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DIGNUS nº2

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Sumário | 1

NESTA EDIÇÃO A Hidratação no Idoso

DOSSIER PERTURBAÇÕES COGNITIVAS E ENVELHECIMENTO

Sexualidade e envelhecimento

P.14

P.16

P.58

NUTRIÇÃO

ÍNDICE 02 Editorial Perturbações cognitivas: o Estado da Arte 03 Nota Introdutória Um desafio editorial nas áreas de Geriatria e Gerontologia 04 Espaço ERPIS O papel do Centro de Dia na ocupação dos utentes: Boas práticas (2.ª Parte) 07 Espaço Associação Coração Amarelo D. Amélia e o envelhecimento ativo 08 Espaço RUTIS “Walking football” 09 A Voz de 09 A importância da formação na sustentabilidade das organizações sociais e adequabilidade às necessidades da sociedade 12 Cuidadores Formais 14 Nutrição A hidratação no idoso 16 Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento 16 O que é a Demência? 18 Demência Vascular 21 Demência de Corpos de Lewy 24 Transtorno neurocognitivo: quais são as implicações? 28 Demências Tratáveis 31 Demência Fronto-Temporal: uma revisão clínica 37 Doença de Alzheimer 39 Demência Alcoólica (Síndrome de Korsakoff)

SEXUALIDADE

40 Case Study Brincoterapia, uma atividade que tem décadas mas está a ser omitida 43 Reportagem 43 Ageing Congress: Coimbra recebeu o maior evento sobre a temática do envelhecimento em Portugal e demência 46 3.º Congresso Nacional do Idoso: o futuro do envelhecimento em debate 48 Entrevista 48 Ruy de Carvalho: “O espírito não tem rugas” 52 Ricardo Pocinho: “Qualquer país que não respeite os mais velhos é um país sem memória” 54 José Salgado-Borges: “A visão é muito importante, mas temos que a integrar com todos os outros sentidos” 56 Mente Ativa Corpo Ativo Brincoterapia, uma atividade que tem décadas mas está a ser omitida 58 Sexualidade Sexualidade e envelhecimento 61 E Depois Intervenção com pessoas em fim de vida: Desafios profissionais na área da Gerontologia 65 Informação Técnico-Comercial 65 OldCare: Cuidados geriátricos nos genes 66 Segurança em primeiro lugar: uma casa à prova de quedas: A Stannah pode ajudar! 68 Notícias 71 Atividades 72 Bibliografia


2 | Editorial

Perturbações Cognitivas o Estado da Arte

FICHA TÉCNICA DIGNUS 02 3.º trimestre

Cláudia Guedes da Costa Diretora

“Os aspetos da cognição mais comummente associados ao envelhecimento são a memória, as funções executivas, a atenção e a velocidade no processamento da informação.”

(*)

Birren, J., Cunningham, W., (1985) “Research on the psychology of aging: principles, concepts and theory”

Caríssimo leitor, O envelhecimento ostenta novos e vários desafios. O esquissar de respostas face às necessidades que urgem, alertam-nos para a reavaliação do paradigma impetuoso da sociedade perante os mais velhos. Há um envelhecer sadio e outro patológico. Os limites entre ambos não são evidentes. Enquanto o envelhecimento normal permite alcançar uma idade avançada com o uso repleto das capacidades mentais, com o envelhecimento patológico não acontece o mesmo. Assim, à medida que aumenta a esperança de vida também aumentam as patologias relacionadas com o envelhecimento. Em 1985, Birren & Cunningham distinguiram três tipos de envelhecimento, o primário, o secundário e o terciário(*). Assim, a 2.ª edição da revista “Dignus” será dedicada ao envelhecimento secundário sob o tema “Peturbações Cognitivas e Envelhecimento”, sugerido pelo ilustríssimo Prof. Doutor Horácio Firmino. O envelhecimento secundário ou patológico relaciona-se com as alterações geradas por doenças associadas ao envelhecimento, alheio aos processos biológicos naturais. Os aspetos da cognição mais comummente associados ao envelhecimento são a memória, as funções executivas, a atenção e a velocidade no processamento da informação. Os primeiros a aparecer e os mais pérfidos e graves, são os problemas da memória, um mecanismo fisiológico ainda pouco aclarado. A memória é a capacidade para reter a informação adquirida e pode ser definida, de uma forma geral, em memória a curto prazo e memória a longo prazo. Em lato sensu, a memória a longo prazo, revela-se consideravelmente resistente aos efeitos do envelhecimento, efeito esse que podemos verificar quando um idoso tem memória de acontecimentos da infância, mas não se lembra o que fez na semana anterior. As funções executivas constituem um conjunto de habilidades cognitivas que permitem ao indivíduo regular o comportamento, o pensamento e as emoções. O seu estudo pode anteceder os declínios de memória e ajudar a diferenciar os idosos sem patologia dos idosos com défice cognitivo ligeiro. A atenção é um fenómeno no qual o ser humano processa intensamente uma certa quantidade de informação e o seu enfraquecimento, especialmente a capacidade para reter uma adequada focalização, está normalmente associado às transformações degenerativas que aparecem no lobo frontal durante o processo de senescência. A velocidade de processamento é uma habilidade cognitiva que pode ser explicada como o tempo decorrido entre a receção do estímulo visual, auditivo ou de movimento e a resposta ao mesmo. O mecanismo da diminuição da velocidade de processamento assume que, à medida que a idade progride, há uma redução na celeridade com que muitas operações cognitivas são executadas e consequente défice no funcionamento cognitivo. A progressão da longevidade e dos aspetos patológicos a ela intrínsecos tornam este fenómeno uma questão de estudo atual, que merece uma reflexão mais percuciente nesta 2.ª edição da revista Dignus.

DIRETORA Cláudia Guedes da Costa · claudia.dignus@gmail.com

CONSELHO EDITORIAL Ana Araújo, Ana Isabel Martins, Ana Monteiro, António Palha, Carlos Wehdorn, Cláudia Moura, Elisa Serôdio, Filipa Menezes, Helena Costa, Horácio Firmino, Ilda Gois, Janinéri Cordeiro, Joana Monteiro, Joana Sousa, José Manuel Silva, José Reis, José Canas da Silva, Luís Jacob, Madalena Pinto, Manuel Viana, Márcio Vara, Margarida G. Resende, Ricardo Pocinho, Sandra Penêda Patrício, Sérgio Ferreira

CORPO EDITORIAL Diretor Executivo: Júlio Almeida T. +351 225 899 626 · julio.almeida@dignus.pt Marketing: André Manuel Mendes · geral@dignus.pt Redação: Helena Paulino,T. +351 220 933 964 · redacao@dignus.pt

DESIGN E WEBDESIGN Ana Pereira · a.pereira@cie-comunicacao.pt · T. +351 225 934 633

ASSINATURAS T. +351 220 104 872 · assinaturas@booki.pt · www.booki.pt

COLABORAÇÃO REDATORIAL António Pacheco Palha, Horácio Firmino, José Manuel Silva, Carla Ribeirinho, Luís Jacob, Ricardo Pocinho, Vânia Beliz, Mónica Teixeira, Ana Soares, Catarina Teixeira, Maria Helena Cadete, Cristóvão Margarido, Rui Santos, Vanessa Póvoa, Pedro Carrana, Alexandra Rodrigues, Adriano Sousa, Susana Arranhado, Carolina Lopes, Madalena Pinto, Mafalda Barbosa, Joel Brás, Mariana Pinheiro, Mafalda Silva, Luís Ribeiro, Ana Monteiro, Joana Raposo Gomes, Rui Ribeiro, Bruno Trindade, Marisa Galante, Sandra Silva, Marta Almeida

PROPRIEDADE, REDAÇÃO E EDIÇÃO CIE - Comunicação e Imprensa Especializada, Lda.® Empresa jornalística Reg. n.º 223992 NIPC: 509 870 104 Grupo Publindústria Praça da Corujeira, 38, Apartado 3825, 4300-144 Porto T. +351 225 899 626/8 geral@cie-comunicacao.pt · www.cie-comunicacao.pt

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Júlio António Martins de Almeida (gerente)

DETENTORES DE CAPITAL SOCIAL Júlio António Martins de Almeida (40%) António da Silva Malheiro (30%) Publindústria – Produção de Comunicação, Lda. (30%)

PUBLICAÇÃO PERIÓDICA Registo n.º 127253 Depósito Legal: 461353/19 Tiragem: 5000 exemplares Periodicidade: Trimestral INPI: 602419

IMPRESSÃO E ACABAMENTO acd print Rua Marquesa d´Alorna, 12 A | Bons Dias, 2620-271 Ramada

Estatuto editorial disponível em www.dignus.pt

Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.


Nota Introdutória | 3

8P GHVDùR HGLWRULDO nas áreas de Geriatria H *HURQWRORJLD

S António Pacheco Palha Psiquiatra e Professor Catedrático da Fac. de Medicina da Universidade do Porto

aúdo com expetativa o aparecimento de uma nova revista técnica de Geriatria e Gerontologia, de nome “Dignus”, que pretende cobrir uma importante área do ciclo da vida humana, aquela que constitui a sua etapa final. Trata-se de um período de grande importância social onde a saúde física e mental tem grande relevância pois devemos enquadrá-lo dentro dos atuais conceitos de envelhecimento ativo com êxito feliz. É natural que um desafio editorial desta natureza, que irá cobrir o envelhecimento nos seus múltiplos aspetos, representa um importante risco; estou certo que com o empenho de um excelente conselho científico e editorial tal desafio será vencido. Não devemos esquecer a variedade e grandeza das matérias cobertas pela Geriatria e Gerontologia que vão desde a epidemiologia, a clínica e, também, os modernos estudos experimentais sobre os mecanismos biopsicológicos do envelhecimento até às áreas deficitárias do comportamento, com novas técnicas com influência sobre funções sensoriais e motoras. Desejo que esta iniciativa tenha êxito e que contribua para uma permanente atualização dos que se dedicam à Geriatria e Gerontologia.

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“Trata-se de um período de grande importância social onde a saúde física e mental tem grande relevância pois devemos enquadrá-la dentro dos atuais conceitos de envelhecimento ativo com êxito feliz.”


4 | Espaço ERPIS

2 SDSHO GR Centro de Dia na ocupação dos utentes Boas práticas » 2.ª Parte 1

Mónica Teixeira, 2Ana Soares e 3Catarina Teixeira

1

Diretora de serviços do Centro de Apoio Social

de Vila Nova de Monsarros 2

Equipa técnica do Centro de Apoio Social

de Vila Nova de Monsarros 3

Gerontóloga

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Planificação das atividades no Centro de Dia Tendo em conta o supramencionado, por Benet (2002), consideramos pertinente divulgar o nosso contributo, enquanto instituição, e enquanto profissionais, no que diz respeito à dinamização das atividades de ocupação em Centro de Dia. O sucesso na dinamização de atividades, significativas para os utentes, tem por base uma avaliação integral do individuo, através da recolha do maior número de informações relacionadas com o mesmo (passado, presente e aspirações futuras). Devendo ter em consideração fatores como: a idade (funções biológicas e sociais do indivíduo), família, educação, emprego, acontecimentos significativos para a pessoa em particular, interesses, aspirações, capacidades/limitações dos indivíduos, entre outros. Tende a ser fundamental manter um equilíbrio entre as potencialidades e as limitações (inevitáveis no processo de envelhecimento) e que para tal seja possível é necessário desenvolver/promover a aceitação das limitações. O sucesso da aceitação passa por, entre outras, potenciar as capacidades dos utentes, de modo a permitir a vivência des-

ta etapa de vida de um modo mais positivo, para o próprio idoso e para os outros que o rodeiam. O objetivo primordial da intervenção no âmbito da ocupação é conseguir proporcionar aos utentes um envelhecimento bem-sucedido, tendo por base o modelo da otimização seletiva com compensação proposto por Baltes e Baltes (1991). Deste modo, para o referido modelo, o envelhecimento bemsucedido baseia-se na seleção de metas, otimização dos meios para atingir essas metas e procura de compensações quando os meios disponíveis para atingir as metas estiverem ausentes. Os autores referem, ainda, que a definição inclusiva de envelhecimento bem-sucedido, com base na interação destes três mecanismos, requer uma análise conjunta de indicadores de natureza objetiva e subjetiva, por meio dos quais seja possível compreender a variabilidade interindividual a todo o momento observada nos idosos, em termos de interesses, valores, saúde, recursos disponíveis, capacidades de realização, entre outros. Para Freund e Baltes (1998), a seleção é considerada como uma orientação para o desenvolvimento, através da definição de objetivos e resultados de-

sejáveis. A otimização quer dizer aquisição, aplicação, coordenação e manutenção de recursos internos e externos envolvidos no alcance de níveis mais altos de funcionamento. Pode ser realizada mediante a educação, a prática e o suporte social dirigidos à cognição, à saúde, à capacidade atlética e às habilidades artísticas e sociais. Já a compensação envolve a adoção de alternativas para manter o funcionamento como sejam: o uso de aparelhos auditivos, uso cadeira de rodas, a utilização de pistas visuais para compensar problemas de orientação espacial, entre outros. Em cada caso de envelhecimento bemsucedido, existe uma apropriação criativa, individualizada e socialmente apropriada, dos mecanismos de seleção, otimização e compensação por isso, cabe aos técnicos através de ações direcionadas à individualidade de cada utente, o encaminhamento/ incentivo para a sua aplicação. Este modelo tem demonstrado ter efeitos positivos na satisfação com a vida e na qualidade de vida das pessoas idosas (Ouwehand, De Ridder & Bensing, 2007). Ao atingirem estados de crescente vulnerabilidade, as pessoas idosas recorrem a


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“O sucesso na dinamização de atividades, significativas para os utentes, tem por base uma avaliação integral do individuo, através da recolha do maior número de informações relacionadas com o mesmo (passado, presente e aspirações futuras).”

meios externos (humanos, materiais e institucionais), no sentido de compensar essa vulnerabilidade e, ao fazê-lo, acabam por desenvolver novos valores, novos comportamentos, novas competências, resultando daí uma capacidade adaptativa mais elevada. Com base no modelo teórico anterior tentaremos expor a experiência empírica diária ao nível das atividades de ocupação num Centro de Dia, tendo como conteúdo inicial a planificação da ocupação, na qual partiremos de uma perspetiva geral até à mais específica (anual ĺ mensal ĺ semanal ĺ diária) e de uma perspetiva individual até ao grupo. A perspetiva anual permite-nos uma visão mais abrangente das atividades de ocupação, que conduz à construção de um plano de atividades que abarca e cruza a dinâmica da instituição, com a dinâmica individual dos vários utentes das várias respostas da instituição e com os elementos da comunidade em que está integrada. Neste tipo de plano são tidas em conta as festividades sazonais que agradam aos utentes de forma a celebrá-las. Na vertente anual a construção do plano poderá obedecer a metodologias diversas de modo a permitir explorar diversas temáticas de forma mais prática, realista, envolvente, flexível e adaptando-se com mais precisão a toda a dinâmica da instituição. A vertente clássica da construção do plano anual de atividade integra a definição da atividade (objetivos gerais e específicos, recursos humanos e materiais) e data de realização da mesma. Esta metodologia implica um acompanhamento e monitorização minuciosos do plano. Isto é, num primeiro momento o documento apresenta informações genéricas das atividades a realizar durante o ano. Numa fase seguinte, cada atividade é integrada no plano trimestral e planificada detalhadamente de acordo com os utentes (em grupo), com o mês em que será realizada e com o tema a ser explorado no momento pelos utentes do Centro de Dia. Um outro exemplo de partida para a construção do plano de atividades poderá ter por base outras temáticas como seja a associação dos meses do ano a um verbo (ex: setembro ĺ Conviver, outubro ĺ Reviver, novembro ĺ Musicar, dezembro ĺ Provar, janeiro ĺ Agradecer, fevereiro ĺ Criar, março ĺ Espreitar, entre outros) ou ter como ponto de partida as letras do alfabeto (cada técnico escolhe/projeta, para o seu grupo de intervenção, quais as palavras, verbos, instrumentos, objetos, personalidades, entre outros, que vai trabalhar tendo em conta as letras sorteadas). Independentemente da metodologia usada para a construção do plano de atividades está implícito um acompanhamento e monitorização rigorosa, uma vez que este é um documento acessível, flexível e em contínua construção e está aberto à entrada de novas atividades e exploração de temáticas diversificadas.


6 | Espaço ERPIS

Tabela 1. Justificação Mensal do Plano de Atividade Mês/Tema

Objetivo genérico:

Mês/Letra Trimestre/Estação Destinatários Responsáveis

Descrição da(s) atividade(s) realizadas. [Desenvolvidas no âmbito da temática (de forma geral ou com cada grupo)] Avaliação geral da(s) atividade(s)

A apresentação das atividades que constam no plano anual remete-nos para a dinâmica geral, paralela a todas as atividades que vão sendo dinamizadas, especificamente, junto de cada uma das diferentes respostas da instituição (no caso instituição em análise envolve crianças, idosos, famílias e comunidade). A perspetiva mensal tem como base o definido previamente no plano anual. Partindo desta base, juntamente com os utentes e toda a realidade envolvente, serão programadas novas atividades e analisadas as atividades elencadas no plano anual. Por uma questão de logística institucional, na abordagem com os utentes, são agregados três meses para negociar a programação das atividades seguintes e reanalisar (uma vez que para as atividades de maior dimensão são avaliadas individualmente nos dias seguintes

à realização da mesma) e recordar as atividades já realizadas no trimestre anterior. A perspetiva semanal permite-nos definir a ocupação por áreas de ação (p. ex: física, cognitiva, social, lúdico-recreativa, espiritual, entre outras), sendo estas conducentes com as necessidades dos utilizadores do Centro de Dia e com as atividades definidas no plano anual. Por fim, a perspetiva diária baseia-se igualmente nas atividades definidas anualmente, mas possibilita-nos integrar na intervenção outras áreas de ação definidas para os diferentes dias da semana. Por exemplo: No período da manhã (no qual privilegiamos atividades que exigem concentração individual, trabalhos manuais, jogos de mesa, intervenções individualizadas) destinado à realização de enfeites e ensaios para a festa de Natal (atividade plano anual). No período

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da tarde apostar nas dinâmicas de descontração e boa disposição, numa perspetiva de pós-almoço, em grupo, intervenções lúdico-recreativas envolvendo várias pessoas, entre outras. De modo a ser exequível monitorizar as atividades de cada utente do Centro de Dia, a partir do momento que este integra a resposta, anualmente é preenchido/atualizado o plano de desenvolvimento individual, este documento permite direcionar a intervenção ocupacional com e para o indivíduo. Ainda neste âmbito é preenchido um registo de acompanhamento individual (grelha de observação). O referido documento, de preenchimento trimestral, destina-se à avaliação da evolução/situação da pessoa. No que concerne à monitorização das atividades em grupo, tal como anteriormente mencionámos, são realizadas trimestralmente reuniões nas quais se efetua o balanço das atividades desenvolvidas no trimestre passado e se apresenta/define as propostas de ação para o trimestre seguinte (com base nas atividades que constam no plano anual de atividades e outras atividades pertinentes que surjam em paralelo, através da sugestão dos utentes, comunidade ou do município). Reforça-se ainda a pertinência da aplicação de um registo de avaliação ao grupo com vista a perceber se determinada atividade foi percebida como prazenteira, se esta totalizou as espectativas individuais dos participantes e quais aspetos positivos e negativos mais relevantes e quais as sugestões formuladas.

Referências bibliográficas 1. Baltes, P. & Baltes, M. (1990). Psychological perspectives on successful aging. The model of selective optimization with compensation. In P. Baltes e M. Baltes (Eds.), Successful aging: Perspectives from behavioral sciences. New York: Cambridge University Press, 1-34. 2. Benet, A. S. (2002). La dinamización sociocultural en los centros de día para mayores. Nuevas perspectivas en el trabajo socioeducativo con personas mayores. Educación social. Revista d’intervención socioeducativa, (22), 97-110. 3. Freund, A. & Baltes, P. (1998). Selection, optimization and compensation as strategies of life management. Correlations with subjective indications of successful aging. Psychology and Aging, 13, 531 – 543. 4. Ouwehand, C., De Ridder, D., & Bensing, J. (2007). A review of successful aging models: Proposing proactive coping as an important additional strategy. Clinical Psychology Review, 27, 873-884.


Espaço Associação Coração Amarelo | 7

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ostaria de vos apresentar a D. Amélia, minha vizinha, que vivia no rés-do-chão do mesmo prédio, nos anos 50 do século passado. Senhora casada, vivia com o marido e 3 filhos. Estes quando autónomos, visitavam os pais periodicamente. O relacionamento do casal era caracterizado por vários momentos de conflito, envolvendo agressões verbais, sendo a mulher a mais agressiva. Com a morte do marido, a D. Amélia passa a viver sozinha e julgo que, nesse momento, a sua idade deveria rondar os 80 anos. O relacionamento com os vizinhos resumia-se à saudação e pouMaria Helena Cadete co mais. Ao ficar viúva passa a ocupar-se do quintal, mas era pouco Fundadora da vista pela vizinhança, que não sentia a sua falta uma vez que era de Associação Coração trato pouco amistoso e muito superficial. Eu própria me incluía neste Amarelo, com naipe. experiência na área Uma noite, já perto da meia noite, no regresso a casa, deparo-me do envelhecimento com a D. Amélia sentada no elétrico, ao fundo, num dos bancos laterais. Olhando para ela, que nem me viu, fiquei extremamente preocupada, pois uma pessoa idosa sozinha àquela hora poderia precisar de ajuda. Dirijo-me à senhora, cumprimento-a, sento-me ao seu lado e pergunto-lhe se estava bem e se precisava de ajuda. Respondeume que se sentia muito bem, pois regressava de ter feito um passeio pelas ruas da cidade. Esta informação ainda mais aumentou a minha preocupação, se bem que Lisboa, nessa altura, se pudesse considerar uma cidade segura e sossegada. Começámos a conversar e perguntei-lhe se tinha televisão, o que lhe permitiria ficar em casa, sobretudo à noite a ver algum programa. Disse-me logo “nem pense nisso, a TV só transmite programas que não me interessam e alguns com legendas, que me custam a ler, e são sobre assuntos que também não têm nenhum interesse para mim.” E continua, “sabe, o meu filho, o que é general….”, e aqui as poucas pessoas que viajavam no elétrico olharam para ela, estou certa, pensando que estava mentalmente perturbada. E continuando o nosso diálogo diz: “ofereceu-me o passe para utilizar este transporte”. E continua a conversa: “Hoje estava sem sono e não tendo nada para me entreter, apanhei o elétrico e dei uma volta pela cidade: ouço conversas, vejo gente, sento-me num banco, vejo movimento à minha volta e quando chego a casa durmo bem. Durante o dia tenho mais motivos para passar o tempo: vou ver os cisnes à Avenida da Liberdade, os patos ao Jardim do Campo Grande ou ao Jardim da Estrela, sento-me nos bancos “(...) hoje, para todas as do jardim, conheço árvores e flores, converso Donas Amélias, existem com elas, vejo-as crescer, dar flor, envelhecer e respostas sociais capazes morrerem. Vejo namorados, crianças a correr e de promover e incentivar a brincar, converso pouco com os adultos, são um envelhecimento ativo curiosos e eu só conto o que quero, pois os e participativo.” meus filhos recomendam-me para ter cuidado com pessoas estranhas, mas eu geralmente sei escolher as pessoas com quem converso.” A partir deste momento estabelecemos uma relação amical, que se resumia ao cumprimentamo-nos e saber se estávamos bem e eu receber informações dos seus devaneios diurnos e noturnos. Não voltei a encontrá-la no transporte público. Estive ausente do país por alguns anos e no meu regresso soube que a D. Amélia, nos últi-

mos tempos, sofria de transtornos mentais, que perturbavam a vizinhança e punham em perigo a sua própria vida. A família havia decidido interná-la num lar. A minha ocupação profissional incidia, precisamente, na área da população idosa, pelo que toda a vida me debrucei sobre a problemática do apoio às pessoas idosas, decorrente das orientações da Organização Mundial da Saúde e da Organização das Nações Unidas acerca do envelhecimento da população. Todas as orientações decorrentes destes e outros organismos, nacionais e internacionais, ao longo de mais de 50 anos de profissão, afirmam que para garantir o bem-estar do idoso é necessária uma abordagem integrada nos setores da saúde, economia, trabalho, educação e Segurança Social, sempre no respeito pelos seus direitos e decisões pessoais, quando possível. Voltando à nossa D. Amélia, perdida algures neste texto, gostaria atrevidamente de considerar esta senhora uma idosa pioneira do envelhecimento ativo, dado reunir muitas das caraterísticas que entram na sua definição: não aparenta estar doente, é autónoma, tem poder de decisão, sabe ocupar o seu tempo, lutando sobretudo contra a solidão e o isolamento, escolhendo as atividades que gosta de realizar, ainda que corra riscos, tem suporte familiar, que não sendo assíduo, atua em situação de emergência. Contudo, faltava-lhe uma organização de suporte que a ajudasse a gerir e selecionar ao longo do tempo as suas atividades, zelasse pela vigilância da sua saúde e pudesse assegurar a higiene de si própria e do seu lar. Felizmente, essas respostas foram surgindo e hoje, para todas as Donas Amélias, existem respostas sociais capazes de promover e incentivar um envelhecimento ativo e participativo. Neste sentido, o voluntariado de proximidade, como o que a delegação de Lisboa da Associação Coração Amarelo promove e potencia a participação de todos, no respeito pelas competências, capacidades e vontades de cada um. Nada pude fazer pela D. Amélia, mas ela ajudou-me muito pela reflexão que realizei acerca do seu caso, constituindo matéria para discussão em aulas destinadas à formação de pessoal para o trabalho com pessoas idosas.


8 | Espaço RUTIS

“Walking football” cionais, receber medalhas, cumprimentar os árbitros e ouvir as claques a puxar por eles, é toda uma experiência única que vivem e que aumenta em muito o sentido de presença e identidade com a universidade sénior.

Luís Jacob Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Bragança e Presidente da RUTIS

1

Em agosto de 2017 foi apresentado à RUTIS pelo Fundação Benfica1 (FB) um novo projeto desportivo para os seniores, um futebol a andar. Desde o início que achamos a ideia aliciante e que teria um enorme potencial entre as universidades seniores. O nosso instinto não falhou e quando a 17 de outubro apresentamos na Reunião Magna da RUTIS o projeto “Walking football” a adesão foi imediata. O primeiro passo dado foi uma sessão de formação para os futuros técnicos/dirigentes/atletas que ocorreu no Estádio da Luz no dia 20 de fevereiro de 2018. O primeiro pontapé de saída, num torneio regional, ocorreu a 11 de maio no Estádio Municipal de Almeirim, seguindo-se os torneios em Coimbra, Oeiras e Miranda do Douro. No dia 21 de junho, no Estádio da Luz, decorreu o I torneio final com a participação de 213 atletas e 45 elementos da equipa técnica. Os motivos para a grande adesão dos seniores a esta nova modalidade, e na época 2019/2020 participaram 26 equipas de Vinhais a Aljustrel, de Braga a Ponta Delgada, de Miranda do Douro ao Alvito, são essencialmente 3: » É divertido. Qualquer atividade (desportiva, formativa, cultural) que se faça para seniores (ou qualquer outro grupo) tem que ser divertida, caso contrário dificilmente funciona. E jogar futebol é divertido, seja a correr ou a andar. A participação nos torneios com outras equipas, um pouco por todo o país, é igualmente divertido e um excelente momento de convívio e desportivismo. Muitos atletas, especialmente as senhoras, nunca tinham jogado futebol e isso trouxe-lhes uma experiência completamente nova e bem-disposta. » É saudável. As equipas treinam entre 2 a 3 vezes por semana, durante sensivelmente uma hora, sendo notável ver o desenvolvimento que alguns jogadores apresentam posteriormente ao nível de coordenação, resistência, acuidade visual e espacial e orientação. Os resultados foram mais visíveis nas senhoras e nas pessoas mais velhas, com ganhos gerais ao nível de saúde e capacidade física. » Espírito de grupo e de equipa. Para muitos dos atletas esta é a primeira vez que fazem, efetivamente, parte de uma equipa desportiva. E ir aos treinos, vestir um equipamento, ter um treinador, colegas de equipa e adversários, jogar em torneios regionais e na-

A Fundação Benfica é uma IPSS, criada pelo Sport Lisboa e Benfica em 2009, que desenvolve projetos integrados nos quais se destacam a intervenção precoce sobre os fatores de exclusão. Nestas áreas, a Fundação tem como preocupação primordial a prevenção de comportamentos desviantes e a promoção do sucesso educativo de crianças e jovens enquanto fatores determinantes de mobilidade social. É objetivo da Fundação Benfica constituir-se como parceira social do estado e da sociedade civil, mobilizadora de pessoas e instituições e catalizadora de dinâmicas locais de desenvolvimento social e capacitação individual e comunitária. Ver www.fundacaobenfica.pt

O objetivo da RUTIS e da Fundação Benfica é levar este desporto a cada vez mais seniores de todo o país, sejam universidades seniores ou não. Fazemos aqui um pequeno resumo das regras do “futebol a andar”: » O “Walking football” é uma variante do futebol, para maiores de 50 anos, onde não se pode correr, só andar. As equipas são constituídas por 6 jogadores de campo, preferencialmente de ambos os sexos, em que não existe guarda-redes. O campo utilizado é semelhante ao campo de futsal, as balizas têm 3 metros x 1 metro, (normalmente usa-se uma fita ou uma faixa para adaptar as balizas normais à modalidade) e a bola não pode subir acima de 1 metro de altura. A organização das equipas, dos jogos e do Torneio Nacional está a cargo da RUTIS e da FB, com o apoio da Masterfoot (arbitragem) e do IPDJ. As equipas podem ter de 6 a 22 elementos. A inscrição das equipas e nos torneios é gratuita, em http://wf20.rutis.pt. Existem 2 modalidades de equipas: » Competitiva: para equipas com mais poder atlético e técnico. » Lúdica: para equipas com um ritmo menor e menos experientes. As equipas podem-se inscrever nos torneios na modalidade Competitiva, Lúdica ou em ambas. Todos os anos no início de outubro há uma sessão de formação/informação no Estádio da Luz em Lisboa para os técnicos/treinadores/dirigentes das equipas, ministrada pela FB. Existe igualmente um manual técnico de apoio aos responsáveis pelas equipas. Cada equipa terá que jogar com equipamentos (camisola, calções e meias) iguais. Torneios regionais para 2019/2020: Alvito, Aljustrel, Oliveira do Bairro, Montijo, Ribeira de Pena, Fundão, Ponta Delgada e Miranda do Douro. Torneio Nacional Final, Junho no Estádio da Luz, Lisboa. Mais informações em www.rutis.pt


A Voz de | 9

A importância da formação na VXVWHQWDELOLGDGH GDV organizações sociais H DGHTXDELOLGDGH ¢V necessidades da sociedade 1

Ricardo Pocinho, 1Vanessa Póvoa, 1,2Cristóvão Margarido, 1,2Rui Santos e 3Pedro Carrana

1

Escola Superior de Educação e Ciências Sociais - Politécnico de Leiria, 2Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA) - Politécnico de Leiria, 3ISEC - Politécnico de Coimbra

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om o atual quadro económico tornou-se perentório para as organizações adquirirem maior visibilidade e procurarem um maior nível de sustentabilidade. Esta é uma necessidade real e sentida nas organizações sociais, e deve-se, entre outras razões, ao acelerado ritmo de desenvolvimento tecnológico e científico, que tem provocado sucessivas reestruturações nas empresas e instituições, encontrando-se este desenvolvimento como pano de fundo na importância da qualificação profissional para o sucesso das organizações. Os anos 80 foram determinantes para uma mudança na abordagem em direção à profissionalização da gestão das Organizações Sem Fins Lucrativos (OSFL), como as organizações sociais. Segundo alguns autores, a dependência dos recursos públicos (em escassez), a competitividade instalada e a evolução dimensional das próprias organizações são apenas alguns fatores que as levaram a procurar as melhorias que justificassem a obtenção de recursos e a própria razão da sua existência (Anheier, 2000; Bernardes, 2008; Cunningham, 2001; 2005). Os recursos humanos, e evidentemente a sua gestão, vive atualmente uma situação desafiante do qual se sublinham as seguintes fontes de preocupação: (a) a existência de competição por trabalhadores qualificados, que constitui uma vantagem competitiva o facto de haver um quadro profissional

competente e alinhado aos valores da organização (Anheier, 2000), os profissionais com reconhecimento e qualidade a nível laboral faz com que se sintam valorizados, mas também tornam-se alvo de interesse por outros setores do mercado de trabalho; (b) a atração e retenção de empregados, uma vez que ao aumentar a concorrência, pressupõe-se a importância basilar de conseguir atrair mas também reter os bons profissionais; (c) o desenvolvimento de competências adicionais, isto é, os requisitos de competências tem aumentado, o que exige a melhoria contínua dos trabalhadores neste âmbito (o que também envolve a motivação, por exemplo); (d) existência de financiamento para formação, não obstante o reconhecimento da necessidade do desenvolvimento das competências dos recursos humanos, nem sempre os recursos estão disponíveis (e esta é, em momentos contextuais críticos, uma das áreas mais afetada); (e) segurança no emprego, uma vez que pouca segurança no emprego faz com que os trabalhadores procurem oportunidades em empregadores que lhes proporcionem mais estabilidade, melhores condições de trabalho e de desenvolvimento; (f) oportunidades limitadas de progressão na carreira – a estrutura horizontal destas entidades permite espaço para as chamadas promoções, tornando desafiante oferecer aos trabalhadores as soluções

alternativas que afetem, minimamente, o nível de satisfação com o próprio trabalho. Nas organizações sociais são os seus profissionais que fazem a instituição. Neste sentido, é importante e necessário que os seus dirigentes apostem nas formações destes, de forma a aumentar a qualidade dos serviços e das respostas sociais. Não cabe à instituição apenas a promoção de formação, a instituição tem cada vez mais um papel proeminente na constituição do capital humano e dos seus trabalhadores. Segundo De Sá (2010), a formação dos dirigentes e colaboradores das organizações sociais responde, simultaneamente, a dois aspetos essenciais: um organizacional, uma vez que permite colmatar uma necessidade de melhoramento das condições de produção de bens e de serviços; e outro individual, que diz respeito ao compromisso de desenvolvimento do capital humano assumido. A literatura tem revelado, de facto, que a formação é vista como essencial para a sobrevivência das OSFL, pois é considerada como um ponto-chave para a conquista de eficácia e eficiência no setor (Akingbola, 2006; Almeida, 2011; Cunnigham, 1999; Sousa, 2011). A importância e relevância da formação nas organizações sociais parece estar relacionada com a necessidade provocada pelas constantes mudanças do ambiente, que exigem às organizações capacidade de adaptação, inovação e criação de estratégias para que se tornem competitivas. Neste sentido é crucial garantir o desenvolvimento e a utilização de capacidades de nível elevado (Saunders, 2004). A formação constitui, também, o elemento de ligação entre a motivação intrínseca dos colaboradores e a missão da própria organi-

“A formação na área social é a chave para os profissionais que trabalham nas organizações sociais que dão apoio aos idosos.”


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zação (Akingbola, 2006). Segundo o autor, a formação ministrada é, na maioria dos casos, direcionada para a atualização dos valores e da missão da instituição. E vivem dificuldades como justificar os custos alocados, conseguir juntar os colaboradores de unidades distintas num mesmo local, vulnerabilidade financeira para garantir infraestruturas físicas, materiais e financeiras, entre outros (Cunnigham, 1999; Royce, 2007). A literatura salienta que é possível verificar-se um baixo índice de literacia nos dirigentes das organizações sociais. Em Portugal, a prática de formação formal e certificada nas OSFL é assegurada a, pelo menos, 10% dos trabalhadores com contrato sem termo (Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, 2008). Segundo alguns autores, a gestão das organizações sociais está a cargo de uma direção composta por voluntários que têm a seu cargo a centralização da missão e valores organizacionais, a planificação da estratégia e organização do quadro de pessoal (Decreto-Lei n.º 119/83), e que nem sempre têm a disponibilidade, formação e experiência necessárias para o desempenho das suas funções (Bowen, 1994; Resende, 2007; Rodrigues, 2009). Um estudo realizado por Bowen (1994), que incidiu sobre o insucesso de gestores experientes da área empresarial aquando da entrada para OSFL, alerta para a possibilidade dos gestores que não se identificam

“Nas organizações sociais são os seus profissionais que fazem a instituição.”

com a missão e os valores organizacionais, que implementam valores completamente desapropriados e condenados ao fracasso. Andrade (2009) realizou um estudo em organizações sociais, verificando que as formações realizadas procuram levar em conta a missão, princípios e valores organizacionais e são ministrados, na sua maioria, pelas instituições sem que ocorram práticas de avaliação do impacto das mesmas. Segundo a Direção-Geral dos Estudos, Estatística e Planeamento do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, e de acordo com um inquérito ao impacto das ações de formação nas empresas portuguesas, no triénio 20022004, cerca de 82% observou uma maior satisfação dos clientes, 72% melhorou a competitividade e 61% aumento a produtividade (Alves, 2009). A Plataforma Portuguesa de Organizações Não-Governamentais refere no seu website1 institucional que a implementação do Programa de Formação dirigido a várias áreas de relevo no trabalho das instituições tem como objetivo a capacitação dos recursos humanos, com vista à 1

www.plataformaongd.pt

melhoria das suas competências, quer na elaboração de projetos, quer nos diversos domínios de funcionamento interno das próprias organizações. Pode dizer-se que, pelos recursos que envolve, e independentemente dos objetivos de aprendizagem em que a formação se condiciona, todas devem estar ancoradas nos objetivos da organização a que se reporta. A formação deve, pois, servir de suporte à direção estratégica da organização, e os objetivos devem estar alinhados aos objetivos organizacionais. A formação, assume, portanto vários objetivos: (a) transmissão de competências profissionais necessárias ao desempenho da função (aperfeiçoamento, reciclagem, reconversão e promoção profissional); (b) socialização organizacional (processo de transmissão dos objetivos organizacionais, de reforço da cultura organizacional); (c) sustentação das orientações estratégicas definidas na organização (formação como instrumento para concretização da estratégia organizacional e elevação do nível de competitividade); e (d) promoção da comunicação entre os diversos atores organizacionais. Segundo Aguinis (2009), os benefícios são imensos, quer a nível individual, das equipas ou da própria organização: (1) nos colaboradores e na equipa verifica-se a melhoria de comportamentos relacionados com o trabalho e com o desempenho, como também no


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clima, satisfação e motivação laboral; (2) na organização, verifica-se a melhoria no desempenho, produtividade, nível de satisfação dos clientes/utentes pela melhoria da qualidade dos serviços, redução do tempo de aprendizagem e execução de tarefas e pela redução de desperdícios, da taxa de rotatividade, melhoria da reputação da organização, entre outros. A formação na área social é a chave para os profissionais que trabalham nas organizações sociais que dão apoio aos idosos. São duas ciências complementares, em que é perentório os colaboradores terem conhecimento de ambas quando se trabalha nestas instituições. Adquirir competências nestas áreas permite que a assistência aos idosos seja efetuada de forma correta, tendo em conta todos os fatores envolventes que garantam o máximo de qualidade e eficácia no serviço prestado. Os Primeiros Socorros e Suporte Básico de Vida são formações importante, que devem ser promovidas e organizadas através da instituição visto que se trabalha com um grupo de risco. A promoção de competências nesta área irá possibilitar aos colaboradores o conhecimento necessário para saberem agir em situações de emergência e atuar até à chegada de uma equipa de socorro especializada. Outra formação crucial consiste no sistema preventivo de controlo da segurança alimentar, procurando deter conhecimento sobre a identificação de perigos específicos e medidas preventivas para o controlo nas várias etapas de produção de alimentos.

Nem sempre a formação é a solução para os males da organização, a sua eficácia está associada à pertinência na resolução dos problemas apresentados. Não obstante, se a formação for identificada como opção, o cumprimento das etapas do processo configura-se como uma prática profissional e sistemática de gestão. Não é possível requerer ajuntamento às necessidades emergentes da sociedade, se não permitirmos a formação contínua e especializada dos que têm como responsabilidade e missão suprir as carências dos outros.

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Cuidadores Formais Alexandra Rodrigues

Diretora Técnica do Centro Social Paroquial de Mogos, Carrazeda de Ansiães

“Tudo que existe e vive precisa ser cuidado para continuar a existir. Uma planta, uma criança, um idoso, o planeta terra. Tudo o que vive precisa ser alimentado. Assim, o cuidado, a essência da vida humana, precisa ser continuamente alimentada. O cuidado vive do amor, da ternura, do carinho, da convivência e da formação.” (Boff, 1999)

Há 12 anos a gerir uma equipa de 26 Cuidadores Formais, considero que tenho mais do que experiência para falar deste tema, que carece de um acrescido interesse devido à importância dos cuidados às pessoas idosas, que principalmente no final de última década foram transferidos para as instituições. Antigamente as famílias cuidavam dos mais velhos, atualmente e devido a múltiplos fatores conhecidos por todos, como seja emancipação do papel da mulher, a sua profissionalização, alteração da estrutura familiar, exigência dos cuidados aos idosos decorrentes das “novas” doenças que foram surgindo, e acima de tudo a necessidade dos cuidados serem prestados por profissionais especializados, com saber, essencialmente sobre o envelhecimento e tudo que está relacionado com o mesmo. Nas Instituições Particulares de Solidariedade Social que conheço e no meu ponto de vista, de nada vale uma direção empenhada, uma Diretora Técnica cheia de saber, quando a equipa de Cuidadores Formais não funciona, está desalinhada, não conhece a missão, visão, valores, quando não tem um perfil de intervenção gerontológico. Os Cuidadores Formais estão na primeira linha. Na primeira linha de intervenção com os utentes quando lhe fazem uma higiene, quando os alimentam, quando os posicionam, quando lhes fazem uma transferência, quando os levam a uma consulta, a passear, quando atendem um telefonema a um fami-

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liar, quando reportam uma situação à enfermeira, à Diretora Técnica, à direção. Os Cuidadores Formais são o ponto essencial da intervenção gerontológica nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas. E, tal como referi, estes cuidadores devem cumprir um perfil, elencado por uma série de caraterísticas que os permitam conseguir intervir: » Compreender o envelhecimento: formação intensiva sobre o funcionamento da área em que o cuidador intervém, como sejam as ERPI (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, CD (Centros de Dia) e SAD (Serviço de Apoio Domiciliário). A maioria dos/as cuidadores/as desconhece qual o seu papel e a missão e valores destas respostas sociais. » Nível de escolaridade: um/a cuidador/a com escolaridade poderá ser um fator positivo no melhor executar das tarefas, ou seja, auxílio na toma da medicação, acompanhamento do/a idoso/a a consultas médicas, capacidade para compreender e transmitir orientações médicas, entre outros. » Ter formação na área do Trabalho Social e Orientação, bem como especia-

lizar- se em Agente de Geriatria, para que possa criar uma relação de atenção, respeito, cuidado e satisfação com os/as idosos/as. No entanto, ainda há muitas instituições no país que contratam estas pessoas, sem escolaridade, e sem formação, somente porque fica mais barato contratualizar um Contrato Emprego Inserção (os conhecidos CEI, que nem sequer podem contar para o quadro do pessoal, segundo as orientações da Segurança Social), por conhecimentos, dívida de favores, por serem familiares ou conhecidos, o que acarreta na realidade muitos problemas, uma vez que estes depois não são capazes de responder às necessidades das famílias e dos/as idosos/as. Não sabem transmitir uma informação, registar uma ocorrência, guardar sigilo (muitas vezes nem sabem o que a palavra significa), entre outras situações muito graves. » Paralelamente a maioria das instituições de Portugal, segundo dados da CNIS (2016) não tem implementado o sistema de avaliação de desempenho. Os colaboradores não sabem onde estão e para onde querem/devem ir, ao nível de objeti-


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vos. Deste modo estes profissionais, no início, enquanto se encontram a contrato ainda vão cumprindo algumas das suas funções, ao passo que depois de se encontrarem no quadro, deixam de as cumprir, pois não são sujeitos a processos disciplinares e continuam a sua conduta menos ética, prejudicando deste modo os utentes, famílias e até a instituição onde trabalham. Vocação para trabalhar com idosos/as: o perfil dos cuidadores deve ser pautado por tolerância, bom senso, análise, tempo para dedicar ao outro, observação para os detalhes que sucedem no dia a dia durante a prestação de cuidados. Os/as cuidadores/as devem respeitar o direito da pessoa idosa em relação á privacidade e pudor, pessoas que aceitem a diferença na prestação de cuidados. Quando os cuidadores vão fazer a higiene a um idoso, ou vão entrar no seu quarto, devem bater à porta e pedir licença para entrar e não invadir a sua privacidade. Sensibilidade para a última fase de vida: morte. Os/ as cuidadores/as têm de estar preparados para falar com o/a idoso/a sobre este tema e saber lidar/relacionar-se com ele/ela. Saber trabalhar em equipa para evitar situações de cansaço físico e emocional. A interajuda e a capacidade de comunicar e cooperar e separar a vida pessoal da profissional. O que não acontece sempre porque os administradores, muitas vezes, fazem com que o/a cuidador/a faça mais horas para além do seu horário e a estar presente em dias de descanso, o que o poderá levar a situações de stress e burnout. O/a cuidador/a é o agente de intervenção com quem o/a idoso/a desabafa, confia, mostra a sua intimidade, pelo que deve haver muito sigilo profissional. O idoso, as famílias e a comunidade confiam em nós, aquela pessoa que é o amor de alguém pelo que todos os comportamentos e problemas que surjam não devem ser expostos no exterior, mas sim resolvidos na instituição entre a equipa e os cuidadores. Saber comunicar de forma clara e objetiva ajuda a um bom ambiente profissional. Este fator é muito importante e contribui para que o/a cuidador/a tenha mais qualidade de vida.

O que tenho constatado é que muitos familiares pretendem “meter”, como referem, o idoso no lar, e não se preocupam com o tipo de cuidados que vão ter com o seu/sua familiar, pois muitas vezes quanto menos incomodarem e quantas menos chamadas se fizer para a família, melhor. Enquanto esta mentalidade perdurar, os administradores das instituições vão poder admitir quem pretenderem, sem qualquer tipo de formação ou conhecimento. Neste seguimento, podemos referir que não há em Portugal uma entidade que fiscalize/acompanhe os cuidados formais, ou que obrigue à contratação deste tipo de profissionais com formação. No meu ponto de vista, o futuro das equipas de cuidadores das instituições deve passar, obrigatoriamente, por um currículo académico assim como os restantes profissionais, pois considero que seja a única forma de se poder exigir profissionalismo.


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$ KLGUDWD©¥R no idoso

Assim, é necessário ter em atenção todos estes contributos para a manutenção da hidratação da população sénior. A desidratação é muito comum nos idosos portugueses principalmente em idades superiores a 85 anos (Bernstein, 2012), pelo que é uma realidade a combater. Amiúde os indivíduos desta faixa etária apresentam fatores de risco patológicos, iatrogénicos, sociais bem como ambientais, os quais se conjugam com as alterações fisiológicas próprias do processo de senescência, propiciando assim uma maior suscetibilidade a este distúrbio hidroeletrolítico. Por conseguinte, é de suma importância identificar os fatores de risco e os sinais de que o estado hídrico da pessoa idosa está comprometido. Fatores de risco de desidratação em idosos (Ferry, 2005)

Susana Arranhado Nutricionista e docente na Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria e na Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches

Idade superior a 85 anos Redução da perceção da sede Falta de acesso a bebidas

É

sabido que a alimentação e a nutrição no geronte assumem um papel preponderante, tal como a hidratação, muitas vezes esquecida. A hidratação é um tema tão importante, quanto necessário, com especial relevo no idoso, pois os efeitos deletérios têm particularidades muito próprias e podem manifestar-se de formas distintas, conferindo dificuldade ao diagnóstico da desidratação. À semelhança da generalidade dos mamíferos, a água é um componente fundamental, apresentando o organismo humano um conteúdo em água entre 65 a 70%, que varia consoante a faixa etária, com inferior expressão nos idosos (50 a 55%). Das alterações fisiológicas próprias do envelhecimento fazem parte, entre outras, a diminuição da massa muscular e o aumento da massa gorda. A massa magra contém cerca de 73% de água, enquanto a massa gorda, apenas 10%. Aos 60 anos, cerca de 20% da água ligada à massa muscular perde-se (Ferry & Alix, 2004). Com o envelhecimento, ocorre uma redução de 0,3 L/ano desde a idade adulta até cerca dos 70 anos. É a partir desta idade que essa diminuição é mais acentuada, estando associada à perda de massa magra

Problemas cognitivos

caraterística desta faixa etária. Portanto, o indivíduo idoso vai apresentar uma diminuição da quantidade total de água corporal, associada à perda de massa magra. Deste modo, os idosos são um dos grupos etários mais suscetíveis à desidratação (as crianças e os portadores de patologias como a diabetes também) e pode até referir-se que o idoso é, tendencialmente, desidratado. São inúmeras as funções da água, entre as quais se destacam a regulação da temperatura corporal, a manutenção da pressão arterial pela volémia, constituinte principal do sangue e linfa (atuando como transportador de nutrientes, hormonas e outros compostos), eliminação de resíduos metabólicos através da urina, além de ter uma participação ativa em reações metabólicas e ser essencial para os processos fisiológicos de digestão e absorção, uma vez que é componente dos sucos digestivos. Importa referenciar que o estado hídrico não está apenas dependente da ingestão de líquidos. É, pois, também influenciado pela água presente nos alimentos consumidos e, em menor parte, pela água que provem do metabolismo de oxidação dos alimentos (Instituto de Hidratação e Saúde; Ferreira, 2005).

Problemas de comunicação Problemas de deglutição Falta de apetite Medicação como diuréticos, laxantes e sedativos Patologias agudas como febre, vómitos ou diarreia Viver sozinho Mobilidade reduzida Problemas visuais Falta de atenção e informação dos cuidadores

Pese embora a ausência de definição, entende-se por desidratação, a depleção de água corporal total devida a perdas patológicas de fluidos, à diminuição do consumo diário de água ou a uma combinação destes, e pode ser classificada em desidratação: isotónica, hipertónica e hipotónica. Resumidamente, a desidratação isotónica caraterizase por uma perda equilibrada de água e de sódio, com diminuição do volume do compartimento extracelular e aumento da viscosidade sanguínea, com natural prejuízo para a circulação. Este tipo deve-se principalmente a diarreia e vómitos. A desidratação hipertónica, também denominada hipernatrémica ou intracelular, carateriza-se por uma diminuição excessiva de água e, consequentemente, hiperosmo-


Nutrição | 15

laridade (>300 mmol/kg) e hipernatrémia (>145 mmol/L). O meio extracelular hipertónico fomenta a deslocação de água a partir do compartimento intracelular, sendo que a depleção de volume do compartimento extracelular não é significativa. Este tipo tem como causa associada um consumo insuficiente, por uma perda excessiva ou por uma combinação de ambos. A causa mais frequente de desidratação hipertónica é a existência de patologias agudas que requerem um maior consumo de água, concomitantemente com a incapacidade de aumentar a ingestão diária. A terapêutica medicamentosa com diuréticos também pode dar origem a este quadro. Por fim, a desidratação hipotónica ocorre quando há uma diminuição predominante dos níveis de sódio (<135 mmol/L). Com a diminuição da osmolaridade do compartimento extracelular (<280 mmol/kg) ocorre um deslocamento da água para o espaço intracelular, com um consequente aumento da hemoconcentração, implicando o aumento do hematócrito e da proteinémia. A toma excessiva de diuréticos é a principal causa deste tipo. Como referido anteriormente, na maioria dos idosos a desidratação é causada por uma multiplicidade de fatores de risco que interagem entre si. Pelas suas particularidades, a desidratação pode ser definida como uma síndrome geriátrica e por essa razão requer uma equipa transdisciplinar, na qual o idoso e o cuidador são o cerne. Tanto os idosos como os seus cuidadores - formais ou informais - devem estar atentos e terem conhecimento de medidas de prevenção. Além de se beber pequenas quantidades de água frequentemente ao longo do dia, mesmo quando não se sente sede, existem outras estratégias que auxiliam no balanço hídrico, isto é, a manutenção do equilíbrio dos fluidos no organismo humano, e que potenciam o consumo hídrico, designadamente: » Água aromatizada: é possível dar-se um sabor à bebida, aromatizando a água de forma natural, ao adicionar, por exemplo: » Fruta (laranja limão, lima, morangos …) » Hortícolas (pepino…) » Especiarias (canela…) » Ervas aromáticas (hortelã…) Algumas sugestões de combinações podem ser: água aromatizada com limão e manjericão; água aromatizada com pepino; água aromatizada com limão; água aromatizada com maçã e canela; água aromatizada com algumas gotas de groselha ou baunilha;

» As sopas, além de tipicamente portuguesas, apresentam um conteúdo de água entre 88 a 93%, ao qual se junta uma riqueza nutricional incontornável, nomeadamente em fibra, vitaminas e minerais, uma vez que a água da cozedura não é desperdiçada. Contribui não só para o estado hídrico, mas de igual modo para uma maior saciedade e um melhor funcionamento intestinal. No tempo mais quente pode-se sempre optar pelas suas versões frias, nomeadamente o gaspacho; » As infusões (como tília, camomila, ou outras, quentes ou frias) ou chá sem cafeína também são estratégias a considerar, tal como o leite, queijo fresco, os sumos de fruta naturais, sem adição de açúcar e os alimentos sólidos ricos em água, como frutos e hortícolas, cozinhados ou em cru, de acordo com preferência. » Começar o dia oferecendo um copo com água quando o idoso acorda pode ser uma boa estratégia. Tentar estipular horários e, incluir na rotina diária de cuidados momentos específicos para a hidratação, nomeadamente antes e/ou após a higiene, fisioterapia ou outra atividade; aquando da toma de medicação; às refeições, ou aquando de visitas. Integrar o idoso na gestão diária do seu consumo hídrico, capacitando-o para a tarefa e dando-lhe autonomia pode ter também um impacto satisfatório.

Conclusão A desidratação é passível de ser prevenida e é reversível. Considerando os três elementos que contribuem para o estado hídrico, na impossibilidade da ingestão ser suficiente, deve reforçar-se o consumo de alimentos ricos em água. Importa, então, considerar a desidratação como um problema maior no idoso, uma

vez que há uma diminuição da perceção da sede e diminuição da sensibilidade dos osmorrecetores, o que por si só já constitui um risco para a desidratação, pois desta forma a ingestão hídrica é insuficiente. Contudo, também pode ocorrer por aumento das perdas de líquidos, provocadas por infeções ou pela toma de medicamentos, como os diuréticos e os laxantes. Assegurar que os idosos tenham um acesso físico e económico a fontes de hidratação, potenciar o consumo de alimentos ou preparações alimentares ricas em água como sopas, ensopados, caldeiradas, saladas, fruta fresca, água gelificada ou águas aromatizadas são algumas das estratégias que devem ser implementadas.

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“A desidratação é muito comum nos idosos portugueses principalmente em idades superiores a 85 anos (...), pelo que é uma realidade a combater. ” © freepik


16 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

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O que é a Demência? Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar e Universitário de São João, Porto

Carolina Lopes, Madalena Pinto

Demência é um termo usado para descrever um conjunto de sintomas relacionados com a deterioração das capacidades cognitivas, que incluem frequentemente perda de memória, alterações do humor, problemas de comunicação, dificuldade nas tarefas e problemas de raciocínio. A demência afeta principalmente homens e mulheres com mais de 65 anos, e o risco aumenta com a idade. Mas pessoas mais jovens também a podem desenvolver. Existem alguns casos, mais raros, de demência hereditária, ou seja, transmitida de pais para filhos. Cada doente é único e experimentará os sintomas de demência de modo igualmente único. A família e amigos poderão preocupar-se com os seguintes sintomas, normalmente mais do que o próprio doente: » Perda de memória: normalmente é a memória a curto prazo que é afetada. Por exemplo, o doente pode esquecer-se do que ocorreu mais cedo nesse dia, ou pode não ser capaz de recordar os assuntos das conversas que estavam a ter. Pode tornar- se repetitivo (perguntando a mesma coisa ou contando a mesma

história inúmeras vezes, como se fosse a primeira vez). Normalmente, a memória a longo prazo permanece intacta, e o doente parece “viver no antigamente”; » Concentração, planeamento ou organização: o doente com demência pode, por exemplo, ter dificuldades em tomar decisões, resolver problemas ou lidar com uma sequência de tarefas (como preparar uma refeição); » Alterações do humor: o doente pode sentir-se triste, assustado ou zangado com a sua situação. Pode ter mudanças abruptas de humor sem motivo aparente; » Problemas de comunicação: pode tornar-se difícil encontrar as palavras certas numa conversa ou não conseguir dizer o nome dos objetos, tendo que descrever o que o objeto faz em vez de usar o seu nome; pode também deixar de re-

conhecer objetos, não saber o que são nem para que servem e ter dificuldade de compreensão; » Problemas visuo-espaciais: pode surgir dificuldade em calcular distâncias (como a conduzir um automóvel), em ver objetos em três dimensões ou esquecer-se do caminho para casa; » Orientação: por exemplo, perder a noção dos dias ou das datas, esquecer datas significativas (por exemplo, deixar de saber quando é o Natal) ou confusão com o local onde se encontram, insistindo, por exemplo, que não estão em sua casa quando o estão; » Dificuldade nas tarefas do dia a dia: o doente com demência sente dificuldade em manter a sua rotina diária e as suas atividades autonomamente, necessitando de estímulo constante para as fazer e supervisão ou ajuda. Existem várias doenças e condições que podem causar demência, e os sintomas específicos que cada pessoa vai apresentar vão depender do tipo de demência e, consequentemente, das regiões do cérebro que estão afetadas. As demências mais comuns são: » Doença de Alzheimer ĺ É a causa mais comum de demência. Esta doença altera gradualmente os processos químicos e a estrutura do cérebro, o que conduz à morte das células cerebrais. O primeiro sinal, e o mais óbvio, costuma ser a perda de memória a curto prazo; » Demência Vascular ĺ Esta demência ocorre quando o cérebro não recebe o sangue e oxigénio que necessita. Sem


Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento | 17

oxigénio suficiente, as células cerebrais morrem e causam os sintomas da demência vascular. Isto pode ocorrer após um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou porque os pequenos vasos sanguíneos que fornecem oxigénio ao cérebro estão danificados. O doente pode ter sintomas abruptamente após um AVC ou ao longo de mais tempo (após uma série de pequenos AVCs); » Demência com Corpos de Lewy ĺ Este tipo de demência tem este nome graças a pequenas estruturas anormais, chamadas de Corpos de Lewy, que se desenvolvem no interior das células nervosas do cérebro. Os Corpos de Lewy causam lesão no tecido cerebral e impedem o cérebro de funcionar corretamente. Os sintomas desta demência incluem confusão e alucinações (ver ou ouvir coisas que não estão mesmo presentes), bem como dificuldades no planeamento, raciocínio e resolução de problemas. A memória também pode estar afetada. Os doentes com este tipo de demência têm tendência a ser especialmente sensíveis aos efeitos dos fármacos, podendo ter reações inesperadas ou muito intensas; certos medicamentos calmantes estão mesmo contraindicados; » Demência Fronto-Temporal ĺ Este tipo de demência é normalmente causada por uma lesão na parte frontal do cérebro, e é mais comum nesta demência (do que nos outros tipos) serem afetadas pessoas mais jovens. Os sinais mais óbvios são as alterações de personalidade e comportamento, incluindo comportamentos bizarros e agressividade, e alterações na comunicação. Os sintomas destes diferentes tipos de demência são sobretudo distinguíveis nas fases iniciais da doença; nas fases finais, os sintomas assemelham-se, uma vez que todo o cérebro acaba por ser envolvido nos estádios finais. Daí a importância de contar ao médico como foram as alterações iniciais. Inicialmente, os sintomas são discretos, mas com a progressão da doença tendem a afetar as atividades do dia a dia. A demência é uma doença progressiva. Isto significa que os sintomas irão gradualmente agravar. A rapidez com que isso ocorre normalmente depende de cada doente e do tipo de demência em questão. É pertinente referir que, com o envelhecimento, ocorrem algumas alterações cognitivas que são consideradas normais, não significando que a pessoa tenha demência. Por

“Cada doente é único e experimentará os sintomas de demência de modo igualmente único.”

exemplo, com o envelhecimento normal, podem estar afetadas as capacidades de formar novas memórias, manter a atenção em múltiplas tarefas simultaneamente, encontrar as palavras ou os nomes das pessoas e objetos, ou a rapidez de raciocínio e de resolver problemas. Vários fatores podem influenciar as capacidades cognitivas no envelhecimento, como a toma de certas medicações (por exemplo, que causem sonolência ou lentificação), alterações sensoriais (como perda de audição ou da visão), outras doenças que possam co- existir, ou alterações do humor, como depressão ou ansiedade. Ao contrário do que acontece na demência, neste caso a pessoa consegue manter as suas atividades do dia a dia normalmente ou estas serem minimamente afetadas. Por vezes existem problemas com a memória ou outras alterações do raciocínio mais graves do que seria de prever para a idade, mas o médico pode considerar que não são graves o suficiente para lhe diagnosticar um tipo de demência. Esta condição é denominada de Défice Cognitivo Ligeiro. Pessoas com Défice Cognitivo Ligeiro são mais propensas a desenvolver demência, mas ter Défice Cognitivo Ligeiro não significa necessariamente que vai desenvolver demência. Um diagnóstico correto é muito importante. O médico deverá ter a certeza que as alterações e sintomas são compatíveis com demência e não são secundários a outro tipo de condições que se apresentam com sintomas semelhantes (como por exemplo a depressão ou o delirium – episódios de confusão causados por uma doença aguda, mais frequentemente uma infeção) mas têm um tratamento distinto. Um diagnóstico de demência pode ajudar o doente, os seus familiares e cuidadores a preparar um plano para o futuro. Uma vez feito o diagnóstico, também se poderá iniciar o tratamento com os medicamentos referidos abaixo, se apropriado. A demência pode ser diagnosticada pelo seu médico de família ou por um médico especialista, como um neurologista (um médico especialista em doenças do sistema nervoso). Esse médico faz um conjunto de testes que avaliam os processos básicos da cognição e a funções necessárias para as atividades de vida diária. Poderão ser necessários mais exames, como análises san-

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guíneas, TC (tomografia computadorizada) cerebral (para excluir outras doenças que também podem causar sintomas semelhantes aos da demência), ou testes mais aprofundados de avaliação da memória, concentração e raciocínio. Os cuidados do doente com demência devem sempre ser personalizados e dirigidos às necessidades que cada um apresenta. Estas estratégias têm como objetivo estimular as capacidades do doente, preservando o mais tempo possível a sua autonomia, assim como o seu conforto e bem-estar. Existem várias terapêuticas não medicamentosas que são utilizadas nas diferentes fases da progressão da demência. Estas terapêuticas incluem o treino mental (por exemplo no domicílio ou no Centro de Dia) e/ou a reabilitação cognitiva, que inclui diversas modalidades, como o recurso a plataformas informáticas de treino cognitivo. A maior parte dos tipos de demência não têm cura, mas decorrem permanentemente investigações de novos tratamentos. Alguns medicamentos podem temporariamente minimizar alguns sintomas de certos tipos de demências. Nesse grupo estão incluídos os denominados por inibidores da colinesterase, como o donepezilo, a galantamina e a rivastigmina. Além destes, existe outro medicamento chamado de memantina, que pertence a outro grupo. Para as pessoas com demência vascular, o tratamento é habitualmente dirigido às doenças que causam doença dos vasos, como a pressão arterial alta, os valores altos de colesterol e triglicerídeos ou a diabetes – controlar estes fatores de risco ajuda a atrasar a progressão da doença. Outros tipos de medicamentos também podem ser prescritos nas diferentes fases da doença, por exemplo medicamentos para tratar a depressão, ansiedade ou agitação/agressividade. Como estes medicamentos podem ter efeitos secundários graves e não são adequados para todos os tipos de demência, uma estratégia não medicamentosa é primeiro aconselhada.


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Demência 9DVFXODU

Um estudo da Unidade de Investigação em Epidemiologia do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), apurou que “a principal causa de demência em Portugal estará relacionada com fatores vasculares e não com DA”, ao contrário do que acontece na maior parte dos países da Europa Ocidental [5].

1

Mafalda Barbosa, 2Joel Brás, 3Horácio Firmino

1

Médica Interna de Psiquiatria do Centro Hospitalar de Leiria, 2Médico Interno de Psiquiatria do Centro Hospitalar e 3

Universitário de Coimbra, Coordenador da Gerontopsiquiatria, Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução A Demência Vascular (DV) resulta de diferentes tipos de lesões vasculares do tecido cerebral, conduzindo a um quadro clínico heterogéneo, pautado por alterações cognitivas, motoras e sensitivas focais [1]. Até ao final dos anos 60 (séc. XX), pensava-se que a demência senil se devia a um processo de aterosclerose cerebral [2]. Na década de 90, com a identificação de vários mecanismos vasculares causadores de demência (isquemia crónica da substância branca subcortical, microenfartes), surgiu o conceito de DV [39]. Recentemente, foi proposta a designação “Doença Cognitiva Vascular”, que inclui o Défice Cognitivo Ligeiro Vascular (DCLV), a DV e a Demência Mista (DM) [1]. O DCLV manifesta-se por dificuldades de memória e de concentração sem grande impacto no quotidiano, lentificação psi-

comotora, depressão, lesões vasculares na Ressonância Magnética. Metade dos casos de DCLV progride para demência em 5 anos [1].

Epidemiologia A DV pura corresponde a cerca de 10% de todas as demências, geralmente no contexto de AVC extenso [2][3]. É o tipo mais comum de demência de etiologia não degenerativa [1]. É frequente surgir demência de várias etiologias num mesmo indivíduo, e a expressão clínica de qualquer demência é mais exuberante perante doença vascular comórbida [2]. Dado o envelhecimento populacional, a sua prevalência tem aumentado, é cerca de 9 vezes superior em indivíduos com antecedentes de AVC [1]. A generalidade dos estudos tem utilizado critérios rígidos de DV. Crê-se que a sua taxa de incidência na prática seja superior [2].

Etiopatogenia A DV resulta de lesões vasculares cerebrais isquémicas, hipóxicas ou hemorrágicas, que individualmente ou em associação, conduzem a um quadro demencial [3]. A etiologia mais comum é a isquemia de pequenos vasos. Na DV de grandes vasos, a demência por multienfartes é a mais prevalente [3]. A Tabela 1 resume os tipos de DV e as suas principais caraterísticas clínicas. Na Tabela 2 estão resumidas as principais diferenças entre demência cortical e demência subcortical. Os fatores de risco (FR) são sobreponíveis aos de AVC e podem ser não modificáveis: idade avançada, sexo masculino, raça não caucasiana, baixo peso à nascença, genéticos; ou modificáveis: baixa escolaridade, HTA (FR mais importante para a doença de Binswanger), hipotensão ortostática, insuficiência cardíaca congestiva, cirurgia cardiovascular, fibrilhação auricular e outras arritmias, doença coronária, doença cardíaca embólica, diabetes mellitus, dislipidemia, híper-homocisteinemia, consumo de tabaco e álcool, apneia do sono, e FR de AVC [1][4].


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Tabela 1. Subtipos principais de demência vascular e caraterísticas clínicas. [1][3][6] Etiologia

Patologia

Sinais e sintomas

1 - Doença de grandes vasos (Predomínio Cortical): 1.1) Demência por multienfartes

Múltiplos enfartes corticais e/ou

(subtipo mais prevalente)

subcorticais.

Deterioração cognitiva, sinais neurológicos focais, progressão em escada.

Lesão única, geralmente pequena,

Grande impacto cognitivo. Início

1.2) Demência por enfarte

em áreas estratégicas (p.ex.: região

agudo/subagudo. Afeta a memória

estratégico

frontobasal, lobo temporal, tálamo,

se forem atingidos o hipocampo e

hipocampo).

o tálamo.

2 - Doença de pequenos vasos (Subcortical): mais prevalente Enfartes subcorticais devidos a

Início insidioso de perda progres-

2.1) Estado lacunar

lipo-hialinolise ou microateromatose.

siva da função executiva. Défice de

(subtipo mais prevalente)

São comuns hemorragia e leuco-

memória menos acentuado do que

encefalopatia.

na DA.

Extensas áreas de enfarte incompleto 2.2) Doença de Binswager

da substância branca periventricular,

ou encefalopatia isquémica

com desmielinização e gliose. Áreas

subcortical

necróticas de cavitação nos casos graves.

Curso progressivo flutuante. Alterações executivas, lentificação, apatia, alterações de memória, isartria espástica, marcha apráxica.

Caraterísticas clínicas e diagnóstico Os critérios de diagnóstico NINDS-AIREN (Tabela 3) pela sua elevada especificidade, são os mais utilizados [2]. Os principais diagnósticos a excluir são a DA e a DA associada a DCV. Outros diagnósticos que devem ser excluídos são: hidrocefalia de pressão normal, lesões da substância branca não-isquémicas, tumor do lobo frontal, massa intracraniana, DM, demência de corpos de Lewy (DCL), demência frontotemporal, doença de Parkinson, paralisia supranuclear progressiva, atrofia multi-sistémica [3]. A escala de isquemia de Hachinski auxilia no diagnóstico entre DV e DA [3]. O diagnóstico definitivo só é possível obter através de estudo histopatológico (biópsia ou autopsia) [7].

3 - Outras: 3.1) Demência por enfarte

Alterações hemorrágicas. Pode estar presente angiopatia amiloide.

hemorrágico 3.2) Demência por

Enfartes incompletos da substancia branca.

hipoperfusão/hipóxia

Enfartes lacunares e AIT’s pelos

3.3) CADASIL (Cerebral Autosomal Dominant

Enfartes subcorticais com leucoence-

45 anos. Quadro demencial na 6.ª

Arteriopaty with Subcortical Infarcts

falopatia.

década de vida. Défices de padrão subcortical.

and Leukoenceplalopathy) 3.4) AAC (Angiopatia amiloide cerebral, esporádica ou familiar)

Depósito de amiloide nas artérias corticais e leptomeníngeas, com hemorragias lobares, isquemia e leucoencefalopatia.

Tabela 2. Distinção entre DV cortical e DV subcortical [4]. Domínio afetado Memória Cognição

Comportamento (Motor)

Demência Cortical

Demência Subcortical

Défices (+++).

Défices (++).

Afasia, apraxia, agnosia, função

Lentificação, défice de estimulação e de

executiva (++).

atenção, função executiva (+++).

Apraxia, perturbações do movimento mais tardias.

Lentificação psicomotora (+++), discurso disártrico, parkinsonismo e outras perturbações do movimento.

Motivação

Apatia (++).

Apatia (+++).

Humor

Depressão (++).

Depressão (+++).

Localização preferencial das lesões

Substância cinzenta profunda, substância Neocortex e hipocampo.

branca do tálamo, gânglios da base, núcleos do tronco cerebral.

Tabela 3. Critérios NINDS-AIREN simplificados (National Institute of Neurological Disorders and Stroke and the Association Internationale pour la Recherche et l’Enseignement em Neurociences) para DV. DCV: Doença Cérebrovascular [2][3][7]. Critérios de Diagnóstico Major 1) Surgem défices mnésicos e no mínimo outra das seguintes perturbações cognitivas: afasia, apraxia, agnosia, função executiva, com consequente prejuízo nas competências sociais e funcionais. 2) Evidência de DCV, através de história clínica com antecedentes de FRCV, associados a presença de sinais neurológicos focais e/ou presença de resultados imagiológicos positivos. 3) Relação causal entre alíneas 1) e 2). Critérios diagnósticos especificam a probabilidade de DV como pouco provável, possível, provável.

Exames complementares de diagnóstico Na abordagem da DV é necessária avaliação laboratorial com velocidade de sedimentação, fibrinogenemia, homocisteinemia [8] (para exclusão de possíveis causas tratáveis) e avaliação neuropsicológica (ANP). Nas ANP’s, os domínios mais afetados são a função executiva, a atenção, a memória semântica e das tarefas visuais. O MoCA (Montreal Cognitive Assessment) é preferível ao MMSE (Mini-Mental State Examination), dado ter maior sensibilidade para défice cognitivo ligeiro [1]. Os exames de imagem (Tomografia Axial Computorizada e/ou Ressonância Magnética Craneo-Encefálica) são indispensáveis na confirmação de lesão vascular [4][6].

Sintomas psiquiátricos comórbidos Na DV, ocorre depressão major em cerca de 25% dos casos, e depressão clinicamente significativa em 60% dos casos [7], agravando a função dos circuitos frontais e subcorticais-frontais e o risco de AVC em doentes com FRCV ou DCV. Apatia pode ser evidente através de falta de iniciativa, perda de interesse, embotamento afetivo, indiferença. Pode evoluir para abulia (lentificação psicomotora e apatia profundas), com embotamento afetivo, diminuição das respostas motoras, olhar perplexo, perseveração, ausência de crítica). Podem surgir ainda: episódios maniformes (taxa de prevalência de 1-2% dos casos, secundários a AVC ou por descompensação de patologia psiquiátrica); perturbações de ansiedade (prevalência de 17%-38% na DV); pertur-


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“a principal causa de demência em Portugal estará relacionada com fatores vasculares e não com DA” © Pascal THAUVIN

bações obsessivo-compulsivas (nomeadamente na doença de Binswager); labilidade emocional; agitação (muito frequente nas DV, principalmente nos casos de lesões frontais, temporais e límbicas e/ou de diminuição da concentração de neurotransmissores como serotonina, GABA, acetilcolina); e psicose, associada a agitação, delírios (8-50%), falsos reconhecimento (19-30%), alucinações visuais (14-60%) [7].

Prevenção e tratamento A vigilância e a prevenção de Factores de Risco Cardio Vascular (FRCV) podem prevenir/atrasar a DV. A medida mais eficaz é o controlo da tensão arterial, da diabetes mellitus, da dislipidemia [3][4]. Os doentes com antecedentes de evento vascular e/ou com défice cognitivo ligeiro, devem modificar os FRCV e/ou ser submetidos a controlo rigoroso com recurso a fármacos (antiagregantes, anticoagulantes, estatinas) [3][6][9]. Uma vez instituído o quadro demencial, devem ser utilizadas como primeira linha as medidas terapêuticas não farmacológicas, devendo as medidas farmacológicas ficar reservadas para melhorar sintomas neuropsicológicos ou alterações de comportamento graves [3][7]. Os inibidores da acetilcolinesterase ou a memantina podem ser utilizados na estabilização temporária dos défices cognitivos, no entanto, não estão aprovados no tratamento ou na redução da progressão de DV [3]. Na sintomatologia depressiva e ansiosa, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (SSRI’s) são a opção mais segura [7].

No controlo da agitação, agressividade, psicose, os antipsicóticos atípicos demonstraram eficácia e melhor perfil de tolerabilidade, devendo ser usados por tempo limitado [1].

Prognóstico A mortalidade na DV é mais elevada do que na DA dada a carga de comorbilidades cardiovasculares destes indivíduos. Cerca de 50% morrem devido a EAM, grande percentagem falece no contexto de AVC, de complicações renais, infeções respiratórias [2]. A deterioração cognitiva tem uma progressão mais lenta do que nos indivíduos com DA [1].

Conclusão A DV é a causa mais prevalente de demência não degenerativa [1] e a demência mais prevalente em Portugal [5]. Uma vez que grande parte dos seus Fatores de Risco são modificáveis, deve investirse particularmente na prevenção primária ou secundária [1]. Abordagens não farmacológicas como a modificação do estilo de vida, redução dos FRCV, treino de competências, têm demonstrado grande eficácia na prevenção e na redução do declínio cognitivo [2].

Referências bibliográficas 1. Firmino, H. and Simões, M. (2016). Saúde mental das pessoas mais velhas. Lisboa: Lidel. 2. O’Brien, John T, and Alan Thomas. “Vascular Dementia.” The Lancet, vol. 386, no. 10004, 2015, pp. 1698–1706.

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3. O’Brien, J., Burns, A. and Levy, R. (2000). Dementia. London: Arnold. 4. 4. Steffens, D., Blazer, D., & Thakur, M. The American Psychiatric Publishing textbook of geriatric psychiatry. 5. Ruano, L Araújo, N, Branco, M. e cols (2019) Prevalence and Causes of Cognitive Impairment and Dementia in a Population-Based Cohort From Northern Portugal. American Journal of Alzheimer’s Disease & Other Dementias®, Volume: 34 issue: 1, page(s): 49-56 6. Skrobot, O., Black, S., Chen, C., DeCarli, C., Erkinjuntti, T., & Ford, G. et al. (2018). Progress toward standardized diagnosis of vascular cognitive impairment: Guidelines from the Vascular Impairment of Cognition Classification Consensus Study. Alzheimer’s & Dementia, 14(3), 280-292. 7. Agronin, M. and Maletta, G. (2015). Principles and Practice of Geriatric Psychiatry. Philadelphia: Wolters Kluwer Health. 8. Firmino, H., et al (2006). Psicogeriatria. Coimbra: Psiquiatria Clínica.


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Demência de Corpos de Lewy 1

Mariana Pinheiro, 2Horácio Firmino

1

Médica Interna de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, 2Coordenador da Gerontopsiquiatria,

Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução

“A

A demência é uma síndrome clínica caracterizada por declínio progressivo do desempenho em um ou mais domínios cognitivos, com subsequente compromisso das atividades da vida diária, na ausência de outras condições físicas ou psiquiátricas que poderiam explicar a apresentação [20]. A Demência de Corpos de Lewy (DCL) é, a seguir à Demência de Alzheimer (DA), a forma mais comum de demência neurodegenerativa, responsável por 2,4 a 5,9% dos diagnósticos [1]. Em 1976, Kenji Kosaka et al [2, 12] descreveram o primeiro caso post-mortem da demência pré-senil como a patologia de corpos de Lewy e introduziram o termo “doença Demência de Corpos de Lewy difusa dos corpos de Lewy” que, mais tar(DCL) é, a seguir à Demência de, passou a ser designada por DCL. A de Alzheimer (DA), a forma integração oficial como entidade nosológimais comum de demência ca isolada nas guidelines clínicas ocorreu neurodegenerativa (...)” em 1996 [13]. A DCL é responsável por aproximadamente 4% da incidência de demências [5], 5% em doentes com mais de 75 anos [4], apesar de ser identificada por biópsia em 36% dos doentes com demência [14,15], sugerindo que muitos casos

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não são diagnosticados clinicamente [19]. A idade de início média é de 75 anos, e afeta ambos os sexos, com pior prognóstico nos homens [8]. A DCL apresenta sobreposição clínica e patológica com a demência da doença de Parkinson (DDP), havendo autores que defendem a existência de um espetro da doença de corpos de Lewy [3, 13]. Um exemplo mediático é o do ator Robin Williams, diagnosticado com doença de Parkinson, com sintomas depressivos, ansiosos e paranóides, no qual foi identificada DCL na autópsia (N1). As principais caraterísticas microscópicas da DCL são as inclusões intracelulares de agregados proteicos de neurofilamentos fosforilados de Į-sinucleína e ubiquitina presentes nos núcleos do tronco cerebral, regiões paralímbicas e neocorticais [8,19]. Acredita-se que estas inclusões tenham na DCL um papel na perda progressiva de estrutura e funções dos neurónios, levando à sua morte [21]. Observam-se também neurites distróficas ou de Lewy na substância negra, hipocampo, núcleo dorsal do vago, núcleo basal de Meynert e córtex transentorrinal [8].


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“As alucinações, predominantemente visuais, estão presentes em 1/3 dos casos no início da doença e persistem durante todo o seu curso (...)”

Caraterísticas e diagnóstico clínico A DCL apresenta um perfil neuropsicológico próprio, flutuante ao longo do dia, e/ou de dia para dia (Tabela 1). A flutuação cognitiva, presente em até 90% dos casos, é característica e útil no diagnóstico [9,10]. As alucinações, predominantemente visuais, estão presentes em 1/3 dos casos no início da doença e persistem durante todo o seu curso [8]: são detalhadas, vívidas e podem assumir a forma de animais ou pessoas, associadas a défices da perceção visuoespacial [13]. A atividade alucinatória está relacionada com a desregulação de circuitos talamocorticais [13]. A presença de alucinações visuais diferencia a DCL da DA, particularmente nos estágios iniciais [13]. Não existem biomarcadores específicos para o diagnóstico clínico de DCL. No entanto, existem achados imagiológicos e bioquímicos sugestivos da sua presença. A Ressonância Magnética Cerebral demonstra ausência ou atrofia mínima do lobo temporal medial, enquanto a imagem por Tomografia Computorizada por Emissão de Fotão Único e a Tomografia por Emissão de Positrões evidenciam redução da captação de dopamina nos gânglios da base e hipometabolismo cerebral de predomínio occipital, com relativa preservação do metabolismo de glicose ao nível do córtex cingulado posterior, quando comparado com o cuneus e precuneus [6]. Na DCL também pode haver hipocaptação

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na Cintigrafia Miocárdica com 123I-Metaiodobenzilguanidina [7,19].

Diagnóstico diferencial com DDP Tanto na DCL como na DDP há um declínio cognitivo flutuante, alucinações visuais, sinais cardiais de parkinsonismo, perturbação do comportamento e do sono REM [16]. Na prática clínica, a diferenciação é difícil sobretudo se não se considerar a sequência temporal dos eventos [16,17]. Alguns autores defendem a “regra de um ano”: se a demência ocorre no contexto da uma doença de Parkinson (DP) estabelecida, pelo menos após um ano do início do parkinsonismo, é classificada como DDP. Se, por outro lado, a demência preceder ou ocorrer simultaneamente ou dentro de um ano do início do parkinsonismo, é considerada DCL [16,19,29].

Tratamento Atualmente, não existe nenhum tratamento que modifique a evolução natural da DCL, pelo que a atuação está focada no alívio sin-

Tabela 1. Caraterísticas clínicas (adaptado de McKeith [6]). Caraterísticas clínicas (adaptado de McKeith [6]) Flutuações cognitivas com variações sobretudo da atenção e estado de vigília ĺ Eletroencefalograma com predomínio de atividade lenta posterior com flutuações periódicas no espetro pré-alfa/teta valor preditivo de 90% no diagnóstico.

tomático. A frequente atividade alucinatóriodelirante aumenta o risco da introdução de antipsicóticos. Os indivíduos com DCL apresentam alta sensibilidade aos antipsicóticos e, consequentemente, têm maior risco de síndrome maligna dos neurolépticos, crises acinéticas e efeitos adversos extrapiramidais [22, 23]. Os agentes dopaminérgicos estão associados a um maior risco de sintomas psicóticos, embora a experiência clínica sugira que este risco possa ser melhorado pelo uso de inibidores da acetilcolinesterase [19]. Os inibidores de acetilcolinesterase, especificamente a rivastigmina e o donepezilo, têm uma ampla gama de benefícios na DCL, melhorando a atenção, a velocidade de processamento, a apatia, a ansiedade, as alucinações visuais e atividade delirante, sem provocar deterioração na função motora [24]. As evidências dos benefícios da memantina, antagonista do recetor de NMDA, é menos clara, sendo recomendada quando os inibidores da acetilcolinesterase não são tolerados [25-27]. A depressão é um sintoma comum na DCL, e o antidepressivo deve ser escolhido de acordo com os sintomas concomitantes (p. ex. perturbação do sono ou ansiedade), preferência do paciente e perfil de efeitos adversos. Na depressão resistente ao tratamento, a terapia eletroconvulsiva ou estimulação magnética transcraniana podem ser consideradas (6).

Alucinações visuais recorrentes, bem definidas e pormenorizadas (>80%). Caraterísticas típicas

Perturbação do sono REM (pode preceder o declínio cognitivo), sonhos vívidos

Prognóstico

com agitação motora e consequente perda da atonia normal do sono REM.

A progressão da DCL aumenta a incapacidade do doente: o tempo médio desde a primeira apresentação com sintomas cognitivos até à morte varia entre 3,3 anos para homens e 4,4 anos para mulheres. A taxa de mortalidade é aproximadamente três vezes maior do que a da população geral [18].

Presença de um ou mais sinais cardinais de Parkinsonismo (bradicinesia, tremor de repouso ou rigidez) (>85%). Sensibilidade marcada aos neurolépticos. Instabilidade postural com quedas frequentes. Síncope/alterações transitórias do estado de consciência. Disautonomia (p. ex. obstipação, hipotensão ortostática, incontinência urinária). Caraterísticas frequentes e sugestivas

Hipersónia.

Conclusão

Hiposmia.

A DCL é uma patologia com alta incidência e é expectável que com o aumento da esperança média de vida ocorra um aumento da sua prevalência e do seu impacto social. Apesar das múltiplas investigações, ainda

Alucinações de outras modalidades. Delírio sistematizado. Apatia, ansiedade, depressão (40%). [8]


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não foi possível identificar biomarcadores com sensibilidade e especificidade para utilização na prática clínica, quer para o diagnóstico atempado, quer para monitorizar a progressão da doença. Os tratamentos sintomáticos têm apenas um efeito clínico temporário e modesto, pelo que é pertinente identificar novos alvos específicos para intervenção terapêutica [11].

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Transtorno neurocognitivo: quais são as LPSOLFD©·HV" 1

Mafalda Silva e 2José Manuel Silva

1

Professora adjunta na Escola Superior de Saúde Santa Maria e enfermeira especialista em Saúde Mental

2

Presidente do Conselho de Direção da Escola Superior Saúde Santa Maria e da Caregivers Portugal - Associação Portuguesa de Cuidadores

O

envelhecimento populacional tem crescido de forma exponencial nos últimos anos. Verifica-se o aumento da esperança média de vida e da melhoria da qualidade de vida resultante de melhores condições socioeconómicas e dos avanços da medicina que tem contribuído para o progressivo aumento de doenças crónico-degenerativas e incapacitantes com elevados graus de dependência física e mental, entre elas o Transtorno Neurocognitivo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que em todo o mundo existam 47,5 milhões de pessoas com transtorno neurocognitivo, número que pode atingir os 75,6 milhões em 2030 e quase triplicar em 2050 para os 135,5 milhões. O transtorno neurocognitivo devido a Alzheimer assume,

neste âmbito, um lugar de destaque, representando cerca de 60 a 70% de todos os casos de transtorno neurocognitivo (World Health Organization [WHO], 2015). Segundo o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicado em novembro 2017 “Health at a Glance 2017” Portugal é considerado o 4.º país com maior número de casos por cada mil habitantes. Estima-se cerca de 205 mil pessoas com demência em Portugal. A média da OCDE é de 14,8 casos por cada mil habitantes e em Portugal a estimativa é de 19,9. As estimativas apontam para que até 2037 o número de caos subirá para os 322 mil casos. O transtorno neurocognitivo é uma síndrome, que implica deterioração da cog-

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nição, alterações do comportamento e prejuízo funcional (American Psychiatric Association, 2013). A evolução progressiva é fundamental para a estimulação cognitiva com o envolvimento das pessoas afetadas nas atividades de vida diária, de forma a manter as suas capacidades o maior tempo possível. Do ponto de vista clínico, o transtorno neurocognitivo inicia-se por volta dos 65 anos com a presença de estruturas anormais, de placas amilóides, que se acumulam no cérebro de forma progressiva e irreversível, que vai levando à destruição progressiva dos neurónios. A instalação de um quadro inicial insidioso dificulta a perceção dos cuidadores para esta situação clínica atempadamente. De acordo com a literatura são observadas as diferentes fases no transtorno neurocognitivo desde o défice cognitivo ligeiro; a fase ligeira, moderada e grave. Os cuidados prestados devem adaptar-se, necessariamente, a cada uma das fases, sendo fundamental uma avaliação cuidada das necessidades de cada pessoa, de forma a planear e desenvolver intervenções específicas e adequadas a cada caso. É também importante o reforço das capacidades e competências dos familiares e cuidadores que permita adequá-los melhor à sua forma de atuar e reagir a cada situação e manter a qualidade das relações familiares. De acordo


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com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) podemos caraterizar as diferentes fases do transtorno neurocognitivo: a. fase inicial é caraterizada por sintomas ligeiros e muitas vezes negligenciados como perda de memória (especialmente de acontecimentos recentes); perda de iniciativa; dificuldade em encontrar as palavras. Muitas pessoas ficam assustadas, embaraçadas e deprimidas com estas mudanças iniciais; desorientação no tempo (incapacidade para se situar na data e no ano) e no espaço (incapacidade para reconhecer locais familiares); alteração de humor, frequentemente a pessoa entra em negação como mecanismo de defesa e ansiedade; redução de rendimentos em situações laborais ou sociais exigentes; b. fase moderada existe o agravamento do défice cognitivo e funcional que impedem a realização autónoma das atividades vida diárias com necessidade de cuidados 24 horas/dia com a presença de lapsos de memória significativos como dificuldade em identificar os nomes de familiares, números de telefone, dificuldade na identificação de pessoas próximas e com necessidade de auxílio nos autocuidados, alterações de sono e apetite, deambulação comprometida; perde-se facilmente; agravamento dos problemas de linguagem (compreensão e expressão de linguagem escrita e oral); alteração do processo de pensamento (delírios e alucinações); concentração e confusão comprometidas; alterações de humor, com predominância de sintomatologia como ansiedade, tristeza, depressão, frustração, hostilidade, apatia ou agitação; sentimento de perda ou de insegurança e com alterações de comportamento com períodos de inquietação e discurso repetitivo; c. na fase avançada verifica-se que as perturbações cognitivas e a dependência física encontram-se totalmente comprometidas com a dependência em grau elevado nos autocuidados: alimentar-se, beber, uso de sanitário, vestuário, deambular; incapacidade em reconhecer os amigos e a família; comportamento desadequado; dificuldade em deglutir; emagrecimento acentuado. Os cuidados de saúde são maioritariamente prestados em instituições que não es-

tão estruturadas para a satisfação das suas necessidades. As políticas de saúde não têm dado a devida atenção aos problemas de saúde mental e do envelhecimento. Verifica-se a falta de apoio às pessoas com transtorno neurocognitivo e aos seus familiares, com iniciativas dispersas, não integradas e pouco articuladas, geralmente de natureza privada ou social. A situação atual carateriza-se por cuidados inadequados às necessidades das pessoas e insuficiente atenção aos determinantes da autonomia e da independência. O papel dos serviços de saúde mental torna-se relevante, na medida em que a progressão da doença desencadeia alterações diversas em que a intervenção nos aspetos psicológicos e comportamentais é determinante para o acompanhamento do doente e familiares. O surgimento de uma doença em qualquer etapa do ciclo de vida familiar ou individual influencia o equilíbrio do próprio e da sua família positivamente e negativamente. Segundo a evidência teórica, prática e científica verificamos que a família tem especial interesse pelo bem-estar, saúde e doença dos seus membros, tornando-se relevante incluir as famílias como parte integrante da prática de cuidados de enfermagem. A família carateriza-se pelas relações estabelecidas pelos seus membros, num contexto específico de organização, estrutura e funcionalidade. Assim, a conceção dos cuidados à família assenta no pensamento sistémico permitindo a compreensão multidimensional, instabilidade, globalidade, contextualidade, organização inerentes ao sistema familiar (Figueiredo & Martins, 2010). Através deste paradigma é possível compreender novos contextos familiares que vão para além da família nuclear, acompanhando a evolução do conceito de família que se encontra alterado e reconstruído a par da evolução de novos contextos e estruturas sociais. No entanto, mesmo com as alterações organizacionais e estruturais que as famílias têm sofrido ao longo dos tempos, a família continua a ser uma unidade emocional e afetiva caraterizada pelas dimensões psicológica e social. Contudo, a família ainda é vista como uma unidade fragmentada, em que os cuidados de enfermagem centram-se no indivíduo e cuidador principal, sem ter em atenção o seu contexto familiar e o impacto nos restantes membros da família. As alterações familiares, como a redução do número de

“(...) Portugal é considerado o 4.º país com maior número de casos por cada mil habitantes. Estima-se cerca de 205 mil pessoas com demência em Portugal. ” pessoas do agregado familiar e a sua dispersão geográfica, associadas à inclusão da mulher no mundo do trabalho são fenómenos sentidos na sociedade ocidental, com repercussões negativas para o suporte familiar (Sequeira, 2010). Para conseguirem dar uma resposta eficaz a estas alterações torna-se necessária a aquisição de um conjunto de conhecimentos aos diferentes níveis, ou seja, um plano de desenvolvimento, aprender a lidar com diversas situações e disponibilidade de recursos financeiros, podendo refletir dificuldades na reorganização. As consequências são sentidas por toda a família sendo necessária uma abordagem global centrada nas suas necessidades biológicas, psicológicas e sociais. A reorganização familiar exige o envolvimento de todos os membros que a constituem, não podendo recair a responsabilidade pelo cuidar sobre a figura do cuidador informal. Assim, torna-se imperioso a atenção prestada pelos profissionais de saúde nos cuidados prestados às famílias para promover a autonomia do sistema familiar. A prestação de cuidados é assumida pelas pessoas mais próximas desde os vizinhos, amigos, membros da família, acarretando assim outras dificuldades subjacentes ao novo papel de prestador de cuidados. Assim torna-se importante refletir sobre esta nova realidade e de que forma podemos contribuir para melhorar a qualidade de vida, diminuir a vulnerabilidade física e emocional das pessoas com transtorno neurocognitivo e seus familiares. Os familiares que coabitam demonstram dificuldades em lidar com o estigma, a perceção de sentimentos ambíguos e emoções negativas como a tristeza, preocupação, raiva, angústia, medo, culpa e vergonha, verificando-se uma deterioração na saúde física e mental com sentimentos de desesperança, menos valia, presença de sintomatologia depressiva e irritabilidade emocional. A dependência conjugada com problemas comportamentais como delírios, alucinações, agressividade, desinibição ou outros sintomas neuropsiquiátricos, conduzem ao aparecimento de alterações profundas na dinâmica familiar.


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A família é considerada uma unidade básica de suporte para a continuidade da prestação de cuidados, suportando a responsabilidade em cuidar dos seus membros que perderam a capacidade para uma vida independente. Verifica-se que existe um elevado risco de morbilidade psicológica, física e social, comprometendo a capacidade para lidar com a pessoa doente por parte dos familiares que coabitam com a mesma. A família é uma construção social representativa de um modo de agir e de pensar coletivo, que evolui ao longo dos tempos, de acordo com a organização e o funcionamento da sociedade.

Sobrecarga familiar Atualmente, a maioria das pessoas com transtorno neurocognitivo são cuidadas pelos familiares, o que acarreta uma sobrecarga física, emocional, social e económica, por isso é urgente implementar programas de apoio para os cuidadores familiares de pessoas com demência a residir no domicílio A sobrecarga do cuidador entende-se como um conjunto de problemas físicos, psicológicos, emocionais, sociais e financeiros, experienciados por cuidadores de pacientes com algum tipo de dependência. A saúde mental dos cuidadores familiares tende a ser afetada, aumentam os sentimentos de desesperança, quadros depressivos e irritabilidade emocional que advém da necessidade de prestarem cuidados diariamente (Marques, 2007). A prestação dos cuidados é uma tarefa complexa e desgastante, proporcionando efeitos negativos na saúde de todos os intervenientes como a presença de elevados níveis de stress e, por conseguinte, agravamento da sobrecarga subjetiva e objetiva. A sobrecarga objetiva refere-se às consequências negativas concretas e observáveis, resultantes da presença do doente mental na família, tais como perdas financeiras, perturbações na vida social e profissional dos familiares, tarefas adicionais que eles precisam de executar para cuidar de todos os aspetos da vida do paciente (higiene, transporte, controlo da medicação, alimentação, lazer, compras, consultas), perturbações nas relações entre os membros da família, ocorrência de comportamentos problemáticos com os quais os familiares precisam de lidar, tentando evitá -los ou lidando com as suas consequências. A sobrecarga subjetiva refere-se à perceção ou avaliação pessoal do familiar sobre a situação, envolvendo as reações emocionais e os sentimentos de estar a sofrer uma sobrecarga atribuída à presença do doente mental na família. Este aspeto traduz-se por pensamentos e sentimentos negativos, preocupa-

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ções e/ou tensão psicológica, envolvendo sentimentos de desamparo, tristeza, culpa, assim como de perda semelhante ao luto. Além disso a natureza e o estigma da doença mental podem provocar sentimentos de vergonha face aos outros. As mudanças que ocorrem no relacionamento do paciente com os seus familiares em consequência da doença mental, particularmente a falta de reciprocidade entre eles, prejudicam a relação e tornam difícil a manutenção de sentimentos positivos no dia a dia, o que contribui para aumentar a sobrecarga subjetiva. Esse papel não é uma tarefa fácil e está acompanhado de dificuldades socioculturais para além das exigências psicológicas e físicas já existentes na atividade do cuidador informal. Verificou-se que a elevada escolaridade e rendimento estão relacionados com estratégias orientadas para a resolução do problema. Uma maior formação permite desenvolver capacidades práticas, nomeadamente um maior conhecimentos e recursos sociais. A baixa escolaridade está relacionada com “estratégias centradas na partilha do problema” e “perceções alternativas sobre a situação”. Quem tem maior experiência na atividade de cuidar adota como mais eficazes as “estratégias centradas no cuidador” e as “perceções alternativas sobre a situação”. Sequeira (2018) complementa que face à complexidade do problema e dificuldade de total resolução, as estratégias de evitamento são mais bem-sucedidas por reduzir as expetativas e, consequentemente, as eventuais frustrações, protegendo os cuidadores de elevados níveis de ansiedade. Existe um interesse crescente desde os anos 70 no estudo das estratégias de coping das famílias cuidadoras com o intuito de compreender a forma de lidar e dar resposta às necessidades exigidas, de forma a atingir

um estado de harmonia entre as necessidades internas e as exigências externas. As estratégias de coping vão influenciar a dinâmica familiar, uma vez que a forma como é interpretado o processo de transição saúde/ doença no seio familiar determina a qualidade de vida dos intervenientes. Existe um leque variado de estratégias que podem ser adotadas face a situações desencadeadoras de stress e que variam de acordo com as caraterísticas de cada pessoa, ou seja, traços da sua personalidade, a saúde física e psicológica, inteligência e experiências vividas. As estratégias de coping podem ser pensamentos ou atitudes utilizadas para lidar com situações geradoras de stress e para diminuir os transtornos associados. A escolha das estratégias de coping são influenciadas por variáveis ambientais, como por exemplo, os recursos sociais identificados pela família para lidarem com a situação. O baixo nível de apoio social é um fator de vulnerabilidade ao stress, no entanto um nível elevado pode aumentar a perceção do controlo, diminuindo os efeitos do stress e aumentando a capacidade do indivíduo para lidar com as situações. A norma de resolução de problemas assenta nas estratégias desenvolvidas pela família para enfrentar as situações de stress, estando ajustado às interações no contexto familiar, demonstrando os comportamentos adotados face às situações de stress, ou seja, podemos “considerar as estratégias utilizadas pela família para lidar com as situações de stress como estratégias de coping, que visam a adaptação através do processo de auto-organização” (Figueiredo, 2009, pg. 97). A eficácia do coping é afetada pelo otimismo e pela auto-eficácia. Consideramos que o otimismo está relacionado com uma melhor adaptação física e/ou psicológica ao stress, com forte impacto no coping mostrando


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que a personalidade assume um papel fundamental na gestão do stress, reduzindo os efeitos negativos e influencia o bem-estar. O bem-estar da família reforça-se através da promoção da autonomia do sistema familiar e criando a família como uma unidade em transformação, de forma a capacitá-la face às exigências que surgem devido às transições que ocorrem ao longo do ciclo vital das famílias com pessoas com transtorno neurocognitivo. As famílias com uma maior capacidade adaptativa demonstram um número reduzido de causas de stress, apresentam uma maior capacidade de funcionamento e comunicação, pois encaram as situações com otimismo sendo capazes de desenvolverem mecanismos de coping mais eficazes (Ballard, 2005). As famílias que possuem poucos recursos tendem a procurar mais estratégias de coping. Estudos referem que as famílias que possuem uma fraca interação social e que tem a responsabilidade total de prestação de cuidados experienciam, negativamente, com a presença de sentimentos de solidão, frustração, raiva, medo, ansiedade e depressão tornam-se incapazes de resolver as situações com que se deparam diariamente. No entanto, as estratégias adotadas dependem de fatores como o número de pessoas dependentes, a carga horária, comportamento, os conhecimentos da doença que possuem, o tipo de família afetada, o problema, o elemento que foi afetado, alterações no bem-estar, as experiências vividas, o grau de dependência (Riper, 2005). Torna-se imperiosa a adaptação eficaz da família ao problema com o intuito de prevenir situações de stress. As famílias que apresentam maior capacidade de adaptação face ao problema, ou seja, um bom funcionamento familiar, positivistas, capacidade de comunicação apresentam menos efeitos negativos consequentes da doença. O coping eficaz diminui os efeitos negativos do stress e influencia o bem-estar objetivo e subjetivo. Existem inúmeras estratégias de coping que são consideradas eficazes, no entanto os profissionais de saúde assumem um papel importante no apoio aos cuidadores, potenciando a utilização mais eficaz das estratégias. Verifica-se que os programas interdisciplinares de educação e suporte para cuidadores proporcionam a redução dos níveis de sobrecarga do cuidador. Por conseguinte é necessária a implementação e ampliação de intervenções efetivas para melhorar a qualidade de vida do cuidador e da pessoa com transtorno neuro-

cognitivo, e incentivar os profissionais para a realização destes programas, abordando também técnicas para gerir sintomas psicológicos e comportamentais (Silva, Sá e Sousa, 2018). Os profissionais de saúde possuem um papel ativo na avaliação do sistema de suporte interno e externo nas famílias criando novas rotinas de adaptação a uma determinada situação, de modo a atingir os resultados esperados com as intervenções de enfermagem implementadas e que se traduzem em ganhos em saúde. Contribuem ativamente para a capacitação dos diferentes elementos familiares, de forma a ensinar, proporcionar apoio emocional, recursos a nível social e de proporcionar momentos de partilha. A estreita proximidade entre os profissionais de saúde e as famílias possibilita um acompanhamento mais eficaz na aquisição de novas competências ao longo do processo de transição saúde-doença. Mas as necessidades de profissionais habilitados para prestar apoio e acompanhamento não se esgota nos profissionais de saúde, no sentido mais tradicional e restrito do termo, é cada vez mais importante o papel dos cuidadores, aqueles que “auxiliam outrem nas suas atividades de vida diária”, e este é o elo mais fraco da cadeia dos cuidados. Infelizmente, em Portugal ainda se está numa fase muito embrionária na formação destes profissionais, muitas vezes confundidos com auxiliares de cuidados gerais, auxiliares de lares, assistentes operacionais, um conjunto de denominações que não traduzem a sua especialização desejável e não concorrem para o reconhecimento técnico indispensável. A sua formação é claramente insuficiente para os níveis cada vez mais avançados de especialização necessários, para agirem em contextos complexos, para atenderem aos novos clientes, cada vez mais exigentes, cultos e mais conscientes da sua identidade e independência. O futuro exige que a profissão de cuidador/assistente pessoal seja reconhecida como tal e é por este objetivo que associações, escolas e sindicatos se têm de bater. Não se pode aceitar que cuidadores sejam confundidos com pessoas sem formação que até podem ter muitas qualidades, mas a quem falta o conhecimento técnico e a prática à prestação de cuidados de elevada qualidade. Mesmo ao nível familiar, não basta o afeto, é necessário conhecimento e experiência e isto exige formação.

As escolas iniciaram, muito recentemente, cursos de nova geração na formação de cuidadores com formação superior, pelo que se começa a conseguir criar um percurso vertical de formação de cuidadores, desde os níveis mais básicos até aos mais avançados. É um princípio de um caminho irreversível que tem de ser aprofundado e replicado. Num mundo em que a longevidade vai ser cada vez maior, é imperioso formar profissionais cada vez mais qualificados e em número suficiente para uma procura progressivamente superior, tanto mais que o paradigma do futuro vai ser o “ageing in place” ao contrário da prática generalizada da institucionalização que tem feito escola em Portugal nas últimas décadas.

“Mesmo ao nível familiar, não basta o afeto, é necessário conhecimento e experiência e isto exige formação.” Este novo desafio só reforça a necessidade de profissionais mais qualificados que se articulem com os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, nutricionistas, profissionais de educação física, no cuidar de quem precisa, sendo que os cuidadores são os que estão sempre ali, acompanhando dia e noite, como uma sombra de quem cuidam, contribuindo para iluminar a vida de quem deles espera apoio e conforto.

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Demências Tratáveis

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Neste artigo será feita uma revisão das principais causas de demência tratáveis.

Causas medicamentosas A descrição da medicação habitual é essencial na história clínica dos doentes com demência. Há múltiplos fármacos que podem causar disfunção cognitiva, particularmente em idosos que tomem muitos medicamentos (algo muito frequente atualmente). As causas medicamentosas assumem um papel muito importante neste tema. Dada a extensa lista de fármacos existentes não ser compatível com o tamanho deste artigo, pela prevalência de uso, ressaltam-se dois grupos de fármacos:

Médicos Neurologistas do Hospital Pedro Hispano - Uni. Local de Saúde de Matosinhos Luís Ribeiro, Ana Monteiro

Introdução A maioria das demências correspondem a processos neurodegenerativos primários, nos quais existe uma inevitável e progressiva destruição de neurónios. As demências reversíveis, por sua vez, resultam de uma causa secundária que, quando corrigida, poderá levar à restituição da função cognitiva. No entanto, uma demência reversível (tratável) pode tornar-se irreversível se a sua causa não for detetada e corrigida atempadamente. É importante salientar que também os doentes com demência neurodegenerativa primária (p.ex. Doença de Alzheimer) podem ter causas tratáveis a contribuir para a sua disfunção cognitiva, pelo que devem ser procuradas quando suspeitadas e tratadas adequadamente. Alguns sinais clínicos fazem suspeitar de demência reversível: declínio funcional muito acelerado (rápida perda de autonomia para as atividades diárias), grande flutuação cognitiva diária (p.ex.: confusão/desorientação

com intensidade variável ao longo do dia) e evidência de comportamentos de risco conhecidos (p.ex. consumo excessivo de álcool, má nutrição). Mesmo não havendo estes sinais, dado o potencial para tratamento, é obrigatório pesquisar causas reversíveis em todos os doentes em que é feito o diagnóstico clínico de demência. Tabela 1. Causas de demências potencialmente tratáveis. Alterações

Causas

Causas

estruturais

medicamentosas

metabólicas Défice vitamina (B12,

Outras Depressão e ansiedade

Tumor cerebral

Benzodiazepinas

Hematoma subdural

Anticolinérgicos

Hipo/hipertiroidismo

Infeção do sistema nervoso central

Narcóticos

Doença renal crónica

Vasculite do sistema nervoso central

Antidepressivos

Doença hepática

tricíclicos

crónica

Antipsicóticos

Doença de Cushing

Antihistamínicos de

Síndrome de apneia

primeira geração

do sono

Hidrocefalia de Pressão Normal Empiema intracerebral Abcesso intracerebral

B1 e ácido fólico)

Álcool


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» Benzodiazepinas: qualquer sedativo/indutor do sono desta classe tem o potencial de causar disfunção cognitiva, particularmente quando tomado por largos períodos de tempo. Existe alguma evidência científica que as pessoas que usam estas medicações de modo crónico têm maior prevalência de demência, no entanto ainda está por esclarecer se existe uma relação direita entre as duas coisas. É certo que estes medicamentos podem causar uma situação clínica denominada delirium, que pode ser confundida com demência, sobretudo em idosos mais suscetíveis ou já com algum grau de perda cognitiva. As benzodiazepinas são muito usadas para ajudar no sono ou como calmante durante o dia. São exemplos o diazepam, o alprazolam e o loflazepato de etilo. Apesar do acima referido, é totalmente desaconselhada a interrupção abrupta destas medicações, devendo sempre previamente procurar aconselhamento médico. » Anti-colinérgicos: estes fármacos bloqueiam a ação da acetilcolina (neurotransmissor importante). Estes medicamentos têm múltiplas utilidades na prática clínica, como na doença pulmonar obstrutiva crónica, incontinência urinária, doenças gastrointestinais, entre outros. Devem ser evitados sempre que possível em idosos pois têm como efeito lateral frequente alteração cognitiva, com confusão, agitação e perda de memória.

Causas metabólicas O equilíbrio vitamínico, hormonal e dos iões sanguíneos é essencial para criar um ambiente adequado ao funcionamento cerebral. Múltiplas situações em que esse equilíbrio é perdido podem levar a disfunção cognitiva. » Vitamina B12: esta é uma vitamina essencial para o funcionamento das células

nervosas. Está presente na carne, peixe, laticínios e ovos. Uma má alimentação, alcoolismo crónico ou a existência de certas patologias que diminuam a sua absorção (p.ex. gastrite atrófica) podem levar ao défice vitamínico, o qual deve ser suplementado quando detetado. Clinicamente as pessoas com défice desta vitamina podem apresentar lentificação psicomotora (lentidão do pensamento e dos movimentos do corpo), confusão e défice de memória. Com frequência há doença dos nervos periféricos associada (caracterizada por alteração da sensibilidade, como formigueiros, nas mãos e pés). Geralmente é detetada também anemia uma vez que a vitamina B12 é necessária para a formação de glóbulos vermelhos. » Ácido Fólico: é uma vitamina presente nos vegetais verdes e fruta. É essencial ao desenvolvimento do cérebro dos bebés, mas a sua importância mantém-se no adulto, sendo que o seu défice pode causar disfunção cognitiva. Deve ser também doseado nas análises quando há suspeita de declínio cognitivo » Vitamina B1: o alcoolismo crónico provoca atrofia cerebral, podendo causar demência irreversível. Um dos motivos para que isso ocorra é a deficiência grave de vitamina B1 (tiamina), causada pelo consumo excessivo de álcool e pela má alimentação. Esta situação é denominada encefalopatia de Wernicke e caracteriza-se por confusão, perda de memória, alteração dos movimentos oculares e descoordenação motora. Poderá ser reversível se for corrigido o défice de tiamina atempadamente. » Doença Tiroideia: quer o hipotiroidismo (diminuição do nível de hormonas tiroideias) quer o hipertiroidismo (aumento do nível de hormonas tiroideias) podem cau-

sar disfunção cognitiva, particularmente em jovens-adultos. Se forem detetadas alterações da função da tiroide é importante corrigir o desequilíbrio e procurar a causa subjacente. » Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS): é um distúrbio muito prevalente (particularmente em pessoas com obesidade) que se caracteriza por um sono pouco reparador e sonolência diurna. Os doentes com SAOS acordam muitas vezes durante a noite (embora possam não reparar) devido ao aumento dos níveis de CO2 (dióxido de carbono) no sangue, motivados pelos períodos de apneia (ausência de respiração). A perda do sono reparador tem repercussões no dia a dia, diminuindo a capacidade de atenção e raciocínio. Há também alguma evidência de que, durante os períodos de apneia, a diminuição de oxigénio sanguíneo possa ter efeitos deletérios no cérebro, contribuindo para a disfunção cognitiva. Se a SAOS for detetada, deve ser instituído o tratamento necessário que pode passar por máquinas que ajudam a respirar durante a noite, até uma cirurgia para ajudar a via respiratória a manter-se aberta durante o sono. » Doença Renal: a ureia é um tóxico produzido pelo nosso metabolismo e é eliminada pelos rins. A doença renal e/ou uma má hidratação podem levar à acumulação deste composto, causando disfunção cerebral conhecida como encefalopatia urémica. Esta poderá ser reversível com a redução dos níveis sanguíneos de ureia. » Doença Hepática: à semelhança do descrito no tópico anterior, na doença hepática acumula-se no sangue um tóxico, a amónia. Esta acumulação pode causar uma síndrome denominada encefalopatia hepática, causando disfunção cognitiva (confusão e desorientação) que tende a ser flutuante (variar de gravidade ao longo do dia).

Alterações estruturais do cérebro Todos os doentes diagnosticados com demência são submetidos a um exame de imagem (tomografia computorizada ou ressonância magnética) para que, entre outras razões, se possam avaliar alterações estruturais do cérebro que podem mimetizar uma demência, mas que poderão ser tratáveis. » Tumor Cerebral: dependendo da localização cerebral, um tumor pode causar diversos sintomas, como alterações de memória e do juízo crítico, alteração da


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personalidade e dificuldade no controlo de impulsos. Poderá ser possível retirar o tumor e, em alguns casos, recuperar a cognição.

(local onde se encontra o líquido cefalorraquidiano) e poderá ser revertida com a retirada de algum desse líquido.

tras infeções do sistema nervoso central, pelo facto de reduzir as defesas da pessoa infetada.

Conclusão

Figura 3. Ressonância magnética de cérebro com alarFigura 1. Ressonância magnética de cérebro com um tu-

gamento dos ventrículos (asterisco amarelo) traduzindo

mor cerebral (bola vermelha) (Case courtesy of Dr Henry

hidrocefalia de pressão normal (Case courtesy of A.Prof

Knipe, Radiopaedia.org, rID: 56937).

Frank Gaillard, Radiopaedia.org, rID: 7258).

» Hematoma Subdural Subagudo/Crónico: corresponde à acumulação de sangue entre o cérebro e a camada de tecido que o cobre (dura mater). Em idosos um hematoma subdural pode surgir após um trauma relativamente pequeno nos dias/semanas anteriores, que foi desvalorizado (p.ex. cair da cama, bater com a cabeça num armário ou sofrer uma travagem brusca no carro para evitar um embate, levando a um movimento brusco da cabeça). Poderá ser necessária a drenagem neurocirúrgica para a recuperação cognitiva.

Patologia psiquiátrica O termo pseudo-demência ou, mais recentemente, demência associada à depressão, é usado para descrever a disfunção cognitiva causada pela depressão. A patologia depressiva é muito frequente na nossa sociedade. A perda de motivação, lentificação, sonolência e dificuldade em manter a concentração/atenção são sintomas semelhantes aos sinais iniciais de demência. Por outro lado, o défice de concentração/atenção pode causar defeitos em múltiplos domínios da memória particularmente na capacidade de reter informações, o que causa grande dificuldade em fazer as atividades do dia a dia (como cumprir recados). Geralmente, os testes realizados na avaliação neurológica destes doentes, conseguem distinguir entre demência e depressão (embora, muitas vezes, possa haver um contributo das duas doenças na mesma pessoa). O tratamento atempado e correto pode melhorar muito a capacidade cognitiva e a qualidade de vida da pessoa.

Infeção do Sistema Nervoso Central Figura 2. Tomografia computorizada de cérebro com hematoma subdural crónico (seta verde) (Case courtesy of Dr Jeremy Jones, Radiopaedia.org, rID: 6136).

» Hidrocefalia de Pressão Normal: esta síndrome caracteriza-se por uma tríade: alteração da marcha (caracterizada por um caminhar com passos pequenos, pernas afastadas e quase sem levantar os pés, arrastando-os), incontinência urinária e demência. É causada por um alargamento dos ventrículos cerebrais

Felizmente, é uma causa cada vez menos frequente de perturbação cognitiva. Ainda assim, deve ser pesquisada infeção por treponema pallidum e pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), uma vez que, embora infrequentemente encontrados nestas situações, são tratáveis. Estes são responsáveis pela neurossífilis e encefalopatia do VIH, respetivamente, que são condições clínicas que se podem apresentar como defeito cognitivo e demência. No caso do VIH, acresce o facto de poder levar a ou-

As demências tratáveis correspondem a uma pequena porção de todas as demências. No entanto está recomendada a realização de vários exames laboratoriais e de imagem nos doentes que se apresentam com disfunção cognitiva, de modo a excluir causas reversíveis. Uma história clínica cuidada, aliada aos exames complementares de diagnóstico, consegue detetar a maioria das demências reversíveis. Existem múltiplas causas secundárias capazes de levar a disfunção cognitiva. É essencial que sejam detetadas e atempadamente tratadas de modo a poder prevenir a evolução para demência. Infelizmente nem sempre se consegue uma reversão completa da disfunção cognitiva, particularmente quando a causa está presente por longos períodos de tempo, causando danos irreversíveis.

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Demência )URQWR 7HPSRUDO uma revisão clínica 1

Joana Raposo Gomes e 2Horácio Firmino

1

Interna de Especialidade Psiquiatria no Centro Hospitalar Universitário Algarve

2

Coordenador da Gerontopsiquiatria, Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução O termo degeneração frontotemporal, é uma designação neuropatológica usada para identificar um grupo de doenças neurodegenerativas dos lobos frontal e temporal anterior do cérebro, que se traduzem em síndromes clínicos, nomeadamente a Paralesia Supranuclear Progressiva (PSP), Degeneração Corticobasal (DCB) e a Demência Fronto-temporal (DFT), esta, nas suas variantes Comportamental e Afasia Progressiva Primária[1]. A DFT foi primeiramente descrita por Arnold Pick em 1892, daí ser inicialmente conhecida por Demência de Pick. Esta primeira descrição foi baseada num caso com alterações da linguagem (afasia primária progressiva) e atrofia fronto-temporal focal, detetando a existência de neurónios edemaciados (células de Pick), que continham proteínas tau e ubiquitina[2]. Mais tarde, foi

Alois Alzheimer quem a caracterizou histologicamente, reportando a ausência das tranças neurofibrilares e placas senis típicas da DA[3].

Epidemiologia Hoje, considera-se a DFT uma doença neurodegenerativa de início precoce, sendo em termos epidemiológicos a terceira mais frequente, precedida pela DA e pela demência com corpos de Lewy (DCL)[4]. Representa, uma elevada percentagem das demências degenerativas de início precoce/pré-senis (15/22 casos por 100 000 pessoas)[5], sendo este número provavelmente subestimado[6]. A idade de início varia consoante o subtipo, surgindo na maioria das revisões pela 5.ª e 6.ª década de vida, sendo incomum o diagnóstico antes dos 40, onde é mais comum a variante comportamental, na qual são mimetizados quadros psiquiá-

tricos - mais comuns nessa faixa etária, algo que nos faz desde já estar cientes de uma das barreiras ao diagnóstico precoce[7]. A sobrevivência pós-diagnóstico é de 3 a 14 anos, no entanto alguns doentes apresentam uma forma lenta de progressão[8]. A causa de morte depende de cada subtipo e do contexto subjetivo de cada indivíduo, no entanto a insuficiência respiratória, as alterações cardiovasculares e a caquexia têm sido as mais apresentadas. Do grupo das demências, a DFT é aquela em que decorre mais tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico de demência, em média 40 meses (muito superior à DA, cerca de um ano e meio)[9].

Fatores de risco Recentemente os fatores genéticos têm sido os mais debatidos, no entanto, não se devem desconsiderar outros factores que poderão potenciar o risco de demência precoce, como o estilo de vida, as co-morbilidades, o risco cardiovascular e os factores ambientais. Aproximadamente 40% das pessoas com DFT têm história familiar de demência, mas menos de 10% têm um padrão de hereditabilidade autossómico dominante (AD)[10].

Diagnóstico e apresentação clínica Em pessoas mais jovens, o diagnóstico de demência é muitas vezes pouco ponderado no diagnóstico diferencial, o que atrasa ou encobre o diagnóstico de DFT, que comparativamente com os outros tipos de demência é a que mostra uma maior heteroge-


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neidade de sintomas. Deixar escapar sinais precoces de uma perturbação neurocognitiva pode significar um encaminhamento tardio para um psiquiatra/neurologista/geriatra, que possa confirmar o diagnóstico numa fase mais inicial[6]. É fundamental realizar a história na presença de familiares, uma vez que o próprio raramente ou nunca procura uma consulta médica – devido à perda precoce de critica para a doença[11]. Assim, são muitas vezes os familiares a pedir ajuda médica por se encontrarem desgastados, assustados ou com vergonha. Na investigação diagnóstica, devem ser usadas questões simples como “tem dito ou feito coisas estranhas ou que sejam embaraçosas?”, “notaram mudanças no comportamento, como parecer indiferente, mais obsessivo, ou menos afectivo com pessoas que lhe são queridas ou animais?”, “existiu alguma alteração nas preferências alimentares ou nos modos de estar à mesa?”, “parece-vos que esteja mais preocupado com as horas, ou que esteja com um sentido de humor inapropriado?”, “nota mudanças no sentido de humor?”. Não raras vezes os doentes olharão com estranheza para os familiares, desmentindo ou desvalorizando o que dizem, mostrando-se muitas vezes indiferentes, zombeteiros e/ou rindo de algumas das graves alterações descritas. Este facto pode inibir a colaboração dos familiares, pelo medo de uma reação negativa, e/ou de poderem ser desmentidos e passar por fraudulentos junto de um médico. Isto leva desde logo a que se compreenda a necessidade de lhes dar uma atenção especial desde início, validando os seus medos e “normalizando” as reações menos positivas que encontrem do seu familiar, com um início de uma psicoeducação[12].

noturno, alterações na personalidade – incluindo pequenos furtos, incumprimento do código da estrada e/ou desadequação social[13]. Geralmente os afetados não apresentam mal-estar/sofrimento para os elementos que mais desconforto causam nos familiares: » apatia – deixam de fazer as suas atividades da vida diária, de cozinhar, de tomar banho; » desinibição – intrometem-se em conversas, abordam desconhecidos, fazem comentários considerados ofensivos, mexem na comida de outras pessoas, urinam em público, riem num funeral, “parecem crianças”, têm uma alegria pueril; » alterações alimentares – parece que nunca se satisfazem com a comida, até comem coisas estranhas que apanham no chão; » comportamento delinquente – roubam, agridem, andam a toda a velocidade na estrada, maltratam animais)[14]. Deve-se pesquisar sobre a apatia que, não raras vezes, é diagnosticada como depressão, sendo difícil de realizar diagnóstico diferencial quando é o único elemento presente. O humor pueril, moriático – alegria tola, sem conteúdo; por vezes é difícil de distinguir de um quadro maniforme. Deve-se ainda estar atento a outros sinais, que estarão ausentes em pessoas com provável DFT, como o sofrimento/mal-estar subjetivo e incapacidade de sentir satisfação/prazer ou interesse em atividades que previamente

lhes davam prazer – anedonia, sendo estas mais geralmente típicas de um quadro depressivo. Outro elemento a considerar é a ausência de antecedentes psiquiátricos e uma mudança tardia na personalidade, muitas vezes descrita como “parece outra pessoa”, “nem o/a reconheço”. Não é raro que as pessoas em estádios iniciais de DFT tenham problemas no trabalho e que, inclusivamente, percam o seu emprego ou tenham conflitos nas relações íntimas[6]. Ao contrário da DA, as alterações da memória surgem mais tardiamente na evolução da doença, apesar de existir uma variante da demência de Alzheimer, que cursa com caraterísticas semelhantes à DFT – variante frontal da DA, onde o diagnóstico diferencial exige ainda uma maior especialização do observador. Consoante o local do lobo frontal e temporal anterior onde prevaleça o fenómeno de degeneração, poderão surgir diferentes quadros. Na variante frontal prevalecerão as alterações do comportamento e personalidade; na temporal as alterações da linguagem, sendo que existindo assimetria, as alterações do lobo temporal direito originarão habitualmente mais alterações do comportamento. Consoante a região frontal mais afetada (orbital, medial e dorsolateral) podem surgir vários tipos de DFT (desinibido, apático e o estereotipado)[4], sendo que na maioria dos casos existe sobreposição entre todos estes subtipos e a diferenciação entre elas se coloque mais no plano académico e de investigação.

Sinais precoces Como sinais precoces da DFT, encontram-se a falta de crítica para a doença ou para os sintomas que são referidos pelos familiares, apatia, depressão com sintomatologia atípica, mudança de hábitos alimentares – apetência para doces, alimentação no período

“A idade de início varia consoante o subtipo, surgindo na maioria das revisões pela 5.ª e 6.ª década de vida, sendo incomum o diagnóstico antes dos 40 (...)” © Davide Guglielmo


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Diagnóstico diferencial e meios complementares de diagnóstico Os critérios de diagnóstico da DFT não são uniformes, o que pode levar a que a sua prevalência não seja estimada com correção, aliado ao facto de ainda existir uma sensibilidade baixa para este diagnóstico. Existem essencialmente três linhas de orientação: os Consensos para a DFT[4], os critérios do Consórcio da DFT[15] e os critérios da DSM [5]. A variante comportamental da DFT é a que mais discussão tem gerado. O diagnóstico da DFT é essencialmente baseado numa elevada suspeição clínica, após atender às queixas dos familiares, que geralmente são os primeiros a detetar alterações, já que os próprios, a maioria das vezes, desvalorizam as alterações de comportamento/personalidade que são reveladas, revelando uma ausência de crítica e uma indiferença afetiva. Assim, a modificação no comportamento habitual, falta de crítica para essas modificações, quadros psiquiátricos atípicos (de início a partir da 5.ª década de vida, ou mesmo mais precoces – se história familiar de demência/perturbação neurocognitiva) e/ou alterações da linguagem, associados a orientação topográfica intacta e preservação da memória, são elementos indicadores de diagnóstico provável de DFT. É fundamental que se realize uma avaliação neuropsicológica o mais precocemente possível. Numa fase inicial, pode realizar-se o Mini Mental State Examination (MMSE) que pode não revelar alterações, o que, no entanto, não deverá ser excludente do diagnóstico. O MoCA mostra melhor sensibilidade de screening[16]. Outros testes como o Addenbrooke Cognitive Examination (ACE -III) e o Frontal Assessment Battery (FAB), demonstram uma sensibilidade elevada. Ao exame neurológico, os doentes com DFT podem revelar reflexos primitivos, como a preensão palmar forçada, o reflexo glabelar inesgotável e o reflexo de sucção, que refletem sinais de desprendimento frontal. O estudo imagiológico é fundamental nestes doentes. Imagens detalhadas do lobo frontal e temporal podem excluir acidentes vasculares cerebrais, tumores, sequelas de trauma ou infeções. Os exames usados mais frequentemente são a Tomografia Computorizada (TC) e a Ressonância Magnética (RM) sendo que, numa fase inicial, ambos podem não evidenciar alterações que possam contribuir para o diagnóstico de DFT. Com a evolução da doença, ficarão evidentes fenómenos de atrofia focal dos lobos frontal e temporal, embora nem

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sempre sejam evidenciados, mesmo em estádios avançados. Nas situações em que os exames anteriormente referidos não sejam esclarecedores, o recurso a exames funcionais de imagem como a Tomografia por emissão de positrões (PET) e a Tomografia por emissão de fotão único (SPECT), podem ser úteis, encontrando-se, respetivamente, áreas de hipometabolismo e hipoperfusão nas áreas frontais.

“Não existe ainda cura para a DFT e os tratamentos disponíveis são focados na abordagem sintomática, gestão da doença, suporte e acompanhamento aos familiares/cuidadores (...)”

Abordagem Não existe ainda cura para a DFT e os tratamentos disponíveis são focados na abordagem sintomática, gestão da doença, suporte e acompanhamento aos familiares/ cuidadores[17]. Esperar pelo final de uma DFT é extremamente desgastante para os cuidadores. Assim, é importante que o diagnóstico seja feito numa fase precoce, para que seja possível estruturar um plano terapêutico que, a longo prazo, possa reduzir o sofrimento, controlar os sintomas neuropsiquiátricos, melhorando a qualidade de vida dos doentes e dos cuidadores/família.

Opções farmacológicas O sistema serotoninérgico está bem representado a nível cortical no lobo frontal,

sendo que em vários casos de DFT, existem quadros clínicos de apatia/depressão ou desinibição/impulsividade. Os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (SSRI’s), são os agentes farmacológicos mais usados no tratamento sintomático da DFT – nomeadamente a sertralina, a paroxetina ou a fluoxetina. Estes parecem levar à melhoria dos sintomas comportamentais como a desinibição e comportamento social inadequado, a depressão, os comportamentos estereotipados, a hiperfagia ou hiperoralidade, existindo ainda relatos de melhoria nos quadros que contam com hipersexualidade. Aquando da decisão de prescrever um SSRI, os sintomas devem ser monitorizados de perto, nomeadamente vigiar o possível surgimento de quadros de agitação e/ou aumento da impulsividade e/ou ideação suicida[18]. Ao contrário do que acontece noutras demências, os estudos não revelam alterações ao nível do sistema colinérgico[19]. Assim, os fármacos mais conhecidos como antidemenciais – inibidores da acetilcolinesterase, como o donepezilo, a rivastigmina e a galantamina, não parecem ter um impacto positivo nestes doentes[20], apesar de continuarem a ser amplamente prescritos, sendo que a rivastigmina se tem evidenciado eficaz nos sintomas comportamentais. Para a abordagem das alterações de comportamento, tem-se recorrido a vários fármacos, nomeadamente a antipsicóticos atípicos, a antidepressivos tricíclicos e a antiepiléticos. Apesar dos benefícios individuais, nomeadamente no controlo sintomático da agitação e agressividade, devem ser usados com cuidado e sob vigilância, nomeadamente os antipsicóticos atípicos,


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pelo aumento do risco de queda e do risco cardiovascular, estando relacionados com o aumento da taxa de mortalidade na demência. A trazodona tem sido estudada como um bom auxiliar no controlo do sono e dos sintomas comportamentais[20]. Fármacos estimulantes como o modafinil e as anfetaminas podem ser úteis em doentes com marcada apatia e perda de funcionalidade e vida de relação. Quando existe parkinsonismo associado, especialmente nos casos em que existe mutação MAPT, a levodopa pode ser um recurso útil, embora a resposta não seja sustentada. Alguns estudos inovadores colocam a oxitocina intranasal e a vasopressina como possíveis tratamentos na DFT, essencialmente para intervenção na hostilidade/raiva e melhoria da empatia[21]. Estão a ser desenvolvidos estudos na utilização de neuropeptídeos e anticorpos anti-proteína tau, que parecem ser promissores[6]. Face ao exposto, é compreensível que o estabelecimento de um plano terapêutico deve ser individual e flexível, desde o início do diagnóstico até ao final de vida.

Abordagens não farmacológicas Apoio aos cuidadores: o ponto central do tratamento deve ser a preservação da qualidade de vida das pessoas, considerando o impacto devastador que a DFT tem a longo prazo nas pessoas próximas ao doente. Um diagnóstico precoce permite que os cuidadores se preparem e se organizem de forma a sentir-se mais competentes e menos impotentes. Os sintomas da DFT que mais angústia e preocupação provocam nos cuidadores são a desinibição comportamental, que por vezes leva a que se isole o núcleo cuidador-pessoa doente, prejudicando a qualidade de vida, a apatia/perda de funcionalidade, a agitação, a psicose e o comportamento motor aberrante[22]. As preocupações estendem-se à possibilidade de perda de emprego e falta de recursos sociais e culturais, dos quais poderiam beneficiar a longo termo. Na sua inexistência, facilmente será compreensível a necessidade de, por vezes, recorrer a mais fármacos numa tentativa de controlo comportamental. Uma vez que se tratam de demências de início precoce, não é raro que existam menores na mesma casa, o que pode aumentar a preocupação e antecipar a institucionalização. Intervenções pela internet e linhas de apoio telefónico têm vindo a ser desenvolvidas, no sentido de diminuir o impacto negativo da DFT nos cuidadores.

“Aproximadamente 40% dos casos tem história familiar de demência, mas menos de 10% um padrão de hereditariedade autossómica dominante.”

dadores é severo, pelo que estes devem ser englobados no plano terapêutico. Face às exigências da DFT, mais divulgação sobre a mesma deve ser promovida, dando-lhe a atenção mediática que outras demências já têm, reduzindo o estigma e aumentando as capacidades empáticas de todos quantos lidarmos com estes casos.

Outros recursos Desde a primeira consulta é importante que o contexto social da pessoa seja investigado, que se realizem planos de terapia ocupacional, que se referencie em caso de necessidade a uma terapeuta da fala e que se defina um terapeuta de referência, o que indicia a necessidade de equipas multidisciplinares[23]. É ainda fundamental que se agendem consultas regulares, para que se reveja a medicação prescrita e se reajuste o plano terapêutico em função das necessidades, que se vá reavaliando a capacidade para manter a licença de condução, uma vez que a DFT pode cursar com diminuição das capacidades visuoespaciais, embora a memória se mantenha preservada numa fase precoce da doença. A decisão deve ser ponderada de acordo com a capacidade de julgamento da pessoa sobre as regras do trânsito e respeito pelas normas sociais, algo que pode ficar prejudicado em fases precoces da doença, sabendo-se ainda que as pessoas com DFT encontramse envolvidas em mais acidentes de viação e transgressões[24].

Conclusão A DFT representa uma das mais frequentes causas de demência de início precoce, que se subdivide em variante comportamental e afasia primária progressiva, não sendo estas diagnósticos estanques, uma vez que na clínica é comum encontrarem-se casos onde coexistam. É causada por várias entidades patológicas, definidas pela presença da acumulação anormal de proteínas, sendo que muitos casos são resultado da acumulação da proteína tau e TDP-43. Aproximadamente 40% dos casos tem história familiar de demência, mas menos de 10% um padrão de hereditariedade autossómica dominante. É fundamental uma intervenção multidisciplinar, centrada na pessoa e seguindo o modelo biopsicossocial, ao invés de depositar todas as expetativas na intervenção farmacológica que, de momento, se centra no controlo sintomático. Os estudos de neuroimagem são importantes para o diagnóstico e investigação, associados aos estudos neurogenéticos. O impacto nos cui-

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PUB


36 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

'RHQ©D GH $O]KHLPHU 1

Joel Brás, 2Mafalda Barbosa, 3Horácio Firmino

1

Médico Interno de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

2

Médica Interna de Psiquiatria do Centro Hospitalar de Leiria

3

Coordenador da Gerontopsiquiatria, Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria

do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução A Doença de Alzheimer (DA) deve o seu nome ao neuropsiquiatra alemão Alois Alzheimer, que na primeira década do século XX retratou o caso clínico de uma mulher quinquagenária, com uma demência de instalação insidiosa e de agravamento progressivo. Paralelamente, ele descreveu as alterações histológicas típicas em doentes com deterioração cognitiva progressiva.

Epidemiologia A DA é a causa mais corrente de demência, representando cerca de 60% dos casos, em todos os grupos etários. A DA é um processo aging-related. A prevalência duplica a cada 5 anos acima dos 60 anos de idade. No grupo etário dos 60-64 anos, a prevalência estimada é de 0,8%, cerca de 5% acima dos 65 anos, atingindo os 20% em gerontes acima dos 80 anos. Segundo as estatísticas, em Portugal antevê-se que em 2050 o índice de envelhecimento seja de 243 idosos para cada 100 jovens. A doença exibe o mesmo arquétipo de ocorrência da demência em geral, ou seja,

entre os 65 e os 80 anos as taxas de incidência e prevalência variam exponencialmente com a idade. A taxa de prevalência média parece não ostentar grandes variações geográficas. Para além do envelhecimento da nossa população, o país exibe, de entre os países europeus, dos valores mais elevados de baixa escolaridade e profissões indiferenciadas, em particular nas faixas etárias mais idosas, aumentando o risco de DA associada à idade. Afigura-se uma maior prevalência nas mulheres, mesmo após a correção para a idade e educação, não obstante o baixo nível académico se correlacione com uma maior prevalência em ambos os sexos. O tipo de ocupação embora associado à educação, é um maior indicador de risco de vir a desenvolver a doença do que esta última.

Etiopatogenia Exceto raros casos familiares de início precoce (antes dos 60 anos), a etiologia exata da DA permanece incógnita. Naqueles, a causa surge associada a alterações num de 3 ge-

nes: presenilina 1, presenilina 2 e no precursor da proteína ȕ-amiloide. Um fator de risco a nível genético é a apolipoproteína E (APOE), com 3 isoformas: APOE İ2, İ3 e İ4. Todos os indivíduos são portadores homo ou heterozigóticos dessas variantes. Aqueles que possuem o alelo İ4 têm um risco 2 a 8 vezes superior de vir a ter DA. Contudo frise-se que que o genótipo APOE İ4 não é um fator suficiente para vir a desenvolver DA. Já a isoforma APOE İ2 parece conferir proteção na etiopatogenia da DA. É importante deixar claro que não existe uma forma de reiterar se alguém vai ter no futuro DA. Na DA existe uma diminuição significativa dos níveis de acetilcolina (Ach). A nível macroscópico destaca-se uma atrofia cortical e subcortical, com acentuação dos sulcos corticais, incremento do espaço subaracnoideu e dilatação dos ventrículos. Em termos histopatológicos existe um depósito de agregados extracelulares do péptido ȕ-amiloide (placas senis) e tranças neurofibrilhares intraneuronais (constituídas


Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento | 37

Tabela 1. Exames na avaliação inicial de suspeita de DA Hemograma Glicémia Cálcio Ionograma Função tiroideia, renal e hepática Vitamina B12 Homocisteína Ácido fólico Screening sífilis TAC crânio-encefálica

tes para aqueles com quem convivem mais proximamente. Na sua progressão natural, a doença faz com que os doentes fiquem desorientados no tempo e, depois, no espaço. A personalidade, numa fase mais adiantada, manifesta-se com francas alterações. Muitos doentes, quando trazidos ao médico, contraditam as queixas dos cuidadores, assumindo uma postura de quem não sabe bem porque está ali. A evolução da doença é inevitavelmente crónica, provocando uma deterioração cognitiva global e incapacitante (Tabela 2).

Avaliação neuropsicológica

Critérios de diagnóstico Manifestações clínicas © freepik

pela proteína tau), os quais se distribuem amplamente no cérebro.

Abordagem clínica A DA é uma patologia neurodegenerativa de curso insidioso, pelo que os seus sintomas podem não ser evidentes durante anos. A anamnese é a chave do diagnóstico. A fim de recolher o máximo de informação, o diagnóstico clínico requer para além do doente, a presença de um cuidador ou outro elemento de referência. A par da história clínica é essencial excluir causas que possam estar a afetar o funcionamento cognitivo-ocupacional (alterações hidroeletrolíticas, hemodinâmicas, neurológicas, metabólicas e de índole iatrogénica). Na Tabela 1 estão explanados os meios complementares de diagnóstico requeridos numa avaliação primária. Em situações mais atípicas, a Ressonância Magnética Cerebral crânio-encefálica com avaliação volumétrica do hipocampo, a SPECT (tomografia computorizada por emissão de fotão único), a PET (tomografia por emissão de positrões) cerebral, ou a punção lombar para análise do líquido cefalorraquidiano podem ser necessárias. O normal envelhecimento relaciona-se com uma lentificação do processamento da informação e de uma menor capacidade na evocação da memória episódica. Num ponto intermédio entre este estado e a DA, encontra-se o Declínio Cognitivo Ligeiro (DCL), onde um número considerável de idosos que, não tendo todas as suas funções cognitivas totalmente preservadas, não revelam significativas restrições nas suas atividades de vida diária. Porém, sabe-se que existe uma elevada probabilidade de, ao longo do tempo, os doentes com DCL(sobretudo amnéstico) virem a desenvolver DA.

As falhas de memória, usualmente, surgem copiosos anos antes de se alcançar um nível de declínio cognitivo-funcional coadunável com o diagnóstico de DA. Inicialmente apenas os doentes têm noção das suas falhas, mas tendem a ocultar. Ao aperceberem-se de que não gerem as questões quotidianas como dantes, sobressaem sentimentos de tristeza e ansiedade, as quais por si, agravam os défices primários. Com o decorrer do tempo, as inexatidões constituem-se eviden-

Pelo DSM V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – 5th edition) estão preenchidos os critérios de demência se: a. Evidência de declínio importante do desempenho 2 ou mais domínios cognitivos (memória/aprendizagem, linguagem, funções executivas, atenção complexa, percetual-motor, cognição social) baseados em: 1. Perceção, por parte do indivíduo, de um informador com conhecimento ou do médico, da ocorrência de declínio importante no desempenho cognitivo;

Tabela 2. Evolução da história natural da Doença de Alzheimer Estádio

Manifestações comuns Falhas de memória geralmente não evidentes para terceiros. Perda de alguma autonomia para atividades mais complexas.

Ligeiro

Ansiedade e sentimentos de tristeza por consciência das perdas. Isolamento social. Alteração na capacidade de nomeação (evocar nomes de objetos e de pessoas). Falhas mnésicas evidentes para terceiros. Dificuldades de concentração e orientação espacial.

Moderado

Dificuldade de reconhecer objetos (agnosia). Nega as suas dificuldades (anosagnosia). Necessidade de supervisão nas atividades diárias. Memória gravemente atingida, não existindo praticamente retenção da informação. Discurso fragmentado e vazio. Não reconhece os familiares próximos (prosapagnosia). Incontinência dos esfíncteres.

Grave Alterações dos ritmos circadianos. Comportamentos de fuga. Incapaz de assegurar as atividades de vida diária mais simples. Sintomas psicóticos são comuns. Acamado(a). Mutismo. Terminal Totalmente dependente de terceiros. Deterioração multiorgânica.


38 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

2. Défice substancial no desempenho cognitivo, documentado por avaliação neuropsicológica, ou, na sua ausência, outra avaliação clínica quantitativa; 3. Os défices cognitivos interferem na independência das atividades diárias, com necessidade de assistência externa; 4. Os défices cognitivos não ocorrem exclusivamente no contexto de outras etiologias agudas. Na Tabela 3 apresentam-se as guidelines do National Institute on Aging - Alzheimer’s Association para o diagnóstico da DA. O diagnóstico definitivo de DA só pode ser feito por biópsia cerebral/autópsia.

Abordagem farmacológica Em termos de farmacoterapia são várias as estratégias utilizadas para compensar as alterações degenerativas, através da facilitação na transmissão colinérgica nas células remanescentes. O método, até agora mais bem-sucedido, consiste em recorrer a inibidores da enzima que degrada a acetilcolina libertada, aumentando o neurotransmissor na fenda sináptica. Na DA ligeira a moderada utiliza-se o donepezilo, galantamina e rivastigmina. Já a memantina está aprovada para o tratamento das fases moderadas a grave. Cada um destes fármacos têm efeitos secundários próprios, devendo ser selecionados pelo médico em função da fase clínica da doença e das suscetibilidades/comorbilidades dos doentes.

Tratamento Prognóstico Abordagem não farmacológica Esta constitui a intervenção primordial nos doentes com DA. Nela inserem-se estratégias de reabilitação cognitiva, estimulação sensorial, meios de controlo comportamental, bem como terapias assistidas com exercícios adaptados. Os fatores externos como a sobre ou subestimulação, comorbilidades orgânicas e a solidão devem ser tidos em consideração. Quer o doente, quer o cuidador devem ser munidos de todas as ferramentas a adotar em cada estádio da doença. Será necessário adaptar o ambiente do doente às suas necessidades (p.ex., utilização de sinalizações, remoção de objetos desnecessários, criação de rotinas, iluminação adequada, caderno de notas e desobstrução de passagens).

Desde as primeiras manifestações, com a evolução crescente nos estádios, os doentes sobrevivem entre 10 a 20 anos. Aproximadamente 90% dos casos da DA têm o seu começo após os 65 anos, sendo que, na sua maioria, têm um padrão hereditário e evolução complexa que interagem com fatores ambientais. Geralmente, em fases avançadas, uma intercorrência orgânica, na maioria das vezes uma infeção pulmonar, acaba por levá-los à morte.

Conclusão A DA é a causa mais comum de demência degenerativa. O risco de DA amplia-se francamente com a idade, acometendo cerca de 10% das pessoas com mais de 65 anos. Nos países desenvolvidos, onde a esperan-

Tabela 3. Guidelines do National Institute on Aging - Alzheimer’s Association para o diagnóstico da DA Início insidioso. Deterioração cognitiva objetivada. Défices cognitivos iniciais evidenciados, durante a história e exame, numa das DA provável:

seguintes categorias:

Critérios de demência e,

»

adicionalmente, as se-

Apresentação amnésica: défices na aprendizagem e na memorização de informação recente. Deve também existir evidência de disfunção cognitiva em pelo

guintes caraterísticas:

menos outro domínio cognitivo; »

Apresentação não amnésica: Défices noutros domínios cognitivos, como na linguagem (mais proeminentes na nomeação), visuoespaciais (mais proeminentes na cognição espacial, incluindo a estereoagnosia e alexia) e função executiva (dificuldades de raciocínio, julgamento e resolução de problemas).

DA com elevado grau de

Evidência de declínio cognitivo documentado, definido como um declínio progressivo

certeza:

em avaliações subsequentes baseadas em informação fornecida por testemunhas

Critérios clínicos anteriores

e testes cognitivos, no contexto de avaliação neuropsicológica formal ou exames

e, pelo menos, um dos

padronizados do estado mental.

seguintes:

Presença de mutação genética causal.

DA possível:

Défices cognitivos compatíveis com DA, mas de início súbito, ou insuficiência de in-

Evolução atípica:

formação quer na história clínica, quer na documentação formal do declínio cognitivo progressivo.

ça média de vida aumentou consideravelmente, esta doença corresponde a um dos maiores problemas de saúde pública. Apesar dos vários progressos alcançados na área da etiopatogenia da DA nas últimas décadas, atualmente não existe um tratamento eficaz na sua prevenção/cura. As medidas psicossociais que visam melhorar a qualidade de vida do portador de DA e, por consequência, dos seus familiares/cuidadores revela-se fulcral na sua abordagem.

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Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento | 39

'HP¬QFLD $OFRµOLFD (Síndrome de Korsakoff) Psicólogo clínico

Rui Ribeiro

“A Síndrome de Korsakoff é uma forma particular de lesão cerebral provocada pelo álcool e pode estar relacionada com a Demência Alcóolica.”

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A Demência Alcoólica é, como o próprio nome sugere, uma forma de Demência provocada pelo consumo excessivo de álcool. Afeta a memória, aprendizagem e outras funções mentais. O último grande inquérito nacional feito em 2016/2017 a 12 mil pessoas com idades entre os 15 e 74 anos, já mostrava que cerca de 2,8% da população apresentava padrões de consumo nocivo ou dependência. Se recuarmos a 2012, aumentou a frequência do binge (consumo de 5 ou mais bebidas alcoólicas num único dia ou momento) e houve um agravamento dos consumos de risco ou dependência. Acresce que este padrão global encobre evoluções negativas particularmente preocupantes, como as do grupo feminino e das faixas etárias mais velhas. A Síndrome de Korsakoff é uma forma particular de lesão cerebral provocada pelo álcool e pode estar relacionada com a Demência Alcóolica. É caracterizada por distúrbios cognitivos, incluindo perda de memória de curto prazo e de desorientação espáciotemporal. Esta ocorre quando há défice de

vitamina B1 (tiamina) e afeta principalmente pessoas que consumiram quantidades excessivas de álcool durante vários anos, e atinge mais frequentemente homens com idades entre 45 e 65 anos, embora possa afetar homens e mulheres de qualquer idade, podendo também afetar quem sofre de desnutrição severa. Os sintomas do Síndrome de Korsakoff são variáveis de pessoa para pessoa, mas a perda de memória é encontrada em todos os pacientes. Outros sintomas que podemos encontrar: » Dificuldades na aprendizagem de coisas novas; » Alterações de personalidade; » Fabulação (o paciente pode inventar factos e histórias para compensar a perda de memória); » Falsos reconhecimentos (o paciente está enganado sobre a identidade de algumas pessoas); » Problemas de equilíbrio e da marcha, tremores; » Apatia;

» Perturbação do humor (depressão, ansiedade, euforia); » Comportamentos repetitivos e discursos. Geralmente, as pessoas conservam as competências que aprenderam durante a vida, antes de terem desenvolvido a doença, como por exemplo a linguagem, e por isso normalmente conseguem cuidar-se com o suporte apropriado. O Síndrome de Korsakoff não pode ser curado e o dano cerebral é irreversível. Será impossível para a pessoa recuperar o seu estado anterior. O paciente deverá adotar uma alimentação saudável, abster-se de consumir álcool e tomar suplementos vitamínicos, incluindo vitamina B1. O apoio ao paciente deverá passar pela ajuda especializada de médico, nutricionista e psicólogo. Não sendo uma síndrome que apareça com frequência em contexto institucional, os técnicos devem estar atentos aos sintomas anteriormente descritos, e principalmente ao passado de consumo de álcool do paciente.


40 | Case Study

A importância do farmacêutico QD SRSXOD©¥R geriátrica Marta Almeida Farmacêutica

Introdução A farmácia nos dias de hoje tem ganho destaque pela numerosidade de produtos e serviços à disposição do utente. Contudo, destaca-se cada vez mais por ser muitas vezes a primeira linha de apoio à população, principalmente da população geriátrica. O farmacêutico ganha assim um papel de responsabilidade em vários campos, nomeadamente na atenção prestada a estes utentes. A população em causa apresenta muitas vezes um elevado grau de fragilidade associada também a comorbilidades (existência de doenças em simultâneo)[1][2]. Com o avançar da idade a prevalência de patologias aumenta e como tal, esta população mais envelhecida apresenta uma elevada taxa de uso de terapêutica farmacológica. Um utente polimedicado aumenta o risco de problemas relacionados com medicamentos (PRM), principalmente pelo seu mau uso. Vários estudos demonstram que o farmacêutico tem um papel muito importante na deteção, resolução e prevenção destes PRM[3]. Ao balcão de uma farmácia é muitas vezes percetível a desorientação do utente idoso. A perspicácia e a sensibilidade do profissional devem ser postas em prática no

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seu atendimento. Na maior parte dos casos estes utentes evidenciam sinais, que podem ir de um simples desconhecimento momentâneo da indicação terapêutica de um medicamento recorrente, a um esquecimento total da posologia (dose, frequência e duração do tratamento)[4] por exemplo, que invocam um cuidado redobrado do farmacêutico.

No esquema abaixo estão descritos alguns casos que revelam especial atenção, por ordem crescente do nível de desorientação do utente, sendo importante repetir várias vezes informações pertinentes, certificando-se o profissional que o utente sai sem dúvidas e assim evitando os PRM. Como forma de superar estes casos é muitas vezes repetida a posologia de cada medica-

Figura 1. Gravidade hierarquizada da desorientação de um utente idoso percecionada pelo farmacêutico.


Case Study | 41

mento ao longo do atendimento e recurso a certas “artimanhas práticas”, como no caso de falha de uma marca que o utente está habitualmente familiarizado, colar parte da embalagem antiga na nova, para não se desorientar pela troca de cores. Sugerir a um familiar a preparação prévia de caixas de medicamentos, de modo a que seja mais fácil o utente tomar à hora certa o medicamento certo, também é uma opção, entre outras abordagens. Para além disso é muito importante criar uma ficha de acompanhamento com o histórico dos medicamentos habituais, patologias associadas, reações alérgicas desenvolvidas, entre outras informações, de modo a que em caso de impossibilidade de memorização do utente, possa o profissional evitar interações medicamentosas, ou um aconselhamento arriscado, não pondo em risco a sua saúde, mas sim zelando sempre pelo seu bem-estar.

Desnutrição Desnutrição é o termo dado pela Organização Mundial de Saúde à deficiência, excesso ou desequilíbrio de ingestão de nutrientes e calorias (energia)[5]. Existe uma grande tendência para a sarcopenia (perda de massa muscular e de força levando a menor atividade física) de forma involuntária nos utentes idosos devido a causas como: » Redução do apetite; » Alterações no paladar e olfato; » Dificuldade em engolir/mastigar; » Falta de dentição; » Efeitos da polimedicação; » Problemas sociais como incapacidade financeira e isolamento[1][6][7][8]. A perda de peso, quando não corrigida, está associada a um aumento do risco de infeções, úlceras de pressão (vulgarmente conhecidas como escaras), aumento do risco de quedas, fragilidade, perda de força, maior dependência e diminuição da qualidade de vida[1][9]. Sempre que um utente conseguir assimilar a quantidade de calorias e nutrientes necessários pela dieta dita “normal”, através das refeições habituais, esta deve ser sempre preferível, pois se assim for, não só é suficiente do ponto de vista nutricional, como estimula a componente sensorial, que é importante na motivação alimentar do mesmo[1]. Mas, quando é relatado pelo utente que tem “saltado” as refeições, ou que estas não são completas nutricionalmente, ou até exis-

“O farmacêutico assume um papel de responsabilidade em detetar fragilidades físicas e psicológicas nos seus utentes, aconselhar medidas farmacológicas e não-farmacológicas, mas também acompanhar a evolução do utente, nas suas visitas à farmácia.” te suspeita de caquexia, pelo profissional, ou seja, perda de peso intensa, acompanhada de cansaço e diminuição da vontade de comer[10], existe necessidade de aconselhamento suplementar. Há então ao dispor dos utentes nas farmácias, um leque de produtos que complementam a dieta evitando a desnutrição. O farmacêutico deve assim reunir a informação necessária averiguando se o mesmo pode optar pelos suplementos, e quais os mais adequados, para cada caso clínico. Estes suplementos podem ser mais vocacionados para perda proteica, uma vez que o utente idoso tem ainda maior necessidade de ingestão proteica que os adultos saudáveis, com vista a uma melhor preservação da sua massa muscular e funções vitais. No caso de doenças crónicas a necessidade proteica pode até ser maior, devido a inflamações ou infeções presentes[1]. Por outro lado podem também ser adaptados a uma perda alimentar em geral, sendo completos do ponto de vista proteico mas também calóricos. Inclusive, adaptados à diabetes ou a tratamentos oncológicos. Devem ser tomados fora das refeições principais, para que não substitua, mas suplemente as mesmas, tal como o nome indica. De forma a conseguir a manutenção do peso ideal, o profissional deve aconselhar a alternar os sabores para facilitar a tolerância ou até recomendar guardar no frigorífico para mais fácil ingestão, e serem tomados em pequenos goles. No caso de úlceras de pressão é importante a toma de suplementos ricos em arginina, zinco e antioxidantes que melhoram a cicatrização das mesmas de forma mais rápida e completa[1].

Desidratação Outro problema muito comum a par da desnutrição é a desidratação. A quantidade de ingestão de água deve compensar a sua perda, que se dá pela respiração, transpiração, urina e fezes. Assim, esta ingestão é naturalmente feita pelas bebidas e alimentos da dieta[1]. No caso da população idosa há alguns fatores que podem contribuir para a desidrata-

ção: a capacidade de reserva de fluidos está diminuída, há um grande uso de classes de medicamentos que levam a perda de água, como diuréticos ou laxantes, assim como uma aptidão para uma maior concentração da urina pelo rim. O facto de existir alguma vulnerabilidade na memória nestes utentes é igualmente um agravante. Torna-se também muito comum ouvir ao balcão o relato que se esquecem de beber, ou até que evitam beber água para não irem “tanto à casa de banho de noite”[1].

Disfagia Começa a existir também relutância quanto à ingestão de bebidas, pois começam-se a “engasgar ao beber”, que nos orienta imediatamente para um quadro de disfagia (dificuldade em engolir sólidos e/ou líquidos) [11]. Todos estes casos aumentam o risco de desidratação, aumentando assim a fragilidade individual do idoso, conduzindo em casos extremos a falha cardíaca ou renal por exemplo[1]. Nestes casos, o utente é aconselhado a uma ingestão maior de água, e caso haja resistência, existem alternativas para estimular o gosto pela mesma, recorrendo-se a águas gelificadas com sabor. A par de se tornarem mais prazerosas, pelo facto de já se encontrarem gelificadas facilitam a ingestão contornando a disfagia. Como solução mais rentável e sem alterar o sabor da água existem também espessantes em pó específicos para líquidos transparentes, à base de goma xantana, por exemplo, que conforme a quantidade aconselhada, resultam num líquido mais ou menos espesso. Desta maneira salientamos sempre ao utente ou cuidador que o que se pretende é evitar consequências sérias da disfagia, como pneumonias por aspiração de líquidos ou alimentos para os pulmões e claro, evitar a desidratação[11].

Incontinência Muitas vezes a par do incentivo do profissional para que o utente ingira mais água há, como dito anteriormente, a referência pelo mesmo, do receio do aumento das idas à casa de banho e do agravamento da incontinência urinária, algumas vezes já instalada.


42 | Case Study

A incontinência urinária, ou seja a perda involuntária de urina, é mais comum em mulheres e apresenta-se como um problema com grande impacto na qualidade de vida dos utentes, podendo comprometer a sua autonomia e conduzir a algum isolamento social. Na farmácia pode contar com um vasto leque de produtos existentes que dão apoio ao utente neste problema, como absorventes, resguardos, pensos ou fradas (adaptadas tanto à mulher como ao homem, com adequação à anatomia do género masculino). De salientar que, ao utilizar estes produtos absorventes é por vezes importante o uso de protetores cutâneos em forma de creme ou pastas, aconselhados pelo farmacêutico, para evitar irritações na pele como, dermatites da fralda[12]. No entanto é comum também realizarmos o aconselhamento sobre reeducação pélvica, que correspondem a técnicas que permitem fortalecer os músculos do pavimento pélvico, como exercícios de Kegel, que pode aprofundar com um profissional fisioterapeuta de modo a controlar a incontinência. Na maioria dos casos a incontinência, se diagnosticada numa fase inicial, tem um bom prognóstico e o tratamento farmacológico existente, deve ser sempre indicado pelo seu médico[13].

Opção por medicamentos genéricos Todas estas medidas e produtos de tratamento, prevenção e conforto aqui recomendadas são importantes para um envelhecimento saudável e bem-estar do utente idoso. No entanto, existe um grande entrave à sua aceitação, que corresponde ao estado socioeconómico da maioria da população geriátrica que visita a farmácia. Uma realidade que nos é visível e nos sensibiliza para muitas vezes percebermos que o utente não consegue suportar todos os custos e assim, como nosso dever, restanos procurar orientar o mesmo, para o que deverá ser a sua prioridade quanto ao investimento a fazer. Perante esta realidade não podemos deixar de abordar um ponto fulcral, o comportamento dos idosos no âmbito das suas terapêuticas farmacológicas face à opção entre os medicamentos genéricos e os medicamentos de referência. A quota de mercado dos medicamentos genéricos tem nos últimos anos ganho mais peso[14], visto que se trata de um medicamento com a mesma substância ativa, forma farmacêutica e dosagem e com a mesma indicação terapêutica que o medicamento original, de

marca, que serviu de referência. Apresentam assim a mesma segurança e eficácia, através da demonstração de bioequivalência obtida pelos estudos de biodisponibilidade[15].

4.

Conclusão Como farmacêutica observo que a tendência desta população para continuar a preferir o medicamento de marca tem sido cada vez menor, em concordância com o referido anteriormente, ainda mais quando o investimento em outros cuidados de saúde vão sendo necessários, como é o caso das soluções nutricionais aqui abordadas. Os profissionais de saúde e as farmácias têm sem dúvida um papel preponderante em explicar a bioequivalência dos mesmos frente aos medicamentos de referência a estes utentes, sendo assim possível obter a máxima poupança tanto para os utentes como para o Serviço Nacional de Saúde. Existe assim, a nível das farmácias em Portugal, uma notável preparação por parte dos seus profissionais para o aconselhamento dos utentes geriátricos, dentro da própria capacidade do setor. O farmacêutico assume um papel de responsabilidade em detetar fragilidades físicas e psicológicas nos seus utentes, aconselhar medidas farmacológicas e não-farmacológicas, mas também acompanhar a evolução do utente, nas suas visitas à farmácia. Nos casos em que o utente visita sempre a mesma farmácia, o acompanhamento torna-se mais eficiente no que toca a evitar erros de medicação ou outros prejuízos à sua saúde como falado inicialmente, conseguindo-se assim um melhor seguimento. Em caso de dúvida peça sempre aconselhamento ao seu farmacêutico antes de optar por qualquer produto aqui mencionado. Como missão diária, pretendemos sempre fazer o melhor pela saúde de todos os utentes, sendo esta, obviamente, uma das populações que merece o nosso maior cuidado e, como sempre, um atendimento de excelência, para que assim se possa envelhecer mas sempre de modo saudável.

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Reportagem | 43

Ageing Congress Coimbra recebeu o maior evento sobre a temática do envelhecimento em Portugal.

texto e fotos por

André Manuel Mendes

Considerado como o maior evento sobre a temática do envelhecimento em Portugal, o Ageing Congress reuniu entre os dias 25 e 28 de maio de 2019 no ISEC – Instituto Superior de Engenharia de Coimbra um conjunto de 35 oradores oriundos de 4 países – Portugal, Espanha, Brasil e Inglaterra – bem como um total de 60 comunicações livres.

Dedicado à temática do envelhecimento e às novas problemáticas transversais que estão envolvidas nesta realidade, o Ageing Congress incluiu o I Encontro Luso-Brasileiro de Educação Social, a I Feira Nacional de Envelhecimento, Saúde e Tecnologias e o II Congresso Internacional sobre Envelhecimento. Durante 4 dias foram cerca de 500 pessoas que passaram pelo Ageing Congress para participar nas atividades, adquirir conhecimentos nas conferências realizadas e ainda fazer networking com outros participantes.

CIESXX, Lisa Valéria Tôrres, docente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e Ricardo Pocinho, Presidente da ANGES – Associação Nacional de Gerontologia Social deram as boas-vindas a todos os participantes deste encontro que se centrou na importância da educação das crianças para o percurso futuro enquanto adulto e idoso. Foi pela voz de João Pedro Gaspar que se deu a conferência de abertura deste encontro e consequentemente a abertura do 1.º painel do dia com a temática “Intervenção em crianças e jovens em risco”. Posteriormente intervieram Filipe Mouzinho Serrote da Santa Casa da Misericórdia de Portalegre com a temática “A importância da vinculação de crianças e jovens em acolhimento residencial, no sucesso da intervenção com intencionalidade reparadora” e Débora Marques da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa com a intervenção “Trauma na infância e implicações futuras”. O 2.º painel da manhã iniciou-se com a intervenção de Vanessa Póvoa da ESECS do IP Leiria que se debruçou sobre o papel dos diretores técnicos nas organizações. De seguida Bibiana Pedrosa do CICS do IP Leiria demonstrou os resultados de uma investigação sobre empregabilidade dos estudantes no setor social. Laura Santos da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC

I Encontro Luso-Brasileiro de Educação Social O Ageing Congress arrancou no dia 25 de maio com o I Encontro Luso-Brasileiro de Educação Social. Mário Velindro, Presidente do ISEC, João Pedro Gaspar, docente da Universidade de Coimbra (UC) e membro do

“Durante 4 dias foram cerca de 500 pessoas que passaram pelo Ageing Congress (...)” Ricardo Pocinho.


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fechou o 2.º painel com a temática “A mentalidade afiliativa no acolhimento residencial: proposta de um programa para a promoção da regulação emocional dos cuidadores e dos jovens”. O 3.º painel do 1.º dia do Ageing Congress, que teve como tema “Adultos em contextos educativos” esteve a cargo de Lisa Valéria Tôrres, Bruno Trindade (Professor Investigador) e Ricardo Pocinho. A docente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás começou por dar a conhecer a realidade do Brasil no que respeita à forma como é tratada a velhice, bem como a realidade das instituições e das Universidades Seniores. Ricardo Pocinho interveio de seguida para dar a conhecer a realidade das Universidades Seniores em Portugal e também a qualidade do envelhecimento no nosso país. Bruno Trindade tomou a palavra na sua vez para falar da temática do seu projeto de investigação no âmbito do seu Doutoramento em Ciências da Educação, sobre o papel da animação sociocultural em contexto escolar. A terminar os painéis deu-se a apresentação do livro “Animada(Mente) – Estimular através do jogo”, coordenado por Ricardo Pocinho, Bruno Trindade e Pedro Carrana que teve como autores Adriana Limeira do Nascimento, Anderson Amara, Bruno Trindade, Bruno Soares, Domingos Santos, Nuno Queirós e Ricardo Pocinho. A conferência de encerramento do I Encontro Luso-Brasileiro de Educação Social esteve a cargo de Vera Damázio da Universidade Católica do Rio de Janeiro que teve como tema da sua apresentação o “Design, memória e emoção: contribuições para a longevidade com qualidade”.

I Feira Nacional de Envelhecimento, Saúde e Tecnologias

Lisa Valéria e Bruno Trindade.

vres, Ricardo Pocinho considerou este Ageing Congress como o “maior evento sobre envelhecimento em Portugal”. O Presidente da ANGES recebeu todos os participantes do II Congresso Internacional sobre Envelhecimento sublinhando que “o congresso deste ano é dedicado a todos os cuidadores”. Na cerimónia de abertura do evento, Ricardo Pocinho salientou que somos dos países mais envelhecidos da Europa e com menos respostas sociais disponíveis e criadas para combater esta adversidade originada por um problema de desequilíbrio demográfico. De seguida Marta Pessoa, professora aposentada da Universidade Federal de Paraíba e fundadora da Longevos tomou a palavra para a Conferência de Abertura deste II Congresso Internacional sobre Envelhecimento com a temática “A tecnologia e as redes de cuidado”.

Revista é apresentada oficialmente Foi após a Conferência de Abertura do congresso que se deu a apresentação oficial da “Dignus” - Revista Técnica de Geriatria e Geriatria. Este é o novo projeto editorial da CIE – Comunicação e Imprensa Especializada

No segundo dia do Ageing Congress 2019 teve lugar a I Feira Nacional de Envelhecimento, Saúde e Tecnologias, um evento que reuniu durante a tarde do dia 26 de maio mais de uma dezena de expositores. Entre soluções de software, jogos didáticos, livros técnicos, soluções de equipamentos para instituições, imprensa técnica, entre outros, foram dezenas os visitantes que se deslocaram ao ISEC para conhecer as mais recentes novidades e inovações neste setor de atividade.

“O congresso deste ano é dedicado a todos os cuidadores” Com um total de 35 oradores oriundos de 4 países – Portugal, Espanha, Brasil e Inglaterra – bem como um total de 60 intervenções li-

Júlio Almeida.

(Grupo Publindústria) que pretende afirmar-se como um espaço de discussão aberto a todos os interlocutores, sejam eles os cuidadores, idosos, pessoal médico, técnicos, psicólogos, instituições e empresas que se inserem nesta realidade cada vez mais atual.

II Congresso Internacional sobre Envelhecimento Após a apresentação da revista “Dignus” deu-se a continuidade dos trabalhos com a abertura do 1.º painel do dia que teve como primeira interveniente Margarita Cigarán Méndez, docente da Universidad Rey Juan Carlos em Madrid, Espanha, que teve como tema da sua intervenção “Envelhecimento e saúde: múltiplas inteligências em idosos”. Da mesma universidade veio a intervenção seguinte por Cristina Gómez Calero que se debruçou na “Reabilitação olfatória em pessoas mais velhas”. Para terminar o 1.º painel, Esperanza Navarro-Pardo, Chair do Ageing Congress – Interdisciplinary Modeling Group Intertech – e docente da Universidade de Valência, Espanha, falou sobre uma temática que se relaciona com a longevidade e o aumento da qualidade de vida, “Chaves para o envelhecimento mundial com êxito: as zonas azuis”. O 2.º painel do dia 27 de maio com a temática “Envelhecimento e Sociedade” teve como intervenientes Célia Soares da Escola Superior de Saúde do IP de Setúbal com uma intervenção intitulada “Experiências e perceções de discriminação baseada na idade no contexto da saúde: um caso europeu”, e de Carla Ribeirinho, docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, que se debruçou sobre “Envelhecimento(s), políticas e respostas sociais”. A intercalar os painéis deu-se a apresentação de mais um livro coordenado por Maria Miguel Barbosa e Ricardo Pocinho, prefaciado por Ricardo Pocinho e Pedro Carrana, intitulado “Ativ(Idades) com pessoas idosas: uma perspetiva interdisciplinar de cuidados


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Para encerrar o Ageing Congress, Walter Osswald do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, atualmente com 91 anos, deu uma Lição de Sapiência a todos os presentes com a temática do “Envelhecimento Positivo”.

Distinções para quem marca a diferença

Carla Ribeirinho.

Walter Osswald.

e boas práticas”. Este livro teve como autores Andreia Marques, Ângela Batista, Carla Ribeirinho, Diogo Batalha, Maria Aldina Líbano, Maria Hermínia Barbosa, Maria Miguel Barbosa, Patrícia Ramos, Pedro Pires e Sara Alvarinhas. O 3.º painel do dia teve como tema central os cuidados paliativos, a esperança e a espiritualidade, o processo de luto e teve como oradores Manuel Luís Capelas, professor auxiliar na Universidade Católica Portuguesa e membro da Direção do Observatório Português de Cuidados Paliativos, Cândida Cancelinha do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e membro da Direção da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, Ana Querido, docente da Escola Superior de Saúde do IP de Leiria e Consuelo Santamaria do Centro de Humanización de la Salud de Madrid, Espanha. A conferência de encerramento do dia 27 de maio esteve a cargo de Carlos Mendes Rosa da Universidade Federal do Tocantins (Campus de Miracema) com a temática “Questões contemporâneas do envelhecimento” e de Suzete Carbonell Leal da Associação Nacional de Gerontologia do Rio Grande do Sul, Brasil, com a intervenção “Resiliência e espiritualidade para um cuidado humanizado”.

aos idosos, a otimização dos locais de trabalho em função da idade, os riscos laborais e as tecnologias. Este painel teve como intervenientes Sílvia Machado da ANGES, Maria Ángeles Martínez Sánchez da Universidade de Granada, Espanha, Rafael Ruiz Calatrava, Diretor da Catedra de Seguridad, Salud y Medicina Preventiva da Universidade, Espanha, Miryam Hernández Fernández, Diretora do Instituto Asturiano de Prevencion de Riesgos Laborales em Oviedo, Espanha, e Gabriel Cesar Jimenez, Diretor da GA Consultores de Zaragoza, Espanha. A desmistificação da temática da sexualidade em idade avançada esteve presente no painel seguinte intitulado “Sexualidade e envelhecimento: mitos da sexualidade”, que contou com intervenções de: Pedro A. Vendeira, médico especialista em Urologia, Presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução, membro do Fellow of the European Committee for Sexual Medicine e com competência em Sexologia Clínica; Soraia Coelho, Licenciada em Fisioterapia, Pós Graduada em Fisioterapia na Saúde da Mulher, Mestre em Sexologia no ramo de sexualidade humana e especialista em reabilitação do pavimento pélvico. Depois de mais uma sessão de comunicações livres iniciou-se mais um painel, desta vez sobre o “Envelhecimento e saúde mental das pessoas mais velhas”. Neste painel foi debatida a demência em idade avançada, a importância da estimulação da cognição, a capacitação dos cuidadores familiares de pessoas com Alzheimer e foram questionadas estratégias para a intervenção na demência. O último painel do Ageing Congress contou com a participação de Carlos Sequeira da Escola Superior de Enfermagem do Porto (NURSID do CINTESIS), Rita Costa da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Lia Sousa do IP de Saúde do Norte (CESPU) e de Wilson Abreu da Escola Superior de Enfermagem do Porto (NURSID do CINTESIS).

Quatro dias centrados no envelhecimento O dia 28 de maio marcou o encerramento do evento. A conferência de abertura deste dia ficou a cargo de Cláudia Azevedo do Oxford Institute of Population Ageing da Universidade de Oxford no Reino Unido com o tema “O futuro de um mundo intergeracional: abordagem multidimensional para aumentar o capital social, a solidariedade e a participação”. O 1.º painel teve como tema central as “Perspetivas e desafios sobre trabalho e envelhecimento” e debateu diversos tópicos como as organizações sociais, os cuidados

Por iniciativa da organização do Ageing Congress foram atribuídas no final do Congresso diversas distinções a pessoas individuais e entidades que se destacam na área do envelhecimento em Portugal. A primeira distinção do evento foi atribuída ao último orador do Ageing Congress, Walter Osswald, que recebeu o International Ageing Award na categoria Carreira. De seguida foi atribuído o International Ageing Award na categoria Personalidade a um ícone do teatro, cinema e televisão em Portugal, Ruy de Carvalho, entregue aos filhos João e Paula de Carvalho. O Prémio Instituição do Ageing Congress foi atribuído ao Centro Comunitário da Gafanha do Carmo, tendo sido atribuído ainda um reconhecimento individual a Ângelo Valente e Sofia Nunes pelo trabalho desenvolvido nesta instituição. O Prémio Boas Práticas foi atribuído ao Município de Ílhavo na pessoa de Fátima Teles, Vereadora da divisão de Maior Idade e o Prémio Ação Social foi entregue ao Município da Mealhada na pessoa de Nuno Carrilho, Vereador de Ação Social do Município.

Pedro Carrana, João de Carvalho, Paula de Carvalho e Ricardo Pocinho.

Centro Comunitário da Gafanha do Carmo.


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13.º Congresso Nacional do Idoso

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texto e fotos por

André Manuel Mendes

Nos dias 27 e 28 de junho de 2019 o Centro de Congressos do Sheraton Porto Hotel acolheu o 13.º Congresso Nacional do Idoso, uma iniciativa anual que reuniu nesta edição perto de um milhar de profissionais para debater as temáticas mais prementes das áreas direcionadas para os setores da Geriatria e Gerontologia. O 13.º Congresso Nacional do Idoso teve como mote “Geriatria 2019 - A idade & o conhecimento aliados no futuro” e foi planeado por forma a integrar no seu programa científico diversas especialidades relacionadas com a assistência ao doente idoso. Esta estratégia de conceção prendeu-se pela necessidade de entender os cuidados médicos na terceira idade de uma forma global, multidisciplinar e envolvendo cuidadores de múltiplas formações. Com um envelhecimento acelerado da população urge procurar respostas efetivas para a área dos cuidados aos mais necessitados e aos mais idosos, sendo indispensável apostar numa formação médica continuada para que os cuidados médicos prestados tenham maior qualidade assistencial. E foi para dar resposta a estes tópicos que se realizou um evento multidisciplinar que reuniu durante 2 dias perto de um milhar de profissionais (representando um aumento

de 10% em relação à edição de 2018), para assistir às apresentações de um vasto leque de especialistas. Na preparação do evento foram ainda recebidas mais de 100 propostas para pósteres de comunicações orais.

Analisar a realidade do envelhecimento “Temos que ter atenção que nos últimos 50 anos houve um aumento de esperança de vida em Portugal de 17 anos, o que quer dizer que temos cada vez mais idosos e que Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo. O número de idosos há 10 anos é superior ao número de jovens, quer dizer que temos uma inversão da pirâmide etária e por isso torna-se indispensável que os cuidados integrados, multidisciplinares e de multiespecialidades para o doente idoso sejam feitos de uma forma cada vez mais eficaz e mais profissional”, sublinhou José Canas da Silva, Reumatologista e Presidente da Comissão Organizadora do 13.º Congresso Nacional do idoso. Em declarações à revista “Temos que respeitar a diversidade do “Dignus” durante o congresenvelhecimentobiológico e compreender so, o especialista lamentou que precisamos de dar mais atenção aos não haver em Portugal esidosos ainda ativos, e ao mesmo tempo truturas definidas à partida propiciar condições de dignidade para para o tratamento destes o final da vida” doentes e, como tal, surgiu a necessidade de motivar, interessar e originar um local onde fosse possível, sobretudo aos médicos mas também a outros profissionais de saúde como psicólogos, enfermeiros ou assistentes sociais, melhorar os seus conhecimentos e aprofundar a sua formação profissional para que os cuidados aos idosos possam ser melhorados.


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José Canas da Silva sublinhou ainda que existe uma grande indiferença dos políticos em relação a este problema, e que na área da saúde tem existido muito pouco profissionalismo na gestão do Serviço Nacional de Saúde “que hoje em dia é largamente deficitário”, não só por falta de financiamento mas também de uma gestão inadequada das questões relacionadas quer com a implementação das diferentes especialidades e do seu acesso, quer de uma progressiva diminuição da equidade de acesso aos cuidados de saúde. “Há 5 anos levantei a ideia de que devia haver uma Secretaria de Estado da Terceira Idade, somos um país em que há mais idosos do que jovens mas, inexplicavelmente continuamos com uma Secretaria de Estado da Juventude e Desportos e temos graves problemas nos cuidados integrados à terceira idade”, salientou o reumatologista, acrescentando que esta deveria integrar a Segurança Social, os cuidados médicos, hospitalares, primários e todo o conjunto de áreas de assistência à terceira idade, não só no ponto de vista de doença mas também da terceira idade ativa, porque há cada vez mais idosos ativos que tem mais que 65 anos. O Presidente da Comissão Organizadora do 13.º Congresso Nacional do Idoso afirmou que temos atualmente um conjunto importante de decisores económicos com idade superior, como por exemplo Warren Buffet que é um dos homens mais ricos do mundo e um grande decisor ao nível da economia que tem perto de 90 anos, Monet que pintou os últimos quadros com mais de 80, Frank Lloyd Wright que construiu o seu primeiro museu quando tinha perto de 90 anos, que a obra Fausto de Goethe foi terminada quando ele tinha mais que 90 anos e que Ticiano fez alguns dos seus melhores quadros quando tinha mais que 90 anos. “Temos que respeitar a diversidade do envelhecimento biológico e compreender que precisamos de dar mais atenção aos idosos ainda ativos, e ao mesmo tempo propiciar condições de dignidade para o final da vida”, destacou.

Falar sobre temas atuais da Geriatria O psiquiatra António Pacheco Palha sublinhou que este “é um congresso de âmbito multidisciplinar na área da Geriatria e Gerontologia interessante quer para médicos como para laboratórios, e que é bastante pertinente pois cada vez mais há uma população idosa que mantém saúde. Discute-se quan-

António Pacheco Palha.

do se começa a velhice e atualmente aceitase que pode ser só aos 75 anos”. O primeiro dia do 13.º Congresso Nacional do Idoso iniciou-se com a sessão “O Envelhecimento – Problemas e Soluções” onde se debateram as parcerias entre cuidadores familiares e Cuidadores Formais, os cuidados médicos domiciliários, tecnologia, envelhecimento, tratamento das feridas e higiene. Seguiu-se a conferência inaugural subordinada ao tema “A velhice através da pintura” presidida por José Canas da Silva, o simpósio “Abordagem Global do idoso frágil – enfoque no papel da Vitamina D e do Magnésio” e a conferência “Imagens em Dermatologia”. A parte da tarde iniciou-se com uma sessão sobre “Prevenção e avanços te-

rapêuticos na Diabetes”, seguindo-se de um simpósio sobre o “Controlo do doente com Diabetes, Dislipidemia e Hipertensão” e uma última sessão sobre “Cardiologia Geriátrica”. O segundo dia do evento iniciou-se pelas 8h com a apresentação dos pósteres das comunicações orais selecionados. Na primeira sessão do dia falou-se sobre “Infeções: sintomas atípicos”, onde tiveram destaque o as infeções por HIV, pulmonar e urinária. A seguir ao simpósio “Dor e Vitamina D” seguiuse no uma nova sessão, desta vez sobre “Sexualidade”, moderada pelos Prof. Doutor A. Pacheco Palha e Prof. Doutor Luiz Miguel Santiago, que precedeu ao simpósio “É uma espécie de casos clínicos, dizem”. A parte da tarde do último dia do Congresso iniciou-se com duas conferências, “Consenso da dislipidemia aterogénica em Portugal” e “Emapgliflozina na DMT2: a evidência que dita a diferença”, terminando com a sessão “Problemas comuns, tratamentos adequados?”, onde se falou sobre exercício físico em doentes frágeis, dor crónica e obesidade.

Avaliação global positiva Em forma de avaliação, a organização do evento considera que este Congresso foi extremamente positivo e frutífero para todos os envolvidos. “Posso falar de um sucesso garantido e de um interesse enorme quer por parte das pessoas que assistiram ao congresso, quer pelos moderadores, conferencistas e indústria farmacêutica que já manifestaram interesse em ver este congresso continuar e estarem presentes na 14.ª edição no próximo ano”, destacou José Canas da Silva.


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5X\ GH &DUYDOKR “O espírito não tem rugas” texto e fotos por André Manuel Mendes

Aos 92 anos é o símbolo de uma geração. Acarinhado pelos portugueses, Ruy de Carvalho é um dos atores mais conceituados em Portugal, um verdadeiro sinónimo de arte e cultura que continua viva e persistente. Mas acima de tudo Ruy de Carvalho é pai, avô, bisavô, um homem amado por aqueles que fazem parte da sua vida, e esse tem sido um dos seus pilares. Na jornada da sua vida contou com a companhia e o amor de Ruth. Apesar de já não estar ao seu lado, Ruy de Carvalho acredita que se vai encontrar com ela “lá”. O avô de muitos portugueses continua no ativo e a trabalhar em teatro, novelas, anúncios e com uma agenda sempre preenchida. A revista “Dignus” foi conhecer de perto o ator, aliás, o homem por detrás do ator, e tentar perceber o segredo para um envelhecimento ativo e saudável. Sentados no sofá de sua casa, no meio dos “trabalhos de casa”, de livros e de distinções, Ruy de Carvalho contou-nos sobre a sua vida, o seu trabalho, as suas paixões e do que é preciso para ser feliz: “vivam sempre”.

Dignus: O facto de ter vontade de trabalhar com 92 anos é o elixir para se manter ativo? Ruy de Carvalho (RC): Sobretudo para mim sim, porque para mim é um prazer trabalhar. Não vou desistir de viver, porque a morte é certa, e enquanto a vida andar comigo e me acompanhar eu vou vivendo e trabalhando. Tenho uma memória dentro do possível, decoro com facilidade, ainda conduzo, ando apenas com alguma dificuldade, já não faço o que fazia com tanta facilidade e tenho que ter cuidado com as quedas. Trabalho todos os dias, tenho a televisão, o teatro, e mesmo com os 92 anos ainda me vou aguentando. Eu disse isto uma vez e repito sempre, eu tenho 92 anos por fora mas tenho 28 por dentro. Nunca devemos desistir do nosso espírito, porque o espírito não tem rugas, e como tal temos que nos valer dele. Ainda faço muitas coisas que muitas pessoas mais novas do que eu dizem que já não podem fazer, aliás, não podem ou desistem, mas não podemos desistir de nada na vida.

cas oficinas, há pouco interesse estatal pela cultura e sobretudo pelo teatro. Há imensos teatros fechados atualmente, e o público também tem que ajudar, pois sem público não há espetáculo. Há muitas terras em que os teatros funcionariam se as pessoas os frequentassem, mas essas mesmas pessoas abandonam o teatro, o cinema, e só optam pelo futebol, mas isso é pouco. O que marca e marcará sempre um país é a sua cultura, pois é extremamente importante para todos os povos, tanto quanto o desporto, pois o grande objetivo da vida é uma “mente sã em corpo são”. Mas basta ver qual é o orçamento do Estado para a cultura para vermos que não se faz nada em Portugal.

Dignus: Como são encarados os atores com mais idade dentro da arte da representação? RC: Eu sou muito bem recebido, os jovens gostam muito de mim. Trabalho no Teatro Experimental de Cascais que tem muitos jovens e recebem-me como se eu tivesse a idade deles. Mas infelizmente há muito pou-

Dignus: Qual foi a primeira peça em que entrou há 77 anos quando começou na representação? RC: Foi numa peça portuguesa, de um autor e músico portugueses, Joly Braga Santos e Luiz Francisco Rebello, a peça chamava-se “Jogo para o Natal de Cristo”. Depois disso continuei a fazer diversos trabalhos para o

“Eu disse isto uma vez e repito sempre, eu tenho 92 anos por fora mas tenho 28 por dentro.”

Teatro do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa, peças dirigidas pelo mestre de teatro Ribeirinho. Mas a peça que mais prazer me deu a fazer foi “O Render dos Heróis” de José Cardoso Pires onde representava o povo português. Aqui era cego, mas apenas quando queria [risos]. Dignus: Uma carreira de 77 anos é uma vida. Quais os momentos que mais o marcaram? RC: Foram imensos, não consigo especificar um em particular, mas tenho sobretudo momentos muito marcantes na minha vida particular. Tenho os meus filhos, tive um casamento muito feliz com uma pessoa que me completava e eu a ela, e isso é uma parte muito importante da vida de um artista, é ter em casa um amparo muito grande. Tive momentos muito bonitos na minha vida, e tenho ainda hoje, principalmente quando o público se aproxima de mim, me agradece, são essas as coisas que me tocam profundamente, são sinal que fui verdadeiramente útil na sociedade a que pertenço. Eu sou do país, e se fosse trabalhar lá fora gostaria que fosse sempre como representante do meu país, nunca perderia a minha nacionalidade. Dignus: E compara a sua arte de hoje com aquela que existia há 77 anos? RC: Houve sempre crise na cultura em Portugal. Houve muita gente a dizer que lutava pela cultura, mas isso nunca foi verdade. Só tratam da parte económica do país, que é claro muito importante, mas também é importante ser competente, e pessoas que sabem não são levadas como carneiros, uma pessoa culta não é um carneiro, e por isso a arte é por vezes um inimigo dos Governos, sobretudo nas ditaduras. Dignus: O amor pela leitura sempre o acompanhou. Lê bastante e foi autor e co-autor de diversos livros. Esse mesmo amor é um dos segredos para se manter uma mente ativa numa idade avançada?


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RC: Gosto muito de ler. Ler é fundamental para qualquer ator e também para acompanharmos a cultura geral e a evolução dos povos, pois todos temos de evoluir. Por falar nisso, os novos trazem coisas novas e os velhos não se podem agarrar só à experiência. Os novos obrigam-nos a evoluir.

sou viúvo há muitos anos de uma pessoa que me ajudou muito na minha vida e que eu amei muito.

Dignus: E ouve muito os mais novos? RC: Oiço muito os mais novos sim. Tenho filhos e netos, duas gerações que escolheram e evoluíram na minha profissão. Paralelamente a isso tive também uma mãe que era pianista, gente que gostava muito de cultura na minha família, ou seja, sempre vivemos num ambiente onde a cultura tem um lugar de destaque. Dignus: O que gosta de fazer nos seus tempos livres? RC: Gosto de viajar, gosto muito de ouvir música, sou um apaixonado por música, vivo com música e gosto de tudo o que seja bom, bem tocado e por profissionais. Gosto muito de amadores profissionais, aqueles que têm outra ocupação para além desta arte, e esses são um bom público. O amador é aquele que ama aquilo que faz, e eu acho que também sou isso. Tenho que aproveitar também para descansar. Deitando-me às duas da manhã e é complicado levantar-me muito cedo, até porque entretanto também tenho que estu-

“A família deve ser sempre uma peça fundamental na vida de qualquer pessoa, são eles que fizemos e deles que vimos. ”

dar, decorar textos, em casa, tenho que fazer trabalho para levar para o trabalho, seja ele televisão, cinema, teatro, ou publicidade. Dignus: A sua família é uma peça fundamental na sua vida? RC: A família deve ser sempre uma peça fundamental na vida de qualquer pessoa, são eles que fizemos e deles que vimos. Eu tenho uma filha jornalista, um filho ator, netos com profissões muito bonitas, um engenheiro geólogo, outro piloto aviador, outro comandante, entre outras, e tenho também bisnetos. Tenho uma base familiar muito grande,

Dignus: O grande amor da sua vida, a Ruth, faleceu em 2007. Como é que se vive o luto? RC: Eu tenho uma vantagem, eu acredito que “lá” a vou encontrar. Continua viva dentro de mim, na minha memória, quando preciso converso com ela. A morte é natural, toda a gente nasce para morrer. Devemos viver a vida, nunca podemos desistir de viver, não nos podemos humilhar e pensar que não valemos nada. Nós valemos pelo conhecimento que temos, com os novos a beberem da nossa experiência, e devemos acompanhar a evolução e compreender as coisas novas que nos vão trazendo. Dignus: A sua cadela Naná teve um lugar especial na sua vida. Qual a importância de um animal na vida de um idoso? RC: A Naná foi um animal muito importante na minha vida e continua a marcá-la porque continuo a tê-la no coração. Há países em que os animais têm uma importância muito grande e ajudam muito os idosos, fazem-lhes companhia, são uma forma de recordar as pessoas de que amar é bom. Amar um animal e sentir a sua retribuição é muito bom. Onde eu trabalho há um cão que vem ter comigo para me cumprimentar. Numa vez aproximei-me dele, estava receoso, mas agora é ele que me chama, quando eu chego começa a ladrar a pedirme festas. São provas de amor que vêm dos animais. Dignus: Quais são os seus projetos para o futuro? RC: Os projetos é fazer aquilo que querem que eu faça [risos], nunca fui um homem de escolher coisas para a minha vida. E faço as coisas com muito prazer. Enquanto a memória funcionar e o corpo andar não paro quieto, porque parar é morrer. Dignus: E qual o conselho que deixa aos leitores para se viver uma vida plena mesmo numa idade mais avançada? RC: Não se pode desistir, temos vida enquanto tivermos porque a morte é certa. Temos um limite que não o conhecemos, portanto até lá temos que viver a vida e não pensar que não servimos para nada, não! O conselho que dou é “vivam sempre”, morram só na altura que foi escolhida para vós.


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5LFDUGR 3RFLQKR “Qualquer país que não respeite os mais velhos é um país sem memória” texto e fotos por André Manuel Mendes

Com o envelhecimento da população a ser uma realidade cada vez mais atual, muito se tem discutido sobre a forma de potenciar a qualidade de vida numa idade mais avançada, quer em termos individualizados como no que respeita a cuidados e serviços prestados a idosos. O Ageing Congress é um verdadeiro exemplo de proatividade na procura de soluções para as problemáticas apresentadas no envelhecimento, colocando em discussão as temáticas mais prementes em torno desta realidade e ouvindo os profissionais mais experientes e qualificados nas suas áreas de intervenção. A revista “Dignus” conversou com Ricardo Filipe da Silva Pocinho, Professor Adjunto da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, Doutorado em Processos de Formação e em Psicogerontologia e Presidente da Anges – Associação Nacional de Gerontologia Social, que nos deu a conhecer todo o trabalho desenvolvido para a promoção de um envelhecimento com qualidade.

Dignus: O que é o Ageing Congress? Ricardo Pocinho (RP): O Ageing Congress, é um evento internacional sobre envelhecimento, que surge antes da fundação da ANGES, ainda que com outras designações, Congresso Internacional de Gerontologia Social entre 2011 a 2013, e Conferência Internacional de Envelhecimento Ativo, 2014 a 2017, hoje assumese como um dos maiores eventos sobre esta importante temática, quer pelo número de pessoas envolvidas, quer pelas instituições parceiras que aumentam a cada nova edição.

Dignus: Qual a pertinência de um evento desta índole em território nacional? RP: Este evento, tem máxima pertinência e relevância, não só porque Portugal é um país extremamente envelhecido mas, e sobretudo, porque não há soluções imediatas para contrariar esta tendência e se vamos ser cada vez mais um país envelhecido, há que discutir, não este facto que é do conhecimento de todos, mas antes formas das pessoas que hoje vivem mais anos manterem a qualidade de vida, sentirem-se integrados na sociedade e com acesso à saúde e às prestações sociais.

Dignus: Como foram selecionadas as temáticas para as apresentações do Ageing Congress? RP: A ANGES, que a cada ano lidera a organização do evento, tem durante todo o ano elevado contacto com organizações sociais, cuidadores, técnicos, empresas que servem o setor, escolas e universidades, quer pelas suas ações de formação, quer pelos eventos em que participa ou mesmo pelas reuniões onde intervêm. É o profundo conhecimento das necessidades que mais contribui para a definição de temáticas, ouvimos todos sobre o que tem utilidade ser discutido. Não agradamos a todos, contudo esgotamos todos os eventos e isso é para nós motivo suficiente para que no encerramento de um Ageing Congress anunciemos o próximo. Dignus: Qual a avaliação que a organização faz do evento? RP: A organização faz uma avaliação extremamente positiva, e o nosso único indicador é a satisfação dos parceiros e de todos os que de alguma forma colaboram. Este é um congresso para os que participam e não para que a Anges tenha algum proveito, fazemos este evento para que dele resulte ciência e propostas de intervenção, para que a vida


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“(...) Portugal tem perdido inúmeras oportunidades, tem uma excelente rede de organizações sociais e cuidadores mas não dota uns de meios, e aos outros não trata com a dignidade (...)”

por evidências científicas e muita experiência dos nossos oradores, do estado global desta interessante fase da vida. Sem poder avançar com muita informação diria que todos podem esperar uma abordagem ao desenvolvimento humano, aos mitos e oportunidades do envelhecimento, uma avaliação das organizações, modelos de financiamento, a formação de cuidadores e a importância deste setor e de todos os que nele trabalham, e por fim o papel do estado.

dos que ajudaram a construir o mundo e a conquistar tantas coisas possa ser o melhor possível, qualquer país que não respeite os mais velhos é um país sem memória. Dignus: 2020 será também ano de Ageing Congress. O que poderão esperar os participantes? RP: Poderão esperar dois dias muito intensos. O Ageing Congress 2020 irá realizarse nos dias 25 e 26 de maio em Leiria, e terá como mote “O envelhecimento como um todo”. Está a ser pensado ao pormenor desde o dia seguinte ao final do congresso deste ano, vai ser um congresso que trará a todos um profundo relato, suportado

“O Ageing Congress é um verdadeiro exemplo de proatividade na procura de soluções para as problemáticas apresentadas no envelhecimento (...)”

Dignus: Portugal está preparado para um envelhecimento cada vez mais acelerado da população, tanto a nível de políticas como de equipamentos e de mentalidades? RP: Não completamente, Portugal tem perdido inúmeras oportunidades, tem uma excelente rede de organizações sociais e cuidadores mas não dota uns de meios, e aos outros não trata com a dignidade (condições salariais e de trabalho) que merecem, e este é um problema transversal à sociedade. As pessoas só valorizam estas instituições quando delas necessitam, e quando têm o seu problema resolvido, uma vaga ou uma cama, logo se abstêm de participação na vida das instituições. A defesa das organizações sociais e dos seus colaboradores tem de ser causa nacional. As políticas têm sido avulso, desintegradas e com um pensamento de resultados a curto prazo, Portugal precisa de uma estratégia, mas pensada, desenhada e executada por quem conhece as populações e as suas necessidades. O envelhecimento é hoje tema de muita campanha, de muitos diplomas mal explicados, mas sobretudo um bom motivo para angariar admiradores. Dignus: Qual o trabalho desenvolvido pela ANGES na promoção de um envelhecimento saudável?

RP: A ANGES, está focada em formar os cuidadores nas mais diversas dimensões, dotando os dirigentes de estratégias de gestão de bens escassos e de colaboradores muitas vezes cansados e desmotivados, e aos colaboradores prestar a vénia e agradecimento que merecem, pois permitem que os já insuficientes portugueses em idade ativa, possam manter a sua atividade profissional, estabelecer planos de vida, como ter filhos, e ter mínima tranquilidade com o futuro dos que vão envelhecendo. De uma forma geral nós temos a certeza que as respostas em Portugal, apesar dos poucos meios de que são dotadas, graças aos excelentes profissionais e dirigentes (também aqui a exceções naturalmente), funcionam bem. Dignus: Como antevê o futuro do envelhecimento em Portugal? RP: Quero acreditar que alguém vai, num futuro próximo, olhar para esta questão com a seriedade que merece. Portugal não se preparou nos últimos anos, hoje temos um desequilíbrio demográfico muito acentuado e que não se resolve, mesmo com novas políticas de apoio à natalidade e sobretudo de segurança no emprego, em menos de 20 anos. Estas duas décadas que são de oportunidade e felicidade, pois viveremos cada vez mais, só pode ser suportada se houverem algumas mudanças. As comparticipações do estado têm que ser revistas na sua forma de atribuição. Quem pode pagar não tem que ter um valor máximo, mas antes efetuar o pagamento do valor total do serviço. As pessoas são hoje concomitantemente idosas e doentes, há uma grande necessidade das organizações sociais serem entendidas também como de saúde, pois esse facto trará apenas poupança ao SNS, redução das idas de pessoas idosas a urgências apenas para serem oxigenadas e aspiradas, ou tomar um intravenoso. Temos um país com meios, com excelentes profissionais, falta apenas vontade.


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-RV« 6DOJDGR %RUJHV “A visão é muito importante, mas temos que a integrar com todos os outros sentidos” texto e fotos por André Manuel Mendes

A visão é um dos sentidos mais importantes do ser humano. Ela dá-nos a perceção da realidade que nos rodeia e, como tal, deve ser cuidada e acompanhada com regularidade. Com o avanço da idade a visão também começa a envelhecer, portanto deverá merecer ainda mais a nossa atenção para se evitarem patologias graves que podem levar a uma cegueira permanente. A revista “Dignus” conversou com José Salgado-Borges, Oftalmologista, Diretor Clínico da Clinsborges, Coordenador dos serviços de Oftalmologia dos Hospitais Privado da Boa Nova e de Dia da Maia e Coordenador da Unidade de Oftalmologia do Lenitudes Medical Center & Research, por forma a compreender a importância e os cuidados que se deve ter com os olhos, principalmente numa idade mais avançada. José Salgado-Borges frequentou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e no final do internato de Oftalmologia viajou para os Estados Unidos para realizar um Fellowship em Chicago durante 2 anos. Como tese do seu Doutoramento abordou a etiologia da degenerescência macular relacionada com a idade, uma patologia que incide sobre o envelhecimento da retina que com a idade promove a alteração de toda a estrutura da retina, sendo que existem diversas causas que levam a essa consequência do envelhecimento dos nossos olhos. Posteriormente abraçou novo projeto no Hospital de São Sebastião em Santa Maria da Feira, onde foi Diretor do serviço de Oftalmologia, durante 15 anos. Ali desenvolveram uma atividade pioneira, uma gestão empresarial diferente na área da saúde e que serviu de exemplo para outros hospitais.

Dignus: Quais as preocupações que devemos ter com a nossa saúde ocular, principalmente quando falamos da população idosa? José Salgado-Borges (JSB): Faz todo o sentido cada vez mais nos preocuparmos não só com as doenças em si, mas fundamentalmente com a prevenção. Cada vez há mais pessoas com mais de 65 anos, cada vez a longevidade é maior, e devemos ter em conta que a nossa retina vai acompanhar o envelhecimento normal que surge no resto do organismo. Tanto o glaucoma, a degenerescência macular relacionada com a idade ou mesmo as alterações oculares na diabetes fazem com que os olhos venham a sofrer de patologias que numa idade inferior não se registavam. Se conseguirmos prevenir situações que sejam tratáveis podemos travar a sua evolução, quer com medicação ou através de cirurgia. Cada vez mais, não só nas pessoas com idade, mas também mais cedo, começam a surgir queixas do olho seco, olhos que picam, ardem, provocam desconforto na visão, sintomas que surgem pelo ambiente que nos rodeia, uso excessivo de computadores, alterações hormonais, entre outros fatores. Uma das formas de controlar esta situação


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é utilizar a regra dos 20 20 20, que estipula que a cada 20 minutos que passamos no computador, devemos parar 20 segundos e pestanejar 20 vezes. Tendo em conta esta realidade eu criei recentemente a regra dos 30 30 30, que estipula (exceto obviamente no trabalho) que se deve apenas utilizar para uso pessoal o computador, smartphone ou tablet 30 minutos de manhã, 30 minutos depois do almoço e 30 minutos à noite. As complicações com a idade vão surgir, portanto devemos fazer tudo para as retardar, tratar ou controlar para minimizar os efeitos que elas têm. Dignus: Como se deve receber e tratar um paciente idoso? JSB: Quando recebemos um paciente idoso temos que o compreender não só de acordo com a sua patologia, mas temos que o entender como um todo. A visão é muito importante, mas temos que a integrar com todos os outros sentidos, com as suas debilidades, como as dificuldades na audição, a diminuição da cognição, as dificuldades de locomoção. Deve haver uma grande preocupação no aconselhamento ao paciente idoso. A título de exemplo nos Estados Unidos da América há estudos feitos em que o uso de óculos progressivos pode originar quedas e outras situações que do ponto de vista de custos, dificuldades e danos para o doente são grandes. Hoje em dia temos, por exemplo, a possibilidade de operar e usar lentes intraoculares que permitem a uma pessoa ver muito razoavelmente ao longe, a meio e ao perto, e evitar na maioria das situações o uso de óculos. O que faz então mais sentido? Ter um custo acrescido para utilizar lentes que possibilitam que a pessoa corrija no seu dia a dia o astigmatismo ou visão a meia distância? Ou ter um custo acrescido de 2 em 2 ou 3 em 3 anos com a compra de óculos progressivos que são dispendiosos? Dignus: Que preocupações deve ter um idoso que necessite de tratamento oftalmológico? JSB: Uma pessoa com a idade deverá ter uma consulta periódica de Oftalmologia; se não tiver patologias oftalmológicas graves deverá ter uma consulta pelo menos de 4 em 4 anos para ver se as suas tensões oculares estão normais, principalmente se houver um histórico familiar de patologias como o glaucoma ou degenerescência macular. No que respeita a uma pessoa diabética poderá haver um encurtamento temporal dessas consultas.

Faz todo o sentido haver cada vez mais uma integração de cuidados e também uma preocupação com os cuidados das pessoas, até porque grande parte dos hospitais do Estado estão muito bem apetrechados quer do ponto de vista técnico como de profissionais. Apesar deste fator faz todo o sentido aproveitar os recursos das unidades não estatais através da criação de parcerias, por forma a que haja uma complementaridade na assistência. É importante o cuidado das pessoas e devia haver uma preocupação maior ao invés de haver uma visão unicamente estatal, desde que custos excessivos sejam acautelados.

“As complicações com a idade vão surgir, portanto devemos fazer tudo para as retardar, tratar ou controlar para minimizar os efeitos que elas têm.”

Temos um Sistema Nacional de Saúde que infelizmente não dá cobertura a toda a população, mas também é porque muitas vezes há um exagero das pessoas, talvez por má orientação, porque ao invés de irem a uma consulta periódica de 4 em 4 anos vão em alguns casos com uma periodicidade anual sem necessidade. Deve haver um acompanhamento próximo e um tratamento das pessoas que têm patologia, e deve-se ter em conta a prevenção, por exemplo para aquele doente com cataratas que começa a ter dificuldades no seu dia a dia, para que seja operado, ou um doente com glaucoma que deve ser seguido de forma regular.

Dignus: O que é a Lenitudes Medical Center & Research e quais os serviços e especialidades disponibilizadas? JSB: É um centro multidisciplinar e funcionou nos seus primeiros 3 anos de existência fundamentalmente vocacionado para a área da oncologia, quer no que respeita ao diagnóstico como ao tratamento; desde o início do presente ano até agora têm vindo a ser integradas as novas especialidades. O objetivo é que cada especialidade, nomeadamente a Oftalmologia, esteja dotada tanto do ponto de vista de diagnóstico como de tratamento, por forma a se fazer uma abordagem global do paciente, não só de uma forma isolada, mas também integrada, como por exemplo com a Otorrinolaringologia, Cirurgia Plástica, Cirurgia Geral, Endocrinologia, Cirurgia Vascular, Neurologia, Neurocirurgia, entre outros. A Lenitudes surge agora com um novo visual que contempla uma abordagem multidisciplinar; e julgo que até ao final do ano todas as especialidades que foram criadas e introduzidas irão trabalhar em conjunto para que o doente seja tratado de uma forma global e com ainda melhor qualidade.


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“Brincar” deve desde já ser encarado como uma “terapia”, capaz de ancorar os benefícios de que o ser humano precisa para fortalecer o seu dia a dia. Numa visão holística do ser humano, denotam-se os efeitos devastadores, de se terem abandonado os princípios que, há décadas, nos davam as ferramentas indispensáveis para a construção da socialização e das nossas competências de cidadania. Contudo, quando falamos do brincar, aparece como algo extinto ou em vias de extinção. A essência do brincar, nos dias de hoje, perdeu o reconhecimento e perdeu a essência. Os pais criam, para os seus filhos, “menus” de atividades para compensarem a falta de tempo que deveriam dedicar-lhes. Com a promoção de tão abundante ocupação diária, com agendas exageradamente preenchidas, e com a invasão das novas tecnologias em todas as suas rotinas, as crianças perdem o brincar. Os pais recorrem a todos estes subterfúgios como forma de acalmar os medos e receios que o quotidiano das sociedades modernas lhes causam. Mas no dia a dia das crianças perdem a espontaneidade, a autonomia e a criatividade.

Brincoterapia, uma atividade que tem décadas mas está a ser omitida Crianças + Idosos = a importância do brincar ao longo da vida 1

Bruno Trindade, 2Ricardo Pocinho

1

Phd Student Doutoramento, 2Professor Investigador

Mas o brincar, na sua essência é oferecer tal como nos animais). É nesses momentos atividades lúdicas, permitindo às crianças que ganhamos ferramentas de desenvolvie adultos e pessoas da 3.ª idade desenvol- mento para o nosso futuro e prevenção do verem todas as suas competências e po- envelhecimento. tencialidades, só assim irão conquistar as O brincar é, na atualidade, um elemenhabilidades sociais, afeto essencial e inevitaveltivas, cognitivas e físico “Brincar é a melhor terapia mente neste campo o motoras, bem como a para crianças e adultos” brincar é cada vez mais capacidade de se connecessário para as criancentrarem e darem livre curso à sua imagi- ças, adultos e 3.ª idade, nação mais criativa e desenvolvimento de É nesta aceção que colocamos a necessicompetências. dade de se reintroduzir o brincar no dia a dia A necessidade de brincar é inerente ao das crianças e idosos, como “terapia” para ser humano (na sua essência mais natural, trazer de volta as suas competências mais


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genuínas, para a construção do seu futuro e prevenção. Qualquer atividade que permita brincar, permitirá também uma melhor comunicação, uma conexão ao pensamento, às ações exploratórias que irão ajudar no desenvolvimento da criança a todos os níveis. O brincar associado a componente da Animação Terapêutica desenvolve e estimula as vertentes sensoriais e cognitivas do cérebro, contribuindo, assim, como um “medicamento” para a prevenção e desenvolvimento de competências. Sendo uma intervenção interativa e dinâmica cujo objetivo é auxiliar na melhoria do desempenho cognitivo e motor dos idosos e crianças. Procura proporcionar uma boa qualidade de vida, pois propicia melhoria no desempenho cognitivo, melhoria na capacidade funcional, autonomia, independência, integração social; melhoria da atenção, concentração, memória, aprendizagem, velocidade de raciocínio, linguagem, entre outros. Brincar é a melhor terapia para crianças e adultos. É essencial independentemente da idade. Não podemos deixar que o brincar se extinga… brincar faz parte da nossa cultura, faz parte do ser humano. Talvez por isso o brincar seja essencial e terapêutico, até. A componente lúdica tem de ganhar maior relevância; não podemos deixar que se anule o tempo para brincar; não podemos permitir que as tecnologias ocupem o tempo de brincar livremente, o tempo fundamental da descoberta inerente à construção e ao crescimento individual.

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As instituições educativas e académicas (enquanto lugares da reflexão e da investigação acerca dos conceitos) devem criar espaços e momentos de brincar associados à terapia, para que a ciência do brincar e estimular seja valorizada e para que o brincar seja de novo levado e ensinado. Porque tudo se encontra ligado, uma vez que brincar permite desenvolver competências, melhorar o bem-estar, melhorar a saúde, física e mental, estabelecer regras e valores, aprender a respeitar, a ouvir, a ser criativo e levar mais longe a sua imaginação. Nas escolas, nas instituições de 3.ª idade ou na natureza, em espaços amplos, com unidades móveis ou fixas, onde as crianças, os jovens, os adultos e idosos (toda a comunidade) podemos desenvolver a “ciência”

“Qualquer atividade que permita brincar, permitirá também uma melhor comunicação, uma conexão ao pensamento, às ações exploratórias que irão ajudar no desenvolvimento da criança a todos os níveis.” do brincar. As possibilidades são ilimitadas, desde a exploração de recursos, de jogos livres, de jogos de tabuleiro e outros. Todos os espaços são possíveis, mais convencionais ou mais alternativos, de socialização ou de exploração individual, importa sobretudo proporcionar ao ser humano oportunidades de manusear, explorar, construir, inventar materiais lúdicos. A atividade lúdica pode misturar-se com a atividade educativa e pedagógica, e o brincar ajuda interagir a criança e os idosos com os seus familiares e toda a comunidade que o rodeia.

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6H[XDOLGDGH H HQYHOKHFLPHQWR Psicóloga Clínica e da Saúde e Sexóloga

Vânia Beliz

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Q

uando falamos de sexualidade associamos, quase sempre, esta palavra a sexo, genitalidade e prática sexual. Associamo-la, também quase sempre, a jovens pessoas adultas e ativas. A sexualidade existe desde que nascemos até que morremos, e ignorar isto é ignorar a nossa natureza sexuada e os nossos direitos. Toda e qualquer pessoa tem o direito de amar, tem o direito de ser amada e de viver a sua intimidade, sem reservas e sem limitações. Assim, ao construímos a nossa sexualidade ao longo da nossa vida modelamos a forma como vivemos e como experimentamos a sexualidade, sempre sob a influência de inúmeros fatores que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), poderão ser biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e/ou espirituais. O aumento da esperança média de vida, pela melhoria dos cuidados médicos e pela disponibilização de vários fármacos para tratamento das principais disfunções, veio lançar a discussão sobre a necessidade e o desejo de manter a intimidade e a vida sexual ativa até uma idade mais tardia. Apesar de a medicina e de o mercado farmacêutico oferecerem boas respostas para a manutenção da resposta sexual durante o processo de envelhecimento, muitos mitos e algum desconhecimento afastam as pessoas mais velhas de uma intimidade gratificante. O mito de que a pessoa idosa é assexuada, de que não é atraente, de que perde o desejo e o prazer, são apenas alguns exemplos que bloqueiam o direito à sexualidade enquanto envelhecemos. Sabemos bem, agora, que o processo de envelhecimento causa inúmeras alterações, e que as mudanças físicas e biológicas precisam ser conhecidas e compreendidas. A falta de informação pode

“Toda e qualquer pessoa tem o direito de amar, tem o direito de ser amada e de viver a sua intimidade, sem reservas e sem limitações.”

fazer com que as pessoas se afastem da intimidade, sem qualquer razão. Existem ainda várias alterações possíveis na resposta sexual decorrentes do envelhecimento e, hoje, temos ao dispor inúmeras estratégias para minimizar e intervir melhorando a qualidade dos relacionamentos. Para as mulheres, a menopausa foi durante muito tempo vista como o “fechar da loja”, levando à perceção do fim da fertilidade, e o desconforto associado à perda de algumas hormonas lançaram muitas mulheres para o fim da prática sexual. Dor, falta de desejo, falta de prazer, podem ser facilmente resolvíveis. Nos homens, as alterações à performance e ao desempenho sexual podem ter consequências graves, de que a depressão e até o suicídio são exemplos, uma vez que acentuam a perda da sua masculinidade. Para compreendermos melhor os obstáculos ao amor na idade madura não podemos deixar de refletir sobre o perfil dos nossos idosos de hoje: a) a maior parte passou a sua infância e juventude num período de grande repressão política, económica e so-


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cial em que falar de sexualidade era quase proibido; b) homens e mulheres receberam educações diferentes em relação ao sexo e a maior parte foi convidada a anular os seus desejos em função de uma moral castradora (principalmente as mulheres, educadas para serem perfeitas donas de casa); c) as nossas mulheres “avós” foram educadas à castidade, a fingir o prazer e a ver o sexo como uma obrigação do casamento, e poucas conhecem hoje a sua genitália ou estão, sequer, confortáveis com ela (já que, para muitas, o sexo era algo associado à gravidez quase sempre pouco planeada, e são comuns as mulheres que revelam terem sido vítimas de violência sexual por conta da sua obrigação matrimonial); d) os homens foram incentivados ao sexo pago para se afastarem das tentações carnais e, muitas vezes, a sua iniciação sexual também se fez com profissionais do sexo (tendo-lhes sido passada a mensagem da necessidade de estarem sempre prontos, e a tomarem a iniciativa, e a exigirem prazer), ou; e) os casais viviam, assim, uma intimidade pouco gratificante associada à reprodução e pouco direcionada para o prazer. Independentemente destes fatos, vários estudos revelam hoje a importância da sexualidade para a promoção do envelhecimento ativo e para o aumento da qualidade de vida, mostrando que muitos casais mantêm relações sexuais apesar da idade (Sousa, Figueiredo e Cerqueira 2004). Para estes autores, 75% dos homens e 61% das mulheres com 70 (ou mais) anos de idade, mantêm ativa a sua atividade sexual e, mais, a satisfação com a sua sexualidade. Todavia, ainda de acordo com esta referência, a atividade sexual encontra-se muito diminuída, e muitas vezes associada ao declínio da velhice e à perceção que os idosos têm das suas capacidades sexuais. Num estudo realizado no âmbito de um mestrado em sexologia, em cujo Beliz e Monteiro (2010) tiveram como objetivo conhecer as conceções em relação à sexualidade durante o processo de envelhecimento, a perceção das amostras mostrou-se muito diferente: a) na amostra constituída por pessoas mais velhas, foi notória a projeção para a necessidade de intimidade, proximidade, carinho e erotismo, com as personagens masculinas a desempenharem papéis estereotipados na iniciativa na conquista; b) para a amostra mais jovem, a intimidade aparece desvitalizada e a proximidade é vista como uma ação para o cuidado, para a proteção, havendo pouca correspondência com a proximidade/afetividade dos casais das figuras.

“(...) as alterações à performance e ao desempenho sexual podem ter consequências graves, de que a depressão e até o suicídio são exemplos (...)”

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Estes resultados vieram confirmar o interesse das pessoas mais velhas na intimidade, mas confirmaram a desvalorização e a negação dos mais novos em relação à intimidade das primeiras. Portanto, ainda mantemos erradamente o hábito de dar à sexualidade o significado exclusivo do ato sexual, não reconhecendo outras importantes manifestações, que tendemos a ignorar. Perante a impossibilidade do coito, não deixam de se verificar manifestações providas de desejo e prazer, como o toque, ou como o beijo. Muitas vezes, aliás, o que acontece é uma deslocação do foco de prazer. A partir de uma certa idade, as relações sexuais que incluem penetração diminuem à medida que a idade avança, como é o caso dos indivíduos maiores de 80 anos. No entanto, o desempenho sexual está muito associado ao estado de saúde, pelo que, garantir um envelhecimento saudável é potenciar maior possibilidade de prazer durante o envelhecimento. Esta ideia de que a sexualidade é igual a genitalidade tem desvalorizado a sexualidade dos idosos, fazendo com que os próprios pensem que já não o podem fazer e que isso é coisa do passado, ou até exclusivo das pessoas mais novas. Durante as entrevistas realizadas, na sua investigação a 45 pessoas idosas institucionalizados, Ferreira (2005) verificou a necessidade que estas sentem da proximidade do parceiro ou da parceira, e de como essa necessidade influencia a sua qualidade física. O afeto e o prazer, através de outras práticas sexuais que não incluam penetração, podem ser muito satisfatórias

para as pessoas mais velhas e, por isso, jamais deverão ser proibidas ou castradas. Além dos obstáculos criados pelos estereótipos e pelos mitos que condicionam a perceção que os maiores têm da sua intimidade, também as famílias parecem não aceitar a existência de interesse e da atividade sexual das pessoas mais velhas, principalmente após uma situação de viuvez, em que muitas referem que não procuraram ou aceitaram um relacionamento porque os filhos ou as filhas não compreenderam esta necessidade. No meio institucional, estas relações são quase sempre vistas como perturbações ou demência (verificando-se apenas casos pontuais em que algumas demências podem causar desinibição e hipersexualização). Tal facto reflete o pensamento estereotipado da sociedade que condena à ridicularização e à discriminação as “vítimas” do amor maduro. De acordo com as ideias globais da nossa sociedade, este desfasamento relacional apenas se justifica pela patologia - mais propriamente pela demência - ou, então, pelo interesse normalmente atribuído à mulher, anulando assim o valor inquestionável do sentimento amoroso. Butler (1985) afirma que a negação da sexualidade após a idade madura é o reflexo do nosso medo de envelhecer e de morrer, o que cede lugar a um preconceito chamado “velhismo”, que consiste na discriminação sistemática contra pessoas idosas na mesma dimensão discriminatória do racismo ou do sexismo. Neste âmbito, é possível observar a influência do contexto psicossocial sobre a sexualidade,


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na medida em que se traçam perfis diferenciados para comportamentos, de acordo com as faixas etárias do ser humano. A sexualidade não pode, portanto, ser entendida de maneira simplista, pois provêm-se de carinho, de proximidade, de pequenos gestos que muitas vezes constituem a vivência da intimidade. É urgente sensibilizar a sociedade e os técnicos e as técnicas que trabalham com estes públicos para a sexualidade. É necessário sensibilizar que, por exemplo, o desejo não tem idade e não conhece fronteiras, ou que as maleitas do corpo não são, por si só, castradoras do seu poder. O fator “frequência sexual” acaba por não ser o principal para a satisfação sexual, pois as pessoas idosas falam muito sobre carinho, sobre companheirismo e sobre atenção. Vale, então, a pena reforçar a importância da sexualidade e da comunicação entre os profissionais de saúde e cuidado, que têm um papel privilegiado pela sua proximidade (Silva & Pinto, 2019). A educação sexual deverá também apostar na prevenção das infeções sexualmente transmissíveis na nossa população idosa, uma vez que a utilização de meios de proteção é baixa, o que constitui um fator de risco para a sua saúde e para o seu bem-estar. Urge melhorar a forma como comunicamos sobre estes temas e como refletimos sobre os direitos sexuais e reprodutivos, e as pessoas mais velhas não podem ficar de fora desta dinâmica. A diversidade sexual e as diferentes formas de amar também são fatores de marginalização e exclusão. Hoje, é ainda mais importante que possamos refletir sobre a diversidade relacional, sobre

como esta é representada e percecionada socialmente. Terão os idosos de renunciar à sua identidade e/ou à sua orientação? Este é um tema fraturante para o qual teremos de ter resposta, principalmente no âmbito institucional. Por todo este movimento de mudança e criação de novas necessidades importa que se invista na reflexão e na capacitação, para melhorarmos as nossas práticas nestes temas tão importantes para o bem-estar e para a felicidade dos nossos maiores pois, afinal, educamos todos e todas em sexualidade, num mundo em grandes e rápidas mudanças, que já não podemos ignorar.

Referências bibliográficas © freepik

as novas formas de socialização e sobre as mais variadas formas de intimidade. A educação sexual deve ser, por isto, uma aposta nesta faixa etária que representa já a maior fatia da nossa sociedade. Com o surgimento de tecnologias altamente diversificadas, outras oportunidades e outros riscos surgem. É importante que nos preparemos para apoiar, para esclarecer e para intervir também nas novas configurações relacionais, tendo sempre em conta a diversidade sexual existente. A homossexualidade nas pessoas mais velhas é ainda tabu mas, ao mesmo tempo, constitui uma realidade que não podemos ignorar. A orientação sexual LGBT tem vindo a tornar-se mais visível no espaço público, mas persistem as consequências na forma

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“A sexualidade não pode, portanto, ser entendida de maneira simplista, pois provêm-se de carinho, de proximidade, de pequenos gestos que muitas vezes constituem a vivência da intimidade.”

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Intervenção com pessoas em ùP GH YLGD Desafios profissionais na área da Gerontologia Carla Ribeirinho1 e Marisa Galante2 1

Professora e consultora na área do Serviço Social e da Gerontologia Social

2

Mestre em Gerontologia Social e Assistente Social na Associação Coração Amarelo

“É nas atitudes e crenças perante a morte que o Homem se distingue mais nitidamente dos outros seres vivos, é aí mesmo que ele exprime o que a vida tem de mais fundamental” (Morin, 1970, p.25)

Fenómeno natural, inexorável a todos os seres humanos, a morte é ainda considerada em muitas esferas, um tema tabu. A conceção social da morte é resultado de um processo histórico, marcado por diferentes dinâmicas sociais e culturais, as quais envolvem dimensões existenciais, subjetivas e espirituais. A finitude da vida é inerente à nossa condição humana e embora a morte possa ocorrer em qualquer fase do ciclo da vida, por razões óbvias, os profissionais que trabalham na área da Gerontologia convivem com esta realidade quotidianamente em vários contextos. Quer trabalhem em contextos específicos de saúde (p.ex. hospitais), quer em instituições sociais (p.ex. ERPIS, Centros de Dia, Serviços de Apoio Domiciliário, entre outros), a morte é considerada um desafio para os que cuidam e exige competências para lidar com os vários processos e dinâmicas envolvidas. O impacto emocional do fim da vida pode ser muito intenso, quer para a pessoa que

morre, quer para as suas famílias, cuidadores e profissionais que com eles trabalham, gerando, não raras vezes, sobrecarga emocional. A nossa experiência de trabalho, de investigação e de formação nesta área tem-nos permitido inferir que existe uma significativa deficiência na formação dos profissionais que lidam com pessoas em fim de vida, com a morte e com o luto. Esta lacuna verifica-se não apenas nos profissionais da intervenção direta da prestação de cuidados, mas também nos curricula de vários profissionais que intervêm na área da Gerontologia. Constatase, desta forma, uma preparação insuficiente para lidar com a experiência humana da morte, com consequências diversas como sofrimento psíquico, depressão, stresse, angústia, síndrome de burnout, entre outros (Hayasida et al 2014)1. 1

Hayasida et al (2014) constataram que as repercussões da ausência da temática do processo de morrer e da morte na formação dos profissionais foram abordadas em diferentes publicações nos últimos anos, desiganadmente por: Dell’acqua et al., 2013; Kovács, 2008; Lima & Buys, 2008; Oliveira, Amaral, Viegas, & Rodrigues, 2013; Percival & Johnson, 2013; Pinho & Barbosa, 2008; Rodrigues & Labate, 2012; Takahashi et al., 2008.

Numa análise das razões pelas quais esta preparação é tão escassa, identificamos várias razões, tais como as histórico-culturais, mas a principal parece advir do evitamento em relação à reflexão, à educação e à formação sobre este tema (Hayasida et al 2014). Oliveira et al (2013) sustentam que essa fuga do tema da morte e da finitude caracteriza uma tendência social a fugir da velhice (e de temas com ela relacionados), colocando os profissionais que trabalham com pessoas idosas numa situação ainda mais complexa. É neste sentido que advogamos a necessidade de uma preparação específica bem como a existência de espaços e tempos adequados para a partilha dos sentimentos ou preocupações dos profissionais em relação a estes assuntos. Cuidar envolve esforço mental, físico e psicológico e emocional e prestar cuidados à pessoa idosa, transforma-se, frequentemente, numa tarefa difícil e complexa, podendo gerar sentimentos de angústia, insegurança e desânimo (Ribeirinho, 2016). Quando aos cuidados se junta esta complexidade da consciência da finitude, implica que além de saber lidar com a situação da pessoa cuidada, o profissional tenha de conviver com a subjetividade associada a este tema. Com frequência o profissional da área da Gerontologia na relação com a pessoa idosa confronta-se com questões relacionadas com o sentido da vida. Na maioria das vezes o silêncio surge como a resposta que não se consegue verbalizar, acabando por se responder desvalorizando esse sentir, por não saber como agir. Quando uma pessoa está em sofrimento, quando expressa vontade de morrer, verbaliza ideação suicida, rejeita tratamento de saúde, nega apoio médico, pede para que ninguém saiba ou outra situação de desesperança de viver, ou simplesmente quando sofre de uma doença terminal, que impacto tudo isto pode causar no profissional? Como definir o seu papel neste contexto, tendo em conta a vontade expressa pela pessoa? Quais os dilemas éticos com que o profissional se confronta? E qual a representação social e a imagem que concebe sobre as questões de fim de vida? Apresentamos de seguida três casos para ajudarem à nossa reflexão:


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Caso 1

Caso 2

Existem questões para as quais o silêncio pode ser a resposta mais difícil Casal de idosos, casamento de mais de 60 anos. Sem filhos e sem relações próximas familiares. Uma vida a viver num bairro típico da cidade onde existem muitos rostos conhecidos do “bom dia”, “como está?”. Porta adentro, a solidão. Carência económica e dificuldade em manter o quadro socioeconómico que outrora viviam. Medicamentos e médicos saqueiam a reforma. Um sempre a estimular o outro. Um a puxar mais o outro, o outro mais introspetivo, deprimido e depressivo. O primeiro com diagnóstico de demência. O segundo com patologia psiquiátrica. Cabisbaixo, revela angústia, frustração, sentimento de inutilidade, caminho para o pensamento suicida, fim da dor, do sofrimento. Incapacidade de adaptação à vida do agora. Negação da dependência. Um acumular de perdas, ao longo da vida, muitas. Estatuto social. Utilidade laboral. Poder económico. Intelectualidade. Funcionalidade. Imagem. Ideação suicida demonstrada pelas palavras, pelo rosto, pelo silêncio, pelas lágrimas. A culpa que um sente de não ser capaz de ajudar o outro. A vergonha do outro do querer desistir. O que estou cá a fazer? O que estamos cá a fazer? Não temos ninguém que olhe por nós - pensamento verbalizado repetidamente. Olhar de sentir, de tocar, emoções e afetos. Não o olhar de cuidar, alimentar, sobreviver. Olhar de dignidade, de valorização pessoal, familiar e social. (Relato de uma assistente social)

Enquanto a morte não chega... Gomes diz que é um lobo solitário e prefere estar sozinho com os seus pensamentos. Não me atrevo a perguntar-lhe como ocupa os silêncios, mas consigo ler-lhe nos olhos a desesperança de viver. Depois da tentativa de lhe demonstrar as várias faces da vida e da oportunidade única de estar vivo, lá acaba a encolher os ombros e imagino-o a dizer para si “a menina sabe lá o que diz!”. Com quase 94 anos continua a fazer o que mais gosta, estar entre os seus livros e não se intimida com o número de páginas do livro nem com o tamanho da letra. Do jornal gosta de fazer o sudoku. Acaba por dizer que a cabeça é a única coisa que ainda funciona bem, por isso tem de a manter ativa. A frustração de não conseguir andar como outrora, deixa-o desanimado. Não percebe porque tem tanta dificuldade em andar e não concorda com a fisioterapeuta quando lhe diz que tudo está na cabeça. Fica magoado por não validarem o que sente. Ser independente e voltar à sua casa é o seu maior desejo, porém começa a tomar consciência que o corpo já não responde da mesma forma e é preciso pensar que poderá manter-se no lar. A cada frase, a cada revolta e a palavra morrer surge sempre, como o seu único objetivo, a vontade de partir. E o suspiro que chama pela mãe. Como lhe pedindo para o levar. Vamos então falar do processo de morrer? É o alívio da dor que se procura alcançar? O corpo a fraquejar que se pretende adormecer? O encontro com o desconhecido? Não! É apenas o basta da vida, porque viver muitos anos é cansativo. Diz que não estamos preparados para viver tantos anos.

Estes três casos são apenas exemplificativos das múltiplas interpelações que todos os dias os diversos profissionais que atuam na área da Gerontologia enfrentam. No confronto com este fenómeno difícil e complexo, muitos sentem-se despreparados para lidar com as questões de finitude, tendo frequentemente a visão de que morte é sinónimo de fracasso e impotência (Kovács, 2008; Percival & Johnson, 2013). Não obstante, pensar na morte pode conduzir o profissional à autoreflexão e, não necessariamente, à tristeza ou a uma atitude de evitamento. É neste quadro que defendemos a importância de uma formação sobre o sentido da vida e sobre a finitude e todas as dimensões

associadas a estas questões: psicológicas, filosóficas, antropológicas, culturais, sociais e espirituais. Uma formação que habilite os profissionais nas seguintes áreas: I. Comunicação sobre a morte e o morrer; II. Diferenças culturais na vivência do luto; III. Emoções e sentimentos dos profissionais. Torna-se assim necessária uma preparação das instituições e dos profissionais em relação às questões do fim de vida, como forma de promover o seu bem-estar físico e psíquico, bem como das pessoas que estão a passar por esse processo. Evitar que a pessoas partilhem o que pensam ou o que sentem em relação à morte e ao luto não

Viver cansa! A determinada altura da vida parece que viver já não é suficiente. Já não basta só viver. O corpo que já não acompanha a mente. A intelectualidade que começa a tropeçar nas artroses. A agenda preenchida a dar lugar ao sentimento de vazio. Os próximos que já são poucos. A casa que agora é outra. Morrer surge como a etapa mais próxima, no calendário da vida. (Relato de uma assistente social)

Caso 3 Cuidar de quem vai partir Emília é cuidadora profissional (ajudante de lar) há mais de 20 anos numa ERPI. Partilha que já perdeu a conta às pessoas de quem teve de se despedir. Umas “de repente”, outras num definhar gradual e insidioso, outras no silêncio da noite, na paz do leito. Outras ainda com imenso sofrimento devido a uma doença grave. Todas elas, refere, deixaram a sua marca. Por todas chorou. Não importa se delas cuidou um dia ou uma década. Foram cuidadas pelas suas mãos, com o seu afeto, com a abnegação de quem trabalha nesta área com sentido de missão. Para ela, diz, era “só” um utente. Para alguém foi a mãe, o pai, a avó, alguém que amou e foi amado. Alguém que viveu uma história de amor e/ou de desamor. Um ser humano que tem de ser cuidado com dignidade. Partilha que é a parte mais desgastante do seu trabalho. Que para além de toda a carga física, o desgaste emocional de cuidar de pessoas em fim de vida é muito grande e que ninguém faz ideia “do que vai cá dentro quando alguém parte”. (Relato de uma assistente social)

as fortalece, pelo contrário, pode limitar as oportunidades para lidar de forma adequada e saudável com essas questões (Lima & Buys, 2008).

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Algumas recomendações para a ação Instituições: Elaboração de guia(s) de atuação sobre acompanhamento em fim de vida e apoio no luto; Garantir o acesso a supervisão profissional; Formação na área da intervenção do luto e nas questões relacionadas com o fim de vida (sentimentos/emoções/expressão de sentimentos/abordagem ao outro); Trabalho em equipa multidisciplinar na definição do plano de intervenção individual; Sensibilização social sobre os direitos de autonomia das pessoas idosas; Promoção da participação e respeitar a autonomia da pessoa idosa no processo de intervenção; Prestação de informação completa, compreensível e sistemática às pessoas idosas e seus acompanhantes2; Promover a discussão/reflexão sobre a finitude, a morte e o luto, numa abordagem total do ser humano, nas dimensões emocional, social, espiritual e física (e não apenas nesta última); Articulação com a rede de suporte formal e informal / significativos.

Profissionais: Com a pessoa idosa Informar e facilitar o processo de elaboração de diretiva antecipada de vontade (testamento vital)3; Percecionar e devolver imagens positivas e pontos fortes do trajeto de vida, mas sem negar ou desvalorizar o negativismo (perda de esperança como manifestação mais profunda de sofrimento); Avaliar a existência de dor e sofrimento; angústia (medo, ansiedade, preocupações) e de desconforto (físico e psicológico); Articular com os serviços de saúde para minimizar a dor e o sofrimento perante dor/doença crónica/prolongada; Estimular a expressão livre de sentimentos e emoções e procurar integrá-los no projeto de vida da pessoa (o efeito perturbador dos acontecimentos tem muito a ver com o significado que se lhes atribui); Sinalizar e encaminhar para os serviços com respostas para necessidades específicas (e.g. psicoterapia; SAD; apoio religioso e/ou espiritual); Motivar para a ocupação e sentimento de utilidade dentro da motivação funcional e cognitiva (sentido para a vida; reminiscências); Proporcionar o máximo suporte e apoio; Facilitar a comunicação e as despedidas; Esclarecer as dúvidas e os medos; Disponibilizar-se para realizar desejos e vontades possíveis de concretizar; Respeitar os diferentes cultos ou religiões (respeitar os diferentes rituais; facilitar, se desejo do doente, a presença de um padre ou conselheiro espiritual; fornecer os objetos de importância para o doente, por exemplo cruz, bíblia ou outros). Com os outros utentes, grupo de pares Informar os utentes (próximos) da perda de determinado utente; Gerir as emoções do grupo face à perda. Com o cuidador formal Avaliar a preparação do cuidador para lidar com a morte com o sofrimento; Desenvolver processos de supervisão4 e outros espaços para partilha de vivências, dúvidas e angústias sobre a morte e o morrer; Dar suporte emocional, ajudando o cuidador a gerir as suas emoções; Dar apoio e conforto efetivo nos momentos de morte de um utente; Capacitá-los para o desenvolvimento de uma comunicação empática com as pessoas idosas em fim de vida e com as suas famílias; Potenciar os momentos de reunião de equipa, designadamente a discussão de casos, enquanto espaços e tempos de formação em exercício; Estimular a complementaridade, a coesão, os processos comunicacionais. Com o cuidador informal / pessoas significativas (família/vizinho/amigo/voluntário) Favorecer a expressão de emoções e a comunicação entre os familiares e a pessoa idosa, evitando que se gerem situação de “conspiração do silêncio”, paternalismo, infantilização ou outras que limitem a participação da pessoa idosa nas decisões; Manter um diálogo tranquilizador; Facilitar as expressões de despedida; Não reprimir os sentimentos dos familiares (deixar os familiares exteriorizar os seus sentimentos, p.ex. chorar); Manter uma atitude calma e tranquilizadora; Mostrar disponibilidade; Gerir as emoções do cuidador face à perda; Informar sobre recursos existentes de apoio ao luto (grupos de apoio ao luto, associações, entre outros), bem como as formas de acesso aos mesmos. Consigo próprio Gerir as suas emoções e sentimentos; Procurar apoio profissional se necessário (e.g. psicoterapia, supervisão profissional, apoio espiritual, entre outros); Saber viver na presença da morte - Dos outros. Dos seus. Da sua.


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Notas finais A desmistificação do tema da morte, através do diálogo, debate, reflexão, supervisão e formação, pode ajudar os profissionais a conviver melhor com as pessoas em fim de vida, permitindo aceitar melhor seus próprios limites de intervenção e gerir de forma mais adequada as suas emoções.

Se nada podemos fazer em relação ao inexorável, podemos pelo menos mobilizar os nossos conhecimentos ao serviço não apenas dos que partem, mas também dos que ficam e todos os dias cuidam e que vivenciam muitas vezes sentimentos de dor, perda, saudade, alívio, culpa, solidão, medo, impotência, conflito, angústia e tantos outros.

Sugestões de recursos bibliográficos sobre este tema: Autor

Nome

Ano

Editora

Ana Cláudia Quintana Arantes

A Morte é um dia que vale a pena viver

2019

Oficina do Livro

Anna Novellas

Manual para la atención psicossocial y espiritual a personas com enfermedades avanzadas – Intervención Social

2016

Obra Social de “la Caixa”

Atul Gawande

Ser mortal. Nós, a medicina, e o que importa no final

2015

Lua de papel

Elisabeth Kübler-Ross

Sobre a morte e o morrer

1998

Martins Fontes

Inês de Barros Baptista

Morrer é só não ser visto - Falar do luto de coração aberto

2010

Editorial Planeta

Irvin Yalom

De olhos fixos no sol. Ultrapassar o terror da morte

2016

Saída de emergência

Isabel Galriça Neto (Et al).

A dignidade e o sentido da vida. Uma reflexão sobre a nossa existência

2004

Pergaminho

Javier Gutiérrez et al

Manual para la atención psicossocial y espiritual a personas com enfermedades avanzadas – Intervención psicológica y espiritual

2016

Obra Social de “la Caixa”

João Semedo

Morrer com dignidade

2018

Contraponto Editores

José Rebelo

Desatar o nó do luto

2013

Casa das Letras

Karen Macmillan (Et al).

Como cuidar dos nossos. Um guia prático sobre cuidados em fim de vida.

2005

AMARA/Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian de Lisboa

Marie de Hennezel

A arte de morrer

2000

Editorial Notícias

Marie de Hennezel

Morrer de Olhos Abertos

2006

Casa das Letras

Nídia Salgueiro

Humanitude. Um imperativo do nosso tempo

2014

IGM Portugal – Humanitude .Lda

Victor Cicirelli

Older Adults’ Views on Death

2002

Springer

© freepik

Referências Bibliográficas 1. Goikoetxea, M. & Etxaniz, N. (2013). Atención integral a las personas mayores al final de la vida. Guía de recomendaciones éticas. Gobierno Vasco - Departamento de Empleo y Políticas Sociales. 2. Hayasida, N. et al (2014). Morte e luto: competências dos profissionais. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas 10(2). pp.112-12. 3. Kovács, M. J. (2008). Desenvolvimento da tanatologia: Estudos sobre a morte e o morrer. Paidéia, 18(41), 457-468. 4. Lei n.º 25/2012 de 16 de julho - Regula as diretivas antecipadas de vontade, designadamente sob a forma de testamento vital, e a nomeação de procurador de cuidados de saúde e cria o Registo Nacional do Testamento Vital (RENTEV). 5. Lima, V. R., & Buys, R. (2008). Educação para a morte na formação de profissionais de Saúde. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 60(3),52-63. Morin, E. (1970) L’homme et la mort. Paris: Seuil. 6. Oliveira, P. R., Amaral, J. G., Viegas, S. M. F., & Rodrigues, A. B. (2013). Percepção dos profissionais que atuam numa instituição de longa permanência para idosos sobre a morte e o morrer. Ciência & Saúde Coletiva, 18(9), 2635-2644. 7. Percival, J., & Johnson, M. (2013). End -of-life care in nursing and care homes. Nursing Times, 109(1/2), 20-22. 8. Ribeirinho, C. (2016). Gestão das emoções e afetos no cuidar: a supervisão emocional das equipas de cuidados in Moura, Cláudia (org.), Novas competências para novas exigências no cuidar, Porto, EUedito, pp. 219-234.

2

Veja-se a este propósito a Lei n.º 49/2018 - Cria o regime jurídico do maior acompanhado, eliminando os institutos da interdição e da inabilitação, previstos no Código Civil, aprovado

3

A diretiva antecipada de vontade (DAV) em matéria de cuidados de saúde, designadamente sob a forma de testamento vital (TV), é o documento onde uma pessoa maior de idade

pelo Decreto-Lei n.º 47 344, de 25 de novembro de 1966.

e capaz, que não se encontre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica, pode, por sua iniciativa, inscrever antecipadamente os cuidados de saúde que quer ou que não quer receber em caso de, por alguma razão, se encontrar incapaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente, ou seja, numa situação de quase morte ou de incapacidade física ou mental (Fonte: Lei n.º 25/2012, de 16 de julho). 4

Entendemos este trabalho de supervisão enquanto espaço de renovação no exercício profissional, que se caracteriza por uma reflexão sistemática sobre e na ação profissional. É um espaço para questionar, expressar dúvidas e co-construir soluções no qual o profissional supervisor é responsável por ajudar os profissionais supervisandos a lidar com as tensões relacionadas com o trabalho. Neste sentido, para além do trabalho de supervisão administrativa e educativa mais orientadas para dimensões instrumentais, defendemos uma supervisão de apoio e emocional, a qual enfoque principalmente dimensões expressivas e afetivas (Ribeirinho, 2016).


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2OG&DUH Cuidados geriátricos nos genes

so a soluções clássicas e plataformas tecnológicas. Este programa foi desenvolvido para manter ou reabilitar as capacidades físicas e cognitivas, recorrendo a suportes informáticos validados para baixar os custos da intervenção e aumentar o tempo e a frequência da incidência. O iTERAPY é operado por um profissional qualificado que avalia e desenvolve planos terapêuticos adaptados às necessidades de cada pessoa, recorrendo a um misto de soluções tradicionais, tecnológicas e de interação. Estas terapias podem ser desenvolvidas em ambiente domiciliário, institucional ou em clínica, e têm como característica serem individualizadas e adaptadas a cada pessoa, possibilitando uma monitorização contínua do paciente com relatórios que documentam a evolução das intervenções.

OldCare Mais Perto

A OldCare Famalicão Tel.: +351 919 394 371 famalicao@oldcare.pt www.oldcarefamalicao.pt

clínica OldCare Famalicão é uma unidade de saúde inovadora desenvolvida por uma equipa de profissionais multidisciplinares na área da saúde e envelhecimento. Caracteriza-se como um projeto pioneiro que se tornou numa referência a nível nacional na prestação de cuidados domiciliários, e oferece um conjunto de especialidades e serviços, desenvolvidos por um corpo clínico altamente qualificado, que recorre às técnicas e tecnologias mais recentes na área da saúde. Sediados na cidade de Vila Nova de Famalicão, cidade com forte tradição têxtil, disponibiliza as especialidades de Medicina Interna, Medicina de Clínica Geral, Podologia e Psicologia Clínica, Terapia da fala, Fisioterapia, Cuidados de enfermagem, Nutrição, Medicina Tradicional Chinesa, entre outros. Nascida de uma ideia de negócio criada na Universidade do Minho, por parte da sua mentora Susana Dias, a OldCare Famalicão conta atualmente com uma equipa composta por 20 profissionais e o seu raio de ação estende-se pelos concelhos de Vila Nova de Famalicão, Guimarães, Barcelos e Braga. O trabalho desenvolvido no quotidiano por esta equipa dá especial atenção aos principais fatores relacionados com a manutenção da autonomia, como a atividade física, a perda de mobilidade, as quedas, a obesidade, as intoxicações medicamentosas, a má alimentação, a desidratação, o colesterol elevado, a diabetes, a hipertensão arterial, as demências e a adaptações ao domicílio.

iTERAPY Apostando sempre em tecnologias, programas e serviços diferenciadores no mercado, a OldCare Famalicão desenvolveu o iTERAPY, um programa que tem como principal objetivo o desenvolvimento de terapias de Estimulação Cognitiva e Reabilitação Geriátrica com recur-

A capacitação do cuidador informal para o ato de cuidar é um dos focos da OldCare Famalicão e, como tal, desenvolveram um serviço de saúde preventiva que vai ao encontro das necessidades da população idosa. O Projeto OldCare Mais Perto tem como missão a promoção para a saúde e a capacitação para um envelhecimento bem-sucedido, através de sessões de sensibilização e formação à comunidade e direcionado para a população mais idosa e os seus cuidadores.

Saúde de Proximidade A OldCare apresenta outro novo serviço que proporciona segurança, conforto, e uma equipa de profissionais de saúde que conhece e está próxima do seu paciente para o apoiar, e que presta formação ao cuidador. O Saúde de Proximidade possibilita aliar o cuidado presencial à Teleassistência, Telesaúde e Telecuidado, ou seja, tudo o que é assistência à distância. O Saúde de Proximidade é o serviço de assistência à distância que a OldCare Famalicão disponibiliza e que engloba um conjunto de equipamentos e complementos que permitem a adaptação dos equipamentos à capacidade funcional de cada pessoa.


66 | Informação Técnico-Comercial

Segurança em primeiro OXJDU XPD FDVD ¢ SURYD de quedas A Stannah pode ajudar!

“A falta de segurança é, então, apontada como uma das principais razões que leva os idosos ou pessoas com mobilidade reduzida a abandonarem os seus lares.”

Stannah Tel.: +351 808 918 388 www.stannah.pt

A

expressão “lar, doce lar” parece perder algum sentido quando o último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre quedas comprova que estas são a principal causa de morte acidental dos idosos e acontecem, maioritariamente, em casa. O relatório da OMS relaciona ainda o risco de queda e o aumento da idade. Isto acontece porque à medida que a idade avança, algumas faculdades – visão, equilíbrio, cognição, força muscular, entre outras – ficam comprometidas e, por isso, há maior probabilidade de ocorrer quedas. Das conclusões do estudo evidencia-se também as consequências menos positivas de uma queda nestas idades. A queda pode, por exemplo, provocar fraturas, traumatismos cerebrais e lesões nos músculos e, a longo prazo, trazer resultados mais graves como perda de mobilidade, independência e qualidade de vida. A falta de segurança é, então, apontada como uma das principais razões que leva os idosos ou pessoas com mobilidade reduzida a abandonarem os seus lares. Segundo estes mesmos estudos, a falta de segurança ganha maior força quando se trata de subir e descer as escadas ou de tomar banho. Para a grande maioria dos idosos, subir e descer escadas ou fazer a sua higiene diária traduz-se numa experiência assustadora, pois têm receio de desequilibrar-se e cair. E quem são estes idosos? São os nossos pais, os nossos avós, os nossos familiares de quem queremos cuidar, mas muitas vezes a nossa própria azáfama diária nos afasta da dedicação que pretendíamos ceder. Com os olhos postos nestes dados pouco animadores e como

forma de combater este cenário alarmante, verifica-se cada vez mais um aumento na procura de soluções para eliminar o risco de quedas nas escadas, que são a principal causa de morte nos idosos em acidentes que acontecem em casa.

Como prevenir as quedas nas escadas em casa? A maior parte das casas não foram construídas a pensar no envelhecimento e nas suas fragilidades, nomeadamente na perda progressiva da mobilidade. Vários estudos comprovam que é no conforto do lar, nomeadamente nas escadas de casa, que acidentes graves acontecem, sendo as pessoas com mais de 65 anos as mais afetadas. Nestes casos, começam a desenhar-se duas soluções, para desagrado dos visados: » Vender a casa de tantos anos e mudar para uma casa sem escadas; » Abandonar a casa e ir viver para um lar. No entanto, segundo um estudo realizado pela AARP (Associação Americana que se dedica a pessoas com mais de 50 anos), cerca de 90% das pessoas com mais de


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65 anos desejam ficar na sua própria casa, por tanto tempo quanto possível, e 80% acredita que a sua residência atual é onde vão viver para sempre.

Então o que fazer? A prevenção assume-se como palavra-chave. Existem atualmente equipamentos domésticos que permitem o uso das escadas em segurança e sem riscos de queda. Qualquer equipamento que promova o acesso a todos os andares, sem recurso ao esforço do utilizador, permitirá que os familiares mais idosos se mantenham nas suas casas, com qualidade de vida e bem-estar. Elevadores verticais, elevadores de escadas ou plataformas elevatórias são as soluções mais procuradas. No momento da prevenção, a escolha do equipamento deverá ponderar vários aspetos: » Prefiro que o utilizador vá sentado ou a pé? » No futuro, poderei necessitar de deslocar também uma cadeira de rodas? » Que alterações devo efetuar em casa? Necessito de obras ou licenças? » Tenho de mover portas ou abrir buracos entre os andares? » Quais os custos com manutenção do equipamento? Para quem não pretende obras em casa ou custos avultados, os elevadores de escadas e plataformas elevatórias apresentam-se como a melhor solução: em ambos os casos, os equipamentos são instalados diretamente nos degraus, não carecem de licenciamento camarário ou projetos de estruturas na maioria dos casos.

No caso dos elevadores de escadas, conseguem adaptar-se a quase todas as configurações, através dos mecanismos opcionais (como por exemplo o carril retrátil para desimpedir o acesso a uma porta). Muito seguros, estão munidos com vários sistemas de segurança, desde sensores de paragem automática que evitam a colisão com algum obstáculo nas escadas, cinto de segurança e a rotação automática da cadeira no fim dos cursos. Optando por este equipamento, importa sobretudo escolher um fornecedor com melhores condições de garantia e apoio pósvenda, uma vez que são equipamentos pro-

jetados para durar décadas. E, ao contrário dos elevadores verticais, quase não necessitam de manutenção, podendo assim pouparse de pesados encargos com contratos de manutenção mensais. “Existem várias precauções para evitar a queda nas escadas de casa, como a instalação de corrimões ao longo da escadaria. Com um elevador de escadas, consegue-se promover, além a segurança, o conforto a longo prazo dos seus utilizadores, permitindo-lhes assim cumprir com o sonho de viver na casa de família para ‘sempre’”, afirma André Magalhães, responsável especialistas de mobilidade da Stannah, empresa especializada em soluções de mobilidade para idosos, acrescentado que “as pessoas confiam na segurança deste equipamento de mobilidade e, prova disso, é o crescimento anual na ordem dos 40%, da procura por elevadores de escadas.” Para dar resposta, o responsável adianta que, atualmente, a Stannah é a única marca fabricante de elevadores de escadas presente em Portugal: “conseguimos dar respostas a todas as solicitações e muito mais rapidamente. Os nossos clientes consideram uma mais-valia pois eliminaram-se os custos com intermediários e acelerámos processos de aconselhamento e instalação”. Se as escadas da sua casa representam um desafio diário para si ou para algum familiar seu, poderá aconselhar-se com a Stannah. A empresa dispõe de uma linha de esclarecimento, disponível de segunda a sábado. O serviço de aconselhamento personalizado é gratuito sem qualquer compromisso.


68 | Notícias

Abertas candidaturas para o Prémio de Saúde Pública Francisco George

as pessoas; diminuir o estigma associado à demência; e alterar comportamentos para tornar a sociedade amiga das pessoas com demência. Mais informações no website da campanha em https://amigosnademencia.org

OldCare desenvolve iTERAPY para estimulação cognitiva OldCare Famalicão

Encontram-se abertas e a decorrer até ao dia 31 de outubro as candidaturas ao Prémio de Saúde Pública Francisco George, uma iniciativa do Ministério da Saúde que pretende distinguir trabalhos e estudos de investigação, inéditos e inovadores, em temas de Saúde Pública de relevante interesse e impacto para a defesa da mesma. São apenas admitidos trabalhos e estudos de investigação inéditos, ou seja, todos aqueles que até à data da sua apreciação pelo júri não tenham sido previamente publicados ou premiados em concurso por outra entidade. Mais informações no website do Serviço Nacional de Saúde em www.sns.gov.pt.

Alzheimer Portugal lança campanha Amigos na Demência Associação Alzheimer Portugal Tel.: +351 213 610 460 · Fax: +351 213 610 469 geral@alzheimerportugal.org www.alzheimerportugal.org

A Alzheimer Portugal arrancou com uma nova iniciativa, a Amigos na Demência, que pretende mudar a forma como o nosso país pensa, age e fala sobre a demência. O objetivo geral da campanha Amigos na Demência é aumentar a compreensão sobre as demências no nosso país e convidar os cidadãos (incluindo as entidades públicas, as empresas e as organizações do terceiro setor) a comprometerem-se ativamente na melhoria do dia a dia das pessoas com demência. Com isto pretende-se aumentar o nível de consciencialização sobre a demência em Portugal; ajudar os portugueses a compreenderem como é que a demência afeta

Tel.: +351 919 394 371 famalicao@oldcare.pt · www.oldcarefamalicao.pt

O iTERAPY é um programa desenvolvido pela OldCare Famalicão que tem como principal objetivo o desenvolvimento de terapias de Estimulação Cognitiva e Reabilitação Geriátrica com recurso a soluções clássicas e plataformas tecnológicas. Com o objetivo de manter ou reabilitar as capacidades físicas e cognitivas, recorrendo a suportes informáticos validados para baixar os custos da intervenção e aumentar o tempo e a frequência da incidêcia, como siosLIFE e Cogweb, o iTERAPY é operado por um profissional qualificado que avalia e desenvolve planos terapêuticos adaptados às necessidades de cada pessoa, seja em ambiente domiciliário, institucional ou em clínica.

Durante o evento serão também divulgados os vencedores da 3.ª Edição dos Prémios de Boas Práticas em Envelhecimento Ativo e Saudável da Região Centro, iniciativa da CCDR Centro e do Consórcio Ageing@ Coimbra. As inscrições são gratuitas e estarão abertas a partir do dia 1 de outubro.

Carla Ribeirinho apresenta livro “Supervisão Profissional em Serviço Social”

No passado dia 16 de junho Carla Ribeirinho, autora da revista “Dignus”, apresentou o seu livro “Supervisão Profissional em Serviço Social” numa sessão que decorreu na Praça Amarela da 89.ª Feira do Livro de Lisboa (Parque Eduardo VII – Lisboa) pelas 19h00. Esta sessão contou com intervenções de Júlia Cardoso, Presidente da Associação dos Profissionais de Serviço Social, Maria Irene Carvalho, Professora Associada do ISCSP – Universidade de Lisboa, Isabel de Freitas Vieira, Assistente Social e docente na Universidade Católica Portuguesa.

Social Talks: novo canal da Anges aborda temas do envelhecimento

Coimbra recebe 7.º Congresso em Envelhecimento Ativo e Saudável

Anges – Associação Nacional de Gerontologia Social Tel.: +351 963 406 886 info@anges.pt · www.anges.pt

No próximo dia 20 de novembro a cidade de Coimbra recebe o 7.º Congresso em Envelhecimento Ativo e Saudável. A 7.ª edição deste evento organizado pelo Consórcio Ageing@Coimbra contará com um programa inovador com novos espaços, um vasto leque de convidados e painéis de discussão atuais e relevantes para toda a sociedade.

A Anges – Associação Nacional de Gerontologia Social apresentou recentemente o seu novo canal de divulgação das organizações sociais e dos seus colaboradores. Os episódios deste canal que tem já o primeiro episódio idponível no Facebook da Anges serão da responsabilidade do Professor Ricardo Pocinho, Presidente da Anges que irá percorrer todo o país para falar com


Notícias | 69

aqueles que são tão protagonistas quanto os que têm tempo de antena, que fazem coisas tão interessantes quanto aqueles que brincam aos carnavais com os mais velhos o ano inteiro. Conhecer as organizações, darlhe o valor que merecem e reconhecer a este setor a importância que tem na economia das localidades e do país.

através da plataforma Compra Solidária: https://comprasolidaria.pt/fsjd ou através da Fundação S. João de Deus, por telefone 217 983 400 ou email lisboa@fsjd.pt.

Lenitudes reforçou-se com Oftalmologia e avançou com cirurgias da especialidade Lenitudes - Medical Center & Research

Fundação S. João de Deus lança 12 jogos de estimulação cognitiva

Tel.: +351 227 660 750 geral@lenitudesmedicalcenter.pt www.lenitudesmedicalcenter.pt

Fundação S. João de Deus Tel.: +351 217 983 400 sede@fsjd.pt · www.fsjd.pt

A Fundação S. João de Deus criou e editou 12 jogos de estimulação cognitiva, com o apoio da Fundação EDP Solidária e do BPI Seniores, no âmbito do projeto Academia da Memória, um programa de estimulação cognitiva para pessoas adultas e mais velhas, que tem como missão implementar a estimulação cognitiva como um hábito de vida saudável. Os jogos têm um design mais criativo e mais adaptado à população sénior do que aqueles que se encontram no mercado. Foram pensados para as pessoas mais velhas, podendo e devendo ser, igualmente, utilizados pelos mais novos. A construção dos jogos contou com o apoio técnico multidisciplinar de profissionais (uma socióloga, uma psicóloga, uma gerontóloga e um designer) que nele colocaram o seu profissionalismo e dedicação para que quem os utilize possa usufruir de um jogo simples e estimulante e adaptado ao treino e estímulo de diversas funções cognitivas (desde a atenção, concentração, memória à linguagem, raciocínio e abstração), podendo ser utilizado individualmente ou em grupo, em família, por instituições sociais e consultórios. O valor angariado com a venda dos jogos reverte na totalidade para apoiar o Hospital S. João de Deus, em Montemor-o-Novo, na aquisição de cadeiras de rodas, cadeiras de banho e outros equipamentos de saúde. O valor de cada jogo é 11,90€ + portes de envio e podem ser visualizados e adquiridos

O Lenitudes - Medical Center & Research acrescentou a Oftalmologia ao leque de especialidades da clínica e avançou com cirurgias da especialidade. José Salgado-Borges, docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e coordenador da especialidade nesta Unidade de Saúde e diretor do serviço de Oftalmologia do Hospital São Sebastião (CHEDV) entre 1998 e 2013, será o responsável por esta nova especialidade na clínica. Dotada de equipamentos de última geração, a Lenitudes - Medical Center & Research faz uma abordagem multidisciplinar das patologias.

Estamos preparados para a saúde mental na 3.ª idade?

A Sociedade Portuguesa de Psiquiatria alerta que Portugal não está preparado para a doença mental na 3.ª idade, sobretudo nas demências, e considera que esta área devia ser uma prioridade no SNS. Pedro Varandas, Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental recorda o “problema demográfico” de Portugal, com uma população envelhecida e que terá uma forte carga de doença mental. E avisa que devemos saber responder às questões: “Como cuidar destas pessoas? Com que dinheiro e com

que recursos? Como apoiar as famílias?”. E também será importante definir como vai ser usado o Serviço Nacional de Saúde e de que forma será feita a articulação com a rede de lares existente, que tem de estar preparada para prestar cuidados de qualidade. Pedro Varandas avisa que é necessário sobretudo um “investimento em recursos humanos. Não é uma área que exige grande peso tecnológico. O que exige é organização e implementação”. O psiquiatra recorda que Portugal tem na área maternoinfantil e no combate à toxicodependência dois grandes “exemplos de sucesso, até mundial”, que deviam servir de impulso para tornar a área da saúde mental uma prioridade. Pedro Varandas entende que já chegou o tempo de passar da teoria à prática, deixando apenas de dizer que a saúde mental deve ser uma prioridade e passando efetivamente a tornar a área uma prioridade nacional.

Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento vai ser criado em Coimbra Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Tel.: +351 239 859 900 gabadmin@uc.pt · www.uc.pt

A Universidade de Coimbra vai receber 15 milhões de euros da Comissão Europeia para criar o Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA). O MIA vai ser o primeiro centro de investigação de excelência nesta área no Sul da Europa e vai contar com um investimento total de 50 milhões de euros, estando prevista a construção de um edifício para albergar o instituto no polo III da universidade. Este projeto vai ser realizado em parceria com o Instituto Pedro Nunes, incubadora de Coimbra, a Universidade de Newcastle (Reino Unido) e o Centro Médico Universitário de Groningen (Holanda), sendo que a maioria das atividades e investimento será realizado na região. A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) foi a entidade responsável por promover a candidatura, que teve a liderança científica da Universidade de Coimbra.


70 | Notícias

OldCare aposta na proximidade a idosos e cuidadores OldCare Famalicão Tel.: +351 919 394 371 famalicao@oldcare.pt · www.oldcarefamalicao.pt

A OldCare Famalicão disponibiliza dois serviços que pretendem estreitar o relacionamento e os cuidados com os idosos e os seus cuidadores. O projeto “OldCare Mais Perto” encontra-se direcionado para o cuidador informal e tem como missão a promoção para a saúde e a capacitação para um envelhecimento bem-sucedido, através de sessões de sensibilização e formação à comunidade e direcionado para a população mais idosa e os seus cuidadores. O “Saúde de Proximidade” é outro dos serviços disponibilizados pela clínica e consiste em aliar a Teleassistência, a Telesaúde e o Telecuidado ao cuidado presencial e visitas domiciliárias efetuadas por profissionais da área da saúde.. Este engloba um conjunto de equipamentos e complementos que permitem a adaptação dos equipamentos à capacidade funcional de cada pessoa.

Aprovado Estatuto do Cuidador Informal. PS, BE e PCP chegam a acordo

Foi aprovado pelo Governo a criação de um Estatuto do Cuidador Informal que prevê a possibilidade de os cuidadores que deixam de trabalhar poderem continuar a ter uma carreira contributiva, entre outros direitos e deveres das pessoas que cuidam de familiares dependentes. O Bloco de Esquerda, PS e PCP chegaram a acordo para a criação do Estatuto do Cuidador Informal. Esta medida pretende responder às necessidades dos cuidadores

das 230 mil a 240 mil pessoas cuidadas em situação de dependência. Algumas das medidas contempladas passam por: quem recebe o apoio social do cuidador paga menos para a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados quando recorre ao descanso do cuidador; alteração da fórmula de cálculo da comparticipação paga pelas famílias, que atualmente pode ir até aos 30 euros/dia; descanso do cuidador com a possibilidade de ser feito em casa com apoio domiciliário e não só em internamento em instituições; continuidade da carreira contributiva; o acompanhamento, fiscalização e avaliação do cumprimento das medidas das respetivas áreas de intervenção cabe ao Instituto da Segurança Social e aos serviços de saúde. O Estatuto de Cuidador Informal prevê igualmente a criação da figura do cuidador informal “principal” e a do “não principal”. O cuidador “principal” será o “cônjuge ou unido de facto, parente ou afim até ao 4.º grau da linha reta ou da linha colateral da pessoa cuidada, que acompanha e cuida desta de forma permanente e que com ela vive em comunhão de habitação, não auferindo remuneração de atividade profissional ou pelos cuidados que presta à pessoa cuidada”. O cuidador “não principal” é o que cuida de forma regular, e não permanente, podendo neste caso auferir ou não remuneração de atividade profissional ou pelos cuidados que presta à pessoa cuidada.

Jogo de tabuleiro “Dar Voz aos Cuidadores” Lusodidacta Tel.: +351 219 839 840 www.lusodidacta.pt jogodarvozaoscuidadores@gmail.com

A Lusodidacta apresentou no dia 28 de junho, o jogo de tabuleiro colaborativo para cuidadores familiares “Dar Voz aos Cuidadores”, durante o Ciclo de Debates de Verão da APER com o tema “Curiosidades em enfermagem de reabilitação”. A criação deste jogo resulta da experiência das autoras Carla Sílvia Fernandes, Margareth Angelo e Maria Manuel Martins em

trabalhar com famílias e cuidadores familiares ao longo das últimas décadas. Um dos objetivos principais deste jogo de tabuleiro passa por ajudar a promover a construção de uma nova história nas famílias com cuidadores. “E porquê um Jogo? Porque permite falar de coisas sérias... jogando!”, afirmam as autoras. “Acreditamos que a utilização dos jogos ainda é pouco aplicada como meio de comunicação numa perspetiva sistémica, facilitando a construção de novas narrativas, criadas dentro de um contexto propício de envolvimento que só o jogo permite”.

Lenitudes debateu abordagem multidisciplinar das doenças degenerativas Lenitudes - Medical Center & Research Tel.: +351 227 660 750 geral@lenitudesmedicalcenter.pt www.lenitudesmedicalcenter.pt

Alinhado com a estratégia global para a área de formação e desenvolvimento médico, o Lenitudes - Medical Center & Research em Santa Maria da Feira recebeu um evento com o mote “Abordagem da Doença de Alzheimer em 2020” que visou uma abordagem multidisciplinar das doenças degenerativas. O encontro decorreu sobre a orientação do José Salgado-Borges (coordenador do serviço de Oftalmologia do Lenitudes - Medical Center & Research), Vítor Tedim Cruz (diretor do serviço de Neurologia da ULSMatosinhos), Ana Castro (oncologista e diretora clínica da Lenitudes) e Fernando Costa (oncologista de radiação da Lenitudes). Esta sessão cientifica contou com uma Conferência apresentada pela Elena Salobrar Garcia Martin (Universidade Complutense de Madrid) sobre o tema: “Estudio de la función visual y estructura de la retina en el diagnóstico procoz y seguimiento de la Enfermedad de Alzheimer”. O encontro contou com a presença de cerca de 40 médicos especialistas que puderam visitar as instalações e garantir o sucesso deste evento.


Atividades | 71

1

Socióloga, 2Psicóloga, Fundação São João de Deus

Sandra Silva1 e Catarina Oliveira2

ADIVINHA

RECONHECE

O que é o que é que se descreve assim: ando para trás e para a frente, quase sempre a passar, muitas vezes com o rabo quente, mas nada quero queimar. Quem sou eu?

Assinale os quadros que contenham 3 letras contínuas do abecedário, mesmo que estejam desordenadas.

Resposta

ENCONTRA

c b d

h i g

x z v

f i h

n o p

p r q

e g f

d g e

s l r

o r p

m l o

a d c

f g e

s t r

o n m

f f

Ao lado está este símbolo repetido várias vezes. Sempre que encontrar um símbolo diferente deste faça um círculo à volta desse símbolo.

MEMORIZA No quadro 1 estão representadas as listas de compras de três vizinhos. Memorize a lista de compras de cada um deles. Tape o quadro 1. Escreva os alimentos em falta em cada lista de compras no quadro 2, sem voltar a olhar para o quadro 1.

QUADRO 1

QUADRO 2

Deolinda

Joana

Pedro

Deolinda

Farinha

Alface

Bananas

Farinha

Maçãs

Arroz

Carapaus

Laranjas

Queijo

Manteiga

Fiambre

Beterraba

Vinho tinto

Joana

Pedro

Bananas

Arroz

Laranjas

Queijo

Vinho tinto


72 | Bibliografia

Demência. E Agora? Um guia para cuidar com sentido(s) em instituições

PVP: 12,70 € Preço Lusodidacta:

11,45 € Autores: Daniela Figueiredo, Alda Marques Ana Luísa Barbosa Editora: Lusodidacta Número de páginas: 116 Ano de edição: 2016 ISBN: 9789898075659

Este manual intitulado “Demência. E Agora? Um guia para cuidar com sentido(s) em instituições” foi elaborado com base num programa de formação para ajudantes de ação direta, que trabalha em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, onde cuidam de pessoas com demência moderada a severa. Contudo, este manual pode ser útil a todos os que, por alguma razão, lidam com pessoas com demência: profissionais e Cuidadores Formais e Informais. Ou mesmo para quem queira, apenas, saber mais sobre este tema. A utilidade deste manual para uma diversidade de públicos decorre de abordar os principais temas associados à demência: o que é; como comunicar com pessoas com demência; como gerir os seus comuns comportamentos desafiantes; e o uso quotidiano e rotineiro da estimulação multissensorial e motora. Aprender a viver e a gerir a demência é um desafio! Este manual vai ajudar! Inspire-se!

Idioma: Português

Ativ(idades) com pessoas idosas Uma perspectiva interdisciplinar de cuidados e boas práticas

PVP: 12,00 € Preço Lusodidacta:

10,80 € Autores: Maria Miguel Barbosa e Ricardo Pocinho

O presente livro surge como uma resposta à necessidade de encontrar de forma integrada, contributos de diferentes áreas do cuidado e tem como objetivo maior a promoção do envelhecimento bem-sucedido e ativo das pessoas idosas. Permitirá ao leitor compreender o papel de cada profissão e qual o contributo desta na qualidade de vida dos idosos, e em particular como cada profissão pode sugerir cuidados e boas práticas que potenciem os processos de planificação, implementação e avaliação de atividades de (e com) qualidade, que permitam a pessoa idosa vivenciar um envelhecimento positivo e feliz.

Editora: Anges Distribuição: Lusodidacta Ano de edição: 2019 ISBN: 9789895445219 Idioma: Português

Animada(Mente) - Estimular através do Jogo

PVP: 12,00 € Preço Lusodidacta:

10,80 € Autores: Bruno Trindade, Pedro Carrana e Ricardo Pocinho Editora: Anges Distribuição: Lusodidacta Ano de edição: 2019 ISBN: 9789895445219 Idioma: Português

O livro Animada(Mente) - Estimular através do Jogo, é constituído por saberes, tradições, por conhecimento teórico e prático de profissionais que integram diariamente com a população idosa. Este livro está organizado em 3 capítulos, todos eles com apresentação de jogos dinâmicos que possibilitam a estimulação humana agrupada em 3 grandes áreas: Jogos físicos/motores; Jogos cognitivos; Jogos pedagógicos/didáticos.


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DIGNUS nº2 by cie - Issuu