Ninfas Virgens

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DA MESA DO DIRECTOR

Ninfas Virgens J. Norberto Pires norberto@robotics.dem.uc.pt Departamento de Engenharia Mecânica, Universidade de Coimbra

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ortugal é por excelência um país de sonhadores inconsequentes, apesar do esforço que colocamos nas coisas. Somos um povo maravilhoso em muitos aspectos, mas é verdadeiramente assombroso como conseguimos chegar até aqui como povo e como país independente. Não considerem este texto um insulto, mas leiam e pensem se não terei razão. A grande maioria dos portugueses vive na esperança de um golpe de asa, de uma sorte fortuita que mude completamente a sua vida. Sonham com essa mudança mas sem serem verdadeiramente consequentes; os dias passam, uns atrás dos outros. As excepções confirmam a regra. Elevamos a heróis pessoas que tiveram “essa sorte”, e fazemos deles o nosso modelo. A vida é difícil, dirão muitos, e exige esse dia-a-dia porque há contas para pagar, etc. O país é a imagem dos cidadãos. Já repararam que nenhum partido, ou político, define aquilo que quer que o país seja? Já repararam que ninguém faz planos? Como pode uma pessoa ou um país evoluir se não tem objectivos? Queremos ser o quê? Ir para onde? Quais são os nossos objectivos a curto, médio e longo prazo? Como se pode gerir um país sem fazer a mínima ideia disso? Um país é como uma grande empresa. A nossa grande empresa chama-se Portugal. Tem recursos e potencialidades, mas também compromissos e enormes dificuldades de vária ordem. Se Portugal é uma empresa, então qual é o nosso produto? Isto é, o que é que produzimos? Pode ser definido de várias formas, mas eu diria, se fosse gestor desta grande empresa, que o produto é o “bem-estar” dos cidadãos nacionais, isto é, a forma como eles vivem e se relacionam com os outros povos. Em termos práticos é aquilo que ganham por mês, a sua realização profissional e pessoal, a forma como passam este curto período de tempo em que estamos vivos, mas também aquilo que deixam para o futuro e que define um povo. Portanto, o nosso objectivo, diria eu, seria equiparar o bem-estar nacional, ou seja, o nosso produto, ao bem-estar dos melhores países do

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mundo. Como vamos atingir esse objectivo? Será este um verdadeiro objectivo capaz de unir o país para o atingir? Porque sem objectivos é impossível reformar o país. Continuaremos com a educação que temos, que é um desastre quase completo; que continua a aniquilar gerações sucessivas de jovens portugueses. Como é possível ter as taxas de insucesso e abandono escolar que temos? Como é possível continuar com as dificuldades a matemática, física e português? A única forma que os países “ricos” têm de competir com os países de baixos salários é apostar na sua capacidade de inovar. De criar novos produtos, novas formas de produzir, mais eficientes, de maior qualidade. É apostar na sua capacidade de colocar conhecimento e ciência ao serviço dos outros. Mas como fazer isso sem uma educação forte? Como é possível inovar se destruímos gerações de jovens, não cuidando a sua educação e não sendo exigentes com ela? Como podemos depois pedir que sejam, quando adultos, os “motores” da inovação? Só por um golpe de sorte isso acontecerá, por milagre, ou acreditando em excepções que existem sempre mas nunca serão suficientes. Só idiotas inconsequentes dependem da sorte. Como podemos pensar que todos pagarão os impostos devidos, se não existe um objectivo nacional, e se todos verificamos diariamente os maus exemplos de desperdício e má gestão por parte de quem nos deveria gerir? Para que serve a investigação e desenvolvimento (I&D) que se faz em Portugal, se só uma pequena parte tem reflexo na vida das pessoas? Não deveríamos ter um plano, envolvendo nisso todo o país? Não é esse um dos nossos maiores recursos que tem de ser acarinhado e desenvolvido? Não devemos ser exigentes com ele em termos de resultados práticos, no seu reflexo na vida das pessoas? Se Portugal é uma empresa, então os seus recursos de I&D são fundamentais, mas qual é a empresa que investe em I&D se esses esforços não têm uma influência directa no seu produto? E o nosso produto é o bem-estar nacional, certo? Como é possível ter empresas que sistematicamente não apresentam resultados positivos? Como é possível ter empresas que não apostam em si próprias, em tecnologia e inovação, ou estão em Portugal só pelos salários ou pelos benefícios fiscais ou outros? Para que servem se não trazem tecnologia, deixando no seu lugar um enorme vazio quando finalmente se vão embora depois de os benefícios deixarem de ser importantes? É nesse tipo de investimento estrangeiro que devemos apostar? Serve o nosso objectivo de longo prazo, isto é, o bem-estar dos portugueses? Porque não acarinhamos a formação de empresas de base tecnológica? Com menos impostos, com facilidades de crédito, com apoios estatais, sendo depois muito exigentes nos resultados? Porque não acarinhamos as empresas que exportam a sua produção? Diminuindo-lhes os impostos, porque estão a fazer bem, apoiando a sua promoção internacional e apresentando-as como modelos a seguir. Isso é que deve ser destacado. Porque apontamos com inveja quem teve sucesso, pelo seu trabalho e pela sua actividade, numa tentativa nacional de nivelar por baixo, quando deveria ser exactamente o contrário. Deveriam ser os nossos modelos. Porque insistimos em viver sem objectivos, ao sabor do vento, sem rumo, na vã esperança de encontrar uma ilha deserta onde vivem as ninfas virgens e a nossa felicidade?

Porque pensamos que isto é sustentável?


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