ID: 112547249
Meio: Imprensa
Âmbito: Informação Geral
País: Portugal
Period.: Diária
Área: 1593,4cm²
Pág: 34-35
09-08-2024 g
Cultura Bienal Internacional de Arte de Cerveira homenageia Isabel Meyrelles
Uma bienal que questiona a liberdade dos cidadãos Com uma maioria de artistas de Portugal e do Brasil, esta 23.ª edição encena temas fortes dos nossos dias, da crise climática às questões de género Sérgio C. Andrade Texto Paulo Pimenta Fotografia “És livre?” Foi com esta espécie de “Grito do Ipiranga” que as curadoras da 23.ª edição da Bienal Internacional de Arte de Cerveira (BIAC), Helena Mendes Pereira e Mafalda Matos, lançaram, já no ano passado, o mote para a programação da Fundação Bienal de Cerveira para o biénio 2023/24. Tratava-se, escreve a primeira no catálogo que acompanha a bienal inaugurada a 20 de Julho, de “questionar os públicos, os artistas, curadores, coleccionadores e outros protagonistas do meio artístico sobre o tema da Liberdade”. Uma visita às exposições nos dois principais recintos da bienal — o Fórum e a Galeria Cultural de Cerveira — oferece-nos uma panorâmica sobre o que mais de sete dezenas de artistas de meia centena de países pensam (e criam) sobre o tema. Associados a ele estão outras questões prementes da actualidade: a política e as fake news; as alterações climáticas e a sobrevivência do planeta; a transfobia e as questões de género. Antes de chegar à exposição principal da 23.ª BIAC — a do concurso internacional, que inclui as oito obras distinguidas com prémios de aquisição (ver caixa) —, o visitante é recebido pela iconoclastia de uma “orquestra de bichos” esculpida por Isabel Meyrelles (Matosinhos, 1929), a artista homenageada este ano, com um selecção de obras, precisamente intitulada Ser livre, vinda da Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão, com curadoria de Marlene Monteiro e Perfecto E. Quadrado. Referência incontornável do movimento surrealista em Portugal, de Isabel Meyrelles podemos ver, no mezanino do fórum, duas dezenas de criações: esculturas em bronze, terracota e madeira, além de fotograÆas do seu atelier e um vídeo com uma entrevista sua. É a oportunida-
de para rever a peça em madeira pintada de azul em que a artista se auto-retrata como um dragão com cachimbo; e também o retrato que dela fez a sua amiga Natália Correia nos anos 50, ornada com este texto: “Presença afogada entre pinheiro d’areia e espuma nocturna; presença afogada na praia deserta do fundo do mar.” No mesmo hall, suspensa do tecto, encontra-se a escultura Stone Cloud (2017), do norte-americano a residir no Havai Andrew Binkley. Trata-se de uma pedra insuÇável, em forma de nuvem, que “oferece diferentes leituras conforme a perspectiva de onde é olhada”, nota o museólogo João Duarte, que integra a equipa de produção da BIAC desde o ano passado e guiou a visita do PÚBLICO à bienal, na ausência das suas curadoras. Antes ainda de entrarmos no fórum do concurso internacional, João Duarte propõe uma visita à sala lateral de amplo pé-direito, onde se expõe o resultado de uma das várias residências artísticas que a bienal promoveu nos dois últimos anos — o projecto Livre Trânsito. Artistas de diversos países — entre os quais Binkley e também o dinamarquês Søren Dahlgaard, que participou na inauguração da 23.ª BIAC com a performance Walking Island, envolvendo estudantes da terra — associaram-se à população e estruturas sociais das 15 freguesias do concelho de Vila Nova de Cerveira. Na sala, entre duas paredes graÆtadas sobre verde, vermelho e branco, e numa dezena de bandeirolas penduradas, cidadãos cerveirenses acrescentaram intervenções a uma base criada pela oÆcina Arara, um colectivo portuense envolvido no projecto. Com a liberdade recomendada, os intervenientes desenharam palavras de ordem, “no more war”, reclamaram por “poesia” e “inocência”, e parodiaram os poderes públicos: “Estou apaixonado pelo primei-
ro-ministro, por todos os primeirosministros, e pelos segundos, e pelos terceiros. Estou apaixonado por todos os presidentes de câmara e de junta e por todos os benfeitores de obra feita…” Ainda que aparentemente divididas por salas, as várias secções da BIAC’24 mostram-se interligadas, seja nos temas como nas estéticas. João
Duarte chama-nos a atenção para este cruzamento perante a obra múltipla do brasileiro Alexandre Vogler, que, sendo um dos 25 artistas convidados pela curadoria, abre o percurso para o concurso internacional. Pedra da Gávea 1974, Monumento e Vela (1974/2024) integra um vídeo a documentar o primeiro voo em asadelta realizado em 1974, no Rio de
Instalação de Alexandre Vogler (atrás, Circle, de Burhan Yilmaz). Em baixo: museólogo João Duarte; Bot3quim, vídeo de S4ra; mural Palabras, do catalão Antoni Muntadas
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