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O ESTADO DE S. PAULO. DOMINGO, 18 DE OUTUBRO DE 2010 | Economia

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França protesta pela 5ª vez contra ‘nova’ Previdência Mesmo com menor adesão nas manifestações de ontem, sindicatos mantêm exigências e querem que governo mude projeto de reforma Andrei Netto Centenas de milhares de trabalhadores e estudantes participaramontem, em Paris e no interior, da quinta mobilização consecutiva contra o projeto de reformada Previdência proposto pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy. A nova jornada de ação convocada pelo grupo intersindical teve menor adesão, mas outra paralisação já foi marcada para terça-feira. O objetivo é impedir que o projeto de lei, em trâmite no

Parlamento,seja retirado em prol de novas negociações. Como nas anteriores, a paralisação promovida ontem se estendeu por todo o país e ao menos 230 passeatas foram realizadas. O objetivo dos organizadores era reunir, apesar da chuva, o mesmo número de manifestantes da jornada no sábado, 2 de outubro, quando pelo menos 900 mil, segundo dados do Ministério do Interior, foram às ruas. Mas números parciais divulgados ao meio-dia local indicavam uma adesão ligeiramente inferior: 340 mil participantes, contra 380

FOTO: BENOIT TESSIER/REUTERS

mil no início do mês. Mesmo com a menor mobilização, os trabalhadores não diminuíram o tom das exigências e reivindicaram a retirada do projeto de lei em análise no Senado. Em Paris, um dos gritos de ordem da passeata era: “O que o Parlamento fez, a rua pode desfazer.” “Nós pedimos claramente ao Senado que não vote a lei nos atuais termos”, afirmou o secretário-geral da Confederação Geral doTrabalho (CGT), Bernard Thibault. “Queremos a reabertura das negociações comos sindicatos.” Fortalecido nos últimos10dias pela participação de estudantes secundaristas, a união intersindical passou a adotar o discurso do Palácio do Eliseu, acusando o governo de estar paralisando a atividade política e econômica ao não reabrir as discussões sobre a reforma. “Estamos frente a um governo que radicalizou e está bloqueando o país”, protestou François Chérèque, secretário geral da Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT). A reformada Previdência está em análise e

FOTO: JEAN-PHILIPPE ARLES/REUTERS

Nas ruas. Reforma da Previdência mobiliza franceses.

deve ser votada na quartafeira no Senado, mas artigos decisivos, como a elevação da idade mínima de aposentadoria de 60 para 62 anos e do benefício integral de 65 para 67 anos, já foram aprovados tanto por deputados quanto por senadores. Reexame. Ainda assim, pela legislação francesa, haveria espaço para a reabertura do debate, já que a lei ainda precisaria passar por uma comissão mista do Parlamento e por um reexame simbólico nas duas casas. Daí a insistência dos sindicalistas nos protestos de rua. A expectativa é de que as

manifestações ganhem corpo a ponto de repetir o sucesso das manifestações de 2006, que reverteram o projeto aprovado que criava o Contrato de Primeiro Emprego (CPE), proposto pelo então primeiro ministro, Dominique de Villepin.“Vocês sabem por experiência que mesmo uma lei aprovada não encerra a contestação”, relembrou Thibault, falando à imprensa francesa e estrangeira. Em resposta, o portavoz da União por um Movimento Popular (UMP),o partido de Sarkozy, garantiu que não haverá novas negociações. “Chegamos ao fim do que

poderia ser modificado. Nós queremos salvar o regime e é com esse texto que chegamos ao bom equilíbrio”, reiterou Dominique Paillé.“ Não mudará nada no conjunto da reforma.” A situação do governo,porém, é cada vez mais delicada. Nova pesquisa indicou a rejeição da opinião pública ao projeto de reforma de Nicolas Sarkozy. Segundo o instituto Ifop, 57% dos franceses são favoráveis à elaboração de um novo projeto de reforma de aposentadoria. Só 27% defendem a manutenção do atual projeto.

Jovens. Manifestações ganharam a adesão de estudantes.

Combustível de aviação daria para 3 dias funcionam de forma intermitente”. Sem desbloOs dois principais queio, em ambos os esaeroportos da França toques seriam suficientes teriam querosene só para até a noite de amanhã ou três dias. A informação amanhã de terça. foi divulgada ontem Em Nantes, o aeropelo Ministério do Meio porto local já teria enAmbiente. Segundo in- frentado “pequenas formações da rede de TV dificuldades”, segundo o BMF, companhias aéreas reconheceu o ministro dos estrangeiras foram conv- Transportes, Dominique idadas pela Direção Bussereau. O aprovisionGeral de Aviação amento foi garantido pelo Civil a reabastecer seus aeroporto de Bordeaux. aviões fora da França, Em todo o país, como forma de reduzir 230 postos de com a pressão sobre os es- bustíveis, de um total toques do país. de 3 mil,ficaram sem A suposta escassez estoque, segundo rede combustível de avia- conheceu a ministra ção estaria sendo provo- da Economia, Chris cada pela paralisação das tine Lagarde. “Os esatividades nas 12 refinari- toques de combustível as do país e pelo bloqueio são suficientes para dos reservatórios pelos várias semana s”, ga petroleiros em greve. rantiu. Segundo o ministério Apesar dos tedo MeioAmbiente,“o mores, o governo diz oleoduto que fornece que o suprimento será combustível para os aero- garantido. “Não há portos de Orly e Rois- razão para pânico”, sy-Charles de Gaulle disse a ministra. / A.N.

PARIS

A revolta dos jovens A França está fervendo. O que já se tornou um hábito. Desta vez ela se manifesta contra a reforma das aposentadorias preconizada pelo presidente Nicolas Sarkozy. Mas essa reforma é inevitável. A expectativa de vida do francês aumentou muito nesses últimos 30 anos. Portanto, a idade em que um trabalhador pode pedir sua aposentadoria terá de ser aumentada, para que as cotas pagas por um empregado ao longo da sua vida profissional sejam suficientes para custear as pensões dos mais velhos. Segundo o projeto de Sarkozy, um trabalhador deverá permanecer ativo até os 62 anos (e até 67 anos para uma aposentadoria plena). O texto apresentado por ele não é perfeito. Masseu princípio é justo. Claro que os socialistas são contra. Os sindicatos também. Para eles, a aposentadoria aos

60 anos é um“ dogma” e modificá-lo é um sacrilégio. Nicolas Sarkozy está na luta por essa mudança. E vai enviar seu projeto para ser votado pelo Parlamento,apesar das manifestações, das greves e das imprecações da esquerda. E pode ganhar sua aposta,ou seja, impor uma reforma impopular, mas premente. Ao mesmo tempo, recompor sua imagem, terrivelmente carcomida nos últimos meses, assumindo a postura de “homem de Estado”corajoso,que recusa dobrar-se aos protestos da rua. Mas, no momento mesmo em que ele está próximo de ganhar a guerra, eis que um protagonista inesperado entra na batalha. A juventude. Ou seja, os jovens estudantes, sobretudo os da escola secundária, que entraram na disputa. Sarkozy, embora venha enfrentando va-

lentemente os milhões de trabalhadores hostis à sua reforma, entrou em pânico ao ver rapazes e moças de 16 a 18 anos o atacando. Por que essa garotada tão jovem se manifesta contra a reforma? Em teoria, ela deveria, ao contrário, estar satisfeita com o fato de o governo, desde já, adotar heroicamente medidas para os jovens poderem receber a sua aposentadoria quando chegarem à idade para isso, dentro de 40 anos. Mas os jovens não raciocinam dessa maneira. Não pensam num futuro distante, mas no “agora”. Segundo eles, “já é muito difícil concluir os estudos e encontrar um emprego”. “Ora, se os mais velhos precisarem prolongar sua vida profissional até os 62anos, ou mesmo 67 anos, então nós, jovens, não vamos encontrar mais emprego”. Um temor imaginário. No mundo todo, na verdade, é exatamente nos países onde os mais

velhos são mais ativos que o emprego para os jovens é mais dinâmico, o trabalho dos primeiros favorecendo o emprego para os últimos – e não o contrário. Mas a revolta dos jovens, sua cólera, sua ânsia de se juntar à disputa também tem outras causas. Nessa categoria frágil e generosa da população, Sarkozy é mal amado: sua arrogância, suas mentiras, sua vulgaridade, sua predileção pelos ricos e seus luxos, sua vaidade sem limites, seus tiques e suas manias, seu lado “bufão”, seu desprezo pelos imigrantes e pelos pobres provocaram nesses jovens imenso repúdio ao presidente. E eles aproveitam o movimento contra a reforma das aposentadoria para deixar claro isso, para lhe dizer que sonham comum a sociedade leal, humana, respeitosa, justa, acolhedor a e solidária. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO.


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