Ficha T´ ecnica Projecto Faraday Projecto de interven¸ca˜o no ensino da F´ısica no secund´ario. Financiamento Funda¸ca˜o Calouste Gulbenkian. Execu¸ c˜ ao Departamento de F´ısica, Faculdade de Ciˆencias da Universidade do Porto. Escolas Participantes • ES Filipa de Vilhena • ES Fontes Pereira de Melo • ES Garcia de Orta • ES da Maia • ES de Santa Maria da Feira Coordena¸ c˜ ao • J. M. B. Lopes dos Santos • Manuel Joaquim Marques i
ii Portal URL: http://www.fc.up.pt/faraday
Texto do 10o Ano Redactor Principal J. M. B. Lopes dos Santos Colabora¸ c˜ ao e revis˜ ao • Elisa Arieiro • Carlos M. Carvalho • Manuel Joaquim Marques
Actividades Autores • Carlos M. Carvalho • Elisa Arieiro • J. M. B. Lopes dos Santos • Manuel Joaquim Marques • Nuno Alexandre Vaz • Nuno Nunes Colabora¸ c˜ ao • Joaquim Agostinho Moreira
Pref´ acio Caro aluno(a): Ao preparar estes materiais, fomos guiados por um objectivo modesto: mudar a tua vis˜ao do mundo. N˜ao a maneira como te relacionas com outras pessoas, ou as tuas convic¸co˜es religiosas, sociais ou pol´ıticas, ou sequer a tua postura pessoal. N˜ao ´e disso que trata a F´ısica. Trata, sim, do funcionamento do mundo que te rodeia, daquilo que vˆes, ouves e sentes, dos objectos e instrumentos que utilizas, e, sobretudo, de muito que est´a por ´ que este mundo tr´as, e explica, o mundo que experimentamos. E f´ısico ´e muito diferente do que parece a` primeira vista. O que queremos com este projecto ´e que experimentes um pouco dos m´etodos e atitudes que nos permitiram compreender e perceber uma variedade imensa de fen´omenos, em termos de um conjunto muito reduzido de princ´ıpios e leis. Compreender e perceber, n˜ao decorar e executar tarefas sem sentido para ti. Esperamos que, com estes materiais e com as aulas que os teus professores prepararam, te encontres, muitas vezes, perplexo, a pensar sobre o que observaste e mediste. Porque, ao fim e ao cabo, esse ´e o trabalho mais importante e mais eficiente que podes fazer nesta disciplina. Os autores
iii
iv
Parte I
ENERGIA E MOVIMENTO
1
Conte´ udo
I
Ficha T´ecnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
i
Pref´acio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
iii
ENERGIA E MOVIMENTO
1 Energia
1 11
1.1
A ciˆencia e o dia-a dia . . . . . . . . . . . . . . . .
11
1.2
Consumo de Energia . . . . . . . . . . . . . . . . .
13
1.2.1
Consumos em Portugal e no Mundo . . . .
14
1.2.2
A energia gasta-se? . . . . . . . . . . . . . .
15
Conserva¸ca˜o de Energia . . . . . . . . . . . . . . .
17
1.3.1
A descoberta do neutrino . . . . . . . . . .
17
1.4
Consumo ou conserva¸ca˜o? . . . . . . . . . . . . . .
20
1.5
Actividades, problemas e exerc´ıcios . . . . . . . . .
21
1.3
2 Trabalho e energia 2.1
23
Transferˆencias de energia . . . . . . . . . . . . . .
23
2.1.1
No¸ca˜o de Sistema1 . . . . . . . . . . . . . .
24
2.2
Trabalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
24
2.3
Energia potencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
26
2.3.1
Energia potencial grav´ıtica . . . . . . . . .
26
2.3.2
Energia potencial e trabalho de for¸cas internas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
29
Unidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
31
2.3.3
3
´ CONTEUDO
4 2.3.4 2.4
2.5
2.6
2.7
2.8
2.9
M´aquinas simples . . . . . . . . . . . . . . .
32
Energia cin´etica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
32
2.4.1
Express˜ao da energia cin´etica . . . . . . . .
33
2.4.2
O teorema trabalho-energia cin´etica . . . .
35
For¸cas dissipativas . . . . . . . . . . . . . . . . . .
36
2.5.1
Resistˆencia do ar . . . . . . . . . . . . . . .
36
2.5.2
For¸cas dissipativas . . . . . . . . . . . . . .
37
Estudo de um caso: Bungee Jumping . . . . . . . .
38
2.6.1
O que ´e um modelo? . . . . . . . . . . . . .
38
2.6.2
For¸ca el´astica . . . . . . . . . . . . . . . . .
39
2.6.3
Energia num salto de bungee.
. . . . . . .
40
Quando o trabalho ´e nulo. . . . . . . . . . . . . . .
43
2.7.1
For¸ca sem deslocamento . . . . . . . . . . .
43
2.7.2
For¸cas perpendiculares ao deslocamento . .
44
For¸cas e deslocamentos n˜ao colineares . . . . . . .
46
2.8.1
Trabalho e energia num “escorrega” . . . . .
46
2.8.2
Trabalho de for¸cas n˜ao colineares com deslocamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
49
Actividades, quest˜oes e problemas . . . . . . . . .
50
2.9.1
Actividades . . . . . . . . . . . . . . . . . .
50
2.9.2
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
51
2.9.3
Desafios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
56
3 Colis˜ oes 3.1
3.2
59
Colis˜oes em F´ısica . . . . . . . . . . . . . . . . . .
59
3.1.1
. . . . . . . . . . . .
60
Conserva¸ca˜o de energia em colis˜oes . . . . . . . . .
62
3.2.1
Movimento da mol´ecula de O2 . . . . . . .
64
3.2.1.1
Centro de massa . . . . . . . . . .
64
Energia cin´etica de transla¸ca˜o e centro de massa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
66
O modelo de part´ıcula material . . . . . . .
66
3.2.2 3.2.3
O que ´e uma colis˜ao?
´ CONTEUDO 3.2.4
3.3
5 Coeficiente de restitui¸ca˜o . . . . . . . . . .
67
3.2.4.1
Colis˜ao com um objecto fixo . . .
69
Actividades, quest˜oes e problemas . . . . . . . . .
70
3.3.1
Actividades . . . . . . . . . . . . . . . . . .
70
3.3.2
Problemas e quest˜oes
71
. . . . . . . . . . . .
6
´ CONTEUDO
Lista de Figuras 1.1
Sala de geradores da Central da Barragem de Hoover, no Colorado [4]. . . . . . . . . . . . . . . . . .
13
1.2
Esquema de um aproveitamento hidroel´ectrico (adaptado de [4]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
1.3
Um espectro de decaimento β do 210 Bi (`a data conhecido por R´adio E). A energia do electr˜ao emitido pode variar entre 0 e um valor m´aximo (1.05 MeV). Tirado de um dos artigos cl´assicos, C.D Ellis e W. A Wooster, Proc. R. Soc. (London) A117 109 (1927).
18
Wolfgang Pauli (1900–1958), a` esquerda, f´ısico austr´ıaco que sugeriu a existˆencia do neutrino. Enrico Fermi (1901–1954), a` direita, f´ısico italiano, desenvolveu a ideia de Pauli e deu o nome definitivo ao neutrino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
20
Como o neutrino quase n˜ao interage com nada, para o detectar usam-se tanques subterrˆaneos gigantescos, cheios de a´gua. A figura mostra o enchimento de um dos maiores, o Super-Kamiokande no Jap˜ao. ´ vis´ıvel um pequeno bote com duas pessoas do E lado direito (Foto do ICRR, Institute for Cosmic Ray Research, The University of Tokyo). . . . . .
21
Esquema poss´ıvel de alguns dos n´ıveis de energia de um n´ ucleo, antes e depois de um decaimento β. .
22
2.1
Testando a conserva¸ca˜o de energia. . . . . . . . . .
24
2.2
Arqueiro retesando um arco. . . . . . . . . . . . . .
25
2.3
Aterragem do Vaiv´em com p´ara-quedas de travagem. 25
2.4
Elevar o corpo de peso P requer energia. . . . . . .
1.4
1.5
1.6
7
26
8
LISTA DE FIGURAS 2.5 2.6
2.7 2.8 2.9
interac¸co˜es m´ utuas entre A e B n˜ao podem alterar a energia total do sistema S. . . . . . . . . . . . . Se o sistema ´e constitu´ıdo pelo corpo e pela Terra, o peso ´e uma for¸ca interna (a tracejado), que n˜ao pode alterar a energia do sistema. Uma for¸ca externa F~ (a cheio), aplicada ao corpo, pode alterar a energia do sistema corpo–Terra. . . . . . . . . . A for¸ca F~ necess´aria para equilibrar o corpo ´e apenas metade do seu peso. . . . . . . . . . . . . . . . ` altura z parte da energia potencial inicial ´e agora A energia cin´etica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
29
30 32 33
Um corpo que se desloca num fluido fica sujeito a uma for¸ca de sentido oposto ao seu deslocamento. .
36
2.10 For¸ca el´astica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
39
2.11 Um salto bungee. O saltador est´a inicialmente a uma altura h do solo; o comprimento em repouso dos el´asticos ´e l. Quando a distˆancia z ao solo ´e inferior a h1 = h − l , os el´asticos est˜ao distendidos.
40
2.12 Quando seguramos um peso, sem o mover, n˜ao fazemos trabalho? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
43
2.13 Os trabalhos realizados entre A e B e entre B e C s˜ao iguais. Ser˜ao diferentes de zero? . . . . . . . .
44
2.14 O trabalho da reac¸ca˜o normal da mesa e do peso ser˜ao diferentes de zero? . . . . . . . . . . . . . . .
45
2.15 Num escorrega as for¸cas sobre o utilizador s˜ao a reac¸ca˜o normal da superf´ıcie e o peso do cliente. Os escorregas s˜ao desenhados para reduzir o atrito, a componente da for¸ca da superf´ıcie paralela a esta.
46
2.16 Decomposi¸ca˜o de uma for¸ca segundo direc¸co˜es perpendiculares. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
47
2.17 A for¸ca de contacto que a superf´ıcie exerce sobre ~ , e uma o corpo tem uma componente normal, N componente paralela a` superf´ıcie de contacto, F~a , a for¸ca de atrito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
48
2.18 No caso (a) o trabalho da for¸ca ´e positivo (o carrinho recebe energia), no caso (b) negativo (cede energia). Em qualquer dos casos ´e dado por F ∆r cos θ em que F e ∆r s˜ao os m´odulos da for¸ca e do deslocamento, respectivamente. . . . . . . . . . . . . . . 49
LISTA DE FIGURAS
9
2.19 O arqueiro puxa a seta de uma distˆancia x. . . . .
54
2.20 Salto de esqui. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
55
3.1
Fotografia a´erea do CERN, junto ao lago Genebra. Est˜ao marcados na foto alguns dos an´eis aceleradores deste laborat´orio. O maior ocupa um t´ unel de 27 km de per´ımetro [2]. . . . . . . . . . . . . . . .
59
3.2
Exemplo de um evento registado no CERN. As traject´orias das part´ıculas s˜ao reconstru´ıdas por computadores a partir de sinais electr´onicos nos detectores[2]. 60
3.3
Os magnetos impedem os carros de se aproximarem demasiado. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
62
(a) Numa transla¸ca˜o, os dois a´tomos de oxig´enio tˆem o mesmo deslocamento e a mesma velocidade; (b)num movimento mais geral tˆem velocidades diferentes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
64
A mol´ecula de O2 , ap´os a colis˜ao, tem movimentos de rota¸ca˜o e de vibra¸ca˜o, sobrepostos ao de transla¸ca˜o. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
65
3.4
3.5
10
LISTA DE FIGURAS
Cap´ıtulo 1
Energia 1.1
A ciˆ encia e o dia-a dia
Alguma vez nos interrog´amos porque ´e que Ciˆencia, e a F´ısica em particular, tem tantos conceitos e ideias estranhas e dif´ıceis de compreender? Por que ´e que, mesmo quando usa palavras comuns, como for¸ca, energia, ou trabalho, elas parecem significar uma coisa muito diferente do que significam no dia-a-dia? O mundo apresenta-se-nos com uma riqueza e variedade de fen´omenos esmagadoras. A F´ısica, descobriu ao longo dos u ´ ltimos 300 anos—Galileu e Newton s˜ao considerados os seus fundadores— que ´e poss´ıvel uma compreens˜ao unificada desses fen´omenos, em termos de um conjunto reduzido de leis. Essa compreens˜ao est´a manifesta na capacidade que a Humanidade adquiriu de intervir na Natureza e a modificar profundamente, quer para seu proveito e benef´ıcio quer para seu preju´ızo. Mas houve um pre¸co a pagar por essa compreens˜ao. As referidas leis dizem respeito a entidades e objectos t˜ao pequenos, a acontecimentos t˜ao r´apidos, que n˜ao s˜ao acess´ıveis a` nossa percep¸ca˜o imediata. Por isso, os extraordin´arios fen´omenos desencadeados por um gesto t˜ao simples como ligar um interruptor, por exemplo, (ver a caixa 1.1 da p´agina 12) passam totalmente fora da nossa consciˆencia. As ideias e conceitos da F´ısica v˜ao, pois, muito para al´em da nossa experiˆencia quotidiana; temos que estar preparados para surpresas. N˜ao ´e poss´ıvel compreender a F´ısica apenas a partir de ideias e conceitos da nossa experiˆencia de todos os dias. Mas, como veremos, s´ o ´e poss´ıvel compreender e fazer sentido da nossa experiˆencia a partir das ideias e conceitos da F´ısica. 11
12
CAP´ITULO 1. ENERGIA
X acendeu a luz X acordou num quarto em plena escurid˜ao. Seguiu a sua rotina di´aria desencadeando, sem o saber, uma sequˆencia de acontecimentos extraordin´arios. O seu primeiro acto foi o de acender a luz do candeeiro de cabeceira. Ao fechar o interruptor dois fios de cobre tocaram-se. Imediatamente o movimento desordenado de um n´ umero incont´avel de electr˜oes se modificou (incont´avel para qualquer um n˜ao apenas para o sonolento X), passando a ter sobreposta uma oscila¸ca˜o de 50 vezes por segundo. Esse movimento decorria com facilidade em todo o fio de cobre. Mas este estava interrompido por um pequeno filamento de tungst´enio onde os electr˜oes colidiam com muito maior frequˆencia com a´tomos a quem cediam energia. O movimento dos electr˜oes persistia, no entanto, a agita¸ca˜o aumentava at´e que a emiss˜ao de radia¸ca˜o compensava a energia que os a´tomos do fio de tungst´enio recebiam dos electr˜oes e o quarto se enchia de luz. A luz vinda do filamento, quase instantaneamente, pˆos em movimento outros electr˜oes, no abat-jour do candeeiro, nas paredes, no tecto, nas portas dos arm´arios, nas roupas da cama. Estes voltaram a emitir radia¸ca˜o que agora preenchia o quarto vinda de todas as direc¸co˜es (embora com maior intensidade do filamento de tungst´enio). X n˜ao notou nada disto. Estes acontecimentos extraordin´arios passaram-se t˜ao depressa que para ele nenhum tempo passou desde que fechou o interruptor at´e que o n´ umero de part´ıculas de luz que atingiam a sua retina, aumentou subitamente, vindas j´a de todo o lado. O resultado foi um conjunto ainda mais complexo de reac¸co˜es qu´ımicas e f´ısicas que terminaram (ningu´em sabe como) no pensamento de X: “tenho que mudar esta lˆampada: tem uma luz demasiado forte!”
Caixa 1.1: O que acontece ao ligar um interruptor.
1.2. CONSUMO DE ENERGIA
1.2
13
Consumo de Energia
Um dos conceitos mais importantes da F´ısica ´e o de energia. Tamb´em aqui vemos um caso de um voc´abulo comum, que adquire uma dimens˜ao muito diferente quando usado no contexto cient´ıfico.
Figura 1.1: Sala de geradores da Central da Barragem de Hoover, no Colorado [4].
Se pedirmos a algu´em que diga a primeira palavra que lhe vem a` cabe¸ca a prop´osito de energia, ouviremos com frequˆencia: consumo. A energia gasta-se! Vejamos por exemplo de onde vem a energia gasta no candeeiro da hist´oria da Caixa 1.1. Os fios de cobre do candeeiro referido na hist´oria est˜ao ligados a outros que vˆem da rua. Seguindo-os, encontramos grandes bobinas de fio enrolados a` volta de massas de ferro; enrolado a` volta da mesma massa de ferro est´a mais fio de cobre noutras bobinas. Seguindo estes fios poderemos chegar a uma central el´ectrica onde, mais uma vez, encontramos gigantescas bobinas de fio de cobre dentro de geradores, quase do tamanho de uma pequena casa (Fig. 1.1). No seu interior um conjunto de magnetos (´ımanes) ´e posto em movimento por torrentes de a´gua que descem do topo da barragem numa queda de centenas de metros at´e a`s p´as de uma turbina ligada aos magnetos; o movimento desses magnetos ´e que movimenta os electr˜oes nos enrolamentos de cobre e, em u ´ ltima an´alise, permite a X, e a muitos milh˜oes de outras pessoas, encontrar o caminho no seu quarto iluminado.
CAP´ITULO 1. ENERGIA
14
CENTRAL HIDROELÉCTRICA Albufeira
Central
Barragem
Transformador
L. Alta Tensão
Gerador
Conduta forçada Tomada água Comporta
Turbina
Conduta de fuga
Figura 1.2: Esquema de um aproveitamento hidroel´ectrico (adaptado de [4]).
1.2.1
. Actividade 1.1
Consumos em Portugal e no Mundo
Os gestos de pessoas como X s˜ao repetidos todos os dias. As ´ actividades humanas est˜ao dependentes de fontes de energia. E interessante reflectir um pouco nos n´ umeros de consumo energ´etico ´ a v´arios n´ıveis. E uma boa oportunidade para recordar os conceitos de potˆencia e as respectivas unidades. Em casa Os electrodom´esticos indicam entre as suas caracter´ısticas a respectiva potˆencia, isto ´e, a energia consumida por unidade de tempo, quando ligados a` rede el´ectrica. A unidade SI de potˆencia ´e o watt. Consideremos a seguinte lista de consumos t´ıpicos de uma casa: • ilumina¸ca˜o, de potˆencia total 300 W, 4 horas por dia; • fog˜ao el´ectrico, 2 kW, 1 hora por dia; • televis˜ao, 400 W, 4 horas por dia;
1.2. CONSUMO DE ENERGIA
15
• m´aquinas de lavar, 1 kW, 3 horas por dia; • outros electrodom´esticos (torradeiras, varinhas m´agicas), 200 W, 1 hora por dia; • aquecimentos, 2 kW, 2 horas por dia. O consumo di´ario correspondente ´e cerca de 12 kWh, ou seja 360 kWh em cada mˆes. No Pa´ıs A energia el´ectrica ´e fornecida aos consumidores a partir da rede el´ectrica nacional, gerida por um empresa com o mesmo nome (REN) do grupo EDP. No website desta empresa ´e poss´ıvel obter informa¸co˜es sobre os consumos nacionais de energia el´ectrica [5], algumas das quais est˜ao resumidas na Caixa 1.2 da p´agina 16. A esta escala, a unidade corrente de potˆencia ´e o gigawatt, GW, que corresponde a um milh˜ao de kW. Quantidades de energia s˜ao referidas em gigawatt-hora (GWh). O consumo di´ario em Portugal, 121 GWh, ´e cerca de 10 milh˜oes de vezes superior ao que estim´amos para um lar comum. S´o para a produ¸ca˜o de energia hidroel´ectrica ´e necess´ario turbinar diariamente cerca de 300 milh˜oes de toneladas de a´gua. Nas centrais t´ermicas alimentadas a carv˜ao, onde ´e produzida a maior parte da energia el´ectrica consumida em Portugal (34% do total), s˜ao queimadas cerca de 16 mil toneladas de carv˜ao por dia. No Mundo Segundo dados da Agˆencia Internacional de Energia At´omica (IAEA) [1], s˜ao produzidos por dia em todo o mundo 41 terawatts-hora de energia el´ectrica. Isto ´e, 41 mil milh˜oes de kWh, quase 340 vezes mais do que em Portugal. N˜ao ´e f´acil imaginar as quantidades fabulosas de carv˜ao, petr´oleo, g´as natural, a´gua turbinada, combust´ıvel nuclear, que todos os dias s˜ao consumidos, com inevit´aveis impactes ambientais, para satisfazer esta insaci´avel fome de energia.
1.2.2
A energia gasta-se?
Afinal que acontece a`s prodigiosas quantidades de energia postas em jogo todos os dias? N˜ao recuperamos os milh˜oes de milh˜oes de
. Actividade 1.2
CAP´ITULO 1. ENERGIA
16
Dados sobre consumo de energia el´ ectrica Re´ unem-se aqui alguns dados sobre consumos energ´eticos recolhidos da REN– Rede El´ectrica Nacional [5] e da IAEA– Internacional Atomic Energy Agency [1]. S˜ ao usadas as seguintes unidades:
• gigawatt, 1 GW = 109 W; • kilowatt-hora , 1 kWh = 3, 6 × 106 J; • gigawatt-hora, 1 GWh = 106 kWh; • terawatt-hora, 1 TWh = 109 kWh. Descri¸ca ˜o
Valores
Fonte
Consumo mensal por habita¸ca ˜o
360 kWh
Estimada
Potˆencia instalada em Portugal
8, 7 GW
REN
Consumo nacional di´ ario
121 GWh
REN
Produ¸ca ˜o hidroel´ectrica di´ aria
21 GWh
REN
di´ ariaa
84 GWh
REN
Produ¸ca ˜o di´ aria, outras fontes
16 GWh
REN
Consumo mundial di´ ario
41 TWh
IAEA
Produ¸ca ˜o em t´ermicas
Um ju´ızo sobre o significado destes consumos pode ser feito a partir dos seguintes dados:
• O volume de a´gua turbinado em m´edia, por kWh, ´e cerca de 15 m3 [6];
• o conte´udo energ´etico do carv˜ao ´e cerca de 6, 1 kWh por quilograma de carv˜ ao. Mas uma central t´ermica s´ o consegue transformar em energia el´ectrica cerca de 40% dessa energia, 2, 4 kWh kg−1 . a
O combust´ıvel de uma t´ermica pode ser carv˜ ao, g´ as ou fuel.
Caixa 1.2: Alguns n´ umeros sobre consumo de energia el´ectrica.
˜ DE ENERGIA 1.3. CONSERVAC ¸ AO
17
toneladas de carv˜ao, petr´oleo ou g´as natural, usados todos os dias neste processo. A radia¸ca˜o solar que incide na Terra encarrega-se de evaporar diariamente milh˜oes de milh˜oes de toneladas de a´gua e de a transportar de novo para o cimo das montanhas. E isso ´e apenas uma frac¸ca˜o ´ınfima da energia total da radia¸ca˜o que chega a` Terra. Mas passado um dia, um mˆes, um ano, ou mesmo um s´eculo, a Terra n˜ao mudou assim tanto. H´a tanta a´gua no mar, na atmosfera ou nas montanhas como antes. As montanhas est˜ao no mesmo ´ certo que se fizeram algumas casas, h´a mais carros, etc., s´ıtio. E mas as quantidades de energia postas em jogo nesses processos s˜ao quase pat´eticas a` escala planet´aria. Basta ver o que pode acontecer a essas constru¸co˜es num modesto estremecimento da Terra. Que est´a a acontecer a esta energia toda? Est´a a desaparecer, a deixar de existir? Gasta-se, um pouco como o dinheiro do nosso bolso? Ou vai para algum lado?
1.3
Conserva¸ c˜ ao de Energia
Se pedirmos a um f´ısico que diga a primeira palavra que lhe vem a` cabe¸ca a prop´osito de energia, responder´a com grande probabilidade: conserva¸ c˜ ao. Em ciˆencia o conceito de energia est´a intimamente associado ao de conserva¸ca˜o. O que o Princ´ıpio de Conserva¸ca˜o da Energia afirma, ´e que em qualquer transforma¸ca ˜o na Natureza, h´a uma quantidade cujo valor antes e depois da transforma¸ca˜o n˜ao se altera—a energia. Esta ideia tornar-se-´a, gradualmente, mais precisa e ser´a sempre verdade que: energia ´e uma quantidade que se conserva. Afinal, gasta-se ou conserva-se?
1.3.1
A descoberta do neutrino
A descoberta do neutrino ´e um excelente exemplo de aplica¸ca˜o do princ´ıpio de conserva¸ca˜o de energia. Certos n´ ucleos inst´aveis emitem electr˜oes no decaimento—decaimento tipo beta. Um exemplo ´e o is´otopo de n´ umero de massa 210 do
CAP´ITULO 1. ENERGIA
18
Bismuto, 210 Bi. Ao decair transforma-se no is´otopo 210 de Pol´onio, 210 Po, e emite um electr˜ao. Pensava-se que o decaimento era: 210 83 Bi
− → 210 84 Po + e
O electr˜ao tem uma massa muito menor que a do n´ ucleo e fica com quase toda a energia do decaimento; do mesmo modo que quando uma pistola dispara uma bala a energia fica (quase) toda na bala 1 . Ora, como os estados do n´ ucleos antes ( 210 Bi) e depois (210 Po) do deca´ımento s˜ao sempre os mesmos, a energia com que os electr˜oes s˜ao emitidos devia tamb´em ser a mesma, para todos os decaimentos de um dado is´otopo. Mas n˜ao s˜ao; os electr˜oes emitidos podem ter energias que variam continuamente desde 0 at´e um valor m´aximo (Fig. 1.3). Esta dificuldade pode ser ilustrada por uma analogia. Um canh˜ao ´ carregado sempre com de 20 toneladas dispara balas de 10 kg. E muni¸co˜es idˆenticas. Mas de cada vez que dispara a velocidade dos proj´ecteis ´e diferente. Os estados iniciais e finais do canh˜ao n˜ao revelam quaisquer diferen¸cas em cada disparo. As muni¸co˜es tamb´em n˜ao. Por que ´e que a velocidade de sa´ıda dos proj´ecteis varia desde quase zero at´e uma velocidade m´axima? Se as muni¸co˜es tˆem energia suficiente para disparar as balas com a velocidade m´axima, o que acontece a essa energia quando saem mais lentas?
Figura 1.3: Um espectro de decaimento β do 210 Bi (` a data conhecido por R´ adio E). A energia do electr˜ ao emitido pode variar entre 0 e um valor m´ aximo (1.05 MeV). Tirado de um dos artigos cl´ assicos, C.D Ellis e W. A Wooster, Proc. R. Soc. (London) A117 109 (1927). 1
Se a energia ficasse na pistola o disparo causaria mais danos em quem tinha a pistola, o que at´e nem era mau!
˜ DE ENERGIA 1.3. CONSERVAC ¸ AO
19
Unidades de energia Os f´ısicos e qu´ımicos usam, com frequˆencia, unidades de energia diferentes do joule, em particular quando se referem a processos microsc´ opicos que envolvem part´ıculas elementares, n´ ucleos, a ´tomos e mol´eculas. Uma das mais usadas ´e o electr˜ ao-volt (eV) que vale 1 eV = 1, 6 × 10−19 J. A energia necess´ aria para ionizar um a ´tomo de hidrog´enio no seu estado fundamental, nesta unidade, ´e de 13, 6 eV. A energia necess´ aria para destruir uma liga¸ca ˜o qu´ımica, na generalidade das mol´eculas, ´e da ordem de grandeza de 1 eV. No caso dos n´ ucleos, as energias t´ıpicas s˜ ao da ordem do milh˜ ao de electr˜ ao-volt, isto ´e, mega electr˜ ao-volt, abreviatura MeV (lido como m´eve). Por exemplo, a energia necess´ aria para separar os prot˜ oes (2) e neutr˜ oes (2) do n´ ucleo de h´elio (part´ıcula α) ´e de 28, 3 MeV.
Caixa 1.3: Unidades de energia
O espectro de um decaimento β − est´a representado na Fig. 1.3. No eixo das abcissas representa-se a energia do electr˜ao emitido. A ordenada, a cada energia, ´e proporcional a` frac¸ca˜o de electr˜oes emitidos com essa energia, quando observamos um grande n´ umero de decaimentos. A solu¸ca˜o deste mist´erio foi sugerida por Wolfgang Pauli, um f´ısico austr´ıaco, em 1930, numa curiosa carta escrita aos participantes de um congresso a que Pauli n˜ao pode estar presente 2 . Pauli preferiu postular a existˆencia de uma part´ıcula, a que chamou neutr˜ao e que ningu´em tinha detectado, a admitir que a energia n˜ao era conservada. A energia total do decaimento era distribu´ıda entre o electr˜ao e esta misteriosa part´ıcula de tal modo que a soma das respectivas energias fosse constante. Como a part´ıcula fantasma de Pauli n˜ao era detectada, a energia parecia n˜ao ser conservada. Trˆes anos mais tarde, Enrico Fermi explicou a forma do espectro observado e rebaptizou a part´ıcula de Pauli de neutrino; entretanto tinha sido descoberto o neutr˜ao (uma part´ıcula neutra com massa semelhante a` do prot˜ao) e Fermi sabia que o neutrino (neutr˜ao 2
A raz˜ ao invocada por Pauli foi que era necess´ aria a sua presen¸ca num baile!
postular: afirmar como verdade, ainda que sem prova, uma proposi¸ca˜o n˜ao evidente.
20
CAP´ITULO 1. ENERGIA
pequenino) tinha que ter uma massa muito mais pequena.
Figura 1.4: Wolfgang Pauli (1900–1958), a ` esquerda, f´ısico austr´ıaco que sugeriu a existˆencia do neutrino. Enrico Fermi (1901–1954), a ` direita, f´ısico italiano, desenvolveu a ideia de Pauli e deu o nome definitivo ao neutrino.
Acontece que o neutrino ´e uma das part´ıculas mais abundantes do universo, embora seja t˜ao dif´ıcil de detectar que isso s´o foi conseguido 23 anos ap´os a sugest˜ao de Pauli. A ideia de Pauli pode ter parecido um expediente, de natureza duvidosa, para “salvar” a lei de conserva¸ca˜o da energia. Mas a Natureza deu raz˜ao a` f´e de Pauli nessa lei. O neutrino existe mesmo e pˆode mais tarde ser observado, quer em decaimentos beta quer em outros processos (Fig. 1.5) O s´eculo XX assistiu a modifica¸co˜es radicais da nossa concep¸ca˜o do mundo f´ısico. Mas o princ´ıpio da conserva¸ca˜o de energia mantevese e, no caso do neutrino e em muitos outros, como o efeito fotoel´ectrico, guiou-nos na descoberta de aspectos novos da realidade, mesmo antes de ser poss´ıvel uma vis˜ao coerente da mesma. Hoje em dia, o conceito de energia (e outros com ele directamente relacionados) continua a ter um papel fundamental na ciˆencia.
1.4
Consumo ou conserva¸ c˜ ao?
Afinal, em que ficamos: a energia gasta-se ou conserva-se? Veremos ao longo deste curso, que a energia, de facto, se conserva: sempre! O que acontece ´e que, tal como na hist´oria do neutrino, em muitos processos f´ısicos ´e preciso olhar com muito cuidado para descobrir para onde foi a energia. Se n˜ao o fizermos, h´a parcelas que nos escapam, e no fim pensamos que temos menos energia do que quando come¸camos.
1.5. ACTIVIDADES, PROBLEMAS E EXERC´ICIOS
21
Figura 1.5: Como o neutrino quase n˜ ao interage com nada, para o detectar usam-se tanques subterrˆ aneos gigantescos, cheios de a ´gua. A figura mostra o enchimento de um dos maiores, o Super-Kamiokande no Jap˜ ao. ´ vis´ıvel um pequeno bote com duas pessoas do lado direito (Foto do E ICRR, Institute for Cosmic Ray Research, The University of Tokyo).
Ao longo deste curso, iremos, progressivamente, descobrindo novas maneiras de contabilizar a energia envolvida em diversos processos f´ısicos. E acabaremos por descobrir que o princ´ıpio de conserva¸ca˜o de energia ´e fundamental, at´e para compreender os processos do dia-a-dia em que, aparentemente, “consumimos” energia.
1.5
Actividades, problemas e exerc´ıcios
1.1. Unidades de energia e potˆ encia Recordar conceito de potˆencia e respectiva unidade no SI. Ver Ficha de Actividade A1. 1.2. Energia hidroel´ ectrica Investigar alguns dados referentes ao consumo de energia hidroel´ectrica no Pa´ıs e no mundo. Ver ficha de actividade A2. 1.3. O que gasta uma lˆ ampada de 100 W? Consequˆencias das necessidades energ´eticas. Ver Ficha de Actividade A3.
CAP´ITULO 1. ENERGIA
22
1.4. Espectro de decaimento β. Imagine-se um n´ ucleo com os n´ıveis de energia representados a` esquerda da Figura 1.6. Depois do decaimento o n´ ucleo resultante tem o conjunto de n´ıveis da direita. Como seria o espectro de decaimento β (ver Fig 1.3), se apenas fosse emitido um electr˜ao (sem neutrino) e o n´ ucleo estivesse inicialmente no seu estado de mais baixa energia, E 0 ?
E2 E1 E0
E’2 E’1 E’0 Antes
Depois
Figura 1.6: Esquema poss´ıvel de alguns dos n´ıveis de energia de um n´ ucleo, antes e depois de um decaimento β.
Cap´ıtulo 2
Trabalho e energia 2.1
Transferˆ encias de energia
Como medir energia? Acreditamos que um litro de gasolina tem uma certa energia. Dois litros ter˜ao, seguramente, o dobro. Mas como comparar a energia da gasolina com a de uma pilha? Ou com a da a´gua, que desce uma montanha e faz mover uma turbina? Ou com a do vento, que acciona um moinho? Em muitas situa¸co˜es em que acreditamos haver transferˆencia de energia conseguimos identificar dois factores, for¸ca e movimento: • A a´gua empurra e faz rodar as p´as de uma turbina; • uma grua exerce um for¸ca sobre uma carga e eleva-a a uma dada altura; • um jogador de andebol estica o bra¸co, exercendo uma for¸ca sobre a bola e imprimindo-lhe uma certa velocidade; • os el´asticos de bungee jumping travam a queda de um corajoso saltador, primeiro distendendo-se e depois contraindose, reenviando-o para novo voo. Mas h´a outros tipos de transferˆencia de energia em que n˜ao parece haver movimento: • o aquecimento de a´gua com uma chama, ou com outro corpo mais quente, como uma resistˆencia el´ectrica; • o arrefecimento da sopa quente, quando exposta ao ar; 23
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
24
• o aquecimento do asfalto das ruas, quando 1exposto ao sol. Qualquer um de n´os ´e capaz de imaginar muitas outras situa¸co˜es. Neste cap´ıtulo vamos discutir situa¸co˜es do primeiro tipo.
2.1.1
No¸ c˜ ao de Sistema1
Se falamos em transferˆencia ´e porque: • estamos a considerar pelos menos dois corpos e faz sentido falar da energia de cada um; • est´a impl´ıcita a ideia de conserva¸ c˜ ao; algo transfere-se se passa de um s´ıtio para outro. Se a energia de um corpo aumenta, a energia de outro diminui. Para discutir transferˆencias 1de energia, temos, ent˜ao, que identificar os sistemas entre os quais essa transferˆencia ocorre. Os f´ısicos usam frequentemente esta palavra mas raramente se preocupam em precisar o seu significado. Na verdade, ´e muito mais u ´ til saber analisar casos particulares do que ter uma defini¸ca˜o geral de sistema. Digamos apenas que, ao analisar processos f´ısicos, podemos, em geral, ignorar a maior parte do Universo (gra¸cas a Deus). Na parte que nos interessa ´e poss´ıvel identificar corpos, regi˜oes, conjuntos de part´ıculas—numa palavra, sistemas–-para os quais ´e poss´ıvel definir uma energia; as influˆencias m´ utuas entre esses sistemas, as interac¸ co ˜es, originam a transferˆencia de energia entre eles. No caso do salto com el´asticos, bungee jumping, por exemplo, o saltador no campo grav´ıtico da Terra constitui um sistema. Este sistema interage com outro, os el´asticos, que o impede de se estatelar. H´a transferˆencias de energia entre estes dois sistemas. Figura 2.1: Testando a conserva¸ca ˜o de energia.
. Actividades 2.1 e 2.2
Mas n˜ao s˜ao defini¸co˜es gerais que nos fazem compreender estas no¸co˜es de sistema e interac¸ca˜o; ´e a pr´atica. Estes conceitos ficar˜ao mais claros a` medida que formos analisando situa¸co˜es concretas.
2.2
Trabalho
Se reflectirmos um pouco nas situa¸co˜es de transferˆencia de energia que envolvem for¸cas e movimentos, chegaremos a` seguinte conclus˜ao:
25
2.2. TRABALHO
Se uma for¸ca actua num corpo no sentido em que este se desloca, a sua energia aumenta; se actua no sentido oposto, a sua energia diminui.
Consideremos, por exemplo, o tiro ao arco. Ao retesar o arco, o arqueiro puxa a seta. Exerce uma for¸ca no mesmo sentido em que desloca a corda do arco: a energia do arco aumenta. Os sistemas s˜ao, neste caso, o arco e a flecha, por um lado, e o arqueiro, pelo outro. Essa energia ´e depois usada para impulsionar a flecha. Nessa situa¸ca˜o o arco exerce uma for¸ca sobre a flecha no mesmo sentido em que ela se desloca: logo, a energia da flecha aumenta. Agora, os sistemas que estamos a considerar s˜ao a flecha, por um lado, e o arco, pelo outro.
F
Figura 2.2: Arqueiro retesando um arco.
Um outro exemplo ´e o da travagem do Vaiv´em espacial na aterragem. O cabos do p´ara-quedas de travagem puxam o Vaiv´em com uma for¸ca que tem o sentido oposto ao do respectivo deslocamento: a energia do Vaiv´em diminui. Pensando noutros casos semelhantes chegaremos a` mesma conclus˜ao; quando a for¸ca sobre um corpo actua no sentido do deslocamento, a sua energia aumenta; se o sentido ´e oposto, a energia diminui. Mas de quanto? Como podemos medir essa quantidade de energia transferida? A resposta a esta pergunta ´e dada pela no¸ca˜o de trabalho de uma for¸ ca:
O trabalho de uma for¸ca de m´odulo F , constante, exercida sobre um corpo, num deslocamento de d, na direc¸ca˜o e sentido da for¸ca, ´e F × d e ´e igual a` energia transferida para o corpo por ac¸ca˜o dessa for¸ca.
Se designarmos por ∆E = Ef −Ei , a varia¸ca˜o de energia do corpo, energia final menos energia inicial 1 , temos: ∆E = w ≡ F d. 1
Esta nota¸ca ˜o ser´ a usada muitas vezes ao longo do curso. Numa qualquer transforma¸ca ˜o, com um estado final e um estado inicial, a varia¸ca ˜o de uma grandeza A, ser´ a designada por ∆A e ´e sempre o valor final menos o inicial, ∆A = Af − Ai .
Figura 2.3: Aterragem do Vaiv´em com p´ ara-quedas de travagem.
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
26
E se a for¸ca tiver o sentido oposto ao do deslocamento? Como vimos, nesse caso, a energia do corpo diminui: E f < Ei ; a varia¸ca˜o de energia ´e negativa, ∆E < 0. Define-se, nesse caso, o trabalho como w = −F d e continua a ser a varia¸ca˜o de energia do corpo.
O trabalho de uma for¸ca de m´odulo F , constante, exercida sobre um corpo, num deslocamento de d na direc¸ca˜o da for¸ca e sentido oposto, ´e −F × d e ´e igual a` energia transferida para o corpo por ac¸ca˜o dessa for¸ca.
Note-se que em F´ısica falamos de energia transferida para o corpo, como sendo a varia¸ca˜o de energia, ∆E, mesmo quando esta ´e negativa! Em linguagem comum dir´ıamos que a energia ´e transferida do corpo. Deste modo, podemos usar sempre a mesma linguagem e as mesmas equa¸co˜es, qualquer que seja o sinal das grandezas que nelas ocorrem. Em particular, a equa¸ca˜o ∆E = w vale, quer w seja positivo quer negativo. Mas ser´a verdade? Como ´e que sabemos que esta ´e a maneira correcta de medir a energia transferida por ac¸ca˜o de uma for¸ca?
2.3 Figura 2.4: Elevar o corpo de peso P requer energia.
2.3.1
Energia potencial Energia potencial grav´ıtica
Consideremos um sistema simples de um motor que enrola uma corda e, atrav´es de uma roldana, eleva um corpo de peso P = mg (Fig. 2.4). Este processo requer energia; o motor gasta combust´ıvel. Vamos supor uma eleva¸ca˜o muito lenta, com velocidade nula no estado final. Deste modo n˜ao temos energia associada ao estado de movimento. Mas, tal como a a´gua retida numa barragem pode em queda accionar turbinas, um corpo elevado tamb´em pode ser usado para transferir energia para outros corpos. A sua energia
2.3. ENERGIA POTENCIAL
27
Componente de uma for¸ ca Aparentemente demos duas defini¸co ˜es de trabalho, distinguindo os casos de for¸ca e deslocamento com o mesmo sentido ou sentidos opostos. Introduzindo o conceito de componente de uma for¸ca, podemos simplificar a defini¸ca ˜o. Um deslocamento rectil´ıneo assim como uma for¸ca, s˜ ao caracterizados por um m´ odulo (intensidade) e ainda por uma direc¸ca ˜o e um sentido: s˜ ao grandezas vectoriais. O m´ odulo, por defini¸ca ˜o ´e expresso por um n´ umero positivo. Na maior parte dos casos que vamos considerar as direc¸co ˜es s˜ ao as mesmas. O sentido da for¸ca pode ser o mesmo, ou oposto, ao do deslocamento. Se uma for¸ca de m´ odulo F tem a mesma direc¸ca ˜o e sentido do deslocamento, dizemos que a componente da for¸ca segundo o deslocamento ´e F ; se o sentido ´e oposto, a componente ´e −F. Assim a componente ´e positiva ou negativa conforme a for¸ca tenha o mesmo sentido ou o sentido oposto do deslocamento. Com este conceito de componente podemos resumir as duas defini¸co ˜es que demos de trabalho numa s´ o, sem precisar de distinguir as duas situa¸co ˜es: O trabalho de uma for¸ca de m´ odulo constante, exercida sobre um corpo, num deslocamento de comprimento d com a mesma direc¸ca ˜o da for¸ca, ´e o produto da componente da for¸ca segundo o deslocamento por d. Com efeito, se os sentidos s˜ ao idˆenticos, a componente da for¸ca ´e F , em que F ´e o m´ odulo da for¸ca (F > 0). Esta defini¸ca ˜o d´ a w = F × d. Se os sentidos s˜ ao opostos, a componente da for¸ca ´e −F e o trabalho w = (−F ) × d = −F × d. Mais tarde veremos que esta defini¸ca ˜o continua a ser v´ alida mesmo se a for¸ca e o deslocamento n˜ ao forem colineares.
Caixa 2.1: O conceito de componente de uma for¸ca.
28
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
aumentou em resultado da sua eleva¸ca˜o. A este tipo de energia, associado a` posi¸ca˜o, chamamos energia potencial. Uma possibilidade, para medir a energia transferida para o corpo, ´e determinar a quantidade de combust´ıvel gasto. S´o que, naturalmente, uma medida desse tipo dependeria do tipo de motor e mesmo do tipo de combust´ıvel. Ora, n˜ao estamos aqui interessados em saber quanta energia gastou o motor; o que nos interessa ´e medir a que foi transferida para o corpo. Isso envolve um processo simples: a aplica¸ca˜o de uma for¸ca e um deslocamento. O que se passa no motor ´e muito mais complicado. A for¸ca que a corda tem que exercer, para um deslocamento muito lento, ´e igual em m´odulo, e oposta em sentido, ao peso, P = mg. Podemos, assim, ignorar qualquer varia¸ca˜o de energia associada ao estado de movimento do corpo e considerar apenas a energia associada a` sua posi¸ca˜o, energia potencial, E p . A nossa defini¸ca˜o de trabalho diz: ∆Ep = F d = mg∆z em que ∆z = zf − zi ´e a varia¸ca˜o da altura do corpo. Faz sentido, a varia¸ca˜o de energia ser proporcional ao peso, mg, e a` varia¸ca˜o de altura, ∆z? Como o peso do corpo n˜ao varia com a altura, o processo de elevar o corpo de 5 m para 6 m ou de 10 m para 11 m de altura ´e exactamente o mesmo: o motor recolhe um metro de corda, exercendo a mesma for¸ca. Logo transfere a mesma energia. Assim sendo, a varia¸ca˜o de energia do corpo deve ser idˆentica, por cada metro de eleva¸ca˜o do mesmo. Isso significa que a varia¸ca˜o de energia ´e proporcional ao n´ umero de metros de eleva¸ca˜o, isto ´e, a ∆z. E a proporcionalidade de ∆E ao peso mg? Podemos sempre elevar um corpo de peso 2mg dividindo-o em duas partes iguais e elevando uma parte de cada vez. Gastar´ıamos a energia necess´aria para elevar duas vezes um corpo de peso mg. Parece natural que a varia¸ca˜o de energia seja tamb´em proporcional ao peso. Em resumo: a nossa defini¸ca˜o de trabalho ´e razo´avel. Vale a pena ver onde nos pode levar. Para j´a, obtivemos uma express˜ao para a varia¸ca˜o de energia potencial grav´ıtica de um corpo de massa m, quando a sua altura varia de ∆z: ∆Ep = mg∆z. . Energia potencial grav´ıtica
(2.1)
2.3. ENERGIA POTENCIAL
29
Exemplo: se um oper´ ario tiver que elevar 60 kg de tijolos para um terceiro andar, a 15 m do solo, ter´ a que dispender (pelo menos) uma energia de: ∆E = 60 × 10 × 15 = 9000 J.
Escolha do zero de energia Ainda n˜ao obtivemos uma express˜ao para a energia potencial, mas apenas para a varia¸ca ˜o de energia potencial. O princ´ıpio de conserva¸ca˜o de energia, de facto, s´o envolve varia¸co ˜es de energia. Por essa raz˜ao, podemos definir a energia potencial para uma dada posi¸ca˜o como quisermos. Por exemplo, podemos dizer que para a altura z = 0, a energia potencial ´e E p (0) = 0. Claro que essa escolha s´o pode ser feita para uma dada posi¸ca˜o, pois as varia¸co˜es de energia potencial s˜ao conhecidas. Para qualquer outra posi¸ca˜o de altura z, teremos: ∆Ep ≡ Ep (z) − Ep (0) = mg∆z = mg(z − 0) = mgz. Como Ep (0) = 0, obtemos Ep (z) = mgz. Se escolhˆessemos Ep (0) = a, ter´ıamos Ep (z) = mgz + a, mas as varia¸co˜es de energia potencial continuariam a ser dadas pela Eq.2.1. Note-se ainda que a altura ´e z = 0 onde quisermos escolher a origem do eixo zz. N˜ao ´e nenhuma altura particular: tanto pode ser o n´ıvel m´edio do mar, como o ch˜ao da cabine de um avi˜ao comercial a voar a 10 km de altitude.
S A
2.3.2
B
Energia potencial e trabalho de for¸ cas internas.
For¸ cas internas Na discuss˜ao anterior, quando elevamos um corpo aplicando uma for¸ca contr´aria ao peso, dissemos que transferimos energia para o corpo. O sistema que fornece energia ´e o que exerce essa for¸ca (n´os, ou o motor e o respectivo cabo de suspens˜ao do corpo). O corpo, no campo grav´ıtico, ´e o sistema a que fornecemos energia.
Figura 2.5: interac¸co ˜es m´ utuas entre A e B n˜ ao podem alterar a energia total do sistema S.
30
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
E o peso do corpo n˜ao realizou trabalho? N˜ao temos de o contabilizar? A interac¸ca˜o entre dois corpos manifesta-se nas for¸cas que exercem um sobre o outro, que permitem a transferˆencia de energia entre eles. Mas uma for¸ca interna, exercida por uma parte de um sistema noutra parte do mesmo sistema, n˜ao pode variar a energia deste sistema. Isso violaria o princ´ıpio de conserva¸ca˜o de energia. Porquˆe? Porque, se a energia varia num sistema, varia tamb´em fora dele. Se assim n˜ao fosse, a energia n˜ao se conservava. For¸cas internas n˜ao actuam sobre o exterior do sistema e por isso n˜ao podem originar mudan¸cas em que a energia do exterior varie. O peso como for¸ ca interna O peso de um corpo pode ser considerado uma for¸ca interna: o sistema ´e o corpo no campo grav´ıtico da Terra. Ou, melhor ainda, o corpo e a Terra constituem o nosso sistema. O que chamamos energia potencial do corpo ´e na verdade uma energia do sistema corpo–Terra, devida a` interac¸ca˜o grav´ıtica. Como o estado de movimento da Terra n˜ao ´e alterado (massa da Terra muito maior do que a do corpo), podemos calcular essa energia de interac¸ca˜o em termos da posi¸ca˜o do corpo relativamente a` superf´ıcie da Terra, a altura, z. Por isso, podemo-nos referir a esta energia como sendo a energia potencial do corpo.
F Sistema P TERRA
Figura 2.6: Se o sistema ´e constitu´ıdo pelo corpo e pela Terra, o peso ´e uma for¸ca interna (a tracejado), que n˜ ao pode alterar a energia do sistema. Uma for¸ca externa F~ (a cheio), aplicada ao corpo, pode alterar a energia do sistema corpo–Terra.
Quando elevamos o corpo, exercemos uma for¸ca externa que ´e oposta ao peso. O seu trabalho resulta numa varia¸ca˜o de energia potencial do corpo (ou, como dissemos acima, energia potencial
2.3. ENERGIA POTENCIAL
31
grav´ıtica do sistema corpo–Terra): ∆Ep = wext = F × ∆z Mas como esta for¸ca externa equilibra o peso (para que o corpo n˜ao acelere) o trabalho do peso ´e o sim´etrico do trabalho da for¸ca externa: se a for¸ca F~ tem o sentido do deslocamento, o peso tem o sentido oposto e vice-versa. Logo wint = −wext = −P × ∆z. Portanto, como P = mg ∆Ep = −wint = −mg∆z.
(2.2)
Esta equa¸ca˜o relaciona a varia¸ca˜o de energia potencial com o trabalho das for¸cas internas numa altera¸ca˜o de posi¸ca˜o: n˜ao exprime uma transferˆencia de energia de um outro sistema atrav´es da realiza¸ca˜o de trabalho. Mais tarde veremos que nem sempre ´e poss´ıvel estabelecer uma rela¸ca˜o deste tipo entre for¸cas internas e energia potencial. As for¸cas, como o peso, para as quais isso ´e poss´ıvel designam-se por for¸ cas conservativas.
2.3.3
Unidades
Em que unidades se mede a grandeza energia? Como a unidade de for¸ca ´e o newton, N, e a de comprimento o metro, m, o trabalho e, portant1o, a energia podem medir-se em N m, unidade designada por joule, J. O que ´e um joule? A express˜ao para o trabalho de uma for¸ca, w = F d, mostra que o trabalho realizado por um for¸ca de 1 N, num deslocamento de 1 m, ´e 1 J. O peso de uma massa de 100 g ´e, aproximadamente, 1 N pois a acelera¸ca˜o da gravidade ´e perto de 10 m s −2 (P = mg = 0, 1×10 = 1 N). Um joule ´e, pois, a energia necess´aria para elevar cerca de 100 g de 1 m, a` superf´ıcie da Terra.
. Problema 2.1.
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
32
2.3.4
M´ aquinas simples
Roldana m´ ovel Podemos levantar um peso de 20 N exercendo uma for¸ca de apenas 10 N. Como? Veja-se o sistema de roldana m´ovel da Fig. 2.7. O m´odulo, F, da for¸ca aplicada no ponto A da Fig. 2.7, ´e apenas metade do m´odulo do peso do corpo, P/2 (por simplicidade desprezamos o peso ´ verdade, como se vˆe, facilmente, experimenda roldana m´ovel). E tando! Para compreender porquˆe, basta notar que a roldana m´ovel est´a suportada por duas cordas: cada uma delas exerce uma for¸ca de m´odulo P/2 para equilibrar o peso.
. Actividade 2.3
Que o´ptima ideia para obter energia de gra¸ca! Uma vez que F ´e metade de P , ent˜ao, o trabalho que realizamos para elevar o corpo, puxando em A, seria metade do que se o fiz´essemos directamente. Por metade do trabalho (energia que transferimos) obtemos a mesma varia¸ca˜o de energia do corpo! ´ que quando deslocamos A, para Era bom, mas n˜ao funciona. E baixo, de uma distˆancia d, realizando um trabalho (P/2) × d, o corpo s´ o sobe uma distˆ ancia d/2. A varia¸ca˜o de energia potencial do corpo ´e P ×(d/2), exactamente o trabalho que realiz´amos. N˜ao h´a almo¸cos gr´atis!
F P
Figura 2.7: A for¸ca F~ necess´ aria para equilibrar o corpo ´e apenas metade do seu peso.
O sistema da roldana m´ovel ´e apenas um de muitos exemplos de dispositivos de desmultiplica¸ca˜o de for¸cas, como uma alavanca, uma caixa de velocidades, o sistema de transmiss˜ao e mudan¸cas de uma bicicleta, etc. S˜ao sistemas de grande utilidade pr´atica, porque nos permitem realizar tarefas com for¸cas menores. Mas n˜ao poupam energia. Se reduzimos a for¸ca necess´aria para metade o ´ mais uma deslocamento correspondente aumenta para o dobro. E confirma¸ca˜o que a defini¸ca˜o de trabalho faz sentido: doutro modo estas m´aquinas permitiriam a cria¸ca ˜o de energia!
2.4
Energia cin´ etica
Elevemos um corpo de massa de 1 kg a uma altura de dois metros. Sabemos que aumentamos a respectiva energia de (g ≈ 10 m s −2 ): ∆Ep = mgh = 1 × 10 × 2 = 20 J. Se largarmos o corpo, ele cai. Se cair precisamente 2 m, a sua energia potencial volta ao valor inicial. Onde est´a a energia que transferimos para o corpo ao elev´a-lo?
´ 2.4. ENERGIA CINETICA
33
Neste caso o corpo caiu livremente. NËœao o movemos lentamente, mantendo o peso equilibrado com uma for¸ca externa. NËœao houve pois trabalho externo sobre o corpo. Como vimos anteriormente, o peso ´e considerado uma for¸ca interna; faz parte do sistema, corpo+campo grav´ Äątico. Se o corpo caiu livremente, tem uma velocidade diferente de zero e parece claro que devemos associar a esse estado de movimento um certa energia. Vamos designar essa energia por energia cin´etica, Ec , e supor que ela pode ser expressa em termos da velocidade do corpo. Qual ´e a expressËœao de Ec (v)?
h z
v
` altura z parte da energia potencial inicial ´e agora energia Figura 2.8: A cin´etica.
2.4.1
Express˜ ao da energia cin´ etica
Vamos, imediatamente, responder a` quest˜ao anterior dando a defini¸ca˜o de energia cin´etica de um corpo. Dessa defini¸ca˜o, usando conserva¸ca˜o de energia, tiraremos algumas conclus˜oes sobre o modo como varia a velocidade de um corpo em queda livre. Na Actividade 2.4 investigaremos experimentalmente essa rela¸ca˜o. Teremos assim um pequeno exemplo de como funciona a Ciˆencia. Primeiro a defini¸ca˜o de energia cin´etica:
A energia cin´etica, Ec , de um corpo de massa m e velocidade de m´ odulo v, ´e dada pelo produto da sua massa m pelo quadrado do m´ odulo da sua velocidade v, dividido por dois, Ec = mv 2 /2.
Consideremos ent˜ao um corpo, como o da Fig. 2.8, inicialmente parado a` altura h: a sua energia potencial ´e mgh e a sua energia
34
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
cin´etica nula, pois a sua velocidade ´e zero. A sua energia total ´e, ent˜ao, E = mgh. Quando estiver a uma altura z, a sua energia potencial ´e mgz. Como z < h a sua energia potencial diminui. Se houver conservac¸a˜o de energia, a energia cin´etica, associada ao movimento, ser´a: Ec = mgh − mgz.
(2.3)
Usando a defini¸ca˜o de energia cin´etica,
m
v2 = mgh − mgz. 2
(2.4)
Resolvendo esta equa¸ca˜o em ordem a v 2 , obtemos v 2 = 2g(h − z).
(2.5)
Chegamos, ent˜ao, a uma previs˜ao concreta: um corpo, em queda livre a` superf´ıcie da Terra, partindo do repouso e depois de cair uma distˆancia d = h − z, tem uma velocidade v 2 = 2gd.
. Actividade 2.4
Esta rela¸ca˜o ´e investigada experimentalmente na Actividade 2.4, sobre queda livre. A sua confirma¸ca˜o refor¸ca a coerˆencia das defini¸co˜es que demos de trabalho, energia potencial e energia cin´etica. Em palavras mais simples: tudo bate certo. A express˜ao da energia cin´etica de um corpo de massa m e velocidade v ´e, ent˜ao: 1 Ec = mv 2 . 2
(2.6)
As express˜oes das Eqs.(2.3) e (2.6) tˆem uma natureza muito diferente. Ambas s˜ao “f´ormulas”, mas tˆem estatutos muito diferentes. A segunda ´e uma express˜ao de validade geral—a defini¸ca˜o de energia cin´etica—enquanto a primeira, como express˜ ao para energia cin´etica, aplica-se apenas a um corpo em queda livre. Exprime a conserva¸ca˜o de energia nessa situa¸ca˜o particular e n˜ao pode ser confundida com uma defini¸ca˜o de energia cin´etica.
´ 2.4. ENERGIA CINETICA
2.4.2
35
O teorema trabalho-energia cin´ etica
Nas sec¸co˜es anteriores consider´amos dois casos: a) A for¸ca externa ´e equilibrada pelo peso e o corpo desloca-se muito lentamente. O trabalho da for¸ca externa ´e a varia¸ca˜o de energia que, neste caso, ´e apenas energia potencial, ∆Ep = wext . b) A for¸ca externa ´e nula e o corpo move-se apenas sob ac¸ca˜o do seu peso. A energia total n˜ao varia, ∆Ec + ∆Ep = 0, o que significa que a varia¸ca˜o de energia cin´etica ´e sim´etrica da varia¸ca˜o de energia potencial, ∆Ec = −∆Ep . No caso geral, a for¸ca externa n˜ao ´e nula, nem oposta ao peso. No movimento do corpo sob a ac¸ca˜o do seu peso e da for¸ca externa a velocidade varia. A varia¸ca˜o de energia do corpo tem um termo cin´etico e um termo potencial. O trabalho da for¸ca externa ´e a energia transferida para o sistema, ou seja, a varia¸ca˜o da energia total: ∆Ec + ∆Ep = wext . Se quisermos saber a varia¸ca˜o de energia cin´etica, ∆Ec = wext − ∆Ep .
(2.7)
Vimos atr´as, na Eq. 2.2 da p´agina 31, que a varia¸ca˜o de energia potencial se pode exprimir em termos do trabalho do peso, w int , como, ∆Ep = −wint . Substituindo este resultado na Eq. 2.7, obtemos ∆Ec = wext + wint . A varia¸ca˜o de energia cin´etica ´e igual ao trabalho de todas as forc¸as aplicadas ao corpo. Este resultado ´e conhecido como o teorema do trabalho-energia cin´ etica.
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
36
2.5
For¸ cas dissipativas
2.5.1
F
v
Figura 2.9: Um corpo que se desloca num fluido fica sujeito a uma for¸ca de sentido oposto ao seu deslocamento.
Resistˆ encia do ar
Temos vindo a admitir que a soma das energias cin´etica e potencial grav´ıtica de um corpo em queda livre era conservada. Isto ´e verdade se o sistema corpo + campo grav´ ıtico da Terra n˜ao interagir com outros sistemas. Na realidade, o corpo move-se na atmosfera e interage com ela. Essa interac¸ca˜o manifesta-se na for¸ca de resistˆencia do ar. Se esta for¸ca realizar trabalho, existir´a uma transferˆencia de energia entre o corpo e o ar da atmosfera. Quando um corpo se desloca relativamente a um fluido, como o ar ou a a´gua, este exerce sobre ele uma for¸ca oposta ao deslocamento do corpo. Quem tenha posto a m˜ao fora de um autom´ovel em movimento, sabe que essa for¸ca pode ser consider´avel. Se a for¸ca tem sentido oposto ao do deslocamento, o seu trabalho sobre o corpo ´e negativo: wr < 0. Voltemos a considerar o caso da queda de um corpo num campo grav´ıtico, incluindo agora o efeito da resistˆencia do ar. A energia inicial ´e mgh (corpo em repouso a` altura h). Quando est´a a` altura z ser´a, 1 mv 2 + mgz. 2 Mas como houve interac¸ca˜o com o ar a energia do corpo variou. A energia transferida foi o trabalho da for¸ca de resistˆencia do ar. Ent˜ao: Energia final = Energia inicial + trabalho de resist^ encia do ar. Isto ´e:
1 mv 2 + mgz = mgh + wr . (2.8) 2 Como wr < 0 a energia do corpo diminui. Podemos reescrever esta equa¸ca˜o usando o m´odulo de wr , uma quantidade positiva. Como wr = − |wr |, 1 mv 2 = mg(h − z) − |wr | . 2
2.5. FORCAS ¸ DISSIPATIVAS
37
O primeiro termo do segundo membro ´e o que ter´ıamos se n˜ao houvesse interac¸ca˜o com o ar: a velocidade de queda ´e menor do que seria na ausˆencia da atmosfera. S´o podemos ignorar o termo de resistˆencia do ar se w r for muito menor que a varia¸ca˜o de energia potencial. Para um berlinde ou uma bola de ping-pong, numa queda at´e um metro, essa aproxima¸ca˜o ´e razo´avel. Para uma folha de papel ou uma pena, ´e muito m´a.
2.5.2
For¸ cas dissipativas
Poderemos fazer com a for¸ca de resistˆencia do ar o que fizemos com o peso? Consider´a-la como um for¸ca interna de um sistema que agora inclui o ar e definir mais um termo de energia potencial, Er , de modo que ∆Er = −wr ? (2.9) Se assim fosse, a Eq. 2.8 teria a forma ∆Ec + ∆Ep + ∆Er = 0, j´a que ∆Ec = mv 2 /2 (velocidade inicial nula) e ∆Ep = mg(z − h). Voltar´ıamos a ter um sistema em que a energia se conserva. N˜ao ´e poss´ıvel definir uma tal energia potencial E r . A raz˜ao ´e a seguinte. A energia potencial est´a associada a uma determinada posi¸ca˜o do corpo. Se o corpo se desloca, mas volta a` mesma posi¸ca˜o, a sua varia¸ca˜o de energia potencial ´e nula. Mas no caso da for¸ca de resistˆencia do ar o trabalho correspondente n˜ao ´e nulo. Quando o corpo desce, o trabalho ´e negativo, pois a for¸ca ´e oposta ao deslocamento. Quando o corpo volta a subir, o trabalho ainda ´e negativo pois a for¸ca continua a ser oposta ao deslocamento. A soma de duas grandezas negativas n˜ao pode dar zero! A igualdade da Eq. 2.9 seria violada pois o primeiro membro seria nulo e o segundo positivo. Em resumo, a interac¸ca˜o entre o ar da atmosfera e um corpo que nele se desloca n˜ao pode exprimir-se atrav´es de uma energia potencial, como no caso do peso. For¸cas como a resistˆencia do ar dizem-se dissipativas. Significa isto que quando h´a for¸cas dissipativas a energia n˜ao se conserva?
38
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
N˜ao esque¸camos que a resistˆencia do ar ´e uma interac¸ca˜o entre dois sistemas. De facto, a energia do corpo no campo grav´ıtico da Terra n˜ao se conserva; mas apenas porque parte da respectiva energia ´e transferida para outro sistema. Mais tarde veremos como se manifesta essa energia transferida. Para j´a, a u ´ nica coisa que sabemos ´e que n˜ao tem uma rela¸ca˜o simples com a posi¸ca˜o do corpo, como acontece no caso do campo grav´ıtico. Por isso n˜ao ´e poss´ıvel definir uma energia potencial associada a esta for¸ca.
2.6 2.6.1
Estudo de um caso: Bungee Jumping O que ´ e um modelo?
Para ilustrar os conceitos anteriores, vamos estudar, do ponto de vista de transferˆencias de energia, um dos desportos radicais mais populares: o salto com el´asticos ou bungee jumping. Um salto real ´e um processo bem complicado. A resistˆencia do ar est´a presente, o saltador n˜ao se move s´o na direc¸ca˜o vertical, a orienta¸ca˜o do seu corpo pode variar. Por isso vamos construir um modelo deste processo: uma representa¸ca˜o simplificada que esperamos permita compreender os aspectos gerais mais salientes deste tipo de salto. Supomos que a energia do saltador no campo grav´ıtico se pode escrever na forma: 1 (2.10) Es = mv 2 + mgz 2 em que a coordenada z mede a sua altura em rela¸ca˜o ao solo. Ignoramos as suas varia¸co˜es de posi¸ca˜o (deitado, de p´e, de cabe¸ca para baixo), o seu esbracejar, o facto de tamb´em se poder movimentar na horizontal e, ainda, a resistˆencia do ar. Mas h´a, seguramente, um sistema que n˜ao podemos ignorar: os el´asticos! Se os ignor´assemos, chegar´ıamos a` conclus˜ao que o saltador se estatelaria no ch˜ao sem apelo nem agravo: um resultado muito diferente do observado em (quase) todos os saltos. Na parte inicial da queda os el´asticos nada fazem. Depois de o saltador cair uma distˆancia igual ao comprimento de repouso (sem tens˜ao) dos el´asticos, estes come¸cam a distender-se. A sua energia aumenta. Podemos inclu´ı-los no nosso sistema definindo uma energia potencial dos el´asticos E el (z): E = Es + Eel (z).
(2.11)
2.6. ESTUDO DE UM CASO: BUNGEE JUMPING
39
Em resumo: o nosso modelo consiste em supor que: • o saltador se move na vertical apenas; • a sua energia ´e dada pelas Eqs. 2.11 e 2.10; • a energia se conserva. Precisamos, no entanto, de saber como exprimir E el (z).
2.6.2
For¸ ca el´ astica
. Actividade 2.5
Ao esticarmos um el´astico temos que exercer for¸cas nas suas pontas. As for¸cas tˆem o sentido em que as respectivas pontas se deslocam. Logo realizamos um trabalho positivo sobre o el´astico—a sua energia aumenta. Ao deixarmos o el´astico contrair-se de novo, lentamente, a for¸ca que exercemos tem sentido oposto ao deslocamento. O trabalho que realizamos ´e negativo: o el´astico transfere energia para n´os e a sua energia diminui. Se chamarmos x ao aumento de comprimento do el´astico, relativamente ao seu comprimento sem for¸cas aplicadas, teremos uma energia Eel (x), que aumenta com o valor de x. Podemos considerar que Eel (0) = 0. Como o princ´ıpio de conserva¸ca˜o de energia envolve apenas varia¸co ˜es de energia o valor que tomamos para Eel (0) pode ser qualquer um. Quando esticamos lentamente o el´astico, a for¸ca que temos que exercer ´e tanto maior quanto maior for a deforma¸ca˜o do el´astico. Desde que n˜ao seja esticado para al´em de um certo limite, o el´astico comporta-se como uma mola. A for¸ca necess´aria para o manter distendido de um comprimento x ´e proporcional a x, Fext = kx. A for¸ca que o pr´oprio el´astico exerce sobre o corpo que o distende ´e oposta: F = −kx. Na Actividade 2.5, discutimos como calcular o trabalho de for¸cas cujo valor varia durante o deslocamento. No caso presente, o gr´afico da componente da for¸ca externa na direc¸ca˜o do deslocamento tem a forma da Fig. 2.10. O trabalho realizado pela for¸ca externa ´e a a´rea do triˆangulo sombreado: Eel (x) = w =
1 1 kx × x = kx2 . 2 2
Fext Kx
x
Figura 2.10: For¸ca el´ astica.
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
40
Agora que sabemos calcular a energia de deforma¸ca˜o el´astica, voltemos a` an´alise do salto bungee.
2.6.3
Energia num salto de bungee.
l z
h
h1−z h1 = h−l
z
h1
Figura 2.11: Um salto bungee. O saltador est´ a inicialmente a uma altura h do solo; o comprimento em repouso dos el´ asticos ´e l. Quando a distˆ ancia z ao solo ´e inferior a h1 = h − l , os el´ asticos est˜ ao distendidos.
Comecemos por designar alguns parˆametros. A Fig. 2.11 ajuda a compreender as respectivas defini¸co˜es: • altura inicial relativamente ao solo, h; • comprimento sem tens˜ao dos el´asticos, l; • altura acima do solo, em que os el´asticos come¸cam a ser esticados, h1 = h − l; • altura do saltador acima do solo durante o salto, z; • peso do saltador, mg; • constante de for¸ca dos el´asticos, k. Seguindo os passos da Caixa 2.2 da p´agina 41, chegamos a` conclus˜ao que, quando o saltador est´a a uma distˆancia do solo menor que h1 , a respectiva energia ´e: 1 1 E = mv 2 + mgz + k (h1 − z)2 2 2
z < h1
Estamos agora em posi¸ca˜o de responder a uma pergunta de interesse capital para o saltador:
2.6. ESTUDO DE UM CASO: BUNGEE JUMPING
41
Energia num salto com el´ asticos. Como podemos calcular a energia para um salto bungee como o da Fig. 2.11? Tentemos construir a respectiva express˜ ao passo a passo. Quest˜ ao 1: qual ´e energia potencial inicial ? Resposta: ´e apenas a energia potencial grav´ıtica do saltador. A sua energia cin´etica ´e zero e os el´ asticos n˜ ao est˜ ao distendidos. E0 = mgh Quest˜ ao 2: quando a altura do saltador relativamente ao solo ´e superior a h1 , qual ´e a energia do sistema? Resposta: se os el´ asticos n˜ ao se distenderam, a sua energia el´ astica ´e nula. Se n˜ ao considerarmos a sua varia¸ca ˜o de energia potencial grav´ıtica (supomos que a respectiva massa ´e pequena comparada com a do saltador), a energia total ser´ a apenas a soma das energias cin´etica e potencial grav´ıtica do saltador. E=
1 mv 2 + mgz 2
se z > h1
Quest˜ ao 3: qual ´e a energia do sistema quando o saltador se encontra abaixo de h1 ? Resposta: Agora os el´ asticos est˜ ao distendidos de uma distˆ ancia que ´e h1 − z (ver Fig. 2.11c). A respectiva energia ´e Eel =
1 k (h1 − z)2 . 2
A energia total ´e E=
1 1 mv 2 + mgz + k (h1 − z)2 2 2
z < h1
Caixa 2.2: C´ alculo da energia num salto com el´ asticos.
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
42
O saltador p´ara antes de atingir o solo, ou estatela-se? Se a energia se conservar devemos ter: E = E0 ou, 1 1 mv 2 + mgz + k (h1 − z)2 = mgh. 2 2 Podemos daqui calcular a velocidade do saltador quando atinge o solo, em z = 0. Substituindo z = 0: 1 1 mv 2 + kh21 = mgh 2 2 ou, 1 1 mv 2 = mgh − kh21 . 2 2
(2.12)
Esta equa¸ca˜o s´o ter´a uma solu¸ca˜o se o segundo membro for positivo, pois m > 0 e v 2 > 0. Nesse caso o saltador chega ao ch˜ao com uma velocidade: r k v = 2gh − h21 . m Este n˜ao ´e o resultado desejado! Para que o saltador n˜ao chegue ao ch˜ao e p´are antes que isso aconte¸ca, devemos ter 1 mgh − kh21 < 0 2 ou seja, 1 2 kh > mgh. 2 1 Antes de saltar ´e melhor verificar se isto ´e verdade! Neste caso a Eq. 2.12 n˜ao tem solu¸ca˜o: isto significa que z = 0 n˜ao ´e uma altura poss´ıvel, pois implicaria uma energia cin´etica negativa. O saltador p´ara e volta a subir antes de chegar ao solo. Esta condi¸ca˜o ´e muito interessante e muito simples de interpretar. O primeiro membro ´e a energia el´astica quando o saltador chega ao solo (z = 0): os el´asticos est˜ao distendidos de h 1 . O segundo membro ´e a energia inicial. Se kh21 /2 > mgh, n˜ao h´a energia suficiente no sistema para esticar os el´asticos at´e ao ch˜ao. Quase pod´ıamos ter adivinhado este resultado!
´ NULO. 2.7. QUANDO O TRABALHO E
2.7 2.7.1
43
Quando o trabalho ´ e nulo.
For¸ ca sem deslocamento
Se pegarmos num garrafËœao de a´gua de 5 litros e o levantarmos a` altura do peito, ao fim de poucos minutos os m´ usculos come¸cam a tremer, as for¸cas faltam e temos de o pousar. De acordo com a nossa defini¸caËœo de trabalho, enquanto seguramos o garrafËœao numa posi¸caËœo fixa, nËœao realizamos trabalho: nËœao transferimos energia. Por que ´e que ficamos cansados, entËœao? Segurar um peso nËœao ´e trabalho? Comecemos por notar que uma mesa ou uma corda amarrada a um gancho no tecto seguram um peso durante o tempo que for necess´ario. NËœao parece haver realmente qualquer “consumoâ€? de energia. Na ind´ ustria de constru¸caËœo civil ´e habitual deixar cargas suspensas nas gruas durante as interrup¸coËœes de trabalho. Se isso consumisse energia, as empresas pensariam duas vezes antes de adoptar esse procedimento. Mesmo no caso em que somos n´os a segurar um peso, h´a um aspecto que ´e claro: nËœao transferimos energia para o peso se nËœao o deslocarmos. A energia do corpo que seguramos nËœao aumenta com o tempo em que o estamos a segurar. A energia que podemos obter, deixando-o cair, por exemplo, nËœao aumenta por ele ter estado elevado mais tempo. A conceito f´Ĺsico de trabalho pretende medir a transferˆencia de energia para o corpo sobre o qual actua a for¸ca. Se nËœao houver deslocamento essa transferˆencia ´e nula. No entanto, cansamo-nos. O esfor¸co muscular, mesmo sem deslocamento, consome, efectivamente, reservas energ´eticas do corpo. Porquˆe? A razËœao tem a ver com a maneira como os m´ usculos funcionam. As c´elulas musculares, chamadas fibras, tˆem a forma de cilindros alongados e podem contrair-se exercendo for¸cas nas extremidades. Mas sËœao um complexo sistema bioqu´Ĺmico, cujo funcionamento ´e muito diferente de uma mola ou de um el´astico. A contra¸caËœo requer movimento de filamentos de prote´Ĺna no interior da c´elula e isso requer energia. A contrac¸caËœo ´e apenas tempor´aria e a fibra rapidamente perde a tensËœao. Para manter um m´ usculo contra´Ĺdo, mesmo sem deslocamento, como quando seguramos um peso, ´e necess´ario contrair regularmente novas fibras para substituir as ´ este processo que consome a energia do corpo. que se distendem. E Mas essa energia nËœao ´e transferida para a carga que o m´ usculo
10 kg Figura 2.12: Quando seguramos um peso, sem o mover, n˜ ao fazemos trabalho?
44
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
sustenta: acaba distribu´ıda no nosso corpo e pode manifestarse por um aumento de temperatura local. Por isso ´e correcto dizer que o trabalho realizado sobre a carga ´e nulo. No artigo Funcionamento dos m´ usculos [3], dispon´ıvel no portal do projecto Faraday, est´a uma explica¸ca˜o mais detalhada deste processo.
2.7.2
For¸ cas perpendiculares ao deslocamento
At´e ao momento s´o consider´amos o c´alculo de trabalho em situa¸co˜es em que a for¸ca tem a direc¸ca˜o do deslocamento. Mas nem sempre isso acontece. Nos dois exemplos seguintes, as for¸cas s˜ao perpendiculares aos deslocamentos. Como veremos, nesse caso o trabalho ´e nulo. Movimentos de planetas ou sat´ elites. C
B θ θ
Sol
A Terra
Figura 2.13: Os trabalhos realizados entre A e B e entre B e C s˜ ao iguais. Ser˜ ao diferentes de zero?
Sabemos que os planetas se movem em torno do Sol sob a ac¸ca˜o da for¸ca grav´ıtica. As o´rbitas dos planetas s˜ao quase circulares, com centro no centro do Sol. No 9o ano aprendemos que a for¸ca grav´ıtica que o Sol exerce nos planetas tem a direc¸ca˜o do raio da o´rbita, com sentido dirigido para o centro do Sol. O deslocamento do planeta ´e, em cada instante, perpendicular a` for¸ca. Ser´a que esta for¸ca realiza trabalho? Reparemos no esquema da Fig 2.13. Suponhamos que entre os dois pontos A e B a for¸ca grav´ıtica do Sol realizava um trabalho
´ NULO. 2.7. QUANDO O TRABALHO E
45
w sobre o planeta. Evidentemente, o trabalho entre B e C seria o mesmo, uma vez que o aˆngulo percorrido ´e o mesmo, o valor da for¸ca ´e o mesmo, o aˆngulo com o deslocamento tamb´em, etc. O trabalho numa rota¸ca˜o completa seria W =w×
360 θ
pois 360/θ ´e o n´ umero de aˆngulos iguais a AB (θ) em que podemos dividir o arco completo (360o ). Mas, para uma revolu¸ca˜o completa, o trabalho realizado tem que ser nulo; o planeta ocupa a mesma posi¸ca˜o com a mesma velocidade. Logo W = 0 e w = 0. Como os pontos A e B s˜ao quaisquer, temos que concluir que o trabalho de uma for¸ca perpendicular ao deslocamento ´e nulo.
Movimento horizontal de um corpo sobre uma superf´ıcie. Quando um carrinho se desloca sobre o tampo horizontal de uma mesa o seu peso ´e cancelado pela reac¸ca˜o normal da mesa. Se n˜ao houver atrito, estas s˜ao as u ´ nicas for¸cas sobre o carrinho. Ser´a que realizam trabalho? A pergunta parece pouco interessante. Mesmo que a resposta fosse sim, os trabalhos do peso e da reac¸ca˜o da mesa devem cancelar-se, pois as for¸cas tˆem sentidos opostos e o mesmo valor. Por isso a energia do carrinho n˜ao deve variar. Com efeito, se n˜ao houver atrito, ele mant´em sempre a mesma velocidade. No entanto, ao contr´ario do que parece a` primeira vista, supor que os trabalhos do peso, wp , e da reac¸ca˜o normal, wn , s˜ao diferentes de zero, mesmo que a sua soma seja zero, w p + wn = 0, tem consequˆencias. O peso ´e uma for¸ca exercida pela Terra; a reac¸ca˜o normal ´e exercida pela mesa. Se, por exemplo, w p > 0, h´a transferˆencia de energia entre a Terra e o carrinho. Sendo w n = −wp , teremos wn < 0: isto implica uma transferˆencia de energia entre o carrinho e a mesa. Ou seja, haveria energia a passar da Terra para o carrinho e deste para a mesa. Mas n˜ao h´a qualquer evidˆencia dessa passagem; n˜ao h´a altera¸ca˜o do estado da mesa que indique que est´a a receber energia quando um carrinho desliza sobre ela sem atrito. Estes dois exemplos permitem-nos concluir com confian¸ca:
N
v
#"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #"! #! P
Figura 2.14: O trabalho da reac¸ca ˜o normal da mesa e do peso ser˜ ao diferentes de zero?
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
46
Quando uma for¸ ca ´ e perpendicular ao deslocamento o trabalho realizado pela for¸ca ´e nulo.
2.8
For¸ cas e deslocamentos n˜ ao colineares
Discutimos os casos de for¸cas colineares e ortogonais a deslocamentos. Para completar, podemos agora considerar o caso geral em que a for¸ca e o deslocamento definem um aˆngulo qualquer. Este t´opico ser´a estudado de novo, com mais pormenor, no 11 o ano.
2.8.1
Trabalho e energia num “escorrega”
Os parques aqu´aticos tˆem como principal motivo de atrac¸ca˜o os “escorregas”. Um fio de a´gua reduz o atrito entre a superf´ıcie do “escorrega” e os seus utilizadores, que podem assim atingir velocidades suficientemente elevadas para fazer correr a adrenalina. Mas qual ´e realmente a velocidade que se pode atingir ao descer um escorrega? Tomemos o comprimento do escorrega como sendo d e o desn´ıvel entre o in´ıcio e o fim como sendo h (ver Fig. 2.15). Valores t´ıpicos s˜ao h = 8 m e d = 20 m. Comecemos por considerar este problema do ponto de vista de conserva¸ca˜o de energia. N P cosθ
θ h
P
θ d
&%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ &%$ '%'%'%&$ (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' ((''(' '%'%'%(%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' (%(%''(%' ((''(' '%'%'%(%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' ('('(' '%'%'%(%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' (%'(%'(%' ('('(' Figura 2.15: Num escorrega as for¸cas sobre o utilizador s˜ ao a reac¸ca ˜o normal da superf´ıcie e o peso do cliente. Os escorregas s˜ ao desenhados para reduzir o atrito, a componente da for¸ca da superf´ıcie paralela a esta.
˜ COLINEARES 47 2.8. FORCAS ¸ E DESLOCAMENTOS NAO Sendo a velocidade inicial nula, a energia inicial ´e potencial grav´ıtica. Tomando a altura final como n´ıvel de referˆencia (z f = 0), a energia inicial ´e E = mgh em que m ´e a massa do utilizador do “escorrega”. No fim da descida a energia ´e 1 1 E = mv 2 + mgzf = mv 2 . 2 2 Se a energia se conserva, teremos 1 mv 2 = mgh 2 ou v 2 = 2gh. Para h = 10 m obtemos v = 14, 1 m s −1 = 51 km h−1 . Trabalho na descida de um escorrega O c´alculo anterior, que como veremos est´a efectivamente correcto, pode, no entanto, levantar algumas interroga¸co˜es: • Neste movimento h´a deslocamento horizontal, n˜ao apenas vertical. A express˜ao da energia potencial grav´ıtica, E p = mgz, continua a ser v´alida quando as coordenadas x e/ou y variam tamb´em, al´em de z? • A for¸ca exercida pela superf´ıcie do escorrega n˜ao realiza trabalho? Se a resposta for sim, a energia total da pessoa que desce, potencial grav´ıtica mais cin´etica, varia. Comecemos por responder a` segunda pergunta. Uma for¸ca, tal como um deslocamento rectil´ıneo, ´e caracterizada n˜ao apenas por um m´odulo (intensidade), mas tamb´em por uma direc¸ca˜o e um sentido: ´e uma grandeza vectorial. Isto significa, entre outras coisas, que podemos decompor uma for¸ca segundo duas direc¸co˜es arbitr´arias, desde que n˜ao sejam colineares. Por exemplo, a for¸ca F~ da Fig. 2.16 pode ser decomposta nas for¸cas F~k e F~⊥ , usando o m´etodo habitual de projec¸ca˜o de vectores: o efeito da for¸ca F~ ´e o mesmo que teriam, em conjunto, as for¸cas F~k e F~⊥ . Quando um corpo desliza sobre uma superf´ıcie esta exerce sobre o corpo uma for¸ca com duas componentes:
F θ
F
F||
Figura 2.16: Decomposi¸ca ˜o de uma for¸ca segundo direc¸co ˜es perpendiculares.
48
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
i) uma perpendicular a` superf´ıcie, que impede o corpo de se movimentar para dentro da superf´ıcie, chamada reac¸ca˜o normal. O seu sentido (a n˜ao ser que a superf´ıcie tenha cola) ´e para o exterior. ii) uma paralela a` superf´ıcie, com sentido oposto ao deslocamento, a for¸ca de atrito. N
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Os escorregas s˜ao desenhados para reduzir o mais poss´ıvel esta segunda componente. No caso ideal s´o existe a reac¸ca˜o normal e, como vimos atr´as, uma for¸ca perpendicular ao deslocamento n˜ao realiza trabalho.
Figura 2.17: A for¸ca de contacto que a superf´ıcie exerce sobre o corpo tem uma componente normal, ~ , e uma componente N paralela a ` superf´ıcie de contacto, F~a , a for¸ca de atrito.
Sendo assim, s´o o peso do utilizador do escorrega realiza trabalho. Se decompusermos o peso segundo a direc¸ca˜o do deslocamento, P~k , e segundo a direc¸ca˜o perpendicular, P~⊥ , s´ o a primeira realiza ~ trabalho. Como Pk ´e colinear com o deslocamento j´a sabemos calcular o respectivo trabalho. Se for θ o aˆngulo entre a vertical e o plano do escorrega (ver − → Fig. 2.15), o m´odulo de Pk ´e P cos θ = mg cos θ. O trabalho realizado pelo peso ´e wp = Pk × d = mg cos θ × d. Como cos θ = h/d obtemos wp = mgh. A varia¸ca˜o de energia cin´etica ´e o trabalho do peso, j´a que a reacc¸a˜o normal da superf´ıcie n˜ao realiza trabalho, 1 mv 2 = mgh. 2 Este ´e exactamente o resultado que t´ınhamos obtido por conserva¸ca˜o de energia. A express˜ao da energia potencial grav´ıtica E p = mgz continua a ser v´alida no caso geral em que o deslocamento n˜ao ´e na vertical. O trabalho da componente do peso paralela ao deslocamento ´e mgd cos θ, em que θ ´e o aˆngulo entre o deslocamento e a direc¸ca˜o vertical, sentido descendente. Ora, d cos θ = −∆z, o sim´etrico da varia¸ca˜o da altura, o que d´a wp = mg∆z. Se recordarmos que wp = −∆Ep , vemos que de facto ∆Ep = mg∆z.
˜ COLINEARES 49 2.8. FORCAS ¸ E DESLOCAMENTOS NAO
F
θ ∆r
+-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, +-, -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -, + -+-+
F
(a)
θ
180−θ
∆r
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Figura 2.18: No caso (a) o trabalho da for¸ca ´e positivo (o carrinho recebe energia), no caso (b) negativo (cede energia). Em qualquer dos casos ´e dado por F ∆r cos θ em que F e ∆r s˜ ao os m´ odulos da for¸ca e do deslocamento, respectivamente.
2.8.2
Trabalho de for¸ cas n˜ ao colineares com deslocamento
Este exemplo mostrou-nos como podemos calcular o trabalho quando as for¸cas e os deslocamentos n˜ao s˜ao colineares. Temos apenas de calcular o trabalho da componente da for¸ca na direc¸ca˜o do deslocamento. No caso da Fig. 2.18-a o m´odulo da projec¸ca˜o da for¸ca na direc¸ca˜o do deslocamento, Fk , ´e Fk = F cos θ em que F ´e o m´odulo da for¸ca. O trabalho da for¸ca ´e (F cos θ)∆r = F ∆r cos θ em que ∆r ´e o m´odulo do deslocamento. No segundo caso, o m´odulo da projec¸ca˜o da for¸ca na direc¸ca˜o do deslocamento ´e Fk = F cos(180 − θ) = −F cos θ (cos θ ´e negativo, pois θ > 90o ). O trabalho ´e w = −F cos(180 − θ)∆r = F ∆r cos θ.
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
50
Em resumo, sendo θ o aˆngulo entre uma for¸ca constante de m´odulo F e o deslocamento de m´odulo ∆r, o trabalho da for¸ca ´e w = F ∆r cos θ. Aten¸ca˜o: esta defini¸ca˜o s´o est´a correcta se θ for o aˆngulo entre os sentidos da for¸ca e do deslocamento (ver Fig. 2.18). Se alguma vez isto parecer confuso, basta recordar: se a for¸ca contribuir para aumentar a velocidade na direc¸ca˜o do deslocamento, o trabalho ´e positivo e a energia aumenta. Se a for¸ca retardar o movimento, o trabalho ´e negativo e a energia diminui.
2.9 2.9.1
Actividades, quest˜ oes e problemas Actividades
2.1. Lan¸ camento de bola Atirar uma bola (t´enis) e apanh´a-la outra vez, suavemente. (a) Quais s˜ao os sistemas em interac¸ca˜o? (b) Quando ´e que a bola recebe energia da m˜ao e quando ´e que cede? (c) Representar num gr´afico (esquem´atico) a velocidade e a energia da bola durante a interac¸ca˜o. (d) Em alguns momentos da interac¸ca˜o, representar em esquema as for¸cas da m˜ao sobre a bola. (e) Identificar o sentido da transferˆencia de energia entre a m˜ao e a bola no lan¸camento e na recep¸ca˜o. Relacionar o sentido de transferˆencia de energia com os sentidos relativos de for¸ca e deslocamento no lan¸camento e na recep¸ca˜o da bola. 2.2. Compress˜ ao/distens˜ ao de uma mola Pegar numa mola com as m˜aos, distendˆe-la e comprimi-la. (a) A energia da mola aumentou ou diminuiu? (b) Qual o sistema que transferiu energia para a mola? (c) Qual a direc¸ca˜o e o sentido da for¸ca sobre a mola? (d) Qual a direc¸ca˜o e o sentido do deslocamento do ponto onde foi aplicada a for¸ca?
˜ 2.9. ACTIVIDADES, QUESTOES E PROBLEMAS
51
(e) Relacionar as respostas a`s al´ıneas anteriores com o conceito de trabalho como transferˆencia de energia. 2.3. M´ aquinas simples Explora¸ca˜o do funcionamento de m´aquinas simples do ponto de vista de conserva¸ca˜o de energia. Ver Ficha de actividade A4. 2.4. Conserva¸ c˜ ao de energia em queda livre. Medi¸ca˜o da velocidade em fun¸ca˜o da altura de queda de um corpo. Ver Ficha de Actividade A5. 2.5. Trabalho de for¸ cas vari´ aveis Como se calcula o trabalho de uma for¸ca se esta variar durante o deslocamento? Ver Ficha de Actividade A6.
2.9.2
Problemas
Nos problemas seguintes, a n˜ao ser que explicitamente indicado, tome o valor da acelera¸ca˜o da gravidade g = 10 m s −2 . 2.1. Joule-lunar Um joule-lunar, unidade inventada pelo Dr. E. X. Cˆentrico, ´e a energia necess´aria para elevar um peso de um newton, de uma distˆancia de um metro na superf´ıcie da Lua (peso medido na Lua, onde g ≈ 1, 7 m s−2 ). (a) Quantos joule vale um joule-lunar? (b) Se o Dr. E. X. Cˆentrico tivesse definido o joule-lunar como a energia necess´aria para elevar 100 g de um metro na superf´ıcie da Lua, quantos joule valeria? 2.2. Trabalho na Lua Elevar um dado corpo na Terra necessita de um trabalho de 10 kJ. Que trabalho ´e necess´ario para o elevar da mesma distˆancia na Lua? (glua ≈ 1, 7 m s−2 ). 2.3. Estimativas de energias cin´ eticas. Estimar energias cin´eticas de transla¸ca˜o de diversos corpos. Para fazer algumas destas estimativas pode ser necess´ario pesquisar alguns valores de massas e velocidades. O objectivo n˜ao ´e ter um valor exacto mas uma ordem de grandeza. (a) uma bola de um desporto (t´enis, futebol, v´olei, etc);
52
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA (b) uma bala de pistola; (c) um atleta em corrida de 100 m; (d) um ciclista e um autom´ovel ligeiro, ambos a 40 km h −1 ; (e) um meteoro de 1 kg com a velocidade de escape 11 km s −1 (a velocidade a que atingiria a superf´ıcie da Terra se ca´ısse de uma distˆancia infinita no campo grav´ıtico da Terra); (f) a Terra no seu movimento orbital; (g) um prot˜ao a 1/10 da velocidade da luz;
2.4. Empurrar um carro ´ muito mais dif´ıcil pˆor um autom´ovel em movimento, parE tindo do repouso, do que mantˆe-lo em movimento, com uma velocidade constante. (a) Qual ´e o trabalho necess´ario para pˆor o autom´ovel em movimento (v ≈ 1, 5 m s−1 , m = 1000 kg), partindo do repouso, se ignorarmos os atritos? (b) Qual ´e o trabalho necess´ario para manter o autom´ovel em movimento, se ignorarmos os atritos? 2.5. Saltos plataforma de 10 m Calcular a velocidade com que um saltador de plataforma de 10 m entra na a´gua. Supor que cai na vertical, sem velocidade inicial, e que tem uma massa de 70 kg. E se for uma crian¸ca de massa 45 kg? 2.6. Queda de bola de ping-pong Numa medi¸ca˜o cuidadosa, verifica-se que a velocidade de uma bola de ping-pong (m = 2 g), ao fim de uma queda de 2 m de altura, ´e de 5, 66 m s−1 (g = 9, 8 m s−1 ). (a) Qual seria a velocidade se houvesse conserva¸ca˜o de energia, potencial grav´ıtica mais cin´etica? (b) Qual foi o trabalho das for¸cas de resistˆencia do ar durante a queda? 2.7. Velocidade de proj´ ecteis Um rev´olver, como os usados pela pol´ıcia norte-americana, dispara proj´ecteis de massa m = 7, 4 g com uma velocidade de sa´ıda da arma de 303 m s−1 . (a) Qual ´e a energia cin´etica de uma bala a` sa´ıda da arma?
˜ 2.9. ACTIVIDADES, QUESTOES E PROBLEMAS
53
(b) Se a bala for disparada na vertical e pudermos desprezar a resistˆencia do ar, que altitude atingiria? Ao cair, seria mais ou menos perigosa que ao sair da arma? (c) Na pr´atica, o efeito da resistˆencia do ar, ´e muito importante para proj´ecteis a altas velocidades: a bala s´o sobe cerca de 500 m. Qual foi o trabalho das for¸cas de resistˆencia do ar na subida? Obter uma estimativa, por excesso, da velocidade da bala ao atingir de novo o solo. 2.8. Distˆ ancia de paragem A distˆancia de travagem de um ve´ıculo ´e aproximadamente proporcional a` respectiva energia cin´etica. Se um autom´ovel a 30 km h−1 consegue parar em 10 m, qual ´e a distˆancia de paragem se a sua velocidade for o dobro, 60 km h −1 ? 2.9. Potˆ encia de uma atleta Ao correr, uma atleta consome parte das suas reservas energ´eticas. A energia por unidade de tempo que o seu corpo disponibiliza para a tarefa de corrida ´e a potˆencia da atleta. Seja essa potˆencia P em esfor¸co m´aximo, para uma atleta de 55 kg. (a) Se correr em esfor¸co m´aximo 400 m em trajecto plano, ou os mesmos 400 m com uma subida de 20 m em qual dos casos dispender´a a atleta mais energia? (b) Que energia adicional tem que fornecer para elevar a sua altura de 20 m relativamente a` posi¸ca˜o inicial ? (c) Se a potˆencia em esfor¸co m´aximo ´e a mesma nas duas corridas, como pode a energia dispendida aumentar? (d) A atleta demora mais 9 s na segunda corrida do que na primeira. Qual ´e sua potˆencia de esfor¸co m´aximo? 2.10. Energia Hidroel´ ectrica Numa barragem hidroel´ectrica ´e armazenada a´gua a uma certa altitude. Para produzir energia a a´gua cai para uma cota mais baixa e acciona as turbinas. A energia de rota¸ca˜o das turbinas origina corrente el´ectrica. Temos um exemplo claro de energia potencial grav´ıtica como “fonte” de energia. (a) Se o desn´ıvel entre a cota inicial e final for de 50 m, qual ´e a m´axima energia que ´e poss´ıvel produzir por m 3 de a´gua descarregada?
54
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA (b) Para um caudal de descarga de 200 m 3 s−1 qual ´e a energia m´axima produzida por segundo? Qual a potˆencia em MW? (c) Por que ´e que se usou a designa¸ca˜o m´ axima nas al´ıneas a) e b)? (d) No cap´ıtulo 1, refere-se que s˜ao necess´arios em m´edia 15 m3 de a´gua por quilowatt-hora (kWh) de energia produzida. A que altura de queda efectiva corresponde este valor?
2.11. O salto bungee (1) Num salto bungee podemos distinguir as seguintes fases abaixo enumeradas. Para cada uma delas discutir as varia¸co˜es de todos os termos que constituem a energia total do sistema: se aumentam, se diminuem, ou se se mantˆem constantes. Fase 1: desde o in´ıcio at´e os el´asticos come¸carem a esticar. Fase 2: desde que os el´asticos come¸cam a esticar at´e terminar a queda. Fase 3: durante o per´ıodo em que os el´asticos se contraem de novo at´e ao seu comprimento sem tens˜ao. Fase 4: em que o saltador est´a de novo apenas sujeito a` for¸ca grav´ıtica. 2.12. O salto bungee (2) Quando o saltador chega a` posi¸ca˜o em que os el´asticos come¸cam a esticar (altura h1 , ver Fig. 2.11), a sua velocidade come¸ca a dominuir, continua a aumentar ou passa a ser constante? Justificar. 2.13. O salto bungee (3) Um el´astico bungee com uma constante el´astica k = 100 N m −1 tem um comprimento, sem tens˜ao, de 10 m. O el´astico est´a suspenso a 30 m de altura.
x
F
Figura 2.19: O arqueiro puxa a seta de uma distˆ ancia x.
(a) O salto ´e seguro para uma crian¸ca com uma massa de 40 kg? (b) E para um adulto com massa de 80 kg? 2.14. O arco e flecha A rela¸ca˜o entre o m´odulo da for¸ca que um arqueiro exerce, F , e a distˆancia, x, que deslocou para tr´as a corda do arco ´e quase linear, F = kx. Dados de um arco concreto s˜ao
˜ 2.9. ACTIVIDADES, QUESTOES E PROBLEMAS
55
F = 171 N para um deslocamento de 43 cm. A massa de uma flecha ´e de 20, 1 g [7]. (a) Qual ´e o trabalho realizado pelo arqueiro para tensionar o arco? (b) Se a flecha partir com toda a energia el´astica armazenada no arco, com que velocidade partir´a? (c) Na realidade a eficiˆencia de uma arco moderno de competi¸ca˜o anda a` volta de 70%. Isto ´e, s´o cerca de 70% da energia fornecida no acto de tensionar o arco acaba como energia cin´etica da flecha. Qual ´e a velocidade de sa´ıda da flecha? 2.15. Saltos de esqui Os esquiadores podem sair de uma rampa de salto de esqui a uma velocidade de cerca de 90 km h−1 . O aˆngulo da rampa com a horizontal ´e cerca de 30o . Com estes dados e supondo que a for¸ca de atrito da rampa ´e desprez´avel calcular: (a) O desn´ıvel entre a posi¸ca˜o de partida e a posi¸ca˜o onde ´e iniciado o salto, h. (b) O comprimento da rampa de sa´ıda; (c) Que dado ´e necess´ario para poder calcular o trabalho do peso do esquiador durante a descida da rampa para o salto? 2.16. Um avi˜ao, voando 300 m de altitude, a uma velocidade de 400 km h−1 , larga uma bomba de 200 kg. (a) Qual ´e a energia cin´etica da bomba ao ser largada? (b) Qual ´e a energia cin´etica da bomba ao atingir o solo, se ignorarmos a resistˆencia do ar? 2.17. Saltos de mota Um motociclista executa um salto, subindo um rampa que faz um aˆngulo de 15o com a horizontal. A sua velocidade a` sa´ıda da rampa ´e de 90 km h−1 . No seu voo, sobe at´e 2 m acima do topo da rampa (medidos na vertical). Que velocidade tem o motociclista ao passar a essa altura m´axima? 2.18. Mentira desmascarada por um f´ısico. Um condutor causou um acidente ao entrar num cruzamento a 60 km h−1 . Disse em tribunal que estava parado no seu
h
d
Figura 2.20: Salto de esqui.
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
56
carro a 50 m do cruzamento e que ficou sem trav˜oes; como a rua descia, o carro embalou e ele nada pˆode fazer. Um investigador da companhia de seguros foi ao local, fez uma medi¸ca˜o e provou que o condutor estava a mentir. (a) Que medi¸ca˜o fez o perito? (b) Que inclina¸ca˜o2 teria que ter a estrada para que o perito n˜ao pudesse tirar a conclus˜ao que tirou?
2.9.3
Desafios
2.1. Consumo autom´ ovel A for¸ca de resistˆencia do ar ao movimento de um autom´ovel pode calcular-se pela seguinte express˜ao F = cρAv 2 em que: • c ´e o coeficiente aerodinˆamico, sem dimens˜oes, e vale entre 0.3 ∼ 0, 4. • ρ ´e a massa vol´ umica do ar; • A ´e a a´rea da sec¸ca˜o recta do autom´ovel; • v ´e a velocidade do autom´ovel. (a) Para um autom´ovel que se desloca a 90 km h −1 qual ´e a energia transferida devido a` resistˆencia do ar em 1 h de viagem (c = 0, 35)? (estimar a a´rea da sec¸ca˜o recta). (b) Se o consumo de gasolina for essencialmente devido a esta transferˆencia, e o autom´ovel gastar 7 litros de combust´ıvel aos 100 (km), em terreno horizontal, qual ser´a o consumo se o autom´ovel fizer um trajecto de uma hora, a` mesma velocidade de 90 km h−1 , mas com uma subida de 1000 m ? (c) Na realidade, se o motor funcionar, o autom´ovel consome gasolina mesmo parado. Calcular o consumo na subida, conhecendo: i. o consumo C1 com o autom´ovel parado, mas com o motor a funcionar em regime semelhante ao que ´e necess´ario para obter 90 km h−1 ; 2 Em Portugal, a inclina¸ca ˜o, i, de uma estrada ´e dada em percentagem do seguinte modo: i = 100 × (h/d) em que h ´e varia¸ca ˜o de altitude para um tro¸co de estrada de comprimento d.
˜ 2.9. ACTIVIDADES, QUESTOES E PROBLEMAS
57
ii. o consumo C2 em terreno horizontal a 90 km h−1 . 2.2. Tempos de subida e descida Se um corpo ´e lan¸cado na vertical verifica-se que o tempo que demora at´e atingir a altura m´axima ´e igual ao tempo que demora a descer a` altura de lan¸camento, se n˜ao houver resistˆencia do ar. (a) Porquˆe? Que rela¸ca˜o tem esse facto com a conserva¸ca˜o de energia? (b) E se houver resistˆencia do ar, os dois tempos continuam a ser iguais? Se n˜ao, qual ´e o maior: o de subida ou de descida? Sugest˜ ao: pensar na velocidade com que o corpo passa a uma dada altura na subida e na descida.
58
CAP´ITULO 2. TRABALHO E ENERGIA
Cap´ıtulo 3
Colis˜ oes 3.1
Colis˜ oes em F´ısica
Na fronteira entre a Fran¸ca e a Su´ı¸ca, junto ao Lago Genebra, existe um t´ unel de 27 km de comprimento. N˜ao serve para apressados motoristas atravessarem complicadas passagens de montanha com mais rapidez. Se o percorremos integralmente, voltaremos ao lugar de partida: ´e um anel. Faz parte do maior laborat´orio de F´ısica de part´ıculas do mundo, o CERN.
Figura 3.1: Fotografia a´erea do CERN, junto ao lago Genebra. Est˜ ao marcados na foto alguns dos an´eis aceleradores deste laborat´ orio. O maior ocupa um t´ unel de 27 km de per´ımetro [2].
O t´ unel est´a repleto de material cient´ıfico, magnetos, cˆamaras de radio-frequˆencia, detectores. No interior de um tubo de alto v´acuo, 59
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
60
circularam1 os u ´ nicos viajantes deste t´ unel, electr˜oes e positr˜oes, guiados e aceleradas at´e velocidades pr´oximas da luz, por uma combina¸ca˜o judiciosa de campos el´ectricos e magn´eticos. Para quˆe? Os electr˜oes (carga negativa) e os positr˜oes (carga positiva) eram acelerados no t´ unel em sentidos opostos. Em alturas determinadas, os dois feixes colidiam em zonas do anel equipadas com detectores de part´ıculas. As enormes quantidades de energia dos feixes materializavam-se em part´ıculas que emergiam da zona da colis˜ao, para serem detectadas e medidas nos detectores. Foram conseguidas, por este processo, v´arias descobertas muito importantes, sobre a constitui¸ca˜o mais fundamental da mat´eria. Figura 3.2: Exemplo de um evento registado no CERN. As traject´ orias das part´ıculas s˜ ao reconstru´ıdas por computadores a partir de sinais electr´ onicos nos detectores[2].
O uso de colis˜oes para estudar a constitui¸ca˜o da mat´eria e as interac¸co˜es entre os seus constituintes ´e, contudo, muito anterior a` constru¸ca˜o de aceleradores de part´ıculas como os do CERN. Em 1911, Ernest Rutherford, um f´ısico neo-zelandˆes, a trabalhar em Inglaterra, descobriu a existˆencia do n´ ucleo at´omico, estudando o modo como as part´ıculas α eram desviadas em colis˜oes com a´tomos de uma folha de ouro. H´a uma enorme quantidade de conceitos de f´ısica envolvidos na an´alise das colis˜oes do CERN, ou mesmo nas mais modestas colis˜oes estudadas por Rutherford. Neste cap´ıtulo, far-se-´a apenas uma muito breve introdu¸ca˜o a conceitos relacionados com a conserva¸ca˜o de energia em colis˜oes.
3.1.1
O que ´ e uma colis˜ ao?
O que ´e uma colis˜ao entre duas bolas de bilhar? As bolas aproximam-se uma da outra, cada uma movendo-se como se a outra n˜ao existisse, at´e se tocarem. Depois afastam-se com velocidades modificadas. A interac¸ca˜o entre elas parece ser instantˆanea, ou, pelo menos, ter uma dura¸ca˜o t˜ao curta, que dela n˜ao nos apercebemos. A colis˜ao de uma bola de basquetebol com o solo ´e semelhante. Estes exemplos poderiam levar-nos a associar a no¸ca˜o de colis˜ao a uma interac¸ca˜o de contacto muito breve. Mas, o conceito de “contacto” n˜ao existe ao n´ıvel at´omico. O tamanho de um a´tomo, cerca de 1 ˚ A = 10−10 m, ´e essencialmente determinado pela distˆancia a que os electr˜oes se movem em torno do n´ ucleo; o a´tomo ´e, 1 Neste momento n˜ ao correm experiˆencias, porque este t´ unel est´ a a ser modificado para instalar um novo acelerador de part´ıculas, o LHC, Large Hadron Collider, previsto para entrar em funcionamento em 2007.
˜ 3.1. COLISOES EM F´ISICA
61
Equa¸ c˜ ao de Einstein Al´em do princ´ıpio de conserva¸ca ˜o de energia, que temos discutido, existe um outro, descoberto h´ a mais tempo, que ´e a lei de conserva¸ca ˜o de massa, de Lavoisier. Se as part´ıculas que constituem a mat´eria (electr˜ ao, prot˜ ao, neutr˜ ao, etc) existissem para sempre, a lei de conserva¸ca ˜o de massa seria uma consequˆencia de o n´ umero destas part´ıculas ser constante. Sabemos, hoje, que ´e poss´ıvel criar e destruir part´ıculas, transform´ a-las em outras part´ıculas ou em radia¸ca ˜o. Einstein descobriu que n˜ ao havia duas leis de conserva¸ca ˜o separadas, massa e energia, mas apenas uma. Aos termos de energia que j´ a conhecemos, associados a movimento, ou interac¸co ˜es, juntou um termo, para cada part´ıcula de massa m, chamado a energia em repouso e dada pela mais c´elebre f´ ormula da F´ısica: E = mc2 , em que c ´e a velocidade da luz. A massa n˜ ao ´e conservada (as part´ıculas podem ser destru´ıdas e criadas) mas a energia total ´e, se incluirmos os termos de energia em repouso. Nas colis˜ oes electr˜ ao-positr˜ ao dos aceleradores do CERN, as energias cin´eticas do electr˜ ao e do positr˜ ao s˜ ao t˜ ao elevadas (velocidades pr´ oximas da luz), que ´e poss´ıvel criar um grande n´ umero de part´ıculas, de massa muito mais elevada que as do electr˜ ao ou do positr˜ ao. Se a massa total das part´ıculas emergentes da colis˜ ao for M , a conserva¸ca ˜o de energia implica que 2me c2 + Ec = M c2 + Ec0 , em que Ec ´e a energia cin´etica total do electr˜ ao e positr˜ ao que colidem e Ec0 ´e a energia cin´etica total das part´ıculas que resultam da colis˜ ao, mais a energia da radia¸ca ˜o. Como explicar, ent˜ ao, a lei de Lavoisier? As part´ıculas mais leves que se conhecem s˜ ao os electr˜ oes e positr˜ oes. Para criar um par (n˜ ao ´e poss´ıvel criar um electr˜ ao sem criar um positr˜ ao), ´e necess´ ario dispor de uma energia de: 2me c2 = 2 × 9, 1 × 10−31 × (3 × 108 )2 = 1, 6 × 10−13 J = 106 eV. Nas reac¸co ˜es qu´ımicas entre duas mol´eculas s˜ ao libertadas energias da ordem de 1 eV. Nunca h´ a energia suficiente para criar, sequer, a part´ıcula mais leve. Da´ı que a massa seja conservada. Mas se a energia for suficientemente elevada, ou se juntarmos uma part´ıcula com a sua anti-part´ıcula, como nos aceleradores do CERN, isso deixa de ser verdade.
Caixa 3.1: Rela¸ca ˜o de Einstein e conserva¸ca ˜o de energia.
62
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
sobretudo, espa¸co vazio. As for¸cas que os a´tomos (neutros) exercem uns sobre os outros s˜ao muito fracas, quando as distˆancias s˜ao grandes comparadas com o tamanho at´omico, mas tornam-se muito fortes, e repulsivas, quando a distˆancia ´e da ordem, ou menor, que o tamanho at´omico. Por isso nos parece que objectos como bolas de bilhar s´o interagem quando se tocam. magnetos
210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 210210 2020 Figura 3.3: Os magnetos impedem os carros de se aproximarem demasiado.
No outro extremo, os astrof´ısicos estudam colis˜oes entre gal´axias, em que as distˆancias entre as estrelas que as comp˜oem s˜ao da ordem do tamanho de uma gal´axia e a colis˜ao pode durar 100 milh˜oes de anos. Na actividade 3.2, observam-se colis˜oes entre carros, numa calha de alum´ınio, sem que estes realmente se toquem. Na extremidade de cada carro existem dois magnetos. Quando os carros se aproximam demasiado, as for¸cas repulsivas entre os magnetos tornam-se elevadas e, num curto intervalo de tempo, o movimento dos carros ´e alterado. Se os carros n˜ao se tocam, ser´a que deveremos chamar a isto uma colis˜ao? Quando se reflecte um pouco em todos estes exemplos, chegamos a` conclus˜ao que, o que importa, realmente, neste tipo de interac¸ca˜o, ´e que existe um tempo durante o qual os objectos se movem independentemente um do outro, sem for¸cas m´ utuas; depois interagem durante um intervalo de tempo limitado e finalmente emergem da interac¸ca˜o (eventualmente modificados), de novo livres de interacc¸o˜es m´ utuas.
. Actividade 3.1
Em resumo, o que caracteriza uma colis˜ao, ´e que h´a um antes e um depois em que o movimento ´e f´acil de descrever porque n˜ao h´a interac¸co˜es. Por esta raz˜ao, princ´ıpios de conserva¸ca˜o, como o da energia, s˜ao muito importantes na an´alise e discuss˜ao de colis˜oes. O que acontece durante a colis˜ao, pode ser complexo e extremamente dif´ıcil, ou imposs´ıvel, de descrever. Mas as grandezas conservadas, como a energia, n˜ao podem mudar e permitem-nos relacionar os estados inicial e final do sistema.
3.2 . Actividade 3.2
Conserva¸ c˜ ao de energia em colis˜ oes
Para ser concreto, tomemos uma colis˜ao entre dois carros como os da Actividade 3.2. Quando os carros est˜ao afastados, n˜ao interagem. A respectiva energia potencial ´e constante, pois n˜ao h´a for¸cas m´ utuas que possam realizar trabalho. Como vimos atr´as,
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
63
podemos tomar essa constante como zero. A energia dos carros antes da colis˜ao ´e cin´etica: E=
1 1 m1 v12 + m2 v22 . 2 2
m1 e m2 s˜ao as massas dos dois carros e v1 e v2 as respectivas velocidades antes da colis˜ao. Se as velocidades depois da colis˜ao forem v 10 e v20 , a energia ser´a: 1 1 2 2 E 0 = m1 v 0 1 + m2 v 0 2 . 2 2 Havendo conserva¸ca˜o de energia, ter´ıamos: E = E0. Na Actividade 3.2 verifica-se que, em geral, isto n˜ao acontece. O mais frequente ´e ter-se E 0 < E, embora seja poss´ıvel preparar situa¸co˜es em que se verifica o contr´ario 2 . Vejamos exemplos: a) Se dois carros idˆenticos colidem com velocidades de m´odulo igual e sentidos opostos e ficam juntos (colados), a respectiva velocidade final ´e nula. Sen˜ao, repare-se: dois carros iguais, a mover-se com velocidades de m´odulo igual, um em direc¸ca˜o ao outro. Colidem e ficam juntos. Por que raz˜ao haveriam de se mover num sentido e n˜ao no sentido oposto? Ou ´ nico resultado compat´ıvel com a simetria da situa¸ca˜o ´e uma velocidade final nula. Neste caso a energia cin´etica final ´e zero. b) Uma bola de basquete, v´olei, ou t´enis, nunca sobe a` altura inicial se for deixada cair sobre uma superf´ıcie r´ıgida. Isso significa que perdeu energia cin´etica ao colidir com o solo. Se partiu do repouso, a sua energia inicial era E = mgh. Se atingir a altura h0 , a sua energia ´e E 0 = mgh0 (a velocidade ´e nula no ponto de altura m´axima). A maior parte da energia perdida, mg(h − h0 ), ´e devida a` colis˜ao com o solo. Estas colis˜oes, em que n˜ao h´a conserva¸ca˜o de energia cin´etica, chamam-se inel´asticas. As colis˜oes entre objectos macrosc´opicos, em geral, s˜ao inel´asticas, em maior ou menor grau. O que acontece a` energia? Numa colis˜ao inel´astica n˜ao h´a conserva¸ca˜o de energia? 2 Eis um exemplo: prepara-se um carrinho com uma mola comprimida na extremidade. Se a mola for libertada na colis˜ ao a energia cin´etica do conjunto pode aumentar.
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
64
3.2.1
Na Actividade 3.3 consideram-se v´arios exemplos de colis˜oes inel´asticas em que se torna evidente que a energia cin´etica perdida pode ser transferida para outros movimentos, que n˜ao o de transla¸ca˜o do corpo.
. Actividade 3.3
O O
O
(a)
O
O
O
(b)
Movimento da mol´ ecula de O2
O O
Figura 3.4: (a) Numa transla¸ca ˜o, os dois a ´tomos de oxig´enio tˆem o mesmo deslocamento e a mesma velocidade; (b)num movimento mais geral tˆem velocidades diferentes.
Para compreender melhor esta situa¸ca˜o, vamos considerar um corpo muito simples, a mol´ecula de O2 . Tem dois a´tomos de oxig´enio a` ˚ A massa da mol´ecula ´e quase exclusivamente distˆancia de 1, 48 A. devida a` massa dos dois n´ ucleos, cujas dimens˜oes s˜ao muito inferiores a` da pr´opria mol´ecula. Assim, a energia cin´etica associada ao movimento da mol´ecula ´e, no essencial, a energia cin´etica dos dois n´ ucleos3 : 1 1 EO2 = mO v12 + mO v22 . (3.1) 2 2 Se as velocidades dos dois n´ ucleos forem iguais (em m´odulo, direc¸ca˜o e sentido), a mol´ecula tem um movimento dito de transla¸ c˜ ao. Nesse caso podemos dizer que a velocidade da mol´ecula ´e v = v 1 = v2 e 1 1 EO2 = (2mO )v 2 = mO2 v 2 . 2 2 Mas, o movimento de transla¸ca˜o ´e uma situa¸ca˜o muito especial. Os a´tomos de oxig´enio podem rodar ou oscilar em torno da posi¸ca˜o m´edia. As velocidades de cada a´tomo s˜ao, em geral, diferentes e v1 6= v2 . O que ´e, nesse caso, a velocidade da mol´ ecula? 3.2.1.1
Centro de massa
O ponto m´edio entre os dois n´ ucleos (sobre o segmento que os une, a distˆancia igual dos dois n´ ucleos) ´e designado por centro de massa da mol´ecula de O2 . O movimento dos dois n´ ucleos implica que o ponto m´edio entre eles tamb´em se desloque. Podemos tomar a sua velocidade, vcm , como sendo a velocidade da mol´ecula, como um todo. A vantagem desta escolha particular ´e que a energia cin´etica total da mol´ecula se pode escrever na forma 4 : 1 2 + E0. EO2 = mO2 vcm 2 3
A contribui¸ca ˜o electr´ onica para a energia da mol´ecula ´e importante e uma parte significativa dessa energia ´e energia cin´etica dos electr˜ oes. Mas essa energia s´ o varia se houver uma mudan¸ca de estado electr´ onica, uma altera¸ca ˜o da nuvem electr´ onica. Em geral, isso n˜ ao acontece numa colis˜ ao entre duas mol´eculas ou com outros a ´tomos a baixas energias. 4 A demonstra¸ca ˜o deste resultado ser´ a feita no 11o ano.
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
65
O primeiro termo ´e exactamente o que esperar´ıamos, se a mol´ecula fosse uma part´ıcula simples, com movimento definido pela posi¸ca˜o de um ponto. Isto ´e, se a mol´ecula fosse uma part´ıcula material. O segundo termo ´e a energia cin´etica dos n´ ucleos no seu movimento relativo ao centro de massa. Ou seja, 1 1 2 2 E 0 = mO v 0 1 + mO v 0 2 . 2 2 As velocidades v10 e v20 s˜ao medidas tomando como origem de coordenadas o centro de massa, ponto m´edio entre os dois n´ ucleos. Imaginemos agora uma colis˜ao desta mol´ecula com um a´tomo de H´elio, por exemplo, conforme se mostra na Fig. 3.5.
O O O
O He He
Figura 3.5: A mol´ecula de O2 , ap´ os a colis˜ ao, tem movimentos de rota¸ca ˜o e de vibra¸ca ˜o, sobrepostos ao de transla¸ca ˜o.
Se n˜ao olharmos para “dentro” da mol´ecula de O 2 , e seguirmos apenas o movimento do seu centro de massa, usando um modelo de part´ıcula material, ser´a de esperar que se conserve a energia cin´etica, 1 1 2 2 + mHe vHe mO2 vcm ? 2 2 Na geometria da Fig. 3.5, a mol´ecula de O 2 ter´a, certamente, um movimento de rota¸ca˜o em torno do seu centro; a sua energia cin´etica total n˜ao ser´a apenas o termo associado ao movimento do centro de massa. Em geral, haver´a at´e uma oscila¸ca˜o dos dois n´ ucleos em torno da posi¸ca˜o de equil´ıbrio e teremos uma contribui¸ca˜o de energia potencial, resultante da interac¸ca˜o entre eles. A equa¸ca˜o do balan¸co da energia ter´a de incluir todos os termos que podem variar na interac¸ca ˜o: 1 1 2 2 + E 0 + Ep = const. mHe vHe + mO2 vcm 2 2
. Part´ıcula material: um sistema f´ısico numa situa¸ca ˜o em que o seu movimento pode ser descrito pela posi¸ca ˜o de um ponto.
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
66
Em resumo: n˜ao h´a conserva¸ca˜o da soma das energias cin´eticas do a´tomo de h´elio e da mol´ecula de O2 , considerados como part´ıculas materiais. Mas h´a conserva¸ca˜o de energia quando levamos todos os movimentos em considera¸ca˜o.
3.2.2
Energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao e centro de massa
Veremos no 11o ano que o conceito de centro de massa ´e aplic´avel a qualquer sistema complexo de massas, desde um a´tomo at´e uma gal´axia. Trata-se de um ponto cuja posi¸ca˜o ´e determinada, em cada instante, pelas posi¸co˜es da massas do sistema e cuja velocidade, ~vcm , permite a seguinte decomposi¸ca˜o da energia cin´etica total do corpo:
A energia cin´etica total de um corpo pode escrever-se na forma: 1 2 + E0 Ec = M vcm 2 em que: • M ´e a massa total do corpo; • ~vcm ´e a velocidade do centro de massa; • E 0 ´e a energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa.
Para objectos geometricamente regulares, com distribui¸ca˜o sim´etricas de massa (esferas, cilindros, cubos), a posi¸ca˜o do centro de massa coincide com o centro geom´etrico do corpo. N˜ao vamos, de todo, considerar situa¸co˜es mais complexas. O termo de energia cin´etica associado ao movimento do centro de massa ´e designado por energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao.
3.2.3
O modelo de part´ıcula material
Mesmo sem o sabermos, us´amos, em todo o cap´ıtulo 2, um modelo de part´ıcula material para descrever o movimento dos corpos. Ao falarmos na velocidade de um corpo estamos a supor que
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
67
o seu movimento pode ser descrito pela varia¸ca˜o de posi¸ca˜o de um ponto. Os corpos macrosc´opicos podem ter movimentos muito mais complexos. Aquilo a que cham´amos energia cin´etica de um corpo era, realmente, apenas a energia cin´etica de transla¸ca˜o, determinada pelo movimento do centro de massa. Se s´o esse termo variar num determinado processo, o modelo de part´ıcula material ´e apropriado. Por exemplo, no movimento orbital da Terra em torno do Sol, ´e muito boa aproxima¸ca˜o considerar apenas as varia¸co˜es de energia associadas ao movimento de centro de massa da Terra: o modelo de part´ıcula material ´e aplic´avel. J´a numa colis˜ao de uma mol´ecula de O2 com um a´tomo de He, este modelo pode n˜ao ser adequado. Estes exemplos mostram que o modelo de part´ıcula material nada tem a ver com o tamanho ou a complexidade do sistema. Tem apenas a ver com o facto de, em muitas situa¸co˜es, as varia¸co˜es de energia poderem ser caracterizadas em termos do movimento do centro de massa. 2 /2, ´ A energia cin´etica de transla¸ca˜o, M v cm e apenas um dos termos associados ao movimento de um corpo. Quando dois corpos interagem, em geral, a soma das respectivas energias cin´eticas de transla¸ca˜o n˜ao se conserva, podendo haver transferˆencia de energia do movimento de transla¸ca˜o de cada um dos corpos para outros ´ isto que se passa numa colis˜ao inel´astica. tipos de movimento. E
3.2.4
Coeficiente de restitui¸ c˜ ao
Numa colis˜ao, que quantidade de energia cin´etica pode ser transferida para outros modos? Toda? S´o uma parte? Na Actividade 3.2 investigamos colis˜oes entre dois carros de iguais massas, m. Algumas s˜ao colis˜oes fortemente inel´asticas: perde-se uma parte substancial (ou mesmo a totalidade) da energia cin´etica. Temos duas maneiras de escrever a energia cin´etica dos dois carros (ver Caixa 3.2) : a) Como a soma das energias de cada um dos carros: 1 1 Ec = mv12 + mv22 . 2 2 b) Como a soma da energia cin´etica de transla¸ca˜o do sistema dos dois carros com a energia cin´etica de movimento relativo
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
68
C´ alculos de energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao Exemplo 1: Se os dois carros se aproximam um do outro com velocidades de sentido oposto e igual m´ odulo, v, a energia cin´etica total ´e 1 1 Ec = mv 2 + mv 2 = mv 2 . 2 2 O centro de massa (ponto m´edio entre os dois carros) n˜ ao se move, porque os carros deslocam-se a mesma distˆ ancia em tempos iguais. Assim, vcm = 0. A energia cin´etica de transla¸ca ˜o do sistema de dois carros ´e nula. Toda a energia cin´etica ´e de movimento relativo: E 0 = Ec . Exemplo 2: Se um dos carros est´ a parado e o outro se aproxima com velocidade v, a energia cin´etica total ´e Ec =
1 mv 2 . 2
Quando o carro em movimento avan¸ca de x, o ponto m´edio entre os dois carros avan¸ca de x/2. Logo, a velocidade do centro de massa ´e v/2. A energia cin´etica de transla¸ca ˜o ´e Etr =
v 2 1 1 = mv 2 (2m) 2 2 4
ou seja, metade da energia cin´etica total. d/2
d/2 CM
v
v
543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 543 53 Exemplo1
d/2 d v
CM
v/2
746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 746 76 Exemplo 2
Caixa 3.2: Exemplos de c´ alculo da energia cin´etica de transla¸ca ˜o de um sistema de dois corpos.
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
69
ao centro de massa (que ´e o ponto m´edio entre os carros, como no caso da mol´ecula de O2 ): 1 2 + E0 Ec = (2m)vcm 2 ´ muito importante distinguir a energia de transla¸ca˜o do sistema E dos dois carros, da soma das energias cin´eticas de transla¸ca˜o de cada carro. Para dois carros iguais, a posi¸ca˜o do centro de massa do sistema ´e o ponto m´edio entre os dois carros. A velocidade do centro de massa do sistema ´e a velocidade desse ponto. Por exemplo, se os carros se aproximarem um do outro com velocidades de m´odulo igual, v, o ponto m´edio entre eles n˜ao se desloca: ~v cm = 0 e a energia cin´etica de transla¸ca˜o do sistema ´e nula (ver Caixa 3.2 da p´agina 68). Mas a energia cin´etica de transla¸ca˜o de cada carro ´e mv 2 /2. Veremos, no 11o ano, que as leis do movimento de Newton implicam a conserva¸ca˜o da energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao de um sistema isolado (os dois carros no nosso exemplo). A u ´nica parte que pode variar numa colis˜ ao ´e a energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa, E 0 . ´ habitual caracterizar o grau de inelasticidade de uma colis˜ao pelo E respectivo coeficiente de restitui¸ c˜ ao, e, definido do seguinte modo. A raz˜ao entre as energias cin´eticas de movimento relativo depois e antes de uma colis˜ao, Ef0 e Ei0 , ´e o quadrado de e: e2 =
Ef0 Ei0
.
Quando os corpos que colidem ficam juntos ap´os a colis˜ao, a velocidade de cada corpo ´e tamb´em a velocidade do centro de massa: n˜ao h´a movimento relativamente ao centro de massa. Neste caso, Ef0 = 0 e e = 0: a colis˜ao diz-se perfeitamente inel´astica. Se houver conserva¸ca˜o de energia cin´etica, E f0 = Ei0 e e = 1: a colis˜ao ´e el´astica. 3.2.4.1
Colis˜ ao com um objecto fixo
Uma colis˜ao com um objecto fixo, como uma parede, pode ser inclu´ıda, da seguinte forma, na discuss˜ao anterior.
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
70
Um objecto fixo funciona como um corpo de massa infinita (a parede est´a fixa a` casa, que por sua vez est´a rigidamente ligada ao solo, etc.). Neste caso, o centro de massa do sistema pode ser considerado como sendo o centro de massa do objecto de massa infinita, que permanece im´ovel; logo, v cm = 0. O quadrado do coeficiente de restitui¸ca˜o ´e simplesmente: mvf2 /2 vf2 Ef = = 2, e = Ei mvi2 /2 vi 2
em que m ´e a massa do sistema que colide com a parede e v i e vf s˜ao as suas velocidades, antes e depois da colis˜ao. Sendo assim, o coeficiente de restitui¸ca˜o ´e e=
3.3
vf . vi
Actividades, quest˜ oes e problemas
3.3.1
Actividades
3.1. Colis˜ ao de bola com superf´ıcie Considerar a colis˜ao entre uma bola e uma superf´ıcie nas seguintes situa¸co˜es limite: i) Uma superf´ıcie muito deform´avel (como um membrana el´astica) e uma bola r´ıgida (como uma bola de bilhar). ii) Uma superf´ıcie muito r´ıgida (parede) e uma bola (muito) deform´avel. Para estes dois casos: (a) Fazer uma representa¸ca˜o esquem´atica da configura¸ca˜o dos dois corpos, em fun¸ca˜o do tempo, incluindo v´arios instantes durante a colis˜ao. (b) Representar, nesses esquemas, as for¸cas que a superf´ıcie e o corpo exercem mutuamente. (c) Fazer um gr´afico qualitativo da energia cin´etica da bola em fun¸ca˜o da sua posi¸ca˜o relativamente a` parede. Relacionar as varia¸co˜es de energia cin´etica da bola com o trabalho das for¸cas que a parede exerce sobre ela. 3.2. Colis˜ oes entre carrinhos Ver ficha de actividade A7.
˜ 3.3. ACTIVIDADES, QUESTOES E PROBLEMAS
71
3.3. Colis˜ oes inel´ asticas Ver ficha de actividade A8. 3.4. Ensaio Um colega, faz a seguinte afirma¸ca˜o: “Quando atiro uma bola de plasticina a` parede, a energia que imprimi a` bola perde-se: a energia n˜ao ´e conservada”. Escrever um texto (m´aximo de uma p´agina A4) rebatendo essa conclus˜ao, recorrendo a exemplos e a situa¸co˜es an´alogas a` apontada pelo colega.
3.3.2
Problemas e quest˜ oes
3.1. Colis˜ ao de ´ atomos de h´ elio Dois a´tomos de h´elio, no respectivo estado fundamental, colidem com velocidades de 100 m s−1 . (a) Qual ´e a energia cin´etica total em electr˜oes-volt? (b) Sabendo que o primeiro estado excitado de um a´tomo de h´elio est´a quase 20 eV acima do fundamental, esta colis˜ao ser´a el´astica ou inel´astica? 3.2. Colis˜ oes entre autom´ oveis (1) Como classificar uma colis˜ao frontal entre dois autom´oveis? (a) El´astica; (b) fracamente inel´astica (e . 1); (c) fortemente inel´astica (e ≈ 0). 3.3. Colis˜ oes entre autom´ oveis (1) Considerar as seguintes colis˜oes frontais entre autom´oveis idˆenticos (m = 1000 kg): i) Um carro a 45 km h−1 colide com outro parado. ii) Dois carros colidem com velocidades de 30 km h −1 de sentidos opostos. (a) Calcular as energias cin´eticas totais iniciais. (b) Calcular as energia cin´eticas iniciais de movimento relativo ao centro de massa. (c) Qual destas colis˜oes seria classificada de mais violenta (causadora de maiores danos nos autom´oveis e seus ocupantes)? Justificar.
72
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
3.4. Bola de basquete Uma bola de basquetebol, largada do repouso de uma altura 1 m, s´o sobe a uma altura de 80 cm. (a) Qual ´e o coeficiente de restitui¸ca˜o da colis˜ao com o solo? (b) O coeficiente de restitui¸ca˜o, em boa aproxima¸ca˜o, ´e independente das velocidades iniciais dos corpos que colidem. A que altura subir´a a bola de basquete no segundo ressalto do solo? 3.5. Sucesso do CERN Um dos objectivos dos aceleradores de part´ıculas ´e obter a m´axima energia poss´ıvel para permitir a cria¸ca˜o de part´ıculas de massa mais elevada. Por que ´e que uma configura¸ca˜o de dois feixes a viajar em sentidos opostos ´e mais eficaz do que uma colis˜ao de um feixe com um alvo estacion´ario?
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