PARADOXOS NA EMPRESA
Múltiplas Perspectivas
Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos (Organizadores)
Paradoxos na Empresa M Ăşl t ip l as Pe r sp e ct iv a s
Sumário Parte 1 – Paradoxos organizacionais e mudança: múltiplas perspectivas 1
Paradoxos organizacionais e mudança – Múltiplas perspectivas: uma visão crítica (Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Flávio Carvalho de Vasconcelos) . . . . . . . .
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Parte 2 – Paradoxos organizacionais, gestão estratégica de pessoas e teoria dos recursos da firma: integrando estratégia e organizações 2
Aprendizagem organizacional em call centers: uma análise dos paradoxos entre o discurso e a prática (Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e André Ofenhejm Mascarenhas) .
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Comprometimento versus mudança: alguns aspectos paradoxais da gestão estratégica de pessoas e da expatriação de executivos (Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Leni Hidalgo Nunes). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Parte 3 – Paradoxos e identidade: os paradoxos que envolvem a identidade organizacional, a identidade dos indivíduos no trabalho e a identidade do pesquisador 4
Identidade organizacional e identidade no trabalho: discursos paradoxais? (Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Flávio Carvalho de Vasconcelos) . . . . . . . . .
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Parte 4 – Paradoxos, sustentabilidade e sociedade: estudos socioambientais
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Ensaio teórico – O paradoxo do discurso da responsabilidade social da empresa: modismo ou análise consistente da atualidade? (Yvon Pesqueux, Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Edmilson Alves de Moraes) . . . . . . . . . . . 108
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Entre a solidariedade e a modernização: a educação popular de Paulo Freire e a profissionalização da agricultura familiar no semiárido nordestino (Patricia Mendonça e Mario Aquino Alves) . 129
Parte 5 – Paradoxos e marketing: o discurso e as práticas de marketing, inovação e o consumo de produtos falsificados 7
O paradoxo entre o discurso de marketing voltado para a visão mercado e as práticas no desenvolvimento de novos produtos (Melby Karina Zuniga Huertas e André Torres Urdan) . . 149
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O falso paradoxo da “visão produto” versus “visão mercado” e o modelo da inovação aberta (Open Innovation) como solução integradora para a empresa: o caso Natura (Elidia Bagbudarian, Roberto Carlos Bernardes, Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Flavia Regina de Lima) . . . . . 179
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Ensaio final – O uso do “falso” para expressão do “verdadeiro”, ou forma e conteúdo: quando os produtos falsificados são utilizados como um cenário para a afirmação do self no trabalho (Suzane Strehlau, Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Melby Karina Zuniga Huertas) . . . . . 205
Apresentação
Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos Flavio Carvalho de Vasconcelos
Composto por cinco partes, o livro Paradoxos na Empresa – Múltiplas Perspectivas trata da temática “paradoxos e suas interfaces com discussões e interfaces que envolvem a sociedade como um todo e a empresa”. A Parte I, “Paradoxos organizacionais e mudança”, escrita pelos organizadores, traz definições do conceito “paradoxos organizacionais”, segundo diversas correntes, e situa a temática “paradoxos e mudanças” em termos teóricos, apresentando para análise um estudo de caso. Essa parte abrange o Capítulo 1, “Paradoxos organizacionais e mudança – Múltiplas perspectivas: uma visão crítica”. A Parte 2 denomina-se “Paradoxos organizacionais, gestão estratégica de pessoas e teoria dos recursos da firma: integrando estratégia e organizações”. Essa parte reúne dois capítulos que apresentam essa importante corrente de estratégia – a teoria dos recursos da firma (Resource Based View) – e situam essa corrente teórica com relação aos conceitos de paradoxos organizacionais e mudança. O Capítulo 2, “Aprendizagem organizacional em call centers: uma análise sobre os paradoxos entre o discurso e a prática”, de autoria de Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e André Ofenhejm Mascarenhas, analisa, de forma didática, a mudança organizacional associada ao tema paradoxos, ocorrida em duas centrais de atendimento ou call centers.
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O Capítulo 3, “Comprometimento versus mudança: alguns aspectos paradoxais da gestão estratégica de pessoas e da expatriação de executivos”, de autoria de Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e de Leni Hidalgo Nunes, analisa o desenvolvimento de competências profissionais nos executivos por meio da expatriação, tendo em vista sua habilidade de lidar com situações de poder e reestruturação, bem como gestão da mudança. O estudo mostra que a expatriação é uma ocasião na qual os executivos devem lidar com rupturas e paradoxos e, caso tenham sucesso nesse processo, desenvolvem competências profissionais que lhes permite, mais tarde, conduzir processos de mudança organizacional. A Parte 3 deste livro, “Paradoxos e identidade”, trata dos paradoxos que envolvem a identidade organizacional (da empresa), a identidade dos indivíduos no trabalho e a identidade do pesquisador. É composta pelo Capítulo 4, “Identidade organizacional e identidade no trabalho: discursos paradoxais?”, de autoria de Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Flávio Carvalho de Vasconcelos, que discute a complementaridade ou dicotomia entre os conceitos que se referem à identidade do grupo organizacional e à identidade dos grupos de indivíduos na empresa (identidade social, ligada ao trabalho). Apresenta-se o modelo de Renaud Sainsaulieu, sociólogo francês, e procede-se à análise desses conceitos a partir desse modelo. A Parte 4 engloba “Paradoxos, sustentabilidade e sociedade”, com análises envolvendo a temática paradoxos e sociedade. Também fornece um panorama sobre a educação popular e a agricultura no semiárido nordestino. O Capítulo 5 é um ensaio teórico que explora o “Paradoxo do discurso da responsabilidade social da empresa” e se se trata de um modismo ou de uma análise consistente da atualidade. O ensaio é de autoria de Yvon Pesqueux, da organizadora deste livro e de Edmilson Alves de Moraes. O Capítulo 6, “Entre a solidariedade e a modernização: a educação popular de Paulo Freire e a profissionalização da agricultura familiar no semiárido nordestino”, de autoria de Patricia Mendonça e Mario Aquino Alves, trata de educação e desenvolvimento regional, em uma pesquisa que aproxima as temáticas paradoxos e sociedade. Por fim, a Parte 5, “ Paradoxos e marketing”, analisa as interfaces entre a temática “paradoxos e os discursos e as práticas de marketing”, “paradoxos, marke-
APRESENTAÇÃO
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ting e inovação” e, assim como no ensaio teórico final, “paradoxos e o consumo de produtos falsificados”. O Capítulo 7, “O paradoxo entre o discurso de marketing voltado para a visão mercado e as práticas no desenvolvimento de novos produtos”, de autoria de André Torres Urdan e Melby Karina Zuniga Huertas, refere-se ao desenvolvimento da disciplina de marketing por meio de inconsistências encontradas entre o discurso e a prática. O Capítulo 8, “O falso paradoxo da ‘visão produto’ versus ‘visão mercado’ e o modelo da inovação aberta (Open Inovation) como solução integradora para a empresa: o caso Natura”, de autoria de Elidia Bagbudarian, Roberto Carlos Bernardes, Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Flavia Regina de Lima, apresenta o modelo da “inovação aberta” ou Open Inovation como solução para o falso paradoxo “visão produto” versus “visão mercado”, que divide muitas empresas na atualidade. Por último, no Capítulo 9, encontra-se o ensaio final “O uso do ‘falso’ para expressão do ‘verdadeiro’, ou forma e conteúdo: quando os produtos falsificados são utilizados como um cenário para a afirmação do self no trabalho”, de autoria de Suzane Strehlau, Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos e Melby Karina Zuniga Huertas. Esse ensaio teórico final pretende ser um convite a pesquisas futuras, mediante estudo exploratório, a fim de mostrar que, muitas vezes, produtos falsificados são utilizados para a criação de um “cenário” onde os indivíduos se sintam à vontade para exprimir o que chamam seu “real” self e se sentirem aceitos, em especial, no mundo do trabalho. Nesse caso, não se trata de um paradoxo “verdadeiro versus falso”, mas de duas dimensões complementares. Boa leitura a todos!
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Paradoxos organizacionais e mudança: múltiplas perspectivas 1
Paradoxos organizacionais e mudança – Múltiplas perspectivas: uma visão crítica
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Capítulo
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Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos
Introdução – Paradoxos, mudança e dialética Em seu artigo “Institutional contradictions, praxis and institutional change: A dialectical perspective”, Seo e Creed (2002) propõem um modelo de mudança organizacional utilizando os conceitos de paradoxos organizacionais, dialética e escolhendo como abordagem teórica a Teoria Neoinstitucional. Antes de tratarmos desses conceitos, apresentaremos algumas definições de paradoxos.
1.1 Definições de Paradoxos O termo paradoxo vem das expressões gregas para e doxa e quer dizer além da crença. Como propõe Lewis (2000): “O estudo de paradoxos está ligado à compreensão das crenças e da subjetividade dos indivíduos, tendendo a ser conduzido conforme os preceitos da pesquisa interpretativa levada adiante no presente estudo. Isso não impede, porém, uma linha de pesquisa objetivista”. Em se tratando da linha objetivista de análise, Koot et al. (1996) observam que, em lógica, um paradoxo equivale a atribuir a um mesmo objeto, duas qualidades mutuamente excludentes, que não podem conviver. Atribuir a uma mesma
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frase o valor de verdadeira e falsa ao mesmo tempo é um paradoxo lógico, como no exemplo de um cartão: em um lado está escrito “A sentença no outro lado deste cartão é falsa”; no outro, lê-se “A sentença no outro lado deste cartão é verdadeira”. A interpretação lógica leva a um problema sem solução (Koot et al., 1996). Além da visão objetivista, no que se refere a pesquisas de caráter subjetivo, um indivíduo ou um grupo podem, em dado momento, representar a sua experiência mediante um paradoxo. Nessa linha, Eisenhardt (2000) define o paradoxo como a existência simultânea e inconsistente de dois estados diferentes, representando duas lógicas opostas e mutuamente excludentes. Isoladamente, cada dimensão é verdadeira. Porém, colocadas juntas, as duas afirmações apresentam uma incompatibilidade lógica. Nas organizações essas dimensões tais como inovação e eficiência, colaboração e competição, integração e diferenciação entre outras, convivem juntas. Gregory Bateson (1986), em seu livro Mente e natureza, nos mostra que o ser humano percebe a realidade a partir de percepções opostas e mutuamente excludentes. Defende que apreendemos um conceito pelo seu extremo oposto. Um paradoxo difere de conceitos como dilema, inconsistência, dialética, ambivalência e conflito. Um dilema é uma situação “e/ou” trata-se de uma escolha entre duas alternativas. Uma inconsistência é uma aberração ou uma quebra de padrões anteriores estabelecidos. Uma dialética implica em um padrão no qual encontramos uma tese, uma antítese ou uma síntese; esses padrões não necessariamente se encontram no paradoxo; uma ambivalência implica incertezas sobre duas alternativas das quais uma deve ser escolhida. Um conflito implica a predominância de uma alternativa sobre as outras. O paradoxo, como mostram Robert Quinn e Kim S. Cameron (1988) em seu livro Paradox and transformation: toward a theory of change in organization and management, difere dessas outras dimensões, porque nenhuma escolha necessita ser feita entre duas ou mais contradições. Os elementos contraditórios que compõem o paradoxo são aceitos e presentes. Eles agem simultaneamente. Dessa forma, segundo os autores, a característica-chave é a presença simultânea de elementos contraditórios e mutuamente exclusivos. Como veremos no decorrer deste livro, diversas pesquisas que utilizam o conceito de paradoxo propõem diferentes formas de lidar com este. Um paradoxo é, segundo os autores supracitados, um construto mental. Nesse sentido, eles concordam com Gregory Bateson em seu livro Mente e nature-
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za, citado anteriormente. Manfred Ketz de Vries, em seu livro Organizational paradoxes: Clinical approaches to management (1995), concorda com essa definição. Exemplos de paradoxos organizacionais que convivem lado a lado são dados por Quinn e Cameron (1988): Organizações podem iniciar ações de inovação e transformação voltadas para o longo prazo, mas, ao mesmo tempo, alguns elementos pertencentes às rotinas existentes são conservados no curto e médio prazos. Assim, em algumas organizações que passam por processos de mudança, os indivíduos convivem com práticas conservadoras relativas a algumas rotinas existentes e, ao mesmo tempo, convivem com um discurso de transformação e mudança relativos à empresa em geral; e, nesse sentido, ações que visam preservar rotinas são tomadas ao mesmo tempo em que se começam a implementar ações transformadora.
No entanto, o que parece contraditório e pode causar confusão e anomia caso não seja bem colocado, na verdade, pertence a dimensões mutuamente excludentes, mas cada “lógica” se encontra em sua esfera de atuação específica, ambas convivendo ao mesmo tempo no sistema. Assim, procedimentos de centralização podem ser tomados em relação a um conjunto de rotinas e defendidos ao mesmo tempo em que se descentralizam outros procedimentos e se defende essa lógica também. Para os atores sociais envolvidos nesses processos, pode não ser simples perceber as diferentes lógicas e situá-las em diferentes esferas de atuação, a fim de poder conviver com elas. Nesse caso, os indivíduos podem sofrer choque de crenças, confusão e entrar em estado de anomia – ausência de normas de referência. Por exemplo, em uma ação de criação de uma joint venture, duas empresas cada qual com 50% do capital do novo empreendimento, se comprometem a criar um sistema no qual os processos-chave das duas companhias serão aproveitados igualmente. Entretanto, no curto prazo, seus funcionários começam a reclamar que, apesar do discurso dos dirigentes prometer igualdade no aproveitamento das rotinas e processos-chave das duas companhias na nova empresa,
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apenas os processos-chave delas estão sendo implementados, desbalanceando o poder nas duas organizações e se afastando da pretensa “igualdade” prometida. Na realidade, o que pode estar ocorrendo nessa organização é um paradoxo: o plano dos dirigentes a médio prazo é criar uma empresa onde se implemente os processos-chave das duas organizações e isso ser verdade: os dirigentes realmente pretenderem colocar esse plano em execução e afirmarem isso em mensagens reiteradas. Porém, no curto prazo, o que pode estar ocorrendo é que a empresa esteja implementando apenas os processos-chave de uma organização e que isso pareça incoerente e contraditório com o plano em médio prazo anunciado. Pode tratar-se de apenas uma fase do processo de implementação das mudanças e criação da nova organização e mesmo que, aparentemente, esteja em contradição com o discurso geral da mudança, pode não estar. Se na primeira fase se implementem os processos-chave apenas da organização A, o que está aparentemente em contradição com a promessa de utilizar os processos-chave das duas empresas na criação da nova, mas na segunda fase se implementa apenas os processos-chave da organização B, teremos duas etapas “desbalanceadas” – como o movimento de um pêndulo, na primeira fase, focase apenas a organização “A”; e, na segunda, apenas a organização “B”, mas, no fim, teremos um sistema equilibrado nos dois sentidos, conforme prometido. Nesse caso, a contradição e a existência simultânea de dois estados mutuamente excludentes pode acabar na sequência. Os indivíduos, para conviver com o paradoxo, devem situá-lo em esferas diferentes. O discurso da mudança e da igualdade se situa no médio prazo, ao passo que, na primeira fase da mudança, se privilegia a organização “A” e, na segunda fase, a organização “B”, para, no fim, se atingir o que foi prometido em médio prazo. Essas questões, no entanto, devem ser esclarecidas para os principais colaboradores da organização em questão, sob pena de, como veremos a seguir, os atores organizacionais resistirem e minarem o processo de mudança organizacional proposto, porque sofrem de anomia e desconforto e querem reduzir o seu sofrimento, como propõe a teoria da dissonância cognitiva. A organização terá vivido um período paradoxal onde se fala em equilíbrio de poder e se vê apenas concentração de poder em um dois lados, com a implementação de processos de apenas uma das empresas. Em uma fase posterior, ao implementarem-se os processos da outra empresa, esse período acaba. Outro exemplo em que diferentes esferas convivem em dimensões paradoxais são estratégias de mudança da empresa onde se tomem ações no sentido de “adaptar a empresa às mudanças no ambiente” e, ao mesmo tempo, se implemen-
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tem ações para preservar rotinas únicas e peculiares da empresa, que representam particularidades da mesma e, portanto, devem ser preservadas. Ações de integração das subsidiárias com a matriz (centralização) e, ao mesmo tempo, políticas que conferem mais poder e diferenciação para as subsidiárias tratam de aspectos mutuamente excludentes e paradoxais que convivem juntos na organização. Além disso, os processos de mudança que lidam com a identidade organizacional são paradoxais. Na interpretação das mudanças pelas quais passam a organização, enquanto os valores que constituem a identidade central da organização são preservados, os valores periféricos mudam, são reinterpretados e um novo sentido é construído, na medida em que produtos e serviços mudam e evoluem. Os processos de preservação da história da organização e de reinterpretação e mudança da mesma convivem simultaneamente (Martin, 1983). Cameron (1986), em seu livro Effectiveness as paradox, aponta o fato de que pesquisas que ignoram a natureza paradoxal das organizações tendem a focar em dimensões como controle. Inúmeras pesquisas já mostraram que o foco excessivo na dimensão do controle é ilusório, pois as incertezas, ambiguidades, inconsistências, mudanças e paradoxos não podem ser ignorados pelos pesquisadores da área de organizações. Teorias que só focam em aspectos congruentes e ignoram aspectos mutuamente excludentes e divergentes tendem a privilegiar excessivamente a dimensão da ordem, ignorando aspectos de transformação, flexibilidade e mudança. Alguns trabalhos focam o paradoxo como a existência de duas dimensões opostas e mutuamente excludentes que convivem em organizações, como vimos anteriormente. Outros trabalhos associam paradoxos e dialética, mostrando que, em alguns casos, a existência de contradições e aspectos paradoxais, quando não são bem colocados ou explicitados, podem provocar anomias, confusão e sofrimento, por meio do conceito de dissonância cognitiva ou um choque de crenças. Os aspectos paradoxais convivem nas organizações naturalmente e não necessariamente produzem tensões. No entanto, em alguns casos, contradições e paradoxos entre certos aspectos do discurso e da prática podem provocar anomias e sofrimento nas organizações e acabarem sendo motor de mudança. Nesses casos, os aspectos paradoxais e as contradições quando não são bem colocadas podem ser o motor da dialética e da mudança organizacional. Nesse aspecto, Seo e Creed em seu modelo associam paradoxos, como definido anteriormente, e dialética.
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1.2 O paradoxo básico da mudança organizacional e os
princípios do modelo da mudança dialética Peter Berger e Thomas Luckmann (1989), em seu livro A construção social da realidade, colocam, dentro da perspectiva do interacionismo simbólico, a seguinte questão: como os atores sociais podem mudar as instituições se as suas ações e intenções e a sua racionalidade são condicionados pela instituição que eles querem transformar? Seo e Creed (2002) retomam essa questão fundamental do interacionismo simbólico para descrever o seu modelo. Segundo esses autores, quatro princípios básicos orientam a análise organizacional, segundo o modelo dialético: construção social, totalidade, contradição e práxis. Benson (1977), em seus trabalhos, também retoma essa análise, inspirando Seo e Creed na construção de seu modelo. O primeiro nível do modelo, construção social, foca nos processos sociais por meio dos quais uma nova ordem social (por exemplo, uma nova organização, ao ser fundada) é produzida e por intermédio de novas interações sociais que, gradualmente, definem rotinas e regras. Estas, por sua vez, passam a orientar as interações sociais que se seguem, definem papéis sociais e seus scripts, bem como as expectativas que os atores sociais têm em relação a cada nova interação social. Assim, os novos membros da organização passam a ser socializados nas regras recém-criadas, reproduzindo essa ordem social em certa medida. Isso ocorre porque essas regras recém-criadas são institucionalizadas. Constitui-se, dessa maneira, um novo sistema social, com suas regras, formas de comportamento, cultura e subculturas, papéis sociais, imaginário simbólico etc. Nesse sentido, encontramos aqui um primeiro paradoxo entre a ação e a estutura, conforme tratado por Andrew Van de Ven e Marchall Scott Poole (1986) em seu texto “Paradoxical requirements for a theory of organizational change”. Segundo os autores, as pesquisas que estudam as regras e estruturas organizacionais tendem a ter um caráter mais objetivista e determinista, enquanto as pesquisas que estudam os processos decisórios dos indivíduos nas estruturas organizacionais e reconstituem suas motivações tendem a ser interpretativistas. Essas duas dimensões – voluntarismo e determinismo – convivem juntas quando estudamos a criação de uma nova totalidade ou sistema organizacional. Trata-se de um paradoxo básico da pesquisa, em cada esfera predominando um tipo de lógica.
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Na criação de uma nova empresa, como dito antes, forma-se uma nova totalidade, ou seja, um sistema organizacional com subculturas interconectadas por regras, em um sistema loosely coupled (Weick, 1976; Seo e Creed, 2002; Berger e Luckmann, 1989). Um sistema organizacional possui assim, múltiplos níveis de interpretação dessas regras, valores e expectativas de papel, de acordo com os princípios da racionalidade limitada (Simon, 1955). Muitas racionalidades permeiam uma organização, porém esses múltiplos sistemas de interpretação, como dissemos anteriormente, formam um sistema maior, e são interconectados por regras que caracterizam essa totalidade, sua contingência histórica e características únicas. Na visão de Seo e Creed (2002), a existência de paradoxos que se acumulam e são percebidos pelos atores sociais constituem, na verdade, o motor da transformação histórica da organização, segundo a dialética. Como nos mostram Quinn e Cameron (1988), o paradoxo muitas vezes continua a coexistir na organização de forma normal, pois as dualidades fazem parte da realidade humana e o controle total dos sistemas é uma ilusão, cujos limites foram mostrados desde a crítica ao neotaylorismo. Quando, no entanto, os paradoxos e inconsistências entre teoria e prática vão aumentando, podem surgir nova formas de questionamento do sistema, que geram novas práticas sociais (práxis) cujo objetivo é transformar o sistema social preexistente, de acordo com esse modelo. A práxis corresponde a diversos níveis de ação coletiva de impacto maior ou menor organizada pelos atores sociais cuja função é utilizar as brechas existentes no sistema para transformá-lo de acordo com seus interesses.
1.3 Decoupling: a separação entre teoria e prática como
fonte de contradições na totalidade ou sistema social Os trabalhos de Powell e DiMaggio (1991) e de Meyer e Rowan (1977) no novo institucionalismo mostram que as organizações se conformam com os mitos, regras e modelos institucionalizados em um setor produtivo, adotando-os a fim de obter legitimidade social e eficiência simbólica, o que pode ser fonte de recursos. No entanto, esses mesmos autores mostram que, muitas vezes, os modelos, discursos, ferramentas de gestão institucionalizados no setor como “os melhores”, e que devem ser adotados pelas organizações para obter legitimidade social e recursos, nem sempre são adaptados, de fato, às características técnicas das organiza-
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ções e, se adotados “em profundidade”, podem comprometer a eficiência técnica do sistema. Por exemplo, algumas organizações de médio porte não necessitam da norma ISO 9000 para gerir seus processos de fabricação, pois essas normas são aconselhadas para empresas de certo porte, com um determinado número de funcionários, uma vez que exigem a implementação de um sistema de gestão sofisticado e gestão de documentos e, logo, a adoção dessas normas podem burocratizar o sistema. Em uma organização pequena, onde a comunicação flui de forma mais orgânica e informal, a adoção da ISO 9000 não é adequada. Porém, o meio ambiente de negócios possui institucionalizada a adoção dessa norma como requisito mínimo, símbolo de eficiência e atualização da organização aos procedimentos vigentes nas grandes organizações. A marca ISO 9000 tem um valor simbólico em si. Então, em inúmeros casos, as pequenas e médias organizações a adotam “em tese”, “são aprovadas” no procedimento de certificação, mas, na prática, utilizam muito pouco das normas em seus sistemas, pois, caso as utilizassem em profundidade, correriam o risco de burocratizar seus processos, perder flexibilidade e a eficiência no processo de fabricação. Por meio dessa estratégia, conciliam a eficiência simbólica e a eficácia técnica. Sendo assim, de acordo com os autores supra citados, o decoupling – certo nível de separação entre o discurso e a prática organizacional – é necessário para que a organização possa atingir a eficiência simbólica e a eficácia técnica que necessita. 1.3.1 Os efeitos da excessiva separação entre os valores professados e a prática organizacional
No entanto, como mostram Seo e Creed (2002), além de certo nível, o decoupling começa a ter efeitos indesejados para o status quo; por exemplo, a percepção, por parte dos atores sociais, das excessivas contradições do sistema, o que pode gerar fenômenos como a dissonância cognitiva (Festinger, 1957). A dissonância cognitiva refere-se ao choque de crenças derivados da excessiva separação entre teoria e prática. Assim, os atores sociais ouvem que serão avaliados de acordo com os últimos modelos de gestão implementados, receberão treinamentos, trabalharão com ferramentas de gestão avançadas, e isso não acontece, ou ocorre apenas de modo muito reduzido. Esse tipo de situação, quando prolongada no tempo, gera incredulidade, ceticismo e frustrações devido a expectativas não realizadas. Essa
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PARADOXOS NA EMPRESA Múltiplas Perspectivas Depois da publicação, por esta editora, de Paradoxos Organizacionais – Uma Visão Transformacional, surge uma versão totalmente atualizada sobre o assunto: Paradoxos nas Empresas – Múltiplas Perspectivas. Esta coletânea de textos escritos por diversos autores trata da temática paradoxos e suas interfaces, com discussões que envolvem a sociedade e as empresas. A Parte I traz definições do conceito “paradoxos organizacionais” segundo diversas correntes e situa a temática paradoxos e mudanças em termos teóricos, apresentando um estudo de caso para análise. A Parte 2 reúne dois capítulos que apresentam a teoria dos recursos da firma (Resource Based View) e situam essa corrente teórica com relação aos conceitos de paradoxos organizacionais e mudança. Já a Parte 3 trata dos paradoxos que envolvem a identidade organizacional, a identidade dos indivíduos no trabalho e a identidade do pesquisador. A Parte 4 engloba análises envolvendo a temática paradoxos e sociedade, além de fornecer um panorama sobre a educação popular e a agricultura no semiárido nordestino. Por fim, na Parte 5 são analisadas as interfaces entre as temáticas paradoxos e os discursos e as práticas de marketing, paradoxos, marketing e inovação e, no ensaio teórico final, paradoxos e o consumo de produtos falsificados. No site do livro, em www.cengage.com.br, há mais três capítulos adicionais: “O paradoxo entre o discurso e a prática da inovação no setor elétrico”, “Identidade nacional ou estrangeira? Global ou local?” e “A etnografia aplicada à administração e a identidade do pesquisador”, todos de autoria de Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos. Aplicações Destina-se a acadêmicos e estudantes interessados em pesquisas nas áreas de teoria organizacional e gestão de pessoas; constitui-se, também, em material complementar para disciplinas de mestrado profissional e mestrado acadêmico nas áreas de gestão de pessoas, comportamento organizacional, teoria e análise organizacional e mudança organizacional. Recomendado, ainda, para cursos de especialização voltados a executivos nas áreas de gestão do fator humano e gestão de mudança, bem como para executivos e gestores interessados nesses temas.
ISBN 13 – 978-85-221-0874-9 ISBN 10 – 85-221-0874-9
9 788522 108749