DA MESA DO DIRECTOR
A Física, a Matemática, a Engenharia e o nosso Futuro J. Norberto Pires norberto@robotics.dem.uc.pt Departamento de Engenharia Mecânica, Universidade de Coimbra
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Física e a Matemática são a ciência e a linguagem da natureza. Não as conhecer bem significa não perceber o que a natureza nos diz, e compreender mal os seus mecanismos; e isso só pode ter maus resultados. Da forma como vejo o futuro a médio e longo prazo, o modelo de desenvolvimento que temos seguido em termos nacionais e até europeus está esgotado, e em certo medida é uma ratoeira perigosa. Se não, vejamos, pensando em termos europeus (que me parece ser o que faz mais sentido): A Europa com a União Europeia tem orgulho no seu modelo civilizacional, e tenta “exportá-lo” para os outros locais do mundo de duas formas complementares: alargando as suas fronteiras e exercendo alguma atracção pela divulgação do modelo de vida europeu. Um modelo que oferece um razoável modo de vida, com regras de trabalho, bons salários, bom nível educacional, segurança, protecção social, igualdade de direitos, um certo modelo de justiça que funciona como garantia de equidade, etc. Isso significa uma certa organização social e a aceitação de regras que no essencial exigem um enorme esforço financeiro: pedido aos cidadãos nos impostos cobrados a empresas e indivíduos na sua vida diária. Ou seja, a nossa organização tem um preço, que pagamos de bom grado até porque queremos evitar desastres como foram as grandes guerras, certos sistemas políticos totalitários, etc. No entanto, isso tem ainda um outro preço. Aquilo que produzimos na Europa não é concorrencial relativamente a países que não seguem as mesmas regras, isto é, a nossa procura por uma vida melhor torna-nos mais frágeis relativamente a países que usam mão-de-obra barata, exploram o trabalho, ignoram a protecção social, o ambiente, os cuidados de saúde, etc. Esses países conseguem produzir o mesmo que nós mas mais barato, o que numa lógica de mercado aberto é muito problemático. Por isso, grandes indústrias europeias têm deslocado meios de produção para fora da Europa, para esses locais de menores custos laborais e de contribuição social, tentando “gozar” dos mesmos privilégios. Tem acontecido isso com os têxteis, calçado, metalomecânica
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Só existe em minha opinião uma forma de contrariar este aparente beco sem saída, pois o retrocesso em termos de organização social não é desejável nem um bom exemplo para os outros. É apostar em nós próprios, naquilo que sabemos e podemos fazer, aproveitar as condições que criamos para potenciar o nosso desenvolvimento futuro.
pesada, mobiliário, cerâmica, e de uma maneira geral com qualquer tipo de indústria que não exija tecnologia e, consequentemente, possa manter-se competitiva, em termos de preços e qualidade, pela diferença de custo da mão-de-obra. Mesmo as indústrias que exigem tecnologia especializada já estão instaladas nesses países, pois a tecnologia adquire-se, e existem ganhos a explorar na menor exigência de protecção social e do trabalho: por exemplo, a China já produz componentes electrónicos com o mesmo nível de exigência dos produzidos na Europa, nos EUA ou em Taiwan (importaram a tecnologia de circuito impresso de alta precisão, bem como de produção de componentes de silício, estando já a produzir componentes de idêntica qualidade). Isto tem efeitos devastadores na Europa, porque diminui o emprego, diminuem os impostos pagos pela actividade industrial e laboral, diminui a nossa segurança, funcionando contra o modelo que pretendemos construir e desenvolver. Parece que estamos a entrar de forma voluntária numa ratoeira: fizemos um esforço sério de evolução, construímos um modelo social com base no nosso sucesso, com isso atingimos patamares de civilização mais evoluídos e mais próximos da condição humana, mas no processo perdemos a competitividade relativamente àqueles que estão em estágios de organização social inferiores. Só existe em minha opinião uma forma de contrariar este aparente beco sem saída, pois o retrocesso em termos de organização social não é desejável nem um bom exemplo para os outros. É apostar em nós próprios, naquilo que sabemos e podemos fazer, aproveitar as condições que criamos para potenciar o nosso desenvolvimento futuro. Ora isto tem muito a ver com a matemática, a física e respectivo ensino. As pessoas que saem da universidade não podem ser somente utilizadores de tecnologia. Muita gente, nomeadamente em meios políticos, confunde a utilização de tecnologia com inovação e transformação. A condição é necessária, mas não suficiente. Para verdadeiramente inovar, é necessário que os agentes de transformação, os licenciados, mestres e doutores, sejam “motores” e não “utilizadores”. E é necessário que isso seja a regra, e não a excepção. Um agente “utilizador” precisa de um manual de instruções para utilizar, e desde que leia bem o manual (admitindo que foi bem escrito), utiliza bem, pelo que tem sucesso na sua perspectiva. Um agente “motor” utiliza tecnologia, e desenvolve soluções, para produzir melhor, para inventar novos produtos, para descobrir mercados, para incorporar ciência e assim inovar na sua área de actividade. Ou seja, o seu sucesso está para além da boa utilização, mas tem a ver com inovação, transformação,