works in the field of drawing, foregrounding its importance and its profoundly revealing qualities — despite, at the time, its limited public visibility.

Spanning works produced from the mid 1950s to the present, the collection grew from this initial nucleus and gradually expanded to embrace the wide variety of supports and techniques that constitute contemporary artistic practice. In recent years, Casa da Cerca – Contemporary Art Centre has taken on responsibility for the Municipal Art Collection, enriching — both in scale and in diversity — the three hundred works already at its care.

Today the Collection contains around six hundred works — including drawing, painting, sculpture, photography, and printmaking — by many of the most prominent figures in contemporary portuguese art, among them Alberto Carneiro, Ana Hatherly, Ana Vidigal, António Sena, Armando Alves, Carlos Nogueira, Catarina Domingues, Cisela Björk, Corpo Atelier, Cristina Ataíde, Diogo Pimentão, Domingos Rego, Fátima Pinto, Graça Pereira Coutinho, Gil Teixeira Lopes, João Vieira, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, Jorge Vieira, José Rodrigues, Júlio Pomar, Júlio Resende, Maja Escher, Manuel Valente Alves, Manuel Vilarinho, Maria Beatriz, Paula Rego, Pedro Barateiro, Pedro Calapez, Pedro Chorão, Pedro Saraiva, Pedro Vaz, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Rui Chafes, Rui Sanches, Ruth Rosengarten, Sérgio Vicente, Sofia Areal e Susanne Themlitz, and others.

Maria Miguel Cardoso

A COLLECTION: WHERE DRAWING HAPPENS (1993-2025)

“A Collection: where drawing happens (1993–2025)” takes Casa da Cerca as a site — physical, symbolic, and temporal — where drawing happens. More than a simple gathering of works, the collection is the outcome of a sustained attentiveness to drawing as an autonomous language, a field of experimentation, and a mode of thought.

Established through a cultural project envisioned and realised by Rogério Ribeiro, Casa da Cerca – Contemporary Art Centre affirmed itself from the outset as a singular presence within the Portuguese artistic landscape: a centre dedicated to drawing, not as a preparatory stage, but as a place of origin, of risk, and of creative freedom. The collection presented here reflects that founding vision and its continuity, bringing together works from different generations, approaches and gestures, united by a shared insistence on the trace, the line, and the temporal dimension of making.

This exhibition proposes a space of encounter between artists, works, and ways of drawing, in which drawing emerges as a living practice in constant transformation. The place where drawing happens is not only the sheet of paper or the wall; it is also the institution that welcomes, preserves, and rewrites it in the present, sustaining the possibility of new readings, new gestures, and new trajectories.

Organised into four thematic sections, the exhibition offers a possible and necessarily subjective narrative of the collection — a reading, a viewpoint, a meander through these works. Brought together over more than three decades, they also recount another history of Casa da Cerca: a history of relationships, affinities, and ongoing support for artistic practice.

The first section is entitled “An attempt at writting”. Drawing is approached here as an inaugural gesture: close to writing, note taking, and annotation. The line approximates language

— lines that test meaning, that murmur, repeat or rupture. Drawing appears as an attempt, never fully resolved, to articulate, to record, to think.

The second section, “Line - Body”, takes the body as a site of inscription: the observed body, the lived body, the moving body. Body as line, body as stain, stretched and fragmented, body gesture, body impulse. Drawing becomes a physical and sensorial practice, in which the trace carries the memory of the gesture and the presence of the maker.

“Nascent forms” is the title of the third section and gathers drawings in which the figure emerges in raw, instinctive, and at times fragile ways. Drawing is presented as a process of searching. Line or stain moves forward like a hand feeling its way, testing paths, accumulating gestures, discovering forms as it traces them. Some forms seem suspended in time, almost archaic; others inhabit unexpected territories where the strange, dreamlike or uncanny comes into view.

In the final section “Inhabit the line” drawing expands into territory, horizon, and space. Landscape appears not merely as representation but as a mental, emotional, or sensory construction. Lines accumulate, traverse, delimit or dissolve, generating places situated between memory and imagination.

This exhibition is at once a farewell, a gesture of gratitude, and a tribute. A farewell to eight years of work as curator and programmer of Casa da Cerca – Contemporary Art Centre; a thank you to all the artists with whom we had the privilege to collaborate, and to the teams who, with professionalism and commitment, made possible the many exhibitions realised. A special expression of gratitude is due to the Casa da Cerca team — dear and vital companions in this journey — and to the Honourable Mayor of Almada, for the invitation extended eight years ago, for the challenge offered, and for the trust placed in a vision and a project.

Above all, this exhibition is a tribute to Casa da Cerca — this singular place, home of drawing and open to the world — with

the confidence that it will continue to assert itself as a territory of experimentation, hospitality, and future for drawing. This exhibition marks the closing of one cycle and the opening of another: the conclusion of a page that allows new ones to be written.

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«Uma Coleção: onde o desenho acontece (1993–2025) / A Collection: where drawing happens (1993-2025)» by Câmara Municipal de Almada - Issuu