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Meu Conto Encantado: maravilhosa publicação coletiva

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Meu Conto Encantado maravilhosa publicação coletiva

Cia Mafagafos


Meu Conto Encantado

maravilhosa publicação coletiva

Andréa Vieira * Cláudia Pinto Machado * Cláudia Teles * Denise Ferreira * Emanoela Carolina Vogel * Evandro Jair Duarte * Flávia Vieira * Flávia Souza * Gabrielli Cunha Amaral * Gisele Albertini * Jane Vieira da Rocha * Jhenni Quaresma * Joyce Graziele Kwiatkowski * Jucimere Terezinha Lopes * Júlia Prudencio Moreira * Kathia Regina da Silva * Letícia Zaneti * Valéria Silva de Souza * Vanessa Ibrahim Martins de Castro * Yhandê Aguiar

Florianópolis, abril de 2022


Apresentação O conto de fadas, também chamado conto de encantamento ou conto maravilhoso, é um dos gêneros literários mais antigos, presente nas mais variadas culturas, em todos os continentes. Provindas da tradição oral, estas histórias passam por constantes apropriações, adaptações e renovações. Passando para os registros escritos, reelaboradas para as linguagens cinematográfica, audiovisual, cênica ou da canção, os contos, personagens e situações povoam a memória dos adultos e estão presentes na vida das crianças, desde a mais tenra idade. Os vinte contos aqui reunidos foram produzidos na oficina Meu Conto Encantado, ministrada por Sig Schaitel (Cia Mafagafos), durante o mês de março de 2022. Na oficina, as participantes foram desafiadas a criar uma história autoral no gênero conto de fadas, seguindo uma estrutura comum, a partir de exemplos de histórias tradicionais, desenvolvendo suas próprias narrativas através de exercícios criativos. Aqui está o resultado de um percurso, a primeira versão dessas histórias que temos o prazer de compartilhar com vocês.


Índice 1. As aventuras de Pirelli............................................................................ Andréa Vieira 2. A bruxa que fabricava boas lembranças.......................................Cláudia Pinto Machado 3. Semente do amanhecer............................................................................Cláudia Teles 4. Assim nasceu Maricota..........................................................................Denise Ferreira 5. Inácio, o domador de ventania...................................................Manoela Carolina Vogel 6. Reino da Alegria.............................................................................Evandro Jair Duarte 7. No caldeirão de Felipa................................................................................Flávia Vieira 8. O rei da floresta........................................................................................Flávia Souza 9. Frederick Clodovil, a lagartixa monstruosa..................................Gabrielli Cunha Amaral 10. Encantos escondidos: A história de uma bruxa que não usava vassoura....Gisele Albertini 11. As cores de Kianda......................................................................Jane Vieira da Rocha 12. As aventuras de Xito, o calango.........................................................Jhenni Quaresma 13. 14. 15. 16.

A história de Heiko e sua família........................................Joyce Graziele Kwiatkowski O Monstro Roncador............................................................Jucimere Terezinha Lopes Menina das Águas...................................................................Júlia Prudencio Moreira A Boneca e sua jornada em busca da Erva-flor da Vida................Kathia Regina da Silva

17. O Giramonstro.......................................................................................Letícia Zaneti 18. A bruxa Kéka e a montanha Peripê.............................................Valéria Silva de Souza 19. Desventuras de Adeline, a Joaninha Azul..................Vanessa Ibrahim Martins de Castro 20. Uma história do mar que o vento trouxe.................................................Yhandê Aguiar


As aventuras de Pirelli Andréa Vieira


As Aventuras de Pirelli Era uma vez um lindo pneu de carro chamado Pirelli. Ele era novinho e morava na traseira do carro do seu Luiz, um homem bom e muito caprichoso que adorava passar um pretinho nele e em seus quatro irmãos que ficavam no rodado do carro, após lhes dar uma ducha bem demorada. Pirelli sempre estava acompanhado de seus quatro irmãos, que viviam se divertindo em grandes aventuras, enquanto ele ficava escondido na traseira do carro. Certa vez, um dos seus irmãos adoeceu e teve que ficar na oficina do seu Zé, que era responsável por todos os reparos do carro, a quem seu Luiz confiava seu tesouro. Por conta disso, de repente, em um piscar de olhos, tudo mudou na vida de Pirelli. Da traseira do carro, agora lá estava ele no controle da situação, bem na frente junto aos seus três irmãos. Agora, pela primeira vez ele começou a ver a sua vida de uma perspectiva diferente, e rodava com os olhos bem arregalados. Ele estaria assustado ou seria aflito? Bem, a verdade é que tudo era novo para ele. “O que fazer agora?”, perguntou Pirelli enquanto seus irmãos tentavam acalmá-lo. Tudo era novo para Pirelli, e ele sentiu medo, sim, muito medo! Estava tremendo, se sentia inseguro e confuso. “Ah, esses sentimentos não são bons companheiros”, pensou Pirelli. “Mas o que fazer agora? Para onde vou? Em que lugar estou?” Tantas dúvidas pairavam por sua cabeça que ele mal conseguia dar conta do que fazer. Foi quando o mecânico Zé chegou bem pertinho de Pirelli e deu de presente a ele uma nova roupagem, uma tal calota, que o fez sentir como que vestindo uma capa de superherói. Era como se seu Zé entendesse o que se passava na cabeça de Pirelli. Agora Pirelli se sentia importante como os seus irmãos e, com a sua capa de super-herói, estava mais confiante.


Ouviu seu Zé dizer ao seu Luiz que estava tudo pronto, e essas palavras tranquilizaram Pirelli. “Sim estou pronto!”, disse Pirelli. Seu Luiz entrou no carro e deu a partida. Pirelli sentiu como se o seu coração fosse sair pela boca. “Estou suando de nervoso'', pensou ele. Mal percebeu que estava chovendo. Mas isso não incomodou Pirelli, muito pelo contrário. E o medo agora se transformava em coragem, e lá estava ele rodando pela cidade, todo vaidoso com a sua nova roupagem e a posição de destaque, bem na frente! Olhou para os irmãos e entendeu o porquê do barulho que ele ouvia lá da traseira onde ficava. Tinha que haver uma grande conexão e sincronia entre eles. Pela primeira vez Pirelli se sentia fazendo parte daquela família e, enquanto experimentava tal sentimento, aproveitava para curtir a linda paisagem. A chuva havia parado e o vento secado rapidamente seu corpo. Pirelli se sentia livre, parecia voar, enquanto ouvia a música alta que o senhor Luiz colocara. “Tenho até trilha sonora”, pensava Pirelli. Os irmãos riam e se divertiam vendo a alegria estampada no rosto de Pirelli. Era um sentimento novo, ele experimentava essa sensação pela primeira vez. Chegou em casa exausto e feliz após um longo dia de muitas aventuras. Foi quando se deu conta do tamanho da garagem, ela era enorme! Como ele tinha estado sempre na traseira e olhava para a mesma posição, não conseguia ver o espaço no todo. Neste momento lembrou do irmão que havia ficado na oficina para reparos. Franziu a testa de preocupação, e desejou que o irmão estivesse ali com eles e que tivesse participado daquela experiência memorável. Pirelli compreendia que o mundo de cada um é muito maior e mais atraente quando se está no comando, e este aprendizado significou muito para ele. Mas sabia que aquele lugar que agora ocupava no carro tinha que ser entregue em breve, quando o irmão voltasse.


Pirelli não conseguiu dormir naquela noite, pensava estar sonhando. Pela manhã viu que o caminho que o senhor Luiz tomava com o carro era o mesmo do dia anterior, para a oficina do seu Zé. Sabia que o seu reinado estava por terminar, mas isso não o deixava abalado. O que ele mais queria era ter o irmão de volta ao convívio familiar, nem que para isso tivesse que voltar para a traseira do carro, dentro do bagageiro. “Chegamos!”, falaram os três irmãos olhando para Pirelli, que estava feliz, porém angustiado. Todos viram seu Zé trazer o irmão, que estava com muitos curativos. Mas isso não parecia ser um problema, porque eles ficaram escondidos por detrás da calota, a roupa de super-herói. Seu Zé, para espanto de todos, colocou o seu irmão remendado na traseira do carro, no lugar que antes Pirelli ocupava. Pirelli respirou fundo e, mesmo confuso, sem entender direito a situação mas refletindo bem, pensou que talvez neste momento fosse melhor para o irmão ter um lugar para repousar e se recuperar, até que se sentisse melhor. Foi dada a partida novamente e lá estava Pirelli desbravando terras desconhecidas, de uma maneira jamais imaginada por ele. De repente sentiu que os irmãos tentaram segurar o carro, seu Luiz deu uma freada brusca, algo inesperado aconteceu. Pirelli não estava habituado com aquela situação e não conseguiu se segurar. Que tragédia! O seu corpo foi arremessado para longe do carro e, para piorar, a calota desprendeu-se do seu corpo. Agora ele estava afastado, no meio do mato e sem a roupagem que o fazia sentirse um super-herói.


Lá de longe, Pirelli pode ver que várias pessoas se aproximavam do carro para ajudar seu Luiz. Ele estava um pouco agitado, mas estava bem, o que o deixou tranquilo. Viu ainda que seus irmãos se esforçavam muito tentando sustentar o carro, mas estavam exaustos. Foi nesse momento que Pirelli viu que um homem juntou do chão a sua roupa de super herói e vestiu o irmão remendado, que estava na traseira do carro. E vestido de super herói, seu irmão tomou o lugar que Pirelli vinha ocupando, na dianteira do carro. Deitado entre arbustos e espinheiros, Pirelli ainda viu quando seu Luiz embarcou e o carro começou a se afastar, enquanto os irmãos chamavam por ele em desespero. Pirelli estava agora sozinho, perdido em um lugar desconhecido. Novamente sentia-se com medo, mas como ele sabia que o medo não é bom conselheiro, confiou nos seus instintos. “Há de acontecer algo bom!”, disse para si mesmo. Não demorou muito para algo acontecer. Duas crianças, que por alguma razão passavam por ali, encontraram Pirelli e o arrastaram até a casa delas, mostrando com orgulho o achado para o pai. “Coitado, o estrago foi grande”, comentou o homem. Enquanto Pirelli escutava aquele homem desconhecido falar com as crianças, ia se sentindo enfraquecido e foi tomado por uma tristeza enorme. “Estou perdido, longe de minha família, doente e sozinho no mundo”, pensou Pirelli. Mas para sua surpresa as crianças novamente o arrastaram até uma oficina, que por uma feliz coincidência era a oficina do seu Zé. Seu Zé, grande especialista, não teve dúvidas do que era preciso fazer e deu a Pirelli um super curativo vulcanizado. Agora, Pirelli recebeu de uma nova roupagem reforçada, especial e única, o que o fez se sentir forte e capaz de ganhar mundos.


Enquanto Pirelli era colocado na prateleira junto aos outros pneus, ouviu uma voz que lhe parecia familiar. Pois não é que foi surpreendido com a visita do seu Luiz, que vinha buscar um novo estepe para seu carro? Sim, pois o seu havia se perdido na estrada, na batida do carro, explicava seu Luiz a seu Zé. E acreditem! Seu Luiz olhou para a prateleira e logo de cara escolheu Pirelli. Seu Zé disse que Pirelli havia chegado há pouco, que era um herói, por certo tinha vivido grandes aventureiras e que trazia consigo muitas histórias. “E ainda com uma capa especial vulcanizada!”, completou. “Pois é esse mesmo que eu quero”, falou seu Luiz. “Estas cicatrizes só mostram o quanto ele é valente”. Pirelli sentiu o maior orgulho com aquelas palavras. Então ele foi outra vez colocado em sua antiga posição, na traseira do carro, no fundo do bagageiro. E enquanto o carro fazia seu caminho, deslizando pela estrada, ele ouvia com prazer o barulho que os irmãos faziam rodando lá embaixo. Agora Pirelli compreendia o que significava aquele barulho e se sentia realizado. Era grato por todas as aventuras e presentes recebidos durante a jornada. Ele podia dizer, com orgulho, que tinha sido um super herói, com capa e tudo. As cicatrizes estavam ali como prova, e ele se sentia contente. De volta a sua casa, junto de seus irmãos, ele estava completo! E assim, pensando nessas coisas, naquele lugar escuro e aconchegante, Pirelli adormeceu e teve sonhos fabulosos.


Andréa Vieira nasceu na cidade do Rio de Janeiro e mora em Florianópolis. Possui formação em segurança pública e pós-graduada em educação ambiental. Atuou na Polícia Militar de Santa Catarina. Atualmente é coautora do “telasqueconectam”, uma galeria de artes on-line em que pinta e escreve sobre histórias pessoais.

Andréa Vieira

“Vi no curso Meu Conto Encantado a oportunidade de um encontro de interesses afins, onde todos estavam voltados para o encantamento que tem o mundo lúdico. Também foi uma oportunidade de poder fazer parte de um grande laboratório e se colocar perante o seu próprio espelho, exercitando enxergar o outro, com todas as suas dificuldades e olhares. Tudo isso contribuiu para que a jornada fosse leve e prazerosa. Foi ótimo ter alguém como Sig Schaitel, que mostrou o caminho a ser percorrido, compartilhando experiências e conhecimentos, conduzindo o curso com maestria e determinação. O curso acrescentou não só no seu aprendizado, isso por si só bastaria, mas acrescentou ainda mais pelo laço de amizade que se formou e admiração com o responsável e os colegas de curso”.


A bruxa que fabricava boas lembranças Cláudia Pinto Machado


A Bruxa que Fabricava Boas Lembranças Era uma vez uma bruxinha que de tão pequena mal alcançava o tamanho de uma garça. Chamava-se Hortência e começou seu ofício ainda menina, aos 7 anos de idade. Seus primeiros feitiços eram coisas simples, como transformar as cores dos coelhos ou vestir as galinhas e galos para jantares cheios de pompa. Mas o que gostava mesmo era de fabricar boas lembranças para as crianças. Ela se aproximava invisível e assoprava ideias nos ouvidos delas para que quando fossem adultas tivessem boas recordações. - Que tal brincar de minhoca rastejante? Pega um lençol, se enrola e vai andando por aí. E que tal fazer um piquenique com toda a família? E pega-pega? Esconde-esconde? Hortência também adorava descobrir animais diferentes e andar pela mata, pois enquanto caminhava tinha novas ideias para seus futuros feitiços. Numa dessas andanças, com os pensamentos nas alturas, esbarrou sem querer no Senhor Pesadelo, que tinha uma nuvenzinha escura em cima da cabeça e que num acesso de raiva deu mil trovoadas. De supetão, jogou todo seu mau humor para Hortência. A menina ficou furiosa no mesmo momento e nem se deu conta de que o Sr. Pesadelo havia lhe lançado um feitiço. Ele passou bufando, nem pediu desculpas e continuou sua caminhada soltando raios para todos os lados. A bruxinha prosseguiu muito indignada e nenhuma boa ideia passava mais por sua cabeça. Caminhou por vários minutos pela floresta até que chegou num campo aberto onde estava um grupo de crianças jogando bola e pensou: "Vou lançar uma nova magia!"


Sussurrou no ouvido de um menino: - Vamos fazer um pouco de birra? Pega a tua bola e vá embora. O garoto ouviu a ideia, pensou por alguns instantes e disse para si mesmo: - Que mal tem, não é? O menino pegou a bola e foi embora deixando todos os amiguinhos perplexos. Mais adiante, Hortência parou na casa de uma família que estava almoçando e sussurrou para uma menina: - Não coma verduras, pois você vai ficar com cara de couve. A menina deu duas mastigadas e cuspiu a comida no prato. A bruxinha saiu voando toda desajeitada dando mil risadas. Quando chegou em casa passou o resto do dia reclamando das coisas. Mamãe disse: – Garota, que bicho mordeu você? Parece que topou com o bicho papão. Hortência saiu braba para o quintal e voltou a treinar suas mágicas com os animais, mas só deixava a bicharada furiosa. Em um lampejo de ideias se deu conta que estava enfeitiçada. Falou para si mesma: - O Senhor Pesadelo me lançou este feitiço! - e ficou com a cara vermelha de tanta raiva.


Decidiu então ir até a casa da vovó que morava nas proximidades para pedir um conselho. - Vovó, o Senhor Pesadelo me lançou um feitiço que me deixa mau humorada o dia todo. O que devo fazer? - Querida, você deve procurar Dona Curicaca. Ela sabe tudo sobre essas coisas das emoções e do mundo. A Senhora Curicaca era uma ave muito sábia e boa conselheira. A menina voltou para casa, jantou cedo, para evitar ter pesadelos, porque tinha medo deles. Mas mesmo assim teve uma péssima noite de sono. No outro dia, acordou bem cedinho para o café da manhã com seus pais e disse: - Mamãe… Papai… Vou procurar Dona Curicaca. Tenho algumas questões seríssimas a resolver. Colocou sanduíches na sua mochila, algumas frutas, água, uma barra de chocolate e saiu floresta adentro em busca da árvore mais alta onde morava a conselheira. Hortência já tinha explorado um pouco a região, mas nunca tinha se distanciado tanto de sua casa. Seu limite mesmo era um pequeno arroio que cortava a floresta. Ela já havia andado por duas horas quando parou para descansar. Sentou em uma pedra e ficou um pouco desanimada, pois não sabia nadar nem voar muito bem. Ficou ali sentada por alguns minutos esperando uma boa ideia quando percebeu uma voz gritando bem baixinho: - Socorro… socorro… socorro… Olhou para os lados e não viu ninguém. Deu alguns passos em direção a um tronco caído e estava lá um pequeno sapo quase sem forças.


- O que aconteceu, sapinho? Por que você está tão triste? - Na verdade, não estou triste menina. Estou quase morrendo! - gritou num acesso final de energia. O pequeno Sapo estava com uma pata presa em uma planta carnívora. - Nossa! Como você foi parar aí? - Sou meio atrapalhado nas minhas “pulanças” e numa dessas acabei trombando com essa dona aqui, que abocanhou minha perna rapidamente. - Espere, vou fazer uma mágica para tirá-lo daí. Hortência ainda era meio atrapalhada nos seus feitiços, mas se concentrou e disse algumas palavras mágicas: - Tirubum, timtimtim, tuuuuuum! A planta carnívora ao invés de soltá-lo deu mais uma abocanhada. - Menina! O que você fez?! - Ohhh.... ohhh… espere aí. O Sr. Pesadelo me lançou um feitiço e não consigo fazer boas mágicas. Mas eu tive outra ideia. Tomara que dê certo. Sentou-se do lado da planta carnívora e começou a cantar uma canção de ninar com uma voz bem mansa: Lá-lá-lá-lá… Lá-lá-lá-lá… Lá-lá-lá-lá… Dorme plantinha… dorme plantinha… Que um bom sono muitos insetinhos os sonhos vão trazer Durma bem e profundamente Que muitos bichinhos gosmentos para você vão aparecer Dorme plantinha… dorme plantinha… E sua barriguinha há de encher Lá-lá-lá-lá… Lá-lá-lá-lá… Lá-lá-lá-lá…


Assim que Hortência terminou a canção, a planta carnívora estava totalmente relaxada e dormia profundamente. Até roncou. Hortência orientou o sapinho para que puxasse a perna bem devagar para não acordar a plana. O Sapo ficou muito feliz. - Qual o seu nome, menina? - Me chamo Hortência. - Pois bem Hortência, eu lhe devo uma, duas e tantas outras. Serei eternamente grato. O que posso fazer por você? Hortência respondeu animada: - Você me ajudaria a atravessar esse rio? O Sapo mais do que depressa respondeu: - Mas é claro! Suba nas minhas costas. Eu levo você até lá! Hortência e o Sapo se deram muito bem. Curioso que era, o Sapo também quis saber o que levava a menina àquela parte da floresta. A bruxinha lhe contou tudo e o Sapo, entusiasmado com a aventura, acompanhou a menina. E assim se foram. Ao longo do caminho, os amigos encontraram um lagarto. O réptil estava tomando banho de sol, deitado numa cadeira, de óculos escuros, numa clareira da floresta. Ao lado da cadeira havia uma mesinha com uma limonada e uma bolsinha cheia de coisas dentro. Parecia mais um turista curtindo as férias num resort. Os dois pararam para pedir algumas informações. - Olá! Sou Hortência e este é o meu amigo Sapo. Estamos procurando a Dona Curicaca. Você sabe onde ela mora?


O Lagarto olhou para os dois e com muita preguiça respondeu: - Como vocês devem ter percebido… Estou de férias... Até falar me cansa. Já estou aqui faz horas curtindo esse Sol escaldante e maravilhoso. Tenho alguma ideia onde mora Dona Curicaca, mas vai dar trabalho chegar lá. Só de pensar dá muita preguiça. Os dois amigos entreolharam-se com cara de tédio. - Garota, faça-me um favor. Me alcance o protetor solar que está na mesinha. - Por que não pega você? Está do seu lado? - Tenho muita preguiça, menina. Hortência quase não acreditou que um Lagarto daquele tamanho pudesse ser tão preguiçoso. Alcançou o protetor e disse: - Aqui está! - Obrigado. Agora vocês poderiam passar um pouco nas minhas costas? Tenho as patas muito curtas e já estou ficando todo queimado. O Sapo e a menina acharam o Lagarto meio folgado, mas o ajudaram. - Pronto! Você pode nos dizer para que lado fica a casa da Dona Curicaca? - Disse a garota. - Sim! É só continuar seguindo a trilha que vocês chegarão lá. Aliás, eu já estou com preguiça de ficar aqui sem fazer nada. Se vocês quiserem, posso levá-los até lá. Apesar do Lagarto ser tão preguiçoso, os amigos acharam que poderia ser uma boa ideia ter mais uma companhia. Assim, foram em busca do seu destino. A menina, o Sapo e o Lagarto cruzaram a floresta e chegaram a um grande campo aberto. De lá ouviram ao longe uma gritaria. Era um Papagaio, vestido com um paletó e chapéu, discutindo com um Búfalo. Os três se aproximaram e ficaram ouvindo a conversa.


- Eu posso sim atravessar este campo! Este território é de todas as criaturas da floresta! disse o Papagaio furioso. - Não gostamos muito de visitantes e por aqui ninguém passa - o Búfalo com cara de brabo respondeu, baixando a cabeça em posição de ataque. O Papagaio estava tão nervoso e falava tão rápido que mal dava para entender o que ele dizia. Parecia até aqueles bandos de caturritas ao final da tarde. - E agora? - perguntou Hortência aos amigos - Como faremos para cruzar o caminho? O Sapo e o Lagarto se olharam e levantaram os ombros como se dissessem: “ não sei”. A bruxinha não estava muito boa nas suas magias, mas se aproximou do búfalo e do Papagaio tentando apaziguar a situação. Explicou ao búfalo porque eles também precisavam cruzar o território “dele”. O Búfalo era brigão, mas sabia escutar. E, como não gostava de mau humor, ajudou a menina. O Papagaio agradeceu a diplomacia da menina e ofereceu sua ajuda em agradecimento. Assim, a menina, o Papagaio, o Lagarto e o Sapo seguiram em direção ao seu destino. Tinham avançado bastante a caminhada quando avistaram um enorme penhasco que era guardado por um monstro sem olhos. Como Hortência estava aprendendo seu ofício e ainda por cima estava enfeitiçada, qualquer tentativa de magia podia fazer o tiro sair pela culatra. - Pessoal, o que faremos agora? Minha magia está invertida! - Querida, para tudo há um jeito na vida - disse o Sapo. Os quatro confabularam e o Papagaio teve a ideia.


- Eu distraio o monstro sem olhos, voando e tagarelando de um lado para outro. Daí vocês pegam a carona do Sapo e pulam o penhasco. E assim o fizeram. O Papagaio pousou numa árvore não muito longe do caminho do penhasco e começou a tagarelar que nem caturrita. Fez isso por várias vezes até o monstro cair desmaiado de tanto cansaço. Os amigos aproveitaram e subiram no Sapo, que atravessou o penhasco num salto. Como o Papagaio sabia voar foi atrás acompanhando. Continuaram felizes por terem vencido o obstáculo e seguiram confiantes. O outro lado do penhasco era dominado por um extenso campo. O sol estava a pino e o calor era insuportável. O Sapo estava quase desidratado. No entanto, eles teriam um trecho da viagem ainda mais desgastante. Um enorme deserto de areias rosadas que era guardado pelo fantasma da tempestade de vento. Diziam que ele podia assumir diversas formas, mas a mais horripilante era a forma de tornado uivante. Botava medo até nos mais valentes. Qualquer intruso podia ser facilmente morto por sua força e areias escaldantes. Hortência pensou que seria terrivelmente perigoso atravessar aquele deserto e que não andariam muito mais que alguns minutos até que o fantasma os notasse. Mas o Lagarto teve uma ideia: - A caminhada não será nada fácil. Apesar de eu parecer preguiçoso, sou muito habilidoso em andar sobre as dunas. Subam nas minhas costas que passaremos por elas o mais rápido possível!


Os amigos subiram no dorso do Lagarto e lá se foram eles. O réptil era tão rápido que até faltou um pouco de ar durante a travessia. Subiram e desceram uma série de dunas. O fantasma só percebeu a presença dos amigos depois que estavam todos a salvo. Ficou furioso e levantou uma nuvem de areia que caiu sobre ele mesmo. Ao finalizar o imenso deserto de areia, tiveram que atravessar um pequeno trecho de campo e capões de mata antes de chegarem ao sopé da montanha. Na árvore mais alta do cume da montanha estava o lar da Dona Curicaca. Os amigos estavam felizes, mas tinham mais um desafio. Passar pelo guardião das montanhas. O guardião era uma estátua de pedra com uma barba-de-velho muito longa e com a maior parte do corpo recoberto por raízes trepadeiras. Morava numa casa enorme sem teto, janelas ou portas. A casa era tão velha que nem a lareira funcionava mais. Quando chegaram, o velho estava sentado em um banquinho pequeno em frente à casa, com uma xícara de café frio na mão. Estava tão imóvel que sua aparência quase se fundia com as paredes da casa. Os amigos quase não o perceberam quando o ouviram pigarrear: - O que vos traz aqui? - Estamos em busca da Dona Curicaca - falou Hortência assustada. - Pois bem, eu sou o guardião da montanha e permitirei a vossa passagem caso demonstrardes astúcia. Para isso, vós tereis que decifrar um enigma. Hortência adorava decifrar enigmas. Era um dos seus passatempos prediletos. - Nós topamos! - disse a bruxinha animada. O velho largou a xícara de café no chão e levantou arrebentando as trepadeiras presas ao seu corpo. Em seguida, fez uma coreografia elaborada com uma voz bem grave para declamar o enigma:


- Eu tiro barba todos os dias, mas a minha barba permanece a mesma. O que eu sou? Os amigos repetiram o enigma em voz alta para si mesmos tentando decifrá-lo. A bruxinha andava de um lado para outro pausadamente, com um dedo no queixo repetindo o enigma sem parar. Esse método a ajudava a solucionar problemas. - Já sei! - gritou bem alto - O barbeiro! Você é o barbeiro! O guardião ficou meio zangado, pois ninguém antes tinha acertado um enigma com tanta facilidade. Sentou no banquinho novamente, pegou sua xícara de café e disse: - Você acertou garota! Podeis passar! Os amigos continuaram a caminhada em direção ao cume. A trilha que dava acesso ao ponto mais alto da montanha começava atrás da casa do guardião. Era uma trilha muito bonita, guardada por muitas palmeiras simpáticas que sorriam aos amigos durante a passagem. Todas as criaturas eram muito falantes, até as enormes pedras com cabelos de bromélias. O caminho era cheio de pequenas descidas e grandes subidas até que chegaram aos dois grandes monólitos apoiados um contra o outro. Entre eles havia um pequeno espaço como um túnel, que dava acesso a uma escadaria. Seguiram por alguns minutos por este túnel escuro até que chegaram ao trecho final que conduzia ao topo. O último lance de escadas já era ao ar livre e estava cravado na rocha sem nenhum corrimão. Para subi-lo, quase que se teria que fazer uma escalada. Deu frio na barriga, mas lá foram os amigos.


Lá em cima, no centro do platô, uma enorme figueira guardava a casa da Dona Curicaca. Tinham chegado ao ponto tão buscado. O ninho era feito de pequenos gravetos e decorado com liquens, cogumelos desidratados, penas e uma série de quinquilharias. Hortência estava extasiada com o encontro. Dona Curicaca era uma ave muito elegante. Tinha os olhos enigmáticos, bem delineados e possuía longos cabelos vermelhos. Vestia uma túnica de seda azul. - Senhora Curicaca, vim até a senhora para pedir um conselho. Eu topei com o Sr. Pesadelo na floresta e ele me lançou um feitiço terrível! Eu não consigo mais fabricar boas lembranças! Tenho muito mau humor! A Curicaca se aproximou da bruxinha e disse: - O que parece ser não é. E que não parece ser, é. A vitória acontecerá no desvencilhar dos fatos. Não desista, pois a cobra pode morder o pobre rabo. - Não entendi nada - falou a bruxinha. - No momento certo você entenderá, minha cara. Você deve encontrá-lo novamente e proferir as seguintes palavras… - e sussurrou no ouvido da bruxinha. Hortência ficou numa confusão de emoções. Teve raiva e medo ao mesmo tempo. Os amigos nem prestaram atenção na conversa. Estavam tão cansados do percurso que já roncavam num canto do ninho da Curicaca. Hortência ficou furiosa por um instante. Mas ela também por fim se encostou numa poltrona fofinha de plumas de aves e adormeceu. Na manhã seguinte todos estavam descansados e prontos para sua nova aventura. Mas antes de partirem a Curicaca chamou Hortência.


- Eu tenho algo para você. Trouxe uma pequena caixa, ornamentada com vários pequenos objetos, como botões, tampinhas de garrafa, pedrinhas e fios de diversas cores. - Hortência, esta é uma caixa mágica que lhe dará muito poder. Mas você só deve abri-la depois de vencer o Sr. Pesadelo. Se você abri-la antes, todo o poder contido nela será perdido. Durante o embate, profira as palavras mágicas que eu lhe disse, segurando a caixa erguida acima da sua cabeça. A bruxinha pegou a caixinha, sentiu-se muito confiante e partiu com os amigos. O Sr. Pesadelo morava numa caverna muito grande, úmida e fedida. Da entrada da porta já se podia ouvir suas trovoadas. Entraram pé por pé e ficaram o observando por alguns instantes atrás de uma pedra. O Sr. Pesadelo estava sentado numa cadeira com um caderno apoiado na mesa e uma caneta na mão. Estava planejando belos pesadelos para assombrar as crianças durante a noite e disse em voz alta: - Joãozinho tem medo de insetos. Vou fazer um belo pesadelo recheado de baratas - e deu boas gargalhadas. - Para Fernanda, vou mandar cachorro brabo, para Silvia, vou deixá-la dentro de um buraco escuro, para Eduardo vou mandar fantasmas, para Mariana vou… E assim foi fazendo seu planejamento para aterrorizar as criancinhas. Hortência ficou tão braba que saiu de trás da pedra e já foi logo dizendo: - Você é muito pior que o bicho papão!


O Sr. Pesadelo levou o maior susto e caiu da cadeira. Em seguida se recompôs, ajeitou sua nuvenzinha escura em cima da cabeça e deu algumas trovoadas bem altas. - É muita petulância sua, menina! Entrar na minha caverna e me desafiar! - Eu já vou logo dizendo que não tenho medo de você não - disse a garota. O Sr. Pesadelo deu gargalhadas, trovoadas, arregalou os olhos e cresceu até o teto da caverna. - E agora garota? Você não tem medo de mim? Hortência pegou a caixinha mágica que estava guardada na sua mochila, levantou-a e disse: - Turucumcum... tum tum tum! O Senhor Pesadelo deu risadas e disse com uma voz soturna: - O que você acha que está fazendo com esta encenação? - Estou quebrando o feitiço, ué! - disse a bruxinha. - Você acha que eu tenho medo de alguma coisa? Só uma coisa me deixa mais irritado do que bons sonhos: brincadeira de criança! - e arregalando os olhos, rapidamente cobriu a boca com a mão, arrependido de ter falado. Percebendo que o Sr. Pesadelo tinha entregado seu ponto fraco, os amigos se aproximaram e começaram a brincar no entorno dele.


“O Sapo não lava o pé, não lava porque não quer…”, cantava o Sapo enquanto pulava. A menina dava passos saltitantes com a caixinha acima da cabeça, proferindo as palavras mágicas. O Papagaio repetia as palavras da bruxinha sem parar - isto deixava o Sr. Pesadelo ainda mais furioso. O Lagarto, por sua vez, corria de um lado para o outro. - Eu não aguento issooooo! - gritou o Sr. Pesadelo. E, num acesso de raiva tremenda, acabou se explodindo. Os amigos se abraçaram e gritaram de felicidade! E a bruxinha Hortência abriu a caixa mágica. Dela brotaram milhares de sonhos bons de todas as cores e formas, que partiram em todas as direções e se espalharam por todos os lares. Com o desaparecimento do Sr. Pesadelo o feitiço estava desfeito e Hortência se sentiu tão leve que chegou a flutuar alguns centímetros acima do chão. A caixinha mágica também lhe deu presentes. A menina ganhou autoconfiança e aprendeu sobre o valor da amizade. A bruxinha se despediu dos amigos e alçou voo. Havia muito o que fazer. E assim se foi Hortência, de ouvido em ouvido, quem nem beija-flor de flor em flor, levando boas lembranças para as crianças do mundo. E até os dias de hoje quando de repente, você, adulto ou criança, lembra-se de alguma coisa boa, saiba que isto é graças à coragem da bruxinha Hortência, à fidelidade dos seus bons amigos e à sabedoria da Curicaca. E lembre-se: é da brincadeira e alegria das crianças que se espanta o Senhor Pesadelo e suas maldades.


Cláudia Pinto Machado

Cláudia Pinto Machado, nasceu em 1971 em Porto Alegre e vive em Garopaba. É formada em Biologia e Paleontologia. Atualmente tem atuado como colaboradora em pesquisas com paleontologia e como professora conteudista. Publicou recentemente um livro infanto-juvenil e tem participado de exposições literárias. Nas horas vagas divide o seu tempo entre pintar aquarelas e ilustrar histórias infantis. “A participação na oficina Meu Conto Encantado foi extremamente enriquecedora, tanto no aspecto da compreensão da estrutura literária do gênero, bem como em relação à rica troca de experiências com os colegas e o professor.”


Sementes do Amanhecer Cláudia Teles


Sementes do Amanhecer Era uma vez um vilarejo no sul da América onde sempre era noite. Lá vivia Luana, uma curiosa coruja. Luana era cercada por seus amigos e familiares. Mesmo às escuras, se divertia na penumbra. Costumava passar boa parte do seu tempo com sua avó. Foi ela, Dona Laurinda, quem despertou na neta o interesse pela leitura. As duas acendiam as velas e se dedicavam às histórias. Certo dia, ou melhor, noite, num desses momentos de encantamento pelos livros, Luana parou numa página iluminada. Era o desenho de um sol reluzente. Foi a primeira vez que a coruja se deu conta da falta que sentia do amanhecer, algo que nunca havia visto, a não ser pelos livros. Movida pelo sentimento, a coruja fez a pergunta que todos no vilarejo evitavam: - Vó, porque não temos o sol para criar o amanhecer? A avó pensou um pouco, e então se pôs a contar: - Minha querida neta, me entristece sua pergunta, mas vou lhe contar tudo que aconteceu muito antes de você nascer. Naquele tempo o vilarejo estava diferente, não tínhamos crianças, por isso, os seres humanos viviam sem brincadeiras. Com o passar do tempo, foram ficando amargurados, desgostosos e tristes. Esses sentimentos fizeram com que eles ofendessem a sua própria natureza. Então, começaram a cortar as árvores, desrespeitar os ciclos, desviar as correntezas, e tudo isso teve resposta. A sábia natureza, frente a toda essa devastação, encontrou um jeito de chamar a atenção do povoado. Um dia, quando quase tudo estava destruído, o dia foi ficando noite muito cedo, mal tinha amanhecido e o sol já se despedia.


Desse dia em diante, nunca mais amanheceu em nossa vila. Esse dia deixou muita tristeza, mas não levou muito tempo para que os seres humanos entendessem o recado e se colocassem ao trabalho de recriar a vida. E, desde então, é o que se tem feito, minha neta. Conseguimos muitas sementes, o vilarejo está praticamente recriado, com a natureza abundante, as crianças voltaram e as brincadeiras também. Não é mesmo, Luana? A Neta ainda movida pela história, perguntou: - E a semente do amanhecer vovó? - Ah minha querida, essa é a semente mais difícil de conseguir, muitos já saíram à sua procura, mas até hoje ninguém a encontrou. Depois de ouvir essa história, Luana não conseguiu tirá-la da cabeça, sentia que essa era sua missão, que devia sair em busca da semente do amanhecer. Já se passava algum tempo desde que a coruja tinha ouvido a história contada por sua avó sobre o fim do amanhecer, e a ideia de sair em busca da semente se fazia ainda mais presente. Luana já havia imaginado muitas possibilidades, mas nenhum caminho ao certo. Hoje estava decidida, sairia assim mesmo, meio sem rumo, e pelo caminho encontraria o caminhar que a levasse até a semente do amanhecer. Resolveu, antes de levantar voo, ir até sua avó, se despedir. Queria, antes de ir, sentir a força das palavras ditas pela avó. Dona Laurinda ficou surpresa e apreensiva com a decisão da neta. Mas logo, tomada por sua coragem, acreditou que sua neta poderia mesmo encontrar a semente do amanhecer. Então, pediu licença à neta e foi até seu armário, onde pegou um saquinho de pano, muito pequeninho, que colocou em um cordão, como um pingente. Num pedaço de papel, escreveu algumas palavras. Carinhosamente, a avó colocou esse colar em Luana, que recebia curiosa o presente.


- Minha querida, nesse colar estão guardadas três palavras mágicas, se tiveres em apuros, pegue-as e saberás o que fazer. Cuide-se por esses lugares desconhecidos, estarei te esperando para o amanhecer. Com o colar no pescoço, Luana seguiu seus instintos. Nessa primeira caminhada, ou melhor, na sua primeira avoada, a coruja chegou do outro lado daquele pedaço escuro da terra, pousou numa árvore e logo foi surpreendida por um grupo de tigres, que discutiam quem caçaria daquela vez. Mal Luana pensou em levantar vôo quando foi encurralada por eles no galho em que estava. Assustada, lembrou de respirar fundo, e com as asas no coração, tocou seu colar. Rapidamente tirou uma das palavras de dentro do pequeno saquinho. CORAGEM, essa era a palavra. No instante que leu a palavra, uma ideia já lhe veio à cabeça, sem pensar muito, Luana se pôs a contar a história do sol, aquela mesma que havia lhe encantado com uma bela imagem de um sol reluzente. Com a precisão de detalhes que aprendeu com sua avó, a coruja contou tão belamente a história, que no fim todos estavam encantados com o sol. Após falar de sua busca, a coruja se despediu dos tigres, que lhe desejaram muita coragem para seguir em frente com seu sonho. Nesta segunda avoada, Luana chegou mais ao sul, numa cheirosa floresta tropical. Pousou num galho colorido, desejando descansar um pouco, mas não teve tempo. Mal pensou e uma cobra já questionava o motivo de sua aparição, lhe dizendo que ali não havia espaço pra ela. Sem ter dado tempo para a coruja se explicar, a cobra já se envolvia nas pernas de Luana. Mas, rapidamente, antes que ficasse sem suas asas, a coruja lembrou-se de pegar uma palavra que, dessa vez, foi AMIZADE.


Incrivelmente, ao ler a palavra, a coruja lembrou-se da cantiga que cantava com sua avó nas noites frias, e sem perder tempo, se pôs a cantar a “canção da amizade”, assim conhecida aquela cantiga tão linda, que falava sobre amizade entre todas as criaturas da terra. No vilarejo, quando todo o povoado se reunia em roda, era bonito o coro de todos os bichos. Encantada com a cantiga e com a voz amorosa de Luana, a cobra foi se desenrolando das pernas da coruja e se pôs a ouvi-la. Ao final da cantiga, a cobra respeitosamente perguntou o que a coruja fazia por aqueles lugares. Luana respondeu prontamente, e contou toda a história da semente do amanhecer. Após ouvir a história, a cobra disse lembrar de ter ouvido de sua avó algo muito parecido e disse ainda que a avó costumava dizer que a semente estaria à beira mar. Motivada com essa nova informação, Luana perguntou à cobra se ela sabia a direção do mar. Prontamente, a cobra apontou a direção para a coruja, que lá se foi em busca da semente do amanhecer. Ela voou por muito tempo, até que chegou à beira mar. Não foi um voo tranquilo até chegar ali, o vento sul era contrário a direção de Luana, o que deixava as batidas das pequenas asas pesadas, exigindo da coruja muito esforço. Um esforço que lhe fez pensar em desistir, tamanho era o cansaço que sentia. Mas então lembrava da imagem do livro, o sol, e isso lhe aquecia. Fortalecida pela imagem, a coruja seguiu e chegou à beira mar. Era a primeira vez que Luana via o mar, tão imenso, aberto, de um horizonte tão distante que lhe deixou boquiaberta. Mas ela não teve muito tempo para contemplação, logo já ouvia a voz estridente do caranguejo, que cutucava seus pés na areia. O caranguejo foi logo indagando a coruja:


- O que faz aqui? Essas terras tem dono e é melhor você alçar voo logo, antes que eu arranque suas penas. E com apenas um assovio do caranguejo, toda praia foi tomada por centenas de outros caranguejos. Num piscar de olhos Luana se viu cercada por todos os lados, sem poder escapar. Como de costume, a coruja respirou fundo, pôs as asas sobre o coração e pegou mais uma palavra de seu colar: SONHO. De início nada lhe veio à cabeça ao ler essa palavra. Chegou a pensar no porquê de sua avó ter escolhido essa palavra, mas, nem terminava o pensamento e sua história favorita já estava de prontidão para ser contada. A história se chamava “O caminho dos sonhos”, e falava de um jardim secreto, que guardava o poder de realizar sonhos. E assim, com muita tranquilidade, a coruja se pôs a contar. Ao fim da narrativa, os caranguejos, deslumbrados com a história contada, faziam reverência para a coruja, que respirava aliviada. Passada a euforia da história, a coruja contou aos caranguejos qual era a sua missão e porque tinha vindo até o mar: ela buscava a semente do amanhecer. Qual não foi sua surpresa quando o caranguejo Otávio, o mais velhinho da praia, revelou que também já havia feito essa busca. - Mas apenas um animal com asas poderá terminar essa busca - ele falou por fim. Otávio contou então toda a sua história e a coruja ouviu com atenção. - Você está vendo aquelas árvores que vivem a contemplar o mar? A semente do amanhecer está sobre a copa da árvore mais alta. Você deve voar o mais alto que conseguir e encontrar a semente.


Luana agradeceu Otávio e imediatamente se pôs a voar. Pouco tempo depois, estava sobre a copa da árvore mais alta. Lá em cima encontrou a semente, pegou-a e colocou dentro de seu colar. Depois, na praia, despediu-se dos caranguejos e voltou voando ao seu vilarejo. No retorno para a vila, a pequena coruja lembrou do dia em que decidiu sair em busca da semente do amanhecer, de cada desafio que teve que superar no caminho, e de como as palavras sabiamente escolhidas pela avó foram importantes nos momentos mais difíceis. Agora tudo que desejava era encontrar o vilarejo, sua família e amigos, para juntos plantar a semente do amanhecer. Ao chegar no vilarejo Luana foi surpreendida por uma grande festa, o tico-tico, passarinho fofoqueiro da vila, soube muito antes de todos que a coruja vinha com a semente, espalhou a informação para a vila, que teve tempo de organizar uma recepção a altura do feito realizado pela corajosa coruja. No meio da festa, o plantio da semente foi feito, e a festa só acabou, no amanhecer, quando todos se sentaram para contemplar o sol a chegar. Como o combinado, avó e neta, sentadas sobre as pedras, assistiram juntas o primeiro amanhecer. E lá seguiram tão felizes como você é capaz de imaginar.


Cláudia Teles

Cláudia Teles nasceu em Florianópolis e mora em São José. É formada em Pedagogia. Atua como Orientadora Educacional na Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de São José. Encantada pela literatura infantil, também cursa o doutorado em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina UDESC, tendo como objeto de estudo, a mediação da experiência estética pela literatura infantil. “Participar da oficina de contos de fadas foi mais uma forma de estar em relação com essa literatura fantástica, além, é claro, de conseguir desenvolver novas habilidades de escrita poética, fantástica e alegre.”


Assim Nasceu Maricota Denise Ferreira


Assim Nasceu Maricota Era uma vez Amélia, uma boneca de pano que vivia dentro de um baú. Ela era recheada de algodão, seus cabelos amarelos eram feitos de barbante e seus olhos eram dois botões pretos. Ela sofria de um mal terrível: morria de medo de escuro. Assim, seu maior pavor era quando os donos da casa resolviam fechar a tampa do baú. Como isso só acontecia quando eles arrumavam a casa, e quase nunca arrumavam a casa, era raro ela sentir esse medo. Felizmente, com o baú aberto, sempre entrava uma frestinha de luz de algum lugar, mesmo durante a noite. Dentro do baú viviam com ela outros brinquedos esquecidos pelo tempo: um patim faltando uma rodinha, um violão de plástico com as cordas arrebentadas, um dragão de madeira que já tinha perdido o rabo havia muito tempo. Não podemos deixar de mencionar as bonecas de pano carecas. É que a Amélia se alimentava de fios de lã. E ela só tinha comida quando novas bonecas de pano com cabelos de lã eram jogadas dentro do baú. Só que fazia tempo que não aparecia uma boneca nova por ali. Ela estava começando a ficar com fome. Um dia, Amélia soube que a casa tinha recebido uma nova moradora. E que esta moradora tinha como hobby fazer cachecóis de tricô. Só de imaginar novelos e novelos de lã à disposição, a barriga dela roncava ainda mais! Só tinha um porém, essa nova moradora era muito velhinha e vivia num quarto lá na outra ponta do corredor. Amélia precisava encontrar um jeito de ser transferida para lá. Como a casa não era limpa com muita frequência, diversos bichinhos que adoram sujeira viviam passeando pelo baú. Pela manhã e no final do dia, passava Marta, uma barata pra lá de esperta. Numa manhã, Amélia confessou para Marta o seu desejo secreto e Marta decidiu ajudar.


- Eu vou fazer uma pesquisa de campo e descobrir um jeito de você chegar até o quarto da vozinha. Me aguarde! E Amélia aguardou. No final de tarde, Marta voltou com algumas informações e um aparato que ela jurava que iria ajudar na missão: uma máscara de proteção facial descartável, dessas que todo mundo usa durante a pandemia. - É o seguinte: aqui nessa casa, eles não são muito ligados em limpeza, você sabe né? Então, eu notei uma coisa: eles não se importam quando uma máscara descartável dessas cai no chão. Eu observei, eles passam por ela e não juntam! Então eu pensei que esse pode ser um bom disfarce pra você. Que tal? Amélia pensou e pensou, não era bem o que ela esperava. Mas aos poucos foi bolando um plano. Ao final daquela noite, ela já tinha tudo desenhado. Na manhã seguinte, Amélia usou o patim velho e o violão sem cordas como escada para chegar até a borda do baú. Então, segurou nas duas alças de elástico da máscara e transformou ela em um paraquedas! Respirou fundo, fez uma contagem regressiva e se jogou no ar! Após aterrissar no solo, Amélia tinha um desafio gigantesco: ultrapassar os longos três metros que separavam o quarto de bagunça do aposento da vozinha. Do alto dos seus 15 centímetros, esses 3 metros seriam uma jornada épica! Nessa casa viviam dois adultos muito apressados, uma bebê muito serelepe que adorava colocar coisas na boca, e um cachorro brincalhão e enxerido. Encontrar um deles pelo caminho poderia colocar tudo a perder! Mesmo com medo, ela partiu rumo ao desconhecido, carregando consigo a máscara descartável presa ao pescoço como se fosse uma capa. O plano era seguir em disparada e se esconder embaixo da máscara quando aparecesse algum perigo. O que não demorou a acontecer.


Assim que ela conseguiu vencer o primeiro meio-metro, um som de passos invadiu o corredor. Rapidamente, ela se posicionou num cantinho de rodapé, se escondeu por completo embaixo da máscara e trancou a respiração. Os passos passaram pra lá, depois pra cá, fazendo vento nas bordinhas da máscara. Ela segurou firme e conseguiu se manter escondidinha, até que os passos foram embora. Então, o corredor voltou a ficar silencioso, e ela retomou a caminhada. Foi cansativo, mas Amélia conseguiu percorrer mais ou menos um metro. De repente, uma rajada de vento começou a bater. O vento pegou Amélia desprevenida, e carregou a máscara para longe! Dançando no ar, para desespero de Amélia, a máscara só parou quando uma de suas alças enganchou na maçaneta de uma das portas! Lá em cima! Antes de partir, Marta e Amélia tinham combinado um código para caso a boneca estivesse em perigo. Amélia deveria chegar bem pertinho do rodapé e assoviar bem fininho por três segundos. E foi o que ela fez! Em segundos, um exército de ajudantes surgiu das profundezas dos paranhos da casa. Marta apareceu com pulgas, aranhas, lagartixas e moscas. Elas fizeram uma força-tarefa e conseguiram desenganchar a alça da maçaneta! As moscas carregaram a máscara até Amélia, que finalmente voltou a se sentir segura. Da mesma forma que surgiu, o exército de bichinhos desapareceu sem deixar rastros. De volta com sua capa protetora, Amélia seguiu adiante. Mas sua confiança durou pouco tempo. Um novo som de passos fez seu coração acelerar. Mas não eram passos comuns, eram passos leves, quase agudos, e não pareciam apenas dois pés tocando o chão. Pareciam… quatro! Quatro patas! E estavam cada vez mais próximas!


Amélia tratou de se esconder e trancar a respiração embaixo da máscara descartável. Um barulhinho estranho se aproximou… era um focinho de cachorro! Para desespero de Amélia, o cachorro da casa resolveu fuçar aquela máscara jogada no chão. Passou suas patinhas na máscara, provavelmente estranhando “o volume” por baixo dela. Então ele achou que seria divertido jogar a máscara para lá e para cá, e começou a brincar com ela. Amélia segurou firme e não soltou o tecido por nada nesse mundo. Até que finalmente um som de ração sendo colocada no pote chamou a atenção do cachorro lá no andar de baixo, e ele imediatamente se esqueceu do novo e inusitado brinquedo. Ufa! Amélia estava novamente a salvo! Mas então, ela notou uma coisa. Com aquela brincadeira, o cachorro acabou trazendo Amélia para bem pertinho da porta do quarto da vozinha! Foi com surpresa e alívio que ela percebeu que tinha finalmente conseguido atravessar o corredor. Sua jornada épica estava chegando ao fim! Com calma e numa velocidade quase imperceptível, Amélia foi rastejando quarto adentro, escondida embaixo da sua máscara protetora. Quando ela notou que já estava suficientemente dentro do quarto, relaxou e descansou. E esperou. E esperou. Até que a vozinha finalmente notou aquela máscara no chão. Aparentemente apenas cachorros e vozinhas naquela casa conseguiam enxergar máscaras descartáveis jogadas no chão. Ela disse: - As pessoas desta casa têm a mania estranha de deixar máscaras descartáveis jogadas pelo chão. Vou jogar essa máscara fora.


Com muita dificuldade, a vozinha levantou-se da cama e caminhou até onde Amélia se escondia. Seu corpo todo rangeu quando ela se abaixou para juntar a máscara. E com surpresa descobriu a boneca que jazia ali no chão. A vozinha imediatamente esqueceu da máscara. Pegou Amélia com carinho. Alisou seus cabelos de barbante. Espanou algum pó que tinha em seu vestido vermelho de bolinhas brancas, e disse: - Oh, pobrezinha, quem abandonou você aqui? não se preocupe, agora vou cuidar de você, arrumar esses cabelos e dar um jeito nesse vestido. A vózinha deu um abraço tão aconchegante que Amélia nem sabia o quanto ansiava por um desses. Com muito zelo, ela posicionou a boneca na mesa de cabeceira e deu a ela o nome de Maricota. E quem liga? Amélia, digo, Maricota amou seu nome novo! Daquele dia em diante, Maricota nunca mais sentiu fome. Ela se deliciava comendo durante a noite o cachecol que a vozinha tinha tricotado ao longo do dia. E a vozinha, por sua vez, com a memória curta, não percebia que seu cachecol nunca ficava pronto.


Denise Maria Moreira Ferreira é jornalista, nascida e criada em Florianópolis. Tem 40 anos, é mãe de duas crianças e com elas reaprendeu a gostar de literatura infantil. A partir das histórias lidas com os filhos, nasceu a vontade de escrever para eles.

Denise Ferreira

“Escrever a história da Maricota foi ao mesmo tempo divertido e desafiador, pois ela foi criada a partir dos exercícios propostos na oficina. Respondendo a perguntas e provocações das aulas, a história foi ganhando corpo. E foi uma delícia sentir a boneca de pano nascer e ganhar vida própria com o passar dos dias.”


Inácio, o domador de ventania Emanoela Carolina Vogel


Inácio, o domador de ventania Era uma vez um menino... um menino chamado Inácio dos Ventos. Inácio vivia no Vale das Amálgamas, um lugarzinho mágico, no meio do nada e perto de tudo. Inácio era um menino normal e especial como todos os outros do Vale. Herdou de seu pai dedinhos dos pés em formato de raízes e de sua mãe asinhas de colibri nos calcanhares. Inácio tinha um fiel companheiro, seu dragão de estimação, que se chamava Lino. Lino era um tanto quanto atrapalhado e quando espirrava soltava lama pelas ventas. Juntos corriam pela grama com seus cata-ventos quando uma brisa suave e fresca soprava pelos ares. Quando percebiam que ventos alísios se aproximavam, logo pegavam suas pipas para empinar no céu azul. As asinhas que tinha nos calcanhares permitia que o menino se soltasse por alguns segundos no ar e fizesse pequenos voos, pulando e dando piruetas. Inácio era apaixonado pelo vento! Porém, sempre ouvia atentamente as histórias que os adultos contavam sobre ventos fortes, como furacões e tufões, que eram muito diferentes dos ventos que ele conhecia. Eram ventos intensos, que carregavam nuvens de chuva e que muitas vezes causavam destruição por onde passavam. Desse tipo de vento, Inácio tinha muito medo! Quando batia um vento um pouquinho mais forte, Inácio cravava seus dedinhos de raízes no chão, com muita força, para garantir que não saísse voando por aí. Inácio não entendia o porquê, mas o vento ficava mais forte em alguns momentos: quando estava chateado porque seus pais queriam que ele tomasse banho todos os dias; quando finalmente aceitava ir para o banho, mas dentro de poucos minutos tinha que sair; quando precisava tomar um remédio horrível para curar a tosse; quando precisava ir pra escola em dia de chuva; quando alguém pegava um dos seus brinquedos sem perguntar. Quando o vento estava mais intenso, Inácio ficava incomodado, às vezes tinha dor de cabeça, outras vezes tinha dor de barriga, sentia cansaço e tontura, e seu coração ficava muito acelerado.


Certo dia, a mãe de Inácio, que estava preparando um gostoso bolo para o café da tarde, pediu que ele fosse até o bosque colher algumas frutas para enfeitar o bolo. Inácio adorava frutas, porém não gostava de colhê-las, por isso falou para a mãe que não queria fazer aquilo. A mãe insistiu, lhe explicando como o bolo ficaria mais saboroso e bonito. Inácio sentiu um desconforto, sua respiração ficou um pouco ofegante, e um vento mais forte entrou pela janela da cozinha e virou as páginas do livro de receita que a mãe usava, espalhou o montinho de farinha que havia caído sobre a mesa e fez o sino dos ventos, pendurado no teto, vibrar com o ar que entrou e saiu dos tubos. A mãe de Inácio falou: - Melhor levar um casaquinho, o vento está ficando mais forte. Mesmo contrariado, Inácio colocou sua mochila nas costas, chamou seu dragãozinho Lino e juntos saíram em direção ao bosque. Na entrada do bosque, Inácio encontrou uma senhora de cabelos negros com mechas brancas, que estava abaixada no chão a resmungar. Ao se aproximar Inácio percebeu que ela estava procurando por algo: - Onde foram parar os meus óculos? Estavam aqui agorinha mesmo? – disse a senhora dos cabelos negros. - Com licença, minha senhora – falou Inácio – a senhora não está procurando pelos óculos que estão na sua cabeça? A senhora deu um pulo, se levantou e, ao colocar as mãos na cabeça, encontrou o que procurava. - Veja só! Estavam aqui o tempo todo. Se não fosse você, menino, nunca encontraria meu segundo par de olhos. Para onde você vai? - Estou indo buscar frutas frescas no bosque – respondeu o menino.


- Olha só, que coisa boa! Você quer uma dica? – perguntou a senhora – Logo ali naquele tronco, vire à esquerda, desça pelo caminho das flores roxas até uma árvore com raízes enormes. Depois vire à direita e suba pela encosta até chegar na grande pedra cinzenta. Siga o som da cachoeira e quando chegar lá siga o curso do rio até a clareira mais próxima. Lá tem frutas frescas e deliciosas! - Hmmm! Vou fazer isso! – respondeu Inácio. A senhora de cabelos negros pegou um saco de estopa que carregava consigo e tirou de lá de dentro três caixinhas. As estendeu para Inácio e disse: - Pegue essas três caixinhas de madeira aqui, meu filho. Elas podem te ajudar nessa travessia. Se não souber o que fazer, lembre-se das Caixinhas da Vavá! Aqui dentro tem coisas incríveis. Inácio ficou muito curioso com aquelas caixinhas, mas resolveu fazer o que a Vavá havia indicado. - Muito obrigada, Dona Vavá! Irei guardar na minha mochila. Foi um prazer conhecê-la! Eu me chamo Inácio. - Igualmente, Inácio! Vá com cuidado! E assim, Inácio adentrou o bosque em busca das frutas frescas, seguindo o caminho indicado por Vavá. Ao passar pelo tronco, virou à esquerda e desceu pelo caminho repleto de flores roxas. Inácio foi à frente enquanto Lino colhia alegremente algumas das flores.


Quando chegaram à árvore com raízes enormes, Inácio ficou tão encantado com o tamanho de suas raízes que se desequilibrou, tropeçou e se estabacou no chão. Lino ao ver a cena rolava de rir e Inácio foi ficando muito bravo, sentiu seus ombros rígidos e um calor subindo dos pés até a cabeça. Do nada um vento forte começou a chacoalhar os galhos da grande árvore e a uivar por todo o bosque. Inácio ficou assustado, pois não estava acostumado com ventos mais intensos. Mesmo caído no chão, cravou seus dedinhos de raízes na terra com muita força. Inácio se lembrou das caixinhas de madeira que a Vavá havia lhe entregado e sem pensar muito pegou uma delas da mochila e abriu rapidamente. Dentro da caixinha estavam talhadas as seguintes palavras: “Caixinha da Memória Não Vivida”. Enquanto lia, Inácio não percebeu que dela saiu um pozinho pelos ares que o transportou para o teto da cozinha de sua casa, como se estivesse pendente no lustre. Observou seu pai que estava fazendo o jantar e ao se distrair colocou sal duas vezes no arroz. Inácio viu seu pai fechando os olhos, respirando fundo e contando até dez. Depois disso o pai abriu os olhos, começou a cantarolar e a refazer a refeição. Em um piscar de olhos, Inácio estava de volta ao bosque. Guardou a caixinha de madeira de volta na mochila, respirou fundo, contou até 10, levantou-se do chão e bateu a sujeira de suas roupas, voltando então a seguir seu caminho. O vento aos poucos foi ficando fraquinho e suave. Inácio e Lino continuaram andando, seguindo o caminho que Vavá havia indicado. Viraram à direita e subiram a encosta até chegarem a uma grande pedra cinzenta. Porém, ao chegar lá, Inácio se deparou com uma encruzilhada e ficou sem saber por onde seguir.


- A Vavá não comentou sobre essa encruzilhada? – pensou Inácio. – Agora não sei para que lado ir. Quando percebeu, estava irritado com a situação não resolvida. Logo um vento gelado soprou e seu corpo ficou todo arrepiado. Inácio sentiu uma comichão no pescoço e em um misto de irritação e medo pegou mais uma das caixinhas que Vavá lhe deu e abriu de supetão. Logo se viu observando seus pais como se estivesse em cima de uma árvore na frente de sua casa, em um dia de verão. Sua mãe e seu pai estavam pintando as portas e janelas e não conseguiram entrar em um acordo sobre a cor da tinta que usariam. A mãe queria amarelo e o pai vermelho. Sem chegarem a uma conclusão, decidiram se afastar um pouco. O pai foi regar as plantas e a mãe foi tomar um café, cada um para um lado. Logo eles retornaram para a frente da casa, decidiram misturar as tintas de cores diferentes e pintaram as portas e janelas de laranja. Ao voltar magicamente para o bosque, Inácio, mesmo com frio do vento gelado que começou a soprar, decidiu sair por um momento de seu caminho e subir em cima da grande pedra cinzenta. De lá conseguiu ouvir e ver a cachoeira que Vavá havia mencionado. Agora ele sabia que deveria seguir o caminho da esquerda. Inácio ficou tranquilo sobre sua decisão e chamou Lino para lhe seguir pelo caminho escolhido. O vento gelado amenizou e uma brisa gostosa tomou conta do bosque. Inácio e Lino encontraram a cachoeira e seguiram o curso do rio, logo chegando à clareira mais próxima. Cansados da caminhada, das mudanças climáticas e das viagens mágicas, resolveram sentar um pouco para descansar antes de irem em busca das frutas frescas. Lino resolveu cheirar as flores roxas que havia colhido no início do trajeto. Seu nariz começou a coçar e do nada deu um espirro atrás do outro, soltando lama pelas ventas para todos os lados.


Inácio, que estava por perto, acabou coberto de lama e se viu extremamente furioso. Sentiu o sangue fervendo, o coração acelerado, e ficou com a impressão que iria explodir a qualquer momento. O céu escureceu, raios e trovões se espalharam para todos os lados, um vento assustador se aproximou da clareira e um furacão se formou. Lino, apavorado com a situação, em um pulo pegou a última caixinha de madeira que havia sobrado na mochila, abriu e a chacoalhou em frente ao rosto de Inácio. Inácio de repente foi parar em um local e tempo desconhecido, como se estivesse sobrevoando um jardim nas costas de um passarinho. Lá embaixo, uma menina, de cabelos negros, sentada ao chão, mexia em caixinhas de madeira e gritava muito alto: - Onde foram parar meus brinquedos que estavam aqui dentro? Alguém pegou sem me pedir! Carambolas! A menina esbravejava e chorava sem parar. Uma mulher adulta, muito parecida com ela, se aproximou e lhe perguntou: - Minha filha! Eu estou aqui contigo! Posso lhe ajudar de alguma forma? Que tal um abraço? A menina correu para os braços da mulher e ficaram abraçadinhas por alguns minutos. A menina foi se acalmando e a mulher voltou a falar: - Nós podemos procurar seus brinquedos juntas. Ou melhor, você pode guardar aí dentro coisas novas e incríveis. Que tal?


Quando se deu conta, Inácio estava de novo no olho do furacão. Conseguiu enxergar Lino assustado em meio ao vendaval. Apavorados, os dois se abraçaram fortemente, fecharam os olhos e quando abriram, o furacão havia desaparecido. Inácio sentiu um grande alívio ao ver que novamente circulava um vento calmo pelas árvores do bosque. Compreendeu que não precisava temer os ventos fortes, pois apesar de não ter controle sobre sua chegada, poderia decidir como conduzi-los. Era necessário respirar fundo, se afastar e buscar formas de afeto, que a calmaria tomaria conta. Inácio estava feliz por ter chegado até ali. Ele se esticou todo na pontinha de seus dedinhos de raízes e alcançou frutas que estavam em galhos mais altos e as asinhas de seus calcanhares o ajudaram a rodopiar até chegar no topo das árvores. No caminho de volta, Inácio parou na cachoeira para limpar a lama que Lino espirrou e na saída do bosque procurou pela Vavá, pois queria muito agradecê-la pelas orientações e caixinhas mágicas, mas ela não estava lá. Perto do tronco encontrou apenas o saco de estopa vazio. Depositou as três caixinhas de volta ao saco, chamou o Lino para perto dele, e seguiram juntos para casa, de vento em popa.


Emanoela Carolina Vogel

Emanoela Carolina Vogel, 32 anos, nasceu em Porto União e vive em Curitibanos. É assistente social na Universidade Federal de Santa Catarina. Quando criança sonhava em ser escritora, mas a vida tomou outros caminhos. Depois do nascimento de seu filho e de mergulhar cotidianamente no mundo infantil, sentiu novamente um desejo por colocar no papel a magia e os encantos da criança que nela habita. “Escrever este conto foi uma viagem de volta à minha infância e um encontro com o mundo de descobertas e novidades de meu filho.”


Reino da Alegria Evandro Jair Duarte


Reino da Alegria A princesa Adélia vivia na idade média, em que o rei Lucius e a rainha Lucíola eram os governantes do Reino da Alegria com seu filho, o príncipe Luka. Adélia era uma princesa linda com seus cabelos loiros, longos e cacheados. Mas não se enganem com sua beleza e com julgamento precipitado que a considere ser uma menina frágil, pois ela era muito forte e uma exímia lutadora. No Reino do Conhecimento o rei era o tio de Adélia. Ele estava para iniciar um treinamento intensivo de três meses para novos guerreiros. Certo dia, Adélia pediu ao seu pai que considerasse permitir a sua participação. A princesa desejava ser uma grande guerreira e lutar sempre que pudesse para defender o Reino da Alegria. O rei Lucius conversou com seu irmão Marcius e o treino de Adélia iniciaria em dois dias. Ela precisava partir imediatamente para o Reino do Conhecimento e juntar-se a outros iniciantes na arte de defesa e ataque. Certo dia, quando a bruxa Lena voltava de sua missão, ela estava nas proximidades do Reino da Alegria e trazia em suas mãos um frasco com algo muito poderoso dentro. Lena ouviu de seu mestre, o bruxo Julius, que não poderia abrir aquele recipiente em hipótese alguma. Mas, a aprendiz de bruxa sempre foi bisbilhoteira e desastrada e teve a curiosidade para descobrir o que tinha ali dentro. Por causa de sua teimosia e curiosidade, ela se distraiu e entrou em um dos caminhos que a levava cada vez mais para dentro do jardim do Reino da Alegria. A rainha Lucíola tinha uma coleção de rosas que eram de dar inveja em qualquer outra rainha dos reinos vizinhos. Como Lena era desastrada, abriu o pote e deixou cair o pó mágico na roseira preferida da alteza, que ao tocar na terra fez toda a planta secar e virar pó. Assustada, Lena tentou fugir, mas os guardas do castelo viram quando a bruxa desastrada entrou no jardim, foram atrás dela e a pegaram no momento da fuga. Descoberta a desastrosa destruição da roseira preferida da rainha Lucíola, o rei Lucius mandou prendê-la no calabouço e deixá-la até segunda ordem.


A notícia correu todo o Reino da Alegria e os reinos vizinhos. Quando o bruxo Julius soube da prisão de sua aprendiz foi falar com o rei: - Exijo que soltem minha aprendiz ou vou lançar um feitiço sobre todos no reino! O rei Lucius viu o bruxo entrando na sala do trono como um bicho bravo e exigindo coisas ao rei. Achando tudo aquilo um abuso, respondeu: - Bruxo, eu sou teu rei! Quem exige aqui sou eu! Exijo que os guardas te prendam no calabouço até eu pensar o que fazer com vocês dois. O bruxo se agitou e, falando em uma língua antiga e desconhecida de todos, começou a drenar a energia vital e a alegria de todos que estavam no reino. Mas, o bruxo não queria matá-los, assim a energia vital de todos os moradores do reino ficou pela metade em seus corpos e a outra metade ficou acumulada no interior do diamante do cetro que o bruxo estava segurando. Julius, então, soltou Lena do calabouço e voltou para sua gruta de pedra na Floresta dos Absurdos. Todo o Reino da Alegria ficou triste. Nenhum morador conseguia andar por muito tempo. Conseguiam no máximo preparar duas refeições diárias. Alguns meses se passaram até que Adélia voltou de seu treinamento de guerreira no Reino do Conhecimento. Adélia entrou no Reino da Alegria e não reconheceu aquele lugar que antes era agitado e movimentado. Algumas pessoas estavam se arrastando de um lado para o outro da rua. Ela seguiu em direção à sala do trono para encontrar seus pais e viu o rei Lucius prostrado, tentando subir as escadas para sentar no trono. - Papai, o que aconteceu?


O rei contou o que aconteceu com muita dificuldade, por causa da sua fraqueza. Adélia decidiu ir atrás do bruxo Julius para salvar a todos do Reino da Alegria. Ela precisava ir ao Reino da Felicidade Contagiante encontrar com o Bruxo Petrus, um grande amigo da sua família, e encontrar uma forma de quebrar o feitiço de Julius. Adélia montou em seu cavalo e foi ao encontro do bruxo. Ao chegar no Reino da Felicidade Contagiante a princesa sentiu que a atmosfera era de muita alegria. Sem se distrair com tamanha expressão de alegria foi direto ao encontro do bruxo Petrus para encontrar uma solução para o problema dos moradores do Reino da Alegria. Julius trabalhava para o rei e a rainha daquele lugar agradável e estava preparando um elixir para servir na festa do reino, que seria na próxima lua cheia. Adélia entrou em sua sala e o abraçou com muita força. A princesa chorava e soluçava de tristeza. - Princesa Adélia, o que aconteceu? - Petrus, o Reino da Alegria está triste! Julius lançou um feitiço e preciso saber como desfazer o grande mal que se abateu sobre todo o povo. O bruxo deu à princesa um cinto com uma grande fivela de metal na altura do umbigo e disse a ela que a energia vital e a alegria eram drenadas por ali. Com o uso do cinto não teria como Julius fazer com ela o mesmo que foi feito com os súditos do Reino da Alegria. - Você precisará passar pela Floresta dos Absurdos e este anel irá te ajudar. Se algo acontecer basta apontar o dedo que está com o anel e repetir estas palavras: “mal feito, seja desfeito”.


Petrus deu para a princesa Adélia uma caixa de madeira pequena com furos do lado. Dentro dela tinha um rouxinol que só deveria ser solto na hora certa. - Este é o maior terror de Julius, ele tem pavor desse lindo pássaro. Use no momento certo para abrir a caixa e libertá-lo, que ele cantará com grande alegria e delicadeza, fazendo aquele trouxa cair em sono profundo. Assim a princesa foi instruída pelo bruxo sobre o que deveria fazer para quebrar o encanto do Reino da Alegria. Ela precisava ir até a gruta de Julius na Floresta dos Absurdos e recuperar o cetro com o diamante e levar até o reino. Assim que Adélia chegasse na sala do trono, deveria quebrar o diamante incrustado no cetro e liberar toda a energia vital e alegria presas ali dentro. Dessa forma, o poder concentrado iria irradiar e voltar a habitar cada um dos súditos do Reino da Alegria. Adélia chegou na entrada da Floresta dos Absurdos e se deparou com um deles. Um sapo gigante estava em seu caminho e ameaçava devorá-la. Lembrando das palavras mágicas, a princesa apontou para bicho e falou: - Mal feito, seja desfeito! De grande ele passou a pequeno em instantes. Assim, Adélia prosseguiu receosa pela floresta. Quando estava no meio do caminho se deparou com um urso e este falou para a princesa: - Você só seguirá adiante após lutar comigo.


Adélia não precisou usar o anel desta vez, pois ela era uma forte lutadora treinada pelos melhores professores do Reino de seu tio. Ela aceitou a luta e os dois ficaram frente a frente. O urso correu em sua direção, Adélia saiu da frente e o urso, correndo, perdeu o equilíbrio e caiu com força no chão. Quando ele se levantou, Adélia estava atrás dele e prendeu as duas patas do urso nas costas do bicho. Os dois faziam uma força tremenda, o urso para se libertar e Adélia para continuar prendendo o urso ali até ele se cansar. O urso sentiu uma dor muito forte em seus músculos e disse que desistiria de lutar e que poderia confiar em sua palavra. - Eu nunca encontrei um ser humano tão forte quanto você. Já matei muitos guerreiros nesta floresta e me alimentei deles. Mas você é a mulher mais forte que já encontrei. - Fui treinada pelos melhores lutadores e sei o ponto certo para te fazer ficar fraco com pouco tempo de imobilização. O urso, em reverência, saiu da frente da princesa e correu para dentro da Floresta dos Absurdos. Adélia seguiu no caminho para chegar até a gruta do Bruxo Julius. Quando a princesa estava quase saindo da floresta ouviu uma voz e a reconheceu. Era Luka, o seu irmão. Mas ela não sabia de onde vinha aquela voz. - Adélia, estou aqui, sou esta árvore com flores roxas! A princesa parou em frente a árvore, ficou olhando incrédula e perguntou o que aconteceu com o príncipe Luka. - Julius me sequestrou ao sair do Reino da Alegria e disse que eu viveria como árvore para o resto da minha vida. Ele falou que seria outra vingança contra nosso pai por causa da prisão de Lena.


Adélia ficou desesperada com o que tinha acabado de ouvir e desejou ajudar seu irmão. Lembrou do Bruxo Petrus e falou: - Mal feito, seja desfeito! No exato momento em que a frase acabou de ser dita, Luka voltou a ser o principezinho que Adélia tanto conhecia e o abraçou. - Luka, preciso da sua ajuda. Preciso entrar na gruta em que vive Julius, mas você irá comigo e ficará escondido segurando esta caixa. Na hora que eu falar “solte!” você irá soltar o rouxinol que está aí dentro. Luka ficou com medo de ir e ajudar Adélia. Disse para a irmã que Julius era um bruxo mal intencionado e que faria mal a qualquer um que entrasse em seu caminho. Adélia falou para confiar nela e nas instruções de ajuda que o bruxo Petrus deu a ela. Ele só precisava abrir a caixa na hora certa. Luka aceitou e os dois foram para a gruta. Adélia e Luka seguiram pela Floresta dos Absurdos tomando todos os cuidados para não caírem em nenhuma armadilha deste lugar estranho e sombrio. Julius é um bruxo muito mal humorado. Tudo para ele é um grande incômodo. Todas as pessoas irritam e tiram a sua mágica paciência. Pode ser o motivo pelo qual ele não consegue ficar acordado por muito tempo. O bruxo Julius sofre de um grande mal: tem uma sonolência crônica. Ele tem dificuldades para ficar acordado. Quando ele está dormindo se torna vulnerável, o que permitiria que seus inimigos o atacassem facilmente. Por isso, ele estudou muito para encontrar um elixir ou uma poção para ficar mais tempo acordado.


Depois de muito pesquisar, descobriu que o esterco dos unicórnios são mágicos se usados como adubos. Eles têm poderes diversos e um deles é dar energia para os outros seres mágicos ao consumirem as ervas ou os frutos das árvores que são adubadas com este esterco. O bruxo visitou o Reino dos Unicórnios e coletou alguns sacos dessa mágica forma de adubar seu cafezal. Assim, o café mágico o deixava pronto para ficar acordado e enfrentar seus inimigos. Enquanto Adélia e Luka estavam indo para a gruta na tentativa de recuperar o cetro de Julius, o bruxo estava no cafezal com Lena coletando uma boa porção de café para secar e se preparar para qualquer luta com seus inimigos. Adélia e Luka chegaram na gruta e descobriram o lugar vazio. A princesa escondeu Luka e o rouxinol para enfrentar Julius e levar o cetro mágico para o Reino da Alegria. Julius foi para a gruta e deixou Lena colhendo mais grãos de café para ter um bom estoque. Ao chegar, ele sentiu um cheiro diferente no ar, escutou e ouviu um som que o arrepiou todo. - Petrus? Estou ouvindo o assovio da alegria irritante de Petrus? Como o silêncio se prolongou nos instantes seguintes, Julius começou a procurar a origem do cheiro que estava tomando conta daquela gruta. Adélia saiu de trás de uma pedra e chamou Julius. - Bruxo! Preciso levar comigo o teu cetro. - Menina boba, vou te ensinar a não entrar em lugares sem ser convidada. Invadiu minha gruta e ainda quer levar meu cetro?


O bruxo correu e pegou o cetro, se agitou e iniciou uma fala baixa e em língua antiga e desconhecida. Adélia correu em direção ao bruxo e puxou o cetro. Como ela era forte e lutava muito bem, arrancou facilmente o instrumento mágico da mão de Julius. - Como você conseguiu ficar de pé? Minha mágica nunca falhou e ser algum ficou vivo sem minha permissão. O bruxo ficou sem entender o que estava acontecendo e precisava recuperar o seu amuleto mágico. A princesa, que era muito esperta, não comentou que usava o cinto que ganhou de Petrus para evitar que sua energia vital e sua alegria fossem drenadas pelo bruxo Julius. - Devolva meu cetro ou eu lanço outro feitiço sobre você e a transformo em um rato para eu pisar em você, menina ousada! Adélia se recusou a atender ao pedido de Julius e foi andando de costas, saindo da gruta. Quando Adélia percebeu que não conseguiria sair dali gritou para Luka: - Agora Luka! Abra a caixa! Luka saiu de trás de outra grande rocha e ergueu a caixa bem no alto de sua cabeça e abriu. No mesmo instante um rouxinol voou e iniciou seu assovio. - Vocês visitaram Petrus! Não acreditoooo! Aquela alegria toda me irrita! O pássaro pousou no alto da gruta e cantou um cântico gostoso... calmo... lento... quase uma canção de ninar.


- Esse pássaro! Parem essa cantoria! Eu... não… consigo... ficar acordado. Julius sentou, encostou em sua poltrona e foi caindo no sono. Adélia estava com o cetro na mão e pegando na mão de Luka foram embora daquele lugar antes que o rouxinol parasse o seu canto. Ao chegarem no Reino da Alegria, Adélia fez exatamente o que Petrus ensinou a fazer. Ela chegou no meio da sala do trono e ergueu o cetro com o diamante virado para baixo. A princesa reuniu toda a sua força e baixou rapidamente o cetro espatifando o diamante e liberando a energia vital e a alegria ali armazenada. Toda aquela força alegre de vida se espalhou com muita velocidade e os habitantes do reino sentiram aquela energia toda entrando e erguendo os seus corpos. A alegria era tamanha que iniciaram no mesmo instante uma grande festa. Todo o Reino da Alegria estava festejando a vida e a vontade de viver com tamanha graça e felicidade que há muito tempo não se via por ali. Enquanto isso, Lena, que voltava para a gruta de Julius, com o cesto cheio de grãos de café, parou na entrada e viu que algo estava errado. Havia muito silêncio por ali. Entrou rapidamente e viu Julius caído na poltrona. - Venha, vou te levar para o quarto. Esse homem vive dormindo por aí. Lena levou Julius para o quarto e ajudou o bruxo a deitar, mas o anel do homem caiu no chão e foi parar embaixo da cama. Lena abaixou para pegar o anel e viu um desenho guardado ali embaixo. Pegou para ver o que era e se viu desenhada dentro de um grande e lindo coração. - Eu gosto tanto de você, seu bruxo ranzinza e mal humorado. Espero que um dia você diga que gosta desta aprendiz de bruxa desastrada. Lena cobriu Julius e foi preparar um café para o seu amado.


Evandro Jair Duarte

Evandro Jair Duarte nasceu e mora em Florianópolis. É formado em Biblioteconomia e Mestre em Ciência da Informação. Atua na Fundação Catarinense de Cultura como bibliotecário, desenvolvendo projetos e atividades voltadas para área da biblioteca, literatura, leitura, livro, biblioterapia, escrita criativa e outras ações culturais. Publicou contos em duas antologias da Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina. “Escrever esta história foi uma prática divertida, gostosa e desafiadora, pois colocar as ideias dentro de uma técnica e estrutura é uma oportunidade para a provocação do imaginário e das possibilidades de desenrolar da trama. Quero exercitar mais o roteiro passado nos encontros e escrever outras histórias.”


No caldeirão de Felipa Flávia Vieira


No Caldeirão de Felipa Dedicado ao meu grande incentivador e companheiro, Fredolino Becker Neto

Era uma vez, na Vila do Bosque Vermelho, uma menina chamada Felipa que vivia com sua madrinha. A menina ainda era um bebê quando foi deixada na porta da frente da casa de Consuelo, dentro de um caldeirão grande e velho. Consuelo, era uma mulher de meia idade, solteira e sem filhos. Cuidara por muito tempo de seus pais doentes e acabou por passar do tempo de ter pretendentes de sua geração disponíveis na Vila. Então a vida, que sabe dar o que precisamos no tempo certo, deu Felipa para Consuelo e Consuelo para Felipa. Como Consuelo era a melhor cozinheira da Vila do Bosque Vermelho e sempre estava cheia de encomendas, Felipa cresceu em meio a muitos ingredientes, testando sabores e experimentando receitas. Foi vestida de avental, mexendo em panelas e semeando na horta de casa que Felipa foi se tornando mulher. Um dia Felipa estava entre o caminho do armazém e de sua casa quando encontrou Dona Marilda, sua vizinha, muito doente, então a convidou para tomar um chá e comer um pedaço de torta na sua morada. A jovem grisalha de 91 anos aceitou. Ao chegarem na cozinha, enquanto arrumava a mesa para tomarem a infusão, Felipa escutou dona Marilda com ouvidos e intuição. Então, Felipa foi na horta e pegou umas folhas aqui, outras ali, fez o chá e serviu a dona Marilda que passou a se sentir melhor na hora. A vizinha, que antes reclamava de dores de cabeça constantes, disse que se sentiu curada desde que bebeu da “poção” dada por Felipa. Como retribuição pela “cura”, quis presentear Felipa com uma colher de pau.


Felipa achou engraçada as palavras proferidas por Dona Marilda, em tom de profecia, de que ela era uma grande curandeira e que precisava receber a colher de pau em retribuição pela cura de sua enxaqueca. Felipa não se reconhecia assim, como curandeira, apenas cozinheira. Ela sabia que amor entregue em forma de atenção e comida ajudam a curar qualquer alma. Mas ficou feliz em receber o carinho, em forma presente de colher de pau, que passou a usar nas suas preparações. O que Felipa não sabia é que a colher era mágica e que falava. Ela tomou um susto no dia em que estava na cozinha com sua madrinha, a fazer um bolo de casamento, e escutou a colher pedindo para colocar mais baunilha, porque a baunilha iria atrair felicidade para o casal e abrir as portas da prosperidade. Acho que era uma voz na sua imaginação, como podia uma colher falar? Perguntou para a madrinha, que a acompanhava na cozinha: - Madrinha, o que você falou? - Não falei nada, Felipa, está ouvindo coisas? - E Consuelo botou-se a rir. Felipa ficou intrigada, pois jurava que tinha ouvido algo sobre baunilha na cozinha. Por via das dúvidas, não pôde deixar de colocar muita baunilha no bolo de casamento. Em outra ocasião, numa festa na Vila, em que as duas cozinheiras vendiam sopas em sua barraquinha, ouviu novamente a colher falando. Os caldos eram feitos de pouco em pouco, conforme os pedidos. Quando veio Seu Anestor, o livreiro da Vila, Dona Consuelo perguntou como ele estava, de modo que respondeu que estava com os joelhos bastante inflamados e com muita dor. Estava triste porque o que mais queria era dançar naquela noite, mas não podia. Felipa, que se ocupava dos temperos, pegou a colher e novamente escutou-a:


- Querida, adicione Cúrcuma, Cebola, Gengibre... A receita da sopa levou todos aqueles ingredientes ditos pela colher porque Felipa julgava em seu âmago que deveria seguir a voz. Além de deliciosa a sopa - sem igual e de receita exclusiva - serviu também de medicina a Seu Anestor que, revigorado depois do caldo, dançou a noite toda na festa sem dor no joelho que estava como novo. Durante o evento, enquanto os clientes faziam os pedidos, Felipa foi exercitando os seus ouvidos, seja para os sintomas de um e de outro, seja para a colher de pau, que a guiava como uma professora. A colher não só falava, mas também ia provando as receitas e calibrando para Felipa as proporções dos ingredientes. Um a um os males de seus consumidores passaram a ser aliviados. Quanto mais Felipa se dedicava a escutar a colher falante e mágica, mas Felipa ardia em sede de conhecimento, o que trazia crescimento no ofício. Existia, porém, uma coisa que a intrigava: será que além das pequenas enfermidades as receitas poderiam curar as feridas do espírito? Como a ferida que ela carregava, de não conhecer os seus pais que a deixaram ainda muito pequena naquele caldeirão velho na frente da casa da sua madrinha. Felipa foi na Livraria de seu Anestor e lhe perguntou se ele tinha algum livro sobre medicina da alma. O livreiro entregou uma coletânea de Contos de Fadas e explicou: - Minha querida, o essencial é a cura. A medicina da alma está nas palavras, na energia empregada nas coisas, o quanto se acredita, como se vê, como se sente, como se pensa e quais as decisões e ações que tomamos sobre as coisas. O substancial não é material, não


vais ver em um ingrediente. A cura da Alma só pode ser feita pela pessoa possuidora da alma, que te abre ou não uma porta. Tu és apenas ferramenta para conduzi-la na sua própria cura. Felipa foi com o livro para casa e logo se pôs a ler. Não demorou a perceber que as histórias sempre tinham chaves para abrir as portas mais emperradas dos corações. Sempre existiam nos contos uma jornada evolutiva dos personagens, que passavam a ter compreensão sobre algo. Felipa sabia que o problema nunca era o problema. Que quando existia a dor na garganta em alguém – o que ela muito bem podia resolver com uma de suas receitas – era porque existia algo além. A dor na garganta poderia ter como causa o não engolir uma situação, o ter falado demais sobre algo que não fazia bem. Ou ainda por ter dito algo que se sabia que não era para ser falado… e assim por diante. O corpo só externava o que tinha de mais profundo. Atacar a consequência e não a causa, era como tapar um buraco sem fundo, os problemas passavam por um período, mas logo voltavam. Como a dor de joelhos de seu Anestor, por exemplo, que reapareceu na manhã após a festa da Vila. Felipa entendeu que as dores da alma somem quando a pessoa passa a ter uma nova visão sobre o seu verdadeiro problema e, através da ressignificação, faz escolhas diferentes. Os contos de fadas, como os da coletânea que o livreiro emprestou, tinham o poder de cura pelas narrativas que remetiam à compreensão dos leitores sobre um novo ponto de vista para determinado assunto.


Felipa soube que tinha que aprender a falar e não só a escutar, de modo a se comunicar através de contos, entregando-os como ferramentas de cura aos seus clientes. Nessa altura dos acontecimentos, quase todos os moradores da Vila do Bosque Vermelho procuravam Felipa e a Madrinha Consuelo, seja pelos sabores, seja pelas suas dores. Sempre que Felipa estava a anotar a encomenda do que precisava cozinhar, conversava com o freguês escutando-o atentamente, procurando entender a que se dedicava o pedido. Quando achava oportuno, contava uma história que ajudava a resolver uma dor aqui e outra acolá. E assim ela ia desbravando seu caminho, sua missão para a qual ela se sentia perfeita, mas não pronta. Estava em estado de crescimento dia a dia, a cada receita. Entretanto, existia uma questão: sua própria história! Apesar de ter como madrinha a Consuelo, a melhor das mães, Felipa sentia que precisava encontrar ou pelo menos saber de seus pais, pois isso seria como conhecer melhor a si mesma. Foi quando ela decidiu abrir o baú em que estava guardado o grande caldeirão velho. Pensou que era hora de dar espaço na sua cozinha para aquela panela velha. Lavou o Caldeirão de ferro e, quando o colocou no fogo para secar, percebeu que o mesmo havia ficado reluzente, como se quisesse expressar a felicidade de estar sendo útil. Quando Felipa percebeu já estava lavando e cortando legumes para fazer um cozido. O recipiente era de seus antepassados e a acompanhou no seu início, porque a ela pertencia, era a sua herança. Ela sentia uma ligação profunda com o objeto, que fazia surgir nela uma sensação de pertencimento a algo maior. O Caldeirão, de repente, no cozido, mostrou refletidas algumas imagens de seus pais.


Ela bebeu do caldo e sentiu-se abraçada, confortada. Não tinha mais dor do que não foi, apenas gratidão de compreender que foi como precisava ser, para que ela achasse o seu caminho. Não há como ser grande sem a compreensão de que a vida é como era para ser. Basta sabermos ver com olhos para o maior, para as aptidões que fomos adquirindo à custa dos obstáculos. Então ela pensou em como foi abençoada e que realmente todo o essencial sempre a acompanhou. Nunca lhe faltou nada. Para que pudesse existir, houve o encontro de seus pais e o “sim” deles para a sua vida. Quando seus pais não puderam mais cuidá-la, a vida se encarregou de lhe dar um destino maravilhoso, em um lar sem igual, servindo para Consuelo, sua madrinha, de igual modo que Consuelo a serviu, numa troca de amor verdadeira. Tudo na vida foi feito "para" ela e não "com" ela. Os recursos foram abundantes: ora a colher mágica que fala; ora o livro que ensina comunicar e tratar as causas dos sintomas e, agora, o reencontro com o seu começo, com o caldeirão, que mostrou no reflexo quem ela era - instruindo a ver macro e dando a imensidão da gratidão. A sensação era boa e o sabor do cozido, feito no seu caldeirão, alcançou o supremo. Agora sim a cozinheira se sentia segura no seu desígnio. Já se reconhecia como a curandeira da Vila. E viveu feliz para sempre.


Flávia Vieira

Flávia da Silva Vieira nasceu e vive em Florianópolis. É formada em Direito e atua na Corregedoria da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina. Reencontrou-se com os Contos de Fadas após o nascimento da filha Maria Valentina. Juntas, passaram a desbravar a literatura infantil. Flávia usa a produção textual livre para dar asas ao seu mundo interior e viver o que existe dentro de si, se deliciando com todo o processo. Ela escreve para se experimentar e conhecer os mundos inimagináveis que estão adormecidos em seu íntimo e que precisam ser acordados para brincar com ela.


O Rei da Floresta Flávia Souza


O Rei da Floresta Era uma vez… um dragão de komodo manco e cascudo que se chamava Dadá e morava com a irmã solteirona Dedé. Ele queria sair do buraco onde morava para ficar longe da serpente voadora que o atormentava toda vez que se encontravam. O dragão ainda não tinha um destino definido, só queria mesmo era fugir. E numa tarde cinza de novembro ele se aventurou e foi, deixando sua irmã aos prantos. Dadá sempre foi muito medroso e, atravessando a noite, por todo lugar que passava ele se assustava. Era um tronco, uma folha, uma sombra… tudo era motivo para um susto. Depois de andar a noite toda, quando amanheceu e Dadá já estava exausto, lhe caiu na cabeça um caroço de abacate. Ele ficou paralisado de medo, olhou bem devagarinho para cima já esperando o pior, mas o que viu foi um macaco fazendo a maior folia por acertar a cabeça do infeliz com o caroço. Furioso, o dragão quis enfrentá-lo, mas o macaco foi logo dizendo : - Calma aí, meu jovem! Esse caroço é a salvação da sua vida! - Percebi a salvação, quase rachou minha cabeça - disse Dadá. - Pois então, pegue esse caroço, coloque-o na sua bolsinha e siga em frente. É com ele que você conseguirá atravessar a floresta sem ser perturbado por ninguém. É um caroço mágico. Quando estiver em perigo bata com ele duas vezes na sua cabeça e você ficará invisível. Mas cuidado, você só poderá usar a mágica três vezes. Dadá ficou receoso quanto às palavras do macaco, mas não largou o caroço. Apenas agradeceu e seguiu.


Pela estrada encontrou duas onças pardas que o abordaram com dentes à mostra. Imediatamente ele pegou o caroço e fez o que o macaco recomendou: bateu duas vezes com o caroço na cabeça e ficou invisível. E saiu rindo da cara das onças que não entenderam o que havia acontecido. Depois de se livrar das onças, Dadá estava se achando o bichão. Logo mais à frente encontrou uma pantera que o encarou e disse: - Por aqui você não passa, já era pra você! E lá foi Dadá bater com o caroço na cabeça. Mais uma vez saiu ileso. No quinto dia de caminhada, enquanto bebia água no riacho, encontrou a tão temida serpente voadora. Dadá paralisou. A serpente, percebendo o medo que ele sentia, começou a encurralar o dragão. - Vai a algum lugar, meu caro amigo? - Vou, quer dizer, não vou, eu vou - disse ele, gaguejando e tremendo-se todo. - Acho que não vai não! Aqui nesse pedaço da floresta mando eu. E hoje decidi que ninguém passa. Dadá quis argumentar, mas ficou sem ação. Enquanto isso, a serpente ia se aproximando. Para atordoar o pobre dragão, a serpente voava de um galho a outro fazendo com que ele ficasse meio perdido. Do outro lado do rio os bichos já estavam se reunindo para assistirem à batalha do dragão e da serpente. Eram gritos, palmas, uma algazarra daquelas. A serpente chegou muito perto e disse: - Sinto cheiro de medo e isso é muito bom.


Quando a serpente se preparava para dar o bote, Dadá olhou para os bichos e viu o macaco batendo na cabeça. No mesmo instante ele se lembrou do caroço e foi pegá-lo na bolsinha. Quando ele meteu a mão dentro da bolsa para pegar a semente, a serpente saltou para um galho logo acima da sua cabeça e Dadá, assustado, deixou cair o caroço no chão. Ele pensou: “Ou eu pego o caroço e me salvo, ou deixo isso quieto e morro aqui mesmo.” A bicharada, do outro lado do rio, estava enlouquecida. Os macacos faziam sinal para que ele pegasse o tal caroço, alguns dizendo pra ele fugir. Quando as hienas se juntaram à gritaria, a serpente se distraiu e foi nesse instante que Dadá conseguiu pegar o caroço e bater na cabeça. A serpente ficou ali sem entender nada. Desta vez, contudo, Dadá não fugiu. Diante da torcida da bicharada, se encheu de coragem. E usando de sua invisibilidade e da ajuda dos outros bichos, conseguiu mandar a serpente para um outro plano. A alegria foi geral, pois todos ali viviam sempre sendo atormentados e com medo da tal serpente voadora. Assim, Dadá virou o herói da floresta.


Flávia Souza

Flávia Souza Nasceu em Votuporanga e mora em Garopaba. É formada em Magistério e atuou como professora na Educação Infantil. É apaixonada por poesia e escreve desde sempre. Já teve poemas publicados em antologias. Seu sonho é escrever um livro de poesias. “Escrever um conto foi uma experiência bem interessante e desafiadora.”


Frederick Clodovil, a lagartixa monstruosa Gabrielli Cunha Amaral


Frederick Clodovil, a lagartixa monstruosa Era uma vez uma lagartixa monstruosa chamada Frederick Clodovil. Era gigante, tinha 1,92m de altura, com chifres, três rabos e cinco bracinhos que tremiam de forma incessante. Ele morava dentro da casa da maior bruxa da cidade. Lá ele fora aprisionado quando ainda era humano. A bruxa o havia capturado enquanto ele coletava cogumelos na floresta. Na casa da bruxa, que era feita de ossos de rato com chantilly, ele a ajudava a preparar poções mágicas de vitalidade e imortalidade humana, feitas a partir dos restos das unhas da bruxa misturadas com xixi de rato e mais um elemento surpresa. O maior desejo de Frederick era fugir daquela casa e voltar à sua forma humana. E, claro, voltar a usar o vaso sanitário convencional, pois nos últimos anos ele só fazia cocô em frasquinhos que a bruxa vendia pelo mercado livre. Além de ter suas secreções vendidas na internet, Frederick Clodovil tinha um medo muito muito muito grande, gigantesco mesmo: o de dormir. Seu maior pavor era dormir porque toda vez que isso acontecia a bruxa aproveitava para cortar um dos seus rabos para vender também. O rabo sempre voltava a crescer, mas doía muito. Por isso, de noite ele se escondia embaixo da cama. Ele sabia que a bruxa ia dormir às duas horas da manhã, então à meia-noite ele começava a preparar um feitiço que reduzia a dor do corte: uma mistura mágica de cereja, leite, moeda e cimento. Foi uma das poções que aprendeu com a bruxa observando pelas frestas do seu quarto escuro. Seu passatempo favorito era aprender feitiços e poções que pudessem fazê-lo voltar à sua forma humana. Certo dia ele pensou na liberdade que tinha em viver fora da casa da bruxa, sendo um humano qualquer que vagava por onde queria. E sentiu saudades de quem era. Chorou.


Depois, quando a bruxa foi cortar outro de seus rabos mais uma vez, ele nem ligou, apenas deixou. Pensou que um elemento a menos de sua nova caricatura monstruosa poderia deixá-lo mais parecido com sua versão humana, então abdicou de seu rabo. E foi assim, ele foi deixando ela vender partes de seu corpo por dois longos anos. Até que cansou. Em uma noite chuvosa e lamacenta, a casa estava com cheiro de ervas, de pernas de rã, de dentes de dragão e de asas de barata. A bruxa, por uma razão qualquer, estava enfurecida e foi cortar o rabo da lagartixa medonha. A lagartixa também estava enfurecida, queria viver e queria viver todos os dias sem o peso de ser quem não era. Quando a bruxa pegou o machado e o alavancou para o corte, Frederick desviou com toda sua força e rapidez. Infelizmente ele não conseguia segurar o machado, por seus braços serem pequeninos e trêmulos. Então fugiu. Não olhou para trás e saiu correndo floresta a fora. Ele não era discreto, tinha 1,92m e conforme ia encontrando ou se aproximando das pessoas, elas iam fugindo diante da figura medonha. Foi quando encontrou uma aldeia vazia e pode passar a noite com segurança em uma cabana abandonada. E, para sua surpresa, no dia seguinte ele estava coberto e quentinho, com um chá à espera de seu despertar. Uma idosa o esperava. Ela era dulcíssima e tinha um presente para oferecer à lagartixa: um talismã. A velha disse com um pesar ritmado: - No caminho você sofrerá. Com o talismã a forma humana voltará. Então lembre-se dos poderes que em você há.


Depois de lhe entregar o talismã enigmático, a idosa correu para a floresta. A lagartixa Frederick Clodovil pensou, pensou confuso, mas continuou o caminho. Era uma floresta densa, a mesma onde tinha sido capturado pela bruxa. Ele correu muito e a floresta parecia não ter fim. Ele se perguntava se tudo não era uma enorme pegadinha da idosa com o tal do talismã. Pensou em jogá-lo fora, mas desistiu. Era um belo talismã e poderia tentar vendê-lo na cidade. No início da noite, pouco a pouco as casas foram surgindo no horizonte, eram todas de madeira envernizada com pessoas trabalhando em frente a elas. Quando a população daquela vila viu a lagartixa, todos começaram a pegar machados, espetos e variados objetos para machucar a pobre lagartixa. Alguns carregavam tochas para o que viria a ser noite. Frederick não sabia o que fazer e quando se deu conta já eram umas trinta pessoas correndo atrás dele. Então sentiu uma coisa estranha: o amuleto começou a vibrar e encolher e junto com o amuleto Frederick também encolhia. Cada vez mais ele ia ficando com aparência de roedor, não era nem humano, nem lagartixa. Ele estava virando um rato. Suspirou aliviado por conseguir se camuflar na escuridão, entre os arbustos, por sua pequenez e rapidez. Mesmo com as tochas era difícil enxergar aquele ratinho tão pequeno. Chegou então a um lago, para beber água e continuar a fuga. Escutou um barulho parecido com um miado e ficou atento. Mal ele sabia que a caverna escura próxima ao lago tinha uma ninhada de panteras negras com olhos vermelhos, com uma mãe pantera enfurecida pela presença do rato.


O rato lagartixento suou frio enquanto seis panteras se aproximavam lentamente. Ele sentiu o talismã produzir um verde brilhante, sentiu uma dor na barriga e logo percebeu o outro poder do talismã: ele fazia quem o usava soltar puns muito tóxicos, que faziam desmaiar pessoas e animais. Um gás verde foi se espalhando pelo ar após um som seco sair do furico do rato. Ele peidou! E era um gás tão tóxico que os olhos da pantera e até os do rato lagartixento arderam e lacrimejaram. Uma a uma as panteras foram desmaiando. E o rato saiu correndo em disparada de novo. Correu muito, até que se deparou com uma enorme fogueira, era alaranjada e flamejante. Ele foi se aproximando curioso, mas teve uma surpresa aterrorizante: a velha bruxa malvada estava esperando pelo rato no meio da floresta. Um enorme caldeirão estava à sua espera, já estava tudo temperado: ele ia virar sopa. Frederick já estava meio lagartixa meio rato, porque o efeito da mágica do amuleto estava passando. Ele segurou firme no talismã e suplicou por ajuda. O talismã começou a emanar uma luz vermelha muito forte. Ao aponta-lo para a bruxa, o talismã soltou um brilho imenso, cegando a bruxa. E a lagartixa meio rato a empurrou para dentro do caldeirão. A bruxa virou uma sopa horrorosa, mas o feitiço foi desfeito! A lagartixa voltou à sua forma humana e Frederick Clodovil pode voltar para sua cidade e realizar seu antigo sonho: ser dono de boteco. Sobre a porta de entrada do boteco de Frederick, fica pendurado um talismã, que os clientes dizem ser mágico. E pelas paredes e frestas vivem felizes lagartixas e pequenos ratos.


Gabrielli Cunha Amaral

Gabrielli Cunha Amaral (Temperô) nasceu em Guaratuba e mora em Florianópolis. É formanda em Pedagogia e participa do Laboratório de Iniciação Científica em Tecnologias na Educação. Sua relação com a Literatura iniciou no Ensino Médio, ao devorar livros e se interessar por escrever poemas e contos. Aos 15 anos fez suas primeiras publicações em uma antologia de contos de terror. Sua paixão por livros e leitura se intensificou ainda mais depois de fazer a disciplina “Literatura Infantil” na faculdade e participar de um grupo de estudos sobre Literatura para bebês.

“A experiência de escrever essa história foi muito enriquecedora por ter feito junto a outras oficinas de escrita criativa. Sinto que me tornei mais fluída em minha escrita e tenho me possibilitado criar histórias esdrúxulas e incabíveis. Gostei muito de criar minha história a partir da jornada do herói. Já havia ouvido falar sobre na faculdade, mas com essa oficina pude destrinchar essa estrutura na prática.”


Encantos escondidos: a história de uma bruxa que não usava vassoura Gisele Albertini


Encantos escondidos: a história de uma bruxa que não usava vassoura Era uma vez uma bruxa do dedão enorme que vivia numa casa verde numa rua bem movimentada, perto de um ponto de ônibus. Na frente da casa havia um enorme pé de jasmim que cobria toda a porta. Em sua casa vivia também uma lagartixa, que dormia atrás do quadro com uma poesia de Pablo Neruda. Diferente das outras bruxas, ela não gostava de fazer poções, mas fazia. Apreciava a lua, mas preferia fazer feitiços de dia. Ao invés de varinha mágica, usava um tripé mágico que adquiriu numa feira bruxólica secreta que ocorre há cada dez anos no centro da cidade. Gostava de ouvir blues, guardava um tênis roxo embaixo da sua cama e, além disso, não voava em vassouras. A bruxa do dedão enorme andava de bicicleta espalhando sua magia. Numa tarde de outono resolveu sair para pedalar. Pegou seu chapeucete (que é um capacete em forma de chapéu pontudo como o tradicional chapéu de bruxas) e passou pelo portal que se abriu no meio do jasmim que cobria a porta da frente usando seu tripé mágico. Ao colocar a primeira roda da bicicleta para fora do portão, encontrou o Sagui Envergonhado do Rabo Dourado. O sagui era assim conhecido, pois tinha uma certa vergonha de sua condição de espécie invasora. E quanto ao dourado, era mesmo uma pintura que fazia todas as sextas-feiras com o brilho de vaga-lumes que brincavam sempre com ele. Mesmo envergonhado, gostava de conversar com a bruxa, pois além dela entender o que dizia, parecia não julgá-lo. O sagui trazia uma câmera que havia encontrado nas dunas há muitos anos atrás, deixada por turistas argentinos. Ele esperou todo esse tempo para que voltassem, mas como isso não aconteceu, sentiu que era o momento de entregá-la a alguém que soubesse usá-la com sabedoria.


Disse à bruxa que era uma máquina fotográfica especial e que somente a bruxa parecia sábia o suficiente para ficar com ela. E que com ela a bruxa poderia ir em busca de sua missão, descobrir encantos escondidos pela Ilha. E lá se foi a bruxa pela estrada. No bolso ela levava paçocas de amendoim com cheiro de açafrão feitas por sua mãe, uma garrafa de água com líquido mágico misturado com pó de beterraba que ficava presa no quadro, uma bolsinha com o tripé e a máquina mágica. Neste dia, o pedal da bruxa foi diferente, seus olhos pareciam mais atentos do que nunca. Tudo parecia fazer mais sentido, parecia mais cheio de vida, mais curioso e enigmático. O que ela não esperava é que iria encontrar, bem neste dia, seu pior inimigo: o vento sul. O vento a empurrava e exigia demais de suas pernas. Então ela parou para ver a Lagoa do Índio e o som da água foi profundo em sua mente, pareceu transportá-la para um outro lugar. Lembrou de sua infância, de quando pescava lambaris com seu pai… O som da água tinha o poder de trazer lembranças! A máquina fotográfica mágica vibrou em seu peito: era hora de registrar aquele encanto. Um pouco mais para frente, encostou em uma árvore muito alta e de lá caiam sementes que giravam como hélices. Como hélices! Às vezes a bruxa também se sentia caindo assim, leve e girando… a máquina vibrou e ela guardou mais este encanto. Subindo o Morro da Árvore Avatar, muito íngreme, com pedras soltas e buracos, a bruxa parava em alguns momentos e aproveitava para tomar o líquido da sua garrafa. Viu tucanos e a máquina captou a profunda cor de suas penas e a força do seu bico. O encanto do morro era mostrar a força. Do outro lado do morro, uma faixa vermelha do entardecer acompanhava todo o horizonte, mais um encanto que a máquina guardou.


E foi depois disso que ela descobriu que seu maior inimigo não era o vento sul e sim o trânsito. Alguns carros buzinavam, o ônibus amarelinho passou lhe tirando uma casquinha, outro carro espirrou água de uma poça e outro e outro… A gota d'água foi quando um carro passou em alta velocidade. Meio tonta, a Bruxa do Dedão Enorme se abrigou num pedaço de calçada que encontrou e comeu uma paçoca com cheiro de açafrão feitas por sua mãe. Restabelecida, seguiu pedalando com um desejo forte de nunca mais passar por isso. Todas as vezes que sentia fortes desejos seu dedão enorme ficava ainda maior. E o desejo foi crescendo… E o desejo foi crescendo… E o desejo foi crescendo. E seu dedão ficou enorme de enorme. Sua energia se dirigiu para o chapeucete que começou a brilhar. A máquina fotográfica mágica vibrou, mas ela achava que aquilo não era encantador para registrar. Quando segurou a máquina alinhada ao chapeucete, uma ciclovia foi projetada e ela circundou toda a Ilha. Como se estivesse por cima da cena a bruxa viu como que da Ilha desenhada, cercada de uma maravilhosa ciclovia. Com os olhos cheios de lágrimas, continuou a pedalar e só foi parar na praia, exausta. Foi ali mesmo que adormeceu. De manhã, percebeu a claridade do dia surgindo aos poucos e o céu era de um rosa forte com azul. Um laranja com violeta, um dourado que contornava as pequenas nuvens… ela viu que ali estava o maior encantamento de todos…


Do horizonte despontou um ponto dourado, que foi crescendo, e a máquina mágica vibrando em seu peito foi guardando e registrando aquela que seria a descoberta do maior encanto da Ilha. O nascer do sol. A bruxa posicionou a câmera mágica no tripé de super poderes e apertou o botão de disparo. Neste momento, a bruxa foi sugada pelo sol em sua bicicleta. Para a Bruxa, o caminho até lá pareceu longo e duradouro, mas para quem estava ali na praia, foi apenas um segundo. Será que foi isso que aconteceu com os turistas argentinos que “esqueceram” a máquina fotográfica nas dunas? Essa resposta nunca saberemos. Mas dizem que do alto das dunas é possível enxergar, em dias de amanheceres com céu muito azul, lá dentro do sol, o que parece ser uma a bruxa andando de bicicleta.


Gisele Albertini

Gisele Albertini nasceu em Presidente Prudente e vive em Florianópolis desde 2005. É formada em Pedagogia e atua como professora de Educação Infantil na Rede Municipal de Florianópolis. Ciclista e amante do nascer do sol, tem a literatura infantil como fonte de inspiração e grande ferramenta de trabalho. “Escrever este conto foi para mim um grande desafio, ligado ao sonho de um dia inventar histórias infantis e ilustrá-las.”


As Cores de Kianda Jane Vieira


As Cores de Kianda Era uma vez uma sereia monocromática que enxergava o mundo em preto e branco. Todos os seus amigos lhe falavam da cor do céu, das tonalidades das algas, das múltiplas cores dos corais, das nuances das rochas, do brilhante amarelo do sol e dos tons azuis e esverdeados que coloriam o mar. Intrigada com a felicidade com que suas amigas sereias, peixes, moluscos e outros seres marinhos admiravam as cores ao seu redor, ela decidiu sair de Vilamar e procurar um especialista em visão marinha. Algumas amigas lhe entregaram um cartão de estrela do mar com o endereço do especialista e disseram que, ao encontrá-lo, nunca olhasse em seus olhos, sob o risco de perder totalmente a visão. Seu amigo peixe Cascaes emprestou um tambor com a seguinte recomendação: - Kianda, sempre que estiver em dúvida de que caminho seguir, você deve tocar esse tambor. Ele lhe ajudará a encontrar o melhor caminho. Por último, suas grandes amigas algas lhe oferecem um saquinho com pó de corais fluorescente, com o objetivo de iluminar as noites, quando sua visão fica muito pior. No seu caminho, a sereia Kianda enfrentou longos dias sozinha e percebeu cada vez mais sua visão diminuir. Algumas vezes enxergava somente uma luz branca, ou uma grande claridade sem formas definidas. Outras vezes seu olhar ficava totalmente negro, como a noite sem lua. Então, ela procurou se guiar pelos sons. Com a ajuda do tambor, encontrou na superfície do mar a bela concha onde uma ninfa das águas flutuava e cantava uma doce canção:


“O seu olhar lá fora O seu olhar no céu O seu olhar demora O seu olhar no meu O seu olhar, seu olhar melhora Melhora o meu O seu olhar agora O seu olhar nasceu O seu olhar me olha O seu olhar é seu…” Ao ouvir o som maravilhoso do canto da ninfa, a sereia se aproximou e perguntou como poderia encontrar o especialista em visão marinha. A ninfa notou que a sereia possuía uma marca no braço, em forma de espiral. Aquela marca era exatamente igual ao símbolo que a sereia tinha em sua mão. Ao perceberem os desenhos, decidiram se abraçar e neste momento um grande arco íris surgiu no céu. Ao abrir os braços a sereia percebeu as tonalidades do céu, as cores do arco íris e lembrou do momento em que o Dragão do Mar lhe lançou um feitiço. Kianda lembrou que há muitos anos atrás existia um Dragão do Mar que invejava a amizade entre as sereias e as ninfas. Ele nunca era convidado para as divertidas festas em Vilamar, pois seu hálito era repugnante. Por causa disso, ele tinha lançado o feitiço. As duas amigas resolvem partir juntas ao encontro do especialista em visão marinha, a bordo da concha flutuante. Após três dias e três noites flutuando pelos mares de Marimar, elas encontram uma mãe tartaruga brincando alegremente com seus filhotes.


Elas passaram o dia cantando junto com a família e descobriram que o especialista vivia em uma rocha próxima do costão de pedras vizinho, em Vieiras. Após o dia de festa, elas partiram em direção ao costão. Kianda sentiu algo se aproximando dos seus cabelos e escutou um grito da Ninfa: - Cuidado! O dragão está aqui! Muito assustadas, as duas mergulharam no mar e procuraram se esconder no interior de uma caverna. Na caverna vivia uma lula muito sábia em assuntos de feitiços. A lula Rosa soube da busca da sereia Kianda e alertou: - Para quebrar o feitiço você deve encontrar um especialista em visão marinha. Ele está bem próximo de você. Kianda agradeceu as sábias palavras de Rosa e encontrou coragem para continuar o caminho. Na superfície do mar, ela sentiu o calor do sol e a brisa do vento em seus cabelos. Olhou para a Ninfa e teve uma revelação: sua companheira era a especialista em visão marinha que ela tanto procurava. Kianda enxergava o colorido da vida através dos olhos da ninfa. As duas regressaram juntas para Vilamar e organizaram uma grande festa, com muita música e poesia. Dizem que quando as sereias e as ninfas se encontram surge um arco íris no céu.


Jane Vieira da Rocha nasceu e vive em Florianópolis. É mestra em Literatura e licenciada em letras. Atua como professora de ensino fundamental em escolas públicas e participa de forma voluntária em projetos relacionados com agricultura urbana. Na Ilha de Santa Catarina, cresceu ouvindo as histórias de bruxas e as cantorias de Boi de Mamão.

Jane Vieira

“Em minha infância sempre fui muito curiosa com as letras e a pergunta que mais fazia era: o que está escrito aqui?. Desde as primeiras leituras, com livros infantis e muitas histórias em quadrinhos até a descoberta da literatura durante a formação acadêmica, fui construindo o gosto pelas histórias. De forma muito singela faço a primeira experiência de escrita e sou grata a Cia Mafagafos pela oportunidade divertida de poder libertar algumas letras.”


As aventuras de Xito, o calango Jhenni Quaresma


As aventuras de Xito, o calango Era uma vez um pequeno calango chamado Xito que vivia numa pequena vila chamada Amana. Tão pequenino, Xito não tinha controle sobre seu corpo e ficava todo colorido sempre que seus sentimentos saltavam ou quando espirrava. A condição causava risos e fazia com que Xito não tivesse amigos. Triste por andar só, os sentimentos azuis viviam bagunçando a passagem do pequeno calango pelas ruas de Amana. A vila de Xito era famosa por ser um lugar de chuva, mas um dia as coisas mudaram. Uma grande seca estacionou na entrada da vila e todos começaram a sofrer com a falta que a água faz. Fizeram então uma grande reunião para buscar soluções. Confiantes de que a resposta estava além dos portões da vila, passaram a buscar por um corajoso que pudesse encarar a busca. No meio do grupo, Xito respirou fundo e se levantou. Todos olharam surpresos, mas satisfeitos. Surpresos porque ninguém estava disposto a fazer o trabalho, satisfeitos porque ninguém sentiria falta do pequeno calanguinho. - Pode ir, Xito! E vai pela sombra - disseram. Caminhando debaixo de um sol escaldante e mudando de cor a cada passo, Xito saiu em sua jornada buscando água para a vila. Em uma curva, cruzando um ramal, Xito foi abordado por um enorme gato do mato que estava parado no meio do caminho: - Para onde você vai? - perguntou o gato. - Não sei - respondeu o calanguinho. - Eu estou com fome. Você não tem nada pra me dar?


Xito tinha levado apenas algumas frutas e um pedaço de pão, era pouca comida pra enfrentar o caminho, mas ele decidiu dividir com o gato. Deu a metade do pão para o gato e a outra metade guardou para si. O gato agradeceu, engoliu o pão numa só bocada e chegou bem perto do calango. Colocou uma pata na cabeça de Xito e o pequeno calanguinho tremeu na base. Ficou de todas as cores possíveis e brilhou mais que uma árvore de natal. Achou que sua jornada fosse terminar ali. “Espero que agora ele não invente de me engolir”, pensou. - Gostei de você! Todo brilhoso assim! - exclamou o gato, enquanto mantinha a pata na cabeça de Xito. O calanguinho respirou fundo e aliviado. Explicou ao gato onde sua jornada começava e como queria que ela terminasse. Trazer água seria fundamental para sua vila e o tornaria uma figura querida, respeitado, quem sabe. Talvez ele até conseguisse parar de ficar mudando de cor. O gato ficou tocado pela história de Xito e se apresentou como Jumo, um viajante que fazia favores mágicos em troca de comida e conforto. Resolveu presentear o pequenino: - Um guarda-chuva? - estranhou o calango. - Vai servir - garantiu Jumo. Xito acomodou o guarda-chuva branco nas costas, sem saber muito como usaria. Se despediu e seguiu viagem por longos campos amarelos e secos.


Viajando sozinho, logo o pequeno calango encontrou dificuldades. Primeiro, um enorme amontoado de montanhas se colocou no caminho de Xito. Ele precisou andar um bocado até encontrar uma fresta entre as pedras. Mas a abertura não era larga o suficiente para passar. Então lembrou do guarda-chuva e, usando como alavanca, conseguiu abrir caminho e venceu o primeiro desafio. Xito seguia mais confiante, mas volte e meia algum pássaro passava, olhava para baixo e dizia: - Quanta fome, acho que vou comer um calango no espeto hoje! Na primeira vez ele amarelou e tremeu, sem saber o que fazer. Mas depois lembrou do guarda-chuva, e passou a usá-lo para se esconder dos predadores. Ele ficava lá quietinho, os pássaros não conseguiam vê-lo e desistiam, voando para longe. Já estava anoitecendo quando o calanguinho conseguiu finalmente cruzar as montanhas e encontrou um campo cheio de tiriricas. Ele até tentou se aventurar na travessia, mas as tiriricas levantaram suas folhas e não se mostraram dispostas a negociar. Cansado, Xito resolveu descansar e pensar no desafio somente pela manhã. Fez do guarda-chuva um abrigo e dormiu em paz. Quando o Sol começou a raiar e o pequeno acordou, ao abrir os olhos devagarinho percebeu que as tiriricas ainda dormiam. Resolveu então aproveitar o momento para atravessar o campo sem fazer barulhos nem encostar em ninguém. E não é que ele conseguiu?


Ao chegar do outro lado daquele campo, Xito encontrou uma enorme cachoeira que terminava em um enorme vale verde. Encantado, ficou alguns minutos olhando para a grande quantidade de água e para todo o horizonte de terra que seus olhos alcançavam. Ele estava até feliz, mas só até se dar conta que teria que descer pela cachoeira para seguir seu caminho. Nesse momento, foi tomado pelo medo. - Ai, meu deus! Isso é muito alto. Se eu cair me arrebento! O que vou fazer? - exclamou o calanguinho enquanto se retorcia e piscava em várias cores. Mas aí ele lembrou do guarda-chuva! Resolveu arriscar e usá-lo como paraquedas. Foi até a beira do cachoeira, abriu o guarda-chuva, segurou forte com as duas mãozinhas no cabo, tomou fôlego e se jogou em direção ao vale. Desceu rodopiando como uma folha helicóptero, sem abrir os olhos e saltando de várias cores. Quando Xito aterrissou lá embaixo, no vale, mal podia acreditar no que seus olhinhos viam. Havia um generoso rio de águas límpidas, gramados, bosques e árvores em abundância. E flores, muitas flores por todos os lados. As flores contornavam caminhos e os caminhos terminavam em árvores. E para sua agradável surpresa, muitos calangos. Para onde quer que olhasse, outros calanguinhos coloridos, assim como ele, caminhavam tranquilamente, sem que ninguém zombasse. Uma única vida apenas não seria suficiente para ver tudo que Xito encontrava pela frente. Caminhando pelo lugar, foi conhecendo os moradores da vila e percebendo como as relações eram harmoniosas e a comunicação era saudável.


Em uma esquina, encontrou o líder da vila que lhe deu boas vindas e apresentou as belezas do lugar. Xito estava tão maravilhado, estupefato e feliz, que acabou esquecendo de sua missão. Decidiu que poderia morar ali por uma vida e mais algumas outras. E passou horas distraído, conhecendo calangos, lugares, cores, imaginando seu futuro naquele paraíso. Xito só despertou do sonho quando alguém lhe perguntou o que fazia com um guarda-chuva branco nas costas. - A minha missão! Como foi que eu esqueci? Então Xito resolveu procurar alguém que pudesse lhe ajudar. Disseram que fosse até o pajé da vila, o que ele fez de imediato. Xito começou contando sua história para o pajé, desde o início, sobre como era a vida na vila de onde vinha, como ele vivia, os medos que tinha, seu problema com a mudança das cores e de como isso o incomodava. Contando tudo isso, acabou percebendo que não era feliz naquela vila e que não tinha interesse em voltar. Contudo, ele tinha assumido essa missão e, em nome do amor pelas pessoas que o esperavam, precisava cumpri-la. - Sabe, pequenininho, - começou a falar o sábio ancião - eu posso te ajudar! Quando você voltar para casa, basta abrir o seu guarda-chuva no centro da sua vila. Só isso. “Só isso? Simples assim?”, se perguntava o calanguinho. Ainda que não entendesse muito e estivesse pensativo todo o caminho de volta, o Xito botou o guarda-chuva nas costas e saiu caminhando. Fez todo o percurso de volta, mas agora ele não sentia mais medo e a cada passo ficava mais confiante. Até que finalmente, sob um sol de torrar, chegou em sua pequena vila Amana.


Se dirigiu ao centro da vila, onde havia uma praça redonda, e no meio da praça abriu o guarda-chuva. No mesmo momento, acreditem, começou a chover. Outros moradores da vila começaram a sair de suas casinhas e tocas para ver o que acontecia. Mal podiam acreditar que Xito tinha voltado. Mal podiam acreditar que Xito tinha trazido a chuva! Desde aquele dia, Amana foi uma cidade mais verde, com chuvas nos períodos de chuva e sol nos períodos de sol. Os calangos não se tornaram melhores nem piores, seguem suas vidas. Xito sentiu que havia cumprido sua missão e resolveu voltar para a vila das cores, satisfeito que não haveriam mais secas em Amana e que ele não seria mais motivo de risos maldosos em nenhum lugar.


Jhenni Quaresma

Jhenni Quaresma nasceu em Macapá e mora em Florianópolis. É jornalista, faz mestrado em Jornalismo e atua com comunicação institucional e produção executiva. Apaixonada por literatura, já escreveu e publicou alguns poemas, mas teve o primeiro contato com produção encantada através da oficina da Cia Mafagafos. Escreveu sobre o Xito para ilustrar memórias e a saudade de casa.


A história de Heiko e sua família Joyce Kwiatkowski


A história de Heiko e sua família No tempo em que o mundo era feito de estreitas estradinhas de terra, cercadas de florestas e silêncio, uma pequena família caminhava à procura de um lar. O pai, a mãe e seu filho Heiko seguiam as trilhas em busca do Tanyta Parah, o seu “lugar de paz”. O aventuresco e sonhadeiro Heiko seguia atento a jornada de seus pais e, pelo caminho, apanhava objetos que ia guardando em seu pequeno alforje, colecionando curiosidades para brincar depois. Encantado com os pássaros, juntava muitas e variadas penas que encontrava pelo chão, armazenando na bolsinha de trás. O cheirinho da terra misturada com água lhe trazia uma sensação flutuante, por isso caminhava descalço na beirinha dos riachos, sentindo as pedrinhas nos seus pés. Depois, de olhos fechados, escolhia uma bem pequena e perfumada para levar consigo, amontoando na outra bolsinha. Os três peregrinavam contemplando o trajeto. Vez em quando faziam curtas paradas. Descalçando os pés na terra, inspiravam profundamente o ar e olhavam um para o outro à espera do sinal. No lugar certo, eles ouviriam a canção da paz, uma canção única, feita pelos seres naturais e elementais do lugar, convidando-os a ficar, pois estariam esperando por aquela família, que ali construiria seu lar. Por enquanto, nada ainda. Eles pouco viam do céu, somente entre as copas frondosas das árvores, mas percebiam a troca de tonalidade do azul. Começava a ficar escuro e uma tímida primeira estrelinha avisava que em breve seria noite. A escuridão do anoitecer abriu os olhos do menino para pequenos pontinhos luminosos ao redor do caminho, prestando mais atenção a um deles, que parecia segui-los mas subitamente parou, piscando no mesmo lugar. Heiko deixou de seguir seus pais e, hipnotizado pelo brilho diferente, caminhou na direção daquela luz, embrenhando-se na mata.


Heiko não percebeu, mas a magia que havia no lugar era tão intensa que o hipnotizou e ele esqueceu completamente de seus pais. Um rastro do feitiço os alcançou e sobreveiolhes um pesado sono. A lembrança do filho era agora uma espécie de sonho e recostaram-se sob uma árvore à margem do caminho, dormindo profundamente. Heiko foi levado pela brilhante luz até o outro lado do bosque, onde árvores tombadas e ferramentas afiadas ocupavam um grande espaço. Via-se a imensidão do céu estrelado e, ao longe, as chamas de uma fogueira. Vozes de homens ecoavam pela clareira no meio do arvoredo. Hipnotizado pelo cenário, o menino olhava tudo com muita atenção. Percebeu, então, que de alguns troncos de árvore subiam névoas multicolores vibrando uma cantiga triste. Sentiu dor apesar do encanto e, admirado, buscou uma resposta em sua mente. Foi aí que a Fada-Lume, já na sua forma de duende, ao lado de Heiko, sussurrou: - São os espíritos das árvores que morreram, despedindo-se para sempre da missão que nunca mais vão cumprir. Heiko não pareceu assustado, era-lhe uma voz conhecida. Olhou para o lugar de onde vinha a voz e imediatamente o reconheceu: “Vovô Dievvo!” - abraçou-o apertado. Do seu avô, que era um dos seres da natureza, ele podia e devia lembrar. Num sobressalto, Dievvo baixou a cabeça, encostando o queixo no peito, bradou: - Achei! - O quê vovô? - Meus óculos! - Mas o tempo tod…


Heiko foi interrompido pelo olhar carinhoso e muito próximo, agora aumentado pelas lentes, enquanto seu avô segurava seu rosto com as duas mãos: - Tem os traços de coragem da sua mãe! Dievvo suspirou e assumiu um ar tão sério que beirava o cômico para explicar ao pequeno humano o que estava acontecendo. - Malquistos! Essas pessoas decidiram tomar os nossos espaços sem esperar pelo convite natural. Descrentes! Elas decidiram que não precisam ouvir a canção da natureza para ter certeza do lugar onde construirão seu lar. Vieram e derrubaram as primeiras árvores e lá está a casa que fizeram com sua madeira… morta. - Morta? - Sim, meu filho. Maldição! Arrancar uma árvore que não lhe ofereceu sua madeira para ser lar é matá-la. Ela vai apodrecer. As madeiras só ficam vivas e permanecem com o espírito das árvores quando acontece o “Tanyta Parah”. - Ah, o encontro do “lugar de paz”! O atrapalhado elfo suspirou e contou ao pequeno que havia enviado uma mensagem e seus pais vieram finalmente em busca da sua herança, mas quem a floresta esperava, era o pequeno Heiko, nascido com o propósito de protegê-la e governá-la contra o mal.


- Nós ansiamos por sua chegada. Estamos enfraquecendo desde o começo desta invasão. E você tem a essência do “Tanyta Parah” em seu espírito. Está na hora de assumir seu lugar. Meu neto! Filho de minha filha! - E o que eu devo fazer? - Crer, continuar crendo e deixar que a sua mente aventuresca e sonhadeira evoque a magia que há em você para lhe prover. E eu estarei o tempo todo por perto. A aurora abria o espetáculo do dia e todas as Fluiatys começavam a acordar. Elas são as Fadas-Flores, as que restavam no meio do bosque ainda vivo. Já os passarinhos e beijaflores, que brincavam com elas diariamente, não apareciam por ali há três manhãs. Acontecia o mesmo com as abelhas e outros bichinhos. Assustados, foram todos para a floresta do outro lado da estrada, esperando que lá continuasse tudo a salvo. Heiko sentiu na polpa de seus pés que aquele bosque estava morrendo e ele precisava atender o seu chamado. Pediu então que seu avô lhe tornasse invisível, pois planejava andar no meio daquele povo invasor para conhecê-lo melhor. Dievvo pegou a pequena mão do neto, olhou-o fixamente com seus olhos aumentados e mandou que o menino sentisse todo o chão com os pés. - Heiko, é isso que você quer? me diga novamente: o que você quer? - Ficar invisível. - Agora, diga isso para você mesmo, diga para o seu espírito. Suavemente! - Eu quero ficar invisível!


Aparentemente, ele não desapareceu. Como via a si mesmo e notou que seu avô também o via, pensou não ter conseguido. Fechou os olhos, preparando-se para desejar com mais força, quando seu avô o interrompeu: - Criança! Precisa de lentes como as minhas para ver quem você é? Está feito. Vá lá! Estarei por perto. Ele foi. Devagar. Titubeava. Pisava manso. Pensava em se esconder. Então percebeu que não era notado por qualquer daquelas pessoas. Mais confiante, circulou entre os grupos e recolheu uma coleção de frases: - Vamos ficar ricos! - Imagina tudo que estávamos perdendo por acreditar em lendas? - Em um mês teremos casas suficientes e vamos parar esses andantes sonhadores e dizer: quer morar em algum lugar? É só pagar! - Riram alto e com maldade. - Muito mais fácil e prático do que esperar uma cançãozinha de fadinhas. - Ah, estou sentindo o perfume do ouro! - Ah, estou vendo o brilho do ouro! - Ui, e eu estou sentindo o gostinho do ouro - lambia os lábios quase babando. E riram todos! Era uma galhofa de satisfação com seus planos, aqueles seres de feições duras. Heiko saiu dali com medo por seu avô e por tudo que seria destruído para que aquelas pessoas cheirassem, admirassem e… comessem ouro? O menino voltou, fazendose visível a sua forma e o seu choro. Sentou ao pé de uma frondosa árvore, sentiu-se abraçado e as Fluiatys vieram cantar ao seu redor.


À noite viu novamente a fogueira, ouviu os ecos das vozes e mais alguns espíritos de árvores despedindo-se tristemente. Pegou seu alforje e fez um pequeno travesseiro com o saquinho das penas, a fim de pensar no que fazer. Recostou sua cabeça, fechou os olhos e imaginou, pensando alto: “ah, eu quero muito voar como os pássaros!”. Foi imediato. Primeiro uma pancada de sua cabeça no chão, o saquinho de penas murchou, depois um formigamento e em seguida uma leveza. As penas obedeceram à sua vontade e tomaram conta do seu corpo, cobrindo-o por inteiro, e como um pássaro ele pairou um palmo do chão. Percebeu, em poucos segundos de deslumbre, que podia voar. E foi. Do alto ele podia ver tudo melhor, a estradinha de terra e um casal dormindo confortavelmente lá embaixo. Sentiu algo bom por eles. Viu a floresta intacta do outro lado e os riachos por onde havia passado. Notou que onde havia pisado nas pedrinhas elas brilhavam coloridas e foi então que teve uma ideia. Voltou ao bosque e pousou com a suavidade de quem acabou de solucionar um mistério. Pegou o saquinho com as pedrinhas de sua coleção. Antes que amanhecesse o dia, Heiko andava calmamente sobre as suas pedrinhas, tornando-as brilhantes e douradas como ouro, perfumadas como ouro, mas o sabor… meditava sobre isso, enquanto massageava os pés: - Qual será o sabor da ganância? Então olhou para as pobres árvores mortas e desejou que aquelas pessoas sentissem o gosto do que fizeram com elas.


Os primeiros raios de sol refletiam magníficos e dourados nas inúmeras pedrinhas espalhadas em torno dos troncos caídos e o perfume era inebriante. O povo invasor, que acordava, percebeu no ar algo como incenso suave… Mirra? Olíbano? Era o cheiro da riqueza. Eles inspiravam, sugavam o ar, em busca da origem do aroma, até que viram o ofuscante brilho de… - Ouro? - Ourooo? - Ouuuuroooo! Todos correram até as falsas pepitas e, como era de se imaginar, em um golpe impensado, na ganância de entorpecer os sentidos, imediatamente, cada um levou uma pedrinha à boca. Era o famoso teste da mordiscada, mas, de supetão, sonoros “cups” “plim” ressoavam como uma onda e, de seres humanos cobiçosos, transformaram-se em pequenos insetos que pareciam… formigas? Muito esquisitas! E se escondiam no meio dos troncos podres. As Fluiatys, que assistiram tudo, diziam impressionadas: - Óóóh, viraram assim, num cup! plim! - Sim, foi sim, cuplim! - Cuplim, cuplim, cuplim, cupliiiiim! E o avô Dievvo esbravejou: - É. Um bando de Cupins! E deu nome àquele povo que desde esse dia vive nas madeiras podres, alimentando-se delas.


A tarde foi de alívio, espalhando boas novas a todos os seres, a floresta estava salva. O pequeno Heiko e o vovô Dievvo limparam o lugar das árvores infestadas de cupins, abrindo espaço para que boa madeira encantada pudesse brotar. Suspiraram ao pôr do sol e passaram a noite contando as estrelas e velhas histórias. Heiko compreendeu a origem de sua família e dormiu em seu lugar de paz. De manhãzinha acordou com o som de uma canção diferente, abriu seus olhos e viu seus pais de pés descalços, olhando um para o outro, sorrindo. Ao vê-lo, exclamaram: - Filho, você encontrou o nosso “Tanyta Parah”!


Joyce Kwiatkowski (Joy) nasceu em Santa Cruz do Sul e vive há 11 anos em Garopaba. É especialista em Literatura Infantil e Contação de histórias, cursou magistério e Letras, e atualmente é acadêmica do curso de Biblioteconomia. Participou de grupo de teatro e aos 16 anos iniciou sua jornada de Contadora de Histórias. É responsável pela Biblioteca Pública Municipal de Garopaba, onde empreende diversas ações de valorização do livro e da literatura e da leitura. Fez um breve curso de escrita criativa que resultou em um conto escrito, mas nunca publicado.

Joyce Kwiatkowski “Escrever esta história foi uma experiência totalmente nova, foi uma imersão que durou três semanas e me ajudou a ampliar conhecimentos e noções acerca da criação do argumento e a arquitetura da narrativa escrita. Interessantíssimos os passos sugeridos pelo Sig, facilitadores e estimulantes, instigaram inúmeras revisões do texto e até diálogos com o enredo. Foi um desafio para compreender seus caminhos e reviravoltas até que se fizesse um conto minimamente satisfatório para uma iniciante na arte da escrita narrativa, principalmente nessa área que comporta os maiores clássicos da literatura ocidental, os contos de fadas. Me sinto uma iniciada com muita vontade de escrever mais, rabiscar tantas mudanças de destino quantas puder até que alguma seja capaz de tocar profundamente a infância.”


O Monstro Roncador Jucimere Terezinha Lopes


O Monstro Roncador Era uma vez... um Monstro! Feito de areia, ele morava sob as dunas do Roncador, em Garopaba. Depois de muitos anos adormecido, num lindo dia de sol ele despertou. Foi um choro muito forte e verdadeiro que o acordou. Só um choro vindo do fundo de um coração poderia acordar o monstro que mora nas profundezas das dunas numa cidade encantada. O monstro sabia que algo de grave estava acontecendo na cidade encantada, que aquele chamado não era em vão. Então abriu-se o portal e ele subiu as escadas de ouro que o levariam das profundezas para a superfície, no alto das dunas. Lá de cima, avistou ao longe uma menina muito triste e pensativa. O coração dela doía, era possível sentir. Ao se aproximar dela, antes que a assustasse, falou: - Obrigado por vir me chamar. Só quem chora com todo o coração é capaz de me acordar. A menina ficou admirada mas não teve medo algum. Ao questionar quem era ele, descobriu que o Monstro Roncador era um protetor das dunas. Ao olhar em volta e ver todo desmatamento e crescimento da cidade, o Monstro soube que a menina temia que as dunas acabassem e que os animais sumissem. A menina, que se chamava Ju, contou para o monstro sobre o roubo de areia das dunas que vinha acontecendo cada vez com mais frequência, de tudo que ela via e de como se sentia impotente para impedir tamanha destruição daquilo que tanto amava. Ela estava sofrendo por se sentir impotente. Sozinha não conseguia proteger aquele tesouro natural.


O monstro roncador ouvia tudo atentamente e disse que ela agora tinha um amigo, um super amigo. Deu um ronco tremendo que fez abrir um buraco na areia fazendo aparecer a escada de ouro. - Vamos descer - disse o Monstro. - Antes de qualquer coisa, quero que você conheça a cidade encantada. Ao descer as escadas, Ju se deparou com uma cidade linda, brilhante e toda feita de ouro. O Monstro Roncador explicou para ela que o roubo de areia era comandado por cinco monstros disfarçados de pessoas comuns como ela. Aqueles monstros estavam atrás do ouro que havia nas dunas. Dos cinco malvados, quatro já haviam sido capturados e estavam presos e petrificados na cidade encantada. O último monstro continuava à solta e somente uma menina valente e de coração puro poderia capturá-lo. O quinto monstro tinha o poder de hipnotizar e dominar as pessoas, que trabalhavam no seu plano malvado, roubando areia das dunas. Somente derrotando o quinto monstro seria possível salvar para sempre a cidade encantada e acabar assim com a destruição. - Sua missão não será fácil - disse o Monstro para a menina. - Você precisa estar atenta, manter sua missão em segredo, confiar na sua intuição e usar este anel que estou lhe dando. Ele vai lhe ajudar a encontrar o último monstro. Depois você deverá libertar os ladrões de areia, que trabalham hipnotizados pelo Monstro Negro. Ele os faz levarem caminhões e mais caminhões de areia para descobrir a cidade encantada. A menina também ficou sabendo dos planos do Monstro Negro, que queria petrificar o Monstro Roncador e todos os habitantes da cidade encantada.


Ao sair da cidade encantada, a menina teria que usar sempre o anel. Através dele manteria contato com a cidade encantada e com o Monstro Roncador. A cada novo desafio o anel brilharia para avisar que algo estaria por acontecer. Para identificar o Monstro Negro, que estava transformado em humano, ela teria que apontar o anel para o suspeito sem que ele percebesse. Caso o Monstro Negro descobrisse que ela era ajudante do Monstro Roncador, ela estaria correndo grande perigo. Ela só poderia apontar o anel quando estivesse muito segura. - Descubra uma pessoa que tem um olho de cada cor e uma mancha preta no dedo polegar. É nesse humano que ele está transformado - completou o Monstro Roncador. A menina subiu as escadas determinada a salvar as dunas e todos que nela viviam. Quando chegou em cima das dunas o enorme buraco se fechou. Percebeu que o tempo não havia passado, mesmo ela estando horas fora de casa. Será que ela havia sonhado? Mas quando olhou pra areia viu as pegadas enormes do Monstro Roncador. E havia um anel mágico em seu dedo: era real, aquilo estava mesmo acontecendo. Sua vida já não era mais a mesma. Já no caminho pelas dunas em direção de casa notou que estava sendo acompanhada por um pássaro colorido que pousou em seu ombro e disse: - Sou mensageiro de alerta. Quando as máquinas estiverem roubando areia e cavando as dunas será hora de agir. Te aviso pelo anel com o som do meu canto . A menina agradeceu e percebeu que com a ajuda do anel, do pássaro e do Monstro Roncador ela não estaria sozinha. A tarefa não seria menos difícil. Chegando em casa, continuou atenta ao anel. Ela pressentia que algo estaria por acontecer.


E sua intuição estava certa. Às 5h da manhã ela despertou com um canto de pássaro e percebeu um intenso brilho do anel. Era um aviso. Ju saiu pé por pé e foi para as dunas. Lá estavam as máquinas, carregadeiras e caçambas, cavando e levando areia embora. Mas a menina não sabia o que fazer. Como identificar o monstro negro? Já sabia que ele se disfarçava de humano, mas como encontrá-lo? A menina se viu perdida e com muitas dúvidas. Foi quando um cachorro azul apareceu trazendo um relógio. Aquilo devia ser uma pista. Mas o que o relógio significava? Nele havia só os números 3, 6, 9 e 12. Sem saber como agir, pegou o relógio e voltou para sua casa. Há horas ela estava mergulhada em pensamentos, tentando entender qual seria seu papel na história, como deveria agir, o que significava aquele relógio, quando algo aconteceu. Eram três horas da tarde quando o tempo parou e o anel brilhou. No brilho do anel ela viu a cidade encantada e uma grande cobra que lhe falou: - Menina valente de coração puro, toma esse presente! Ele vai te ajudar a salvar a gente! E em sua mão apareceu um par de óculos. A menina perguntou: - O que faço agora? - Coloca ele nos olhos e presta atenção no que as pessoas têm no coração. Quando o relógio mágico marcou 6 horas o anel brilhou outra vez. Era mais um aviso: - Vá até a lagoa das dunas, encontre um sapo brilhante, ele ajudará no restante.


A menina saiu imediatamente, o anel no dedo, o relógio no pulso e usando os óculos. Quando olhava para as pessoas notou algo diferente. Bem no meio do peito algumas tinham uma mancha escura: eram justamente essas que nunca tinham feito nada para ajudar na luta contra a destruição das dunas. Então ela entendeu que o monstro havia endurecido o coração delas. Subiu correndo pelas areias, desceu até a lagoa formada pelas chuvas e lá encontrou o sapo. Ele logo começou a falar: - Tome esta essa lanterna. A luz dela irá tirar a mancha escura das pessoas que você encontrar. Com mais gente limpa o monstro estará sozinho. Assim estaremos juntos até o fim do caminho. Ela pegou a lanterna e voltou para casa. Naquela noite o anel voltou a brilhar. O relógio marcava 9 horas e o tempo parou. A ordem, agora, era que ela saísse com a lanterna para encontrar a coruja, que tinha uma encomenda para a menina. Pelo caminho, a menina tirou umas 10 manchas do coração das pessoas que encontrou, com a lanterna que recebeu do sapo. A coruja já esperava por ela, pousada numa estaca de cerca, e ela falou: - Hoje, à meia-noite, o relógio irá parar. Sem demora pras dunas tu irás voltar. A lua estará cheia e vai iluminar somente um círculo dourado onde o monstro irá estar. E a coruja lhe deu um espelho encantado. O espelho diria o que ela deveria fazer. A menina saiu ligeiro. No caminho sentiu um frio, mas se encheu de coragem e seguiu. À meia-noite, como combinado, o relógio parou. Ela seguiu para as dunas e lá estava a lua, brilhante e enorme. De repente em sua mão o espelho falou:


- Agora é com você! Quando o círculo aparecer iluminado pela lua, o Monstro Negro estará nele. Ele não pode se ver, então a lua mudará sua luz e o espelho ela irá iluminar. Na frente do Monstro Negro você o irá colocar. E quando seu próprio reflexo ele contemplar, no mesmo instante irá se petrificar. Boa sorte, menina valente de coração puro! Chegada a hora, a lua iluminou e um círculo enorme na areia apareceu. No centro do círculo estava o Monstro Negro. Para ter certeza, a menina Ju apontou o anel e a mancha preta no dedo e os olhos um de cada cor. A lua, então, trocou o foco de lugar, iluminando o espelho que a menina segurava. Isso ofuscou a visão do monstro, que por um instante não enxergou mais nada. A menina correu e se posicionou em frente a ele, colocando o espelho na frente do seu rosto. Foi o tempo suficiente para a visão do monstro voltar. E quando ele olhou o espelho deu um grito horroroso e retomou sua forma de monstro. Mas agora era um monstro petrificado. Quando o monstro virou pedra, as estrelas apareceram no céu, o portal se abriu na areia e a escada de ouro surgiu. A cidade encantada inteira acordou, o Monstro Roncador apareceu e cheio de emoção disse a menina: - Você salvou a nossa cidade, as máquinas não irão mais funcionar aqui, os animais estão a salvo e a vegetação voltará a florescer. Só uma pessoa valente e pura de coração poderia nos salvar. Por isso você foi nomeada a protetora desse lugar, que a partir de agora irá se chamar Dunas do Roncador. E sempre que aqui você pisar, uma flor irá nascer, que é pra você nunca mais nos esquecer.


Hoje em dia, quando Ju sobe no alto das Dunas do Roncador, no vento que assobia de leve ela consegue ouvir um ronco que parece vir de baixo. E quando ela olha para o chão, lá encontra uma flor. Ela gostaria de dizer que a história acaba assim, que todos viveram felizes para sempre. Mas ela sabe que precisa continuar lutando, junto com outras meninas e meninos valentes e de coração puro, para que as dunas sejam respeitadas e preservadas.


Jucimere Terezinha Lopes

Jucimere Terezinha Lopes nasceu e mora em Garopaba. É historiadora e trabalha com resgate da cultura tradicional. Também é proprietária e gestora da Casinha de Cultura Menina do Vento Suli, que fica no bairro Areias do Macacu, em Garopaba. Escreveu por 2 anos para o jornal Correio da Praia, onde tinha uma coluna sobre a cultura. “Amei a experiência de escrever um conto.”


Menina das Águas Júlia Prudencio Moreira


Menina das Águas Há muito tempo atrás, mas nem tanto tempo assim, uma criança sonhadora chamada Yume, que vivia bem longe daqui mas perto de outra parte qualquer, saltitava entre as pedras de um riacho que há tempos não corria, cantarolando uma canção tão antiga que não era possível traduzir: - Nanhandê, nanhandêÊêÊ... Xorumã, reiyanáhouê! O vento a acompanhava, balançando o véu que cobria seu pescoço enquanto corria ao ouvir o chamado de sua mãe para o almoço. Yume vivia em um povoado de plantadores de floresta, que há muito não plantavam, pois há muito não chovia por lá. Viviam a rezar à Grande Mãe para que trouxesse as chuvas e pudessem voltar a plantar, colher, pescar no rio e cantar com alegria. Ao final da noite, a mãe de Yume, sempre zelosa, trançava seus cabelos antes de dormir para proteção dos seus sonhos. Seu pai amoroso lhe cantava músicas alegres e engraçadas. Assim, ela vivia rodeada de amor. Contudo, na calada da noite, Yume sempre acordava chorando. Chorava sem entender a razão de tantas lágrimas e se perguntava: - Por que choro se sou tão amada?


Em mais uma das longas noites em que acordava aos prantos silenciosos, ouviu uma voz que cantava: - Nanhandê, nanhandêÊêÊ... Xorumã, reiyanáhouê! Ao ouvir este canto, que partia de dentro mas escutava vindo da floresta, pulou a janela e seguiu a música no meio da escuridão de uma noite de lua nova. Yume caminhava na direção comandada por seus ouvidos, a canção cada vez mais e mais perto a levou até a entrada de uma caverna. Quando se deu conta de onde se encontrava, caiu de joelhos no chão em prantos enquanto se perguntava: - Por que choro se sou tão amada? Da caverna surgiram dois olhos brilhantes: - Quem está aí? - ela perguntou. Uma raposa saiu da caverna dando voltas ao redor de Yume, um tanto curiosa. - Oh, bela raposa, estou perdida no meio desta floresta e tudo o que sei fazer é chorar… Você sabe me dizer por que tanto choro, se sou tão amada? A raposa colocou em frente aos joelhos de Yume um colar com um pingente de cristal e sorrateiramente falou: - Tuas lágrimas são pontos de luz, minha menina. Entra na caverna, faz as perguntas corretas e encontrarás o que procura.


Yume olhou para aquela imensidão escura e pensou: “como posso iluminar o caminho nesta escuridão?” De repente, uma lágrima caiu dos seus olhos e esparramou-se no cristal fazendo-o irradiar uma luz púrpura que iluminou toda a escuridão. Assim, entrou na caverna úmida onde ecoava o som que Yume perseguia. Caminhava lentamente, sentindo em sua nuca uma brisa leve do respirar da raposa que a acompanhava. Na sua frente o chão ficou escuro. Era a beira de um precipício cujo fim nem mesmo o brilho do cristal em suas mãos conseguia iluminar. Do outro lado da escuridão viu um brilho pequenino e falou para si mesma: - Quero alcançar o outro lado desse precipício, mas como posso atravessá-lo? A astuta raposa apontou para a parede da caverna onde havia uma trilha possível de se escalar. E a menina começou escalar pela parede olhando sempre em frente, sem hesitar! Após a travessia, da outra borda do precipito a raposa disse: - Agora podes seguir sozinha o teu caminho. Yume seguiu confiante, porém estava muito cansada e deitou entre musgos, pedras e lágrimas, caindo em um sono profundo. Em seus sonhos surgiu um ser de luz azul celeste cantando a mesma canção que ela vinha seguindo desde que saíra de casa. O ser de luz, em meio a canção, se dirige a Yume: - Oh, minha querida menina, teu choro alimenta os rios desta terra sagrada!


Neste momento, Yume viu o mundo de cima e como suas lágrimas caiam feito chuva enchendo de água os rios que percorrem as matas. Yume seguiu voando e, por onde passava, ia se derramando e inundando. Até que pousou no topo de uma montanha, sem acreditar no que havia visto. Seguiu por um caminho e pouco a pouco foi se aproximando de uma enorme coruja, a quem logo perguntou: - Olá, bela coruja, você sabe por que choro? - Oh, pequena. Teu choro é a benção que dá vida. E entregou a ela dois leques de penas, cada um confeccionado a partir de uma de suas asas, e disse: - Quando precisares, agita um dos leques que ele irá te ajudar. Sem entender o que separava a realidade dos sonhos, Yume recebeu o presente de bom grado, seguindo sua caminhada por uma estrada muito estreita pelo topo da fina montanha. Um pequeno deslize e poderia cair lá do alto. Caminhava um passo de cada vez, um pé na frente do outro, com os braços equilibrando ao lado do corpo. De um lado via um mar de montanhas nevadas e do outro um oceano de um azul marinho profundo. - Que saudade - suspirou. Enquanto caminhava atenta para não cair lá do alto, foi chegando a uma pequena floresta de onde ressoava: - Nanhandê, nanhandêÊêÊ... Xorumã, reiyanáhouê!


Ela foi se aproximando e percebeu que haviam muitas vozes cantando juntas. Foi se aproximando, se aproximando, adentrando a floresta entre cipós e folhas… Até que avistou uma cortina de flores. Sentiu-se como se estivesse em casa e todo o caminho lhe parecia familiar. Quando abriu a cortina de flores viu milhares de pequenas borboletas de duas mil cores diferentes. Com o olhar mais atento, viu que todas as borboletas eram fadas e tinham suas asas presas em fios de ouro. Percorreu com os olhos para onde os fios de ouro guiavam e percebeu que estavam presos por um grande cadeado. Ao lado do grande cadeado havia um trono dourado, ornado com pedras preciosas. Sentado neste trono, um ser tão medonho e gosmento que fez Yume gelar de medo. Yume estremeceu quando o Ser Horroroso gritou soltando labaredas de fogo pela boca a apavorando as pequeninas fadas. - Quieta! Eu não aguento mais essa maldita música! Não percebem que ninguém irá ajudar vocês a sair daqui? Nunca mais cairá uma gota de água sequer nesta terra enquanto eu reinar sobre o Poço das Águas da Vida. Beberei todas as suas lágrimas e receberei assim a vida eterna! Yume estava tremendo de medo, chorava por não saber o que fazer. Seu choro novamente tocou o cristal que se iluminou! Cada lágrima que caía no cristal o fazia brilhar, mais e mais intensamente! A luz era tanta que chamou a atenção do ser medonho: - Mas o que é isso? Que luz irritante é essa? Quem está aí?


E o medonho, levantou-se do trono, andou com passos pesados em direção a Yume. Tremendo de medo, ela se lembrou do leque que recebera da Sábia Coruja e rapidamente o agitou. O leque saiu voando disparado, dando voltas e voltas ao redor daquele ser horroroso. Ele tentava agarrar o leque com as mãos, girando, girando e girando, até ficar tão tonto que no chão. Na queda, o horroroso caiu numa pedra pontuda, batendo a cabeça com tamanha violência que ela partiu-se ao meio. As fadinhas logo avistaram Yume e a saudaram: - YUUUME! - Como vocês sabem meu nome? - Você é a guardiã do Poço das Águas da Vida! Aquele Ser Horroroso veio para tomar toda a água só para ele e nos prendeu todas aqui, inclusive você. Mas você escapou e agora retornou para nos salvar. Yume então se lembrou, como se tivesse sido num sonho, de quando havia caído na Terra enquanto o Ser Horroroso a perseguia. Com ajuda dos poderes do leque mágico, libertou as suas companheiras que voavam alegres à sua volta. As fadinhas a guiaram para o trono, onde Yume sentou e chorou, feliz por entender que é seu choro que abunda a Terra seca e que torna possível a vida fluir outra vez. Sentia saudades da família que a acolhera com tanto amor, mas sabia que seu lugar era ali. Pegou um dos leques e abanou. O leque fez um vento tão forte que levou nuvens carregadas para o povoado de onde tinha vindo, enchendo o riacho que por muito tempo estivera seco. E quando chegou a chuva, enquanto as gotas caíam, todos puderam ouvir: - Nanhandê, nanhandêÊêÊ... Xorumã, reiyanáhouê!


Júlia Prudencio Moreira

Julia Prudencio Moreira nasceu em São José SC e mora em Florianópolis. É formada em Ciência e Tecnologia de Alimentos. Atua como consultora de alimentos. Desde criança escreve textos e poemas como forma de compreender suas emoções e descrever as paisagens por onde passa. Há algum tempo visualizou uma menina em seus sonhos e a oficina foi uma linda oportunidade de dar vida a essa personagem.


A Boneca e sua jornada em busca da Erva-flor da Vida Kathia Regina da Silva


A Boneca e sua jornada em busca da Erva-flor da Vida Essa é uma história que aconteceu nos dias atuais. Em um sítio havia uma família camponesa com uma menina e sua boneca Lelê. A menina tinha sobre si um feitiço, enviado por uma bruxa que morava perto de sua casa, malefício que a enfraquecia e a cada dia ia lhe sugando a vida. A bruxa enfeitiçou a menina por essa ser muito boa, bela e amada por todos, ao contrário dela, que era muito feia, malvada e odiada. O feitiço só seria só quebrado com o consumo de um chá feito com uma erva encontrada no final de um lugar chamado Caminho das Flores. No entanto, para chegar ao Caminho das Flores e finalmente encontrar a erva milagrosa seria necessário passar pelo Caminho das Trevas. A menina tinha uma boneca chamada Lelê que era muito especial. Lelê não tinha olhos, não enxergava, mas tinha os outros sentidos muito aguçados. Era uma boneca de pele escura e cabelos longos cacheados. Ela era linda de morrer. A menina e a boneca eram muito unidas, sempre estavam juntas. A boneca vivia no quarto encantado da menina, onde havia se tornado uma boneca-menina sem olhos. O maior medo da boneca era perder sua companheira por causa do feitiço e resolveu, certo dia, sair do sítio em busca da erva milagrosa que salvaria a menina e traria de volta a felicidade. A boneca Lelê saiu caminhando sem muito saber para onde, na sua escuridão de meninaboneca sem olhos. Em certo momento, cansada, sentou. Aproximou-se da boneca, a seguir, um Cachorro de Borracha com tamanha elasticidade que podia se transformar em qualquer coisa e ir para qualquer lugar. Parou diante dela e disse: - Sou amigo do homem, e você ? Quem é você?


A boneca lhe respondeu: - Sou amiga e irmã de uma menina. Só que ela foi amaldiçoada e tenho medo de perdêla. O Cachorrinho de Borracha logo pegou partes de seu corpo e as transformou em três belos presentes que entregou a menina. O primeiro era uma estrela azul. Ela seria a luz, a visão, a orientação para menina ultrapassar o Caminho das Trevas, chegar ao Caminho das Flores e finalmente encontrar a erva. O segundo era um pote com pó mágico que lhe daria força e resistência na caminhada. O terceiro era um balão, que poderia ser usado para levar a boneca a qualquer lugar, apenas usando o pensamento. O Cachorrinho de Borracha entregou os presentes para a boneca. Ela agradeceu e seguiu seu caminho. O primeiro obstáculo da jornada era passar na rua onde morava a bruxa. A boneca pegou o balão que ganhara do Cachorrinho de Borracha e sobrevoou a casa da bruxa sem ser percebida. A boneca seguiu caminhando até se deparar com um Lago. Do outro lado do lago começava o Caminho das Trevas. Mais uma vez ela utilizou o balão, sobrevoando as águas e pousando na outra margem. Então ela começou a trilhar o malfadado caminho. Pegou a Estrela-Azul e imediatamente uma luz se fez ao seu redor. A escuridão que impedia e amedrontava quem chegasse a esse lugar foi quebrada pela magia da luz. A Boneca percebeu que o Caminho das Trevas era, na realidade, uma linda floresta com uma natureza exuberante, com muitas árvores frutíferas escondidas pela falta de luz. Dessa forma, ela atravessou o caminho sem problemas. No final do Caminho das Trevas havia um pequeno caminho de pedras cercado de flores. Era o início do Caminho das Flores. Dali avistava-se, ao longe, uma pequena casa.


A boneca, após uma grande caminhada, aproximou-se da casa. Quando abriu o portão que dava para o quintal, uma grande fumaça se formou e de dentro da névoa saiu uma fada. A fada tocou o ombro da boneca e lhe entregou uma flor: - Esta flor é a recompensa pelo seu esforço na tua jornada. Leve-a para casa para salvar sua amiga menina. E a boneca reconheceu que aquela era a Erva da Vida. Feliz com sua conquista, a boneca fez todo o caminho de volta, partindo do Caminho das Flores, passou pelo Caminho das Trevas, sobrevoou o lago e chegou na estrada onde morava a bruxa que havia enfeitiçado a menina. Dessa vez a boneca preferiu passar pela casa da bruxa andando, sem utilizar o balão, mas não teve muita sorte. Bem na hora em que passava em frente à casa, a bruxa abriu a janela para se espreguiçar e viu a boneca com a erva-flor da vida na mão. A bruxa logo se deu conta do que estava acontecendo. Sabia que se tratava da erva-flor e foi logo pra cima da boneca exigindo que lhe entregasse aquela preciosidade. A boneca sentiu a bruxa com todos os seus sentidos: seu cheiro, sua respiração, sua fala e também sua visão proporcionada pela luz azul. A boneca era muito esperta e pensou numa forma de se livrar da Bruxa. - Eu sou uma pobre boneca sem olhos que nada vê. Se você quer muito, posso lhe dar a erva-flor. Mas antes ela precisa ser colocada no meu quarto mágico, sobre um tapete, para adquirir força e vivacidade. Depois disso você poderá pegá-la.


Na realidade, no quarto mágico da Boneca havia um buraco-portal para a prisão das bruxas e todos os seres do mal. A boneca cobriu o portal com um tapete e sobre este colocou a erva-flor. A bruxa, ao chegar sobre o buraco-portal, foi sugada pelo mesmo e desapareceu. A boneca Lelê fez o chá da erva-flor da vida para a menina, que depois de beber ficou curada. E viveram juntas e felizes para sempre.


Kathia Regina da Silva

Kathia Regina da Silva (Thata) nasceu e mora em Florianópolis. Especialista em Psicopedagogia, com graduação em Pedagogia, Letras e Design Gráfico. É professora aposentada da Rede Municipal de Educação de Florianópolis e hoje atua como Professora Auxiliar de Ensino Infantil. Sempre foi encantada pela Literatura, pelas palavras e do seu poder. Tem uma relação intensa com a escrita acadêmica, ao longo de toda a sua carreira.


O Giramonstro Letícia Zaneti


O Giramonstro Gira vem da girafa, e monstro vem do conto. Gira também pode ser do conto, já que gira, gira roda e o ponto e a direção. O tempo e o vento. Giramonstro, assim como todos mamíferos, possui sete vértebras cervicais. Sete é sagrado, misericórdia! Sobre sua parte girafa: devido ao imponente e exibido pescoço, tem a maior pressão sanguínea do reino animal. Quando bebe água, a pressão da sua cabeça aumenta tanto que só não explode, devido aos seus poderes mágicos. Quando abaixa o pescoço, o pó de pirlimpimpim faz com que essa pressão que vem do coração jorrando quente, jorrando vigoroso, jorrando nervoso se dilua nas veias menores de sua cabeça. Assim não morre cada vez que deseja matar a sede. Mas essa sede nunca mata! nunca é morta… ou será que morre cada vez que se sacia? Se sacia? Já sobre a parte monstro: ah, essa danada! Ela aparece, quando a “fa” se vai, volta fa! São sete notas musicais: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. La si vai a fá. De ré fá, mas fá não tem dó de mi, e não mostra o sol quando se vai, apenas mostra o monstro. O monstro não vem com os sete dons do espírito santo, nem pelas sete cores do arco-íris, nem contando os sete dias da semana. Ele vem bruto, cavalar, sem pedir licença. E entra, e assola… aumentando a pressão… da cabeça, mas essa não se dilui nas veias… É bom quando é Giramonstro, duro quando é girafa, e “fa” se vai, sem avisar, deixando a porta aberta para o monstro entrar. Quando é Giramonstro, gira sabe que “fa” irá e monstro virá. Assim, Giramonstro consegue pegar o pó de pirlimpimpim e brincar com o monstro. Quem vê é simples assim… Mas Giramonstro vem tentando brincar, e desde quando descobriu que é importante brincar?


Giramonstro nasceu numa cidadezinha longe, longe. Quando ficou grande, foi para a cidade grande. Lá encontrou o seu grande amigo Golfinho, que não possui um pescoço grande, grande, mas possui um grande, grande cérebro, só menor que o dos seres humanos. Eles são autoconscientes e até mesmo se reconhecem quando refletidos no espelho! Giramonstro foi tomar água embaixo da ponte, e lá apareceu o formoso e charmoso golfinho, mergulhando e fazendo piruetas no ar, para encantar o mar e provocar o exclamar! Quando viu Giramonstro, exclamou: - Amigo, vem por aí grande, grande tempestade. Precisamos passar para o outro lado da ponte. Eu vou pela água e te encontro lá. O seu caminho por terra terá muitos desafios, mas pegue este pó de pirlimpimpim que irá te proteger! Ainda neste lado da ponte, ao olhar o seu reflexo na água, Giramonstro se via girafa. Mas estava chegando o dia em que o monstro viria. E a tempestade se aproximava… Giramonstro então se preparou para atravessar a ponte, recolheu seus pertences e lá se foi sozinho. Mas deixou para sair já muito tarde, e podia ouvir os raios e trovões. Caiu num buraco, mas com as suas próprias pernas longas, conseguiu sair. Andava, andava, e o outro lado da ponte parecia uma miragem, começou então a ficar muito nervoso, quando se lembrou do pó de pirlimpimpim e jogou um pouco por sua cabeça para se acalmar. Via muitos outros animais, mas todos corriam desesperados para alcançar seu destino.


Finalmente, ao chegar do outro lado, encontrou novamente seu amigo Golfinho. Nessas outras águas, do outro lado da ponte, ele se via apenas monstro. E chorava cada vez que se mirava o próprio reflexo. Neste grande desafio, nem mesmo o pó conseguia ajudar. Mas seu grande amigo não lhe deixava na mão. O Golfinho, ao ouvir o choro do Giramonstro, bebia suas lágrimas e disparava palavras de muito afeto. Com isto, conseguiu fazer com que Giramonstro se visse novamente Giramonstro, e não só girafa, e nem só monstro. A tempestade passou, as águas ficaram muito quentes, o que fez com que o Golfinho fosse para as águas do norte, mais geladas. Giramonstro então resolveu desatravessar a ponte, voltar para o outro lado, mas agora não só como girafa, nem só como monstro. E sim, devidamente reconhecido como Giramonstro. Mesmo assim, ora a parte girafa ficava maior, e ora a parte monstro. Mas ele tinha aprendido com seu esperto amigo Golfinho que não adianta brigar e lutar para que a parte monstro se vá. Vida é luta. Mas brigar com o monstro sangra. Leve é rir dele, e rir com ele. Golfinho já tinha partido, mas Giramonstro guardava seu pó de pirlipimpim, com sua magia. E que magia! Poder brincar com a parte monstro é só para quem tem o pó, e tem a magia! Assim, voltando pela ponte, havia os mesmos buracos, ou talvez maiores, e mesmo depois de caminhar bastante, o outro lado ainda parecia distante, mas para que pressa? Ainda havia tempo…


E com o tempo, deste outro lado, o lado de cá, descobriu com uma magia ainda maior que as partes não eram só duas, mas ora nenhuma, ora cem, ora cem mil de giras partes que continuavam a girar e a se entrelaçar e emaranhar nestes tantos buracos, desafios e alegrias da vida. Os desafios não cessam, ora são poucos, ora são muitos, ora vêm a galope, ora vem de carona, ora são brisas… Agora, o novo desafio de Giramonstro é aprender a brincar com todas as partes, não julgá-las, não reprimi-las, não querer mudá-las, mas aceitá-las e acolhê-las, sem nem mesmo perguntar-lhes o nome na porta de entrada. E de mãos dadas, cirandar.


Letícia Zaneti

Letícia A. L. Zaneti nasceu em Sorocaba-SP, cresceu em Laranjal Paulista-SP, e atualmente vive em Florianópolis-SC. Fez mestrado na área de energia elétrica, e atua como engenheira eletricista na Celesc, tendo paixão pela área acadêmica, onde publicou alguns artigos na área de sua pesquisa. Em seu tempo livre se aventura por experiências em outras áreas, com grande interesse pela psicanálise e temas relacionados. Escrever esta história foi una dessas aventuras, sendo um desafio entrar num inimaginável percurso dos contos de fadas.


A bruxa Kéka e a montanha Peripê Valéria Silva de Souza


A bruxa Kéka e a montanha Peripê Mora em uma floresta nos arredores da cidade de Londres, uma bruxa de cabelos loiros e rebeldes, de olhos claros e de personalidade, diria, um pouco forte. O nome dessa bruxa é Kéka e, sem família próxima, ela vive com seu gato Sapeca e seu papagaio Orlando que não para de falar. Quando a mãe de Kéka foi morar no céu, deixou uma caixa com fotos e pertences de seus parentes que moravam distantes, em um lugar cheio de montanhas, chamado de Peripê. Certo dia ela resolveu partir em busca desse lugar. Pegou suas roupas, e seus companheiros Sapeca e Orlando, e partiu em busca de uma aventura cheia de emoções! Kéka, já cansada de andar, chegou em frente a um rio e começou a falar com ele. Apontou sua varinha mágica e falou: - Rio, riozinho, como vou fazer para chegar na montanha Peripê, onde mora parte da minha família a qual tenho que encontrar? O papagaio Orlando ficava repetindo o que Kéka falava, enquanto o gato fazia um olhar muito curioso, passando sua pata pelo rosto. De repente, o rio olhou para ela e lhe entregou uma pedrinha brilhante, dizendo que essa pedrinha voltada para o sol lhe mostraria o caminho da montanha Peripê. Mas alertou também que, para chegar lá, ela teria que passar por um castelo onde morava um vampiro malvado e por uma ponte pênsil muito grande. O papagaio, com medo, pulou no braço de Kéka. Já o gato, valente como só, ia andando ao lado dela, como que para proteger seus amigos.


De vez em quando ela apontava a pedrinha para o sol e ia assim seguindo seu caminho. Eis que a noite caiu e eles pararam embaixo de uma grande árvore para dormirem e descansarem. Na calada da noite, em meio a uma forte neblina, escutaram um barulho que vinha das plantas da floresta. A bruxa Kéka fez uma poção mágica, e eis que de repente surgiu uma parede de vidro para protegê-los. Mas o barulho persistia e eis que saindo da vegetação surgiu um mágico com uma grande cartola. Ele disse à bruxa que havia encontrado um espantalho, dono de uma grande plantação de milho, e que o mesmo havia dito que o mágico precisava encontrar e ajudar Kéka a achar a grande montanha. A bruxa contou toda a sua história ao mágico Petruko e ele lhe disse que, para chegar na montanha, ela precisaria entrar na biblioteca de um castelo e salvar um objeto que lá se encontrava. Ela arregalou seus olhos pensando em como poderia fazer isso. Teria que contar com a ajuda de seus amigos! O mágico disse que esse objeto era uma pata de coelho branca, com pedrinhas de pérolas. Que a pata de coelho era mágica e iria ajudar a bruxa e seus amigos a fazerem a travessia da grande ponte pênsil. Então, Kéka e os dois companheiros partiram ao amanhecer. O mágico resolveu seguir com eles. Chegam em um vale onde encontraram uma vila de pessoas verdes e de orelhas grandes! Lá eles descansaram e tomaram um delicioso café da manhã com borboletas assadas e maçãs, que havia colhido pelo caminho. O mágico Petruko fez uma cara feia e, num passe de mágica, tirou de dentro da cartola vários sanduíches fresquinhos. Todos começam a rir e a comer.


Depois do café da manhã, seguiram a caminhada. Kéka seguia sempre com a pedrinha nas mãos e avistou ao longe o castelo. Porém, o caminho até lá começou a ficar grudento e pegajoso como balas de goma. O mágico começou a repetir uma palavra mágica: WAURÁ, WAURÁ e, nesse momento, eles flutuam até o castelo e se livram do caminho pegajoso. Quando chegaram na entrada do castelo, Kéka quis entrar sozinha, mas o papagaio protestou, o gato miou e o mágico Petruko olhou para ela com ar de desconfiado. Então decidiram entrar juntos, um atrás do outro. O castelo era de arrepiar e lá dentro era terrivelmente frio. O gato esbarrou em um vaso e o papagaio assustado bateu na parede. Todos ficaram parados feito estátuas. O mágico pediu silêncio, pois naquele momento a bruxa estava pensando em uma forma de abrir a porta da biblioteca. Foi quando encontraram uma porta que ficava ao lado de uma grande escada. Kéka mexeu seu nariz de um lado para o outro e PUM!! a porta da biblioteca se abriu! Lá dentro tudo se transformou, tudo era colorido feito um arco íris, muito lindo mesmo! Começam a procurar a pata de coelho com pedrinhas de pérolas. Quando um raio de sol entrou por um cantinho da janela que estava aberta, Kéka pegou sua pedrinha brilhosa e apontou para o facho de luz. E eis que o brilho da pedra foi direto para uma gaveta que estava fechada a sete chaves. Eles estavam tentando abrir a gaveta quando escutaram um barulho na porta. O papagaio ficou branco de medo, o gato subiu na janela e o mágico correu para se esconder em um canto da sala.


Mas para surpresa deles, era só o vento que entrava para ajudá-los! Kéka pegou sua varinha mágica e com a ajuda do vento as sete chaves começaram a aparecer uma por uma, caindo sobre a mesa. Assim, conseguiram abrir a gaveta. Lá de dentro saiu uma luz brilhante, e a pata de coelho voou para as mãos da bruxa. Receosos de sair pela porta, decidiram descer pela janela da biblioteca. O vento ajudou na descida, colocando um por vez no chão. Como agradecimento, Keká deu para o vento um presente: um pedacinho de nuvem em forma de balão, para que ele se divertisse soprando. O vento, feliz da vida, deu um sopro gigante que transportou Kéka e seus amigos até pertinho da ponte pênsil. Eles teriam que cruzar a ponte em direção à montanha Peripê, mas não podiam ser vistos pelo vampiro que morava na torre do castelo. Então a bruxa pega a pata de coelho mágica e ordenou: - Eu e meus amigos essa ponte temos que atravessar e em coelhos temos que nos transformar! E assim, quatro coelhinhos atravessam a ponte tranquilamente, sem serem notados. Assim que atravessam a ponte a mágica se desfez e eles voltam ao normal. Diante deles surgiu uma grande subida que os levaria até o alto da montanha. Mas todo o esforço para chegar lá valeu a pena: era uma vista magnífica. O céu de um azul de brigadeiro se misturava com o verde da montanha e as casinhas todas vermelhas com as telhas branquinhas feito neve. As pessoas que ali moravam vieram ao encontro deles com olhares de curiosidade. O mágico, o gato e o papagaio, sempre juntos com Kéka, observavam a cena com apreensão.


Por fim veio até os visitantes o Príncipe que cuidava do povoado e da montanha. Ele se chamava Padoke. Keka então se apresentou e lhe entregou a caixa que sua mãe havia deixado para ela, revelando para o Príncipe o objetivo de sua visita e seus laços familiares. O príncipe, desconfiado, ali mesmo abriu a caixa e viu as várias fotos, cartas e alguns pertences que indicavam que ela falava a verdade. A bruxa Kéka era sua prima. O príncipe Padoke ordenou que fizessem uma grande festa no povoado para comemorar a chegada da sua nova parente. O mágico Petruko se despediu deles depois da festa, pois sua missão é continuar ajudando outras pessoas. Eles se despediram com um grande abraço! A bruxa, com Orlando e Sapeca, foi para a casa que ganhou do príncipe, mas não conseguiu dormir. Ela observou que a única coisa que tinha em comum com aquelas pessoas, seus parentes, era o corpo fino. Ficou pensando em como eles têm as orelhas compridas, o nariz bem pequeno, bem diferentes de suas orelhas e seu nariz. Então, naquela mesma noite, a bruxa saiu de sua casa e entrou montanha adentro pela neblina a fim de fazer uma poção mágica para que ela pudesse ficar mais parecida com aquele povo. Chegando numa grande cachoeira, fez uma fogueira, olhou para o céu e pediu a ele um pedacinho da lua e a pontinha de uma estrela. Pegou a garrafa e ficou a olhar para o céu, aguardando. Quando um pedacinho da lua e da estrela caíram dentro da garrafa, ela completou com água da cachoeira e pediu para um vagalume que por ali passava que colocasse um pouco do seu brilho dentro da garrafa. Tudo isso feito, pronunciou as palavras mágicas: - Lua e estrela, brilho de vagalume, quando acordar, neste povo quero me transformar!


A bruxa voltou para sua nova casa, acordou seus amigos e os três tomaram a poção mágica. Ao amanhecer, eles se viram no espelho e ficaram muito contentes. Agora sim, pertenciam ao povo da montanha. Kéka, que já tinha o corpo fino, agora tinha também as longas orelhas e o nariz pequeno. O papagaio Orlando e o gato Sapeca haviam se transformado em dois garotinhos fininhos, de orelhas grandes e nariz pequeno também. Quando o príncipe viu a transformação que tinha acontecido, não conseguiu segurar a alegria e deu um grande abraço na bruxinha. E ela, com um piscar de olhos, fez com que caísse do céu uma chuva de prata brilhante! E Kéka encontrou um novo lar, vivendo para sempre feliz!


Valéria Silva de Souza

Valéria Silva de Souza nasceu em Florianópolis e desde os 21 anos mora em São José. Hoje aposentada, trabalhou no comércio. Sempre gostou muito de ler e escrever. Tem dois filhos, duas noras e uma netinha. “Através de meu filho e nora conheci a Cia Mafagafos e me inscrevi para o curso. Gostei muito de ter participado desse aprendizado, do conhecimento que agregou.


Desventuras de Adeline, a Joaninha Azul Vanessa Ibrahim Martins de Castro


Desventuras de Adeline, a Joaninha Azul Quem a via assim, envolta em azul tão brilhante, não imaginava o que havia por debaixo daquele casco. Adeline acabara de fazer 18 dias e levava uma tristeza grande para um corpo de apenas 5 milímetros. Desde cedo, percebeu que não fazia parte daquele lugar. As outras a olhavam no jardim com um misto de repulsa e dó. Também havia quem risse, perguntando se tinha chegado o carnaval para estar fantasiada. O fato é que era diferente e o que mais desejava era vestir aquela capa, símbolo de felicidade e boa sorte, que qualquer boa joaninha tem: vermelha de bolinhas pretas. Até que um dia cansou de se sentir só e, com asas empoderadas, decidiu partir. Mas, nem bem começou a aquecer suas asinhas, a Aranha, chefe do jardim, chamou: - Aonde pensa que vai, Adeline? Por acaso acabou seu trabalho? Exterminou os pulgões desse girassol? Já tinha reparado que você é vaidosa e gosta de perder tempo observando seu reflexo no vidro da varanda. Deve se achar! Saiba que nesse jardim não vou tolerar preguiça, não foi pra isso que nos trouxeram aqui! Adeline então se lembrou de que não era tão livre quanto pensava e pôs-se a chorar debaixo de uma pedra. - Por que choras, pequena? Disse a falsa pedra, revelando o idoso Caramujo que estava abrigado tirando uma soneca. - Porque ninguém me entende nesse jardim. Sou desse azul esquisito, acho um tédio caçar pulgões e nem sei se dou sorte às pessoas. Como posso ser tão diferente?


- Menina, eu sei bem como é ser diferente. Sou um caramujo africano vivendo no Brasil. Depois que descobriram que eu não falava francês, foi um vexame e eu tinha vergonha de mim. Só me libertei desse sentimento ao conhecer minhas origens. Acho que você precisa disso, saber de onde veio, para descobrir quem é. Minhas antenas me dizem que isso vai acontecer, basta seguir a sua intuição rumo a… E se pôs a pensar por um minuto, buscando no ar algo com suas antenas… - Ao extremo leste! - concluiu. - Como você pode saber disso? - Disse a joaninha desconfiada. - Sou lento, porém esperto. Esses meus olhos espichados já viram muita coisa pelo mundo, mas não tenho mais idade para zanzar por aí. Tome este amuleto vodum. Quando precisar, segure-o com força e diga: "Grigri, tire-me daqui!" Mas atenção, porque só poderá fazer isso seis vezes. Ela olhou curiosa o pequeno saquinho de pano com o número 6 bordado e nem deu tempo de perguntar nada… Uma chuva de sal caiu sobre o pobre caramujo, que logo foi desidratando até morrer. Adeline ouviu, assustada, a risada cruel da Aranha. Flutuava acompanhada de seu fiel escudeiro, o Pardal, que carregava no bico o saco de sal. Adeline voou rápido em direção ao reflexo que sempre a encantou… até dar de cara com a vidraça da casa. Fugindo da dupla, entrou rápido por uma fresta. - Vejam só que coisinha mais blue foi aparecer aqui hoje! - Chiou uma topetuda Calopsita.


- Boa, boa tarde! - Disse Adeline, sem jeito. - Minha mom me contou que existia petisco, err, quer dizer, bicho assim na terra dela… Mas eu mesma nunca vi. Quero provar, digo, me apresentar… Chegue mais perto para que eu possa admirar todo esse brilho. Adeline achou estranho alguém a elogiar, mas bem que ficou curiosa com a história da mãe da Calopsita. Aproximando-se lentamente com seus micro passinhos, perguntou: - E sua mãe vem de onde? Do leste? A Calopsita deu um pulo para abocanhar a pequena, mas a asa ruim fez com que o pássaro capengasse, errando o alvo. Desesperada, Adeline se agarrou ao amuleto: - Grigri, tire-me daqui! E num piscar de olhos estava em outro lugar… Nas costas de uma foca que nadava pelas águas geladas da Antártida! - Você já foi ao extremo leste? Perguntou Adeline à Foca. - Siiim, já estive presa num aquário por lá! Nem passo mais perto, calor horrível! A Foca já ia mergulhando quando Adeline lembrou que não sabia nadar. E usando o amuleto pela segunda vez, repetiu: - Grigri, tire-me daqui!


Como o virar de uma página, lá estava ela, no lombo de um dromedário no deserto do Saara. - Aqui faz calor, é o extremo leste, senhor Dromedário? - Bom, eu já ouvi falar de outros desertos mais ao leste, menina. Lá os bichos grandes não andam, pulam! Uma tempestade de areia vinha chegando e tomou seu pequeno corpinho num redemoinho. Enjoada, Adeline não teve escolha a não ser usar pela terceira vez sua frase mágica: - Grigri, tire-me daqui! No sussurro do vento, a Joaninha foi parar no cocuruto de um pelicano que observava tranquilo o vaivém marítimo, do alto de um penhasco da Grécia. - Senhor Pelicano, aqui há animais que pulam? - Pequeno ser metálico, você chegou ao berço de uma das civilizações mais antigas e importantes que já existiu! Disse o pássaro em tom teatral. - Desculpe, estou procurando um extremo leste quente e seco, parei aqui! - Olha, mais ao leste também há muito conhecimento ancestral, você faz bem em ir para aqueles lados!


De repente um Coiote faminto saiu da mata e sorrateiramente se aproximava para tentar almoçar o Pelicano e sua amiga. Antes que acontecesse uma tragédia, Adeline recorreu pela quarta vez ao amuleto: - Grigri, tire-me daqui! E assim como chega a chuva, a pequenina caiu sobre um Gafanhoto que voava pela China. - Senhor Gafanhoto, já estou perdendo a esperança, por favor, me diga: sabe de um lugar quente, seco, com animais saltitantes, conhecimento ancestral e… - Joaninhas azuis? - Isso! - Pois estou indo para lá, disse o imenso inseto. Eu e essa nuvem de 40 milhões de amigos! Lá há muito por comer, junte-se a nós! Adeline ficou um pouco contrariada com a ideia, porque o que queria mesmo era andar com um bando de joaninhas, não de gafanhotos. E quando uma fumaça inseticida começou a pairar sobre eles, pela quinta vez usou o amuleto, sussurrando, já tonta: - Grigri, tire-me daqui!


Adormecida sob uma folha, estava Adeline. Suas asas estáticas refletiam as dezenas de joaninhas ao seu redor. Eram azuis! E verdes! Despertou com o zumbido das colegas, que se apresentavam: - Sou Verdine! - Prazer, Marine! Mas esse instante de boas-vindas não durou muito… Foram interrompidas por outra aranha que também mandava por ali: - Todas ao trabalho, caçar pulgões! Inclusive você, dorminhoca! Passaram os dias e Adeline já tinha uma melhor amiga verde - o que a deixava muito feliz. Mas estava enjoando de ficar ali, a caçar pulgões na Austrália. De braços dados com Verdine, resolveu usar pela sexta e última vez seu amuleto, desejando com força cumprir seu destino: levar sorte a alguém e ser também feliz. - Grigri, tire-me daqui! Adeline e Verdine pousavam agora entre os adereços metálicos de uma coroa… Enfeitavam de azul e verde a rainha de bateria de uma escola de samba lá pelos lados do Continente, em Florianópolis, de volta ao sul do Brasil. E adivinhe só se não foi a Unidos da Coloninha que venceu, naquele ano, o carnaval?


Vanessa Ibrahim Martins de Castro

Vanessa Ibrahim nasceu em Santos e reside há dez anos em Florianópolis. É formada em Jornalismo, tendo atuado em veículos de imprensa e assessorias de comunicação em órgãos públicos. Especialista em Arte, decidiu há algum tempo aventurar-se pela arte da palavra, realizando oficinas de escrita e integrando clubes de leitura. Ao lado de suas duas filhas, diariamente faz passeios noturnos pela literatura infantil, mas a ponte entre a escrita e as crianças se ergueu somente na oficina oferecida pela Cia Mafagafos. E assim nasceu, tímida mas brilhante, uma joaninha azul, alçando voo à escritora nesta estreia em publicação ficcional. É esperado que dê sorte!


Uma história do mar que o vento trouxe Yhandê Aguiar


Uma história do mar que o vento trouxe Era uma vez um dragão chamado Juvenal. Ele era o ator do conto da Bela Adormecida e estava de folga naquele dia porque nenhum adulto queria contar aquela história para uma criança. Todo mundo acha que dragões são animais bravos porque são enormes, têm garras e dentes afiados e cospem fogo, mas a verdade é que eles só soltam fogo pela boca quando comem melancia demais e não conseguem segurar o arroto. Dragões tem uma fome infinita e melancia é uma comida que eles adoram, mas faz mal. Por isso, o que acabam comendo mesmo é bolacha maria. Uma vez, há muito tempo atrás, um viajante viu um dragão bem quando tinha comido 30 melancias e achou que todos os dragões eram assim o tempo todo, o que não era verdade. Daí começaram histórias malignas com dragões. Na maior parte do tempo, as criaturas gostam de voar pelo céu dando saltos muito altos e fazendo piruetas. A hora que Juvenal mais gostava de dançar era o pôr do sol, e por isso escolhia voar bem baixo no céu, em cima do mar. No último raio de luz do dia, ele sempre fazia um passo de dança que rompia a linha do horizonte, deixando ele todo molhado da água. Ele gostava de fazer isso porque dizia que combinava com o momento em que o sol trocava de turno com a lua. Sua apresentação era autêntica de verdade, com alma. Certo dia, já chegando no final da coreografia, Juvenal escutou o canto maravilhoso de uma baleia, que fez ele se desconcentrar. O dragão, então, parou imediatamente com a dança e começou a procurar pelo en(canto) de baleia. O canto entoado pela baleia misteriosa tinha começado ainda no pôr do sol e entrou noite adentro.


O dragão, com pouca ajuda das estrelas que tinham acabado de chegar, procurava por um cantinho onde pudesse ver a baleia, mas não conseguia entender de onde vinha o som. Depois de sobrevoar o mar por muito tempo, Juvenal avistou um cardume de peixes voadores e decidiu se aproximar: - Procuro pelo líder desta empreitada. Preciso da ajuda de quem entende de mar para me levar até esta baleia que canta tão lindamente. Toda aquela peixarada entendeu que o dragão precisava falar com Inácio, que bem via-se ser o chefe porque era o único que reluzia seu verde de peixe. Inácio entregou um apito mágico para o dragão e disse: - Ao soprar este apito, é possível atrair a baleia para perto. Fales o que quiser mas não se garante resposta. Se ela quiser cantar contigo, ela te acha. Se ela não quiser, vai se sentir invadida e fará você voar em círculos. Uma dica: baleias gostam de banana com canela. Quem sabe se começares assim ela não aparece com fome? Mas lembre-se, baleias são seres encantados que tem o coração grande demais. Às vezes, são muito sentimentais. Sopre o apito pensando no que dizer, e suas palavras encontrarão a baleia. Em determinado momento da sua busca, Juvenal percebeu pelo reflexo do céu no mar que as estrelas se mexiam. O dragão sabia que elas conversavam entre si, em língua de estrela, mas não sabia que elas também podiam sair do lugar. Com o passar do tempo, o dragão notou que suas colegas iluminadas se amontoavam todas em um canto e deixavam a outra metade do céu toda escura. Isso dificultava sua busca pela baleia. Juvenal, frustrado, sobrevoava o mar por onde as estrelas iluminavam, embora achasse que o som vinha do outro lado.


Foi então, de repente, que ele avistou um coral muito brilhante com um caranguejo ermitão na ponta. Ele estava de perninha cruzada, olhando para os lados buscando alguém para conversar. Quando viu que Juvenal se aproximava, começou a conversar com o dragão: - Hoje as estrelas estão atacadas. Elas sempre gostam de dançar quando uma baleia canta. Só que como elas fazem parte de uma mesma constelação, tem de dançar todas juntas, como se fosse nado sincronizado, só que no céu. Juvenal entendeu então, que soprar o apito podia ajudar a achar a baleia mais rápido, mas também podia atrapalhar, porque daí as estrelas dançariam mais animadas ainda e parte do seu caminho estaria escuro. Decidido a encontrar a baleia, Juvenal tentou várias vezes encerrar a conversa com o ermitão, que sabia tanto de estrela e de tantos assuntos que já estava ficando inconveniente. O ermitão falava sem parar, e logo se entendeu porque estava de pernas cruzadas olhando para os lados distraído: fazia como os avós das crianças na terra, que esperavam o ônibus no ponto para o centro da cidade e precisavam conversar com alguém. Ou com todo mundo. Juvenal já estava cansado de voar, mas usava suas forças e seu preparo físico de dançarino. - Eu tenho que ir, sinto muito. Assim, se despediu do ermitão e seguiu no horizonte cortando o reflexo do céu com o mar.


Se fosse preciso dizer o exato endereço em que o Dragão encontrou a baleia seria: embaixo da lua, um pouquinho pro lado esquerdo, contar três passos para frente e um para o lado. Qual lado eu não sei. Como que uma pessoa (ou um dragão) sem poderes mágicos ia conseguir ficar em pé na água é papo para outra história, que também é antiga e muito conhecida. Juvenal finalmente conseguiu ver onde a baleia estava porque ela jogava água pra cima e isso o ajudou na visualização. O mar, que estava molhado, ficou mais molhado ainda com a molhança da dona baleia, que se chamava Beatriz. Beatriz não parecia feliz ao ver o dragão se aproximar. Na verdade, parecia estar fugindo dele. - Sai de perto de mim seu catinguento! Eu sabia que uma hora tu ias aparecer, mas ainda não estou preparada para isso. Juvenal, sem entender nada, continuou a conversa: - Eu fiquei encantado com a sua música lírica. Queria te conhecer melhor, mas você parece me conhecer. Já me viu dançando em algum lugar? - Não! - respondeu a baleia, ríspida. - Tu és o Juvenal, ator daquela história da moça que dorme demais. Coitada, também a culpa não era dela. Eu sei de ti porque um famoso bruxo do mar leu o meu destino e disse que eu passaria a existir em outra forma quando encontrasse o dragão Juvenal blablabla. Daí ele me contou tudo que eu sei. - Mas, que história é essa de você existir em outra forma? - questionou Juvenal. - Eu não tenho intenção de machucar a senhora.


- Com intenção ou sem intenção, eu pretendo ficar assim como estou, em forma de baleia, gosto muito. Também não entendi a leitura do bruxo, mas para me resguardar descobri o que tu fazias e dei meus pulos para sempre manter um pai, uma mãe ou uma tia lendo a história da princesa para tu nunca teres que aparecer pelo mar. Decerto que hoje um pai muito cansado dormiu antes de chegar a tua vez de aparecer na história. Beatriz, nervosa, e Juvenal, confuso, conversavam já com uma nesga do amanhecer no horizonte. O que se sabia olhando de longe era que a baleia evitou por muito tempo o encontro com o dragão porque estava no seu destino aquele encontro, que transformaria a todos, mas mesmo eles não sabiam muito mais. Conforme o sol ia subindo devagar, um pescador remava com muita força enfrentando o sol à sua frente. Quando Juvenal e Beatriz viram um humano tão perto, em um mar tão para dentro, levaram um susto imenso e acabaram se encostando. A boca da Beatriz, sem querer, encostou em um pedaço da asa de Juvenal e assim sucedeu-se o fato histórico. Naquele calor imenso que já fervia os céus nas primeiras horas do dia, algo mágico aconteceu. A baleia levitou para fora do mar, se enrolando no dragão. Os dois com olhos distantes, sorriam e sentiam uma necessidade de abraçar um ao outro. Um clarão rasgou o céu e como em um parto, ouviu-se o barulho de algo cair para água. Aquele bicho que tinha acabado de nascer, se debatendo na água, foi resgatado pelo pescador, Seu Mané João, que, de todos na história, foi o que teve menos sorte.


O pescador batizou o animal com o nome de Bernunça. Da baleia, herdou a boca enorme, do seu pai Juvenal herdou a fome e a vontade de dançar. Bernunça foi carregada até a areia da praia onde já havia um amontoado de gente querendo entender o motivo daquele clarão. Quando ela colocou os pés na areia, engoliu seu Mané João e arrotou fogo, como seu pai. Todos os moradores da região saíram correndo de medo. Bernunça, com o tempo, continuou comendo coisas, mas nunca mais arrotou fogo. Os moradores daquela praia sabiam que ela tinha estado ali quando viam a destruição que ela fazia quando precisava comer. Então, tiveram a ideia de fazer uma música sobre ela para ver se amansava, já que gostava de dançar. Não adiantou. Bernunça vive por aí comendo tudo. Mas pelo menos Seu Mané João, que salvou e batizou o bicho, foi homenageado na cantiga.


Yhandê Aguiar

Yhandê Aguiar, nasceu e mora em Florianópolis com sua esposa e o filho Francisco. É historiador. Sua relação com a leitura começou muito cedo quando aprendeu a ler o mundo e as pessoas através dos contos iorubás transmitidos por gerações pela sua família. A leitura de histórias escritas veio com a escola, lugar onde sempre adorou estar. Sua experiência com publicações iniciou no meio acadêmico através dos desdobramentos da pesquisa de TCC e Mestrado na área da história do jazz, principalmente a carreira das cantoras Billie Holiday e Nina Simone. “Escrever o conto explorando o imaginário de um personagem do folclore local, a Bernunça, foi uma tarefa possível pela imersão profunda no processo de tornar-se pai. Sabia que sempre podia aprender com uma história lida, mas que uma história escrita ajudaria no autoconhecimento e no fortalecimento das relações familiares e com a cidade, foi novidade. Uma feliz novidade.”


fim


Ficha Técnica Projeto oficina cultural Meu Conto Encantado Realização: Cia Mafagafos Patrocínio: Edital Aldir Blanc SC 2021 - Fundação Catarinense de Cultura

Oficina Ministrante: Sig Schaitel

Livro Edição: Sig Schaitel Revisão: Aline Maciel e Sig Schaitel Projeto gráfico e editoração: Aline Maciel

Direitos Autorais desta publicação: Cia Mafagafos Direitos Autorais dos textos: Autoras e Autores Um produto da Cia Mafagafos @ciamafagafos


Meu Conto Encantado foi um projeto selecionado pelo Edital Aldir Blanc SC 2021, executado com recursos do Governo Federal e Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural, por meio da Fundação Catarinense de Cultura.


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Meu Conto Encantado: maravilhosa publicação coletiva by ciamafagafos - Issuu