Inspirado pelo título e força emotiva de Wild Is the Wind, imortalizada na voz de David Bowie, este é um momento que nos convida não a olhar para o vento como ameaça, mas como energia em movimento, uma força que pode ser canalizada para impulsionar mudança, renovação e crescimento.
A recente depressão Kristin atingiu fortemente a região da Marinha Grande e Leiria com impactos concretos e imediatos, lembrandonos da vulnerabilidade das infraestruturas, dos sistemas energéticos e de comunicações que sustentam a atividade industrial. Linhas de produção interrompidas, prazos pressionados, custos imprevistos e incerteza operacional marcaram dias difíceis para muitas empresas. No entanto, mais do que um episódio de disrupção, este acontecimento revelou-se como um catalisador: expôs fragilidades, sim, mas, sobretudo, clarificou prioridades e reforçou a urgência de agir.
A indústria portuguesa de moldes nunca foi estática. A sua história é feita de adaptação contínua, de superação de crises e de uma capacidade notável de transformar desafios em vantagens competitivas. Nasceu da tradição, evoluiu com a industrialização, enfrentou a globalização e afirmou-se internacionalmente pela excelência técnica, pela engenharia de precisão e pela confiança conquistada junto dos maiores players mundiais. Esta herança não é um ponto de chegada, é a base sólida a partir da qual se constrói o futuro.
E hoje, esse futuro exige mais do que recuperar, exige fazer melhor e fazer diferente.
Ser proativo significa reforçar a resiliência como atributo estrutural do sector. Investir em redundância energética, soluções descentralizadas, digitalização segura e planos de continuidade de negócio não devem ser vistos como custos, mas como vantagens competitivas. Num mercado global, a capacidade de garantir fiabilidade e previsibilidade ao mercado é um fator diferenciador decisivo.
Significa também repensar a atividade, a estratégia e os seus modelos operacionais. A diversificação de mercados e parceiros comerciais reduz a exposição ao risco e abre novas oportunidades, potenciando o crescimento. Há que reduzir dependências e reforçar a presença em diferentes geografias – EUA, Mercosul, Europa Central e de Lesteao mesmo tempo que se estrutura uma abordagem consolidada e estratégica perante novas áreas industriais que representam novas oportunidades: da mobilidade elétrica aos dispositivos médicos, da defesa e segurança à embalagem sustentável.
Contudo, a ambição de crescer exige escala, cooperação e visão coletiva. A dimensão média das nossas empresas continua a ser um desafio num mercado dominado por grandes grupos internacionais. A resposta passa por alianças estratégicas, consórcios de exportação,
EDITORIAL
Manuel Oliveira Secretário-geral da CEFAMOL
plataformas partilhadas de I&D ou modelos colaborativos que permitam ganhar massa crítica sem perder agilidade. Trabalhar em conjunto deixa de ser uma opção tática para se tornar uma estratégia estrutural.
A inovação permanece como eixo central da diferenciação. O molde do futuro não é apenas uma ferramenta, é um sistema inteligente. Integra sensores, gera dados, permite manutenção preditiva, otimiza ciclos produtivos e contribui para a sustentabilidade dos processos. A incorporação de novos materiais, a automação avançada e a integração de inteligência artificial estão a redefinir o valor acrescentado do sector. Cada avanço tecnológico é uma oportunidade para subir na cadeia de valor e reforçar o posicionamento internacional.
Neste caminho, as competências humanas são o ativo mais estratégico. Atrair jovens talentos, requalificar profissionais, reforçar a ligação entre empresas, centros tecnológicos e instituições de ensino e promover uma cultura de aprendizagem contínua são condições essenciais para sustentar a inovação. O conhecimento partilhado multiplica resultados, o individualismo limita o potencial.
Reforçar o posicionamento internacional exige também uma narrativa comum. Portugal é reconhecido pela qualidade, pelo know-how, pela adaptabilidade e pela engenharia. Importa agora comunicar inovação, sustentabilidade e capacidade de codesenvolvimento com clientes globais. Uma marca coletiva forte, uma presença coordenada em mercados estratégicos e uma mensagem alinhada reforçam a perceção de valor e consolidam a reputação da indústria.
A adversidade trouxe destruição, mas trouxe também clareza. Mostrou que a competitividade futura não dependerá apenas da excelência técnica que já nos distingue, mas da capacidade de adaptação a um mundo mais incerto, interligado e exigente. Mostrou que a cooperação não é apenas desejável, é essencial. E recordou-nos que a resiliência não se constrói em momentos de crise, mas nas decisões estratégicas que os antecedem.
Este é o momento de agir com propósito. De transformar vulnerabilidades em forças. De converter experiência em inovação. De substituir competição interna por cooperação estratégica. De passar da resposta à antecipação. Mais do que reconstruir, trata-se de reinventar. Mais do que recuperar, trata-se de evoluir. Mais do que resistir, trata-se de avançarmos juntos.
O vento continuará a soprar, por vezes de forma imprevisível, por vezes desafiante. Mas quando existe uma direção comum, visão estratégica e compromisso coletivo, até o vento mais selvagem pode tornar-se o impulso que nos leva mais longe.
CES 2026: INOVAÇÃO, TECNOLOGIA E OPORTUNIDADES
Na primeira semana de 2026, a CEFAMOL promoveu uma Missão Empresarial aos Estados Unidos que reuniu as empresas Coat-it, Erofio, Maxiplás, Moldit e Socem, contemplando a visita à Consumer Electronics Show (CES). Considerada a maior feira mundial de inovação tecnológica e lançamento de novos produtos em diversos sectores industriais, a CES proporcionou um contacto direto com tendências emergentes e uma avaliação de oportunidades de posicionamento estratégico para a indústria portuguesa de moldes.
Realizada entre 6 e 9 de janeiro em Las Vegas, a CES 2026 voltou a afirmar-se como o palco global da inovação tecnológica, reunindo empresas líderes, startups, centros de investigação e decisores de todo o mundo. Mais do que um evento de lançamento de produtos, a feira revelou uma verdadeira transformação industrial, marcada pela convergência de hardware, software e inteligência artificial, criando novas cadeias de valor e, simultaneamente, novos desafios para sectores especializados, como a indústria de moldes.
A CES 2026 superou as expectativas de dimensão e impacto. Com mais de quatro mil expositores, incluindo cerca de mil e duzentas startups, a feira recebeu aproximadamente 148 mil visitantes,
entre eles 55 mil internacionais. A presença de quase sete mil jornalistas e analistas garantiu uma cobertura global, enquanto os mais de 250 mil metros quadrados de exposição receberam mais de 400 conferências e painéis com mil e trezentos oradores. Estes números reforçam o papel da feira como um barómetro de tendências e espaço privilegiado para descobrir oportunidades de negócio.
MOBILIDADE INTELIGENTE: O FUTURO EM MOVIMENTO
Entre os destaques da CES 2026, e foco principal para as empresas nacionais, a mobilidade inteligente continuou a dominar as atenções. A transição para veículos definidos por software trouxe uma nova perspetiva sobre o que é realmente inovador. Mais do que automóveis, o evento mostrou plataformas tecnológicas, sensores, módulos eletrónicos e sistemas inteligentes, capazes de atualizar funcionalidades e personalizar a experiência do utilizador em tempo real.
A inteligência artificial transformou o interior dos veículos, com interfaces que reconhecem gestos, monitorizam o condutor e adaptam o entretenimento e funcionalidades ao seu estado e preferências. Mesmo que os veículos elétricos completos
tenham tido menor destaque físico, startups e fornecedores mostraram avanços em baterias, carregamento ultrarrápido e gestão térmica, confirmando a eletrificação como uma tendência contínua e essencial.
Também a condução autónoma e os novos modelos de mobilidade marcaram presença, com robotaxis, veículos urbanos inteligentes e plataformas de transporte como serviço. Sensores avançados, sistemas de radar e câmaras integrados em estruturas resistentes mostram que a autonomia exige não apenas software sofisticado, mas também componentes físicos robustos e precisos.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E INDÚSTRIA DIGITAL: A TECNOLOGIA NO DIA A DIA
A CES 2026 destacou ainda a chamada “Physical AI”, ou seja, a aplicação de inteligência artificial a máquinas físicas que interagem com o mundo real. Robôs humanoides, sistemas industriais e equipamentos de logística mostraram-se prontos para aplicações concretas, desde tarefas domésticas até assistência em saúde e ambientes industriais complexos. Este movimento revela que a robótica deixou de ser apenas experimental e se tornou um campo industrial de elevada complexidade e oportunidade.
A inteligência artificial esteve presente de forma transversal em todos os sectores. Desde a indústria automóvel à eletrónica de consumo, passando pela saúde e energia, a IA mostrou-se como infraestrutura essencial para processos industriais, de simulação e automação. A digitalização é claramente demonstrada como um elemento central na produção, permitindo maior rapidez, eficiência e integração entre design, desenvolvimento e industrialização.
A CES não esqueceu, no entanto, o utilizador final. Dispositivos inteligentes para casa, wearables, gadgets de saúde e tecnologias de realidade aumentada ou virtual mostraram um mercado em rápida evolução, com ciclos de vida curtos e elevada exigência estética e funcional. Estes produtos demonstram como a tecnologia se integra cada vez mais no quotidiano, seja na gestão da saúde, no entretenimento ou na conectividade do lar.
A GEOGRAFIA DA INOVAÇÃO VS OPORTUNIDADES PARA A INDÚSTRIA DE MOLDES
Os avanços em mobilidade, robótica, eletrónica e digitalização exigem componentes físicos de elevada precisão e complexidade, e é aqui que entram as competências da nossa indústria. Moldes para sensores, câmaras, estruturas leves, produtos e interiores inteligentes, componentes e robôs humanoides estarão entre
as áreas de maior procura considerando a enorme e vasta oferta apresentada. Ao mesmo tempo, a rápida adaptação a novos materiais, séries curtas e produção modular colocarão a flexibilidade e a capacidade técnica do sector em destaque.
No entanto, a CES 2026 evidenciou também a geografia da inovação. Empresas asiáticas da China, Coreia do Sul e Japão dominaram a exposição, não apenas em número, mas em maturidade tecnológica, revelando investimentos consistentes em industrialização e escalabilidade. Ao mesmo tempo, muitas soluções norte-americanas dependem fortemente de cadeias de fornecimento orientais, demonstrando a interdependência global da inovação.
A presença europeia, fora do espaço de startups, foi reduzida, demonstrando a necessidade do sector ter de expandir horizontes e abordar novas geografias ou novos players de forma a acompanhar estas tendências e afirmar-se como elo crítico entre inovação e produção de excelência, sendo estratégico integrar-se desde cedo nos ecossistemas de desenvolvimento tecnológico para reforçar a sua competitividade a nível global.
UM FUTURO DE VALOR ACRESCENTADO
A CES 2026 deixou claro que a inovação é hoje multipolar, transversal e profundamente integrada entre software e hardware. Para a indústria portuguesa de moldes, este contexto representa simultaneamente uma oportunidade e um desafio estrutural: sem a capacidade de acompanhar estas tendências e de se posicionar nos novos ecossistemas de inovação, o risco de perda de relevância é real.
A integração ativa com startups, centros de desenvolvimento e plataformas tecnológicas (responsáveis por grande parte da conceção e desenvolvimento dos produtos do futuro), será determinante, uma vez que esses produtos necessitarão inevitavelmente de moldes e das competências técnicas das nossas empresas. Só através dessa proximidade à inovação, aliada ao know-how, flexibilidade produtiva e capacidade de engenharia reconhecidas do sector, será possível consolidar Portugal como fornecedor de elevado valor acrescentado num mercado global cada vez mais exigente e competitivo.
Neste enquadramento, torna-se igualmente fundamental que as empresas de moldes nacionais continuem a acompanhar, de forma ativa, este tipo de certames internacionais de referência, reforçando a sua capacidade de vigilância tecnológica e de mercado.
A presença em eventos como a CES permite não só antecipar tendências emergentes e compreender a evolução das necessidades dos clientes finais, mas também estabelecer contactos estratégicos com empresas tecnológicas, startups, centros de inovação e grandes fabricantes. Estes contactos, quando trabalhados de forma estruturada e continuada, poderão traduzir-se em novas oportunidades de negócio, parcerias de desenvolvimento e integração precoce em projetos inovadores, reforçando o posicionamento competitivo do sector no contexto global.
MISSÃO EMPRESARIAL REVELA POTENCIAL DO MERCADO SAUDITA PARA INDÚSTRIA DE MOLDES
Os moldes portugueses exploraram o potencial da Arábia Saudita, numa missão que, organizada pela CEFAMOL, com o apoio da AICEP, permitiu identificar oportunidades num mercado em rápida industrialização, impulsionado pela sua estratégia de desenvolvimento ‘Vision 2030’ e por projetos estruturantes nas áreas da defesa, automóvel e embalagem.
A CEFAMOL liderou uma missão empresarial à Arábia Saudita, entre 9 e 12 de fevereiro, para acompanhar de perto a dinâmica de uma das economias mais ambiciosas da atualidade. A iniciativa, que contou com o apoio da delegação local da AICEP, contou com a participação das empresas MD Group, Neckmolde, Socem, Tecnifreza e TJ Moldes e integrou-se na estratégia de diversificação geográfica e sectorial que a associação tem vindo a promover junto do sector.
Num momento em que aquela região acelera a sua transformação económica através do plano ‘Vision 2030’, o mercado saudita pode vir a assumir-se como um destino relevante para a indústria portuguesa de moldes na região do Golfo Pérsico. O reforço da industrialização, a necessidade urgente de desenvolver cadeias de fornecimento locais e a atração de investimento estrangeiro estão a criar espaço para empresas com elevado know-how técnico,
perfil que a indústria nacional reúne e que pode traduzir-se em oportunidades concretas de médio prazo.
As empresas nacionais realizaram reuniões institucionais e empresariais em Riade e Jeddah, que proporcionaram uma visão clara de um ecossistema industrial em rápida evolução, sustentado por um investimento público robusto e por uma estratégia de longo prazo.
O foco da missão incidiu na vertente da defesa, sendo complementada com contactos na indústria automóvel e no sector da embalagem, ambos em forte crescimento naquela região. A aposta na capacitação, desenvolvimento e localização das indústrias militares e de defesa (também integradas no ‘Vision 2030’), evidencia a intenção do país de construir competências industriais próprias e reduzir dependências externas.
Manuel Oliveira, secretário-geral da CEFAMOL, sublinhou que a delegação portuguesa identificou vários fatores positivos num mercado que “tem estado fora do radar da maioria das empresas de moldes nacionais, mas que apresenta oportunidades muito interessantes e a explorar”.
Durante a missão, as empresas visitaram a World Defense Show 2026, uma exposição bienal fundada pela Autoridade Geral para as Indústrias Militares, que este ano registou uma participação recorde da comunidade global de defesa. De acordo com a organização, nos cinco dias do evento, estiveram presentes 1.486 expositores de 89 países, 513 delegações oficiais provenientes de 121 geografias e cerca de 137.000 visitantes. Foram ainda anunciados 60 acordos militares e de defesa, avaliados em aproximadamente 33 mil milhões de riais sauditas (cerca de 7,5 mil milhões de euros), reforçando o posicionamento do país como centro global de parcerias, investimento e transferência de tecnologia.
Foram apresentadas capacidades de defesa nos domínios aéreo, terrestre, marítimo, espacial e da segurança, bem como soluções orientadas para a integração de sistemas tecnologicamente avançados, num sinal claro da sofisticação que o país pretende alcançar.
Para Manuel Oliveira, a feira “evidenciou que a defesa e a segurança estão a assumir um papel central nas políticas industriais e tecnológicas à escala mundial”. Apesar de muitos dos grandes players deste sector já possuírem cadeias de abastecimento estruturadas, o responsável considera que estas poderão abrir espaço a fornecedores especializados, lembrando que se trata de uma indústria com forte dimensão estratégica, capaz de funcionar como motor de inovação, transferência de tecnologia e desenvolvimento de cadeias avançadas.
O secretário-geral da CEFAMOL destacou ainda a estratégia saudita de diversificação económica, que está a traduzir-se numa “expansão industrial concreta”, com impacto em múltiplos sectores, entre os quais, o automóvel.
Entre os exemplos apontados estão projetos como a Lucid Motors, fabricante norte-americano de veículos elétricos, e a Ceer, marca saudita focada na mobilidade elétrica, iniciativas que demonstram a ambição do país em criar uma base industrial própria. A localização da produção automóvel está, assim, a gerar novas oportunidades para empresas especializadas.
Também o sector da embalagem, sobretudo no ramo alimentar, evidencia um crescimento significativo, reforçando a necessidade de fornecedores qualificados, adiantou.
Neste contexto, Manuel Oliveira alertou que a Arábia Saudita revelou uma forte necessidade de desenvolver rapidamente novas cadeias de fornecimento, o que abre espaço a empresas com know-how consolidado, como as da indústria de moldes.
ENTRAR NO MERCADO
A missão reforçou, segundo o responsável, a importância de uma estratégia que combine diversificação geográfica e sectorial com a consolidação nos mercados tradicionais, contribuindo para um crescimento mais sustentável da indústria portuguesa.
No caso saudita, a presença no terreno assume particular relevância. Manuel Oliveira destacou “o contacto direto com entidades locais e a compreensão do contexto institucional e empresarial” como “condições determinantes para uma abordagem eficaz ao mercado”. Defende ainda uma atuação concertada, revelando que, durante as visitas e reuniões, foi possível encontrar quadros dentro das empresas já familiarizados com a indústria portuguesa de moldes, uma perceção que, no seu entender, deve ser reforçada para permitir o crescimento deste mercado no médio prazo.
“É essencial darmo-nos a conhecer e aquilo que nos distingue, o nosso know-how e especialização e assumirmo-nos como os parceiros certos para ajudar a impulsionar a estratégia de desenvolvimento em curso naquela região”, afirmou.
Ainda de acordo com o responsável, a intervenção da associação será essencial para criar condições de entrada estruturada no mercado, facilitar contactos institucionais e apoiar as empresas na identificação de oportunidades concretas.
A proximidade aos polos de investimento e a capacidade de antecipar tendências surgem, assim, como fatores críticos para consolidar o posicionamento de Portugal enquanto parceiro global de referência numa economia que está a redefinir o seu perfil industrial e que poderá tornar-se, nos próximos anos, um destino estratégico para os moldes portugueses.
A CEFAMOL, revelou ainda, está a equacionar a possibilidade de realizar novas iniciativas no futuro que permitam aos moldes nacionais interagir com os players deste mercado.
DEFESA
MILINOVATECH NASCE EM LEIRIA PARA REFORÇAR COMPETIVIDADE DA INDÚSTRIA DE MOLDES
A Milinovatech iniciou atividade no final de 2025, com sede em Leiria, afirmando-se como uma nova empresa orientada para a consultoria, apoio técnico, gestão de produção e desenvolvimento na indústria de moldes. O seu objetivo é acrescentar valor a um sector cada vez mais exigente e competitivo.
Liderada por Francisco Milhinhos, profissional com cerca de 40 anos de experiência no sector, a empresa posiciona-se como parceira estratégica para empresas industriais e de transformação, apoiando na resolução de desafios críticos como falhas no planeamento, incumprimento de prazos, dificuldades na gestão de prioridades e falta de controlo efetivo de custos.
Com base num profundo conhecimento dos processos produtivos, a Milinovatech atua na melhoria da organização interna, otimização de
recursos e apoio à tomada de decisão, tornando as operações mais eficientes, previsíveis e controladas. A sua abordagem assenta na transformação de conhecimento técnico e estratégico em resultados concretos para os seus clientes.
Um dos pilares da sua atividade é a representação, na Península Ibérica, da IKOffice, empresa alemã com mais de 30 anos de experiência no desenvolvimento de software de planeamento e controlo da produção para ambientes industriais complexos. Estas soluções são especialmente direcionadas para sectores como moldes, cunhos e cortantes, estampagem, injeção de plástico e metalomecânica de precisão.
A estratégia da Milinovatech passa também pela expansão internacional: para além do mercado ibérico, aposta também na América Latina.
Em 2026, a empresa marcará presença em eventos de referência do sector, como a 360 Tech Industry (Exponor) e a EXPOMETAL (Exposalão, Batalha), reforçando a sua proximidade ao mercado e dando a conhecer a sua proposta de valor a clientes e parceiros.
ENSINO PROFISSIONAL GANHA FORÇA: SIMOLDES APROXIMA JOVENS DO MERCADO DE TRABALHO
O futuro de uma indústria mais qualificada, tecnológica e sustentável começa nas escolhas que os jovens fazem hoje. Foi com esta visão que a Simoldes recebeu mais uma edição do Open Day Pro4U, um projeto promovido pela Business Roundtable Portugal (BRP) que tem como missão sensibilizar os alunos do 9º ano ao ensino profissional e às profissões técnicas que irão moldar o amanhã.
Em Portugal, o ensino profissional tem vindo a ganhar destaque como uma alternativa sólida ao ensino tradicional, sendo cada vez mais valorizado por empresas e pela sociedade. Este regime de ensino, que combina formação académica com prática em contexto real de trabalho, prepara os jovens para integrar rapidamente o mercado laboral, respondendo às necessidades concretas das indústrias nacionais. Apesar de durante muitos anos ter sido encarado como uma segunda opção, atualmente começa a ser reconhecido como uma via de excelência para o desenvolvimento de competências técnicas, promovendo a empregabilidade e contribuindo para o crescimento económico do país.
O ensino profissional assume particular importância num contexto de transformação tecnológica e de inovação, sendo essencial para suprir a falta de profissionais qualificados em áreas estratégicas e impulsionar a competitividade nacional. Importa também referir que, noutros países europeus, como a Alemanha, o ensino profissional é amplamente reconhecido, valorizado e visto como uma via de excelência para carreiras técnicas altamente qualificadas.
Ao longo da manhã, quase uma centena de alunos de algumas escolas de Oliveira de Azeméis, tiveram oportunidade de entrar em contacto direto com o ambiente industrial e compreender o papel fundamental que a formação técnica desempenha num mercado cada vez mais exigente e inovador.
Através de apresentações, esclarecimentos e visitas às nossas unidades de negócio, os alunos puderam conhecer processos reais, explorar áreas técnicas, ouvir testemunhos de colaboradores e descobrir percursos alinhados com as necessidades atuais e futuras da indústria.
A Simoldes tem vindo a consolidar o seu compromisso com a formação de jovens, apoiando iniciativas que aproximam as novas gerações da realidade industrial e promovem escolhas informadas e alinhadas com o mercado do trabalho.
Este evento representa mais um passo nessa direção, demonstrando que, quando empresas, escolas e comunidade caminham lado a lado, criam-se oportunidades reais para o crescimento das pessoas e da indústria.
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REBRANDING DO GRUPO SOCEM
O que faz uma empresa continuar relevante depois de quarenta anos?
No Grupo SOCEM, a resposta sempre foi clara: as pessoas, a visão e a vontade constante de estar um passo à frente.
Foi assim que começaram. Com coragem, espírito pioneiro e uma cultura assente na proximidade, na seriedade e no entusiasmo.
Ao longo destas quatro décadas, construíram uma marca sólida e respeitada, sustentada na confiança, na inovação e no rigor técnico.
A caminho dos 40 anos de história, assinalam um marco que une legado e futuro: a nova identidade visual do Grupo SOCEM.
O rebranding decorre aliado à transição geracional e reestruturação do Grupo, vem reafirmar a sua personalidade e projetar o caminho para o futuro. É a identidade que coloca no centro aquilo que sempre definiu a empresa: as pessoas, a união e a resiliência.
O novo símbolo nasce do equilíbrio entre curvas e ângulos, refletindo a harmonia entre tradição e inovação. Cada elemento representa valores fundamentais do Grupo - Inovação, Design,
Criação e Pessoas - que convergem para um núcleo comum: o propósito coletivo da SOCEM.
A escolha cromática reforça esta narrativa. O vermelho traduz energia, movimento e liderança. O preto e o cinza comunicam precisão, rigor e confiança técnica. A tipografia, de formas geométricas e cantos arredondados, foi desenhada para transmitir clareza e controlo.
A SOCEM ED surge também renovada. O seu símbolo passa a integrar o do Grupo SOCEM, reforçando uma identidade coesa e inserida num ecossistema comum.
Este rebranding é uma evolução na forma como a empresa se apresenta ao mundo e se relaciona com as pessoas. Um equilíbrio entre emoção e racionalidade, entre estímulo e serenidade, entre inovação e confiança.
“A todos os que fizeram e fazem parte desta história, o nosso sincero agradecimento. É convosco que continuamos a construir o futuro. Porque na SOCEM, o futuro não se espera. Constrói-se. Com pessoas, visão e propósito.”
REFLETIR SOBRE A INDÚSTRIA: SOLUÇÕES
NORMALIZADAS
Entre a resistência cultural e a pressão dos prazos, fabricantes de moldes escolhem soluções normalizadas
Na estreia de uma nova rubrica da revista “Molde”, a Eurocumsa reuniu fabricantes, para, numa conversa informal, debater o papel das soluções normalizadas. Entre vantagens claras ao nível de prazos, custos e fiabilidade, persistem resistências internas, preocupações com o investimento inicial e desafios na adaptação cultural e técnica das equipas.
A revista “Molde” inicia, nesta edição, uma nova rubrica dedicada à reflexão conjunta entre fabricantes de moldes e fornecedores, desafiando o sector a analisar de forma crítica as soluções disponíveis no mercado, identificando vantagens, limitações e oportunidades de evolução.
A primeira conversa teve lugar a 30 de março, no Centro Empresarial da Marinha Grande, e foi promovida pela Eurocumsa, que assumiu o papel de anfitriã ao reunir para a conversa técnicos de três das suas empresas-clientes: Sandro Vilela (Imoplastic Group), João Caetano (Microtools/Microplásticos Group) e Ricardo Lopes (SET/Grupo Iberomoldes). O tema central da conversa foi o papel das soluções de normalização na indústria de moldes.
Para Rui Rocha, da Eurocumsa, a normalização deve ser entendida como uma ferramenta de racionalização do processo produtivo, permitindo às empresas concentrarem-se no que realmente acrescenta valor. “Cada fabricante, no meu entender, tem de se cingir àquilo que é único em cada molde. O que faz sentido é que a peça, o artigo em plástico, é aquilo que diferencia
cada molde. Tudo o resto são componentes que existem no molde e, sempre que possível, devem ser soluções pré-feitas que possam ser integradas”, afirma.
O responsável chama ainda a atenção para custos frequentemente invisíveis no processo produtivo. “Tudo o que é colocado à máquina tem um custo, demora tempo e comporta risco. E há uma parte que nunca ninguém contabiliza, que é o tempo de projeto. O homem que esteve um ou dois dias a desenvolver aquela solução, muitas vezes, não entra nas contas”, adverte.
A lógica, sublinha, é de controlo e fiabilidade. No seu entender, “estamos a falar de mecanismos que já estão testados e que funcionam, o que reduz o risco e aumenta a previsibilidade”.
PRESSÃO E CUSTOS
Num contexto de prazos cada vez mais curtos, a normalização surge como resposta direta às exigências do mercado. Rui Rocha enfatiza que “a ideia base destas soluções é permitir uma otimização clara de prazos, evitando operações desnecessárias e reduzindo o risco de erro”.
Do lado dos fabricantes, a leitura é convergente. Sandro Vilela sublinha a necessidade de foco, defendendo que “nas nossas máquinas, não podemos perder tempo a produzir esse tipo de componentes. Temos de nos concentrar naquilo em que somos diferenciadores, que é desenvolver as zonas moldantes, e garantir que respondemos aos timings cada vez mais exigentes dos clientes”.
/ / Rui Rocha - Eurocumsa
/ / João Caetano - Microtools
Helena Silva*
* Revista Molde
João Caetano, por seu turno, reforça esta visão ao destacar o impacto na organização interna. “Tudo o que se puder ir buscar ao standard significa que não estamos a alocar recursos a fases de fabrico que não acrescentam valor. As soluções já existem, já foram desenvolvidas, e cabe-nos utilizá-las de forma inteligente”, sublinha.
A questão dos custos continua, contudo, a ser um dos principais pontos de argumento para a não utilização das soluções. Embora exista consenso quanto ao benefício global, o investimento inicial continua a ser um fator de bloqueio, acentuam os oradores.
Sandro Vilela identifica claramente o problema, afirmando que “um dos entraves à utilização destas soluções é o custo inicial.
A área financeira olha para o orçamento e assusta-se, mas não contabiliza que aquela peça passa por cinco ou seis pessoas, nem o tempo que cada uma delas vai despender. Isso é muitas vezes difícil de demonstrar internamente”. Ainda assim, é perentório: “na prática, eu acho que estas soluções tornam o processo mais barato”.
/ / Sandro Vilela - Imoplastic
Já João Caetano complementa que, “além de mais barato, o processo torna-se mais seguro”, enquanto Rui Rocha reforça que “muitas vezes não é valorizado o ganho associado ao facto de não ser necessário produzir determinada peça internamente”.
LOGÍSTICA
Um dos pontos mais consensuais da discussão prende-se com a facilidade de manutenção e substituição. Rui Rocha destaca que “se algo correr mal, sobretudo na fase de ensaios, rapidamente se substituem as peças. Se fosse um sistema desenvolvido internamente, esse processo seria muito mais demorado e dispendioso”. Acresce a dimensão logística, ilustrando que “estamos a falar, na maioria dos casos, de peças em stock, em que o maior tempo de espera é o transporte”.
Ricardo Lopes introduz uma perspetiva internacional, declarando que “quando falamos de sistemas standard, há uma vantagem clara a jusante. Se o cliente estiver nos Estados Unidos e houver uma falha, ele pode adquirir a peça localmente. Não temos de voltar a produzir tudo de raiz”. Essa previsibilidade, no seu entender, é crítica em projetos de grande escala. “Temos casos em que temos de fornecer 25% ou até 50% de peças suplentes.
A utilização de soluções standard dá-nos mais garantias no suporte pós-venda”, enfatiza.
A ideia de que a normalização limita a criatividade é relativizada pelos intervenientes. Rui Rocha considera que o problema está, muitas vezes, na abordagem ao projeto do molde. “Há duas formas de desenhar: ou se adapta o molde às soluções existentes, ou se tenta adaptar as soluções ao molde já desenhado. Muitas vezes, o erro está em começar a desenhar sem considerar o que já existe no mercado”, defende.
João Caetano, ele próprio projetista, rejeita a ideia de limitação. “Há criatividade nas soluções standard. Existem várias formas de as utilizar e até de as adaptar a outras funções. O importante é ter conhecimento do que existe”, salienta. Sandro Vilela acrescenta a dimensão cultural na fase do projeto, lembrando
que “há sempre aquele toque pessoal que os projetistas gostam de dar ao projeto”, enquanto Ricardo Lopes clarifica que, no seu entender, “não são as empresas, são os projetistas que muitas vezes resistem á adoção deste tipo de soluções”.
RESISTÊNCIA
A resistência à mudança surge como um dos principais entraves. Ricardo Lopes aponta uma questão estrutural, salientando que “temos vindo a perder know-how, tanto do lado dos clientes como dos fabricantes. É uma indústria que não tem sido capaz de atrair jovens e isso também condiciona a evolução”.
João Caetano destaca a necessidade de conhecimento contínuo, considerando que “quem projeta tem de conhecer o que o mercado oferece. E isso exige que os fornecedores apresentem regularmente novas soluções, não apenas aquilo que já é conhecido”.
Rui Rocha admite dificuldades nesse processo. “Aquilo que há dez anos era fácil (reunir técnicos para apresentar soluções), hoje é praticamente impossível”, esclarece, adiantando que, no que diz respeito às razões apontadas pelas empresas, a mais usada é que “ninguém tem tempo”.
Os participantes nesta reflexão foram unânimes em concordar que a decisão de adotar soluções standard é, muitas vezes, condicionada pelo cliente final. Ricardo Lopes explica que “clientes com maior conhecimento tendem a preferir soluções standardizadas, precisamente porque facilitam a substituição e manutenção”. E, acentua, já clientes mais conservadores mantêm especificações antigas, o que limita a inovação.
Rui Rocha destaca a complexidade deste processo, afirmando que “tenho de convencer o fabricante, que depois tem de
/ / Ricardo Lopes - SET
convencer o cliente final. E quem assume a responsabilidade é sempre o fabricante do molde”. Essa responsabilidade leva muitas empresas a evitar riscos, aponta, esclarecendo que “preferem fazer como sempre fizeram, porque assim sabem com o que contam”.
A utilização de soluções standard está também dependente da gestão de recursos internos. Ricardo Lopes explica que “se uma empresa tem capacidade disponível, tende a produzir internamente. Porque qualquer componente que compra fora é visto como dinheiro que sai da empresa”. João Caetano contrapõe que “empresas mais pequenas, com menos recursos, têm mais vantagens em recorrer a soluções standard”. Sandro Vilela, por seu turno, acrescenta uma dimensão operacional, afirmando que “quando há uma linha contínua de trabalho, faz sentido recorrer ao standard. Mas quando há quebras, as empresas tendem a utilizar os recursos disponíveis, mesmo que essa não seja a decisão mais eficiente”.
VANTAGENS
Apesar das reservas, o consenso é evidente. Ricardo Lopes sintetiza que “sempre que se pode aplicar, esta solução deve aplicar-se. A relação custo-benefício é claramente favorável”. As vantagens são múltiplas: redução de prazos, maior fiabilidade, simplificação da manutenção, melhor gestão de recursos e maior previsibilidade.
As desvantagens concentram-se no custo inicial, na necessidade de adaptação interna e, em alguns casos, em limitações geométricas ou dificuldades de montagem. Sandro Vilela aponta, por exemplo, que “nem sempre a integração das peças é simples, sobretudo quando a informação não circula devidamente entre as equipas”.
João Caetano acrescenta ainda uma dificuldade adicional. No seu entender, “na fase de projeto, pode haver perda de tempo à procura de soluções que depois se conclui que não existem, sobretudo para quem tem menos experiência nesta indústria”.
Num sector cada vez mais pressionado pela rapidez e pela eficiência, a normalização surge como uma alavanca estratégica, consideram os oradores. João Caetano afirma que “temos o desafio de ser cada vez mais rápidos e, nesse contexto, faz todo o sentido standardizar o máximo possível”.
Rui Rocha reforça a ideia, apontando para uma tendência de seleção natural no sector. “As empresas que utilizam soluções standard continuam no mercado, enquanto outras, que utilizam muito menos, têm desaparecido”, adverte.
Ainda assim, deixa um alerta. Os principais obstáculos, no seu entender, continuam a ser “o custo inicial e o peso do caderno de encargos do cliente, sobretudo pela responsabilidade que o fabricante tem de assumir”. Contudo, sublinha, mais do que uma opção técnica, a normalização é hoje uma decisão estratégica que exige mudança de mentalidade, maior proximidade entre fornecedores e fabricantes, e uma visão mais abrangente sobre o verdadeiro custo e valor ao longo do ciclo de vida do molde.
KRISTIN:
IMPACTO E RECUPERAÇÃO NA INDÚSTRIA
TEMPESTADE KRISTIN DEIXA PREJUÍZOS DE CENTENAS DE MILHÕES
ENCONTRAR FORÇA NA DESTRUIÇÃO E RENASCER COM EMPRESAS
MAIS ROBUSTAS
MENSAGEM DOS AUTARCAS
INDÚSTRIA UNIDA FACE À ADVERSIDADE: EMPRESAS OFERECEM APOIO PARA GARANTIR PRAZOS E PROTEGER CLIENTES
RECONSTRUIR, COMUNICAR E REINVENTAR: SECTOR TEM DE AGIR PARA NÃO
PERDER MERCADO
ENTREVISTA A PAULO FERNANDES
TEMPESTADE KRISTIN DEIXA PREJUÍZOS DE CENTENAS DE MILHÕES
Helena Silva*
* Revista Molde
Rajadas superiores a 200 km/h, centenas de desalojados e mais de mil empresas afetadas, apenas na Marinha Grande e em Leiria, marcaram a passagem da tempestade Kristin, a 28 de janeiro. Mais de um mês depois, os danos económicos continuavam a ser contabilizados e as estimativas apontavam para cerca de 531 milhões de euros necessários para apoiar a recuperação das empresas na região de Leiria.
A passagem da tempestade Kristin, a 28 de janeiro, deixou um rasto de destruição na região Centro, com particular incidência no distrito de Leiria. Inserida no chamado “comboio de tempestades” que atravessou o país nesse período, a depressão registou rajadas superiores a 200 quilómetros por hora, provocando danos extensos em infraestruturas públicas, equipamentos coletivos e no tecido empresarial.
O impacto humano foi igualmente severo: treze pessoas morreram, a maioria no concelho de Leiria, e mais de 500 ficaram desalojadas
em todo o país. Para além das habitações, também equipamentos municipais, estruturas associativas, edifícios religiosos e serviços do Estado sofreram estragos significativos.
Foi no sector económico que a dimensão da destruição se tornou particularmente evidente. Só nos municípios da Marinha Grande e de Leiria foram mais de mil as empresas afetadas, muitas com danos estruturais graves nas instalações e equipamentos.
Nas semanas seguintes à tempestade, a dimensão dos prejuízos começou a ganhar contornos mais concretos. No concelho de Leiria, as empresas reportaram mais de 750 ocorrências de danos através da plataforma de registo de estragos criada para o efeito, correspondendo a prejuízos superiores a 170 milhões de euros. No entanto, a análise posterior, a partir de imagens aéreas de alta resolução recolhidas por drones, permitiu identificar novos casos de destruição em unidades empresariais que não tinham sido inicialmente reportadas.
RECUPERAÇÃO
Com base nessa avaliação adicional, a estimativa de perdas para o tecido empresarial em Leiria foi revista, um mês após a tempestade, para mais de 200 milhões de euros. O número incluiu empresas com danos estruturais graves e também casos de unidades praticamente destruídas, cuja recuperação implicará investimentos significativos.
O impacto económico não se limita aos danos materiais imediatos. A paralisação ou redução da atividade em várias empresas levanta preocupações quanto às consequências no emprego e no contributo da região para a economia nacional.
Num plano mais amplo, as necessidades de recuperação na região são ainda mais elevadas. As estimativas apontavam, em março, para cerca de 531 milhões de euros necessários para apoiar a recuperação das empresas em Leiria.
A dimensão territorial do fenómeno também ajuda a explicar a complexidade da resposta. O mau tempo de final de janeiro atingiu 44 municípios, afetando mais de um milhão de pessoas e milhares de empresas. Na região de Leiria concentram-se cerca de 55 mil empresas que sofreram algum tipo de impacto direto ou indireto.
A tempestade comprometeu ainda infraestruturas essenciais ao funcionamento da atividade económica. Sem energia elétrica durante dias em algumas zonas, várias empresas viram interrompidas as suas operações. Mesmo semanas depois do evento, cerca de 7.600 clientes permaneciam sem fornecimento elétrico, enquanto falhas de energia afetaram cerca de 40% das antenas de comunicações móveis, deixando perto de 83.900 utilizadores sem serviço.
MEDIDAS DE APOIO
Num contexto em que muitas empresas continuam a reconstruir instalações, reparar equipamentos e retomar gradualmente a atividade, começam também a surgir críticas à resposta institucional.
Várias associações empresariais da região, entre as quais a CEFAMOL, alertam para atrasos na concretização das medidas de apoio anunciadas. Quase dois meses após a tempestade, muitas empresas continuavam sem respostas efetivas que lhes permitiriam avançar com a recuperação.
Entre as principais dificuldades apontadas está o acesso às linhas de crédito criadas para apoiar as empresas afetadas. Segundo as associações, estes instrumentos estão a chegar a um número muito limitado de empresas e, em muitos casos, continuam a ser tratados pela banca como operações de crédito convencionais, com exigência de garantias adicionais, incluindo hipotecas.
Também o processo de regularização de sinistros pelas seguradoras foi alvo de críticas. Empresários relatam atrasos na realização de peritagens presenciais e na atribuição de adiantamentos, considerados essenciais para iniciar rapidamente os trabalhos de reparação.
Outro dos pontos de contestação prende-se com as regras de acesso aos apoios previstos no âmbito do instrumento financeiro destinado à inovação e competitividade, que, segundo as associações, contém limitações que podem excluir muitas empresas afetadas.
Perante este cenário, as organizações empresariais defendem ajustes às medidas existentes, incluindo o alargamento dos códigos de atividade elegíveis, maior flexibilidade na validação dos danos e alterações aos critérios de acesso aos incentivos.
Para o tecido empresarial da região, a prioridade continua a ser acelerar a reconstrução. Mas, passadas várias semanas sobre a tempestade que devastou instalações industriais e logísticas, muitos empresários consideram que a recuperação ainda está longe de acompanhar a dimensão dos estragos.
SOLIDARIEDADE
Na sequência da tempestade, emergiu uma notável onda de solidariedade que atravessou o país de norte a sul, e ultrapassou mesmo fronteiras. Voluntários mobilizaram-se de forma espontânea, assegurando o transporte de materiais de construção, bens essenciais e até mão-de-obra especializada para apoiar as zonas mais afetadas.
Em paralelo, na indústria de moldes, assistiu-se a mais um exemplo de cooperação: empresas tradicionalmente concorrentes colocaram de lado rivalidades para apoiar aquelas que viram a sua capacidade produtiva comprometida, partilhando recursos, acolhendo produção e garantindo o cumprimento de prazos. Um esforço coletivo que permitiu não falhar compromissos com clientes e que evidenciou a resiliência e coesão de um sector habituado a competir, mas capaz de se unir nos momentos mais críticos.
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ENCONTRAR FORÇA NA DESTRUIÇÃO E RENASCER COM EMPRESAS MAIS ROBUSTAS
Helena Silva*
* Revista Molde
A passagem da tempestade Kristin, a 28 de janeiro, deixou um rasto profundo de destruição no tecido empresarial. Em poucas horas, o vento forte derrubou telhados, paredes e estruturas, expondo máquinas e anos de investimento ao impacto direto da intempérie. Para muitos empresários, o cenário que encontraram nas horas seguintes foi o de décadas de trabalho reduzidas a destroços. Mas, enquanto os prejuízos eram contabilizados e os danos avaliados, a reação começou a ganhar forma. Equipas mobilizaram-se, máquinas foram resgatadas, improvisaram-se soluções e a prioridade tornou-se clara: cumprir compromissos e preparar o regresso à atividade. Entre perdas e incertezas, surgiram também sinais de resistência, fosse na dedicação das equipas, na compreensão dos clientes ou na solidariedade que se instalou entre empresas e comunidade. Neste ‘renascimento’, as empresas procuram agora apostar em infraestruturas mais sólidas e mais agilidade na produção, de forma a retomar a normalidade com uma maior robustez e resistência.
Das quatro unidades que compõem o grupo TJ Moldes, duas ficaram praticamente destruídas com a tempestade. Numa delas, o vento arrancou cobertura e paredes, deixando exposto todo o parque de máquinas, composto por cerca de três dezenas de equipamentos, à chuva intensa que se seguiu nos dias seguintes. Apesar da tentativa imediata de proteger a maquinaria com plásticos e lonas, a água acabou por causar danos cujo alcance ainda estava por determinar quase dois meses depois. Ainda assim, João Faustino mantém o foco na recuperação.
“Estamos a dar passos para recuperar os equipamentos. Não vamos desistir. Vamos insistir para salvar as máquinas que conseguirmos”, assegura.
Gradualmente, os equipamentos foram sendo transportados para as unidades que resistiram ao temporal. Ali, passam por um processo demorado de limpeza, secagem e inspeção técnica. Alguns já voltaram a funcionar, outros aguardam avaliação mais profunda. “É um trabalho moroso de inspeção e análise, mas há máquinas imprescindíveis para aquilo que fazemos e que temos de conseguir recuperar”, explica o empresário.
Apesar do grau de destruição, a empresa nunca chegou a parar totalmente. Nos primeiros dias, sem energia elétrica e sem comunicações, a atividade manteve-se com recurso a geradores. Havia prazos a cumprir e projetos em curso que não podiam falhar. Para João Faustino, o papel da equipa foi decisivo. Os 112 colaboradores mobilizaram-se não apenas para garantir a produção, mas também para ajudar na recuperação das instalações. “Até os gradeamentos da fábrica estão a ser feitos por nós, cá dentro”, conta. Os projetos acabaram por ser concluídos dentro dos prazos. Apenas os ensaios dos moldes tiveram de ser realizados no exterior, já que a unidade com máquinas de injeção foi totalmente destruída.
Outro elemento que considera determinante foi a confiança dos clientes e fornecedores. Muitos deslocaram-se à empresa para perceber a dimensão dos danos, mas mantiveram os projetos.
“Houve clientes e fornecedores que vieram ter connosco, preocupados com a nossa situação, mas também com os seus projetos. Perceberam que estávamos a fazer tudo o que podíamos e que não iríamos falhar. E não falhámos”, explica.
ROBUSTEZ
A reconstrução está agora a ser planeada com apoio de engenheiros civis. A ideia é aproveitar o processo para reforçar estruturas e repensar o layout produtivo. “O que vamos fazer será no sentido de nos tornar mais robustos e capazes de suportar intempéries, caso voltem a acontecer”, explica, referindo as alterações climáticas e, com elas, a forte possibilidade de fenómenos semelhantes se repetirem. Outra preocupação diz respeito à dependência energética. A empresa estuda agora soluções com geradores e sistemas de armazenamento de energia que permitam manter a laboração mesmo em caso de falhas da rede. “Contra a natureza sabemos que não podemos fazer muito. Mas podemos preparar-nos melhor. Recomeçar com novos padrões e regressar melhores do que éramos”, salienta.
Recordando os primeiros momentos após o temporal, João Faustino admite que o maior desafio foi vencer o impulso de desistir. “É preciso ter força para contrariar o desânimo e a dor. Mas estar rodeado de pessoas que acreditam faz-nos voltar todos os dias, enfrentar a situação e tomar decisões”, enfatiza, destacando também a onda de solidariedade que surgiu entre empresas da região.
“Empresários concorrentes foram apenas amigos a precisar de ajuda e amigos a ajudar. Essa união levou a que muitos problemas fossem resolvidos e muitas soluções encontradas”, conta. Passada a tempestade, outra inquietação surge no horizonte: a incerteza económica global. “Sinto que a procura por moldes está a diminuir. O mercado está a abrandar”, afirma, referindo que alguns projetos aguardam decisão e acabam por ser aprovados já com prazos muito apertados. Segundo explica, essa pressão é sentida em vários sectores, como o automóvel e os eletrodomésticos (os mais significativos na atividade da empresa), e intensifica a concorrência de mercados asiáticos.
/ / João Faustino - TJ Moldes
DIB4T: “TEMOS DE NOS HABITUAR E, SOBRETUDO, DE NOS PREPARAR”
Na DIB4T, o impacto da tempestade chegou de forma indireta. O vento não atingiu diretamente o edifício, mas o telhado de um pavilhão vizinho foi projetado contra as instalações, destruindo estruturas metálicas e parte da cobertura. “Felizmente, nenhum equipamento ou máquina foram atingidos”, relata Pedro Oliveira.
Ainda assim, a empresa enfrentou semanas difíceis. A atividade esteve parada devido à falha de energia elétrica, que durou quase dez dias, e à ausência de comunicações, que se prolongou por mais de duas semanas. “Foram três semanas muito complicadas: sem comunicações, com muitos constrangimentos e sem conseguir dar resposta aos clientes”, conta.
Cerca de 17% da faturação da empresa corresponde a clientes internacionais, o que agravou a necessidade de manter contactos e cumprir prazos. Durante algum tempo, a equipa trabalhou a partir de casa, recorrendo a soluções online improvisadas. “Estivemos com UPS queimadas, computadores sem funcionar, eletricidade com muitos cortes e muitos picos, sob grande instabilidade”, descreve, adiantando que “só no dia 16 de fevereiro conseguimos, finalmente, reativar a atividade”.
Para cumprir alguns compromissos, foi necessário recorrer ao apoio de outra empresa da região de Leiria que, apesar de também ter sofrido danos, possuía um gerador e conseguiu assumir parte do trabalho: o suficiente para não falhar prazos e compromissos. No entanto, a maior dificuldade, destaca, foi chegar à empresa nos dias imediatamente após o temporal. “Durante três dias, as estradas e caminhos estavam bloqueados por árvores e destroços. Só consegui chegar à empresa vindo a pé, saltando por cima de tudo isso. Não se conseguia chegar cá por via rodoviária”, explica.
Para Pedro Oliveira, esse tempo de espera pode ser decisivo em situações mais graves. “Se a empresa estivesse mais danificada, seria o tempo necessário para ficar sem máquinas. E isso, pelo que sabemos, aconteceu em muitos casos”, sublinha.
MUDAR
Manifestando-se convicto que fenómenos como este poderão tornar-se mais frequentes, recorda, a título de exemplo, a tempestade Leslie, que há alguns anos deixou um rasto de destruição noutras zonas da região. “Temos percebido que este
tipo de situações começa a ser frequente e temos de nos habituar e, sobretudo, de nos preparar”, defende.
Na empresa, essa reflexão já começou a traduzir-se em mudanças concretas. No processo de renovação da certificação ISO 9001, por exemplo, foram integradas novas medidas para reforçar a resiliência das infraestruturas. “Fizemos uma análise da infraestrutura, da energia e das comunicações, detetámos os pontos fracos e estamos a melhorá-los e, com isso, a tornar-nos mais resilientes”, afirma. O objetivo, explica, é agir antes que situações semelhantes voltem a acontecer.
“Não podemos estar à espera que volte a acontecer. Temos de criar soluções”. Ou seja, na reconstrução, a estratégia da empresa é clara: aproveitar para melhorar. “Temos de mudar e fazer isto de outra forma, bem feito, para resistir a situações destas que, lamentavelmente, penso que serão o nosso novo normal”, considera. Também ao nível das infraestruturas públicas considera que será necessária reflexão, sobretudo no acesso às empresas e zonas industriais. Uma das prioridades, defende, deveria passar por redefinir vias rodoviárias e acessos, garantindo resposta rápida em situações de emergência.
DECONORMA: “O PRIMEIRO SENTIMENTO FOI QUE SERIA IMPOSSÍVEL RECUPERAR”
Na Deconorma, o impacto da tempestade foi devastador. O vento arrancou o telhado do pavilhão-sede e destruiu parte da estrutura do edifício, deixando expostas à chuva as 35 máquinas da empresa, dedicada ao desenvolvimento de acessórios para a indústria de moldes.
A extensão dos danos ainda hoje é difícil de quantificar, considera Urbano Faria, admitindo não saber quantos equipamentos poderão voltar a funcionar. Com as instalações destruídas, a empresa
arrendou rapidamente um pavilhão vizinho para onde transferiu as máquinas. É ali que decorre agora o processo de recuperação.
“Temos quatro equipas de mecânicos, de várias marcas, que estão a trabalhar nisso”, explica. A convicção é que uma parte significativa dos equipamentos possa ser salva. Entretanto, será também nesse espaço que a produção será retomada, enquanto decorrem as obras de reconstrução do edifício principal.
Urbano Faria acredita que a obra dificilmente demorará menos de um ano. A reconstrução, adianta, “aproveitará para reforçar
/ / Pedro Oliveira - DIB4T
/ / Urbano Faria - Deconorma
materiais e soluções construtivas, tornando o edifício mais resistente”. Salienta ainda que o regresso à laboração “será gradual”. Inicialmente, a atividade deverá retomar apenas entre 10% e 15% da capacidade habitual, aumentando à medida que as máquinas forem sendo recuperadas.
Os 28 colaboradores, conta, mantêm presença diária na empresa, apoiando nas tarefas de reorganização e recuperação. “A empresa recorreu também a apoio do Instituto de Emprego e Formação Profissional para enfrentar este período de transição”, conta.
No período mais crítico, durante três semanas, a empresa esteve sem eletricidade. “A energia só regressou quando foi possível ligar o nosso posto de transformação (PT) e alimentar o pavilhão temporário e a zona de escritórios”, destaca.
CONFIANÇA
Apesar das dificuldades, assegura o empresário, a relação com os clientes manteve-se sólida. “Entregámos tudo o que tínhamos pronto. Naquilo que ainda não estava concluído, os clientes tiveram de recorrer a outros fornecedores para terminar os moldes, mas, ainda assim, a confiança manteve-se”, conta, adiantando que “se encontrámos força e decidimos permanecer foi, muito, pela confiança que sentimos dos nossos clientes”.
À medida que a produção for sendo retomada, a empresa voltará gradualmente a aceitar novos projetos. “Não conseguiremos ainda fazer aquilo que fazíamos. Por isso, estamos a aceitar apenas alguns projetos”, conta, sublinhando que, no plano financeiro, a empresa “tem condições para enfrentar a recuperação”. Contudo, Urbano Faria reconhece que muitas empresas poderão ter mais dificuldades de recuperar sem apoios.
O empresário revela ainda que, no futuro, a principal mudança será visível nas instalações. O edifício terá de ser mais robusto, até porque a paisagem envolvente também mudou. “Perdemos todas as árvores em volta, que serviam de cortina ao vento”, explica, recordando que parte do pinhal já tinha sido destruída pelos incêndios de 2017. Ao nível da produção, não estão previstas mudanças profundas.
“A produção estava bem equipada e funcional para a resposta que dávamos aos nossos clientes e não vale a pena pensar em mudanças megalómanas”, defende, acreditando que a normalidade completa, com o regresso às instalações reconstruídas, “deverá demorar mais de um ano”
Entre as dificuldades atuais, Urbano Faria aponta ainda a escassez de empresas de construção disponíveis para avaliar os danos e apresentar orçamentos.
Recorda com clareza o momento em que chegou à empresa após a tempestade, esperando encontrar apenas alguns danos menores. “Pensei que teria uma ou outra telha fora do sítio. Quando vi toda a destruição, foi um choque tal que o primeiro sentimento foi que seria impossível recuperar”, acentua, adiantando que, dias depois, “já estava a negociar o arrendamento do pavilhão vizinho e a reorganizar a empresa”.
“Passámos por momentos de desolação, dor e muito desânimo. Mas isso vai fazer com que voltemos mais fortes do que antes e com vontade de fazer aquilo que os nossos clientes precisam”, enfatiza.
MENSAGEM DOS AUTARCAS
/ / Presidente da Câmara de Leiria - Gonçalo Lopes
“As empresas mostraram que este é um território capacitado para transformar desafios em novos ciclos de crescimento”
Leiria construiu ao longo de décadas uma identidade industrial muito vincada, tendo, no centro dessa história, o setor dos moldes, que transformou conhecimento, engenho e capacidade de inovação numa marca reconhecida nos mercados internacionais. Mais do que uma atividade económica, os moldes são parte da cultura empresarial desta região: da capacidade de criar tecnologia, de exportar valor e de gerar emprego qualificado a partir do nosso território.
Os acontecimentos de 27 de janeiro colocaram-nos de novo à prova, mas aquilo que rapidamente se tornou evidente foi a excelência do nosso tecido empresarial. As empresas começaram de imediato a reerguer-se e mostraram, mais uma vez, que este é um território capacitado como poucos para transformar desafios em novos ciclos de crescimento. É precisamente com esse espírito que estamos a trabalhar no Município de Leiria. O nosso compromisso é olhar para este momento não apenas como um processo de recuperação, mas como uma oportunidade para reforçarmos a matriz inovadora e competitiva e ainda a vocação internacionalista da nossa indústria.
Porque, se há sector que nos ensina todos os dias que o futuro não acontece por acaso, é precisamente o dos moldes: um sector que sabe, como poucos, que o futuro constrói-se e molda-se.
Gonçalo Lopes
Presidente da Câmara de Leiria
“Este é um momento exige união e capacidade de resposta”
A indústria de moldes da Marinha Grande faz parte da identidade do nosso concelho e é um dos exemplos mais notáveis da capacidade portuguesa de inovar, competir e liderar à escala internacional. Ao longo de oito décadas, este sector construiu uma reputação assente na tecnologia, no conhecimento e, sobretudo, numa extraordinária resiliência empresarial que tem sabido enfrentar e superar os desafios de cada época.
Os efeitos recentes da tempestade Kristin trouxeram dificuldades acrescidas a muitas empresas e infraestruturas, num momento que exige união e capacidade de resposta. Os impactos foram, em alguns casos, devastadores, mas sabemos também que este sector, tantas vezes posto à prova ao longo da sua história, tem demonstrado uma notável capacidade de adaptação e superação.
Acreditamos firmemente na força das empresas da Marinha Grande, na visão dos seus empresários e no talento das suas equipas. A autarquia estará ao lado deste sector estratégico, apoiando todos os esforços que contribuam para a recuperação e para a continuação de um percurso de inovação, crescimento e afirmação internacional que orgulha o município e o país.
Paulo Vicente
Presidente da Câmara da Marinha Grande
/ / Presidente da Câmara da Marinha Grande - Paulo Vicente
INDÚSTRIA UNIDA FACE À ADVERSIDADE: EMPRESAS OFERECEM APOIO PARA GARANTIR PRAZOS E PROTEGER CLIENTES
Helena Silva*
* Revista Molde
Os impactos provocados pela depressão Kristin na capacidade produtiva da região de Leiria, mobilizaram cerca de quatro dezenas de empresas da indústria de moldes que disponibilizaram instalações, equipamentos e serviços para apoiar unidades afetadas, numa iniciativa coordenada pela CEFAMOL através de uma ‘Bolsa de Disponibilidade’. A resposta rápida refletiu um traço distintivo desta indústria: a entreajuda entre concorrentes diretos para garantir que compromissos com clientes não são postos em causa.
A tempestade Kristin deixou marcas profundas na região de Leiria, nomeadamente num grande número de empresas de moldes. Danos em infraestruturas, falhas prolongadas de eletricidade ou comunicações e interrupções na atividade produtiva colocaram em risco prazos de entrega e compromissos com clientes internacionais.
Perante este cenário, a CEFAMOL lançou uma ‘Bolsa de Disponibilidade’ destinada a aproximar empresas com capacidade produtiva disponível daquelas que viram a sua atividade comprometida. A iniciativa mobilizou cerca de quatro dezenas de empresas, que ofereceram instalações e serviços para garantir que projetos em curso pudessem continuar a avançar.
E na generalidade dos casos, apesar da situação começar a caminhar para a normalização, essa ajuda mantém-se ativa. Para muitos empresários, mais do que uma resposta pontual a
uma crise, trata-se de um reflexo da cultura de cooperação que caracteriza o sector.
Localizada em Oliveira de Azeméis, fora da região mais afetada pela tempestade, a Moldes Choupeiro não registou danos. Ainda assim, logo que teve conhecimento da situação procurou perceber de que forma poderia apoiar outras empresas.
/ / André Choupeiro
“Vimos a comunicação da CEFAMOL e, como já estávamos preocupados, porque nesta indústria conhecemo-nos praticamente todos uns aos outros, não podíamos ficar indiferentes; tínhamos de apoiar naquilo que pudéssemos”, conta André Choupeiro.
“Como fabricante de moldes, já tinha a noção das dificuldades inerentes ao negócio nestes últimos tempos, ainda por cima agravado com esta situação… tínhamos de ser solidários”, adianta, sublinhando que “sabemos que o compromisso com os clientes é sempre muito importante e foi nisso que nos focámos ao disponibilizar as nossas instalações e serviços para o que fosse necessário. Disponibilizamos e mantemo-nos ao dispor para apoiar as empresas que necessitem em serviços de maquinação, erosão, e outros processos que tenham necessidade e dentro da nossa capacidade”.
Apesar da disponibilidade, a empresa não chegou a receber pedidos de apoio. “Não tivemos nenhum contacto, o que me leva a crer que as empresas foram conseguindo, pelos seus próprios meios, ir solucionando esta questão”, afirma, enfatizando que “isso não surpreende porque este sector já passou por muito e sempre conseguiu ultrapassar as adversidades. Mas mantemos a disponibilidade e estamos recetivos com os nossos serviços”.
No que respeita ao mercado, o empresário reconhece um período recente de abrandamento. “Há, mesmo, muitos mercados que notamos que estão parados”, aponta, salientando que, ainda assim, desde o final de fevereiro começou a notar “alguns sinais de recuperação, com mais contactos e interesse em novos projetos”. A empresa, esclarece, “nunca deixou de produzir, embora tenha sentido uma redução da atividade”. Cerca de metade da produção destina-se à indústria automóvel e a Europa é o principal mercado. E é neste, explica, que começa a “sentir algum movimento”.
Para as empresas mais afetadas pela tempestade, acredita que a retoma da procura será determinante. “Não faço sequer ideia do que significa passar por um grau de destruição deste tipo. Felizmente, nunca nos aconteceu nada do género”, considera, adiantando ter tido “oportunidade de ir à Marinha Grande e presenciei a destruição. É uma dor que se sente e que nos marca. Não conseguimos ficar indiferentes”. Por isso, sublinha, “nos disponibilizamos para ajudar no que for necessário. É o mínimo que podemos fazer”.
“Se uma ou duas empresas falham é todo o setor que fica em causa”
A Lismolde, localizada em Porto de Mós, foi uma das empresas afetada pela tempestade, registando danos na estrutura e vários dias sem eletricidade. Assim que conseguiu retomar a atividade, a empresa decidiu disponibilizar capacidade produtiva para apoiar outras unidades.
“Fosse por falta de eletricidade, fosse por destruição dos sistemas produtivos, com prazos a cumprir, as empresas tinham mesmo de acabar os seus moldes. Nós, nesta zona, tivemos uma recuperação mais rápida, felizmente, e, por isso, tínhamos de apoiar”, explica Diogo Alexandre.
A empresa colocou à disposição serviços de maquinação, CNC e ensaios de injeção; ou seja, praticamente todas as etapas necessárias à conclusão de um molde. E acabou por apoiar algumas empresas da região. “Fomos contactados e acabámos por apoiar 3 ou 4 empresas da zona de Leiria”, refere.
Para o responsável, a cooperação é essencial para preservar a reputação do sector. “Fizemos a diferença e é isto que é suposto fazer: se fosse ao contrário, temos a certeza de que o fariam connosco”, sustenta, adiantando que “trabalhámos na base da confiança. O objetivo foi cumprir os prazos, honrar compromissos e satisfazer os contratos com os clientes. Sabemos a importância dos prazos. Fizemo-lo com toda a nossa vontade. Porque se uma ou duas empresas falham é todo o sector que fica em causa. Essa é a nossa visão”.
Em termos de mercado, a empresa vive também um período de expectativa, com parte da equipa em layoff, consequência da estagnação dos últimos meses e dos efeitos da tempestade.
“Aquilo que sentimos é que há, desde início de março, uma maior atividade, mais procura, perspetivas de projetos novos e possíveis encomendas. Estamos expectantes”, salienta. Tal como em muitas empresas do sector, a dependência da indústria automóvel é elevada e é sobretudo nesse mercado europeu que diz começar a notar sinais de maior dinamismo.
“Este é o espírito desta indústria: temos uma ligação forte”
O grupo Molde Matos, com unidades na Moita e na Marinha Grande, foi diretamente afetado pela tempestade, que provocou danos em todas as quatro empresas do grupo. No caso da Molde Matos, parte da cobertura foi levada pelo vento, embora a atividade tenha conseguido manter-se. Mas a empresa esteve mais de uma semana sem eletricidade. A unidade mais afetada foi a Matosplas, que sofreu danos estruturais significativos e foi a última a retomar a atividade. Em março, todas já estavam a laborar praticamente com normalidade.
Para Miguel Matos, a reação da empresa foi guiada por um princípio que considera fazer parte da cultura interna do grupo. “Na Molde Matos, e no grupo, temos um mote interno que nos move que é ‘insistir’ e ‘persistir’. Parecem apenas palavras, mas não são. Este é o nosso ADN desde há muito e, por isso, face ao que aconteceu, mesmo no cenário de caos que vivemos, foi necessário tomar decisões. E tomámos. Avançar com medidas e avançámos. Procurando, no meio de tudo isto, manter uma mente serena, apesar da devastação, insistindo e persistindo”, explica.
Durante o período mais crítico, conta, “demos apoio ao exército no hospital militar que foi criado, e recebemos apoio dos militares quando, antes da eletricidade ser restabelecida, houve necessidade
de proteger as nossas instalações”. Ao mesmo tempo, adianta, “fomos trabalhando e reforçando a parceria com os fornecedores para repor, o mais rapidamente possível, a situação”.
Apesar dos danos sofridos, a empresa também se disponibilizou para ajudar outras. “No meio deste contexto, e tendo nós relações de grande proximidade com os outros fabricantes do sector, foi para nós normal oferecer a nossa disponibilidade, ajudar naquilo que necessitassem para acabar os seus trabalhos, cumprir os seus prazos e não prejudicar ainda mais os seus negócios. Não recebemos pedidos, mas mantemos este espírito de ajuda ativo: cá estamos para quando for necessário e para quem quiser”, conta, adiantando que, no âmbito da sua disponibilidade, “podemos ajudar em tudo o que seja necessário para os moldes: desde o projeto, à maquinação ou ensaios”.
/ / Miguel Matos - Molde Matos
Segundo o empresário, a reação das empresas seguiu um padrão já observado noutras crises. Aquilo que sentimos é que, tal como noutras crises e dificuldades, as empresas fizeram aquilo que é a sua prática habitual: procuraram resolver, com a rapidez possível, as suas dificuldades”.
Reforçando que a cooperação continua a ser uma das marcas distintivas da indústria, explica que “sabemos que algumas pediram apoio a outras empresas. E o que é essencial é que este espírito de entreajuda se mantenha. Conhecemo-nos todos há muitos anos, temos uma grande confiança uns nos outros e sabemos que se houvesse empresas a necessitar do nosso apoio que nos procurariam, tal como nós faríamos se necessitássemos”. “Este é o espírito desta indústria: temos uma ligação forte”, enfatiza. Para garantir os próprios prazos durante o período mais difícil, o grupo recorreu pontualmente a fornecedores externos. “Tivemos necessidade de colocar projetos noutros fornecedores de fora. Mas foi uma questão pontual. Mantemos a confiança nos nossos fornecedores e estaremos cá para retomar a atividade normal assim que seja possível”, explica, adiantando que, apesar da dimensão da tempestade, muitos clientes internacionais quase não se aperceberam do impacto real.
“Os nossos clientes, na sua maioria, praticamente não se aperceberam da dimensão do que aconteceu. Só quando lhes contámos. Mas para além de perceberem a dimensão dos estragos, também perceberam que continuamos todos cá para honrar os nossos compromissos. Por isso, mantêm a confiança e sentem segurança em manter aqui os seus projetos. E isso é essencial para a continuidade deste negócio”, salienta.
RECONSTRUIR, COMUNICAR E REINVENTAR: SECTOR TEM DE AGIR PARA NÃO PERDER MERCADO
Helena Silva*
* Revista Molde
Enquanto as empresas da indústria de moldes concentram esforços na recuperação das instalações e da capacidade produtiva afetadas pela tempestade Kristin, surge um desafio igualmente crítico: garantir que os clientes continuam a confiar e a apostar no cluster português. Num mercado global altamente competitivo, a reconstrução física das empresas tem de ser acompanhada por uma estratégia clara para preservar relações comerciais, comunicar fiabilidade e preparar o futuro. Este é um momento decisivo. As empresas devem agir em várias frentes: da comunicação ao reposicionamento estratégico, passando pela inovação tecnológica, cooperação entre empresas e novos modelos de negócio. Só desta forma conseguirão assegurar que a crise não se transforma numa perda irreversível de mercado.
“O foco das empresas não pode ficar, apenas, no imediato”. O alerta é de Gabriel Silva, consultor de gestão. Apesar de considerar natural que as empresas estejam neste momento concentradas na recuperação da sua capacidade produtiva, depois de um episódio tão devastador, adverte acerca da urgência de agir noutras áreas. “No curto prazo, é necessário reconstruir o que for possível. A base produtiva é essencial para voltar a funcionar normalmente”, afirma. No entanto, essa recuperação, tem de acontecer sem perder de vista os fatores que sustentam o negócio.
/ / Gabriel Silva
“É fundamental olhar para os clientes, fornecedores e para as pessoas que estão na empresa. Sem clientes nada se consegue. Para manter os clientes fidelizados, é fundamental
que estes percecionem que a empresa mantém a força necessária para prosseguir com o negócio”, afirma.
Na sua leitura, o sector tem uma enorme capacidade de resistência, construída ao longo de décadas. “Os empresários dos moldes são pessoas resilientes. Na sua maioria vieram do nada e souberam construir projetos sólidos e de sucesso. Sabem fazê-lo”, diz, adiantando que mesmo perante “este abanão com o qual ninguém contava”, é essencial que encontrem “força e visão para continuar”. Para além da reconstrução imediata, o consultor defende que as empresas devem aproveitar este momento para refletir sobre os recursos de que vão necessitar no futuro. “Há que olhar para os recursos que têm e de que vão necessitar para o futuro. Aqui, as pessoas têm um papel fundamental”, sustenta.
A evolução tecnológica, sublinha, está a transformar rapidamente a indústria. “Tecnologias como a inteligência artificial e a robótica estão a crescer a passos largos. Automatizar processos é fundamental”, explica, considerando que essa integração tecnológica pode acelerar processos críticos do sector. “Será possível tornar a conceção do molde mais rápida, mais eficiente e isso é fulcral para assegurar o futuro”, defende.
REFLEXÃO
Contudo, insiste que a tecnologia só terá impacto se for articulada com o conhecimento acumulado das equipas. “Por detrás das pessoas há experiência, há o saber fundamental que é preciso reter. A IA e as máquinas, sozinhas, de pouco servirão”, adverte.
Gabriel Silva acredita que as empresas terão de adaptar a sua forma de atuar a um contexto internacional mais instável e competitivo. “Têm de conseguir lidar com isto, criando estratégias e alterando comportamentos que até agora se mostravam eficazes”, afirma, acrescentando que num mundo em mudança, não será possível manter os mesmos modelos de atuação.
“Temos de perceber que vamos ter de deixar de fazer como sempre fizemos, largar o ‘business as usual’, porque o paradigma de sucesso está na mudança”, considera. E, no seu entendimento, esse processo exige reflexão estratégica e capacidade de adaptação. “É preciso ser crítico, repensar, reorientar e mudar o mindset”, sintetiza, deixando uma ideia clara sobre o que determinará o sucesso: “Quem sobrevive é quem se adapta. E as empresas têm de o fazer com base nas competências que têm”.
COMUNICAR CONFIANÇA AOS MERCADOS
Para José Camacho, professor e consultor na BIID, um dos riscos imediatos para o sector não está apenas na capacidade produtiva, mas na perceção dos clientes. Nos dias que se seguiram à tempestade, acentua, imagens de destruição circularam amplamente nas redes sociais e podem ter chegado a clientes e potenciais clientes em todo o mundo.
“A comunicação visual deixa marcas”, sublinha, considerando, por isso, fundamental que as empresas reajam rapidamente, transmitindo uma mensagem clara de confiança. “É importante apostar numa comunicação que contrabalance estas imagens e que sublinhe que o cluster em Portugal é fiável”, diz.
Essa mensagem deve reforçar aquilo que sempre foi uma das maiores vantagens competitivas dos moldes portugueses: a fiabilidade. Uma questão que, salienta, “é crucial para os moldes portugueses”.
Na sua opinião, a forma como as empresas reagiram logo após a tempestade constitui um exemplo poderoso que deve ser comunicado ao mercado. “O espírito de entreajuda que levou as empresas a passar trabalho entre si para assegurar que os compromissos seriam honrados é uma imagem muito poderosa”, considera, sustentando que essa atitude demonstra “a solidez do cluster”.
“Sublinha a robustez que é, desde sempre, a imagem deste cluster. E é essencial assegurar que não se pode perder”, adverte.
Para os clientes, a mensagem tem de ser clara. “Apesar do desastre, os clientes têm de saber que as empresas mantêm a sua força, os empresários a sua determinação e que estão prontos para entregar o melhor, como sempre”, considera.
RESILIÊNCIA
Outra dimensão essencial passa, no seu entender, pela forma como as empresas comunicam com os clientes nesta fase. “As empresas têm de focar-se em ser transparentes. Não omitir o que aconteceu, mas assegurar o cumprimento dos prazos e o compromisso com os projetos”, explica. Ao mesmo tempo, é importante reforçar a proximidade e antecipar preocupações.
“É essencial não esperar que o cliente questione; não esperar que a dúvida se instale na cabeça do cliente. É fundamental
/ / José Camacho
esclarecer o mais cedo possível”, sublinhando, considerando que essa atitude fortalece a relação comercial.
“Ser mais proativo reforça a relação de proximidade com o cliente”, enfatiza.
Além disso, envolver os clientes na procura de soluções pode ser um fator adicional de confiança.
“Temos de envolver o cliente também numa lógica mais relacional. Isso aumenta a confiança”, declara.
Quanto à reconstrução no pós-tempestade, deve, na sua opinião, ser apresentada como uma oportunidade de melhoria. “Mostrar o que estamos a fazer para evitar, no futuro, tal grau de destruição demonstra resiliência e preparação para responder melhor”, salienta.
Acresce que a resiliência digital, nomeadamente a capacidade de manter operações, comunicação e dados seguros mesmo em contextos adversos, assume hoje um papel crítico na credibilidade do cluster.
Apesar dos problemas, importa ampliar o capital reputacional de longo prazo. Isso implica consistência entre discurso e execução, transparência continuada e capacidade de entrega sustentada ao longo do tempo. Mais do que reagir a uma crise pontual, trata-se de reconstruir, inovar e investir para desenvolver uma maior robustez e consolidar uma narrativa de confiança estrutural, onde cada interação com o cliente reforça a perceção de fiabilidade e compromisso, ativos intangíveis que, no médio e longo prazo, se traduzem em vantagem competitiva duradoura.
REINVENTAR O MODELO DE NEGÓCIO
Gonçalo Caetano, board advisor do Grupo Simoldes, começa por traçar um retrato da atualidade que o sector enfrenta, enumerando um conjunto de desafios estruturais que se tornaram ainda mais evidentes após a tempestade Kristin.
“Aquilo que estamos a viver é uma espécie de tempestade perfeita, uma confluência de fatores”, defende. Entre esses fatores está a forma como o mercado encara o produto ‘moldes’.
“Temos um produto que em lugar de ser visto como de altíssima precisão e intensidade tecnológica é considerado mais como uma commodity”, adverte, considerando que essa perceção se traduz em margens reduzidas para um sector altamente exigente em investimento. “Estamos a falar de uma indústria que exige intensidade em capital e tecnologia e pessoas que demoram muito tempo a formar. Mas as margens são típicas de um produto que é uma commodity”, sublinha.
Ao mesmo tempo, alerta, a concorrência internacional intensifica-se. “Temos uma concorrência agressiva, no caso da Ásia, cada vez mais forte, cada vez mais competitiva e cada vez mais qualificada”, lembra, acrescentando que, a isto, se soma outro problema crescente: “os prazos de pagamento estão cada vez mais dilatados. Cada vez estamos a receber mais tarde”. Ora essa realidade pode, no seu entender, colocar em risco a sustentabilidade financeira das empresas. “As empresas podem morrer, não apenas por falta de negócio e de resultados, mas também por falta de fluxos de caixa”, acentua.
Para responder a estes desafios, o responsável defende que o sector deve repensar o seu modelo de negócio. No seu entender, há coisas a fazer. “Desde logo, a indústria tem de ser capaz de se unir, juntamente com a CEFAMOL, e procurar concretizar iniciativas capazes de reinventar o nosso modelo de negócio”, adverte.
ESTRATÉGIA
“Em vez de vender o molde, podemos vender o serviço”, sugere, explicando que, nesse modelo, as empresas poderiam ser remuneradas pela utilização do molde ao longo do tempo. “Podemos colocar no preço da sua utilização todo o desenvolvimento tecnológico e inovação, todo um conjunto de serviços que até aqui não poderíamos colocar”, esclarece.
Embora reconheça que este modelo levanta desafios, acredita que deve ser analisado. Até porque, salienta, “não é nada de novo. Já aconteceu noutras indústrias, como nas tecnologias de informação e comunicação; já acontece com os softwares”.
Outra prioridade passa, no seu entendimento, por reduzir dependências e reforçar a capacidade estratégica do sector. “Estamos muito dependentes de determinados mercados geográficos, pouco dinâmicos, e de determinados sectores”, alerta, defendendo que, para ultrapassar essa fragilidade, é necessário ganhar dimensão e capacidade financeira.
Para isso, adverte, é necessário que a indústria crie escala. “Temos de ter uma estratégia e reduzir a demasiada dependência que temos de clientes, de produto e de geografias. Para isso, a nossa indústria tem de ter dimensão. Isto não significa que temos de ter apenas grupos grandes ou empresas de maior dimensão, mas temos de nos organizar
/ / Gonçalo Caetano - Simoldes
de forma a conseguir ter estruturas mais capitalizadas, com maior capacidade para aguentar as flutuações típicas desta indústria”, considera, adiantando que “temos de ter uma política no nosso sector de organização de processos de fusão e de aquisição, de forma que consigamos entrar em determinados instrumentos de financiamento, aceder ao mercado de capitais e a sermos mais ambiciosos em matéria de inovação e internacionalização”.
“Precisamos de dimensão para conseguir financiar inovação, recrutar pessoas e investir em marketing”, explica, considerando que essa escala pode resultar de processos de cooperação ou de consolidação empresarial.
Para além disso, acrescenta, as empresas necessitam também de “muito mais profissionalização da gestão”, que permita encontrar soluções de cooperação que levem à partilha de riscos, seja na abordagem de mercados internacionais ou no desenvolvimento de estratégias de inovação”.
E isto leva a uma outra necessidade que é, no seu entender, “um modelo de financiamento muito mais dinâmico, muito mais diversificado. Não podemos estar, sistematicamente, a financiar investimentos de risco na área da inovação ou da internacionalização com dívida bancária”, defende.
“Precisamos de uma estratégia de financiamento completamente diferente para as nossas empresas. Para isso, temos de saber o que queremos e temos de ter a coragem de aglutinar capacidades e competências e ganhar capacidade financeira”, afirma, adiantando que “a dimensão permite aceder a mecanismos que nos permitirão modernizar e construir um futuro novo, porque as receitas do passado não vão chegar para enfrentarmos competitivamente esta nova realidade”. No fundo, conclui, o sector terá de reinventar-se.
“Temos muito orgulho do passado desta indústria e dos nossos empresários, da sua resiliência. Mas temos de ser capazes de construir o nosso novo futuro”, salienta.
ENTREVISTA A PAULO FERNANDES
Paulo Fernandes*
* Líder da Estrutura de Missão
“As medidas com mais procura são as da manutenção das fábricas em produção”
Após a passagem da tempestade ‘Kristin’ em Portugal, que causou graves danos no início de 2026, o Governo criou uma Estrutura de Missão específica para a recuperação das regiões mais afetadas, nomeadamente na região Centro (Leiria, Marinha Grande e concelhos limítrofes). O programa da Missão foi apresentado como um programa de apoio a respostas mais urgentes, mas sobretudo para planear a recuperação, numa verdadeira agenda de oportunidade para a transformação do tecido económico desta região. Paulo Fernandes, líder da Estrutura de Missão, destaca que, entre outras, estão a ser enquadradas medidas estruturais de médio prazo, que permitam reforçar a competitividade e a capacidade exportadora dos moldes, estando em curso também a criação do “livro branco para a inovação e competitividade”, onde se irá procurar respostas por clusters e fileiras relevantes economicamente neste território. “É preciso olhar para as oportunidades que existem para tornar o setor dos moldes ainda mais resiliente e competitivo”, enfatiza.
Qual é, nesta fase (março), a estimativa global dos danos provocados pela tempestade Kristin no tecido empresarial da região?
A tempestade Kristin teve um impacto muito significativo no tecido económico, em particular na região Centro. Ao nível nacional, os prejuízos globais podem ultrapassar os 5.000 milhões de euros, abrangendo empresas, infraestruturas e habitação. Em vários indicadores, os danos relativamente à região de Leiria, equivalem a 50% do dano total.
Que prazos realistas devem as empresas considerar entre a apresentação de candidaturas e o recebimento efetivo dos apoios?
Os prazos variam em função do instrumento. As medidas de resposta imediata, como o lay-off ou as isenções, têm efeitos praticamente imediatos ou no curto prazo. Já os incentivos financeiros e linhas de apoio apresentam prazos médios de algumas semanas, dependendo da complexidade dos processos. Tem sido dada prioridade à simplificação e aceleração dos procedimentos.
A região afetada integra um dos principais clusters de moldes do país, com forte vocação exportadora. Que medidas específicas estão pensadas para empresas industriais intensivas em tecnologia e exportação?
Estão a ser mobilizados instrumentos orientados para o reforço de liquidez, nomeadamente através do Banco Português de Fomento, no montante de 1,6 mil milhões de euros de apoio à tesouraria. Quanto aos apoios ao investimento e modernização, destacamos a Linha “Reindustrializar”, com uma dotação de 150 milhões de euros, para investimentos que podem atingir os 10 milhões de euros, e apoios até 60% não reembolsáveis.
Que instrumentos estão a ser pensados para preservar a reputação externa da indústria de moldes?
O IFIC, Instrumento Financeiro para a Competitividade, medida de apoio à recuperação, tem como objetivo aumentar a capacidade exportadora, diversificando produtos e mercados. Adicionalmente, estão a ser enquadradas medidas estruturais de médio prazo, como as que irão para o PTRR, que permitam reforçar a competitividade e a capacidade exportadora do sector. Está em curso, a criação do livro branco para a inovação e competitividade, onde se irá procurar respostas por clusters e fileiras relevantes economicamente neste território.
Transformação do tecido económico
Pode esta crise ser uma oportunidade para reforçar investimentos estratégicos?
O programa da Missão foi apresentado como um programa de apoio a respostas mais urgentes, mas sobretudo para planear a recuperação, numa verdadeira agenda de oportunidade para a transformação do tecido económico desta região. É especialmente relevante a problemática que a transição energética trouxe para estas áreas de atividade, nomeadamente para o sector dos moldes.
Há um canal direto de comunicação com a Estrutura de Missão?
A Estrutura de Missão tem assegurado uma articulação próxima com associações empresariais e entidades públicas, através da criação de um grupo de contacto permanente e direto, que é cocriador dos instrumentos de planeamento de médio prazo.
Quais os principais passos que as empresas devem seguir?
Em primeiro lugar, devem olhar bem para o conjunto das medidas, de forma a otimizar, e tirarem partido da complementaridade das mesmas, nomeadamente da Segurança Social, do IEFP, do BPF, do IAPMEI, dos apoios agrícolas e florestais. Devem também acelerar tudo o que estiver ao seu alcance relativamente aos seguros. Relembramos que cerca de 30 mil apólices, relativas a empresas, já foram acionadas.
Proximidade permanente
Que mensagem deixa às empresas?
A primeira mensagem é de grande agradecimento e respeito pelo esforço de recuperação que as empresas estão a realizar. Os casos de interajuda e partilha de recursos entre empresas tantas vezes concorrentes, merecem também um sublinhado muito especial. Um segundo ponto, prende-se com a proximidade permanente entre todos, para uma melhor afinação das medidas que estão disponíveis, e em simultâneo, para percebermos alguma falha de mercado que possa existir. Na medida do possível, sabemos que todo o esforço está a ser canalizado para a recuperação, salientando-se que as medidas com mais procura são as da manutenção das fábricas em produção. É preciso olhar para as oportunidades que existem para tornar o setor dos moldes ainda mais resiliente e competitivo.
Na sua opinião, quando poderá a região regressar à normalidade?
A recuperação será gradual, mas existe, neste momento, uma reposição acelerada da atividade produtiva. Esperamos que os planos e medidas que têm maior eficácia no médio prazo tragam a sustentabilidade e competitividade geracional que esta fileira tem proporcionado ao nosso país. É essencial evitar danos sistémicos, para todo o país, que serão uma realidade caso não tenhamos sucesso coletivo neste grande desafio.
/ / Paulo Fernandes - Líder da Estrutura de Missão
RESILIÊNCIA EXIGE PREVENÇÃO E AÇÃO
RÁPIDA APÓS A TEMPESTADE
Helena Silva* * Revista Molde
Leiria reuniu especialistas de várias áreas na conferência “Leiria: economia, risco e resiliência”, realizada a 23 de março, para analisar os impactos da tempestade Kristin, avaliar respostas e perspetivar caminhos para um futuro mais preparado.
O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, um dos principais oradores da Conferência “Leiria: economia, risco e resiliência”, reconheceu o forte impacto económico da tempestade Kristin na região (e nas restantes zonas afetadas), defendendo que “a grande questão é saber se conseguiremos recuperar”. No seu entender, é essencial estruturar a sociedade para antecipar crises, “preparar para depois conseguir agir no momento e no pós-fenómeno”.
Os números apresentados por Álvaro Santos Pereira evidenciam a dimensão do choque: até março, empresas submeteram 2.580 moratórias (398,5 milhões de euros) e famílias 2084 (206,3 milhões).
A área afetada (68 municípios) representa 17% da população, 19% dos alojamentos e 22% do território nacional. Em termos económicos, concentra 15,8% das empresas, 13,8% do volume de negócios e 15,5% das exportações de bens.
O responsável destacou ainda efeitos imediatos, como a quebra abrupta na atividade financeira. “Em Leiria, os levantamentos em numerário baixaram 60% no dia 28 de janeiro e os movimentos nas caixas ATM caíram 98% no dia seguinte”, explicou, a título de exemplo, contando que os valores só foram recuperando, gradualmente, a partir de 9 de fevereiro.
No curto e médio prazo, apontou para a necessidade de reconstrução, medidas de apoio e investimento, alertando para pressões inflacionistas, sobretudo nos alimentos e devido à destruição da produção agrícola, e para o risco de perda de capacidade produtiva. A longo prazo, defendeu uma estratégia centrada na recuperação sustentada, modernização e adaptação.
“É essencial passar para uma sociedade mais preventiva e menos reativa”, afirmou, sublinhando a importância da avaliação de riscos, planeamento e diversificação. Entre os desafios futuros, destacou eventos extremos associados às alterações climáticas, mas também riscos como ciberataques, apagões ou sismos.
ESTÍMULO
Para o economista João Duque, a resposta deve conjugar reação imediata com visão estratégica. “É preciso dar estímulo de confiança e suporte às empresas, assegurando que não há falta de liquidez”, defendeu, alertando, contudo, para a necessidade de não comprometer a solvência do sistema financeiro.
Sustenta que o Estado deve assumir um papel central, nomeadamente como garante, permitindo apoiar empresas sem fragilizar a banca. Ao mesmo tempo, considera essencial ajustar o timing das medidas: resposta rápida na emergência, mas apoios direcionados para a retoma efetiva.
“Em casos de calamidade como este, é preciso mover uma ação rápida”, afirmou, defendendo maior flexibilidade nestes contextos, ainda que com rigor na avaliação posterior dos investimentos.
Já Filipe Alfaiate, da Nova SBE, destacou que não existem soluções únicas, considerando que “todos os casos exigem medidas diferentes”. Nesse sentido, defendeu espaço para a inovação, com integração do sistema científico e tecnológico, e utilização da inteligência artificial como ferramentas de apoio às empresas. Sublinhou ainda o trabalho desenvolvido com as PME para reforçar a sua preparação, “num contexto em que a capacidade de adaptação será determinante”.
Filipe Duarte Santos, do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, alertou para riscos futuros de fenómenos climáticos, nomeadamente “o aumento do perigo de incêndios” devido à acumulação de material florestal após a tempestade. Defendeu, por isso, a urgência na limpeza das áreas afetadas.
Perspetivou ainda um cenário de maior instabilidade climática, com alternância entre períodos de seca intensa e precipitação extrema, sublinhando a necessidade de adaptação por parte de pessoas, empresas e instituições.
O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, destacou perdas significativas na atividade da região, afirmando que “cada dia, ficamos milhões de euros mais pobres”, e chamando a atenção para uma questão que considera preocupante: as empresas que ainda ponderam encerrar a atividade.
CONSTRUÇÃO
Vítor Prior, do IPMA, destacou o “caráter excecional” deste ano hidrológico, marcado por sucessivas tempestades, defendendo a importância de “observar hoje para proteger amanhã”.
Ricardo Duarte, do IPL, por seu turno, chamou a atenção para a importância dos edifícios enquanto “ativos empresariais críticos” e defendeu que a reconstrução das empresas deve “integrar critérios de engenharia adaptados às alterações climáticas, garantindo soluções duradouras”.
Já no entender do professor universitário José Reis, todas as respostas são necessárias, mas em diferentes horizontes temporais. Alertou que “o país está hoje mais pobre” e que a eficácia depende da rapidez e adequação das medidas.
Luís Febra, CEO do grupo Socem e presidente da Nerlei, apontou as falhas de energia e comunicações como dos fatores mais críticos para as empresas logo após a tempestade, defendendo que, no que diz respeito ao futuro, “uma crise bem gerida pode transformar o território e criar um novo e mais robusto ecossistema económico”.
Paulo Fernandes, da Estrutura de Missão, defendeu políticas mais territorializadas e respostas com impacto coletivo, reforçando a necessidade de preparação e adaptação das empresas.
INOVAÇÃO
O QUE AS EMPRESAS CONCEBEM DE FORMA SINGULAR E INOVADORA
DED DE ALTA VELOCIDADE PARA APLICAÇÕES EM MOLDES E FERRAMENTAS
FABRICO ADITIVO NA INTERSEÇÃO COM A INDÚSTRIA AEROESPACIAL E DE MOLDES
DEPOSIÇÃO DE ENERGIA DIRECIONADA DE ALTA VELOCIDADE PARA APLICAÇÕES EM
MOLDES E FERRAMENTAS:
OPORTUNIDADES PARA A INDÚSTRIA PORTUGUESA DE MOLDAGEM
Mehmet Cagirici1 , Shubham Chandra1 , Paulo J. G. Bartolo1, 2 , Rui Tocha3 , Rui Soares3 , Luís Dias3,
1 Centro de Impressão 3D de Singapura (SC3DP), Universidade Tecnológica de Nanyang, Singapura
2 Escola de Engenharia Mecânica e Aeroespacial, Universidade Tecnológica de Nanyang, Singapura
3 Centro Tecnológico da Indústria de Moldes, Ferramentas Especiais e Plásticos (CENTIMFE)
Portugal é reconhecido internacionalmente como um centro de referência para o fabrico de moldes, sendo o terceiro maior produtor europeu e o oitavo mundial, com o cluster altamente competitivo nas regiões da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis, que exportam soluções chave-na-mão, sobre a sua marca coletiva “Engineering & Tooling from Portugal”, para os setores automóvel, embalagens, dispositivos médicos, e de bens de consumo. Neste ambiente competitivo, o sucesso depende cada vez mais da capacidade de combinar o conhecimento empírico em produção de moldes, com tecnologias de fabrico avançadas que ampliam a precisão, reduzem os prazos de entrega, prolongam a vida útil dos moldes e melhoram a robustez dos processos produtivos. Entre as tecnologias emergentes, o fabrico aditivo de metais (AM) passou da prototipagem para a prática industrial. Em particular, a Deposição Direta de Energia (DED) estabeleceu-se como um processo poderoso para fabricar, reparar e modificar ferramentas, como matrizes e moldes de alto valor. Mais recentemente, variantes de alta velocidade do DED, frequentemente referidas como Deposição de Metal a Laser de Alta Velocidade (HS-LMD) ou Deposição de Material a Laser de Velocidade Extrema (EHLA), abriram novas possibilidades para revestimentos finos, de alta qualidade e alto desempenho, com redução drástica na zona termicamente afetada [1–4]. Este artigo explica os fundamentos do DED e do DED de alta velocidade, e fornece aplicações relacionadas, e caminhos de transposição tecnológica para a indústria de moldes e ferramentas. São identificados dois casos de estudo ilustrativos, definidos por investigadores do Joint Lab SC3DP–CENTIMFE (Singapura–Portugal), sobre a aplicação DED de alta velocidade em insertos moldantes para injeção, visando demonstrar uma aplicação realista e destacar tanto os benefícios como os desafios de implementação.
DEPOSIÇÃO DIRETA DE ENERGIA
A deposição direta de energia é um dos processos de Fabrico Aditivo (FA) de metal mais utilizados para aplicações industriais devido ao seu potencial para atingir altas taxas de deposição de material sem afetar severamente as propriedades do material. No DED, um laser de alta potência funde a matéria-prima metálica, como pó ou fio, à medida que é depositada num substrato.
A matéria-prima é normalmente transportada por um gás inerte através de um bocal coaxial ou lateral em sistemas de sopro de pó, enquanto os sistemas alimentados por fio requerem apenas blindagem de gás inerte. O laser forma uma pequena piscina de fusão localizada na superfície da peça de trabalho. À medida que o bocal se move seguindo o código G, ou o modelo de desenho assistido por computador (CAD), o material é depositado de forma controlada, seja camada por camada ou varrimento a varrimento. Ao contrário da fusão em leito de pó (PBF), que requer que os componentes sejam totalmente construídos dentro de um leito de pó dentro de uma câmara fechada, a DED opera num ambiente com proteção atmosférica local enquanto purga o gás de proteção. Esta característica torna o DED particularmente atraente para depositar material diretamente em substratos ou componentes existentes. As aplicações típicas em ferramentas e na indústria pesada, incluem a reparação de matrizes desgastadas, a reconstrução de áreas danificadas em moldes, a regeneração de eixos e rolos e a fabricação de revestimentos funcionais que melhoram o desgaste, a corrosão ou o desempenho em altas temperaturas dos componentes.
O DED oferece três capacidades principais para ferramentas, matrizes e moldes. Primeiro, permite a reparação de danos localizados ou perda de material sem perda total da ferramenta. Segundo, permite a melhoria do desempenho local através da aplicação de materiais personalizados em regiões críticas, como ligas resistentes ao desgaste ou à corrosão em superfícies moldantes [1–3,5,6]. O DED de alta velocidade oferece vantagens excecionais para tais aplicações de revestimento [5–7]. Em terceiro lugar, a DED suporta abordagens de fabrico híbridas, nas quais a maquinação convencional, conhecida como fabrico subtrativo, é combinada com, ou seguida por fabrico aditivo. Algumas plataformas DED integram processos aditivos e subtrativos num único sistema, minimizando os requisitos de pós-processamento e encurtando os prazos de entrega dos componentes. Estas capacidades permitem fabricar e manter ferramentas e moldes altamente complexos, personalizados e de substituição dispendiosa.
DED de alta velocidade
O DED a laser convencional com pó, opera normalmente a velocidades de alguns metros por minuto, com o pó soprado para dentro ou sobre o feixe de laser próximo à superfície do substrato a partir de distâncias fixas ou variáveis (Figura 1a).
As marcas de fusão resultantes têm geralmente espessuras da ordem de várias centenas de micrómetros, com base no tamanho do ponto e no perfil do feixe do laser. Embora estes depósitos sejam geralmente sólidos e sem defeitos, a entrada de calor relativamente elevada pode gerar zonas afetadas pelo calor e tensões residuais significativas. Isto pode ser problemático para os moldes, particularmente devido ao aumento da fragilidade ou à redução da maquinabilidade. O DED de alta velocidade modifica a interação entre o laser, o pó e o substrato. Nos sistemas DED de alta velocidade (HS-LMD) e EHLA, as partículas de pó são aquecidas até um estado quase fundido, enquanto ainda interagem com o feixe de laser a uma distância do substrato (Figura 1b). Como resultado, as partículas são depositadas na peça de trabalho em menos tempo, absorvendo menos energia, o que permite que o processo opere a velocidades de digitalização significativamente mais altas. Consequentemente, os depósitos são formados como camadas finas e contínuas, com entrada de calor reduzida por unidade de área.
As principais diferenças entre o DED convencional, o DED de alta velocidade e o EHLA estão resumidas conceitualmente na
Tabela 1, na qual as tecnologias disponíveis comercialmente não se limitam aos equipamentos listados. O DED de alta velocidade opera a velocidades que variam de dezenas de metros por minuto a mais de cem metros por minuto em sistemas EHLA especializados, em comparação com os poucos metros por minuto típicos da deposição de metal a laser convencional. As camadas depositadas são mais finas e uniformes, proporcionando normalmente revestimentos da ordem de cem micrómetros por passagem, com excelente qualidade de superfície após um mínimo de maquinação. Mais importante ainda para aplicações em moldes e ferramentas, a carga térmica geral é significativamente reduzida. A piscina de fusão menor e o movimento rápido confinam a zona afetada pelo calor e limitam substancialmente a distorção [5–7]. Esta é uma vantagem crítica ao processar aços pré-endurecidos para ferramentas, superfícies de cavidades polidas ou insertos que não podem ser submetidos a um tratamento de reaquecimento completo. Estas características posicionam o DED de alta velocidade como uma tecnologia de revestimento e deposição de camadas finas com forte potencial para a fabricação de moldes e matrizes. Combina os benefícios metalúrgicos de um revestimento totalmente fundido com taxas de deposição e controlo térmico além das capacidades da soldadura convencional ou da deposição de revestimentos duros.
Tabela1. Comparação entre as tecnologias DED convencional, DED de alta velocidade e EHLA em termos de aplicação em ferramentas, principais características, física do processo e equipamentos/sistemas disponíveis comercialmente.
O sistema Makino AML500 foi concebido para colmatar a lacuna entre a investigação científica e a manutenção de fabrico industrial de moldes. Apresenta um volume de trabalho de 500 × 400 × 400 mm (X/Y/Z) e um sistema de movimento altamente dinâmico capaz de velocidades de deslocamento superiores a 20 m/min, o que é significativamente mais rápido do que os 1-2 m/min típicos do DED convencional. O sistema está equipado com um laser de fibra de 4 kW e um diâmetro focal do laser variável de 1,0 a 3,2 mm. Um bico coaxial especializado permite a fusão das partículas de pó antes de atingir a piscina de fusão, seguindo o princípio de «fusão no ar» característico do HS-LMD. Esta configuração permite a deposição de camadas finas, ligadas metalurgicamente, com penetração térmica mínima no substrato. A plataforma suporta a alternância contínua entre revestimento, reparação e acumulação de características em superfícies tridimensionais complexas, sincronizando o controlador CNC Sinumerik ONE com um alimentador de pó de dupla tremonha que opera a taxas de fluxo de 3–60 g/ min. Esta combinação de alta velocidade e controlo preciso da energia é fundamental para o processamento de aços para ferramentas sensíveis ao calor, como os aços H13 ou maraging, sem induzir fissuras ou distorções comumente associadas aos processos tradicionais de soldadura [1].
APLICABILIDADE DO DED/HS-DED EM MOLDES E MATRIZES
Os moldes utilizados para injeção termoplástica, moldação por compressão e fundição sob pressão operam sob combinações severas de cargas térmicas, mecânicas e químicas. As superfícies das cavidades e detalhes locais são expostas a altas pressões, gradientes de temperatura, polímeros fundidos abrasivos ou reforçados com fibras e, em muitos casos, ambientes corrosivos. Os mecanismos de falha dominantes incluem desgaste abrasivo e adesivo, fadiga térmica e fissuras por calor, fissuras locais e corrosão em canais de refrigeração ou regiões de baixo fluxo. Para além de uma crescente complexidade técnica, as OEMs e os clientes, exigem um time-to-market cada vez mais curto, alterações frequentes de engenharia e maior vida útil das ferramentas. As abordagens de reparação convencionais empregadas pelos fabricantes de moldes normalmente dependem de soldadura TIG ou a laser usando varetas de enchimento, seguidas por remaquinação extensiva e polimento manual. Embora bem estabelecidos, esses métodos muitas vezes introduzem tensões residuais e distorções significativas, particularmente em aços endurecidos, exigindo etapas adicionais de pósprocessamento, como têmpera local ou tratamento térmico de alívio de tensões.
O DED demonstrou eficácia em vários setores para reparar e modificar componentes fabricados por vias convencionais e aditivas. Estudos sobre matrizes e ferramentas de conformação mostram que, quando os parâmetros do processo, a seleção da liga e os tratamentos pósaquecimento são controlados adequadamente, as regiões reparadas podem alcançar ou exceder os requisitos de desempenho originais. Análises económicas indicam ainda
que, para ferramentas grandes e de alto valor, a reparação baseada em DED pode reduzir substancialmente os custos e os prazos de entrega em comparação com a substituição completa da ferramenta.
O DED de alta velocidade reforça ainda mais esta proposta de valor para a indústria de moldes. As capacidades acima mencionadas proporcionam vantagens técnico-económicas significativas, particularmente para insertos e superfícies de moldes de injeção, onde as tolerâncias dimensionais são rigorosas e as superfícies requerem um polimento de alta qualidade. Utilizando o DED de alta velocidade, os fabricantes de moldes podem reforçar zonas de alto desgaste, introduzir superfícies resistentes à corrosão e melhorar localmente o desempenho, sem modificar a maior parte da ferramenta.
Em termos de materiais, o DED de alta velocidade pode processar muitos aços comumente usados na fabricação de moldes. Os aços para ferramentas de trabalho a quente, como o H13, os aços maraging para insertos de alto desempenho e os tipos de ferramentas resistentes à corrosão desenvolvidos especificamente para deposição de metal a laser, foram amplamente estudados [1,8]. Além disso, a investigação sobre materiais com gradação funcional produzidos através de DED demonstra a viabilidade de adaptar localmente a dureza, a condutividade térmica e a resistência à corrosão. Esta capacidade é particularmente relevante para moldes de injeção otimizados termicamente com características de arrefecimento conformado. Além das ligas de ferramentas convencionais e dos materiais com classificação funcional, as ligas de alta entropia (HEAs) têm atraído recentemente uma atenção significativa para o processamento baseado em DED devido à sua flexibilidade de composição e resistência excecional ao desgaste, corrosão e degradação térmica. Está demonstrado que vários sistemas HEA mantêm microestruturas estáveis e desempenho mecânico favorável sob as condições de solidificação rápida inerentes ao DED de alta velocidade, tornando-os candidatos promissores para aplicações de engenharia de superfície [9]. A capacidade do DED de depositar localmente HEAs permite ainda a melhoria específica de componentes de moldes, particularmente em regiões expostas a ciclos térmicos severos ou polímeros fundidos agressivos. À medida que a investigação continua a amadurecer, as HEAs são cada vez mais vistas como materiais de revestimento e reparação de última geração que podem complementar ou superar os aços convencionais para ferramentas em ambientes de moldação exigentes.
Para a indústria portuguesa de moldes e plásticos, que compete globalmente em termos de qualidade e desempenho, o DED de alta velocidade representa uma tecnologia estratégica facilitadora. Oferece uma via para prolongar a vida útil das ferramentas, diferenciar a oferta de serviços e alinhar-se com os objetivos de sustentabilidade, permitindo múltiplos ciclos de reparação em vez da substituição pontual de componentes de moldes [10].
PERSPETIVA DE IMPLEMENTAÇÃO DA TECNOLOGIA
HS-DED PARA O CLUSTER ENGINEERING AND TOOLING PORTUGUÊS
Para apoiar a adoção industrial do DED de alta velocidade no cluster Engineering and Tooling português, o Joint Lab CENTIMFE–SC3DP está a realizar investigação direcionada e orientada para a aplicação industrial, com o objetivo de abordar os desafios práticos de reparação e melhoria de superfícies observados nas ferramentas industriais. Os casos de estudo preliminares atuais centram-se, (1) na reparação de insertos de moldes utilizando aço para ferramentas H13 depositado em substratos pré-maquinados que replicam cenários realistas de danos e desgaste, bem como na aplicação de revestimentos de liga de alta entropia (HEA) para melhorar localmente o desempenho mecânico em regiões críticas (Figura 2).
/ / Figura 2 . Caso de estudo (1)
Em paralelo, o Joint Lab está a avaliar num segundo caso de estudo (2), estratégias alternativas de materiais e vias sequenciais de fabrico aditivo que combinam múltiplas tecnologias de FA, tais como a fusão a laser em leito de pó (LPBF) e o DED de alta velocidade, com o objetivo de permitir fluxos de trabalho de fabrico e reparação mais sustentáveis, flexíveis e industrialmente relevantes (Figura 3).
/ / Figura 3 . Caso de estudo (2)
Adicionalmente, importa salientar que estes casos de estudo acima referidos se encontram atualmente em fase de desenvolvimento no âmbito das atividades de investigação do Joint Lab CENTIMFE–SC3DP. À medida que os resultados experimentais forem sendo consolidados, estes servirão de base para a elaboração de trabalhos técnicos mais detalhados, que serão apresentados em futuros artigos na revista O Molde. Esses artigos irão aprofundar os aspetos científicos e tecnológicos associados às estratégias de reparação, seleção de materiais, desempenho das superfícies depositadas e integração de diferentes tecnologias de fabrico aditivo em contextos industriais reais.
O DED de alta velocidade deve ser considerado não como um tema de investigação distante, mas como uma tecnologia que se aproxima da maturidade industrial para as empresas do cluster Engineering and Tooling português. Além do esforço de investigação em curso realizado no Joint Lab SC3DP–CENTIMFE, várias considerações estratégicas podem orientar a sua adoção. Em primeiro lugar, devem ser identificados os componentes de moldes que apresentam falhas localizadas recorrentes ou padrões previsíveis de desgaste e corrosão. Insertos com canais de injeção de alta resistência ao cisalhamento, cargas abrasivas ou polímeros corrosivos são candidatos naturais, assim como buchas e cavidades que operam a temperaturas elevadas ou sujeitos a mudanças frequentes de design.
Em segundo lugar, as estratégias de investimento devem ser cuidadosamente avaliadas. Para grandes fabricantes de moldes com volumes substanciais de reparação pode justificar a aquisição interna de plataformas híbridas de DED-maquinação. As pequenas e médias empresas podem, em vez disso, beneficiar da colaboração com prestadores de serviços, universidades e centros tecnológicos, como o CENTIMFE, para aceder a capacidades de DED de alta velocidade, desenvolvendo conhecimentos em design para reparação e inspeção digital através do Joint Lab CENTIMFE-SC3DP.
Em terceiro lugar, a integração com simulação e metrologia é essencial. Os projetistas de moldes já contam com a engenharia assistida por computador para otimizar circuitos de refrigeração, prever o comportamento de enchimento e reduzir a deformação. Estender esse fluxo de trabalho digital para incluir simulação do processo DED, previsão de distorção e controle da espessura do revestimento ajudará a quantificar os benefícios da aplicação DED de alta velocidade e acelerar a qualificação industrial. Por fim, devem ser desenvolvidas normas internas para a qualificação de componentes reparados e revestidos por DED. Estas incluem normalmente testes mecânicos e testes de ligas depositadas, avaliação não destrutiva de regiões reparadas e ensaios de produção controlados. Tais normas são essenciais para garantir a confiança do cliente no desempenho e na fiabilidade de ferramentas reparadas ou híbridas.
CONCLUSÃO
A deposição de energia direta de alta velocidade é uma tecnologia promissora para o cluster de moldes e ferramentas devido à sua capacidade excecional de prolongar a vida útil das ferramentas e fornecer soluções de reparação de alta qualidade para moldes e matrizes desgastados, com impactos positivos nos produtos finais. A adoção de sistemas HS-DED de última geração é particularmente relevante para a indústria de moldação portuguesa, que compete globalmente em qualidade, inovação e desempenho de entrega. Com base na experiência industrial adquirida com o DED convencional na reparação de moldes e na fabricação híbrida, o DED de alta velocidade oferece uma produtividade substancialmente maior, revestimentos mais finos e de maior qualidade e um reduzido impacto na zona termicamente afetada.
Plataformas industriais como a Makino AML500 demonstram que o DED de alta velocidade pode ser integrado em centros de maquinação híbridos de cinco eixos que se alinham naturalmente com os fluxos de trabalho existentes na área fabril. Quando combinados com inspeção digital, simulação de processos e técnicas avançadas de pós-processamento, como polimento a laser, estes sistemas suportam uma abordagem mais sustentável, circular e orientada por dados para a gestão do ciclo de vida das ferramentas. É neste contexto, que o CENTIMFE se propõe investir e integrar na sua oferta mais esta tecnologia de ponta de FA, no quadro da candidatura que apresentou do projeto ADDITIVE X, liderado pela EROFIO, em que o CENTIMFE é copromotor, no âmbito do PT2030.
Em resumo, o DED de alta velocidade não se destina a substituir a maquinação e a soldadura convencionais, mas a complementá-las. Este fornece uma solução eficaz para gerir as regiões mais críticas de moldes e insertos. Ao iniciar aplicações-piloto bem definidas, promover parcerias e investir no desenvolvimento de competências, a indústria portuguesa de moldes e plásticos pode posicionar-se na vanguarda desta evolução tecnológica e reforçar o seu papel como referência global.
REFERÊNCIAS
[1] Chandra S., et al. (2025). Otimização dos parâmetros do processo para o fabrico de precisão de aço para ferramentas H13 através da deposição de energia direcionada por laser. J. Manuf. Process., 149, (12–26).
[2] Saboori, A., et al. (2019). «Aplicação da fabricação aditiva baseada na deposição de energia direcionada na reparação e remanufatura.» Applied Sciences, 9(16), 3316.
[3] Shamsaei, N., et al. (2015). «Visão geral da fabricação aditiva para peças resistentes à fadiga.» International Journal of Fatigue, 76, 3-35.
[4] Zhang, Y., et al. (2021). «Investigação experimental e numérica na deposição de energia direcionada para reparação de componentes.» Revista de Processos de Fabricação, 64, 56-72.
[5] Schippel, T., et al. (2017). «Deposição de material a laser de alta velocidade extrema (EHLA) – Um novo processo para revestimento e reparação.» Relatório Anual Fraunhofer ILT.
[6] Li, M., et al. (2019). «Deposição de material a laser de alta velocidade extrema (EHLA) de aço AISI 4340». Coatings, 9(12), 778.
[7] Yuan, W., et al. (2021). «Estabilidade do processo e qualidade do revestimento na deposição de material a laser em velocidade extremamente alta». Tecnologia de superfícies e revestimentos, 405, 126582.
[8] Åsberg, M., et al. (2019). «Influência do tratamento térmico posterior na microestrutura e nas propriedades mecânicas do aço para ferramentas H13 depositado por DED.» Ciência e Engenharia de Materiais: A, 748, 27-36.
[9] Zhang, W., et al. (2022). «Ligas de alta entropia fabricadas por aditivos: uma revisão da microestrutura e propriedades.» Materiais e Design, 220, 110875.
[10] Walder, G., et al. (2022). «Avaliação do ciclo de vida de um estudo de caso de circularidade utilizando manufatura aditiva.» Sustentabilidade, 14(16), 10123.
O FABRICO ADITIVO NA INTERSEÇÃO COM A INDÚSTRIA AEROESPACIAL E DE MOLDES
Gabriel Serra *, Fábio Fernandes *, Victor Neto * * Universidade de Aveiro
No âmbito do Projeto Europeu DIGI3D, a Universidade de Aveiro tem vindo a promover a reflexão em torno da formação e da investigação como suporte à introdução de tecnologias de fabrico aditivo na indústria aeroespacial. Procura-se auscultar especialistas de diferentes setores com o objetivo de discutir o estado da arte e os principais desafios do fabrico aditivo, com especial enfoque na sua ligação à indústria de moldes e ao setor aeroespacial, promovendo a partilha de conhecimento e o reforço da colaboração entre a academia e a indústria. Entre os contributos recolhidos contam-se os apresentados por Mariana Maia (HyperMetal), Carina Ramos (3D Ever), do Jorge Laranjeira (Grupo Moldit), e Carlos Fonte (TEKEVER).
O projeto DIGI3D dedica-se ao desenvolvimento de competências avançadas em fabrico digital e impressão 3D, com especial enfoque na sustentabilidade e nas aplicações aeroespaciais. Tem como objetivo a criação de um currículo educativo inovador que integre modelação digital, fabrico aditivo e princípios de ecodesign,
alinhando a formação académica com as necessidades atuais da indústria. A abordagem pedagógica combina modelação virtual e fabrico físico, promovendo uma ligação estreita entre teoria e prática. Entre os principais resultados esperados incluem-se materiais didáticos, um manual de formação e uma plataforma de e-learning acessível a estudantes e docentes.
Neste debate, Mariana Maia, da HyperMetal, empresa com experiência na impressão 3D para a indústria aeroespacial, em especial no que concerne o fabrico aditivo metálico, através de “Laser Powder Bed Fusion” e serviços associados à produção de peças metálicas de alta complexidade, salientou a importância da certificação EN 9100:2018, uma norma baseada na ISO 9001 com foco no sistema de gestão da qualidade específico para os setores aeronáutico, aeroespacial e da defesa. O objetivo central desta certificação é assegurar a segurança, fiabilidade e conformidade dos produtos, ao longo de todo o ciclo de vida, desde o projeto e desenvolvimento até à produção e fornecimento. A norma dá
particular ênfase à gestão do risco, à rastreabilidade, ao controlo rigoroso de processos especiais, à prevenção de defeitos e à gestão de fornecedores, promovendo uma cultura de melhoria contínua e de redução de falhas em ambientes industriais de elevada exigência.
Carina Ramos destacou a evolução da 3D Ever e do próprio setor, salientando que a barreira da impressão 3D enquanto mera ferramenta de prototipagem já foi ultrapassada, afirmando-se cada vez mais como um processo produtivo de fabrico aditivo. A responsável da 3D Ever sublinha que esta tecnologia não visa substituir os métodos tradicionais, mas sim oferecer valor acrescentado e competitividade, permitindo respostas rápidas e eficientes. Este aspeto é particularmente relevante no setor do New Space, onde a produção de pequenas séries e a rapidez de resposta são cruciais, contrastando com a produção em massa da indústria automóvel.
Jorge Laranjeira, representando a indústria de moldes e o Grupo Moldit, salientou a distinção entre a aeronáutica “que leva pessoas”, sujeita a certificações extremamente exigentes e pesadas, e a aeronáutica “que não leva pessoas” (como os drones e UAVs), onde a velocidade de time-to-market é prioritária, como forma de lidar com a complexidade do setor aeroespacial. O gestor defende que a indústria de moldes está bem posicionada para esta transição, devido à sua habituação a pequenas séries e à adoção pioneira de tecnologias (CNC, CAD/CAM). No entanto, alertou para a necessidade de um market pull, ou seja, de desafios concretos do mercado que justifiquem o investimento nas complexas certificações necessárias.
Por sua vez, Carlos Fonte apresentou a experiência da TEKEVER no desenvolvimento de UAVs, onde a impressão 3D é utilizada tanto na prototipagem como na produção em série de componentes. O engenheiro identificou como desafios futuros o aperfeiçoamento das ligações entre camadas de material e manifestou o desejo de ver a tecnologia evoluir para sistemas de 5 eixos, similares aos
CNCs, para reduzir tempos de pós-processamento e aumentar cadências produtivas.
No que concerne a formação e competências, Mariana Maia enfatizou a simbiose necessária entre as empresas e a academia, dando o exemplo da colaboração com a FEUP na otimização de parâmetros de impressão e caracterização de materiais. Referiu ainda que o pós-processamento continua a ser uma fase muito manual e carente de investigação. Carina Ramos reforça esta ideia, notando uma lacuna entre o conhecimento académico de design digital e a realidade produtiva dos acabamentos, sugerindo que a indústria de moldes, especialista em acabamentos superficiais, tem aqui uma oportunidade de ouro para aplicar o seu know-how.
Interrogados sobre como a formação pode ajudar a colmatar as falhas de mercado, o painel concordou que existe um défice de conhecimento sobre o comportamento específico dos materiais de fabrico aditivo em comparação com os convencionais. Jorge Laranjeira acrescentou que, para além da produção, falta formação sobre os requisitos e especificações de certificação exigidos pelos grandes OEMs aeronáuticos.
Foram ainda abordadas questões técnicas sobre a distinção entre atividade (prototipagem) e tecnologia (fabrico aditivo), bem como a utilização de materiais poliméricos versus metálicos. Apesar da crescente introdução de metais, o seu foco tem sido materiais, como o ASA, para redução de peso. Ainda no que concerne a certificação, foi clarificado que, para fornecedores de níveis inferiores na cadeia de valor, o foco está muitas vezes na certificação do processo produtivo, enquanto a certificação da peça final recai sobre o cliente integrador.
O projeto DIGI3D (Digital Manufacturing in 3D Printing for EcoFriendly and Sustainable Aerospace Applications) é um projeto europeu financiado pelo programa Erasmus+. Mais informação acerca do projeto pode ser obtida aqui:
http://digi3d.ogu.edu.tr.
TECNOLOGIA
EQUIPAMENTOS . PROCESSOS . CONHECIMENTO
INDÚSTRIA DE MOLDES EM PORTUGAL: CONHECIMENTO, ADVERSIDADE E RENOVAÇÃO
A INDÚSTRIA DE MOLDES EM PORTUGAL:
CONHECIMENTO, ADVERSIDADE E RENOVAÇÃO
Armando Bastos* * Consultor
A indústria de moldes em Portugal, com particular incidência na Marinha Grande e Oliveira de Azeméis, constitui um dos exemplos mais consistentes de especialização industrial sustentada ao longo de décadas. Nascida de constrangimentos históricos, técnicos e geográficos, soube transformar limitações em vantagens competitivas, superar crises estruturais e adaptar-se a profundas mudanças tecnológicas e de mercado, afirmando-se como pilar estratégico da economia nacional e referência exportadora. No presente ano, um novo choque decorrente dos efeitos devastadores
ORIGENS E CONSTRANGIMENTOS HISTÓRICOS
A indústria de moldes em Portugal desenvolveu-se a partir de um contexto industrial exigente, no qual se consolidaram elevados padrões de precisão, rigor técnico e transmissão do saberfazer. O seu crescimento ocorreu sob condições adversas, marcadas por limitações de recursos, fragilidades estruturais e reduzida escala de mercado. Foi precisamente neste enquadramento restritivo que se formou uma cultura industrial resiliente, orientada para a adaptação contínua, para a aprendizagem prática e para a resolução sistemática de problemas. Esta capacidade de transformar constrangimentos em competência constitui hoje um ativo estratégico fundamental, que sustenta não apenas a sobrevivência do sector, mas também a sua aptidão para enfrentar novos ciclos de transformação tecnológica, responder a exigências
crescentes de sustentabilidade e reposicionarse em mercados de maior valor acrescentado.
Com a expansão da indústria dos plásticos, a partir da segunda metade do século XX, a produção de moldes autonomizouse e afirmou-se como sector estratégico. A fragmentação empresarial, o impacto tecnológico e a pressão sobre prazos e custos exigiram respostas pragmáticas que, embora nem sempre formalizadas, anteciparam princípios centrais do pensamento Lean. Entre eles destacam-se a eliminação sistemática de desperdícios, a forte orientação para o cliente, a integração entre projeto e fabrico, a flexibilidade produtiva e a resolução estruturada de problemas. A padronização progressiva de boas práticas, o foco no fluxo de valor e a melhoria contínua tornaram-se fatores críticos para sustentar competitividade num contexto de elevada customização e exigência de qualidade.
CRISES, RUTURAS E APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL
A história da indústria de moldes é marcada por sucessivos episódios de instabilidade e por ciclos de ajustamento. Antes de 2008, o sector enfrentou crises associadas a variações económicas, mudanças tecnológicas e reestruturações industriais globais. A crise financeira de 2008 constituiu um ponto de rutura particularmente relevante, ao expor fragilidades
financeiras, dependências excessivas de mercados específicos e modelos de gestão pouco estruturados. Nos anos seguintes, novas perturbações — da intensificação da concorrência internacional às disrupções nas cadeias de abastecimento, passando pela pandemia e pela volatilidade geopolítica — reforçaram a necessidade de aprendizagem organizacional. Muitas iniciativas Lean falharam por excessiva centralidade em ferramentas e por insuficiente atenção à liderança, à cultura e à gestão da mudança. Onde estas lacunas foram reconhecidas, observaram-se evoluções para abordagens mais maduras, com maior consistência na padronização sustentável, na melhoria contínua e no envolvimento das equipas.
Atualmente, a indústria de moldes portuguesa é amplamente reconhecida como um ativo estratégico nacional. Fortemente orientada para a exportação, integra cadeias de valor globais em sectores como o automóvel, a aeronáutica, os dispositivos médicos e a embalagem técnica. O cluster distingue-se pela elevada densidade de conhecimento técnico, pela capacidade de engenharia integrada e pela fiabilidade operacional. Este posicionamento resulta da aptidão para criar e gerir fluxos de valor complexos, responder a requisitos elevados de customização e cumprir exigências rigorosas de qualidade e prazo. A consolidação deste estatuto requer, contudo, um reforço contínuo da produtividade, da inovação organizacional e da cooperação estruturada entre empresas, instituições e cadeia de fornecimento.
A TEMPESTADE, O RISCO E A NECESSIDADE DE PLANEAMENTO ESTRATÉGICO
A tempestade recente constituiu um choque abrupto, com impacto material, operacional e humano significativo. O episódio evidenciou a exposição do sector a múltiplos fatores de risco, incluindo eventos climáticos extremos, dependência de infraestruturas críticas, concentração de conhecimento e fragilidade de planos de contingência. Tornase, assim, incontornável integrar análises de risco sistemáticas, planeamento estratégico e gestão da resiliência como práticas estruturantes. A antecipação de cenários, a diversificação de riscos, a redundância operacional e a formalização de planos de resposta deixam de ser opcionais e passam a constituir elementos centrais da sustentabilidade industrial.
REESTRUTURAÇÃO, LEAN E PRODUTIVIDADE
A reestruturação do sector passa pela digitalização, pela revisão de estruturas organizacionais e pela criação de procedimentos-base coerentes com os princípios Lean. Não existem receitas universais: a padronização deve ser inteligente, seletiva e alinhada com a cultura de cada empresa, evitando tanto o excesso burocrático como a informalidade improdutiva. Lacunas como a ausência de padrões sustentáveis, a resistência cultural e a fraca gestão da mudança comprometem frequentemente os resultados. Quando bem implementados, os princípios Lean aumentam produtividade, previsibilidade, transparência e capacidade de transmissão de conhecimento. Neste quadro, importa reforçar de forma mais explícita a ligação entre o conhecimento técnico acumulado e a modernização contínua de processos e produtos, assumindo a inovação como eixo estruturante do futuro da indústria. A incorporação de princípios da Indústria 4.0 como a digitalização, integração de dados, automação inteligente e engenharia suportada por simulação, deve ser entendida como prolongamento natural desse conhecimento. Paralelamente, a crescente diversidade de materiais passíveis de injeção, incluindo soluções técnicas avançadas e alternativas com menor pegada ambiental, tende a influenciar requisitos, processos produtivos e tecnologias de moldação. Esta evolução, condicionada por metas de sustentabilidade e eficiência energética, abre oportunidades de acesso a novos mercados e aplicações de maior valor acrescentado, reforçando a necessidade de alinhar conhecimento, inovação tecnológica e estratégia industrial numa visão de longo prazo.
ATRATIVIDADE, CONHECIMENTO E REVITALIZAÇÃO
Tornar a indústria de moldes apelativa para as novas gerações é um desafio estratégico. Ambientes sustentados por processos claros, gestão visual, tecnologias digitais e aprendizagem estruturada são determinantes para atrair e reter talento. Garantir que o conhecimento acumulado é sistematicamente transmitido, documentado e atualizado constitui condição essencial para a revitalização e continuidade do sector, como gerador de valor sustentável, capaz de responder a novas exigências tecnológicas e de captar oportunidades em mercados emergentes.
NEGÓCIOS
ECONOMIA . MERCADOS . ESTATÍSTICAS
INDÚSTRIA 5.0 - DO PRODUTO DE SOFTWARE À SOLUÇÃO
O QUE TEIMAMOS EM NÃO COMPREENDER
INDÚSTRIA 5.0 - DO PRODUTO DE SOFTWARE
Vitor Ferreira*
* Instituto Politécnico de Leiria / Startup Leiria
INDÚSTRIA 5.0 – DO PRODUTO DE SOFTWARE À SOLUÇÃO
Durante demasiado tempo o software foi vendido à indústria como promessa antes de ser prova. Bastava juntar meia dúzia de palavras da moda, mostrar um ecrã limpo, falar de cloud, integração, inteligência artificial ou automação avançada, e a proposta parecia ganhar valor por si. Em muitos contextos isso ainda resulta. Na indústria resulta cada vez menos. A razão é simples. O software já não vale pelo brilho técnico da demonstração comercial. Vale pelo efeito concreto que produz no processo real.
Na Indústria 5.0 o centro de gravidade mudou. O foco sai da tecnologia em abstrato e entra na capacidade de resolver problemas específicos, reduzir risco, melhorar desempenho e aumentar a inteligência operacional. Vista de fora, esta mudança parece pequena. Não é. Muda a forma como se cria valor, como se vende, como se compra e como se protege margem.
Durante anos, muito software industrial foi pensado a uma distância confortável da fábrica. Nascia em equipas tecnicamente competentes, mas com pouco contacto com a variabilidade do chão de fábrica, com a tirania dos prazos, com a fricção entre desenho e execução, com as tensões diárias entre engenharia, produção, qualidade, manutenção e cliente. O resultado foi muitas vezes previsível. Tecnologia impressionante no papel, mas pouco enraizada na operação. Software que queria ordenar a realidade antes de a compreender.
Essa fase está a chegar ao limite. O código tornou-se mais abundante, mais acessível e mais barato de produzir. Ferramentas low-code, bibliotecas abertas, ambientes modulares e modelos de IA capazes de escrever, rever e adaptar software em pouco tempo estão a reduzir a raridade da componente puramente técnica. O que ontem parecia sofisticado será amanhã banal. E quando a técnica se banaliza, a diferenciação muda de lugar. Já não está apenas em programar bem. Está em transformar conhecimento industrial em soluções úteis, robustas e economicamente relevantes.
É aqui que a conversa fica séria para a indústria de moldes. Este é um setor onde o valor nunca dependeu apenas da execução mecânica. Depende da articulação entre projeto, engenharia, maquinação, acabamento, montagem, try-out, validação, correção, relação com o cliente e aprendizagem acumulada durante anos. Depende da precisão e da customização. Depende da capacidade de antecipar falhas antes de elas aparecerem na peça final. Depende sobretudo de conhecimento tácito. E esse continua a ser um dos ativos mais difíceis de copiar numa economia onde a tecnologia se difunde depressa, mas a experiência relevante continua escassa.
Por isso a narrativa simplista segundo a qual o futuro pertence apenas ao software puro, às plataformas asset-light e aos modelos escaláveis desligados do mundo físico sempre foi curta.
A digitalização não elimina o valor da indústria. Reconfigura-o. Quanto mais o digital se espalha, mais valioso se torna quem conhece em profundidade o processo concreto onde essa tecnologia tem de funcionar.
O molde é um bom exemplo desta economia do conhecimento aplicada ao mundo real. Não basta ter bons algoritmos. É preciso perceber geometrias complexas, tolerâncias, materiais, ciclos, deformações, tempos de setup, problemas de repetibilidade, custos de paragem, exigências do cliente e trade-offs produtivos. É aqui que a vantagem competitiva deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser tecno-industrial.
Na prática, isto significa que o software que fará diferença no setor não será o mais genérico nem o que tiver o catálogo funcional mais vistoso. Será o que atuar nos pontos críticos do processo e produzir ganhos claros. Um sistema que melhore a ligação entre CAD, CAM e produção vale mais do que uma plataforma cheia de dashboards pouco acionáveis. Um sistema que reduza iterações no ajuste do molde vale mais do que uma solução bonita que ninguém consulta quando chega a hora da decisão. Um modelo preditivo que ajude a antecipar desvios de qualidade, desgaste de componentes ou risco de atraso vale mais do que uma arquitetura digital elegante desligada dos custos reais da operação. O valor desloca-se da funcionalidade para o efeito.
Este ponto obriga as empresas a repensar a própria ideia de transformação digital. Durante anos muitas organizações trataram o digital como uma camada extra. Comprava-se um software, fazia-se uma integração mínima, escolhiam-se utilizadores e esperava-se que a produtividade aparecesse quase por inércia. Essa lógica esgotou-se. A nova geração de valor industrial nasce da fusão entre tecnologia e conhecimento distintivo. Não está em comprar software como quem compra mobiliário de escritório. Está em ligar software, dados, equipamentos, pessoas e processo num sistema coerente de aprendizagem e decisão. Quem tiver apenas software será copiado com relativa facilidade. Quem tiver apenas conhecimento tácito arrisca ficar preso a práticas difíceis de escalar e transmitir. Quem conseguir fundir os dois constrói uma posição muito mais robusta.
Na indústria de moldes isto abre uma oportunidade concreta. Durante muito tempo uma parte importante do valor do setor esteve associada à competência técnica e à capacidade de execução sob pressão, mas nem sempre à apropriação das margens mais altas da cadeia. Muitas empresas foram excelentes fornecedoras, mas nem sempre conseguiram transformar o seu conhecimento em soluções com mais recorrência, mais diferenciação e maior poder negocial.
A Indústria 5.0 pode alterar parte desta equação. Quando uma empresa consegue codificar uma parte da sua inteligência operacional sem destruir a flexibilidade que a distingue, passa a vender mais do que horas de máquina, mão de obra especializada ou capacidade instalada. Passa a vender desempenho, previsibilidade, redução de risco, velocidade de resposta, rastreabilidade, aprendizagem integrada e apoio à decisão.
Isto aproxima o setor de uma lógica de servitização inteligente. O cliente já não compra apenas um molde. Compra confiança no resultado, rapidez na resolução de problemas, capacidade de adaptação e, cada vez mais, acesso a informação útil ao longo do ciclo de vida do projeto.
A empresa que conseguir integrar sensores, dados de processo, feedback de try-out, histórico de correções e conhecimento de engenharia numa proposta coerente pode abrir novas fontes de receita. Pode apoiar melhor o cliente no arranque de produção. Pode reduzir retrabalho. Pode acelerar a resolução de não conformidades. Pode transformar experiência acumulada em ativo comercial. Não se trata de trocar indústria por software. Trata-se de elevar a proposta industrial através de software bem orientado.
Mas esta transição exige maturidade estratégica. Nem tudo o que se apresenta como digitalização cria valor. Há um risco real de confundir acumulação de ferramentas com transformação. Um ERP mal ligado ao chão de fábrica, um MES subutilizado, dashboards que ninguém usa, bases de dados incompletas, informação duplicada, sensores sem modelo analítico e inteligência artificial aplicada sem problema bem definido não tornam uma empresa mais avançada. Tornam-na mais complexa. A Indústria 5.0 não pede mais tecnologia por reflexo. Pede melhor tecnologia, com melhor pergunta, melhor integração e melhor propósito.
Há também uma implicação humana que importa sublinhar. Uma das ideias mais relevantes desta nova fase é que a tecnologia não deve substituir cegamente a capacidade das pessoas. Deve ampliá-la. A fábrica do futuro não será a que elimina o conhecimento humano em nome de uma automação abstrata. Será a que torna esse conhecimento mais visível, mais transmissível, mais apoiado por dados e menos dependente de improviso permanente. Numa indústria como a dos moldes, onde a experiência dos quadros técnicos e operacionais continua a ser decisiva, isto conta muito. O grande desafio não é desumanizar o processo. É evitar que conhecimento crítico fique retido em poucos indivíduos sem mecanismos de transmissão, apoio e escala.
Nesse sentido, a digitalização bem feita pode ser também um instrumento de preservação e multiplicação de conhecimento. Pode ajudar a captar padrões de erro, decisões recorrentes, ajustes típicos, ligações entre desenho e comportamento em produção. Pode apoiar a formação de novas equipas. Pode reduzir a vulnerabilidade criada pela saída de pessoas-chave. Pode transformar experiência dispersa em inteligência organizacional. Este é talvez um dos ganhos menos visíveis e mais valiosos da nova geração de software industrial.
Muda também o perfil das parcerias. A empresa industrial já não precisa apenas de um fornecedor de software. Precisa de um parceiro capaz de perceber o problema produtivo.
Quem continuar a vender soluções genéricas, com linguagem universalista e pouca sensibilidade ao contexto, terá cada vez mais dificuldade em justificar preço e permanência. Pelo contrário, quem conseguir trabalhar lado a lado com a operação, entender o processo e co-desenhar soluções terá um espaço bem mais promissor. Isto vale para integradores, developers, fornecedores de automação, fabricantes de equipamentos e também para as próprias empresas de moldes que queiram desenvolver ferramentas internas ou ofertas complementares.
Para Portugal, e em particular para setores industriais com forte base técnica, esta pode ser uma oportunidade séria. Durante demasiado tempo aceitámos uma posição intermédia nas cadeias de valor. Fomos muitas vezes competentes na execução, mas menos presentes na captura da inteligência que comanda a margem.
A nova vaga industrial pode corrigir parte dessa trajetória. Os setores que dominam o processo, conhecem o cliente e operam perto do problema têm agora melhores condições para transformar esse conhecimento em soluções digitais diferenciadas. Podem reforçar a sua posição competitiva não apenas pelo custo ou pela qualidade de fabrico, mas pela capacidade de integrar engenharia, dados e decisão num pacote de valor mais difícil de imitar.
Isto exige visão, investimento e liderança. Exige empresas capazes de ligar tecnologia à estratégia e não apenas à modernização cosmética. Exige gestores que saibam perguntar onde está o desperdício mais caro, onde mora a incerteza mais penalizadora, onde se perde tempo, margem e aprendizagem. Exige menos fascínio pela ferramenta e mais obsessão pelo problema. No fundo, exige maturidade económica.
Talvez esta seja a melhor forma de ler a Indústria 5.0. Não como mais uma etiqueta para vender conferências, mas como um regresso ao essencial. A tecnologia só cria valor duradouro quando melhora a capacidade de resolver problemas difíceis em contextos exigentes. No setor dos moldes isso significa software menos abstrato e mais industrial. Menos produto isolado e mais solução integrada. Menos promessa genérica e mais impacto verificável.
O futuro não pertence apenas a quem escreve melhor código. Pertence a quem consegue combinar código, dados, engenharia e conhecimento de processo para resolver melhor o que continua a ser difícil resolver. E nesse campeonato a indústria de moldes não está condenada a seguir os outros. Pode ajudar a liderar.
O QUE TEIMAMOS EM NÃO
COMPREENDER…
Miguel Nuno Silva*
* Consultor Internacional em Supply Chain, Procurement & Logística
O QUE TEIMAMOS EM NÃO COMPREENDER…
No momento em que vos escrevo, decorre a segunda semana de conflito no Irão. Pouco antes, Portugal foi assolado por uma intempérie de pluviosidade extrema - como há muito não se via - que atingiu, em particular, a zona centro do país.
Confesso-vos: estou dividido quanto ao que partilhar neste artigo de opinião que, uma vez mais, tenho o privilégio de assinar na revista Molde.
O ser humano procura estabilidade. Por natureza, resiste à mudança. Anseia pela perenidade - por tudo aquilo que lhe oferece segurança, retorno e felicidade ao longo do tempo. Seria ideal, não seria?
MAS A REALIDADE INSISTE EM CONTRARIAR ESSA EXPECTATIVA.
Há cerca de seis anos, uma disrupção sem precedentes- a Covid-19 - obrigou-nos ao isolamento e expôs, como nunca, a necessidade de apoio e entreajuda. “Vai ficar tudo bem”, repetíamos, de janela em janela. Durante mais de um ano, acreditámos estar mais próximos, mais humanos, mais solidários.
E, no entanto, passado o choque, regressámos ao essencial, mas não necessariamente ao melhor de nós: o foco no próprio umbigo, a prioridade ao interesse individual, a indiferença perante o que não nos afeta diretamente.
Talvez estas palavras sejam duras. Ainda assim, impõe-se a pergunta: o que aprendemos, verdadeiramente, a nível pessoal e coletivo? O que mudou desde então?
Não me cabe julgar comportamentos individuais. Não é esse o propósito. Mas é legítimo - e necessário - questionar o que as organizações fizeram, de forma concreta, para se prepararem para novas disrupções, inevitáveis por natureza. A única incerteza é quando ocorrerão.
Dirijo-me, por isso, aos empresários, diretores executivos e líderes empresariais. Que respostas estamos, de facto, a construir? Com base em orientações da McKinsey & Company, destaco algumas prioridades na mitigação de riscos de abastecimento e na continuidade do negócio:
• Diversificação de fontes (dual sourcing): ou seja, não colocar “todos os ovos no mesmo cesto”. Evitar a dependência excessiva de um único fornecedor deixou de ser prudente - é essencial. Repensar o equilíbrio entre custo e valor, traduzindo-o em disponibilidade, fiabilidade e critérios ESG, reduz a exposição ao risco;
• Reforço de stocks críticos: até que ponto o seu negócio depende de matérias-primas insubstituíveis? Que estratégias estão a ser adotadas? Compras em grupo/cluster, gestão de risco financeiro associada ao volume e otimização de localizações logísticas podem encurtar ciclos e aumentar resiliência;
• Redes locais de abastecimento e cadeias regionais de distribuição: nem tudo deve depender de cadeias globais. Para categorias de consumo recorrente, a proximidade - sustentada por previsões de compra e contratos-quadro (framework agreements) - pode ser uma vantagem competitiva decisiva;
• Centralização do planeamento e diminuição do ciclo de S&OP: organizações com presença geográfica dispersa exigem coordenação centralizada. Um planeamento único e articulado é determinante para eficiência e capacidade de resposta;
• Implementação de analítica(s) avançada(s): não podemos fugir a esta realidade. Sistemas fragmentados limitam a visão. Investir em integração e em capacidade analítica permite decisões mais rápidas e informadas, um fator crítico num contexto volátil;
• Formação & reskilling da(s) equipa(s): antes de procurar talento fora (bem pago), importa desenvolver o que já existe dentro. Inteligência artificial, cibersegurança, IoT e análise de dados não são tendências, são requisitos. Estão na sua agenda?
Estes tópicos não pretendem ser um remédio, menos ainda de toma única! São, antes, sinais de um posicionamento, de uma forma de estar perante a incerteza.
Sim, implicam investimento. Mas a alternativa, a inação, tende a ser mais dispendiosa. Importa, por isso, colocar estes temas no centro das decisões estratégicas. A mitigação de risco na cadeia de abastecimento não é apenas uma função operacional — é uma condição para a continuidade do negócio.
No fundo, como dizia a minha querida avó: “só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja”. A questão é simples e exigente: queremos continuar a reagir ou estamos, finalmente, dispostos a antecipar? Porque quem não aprende dificilmente evolui.
NOTA: Sugestões, análises críticas e/ou comentários são (serão sempre) bem-vindos pois são o meu “boost” para, a cada dia, fazer (e ser) mais e melhor – miguelnunosilva@gmail.com
GESTÃO DE PESSOAS
DAS TEMPESTADES ÀS ORGANIZAÇÕES: A AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO COMO ÂNCORA DA RESILIÊNCIA NAS PME DO SETOR DE MOLDES
INVESTIR NAS PESSOAS PARA MOLDAR O FUTURO
DAS TEMPESTADES ÀS ORGANIZAÇÕES: A AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO COMO ÂNCORA DA
RESILIÊNCIA NAS PME DO SETOR DOS MOLDES
Artur Ferraz*
*Consultor Internacional de Gestão de Pessoas
A noite de 28 de janeiro de 2026 ficará gravada na memória do setor dos moldes português. A tempestade Kristin não foi apenas uma tragédia humana — foi um teste brutal à resiliência das nossas organizações. Na Marinha Grande, muitas empresas ficaram totalmente destruídas. Um setor que gera valor acrescentado, com 80% da produção destinada à exportação, viu-se de um momento para o outro a confrontar perdas sem precedentes, de infraestrutura, de equipamento, de rotina operacional.
Mas há uma perda que raramente aparece nos relatórios de dano: a desorientação das pessoas.
Quando as paredes caem, o que segura uma equipa não são as máquinas, são os laços, os propósitos partilhados,
a clareza sobre o que cada um vale e para onde se vai. E é precisamente aqui que os sistemas de avaliação de desempenho mostram a sua dimensão mais profunda: não são apenas ferramentas de gestão. São instrumentos de coesão organizacional.
O MOMENTO QUE ESTAMOS A VIVER
A depressão Kristin veio somar-se a outros desafios estruturais que já estavam a assolar a indústria, o aumento dos custos de produção e logística, a instabilidade geopolítica, e os desafios da transição energética. Num setor já pressionado, a tempestade foi mais do que uma catástrofe climática: foi um acelerador de vulnerabilidades que existiam antes e que agora não se podem ignorar.
A questão que se coloca não é apenas como reconstruir. É como reconstruir melhor.
E reconstruir melhor exige que as empresas do setor façam aquilo que muitas ainda adiavam: investir a sério nas pessoas como pilar central da sua estratégia.
ORGANIZAÇÕES ÁGEIS NÃO SE IMPROVISAM — PREPARAM-SE
Uma das lições mais duras da Kristin foi a que distinguiu as empresas que reagiram com clareza das que ficaram paralisadas. A diferença raramente estava nos recursos materiais. Estava nas estruturas humanas: na qualidade da liderança intermédia, na polivalência das equipas, na cultura de responsabilidade partilhada.
Ora, nenhum destes ativos surge por acaso. São construídos — sistematicamente, ao longo do tempo, através de práticas de gestão de pessoas que incluem avaliação de desempenho, desenvolvimento de competências e reconhecimento do mérito.
Num mundo em mudança acelerada, onde os eventos extremos, climáticos, geopolíticos, tecnológicos são cada vez mais frequentes, a agilidade organizacional deixou de ser um objetivo desejável e passou a ser uma condição de sobrevivência. E a agilidade não é compatível com estruturas onde ninguém sabe bem o que se espera de si, onde o mérito é invisível e onde o desenvolvimento das pessoas é deixado ao acaso.
AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO: DA BUROCRACIA À RESILIÊNCIA
Durante demasiado tempo, os sistemas de avaliação de desempenho foram encarados como obrigações administrativas, formulários anuais preenchidos por obrigação, sem impacto real no dia-a-dia das organizações. Nas PME do setor dos moldes, muitas vezes nem isso existia.
É tempo de mudar radicalmente este paradigma.
Um modelo de avaliação de desempenho bem construído, simples, adaptado à realidade de cada empresa, mas assente em descrições claras de função, indicadores relevantes e planos de desenvolvimento é muito mais do que uma ferramenta de feedback. É a espinha dorsal de uma organização capaz de se adaptar:
. Alinha expectativas antes das crises, não durante
Identifica os talentos críticos que uma empresa não pode perder;
. Cria plataformas de desenvolvimento que aumentam a polivalência e a capacidade de resposta;
Promove culturas de melhoria contínua onde os erros são aprendizagem e não motivo de punição;
. Fortalece a relação entre líderes e equipas — o verdadeiro tecido conjuntivo das organizações resilientes.
CRIAR ESTRUTURAS DE GESTÃO DE PESSOAS: UMA URGÊNCIA, NÃO UM LUXO
Pós-Kristin, muitas empresas do setor estão a reconstruir instalações, a repor equipamentos, a aceder a linhas de crédito de emergência. É necessário. Mas se esta reconstrução não incluir uma aposta genuína na gestão estratégica de pessoas, estamos apenas a reparar o exterior sem fortalecer o interior.
Muitas vezes ainda se continua a delegar a gestão de pessoas em funções administrativas, sem uma visão estratégica.
Urge inverter este paradigma. Criar estruturas dedicadas à gestão de pessoas, mesmo que inicialmente com recursos limitados, pode representar o salto qualitativo mais decisivo desta nova fase.
Estas estruturas devem liderar a implementação de modelos de avaliação, fomentar a formação contínua, promover a mobilidade interna e construir uma cultura onde o talento é reconhecido e retido. Porque a escassez de mão-de-obra qualificada, o rejuvenescimento das equipas técnicas e a transição digital não desapareceram com a Kristin — ficaram mais urgentes.
Há uma imagem que não consigo deixar de ter presente: a de empresas que, mesmo depois de destruídas fisicamente, mantiveram as suas equipas unidas, os seus clientes informados, os seus projetos vivos — porque tinham construído algo que nenhuma tempestade consegue levar: uma cultura organizacional forte e pessoas comprometidas com um propósito comum.
Essas empresas não chegaram a esse ponto por acidente. Chegaram lá porque, ao longo dos anos, investiram nas pessoas com rigor, com clareza e com humanidade.
É isso que os sistemas de avaliação de desempenho, quando bem construídos, permitem edificar. Não apenas melhores resultados, melhores organizações. Organizações capazes de enfrentar a próxima tempestade, seja ela climática, tecnológica ou de mercado.
Tal como um molde precisa de precisão para gerar valor, também uma organização precisa de instrumentos que permitam moldar e valorizar o seu capital humano. Sem isso, nenhuma peça encaixa e quando a tempestade chega, nada resiste.
PESSOAS, LIDERANÇA & ORGANIZAÇÃO
GE01 Avaliação de Desempenho na Indústria de Moldes - Aplicação Prática do Referencial Sectorial
GE28 Gestão de Carreiras e Progressão Profissional na Indústria de Moldes
GE25 PROGRAMA AVANÇADO - Estratégias de Gestão: Abordagens para a Nova Geração de Líderes
GE24 Equidade e Transparência Salarial: Obrigações Legais e Plano de Ação
MARKETING & NEGOCIAÇÃO COMERCIAL
IT20 IA Aplicada à Gestão Comercial e Prospeção de Clientes na Indústria
IT19 Vendas em Contextos Desafiantes: Negociação e Fecho
COMPRAS & SUPPLY CHAIN
GE03 Compras e Procurement: Gestão de Fornecedores
IT10 Negociação com Fornecedores: Preços, Prazos e Condições Comerciais
CF08 Importação e Exportação: Regras, Documentação Aduaneira e Boas Práticas
MOLDAÇÃO & MATERIAIS
MT01 Moldação por Injeção: Molde, Máquina e Processo
MT04 Moldação por Injeção: Otimização do Processo
MT019 Defeitos em Peças Plásticas: Diagnóstico e Soluções Práticas
MT017 Tecnologias Emergentes na Moldação por Injeção: Novos Processos, Materiais e Soluções
MM02 Manutenção de moldes: práticas para máximo desempenho
MT02 Materiais Poliméricos Avançados para Moldação - Tendências e Aplicações Industriais
CONTABILIDADE & FISCAL
CF11 IVA e Transações Intracomunitárias na Indústria Exportadora
GE010 Orçamentação e Controlo de Gestão: Análise de Custos, Desvios e Avaliação de Desempenho
GE013 Custeio Industrial na Produção de Moldes
QUALIDADE & PERFORMANCE
MM17 FMEA de moldes: Antecipar falhas de forma metódica - 1.ª Edição
MM17 FMEA de moldes: Antecipar falhas de forma metódica - 2.ª Edição
MM16 Resolução de Problemas na Produção: Da Não Conformidade à Causa Raiz
MM05 Planos de Controlo e Inspeção na Produção de Moldes: como construir, aplicar e melhorar
OQ17 Auditorias Internas: Atualização segundo a nova ISO 19011 (a publicar em 2026)
GE04 Cost Deployment e Identificação de Perdas: Da Teoria à Prática
OQ11 Ensaios de Moldes: Diagnóstico, Ajustes e Redução de Tempos de Correção
LEGAL & COMPLIANCE
DT13 Prevenção da Corrupção: Obrigações do RGPC e Como Implementar nas PME
DT12 Proteção de Denunciantes: O Que Muda e Como Cumprir na Prática
SEGURANÇA & EMERGÊNCIAS
SHT08 Suporte Avançado a Vítimas de Trauma Industrial: Do Acidente à Estabilização
SHT09 Gestão de Emergências Industriais: Plano de Emergência Interno, Simulacros e Coordenação de Meios
ESG, SUSTENTABILIDADE & REGULAÇÃO
MT026 PPWR - Impacto no Design de Moldes e Embalagens: O Que Muda para a Indústria
GE26 Estratégia, Liderança e Gestão do Risco na Indústria de Moldes e Plásticos
GE27 ESG na Indústria de Moldes: Prioridades e Indicadores para as Empresas
GE29 Pegada de Carbono na Indústria de Moldes: Como Calcular, Reportar e Reduzir
13 e 14/10 presencial
25 e 26/05 presencial
22 e 23/09 presencial
6 e 7 maio presencial
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INVESTIR NAS PESSOAS PARA MOLDAR
O FUTURO
Sandra Pereira*, Beatriz Duarte* *Cefamol
INVESTIR NAS PESSOAS PARA MOLDAR O FUTURO
Num contexto em que a tecnologia evolui diariamente e a concorrência é global, acompanhar a mudança já não é suficiente. É necessário antecipar. E isso começa nas pessoas.
É precisamente aqui que a CEFAMOL, enquanto entidade formadora certificada pela DGERT, se posiciona: como um parceiro próximo das empresas, focado no desenvolvimento de competências com um impacto real no terreno.
Os resultados de 2025 refletem esse compromisso: 37 ações realizadas, mais de 450 formandos, cerca de 115 empresas envolvidas e um volume superior a 3900 horas de formação. Os níveis de satisfação registados confirmam que a oferta está alinhada com as necessidades do sector.
Mais do que meros indicadores de desempenho, estes números refletem a pertinência da nossa oferta formativa e a sua capacidade de resposta às necessidades críticas do tecido industrial. São dados que nos permitem identificar prioridades, antecipar desafios emergentes e estruturar soluções alinhadas com a evolução da indústria. São também a base sobre a qual foi construído o Plano de Formação 2026.
O novo plano foi desenhado para dar resposta a desafios concretos das empresas, combinando áreas técnicas e operacionais com competências de gestão e inovação.
Entre as principais áreas em destaque, encontram-se a otimização de processos e materiais, a sustentabilidade e a eficiência energética, o reforço das competências em vendas e negociação, bem como temas cada vez mais críticos, como o compliance, a fiscalidade e a gestão financeira. Acompanhando a revolução digital, a Inteligência Artificial entra definitivamente na agenda, não como uma tendência, mas como uma ferramenta prática destinada, a apoiar a tomada de decisões e transformar processos.
Paralelamente, o plano integra uma abordagem orientada para o desenvolvimento de competências transversais críticas, nomeadamente ao nível da adaptação a contextos operacionais complexos. Estas competências são, hoje, determinantes para assegurar a eficiência, a resiliência e a capacidade de resposta das organizações.
A formação continuará a ser ministrada em diferentes formatos, combinando ações interempresas e intraempresa. Esta última mantém-se como uma prioridade, graças à sua capacidade de adaptação à realidade específica de cada organização
e ao impacto direto que tem no desempenho das equipas. Simultaneamente, serão reforçados os modelos híbridos, que combinam sessões presenciais e online, garantindo maior flexibilidade e alcance.
Tudo isto com uma aposta clara numa formação mais prática. Sempre que possível, a formação será complementada com abordagens mais próximas da realidade empresarial, de modo a promover uma transferência efetiva de conhecimentos para o posto de trabalho.
Outro ponto-chave para 2026 é o reforço de parcerias com especialistas e entidades que conheçam verdadeiramente o sector. O objetivo é simples: garantir conteúdos atuais, relevantes e com aplicação direta.
Mas há uma ideia que atravessa todo o plano: a formação tem de fazer sentido no dia a dia das empresas. Tem de ser prática, aplicável e orientada para resultados. É essa ligação ao terreno que garante que o conhecimento não fica na sala de formação, mas passa, efetivamente, para o contexto operacional.
Num sector onde cada decisão conta e cada ganho de eficiência faz a diferença, investir nas competências das equipas é investir diretamente na competitividade. E, é precisamente esse o papel que a CEFAMOL pretende continuar a assumir junto das empresas.
VANTAGENS EXCLUSIVAS PARA ASSOCIADOS
Investir em formação deve ser uma decisão fácil. Por isso, a CEFAMOL mantém, em 2026, condições especiais para os seus associados: a Vantagem 2 por 1 nas ações online e o Voucher Formação’26 nas ações presenciais. Acresce ainda a possibilidade de utilizar o saldo do Fundo de Compensação do Trabalho para financiar a participação em ações certificadas, até 31 de dezembro de 2026.
Em suma, o Plano de Formação 2026 não é apenas uma lista de cursos.
É uma resposta aos desafios do sector.
É uma ferramenta para reforçar a competitividade.
E, é, sobretudo, um compromisso com o que faz a diferença: pessoas mais preparadas para uma indústria em constante mudança.
Porque, no fim, são elas que continuam a moldar o futuro!
SUSTENTABILIDADE
MATERIAIS TERMOPLÁSTICOS DESENVOLVIDOS POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PARA EMBALAGENS E ELETRÓNICA SUSTENTÁVEIS
ECODESIGN NAS EMBALAGENS DE PLÁSTICO: O FUTURO SUSTENTÁVEL COMEÇA AGORA — GUIA PRÁTICO PARA A INDÚSTRIA
MATERIAIS TERMOPLÁSTICOS DESENVOLVIDOS POR INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL PARA EMBALAGENS E ELETRÓNICA SUSTENTÁVEIS
Cátia Araújo *, Sílvia Cruz * * PIEP – Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros
A transição para materiais sustentáveis representa um dos principais desafios atuais nas indústrias de plásticos e eletrónica. Neste contexto, o projeto europeu AIM-PACE propõe uma abordagem inovadora para valorizar fluxos agrícolas e industriais, convertendo-os em termoplásticos de base biológica de elevado desempenho. Entre os materiais mais promissores encontram-se os poli-hidroxialcanoatos (PHAs), uma família de biopolímeros produzidos por microrganismos, que têm vindo a ganhar destaque como alternativa aos plásticos de origem fóssil. Os PHAs são atualmente o principal termoplástico de origem biológica e biodegradável produzido na União Europeia (EU)/ Espaço Económico Europeu (EEE), numa escala pré-industrial.
Contudo, apesar do seu potencial, os PHAs atualmente disponíveis ainda apresentam limitações ao nível das propriedades me-
cânicas, da processabilidade e do custo, fatores que dificultam a sua adoção em larga escala.
Para ultrapassar estas limitações, o AIM-PACE pretende desenvolver uma nova geração de PHAs com propriedades superiores, incluindo processabilidade, tenacidade, propriedades de barreira e elétricas, recorrendo a uma combinação de tecnologias avançadas. O projeto integra engenharia microbiana, simulações computacionais avançadas e uma plataforma de inteligência artificial (IA) baseada em otimização multiobjetivo. Adicionalmente, técnicas de otimização bayesiana irão melhorar a eficiência dos processos produtivos, reduzindo o consumo de energia e de matérias-primas ao longo das cadeias de valor. A engenharia microbiana será utilizada para otimizar microrganismos capazes de converter resíduos agroalimentares, subprodutos industriais e
CO2biogénico em biopolímeros, enquanto as simulações computacionais permitirão prever e ajustar as propriedades dos materiais resultantes.
Desta forma, o AIM-PACE pretende estabelecer sete novas tecnologias e quatro cadeias de valor integradas na Europa, desde a valorização de matérias-primas até às aplicações finais. O projeto envolve também uma forte interação com utilizadores finais, recicladores, gestores de resíduos e decisores políticos, garantindo alinhamento regulatório e facilitando a futura adoção no mercado.
As soluções desenvolvidas visam possibilitar aplicações inovadoras, com menor impacto ambiental. Para assegurar a sua viabilidade, o projeto prevê ainda a validação industrial, com nível de maturidade tecnológica até TRL 7, de quatro demonstradores e a criação de novas cadeias de valor europeias assentes nos princípios da economia circular. Estas aplicações representam setores com elevado potencial de impacto, incluindo embalagens sustentáveis, dispositivos médicos e eletrónica vestível.
A circularidade está integrada desde a conceção dos materiais. O projeto prioriza estratégias de redução de material, reutilização e reciclagem mecânica. Para aplicações onde a reciclagem não seja viável, será avaliada e confirmada a compostabilidade dos materiais.
Do ponto de vista ambiental, o projeto pretende alcançar reduções significativas face aos materiais de origem fóssil, incluindo:
• 30–50% menos emissões de gases com efeito de estufa ao longo do ciclo de vida;
• 15% menor consumo de energia primária;
• 15% menor consumo de água por quilograma de material produzido.
Importa acrescentar que, pelo menos 80% das matérias-primas utilizadas serão provenientes de resíduos agroalimentares e subprodutos industriais com origem na Europa. Adicionalmente, todos os processos cumprirão os critérios DNSH (Do No Significant Harm).
O desenvolvimento de bioplásticos de alto desempenho é essencial para reduzir a dependência de materiais fósseis e promover uma economia circular. Ao integrar biotecnologia, inteligência artificial e estratégias avançadas de sustentabilidade, o AIM-PACE representa um passo significativo rumo a materiais mais eficientes, recicláveis e ambientalmente responsáveis. Os resultados esperados poderão contribuir para novas soluções industriais e acelerar a transição para sistemas produtivos mais sustentáveis.
O projeto AIM-PACE (101287490) — Artificial Intelligence-Designed Thermoplastic Materials for Sustainable Packaging and Electronics foi aprovado no âmbito do Horizon Europe (HORIZON-JU-CBE-2025-IA-05), com um orçamento elegível de €8 473 161. O projeto recebeu ainda o STEP SEAL, selo associado à Strategic Technologies for Europe Platform (STEP), que reconhece a excelência e a relevância estratégica da proposta.
Para atingir estes objetivos, o AIM-PACE reúne catorze parceiros especialistas nas diversas áreas de IA, biotecnologia, processamento de polímeros, transformação de plásticos, ambiente e regulamentação, e comunicação e exploração comercial. Entre os membros do consórcio estão a VTT Technical Research Centre of Finland, o CO2BioClean GmbH, a PROPAGROUP SPA, a Universidade de Bayreuth e o Luxembourg Institute of Science and Technology, bem como as empresas portuguesas Sabio S.r.l. e PLUX Biosignals, além do PIEP.
O PIEP lidera a Work Package 4 (WP4), que integra formulação de materiais, processamento em escala piloto e validação de protótipos de componentes impressos e moldados para dispositivos vestíveis de monitorização de biossinais. O trabalho do PIEP foca-se no desenvolvimento de elétrodos descartáveis para ECG, incluindo a impressão de circuitos nos novos filmes de PHA, com particular controlo da qualidade do sinal, desempenho elétrico e flexibilidade da solução.
Paralelamente, serão produzidos housings para dispositivos vestíveis, em colaboração com a PLUX Biosignals. Será utilizado o processo de moldação por injeção com a utilização do novo material PHA, em que resistência mecânica, estabilidade dimensional e durabilidade são propriedades críticas. Para isso, os resultados das simulações do processo, combinados com ensaios experimentais, serão utilizados para validar o molde e definir as condições de processamento numa fase piloto da produção.
Além disso, o PIEP contribuirá para os testes de biodegradabilidade, que incluem degradação aeróbia em água, compostagem, solo e ambiente marinho.
O projeto AIM-PACE representa, assim, um passo decisivo para uma indústria de plásticos mais verde, inovadora e europeia, ligando sustentabilidade, inovação tecnológica e economia circular.
/ /Figura 1. Esquema representativo do fluxo de trabalho do AIM PACE (imagem gerada por IA).
ECODESIGN NAS EMBALAGENS DE PLÁSTICO: O FUTURO SUSTENTÁVEL
COMEÇA AGORA — GUIA PRÁTICO PARA A INDÚSTRIA
Zélia Alves *, Liliana Ramos**
* PhD in Sustainable Chemistry from the University of Aveiro, Gestora de Projetos/ Inovação Empresarial;
** Coordenadora da área da Inovação Empresarial do CENTIMFE
A importância da sustentabilidade no setor das embalagens de plástico
O setor das embalagens de plástico representa mais de um terço (39%, em 2022) de todo o plástico produzido na Europa, recorrendo maioritariamente a polímeros de origem fóssil. O carácter frequentemente descartável destas embalagens, após cumprirem a sua função, tem contribuído para o aumento da geração de resíduos e impactes ambientais elevados, associados também ao desperdício de recursos.
A necessidade de tornar o setor mais sustentável tem vindo a ser reforçada pela regulamentação europeia, destacandose o novo Regulamento relativo a Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR /RERE) Regulamento (UE) 2025/40), que estabelece metas ambiciosas para a prevenção de resíduos, melhoria da reciclabilidade, promoção da reutilização, incorporação de plástico reciclado pós-consumo e a utilização de materiais alternativos, como bioplásticos, compostáveis e/ou biodegradáveis. A adoção de princípios de Ecodesign e de Economia Circular assume um papel central na integração de critérios ambientais desde a fase de conceção, permitindo desenvolver soluções que mantenham o desempenho funcional das embalagens, enquanto reduzem o seu impacto ao longo do ciclo de vida.
“O calendário de implementação do PPWR deixa claro que a adaptação não é opcional, mas sim urgente. As empresas que iniciarem já a integração de princípios de ecodesign estarão melhor preparadas para cumprir os requisitos de 2026 e, sobretudo, para responder às metas estruturais de 2030.”
PROJETO DEGREN PLUS
É neste enquadramento que surge o projeto DEGREN PLUS, que tem como objetivo fomentar o ecodesign e o desenvolvimento de produtos e serviços com o menor impacte ambiental em todas as fases do seu ciclo de vida. O projeto conta com a participação de empresas, centros tecnológicos e universidades da região EUROACE (Alentejo, Centro de Portugal e Estremadura) e é financiamento pelo Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (Interreg POCTEP). Entre as diversas atividades desenvolvidas no âmbito do projeto, destaca-se a elaboração de três guias metodológicos dedicados à aplicação de princípios de ecodesign e economia circular em diferentes
setores: embalagens, materiais para o habitat e serviços. Estes guias reúnem estratégias, recomendações e exemplos de boas práticas que pretendem apoiar as empresas na integração destes princípios nas suas atividades, funcionando como ferramentas de apoio à inovação sustentável.
GUIA METODOLÓGICO DE ECODESIGN PARA O SETOR DAS EMBALAGENS DE PLÁSTICO
No âmbito do projeto DEGREN PLUS o CENTIMFE desenvolveu um guia metodológico dedicado ao “Ecodesign e Circularidade para o Setor das Embalagens de Plástico”, cujo objetivo é apoiar as empresas na integração de práticas mais sustentáveis no design, desenvolvimento e gestão das suas embalagens. O guia apresenta uma abordagem prática e estruturada, disponibilizando um conjunto de estratégias de ecodesign e circularidade aplicáveis ao setor das embalagens, bem como recomendações específicas para diferentes tipologias de embalagem. Um dos elementos centrais do guia é a metodologia passo-a-passo de design circular para as embalagens, que orienta as empresas ao longo das diferentes fases do processo de desenvolvimento. Para facilitar a sua implementação, o guia inclui ainda ferramentas de apoio ao design circular, reunindo informação relevante sobre legislação aplicável, orientações e políticas estratégicas, normas técnicas (IEC 62430:2019, ISO 14006:2020) e exemplos de boas práticas do setor.
IMPULSIONAR A ECONOMIA CIRCULAR
Com este guia, pretende-se disponibilizar às empresas uma ferramenta prática e acessível que contribua para a adoção de soluções de embalagem mais sustentáveis e alinhadas com os desafios da economia circular. Num contexto de crescente exigência regulatória e de mercado, a integração do ecodesign no desenvolvimento de embalagens será cada vez mais determinante. Num futuro próximo, esta evolução será reforçada por novas políticas europeias, pelo desenvolvimento de instrumentos como o Passaporte Digital de Produto, pela crescente digitalização e pela evolução das expectativas dos consumidores. A adoção destas práticas permitirá às empresas antecipar os desafios do setor e reforçar a sua posição competitiva, através da inovação e da integração de princípios de circularidade. Relativamente ao PPWR, destacamos:
Regulamento Europeu (PPWR): datas-chave e impacto para as empresas
O Regulamento (UE) 2025/40 relativo a Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR) representa uma mudança estrutural no setor, com um calendário de implementação faseado que exige preparação antecipada por parte das empresas.
PRINCIPAIS
DATAS A DESTACAR
• 19 de dezembro de 2024 – Adoção formal do regulamento
• 22 de janeiro de 2025 – Publicação no Jornal Oficial da União Europeia
• 11 de fevereiro de 2025 – Entrada em vigor
• 12 de agosto de 2026 – Início da aplicação obrigatória (fim do período de transição de 18 meses)
A partir desta data, o regulamento passa a ser diretamente aplicável em todos os Estados-Membros, sem necessidade de transposição nacional, o que aumenta significativamente o nível de exigência e uniformização.
PRÓXIMOS MARCOS RELEVANTES PARA A INDÚSTRIA
• 2026 (agosto)
• Entrada em vigor de requisitos iniciais (ex.: restrições a substâncias, primeiros requisitos técnicos)
• 2028
• Novas obrigações de rotulagem harmonizada das embalagens
• 2030 (marco crítico)
• Todas as embalagens devem ser recicláveis
• Introdução de conteúdo mínimo de plástico reciclado
• Regras de minimização de embalagem e metas de reutilização
• 2035–2040
• Metas progressivas de redução de resíduos de embalagens (até -15%)
Aceda também gratuitamente ao guia metodológico através do QR code
Mais informações sobre o projeto em: https://www.degrenplus.eu/pt-pt/
O CENTIMFE disponibiliza competências, ferramentas e conhecimento especializado para apoiar a sua empresa nesta transição.
ENTRE EM CONTACTO CONNOSCO PARA:
• sessões de trabalho personalizadas
• esclarecimento técnico e regulamentar
• apoio à implementação de ecodesign e circularidade TRANSFORME OS DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE EM OPORTUNIDADES DE INOVAÇÃO.
Para mais informações, esclarecimentos ou agendamento de sessões de trabalho, entre em contacto com a equipa do CENTIMFE: inovacao@centimfe.com; zelia.alves@centimfe.com; zliliana.ramos@centimfe.com;
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
• Conselho da União Europeia. (2025). Regulamento (UE) 2025/40 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 19 de dezembro de 2024, relativo a embalagens e resíduos de embalagens, que altera o Regulamento (UE) 2019/1020 e a Diretiva (UE) 2019/904 e que revoga a Diretiva 94/62/CE. Jornal Oficial da União Europeia. https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/ ALL/?uri=CELEX:32025R0040
• International Electrotechnical Commission. (2019). IEC 62430:2019 Environmentally conscious design (ECD) –Principles, requirements and guidance. IEC.
• International Organization for Standardization. (2020). ISO 14006:2020 Environmental management systems — Guidelines for incorporating ecodesign. ISO.
• IHOBE. (2024). Ecodiseño circular: Manual práctico de ecodiseño para una economía circular. Sociedad Pública de Gestión Ambiental, Gobierno Vasco.