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Dignus nº2

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Sumário | 1

NESTA EDIÇÃO A Hidratação no Idoso

DOSSIER PERTURBAÇÕES COGNITIVAS E ENVELHECIMENTO

Sexualidade e envelhecimento

P.14

P.16

P.58

NUTRIÇÃO

ÍNDICE 02 Editorial Perturbações cognitivas: o Estado da Arte 03 Nota Introdutória Um desafio editorial nas áreas de Geriatria e Gerontologia 04 Espaço ERPIS O papel do Centro de Dia na ocupação dos utentes: Boas práticas (2.ª Parte) 07 Espaço Associação Coração Amarelo D. Amélia e o envelhecimento ativo 08 Espaço RUTIS “Walking football” 09 A Voz de 09 A importância da formação na sustentabilidade das organizações sociais e adequabilidade às necessidades da sociedade 12 Cuidadores Formais 14 Nutrição A hidratação no idoso 16 Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento 16 O que é a Demência? 18 Demência Vascular 21 Demência de Corpos de Lewy 24 Transtorno neurocognitivo: quais são as implicações? 28 Demências Tratáveis 31 Demência Fronto-Temporal: uma revisão clínica 37 Doença de Alzheimer 39 Demência Alcoólica (Síndrome de Korsakoff)

SEXUALIDADE

40 Case Study Brincoterapia, uma atividade que tem décadas mas está a ser omitida 43 Reportagem 43 Ageing Congress: Coimbra recebeu o maior evento sobre a temática do envelhecimento em Portugal e demência 46 3.º Congresso Nacional do Idoso: o futuro do envelhecimento em debate 48 Entrevista 48 Ruy de Carvalho: “O espírito não tem rugas” 52 Ricardo Pocinho: “Qualquer país que não respeite os mais velhos é um país sem memória” 54 José Salgado-Borges: “A visão é muito importante, mas temos que a integrar com todos os outros sentidos” 56 Mente Ativa Corpo Ativo Brincoterapia, uma atividade que tem décadas mas está a ser omitida 58 Sexualidade Sexualidade e envelhecimento 61 E Depois Intervenção com pessoas em fim de vida: Desafios profissionais na área da Gerontologia 65 Informação Técnico-Comercial 65 OldCare: Cuidados geriátricos nos genes 66 Segurança em primeiro lugar: uma casa à prova de quedas: A Stannah pode ajudar! 68 Notícias 71 Atividades 72 Bibliografia


4 | Espaço ERPIS

2 SDSHO GR Centro de Dia na ocupação dos utentes Boas práticas » 2.ª Parte 1

Mónica Teixeira, 2Ana Soares e 3Catarina Teixeira

1

Diretora de serviços do Centro de Apoio Social

de Vila Nova de Monsarros 2

Equipa técnica do Centro de Apoio Social

de Vila Nova de Monsarros 3

Gerontóloga

© Freepik

Planificação das atividades no Centro de Dia Tendo em conta o supramencionado, por Benet (2002), consideramos pertinente divulgar o nosso contributo, enquanto instituição, e enquanto profissionais, no que diz respeito à dinamização das atividades de ocupação em Centro de Dia. O sucesso na dinamização de atividades, significativas para os utentes, tem por base uma avaliação integral do individuo, através da recolha do maior número de informações relacionadas com o mesmo (passado, presente e aspirações futuras). Devendo ter em consideração fatores como: a idade (funções biológicas e sociais do indivíduo), família, educação, emprego, acontecimentos significativos para a pessoa em particular, interesses, aspirações, capacidades/limitações dos indivíduos, entre outros. Tende a ser fundamental manter um equilíbrio entre as potencialidades e as limitações (inevitáveis no processo de envelhecimento) e que para tal seja possível é necessário desenvolver/promover a aceitação das limitações. O sucesso da aceitação passa por, entre outras, potenciar as capacidades dos utentes, de modo a permitir a vivência des-

ta etapa de vida de um modo mais positivo, para o próprio idoso e para os outros que o rodeiam. O objetivo primordial da intervenção no âmbito da ocupação é conseguir proporcionar aos utentes um envelhecimento bem-sucedido, tendo por base o modelo da otimização seletiva com compensação proposto por Baltes e Baltes (1991). Deste modo, para o referido modelo, o envelhecimento bemsucedido baseia-se na seleção de metas, otimização dos meios para atingir essas metas e procura de compensações quando os meios disponíveis para atingir as metas estiverem ausentes. Os autores referem, ainda, que a definição inclusiva de envelhecimento bem-sucedido, com base na interação destes três mecanismos, requer uma análise conjunta de indicadores de natureza objetiva e subjetiva, por meio dos quais seja possível compreender a variabilidade interindividual a todo o momento observada nos idosos, em termos de interesses, valores, saúde, recursos disponíveis, capacidades de realização, entre outros. Para Freund e Baltes (1998), a seleção é considerada como uma orientação para o desenvolvimento, através da definição de objetivos e resultados de-

sejáveis. A otimização quer dizer aquisição, aplicação, coordenação e manutenção de recursos internos e externos envolvidos no alcance de níveis mais altos de funcionamento. Pode ser realizada mediante a educação, a prática e o suporte social dirigidos à cognição, à saúde, à capacidade atlética e às habilidades artísticas e sociais. Já a compensação envolve a adoção de alternativas para manter o funcionamento como sejam: o uso de aparelhos auditivos, uso cadeira de rodas, a utilização de pistas visuais para compensar problemas de orientação espacial, entre outros. Em cada caso de envelhecimento bemsucedido, existe uma apropriação criativa, individualizada e socialmente apropriada, dos mecanismos de seleção, otimização e compensação por isso, cabe aos técnicos através de ações direcionadas à individualidade de cada utente, o encaminhamento/ incentivo para a sua aplicação. Este modelo tem demonstrado ter efeitos positivos na satisfação com a vida e na qualidade de vida das pessoas idosas (Ouwehand, De Ridder & Bensing, 2007). Ao atingirem estados de crescente vulnerabilidade, as pessoas idosas recorrem a


A Voz de | 9

A importância da formação na VXVWHQWDELOLGDGH GDV organizações sociais H DGHTXDELOLGDGH ¢V necessidades da sociedade 1

1

Ricardo Pocinho, 1Vanessa Póvoa, 1,2Cristóvão Margarido, 1,2Rui Santos e 3Pedro Carrana

Escola Superior de Educação e Ciências Sociais - Politécnico de Leiria, 2Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA) - Politécnico de Leiria, 3ISEC - Politécnico de Coimbra

C

om o atual quadro económico tornou-se perentório para as organizações adquirirem maior visibilidade e procurarem um maior nível de sustentabilidade. Esta é uma necessidade real e sentida nas organizações sociais, e deve-se, entre outras razões, ao acelerado ritmo de desenvolvimento tecnológico e científico, que tem provocado sucessivas reestruturações nas empresas e instituições, encontrando-se este desenvolvimento como pano de fundo na importância da qualificação profissional para o sucesso das organizações. Os anos 80 foram determinantes para uma mudança na abordagem em direção à profissionalização da gestão das Organizações Sem Fins Lucrativos (OSFL), como as organizações sociais. Segundo alguns autores, a dependência dos recursos públicos (em escassez), a competitividade instalada e a evolução dimensional das próprias organizações são apenas alguns fatores que as levaram a procurar as melhorias que justificassem a obtenção de recursos e a própria razão da sua existência (Anheier, 2000; Bernardes, 2008; Cunningham, 2001; 2005). Os recursos humanos, e evidentemente a sua gestão, vive atualmente uma situação desafiante do qual se sublinham as seguintes fontes de preocupação: (a) a existência de competição por trabalhadores qualificados, que constitui uma vantagem competitiva o facto de haver um quadro profissional

competente e alinhado aos valores da organização (Anheier, 2000), os profissionais com reconhecimento e qualidade a nível laboral faz com que se sintam valorizados, mas também tornam-se alvo de interesse por outros setores do mercado de trabalho; (b) a atração e retenção de empregados, uma vez que ao aumentar a concorrência, pressupõe-se a importância basilar de conseguir atrair mas também reter os bons profissionais; (c) o desenvolvimento de competências adicionais, isto é, os requisitos de competências tem aumentado, o que exige a melhoria contínua dos trabalhadores neste âmbito (o que também envolve a motivação, por exemplo); (d) existência de financiamento para formação, não obstante o reconhecimento da necessidade do desenvolvimento das competências dos recursos humanos, nem sempre os recursos estão disponíveis (e esta é, em momentos contextuais críticos, uma das áreas mais afetada); (e) segurança no emprego, uma vez que pouca segurança no emprego faz com que os trabalhadores procurem oportunidades em empregadores que lhes proporcionem mais estabilidade, melhores condições de trabalho e de desenvolvimento; (f) oportunidades limitadas de progressão na carreira – a estrutura horizontal destas entidades permite espaço para as chamadas promoções, tornando desafiante oferecer aos trabalhadores as soluções

alternativas que afetem, minimamente, o nível de satisfação com o próprio trabalho. Nas organizações sociais são os seus profissionais que fazem a instituição. Neste sentido, é importante e necessário que os seus dirigentes apostem nas formações destes, de forma a aumentar a qualidade dos serviços e das respostas sociais. Não cabe à instituição apenas a promoção de formação, a instituição tem cada vez mais um papel proeminente na constituição do capital humano e dos seus trabalhadores. Segundo De Sá (2010), a formação dos dirigentes e colaboradores das organizações sociais responde, simultaneamente, a dois aspetos essenciais: um organizacional, uma vez que permite colmatar uma necessidade de melhoramento das condições de produção de bens e de serviços; e outro individual, que diz respeito ao compromisso de desenvolvimento do capital humano assumido. A literatura tem revelado, de facto, que a formação é vista como essencial para a sobrevivência das OSFL, pois é considerada como um ponto-chave para a conquista de eficácia e eficiência no setor (Akingbola, 2006; Almeida, 2011; Cunnigham, 1999; Sousa, 2011). A importância e relevância da formação nas organizações sociais parece estar relacionada com a necessidade provocada pelas constantes mudanças do ambiente, que exigem às organizações capacidade de adaptação, inovação e criação de estratégias para que se tornem competitivas. Neste sentido é crucial garantir o desenvolvimento e a utilização de capacidades de nível elevado (Saunders, 2004). A formação constitui, também, o elemento de ligação entre a motivação intrínseca dos colaboradores e a missão da própria organi-

“A formação na área social é a chave para os profissionais que trabalham nas organizações sociais que dão apoio aos idosos.”


12 | A Voz de

Cuidadores Formais Alexandra Rodrigues

Diretora Técnica do Centro Social Paroquial de Mogos, Carrazeda de Ansiães

“Tudo que existe e vive precisa ser cuidado para continuar a existir. Uma planta, uma criança, um idoso, o planeta terra. Tudo o que vive precisa ser alimentado. Assim, o cuidado, a essência da vida humana, precisa ser continuamente alimentada. O cuidado vive do amor, da ternura, do carinho, da convivência e da formação.” (Boff, 1999)

Há 12 anos a gerir uma equipa de 26 Cuidadores Formais, considero que tenho mais do que experiência para falar deste tema, que carece de um acrescido interesse devido à importância dos cuidados às pessoas idosas, que principalmente no final de última década foram transferidos para as instituições. Antigamente as famílias cuidavam dos mais velhos, atualmente e devido a múltiplos fatores conhecidos por todos, como seja emancipação do papel da mulher, a sua profissionalização, alteração da estrutura familiar, exigência dos cuidados aos idosos decorrentes das “novas” doenças que foram surgindo, e acima de tudo a necessidade dos cuidados serem prestados por profissionais especializados, com saber, essencialmente sobre o envelhecimento e tudo que está relacionado com o mesmo. Nas Instituições Particulares de Solidariedade Social que conheço e no meu ponto de vista, de nada vale uma direção empenhada, uma Diretora Técnica cheia de saber, quando a equipa de Cuidadores Formais não funciona, está desalinhada, não conhece a missão, visão, valores, quando não tem um perfil de intervenção gerontológico. Os Cuidadores Formais estão na primeira linha. Na primeira linha de intervenção com os utentes quando lhe fazem uma higiene, quando os alimentam, quando os posicionam, quando lhes fazem uma transferência, quando os levam a uma consulta, a passear, quando atendem um telefonema a um fami-

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liar, quando reportam uma situação à enfermeira, à Diretora Técnica, à direção. Os Cuidadores Formais são o ponto essencial da intervenção gerontológica nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas. E, tal como referi, estes cuidadores devem cumprir um perfil, elencado por uma série de caraterísticas que os permitam conseguir intervir: » Compreender o envelhecimento: formação intensiva sobre o funcionamento da área em que o cuidador intervém, como sejam as ERPI (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, CD (Centros de Dia) e SAD (Serviço de Apoio Domiciliário). A maioria dos/as cuidadores/as desconhece qual o seu papel e a missão e valores destas respostas sociais. » Nível de escolaridade: um/a cuidador/a com escolaridade poderá ser um fator positivo no melhor executar das tarefas, ou seja, auxílio na toma da medicação, acompanhamento do/a idoso/a a consultas médicas, capacidade para compreender e transmitir orientações médicas, entre outros. » Ter formação na área do Trabalho Social e Orientação, bem como especia-

lizar- se em Agente de Geriatria, para que possa criar uma relação de atenção, respeito, cuidado e satisfação com os/as idosos/as. No entanto, ainda há muitas instituições no país que contratam estas pessoas, sem escolaridade, e sem formação, somente porque fica mais barato contratualizar um Contrato Emprego Inserção (os conhecidos CEI, que nem sequer podem contar para o quadro do pessoal, segundo as orientações da Segurança Social), por conhecimentos, dívida de favores, por serem familiares ou conhecidos, o que acarreta na realidade muitos problemas, uma vez que estes depois não são capazes de responder às necessidades das famílias e dos/as idosos/as. Não sabem transmitir uma informação, registar uma ocorrência, guardar sigilo (muitas vezes nem sabem o que a palavra significa), entre outras situações muito graves. » Paralelamente a maioria das instituições de Portugal, segundo dados da CNIS (2016) não tem implementado o sistema de avaliação de desempenho. Os colaboradores não sabem onde estão e para onde querem/devem ir, ao nível de objeti-


14 | Nutrição

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$ KLGUDWD©¥R no idoso

Assim, é necessário ter em atenção todos estes contributos para a manutenção da hidratação da população sénior. A desidratação é muito comum nos idosos portugueses principalmente em idades superiores a 85 anos (Bernstein, 2012), pelo que é uma realidade a combater. Amiúde os indivíduos desta faixa etária apresentam fatores de risco patológicos, iatrogénicos, sociais bem como ambientais, os quais se conjugam com as alterações fisiológicas próprias do processo de senescência, propiciando assim uma maior suscetibilidade a este distúrbio hidroeletrolítico. Por conseguinte, é de suma importância identificar os fatores de risco e os sinais de que o estado hídrico da pessoa idosa está comprometido. Fatores de risco de desidratação em idosos (Ferry, 2005)

Susana Arranhado Nutricionista e docente na Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria e na Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches

Idade superior a 85 anos Redução da perceção da sede Falta de acesso a bebidas

É

sabido que a alimentação e a nutrição no geronte assumem um papel preponderante, tal como a hidratação, muitas vezes esquecida. A hidratação é um tema tão importante, quanto necessário, com especial relevo no idoso, pois os efeitos deletérios têm particularidades muito próprias e podem manifestar-se de formas distintas, conferindo dificuldade ao diagnóstico da desidratação. À semelhança da generalidade dos mamíferos, a água é um componente fundamental, apresentando o organismo humano um conteúdo em água entre 65 a 70%, que varia consoante a faixa etária, com inferior expressão nos idosos (50 a 55%). Das alterações fisiológicas próprias do envelhecimento fazem parte, entre outras, a diminuição da massa muscular e o aumento da massa gorda. A massa magra contém cerca de 73% de água, enquanto a massa gorda, apenas 10%. Aos 60 anos, cerca de 20% da água ligada à massa muscular perde-se (Ferry & Alix, 2004). Com o envelhecimento, ocorre uma redução de 0,3 L/ano desde a idade adulta até cerca dos 70 anos. É a partir desta idade que essa diminuição é mais acentuada, estando associada à perda de massa magra

Problemas cognitivos

caraterística desta faixa etária. Portanto, o indivíduo idoso vai apresentar uma diminuição da quantidade total de água corporal, associada à perda de massa magra. Deste modo, os idosos são um dos grupos etários mais suscetíveis à desidratação (as crianças e os portadores de patologias como a diabetes também) e pode até referir-se que o idoso é, tendencialmente, desidratado. São inúmeras as funções da água, entre as quais se destacam a regulação da temperatura corporal, a manutenção da pressão arterial pela volémia, constituinte principal do sangue e linfa (atuando como transportador de nutrientes, hormonas e outros compostos), eliminação de resíduos metabólicos através da urina, além de ter uma participação ativa em reações metabólicas e ser essencial para os processos fisiológicos de digestão e absorção, uma vez que é componente dos sucos digestivos. Importa referenciar que o estado hídrico não está apenas dependente da ingestão de líquidos. É, pois, também influenciado pela água presente nos alimentos consumidos e, em menor parte, pela água que provem do metabolismo de oxidação dos alimentos (Instituto de Hidratação e Saúde; Ferreira, 2005).

Problemas de comunicação Problemas de deglutição Falta de apetite Medicação como diuréticos, laxantes e sedativos Patologias agudas como febre, vómitos ou diarreia Viver sozinho Mobilidade reduzida Problemas visuais Falta de atenção e informação dos cuidadores

Pese embora a ausência de definição, entende-se por desidratação, a depleção de água corporal total devida a perdas patológicas de fluidos, à diminuição do consumo diário de água ou a uma combinação destes, e pode ser classificada em desidratação: isotónica, hipertónica e hipotónica. Resumidamente, a desidratação isotónica caraterizase por uma perda equilibrada de água e de sódio, com diminuição do volume do compartimento extracelular e aumento da viscosidade sanguínea, com natural prejuízo para a circulação. Este tipo deve-se principalmente a diarreia e vómitos. A desidratação hipertónica, também denominada hipernatrémica ou intracelular, carateriza-se por uma diminuição excessiva de água e, consequentemente, hiperosmo-


16 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

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O que é a Demência? Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar e Universitário de São João, Porto

Carolina Lopes, Madalena Pinto

Demência é um termo usado para descrever um conjunto de sintomas relacionados com a deterioração das capacidades cognitivas, que incluem frequentemente perda de memória, alterações do humor, problemas de comunicação, dificuldade nas tarefas e problemas de raciocínio. A demência afeta principalmente homens e mulheres com mais de 65 anos, e o risco aumenta com a idade. Mas pessoas mais jovens também a podem desenvolver. Existem alguns casos, mais raros, de demência hereditária, ou seja, transmitida de pais para filhos. Cada doente é único e experimentará os sintomas de demência de modo igualmente único. A família e amigos poderão preocupar-se com os seguintes sintomas, normalmente mais do que o próprio doente: » Perda de memória: normalmente é a memória a curto prazo que é afetada. Por exemplo, o doente pode esquecer-se do que ocorreu mais cedo nesse dia, ou pode não ser capaz de recordar os assuntos das conversas que estavam a ter. Pode tornar- se repetitivo (perguntando a mesma coisa ou contando a mesma

história inúmeras vezes, como se fosse a primeira vez). Normalmente, a memória a longo prazo permanece intacta, e o doente parece “viver no antigamente”; » Concentração, planeamento ou organização: o doente com demência pode, por exemplo, ter dificuldades em tomar decisões, resolver problemas ou lidar com uma sequência de tarefas (como preparar uma refeição); » Alterações do humor: o doente pode sentir-se triste, assustado ou zangado com a sua situação. Pode ter mudanças abruptas de humor sem motivo aparente; » Problemas de comunicação: pode tornar-se difícil encontrar as palavras certas numa conversa ou não conseguir dizer o nome dos objetos, tendo que descrever o que o objeto faz em vez de usar o seu nome; pode também deixar de re-

conhecer objetos, não saber o que são nem para que servem e ter dificuldade de compreensão; » Problemas visuo-espaciais: pode surgir dificuldade em calcular distâncias (como a conduzir um automóvel), em ver objetos em três dimensões ou esquecer-se do caminho para casa; » Orientação: por exemplo, perder a noção dos dias ou das datas, esquecer datas significativas (por exemplo, deixar de saber quando é o Natal) ou confusão com o local onde se encontram, insistindo, por exemplo, que não estão em sua casa quando o estão; » Dificuldade nas tarefas do dia a dia: o doente com demência sente dificuldade em manter a sua rotina diária e as suas atividades autonomamente, necessitando de estímulo constante para as fazer e supervisão ou ajuda. Existem várias doenças e condições que podem causar demência, e os sintomas específicos que cada pessoa vai apresentar vão depender do tipo de demência e, consequentemente, das regiões do cérebro que estão afetadas. As demências mais comuns são: » Doença de Alzheimer ĺ É a causa mais comum de demência. Esta doença altera gradualmente os processos químicos e a estrutura do cérebro, o que conduz à morte das células cerebrais. O primeiro sinal, e o mais óbvio, costuma ser a perda de memória a curto prazo; » Demência Vascular ĺ Esta demência ocorre quando o cérebro não recebe o sangue e oxigénio que necessita. Sem


18 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

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Demência 9DVFXODU

Um estudo da Unidade de Investigação em Epidemiologia do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), apurou que “a principal causa de demência em Portugal estará relacionada com fatores vasculares e não com DA”, ao contrário do que acontece na maior parte dos países da Europa Ocidental [5].

1

Mafalda Barbosa, 2Joel Brás, 3Horácio Firmino

1

Médica Interna de Psiquiatria do Centro Hospitalar de Leiria, 2Médico Interno de Psiquiatria do Centro Hospitalar e 3

Universitário de Coimbra, Coordenador da Gerontopsiquiatria, Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução A Demência Vascular (DV) resulta de diferentes tipos de lesões vasculares do tecido cerebral, conduzindo a um quadro clínico heterogéneo, pautado por alterações cognitivas, motoras e sensitivas focais [1]. Até ao final dos anos 60 (séc. XX), pensava-se que a demência senil se devia a um processo de aterosclerose cerebral [2]. Na década de 90, com a identificação de vários mecanismos vasculares causadores de demência (isquemia crónica da substância branca subcortical, microenfartes), surgiu o conceito de DV [39]. Recentemente, foi proposta a designação “Doença Cognitiva Vascular”, que inclui o Défice Cognitivo Ligeiro Vascular (DCLV), a DV e a Demência Mista (DM) [1]. O DCLV manifesta-se por dificuldades de memória e de concentração sem grande impacto no quotidiano, lentificação psi-

comotora, depressão, lesões vasculares na Ressonância Magnética. Metade dos casos de DCLV progride para demência em 5 anos [1].

Epidemiologia A DV pura corresponde a cerca de 10% de todas as demências, geralmente no contexto de AVC extenso [2][3]. É o tipo mais comum de demência de etiologia não degenerativa [1]. É frequente surgir demência de várias etiologias num mesmo indivíduo, e a expressão clínica de qualquer demência é mais exuberante perante doença vascular comórbida [2]. Dado o envelhecimento populacional, a sua prevalência tem aumentado, é cerca de 9 vezes superior em indivíduos com antecedentes de AVC [1]. A generalidade dos estudos tem utilizado critérios rígidos de DV. Crê-se que a sua taxa de incidência na prática seja superior [2].

Etiopatogenia A DV resulta de lesões vasculares cerebrais isquémicas, hipóxicas ou hemorrágicas, que individualmente ou em associação, conduzem a um quadro demencial [3]. A etiologia mais comum é a isquemia de pequenos vasos. Na DV de grandes vasos, a demência por multienfartes é a mais prevalente [3]. A Tabela 1 resume os tipos de DV e as suas principais caraterísticas clínicas. Na Tabela 2 estão resumidas as principais diferenças entre demência cortical e demência subcortical. Os fatores de risco (FR) são sobreponíveis aos de AVC e podem ser não modificáveis: idade avançada, sexo masculino, raça não caucasiana, baixo peso à nascença, genéticos; ou modificáveis: baixa escolaridade, HTA (FR mais importante para a doença de Binswanger), hipotensão ortostática, insuficiência cardíaca congestiva, cirurgia cardiovascular, fibrilhação auricular e outras arritmias, doença coronária, doença cardíaca embólica, diabetes mellitus, dislipidemia, híper-homocisteinemia, consumo de tabaco e álcool, apneia do sono, e FR de AVC [1][4].


Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento | 21

Demência de Corpos de Lewy 1

Mariana Pinheiro, 2Horácio Firmino

1

Médica Interna de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, 2Coordenador da Gerontopsiquiatria,

Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução

“A

A demência é uma síndrome clínica caracterizada por declínio progressivo do desempenho em um ou mais domínios cognitivos, com subsequente compromisso das atividades da vida diária, na ausência de outras condições físicas ou psiquiátricas que poderiam explicar a apresentação [20]. A Demência de Corpos de Lewy (DCL) é, a seguir à Demência de Alzheimer (DA), a forma mais comum de demência neurodegenerativa, responsável por 2,4 a 5,9% dos diagnósticos [1]. Em 1976, Kenji Kosaka et al [2, 12] descreveram o primeiro caso post-mortem da demência pré-senil como a patologia de corpos de Lewy e introduziram o termo “doença Demência de Corpos de Lewy difusa dos corpos de Lewy” que, mais tar(DCL) é, a seguir à Demência de, passou a ser designada por DCL. A de Alzheimer (DA), a forma integração oficial como entidade nosológimais comum de demência ca isolada nas guidelines clínicas ocorreu neurodegenerativa (...)” em 1996 [13]. A DCL é responsável por aproximadamente 4% da incidência de demências [5], 5% em doentes com mais de 75 anos [4], apesar de ser identificada por biópsia em 36% dos doentes com demência [14,15], sugerindo que muitos casos

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não são diagnosticados clinicamente [19]. A idade de início média é de 75 anos, e afeta ambos os sexos, com pior prognóstico nos homens [8]. A DCL apresenta sobreposição clínica e patológica com a demência da doença de Parkinson (DDP), havendo autores que defendem a existência de um espetro da doença de corpos de Lewy [3, 13]. Um exemplo mediático é o do ator Robin Williams, diagnosticado com doença de Parkinson, com sintomas depressivos, ansiosos e paranóides, no qual foi identificada DCL na autópsia (N1). As principais caraterísticas microscópicas da DCL são as inclusões intracelulares de agregados proteicos de neurofilamentos fosforilados de Į-sinucleína e ubiquitina presentes nos núcleos do tronco cerebral, regiões paralímbicas e neocorticais [8,19]. Acredita-se que estas inclusões tenham na DCL um papel na perda progressiva de estrutura e funções dos neurónios, levando à sua morte [21]. Observam-se também neurites distróficas ou de Lewy na substância negra, hipocampo, núcleo dorsal do vago, núcleo basal de Meynert e córtex transentorrinal [8].


24 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

Transtorno neurocognitivo: quais são as LPSOLFD©·HV" 1

Mafalda Silva e 2José Manuel Silva

1

Professora adjunta na Escola Superior de Saúde Santa Maria e enfermeira especialista em Saúde Mental

2

Presidente do Conselho de Direção da Escola Superior Saúde Santa Maria e da Caregivers Portugal - Associação Portuguesa de Cuidadores

O

envelhecimento populacional tem crescido de forma exponencial nos últimos anos. Verifica-se o aumento da esperança média de vida e da melhoria da qualidade de vida resultante de melhores condições socioeconómicas e dos avanços da medicina que tem contribuído para o progressivo aumento de doenças crónico-degenerativas e incapacitantes com elevados graus de dependência física e mental, entre elas o Transtorno Neurocognitivo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que em todo o mundo existam 47,5 milhões de pessoas com transtorno neurocognitivo, número que pode atingir os 75,6 milhões em 2030 e quase triplicar em 2050 para os 135,5 milhões. O transtorno neurocognitivo devido a Alzheimer assume,

neste âmbito, um lugar de destaque, representando cerca de 60 a 70% de todos os casos de transtorno neurocognitivo (World Health Organization [WHO], 2015). Segundo o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicado em novembro 2017 “Health at a Glance 2017” Portugal é considerado o 4.º país com maior número de casos por cada mil habitantes. Estima-se cerca de 205 mil pessoas com demência em Portugal. A média da OCDE é de 14,8 casos por cada mil habitantes e em Portugal a estimativa é de 19,9. As estimativas apontam para que até 2037 o número de caos subirá para os 322 mil casos. O transtorno neurocognitivo é uma síndrome, que implica deterioração da cog-

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nição, alterações do comportamento e prejuízo funcional (American Psychiatric Association, 2013). A evolução progressiva é fundamental para a estimulação cognitiva com o envolvimento das pessoas afetadas nas atividades de vida diária, de forma a manter as suas capacidades o maior tempo possível. Do ponto de vista clínico, o transtorno neurocognitivo inicia-se por volta dos 65 anos com a presença de estruturas anormais, de placas amilóides, que se acumulam no cérebro de forma progressiva e irreversível, que vai levando à destruição progressiva dos neurónios. A instalação de um quadro inicial insidioso dificulta a perceção dos cuidadores para esta situação clínica atempadamente. De acordo com a literatura são observadas as diferentes fases no transtorno neurocognitivo desde o défice cognitivo ligeiro; a fase ligeira, moderada e grave. Os cuidados prestados devem adaptar-se, necessariamente, a cada uma das fases, sendo fundamental uma avaliação cuidada das necessidades de cada pessoa, de forma a planear e desenvolver intervenções específicas e adequadas a cada caso. É também importante o reforço das capacidades e competências dos familiares e cuidadores que permita adequá-los melhor à sua forma de atuar e reagir a cada situação e manter a qualidade das relações familiares. De acordo


28 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

Demências Tratáveis

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Neste artigo será feita uma revisão das principais causas de demência tratáveis.

Causas medicamentosas A descrição da medicação habitual é essencial na história clínica dos doentes com demência. Há múltiplos fármacos que podem causar disfunção cognitiva, particularmente em idosos que tomem muitos medicamentos (algo muito frequente atualmente). As causas medicamentosas assumem um papel muito importante neste tema. Dada a extensa lista de fármacos existentes não ser compatível com o tamanho deste artigo, pela prevalência de uso, ressaltam-se dois grupos de fármacos:

Médicos Neurologistas do Hospital Pedro Hispano - Uni. Local de Saúde de Matosinhos Luís Ribeiro, Ana Monteiro

Introdução A maioria das demências correspondem a processos neurodegenerativos primários, nos quais existe uma inevitável e progressiva destruição de neurónios. As demências reversíveis, por sua vez, resultam de uma causa secundária que, quando corrigida, poderá levar à restituição da função cognitiva. No entanto, uma demência reversível (tratável) pode tornar-se irreversível se a sua causa não for detetada e corrigida atempadamente. É importante salientar que também os doentes com demência neurodegenerativa primária (p.ex. Doença de Alzheimer) podem ter causas tratáveis a contribuir para a sua disfunção cognitiva, pelo que devem ser procuradas quando suspeitadas e tratadas adequadamente. Alguns sinais clínicos fazem suspeitar de demência reversível: declínio funcional muito acelerado (rápida perda de autonomia para as atividades diárias), grande flutuação cognitiva diária (p.ex.: confusão/desorientação

com intensidade variável ao longo do dia) e evidência de comportamentos de risco conhecidos (p.ex. consumo excessivo de álcool, má nutrição). Mesmo não havendo estes sinais, dado o potencial para tratamento, é obrigatório pesquisar causas reversíveis em todos os doentes em que é feito o diagnóstico clínico de demência. Tabela 1. Causas de demências potencialmente tratáveis. Alterações

Causas

Causas

estruturais

medicamentosas

metabólicas Défice vitamina (B12,

Outras Depressão e ansiedade

Tumor cerebral

Benzodiazepinas

Hematoma subdural

Anticolinérgicos

Hipo/hipertiroidismo

Infeção do sistema nervoso central

Narcóticos

Doença renal crónica

Vasculite do sistema nervoso central

Antidepressivos

Doença hepática

tricíclicos

crónica

Antipsicóticos

Doença de Cushing

Antihistamínicos de

Síndrome de apneia

primeira geração

do sono

Hidrocefalia de Pressão Normal Empiema intracerebral Abcesso intracerebral

B1 e ácido fólico)

Álcool


Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento | 31

© freepik

Demência )URQWR 7HPSRUDO uma revisão clínica 1

Joana Raposo Gomes e 2Horácio Firmino

1

Interna de Especialidade Psiquiatria no Centro Hospitalar Universitário Algarve

2

Coordenador da Gerontopsiquiatria, Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução O termo degeneração frontotemporal, é uma designação neuropatológica usada para identificar um grupo de doenças neurodegenerativas dos lobos frontal e temporal anterior do cérebro, que se traduzem em síndromes clínicos, nomeadamente a Paralesia Supranuclear Progressiva (PSP), Degeneração Corticobasal (DCB) e a Demência Fronto-temporal (DFT), esta, nas suas variantes Comportamental e Afasia Progressiva Primária[1]. A DFT foi primeiramente descrita por Arnold Pick em 1892, daí ser inicialmente conhecida por Demência de Pick. Esta primeira descrição foi baseada num caso com alterações da linguagem (afasia primária progressiva) e atrofia fronto-temporal focal, detetando a existência de neurónios edemaciados (células de Pick), que continham proteínas tau e ubiquitina[2]. Mais tarde, foi

Alois Alzheimer quem a caracterizou histologicamente, reportando a ausência das tranças neurofibrilares e placas senis típicas da DA[3].

Epidemiologia Hoje, considera-se a DFT uma doença neurodegenerativa de início precoce, sendo em termos epidemiológicos a terceira mais frequente, precedida pela DA e pela demência com corpos de Lewy (DCL)[4]. Representa, uma elevada percentagem das demências degenerativas de início precoce/pré-senis (15/22 casos por 100 000 pessoas)[5], sendo este número provavelmente subestimado[6]. A idade de início varia consoante o subtipo, surgindo na maioria das revisões pela 5.ª e 6.ª década de vida, sendo incomum o diagnóstico antes dos 40, onde é mais comum a variante comportamental, na qual são mimetizados quadros psiquiá-

tricos - mais comuns nessa faixa etária, algo que nos faz desde já estar cientes de uma das barreiras ao diagnóstico precoce[7]. A sobrevivência pós-diagnóstico é de 3 a 14 anos, no entanto alguns doentes apresentam uma forma lenta de progressão[8]. A causa de morte depende de cada subtipo e do contexto subjetivo de cada indivíduo, no entanto a insuficiência respiratória, as alterações cardiovasculares e a caquexia têm sido as mais apresentadas. Do grupo das demências, a DFT é aquela em que decorre mais tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico de demência, em média 40 meses (muito superior à DA, cerca de um ano e meio)[9].

Fatores de risco Recentemente os fatores genéticos têm sido os mais debatidos, no entanto, não se devem desconsiderar outros factores que poderão potenciar o risco de demência precoce, como o estilo de vida, as co-morbilidades, o risco cardiovascular e os factores ambientais. Aproximadamente 40% das pessoas com DFT têm história familiar de demência, mas menos de 10% têm um padrão de hereditabilidade autossómico dominante (AD)[10].

Diagnóstico e apresentação clínica Em pessoas mais jovens, o diagnóstico de demência é muitas vezes pouco ponderado no diagnóstico diferencial, o que atrasa ou encobre o diagnóstico de DFT, que comparativamente com os outros tipos de demência é a que mostra uma maior heteroge-


36 | Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento

'RHQ©D GH $O]KHLPHU 1

Joel Brás, 2Mafalda Barbosa, 3Horácio Firmino

1

Médico Interno de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

2

Médica Interna de Psiquiatria do Centro Hospitalar de Leiria

3

Coordenador da Gerontopsiquiatria, Diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria

do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução A Doença de Alzheimer (DA) deve o seu nome ao neuropsiquiatra alemão Alois Alzheimer, que na primeira década do século XX retratou o caso clínico de uma mulher quinquagenária, com uma demência de instalação insidiosa e de agravamento progressivo. Paralelamente, ele descreveu as alterações histológicas típicas em doentes com deterioração cognitiva progressiva.

Epidemiologia A DA é a causa mais corrente de demência, representando cerca de 60% dos casos, em todos os grupos etários. A DA é um processo aging-related. A prevalência duplica a cada 5 anos acima dos 60 anos de idade. No grupo etário dos 60-64 anos, a prevalência estimada é de 0,8%, cerca de 5% acima dos 65 anos, atingindo os 20% em gerontes acima dos 80 anos. Segundo as estatísticas, em Portugal antevê-se que em 2050 o índice de envelhecimento seja de 243 idosos para cada 100 jovens. A doença exibe o mesmo arquétipo de ocorrência da demência em geral, ou seja,

entre os 65 e os 80 anos as taxas de incidência e prevalência variam exponencialmente com a idade. A taxa de prevalência média parece não ostentar grandes variações geográficas. Para além do envelhecimento da nossa população, o país exibe, de entre os países europeus, dos valores mais elevados de baixa escolaridade e profissões indiferenciadas, em particular nas faixas etárias mais idosas, aumentando o risco de DA associada à idade. Afigura-se uma maior prevalência nas mulheres, mesmo após a correção para a idade e educação, não obstante o baixo nível académico se correlacione com uma maior prevalência em ambos os sexos. O tipo de ocupação embora associado à educação, é um maior indicador de risco de vir a desenvolver a doença do que esta última.

Etiopatogenia Exceto raros casos familiares de início precoce (antes dos 60 anos), a etiologia exata da DA permanece incógnita. Naqueles, a causa surge associada a alterações num de 3 ge-

nes: presenilina 1, presenilina 2 e no precursor da proteína ȕ-amiloide. Um fator de risco a nível genético é a apolipoproteína E (APOE), com 3 isoformas: APOE İ2, İ3 e İ4. Todos os indivíduos são portadores homo ou heterozigóticos dessas variantes. Aqueles que possuem o alelo İ4 têm um risco 2 a 8 vezes superior de vir a ter DA. Contudo frise-se que que o genótipo APOE İ4 não é um fator suficiente para vir a desenvolver DA. Já a isoforma APOE İ2 parece conferir proteção na etiopatogenia da DA. É importante deixar claro que não existe uma forma de reiterar se alguém vai ter no futuro DA. Na DA existe uma diminuição significativa dos níveis de acetilcolina (Ach). A nível macroscópico destaca-se uma atrofia cortical e subcortical, com acentuação dos sulcos corticais, incremento do espaço subaracnoideu e dilatação dos ventrículos. Em termos histopatológicos existe um depósito de agregados extracelulares do péptido ȕ-amiloide (placas senis) e tranças neurofibrilhares intraneuronais (constituídas


Dossier sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento | 39

'HP¬QFLD $OFRµOLFD (Síndrome de Korsakoff) Psicólogo clínico

Rui Ribeiro

“A Síndrome de Korsakoff é uma forma particular de lesão cerebral provocada pelo álcool e pode estar relacionada com a Demência Alcóolica.”

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A Demência Alcoólica é, como o próprio nome sugere, uma forma de Demência provocada pelo consumo excessivo de álcool. Afeta a memória, aprendizagem e outras funções mentais. O último grande inquérito nacional feito em 2016/2017 a 12 mil pessoas com idades entre os 15 e 74 anos, já mostrava que cerca de 2,8% da população apresentava padrões de consumo nocivo ou dependência. Se recuarmos a 2012, aumentou a frequência do binge (consumo de 5 ou mais bebidas alcoólicas num único dia ou momento) e houve um agravamento dos consumos de risco ou dependência. Acresce que este padrão global encobre evoluções negativas particularmente preocupantes, como as do grupo feminino e das faixas etárias mais velhas. A Síndrome de Korsakoff é uma forma particular de lesão cerebral provocada pelo álcool e pode estar relacionada com a Demência Alcóolica. É caracterizada por distúrbios cognitivos, incluindo perda de memória de curto prazo e de desorientação espáciotemporal. Esta ocorre quando há défice de

vitamina B1 (tiamina) e afeta principalmente pessoas que consumiram quantidades excessivas de álcool durante vários anos, e atinge mais frequentemente homens com idades entre 45 e 65 anos, embora possa afetar homens e mulheres de qualquer idade, podendo também afetar quem sofre de desnutrição severa. Os sintomas do Síndrome de Korsakoff são variáveis de pessoa para pessoa, mas a perda de memória é encontrada em todos os pacientes. Outros sintomas que podemos encontrar: » Dificuldades na aprendizagem de coisas novas; » Alterações de personalidade; » Fabulação (o paciente pode inventar factos e histórias para compensar a perda de memória); » Falsos reconhecimentos (o paciente está enganado sobre a identidade de algumas pessoas); » Problemas de equilíbrio e da marcha, tremores; » Apatia;

» Perturbação do humor (depressão, ansiedade, euforia); » Comportamentos repetitivos e discursos. Geralmente, as pessoas conservam as competências que aprenderam durante a vida, antes de terem desenvolvido a doença, como por exemplo a linguagem, e por isso normalmente conseguem cuidar-se com o suporte apropriado. O Síndrome de Korsakoff não pode ser curado e o dano cerebral é irreversível. Será impossível para a pessoa recuperar o seu estado anterior. O paciente deverá adotar uma alimentação saudável, abster-se de consumir álcool e tomar suplementos vitamínicos, incluindo vitamina B1. O apoio ao paciente deverá passar pela ajuda especializada de médico, nutricionista e psicólogo. Não sendo uma síndrome que apareça com frequência em contexto institucional, os técnicos devem estar atentos aos sintomas anteriormente descritos, e principalmente ao passado de consumo de álcool do paciente.


40 | Case Study

A importância do farmacêutico QD SRSXOD©¥R geriátrica Marta Almeida Farmacêutica

Introdução A farmácia nos dias de hoje tem ganho destaque pela numerosidade de produtos e serviços à disposição do utente. Contudo, destaca-se cada vez mais por ser muitas vezes a primeira linha de apoio à população, principalmente da população geriátrica. O farmacêutico ganha assim um papel de responsabilidade em vários campos, nomeadamente na atenção prestada a estes utentes. A população em causa apresenta muitas vezes um elevado grau de fragilidade associada também a comorbilidades (existência de doenças em simultâneo)[1][2]. Com o avançar da idade a prevalência de patologias aumenta e como tal, esta população mais envelhecida apresenta uma elevada taxa de uso de terapêutica farmacológica. Um utente polimedicado aumenta o risco de problemas relacionados com medicamentos (PRM), principalmente pelo seu mau uso. Vários estudos demonstram que o farmacêutico tem um papel muito importante na deteção, resolução e prevenção destes PRM[3]. Ao balcão de uma farmácia é muitas vezes percetível a desorientação do utente idoso. A perspicácia e a sensibilidade do profissional devem ser postas em prática no

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seu atendimento. Na maior parte dos casos estes utentes evidenciam sinais, que podem ir de um simples desconhecimento momentâneo da indicação terapêutica de um medicamento recorrente, a um esquecimento total da posologia (dose, frequência e duração do tratamento)[4] por exemplo, que invocam um cuidado redobrado do farmacêutico.

No esquema abaixo estão descritos alguns casos que revelam especial atenção, por ordem crescente do nível de desorientação do utente, sendo importante repetir várias vezes informações pertinentes, certificando-se o profissional que o utente sai sem dúvidas e assim evitando os PRM. Como forma de superar estes casos é muitas vezes repetida a posologia de cada medica-

Figura 1. Gravidade hierarquizada da desorientação de um utente idoso percecionada pelo farmacêutico.


Reportagem | 43

Ageing Congress Coimbra recebeu o maior evento sobre a temática do envelhecimento em Portugal.

texto e fotos por

André Manuel Mendes

Considerado como o maior evento sobre a temática do envelhecimento em Portugal, o Ageing Congress reuniu entre os dias 25 e 28 de maio de 2019 no ISEC – Instituto Superior de Engenharia de Coimbra um conjunto de 35 oradores oriundos de 4 países – Portugal, Espanha, Brasil e Inglaterra – bem como um total de 60 comunicações livres.

Dedicado à temática do envelhecimento e às novas problemáticas transversais que estão envolvidas nesta realidade, o Ageing Congress incluiu o I Encontro Luso-Brasileiro de Educação Social, a I Feira Nacional de Envelhecimento, Saúde e Tecnologias e o II Congresso Internacional sobre Envelhecimento. Durante 4 dias foram cerca de 500 pessoas que passaram pelo Ageing Congress para participar nas atividades, adquirir conhecimentos nas conferências realizadas e ainda fazer networking com outros participantes.

CIESXX, Lisa Valéria Tôrres, docente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e Ricardo Pocinho, Presidente da ANGES – Associação Nacional de Gerontologia Social deram as boas-vindas a todos os participantes deste encontro que se centrou na importância da educação das crianças para o percurso futuro enquanto adulto e idoso. Foi pela voz de João Pedro Gaspar que se deu a conferência de abertura deste encontro e consequentemente a abertura do 1.º painel do dia com a temática “Intervenção em crianças e jovens em risco”. Posteriormente intervieram Filipe Mouzinho Serrote da Santa Casa da Misericórdia de Portalegre com a temática “A importância da vinculação de crianças e jovens em acolhimento residencial, no sucesso da intervenção com intencionalidade reparadora” e Débora Marques da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa com a intervenção “Trauma na infância e implicações futuras”. O 2.º painel da manhã iniciou-se com a intervenção de Vanessa Póvoa da ESECS do IP Leiria que se debruçou sobre o papel dos diretores técnicos nas organizações. De seguida Bibiana Pedrosa do CICS do IP Leiria demonstrou os resultados de uma investigação sobre empregabilidade dos estudantes no setor social. Laura Santos da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC

I Encontro Luso-Brasileiro de Educação Social O Ageing Congress arrancou no dia 25 de maio com o I Encontro Luso-Brasileiro de Educação Social. Mário Velindro, Presidente do ISEC, João Pedro Gaspar, docente da Universidade de Coimbra (UC) e membro do

“Durante 4 dias foram cerca de 500 pessoas que passaram pelo Ageing Congress (...)” Ricardo Pocinho.


46 | Reportagem

13.º Congresso Nacional do Idoso

2 IXWXUR GR HQYHOKHFLPHQWR em debate

texto e fotos por

André Manuel Mendes

Nos dias 27 e 28 de junho de 2019 o Centro de Congressos do Sheraton Porto Hotel acolheu o 13.º Congresso Nacional do Idoso, uma iniciativa anual que reuniu nesta edição perto de um milhar de profissionais para debater as temáticas mais prementes das áreas direcionadas para os setores da Geriatria e Gerontologia. O 13.º Congresso Nacional do Idoso teve como mote “Geriatria 2019 - A idade & o conhecimento aliados no futuro” e foi planeado por forma a integrar no seu programa científico diversas especialidades relacionadas com a assistência ao doente idoso. Esta estratégia de conceção prendeu-se pela necessidade de entender os cuidados médicos na terceira idade de uma forma global, multidisciplinar e envolvendo cuidadores de múltiplas formações. Com um envelhecimento acelerado da população urge procurar respostas efetivas para a área dos cuidados aos mais necessitados e aos mais idosos, sendo indispensável apostar numa formação médica continuada para que os cuidados médicos prestados tenham maior qualidade assistencial. E foi para dar resposta a estes tópicos que se realizou um evento multidisciplinar que reuniu durante 2 dias perto de um milhar de profissionais (representando um aumento

de 10% em relação à edição de 2018), para assistir às apresentações de um vasto leque de especialistas. Na preparação do evento foram ainda recebidas mais de 100 propostas para pósteres de comunicações orais.

Analisar a realidade do envelhecimento “Temos que ter atenção que nos últimos 50 anos houve um aumento de esperança de vida em Portugal de 17 anos, o que quer dizer que temos cada vez mais idosos e que Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo. O número de idosos há 10 anos é superior ao número de jovens, quer dizer que temos uma inversão da pirâmide etária e por isso torna-se indispensável que os cuidados integrados, multidisciplinares e de multiespecialidades para o doente idoso sejam feitos de uma forma cada vez mais eficaz e mais profissional”, sublinhou José Canas da Silva, Reumatologista e Presidente da Comissão Organizadora do 13.º Congresso Nacional do idoso. Em declarações à revista “Temos que respeitar a diversidade do “Dignus” durante o congresenvelhecimentobiológico e compreender so, o especialista lamentou que precisamos de dar mais atenção aos não haver em Portugal esidosos ainda ativos, e ao mesmo tempo truturas definidas à partida propiciar condições de dignidade para para o tratamento destes o final da vida” doentes e, como tal, surgiu a necessidade de motivar, interessar e originar um local onde fosse possível, sobretudo aos médicos mas também a outros profissionais de saúde como psicólogos, enfermeiros ou assistentes sociais, melhorar os seus conhecimentos e aprofundar a sua formação profissional para que os cuidados aos idosos possam ser melhorados.


Entrevista | 49

5X\ GH &DUYDOKR “O espírito não tem rugas” texto e fotos por André Manuel Mendes

Aos 92 anos é o símbolo de uma geração. Acarinhado pelos portugueses, Ruy de Carvalho é um dos atores mais conceituados em Portugal, um verdadeiro sinónimo de arte e cultura que continua viva e persistente. Mas acima de tudo Ruy de Carvalho é pai, avô, bisavô, um homem amado por aqueles que fazem parte da sua vida, e esse tem sido um dos seus pilares. Na jornada da sua vida contou com a companhia e o amor de Ruth. Apesar de já não estar ao seu lado, Ruy de Carvalho acredita que se vai encontrar com ela “lá”. O avô de muitos portugueses continua no ativo e a trabalhar em teatro, novelas, anúncios e com uma agenda sempre preenchida. A revista “Dignus” foi conhecer de perto o ator, aliás, o homem por detrás do ator, e tentar perceber o segredo para um envelhecimento ativo e saudável. Sentados no sofá de sua casa, no meio dos “trabalhos de casa”, de livros e de distinções, Ruy de Carvalho contou-nos sobre a sua vida, o seu trabalho, as suas paixões e do que é preciso para ser feliz: “vivam sempre”.

Dignus: O facto de ter vontade de trabalhar com 92 anos é o elixir para se manter ativo? Ruy de Carvalho (RC): Sobretudo para mim sim, porque para mim é um prazer trabalhar. Não vou desistir de viver, porque a morte é certa, e enquanto a vida andar comigo e me acompanhar eu vou vivendo e trabalhando. Tenho uma memória dentro do possível, decoro com facilidade, ainda conduzo, ando apenas com alguma dificuldade, já não faço o que fazia com tanta facilidade e tenho que ter cuidado com as quedas. Trabalho todos os dias, tenho a televisão, o teatro, e mesmo com os 92 anos ainda me vou aguentando. Eu disse isto uma vez e repito sempre, eu tenho 92 anos por fora mas tenho 28 por dentro. Nunca devemos desistir do nosso espírito, porque o espírito não tem rugas, e como tal temos que nos valer dele. Ainda faço muitas coisas que muitas pessoas mais novas do que eu dizem que já não podem fazer, aliás, não podem ou desistem, mas não podemos desistir de nada na vida.

cas oficinas, há pouco interesse estatal pela cultura e sobretudo pelo teatro. Há imensos teatros fechados atualmente, e o público também tem que ajudar, pois sem público não há espetáculo. Há muitas terras em que os teatros funcionariam se as pessoas os frequentassem, mas essas mesmas pessoas abandonam o teatro, o cinema, e só optam pelo futebol, mas isso é pouco. O que marca e marcará sempre um país é a sua cultura, pois é extremamente importante para todos os povos, tanto quanto o desporto, pois o grande objetivo da vida é uma “mente sã em corpo são”. Mas basta ver qual é o orçamento do Estado para a cultura para vermos que não se faz nada em Portugal.

Dignus: Como são encarados os atores com mais idade dentro da arte da representação? RC: Eu sou muito bem recebido, os jovens gostam muito de mim. Trabalho no Teatro Experimental de Cascais que tem muitos jovens e recebem-me como se eu tivesse a idade deles. Mas infelizmente há muito pou-

Dignus: Qual foi a primeira peça em que entrou há 77 anos quando começou na representação? RC: Foi numa peça portuguesa, de um autor e músico portugueses, Joly Braga Santos e Luiz Francisco Rebello, a peça chamava-se “Jogo para o Natal de Cristo”. Depois disso continuei a fazer diversos trabalhos para o

“Eu disse isto uma vez e repito sempre, eu tenho 92 anos por fora mas tenho 28 por dentro.”

Teatro do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa, peças dirigidas pelo mestre de teatro Ribeirinho. Mas a peça que mais prazer me deu a fazer foi “O Render dos Heróis” de José Cardoso Pires onde representava o povo português. Aqui era cego, mas apenas quando queria [risos]. Dignus: Uma carreira de 77 anos é uma vida. Quais os momentos que mais o marcaram? RC: Foram imensos, não consigo especificar um em particular, mas tenho sobretudo momentos muito marcantes na minha vida particular. Tenho os meus filhos, tive um casamento muito feliz com uma pessoa que me completava e eu a ela, e isso é uma parte muito importante da vida de um artista, é ter em casa um amparo muito grande. Tive momentos muito bonitos na minha vida, e tenho ainda hoje, principalmente quando o público se aproxima de mim, me agradece, são essas as coisas que me tocam profundamente, são sinal que fui verdadeiramente útil na sociedade a que pertenço. Eu sou do país, e se fosse trabalhar lá fora gostaria que fosse sempre como representante do meu país, nunca perderia a minha nacionalidade. Dignus: E compara a sua arte de hoje com aquela que existia há 77 anos? RC: Houve sempre crise na cultura em Portugal. Houve muita gente a dizer que lutava pela cultura, mas isso nunca foi verdade. Só tratam da parte económica do país, que é claro muito importante, mas também é importante ser competente, e pessoas que sabem não são levadas como carneiros, uma pessoa culta não é um carneiro, e por isso a arte é por vezes um inimigo dos Governos, sobretudo nas ditaduras. Dignus: O amor pela leitura sempre o acompanhou. Lê bastante e foi autor e co-autor de diversos livros. Esse mesmo amor é um dos segredos para se manter uma mente ativa numa idade avançada?


52 | Entrevista

5LFDUGR 3RFLQKR “Qualquer país que não respeite os mais velhos é um país sem memória” texto e fotos por André Manuel Mendes

Com o envelhecimento da população a ser uma realidade cada vez mais atual, muito se tem discutido sobre a forma de potenciar a qualidade de vida numa idade mais avançada, quer em termos individualizados como no que respeita a cuidados e serviços prestados a idosos. O Ageing Congress é um verdadeiro exemplo de proatividade na procura de soluções para as problemáticas apresentadas no envelhecimento, colocando em discussão as temáticas mais prementes em torno desta realidade e ouvindo os profissionais mais experientes e qualificados nas suas áreas de intervenção. A revista “Dignus” conversou com Ricardo Filipe da Silva Pocinho, Professor Adjunto da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, Doutorado em Processos de Formação e em Psicogerontologia e Presidente da Anges – Associação Nacional de Gerontologia Social, que nos deu a conhecer todo o trabalho desenvolvido para a promoção de um envelhecimento com qualidade.

Dignus: O que é o Ageing Congress? Ricardo Pocinho (RP): O Ageing Congress, é um evento internacional sobre envelhecimento, que surge antes da fundação da ANGES, ainda que com outras designações, Congresso Internacional de Gerontologia Social entre 2011 a 2013, e Conferência Internacional de Envelhecimento Ativo, 2014 a 2017, hoje assumese como um dos maiores eventos sobre esta importante temática, quer pelo número de pessoas envolvidas, quer pelas instituições parceiras que aumentam a cada nova edição.

Dignus: Qual a pertinência de um evento desta índole em território nacional? RP: Este evento, tem máxima pertinência e relevância, não só porque Portugal é um país extremamente envelhecido mas, e sobretudo, porque não há soluções imediatas para contrariar esta tendência e se vamos ser cada vez mais um país envelhecido, há que discutir, não este facto que é do conhecimento de todos, mas antes formas das pessoas que hoje vivem mais anos manterem a qualidade de vida, sentirem-se integrados na sociedade e com acesso à saúde e às prestações sociais.

Dignus: Como foram selecionadas as temáticas para as apresentações do Ageing Congress? RP: A ANGES, que a cada ano lidera a organização do evento, tem durante todo o ano elevado contacto com organizações sociais, cuidadores, técnicos, empresas que servem o setor, escolas e universidades, quer pelas suas ações de formação, quer pelos eventos em que participa ou mesmo pelas reuniões onde intervêm. É o profundo conhecimento das necessidades que mais contribui para a definição de temáticas, ouvimos todos sobre o que tem utilidade ser discutido. Não agradamos a todos, contudo esgotamos todos os eventos e isso é para nós motivo suficiente para que no encerramento de um Ageing Congress anunciemos o próximo. Dignus: Qual a avaliação que a organização faz do evento? RP: A organização faz uma avaliação extremamente positiva, e o nosso único indicador é a satisfação dos parceiros e de todos os que de alguma forma colaboram. Este é um congresso para os que participam e não para que a Anges tenha algum proveito, fazemos este evento para que dele resulte ciência e propostas de intervenção, para que a vida


54 | Entrevista

-RV« 6DOJDGR %RUJHV “A visão é muito importante, mas temos que a integrar com todos os outros sentidos” texto e fotos por André Manuel Mendes

A visão é um dos sentidos mais importantes do ser humano. Ela dá-nos a perceção da realidade que nos rodeia e, como tal, deve ser cuidada e acompanhada com regularidade. Com o avanço da idade a visão também começa a envelhecer, portanto deverá merecer ainda mais a nossa atenção para se evitarem patologias graves que podem levar a uma cegueira permanente. A revista “Dignus” conversou com José Salgado-Borges, Oftalmologista, Diretor Clínico da Clinsborges, Coordenador dos serviços de Oftalmologia dos Hospitais Privado da Boa Nova e de Dia da Maia e Coordenador da Unidade de Oftalmologia do Lenitudes Medical Center & Research, por forma a compreender a importância e os cuidados que se deve ter com os olhos, principalmente numa idade mais avançada. José Salgado-Borges frequentou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e no final do internato de Oftalmologia viajou para os Estados Unidos para realizar um Fellowship em Chicago durante 2 anos. Como tese do seu Doutoramento abordou a etiologia da degenerescência macular relacionada com a idade, uma patologia que incide sobre o envelhecimento da retina que com a idade promove a alteração de toda a estrutura da retina, sendo que existem diversas causas que levam a essa consequência do envelhecimento dos nossos olhos. Posteriormente abraçou novo projeto no Hospital de São Sebastião em Santa Maria da Feira, onde foi Diretor do serviço de Oftalmologia, durante 15 anos. Ali desenvolveram uma atividade pioneira, uma gestão empresarial diferente na área da saúde e que serviu de exemplo para outros hospitais.

Dignus: Quais as preocupações que devemos ter com a nossa saúde ocular, principalmente quando falamos da população idosa? José Salgado-Borges (JSB): Faz todo o sentido cada vez mais nos preocuparmos não só com as doenças em si, mas fundamentalmente com a prevenção. Cada vez há mais pessoas com mais de 65 anos, cada vez a longevidade é maior, e devemos ter em conta que a nossa retina vai acompanhar o envelhecimento normal que surge no resto do organismo. Tanto o glaucoma, a degenerescência macular relacionada com a idade ou mesmo as alterações oculares na diabetes fazem com que os olhos venham a sofrer de patologias que numa idade inferior não se registavam. Se conseguirmos prevenir situações que sejam tratáveis podemos travar a sua evolução, quer com medicação ou através de cirurgia. Cada vez mais, não só nas pessoas com idade, mas também mais cedo, começam a surgir queixas do olho seco, olhos que picam, ardem, provocam desconforto na visão, sintomas que surgem pelo ambiente que nos rodeia, uso excessivo de computadores, alterações hormonais, entre outros fatores. Uma das formas de controlar esta situação


56 | Mente Ativa Corpo Ativo

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“Brincar” deve desde já ser encarado como uma “terapia”, capaz de ancorar os benefícios de que o ser humano precisa para fortalecer o seu dia a dia. Numa visão holística do ser humano, denotam-se os efeitos devastadores, de se terem abandonado os princípios que, há décadas, nos davam as ferramentas indispensáveis para a construção da socialização e das nossas competências de cidadania. Contudo, quando falamos do brincar, aparece como algo extinto ou em vias de extinção. A essência do brincar, nos dias de hoje, perdeu o reconhecimento e perdeu a essência. Os pais criam, para os seus filhos, “menus” de atividades para compensarem a falta de tempo que deveriam dedicar-lhes. Com a promoção de tão abundante ocupação diária, com agendas exageradamente preenchidas, e com a invasão das novas tecnologias em todas as suas rotinas, as crianças perdem o brincar. Os pais recorrem a todos estes subterfúgios como forma de acalmar os medos e receios que o quotidiano das sociedades modernas lhes causam. Mas no dia a dia das crianças perdem a espontaneidade, a autonomia e a criatividade.

Brincoterapia, uma atividade que tem décadas mas está a ser omitida Crianças + Idosos = a importância do brincar ao longo da vida 1

Bruno Trindade, 2Ricardo Pocinho

1

Phd Student Doutoramento, 2Professor Investigador

Mas o brincar, na sua essência é oferecer tal como nos animais). É nesses momentos atividades lúdicas, permitindo às crianças que ganhamos ferramentas de desenvolvie adultos e pessoas da 3.ª idade desenvol- mento para o nosso futuro e prevenção do verem todas as suas competências e po- envelhecimento. tencialidades, só assim irão conquistar as O brincar é, na atualidade, um elemenhabilidades sociais, afeto essencial e inevitaveltivas, cognitivas e físico “Brincar é a melhor terapia mente neste campo o motoras, bem como a para crianças e adultos” brincar é cada vez mais capacidade de se connecessário para as criancentrarem e darem livre curso à sua imagi- ças, adultos e 3.ª idade, nação mais criativa e desenvolvimento de É nesta aceção que colocamos a necessicompetências. dade de se reintroduzir o brincar no dia a dia A necessidade de brincar é inerente ao das crianças e idosos, como “terapia” para ser humano (na sua essência mais natural, trazer de volta as suas competências mais


58 | Sexualidade

6H[XDOLGDGH H HQYHOKHFLPHQWR Psicóloga Clínica e da Saúde e Sexóloga

Vânia Beliz

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Q

uando falamos de sexualidade associamos, quase sempre, esta palavra a sexo, genitalidade e prática sexual. Associamo-la, também quase sempre, a jovens pessoas adultas e ativas. A sexualidade existe desde que nascemos até que morremos, e ignorar isto é ignorar a nossa natureza sexuada e os nossos direitos. Toda e qualquer pessoa tem o direito de amar, tem o direito de ser amada e de viver a sua intimidade, sem reservas e sem limitações. Assim, ao construímos a nossa sexualidade ao longo da nossa vida modelamos a forma como vivemos e como experimentamos a sexualidade, sempre sob a influência de inúmeros fatores que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), poderão ser biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e/ou espirituais. O aumento da esperança média de vida, pela melhoria dos cuidados médicos e pela disponibilização de vários fármacos para tratamento das principais disfunções, veio lançar a discussão sobre a necessidade e o desejo de manter a intimidade e a vida sexual ativa até uma idade mais tardia. Apesar de a medicina e de o mercado farmacêutico oferecerem boas respostas para a manutenção da resposta sexual durante o processo de envelhecimento, muitos mitos e algum desconhecimento afastam as pessoas mais velhas de uma intimidade gratificante. O mito de que a pessoa idosa é assexuada, de que não é atraente, de que perde o desejo e o prazer, são apenas alguns exemplos que bloqueiam o direito à sexualidade enquanto envelhecemos. Sabemos bem, agora, que o processo de envelhecimento causa inúmeras alterações, e que as mudanças físicas e biológicas precisam ser conhecidas e compreendidas. A falta de informação pode

“Toda e qualquer pessoa tem o direito de amar, tem o direito de ser amada e de viver a sua intimidade, sem reservas e sem limitações.”

fazer com que as pessoas se afastem da intimidade, sem qualquer razão. Existem ainda várias alterações possíveis na resposta sexual decorrentes do envelhecimento e, hoje, temos ao dispor inúmeras estratégias para minimizar e intervir melhorando a qualidade dos relacionamentos. Para as mulheres, a menopausa foi durante muito tempo vista como o “fechar da loja”, levando à perceção do fim da fertilidade, e o desconforto associado à perda de algumas hormonas lançaram muitas mulheres para o fim da prática sexual. Dor, falta de desejo, falta de prazer, podem ser facilmente resolvíveis. Nos homens, as alterações à performance e ao desempenho sexual podem ter consequências graves, de que a depressão e até o suicídio são exemplos, uma vez que acentuam a perda da sua masculinidade. Para compreendermos melhor os obstáculos ao amor na idade madura não podemos deixar de refletir sobre o perfil dos nossos idosos de hoje: a) a maior parte passou a sua infância e juventude num período de grande repressão política, económica e so-


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Intervenção com pessoas em ùP GH YLGD Desafios profissionais na área da Gerontologia Carla Ribeirinho1 e Marisa Galante2 1

Professora e consultora na área do Serviço Social e da Gerontologia Social

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Mestre em Gerontologia Social e Assistente Social na Associação Coração Amarelo

“É nas atitudes e crenças perante a morte que o Homem se distingue mais nitidamente dos outros seres vivos, é aí mesmo que ele exprime o que a vida tem de mais fundamental” (Morin, 1970, p.25)

Fenómeno natural, inexorável a todos os seres humanos, a morte é ainda considerada em muitas esferas, um tema tabu. A conceção social da morte é resultado de um processo histórico, marcado por diferentes dinâmicas sociais e culturais, as quais envolvem dimensões existenciais, subjetivas e espirituais. A finitude da vida é inerente à nossa condição humana e embora a morte possa ocorrer em qualquer fase do ciclo da vida, por razões óbvias, os profissionais que trabalham na área da Gerontologia convivem com esta realidade quotidianamente em vários contextos. Quer trabalhem em contextos específicos de saúde (p.ex. hospitais), quer em instituições sociais (p.ex. ERPIS, Centros de Dia, Serviços de Apoio Domiciliário, entre outros), a morte é considerada um desafio para os que cuidam e exige competências para lidar com os vários processos e dinâmicas envolvidas. O impacto emocional do fim da vida pode ser muito intenso, quer para a pessoa que

morre, quer para as suas famílias, cuidadores e profissionais que com eles trabalham, gerando, não raras vezes, sobrecarga emocional. A nossa experiência de trabalho, de investigação e de formação nesta área tem-nos permitido inferir que existe uma significativa deficiência na formação dos profissionais que lidam com pessoas em fim de vida, com a morte e com o luto. Esta lacuna verifica-se não apenas nos profissionais da intervenção direta da prestação de cuidados, mas também nos curricula de vários profissionais que intervêm na área da Gerontologia. Constatase, desta forma, uma preparação insuficiente para lidar com a experiência humana da morte, com consequências diversas como sofrimento psíquico, depressão, stresse, angústia, síndrome de burnout, entre outros (Hayasida et al 2014)1. 1

Hayasida et al (2014) constataram que as repercussões da ausência da temática do processo de morrer e da morte na formação dos profissionais foram abordadas em diferentes publicações nos últimos anos, desiganadmente por: Dell’acqua et al., 2013; Kovács, 2008; Lima & Buys, 2008; Oliveira, Amaral, Viegas, & Rodrigues, 2013; Percival & Johnson, 2013; Pinho & Barbosa, 2008; Rodrigues & Labate, 2012; Takahashi et al., 2008.

Numa análise das razões pelas quais esta preparação é tão escassa, identificamos várias razões, tais como as histórico-culturais, mas a principal parece advir do evitamento em relação à reflexão, à educação e à formação sobre este tema (Hayasida et al 2014). Oliveira et al (2013) sustentam que essa fuga do tema da morte e da finitude caracteriza uma tendência social a fugir da velhice (e de temas com ela relacionados), colocando os profissionais que trabalham com pessoas idosas numa situação ainda mais complexa. É neste sentido que advogamos a necessidade de uma preparação específica bem como a existência de espaços e tempos adequados para a partilha dos sentimentos ou preocupações dos profissionais em relação a estes assuntos. Cuidar envolve esforço mental, físico e psicológico e emocional e prestar cuidados à pessoa idosa, transforma-se, frequentemente, numa tarefa difícil e complexa, podendo gerar sentimentos de angústia, insegurança e desânimo (Ribeirinho, 2016). Quando aos cuidados se junta esta complexidade da consciência da finitude, implica que além de saber lidar com a situação da pessoa cuidada, o profissional tenha de conviver com a subjetividade associada a este tema. Com frequência o profissional da área da Gerontologia na relação com a pessoa idosa confronta-se com questões relacionadas com o sentido da vida. Na maioria das vezes o silêncio surge como a resposta que não se consegue verbalizar, acabando por se responder desvalorizando esse sentir, por não saber como agir. Quando uma pessoa está em sofrimento, quando expressa vontade de morrer, verbaliza ideação suicida, rejeita tratamento de saúde, nega apoio médico, pede para que ninguém saiba ou outra situação de desesperança de viver, ou simplesmente quando sofre de uma doença terminal, que impacto tudo isto pode causar no profissional? Como definir o seu papel neste contexto, tendo em conta a vontade expressa pela pessoa? Quais os dilemas éticos com que o profissional se confronta? E qual a representação social e a imagem que concebe sobre as questões de fim de vida? Apresentamos de seguida três casos para ajudarem à nossa reflexão:


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