Fraudes, Aldrabices e outras Parvoíces

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Fraudes, Aldrabices e outras Parvoíces penso, logo questiono

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Evite ser enganado. Encare os novos e maravilhosos/terríveis produtos/serviços/notícias com espírito crítico “Extraordinary claims require extraordinary evidence” “Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias” Carl Sagan (1934 - 1996)

“Anda meio mundo a enganar outro meio” é uma expressão que todos conhecemos e que, apesar de largamente exagerada, contém alguma verdade, já que somos constantemente confrontados com falsas notícias, falsas soluções e o mais grave, falsos medicamentos, que temos tendência para aceitar como verdadeiros sem pensar duas vezes. Fazêmo-lo porque duvidar dá trabalho: É preciso perceber do que se fala, é preciso perceber os argumentos apresentados, é preciso ter argumentos para contra-argumentar, é preciso perder tempo, e claro, é preciso pensar! Além disso, muitas vezes o que é exposto é algo em que queremos acreditar ou que temos tendência para aceitar como verdadeiro (regra geral, as crianças acreditam em tudo, os adultos acreditam em tudo o que vá de encontro àquilo em que já acreditam). Esta tendência para acreditar, esta falta de espírito critico, torna-nos vulneráveis a vigarices e à manipulação da nossa opinião, havendo até quem classifique isso como uma forma de iliteracia1. Quer dar uso útil ao seu cérebro? Largue o sudoku e duvide, questione e converse. É mais útil e mais interessante. Mas atenção: Não comece a questionar tudo e todos, comece por questionar em doses suaves e só o que vale a pena! Não sabe por onde começar? Comece por aqui: 1. Questione o Seu Juízo Todos temos ideias pré-concebidas que aplicamos ao avaliar novas informações. É algo a que não podemos escapar, mas que podemos minorar se estivermos conscientes desse facto. Por exemplo, muitas pessoas têm má opinião da classe política; como tal, mais depressa aceitam e acreditam numa notícia que confirme essa opinião do que numa que a desminta2. Mas há pior, vamos mesmo ao ponto de fazer avaliações completamente tendenciosas para favorecer as nossas crenças ou interesses, como por exemplo quando analisamos uma jogada de penalti contra o nosso clube em que “teimamos” em não ver a falta óbvia3. REGRA

2. Questione o Seu Raciocínio O nosso cérebro é fantástico, mas não é perfeito. Comete muitos erros sobejamente conhecidos, estudados e aproveitados pelas equipas de vendas para nos “forçarem” a tomar decisões que não são do nosso interesse. Por exemplo, é sabido que a maioria das pessoas raramente escolhe o prato mais caro num restaurante; uma maneira simples de o fazer sair mais é... colocar outro ainda mais caro na ementa.

Pode facilmente comprovar o problema das falhas de comunicação com o “jogo do telefone sem fios” em que uma pessoa conta um pequeno acontecimento ao ouvido de outra. A mensagem vai sendo passada por várias pessoas; a última revela o que ouviu e, regra geral, a mensagem é completamente diferente da inicial (que convém estar escrita).

5. Questione Quem Vende

Somos constantemente enganados pelos anúncios a produtos que se apresentam com propriedades que não têm, assediados com relações inexistentes (carro X  parceiro sexual fabuloso; cerveja Y  muitos, bonitos e animados amigos) e DE OURO confundidos com publicidade disfarçada de informação. Quem vende um produto Se algo parece bom demais para ser verdade, não é a pessoa certa para lhe falar dele, o mais provável é ser falso. seja a marca de lacticínios que vende Não existem soluções milagrosas para os problemas e iogurtes que ajudam na defesa do não existem conspirações para nos ocultarem soluções organismo5, seja o treinador do seu fáceis e/ou baratas. ginásio a vender pulseiras milagrosas6, Existem, sim, pessoas sem escrúpulos que ganham seja a revista que está na farmácia7 a dinheiro à custa dos problemas alheios. explicar como perder peso. Aplique com Se lhe apresentarem um produto “fabuloso” NÃO abundância a Regra de Ouro. Já agora, compre sem antes falar com outras pessoas, de não se esqueça que as “estrelas” são preferência com alguém que seja entendido no pagas para promover os produtos e que a assunto. única conclusão garantida a tirar é que vai ter de pagar o cachê delas quando comprar esses produtos.

3. Questione a Sua Memória Lembramo-nos dos acontecimentos que confirmam as nossas convicções e esquecemos os que as contrariam. Essa característica do cérebro é aproveitada pelos astrólogos e videntes no geral. É comum, nas chamadas artes divinatórias, “bombardear” os clientes com informações, na esperança de acertar em algum facto, sabendo que o cliente vai esquecer as informações erradas e recordar as outras4. O mesmo acontece quando uma pessoa nos telefona e estamos a pensar nela; ficamos muito entusiasmados com a ideia de termos “sentido” que ela nos ia telefonar, mas esquecemo-nos de todas as vezes em que pensámos nela e ela não telefonou e das outras em que telefonou e não estávamos a pensar nela.

6. Questione Truques de Circo

Ficou surpreendido com uma demonstração/previsão/”capacidade”? Não se deixe enganar, existe sempre uma explicação lógica e racional para o que viu ou ouviu, e na maioria dos casos são extremamente simples. Muitos dos truques exploram as “falhas” do cérebro apresentadas neste folheto. Os videntes e/ou mágicos, por exemplo, são especialmente versados na arte de nos manipular, fazer-nos dar-lhes informação sobre a nossa vida e fazernos crer que foram eles que adivinharam8. Noutras situações, o que é feito 4. Questione os Outros não é o que parece, como é o Estórias pessoais não servem para confirmar teorias. Os caso da demonstração de fantasmas não existem só porque o seu primo diz que viu um ou, equilíbrio das pulseiras Power pior ainda, conhece alguém que diz que viu um. É normal uma Balance9. pessoa não ter os factos todos dos acontecimentos que está a Viu algo que o surpreendeu e que relatar e preencher as falhas com as ideias pré-concebidas que julga que desafia o racional? Procure tem sobre o assunto. Além disso, “quem conta um conto na Internet que encontra a Se o que lhe contam não lhe parece credível, não se acanhe: acrescenta um ponto” e quando a estória lhe chegar aos explicação (ver caixa Internet). diga o que pensa, questione, argumente. ouvidos vai seguramente ser diferente do original.

Folheto : http://pt.scribd.com/doc/58930955/  Série penso, logo questiono : http://pt.scribd.com/my_document_collections/3114746 Cláudio Tereso, Marinha Grande, Portugal claudio@claudiotereso.com, http://fun.claudiotereso.com

V1.1 201107242030


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