Projecto Faraday Textos de Apoio
Sistemas de Part´ıculas 12º Ano de Escolaridade
Porto, Outubro de 2009
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Ficha T´ ecnica Projecto de interven¸c˜ao no ensino da F´ısica no secund´ario. Financiamento Funda¸c˜ ao Calouste Gulbenkian. Execu¸ c˜ ao Departamento de F´ısica, Faculdade de Ciˆencias da Universidade do Porto. Escolas Participantes ES Filipa de Vilhena ES Fontes Pereira de Melo ES Garcia de Orta ES da Maia ES de Santa Maria da Feira
Coordena¸ c˜ ao J. M. B. Lopes dos Santos Manuel Joaquim Marques
Portal URL: http://www.fc.up.pt/faraday
Texto do 12º Ano Redactor Principal J. M. B. Lopes dos Santos
3 Colabora¸ c˜ ao e revis˜ ao Elisa Arieiro Carlos M. Carvalho Manuel Joaquim Marques Maria de F´ atima Mota
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Cap´ıtulo 7
Sistemas de part´ıculas Nas Olimp´ıadas de Los Angeles, em 1984, Greg Louganis, um jovem americano de 24 anos, espantou o p´ ublico ao ganhar as medalhas de ouro de salto de plataforma e de trampolim, com um sucess˜ao de saltos praticamente perfeitos, de uma elegˆancia inexced´ıvel. Quatro anos mais tarde, em Seul, repetiu a proeza, contra jovens de metade da sua idade mesmo depois de ter aberto a cabe¸ca ao embater no trampolim, num salto de qualifica¸c˜ao. Contudo, os saltos de Louganis e dos seus competidores, com as suas piruetas e cambalhotas, ou os famosos “voos” dos guardaredes, decorrem sob ac¸c˜ ao de uma for¸ca externa constante, o seu peso, tal como no caso da queda de uma esfera. Como podem, ent˜ao, os saltadores, os ginastas, os bailarinos, os atletas, executar em voo movimentos t˜ ao complexos? Que nos podem dizer a leis de Newton sobre esta quest˜ ao? O movimento de um sistema complexo, como o corpo humano, raramente se reduz a um movimento de transla¸c˜ao em que todas as partes do corpo tˆem o mesmo deslocamento, a mesma velocidade e a mesma acelera¸c˜ ao em todos os instantes. Partes diferentes do corpo tˆem acelera¸c˜ oes diferentes em direc¸c˜oes variadas. Tal como no caso dos fluidos, as for¸cas internas tˆem um papel muito importante na determina¸c˜ ao de movimentos complexos de sistemas constitu´ıdos por muitas partes em interac¸c˜ao. Em F´ısica Newtoniana, modelam-se estas situa¸c˜oes usando o conceito de sistema de part´ıculas. Uma part´ıcula ´e um sistema suficientemente simples para que o seu movimento se possa representar pelo deslocamento de um ponto. Um corpo arbitr´ario ´e representado como sendo um conjunto (sistema) de part´ıculas actuadas quer por for¸ cas internas, derivadas da interac¸c˜ao com 5
Figura 7.1: Apesar dos seus movimentos complexos, a u ´ nica for¸ca externa significativa sobre um saltador ´e o seu peso.
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
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as outras part´ıculas do sistema, quer por for¸ cas externas, resultantes da interac¸c˜ao com outros corpos. Neste cap´ıtulo vamos considerar a seguinte quest˜ao: Que caracter´ısticas do movimento de um sistema de part´ıculas podemos obter do conhecimento das suas for¸cas externas apenas? A resposta a esta pergunta ´e muito simples e interessante.
centro de massa
11111111111111111111111111111111111111111111111111111 00000000000000000000000000000000000000000000000000000 00000000000000000000000000000000000000000000000000000 11111111111111111111111111111111111111111111111111111 00000000000000000000000000000000000000000000000000000 11111111111111111111111111111111111111111111111111111 00000000000000000000000000000000000000000000000000000 11111111111111111111111111111111111111111111111111111
Figura 7.2: Embora o movimento de um corpo em voo possa ser complexo, o seu centro de massa tem o movimento parab´olico habitual de uma queda livre.
Por mais complexo que seja um sistema e o seu movimento, as massas e as posi¸c˜oes das part´ıculas que o constituem permitemnos calcular a posi¸c˜ao de um ponto, o centro de massa, ~rcm , cujo movimento ´e o de uma part´ıcula material, com massa igual `a massa total do sistema, sujeita `a resultante das for¸ cas externas aplicadas ao sistema. Este resultado justifica, finalmente, por que raz˜ ao podemos aplicar com tanto sucesso o modelo de part´ıcula material aos movimentos de corpos muito complexos. Um aspecto do movimento, especificamente, o movimento do centro de massa, ´ e o movimento de uma part´ıcula material, em rela¸c˜ao ao qual podemos ignorar as for¸cas internas. Por outras palavras, nem arte de Greg Louganis, nem o poder de Michael Jordan, nem a agilidade de V´ıtor Ba´ıa, podem impedir os respectivos centros de massa de cair com uma acelera¸c˜ao de 9,8 m s−2 na direc¸c˜ao vertical1 .
7.1 7.1.1
Momento linear Colis˜ ao de dois carros
Quando estud´amos colis˜ oes entre dois carros, no 10º ano, consider´ amos que cada um deles podia ser caracterizado pelo deslocamento de um ponto; uma vez que o movimento de cada carro era de transla¸c˜ ao, todos os pontos do carro tinham o mesmo deslocamento. Assim, neste sistema, em vez de uma part´ıcula temos duas. Um bom s´ıtio para come¸car. Ignoremos por um momento as for¸cas externas sobre os carros: o respectivo peso ´e anulado pela reac¸c˜ao normal da calha e, em 1 Contudo, veremos que o centro de massa de um atleta n˜ ao tem uma posi¸c˜ ao fixa no seu corpo. Depende da configura¸c˜ ao do corpo, se est´ a encolhido, estendido, membros flectidos, estendidos, etc.
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7.1. MOMENTO LINEAR Sensor
Sensor
carros de colisão m1
v1
v2
m2
111111111111111111111111111111111111111111111111111111 000000000000000000000000000000000000000000000000000000 Calha para computador
Figura 7.3: Colis˜ ao de dois carros. Na medida em que cada um deles tem um movimento de transla¸ca˜o, este sistema ´e constitu´ıdo por duas part´ıculas.
primeira aproxima¸c˜ ao, o atrito ´e desprez´avel. Para o primeiro carro, F~1 = m1~a1 , em que F~1 ´e a for¸ca que sobre ele exerce o segundo carro. Do mesmo modo, F~2 = m2~a2 , em que F~2 ´e a for¸ca exercida no segundo carro pelo primeiro. A ~1 e F ~2 , que terceira lei de Newton diz-nos que estas duas for¸cas, F s˜ ao um par ac¸c˜ ao–reac¸c˜ ao, tˆem resultante nula. Ou seja, F~1 + F~2 = 0 e, portanto, m1~a1 + m2~a2 = 0. Recordando que a acelera¸c˜ ao ´e a derivada da velocidade, vem m1
d~v2 d~v1 + m1 = 0. dt dt
(t qualquer)
As propriedades da opera¸c˜ ao de deriva¸c˜ao referidas no Cap´ıtulo 2 permitem-nos escrever esta equa¸c˜ao na forma (as massas s˜ao constantes, independentes do tempo): d (m1~v1 + m2~v2 ) = 0 dt
(t qualquer).
Dizer que uma grandeza tem derivada temporal nula (em qualquer instante) ´e o mesmo que dizer que ela n˜ ao varia, ou seja: m1~v1 + m2~v2 = constante. Em conclus˜ao: multiplicando a massa de cada carro pelo respectivo vector velocidade e somando os dois vectores, m1 v~1 e m2 v~2 , os momentos lineares de cada carro, obtemos uma grandeza
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
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que n˜ ao varia no tempo: essa grandeza ´e o momento linear do sistema. Repare-se que a u ´ nica propriedade das for¸cas internas que us´ amos foi a terceira lei de Newton. Esta lei de conserva¸c˜ao de momento linear ´e, portanto, t˜ao geral como a terceira lei de Newton.
ET V 1 : Na Actividade A7 do 10º ano estud´amos duas colis˜ oes muito simples entre carros de igual massa, m1 = m2 = m. Um carro era lan¸cado, com velocidade ~v = v0ˆı, contra o outro, inicialmente parado. Numa colis˜ ao do primeiro tipo o carro lan¸cado ficava parado ap´ os a colis˜ ao. No segundo tipo de colis˜ ao os carros seguiam juntos ap´ os a colis˜ ao. Usando a conserva¸ca˜o de momento linear, responder `as seguintes perguntas. a) Qual ´e velocidade do carro que estava inicialmente parado ap´ os uma colis˜ ao do primeiro tipo? b) Qual ´e a velocidade conjunta dos dois carros ap´ os a colis˜ ao do segundo tipo ?
7.1.2
Conserva¸c˜ ao de momento linear
O resultado anterior ´e facilmente estendido para qualquer sistema de part´ıculas. Sobre cada part´ıcula do sistema exercem-se: for¸cas externas, devidas a corpos exteriores ao sistema; for¸cas internas, resultantes das interac¸c˜ oes com as outras part´ıculas do sistema.
Se somarmos todas as for¸ cas, sobre todas as part´ıculas do sistema, podemos agrupar as for¸cas internas em pares ac¸c˜ao-reac¸c˜ao, cuja soma ´e zero. O par de uma for¸ca externa ´e exercido sobre part´ıculas exteriores ao sistema e essas for¸cas n˜ ao s˜ ao somadas (ver fig. 7.4). Assim a soma de todas as for¸ cas sobre todas as part´ıculas de um sistema, ´e a resultante de todas as for¸ cas externas: ~1 + F~2 + · · · = F ~ext F
9
7.1. MOMENTO LINEAR
2
3 4
1 S
Figura 7.4: Se somarmos todas as for¸cas que actuam nas part´ıculas do sistema S, 1, 2 e 3, as for¸cas internas (a cheio) cancelam, pois podem ser agrupadas em pares ac¸ca˜o–reac¸ca˜o. Ficam apenas as for¸cas externas (a tracejado), pois os pares destas s˜ao exercidos em part´ıculas que n˜ ao pertencem a S.
Usando a segunda lei, F~1 + F~2 + · · · = m1~a1 + m2~a2 + . . . , vem
m1~a1 + m2~a2 + · · · = F~ext .
Ora, m1~a1 + m2~a2 + . . . = =
d (m1~v1 + m2~v2 + . . . ) dt d~ psist dt
em que p~sist ´e o momento linear total do sistema: p~sist = m1~v1 + m2~v2 + . . . .
(7.1)
Assim:
d~ psist ~ext . =F (7.2) dt No caso em que as for¸cas externas tˆem resultante nula, obtemos a lei de conserva¸c˜ ao do momento linear, p~sist = constante
(F~ext = 0).
As for¸cas internas de um sistema, em circunstˆ ancia alguma, podem alterar o seu momento linear total. Este s´ o varia por ac¸c˜ao de for¸cas externas ao sistema.
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
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´ poss´ıvel variar as massas dos carros usados na ET V 2 : E Actividade A7 usando duas barras met´ alicas, de massa igual a dos carros. Deste modo podemos duplicar ou triplicar a ` massa de um dos carros relativamente ao outro. Suponha que o carro com massa 2m est´ a parado. O outro, de massa m e velocidade inicial ~v = v0ˆı, colide com ele e fica parado, ap´ os a colis˜ ao. a) Qual ´e a velocidade do carro de massa 2m ap´ os a colis˜ ao? b) A energia cin´etica total dos dois carros manteve-se?
7.1.3
Momento linear e impulso
A derivada temporal do momento linear ´e o valor instantˆaneo da for¸ca externa: d~ psist = F~ext (t). dt Podemos tamb´em definir uma for¸ca m´edia num intervalo de tempo ∆t, a partir da taxa m´edia de varia¸c˜ao do momento: p ~sist (t + ∆t) − p~sist (t) ~ = Fext ∆t med e
p~sist (t + ∆t) − p~sist (t) = F~ext
med
× ∆t.
O produto I~ = F~ext
med
× ∆t
´e o impulso da for¸ca externa no intervalo de tempo t a t + ∆t. Com esta defini¸c˜ao ~psist (t + ∆t) − p~sist (t) = I~ Estas defini¸c˜ oes s˜ ao u ´ teis no tratamento de for¸cas impulsivas, for¸cas que actuam durante intervalos de tempo muito curtos: por exemplo, a for¸ca de um taco de golfe ou basebol na respectiva bola, ou de uma arma na bala durante o disparo. Em tais situa¸c˜oes ´e muito complicado saber exactamente como varia a for¸ca instantˆ anea, F~ext (t), com o tempo. A varia¸c˜ao de momento permite-nos
7.1. MOMENTO LINEAR
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calcular o impulso. Se tivermos uma ideia do intervalo de tempo da interac¸c˜ ao, o valor da for¸ca m´edia d´ a uma ideia da ordem de grandeza das for¸cas envolvidas. amos alguns No texto do 11º ano, cap´ıtulo 4, sec¸c˜ao 4.3.1, trat´ exemplos de for¸cas impulsivas.
7.1.4
Momento linear e velocidade do centro de massa
Suponhamos que a massa total do nosso sistema de part´ıculas est´ a fixa: M = m1 + m2 + . . . . (7.3) Esta equa¸c˜ ao e a defini¸c˜ ao de momento linear, p~sist = m1~v1 + m2~v2 + . . . ,
(7.4)
sugerem uma defini¸c˜ ao natural de uma velocidade global de um sistema de part´ıculas. Do mesmo modo que para uma part´ıcula o momento p~ ´e o produto m~v , podemos definir 2 p~sist = M~vcm , em que ~vcm , por raz˜ oes que se v˜ao tornar claras dentro em pouco, ´e designada por velocidade do centro de massa. Por que ´e que esta defini¸c˜ ao ´e u ´ til? Se as for¸cas externas sobre o nosso sistema tiverem resultante nula, ~psist = constante. Logo: A velocidade de centro de massa, ~vcm , de um sistema de part´ıculas de massa total M fixa, mant´em-se constante se a resultante das for¸cas externas que actuam nesse sistema for nula.
⊲ Primeira lei de Newton.
Se repararmos na equa¸c˜ ao 7.2 e a aplicarmos a um corpo de massa fixa, obtemos: d~vcm d~ psist =M = F~ext . dt dt A acelera¸c˜ ao do centro de massa de um sistema de part´ıculas, multiplicada pela massa total M (fixa) do sistema ´e igual ` a resultante das for¸cas externas aplicadas ao sistema. 2
~vcm .
Como j´ a sabemos o que s˜ ao p ~sist e M , esta equa¸c˜ ao ´e uma defini¸ c˜ ao de
⊲ Segunda lei de Newton.
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
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Estes dois resultados s˜ ao a primeira e segunda leis de Newton aplicadas a um qualquer sistema de part´ıculas. A descoberta das leis de Newton n˜ ao resultou do estudo de movimentos de part´ıculas. Planetas como a Terra ou a Lua, ou estrelas como o Sol, s˜ ao sistemas de muitas part´ıculas! Qualquer dos carrinhos que us´ amos nas nossas experiˆencias tem da ordem de um n´ umero de Avogadro de ´atomos; todos eles exercem for¸cas uns nos outros. Mas, por mais complexo que seja o sistema de part´ıculas, podemos associar-lhe uma velocidade, ~vcm ≡
1 (m1~v1 + m2~v2 + . . . ) , M
cuja varia¸c˜ ao ´e determinada, exclusivamente, pela resultante das for¸cas externas, de acordo com a segunda lei: M
d~vcm = F~ext . dt
´ importante notar que estes resultados n˜ E ao valeriam para um sistema de part´ıculas sem a terceira lei de Newton. Se as for¸cas internas n˜ ao se cancelassem em virtude do princ´ıpio de ac¸c˜ao – reac¸c˜ ao, o momento linear n˜ ao se conservaria, e um corpo poderia passar de um estado com ~vcm = 0 para ~vcm 6= 0 sem qualquer for¸ca externa. Newton nunca teria descoberto a primeira e segunda leis se a terceira n˜ ao se verificasse!
ET V 3 : Consideremos de novo as duas colis˜ oes referidas na ET V 1 da sec¸c˜ao 7.1.2. Quais s˜ ao as velocidades do centro de massa dos dois carros, antes e depois da colis˜ ao, nos dois casos?
7.1.5
O centro de massa
Os resultados da sec¸c˜ao anterior justificam a utiliza¸c˜ao do modelo de part´ıcula material no estudo de movimentos. Por mais complexo que seja um corpo, podemos associar-lhe uma velocidade, ~vcm , cuja varia¸c˜ao ´e determinada pela segunda lei de Newton ape´ como se o corpo fosse substitu´ıdo por nas com for¸cas externas. E uma part´ıcula, com toda a massa do corpo, M , e velocidade ~vcm ;
13
7.1. MOMENTO LINEAR
Velocidades microsc´ opicas e macrosc´ opicas. O mais pequeno volume ` a nossa escala macrosc´opica, 1 mm3 , ou 3 mesmo 1 µm (volume de um cubo de 10−3 mm de lado) tem um enorme n´ umero de ´ atomos ou mol´eculas. Aquilo que cham´ amos uma part´ıcula de fluido ´e na realidade um sistema com enorme n´ umero de part´ıculas. No caso de um l´ıquido ou g´ as elas tˆem velocidades desordenadas, com todas as direc¸co˜es. Todavia, a velocidade de centro de massa de um volume macrosc´opico de fluido, ~vcm =
1 (m1~v1 + m2~v2 + . . . ) M
(soma feita aos ´ atomos desse volume) tem uma varia¸ca˜o determinada apenas pelas for¸cas externas exercidas sobre os mesmos. Podemos tratar essa part´ıcula macrosc´opica de fluido como sendo um corpo de massa igual ` a soma das massas das part´ıculas que a constituem e de velocidade ~vcm , ao qual aplicamos a segunda lei de Newton. Assim, aquilo que cham´ amos a velocidade de um fluido num ponto, ~v (~r), ´e, de facto, a velocidade do centro de massa de um pequeno volume (pequeno, mas macrosc´opico, com muitos ´atomos) `a volta desse ponto. Note-se que, se todas as part´ıculas tiverem igual massa, m = M/N , em que N ´e o n´ umero de part´ıculas, a velocidade de uma part´ıcula macrosc´opica de fluido ´e a m´edia das velocidades dos ´ atomos que a constituem: ~vcm =
1 (~v1 + ~v2 + . . . ) N
Se esta m´edia de velocidades for nula em qualquer volume macrosc´opico, n˜ ao h´ a movimento do ponto de vista macrosc´opico: o fluido est´ a em repouso, apesar de os seus ´atomos estarem em movimento permanente.
Caixa 7.1: O que ´e a velocidade de uma part´ıcula macrosc´opica de fluido?
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CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
s´ o nos falta mesmo determinar a posi¸c˜ao dessa part´ıcula, que representa o movimento global do corpo. Como ~vcm =
1 (m1~v1 + m2~v2 + . . . ) M
parece natural tentar ~rcm =
1 (m1~r1 + m2~r2 + . . . ) . M
Com efeito, n˜ ao ´e dif´ıcil verificar que ~vcm =
d~rcm . dt
O ponto com vector de posi¸c˜ao ~rcm , o centro de massa do sistema, desloca-se com uma velocidade ~vcm . A express˜ ao que d´ a a posi¸c˜ao do centro de massa tem forma de uma m´edia sobre as posi¸c˜oes de cada part´ıcula, ponderada pela respectiva massa. No caso de N part´ıculas idˆenticas, M = N m, e ~rcm ´e a m´edia simples de todas as posi¸c˜oes. ~rcm =
1 (~r1 + ~r2 + . . . ) N
O
A verdadeira importˆ ancia do conceito de centro de massa, contudo, resulta do facto de a respectiva velocidade definir o momento linear total do sistema de part´ıculas, que ´e uma grandeza que s´ o pode variar por efeito de for¸cas externas; por mais complexo e elaborado que seja o sistema, o seu momento linear n˜ ao varia na ausˆencia de influˆencias externas.
O
r1 r2 Figura 7.5: Se a origem for o ponto m´edio entre os dois n´ ucleos ~r2 = −~r1 .
7.1.6
Determina¸c˜ ao de centros de massa
Mol´ eculas diat´ omicas Uma mol´ecula diat´ omica, homo-nuclear, como O2 , N2 ou H2 , pode ser considerada como um sistema de duas part´ıculas de massas idˆenticas, os n´ ucleos de cada um dos ´atomos da mol´ecula. A massa dos electr˜ oes ´e t˜ao pequena comparada com a dos n´ ucleos que pode ser desprezada. ´ f´acil ver que o centro de massa da mol´ecula ´e o ponto m´edio da E linha que une os dois n´ ucleos. Por defini¸c˜ ao, visto que as massas s˜ ao iguais, 1 ~rcm = (~r1 + ~r2 ), 2
7.1. MOMENTO LINEAR
15
ET V 4 : Recorrendo a uma tabela de dados f´ısicos, estimar a raz˜ ao entre a massa de todos os electr˜ oes e a massa total de uma mol´ecula de oxig´enio.
O
Quando uma mol´ecula deste tipo se move entre duas colis˜ oes, num g´as, pode rodar e vibrar. A traject´oria de cada um dos n´ ucleos pode ser complexa. Mas o centro de massa tem um movimento uniforme e rectil´ıneo enquanto a mol´ecula n˜ ao estiver sujeita a for¸cas externas.
O
em que ~r1 e ~r2 s˜ ao os vectores de posi¸c˜ao de cada n´ ucleo. Se escolhermos como origem o ponto m´edio do segmento que une os dois n´ ucleos, tem-se ~r2 = −~r1 , e ~rcm = 0. Ou seja, a origem do sistema de eixos coincide com a posi¸c˜ao do centro de massa.
Figura 7.6: As traject´ orias dos n´ ucleos podem ser complexas, por causa da rota¸ca˜o e vibra¸ca˜o da mol´ecula; a do centro de massa ´e rectil´ınea, se n˜ ao houver for¸cas externas. cm
Corpos sim´ etricos Onde est´ a o centro de massa de uma esfera homog´enea? Ser´ a necess´ario fazer explicitamente a soma que define a posi¸c˜ao do centro de massa? Um corpo com uma forma geom´etrica simples, como uma esfera, um cubo, uma placa rectangular, tem um centro de simetria u ´ nico. Se escolhermos a origem do sistema de eixos nesse centro, para cada part´ıcula (pequeno volume) com vector de posi¸c˜ao ~r, existe um idˆentico, com a mesma massa, com vector de posi¸c˜ao −~r. Ao fazer a soma sobre todas as part´ıculas do corpo, M~rcm = m1~r1 + m2~r2 + . . . , os termos cancelam aos pares e o resultado ´e ~rcm = 0: o centro de simetria ´e a posi¸c˜ ao do centro de massa. Se o corpo n˜ ao for homog´eneo, isso deixa de ser verdade. Por exemplo, numa esfera em que metade ´e de madeira e outra metade de a¸co, volumes idˆenticos diametralmente opostos n˜ ao ter˜ao massas iguais. Corpos compostos Supondo que a Terra e o Sol s˜ ao esferas sabemos onde est˜ ao os respectivos centros de massa. E o centro de massa do sistema Terra–Sol?
Figura 7.7: O centro de massa da esfera coincide com o seu centro geom´etrico. Podemos consider´ a-la constitu´ıda por part´ıculas idˆenticas com vectores de posi¸ca˜o sim´etricos, ~r e −~r, relativamente ao centro 000000 da111111 esfera. 000000 111111
111111 000000 000000 111111 000000 111111 000000 111111 000000 111111 000000 111111 000000 111111 000000 111111 000000 111111
Figura 7.8: O centro de massa desta esfera est´ a sobre o eixo representado tracejado, que passa pelo centro da esfera. Mas a sua posi¸ca˜o sobre o eixo depende das massas vol´ umicas das metades direita e esquerda da esfera.
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CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
Terra Sol
cm
M
MT
Figura 7.9: Para efeito de c´ alculo do centro de massa do sistema TerraSol cada um destes astros pode ser considerado uma part´ıcula com toda a sua massa concentrada no respectivo centro de massa (o desenho n˜ ao est´ a` a escala).
Ao fazer a soma do segundo membro da equa¸c˜ao M~rcm = m1~r1 + m2~r2 + . . . , a todas as part´ıculas da Terra e do Sol, (M = MT +M⊙ ), podemos separar os termos relativos `a Terra e ao Sol. A soma dos termos (T ) (T ) relativos ` a Terra ´e por defini¸c˜ao MT ~rcm , em que ~rcm ´e o vector de posi¸c˜ ao do centro de massa da Terra. A soma dos termos relativos (S) ao Sol d´ a M⊙~rcm . Assim, (T ) (S) + M⊙~rcm M~rcm = MT ~rcm
Esta express˜ ao ´e exactamente o que se esperaria se o Sol e a Terra fossem duas part´ıculas situadas nos respectivos centros de massa. Este resultado estende-se para qualquer sistema constitu´ıdo por v´arios corpos. Para efeito do c´alculo do centro de massa de um conjunto de corpos, cada corpo pode ser considerado como uma part´ıcula situada no respectivo centro de massa.
ET V 5 : Determinar a distˆ ancia do centro de massa do sistema Terra–Sol ao centro do Sol. Comparar com o raio do Sol.
Geometria vari´ avel Os avi˜oes com asas retracteis, designam-se por aparelhos de geometria vari´ avel. O corpo de qualquer ave, o corpo humano, s˜ ao tamb´em de geometria vari´ avel: n˜ ao s˜ ao r´ıgidos.
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7.1. MOMENTO LINEAR
cm
cm
Figura 7.10: A posi¸ca˜o do centro de massa deste sistema varia com o ˆangulo entre as duas barras. Se uma girar sobre a outra o centro de massa do sistema tem uma traject´ oria circular.
Nessas circunstˆancias a posi¸c˜ ao do centro de massa depende da configura¸c˜ ao. Vejamos um exemplo simples: duas barras homog´eneas, idˆenticas, articuladas na extremidade (fig. 7.10). O centro de massa de cada barra coincide com o seu centro geom´etrico. Para calcular o centro de massa do sistema das duas barras, podemos considerar cada uma como sendo uma part´ıcula, com toda a sua massa concentrada no respectivo centro de massa. Como as massas s˜ ao iguais estamos num situa¸c˜ao semelhante `a da mol´ecula diat´ omica: o centro de massa ´e o ponto m´edio do segmento que une os centros de massa de cada barra. Este ponto desloca-se relativamente ` as barras se o ˆ angulo entre elas variar. De modo semelhante, no voo de um saltador como Greg Louganis, a posi¸c˜ ao do centro de massa n˜ ao est´ a fixa relativamente a qualquer parte do seu corpo. Mas em qualquer instante podemos, pelo menos em princ´ıpio, determinar ~rcm a partir da distribui¸c˜ao de massa do corpo: a traject´oria desse ponto ´e a par´ abola habitual de uma part´ıcula em queda livre. Nenhuma quantidade de treino pode alterar esse facto.
ET V 6 : No sistema de duas barras da figura 7.10 uma est´ a fixa e a outra roda em torno do ponto de articula¸c˜ao das duas barras. Este movimento ´e poss´ıvel na ausˆencia de for¸cas externas aplicadas a este sistema?
7.1.7
Propuls˜ ao de foguet˜ oes
Uma ave pode voar, n˜ ao porque bata as asas, mas porque o ar exerce sobre ela uma for¸ca que cancela o seu peso!
18
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
Esta afirma¸c˜ ao ´e verdadeira no sentido em que, sem uma for¸ca externa al´em do peso, a ave n˜ ao poderia evitar que o seu centro de massa ca´ısse com uma acelera¸c˜ao de 9,8 m s−2 . Por outro lado, se n˜ ao “empurrar” o ar com as suas asas, este n˜ ao pode exercer uma for¸ca de reac¸c˜ ao sobre a ave. Contudo, no espa¸co n˜ ao h´ a ar. Apesar disso, ´e poss´ıvel manobrar uma nave, fazˆe-la mudar de direc¸c˜ao, corrigir a ´orbita, aumentar ou diminuir a respectiva velocidade. Como ´e isto poss´ıvel sem uma for¸ca externa aplicada `a nave? Como pode o centro de massa da nave ter uma acelera¸c˜ao diferente da acelera¸c˜ao grav´ıtica local? A nave consegue isto descartando parte da sua massa. Quando uma nave quer acelerar numa dada direc¸c˜ao, liga foguet˜oes que ejectam g´ as a alta velocidade na direc¸c˜ao oposta. Estando o conjunto inicialmente parado (~vcm = 0), se uma massa m de g´as for ejectada com uma velocidade ~u, o momento linear do sistema, p~sist = (m~u + M~v ) = (m + M )~vcm , continuar´ a a ser nulo (M ´e massa da nave j´a sem o g´as ejectado). Portanto M~v + m~u = 0, em que ~v ´e a velocidade da nave. Assim,
~v = −
m ~u. M
Mesmo que a nave ejecte uma frac¸c˜ao pequena da sua massa total, m ≪ M , a velocidade que adquire pode ser apreci´ avel porque a velocidade de ejec¸c˜ao do g´as ´e muito alta.
ET V 7 : uma esfera de massa m = 30 g e velocidade v = 50 m s−1
desintegra-se em voo em dois fragmentos. Um deles, de massa m = 30 g, tem uma velocidade v1 = 20 m s−1 segundo um ˆangulo de 30º com a direc¸ca˜o original de movimento da esfera. a) Qual ´e o m´odulo da velocidade do segundo fragmento e que angulo faz com a direc¸ca˜o da velocidade original da esfera? ˆ b) Qual foi a varia¸ca˜o da energia cin´etica do sistema?
7.2. ENERGIA E CENTRO DE MASSA
7.2 7.2.1
19
Energia e centro de massa Energia potencial grav´ıtica
Qual ´e a energia potencial grav´ıtica de um corpo de forma arbitr´ aria ` a superf´ıcie da Terra? Usando como direc¸c˜ ao vertical ascendente a do eixo Oz, estamos habituados a escrever, Ep = mgz. Que valor de z devemos usar se se tratar de um corpo com muitas part´ıculas (como s˜ ao todos)? Representando o corpo como um sistema de part´ıculas, parece natural somar as energias potenciais de cada part´ıcula: Ep = m1 gz1 + m2 gz2 + . . . = g (m1 z1 + m2 z2 + . . . ) . A soma m1 z1 + m2 z2 + . . . , n˜ ao ´e mais que a coordenada z do vector m1~r1 + m2~r2 + · · · = M~rcm . Ou seja, Ep = M gzcm em que M ´e a massa total do corpo e zcm a coordenada z do centro de massa. Em conclus˜ao, as express˜ oes que us´ amos anteriormente est˜ ao correctas, se a altura do corpo for entendida como sendo a altura do centro de massa.
7.2.2
Energia cin´ etica
Ser´ a que a energia cin´etica de um sistema de part´ıculas tem uma express˜ ao an´ aloga ` a da energia potencial, 1 2 ? Ec = M vcm 2 Um minuto de reflex˜ ao mostra que este resultado est´ a errado. Pensemos por exemplo nas experiˆencias de colis˜ oes entre dois carros ao longo de uma calha. Se lan¸carmos carros da mesma massa m, com velocidades sim´etricas, ~v e −~v , um contra o outro, o momento linear total ´e p~sist = 2m~vcm = m~v + m (−~v ) = 0.
20
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
Determina¸ c˜ ao de centros de massa pelo m´ etodo da suspens˜ ao. Quando suspendemos um s´olido r´ıgido num ponto em torno do qual pode rodar livremente, a posi¸ca˜o de equil´ıbrio do centro de massa fica na vertical do ponto de suspens˜ ao. Nessa configura¸ca˜o a altura do centro de massa, zcm , ´e a menor poss´ıvel compat´ıvel com o ponto de suspens˜ ao. Logo a energia potencial grav´ıtica, Ep = M gzcm , ´e m´ınima. Se deslocarmos o corpo dessa posi¸ca˜o e o largarmos, ele oscilar´a em torno dessa configura¸ca˜o, at´e que a energia que fornecemos ao desloc´ a-lo se dissipar. Este resultado permite uma determina¸ca˜o muito expedita da posi¸ca˜o do centro de massa de formas planares (uma placa de metal ou madeira, por exemplo). Se suspendermos o corpo por dois pontos distintos e tra¸carmos as verticais que passam pelos dois pontos de suspens˜ ao o centro de massa encontra-se no cruzamento das duas linhas.
Centro de massa 11 00 00 11 00 11 00 11 00 11 00 11 00 11 00 11 00 11
1111 0000 0000 1111 0000 1111 0000 1111 0000 1111 0000 1111 0000 1111 0000 1111 0000 1111
M´ etodo de determina¸ca ˜o de centro de massa.
Caixa 7.2: Determina¸c˜ao de centros de massa
7.2. ENERGIA E CENTRO DE MASSA
21
2 /2 = 0. Contudo, a energia cin´ etica do Logo, ~vcm = 0 e M vcm sistema dos dois carros ´e
1 1 Ec = mv 2 + mv 2 = mv 2 . 2 2 Que rela¸c˜ ao existe ent˜ ao entre a energia cin´etica total e 1 2 M vcm ? 2 Podemos sempre decompor a velocidade de cada part´ıcula num termo igual ` a velocidade do centro de massa e um segundo termo que ´e a diferen¸ca entre a velocidade da part´ıcula e a do centro de massa: ~v1 = ~vcm + ~u1 ~v2 = ~vcm + ~u2 .. .
(7.5)
As velocidades ~u1 = ~v1 − ~vcm e ~u2 = ~v2 − ~vcm , s˜ ao as velocidades das part´ıculas num referencial em que a origem coincide com a posi¸c˜ao do centro de massa (ver Caixa 7.3, na p´ agina 23). ´ poss´ıvel mostrar que a soma das energias cin´eticas de toda as E part´ıculas, m1 v12 /2 + m2 v22 /2 + . . . , tem a forma3 : 1 2 + Ec′ Ec = M vcm 2 etica de movimento relativo ao em que Ec′ , a energia cin´ centro de massa, tem a express˜ ao: Ec′ =
1 1 m1 u21 + m2 u22 + . . . 2 2
O termo dependente da velocidade do centro de massa ´e designado por energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao. A separa¸c˜ ao destes dois termos n˜ ao ´e apenas uma quest˜ao de conveniˆencia. Como vimos, se n˜ ao houver for¸cas externas, a velocidade do centro de massa n˜ ao varia. Logo a energia cin´ etica total de transla¸ c˜ ao de um sistema conserva-se em qualquer interac¸ c˜ ao, na ausˆencia de for¸cas externas. Esta lei ´e ali´as uma 3
Este assunto ser´ a abordado de novo quando discutirmos as rela¸c˜ oes entre grandezas em referenciais em movimento relativo.
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
22
simples consequˆencia da lei de conserva¸c˜ao de momento linear j´a que, como p~sist = M~vcm , P2 1 2 M vcm = . 2 2M Mas as leis de Newton n˜ ao colocam qualquer restri¸c˜ao `a energia cin´etica de movimento relativo, que pode variar como resultado das interac¸c˜ oes entre as part´ıculas do sistema.
7.2.3
Energia cin´ etica em colis˜ oes
O que ´ e uma colis˜ ao? Um carro choca contra outro; isso ´e uma colis˜ ao. Uma bola de bilhar bate noutra e p˜ oe-na em movimento, desviando-se da sua direc¸c˜ ao original de movimento: outra colis˜ ao. Na actividade 7.2 estud´amos tamb´em colis˜ oes entre carrinhos. Nos t´ uneis do CERN, aceleram-se part´ıculas a velocidades pr´ oximas da luz, dirigem-se umas contra as outras em “zonas de interac¸c˜ao” e observam-se os resultados dessas colis˜ oes de alta energia. Reflectindo sobre estas situa¸c˜oes, chega-se `a conclus˜ao que o que caracteriza estes processos de interac¸c˜ao ´e a existˆencia de um “antes” e um “depois”cuja descri¸c˜ao ´e relativamente simples. “Antes” dois ou mais objectos est˜ ao separados e movimentam-se sem interagir uns com os outros; “durante” surgem for¸cas entre os objectos em interac¸c˜ ao, devido `a sua aproxima¸c˜ao, e algo que pode ser muito complicado acontece; “depois” os mesmo objectos, ou reagrupamentos dos originais, afastam-se deixando, de novo, de estar em interac¸c˜ ao. Se ignorarmos as for¸cas externas ao sistema de objectos em interac¸c˜ ao, a energia total do sistema, quer antes quer depois da colis˜ ao, ter´ a a forma, E = Ec + U, em que: 2 /2 + E ′ ´ etica total; Ec = M vcm c e a energia cin´
U ´e a soma das energias internas dos objectos em colis˜ oes.
Repare-se que, se quis´essemos considerar os estados do sistema “durante” a colis˜ ao, ter´ıamos que incluir a energia potencial da interac¸c˜ ao entre eles.
23
7.2. ENERGIA E CENTRO DE MASSA
Velocidade relativa Consideremos duas part´ıculas com movimentos arbitr´arios, com vectores de posi¸ca˜o ~r1 (t) e ~r2 (t). O vector ~r1 (t) − ~r2 (t) liga a posi¸ca˜o da part´ıcula 2 ` a da part´ıcula 1; ´e o vector de posi¸ca˜o da part´ıcula 1 para uma origem coincidente com a part´ıcula 2. Por outro lado, ~v1 − ~v2 =
d d d ~r1 (t) − ~r2 (t) = (~r1 (t) − ~r2 (t)) dt dt dt
Isto significa que ~v1 − ~v2 ´e a velocidade da part´ıcula 1 relativamente ` a part´ıcula 2. Ou seja a velocidade da part´ıcula 1 num referencial em que a origem coincide com a posi¸ca˜o da part´ıcula 2.
1 r1
r1−r2
2 r2
O vector ~r1 − ~r2 liga a posi¸c˜ ao da part´ıcula 2 ` a da part´ıcula 1.
Caixa 7.3: Velocidade relativa de duas part´ıculas.
24
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
A conserva¸c˜ ao de energia de um sistema isolado ´e uma lei universal, v´alida para todas as interac¸c˜oes. Por isso podemos afirmar com seguran¸ca: 1 1 2 ′ 2 ′ M vcm + Ec + U = M vcm + Ec + U 2 2 antes depois Por outro lado, j´a vimos que a energia cin´etica de transla¸c˜ao ´e constante (n˜ ao apenas igual antes e depois, mas tamb´em durante). Ent˜ ao Ec′ + U antes = Ec′ + U depois . Coeficiente de restitui¸ c˜ ao Define-se o coeficiente de restitui¸ c˜ ao de uma colis˜ ao, e, pela equa¸c˜ ao: (Ec′ )depois (7.6) e2 ≡ (Ec′ )antes em que Ec′ ´e a energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa. Para uma colis˜ ao el´ astica (Ec′ )depois = (Ec′ )antes e e = 1. Nestas colis˜ oes h´ a conserva¸c˜ao da energia cin´etica macrosc´opica. Se houver dissipa¸c˜ao de energia, (Ec′ )depois < (Ec′ )antes e e < 1: a colis˜ ao diz-se inel´ astica. A m´ axima dissipa¸c˜ao de energia mecˆ anica ocorre se e = 0, que corresponde a (Ec′ )depois = 0. Isso implica que ~u1 = ~u2 = · · · = 0, ou seja, todas as part´ıculas se deslocam com a mesma velocidade que o centro de massa: no caso da colis˜ ao dos dois carros ´e o que acontece se estes se deslocarem juntos ap´ os a colis˜ ao. Naturalmente, esta diminui¸c˜ao de energia cin´etica macrosc´opica ´e compensada por um aumento da energia interna dos corpos que colidem. Esse aumento pode manifestar-se, por exemplo, por uma deforma¸ca˜o de estrutura ou por um aumento de temperatura. Repare-se, contudo, que se ~vcm 6= 0, a energia cin´etica n˜ ao pode ser totalmente dissipada. A energia cin´etica de transla¸c˜ao conserva-se, tal como o momento linear total.
Colis˜ oes entre duas part´ıculas ´ frequente encontrar em livros de texto uma defini¸c˜ao de coefiE ciente de restitui¸c˜ao aparentemente diferente da que foi dada acima
25
7.2. ENERGIA E CENTRO DE MASSA
na equa¸c˜ ao 7.6. Numa colis˜ ao entre dois corpos de velocidades ~v1 e v~2 define-se: k~v1 − ~v2 kdepois (7.7) e= k~v1 − ~v2 kantes Note-se que ~v1 − ~v2 ´e a velocidade da part´ıcula 1 relativamente `a part´ıcula 2. Por isso k~v1 − ~v2 kantes ´e a velocidade de aproxima¸c˜ao das duas part´ıculas e k~v1 − ~v2 kdepois a velocidade de afastamento. Esta defini¸c˜ ao n˜ ao evidencia imediatamente a rela¸c˜ao entre o coeficiente de restitui¸c˜ ao e a dissipa¸c˜ ao de energia mecˆ anica. Contudo, ela ´e exactamente equivalente ` a defini¸c˜ao da equa¸c˜ao 7.6. Para os curiosos segue-se a demonstra¸c˜ ao. Recordemos a defini¸c˜ ao das velocidades relativas ao centro massa ~v1 = ~vcm + ~u1 ~v2 = ~vcm + ~u2 . .. .
(7.8)
Como m1~v1 + m2~v2 = (m1 + m2 )~vcm , temos que ter a seguinte rela¸c˜ ao entre ~u1 e ~u2 , as velocidades de cada part´ıcula relativamente ao centro de massa: m1 ~u1 + m2 ~u2 = 0. Isto permite-nos exprimir ~u2 em termos de ~u1 : ~u2 = −
m1 ~u1 . m2
Com esta rela¸c˜ ao, a energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa pode exprimir-se na forma: 1 1 1 m1 ′ 2 2 2 Ec = m1 u1 + m2 u2 = m1 u1 1 + 2 2 2 m2 Como as massas n˜ ao variam, antes e depois da colis˜ ao, obtemos 2
e =
(Ec′ )depois (Ec′ )antes
=
(u1 )2depois (u1 )2antes
o que d´ a e=
(u1 )depois (u1 )antes
,
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
26
(u1 = k~u1 k). Por outro lado, como ~v1 − ~v2 = ~u1 − ~u2 = ~u1
m1 1+ m2
,
vem e=
(u1 )depois (u1 )antes
1 1+ m k~v1 − ~v2 kdepois m2 (u1 )depois = = . k~v1 − ~v2 kantes 1 (u ) 1+ m 1 antes m2
Esta segunda defini¸c˜ao permite, em geral, um c´alculo mais expedito do coeficiente de restitui¸c˜ao.
ET V 8 : Na ET V 2 , da sec¸c˜ao 7.1.1, descreve-se uma colis˜ ao em que um carro de massa m colide com outro com massa 2m, inicialmente em repouso. O primeiro carro fica parado ap´ os a colis˜ ao. Qual ´e o coeficiente de restitui¸c˜ao desta colis˜ ao? Nota: Fazer o c´alculo usando as duas defini¸c˜oes dadas no texto, eqs. 7.6 e 7.7.
Colis˜ ao com estrutura fixa A colis˜ ao de um proj´ectil com uma estrutura fixa, como uma parede, pode ser inclu´ıda na discuss˜ao anterior do seguinte modo. Uma estrutura fixa funciona como um corpo de massa M muito superior ` a massa m do proj´ectil e com velocidade inicial nula. O proj´ectil incide com um velocidade ~vi e emerge da colis˜ ao com um velocidade ~vf ; a velocidade final ´e menor ou igual que a inicial, a n˜ ao ser que haja uma aumento de energia cin´etica (uma explos˜ao, por exemplo). A varia¸c˜ao de quantidade de movimento tem, ent˜ao, um m´ odulo da ordem de grandeza de mvi . Por conserva¸c˜ao de momento, o momento final da estrutura, M v2 , ´e da ordem de mvi . Como M ≫ m, a velocidade da estrutura ´e muito menor que vi : m vi ≪ vi . v2 ∼ M A velocidade do centro de massa tamb´em ´e muito menor que vi : vcm =
m m vi ∼ vi M +m M
˜ 7.3. CONCLUSOES
27
At´e aqui nada de supreendente: n˜ ao esperamos que uma bola de t´enis, lan¸cada contra um parede a 1 m s−1 , lhe comunique uma velocidade percept´ıvel. Mas note-se que o momento da estrutura n˜ ao ´ e desprez´ avel em rela¸ c˜ ao ao do proj´ ectil: ´e da mesma ordem de grandeza. Ao contr´ ario, a energia cin´etica da estrutura ser´ a da ordem 1 m 2 2 m 1 1 vi = M v22 ∼ M mv 2 , 2 2 M M 2 i ou seja, um factor m/M menor que a energia cin´etica t´ıpica do proj´ectil. O mesmo acontece com a energia cin´etica de transla¸c˜ao: 1 1 m 2 2 m 1 2 vi ∼ (M + m)vcm ∼ M mv 2 2 2 M M 2 i Assim, a energia cin´etica de movimento relativo ´e praticamente igual `a energia cin´etica do proj´ectil e vf2 mvf2 /2 Ef = 2, e = = Ei mvi2 /2 vi 2
O coeficiente de restitui¸c˜ ao ´e e=
vf . vi
Voltamos a obter a equivalˆencia das duas defini¸c˜oes de e: como a velocidade da estrutura ´e muito menor que a do proj´ectil a velocidade relativa ´e praticamente a velocidade do proj´ectil.
7.3
Conclus˜ oes
Neste cap´ıtulo introduzimos o conceito importante de momento linear de um sistema de part´ıculas: p~sist = m1~v1 + m2~v2 + . . . .
(7.9)
Em virtude da terceira lei de Newton, esta grandeza ´e constante se as for¸cas externas tiverem resultante nula. A sua derivada temporal ´e precisamente a resultante das for¸cas externas: d~ psist ~ext . =F dt
(7.10)
A partir desta grandeza definimos uma velocidade global para um sistema de part´ıculas, p~sist , ~vcm = M
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
28
cuja varia¸c˜ ao satisfaz a segunda lei de Newton com as for¸cas externas apenas, d~vcm = F~ext . M dt Estes resultados justificam o sucesso do modelo de part´ıcula material no estudo de corpos extensos: a velocidade de um corpo ´e a velocidade do seu centro de massa e para calcular a respectiva acelera¸c˜ ao n˜ ao precisamos de considerar as for¸cas internas. Claro que este processo s´ o nos d´ a o movimento global do corpo, caracterizado pelo deslocamento do centro de massa. O movimento de transla¸c˜ao de um sistema, caracterizado por ~vcm , 2 /2. Mas tem uma energia cin´etica de transla¸c˜ao associada, M vcm a energia cin´etica de um sistema de part´ıculas tem tamb´em uma componente de movimento relativo ao centro de massa, que, ao contr´ ario da energia de transla¸c˜ao, pode variar mesmo na ausˆencia de for¸cas externas.
7.4
Respostas aos ET V ′ s
7.1. O momento total ´e ~psist = mv0ˆı pois um dos carros tem velocidade nula antes da colis˜ao.
(a) Se um carro fica parado, o outro, que tem a mesma massa, tem que ter a velocidade v0ˆı para que o momento linear antes e depois da colis˜ao seja o mesmo.
(b) Se os dois carros se movem com a mesma velocidade, vˆı, o momento total ´e 2mvˆı. Como o momento se conserva na colis˜ao: 2mvˆı = mv0ˆı, ou seja v=
v0 . 2
7.2. O momento total ´e, novamente, p~sist = mv0ˆı, em que v0ˆı ´e a velocidade do primeiro carro antes da colis˜ao.
(a) Ap´os a colis˜ao o carro com massa 2m move-se com velocidade vˆı e o outro est´ a parado. O momento linear ´e 2mvˆı. Como o momento antes e depois da colis˜ao ´e o mesmo, 2mvˆı = mv0ˆı,
7.4. RESPOSTAS AOS ET V ′ S
29
ou v=
v0 . 2
(b) A energia cin´etica antes da colis˜ao ´e (Ec )a =
1 mv 2 2 0
e ap´os (Ec )d =
v 2 (Ec )a 1 1 0 = (2m)v 2 = (2m) . 2 2 2 2
Esta colis˜ao n˜ ao conserva a energia cin´etica: metade foi dissipada em formas microsc´opicas de energia.
7.3. Por um lado, ~psist = mv0ˆı; como a massa total ´e 2m e ~psist = 2m~vcm temos, antes ou depois da colis˜ao, ~vcm =
v0 ˆı. 2
7.4. A massa at´omica do oxig´enio ´e 16,0 u.m.a. Logo a massa de uma mol´ecula de O2 ´e 32/(6,02 × 1023 ) = 5,3 × 10−23 g. A massa de todos os electr˜oes ´e 16 × me = 16 × 0,91 × 10−30 = 14,6 × 10−30 kg. A raz˜ ao massa dos electr˜oes/massa da mol´ecula ´e 2,8 × 10−4 .
7.5. Usando um sistema de eixos com origem no centro do Sol e eixo Ox a passar no centro da Terra temos: (S) ~rcm = 0;
(T ) ~rcm = r0ˆı,
em que r0 = 1,5 × 1011 m ´e o raio da ´orbita da Terra. Assim, (M⊙ + MT )~rcm = MT r0ˆı. A distˆancia do centro de massa do sistema Terra–Sol ao centro do Sol ´e MT k~rcm k = × r0 = 4,5 × 105 m. M⊙ + MT O raio do Sol por sua vez, ´e 6,96 × 108 m, ou seja cerca de 1500 vezes superior a k~rcm k.
7.6. N˜ao. O centro de massa tem um movimento circular centrado num ponto da barra fixa a uma distˆancia da extremidade articulada de cerca de 1/4 do comprimento da barra. Se a for¸ca externa fosse nula, o movimento do centro de massa teria que ser uniforme e rectil´ıneo (acelera¸ca˜o nula).
7.7. Escolhendo o eixo Ox com a direc¸ca˜o e sentido da velocidade da esfera antes da desintegra¸ca˜o (fig. 7.11): p~sist = 0,03 × 50ˆı = 1,5ˆı (kg m s−1 ).
v1 v
300 θ x v2
Figura 7.11: Qual ´e velocidade do segundo fragmento?
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
30
(a) A conserva¸ca˜o de momento implica: m1 v1 cos(30º) + m2 v2 cos θ m1 v1 sen(300 ) − m2 v2 sen θ
= =
1,5 0.
Assim: v2 cos θ
=
v2 sen θ
=
√ 1,5 − 0,02 × 30 × 3/2 = 98 m s−1 0,01 0,02 × 30 × 1/2 = 30 m s−1 0,01
Destas equa¸co˜es tiramos: tan θ
=
v2
=
30 ⇒ θ = 170 , 98 p 982 + 302 = 102 m s−1 .
(b) Conhecidas as velocidades de todos os fragmentos, antes e depois da colis˜ao, ´e f´acil calcular: (Ec )a
=
37,5 J,
(Ec )d
=
61 J.
A energia cin´etica aumentou de (Ec )d − (Ec )a = 23,5 J. A energia interna da esfera diminui do mesmo valor.
7.8. Antes da colis˜ao as velocidades s˜ao: ~v1
= v0ˆı
~v2
= 0.
~v1
=
~v2
=
Depois da colis˜ao: 0 v0 ˆı. 2
A velocidade do centro de massa ´e ~vcm =
v0 1 × mv0ˆı = ˆı. 3m 3
Antes da colis˜ao, ~v1 − ~v2 = v0ˆı; depois, ~v1 − ~v2 = −
v0 ˆı. 2
Logo e=
k~v1 − ~v2 kdepois k~v1 − ~v2 kantes
=
1 v0 /2 = . v0 2
˜ 7.5. ACTIVIDADES QUESTOES E PROBLEMAS
31
Para usar a defini¸ca˜o em termos de energia cin´etica, temos que calcular ~u1 e ~u2 . Antes da colis˜ao, ~u1 ~u2
2v0 v0 ˆı = ˆı 3 3 v0 v0 ˆı = − ˆı; = 0− 3 3
=
v0 −
depois ~u1
=
~u2
=
v0 v0 ˆı = − ˆı 0− 3 v 3v v0 0 0 ˆı = ˆı; − 2 3 6
A energia cin´etica, (Ec′ )antes
=
(Ec′ )depois
=
2 v 2 1 mv02 1 2v0 0 + (2m) = m 2 3 2 3 3 2 2 2 1 1 mv0 v0 v0 + (2m) = m . 2 3 2 6 12
O coeficiente de restitui¸ca˜o ´e dado por e2 =
1 4
e obtemos o mesmo resultado, e = 0,5.
7.5
Actividades quest˜ oes e problemas
7.5.1
Actividades
7.1. M´ etodo de suspens˜ ao para determina¸ c˜ ao de centros de massa. Usando o m´etodo indicado na caixa 7.2 da p´ agina 20 determinar a posi¸c˜ ao do centro de massa de uma raqueta de t´enis. 7.2. Colis˜ oes entre carros de massas variadas em calha linear. Ver ficha de Actividade A44.
7.5.2
Quest˜ oes
7.1. Ao disparar uma arma, o atirador sente um “coice” (recuo) da arma. Porquˆe?
32
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
7.2. Dois astronautas est˜ ao juntos, parados no espa¸co, a dez metros de distˆ ancia da respectiva nave. Se um dos astronautas puder chegar `a nave, pode salvar o outro recorrendo aos foguetes da nave. Contudo, os astronautas n˜ ao disp˜oem de qualquer modo de propuls˜ao, pelo que n˜ ao podem mudar a posi¸c˜ ao do respectivo centro de massa em rela¸c˜ao `a nave. Como se podem salvar?
CM?
7.3. Para ganhar um pr´emio numa feira, um rapaz tem que derrubar um tijolo, atirando-lhe uma bola. Disp˜ oe de bolas de t´enis e de plasticina com massas iguais. O rapaz sabe que a bola de plasticina provavelmente ficar´ a colada ao tijolo e que a de t´enis far´a ricochete. Qual das bolas deve escolher? Justificar. 7.4. Onde est´ a o centro de massa de um anel homog´eneo?
Figura 7.12: Onde est´ ao centro de massa do anel?
7.5. Suponhamos que recortamos uma forma arbitr´aria de cartolina e que a fixamos com um pion´es a um quadro de corticite. Se o ponto de fixa¸c˜ao estiver um pouco solto a cartolina poder´ a rodar em torno do pion´es. Em geral ter´ a uma configura¸c˜ ao de equil´ıbrio u ´ nica e, se rodada dessa posi¸ca˜o, oscilar´ a. S´ o h´ a um ponto de fixa¸c˜ao para o qual isso n˜ ao acontece. (a) Que ponto ´e esse? (b) Por que ´e que a cartolina n˜ ao oscila, se estiver fixa nesse ponto? (c) Como pode ser determinado esse ponto? 7.6. Quais das seguintes grandezas s˜ ao conservadas numa colis˜ ao (mesmo valor antes e depois da interac¸c˜ao):
Figura 7.13: S´ o h´ a um ponto de fixa¸ca˜o para o qual a cartolina n˜ ao oscila.
(a) momento linear de cada part´ıcula; (b) momento linear total; (c) energia total; (d) energia cin´etica de transla¸c˜ao; (e) energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa. 7.7. Quais das seguintes grandezas s˜ ao conservadas numa colis˜ ao el´ astica: (a) momento linear de cada part´ıcula;
˜ 7.5. ACTIVIDADES QUESTOES E PROBLEMAS
33
(b) momento linear total; (c) energia total; (d) energia cin´etica de transla¸c˜ao; (e) energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa. 7.8. Quais das seguintes grandezas s˜ ao constantes tamb´em durante o processo de interac¸c˜ao de uma colis˜ ao el´ astica: (a) momento linear de cada part´ıcula; (b) momento linear total; (c) energia total; (d) energia cin´etica de transla¸c˜ao; (e) energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa. 7.9. As colis˜ oes entre autom´ oveis s˜ ao praticamente perfeitamente inel´ asticas. A energia cin´etica de movimento relativo ´e totalmente transformada em energia de deforma¸c˜ao das estruturas dos autom´ oveis e dos seus ocupantes. Considerem-se as duas seguintes situa¸c˜ oes: (i) Um carro com velocidade de 100 km h−1 colide com um carro idˆentico, inicialmente parado. (ii) Os dois carros movem-se, cada um em direc¸c˜ao ao outro, com velocidades de 50 km h−1 . (a) Em qual das situa¸c˜ oes ´e maior a energia cin´etica do sistema dos dois carros? (b) Qual das colis˜ oes causa mais danos nos dois ve´ıculos? Ou s˜ ao equivalentes a esse respeito? 7.10. Quais s˜ ao as unidades do coeficiente de restitui¸c˜ao? 7.11. A figura 7.14 ´e um esbo¸co de uma colis˜ ao entre dois autom´ oveis. A Pol´ıcia conseguiu estabelecer os seguintes factos: (a) O carro vindo de A viajava a 50 km h−1 . A sua massa era de 1400 kg. (b) O carro vindo de B tinha uma massa de 1000 kg.
000000000000000000 111111111111111111 11111111 00000000 000000000000000000 111111111111111111 00000000 11111111 000000000000000000 111111111111111111 00000000 11111111 000000000000000000 111111111111111111 00000000 11111111 000000000000000000 111111111111111111 00000000 11111111 000000000000000000 111111111111111111 00000000 11111111 000000000000000000 θ 111111111111111111 00000000 11111111 111111111111111111 000000000000000000 00000000 11111111 000000000000000000 111111111111111111 00000000 11111111 000000000000000000 111111111111111111 00000000 11111111 A o 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 B 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111 00000000 11111111 000000000000000 111111111111111
Figura 7.14: Esbo¸co policial de uma colis˜ao entre dois autom´ oveis.
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
34
(c) O ˆ angulo θ da direc¸c˜ao comum dos dois carros ap´ os a colis˜ ao com a direc¸c˜ao inicial do carro vindo de B ´e inferior a 45º. O condutor do carro vindo de B afirma que n˜ ao viajava a mais de 60 km h−1 . A pol´ıcia afirma o contr´ ario. Pode prov´alo?
7.5.3
1111111 0000000 0000000 1111111
11111111 00000000 00000000 11111111 5m
10 m
7.1. A mol´ecula de Fluoreto de Hidrog´enio, HF , tem um comprimento de liga¸c˜ao (distˆ ancia entre os dois n´ ucleos) de d = ˚ 0,917 A. (a) Determine a posi¸c˜ao do centro de massa relativamente aos dois n´ ucleos. (b) Se a mol´ecula contiver um dos is´ otopos do hidrog´enio, deut´erio ou tr´ıtio, em que o n´ ucleo do hidrog´enio tem um ou dois neutr˜oes, al´em do prot˜ ao, a posi¸c˜ao do centro de massa da mol´ecula varia?
(b)
(a)
Problemas
Figura 7.15: Qual ´e varia¸ca˜o de energia potencial grav´ıtica da corrente?
7.2. A corrente da figura 7.15 tem uma massa total de 10 kg. Qual ´e a varia¸c˜ao de energia potencial grav´ıtica entre a configura¸c˜ ao (a), corrente estendida e (b), corrente dobrada? 7.3. Uma pessoa de 70 kg cai de uma altura de 1 m. (a) Se ap´ os o contacto com o solo o seu centro de massa demorar 0,1 s a parar, qual ´e o valor da for¸ca m´edia exercida pelo solo nos seus p´es, desde o in´ıcio do contacto at´e ` a paragem do centro de massa? (b) Quanto vale essa for¸ca se a pessoa, flectindo as pernas, aumentar o tempo de paragem para 0,5 s?
10 cm
40 cm 10 cm
30 cm
Figura 7.16: Onde est´ ao centro de massa deste ”L”?
7.4. O corpo da figura 7.16 ´e homog´eneo. Determinar a posi¸c˜ao do respectivo centro de massa. Nota: Pode ser considerado como constitu´ıdo por dois rectˆ angulos. 7.5. Numa das colis˜ oes realizadas na Actividade A7 um dos carros est´ a inicialmente parado e o outro tem uma velocidade inicial de 0,5 m s−1 . A massa de cada carro ´e m = 0,250 kg. Os carros movem-se em conjunto ap´ os a colis˜ ao.
˜ 7.5. ACTIVIDADES QUESTOES E PROBLEMAS
35
(a) Qual ´e a velocidade do centro de massa? (b) Qual ´e a energia cin´etica de transla¸c˜ao antes da colis˜ ao? (c) Qual ´e a energia cin´etica de transla¸c˜ao ap´ os a colis˜ ao? (d) Qual ´e a energia de movimento relativo ao centro de massa ap´ os a colis˜ ao? (e) Que percentagem da energia cin´etica inicial se dissipou na colis˜ ao? 7.6. Um rev´olver dispara proj´ecteis de massa m = 7,4 g com uma velocidade de sa´ıda da arma de 303 m s−1 . O comprimento do cano ´e cerca de 10 cm e a arma tem uma massa de cerca de 600 g. (a) Qual ´e o valor do impulso exercido pela arma sobre o proj´ectil? (b) Qual ´e a velocidade de recuo da arma? (c) Se pud´essemos considerar que o movimento do proj´ectil no cano ´e uniformemente acelerado, qual seria o valor da for¸ca exercida pelo proj´ectil na arma? 7.7. A FIFA estabelece, nos testes a bolas de futebol, que uma bola, ca´ındo de uma altura de 2 m sobre uma placa de a¸co, deve ressaltar a uma altura entre 1,20 m e 1,65 m. (a) Que valores do coeficiente de restitui¸c˜ao correspondem a estas alturas de ressalto?
y 2 2
(b) Num segundo ressalto a que altura subiria uma bola que ressaltou a 1,65 de altura?
θ θ
x
1
Nota: Ignorar a resistˆencia do ar. 7.8. Duas part´ıculas com a mesma massa e velocidades com igual m´ odulo, v, colidem segundo um ˆangulo de π/2 (90 º). Ap´os a colis˜ ao continuam a ter velocidades iguais em m´ odulo, v ′ , mas o ˆ angulo entre elas ´e de 2θ (ver fig. 7.17). a) Qual ´e a direc¸c˜ ao do vector p~sist , momento linear total? b) Mostrar que:
√ v′ 2 = . v 2 cos θ
c) Mostrar que o coeficiente de restitui¸c˜ao ´e e = tan θ.
1
Figura 7.17: Colis˜ ao entre duas part´ıculas de igual massa
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
36
d) Que interpreta¸c˜oes se podem dar ao facto de i) e > 1, se θ > π/4. ii) e → ∞ se θ → π/2.
1111 0000 1111 0000
11111111111111111111111111111 00000000000000000000000000000
7.9. Uma esfera de massa 500 g est´ a pousada num suporte de 1 m ´ atingida por uma bala de massa m = 10 g, com de altura. E velocidade horizontal, que fica incrustada na esfera. A velocidade da esfera ´e horizontal, imediatamente ap´ os a colis˜ ao e ela atinge o solo a 6 metros na horizontal do suporte (ver fig. 7.18).
Figura 7.18: Qual ´e a velocidade da bala?
(a) Quanto vale o coeficiente de restitui¸c˜ao desta colis˜ ao? (b) Quanto tempo demora a esfera a atingir o solo? (c) Qual era a velocidade da bala? 7.10. Um corpo de massa m e velocidade v0ˆı colide com um corpo de massa 2m, inicialmente parado. A colis˜ ao ´e frontal e as velocidades, ap´ os a colis˜ ao, s˜ ao v1ˆı e v2ˆı. A colis˜ ao ´e el´astica. (a) Mostrar que as velocidades ap´ os a colis˜ ao satisfazem as equa¸c˜oes v1 + 2v2 = v0 v12 + 2v22 = v02 . (b) Resolver estas equa¸c˜oes (sugere-se quadrar a primeira) e determinar v1 e v2 . (c) Se a colis˜ ao fosse perfeitamente inel´ astica, a velocidade da part´ıcula de massa 2m, ap´ os a colis˜ ao seria maior ou menor? 7.11. Resolver o problema anterior trocando as massas: supondo que o corpo com velocidade inicial v0 tem a maior massa, 2m.
7.5.4
Desafios
7.1. Um esfera cai de uma altura h, com velocidade inicial nula, sobre uma placa de a¸co. A colis˜ ao tem um coeficiente de restitui¸c˜ ao e < 1.
˜ 7.5. ACTIVIDADES QUESTOES E PROBLEMAS
37
(a) Mostre que o intervalo de tempo entre a colis˜ ao n e n + 1, Tn , ´e dado pela express˜ ao: Tn = 2T0 en . em que T0 ´e o tempo que a esfera demora a cair a primeira vez. (b) Mostre que o tempo total que decorre desde que a esfera cai at´e ` a colis˜ ao de ordem N , no limite em que N → ∞, ´e finito e vale 1+e . T = T0 1−e
(c) Seria poss´ıvel medir um coeficiente de restitui¸c˜ao usando apenas um cron´ ometro?
38
CAP´ITULO 7. SISTEMAS DE PART´ICULAS
Conte´ udo Ficha T´ecnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Sistemas de part´ıculas 7.1
2 5
Momento linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
6
7.1.1
Colis˜ ao de dois carros . . . . . . . . . . . .
6
7.1.2
Conserva¸c˜ ao de momento linear . . . . . . .
8
7.1.3
Momento linear e impulso . . . . . . . . . .
10
7.1.4
Momento linear e velocidade do centro de massa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
11
7.1.5
O centro de massa . . . . . . . . . . . . . .
12
7.1.6
Determina¸c˜ ao de centros de massa . . . . .
14
7.1.7
Propuls˜ ao de foguet˜oes . . . . . . . . . . . .
17
Energia e centro de massa . . . . . . . . . . . . . .
19
7.2.1
Energia potencial grav´ıtica . . . . . . . . .
19
7.2.2
Energia cin´etica
. . . . . . . . . . . . . . .
19
7.2.3
Energia cin´etica em colis˜ oes . . . . . . . . .
22
7.3
Conclus˜oes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
27
7.4
Respostas aos ET V ′ s . . . . . . . . . . . . . . . . .
28
7.5
Actividades quest˜ oes e problemas . . . . . . . . . .
31
7.5.1
Actividades . . . . . . . . . . . . . . . . . .
31
7.5.2
Quest˜oes
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .
31
7.5.3
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
34
7.5.4
Desafios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
36
7.2
39